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UAB – UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL FUESPI – FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA LICENCIATURA PLENA EM LETRAS ESPANHOL LITERATURA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA Algemira de Macêdo Mendes Elio Ferreira de Souza Maria do Socorro Rios Magalhães Raimunda Celestina Mendes da Silva FUESPI 2013 Ficha elaborada pelo Serviço de Catalogação da Biblioteca Central da UESPI Nayla Kedma de Carvalho Santos (Bibliotecária) CRB 3/1188 Literatura e cultura afro-brasileira e indígena / Algemira de Macêdo Mendes, et al. - Teresina: FUESPI, 2014. 158 p. ISBN 978-85-8320-000-0 Material de apoio pedagógico ao Curso de Licenciatura Plena em Letras Espa- nhol do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Estadual do Piauí – NEAD / UESPI. 1. Literatura afrodescendente. 2. Literatura afrobrasileira 3. Cultura Indígena. I. Mendes, Algemira de Macêdo. II. Souza, Elio Ferreira de. III. Magalhães, Maria do Socorro Rios. IV. Silva, Raimunda Celestina Mendes da. CDD 801.95 M3941 Presidente da República Dilma Vana Rousseff Vice-presidente da República Michel Miguel Elias Temer Lulia Ministro da Educação José Henrique Paím Secretário de Educação a Distância Carlos Eduardo Bielschowsky Diretor de Educação a Distância CAPES/MEC Celso José da Costa Governador do Piauí Antonio José de Moraes Souza Filho Secretário Estadual de Educação e Cultura do Piauí Alano Dourado de Meneses Reitor da FUESPI – Fundação Universidade Estadual do Piauí Nouga Cardoso Batista Vice-reitora da FUESPI Bárbara Olímpia Ramos de Melo Pró-reitora de Ensino e Graduação – PREG Ailma do Nascimento Silva Coordenadora da UAB-FUESPI Margareth Torres de Alencar Costa Coordenadora Adjunta da UAB-FUESPI Naira Lopes Moura Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação – PROP Diógenes Buenos Aires de Carvalho Pró-reitor de Extensão, Assuntos Estudantis e Comunitários – PREX Luís Gonzaga Medeiros Figueredo Júnior Pró-reitor de Administração e Recursos Humanos – PRAD Geraldo Eduardo da Luz Junior Pró-reitor de Planejamento e Finanças – PROPLAN Benedito Ribeiro da Graça Neto Coordenadora do curso de Licenciatura Plena em Letras/ Espanhol – EAD Leiliane de Vasconcelos Silva Edição UAB - FNDE - CAPES FUESPI/NEAD Diretora do NEAD Márcia Percília Moura Parente Diretor Adjunto Raimundo Isídio de Sousa Coordenadora do Curso de Licenciatura Plena em Letras Espanhol Leiliane de Vasconcelos Silva Coordenadora de Tutoria José Cledinaldo dos Santos Coordenadora de Produção de Material Didático Silvana Maria Pantoja dos Santos Autores do Livro Algemira de Macedo Mendes Elio Ferreira de Sousa Maria do Socorro Rios Magalhães Raimunda Celestina Mendes da Silva Revisão Teresinha de Jesus Ferreira Feliciano José Bezerra Filho Diagramação Vilsselle Hallyne Bastos de Oliveira Capa Luiz Paulo de Araújo Freitas MATERIAL PARA FINS EDUCACIONAIS DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS CURSISTAS UAB/FUESPI UAB/FUESPI/NEAD NEAD/UESPI, Rua João Cabral, 2231, bairro Pirajá, Teresina (PI). CEP: 64002-150, Telefones: (86) 3213-5471 / 3213-1182 Web: ead.uespi.br E-mail:eaduespi@hotmail.com CONSELHO EDITORIAL Alfredo Adolfo Cordiviola (UFPE) Elio Ferreira de Souza (UESPI) Francisca Lúcia de Lima (UESPI) José Augusto de Carvalho Mendes Sobrinho (UFPI) José da Cruz Bispo de Miranda (UESPI) Lucirene da Silva Carvalho (UESPI) Margareth Torres de Alencar Costa (UESPI) Nize da Rocha Santos Paraguassu Martins (UESPI) Roselis Ribeiro Barbosa Machado (UESPI) Silvana Maria Pantoja dos Santos (UESPI/UEMA) SUMÁRIO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO À CULTURA E À LITERATURA AFRODESCENDENTE ...............8 1.1 Contributos da Cultura Africana.............................................................8 1.2 Introdução à Literatura Afrodescendente ............................................18 1.3 Precursores da Literatura Afro-brasileira ............................................22 1.3.1 Domingos Caldas Barbosa ...............................................................22 1.3.2 Luís Gonzaga Pinto da Gama ..........................................................31 1.3.3 Gonçalves Dias ................................................................................38 1.3.4 Maria Firmina dos Reis.....................................................................44 UNIDADE 2 2 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA PÓS-ABOLICIONISTA .................51 2.1 Cruz e Sousa .......................................................................................51 2.2 Lima Barreto ........................................................................................57 UNIDADE 3 3 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA ....................61 3.1 Negritude no Brasil entre as décadas de 1940 a 1960 ......................61 3.1.1 Autores representativos ....................................................................61 3.1.1.1 Solano Trindade ............................................................................61 3.1.1.2 Júlio Romão...................................................................................70 3.1.1.3 Carolina Maria de Jesus ................................................................75 3.2 Principais autores dos Cadernos Negros ............................................80 3.2.1 Conceição Evaristo...........................................................................81 3.2.2 Cuti (Luiz Silva) ................................................................................88 3.2.3 Elio Ferreira ......................................................................................95 3.2.4 Esmeralda Ribeiro ..........................................................................101 3.2.5 Mirian Alves ....................................................................................105 UNIDADE 4 4 CULTURA INDÍGENA E REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO NA LITERATU- RA BRASILEIRA .....................................................................................115 4.1 Os Indígenas Brasileiros e sua Cultura .............................................115 4.2 Representações do índio na literatura brasileira ...............................121 4.2.1 As primeiras imagens dos Índios na Literatura Brasileira..............121 4.2.2 O modernismo – a paródia do nacionalismo e do indianismo ........132 4.2.3 O índio na literatura brasileira contemporânea ............................. 136 REFERÊNCIAS .......................................................................................145 UNIDADE 1 INTRODUÇÃO À CULTURA E À LITERATURA AFRODESCENDENTE OBJETIVOS • Conceituar cultura afro-brasileira. • Identificar os principais precursores da literatura afro-brasileira e a im- portância de suas obras para a literatura nacional. • Analisar criticamente a produção literária dos escritores apresentados nesta unidade. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 10 1 INTRODUÇÃO À CULTURA E À LITERATURA AFRODESCENDENTE 1.1 Contributos da Cultura Africana Com o insucesso da escravização dos indígenas para atender o projeto de colonização, na colônia brasileira, Portugal tomou novas medidas, autorizando a importação de escravos da África para as plantações de cana-de-açúcar no Brasil. O negro escravo, tratado apenas como mercadoria, teve o seu aprendizado ao lado dos companheiros de senzala, o que lhes permitiu, de certa forma, preservar sua própria cultura, religião e arte. Assim, falar dessa contribuição africana na cultura brasileira é falar da construção da cultura brasileira, pois somos um país multicultural e como tal recebemos várias contribuições culturais de diversos povos. No entanto, os africanos que foram trazidos na condição de escravizados são os que deram afeição própria a nossa cultura ao lado da contribuição portuguesa, que nos legou, sobretudo, a língua e a religiosidade católica. Os índios, por sua vez, deixaram profundas marcas no nosso país, assim como os imigrantes europeus e orientais, que imprimiram seu modo de ser no pais que adotaram. Mas, o modo de ser, a religiosidade peculiar, o português africanizado tem sua base entre os povos africanos. Dessa forma, não se pode falar de contribuição e sim de base africana da cultura brasileira. ARTE AFRICANA A arte centrada em histórias, crenças, lendas e na filosofia africana, baseia-se principalmente em elementos da natureza, explora diversas possibilidades estéticas e materiais, integram ou complementam a arquitetura em obras bi e tridimensionais. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 11 Escultura doada ao Museu Afro Brasil, no dia da Consciência Negra. Autora: artista plástica Márcia Magno Para Silva e Calaça (2006,p.34), trata-se de uma arte que transmite ideias, conceitos e valores grupais, portanto o artista deve sugerir e não representar, isto é, revelar a essência presente nas formas. Afigura acima é uma réplica de 2,2 metros de altura daquela que se encontra na Praça da Sé, em Salvador – Bahia. Ela mostra Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, em posição de alerta, segurando um mukwale, arma de defesa, símbolo de poder, usada por importantes guerreiros africanos. O sagrado é marca constante na arte afrodescendente, pois o artista é “admirado, respeitado e temido por todos, porque está em contato com forças reprodutoras e reguladoras do universo”, nas palavras de Silva e Calaça (2006, p.35). Revelam e destacam nas máscaras e nos objetos, simbolismos que estabeleciam um elo com os ancestrais de onde provém toda energia sagrada, o Axé. Fonte:www.brasil.gov.br Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 12 Da relação com os orixás, resultou a confecção de muitos objetos: bandejas, cálices, cetros, máscaras, altares, figuras masculinas e femininas: LINGUAGEM Os africanos provinham de diferentes povos, foram praticamente obrigados a criar uma linguagem em comum para que pudessem se entender, influenciando o português do Brasil, principalmente no vocabulário relacionado à culinária e à religião, em palavras como caçula, cafuné, moleque, maxixe e samba, entre centenas de outros vocábulos. A RELIGIÃO As religiões chamadas afro-brasileiras surgiram durante o processo de colonização do Brasil, com a chegada dos escravos africanos. Os cultos afro-brasileiros surgiram da prática religiosa das tribos africanas. Por isso, cada uma tem a sua forma peculiar de chamar o nome de Deus, promover seus cultos, estruturar sua organização, celebrar seus rituais, contar sua história e expressar as suas concepções através dos símbolos. Fonte:www.brasil.gov.br FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 13 Os europeus, com o objetivo de catequizar o negro, promoveram uma grande mistura que resultou nas, hoje, chamadas religiões afro- brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, fruto da interrelação de culturas. Alguns povos bantos eram adeptos do candomblé e foram seus introdutores no país. Existem, hoje, poucas casas de candomblé puro no Brasil, concentradas principalmente na Bahia. Por outro lado, o candomblé de caboclo e a cabula, outra variante do candomblé, tornaram-se as raízes remotas da umbanda, o mais difundido culto afro-brasileiro, no Rio de Janeiro. Fonte:www.brasil.gov.br O sincretismo foi uma forma de defesa do negro que procurou, através de formas simbólicas, camuflar seus deuses para preservá-los da imposição da igreja católica, já que não puderam incorporar a religião negra à religião predominante. Muitas são as festas realizadas ao longo do ano pelos afro-descendentes, concomitantes aos festejos dos santos católicos. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 14 A Festa do Senhor do Bonfim, realizada em Salvador, na Bahia, no segundo domingo depois do Dia de Reis é muito popular na sociedade, misturam as heranças culturais dos escravos trazidos para o Brasil e as tradições religiosas dos colonizadores portugueses. As religiões afro-brasileiras foram se formando nas mais diversas regiões e estados brasileiros, por isso, elas adotam diferentes formas e rituais, diferentes versões de cultos. A fé nos orixás se misturou à fé nos santos católicos e o resultado disso tudo é o jeito brasileiro de praticar a religião. A MÚSICA E A DANÇA A música brasileira tem o ritmo e nomes, como chorinho ou samba, originados da cultura africana, por isso, se diz que a música popular brasileira nasceu na África. A raiz negra está em tudo: no samba, no pagode, no afoxé, nas festas folclóricas como a do maracatu. Além dos ritmos, os africanos trouxeram também instrumentos, como o berimbau, a cuíca e o atabaque. Afoxé Berimbau Agogô O samba era chamado pelos angolanos de semba. Esse gênero musical foi se transformando, ganhou novos instrumentos, chegou ao Rio de Janeiro e atualmente é característico de todas as regiões brasileiras. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 15 CAPOEIRA A capoeira, mistura de dança, luta e música, surgiu com os negros, que a utilizavam como arma de defesa. Durante a escravidão, reuniam-se em roda, após o trabalho, para cantar, dançar, jogar capoeira ou reverenciar com música os seus orixás. Batiam palmas, batucavam, reviviam suas tradições. Misturavam instrumentos musicais, dança e luta, “enganando” os Senhores de Engenho, que pensavam estarem eles apenas “dançando”. Fonte:www.beccufrj.wordpress.com Durante muito tempo, a capoeira sofreu repressão por parte das autoridades policiais e dos donos de engenho que perseguiam os escravos praticantes de capoeira, porque a atividade dava ao capoeirista um sentido de nacionalidade, individualidade e autoconfiança, formando grupos coesos e jogadores ágeis e perigosos e também porque, às vezes, no jogo, os escravos se machucavam, o que era economicamente indesejável. Um pouco depois do período escravocrata, alguns músicos negros, despontaram na música popular brasileira como pioneiros da chamada música popular brasileira: José Antônio da Silva Callado e Pixiguinha. Os artistas afro-brasileiros ganharam o seu espaço, muito tempo Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 16 depois, na década de 1930, sobretudo com a popularização do rádio, que fez com que as pessoas ouvissem mais os artistas negros. Artistas como Carmem Miranda divulgavam a música dos cantores negros, tirando-os do anonimato. Apesar de todas essas influências, foram poucos os artistas negros que conseguiram ter contratos assinados com gravadoras, até o final da década de 1950. Nos anos 1930, muitas composições sobre personagens negros eram racistas, como se observa na marchinha carnavalesca, de autoria de Lamartine Babo e dos irmãos Valença: “O teu cabelo não nega, mulata,/Porque és mulata na cor, Mas como a cor não pega, mulata, Mulata eu quero o teu amor.” Essa marchinha, que animou o carnaval de 1932, mostra-se, aparentemente, ingênua, mas apesar dessa ingenuidade, o preconceito aparece ao tratar negritude como doença: “como a cor não pega, mulata quero teu amor”. Cantores como Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola têm, atravésde suas composições, colaborado para que a força política do negro seja mais reconhecida. CULINÁRIA É impossível falar da influência dos africanos sem lembrar a herança que eles deixaram para a nossa alimentação. Acarajé, mungunzá, quibebe, farofa, vatapá são pratos originalmente usados como comidas de santo, ou seja, comidas que eram oferecidas às divindades religiosas cultuadas pelos negros. Hoje, porém, são dignos representantes da culinária brasileira. Contribuição na culinária FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 17 As negras africanas começaram a trabalhar nas cozinhas dos Senhores de Engenho e introduziram novas técnicas de preparo e tempero dos alimentos. Também adaptaram seus hábitos culinários aos ingredientes do Brasil. Assim, foram incorporados aos hábitos alimentares dos brasileiros o angu, o cuscuz, a pamonha e a feijoada, nascida nas senzalas e feita a partir das sobras de carnes das refeições que alimentavam os senhores; o uso do azeite de dendê, leite de coco, temperos e pimentas; e de panelas de barro e de colheres de pau. Os pratos vindos do continente africano foram reelaborados, recriados, no Brasil, com os elementos locais. O dendê trazido pelos portugueses para queimar em lamparinas e iluminar as noites escuras do novo continente logo foi parar na panela das mucamas. A presença dos negros nas senzalas fez com que eles preservassem sua própria cultura, pois, segundo Pinto (1993,p.14), no intercâmbio entre a casa-grande e as senzalas “geraram filhos mestiços, amamentaram os filhos dos brancos, incutindo-lhes uma indelével personalidade de negritude”. Esses fatos marcam a preocupação dos estudiosos em compreender como a questão cultural se estrutura no interior de uma sociedade, na medida em que novas formas de desenvolvimento surgem, novos tipos de organização são implantados. Nesse sentido, no Modernismo brasileiro, muitos elementos da cultura popular foram incorporados à poesia numa relação que sugere a valorização do caráter nacional, com o intuito de aproximar a população brasileira da maneira de se expressar nacionalmente, com o uso do material folclórico e ideológico dessa corrente estética que trazia no âmago, uma outra concepção de arte: Os temas populares e folclóricos que, pelo crescente impulso nacionalista, povoaram os textos de poetas modernistas, viriam a se retratar na literatura pelo aproveitamento do material verbal (provérbios, refrões, sentenças, onomatopeias) e dos básicos da tradição popular, a literatura oral dos cantos e danças e resíduos Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 18 dos cantos populares. (AVERBUCK, 1985,p.182-183) Para Averbuck, o uso da língua pelo seu tom coloquial e oral do cotidiano é transportado para o poema, atendendo ao projeto modernista reavivar a língua nacional, com a preocupação de entender as particularidades do Brasil, através da representação da memória cultural, não importando que seja de origem negra. O trecho do poema Caratateua, de Raul Bopp, evidencia a presença do negro, não só pelo conteúdo, mas pelo vocabulário expressivo, pela identificação da cerimônia de origem africana, o atabaque, como componente da cultura negra. Caratateua [...] Na praça. De tarde. Há batuque. Tambores. Domingo de Festa de São Benedito. O sol se mistura com um sorriso na alegria de Caratateua toda engravatada de bandeirola. (BOPP, Raul. In: AVERBUCK, op.cit.) O poema retrata a festa de São Benedito, santo católico negro, cultuado em várias cidades brasileiras, nesse caso, em uma praça pública, ou seja, com a participação da comunidade. A presença do batuque e tambores, instrumentos de percussão, símbolos da compleição dos negros, leva a crer que a festa não é do padroeiro católico e reforça o ritmo africano pelas frases curtas, do primeiro verso, marcando o ritmo da batida, reforçado pela aliteração das consoantes /t/, /d/ e /b/ e assonância da vogal /a/, sugerindo uma expressiva sonoridade dos tambores. O tambor e o batuques, no poema, reforçam não só o sentimento de festa e de alegria, mas representam a revolta e a resistência cultural do negro escravizado. Destacam-se no poema as imagens produzidas nos versos três e quatro com as figuras de linguagem prosopopeia e metonímia, FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 19 respectivamente, reforçando o clima de festa do sol com o sorriso dos brincantes e as bandeirolas que consolidam o cenário. 1.2 Introdução à Literatura Afrodescendente Na historiografia literária brasileira vários foram os temas abordados pelos escritores, que buscaram muitas vezes evidenciar, em suas obras, o contexto do qual fizeram parte, focalizando neles os aspectos da sociedade, como ressalta Matos e Furtado no artigo “O Negro na Literatura Brasileira: Contextos e Pretextos.” A literatura é o espelho e a interpretação da sociedade em um momento determinado da sua evolução histórica; este estado baseia-se sempre em uma tensão entre o ideal e a realidade. A literatura só consegue ser arte reproduzindo este estado da sociedade mais ou menos pleno de contradições internas. Dependendo das condições sócio-econômicas de cada época, ela pode nos oferecer subsídios para interpretar e reconstruir as representações do passado e do presente (MATOS e FURTADO, 2004, p. 55). Como foi dito acima, a Literatura pode nos oferecer subsídios para interpretar e reconstruir as representações do passado e do presente, incluindo,dessa forma, a questão da cultura e as representações do povo africano, uma vez com compõem elementos constitutivos da cultura brasileira. (PEREIRA, 2004, P. 141). O afrodescendente foi visto por muito tempo como um objeto, escravizado e subjugado a todos os tipos de discriminação, sem lhe ter sido dado um espaço na sociedade. David Brookshaw em Raça e cor na literatura brasileira diz que : No Brasil, como em outros países do Novo Mundo, o preconceito contra o negro tem sido e ainda é um dos mais arraigados em nossa experiência histórica em virtude de séculos de escravidão. O Negro , mesmo de ser escravizado , tinha um defeito que para muitos serviu de justificativa para a escravatura, e esse defeito era sua cor. (BROOKSHAW,1983,p.12): Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 20 Como se vê, a escravidão no Brasil foi uma experiência perversa que deixou marcas profundas, tanto no interior como no exterior do povo negro, refletindo muitas vezes em tudo que é extensivo ao afro-brasileiro. Para Algemira Mendes, em sua tese, Maria Firmina dos Reis e Amélia Beviláqua na história da literatura brasileira: representação, imagens e memórias nos séculos XIX e XX (2006), a literatura do século XIX, produzida ainda sob a vigência do período escravocrata, silencia sobre o negro que, quando não é omitido, aparece somente destacado por características estereotipadas: sensualidade, luxúria, comportamento bestial ou servil, ou então é representado com sentimento de piedade e comiseração diante da situação do cativo. A esse respeito, o estudioso Gregory Rabassa, em estudo basilar sobre a questão do negro no Brasil, diz: Na literatura produzida no Brasil até 1888, o negro apareceu em papéis diversos e sob ângulos diferentes. Os primeiros inscritos geralmente incluíam polêmicas contra ou a favor da escravidão, corrente que iria contribuir com outras obras até a abolição e, mesmo depois disso, em retrospectos. Como pessoa, o negro foi descrito como quase tudo cabível na escala humana de interpretação: uma figura semelhante a feras que servia apenas para o trabalho pesado, um selvagem em que não se pode confiar e que se revoltará na primeiraoportunidade, um herói lutando contra uma opressão injusta, um servo fiel imbuído de grande amor por seu senhor, uma figura exótica que desperta desejo, um pobre ser humano rebaixado de anseios justos devido a uma instituição iníqua. Em poucas palavras, o nego apareceu sob quase todos os ângulos concebíveis pelos autores que dele se ocuparam. (RABASSA,1965,p.99). Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, foge do usual ponto de vista tratado por outros escritores brasileiros. Ela adota uma postura antiescravagista, diferente de Joaquim Manuel de Macedo, em As vítimas algozes, de Bernardo Guimarães, em A escrava Isaura, Pinheiro Guimarães em O comendador, Francisco Gil Castelo Branco, em Ataliba, o vaqueiro. E mesmo das obras de Teixeira e Sousa, Maria ou a Menina roubada e de FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 21 José do Patrocínio, em Mota Coqueiro. (MENDES, 2006). Pode-se dizer que, na literatura brasileira, a representação do afro descendente tem sido demonstrada, muitas vezes, pela relação senhor x escravo. O negro, quando aparece nas narrativas ou poemas, é visto sem qualidades psicológicas e sem ser elevado à condição de herói. Conforme aponta ainda Matos e Furtado (2004, p. 56), “o negro quando entra como personagem é quase sempre boçal, engraçado, o que dá a ideia de que ele é inferior para a exaltação do herói”. Sobre isto, Célia Regina dos Santos e Vera Helena Gomes Wielewicki destacam em seu artigo, ”Literatura de autoria de minorias étnicas e sexuais”: O afro-descendente foi quase que esquecido pelos escritores, a representação do negro na literatura desde o seu início foi apagada; é como se os negros, forçados a cruzar os mares como escravos, tivessem deixado na costa africana todos os seus sistemas, formas, elementos e práticas culturais e religiosas. [...] O ‘motivo histórico e moral’ do desaparecimento ‘silêncio involuntário’ de nossos escritores sobre o ‘estado de escravidão’ bem como a influência do negro na cultura nacional do começo da história brasileira, até meados do século XIX, deveu-se pelo receio do estigma da contaminação. Falar sobre o negro traria sobre o escritor questionamentos sobre suas ligações com os mesmos, e até mesmo sobre sua linhagem ‘pura’.(SANTOS e WIELEWICKI, 2005, p. 291) O negro continua a ser uma figura apagada até meados do século XIX. (SAYERS, 1956). O negro aparecerá novamente na literatura da segunda metade do século XIX, em especial de 1850 a 1880, ano em que ocorreu a abolição da escravatura, “porém ainda mantendo sua posição marginal na literatura. E nesse período começa a surgir negros e mulatos letrados e escritores”. O conceito de Literatura Afro-brasileira ou Afrodescendente tem passado por várias revisões. Zilá Bernd define a Literatura Negra como a representação de um sujeito enunciador no texto que se quer de autoria afro-brasileira e que é enunciado em primeira pessoa, independente da cor Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 22 da pele. (LOBO, 2007). Para Luiza Lobo, num outro extremo se situa David Broookshaw “no qual distingue uma literatura sobre o negro , enquanto o tema e uma literatura negra, escrita por negros”. Já Eduardo de Assis Duarte, em seu artigo “Por um Conceito de Literatura Afro-Brasileira”, postula que, para além das discussões conceituais, alguns elementos identificadores podem ser destacados, como: Uma voz autoral afrodescendente, explicita ou não no discurso; temas afro-brasileiro; construções lingüísticas marcadas por uma afro-brasilidade de tom de ritmo, sintaxe ou sentido; um projeto de transitividade discursiva, explicito ou não; com vistas ao universo recepcional, mas sobretudo, um ponto de vista ou lugar de enunciação política e culturalmente identificado à afrodescendência, como o fim e o começo (DUARTE, 2011,p.385). Para Cuti (2010), o termo “negro” lembra a produção literária que expressa claramente o pertencimento étnico. Brookshaw (1983) e outros são enfáticos quanto à nomeação que deve ser dada a esta literatura. Nessa perspectiva, merecem destaque escritores que traduzem este conceito, como é o caso de Luis Gama, Caldas Barbosa, Gonçalves Dias, Maria Firmina, tidos como percussores da literatura afro-brasileira SAIBA MAIS Literatura negra ou afro-brasileira Mesmo entre os uns deles muito sensíveis à exclusão dos descendentes de escritores que se assumem como negros, algescravos na sociedade brasileira, existe resistência quanto ao uso de expressões como “es- critor negro”, “literatura negra” ou “literatura afro-brasileira”. Para eles, essas expressões particularizadoras acabam por rotular e aprisionar a sua produção literária. Outros, ao contrário, consideram que essas ex- pressões. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 23 1.3 PRECURSORES DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA 1.3.1 CALDAS BARBOSA Domingos Caldas Barbosa (1740 – 1800) nasce no Rio de Janeiro e falece em Lisboa. Filho de escrava angolana e branco português, talvez constitua o primeiro caso, nas nossas letras, de um escritor afrodescendente a afirmar-se negro nos seus próprios versos, assumindo a sua origem racial através da linguagem poética. Na avaliação de Sílvio Romero, o poeta Caldas Barbosa foi “o célebre improvisador de modinhas” do seu tempo (ROMERO, 1980, p.476, v. 2), cuja coletânea de versos foi publicada com o título de Viola de Lereno. Em termos de literatura brasileira, o maior legado de Barbosa foi ter antecipado os temas e estéticas da poesia negra. Este poeta, cantor de lundus e modinhas, imprimiu em suas canções elementos da tradição oral e popular, estabelecendo pontos de contatos e diálogos precursores que desfazem as fronteiras entre a escrita e a oralidade. Assim como Silva Alvarenga, também negro e músico, atingiu nos versos de medida curta o tom melódico da poesia que se desfaz na música (CÂNDIDO, 1981, p. 49, v.1). A produção poética do “modinheiro” abriga as marcas identitárias do escritor afro-brasileiro, ainda precursoras, apelando para o africanismo vocabular, estetizando a linguagem popular, exprimindo a sensação de prisão interior ou “emparedamento” e recorrendo ao ritmo musical e acentuado. Esse dizer-se negro inscreve na literatura em verso a voz do sujeito-negro, a voz da diferença falando por si mesmo, para si enquanto negro e para o outro, o branco. Isso em tom de autorreconhecimento e aceitação do passado histórico, a exemplo desta quadra de Caldas Barbosa: Tu és Caldas, eu sou Caldas; Tu és rico, e eu sou pobre; Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 24 Tu és o Caldas de prata; Eu sou o Caldas de cobre (BARBOSA, 1980, p. 478) A historiografia literária afrodescendente tem citado os versos acima, ou mais precisamente a linha “Eu sou o Caldas de cobre”, como o primeiro registro no qual um escritor brasileiro assumiu a condição de negro na sua escritura. Assim, a cor “de cobre” versus a cor “de prata” faz a diferença entre o ser negro e o ser branco, além de evidenciar a posição social ocupada por essas duas raças na sociedade colonial e escravista. Quanto ao registro de dizer-se negro na escrita, merece também chamar a atenção para “Carta” da escrava Esperança Garcia, escrita por ela mesma, datada de 1770, e destinada ao Presidente da Província do Piauí, cujo teor denuncia os maus-tratos e açoites do Administrador das antigas fazendas de gado da Coroa de Portugal contra ela, os filhos e parceiros de escravidão (FERREIRA, 2008). As cantigas de Caldas Barbosa correram na boca do povo que as modificou e as moldou ao seu gosto, segundo testemunho de Sílvio Romero: “Quando em algumas províncias do Norte coligi grande cópia de cançõespopulares, repetidas vezes, colhi cantigas de Caldas Barbosa, como anônimas, repetidas por analfabetos” (ROMERO, 1980, p. 478, v. 2). O escritor setecentista recupera a cultura e a língua dos antepassados negros, reencontrando um fio que o conduz de volta à sua ancestralidade, à tradição oral africana que se hibridiza com a tradição luso-brasileira. Os versos sonoros, os metros curtos em redondilha maior, a utilização de anáforas ou repetições de palavras no início dos versos e a seleção vocabular apresentam caracteres próprios da poesia feita para se transformar em letra de música. São esses versos reveladores do eu-lírico e negro que se identificam com os sentimentos e o imaginário das camadas populares do nosso país. Foi, sobretudo, com a maneira simples de comunicar os FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 25 sentimentos que Caldas Barbosa se consagrou e os seus versos ganharam notoriedade entre o povo. As quadras amorosas têm a candura, a doçura, o “dengue e um requebro tipicamente crioulos” (id, p.487). Eu sei, cruel, que tu gostas, Sim gostas de me matar; Morro, e por dar-te mais gosto, Vou morrendo devagar... Tenho ensinado a meus olhos, Dos segredos a lição; Sabem dizer em segredo A dor do meu coração... (BARBOSA,1980, p. 478) Nas páginas dedicadas a Caldas Barbosa, Sílvio Romero afirma que Varnhagen, crítico literário da escola romântica brasileira, cometeu a “maior injustiça e o mais grave erro” (id., p.476), quando atribuiu à cor da pele escura do poeta ou à sua mestiçagem, um “suposto caráter submisso” (id., ib.). No entanto, as influências do determinismo biológico conduziriam Sílvio Romero a incorrer na reprodução de certos estereótipos pseudocientíficos, quando faz a seguinte declaração: “Se alguma cousa existe no mestiço, que se possa considerar a nota predominante de seu caráter, é a rudeza, a independência, o orgulho, a tendência ao desrespeito, a falta do senso da veneração” (p.476). O nosso primeiro crítico literário de renome prossegue com suas digressões equivocadas acerca do caráter do “mestiço”: particularmente para música, como se tal “pendor” estivesse relacionado a fatores biológicos em vez de cultural: Daí a sua juvenilidade constante, o seu pendor para as artes, especialmente para a música. Raro é o mestiço bem caracterizado no Brasil que não seja músico ou pintor, especialmente a primeira das duas cousas (ROMERO, 1980, p.477). Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 26 A musicalização dos versos garantiu, certamente, a grande popularidade deste escritor junto ao público brasileiro e à sociedade lisboeta dos saraus noturnos da segunda metade do século VIII. Dir-se- ia que Caldas Barbosa escreveu poesia para a massa pouco letrada ou para a burguesia de pouca erudição que, em geral, se identifica com os derramamentos emotivos das canções apaixonadas (1980, p.478). Além disso, o poeta afro-brasileiro transcende os aspectos puramente sociais. Rompe com a hegemonia dos modelos classistas da literatura europeia de então, quando atribui às cantigas uma dimensão étnico-racial que reterritorializa a tradição afrodescendente na escrita literária. Caldas Barbosa utiliza-se de africanismos através dos vocábulos bantos: “cuia” e “quingombó” -, de americanismo: “Xarapim” -, bem como de elementos sonoros ligados à tradição da cultura musical e das cantigas africanas, que circunscrevem o universo cultural do negro nos versos abaixo. Xarapim eu bem estava Alegre nesta aleluia Mas para fazer-se triste Veio Amor dar-me na cuia ........................................... Se visse o meu coração Por força havia ter dó Porque o Amor o tempo posto Mais mole que quingombó. (DAMASCENO, 1988, p.39) A sentimentalidade transforma-se em melancolia inusitada na alma do poeta Caldas Barbosa e suas cantigas parecem prenunciar uma indesejável sensação do “emparedamento”, posteriormente problematizado FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 27 na prosa poética do simbolista negro Cruz e Sousa (SILVA, 1999, p.125). Este sentimento de exílio, de prisão interior e tristeza ocultada, sintomático na obra do árcade, manifestam-se enquanto forma de premonição de elementos peculiares à tradição da poesia afrodescendente, como em “Lereno melancólico”: Sou forçado a alegre canto; Faço esforço de alegria, E oculto no fundo d’alma A mortal melancolia (CÂNDIDO, 1981, p.150, v. 1) A poesia faceira e terna de Caldas Barbosa se distancia do versejar de tom épico e sisudo, como os decassílabos e alexandrinos comuns à poética dos árcades lusos e brasileiros de então. A opção pelos cantares do povo mistura melancolia, afeto, “dengue” e abrasamento, “definindo de modo explícito os traços afetivos corretamente associados ao brasileiro na psicologia popular” (id., 1981, p. 149). O trânsito nos espaços acadêmicos e saraus nos salões da corte lisboeta não fizeram Caldas Barbosa esquecer ou negar as suas origens de homem negro, simples e tocador de viola que demarca um dos percursos iniciais na construção de identidades afrodescendentes na literatura escrita do nosso país. A africanidade do filho de angolana se manifesta de maneira consciente nos vocábulos africanizados e na preferência pela estrutura musical do “lundum”, ou lundu, cantar oriundo da África que deu origem ao samba brasileiro. O poeta Caldas Barbosa mesclou esse ritmo às suas modinhas brasileiras. Referindo-se a Barbosa, Antonio Cândido assinala que “Saborosa é a utilização do vocabulário mestiço da Colônia, com que obtinha certamente efeitos de surpresa e graça nos salões lisboetas, cantava com a sua viola” Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 28 (id., p.150). A seleção vocabular aponta para o africanismo abrasileirado já explicitado no próprio título dos versos de “Lundum de ouro”: Nhanhá faz um pé de banco Com seus quindins, seus popôs, Tinha lançado os seus laços, Aperta assim mais os nós.(1980, p. 150) E em “Lundum de cantigas vagas”: Meu Xarapim, já não posso Aturar mais tanta arenga, O meu gênio deu à casca Metido nesta moenga. (id., ibid.) Os versos do cotidiano recuperam, para o texto poético, as palavras do banto: “arenga”, “moenga”; do quimbundo: “Nhanhá” (de “nhá”); do umbundu: “popôs”; do americanismo: “Xarapim” (LOPES, s.d., p.34- 74). Nas duas quadras acima, o vocábulo “Lundum” indica o africanismo literário dos versos de Caldas Barbosa. A matéria textual se interrelaciona duplamente com a África: a) do ponto de vista linguístico – “lundum” é uma palavra de origem africana; b) no sentido cultural – uma modalidade do cantar ou da dança africana. Para Antonio Cândido, o poeta possui o mérito de ter influenciado na evolução rítmica do verso português. Porém o crítico ressalva: Embora haja contribuído, pois, para o adensamento daquela atmosfera encantadora e frívola de melodias fugitivas que embalaram o Rococó lisboeta, o fato é que, visto de hoje, o “trovista Caldas”, tão simpático e boa pessoa, tão maltratado por Bocage, desaparece praticamente ao lado dos patrícios mais bem dotados (CÂNDIDO, 1981, p.150, vol.1). FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 29 A crítica canônica tem dado atenção a Caldas Barbosa como compositor e cantor de modinhas do que propriamente como autor de obra literária, uma vez que sua poesia se assemelha às canções populares da tradição afrodescendente em oposição ao modelo europeu. Numa perspectiva diferente do cânon e isenta de preconceitos, David Brookshaw esclarece: O poeta e compositor de canções populares do século XVIII, [...] aplicou a sensualidade alegre das modinhas e lundus afro-brasileirosaos versos anacreônticos que o influenciaram durante o período em que residiu em Lisboa. [...]. Embora as modinhas de Barbosa fossem muito cantadas no Brasil, seu trabalho só foi apreciado como literatura depois de 1920 quando os poetas começaram a recorrer à cultura dos negros e mestiços para obter material. Manuel Bandeira referiu-se a ele [Caldas Barbosa] como “o primeiro brasileiro onde encontramos uma poesia de sabor inteiramente nosso“ (BROOKSHAW, 1983, p.161). Por volta de 1763, Caldas Barbosa chega a Portugal, “para continuar seus estudos” (MARQUES, 2011, p. 50). Anos depois, alcança notoriedade e prestígio junto aos escritores da Metrópole e salões da corte real – tanto que se tornou o primeiro presidente da Nova Arcádia – foi abalado por uma série de insultos e preconceitos partidos dos poetas portugueses Bocage e Filinto Elísio, alguns de conotações racistas (MARGARIDO, 1980, p. 202) descrevem o brasileiro como “o neto da rainha Ginga” ou “nojenta prole da rainha Ginga” (cit. MARGARIDO, ibid, p.200). A rainha Ginga tornou- se símbolo da resistência aos portugueses em Angola. Alfredo Margarido observa que a rainha estrategista, guerreira, não hesitou em aliar-se aos holandeses em luta contra o domínio de Portugal (FERREIRA, 2005). Os versos de Bocage, assim como a sátira de Gregório de Matos dirigida a um vigário brasileiro negro, procuram se instrumentalizar de signos linguísticos para zoomorfizar Caldas Barbosa: “E o orangotango a corda à banza abana” (id. ibid.), despojando-o do valor literário. Por certo, essa prática, era habitual nas relações interracionais em Portugal e nos países Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 30 colonialistas europeus. A brutalização do negro, como aponta Alfredo Margarido, já acontecia na literatura de Portugal desde o século XV, em escritor como Gil Vicente (1980, p. 192). Na verdade, a exclusão do negro na escrita literária do ocidente tem mudado de máscaras desde os seis últimos séculos e, em oposição a esse tipo de discurso, é que nasceram os movimentos da negritude, a literatura negra ou afrodescendente de todo o mundo. Domingos Caldas Barbosa tornou-se exemplo de muitos outros escritores negros e compositores de canções populares, como o afro-baiano Xisto Bahia, natural de Salvador, que também alcançou sucesso notável com suas modinhas junto à “classe média urbana no final do século XIX, ou Eduardo das Neves, um comediante negro e compositor” de modinhas do início do século XX (BROOKSHAW, p. 163). Na esteira dessa tradição de compositores brasileiros notabilizados pelas suas canções populares de sucesso, merecem destaque alguns nomes recentes como Noel Rosa, Cartola, João do Vale, Martinho da Vila, Caetano Veloso, Chico Buarque, Nei Lopes, Chico César, dentre outros (FERREIRA, 2005). OBRAS DE CALDAS BARBOSA Coleção de poesias feitas na feliz inauguração da estátua equestre de El-rei Nosso Senhor Dom José I em 6 de junho de 1775. (Sem local, sem impressor, sem data. Somente alguns dos poemas são de autoria de Caldas Barbosa.); Narração dos aplausos com que o Juiz do Povo e a Casa dos Vinte-Quatro festeja a felicíssima inauguração da estátua equestre. Lisboa: Régia Oficina Tipográfica, 1775; Recopilação dos principais sucessos da História Sagrada em verso. Lisboa: Régia Oficina Tipográfica, 1777; Epitalâmio nas felicíssimas núpcias do ilustrís- simo, e excelentíssimo senhor Antônio de Vasconcelos e Sousa. Lisboa: Régio Oficina Tipográfica, 1777; Os viajantes ditosos. Lis- boa: Oficina de José de Aquino Bulhões, 1790; A saloia namora- da, ou o remédio é casar. Lisboa: Oficina de Tadeu Simão Ferreira, 1793; A vingança da cigana. Lis- boa: Oficina de Simão Tadeu Fer- reira, 1794; A escola dos ciosos. Lisboa: Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1795; Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, ofe- recida aos seus amigos. Lisboa: Oficina Nunesiana, 1798. v. I; De- scrição da grandiosa quinta dos senhores de Belas, e notícias do seu melhoramento. Lisboa: Tipo- grafia Régia Silviana, 1799; Viola de Lereno: dentre outras FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 31 EXCERTOS LUNDUM DE CANTIGAS VAGAS Domingos Caldas Barbosa Xarapim, eu bem estava Alegre nest’aleluia Mas para fazer-me triste Veio amor dar-me na cuia. Não sabe meu Xarapim O que amor me faz passar, Anda por dentro de mim De noite, e dia a ralar. Meu Xarapim já não posso Aturar tanta arenga, O meu gênio deu à casca Metido nesta moenga. Amor comigo é tirano Mostra-me um modo bem cru Tem-me mexido as entranhas Qu’estou todo feito angu. Se visse o meu coração Por força havia ter dó. Porque Amor o tem posto Mais mole que quingombó. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 32 Tem nhanhá certo nhonhó Não temo que me desbanque, Porque eu sou calda de açúcar E ele apenas mel no tanque. Nhanhá cheia de chulices Que tantos quindins afeta, Queima tanto a quem a adora Como queima a malagueta. Xarapim tome o exemplo Dos casos que vê em mim, Que se amar há-de lembrar-se Do que diz seu Xarapim 1.3.2.Luiz Gonzaga Pinto da Gama Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 – 1882) é natural de Salvador, Bahia. Filho da africana livre e muçulmana Luísa Mahin, uma líder da Rebelião dos Malês, revolta deflagrada por africanos livres e escravos muçulmanos na cidade de Salvador, em 1835. Dois anos mais tarde, a mãe de Luiz Gama foge para o Rio de Janeiro, empurrada pelas perseguições policiais por ter se envolvido como líder do maior levante urbano já ocorrido no Brasil, organizado por cativos e africanos livres (REIS, 1987, p.6). Ele não veria mais Luísa Mahin, que mais tarde fora deportada para a África. O pai de Luiz Gama era branco, um fidalgo português arruinado pelo jogo e a bebida. Aos dez anos de idade, o pequeno Luiz foi vendido pelo pai, em 1840, para traficantes do Rio de Janeiro. Ali seria comprado para ser “mané gostoso” (menino escravo para alimentar o sadismo dos senhorzinhos), se Fonte:educacao.uol.com.br/ biografias/luis-gama.jhtm Luiz Gama FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 33 não fosse a sua procedência baiana e dos negros malês. Assim, o menino foi recambiado para São Paulo, chegando ali como escravo no mesmo ano. Em 1848, Luiz Gama estava alforriado. Depois de cabo graduado da Guarda Municipal paulista, exerceu a profissão de copista e amanuense, tornou-se advogado prático e jornalista famoso. Não só trabalhou como advogado dos escravos, mas também foi uma espécie de protetor de escravos rebeldes que, na fuga, buscavam sua proteção, para depois serem alforriados no Tribunal do Júri. Como rábula, consta que conseguiu a libertação de quinhentos cativos. Na carta de princípios A Vendôme da Abolição, o advogado dos escravos pronunciou em júri: “Todo escravo que matar o senhor, seja em que circunstância, mata em legítima defesa” (cit. FERREIRA, 2005, p.117-8). A obra poética de Luiz Gama é uma das realizações mais bem sucedidas da poesia afro-brasileira e da satírica nacional. O livro de poemas Primeiras Trovas Burlescas de Getulino foi publicado em 1859, da segunda edição, aumentada(1861), merece maior destaque o poema antológico e satírico “Quem sou eu?”, popularmente conhecido como “A bodarrada” ou “Bodarrada”. O “Precursor do abolicionismo no Brasil” (MENNUCCI, 1938) foi o primeiro brasileiro a assumir a cor negra, com convicção, na sua escrita. Esse discurso fundador da literatura negra no Brasil ridiculariza o mulato enriquecido, que nega a própria origem afrodescendente, o branco preconceituoso, o escravista,o status quo. No dizer de Lígia Fonseca Ferreira: “A bodarrada [138 versos] cristalizou a imagem de um Luiz Gama em cruzada contra o branco” (FERREIRA, 2000,p. XIV). Na poesia de Luiz Gama, a paródia e a duplicidade semântica do discurso nomeiam uma nova voz, a voz do negro, a voz da diferença étnico-racial, que passa a coexistir no mesmo plano de igualdade da fala dominante, dando lugar ao mundo polifônico, de sentido bilateral e “carnavalizado” (BAKHTIN, 1993) por um discurso que debocha do branco e também de si mesmo (FERREIRA, 2005). Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 34 QUEM SOU EU? Se negro sou, ou sou bode, Pouco importa. O que isso pode? Bodes há de toda casta, Pois a espécie é muito vasta... Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos, Uns plebeus, e outros nobres, Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios, importantes E também alguns tratantes... Aqui, n’esta boa terra, Marram todos, tudo berra; Nobres Condes e Duquesas Ricas Damas e Marquesas, Deputados, senadores, Gentis-homens, vereadores; Belas Damas emproadas De nobreza empantufadas; Repimpados principotes, Orgulhosos fidalgotes, Frades, Bispos, Cardeais, Fanfarrões imperiais, Gentes nobres, nobres gentes Em todos há meus parentes Entre a brava militança Fulge e brilha alta bodança; Guardas, Cabos, Coronéis FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 35 Destemidos Marechais, Rutilantes Generais, Capitães de mar e guerra, - Tudo marra, tudo berra (GAMA, 2001, p. 116-7) No poema “Bodarrada”, o jogo parodístico nomeia uma nova ordem que, por meio do riso, desmascara a farsa dos que escondem sua etnia, o passado histórico de seus ancestrais e reforçam a ideologia do embranquecimento. A sátira gamiana tem um sentido destronador, que desloca a hierarquia do poder constituído. Tal relação carnavalesca instaura novos paradigmas que se orientam a partir da visão do negro. A sátira de Luiz Gama é delatora e brinca até mesmo com os signos sagrados e litúrgicos da Igreja Católica: “Entre o coro dos Anjinhos / Também há muitos bodinhos”. O tom desmistificador põe em cena o sagrado e o profano, mas de maneira risonha e sem nada de grave, pontuando a duplicidade ambivalente do discurso. Assim, a profanação do sagrado se dá de forma carnavalesca e alegre, que “regenera e renova” (BAKHTIN, 1993, p.409), como se o poeta participasse de uma brincadeira, de um jogo lúdico (FERREIRA, 2005). Na suprema eternidade, Onde habita a Divindade, Bodes há santificados, Fonte:pt.wikisource.org/wiki/Primei- ras_Trovas_Burlescas_de_Getulino Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 36 Que por nós são adotados. Entre o coro dos anjinhos Também há muitos bodinhos. (...) Haja paz, haja alegria, Folgue e brinque a bodaria; Cesse pois a matinada, Porque tudo é bodarrada! O significado da palavra “bode” é revertido, eleva-se ao lugar divino. Tal palavra perde o sentido demoníaco ou pernicioso que, geralmente, lhe é atribuído, esvaziando-se da sua carga negativa ao ocupar o espaço da “Divindade”. A cadência do ritmo, a riqueza sonora, musical e imagética, a maneira como são articuladas as palavras, o teor picante, irônico e demolidor da sua linguagem poética fazem com que “A bodarrada” mantenha um significativo diálogo com o literário de hoje, transmitindo seu legado à sátira parodística da nova geração de autores afro-brasileiros. A paródia e simulacros grotescos como “bode”, “asno”, “jumento”, “crocodilo”, etc. evidenciam a zoomorfização dos representantes do velho poder do Brasil escravagista. A sátira demolidora de Gama articula um riso de zombaria que rechaça as etiquetas da sociedade do Segundo Reinado e o status quo. Tal riso cria outro mundo, “provisório” e diferente do real, o mundo às avessas, carnavalesco. (FERREIA, 2005). Para Mikhail Bakhtin “Ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus” (BAKHTIN, 1993, p.186). Outro ponto importante da obra de Luiz Gama é a presença da África, revisitada e recuperada no africanismo das palavras, na simbologia do “tambor” – metáfora universal da resistência negra e noutros estratos culturais. No âmbito da história, por exemplo, faz alusão ao nome da FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 37 lendária rainha Ginga, da dinastia dos Ngolas, mulher inteligente, astuciosa nas estratégias de guerra e hábil nas negociações diplomáticas. O poeta transmite uma significação positiva à memória da rainha angolana. Foi pela reconhecida bravura e resistência armada à colonização portuguesa (MARGARIDO,1980, p.200), que o nome da heroína africana é evocada pelo poeta Luís Gama: [...] Ao rufo do tambor, e dos zabumbas, Ao som de mil aplausos retumbantes, Entre os netos da Ginga, os meus parentes, Pulando de prazer e de contentes – Nas danças entrarei d’altas caiumbas. Se em Portugal a expressão “neto de Ginga” adquiriu sentido pejorativo para menosprezar, estigmatizar ou diminuir através do preconceito racial os afro-descendentes; no Brasil, ocorreu o contrário, como atestam os versos acima. Essa oposição de sentidos evidencia o posicionamento ideológico de cada grupo: o branco europeu que via nessa descendência da rainha Ginga um sentido negativo, e o africano/afrodescendente que a valorizava a ponto de sentir-se orgulhoso do seu passado ancestral. A visão preconceituosa do branco europeu ficou patente num episódio ocorrido por volta de 1775, quando Caldas Barbosa estava em Portugal, pois com seu alto prestígio junto aos escritores da Metrópole, ele se tornou o primeiro presidente da Nova Arcádia Lusitana. Fato esse que gerou uma série de ataques e insultos por parte do poeta Bocage, alguns de conotações racistas (MARGARIDO, 1980, p. 202), que hostilizam e desqualificam o poeta negro e seus antepassados, em versos como: “o neto da rainha Ginga” ou “nojenta prole da rainha Ginga” (apud MARGARIDO, ibid, p.200). A rainha Ginga tornou-se símbolo da resistência africana contra os portugueses em Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 38 Angola. Alfredo Margarido observa que essa mulher guerreira não hesitou em aliar-se aos holandeses contra os portugueses (FERREIRA, 2005). A rainha Ginga defendeu as fronteiras do seu reino com valentia e coragem, opondo-se permanentemente à escravidão dos seus vassalos. Surpreendeu os portugueses com suas manobras de guerra e dissimulações. Embora tendo recebido o batismo cristão por iniciativa própria, nunca inspirou confiança ou fidelidade ao colonizador europeu. Quando se viu encurralada pelo exército lusitano, negociou a aquisição de armas de fogo, para seus guerreiros, com os holandeses e, aliado aos batavos, combateram e derrotaram os portugueses. Referindo-se ao poder de Ginga, Alberto da Costa e Silva assinala: “Ao seu reino chamava Dongo e Matamba. E nele se tornara uma adversária ainda mais temível para os portugueses” (DA COSTA E SILVA 2002, p. 443). A sátira de Luiz Gama não só tem transmitido seu legado à paródia e subvertedora da nova geração de poetas afro-brasileiros, como também é possível se apontar a intertextualidade, o legado influenciador do poema antológico “Quem sou eu?” ou “A bodarrada” sobre o famoso poema modernista “Os sapos” de Manuel Bandeira. Assim, no poema de Gama, temos as palavras “enfunando”, “berra”, “terra”,“guerra”, “bodaria” que também são repetidos e transmitem a mesma ideia ou reproduzem sons onomatopaicos similares no poema de Bandeira: “Enfunando”, “aterra”, “Berra”, “guerra”, “saparia”. Esse diálogo intertextual também se dá no plano do cômico carnavalizado e através da zoomorfização dos representantes do poder constituído. O próprio Manuel Bandeira considerava o poema do poeta negro como uma das mais belas realizações da sátira nacional. Enfim, os versos satíricos de Luiz Gama dialogam ainda com a sátira latina de Horácio, reatualizando e negralizando esse legado poético nos contextos histórico e sociocultural do Brasil da segunda metade do século XIX. Os temas glosados pelo autor não se limitam à paródia, em poema lírico, como “Meus amores”, o menestrel dirige galanteios à sua amada FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 39 num canto de louvação à beleza da mulher negra, construindo um discurso da autoestima através do respeito à diferença e da valoração dos padrões da beleza negra, como uma premonição do que seria decantado setenta anos depois pelos poetas do Renascimento Negro nos Estados Unidos dos anos 1920, como Langston Hughes, e ativistas do movimento negro norte-americano de décadas posteriores, sob o slogan do Black is beautiful (FERREIRA, 2005). 1.3.3 GONÇALVES DIAS Antônio Gonçalves Dias (1823 – 1864) nasce em Caxias, Maranhão, e falece vítima de naufrágio ao regressar da Europa, no navio Ville de Boulogne, nas costas do Maranhão. Filho de um português branco e de uma mestiça de negra com índio. Reconhecido pela crítica como o maior poeta do indianismo brasileiro, é também um dos nomes mais importantes da poesia nacional de todos os tempos. Embora tenha preferido escrever poesias de temas indianistas e amorosos, na sua obra estão incluídos textos que problematizam a escravidão do africano, como o poema “A escrava”, a prosa poética Meditação e a tradução do romance Bug-jargal, Victor Hugo. Logo após o nascimento do menino Antônio, o pai, Manuel Gonçalves Dias, embarca para Portugal, deixando a criança com a mãe, Vicência Mendes Ferreira. O pai retorna em 1825 e reinicia seus negócios em Caxias. De 1825 a 1829, a família volta a viver junta. Aqueles quatro anos teriam sido os mais felizes da vida do pequeno “Tonico”, apelido carinhoso do poeta. Ainda em 1829, Manuel deixa a amásia Vicência e se casa com uma mulher branca. Este homem ríspido tira o filho da mãe negra, não mais permitindo que o menino voltasse a vê-la. A partir de então, o futuro poeta indianista passa a viver no meio de brancos, com o pai e a madrasta. Em 1837, morre o pai, mas, mesmo assim, a madrasta realiza o desejo do marido e manda o jovem Gonçalves Dias para Portugal, onde Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 40 cursará Direito na Universidade de Coimbra (FERREIRA, 2005). Ali passa por constrangimentos financeiros, mas, com a ajuda dos amigos acaba por superá-los. Em Portugal, estuda francês, latim, italiano, alemão e filosofia. Em 1845, estava de regresso ao Brasil (BANDEIRA, 1998, p. 13-56). Cabe especular o que teria levado o escritor afrodescendente a preterir o negro em benefício do índio? Porque teria escrito tão pouco acerca dos antepassados africanos, interrompendo a sua trajetória negra no meio do caminho? Estas indagações suscitam alguns acontecimentos da vida do poeta que dizem respeito à sua origem racial, a fatores sociais e históricos e às influências do Romantismo francês. Ponto de confluência de autores do Romantismo brasileiro, foi na França de 1836, que se fundou a revista Niterói. Este movimento colocaria em primeiro plano os temas nacionalistas e, particularmente, o indianismo. Neste sentido, Heloísa Toller Gomes observa que: O romantismo oitocentista embarcou deleitado no mito do bom selvagem e encontrou no índio o herói de um passado lendário que buscávamos. Em fase de afirmação patriótica e nacionalista, ávidos de um passado que nos afirmasse como povo e como nação, [...] os românticos brasileiros redescobriram o índio em seu próprio país e o idealizaram da forma que conhecemos (1988, p. 28). A visão de Gonçalves Dias não seria tão diferente da abordagem dos seus colegas românticos em relação à representação do indígena. Entretanto, em poemas como “O canto do Piaga”, “O Morro do Alecrim”, o índio transcende a imagem do autóctone idealizado pelo europeu e a abordagem se realiza na perspectiva indigenista, quando a empresa colonial representa a ruína do indígena; e ainda “onde a mescla de lirismo amoroso e alteridade étnica” do poema antológico “Marabá” (LAJOLO, p. 99) é priorizada em lugar do espírito nacionalista dos românticos. Em 1843, ainda em Portugal, a saudade da pátria e da mãe negra provavelmente inspira Dias a escrever a “Canção do exílio” e “A FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 41 escrava”. Apesar de admitirmos o legado do Romantismo europeu sobre a obra do autor negro, não poderíamos deixar de associar a personagem de “A escrava” à imagem da mãe do poeta, de quem ele sempre sentiu a falta. Nas vezes em que esteve na sua terra natal, nunca deixou de visitá-la e lhe instituiu uma mesada fixa a partir de 1848. Em menção ao segundo texto, Raymond Sayer assinala que é também uma canção do exílio. Trata-se de um sonho de escrava com a sua doce terra do Congo, com seu sol e areias escaldantes, sua lua e seu amado esperando-a sob bananeiras à margem de uma corrente líquida, sonho que a áspera voz do seu senhor faz cessar. Esse poema, que aparece no Arquivo em 1846, combina os temas da melancolia, do escravo e da África exótica, com o do senhor cruel (1958, p. 165). No poema “A escrava”, incluído em sua obra original Primeiros cantos (1847), Gonçalves Dias fala das memórias de uma africana exilada da terra natal. O texto remete à história dessa africana escravizada, ao seu passado livre e à sua história de amor. O eu-lírico refere-se à África, imprimindo um tom melancólico à narrativa da cativa, que conta a sua história, reconstruindo as paisagens natural e humana da terra distante e querida - o “Congo”. A ESCRAVA Oh! Doce país de Congo, Doces terras d’além mar! Oh! Dias de sol formoso! Oh! Noites d’almo luar! (...) Onde a leda caravana Rasga o caminho passando, Onde bem longe se escuta Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 42 As vozes que vão cantando! Onde longe inda avista O turbante muçulmano, O Iatagá recurvado, Preso à cinta do Africano! Onde o sol na areia ardente Se espelha, como no mar; Oh! doces terras do Congo, Doces terras d’além mar! Quando a noite sobre a Desenrolava o seu véu, Quando sequer uma estrela Não se pintava no céu; Quando só se ouvia o sopro Da mansa brisa fagueira, Eu o aguardava – sentada Debaixo da bananeira. [...] E às vezes me dizia: - “Minha Alsgá, não tenhas medo; Vem comigo, vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo”. E eu respondia animosa: - “Irei contigo, onde fores!”– E tremendo e palpitando Me cingia aos meus amores. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 43 Ele depois me tornava Sobre o rochedo – sorrindo: - “As águas desta corrente Não vês como vão fugindo? [...] Outro beijo acaso temes, Expressão de amor ardente? Quem o ouviu? – o som perdeu-me No fragor desta corrente. (DIAS, op.cit. 171-172) [...] Os indicadores de negritude e africanismo são evidenciados na restauração das origens dos antepassados negros. Esta busca se dá no plano simbólico: na recorrência à cultura, à memória histórica e aos vocábulos de origem africana. A África que temos descrita seriaa que sofreu o processo de islamização. Aqui, a personagem central do poema narrativo é negra e tem nome afro-muçulmano: “Alsgá”. A paisagem exótica serve de cenário para a africana recordar os seus sonhos de liberdade. Tudo conspira para a felicidade dos amantes. A natureza se mostra em todo o seu esplendor, acolhendo os jovens amantes no seu seio (FERREIRA, 2005).. A narrativa poética recupera o negro para sua humanidade, devolve ao cativo o lugar de pessoa dotada de sentimentos e capaz de amar, antes negado pelo discurso escravagista. O poeta reconhece sua negritude, sua origem racial ao respeitar a diferença étnico-racial da africana, desconstruindo o estigma da inferioridade racial ou os estereótipos negativos contra o negro, representado na literatura e narrativas coloniais e do século XIX. O recorre em quase todo o texto à estética dos cantos populares, como os versos de metros curtos, musicais e sonoros, fáceis Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 44 de serem cantados, entoados ou recitados, com paralelismos, anáforas ou repetições de palavras no início e no interior dos versos (FERREIRA, 2005). A fala do amante africano é incluída no discurso poético. O diálogo desenvolve o tema universal do amor entre dois jovens. Até então, a escrita literária brasileira ainda não havia se ocupado do tema do amor entre africanos ou cativos negros. Neste sentido, a lírica afrodescendente de Gonçalves Dias também atinge uma posição de ruptura à literatura oficial ou ao cânon literário brasileiro, quando Dias restitui ao negro a sua espiritualidade e os seus sentimentos nobres. Nas três últimas estrofes do poema, o poder escravista entra em cena e intervém nos acontecimentos. A africana vivia feliz na sua terra natal, mas essa liberdade lhe é arrancada pelo sequestro, depois a travessia do Atlântico nos porões do navio negreiro, o exílio seguido de escravidão em terra estranha. Aqui também se inaugura a figura do “senhor cruel”, o que se tornaria comum no Romantismo brasileiro a partir do final da década de 1850, consolidando o texto de denúncia contra o sofrimento do cativo africano. Isso acabaria redundando em paternalismo e comiseração, em estereótipos que marcariam intensamente a poética do condoreirismo brasileiro e romancistas românticos. Do ríspido Senhor a voz irada Rápida soa, Sem o pranto enxugar a triste escrava Pávida voa Mas era em mora por cismar na terra Onde nascera, Onde vivera tão ditosa, e onde Morrer devera! Sofreu tormentos, porque tinha um peito, FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 45 Qu’inda sentia; Mísera escrava! No sofrer cruento, “Congo!” dizia. (DIAS, 1980, p. 173) Mas, há de convirmos que ainda faltavam, aos versos de “A escrava”, a rebeldia dos tambores negros, a batida forte dos “tam-tam”, que viriam com a prosa poética Meditação, que analisaremos a seguir e na obra de autores como Luís Gama, Maria Firmina do Reis, catorze anos mais tarde. 1.3.4 MARIA FIRMINA DOS REIS A escritora Maria Firmina dos Reis, romancista maranhense do século nascida no século XIX ficou esquecida durante muito tempo no cânone da literatura brasileira. Sendo considerada por alguns críticos, a saber: Luiza Lobo (1993), Nascimento Moraes Filho (1975), Charles Martin (1988), Eduardo de Assis (2005) Algemira de Macedo Mendes (2006) e outros, como a primeira escritora afro-descendente da literatura brasileira. Busto de Maria Firmina dos Reis A escritora nasceu em 11 de outubro de 1825, no bairro de São Fonte: Jornalpequeno.com.br/. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 46 Pantaleão, na Ilha de São Luís, capital da então província do Maranhão, registrada por João Esteves e Leonor Felipa dos Reis. Era prima do escritor maranhense Francisco Sotero dos Reis por parte de mãe. Viveu com a avó, a mãe e as suas primas Balduína e Amália Augusta dos Reis em Guimarães, para onde se mudaram quando ela tinha cinco anos. Autodidata, sua instrução fez-se através de muitas leituras – lia e escrevia francês fluentemente. Exerceu a profissão de professora primária, tendo sido aprovada em primeiro lugar para a vaga do concurso público estadual em 1847 para mestra régia. Aposentou-se em 1881. Um ano antes da aposentadoria, fundou a primeira escola mista no Maranhão, tendo esta funcionado até 1890. Faleceu em 11 de novembro de 1917 aos 92 anos, cega e pobre. SAIBA MAIS Maria Firmina dos Reis iniciou sua carreira literária com a publicação do romance Úrsula, em 1859 (Typographia do Progresso – MA), tendo posteriormente as seguintes edições: 2ª edição, 1975, fac-similar (Grá- fica Olímpia – RJ); 3ª edição, 1988 (Editora Presença/INL-Brasília); 4ª edição, 2005 (Editora Mulheres – SC). Colaborou com o jornal A Impren- sa, publicando, em 1860, poesias, assinando com as iniciais M.F.R. Em 1861, começa a publicar Gupeva no jornal Jardim das Maranhenses. Em 1863 e 1865, republica Gupeva, respectivamente, nos jornais Porto Livre e Eco da Juventude (Ver Anexo C). Em 1871, Cantos à beira mar pela Tipografia do Paiz; em 1976, em fac-símile, a 2ª edição. Participou da antologia poética Parnaso Maranhense (1861), e colaborou ainda com os seguintes jornais: Publicador Maranhense (1861), A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense (1867), O Domingo (1872), O País (1885), Revista Maranhense (1887), Diário do Maranhão (1889), Paco- tilha (1900), Federalista (1903). Escreveu no Almanaque de Lembran- FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 47 Úrsula, obra escrita por Maria Firmina dos Reis foi editado pela primeira vez no ano de 1859, em São Luís do Maranhão, assinado sob o pseudônimo “uma maranhense”, recurso bastante usado no século XIX, principalmente pelas mulheres que se aventuraram a escrever. O universo narrativo de Úrsula é marcado por desencontros, ilusões e decepções. O desfecho fatídico e infeliz é um dos diferenciais. Para a época, era mister que as narrativas possuíssem um final feliz para agradar ao público feminino que ocupava o tempo e a cabeça lendo histórias de amor. A loucura e morte de Úrsula acabam com qualquer perspectiva do esperado final feliz. Segue fragmentos de Úrsula: [...] Senhor Deus! quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!... a aquele que também era livre no seu país... aquele que é seu irmão?! E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. – Homem generoso! único que soubeste compreender a amargura do escravo!... Tu que não esmagaste com desprezo a quem traz na fronte estampado o ferrete da infâmia! Porque ao africano seu semelhante disse: – és meu! – ele curvou a fronte, e humilde, e rastejando qual erva, que se calcou aos pés, o vai seguindo? Por que o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos.Cadeia infame e rigorosa, a que chamam: – escravidão?!... E, entretanto este também era livre, livre como um pássaro, como o ar; porque ças Brasileiras (1863,1868) um artigo de título “Minhas impressões de viagem” (1872), um diário intitulado Álbum (1865), várias charadas e enigmas. Compôs músicas clássicase populares (Autos de bumba meu boi), música dos Versos da garrafa, atribuído a Gonçalves Dias. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 48 em seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh! a mente! Isso sim ninguém pode escravizar! Nas asas do pensamento o homem remonta-se aos sertões da África, vê os areais sem fim da pátria e procura abrigar-se debaixo daquelas árvores sombrias do oásis, quando o sol requeima e o vento sopra quente e abrasador: vê a tamareira benéfica junto à fonte, que lhe amacia a garganta ressequida: vê a cabana onde nascera e aonde vivera! [... ] (grifos nossos) Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa que eu. Tranqüila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente de meu país e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias e aí com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias. Ah! Meu filho! mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo o amor de minha alma: – uma filha que era minha vida, minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar tão santa união [...] [...] Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida; passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Dava- nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca; vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. ATIVIDADES 1 Escreva com suas palavras um texto sobre a importância da Cultura africana em nossa sociedade. 2 Cite o conceito de Literatura Afro-brasileira ou Afrodescendente. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 49 3 Verifique nos fragmentos de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, passagens que falem sobre a escravidão. 4 Pesquise sobre um dos escritores precursores da literatura afro-brasileira e produza um texto de uma lauda apresentando uma breve biografia, principais obras e trechos de textos que você achou interessante. UNIDADE 2 LITERATURA AFROBRASILEIRA PÓS-ABOLICIONISTA OBJETIVOS • Estudar as produções mais significativas da literatura afro-brasileira pós- abolicionistas. • Analisar criticamente a produção literária dos escritores apresentados nesta unidade. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 52 2 LITERATURA AFROBRASILEIRA PÓS-ABOLICIONISTA 2.1 CRUZ E SOUSA João da Cruz e Sousa(1861-1898), o poeta mais importante do simbolismo brasileiro, nasce no dia 14 de novembro, na cidade de Nossa Senhora do Desterro, atualmente Florianópolis, capital de Santa Catarina, e falece a 19 de março, em Sítio, Minas Gerais. Filho de Guilherme, mestre pedreiro, escravo e de Carolina Eva da Conceição, lavadeira, escrava liberta quando contraíra casamento, ambos pretos retintos. O menino João da Cruz foi educado pelos senhores do pai, o então coronel e futuro marechal Guilherme Xavier de Sousa e a esposa Clarinda Fagundes de Sousa. Admirado por ser uma criança precoce, aos oito anos de idade, começa a recitar seus poemas nos salões e concerto. Aos dez anos matriculou- se no Ateneu Provincial Catarinense, que cursou durante cinco e ali estou francês, latim, inglês, grego, ciências naturais e matemática, notabilizando- se pela sua inteligência e dedicação que o destacava perante os seus condiscípulos (MURICI, 1995, p. 51-2). Distinguiu-se como intelectual polêmico, combateu os preceitos do Realismo e do Parnasianismo. Foi jornalista e defensor incondicional da abolição da escravatura, esta preconizada em seus artigos, palestras e na poesia antiescravista, esta representada pelos textos transcritos ao final deste breve estudo. O crítico inglês David Brookshaw assinala que o desespero do “emparedamento” é como: “um lamento pungente de sua situação, preso por todos os lados pelo preconceito” (1983, p. 16). Na prosa poética o “Emparedado”, Cruz e Sousa utiliza a metáfora do emparedamento para exorcizar a dor do Ser negro e a condição de “homem invisível”, vitimado por um sistema perverso que,durante e depois da escravatura do africano, tem atribuído vários estereótipos e preconceitos étnico-raciais responsáveis pelo isolamento ou a exclusão social do africano e seus descendentes em diáspora, como foram experiências e traumas vivenciados por Cruz e FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 53 Sousa. Este brasileiro, letrado e de rara erudição, em consequência da cor da sua pele negra, tivera muito pouco ou quase nenhuma oportunidade para ascender na escala social, como acontecera, certamente, a muitos homens e mulheres negras da sua época, excluídos ou emparedados socialmente. Já na sua juventude, o poeta era “muito odiado então em sua terra, pelo fato de ser negro”, observa o poeta Moreira Vasconcelos (citado por MURICI, 1995, p.24). Cruz e Sousa denuncia as hostilidades da sociedade escravista e a parede de “Egoísmos e Preconceitos” que ocultam o negro na periferia da sociedade brasileira. Nesse “entre-lugar”, o eu lírico do poeta projeta-se na dor das clausuras psíquica e social, forjadas pelo preconceito e estigmas criados pelo branco europeu, este imbuído na crença da falsa supremacia racial branca, e as elites econômicas, com vista à perpetuação dos seus privilégios, confinando os descendentes de africanos escravizados no ostracismo histórico e cultural, à margem dos bens sociais e econômicos. Daí o “lamento”, a melancolia, uma espécie de Banzo, o sentir-se estrangeiro no seu próprio país, uma vez deslocado para o limbo social, a prisão horrenda de muralhas intransponíveis e, por isso, lugar da ausência, da dor e da prisão involuntária do negro num território desumanizado e hostil: “parede de Imbecilidade e Ignorância”. Essas imagens são metaforizadas nas linhas e entrelinhas da poesia ‘apocalíptica’ de tons intimista e confessional de “Emparedado”. Referindo-se à prosa poética “Emparedado”, Cuti esclarece que As paredes que sobem, para emparedar o “eu” poético, quase personagem narradora, sedimentam-se pela reprodução diária de ideias e concepções racistas e pela prática (a discriminação física, histórica e cultural). Os dilaceramentos a que o “eu” poético se submete no transcurso do texto, eivados de pessimismo, alertam para a dimensão profunda do linchamento psicológico diário que sofre o indivíduo negro na sua aventura de ascender culturalmente por conviver com o branco. Ainda que seja um testemunho poético do século XIX, por meio dele pode-se pensar no que mudou na realidade do século XX e do século XXI (CUTI, 2010, p.70). Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 54 Cruz e Sousa sentiu de perto as agruras do racismo da sociedade brasileira, durante a escravatura e depois da Abolição, esta não emancipou o negro do estigma de trabalhador ex-escravizado, tampouco da exclusão étnico-social ou da pobreza. Filho de pai cativo e mãe alforriada, o Cisne Negro, como alguns preferiam chamá-lo, foi abolicionista eviajou por vários estados do país em campanhas contra a escravidão dos negros, proferindo conferências em prol da abolição da escravatura no Brasil, última nação das Américas a extinguir o trabalho escravo. Cruz e Sousa sofreu o preconceito racial na própria pele e, em 1884, pelo simples fato de ser negro, foi impedido de assumir o cargo de promotor de Laguna, numa reação dos chefes políticos locais (MURICI, 1995). Um ano mais tarde, dirigiu o jornal antiescravista O Moleque, em Desterro, atual Florianópolis, SC, sua cidade natal, e escreveu para tantas outras páginas abolicionistas do país. Cruz e Sousa esteve também no Nordeste do Brasil com grupos de artistas e em campanhas relacionadas à abolição da escravatura. Foi admirado por uns e odiado por outros pelo seu espírito polêmico e crítica à hipocrisia das elites escravista do seu tempo (SOUZA, 2006). OBRAS DE CRUZ E SOUSA Tropos e fantasias, em parceria com Virgílio Várzea (1885); Missal(1893); Broqueis (189; Evocações (1898); Farois (1900); Últimossonetos(1905); Obra Completa, Ed. Aguilar, Rio, 1961, organizada por Andrade Murici, inclui obras inéditas sob o título de O livro derradeiro (verso) Outras evocações e Dispersos (prosa).Reeditada pela mesma Editora Nova Aguilar S.A., Rio, 1995,com atualização e notas de Alexei Bueno, onde foram acrescidas Histórias simples e Correspondência(prosa), a última reúne cartas do poeta. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 55 EXCERTOS EMPAREDADO UMA TRISTEZA FINA e incorrigível errava nos tons violáceos vivos daquele fim suntuoso de tarde aceso ainda nos vermelhos sanguíneos, cuja cor cantava-me, quente, inflamada, na linha longe dos horizontes em largas faixas rutilantes. [...] Dessa África cheia de solidões maravilhosas, de virgindades animais instintivas, de curiosos fenômenos de esquisita Originalidade, de espasmos de Desespero, gigantescamente medonha, absurdamente ululante – pesadelo de sombras macabras – visão valpurgianade terríveis e convulsos soluços noturnos circulando na Terra e formando, com as seculares, despedaçadas agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra, de lágrimas e sangue, toda em torno da Terra... Não! Não! Não! Não transportarás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, numa derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo – horrível – parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto... E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras... Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 56 estranhas paredes hão de subir, - longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir mudas, silenciosas, até às Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho. (CRUZ E SOUSA, 1995, p. 672-3, fragmentos de Evocações). ESCRAVOCRATAS Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio Manhosos, agachados – bem como um crocodilo, Viveis sensualmente à luz dum privilégio Na pose bestial dum cágado tranquilo. Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas Ardentes do olhar – formando uma vergasta Dos raios mil do sol, das iras dos poetas, E vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta O basta gigantesco, imenso, extraordinário – Da branca consciência – o rútilo sacrário No tímpano do ouvido – audaz me não soar. Eu quero em rude verso altivo adamastórico, Vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico, Castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar! (CRUZ E SOUSA. In: O livro derradeiro. 1995,p. 234) DILEMA Ao cons. Luís Álvares dos Santos Vai-se acentuando, Senhores da justiça – heróis da humanidade, O verbo tricolor da confraternidade... E quando, em breve, quando FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 57 Raiar o grande dia Dos largos arrebóis – batendo o preconceito... O dia da razão, da luz e do direito - Solene trilogia – [...] Quando um poder novo Nas almas derramar os místicos luares, Então seremos povo! (CRUZ E SOUZA, ibid. p.235) CRIANÇAS NEGRAS Em cada verso um coração pulsando, Sóis flamejando em cada verso, e a rima Cheia de pássaros azuis cantando; Desenrolada como um céu por cima. (...) Para cantar a angústia das crianças! Não das crianças de cor de oiro e rosa, Mas dessas que o vergel das esperanças Viram secar, na idade luminosa. (...) Das crianças que vêm da negra noite, Dum leite de venenos e de treva, Dentre os dantescos círculos do açoite, Filhas malditas da desgraça de Eva. (...) As pequeninas,tristes criaturas Ei-las, caminham por desertos vagos, Sob o aguilhão de todas as torturas, Na sede atroz de todos os afagos. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 58 (...) As crianças negras, vermes da matéria, Colhidas do suplício à estranha rede, Destranca-as do presídio da miséria E com teu sangue mata-lhes a sede! (CRUZ E SOUSA.In: O livro derradeiro,1995, p. 412-3-4) SAIBA MAIS Veja o filme sobre Cruz e Sousa – o poeta do desterro. mais informações: Fonte: www.filmesdecinema.com.br/fi 2.2 LIMA BARRETO Escritor e jornalista polêmico, e um dos mais destacados intelectuais brasileiros com atuação nas primeiras décadas do século XX, Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881, filho de João Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta Barreto – ambos mestiços. Tinha como avó uma escrava liberta, Geraldina Leocádia da Conceição, agregada da família Pereira de Carvalho, cuja mãe, Maria da Conceição, nascera na África, tendo sido transportada para o Brasil em um navio negreiro. Lima Barreto, escritor estudado nos manuais de Literatura Brasileira como escritor Pré-modernista, por sua vez, é apresentado aos estudantes da Escola Básica como nacionalista por ter publicado, Triste fim de Policarpo Quaresma, no entanto, sua produção literária em que encenou condições sociais do afro-descendente do início do século XX, através de personagens que denunciam a aspereza do preconceito racial e social quase não são ressaltadas. Nesse sentido, a temática aparece em romances, como: Clara dos Anjos, Recordações do escrivão Isaías Caminha, entre outros contos e crônicas. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 59 ATIVIDADE 1.Consulte o site http://www.dominiopublico.gov.br/ e leia a obra Clara dos Anjos e aponte as características afrodescendentes presentes no texto. 2. Escolha um poema de Cruz e Sousa que tenha temática afrodescendente e analise ultilizando os elementos estéticos da poesia. SAIBA MAIS Leia o texto: DUARTE, Eduardo de A. “Literatura e Afro-descendência”. In:http://www.letras. ufmg.br/literafro - UNIDADE 3 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA OBJETIVOS • Estudar as produções mais significativas sobre a literatura afro-brasileira contemporânea. • Analisarcriticamente a produção literária dos escritores apresentados nesta unidade. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 62 3 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA 3.1 Negritude no Brasil entre as décadas de 1940 a 1960 A palavra “negritude” se forma a partir de negro + idade, sufixo latino que significa “qualidade”, “maneira de ser”, “estado”, “propriedade”. O termo aparece com certa frequência na obra de escritores brasileiros contemporâneos, bem como em trabalhos acadêmicos sobre história,cultura ou literatura negra no Brasil. Para Zilá Bernd (1988) é, sobretudo, a partir da década de 60, em seu sentido mais abrangente, refererindo-se à consciência e à reivindicação da comunidade negra. Solano Trindade constitui um dos principais representantes deste Movimento. Para Luiza Lobo (1987) há quatro grupos de autores de literatura negra que se sobressaíram no Brasil. O Quilomboje, de São Paulo, criado em 1980; Negrícia, do Rio de Janeiro, de 1982; Gensd Silveira, de 1985; o grupo Palmares, criado em 1971 por Oliveira Silveira no Rio Grande do Sul. 3.1.1 Autores representativos 3.1.1.1 SOLANO TRINDADE Francisco Solano Trindade (1908 – 1974) é o nome mais representativo da poesia do movimento da Negritude Brasileira dos anos 40 a 60. Natural da cidade de Recife, Solano para Rio de Janeiro em 1942, instalando sua residência em Caxias e, no ano de 1961, muda-se para a cidade de Embu, São Paulo. Em 1950, funda o Teatro Popular Fonte:www.antoniomiranda.com.br FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 63 Brasileiro, TPB, juntamente com a esposa e coreógrafa Margarida Trindade e o sociólogo Edison Carneiro. Solano foi poeta, pintor, ator, folclorista e coreógrafo. A lírica do poeta afro-recifense fala de amor, da infância, das memórias de infância, da sua rua, do seu bairro, de heróis negros como Zumbi, de exclusão racial, dentre outras temáticas. Recusa os valores ou a assimilação negativa que depreciam a imagem do negro. Cria uma “narrativa de dentro”, do narrador coparticipante que preconiza o restabelecimento da autoestima de homens e mulheres negras, desarticulando estigmas e preconceitos raciais (SOUZA, 2006). Reconhecido como uma de suas obras mais significativas, “Canto dos Palmares” é uma escrita precursora da épica quilombola dos afro-brasileiros. O herói da ação épica é Zumbi, o Grande-Chefe, rei do Quilombo dos Palmares, e líder guerreiro, personagem histórica do período da escravidão no Brasil Colônia, morto em 1695, e uma espécie de mito da resistência quilombola, cuja fala é intermediada pela voz do poeta-narrador, que representa as vozes da consciência crítica e os anseios da população negra. Nessa épica moderna de 195 versos, Palmares é erigida das cinzas da história oficial, revista pelo griot da Diáspora negra, que narra a saga dos palmarinos na primeira pessoa do singular e do plural “eu/nós” (2006). CANTO DOS PALMARES Eu canto aos Palmares Sem inveja de Virgílio de Homero e de Camões porque o meu canto é o grito de uma raça em plena luta pela liberdade! [...] (TRINDADE, 1961, p.29) Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 64 A épica quilombola evidencia o renascimento de um mundo negro pautado na resistência solidária, na memória histórica dos ancestrais e na “ação heróica” dos quilombolas. No ensaio “Literatura negra: uma voz quilombola na literatura brasileira”, a romancista e poeta Conceição Evaristo esclarece o significado da memória histórica, da cultura dos quilombos do passado e a migração desses valores e conhecimentos nas comunidades e grupos sociais negros de hoje, representados pelo discurso de resistência e afirmação da música, religião, dança, narrativa ou da literatura afro- brasileira. (SOUZA, 2006). A epopeia de Palmares recupera a memória dos quilombos brasileiros, que reúne “a morada, o lugar, a natureza da comunidade” (GLISSANT, 2005, p.44). O canto evoca a “esperança”, a coragem dos guerreiros quilombolas, a solidariedade entre as pessoas da comunidade ameaçada pela escravatura no Brasil do final do século XVII. No dizer de Jorge Luís Borges, a épica do povo conquistado é “as vozes da coragem e da esperança” (2001, p. 51). O narrador recupera a memória histórica, fala da resistência armada dos quilombolas e de uma vida em harmonia compartilhada pelos habitantes do Quilombo dos Palmares (SOUZA, 2006). [...] Os canaviais ficam bonitos meus irmãos fazem mel, minhas amadas fazem doce, e as crianças lambuzam os seus rostos e seus vestidos feitos de tecidos de algodão tirados dos algodoais que nós plantamos. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 65 Não queremos ouro porque temos a vida! e o tempo passa, sem número e calendário... [...] E agora ouvimos um grito de guerra, ao longe divisamos as tochas acesas, é a civilização sanguinária, que se aproxima. Mas não mataram meu poema. Mais forte que todas as forças é a Liberdade... meu poema é cantado através dos séculos, minha musa esclarece as consciências, Zumbi foi redimido. A épica quilombola é um discurso de “desterritorialização” que se propõe a “forjar os meios de uma outra consciência e de uma outra sensibilidade” (DELEUZE e GUATTARI, 2003, p.40). Solano esclarece que seu canto é diferente da epopeia ocidental. O texto louva a luta “de uma raça” que tece e reconquista sua liberdade nos quilombos, como pessoa livre no lugar reterritorializado. Não busca uma identidade pura, uma cultura narrativa de “raiz única e excludente, fixa e intransigente” (GLISSANT, 2002, p.67). Virgílio, Homero e Camões não são evocados como modelos Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 66 de rapsodos, que devem ter seus ideais colonizadores assimilados pelo escritor negro, mas como referencial que evidencia a alteridade, a diferença do discurso literário negro, a estética e a visão de mundo da narrativa dos quilombos. No poema “Abençam papai, que bicho é esse?”, Solano Trindade evoca a infância de menino pobre e negro, a paisagem, a fauna, hábitos e costumes do povo brasileiro e rememora os contos infantis/populares, narrados pelo pai na hora de dormir, homem simples, bom amigo e protetor. Para Solano, a casa é o lugar da memória, das fantasias, da utopia do escritor afrodescendente, o casulo das nossas recordações de infância. Na casa, nascem os sonhos e os pais fazem planos para o futuro dos filhos. Mesmo quando a casa é simples, a casa da infância é a casa mais bela do mundo, é a casa da nossa imaginação, da nossa fantasia infantil por mais humilde que seja a casa, como traduz a afro-indígena Tânia Lima: “E tudo brilhava lá do teto / Mas era uma casa pobre / tão pobre / que não vi / um só livro / um sequer para contar / a história” (2000, p.43). Gaston Bachelard (2003) fala das imagens da casa que tornam nossa infância um lugar “imóvel” evocado por nossas lembranças íntimas. A casa é o nosso abrigo, o nosso ninho que nos guiará pelo mundo afora. Na casa nos sentimos protegidos, seguros e amados pela nossa família, escutamos narrações de suas experiências pessoais, de aventuras, reinos encantados, sobrenatural, monstros, animais falantes, que nos ajudam a compreender o mundo. Solano Trindade revisita suas memórias, tenta reorganizar as imagens e lembranças da casa. Nessa travessia, a voz fragmentada do pai migra para o presente, é perpetuada nas vozes que emergem dos versos (SOUZA, 2006). ABENÇAM PAPAI, QUE BICHO É ESSE? (...) Eu era criança papai me contava FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 67 histórias de Trancoso que entravam por uma perna de pinto e saiam poruma de pato e o senhor rei que nos contasse quatro e se entrasse pela de pato saísse pela de pinto o senhor rei que contasse cinco! (TRINDADE, 1961: p.144) No poema “Abençam, papai que bicho é esse?”, Solano incorpora ao discurso poético nomes da historiografia literária lusa. Faz alusão às “histórias de Trancoso”, para enfatizar uma forma de narrar notavelmente difundida entre as camadas populares do Nordeste do Brasil, cujo modelo referenciava o prosador português Troncoso. Aliás, as “histórias de Trancoso” passaram a designar os contos fabulosos, maravilhosos, fantásticos de autoria ou reinventados pela gente simples do povo. A fala coloquial do povo, as palavras do dia-a-dia do homem comum, os versos curtos, sonoros, musicais, fáceis de serem cantados ou recitados, bem como a temática, os assuntos tratados no seu texto atestam o caráter de oralidade à escritura de Solano em diálogo e sua relação com a tradição dos cantos, narrativas e canções populares afrodescendentes (SOUZA, 2006). E papai viver me fazia com rei e rainha e bichos que falavam fadas e monstros Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 68 princesas encantadas “Comadre Onça morreu Disse a cabra ao macaco” Eu achava bonito eu achava engraçado [...] (TRINDADE, 1961, p. 144-145) Na apresentação da coletânea de poemas de Solano Trindade, intitulada Cantares ao meu povo (1961), Carlos Freitas comenta que o trovador negro, quando morava no Rio de Janeiro: “Todos os dias tomava um trem de subúrbio para Caxias, e essa vida de vai e vem calou tanto em seu espírito que sua poesia chegou a adquirir um ritmo de trem correndo nos trilhos” (1961, p.13). O poema antológico “Tem gente com fome” foi escrito em 1943. Os versos são fiéis à realidade dos pobres que vivem à margem da sociedade urbana. Há um mito em torno do engenho criador de poetas e músicos afro- brasileiros e afro-norte-americanos do século XX, que migraram do campo e da pequena cidade para a metrópole. Eles deram um novo rumo à poesia e à música nos seus respectivos países. Solano sofre o impacto, o choque da metrópole na alma, e se desencanta ante a condição de pobreza de homens e mulheres que vivem na periferia da cidade grande, ao se deparar frente a frente com a fome estampada no rosto triste dos passageiros do “Trem sujo da Leopoldina”. Numa simbiose entre poesia e experiência vivida pelo griô da diáspora, a palavra se mimetiza em sons férreos, em onomatopéias metálicas que reproduzem imagens visuais e sonoras, como o trem de ferro em movimento sobre os trilhos, o apito: “Piiiiii” de partida e o freio na chegada às estações ferroviárias das cidades no roteiro da linha de ferro: “Psiuuuuuuuu”, chamando atenção para o embarque e o desembarque da gente anônima, da gente que tem a cara da fome, já cansada, após mais um dia de trabalho exaustivo. Os versos de “Tem gente FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 69 com fome” incorporam o ritmo e a atmosfera do trem suburbano do Rio de Janeiro, em que Solano viajava, diariamente, lado a lado com o povo sofrido. Ele era aquela gente, viajando no mesmo trem, tentando cruzar as mesmas fronteiras que davam passagem a suas utopias. Costumava dizer em tom de ironia e tristeza “Moro numa ilha rodeada de bar por todos os lados”. O poeta reinventa a utopia do discurso da negritude brasileira dos anos 40, redimensionando na sua escritura poética os ideais universais de igualdade social e de solidariedade entre os povos da América. O poema possui um ritmo musical acentuado pela repetição e o jogo das palavras. Os versos “tem gente com fome” é repetido em coluna tríplice, ou seja, na estrofe de três versos iguais, posicionada irregularmente no final de cada estrofe do poema. A repetição sonora e sistemática dos versos “tem gente com fome / tem gente com fome / tem gente com fome”, no final de cada estrofe, sugestionam sons onomatopaicos e imagens, que imitam o sacolejar, o ritmo do velho e lento trem de ferro, o som das rodas sobre os trilhos ou o ruído férreo e metálico nasalizados das engrenagens, que fazem as rodas girarem pesadamente sobre os trilhos (SOUZA). TEM GENTE COM FOME Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome Piiiiii [...] Tantas caras tristes querendo chegar Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 70 em algum destino em algum lugar Só nas estações quando vai parando lentamente começa a dizer se tem gente com fome dá de comer [...] (TRINDADE, 1961, p. 65-66) A palavra simples, direta, sonora e fácil de ser cantada torna a poesia de Solano sempre atual, ao gosto das crianças, leitores jovens e da nova geração de poetas afro-brasileiros, entrando em sintonia e diálogo com o discurso das letras de rap, do hip hop da periferia, principalmente do ponto de vista do sentimento de solidariedade e denúncia reivindicatória ao cantar a realidade próxima. Na década de 70, o “Trem sujo da Leopoldina” e “Mulher Barriguda”, de Solano Trindade, foram gravados pelos Secos & Molhados, musicadas por João Ricardo e na voz de Ney Matogrosso. A poesia de Solano Trindade dialoga especialmente com a dos autores negros seus contemporâneos como Langston Hughes dos Estados Unidos, Nicolás Guillén de Cuba; também como a obra dos escritores do Movimento da Negritude de Paris dos anos 30 e 40 do século XX, este representado por Aimé Césaire da Martinica; Léopold Senghor do Senegal, Léon G. Damas da Guiana Francesa, dentre outros (SOUZA, 2006). OBRAS Poema de uma vida simples poema (1942); Seis tempos de poesia (1958); Cantares a meu povo (1961). Escreveu ainda a peça teatral Malungo (inédito). FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 71 SAIBA MAIS http://www.letras.ufmg.br/literafro/ Filmes: Quilombo de Carlos Diegues ,1984 Documentário “Solano Trindade: 100 anos” de Alessandro Guedes e Helder Vieira, 2008. “As filhas do vento” de Joel Zito Araújo, 2005. “A cor púrpura” de Steven Spielberg, 1985. 3.1.1.2 JÚLIO ROMÃO DA SILVA Júlio Romão da Silva nasceu em Teresina. Hoje, um dos homens mais eruditos do Brasil, escritor versátil e fecundo, com mais de quarenta obras publicadas, funcionário aposentado pelo IBGE, jornalista, professor, historiador, geógrafo, biógrafo, sertanista, crítico literário, dramaturgo, poeta, etnolinguista, pesquisador da língua Tupi, maçom, católico, Romão chega aos 95 anos de idade, lúcido, escrevendo e revisando seus escritos.Restabelece, portanto, a função do griot na diáspora negra, poeta e cantor da tradição africana e guardião da memória pessoal e coletiva, narrador da saga de pessoas ilustres da aldeia. Um dos escritores atuantes do Movimento da Negritude Brasileira dos anos 40, 50 e 60, membro do Partido Comunista, homem das letras situado no centro dos acontecimentos culturais, sociais e políticos do Brasil (FERREIRA, 2012). Júlio Romão da Silva, o paulista Abdias do Nascimento, o baiano Fonte:http://g1.globo.com/pi/ piaui/noticia Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 72 Milton Santos e o também piauiense Clóvis Moura estão entre os brasileiros negros de erudição mais sólido do século XX. Romão publicou mais de quarenta obras entre livros e opúsculos. Dos quais, oito peças teatrais; ensaios críticos sobre literatura afrodescendente; biografias de escritores, artistas e homens negros ilustres; dicionários e gramáticas indígenas, crônicas históricas de cidades brasileiras, dentre outros estudos. Capoeirista na juventude, poeta e letrista, compôsletras de samba para o carnaval carioca. Romão é um dos pioneiros da crítica literária afrodescendente no Brasil, com o livro intitulado Luís Gama e suas poesias satíricas (1954), reeditado em 1981, publicando posteriormente outros ensaios críticos sobre a obra desse poeta ex-escravo e maior conhecedor da jurisprudência antiescravagista do seu tempo, o que também confere a Romão a autoria de um dos ensaios críticos (e biográficos) mais completos da poesia desse escritor negro. J. Romão da Silva é também autor do primeiro livro sobre a transferência da capital do Estado do Piauí da antiga capital Oeiras para Teresina (FERREIRA, 2012). A saga de Júlio Romão da Silva se assemelha à dos mártires e grandes benfeitores da humanidade. Marceneiro na infância e na adolescência. Negro e pobre passou por inúmeras provações e constrangimentos. Mas não se deixou abater pelos percalços da vida, seguiu em frente na busca do sonho de tornar-se doutor e um grande homem. À custa de muito estudo, dedicação, perseverança e trabalho vieram conquistas pessoais e estas não foram poucas. Não esqueceu o compromisso de homem negro, de origem humilde, comprometido com a condição humana dos seus irmãos de cor e classe social, e ainda com o futuro político do país e da terra natal (FERREIRA, 2012). . Preconceito racial na ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS? Atualmente, Romão é membro da Academia Piauiense de Letras e recebeu dois prêmios da ABL, com os livros: Geonomástico carioca de procedência indígena (etnolinguística), 1962; José, o vidente: a saga de Israel (teatro), FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 73 1983. Apesar de ter “muitos amigos e trânsito livre na Academia Brasileira de Letras”, como habitualmente costuma dizer o nosso autor, tentou por três vezes ingressar como membro da ABL, mas o sonho se sentar na cadeira dos “imortais” foi barrado pelo preconceito. Na primeira invertida, fora preterido pelo romancista Orígenes Lessa; na segunda vez, abriu “mão da vaga para Castelinho”, jornalista famoso e também piauiense; na terceira vez em que se candidatara, já havia transferido residência para Teresina. Os indeferimentos teriam sido motivados pelo fato de ser preto retinto? E ainda por ser um escritor negro e grande parte de sua obra tratar especialmente de estudos relacionados às temáticas afrodescendentes e indígenas? Machado de Assis também é negro. A cor escura do escritor mais aclamado do Brasil, fundador da ABL, foi camuflada durante muitos anos pela academia e o cânon brasileiro. Nas duas primeiras vezes em que se candidatara, Romão era atuante e respeitado como jornalista e escritor premiado. Homem de admirável cultura humanística, foi repórter político e responsável pelo Suplemento Econômico do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, colaborador dos principais jornais cariocas, como Última hora, Correio da Manhã (FERREIRA, 2012).. Aos dezenove anos de idade, Júlio Romão da Silva partiu de Teresina para São Luís do Maranhão. Depois de morar algum tempo na Ilha, viajou com destino ao Rio de Janeiro, no porão de um navio cargueiro. A alimentação era rapadura com farinha e os parceiros de viagem retirantes nordestinos, fugitivos da seca. Episódio que nos remete à memória fatídica dos antigos tumbeiros ou navios negreiros provenientes da África. No Rio de Janeiro, dormiu na rua, limpou latrina e anos mais tarde, seria eleito a Deputado Estadual pelo antigo Estado da Guanabara. Formou-se na primeira turma do curso de Comunicação da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro antigo Distrito Federal. Como Jornalista adquiriu grande prestígio. Foi homenageado com nome de rua, no Rio de Janeiro, ocupou cargos e posições das mais cobiçadas. Foi amigo Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 74 de Grande Otelo e Abdias do Nascimento. Manteve contato e conviveu com personalidades ilustres do mundo literário, artístico e político como Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Marechal Rondon, os Irmãos Vilas Boas, o arquiteto Niemayer, Carlos Prestes, dentre outros (FERREIRA, 2012). Consciente da condição de escritor negro, engajado nos princípios de igualdade social e racial, uniu-se a jovens autores negros, tornando- se uma das pedras fundamentais na construção dos ideais políticos, estéticos e culturais do Movimento Literário da Negritude Brasileira. Ao lado de intelectuais como Abdias do Nascimento, Solano Trindade, Édison Carneiro, Aguinaldo de Oliveira Camargo, dentre outros, participou da criação do Teatro Experimental do Negro – TEN, Teatro Popular Brasileiro - TPB, Orquestra Afro-Brasileira, Fundação do Centro Cultural e do Comitê Democrático Afro-Brasileiro. A edição bimestral de março/abril de 1950 do Quilombo, periódico editado entre dezembro de 1948 a julho de 1950, em dez edições, dirigido por Abdias Nascimento, dedica um artigo à obra de Júlio Romão da Silva e fala da sua atuação e significado como escritor negro e homem público. Pelo que sua obra representa e o seu viés literário afrodescendente, adicionado à participação nos movimentos culturais e artísticos da negritude de então, a militância política antirracista, a crítica literária afrodescendente, o ensaio biográfico e o teatro, Júlio Romão da Silva juntamente a escritores como Abdias do Nascimento, no teatro; Solano Trindade, na poesia e Maria Carolina de Jesus, no romance; Eduardo de Oliveira, também na poesia, estão os nomes mais representativos da literatura afro-brasileira nos tempos do Movimento da Negritude Brasileira, entre os 40 a 60 do século XX. Da criação literária de Romão, merecem maiores destaques as duas peças do ciclo bíblico José, o vidente e A Mensagem do Salmo (Saga dramática do Cristianismo), a última foi publicada e encenada pela primeira vez em 1967, no Rio de Janeiro. O Brasil vivia a crise política que se instalara FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 75 com o golpe militar de 31 de março de 1964. A história da vida de Romão e a de Cristo se assemelham em vários pontos. Os dois são de origem humilde, filhos de operário e carpinteiros na juventude. Júlio é negro. Cristo é judeu. Ambos descendem de povos que foram vitimados pela violência dos sistemas de escravidão e de preconceito racial. Sob a perspectiva da escrita afrodescendente, Júlio Romão recria os Evangelhos bíblicos de Mateus, Marcos, Lucas e João que, através de parábolas contam a Saga do Cristianismo e a de Jesus. A ação dramática se inicia com a narração do nascimento de uma criança pobre - na “manjedoura” -, agasalhada ao humilde presépio de palha (FERREIRA, 2012)... As vozes do “Coro”, no “Prólogo” ou início da peça, anunciam a “Boa Nova”, a chegada do Filho de Deus ao mundo, cujas vozes são entrecortadas pelos gritos e exclamações dos convertidos pela anunciação do Anjo divino: ”CORO - I FIGURA FEMININA (numa extremidade do proscênio) / Da palha que o boi comia / No chão estrumoso, / Cheirando a esterco, O ninho moldou-se” (SILVA, 2007, p.13) A música, o lirismo, a melodia, as palavras simples dos versos que compõem o “Coro”, transmitem o cheiro, arquitetam, desenham, pintam o lugar, a atmosfera física e espiritual do espaço improvisado e humilde do nascimento de uma criança, ante a presença dos pais e de animais, estes: “A cabra”, “A vaca”, “O bezerro”, compondo a cena. O “Coro” lembra as doces canções de ninar e as histórias de fadas que os nossos pais, tias, avós cantaram ou contaram para acalantar o nosso sono quando éramos crianças. A transculturação desse modo de cantar e narrar reterritorializam no Novo Mundoa tradição das narrativas orais que migraram da África através da “Porta do Não Retorno” (BRAND, 2002), no porão do navio negreiro, e pulverizaram com seus mitos, experiências, sabedorias e beleza as narrativas e as canções das cidades, campos e lugares longínquos das Américas. O cativo africano não chegou de alma vazia, trouxe a riqueza de sua cultura: “[... ] a história social do Negro não Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 76 começou na América. O Negro foi trazido de um meio social definido - a vida polígama do clã, sob o comando do chefe e a poderosa influência do sacerdote. Sua religião era o culto à natureza, com uma profunda crença nas influências invisíveis circundantes, boas e más”, (DU BOIS, 1999, 245- 246). A Mensagem do Salmo é uma escrita híbrida, creolisada, que significa a dinâmica, a circularidade da cultura negra em Diáspora e seu diálogo com outras culturas: “a crioulização supõe que os elementos culturais colocados em presença uns dos outros devam ser obrigatoriamente “equivalentes em valor” para que essa crioulização se efetue realmente” (GLISSANT, 2005, p.28). Isso propicia os modos de narrar e conceber um Cristianismo recriado à imagem do próprio negro e ressignificado nas Américas. A escrita de Júlio Romão da Silva desloca a ideia do Cristo puramente ocidental, reinscrevendo-o num espaço aberto à relação com a religiosidade do outro, em simbiose com a cultura da diáspora africana. W. E. B. Du Bois discorre sobre a herança religiosa dos nossos antepassados negros durante os ritos evangélicos e o diálogo que se estabeleceu entre as religiões desses africanos e o Cristianismo no Novo Mundo: “Assim, como bardo, médico, juiz e sacerdote, dentro dos estreitos limites impostos pelo sistema escravista, ergueu-se o pregador negro e, sob seu comando, surgiu a primeira instituição afro-americana, a igreja negra. De início, essa igreja não era cristã, tampouco claramente organizada; em vez disso, constituía, nas diferentes plantações, uma adaptação e uma mistura de ritos pagãos, sendo vagamente designada como vodu. A associação com os senhores, o esforço dos missionários e motivos de conveniência deram a tais ritos um verniz inicial de cristianismo e, após o lapso de muitas gerações, a igreja negra tornou-se cristã” (DU BOIS, 1999, p. 248). FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 77 3.1.1.3 CAROLINA MARIA DE JESUS Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) nasceu em Sacramento, Minas Gerais e morreu em Parelheiros, São Paulo. Filha de trabalhadores rurais e pobres, provavelmente neta de escravos, Carolina possuía pouca escolaridade, cursou apenas dois anos de escola do ensino regular. Em 1930, muda-se juntamente com a mãe para Franca, no estado de São Paulo e, em 1937, quando se dá morte da mãe, migra para a capital, São Paulo, onde se torna moradora da favela Canindé. Inicialmente, foi empregada doméstica e depois catadora de papel. Os primeiros contatos de Carolina com a mídia se deu pelo intermédio do jornalista Audálio Dantas através de publicação de reportagens no jornal paulista Folha da Noite, em 1958 e na revista Cruzeiro, em 1959. “O sucesso e a fama vieram em 1960, quando a Livraria Francisco Alves lançou o livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, constituído por fragmentos do diário de Carolina Maria de Jesus editados por Audálio Dantas. A obra foi um sucesso: [...], tendo sido objeto de reportagem de Life, Paris Match, Realité e Time” (LAJOLO, 2011, p. 439-440). Quarto de despejo: diário de uma favelada é a história de uma mulher negra e pobre, escrita por ela mesma, e a sua luta diária como catadora de lixo na cidade de São Paulo para garantir a própria sobrevivência e a dos filhos. Este relato de experiência é o registro de uma vida difícil, marcada pela condição de miséria das pessoas que viviam na favela Canindé, à margem do rio Tietê, no final da década de 1950. Embora hoje se possa afirmar que houve mudanças significativas, esse tipo de tragédia ainda se repete para milhões de brasileiros mesmo depois de mais cinquenta anos da publicação da primeira edição da obra. Por isso muito atual. A realidade Fonte: thesunsets.wordpress.com Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 78 da favela urbana e dos seus moradores é apresentada fielmente, sem idealizações ou fantasias e com suas nuances trágicas. Os dias e as noites se repetem sem ou quase nenhuma esperança, cheios de incertezas, e o medo da fome, a fome sempre à espreita, porque nada é garantido de que no dia seguinte se terá o que comer. O pão, a farinha, o arroz, o naco de carne, este bem de consumo de luxo na mesa da protagonista e dos filhos, são tirados com muito esforço do papel catado e vendido na lida do dia a dia. A priori, Quarto de despejo foi a galinha dos ovos de ouro de Carolina, a obra ultrapassou as expectativas de vendagem e aceitação da época, rompeu as fronteiras das pequenas edições brasileiras e também causou opiniões contrárias quanto à originalidade autoral, por se tratar de uma autora negra, favelada e “semianalfabeta”, mas essas opiniões foram exorcizadas por Manuel Bandeira, poeta e crítico conceituado da época e pelo acolhimento imediato da obra no meio universitário.Em 1960, ano de sua publicação, a obra já se tornara um sucesso de vendagem. A partir de 1962, Quarto de despejos ganha projeção internacional. O jornalista Audálio Dantas, responsável pela iniciativa e a quem se deve o mérito de intermediar a divulgação da escritora favelada junto à mídia brasileira e de editar sua primeira obra, afirma que “Um livro assim, forte e original, só podia gerar muita polêmica. Para começar, ele rompeu a rotina das magras edições de dois, três mil exemplares, no Brasil. Em poucos meses, a partir de agosto de 1960, quando foi lançado, sucessivas edições atingiram, em conjunto, as alturas dos 100 mil exemplares” (DANTAS, p.4). Quarto de despejo é um livro escrito em linguagem simples, acessível e comovente, o que explica o seu sucesso entre as diversas camadas de leitores brasileiros e de outros países. A obra alcançou sucesso e a autora destaque internacional, sendo traduzida em inúmeras línguas e países diferentes. Em 1960, com o sucesso de vendas de Quarto de despejos, Carolina Maria de Jesus muda-se da favela e passa a frequentar o meio dos escritores e intelectuais brasileiros. Publicou ainda várias obras, embora FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 79 estas tenham sido um fracasso de venda e de crítica no Brasil, a autora, porém, continuou despertando interesse na universidades brasileiras e no exterior. Quarto de despejos: diário de uma favelada e outros livros de Carolina compartilham da tradição literária afrodescendente que tem como matéria-prima o relato de experiências de uma escrita autobiográfica dos negros, cuja gênese se deve às “narrativas escravas” escritas por homens e mulheres africanas e seus descendentes escravizados na diáspora, que contaram sobre suas experiências vivenciadas na escravidão e seus horrores,em países das Américas e do Caribe, como Brasil, Estados Unidos, Cuba, Martinica e tantos outros. OBRAS PROSA Quarto de despejo: diário de uma favelada. Organização e apresentação de Audálio Dantas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1960. Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves/Editora Paulo de Azevedo Ltda., 1961. Pedaços da fome. Prefácio de Eduardo de Oliveira. São Paulo: Áquila, 1963. Provérbios. São Paulo: [s.n.], 1963 Um Brasil para brasileiros. Riode Janeiro: Nova Fronteira, 1982. Diário de Bitita.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. Meu estranho diário. Organizaçãode José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert Levine. São Paulo: Xamã, 1996. POESIA Antologia pessoal. Organização de José Carlos Sebe Bom Meihy. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 80 Fragmentos de Quartos de despejos: diário de uma favelada 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Anualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. Eu não tinha um tostão para compra pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. À noite o peito doía-me. Comecei tossir. Resolvi não sair à noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O ônibus atirou um garoto na calçada e a turva afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei- lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa. (JESUS, 2005, p.9) [...] 16 DE JULHO Levantei. Obedeci a Vera Eunice. Fui buscar água. Fiz o café. Avisei as crianças que não tinha pão. Que tomassem café simples e comessem carne com farinha. Eu estava indisposta, resolvi benzer-me. Abri a boca duas vezes, certifiquei-me que estava com mau olhado. A indisposição desapareceu sai e fui ao seu Manoel levar umas latas para vender. Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender. Deu 13 cruzeiros. Fiquei pensando que precisava comprar pão, sabão e leite para a Vera Eunice. E os 13 cruzeiros não dava! Cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. A Vera não tem sapatos. E ela não gosta de andar descalça. (id., ibid.) [...] 25 DE DEZEMBRO ... O João entrou dizendo que estava com dor de barriga. Percebi que foi por ele ter comido melancia deturpada. Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio. Não sei por que é que estes comerciantes inconscientes vêm jogar seus produtos deteriorados aqui perto da favela, para as crianças comer (id., p. 128). FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 81 ... Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos. Só que o Cesar da atualidade supera do passado. Os outros era perseguido pela fé. E nós, pela fome! (p. 128-9). [...] 3.2 Principais autores dos cadernos negros Os Cadernos Negros são coletâneas anuais publicadas pelo grupo Quilombhoje Literatura. Surgiu em São Paulo em 1978 no CECAN – Centro de Cultura e Arte Negra, espaço onde jovens se reuniam e participavam de discussões políticas. As coletâneas reúnem diversos autores, de diferentes cidades do Brasil, que financiam a publicação da coletânea. A cada ano a coletânea prioriza um gênero textual: contos, poesias. (FLORENTINA e LIMA, 2006). Dentre os autores constam os fundadores, como Cuti (Luiz Silva), Oswaldo de Camargo, Miriam Alves, Márcio Barbosa, Jônatas Conceição, Éle Semog, Esmeralda Ribeiro que fazem de sua escrita um veículo contra o preconceito e a exclusão do negro brasileiro. A partir de 1978, com a publicação dos Cadernos Negros, número 1, dá-se início a um acontecimento inusitado na história da literatura brasileira, quando em torno desse periódico reúne-se uma geração de vários escritores e escritoras negras que passariam a publicar anualmente seus poemas e contos, financiados por eles mesmos, através de um sistema de cooperativa, editados pelo Quilombhoje que surge dois anos mais tarde, em Fonte:www.quilombhoje.com.br Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 82 1980, garantindo a publicação dos Cadernos, de maneira sistemática - um ano poemas e o ano seguinte contos, alternadamente. Em 2012, foi editado os Cadernos Negros volume 35, poemas. Além das trinta e cinco edições, em comemoração aos seus vinte anos de existência, foram editados os Cadernos Negros: os melhores poemas e os Cadernos Negros: os melhores contos, São Paulo: Quilombhoje, 1998. Em 2008, seria a vez dos Cadernos Negros: três décadas: ensaios, poemas e contos/organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, São Paulo: Quilombhoje: Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, 2008. As publicações dos CN contribuíram de modo decisivo para a consolidação e o reconhecimento da literatura afro-brasileira contemporânea nos espaços acadêmicos, sobretudo como objeto de estudo e pesquisa em eventos como simpósios, encontros e congressos literários. 3.2.1 CONCEIÇÃO EVARISTO Maria da Conceição Evaristo de Brito (1946) nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 29 de novembro de 1946. Foi empregada doméstica na adolescência, concomitantemente ao estudo e conclusão no antigo Curso Normal no Instituto de Educação, na capital mineira. A partir de 1973, passou a residir no Rio de Janeiro. Graduou-se em Letras (Português – Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Obteve o título de Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e o de Doutora pela Universidade Federal Fluminense. Conceição Evaristo é poeta, contista, romancista, ensaísta, pesquisadora, professora da rede pública, educadora engajada nas questões relacionadas ao ensino dos conteúdos disciplinares relacionados à literatura, história e cultura afrodescendente na educação do Ensino Básico. Conceição Evaristo tem alcançado notoriedade como escritora afrodescendente através da publicação de poemas e contos nos Cadernos FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 83 Negros, nos volumes 13 a 16 (1990 a 1993); 18 e 19 (1995 e 1996); Cadernos Negros: os melhores contos (1998); Cadernos Negros: os melhores poemas (1998); 21 e 22 (1998 e 1999); 25 e 26 (2002 e 2003); 28 e 30 (2005 e 2007); Cadernos Negros: três décadas: ensaios, poemas, contos (2008); 34 (2011). Em 2003, publica o seu primeiro romance Ponciá Vicêncio e em 2006, Becos da memória, ambos editados pela Mazza, Belo Horizonte. Tem publicado ainda poemas e contos em antologias editadas no Brasil e no exterior. Convidada como escritora palestrante em universidades brasileiras e de outros países, Evaristo também se destaca pela habilidade como autora de ensaios críticos sobre literatura afrodescendente. O romance Ponciá Vicêncio é a obra de Conceição Evaristo que tem atingido maior sucesso de venda e de crítica, em via de se transformar num best-seller do romance afro-brasileiro contemporâneo, como já insinuara Maria José S. Barbosa, no Prefácio da edição de 2003. O primeiro romance de Conceição Evaristo é narrado sob a perspectiva da autoria feminina e afrodescendente, quando os episódios tecem uma teia que restaura a memória individual e a coletiva, vivenciada pela protagonista, seus familiares e ancestrais, escravizados. O avô cotó que tivera um dos braços mutilados - a infância de Ponciá Vicêncio (nome que dá título ao romance) numa comunidade rural de artesãos no interior de Minas Gerais são lembrados pela narradora com “ternura”, lírica esta que trespassa as fronteiras do passado ao presente, da ficção à realidade, do ódio, do desespero à loucura, do amor à cumplicidade, da memória pessoal à coletiva ou da família.[...] de uma descendente de escravos, desde a infância, nas terras dos antigos senhores, até a maturidade vivida na favela da metrópole contemporânea. [...] A ausência de cidadania, que assinala a condição da maioria dos afro-brasileiros, é marca constitutiva não só do enredo, mas da própria identidade da protagonista, pois o Vicêncio que lhe serve de sobrenome provém diretamente do antigo senhor de seus ancestrais. Com habilidade ímpar, o romance entrelaça de forma descontínua Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 84 vidas passadas e presentes, memória individual e coletiva. E retorna às terras do Coronel Vicêncio para falar do avô enlouquecido ao ver os filhos serem vendidos, mesmo depois da Lei do Ventre Livre, e, também, do pai, que, quando criança, servia de brinquedo ao sinhorzinho (CAMPOS e DUARTE, 2011, p. 2009). A narrativa de Conceição Evaristo é circular em forma de espiral, recriada da tradição oral de origem africana através do relato de experiências que envolvem problemas, conflitos, decepções, superações vivenciadas pelos negros em diáspora, representados pela protagonista Ponciá, familiares e antepassados vítimas da escravatura. No romance em análise, a memória familiar é protagonizada de geração a geração, formando-se um elo entre o presente e o passado, de tal modo que, ao ser revelada a memória individual e coletiva dos moradores negros de uma comunidade de artesão do interior de Minas Gerais, faz-se a conta-gotas como a história que antes em parte fora esquecida, o não dito que passa a ser dito pela escritora afro-brasileira.A construção da identidade afrodescendente na escrita literária de Evaristo se faz por via da construção do imaginário e da identidade negra que são ressignificadosna história dos antepassados, recontada à protagonista quando esta retorna à casa dos parentes negros. Ponciá Vicêncio, quando ficou por uns dias nas terras dos negros, visitou a casa de uns e de outros. Em todas, encontrou trabalhos de barro, feitos por ela e por sua mãe. E de todas as pessoas, Ponciá ouviu a mesma observação. Ela era a pura parecença com Vô Vicêncio. Tanto o modo de andar, com o braço para trás e a mão fechada como se fosse cotó, como ainda as feições do velho que se faziam reconhecer no semblante jovem da moça. A neta, desde menina, era o gesto repetitivo do avô no tempo. Escutou também, por diversas vezes, a história dolorosa, que ela já sabia, da morte da avó pelas mãos do avô. Relembravam o desespero e a loucura do homem. Falavam também do ódio que o pai dela tinha por Vô Vicêncio ter matado a mãe dele. Ponciá sabia dessas histórias e de outras ainda, mas ouvia tudo como se fosse pela primeira vez. Bebia os detalhes. Bebia os detalhes remendando cuidadosamente o tecido roto de um passado, como alguém que precisasse recuperar a primeira veste para nunca mais se sentir desamparadamente nua. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 85 Nos dias em que ficou no povoado à espera do trem, por várias vezes sentiu o vazio, a ausência de si própria. Caía meio morta, desfalecida, vivendo, porém, o mundo ao ardor, mas não se situando, não se sentido. As pessoas não se assustavam com o desfalecimento de Ponciá. Ela ia e vinha de suas ausências, nenhum pavor, nenhuma estranheza dos outros ela percebia (EVARISTO, 2003, p. 63). Referindo-se ao legado da tradição oral africana e a consciência racial do narrador “negro-brasileiro”, Cuti assegura: “Os aspectos formais herdados das tradições africanas, como o vocabulário, o ritmo, a recriação de tradição oral, fazem sentido se associados a um processo de consciência racial em franco desenvolvimento. O texto que se quer negro-brasileiro refere-se à vida e aos conflitos da população descendente de escravizado” (CUTI, 2010, p. 60-61). Da tessitura lírica do romance Ponciá Vicêncio emana a voz do sujeito negro, quando a narrativa expõe a violência e a desumanidade praticada ao negro escravizado e o preconceito racial que fazem do negro brasileiro hoje pessoa invisível e estrangeiro na sua própria terra. “Ponciá, na verdade, simboliza o espaço e o tempo de uma história contundida, de exclusão e subserviência que foi imposta ao povo afrodescendente brasileiro” (SILVA, 2007, p.73). A experiência pessoal da autora põe a narradora a arquitetar uma história que se baseia no testemunho de episódios presentes, na memória individual e coletiva, na história de vida de pessoas mais velhas da comunidade, contadas por elas mesmas e escritas sob o viés da “identidade por dentro” (CUTI, 2010, p.85). Entrelaçando-se estão: crianças, jovens e adultos; homens e mulheres; trabalhadores e vagabundos; moças e prostitutas. Cada qual com sua pequena história, arquitetando as idas e vindas, imprimindo sua passagem, compondo formas de ser. Em busca de todas essas histórias estava Maria-Nova, atenta ao que os outros contavam. A ela interessava as histórias de dor e sofrimento (EVARISTO, 2006). Nesse Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 86 cenário paisagístico é que apontamos esse elemento vivo na narrativa, a favela. Espaço este que, em Conceição Evaristo, exige mais do que um simples olhar sobre o sentido de sua representação estereotipada. Ainda que a questão dos estereótipos esteja presente no imaginário coletivo dos moradores da favela, a autora humaniza suas personagens de maneira que, o negro é bom e ruim ao mesmo tempo. Ou seja, não está limitada à visão reducionista do negro demônio ou do negro santo. O negro não é somente o herói romântico, figura idealizada ou exótica, tampouco o demônio dos contos infantis dos autores brancos e racistas (SILVA e FERREIRA, 2012). Walter Benjamin assevera que “a reminiscência funda a cadeia da tradição, que transmite os acontecimentos de geração em geração. [...] Ela tece a rede que em última instância todas as histórias constituem entre si” ((1994, p.211). O narrador, para este autor, é o veículo da tradição, por meio da qual, por experiência direta ou não, estabelecerá o elo entre o passado e as gerações do agora. No entanto, toda experiência do narrar é uma experiência subjetiva, no qual o narrador é partícipe na construção da história, insere, portanto, as marcas de suas experiências no que é narrado (SILVA e FERREIRA, 2012). Elio Ferreira considera que “identidade e memória andam lado a lado, percorrem caminhos que se bifurcam na encruzilhada dos tempos presente, passado e futuro” (2004, p. 31). Evaristo consegue construir a identidade coletiva dos negros da favela a partir da reunião das memórias narradas pelos “griôs” do Beco. Maria- Nova é a garota de 13 anos que sai a recolher essas memórias e que mais tarde será responsável pela sua narração. Ela será a porta-voz da tradição à medida que recolherá as memórias e as experiências com o intuito de mantê-las vivas (SILVA e FERREIRA, 2012). Em um instante, ela apenas gostava de ouvir as histórias, mas aos poucos vai percebendo nela o desejo de perpetuar as memórias que ouvira de Tio Totó, de Vó Rita, de Bondade, de Maria-Velha e de todos os outros moradores do Beco que viam nela, uma futura contadora de histórias. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 87 Ela aproxima-se da figura benjaminiana do flanêur (BENJAMIN, 1989) por estar constantemente a transitar pelas ruas da favela, contemplando os espaços, acompanhando as fantasmagorias do beco – os tratores –, ouvindo as narrativas, admirando a simplicidade. Maria-Nova sabia que um dia iria contar essas histórias, sabia que um dia iria escrevê-las. O enredo da obra é construído por vozes híbridas que se agrupam para construir uma memória coletiva, a memória do Beco. As memórias tornam possível a identificação entre eles. São as presenças comuns nasmemórias de cada um deles que torna possível a construção de Becos da memória. São as dores compartilhadas, as perdas, os conflitos internos e externos, a condição étnico-social. Maria-Nova será a linha e a agulha que costurará as narrativas das personagens de forma a compreendermos como uma só: o romance Becos da memória (SILVA e FERREIRA, 2012). A lírica e os contos de Evaristo, publicados em inúmeros Cadernos Negros, dão provas de simplicidade e sutileza de uma grande poesia. O corpo se rebela na sua nudez, com o sexo feminino sangrando para resgatar a mulher forte e bela dentro de si mesma e para a vida. Ela, mulher, consciente de que guarda no ventre a própria vida humana, de ser a matriz, de conceber a luz à humanidade, de ser o casulo da existência que explode em versos de amor, dor e revolta na poesia de Conceição Evaristo, porque o desejo de continuar vivendo transcende todos os tempos e percalços, preenchendo as lacunas, vazios e abismos de um amanhã. EU – MULHER Uma gota de leite me escorre entre os seios. Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas Meia palavra mordida me foge da boca. Vagos desejos insinuam esperanças. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 88 Eu–mulher em rios vermelhos inaugura a vida. Em baixa voz violento os tímpanos do mundo. Antevejo Antecipo Antes-vivo. Antes –agora –o que há de vir. Eu fêmea-matriz Eu força motriz Eu–mulher abrigo da semente moto-contínuo do mundo.(EVARISTO, 1998, p. 41) Mais do que contar uma história, a poesia deseja transmitir as emoções humanas. É quando a palavra não quer apenas representar, mas ser a própria coisa e influir nas relações do mundo. Como é possível se constatar nos poemas acima, a autora negra escreve com o corpo e, na condição de mulher, fala como “matriz” e centro do mundo. Há uma preocupação com o interdito nas entrelinhas das palavras, com o não-dito por já não se ter tanta certeza do dia em que “os séculos” deixarão de ser abismo. 3.2.2 CUTI (LUIZ SILVA) Cuti (pseudônimo de Luiz Silva) nasceu em 1951, na cidade Ourinhos, São Paulo. Mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Foi um dos fundadores dos Cadernos Negros(1978) e do Quilombhoje Literatura (1980), este grupo é responsável pela edição dos Cadernos. O autor publica FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 89 regularmente poemas e contos nos Cadernos Negros desde sua fundação, em quase todos ostrinta e oito volumes editados. Cuti é poeta, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, professor. Um dos escritores negros mais prolíferos e referenciados do país, seus poemas e contos tornaram-se presença obrigatória em antologias e coletâneas de literatura afro-brasileira contemporânea, publicadas no Brasil e no exterior. Estudioso da obra de autores negros como Luiz Gama, Cruz e Sousa, Lima Barreto, Solano Trindade, e contemporâneos, o ensaio e a crítica literária de Cuti sobre “literatura negro-brasileira” (2010) também é referência indispensável para a compreensão da história, da tradição literária, do conceito e fundamentos da literatura escrita pelos afrodescendentes no Brasil. Tanto os poemas quanto os contos de Cuti são marcados pelo vigor, criatividade, “afetividade” e simplicidade de uma escrita que problematiza a discriminação e o preconceito racial dissimulado à moda brasileira, mas sem comprometer a sua essência literária.Os temas percorridos pela sua obra são diversos e dizem respeito à experiência de homens e mulheres negras.Amor, ódio, amizade, erotismo, “resignação, resistência”, afirmação da identidade negra, recuperação da memória afrodescendente, religiosidade,exclusão e invisibilidade étnico-racial, ironia, relações entre negros e brancos perpassam os poemas, narrativas e ficções de forma poética e envolvente sem negligenciar o compromisso do autor com a história, a cultura e os valores do negro, no sentido de construir uma imagem positiva no imaginário dos brasileiros em relação ao africano e seus descendentes negros em diáspora. A trajetória de Cuti está diretamente relacionada ao sentimento de negritude, embasado na reivindicação pelo direito à cidadania enquanto negro e brasileiro, na solidariedade e irmandade entre os negros de todos os lugares, nações e continentes, que moveu a criação do Movimento Negro Unificado – MNU (1978), dos Cadernos Negros e do Quilombhoje, em São Paulo, e de movimentos sociais e culturais negros de outros lugares do Brasil. Na apresentação de Quizila (1987), editado pelo Quilombhoje, Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 90 primeiro livro de contos de Cuti, Esmeralda Ribeiro dá-nos uma ligeira ideia do que é ser negro e ser um escritor negro e militante num país que há pouco fora regido, por vinte anos, pelo governo militar que cerceou e proibiu todo o tipo de manifestação advinda do povo brasileiro, seja de cunho social ou racial. Aquele regime de ditadura havia se exaurido em 1984; contudo, os problemas relacionados à discriminação, ao preconceito, à exclusão do negro não estavam incluídos na pauta de debates dos programas ou projeto político do governo civil que se iniciava, ou se constavam, não havia a merecida atenção. Acerca de Quizila, Esmeralda afirma: Este é mais um livro cotizado pelos autores do Quilombhoje. O objetivo é lançar um escritor do grupo por ano. Desde 1984 este ritual acontece. Iniciou-se com OubiInaêKibuko, depois Miriam Alves e em seguida JamuMinka. “Quizila” apresenta, num total de sete contos, um forte momento de criação. A preocupação com a questão racial é demonstrada em todo virar de página. Isto não quer dizer que os textos são panfletários, onde o discurso da militância sobreponha a essência do escritor, que não deixa um só instante a inquietação da novidade ir embora. O autor retrata o operário, o poeta e os militantes do Movimento Negro. São vários mundos, mas o escritor mostra, com afetividade única, os militantes em suas reuniões e seus interesses visando o fortalecimento da própria organização. É uma das poucas experiências, neste sentido, na literatura brasileira. Outros escritores já percorreram o mesmo caminho, mas Cuti, com sensibilidade e técnica, conseguiu unir o lado poeta e o lado militante, num resultado que nos toca profundamente, tornando- nos mais críticos quanto à nossa continuidade [...]. Os contos trazem à tona a problemática de negros e brancos, neste país que tenta definir sua identidade (RIBEIRO, 1987, orelha). Dentre os diversos contos antológicos de notáveis recepções, despertando interesse e destaque junto ao leitor comum e à crítica literária, chamamos atenção para os contos “Boneca” e “O batizado”, incluídos no livro Negros em contos. Na primeira história trata acerca de um problema que há muito nos deixa intrigado, quanto à ausência ou quase total ausência de bonecas negras nas casas ou lojas de brinquedos infantis do Brasil. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 91 A sua situação chega a ser no mínimo constrangedora quando tentamos presentear uma criança com uma boneca preta. No conto boneca, Cutidá o troco em forma de risovexatório e carnavalizado, assim como já o fizera Luiz Gamano poema “Bodarrada”. Ao expor o preconceito racial da sociedade brasileira, o poeta dos Cadernos Negros trata essa relação de forma irônica, criando um mal-estar ao expor o ridículo do “racismo à brasileira”, dissimulado pelosbalconistas e proprietários de uma loja de brinquedosa que se dirige para adquirir uma boneca preta. Isso depois do jovem pai/ protagonista, de trinta e três anos, peregrinar pelos centros comerciais e lojas da cidade para realizar o desejo inabalável de comprar uma boneca preta de presentede Natal para a filha, sem obter o esperado sucesso. Em vez disso: O senhor já foi atendido? Não. Por gentileza, eu estou procurando uma boneca... Temos várias. Olha aqui Barby, a Xuxinha... E a lourinha foi apanhando diversas bonecas. Colocava-as soabre o balcão, como se escolhesse para si. Olha que gracinha esta aqui de olhos azuis! É novidade. Chegou ontem e já vendeu quase tudo. Chora, tem chupeta, faz pipi... E essa outra aqui? Não é uma graça? E levou ao colo a ruivinha de tom amarelado, bem clarinha. Mexeu-lhe os bracinhos e as perninhas, e indagou: Não gostou de nenhuma? É que estou procurando uma boneca negra... Meia hora de espera. Tem sim! o dono da loja dirigia-se à empregada. Procura melhor; na prateleira de baixo, lá em cima mesmo, perto da pia. A moça subiu de novo a escada, depois de sorrir um submisso constrangimento. Desceu mais uma vez, recebeu novas instruções e tornou a sorrir. Em seguida, do alto do mezanino, mostrou o rostinho gorducho, marrom escuro, de uma boneca. Radiante, a balconista empunhava-as como um troféu. Assim desceu a escada. Mas, descuidando-se nos degraus, despencou-se. Todos se apavoraram. As colegas de trabalho foram em socorro. Nenhuma fatura. Apenas um susto. O patrão exasperou-se, mas logo conseguiu controlar-se, vermelho como pimenta malagueta. A loja estava cheia. Foi atender o cliente: O senhor desculpe a demora e o transtorno. Mas, não foi nada. O importante é que encontramos o produto. Ele está em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo encomendei na semana Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 92 passada. Mas o representante disse que a firma está exportando para a África. Está certo, mas aqui também tem freguês que procura, não é? O senhor é brasileiro? Sim. Então... O homem engoliu a frase e preparou a nota. [...] Seguiu, os passos lentos, em direção a uma lanchonete. Vai uma loira gelada aí, chefe? Pronunciou o balconista ao vê-lo sentar-se junto ao balcão. Sorriu, confirmando com um gesto de polegar. Ao primeiro gole de cerveja, sentiu-se profundamente aliviado e feliz. (CUTI, 1996, p.11-12-13). Em “O batizado”, Cuti narra os episódios acontecidos durante o batizado na casa de uma família de pessoas negras, cujo padrinho é um homem branco. A criança que recebe o batismo é sobrinho do protagonista Paulino,este pivô do conflito, desafetos e constrangimentos que se instauram no transcorrer da festa. Paulino é militante do movimento negro e na sua visão, considera inaceitável o fato do sobrinho, Luizinho, ter como padrinho um branco. Zuleica reage aos protestos e provocações de Paulino. Cunhado e cunhada se agridem mutuamente com palavras. A história é contada de forma dramática, envolvente, com muita ironia e sem gravidade, suscitando o riso, tal qual uma comédia de costumes, ao passo que as cenas narradas simbolizam crises de identidades,assimilações e resistência aos valores do branco, preconceito e estereótipos raciais da sociedade brasileira. ”O batizado” representa a realidade do negro brasileiro nos anos 80 do século passado, quando a militância jovem do movimento negro passou a interferir nos espaços e nas discussões políticas, sociais, culturais na vida familiar dos seus militantes. No entanto, Cuti não faz julgamentos, tampouco estereotipa ou põe palavras na boca das personagens do conto: Paulino, Zuleica, Dona Isaltina, Belmiro, Joana, Tico, Luizinho, todos são reais e humanas e falam a partir de suas próprias experiências, verdades, excessos, ponderações e contradições.Rosa Maria Santos Mundim observa que o “O batizado” é Escrito em um tom teatral e com toques de comédia, o conto de Cuti começa com o barulho de uma garrafa estilhaçada. O fato FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 93 poderia ser banal e sem importância na cena de um domingo de festa em família, celebrando o batizado do neto; no entanto, pelos sentimentos revelados pelos participantes, o leitor começa a perceber que algo de trágico está prestes a acontecer na festa. Tudo gira em torno da figura de Paulino, que é apresentado de forma indireta e cuja figura vai sendo traçada pela percepção das outras. Dessa maneira, antes mesmo que a fala lhe seja dada, Paulino já é analisado e julgado pelos outros (MUNDIM, 2011, p. 174). O julgamento de Paulino é feito pelas outras personagens da história, do mesmo modo que o julgamento de Zuleica é feito por Paulinho, seu desafeto. O autor negro narra os episódios como faziam os antigos narradores da tradição oral africana, que transmitiram experiências, conhecimentos, valores, revelações, narrativas de fundação sobre a origem da sua comunidade. Essa estratégia de narrar vem sendo recriada e reterritorializada nos espaços diaspóricos afrodescendentes, desde a travessia do Atlântico pelos navios negreiros. Barulho de garrafa estilhaçada. JOANA com as mãos no rosto, a vergonha queimando as faces. Seu temor da desarmonia e do vexame: Paulino estragando a festa dando o seu espetáculo de sempre não foi viajar como prometeu lá com o grupinho dele e agora ai minha Nossa Senhora o prédio amanhã vai estar em polvorosa vão comentar o papelão da casa dos pretos porque é assim mesmo que chamam a gente são capazes de ligar pra polícia só pro escândalo aumentar já devem estar rindo pelas janelas eu bem falei pra fazer a festa na casa do Tico a Zuleica não quis ia na certa dar nisso aqui... (CUTI, 1996, p.40). [...] Zuleica, com o rosto tenso, olhar determinado, entra. Que barulheira é essa aqui? Lá vem você de novo estragar a festa, rapaz? Cala essa boca! Se quiser pôr nome africano, põe no teu filho. Vai fazer filho primeiro. Me larga,Tico! Agora eu não vou deixar passar. Esse teu irmão tá pensando o quê? Tá pensando o quê, dirige-se a Paulino aos berros, hein, macaco de óculos? Você pra mim não passa de uma mulata do Sargentelli. Eu vou te mostrar, seu pedante de meia tigela... (idem, p. 44) [...] Luizinho, de barriguinha cheia, dorme no quarto e sorri com a Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 94 sensação do cocô quentinho indo manchar o lençol sobre o qual fora deixado inteiramente nu (p. 45). Paulino é defensor incondicional de uma identidade negra pura, como a que viera da África. Critica o nome do querido sobrinho “Luizinho”, por este nome ser de origem francesa; no entanto, o narrador finaliza a história em tom de ironia dissimulada: “No congelador, quatro garrafas de champanhe francês legítimo aguardam o desenrolar da festa” (CUTI, 1996, p. 45). Consciente do seu papel de poeta negro, a poesia de Cuti é uma escrita engajada à reivindicação da cidadania, à recuperação da memória histórica, à construção da autoestima e da identidade negra. O canto de amor à mulher negra também se faz presente na sua lírica. A poesia de Cuti é reveladora de sensibilidade e beleza inéditas, tornando-o um dos poetas lidos e referenciados pelos apreciadores e a crítica da literatura afro-brasileira contemporânea, a exemplo os poemas transcritos abaixo. LIRA esta lira conspira com a palavra proibida e pela vida mantém o seu arsenal ginga a própria ira quando delira com seu punhal esta lira conspira com os segredos do berimbau.(CUTI, 2004, p. 27) TORPEDO irmãos, quantas minutos por dia a tua identidade negra toma sol nesta prisão de segurança máxima? FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 95 e o racismo em lata quantas vezes por dia é servido a ela como hóstia? irmão, tua identidade negra tem direito na solitária a alguma assistência médica? ouvi rumores de que ela teve febre alta na última semana e espasmos - uma quase overdose de brancura – fiquei preocupado. [...] fica esperto! e não esquece o dia da rebelião quandoa ilusão deve ir pelos ares. um grande abraço deste teu irmão de presídio assinado: zumbi dos palmares. (CUTI, id., p. 28-30). OBRAS Publicou os livros: Poemas da carapinha (1978), poemas; Batuque de tocaia (1982), poemas; Suspensão(1982), teatro; Quizila (1987); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (1987), poemas; A pelada peluda no Largo da Bola (1988); Dois nós na noite (1991); Negros em contos, 1996; Literatura negro-brasileira (2010), Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 96 ensaios; dentre outras obras. Publicou, ainda, inúmeros ensaios críticos sobre literatura afro-brasileira, em periódicos, antologias, coletâneas, sites, revistas acadêmicas. 3.2.3 ELIO FERREIRA Elio Ferreira de Sousa nasceu em Floriano, foi ferreiro e bombeiro hidráulico até os vinte anos de idade na oficina do pai, enquanto concluiu os ensinos fundamental e médio,licenciado em Letras, doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, Técnico em Educação do MEC e Professor de literatura na Universidade Estadual do Piauí, publicou Canto em viola (1982); Poemartelos: o ciclo-do-ferro (1986), poemas; Né Preto – biografia (coautoria, 1988); O contra-lei (1994), poemas; O contra- lei& outros poemas (1997); América negra(2004), poemas; Identidade e solidariedade do negro brasileiro: de padre Antônio Vieira a Luiz Gama (2005), ensaios; Literatura afrodescendente: memória e construção de identidades (2011, org.), ensaios; Júlio Romão da Silva: Entre o formão, a Fonte: portaldefloriano.blogspot.com FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 97 pena e a flecha (2012, org.), ensaios e coletânea);dentre outros. Publicou ainda poemas nos Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros, volumes 27, 29, 31 e 33. O poema América negra foi traduzido e publicado em língua inglesa pela afro-norte-americana Cheryl Sterling, professora da New York University, na antologia African Roots, Brazilian Rites: Cultural and NationalIdentity in Brazil [KindleEdition]. A crítica afrodescendente atual considera Elio Ferreira um poeta afro-brasileiro, como estudos publicados no Literafro, periódico virtual da UFMG; o volume 3 da antologia Literatura e afrodescendência no Brasil: autores contemporâneo, Belo Horizonte: 2011, Editora da UFMG, ambos organizados pelo professor e crítico literário Eduardo de Assis Duarte. Considerado escritor marginal, mostra em seus poemas o protesto do eu-lírico com a violência e a miséria impostas ao negro e ao índio brasileiro, ao tempo em que procura recuperar o passado histórico dessa população ou nas palavras do poeta quando diz: “desde sua gênese, a poesia negra firmou um pacto com o sujeito negro e transita poruma trajetória libertadora, abrindo caminhos transgressores e contrários aos valores estéticos-ideológicos, consagrados pela literatura dominante. Na sua escrita de ruptura, o escritor negro exorciza seus demônios interiores para reconquistar sua autoestima. (FERREIRA, 2005, p. 62),”como revela o Poema 6 de “Brasil negro” Brasil, Meu Brasil Negro. Sou Esperança Garcia do Piauí; Escrava da fazenda Algodões da Coroa De Portugal Casada e mãe de um casal de flhos. A escola é maçã proibida para escravos; de mil, um de nós sabemos ler ou escrever. Sei ler e escrever: Coisa rara entre nós de escravaria. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 98 Escrevi a “Carta” de 6 de setembro de 1770 escrevi a “Carta” ao Governador da Capitania. Denunciei as trapaças do Administrador das fazendas reais denunciei as “trovoadas de pancadas” que recebi. Ele me tirou de perto dos meus filhos e marido ele me confinou na casa dele, Uma vez caí do sobrado, rolei escada abaixo quase morri: eu estava peada como bicho bravo. Denunciei a peia, o chicote, as humilhações contra mim, filhos e parceiros de escravidão da Inspeção de Nazaré do Piauí. Brasil, eu também sou índio. Nas minhas veias corre o sangue da última nação indígena do Piauí dizimada por bandeirantes paulistas. (FERREIRA, América Negra, 2004) Glauco Mattoso define como marginal “toda obra e todo autor que não se enquadram nos padrões usuais de criação, apresentação ou veiculação, inclusive a poesia e o poeta”. No Piauí, José Pereira Bezerra nomeia como tal: Um conjunto de práticas que apontava, anárquica e fragmentariamente, para várias vertentes da cultura, do romantismo a aspectos estéticos mais contemporâneos, dentro do contexto dos anos 70, FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 99 nos aspectos materiais, literários e ideológicos . Ser poeta marginal, nos anos 70 e no Brasil, significa ser independente, subverter a ordem usual daquilo que era aceito como “boa poesia”. O poeta marginal era aquele que se envolvia em produção considerada “antiestética”, havendo comprometimento por parte do criador com as manifestações temáticas do momento, por adotar uma atitude de rebeldia e não aceitação da ordem estabelecida. O período revelava “as inquietações de uma geração marcada pelo silêncio e pelo grito, pela indignação e audácia, enfrentando a ironia de uns, a receptividade de poucos, a indiferença e até a hostilidade de alguns, mas conseguem vender o seu “peixe” e dar o seu recado, o seu berro, a despeito de todas as dificuldades. Elio Ferreira, com sua poesia independente, foge às normas da linguagem tradicional, às vezes interage com o espectador. O Jornal Correio Brasiliense de seis de fevereiro de mil novecentos, noticia que o poeta encena sua obra diante do público em praças e ruas, declamando- os com o objetivo de popularizá-los e chamar atenção sobre o discurso, como ele mesmo se refere no subtítulo o “ciclo—do-ferro”: poemas feitos a ferro, ou seja, que denunciam as mazelas, os crimes hediondos e fala de aparições demoníacas. Segundo Chico Castro(1994), sua poesia “é vigorosa e provocadora, de um tempo de crise”. Observe-se o texto: A seca a seca e tudo e o barro virando torrão lavrador não trazia lâmina de arado para afiar desconsolo da oficina enfermidade das chapas de ferro e aquela gente do governo não gostava dos mestres Aluísio Ferreira – Lourenço – Emídio e Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 100 doutros operários q não assinavam recibos documentos falsos e papai por ser ferreiro ti nha enterrado no quintal: rifle papo amarelo calibre 44 e os comunistas iam se lascar co mendo o pão q o diabo lambuzou – diziam os seguidores do 1964 o martelo tem temtemtem temtemtem o martelo tamtimtem tem temtemtem – e tia Aleluia flan- dreira (50 anos monturos retalhos de flandre no fundo do quintal) contava: “eu – Inês (a tua mãe) – Adelina e a minha Roxa Antônia” saímos pra ver água na fontinha e as duas pedras da serra do Apertar da hora foram se fechando se fechando trancou o caminho O eu-lírico posiciona-se mostrando que a seca para o nordestino é um círculo, pois está sempre retornando e no desenrolar dessa trajetória, muitas coisas acontecem: os agentes do governo, as pessoas que resistem, a polícia que intervém para manter a ordem quando os seres desesperados fazem saques ou invadem o comércio, o movimento militar de 1964 com a caça aos comunistas, o diálogo das personagens tia Aleluia – flandreira – contando para a sobrinha da evolução da seca; e o círculo se fecha com as duas em busca da água que acabara de secar na fonte. O poema funciona como porta-voz de um povo em determinado momento da História. José Bezerra (1994, p.12) corrobora essa afirmação, ao dizer: FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 101 São os autores da geração mimeógrafo que revelam em poesia e prosa o peso dessepedaço marcante da história. [...] A compulsão em fazer poemas ou contos era algo real, uma busca de comunicabilidade, dentro de um sentido de urgência, em que é realçado o papel do poeta como arauto de uma realidade que se mostrava intolerável . A linguagem particulariza o poema, uma vez que o autor transita do “coloquial solene ao escrachado”, na ânsia de valorização da palavras, não apenas como instrumento de comunicação, mas, sim, como meio necessário para questionar a realidade. Usando onomatopeias, palavras quebradas, expressões chulas e repetições, Elio Ferreira mostra o lugar de onde fala, pois para ele “a palavra é a voz das nossas vivencias, ela encanta, seduz, participa; é capaz de abalar os sistemas de opressão”: buscando inspiração na memória dos relatos das personagens e numa imagem surpreendente de duas pedras que se fecham na serra cujo nome Apertar—da-hora, metaforicamente denuncia o caminho apertado e sem saída pelo qual os retirantes têm que passar para enfrentar os períodos de seca. Elio Ferreira, em sua trajetória poética, inova a poesia afro-brasileira com aspectos que demonstram sua originalidade estilística: a falta de título em poemas, títulos em minúsculas, uso de sinais gráficos, rubricas nos poemas, onomatopeias sugestivas, prosopopeias, sinestesias, repetição de palavras que marcam o ritmo e musicalidade da gênese africana etc. Deve, portanto ser alçado à galeria dos poetas afro-brasileiros como ele próprio se define: A poesia negra é algo que já estava muito dentro de mim. (...) América negra seria o livro de poemas negros ou afro-brasileiros de modo mais específico, por tratar de temáticas relacionadas à história, à memória, às utopias, à condição humana dos afrodescendentes pela critica dos leitores e críticos dos Cadernos Negros, este principal veículo de editoração e divulgação da literatura afro-brasileira hoje. (Oliveira, 2011 ,p191). Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 102 Elio Ferreira não é apenas um poeta afrodescendente, mas um estudioso preocupado com suas origens e em preservá-las, registrando-as em sua produção poética e acadêmica através de ensaios, sua tese e os estudos de autores brasileiros e de outras nacionalidades quando transita por contos, narrativas orais ,cantigas, canções, lendas, ritos religiosos, rodas de capoeira. 3.2.4 ESMERALDA RIBEIRO Esmeralda Ribeiro (1958) nasceu em São Paulo, onde mora atualmente. É jornalista, poeta, contista, autora de obras infanto-juvenis, de artigos e ensaios sobre literatura afrodescendente, publica regularmente nos Cadernos Negros desde sua criação em 1978, coordenadora do Quilimbhoje e responsável pela edição dos CN juntamente com o esposo o poeta e contista Márcio Barbosa. Tem participado intensamente como palestrante sobre literatura afro-brasileira e literatura afrodescendente feminina em conferências e seminários no Brasil e no exterior. Publicou os livros Malungo e Milongos (1988); Gostando mais de nós mesmos (1999); Orukomi – meu nome (2007) contos infanto-juvenis; uma das organizadoras do volume de ensaios Afro-Brazilian Mind (2007), EUA, Afric World Press; dentre outras. A obra da poeta e contista Esmeralda Ribeiro é escrita a partir da visão da mulher negra e busca a construção da identidade afrodescendente, quando sua lírica fala em tom de revelação da angústia do não reconhecimento da diferença e do ser-mulher e negra, de habitar “o não-lugar”, que lhe impõe a clausura da invisibilidade (SOUZA, 2006) traduzido simbolicamente no desejo de se libertar do aprisionamento social e psíquico ou “emparedamento”, fomentado pelos estereótipos e preconceitos raciais e de gênero, forjado pela hegemonia do pensamento masculino e branco, como podemos antever no poema abaixo. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 103 VÁRIOS DESEJOS DE UM RIO 1 Eu não queria ter em mim águas incertas laços de tormentas mares de castelos movediços abismo obediente nem saber que atrás de mim há comportas com ninhos de serpentes. Eu queria entender esta cantiga de criança: “A menina pretinha será rainha, olê, seus cavaleiros! Mas está presa no castelo, olê, olê, olá! E por que ela não foge?,olê, seus cavaleiros! Mas com quem está a chave?,olê, olê, olá!” Eu não queria ser levada pela correnteza de rosa rosa perfume sem porto desse meu Rio interno da infância submersa. (RIBEIRO, CN, 1998, p. 67) A prisão veicula-se na memória inquietante do “não-lugar” do escritor ou escritora afrodescendente. Daí o desejo de reinscrever-se no espaço do “além”, este “espaço de intervenção no aqui e agora” (BHABHA, 2001, p.27) e no depois, em que o homem ou a mulher negra não será postulado como estranho ou na condição de inferioridade, condenado à exclusão, à invisibilidade. A lírica da mulher negra está engajada poética e socialmente ao reconhecimento e autorreconhecimento de homens e Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 104 mulheres, tentando estabelecer relações de igualdade étnico-racial ao construir um discurso e espaços da visibilidade positiva de “ser e estar” e de pertencimento ao lugar da existência, - ser negro e ser brasileiro ao mesmo tempo, ser reconhecido e respeitado sua duplicidade – sua dimensão híbrida nos diversos lugares mundo, onde se consumou a ultrapassagem de fronteiras pela diáspora africana. A lírica de Esmeralda constrói a identidade negra a partir da recuperação da memória da cultura ancestral de tradição africana através da celebração dos Orixás do Candomblé, invocando aos deuses negros o axé do conhecimento para semear o reconhecimento e dias mais promissores para os negros. O título do oriki, canto da religiosa tradição africana em louvor aos orixás, inicia uma saudação a Oxum: “Ai ei eiô, Mamãe Oxum”, seguida do tratamento de veneração e carinho “Mamãe Oxum”, divindade das águas doces, rios, lagos e cachoeiras. Deusa da riqueza, da beleza e da fertilidade, jovem e faceira. “No Candomblé representa a feminilidade por excelência e é patrona da gravidez e protetora das crianças que ainda não falam” (CACCIATORE, 1988, p.202-3), significando maternidade. Hábil nas maneiras de seduzir pela sua astúcia e beleza, recebeu de Obataláos ensinamentos da arte da adivinhação, que “... honrando sua palavra,/ ensinou Oxum a jogar búzios e obis./Desde então Oxum tem também o segredo do oráculo.” (PRANDI, 2001, p. 339). O eu lírico negro e feminino invoca a proteção da bela e formosa Oxum que também se distingue pela sua generosidade e acolhimento: “[..,] ela conservou essas disposições de espírito. A deusa dá sem dificuldades e generosamente. Por isso é uma das divindades mais solicitadas, e não apenas pelas pessoas de seu clã, por seus descendentes. Todos lhe imploram cheios de esperança” (FROBENIUS, cit. VERGER, 2000, p. 395). FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 105 AI EI EIÔ, MAMÃE OXUM Mãe de todos os rios deságua em mim afluente brios quilombolas é tua, é nossa terra, nosso mar enfim, são décadas em semeados direitos multiplicados em colheita de tempestades. Mãe Feiticeira, existe porção mágica contra ambição? ou devemos deixar o mar inundar os nossos corações? Na mística do meu povo existem ideais na mística do meu povo natureza e homem são um só. Iyalodê, nos dê a poção da resistência são tantas barreiras no lago artificial dos nossos Rios Represados não desembocam em nenhum Mar. (RIBEIRO, CN, 2006, p. 115) 3.2.5 MIRIAM ALVES Miriam Aparecida Alves nasceu em São Paulo em 1952. É assistente social e professora, escritora, poeta e pesquisadora de literaturaLiteratura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 106 Afro-brasileira. Começou a escrever aos onze anos, mas só conseguiu publicar seus textos anos mais tarde, após conhecer os poetas do grupo Quilombhoje Literatura, do qual se tornou integrante durante o período entre 1980 a 1989. Publicou várias obras como: Momentos de busca de (1983) é resultado desse longo trajeto de poemas escritos desde a adolescência; Estrelas nos Dedos, poemas, em 1985; Terramara peça teatral, em 1988, em coautoria com Arnaldo Xavier e Cuti (Luiz Silva); Brasil afro-autor revelado, ensaios, em 2010; Mulher Mat(r)iz, em 2011. Poemas e contos que fazem parte da série Cadernos Negros desde 1982, do volume cinco, até 2011, no volume 34. A autora tem, ainda, diversos contos e poemas em várias antologias nacionais, como por exemplo, O Negro em versos: antologia da poesia negra brasileira (2005), como também em antologias internacionais nos seguintes países: Estados Unidos da América: Black notebooks: contemporary afro-Brazilian literary movement; Inglaterra: Moving beyond boundaries. International dimension of Black women’s writing (1995); na Alemanha: Schwarze poesie: Poesia Negra (1988) e Schwarze prosa: Prosa Negra (1992). Além de ensaios sobre a Literatura afro-brasileira em geral e afro-feminina em particular (BEZERRA, 2011).. A escritora visitou a Universidade do Novo México e ministrou cursos de Literatura Afro-Brasileira e Cultura Afro-Brasileira, no outono do segundo semestre de 2007 e na Escola de Português de Middelbury College em 2010. Nos Estados Unidos da América, participa com frequência de debates e palestras em universidades sobre temas voltados às questões de afrodescendência no campo literário com ênfase especial a afro-literatura feminina (BEZERRA, 2011). Em novembro de 1995, esteve em Viena, na Áustria, onde apresentou o trabalho Resgate - texto poético performático. Participou da “1996 International Conference of Caribbean Women Writers and Scholars” e, em março de 1997, do “Latin American Speaker Simposium”, em Nova FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 107 York, onde apresentou o trabalho “A invisibilidade da literatura Afro-feminina: de Carolina de Jesus a nós”. Organizou e coeditou as antologias bilíngues (português/inglês) Finally... Us Contemporary Black Brazilian Women Writers: Dual Brazilian-English Poetry Anthology, publicada no Colorado, EUA (1995) e “Women Righting – Afro-Brazilian Women`s Short Fiction”, contos (2005). Ao longo dos trinta anos de existência da série Cadernos Negros, participou de diversos números, seja de poesia, seja de contos afro-brasileiros. Além disso, seus trabalhos estão presentes em diversas antologias e são objetos de teses e dissertações em universidades dentro e fora do Brasil. A escritora vem participando de debates e palestras relacionadas à afrodescendência, seja no campo literário ou social.Nos poemas que seguem podemos observar suas temáticas (ALVES, 2010) . Ori gens doces felicidades estagnadas Gens repousam na ulterior generosa fonte esquecida Assim Origens alargando o ventre alargando o ventre livre liberdade rasga o espanto volta (in: Cadernos Negros 13, p. 47) Calafrio O sorriso gela A porta do paraíso prometido A tarde cobre-se de frio Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 108 Grita esconde-se atrás dos caçacos Faz esculpir aquela saudade Do lugar jamais percorrido. Escorrem feito sorvete As esperanças derretidas no ardor do querer (Cadernos Negros melhores poemas) Rainha do Lar Mesas, copos, minha casa trancafio-me silêncio nas paredes esmurram meus ouvidos palavras, ecos abandonados Mesas, copos, minha casa na couraçada espera nuvens de cigarros colorem fantasias cinzas As vozes dos discos calam-se. Nem choro. Nem risos Triste tranqüilidade livros paralisados solidão e medo Mesas, copos, minha casa e uma janela aberta Senhora dos Sois FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 109 Sou Chama lama magma moldado endurecido Sou Naturalidade Vento esfriamento dos tempos Esquecer meu rosto gosto não posso! Sangro em vermelho em preto o choro de todos os dias Esquecer? Não posso! Sou o azul infinito onde o grito Arroboboi risca um arco-íris Sóis me guiam Sou luz aura da incandescência, rubra, negra Sou pedra bruta gema diamante engastada na rocha solida Ergui voz, cabeça, espada a palavra basta ressoou Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 110 estourou as paredes divisórias (ALVES, 2010, p.99-101) SAIBA MAIS h t t p : / / w w w . q u i l o m b h o j e . c o m . b r / c a d e r n o s n e g r o s / historicocadernosnegros. Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998. Cadernos Negros: Os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje, 1998. Cadernos Negros, volume 24: contos afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2001. Cadernos Negros, volume 28: contos afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2005. Cadernos Negros, volume 29: poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2006 ATIVIDADE 1.Pesquise sobre cada poeta desta unidade e faça um resumo 2.Escolha um poema de cada autor desta unidade e faça uma análise 3.Consulte no site que segue sobre a história dos Cadernos Negros (http:// www.quilombhoje.com.br) 4- Escreva sobre sua importância dos cadernos negros para a Literatura Afro-brasileira contemporânea. GLOSSÁRIO Diáspora africana — também chamada de Diáspora Negra — é o nome que se dá ao fenômeno sociocultural e histórico que ocorreu em países além África devido à imigração forçada, por fins escravagistas mercantis FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 111 que perduraram da Idade Moderna ao final do século XIX, de africanos (em especial africanos de pele escura chamados pela cultura ocidental de negros ou afrodescendentes). Agogô: instrumento musical constituído por uma dupla campânula de ferro, produzindo dois sons. Angu: massa de farinha de trigo ou de mandioca ou arroz. Banzo: nostalgia mortal dos negros da África em diáspora. Berimbau: instrumento de percussão com o qual se acompanha a capoeira. Candomblé: religião dos negros iorubás. Macumba: religião afro-brasileira. Ogum ou Ogundelê: Deus das lutas e das guerras. Orixá: divindade secundário do culto jejê-nagô, medianeira que transmite súplicas dos devotos suprema divindade desse culto, ídolo africano. Quilombo: lugar onde escravos fugidos habitavam. UNIDADE 4 CULTURA INDÍGENA E REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO NA LITERATURA BRASILEIRA OBJETIVOS • Identificar a contribuição da cultura indígena na formação cultural e literária brasileira. • Analisar criticamente a representação do índio na literatura brasileira. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 114 4 CULTURA INDÍGENA E REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO NA LITERATURA BRASILEIRA 4.1 Os indígenas brasileiros e sua cultura Quando Pedro Álvares Cabral e sua esquadra chegaram ao Brasil em 1500, aconteceu o primeiro contato entre duas culturas muito diferentes. Na carta escrita ao rei de Portugal, o escrivão Pero Vaz de Caminha demonstra a admiração do homem branco ao deparar-secom os nativos da terra recém-descoberta. Eis a descrição dos dois primeiros indígenas vistos pelo escrivão da frota portuguesa: Quadro de Vitor Meireles- Primeira Missa no Brasil ..E dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. Ali lançamos os batéis e esquifes ao mar, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde conversaram. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E logo que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegando o batel à boca do rio, eram ali dezoito ou vinte homens. pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos com suas setas. Vinham todos rijos para o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. (CAMINHA,1997,p.17) Fonte:www.mnba.gov.br FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 115 Os habitantes nativos, que eram muito numerosos, viviam divididos em tribos, que se espalhavam por todo o território que hoje constitui a nação brasileira, tanto no litoral como no interior. Esses povos foram chamados de “índios” pelos portugueses, pois, inicialmente, pensavam ter chegado às terras orientais denominadas “Indias”. Os índios, embora vivessem nas matas e florestas, não eram desprovidos de cultura. Possuíam uma organização social e política, divisão de trabalho, usos, costumes, tradições e religião, que apresentavam variações entre as diferentes tribos. A Língua, talvez o maior patrimônio cultural de um povo, também, variava muito, contudo, podemos distinguir os principais troncos-linguísticos, a que se vinculavam as numerosas tribos. São estes: os tupi-guaranis (habitantes do litoral); macro-jês ou tapuias (habitantes do Planalto Central); aruaques e caraíbas (habitantes da Amazônia). Apesar de os colonizadores terem implantado, de forma obrigatória, a língua portuguesa como idioma nacional, o Português do Brasil assimilou muitas palavras das línguas indígenas. Vejamos algumas palavras originadas de línguas indígenas: Palavras ligadas à flora e à fauna: abacaxi, açaí, beiju, buriti, caatinga, caju, capim, capivara, carnaúba, cipó, capim, jabuticaba, jaboti, jacaré mandacaru, mandioca, maracujá, piranha, quati, sucuri, tatu. Palavras que são utilizadas como topônimos: Aracaju, Grajaú; Guarujá Guanabara, Guaporé, Ibirapuera, Ipanema, Jabaquara, Jundiaí, Paraíba Paraná Parati, Piracicaba, Tietê, Tijuca, Sergipe, Uberaba. Palavras usadas como substantivos comuns: bocó, caboclo, cafundó, cafuné, canoa, canga, capanga, cuia, caipira cunhã, garapa, pipoca, pirão, tapioca. Palavras usadas como nomes de pessoas: Araci, Bartira, Iara, Iracema, Irapuã, Jurandir, Juraci, Moacir, Moema, Ubirajara, Ubiratã. Hoje, a população indígena em território brasileiro é bastante reduzida, em relação à época do descobrimento do Brasil e, muitas línguas, Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 116 como também muitos costumes indígenas foram desaparecendo ao longo do processo de colonização implantado pelos portugueses. Atualmente a população indígena brasileira, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), é de um pouco mais de 700 mil indivíduos, que vivem em reservas, ou seja, em terras demarcadas por lei e sob a proteção do governo. Contudo, quase 6 milhões de indígenas viviam no país antes da chegada dos colonizadores, segundo apontam estimativas feitas por historiadores e estudiosos de etnografia e antropologia. A colonização portuguesa pôs em prática um processo de conquista, escravização e, por fim, o extermínio dos índios brasileiros. Daí a drástica redução dos povos indígenas, que foram perdendo também a sua cultura e a sua identidade. O Piauí, que foi desbravado por bandeirantes paulistas, constitui exemplo de colonização violenta que dizimou toda a população indígena que vivia na região. A esse respeito, o historiador Monsenhor Chaves afirma que: O problema do selvagem, no Piauí, não oferece características diferentes das que apresentou em outros pontos do território nacional. Nosso índio foi a grande vítima do civilizado. O branco tomou-lhe as terras para povoá-las a seu modo. Escravizou-o, no princípio. Cometeu contra ele graves injustiças, que o fizeram levantar-se em armas, em grandes federações tribais ofensivas e também defensivas. Tremendas represálias se praticaram, então, de ambos os lados. Afinal o índio capitulou. Tinha que ser. Foi assim em toda a parte. A diferença de cultura e a inferioridade de armas conspiraram contra ele. (CHAVES, 1998, p.145) As tribos que viviam no Brasil, que não foram exterminadas, renderam-se à convivência com o colonizador, dando lugar, assim, não só a miscigenação racial, mas também, à participação da cultura indígena na formação da sociedade brasileira. Os povos indígenas possuíam uma organização cultural. Eles não sobreviviam apenas da caça e da pesca, praticavam uma agricultura FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 117 rudimentar, cultivando milho, abóbora, batata-doce e mandioca. Eram também hábeis em fabricar objetos, usando a matéria-prima que a natureza oferecia. Respeitavam, porém, o meio ambiente, consumindo apenas o estritamente necessário para a sobrevivência. Construíam suas casas, canoas, arcos e flechas utilizando a madeira abundante nas matas e, com a palha, faziam cestos, esteiras, redes e outros utensílios. Algumas tribos conheciam a técnica da cerâmica e a utilizavam na fabricação de vasos, potes e panelas. Sabiam, ainda, fabricar tintas para pintar o corpo, utilizando plantas como o urucum e faziam roupas e adornos com penas e peles de animais. O povo brasileiro herdou muitos costumes indígenas, como o de usar redes para dormir ou repousar, tal qual fazem os índios em suas redes de palha, no interior de suas habitações, à qual dão o nome de ocas. Da mesma forma, a culinária nacional agregou muitas iguarias inventadas pelos índios, como é o caso do beiju ou tapioca, feito com a farinha de mandioca, que também é utilizada no preparo da paçoca, hoje, um famoso prato da culinária nordestina, que se faz socando a farinha e mandioca com carne seca num pilão de madeira. A mandioca é também ingrediente indispensável na preparação do pato no tucupi, prato tradicional da cozinha paraense. A culinária do norte brasileiro, de modo geral, à base de peixe seco, constitui, sem dúvida, herança de nossos índios. Na organização social, duas lideranças se destacavam: o cacique, o chefe político, que comandava os homens na guerra, e o pajé, líder espiritual, sacerdote e curandeiro, que, através de rituais e do conhecimento de plantas e ervas, curava doenças, fazia previsões, dava conselhos e transmitia ensinamentos às gerações mais novas. Assim, as práticas populares, no Brasil, de tratar doenças com a utilização de plantas, como, por exemplo, pó de guaraná, boldo, óleo extraído da copaíba, catuaba, semente de sucupira, entre outros remédios caseiros, têm origem na cultura indígena. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 118 As crenças e rituais religiosos variavam de acordo com a nação indígena, mas, de modo geral, acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados. Havia algumas tribos indígenas que enterravam os corpos dos mortos em grandes vasos de cerâmicas, onde depositavam também seus objetos pessoais, o que demonstra a crença na existência de vida após a morte. A cerimônia do Kuarup, ainda hoje praticada por índios do Alto Xingu é um atestadode que essas tribos cultivam a espiritualidade através de rituais em que reverenciam àqueles que já se foram, dando a eles o último adeus e encerrando o período de luto. Diferente da celebração de finados da religião católica, o Kuarup é uma festa de muita alegria em que enfeitados com suas melhores plumas, seus mais belos cocares e braceletes, os corpos reluzentes de urucum, os índios dialogam com os espíritos de seus entes queridos, expressando saudade, carinho e gratidão e, entre cantos e orações, lhes oferecem como presentes frutos e outros agrados. A cerimônia termina com toda a tribo levando em alegre procissão os karupes (toras de madeira que representam os espíritos homenageados) até o rio, mergulhando-os em suas águas, que os levarão para viver em outro mundo, libertando-se para sempre da vida terrena. Cena do filme Kuarup,de Ruy Guerra. Fonte:fuzuedasartes.blogspot.com FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 119 Os índios eram vistos pelos europeus como povos bárbaros e pagãos, que deveriam ser convertidos ao cristianismo, por isso, trouxeram para o Brasil padres jesuítas para o trabalho de catequese, cujo objetivo era impor a religião católica como única religião praticada em território brasileiro. Essa iniciativa dos governantes portugueses muito contribuiu para que os indígenas fossem, ao longo do tempo, perdendo sua identidade cultural. A antropofagia, que, para os europeus, era barbárie, constituía um dos rituais simbólicos da cultura indígena. Eles acreditavam que comer a carne do inimigo era um meio de incorporar a sabedoria, valentia e coragem que estes possuíam. Por isso, se recusavam a comer a carne dos fracos ou covardes. Este ritual se tornou tema do poema I – Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, no período romântico e, mais tarde, no Modernismo, inspirou o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. Leia os seguintes fragmentos dos textos desses autores: . I – Juca-Pirama Canto V - Mentiste, que um Tupi não chora nunca, E tu choraste!... parte; não queremos Com carne vil enfraquecer os fortes. Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas O rebater do coração se ouvia Precípite. - Do rosto afogueado Gélidas bagas de suor corriam: Talvez que o assaltava um pensamento... Já não... que na enlutada fantasia, Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, Do velho pai a moribunda imagem Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! No canto IV o guerreiro timbira entoa seu canto de morte, narra sua história, a sua bra- vura, contra as tribos inimigas, suas lutas contra os Aimorés, mas, pensando no velho pai, cego e doente, pede que o deixem viver. Sua atitude é interpretada como covardia, e o chefe dos Timbiras ordena que o libertem, após ter ou- vido o canto do guerreiro. Esta passagem está no V Canto Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 120 Curvado o colo, taciturno e frio. Espectro d’homem, penetrou no bosque!” (DIAS,1982, p.50 ) “Só a antropofagia nos une. Economicamente. Fisicamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi or not tupy, that’s the question. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” (Oswald de Andrade. Apud TELES, 1993,.p.353-360) Abaporu de Tarsila do Amaral 4.2 A representação do índio na literatura brasileira 4.2.1 As primeiras imagens dos índios na literatura brasileira A representação do indígena na literatura brasileira se fez presente desde as primeiras escritas acerca da nova colônia portuguesa, como é o caso da Carta, de Pero Vaz de Caminha e das crônicas de viagens, escritas Fonte: globalizar.wordpress.com FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 121 por muitos europeus que estiveram no Brasil, interessados em estudar ou explorar comercialmente a nova terra. Viajantes e cronistas europeus produziram um considerável volume de textos sobre o Brasil. Esses descreviam, com admiração, a exuberância da natureza e os estranhos habitantes nativos, vistos como bárbaros que deveriam ser domesticados e catequizados pelos colonizadores. Deste período são as obras: Diário de navegação, de Pero Lopes e Sousa, escrivão de Martim Afonso de Sousa; Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo; o Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa; Diálogos das grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão; Cartas dos missionários jesuítas escritas nos dois primeiros séculos de catequese; o Diálogo sobre a Conversão dos gentios, do Pe. Manuel da Nóbrega; a História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, dentre outros Essas obras não são consideradas literárias, pois tinham como objetivo registrar e divulgar informações sobre as condições geográficas, econômicas, históricas e sociais da colônia portuguesa na América, bem como descrever a cultura primitiva dos indígenas e dar conta do trabalho de catequese realizado pelos jesuítas. Estes escritos têm, entretanto, um valor histórico, já que se trata da primeira produção escrita sobre o Brasil e o povo indígena. A imagem do indígena começa a aparecer na literatura brasileira a partir do Arcadismo, sendo a obra de Basílio da Gama (1741-1795) O Uraguai, poema narrativo de caráter épico, publicado em 1769, a melhor realização do período. O poema de Basílio da Gama narra o massacre dos índios nas missões jesuítas dos Sete Povos das Missões no Rio Grande do Sul. Retrata a luta travada por espanhóis e portugueses contra indígenas e jesuítas, para fazer com que estes últimos obedecessem ao Tratado de Madri. Ainda no período árcade, o frei Santa Rita Durão (1722-1784) Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 122 publica o poema épico Caramuru (1781), que segue o modelo de Camões em Os Lusíadas, porém não alcança o mesmo valor artístico de O Uraguai, de Basílio da Gama. Trata-se de obra convencional, mostrando certo artificialismo, que denuncia a falta de conhecimento in loco da natureza brasileira. Nesta obra, o autor narra as aventuras de Diogo Álvares Correia, náufrago português, que viveu na Bahia, entre os índios tupinambás, no século XVI. Conhecido como “Caramuru”, (homem de fogo), por ter usado uma espingarda para abater um pássaro em pleno voo, Diogo Álvares Correia conquistou a amizade dos tupinambás e terminou casando com Paraguaçu, filha do chefe da tribo. Enfocando o indígena, sua cultura, seus costumes e, principalmente, a catequese, Santa Rita Durão explora um tema universal, a morte por amor. O triângulo amoroso formado por Diogo, Paraguaçu e Moema tem solução na bela passagem em que esta última se atira ao mar numa tentativa desesperada de alcançar o navio que levava Diogo e Paraguaçu para a Europa. Vejamos a seguir fragmentos dos poemas Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. [...] Começava a bordar nos horizontes O céu de brancas nuvens povoado Quando, abertas as portas se descobrem Em trajes de caminho ambos os padres, Que mansamente do lugar fugiam, Desamparando os miseráveis índios Depois de expostos ao furor das armas. Lobo voraz que vai na sombra escura Meditando traições ao manso gado Perseguido dos cães, e descoberto Não arde em tanta cólera, como ardem Balda e Tedeu. A soldadesca alegre FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 123 Cerca em roda o fleumático Patusca, Que próvido de longe acompanha E mal se move no jumento tardo.” (Basílio da Gama. O Uraguai.Rio de Janeiro: Record, 2006, p.98) [...] Enfim, tens coração de ver-me aflita, Flutuar moribunda, entre estas ondas; Nem o passado amor teu peito incita A um ai somente, com que aos meus responda. Bárbaro, esta fé teu peito irrita, (Disse, vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio... E indo dizer o mais, cai num desmaio, Perde o lume dos olhos, pasma e treme Pálida cor, o aspecto moribundo; Com a mão já sem vigor, soltando o leme, Entre as salsas escumas desce ao fundo. Mas a onda do mar, que, irada, freme, Tornando a aparecer desde o profundo, - Ah! Diogo cruel! – disse com mágoa – E sem mais vista ser, sorveu-se na água.” (Santa Rita Durão. Caramuru. In: TEIXEIRA, Ivan.Multiclasscicos: Épicos, 2008) Caramuru segue rigida- mente o modelo épico de Camões. Constituído de dez cantos, em versos decassílabos e estrofes em oitava-rima, o poema acompanha a estrutura da epopeia clássica, tra- zendo a mitologia cristã e pagã, apenas substitui os deuses greco-romanos por deuses indígenas Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 124 SAIBA MAIS Ler o artigo de Regina Zilberman. O Uraguai: moderno e americano. In: MALLARD, L. et al. História da Literatura Ensaios. 2 ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 1995. Assistir ao filme Caramuru - a invenção do Brasil, dirigido por Guel Arrais. 4.2.2 Romantismo – o índio como herói nacional Não obstante a figura do índio já estivesse presente na literatura brasileira desde o Arcadismo, foi a partir do Romantismo que o indígena elevou-se à condição de herói nacional, tendo em vista que a estética romântica, no Brasil, adotou o Indianismo como uma das suas características, pois, na falta de um passado histórico para cultuar, como fizeram os europeus, os autores brasileiros voltaram-se para os primeiros habitantes do país, considerados os legítimos representantes do povo americano. Por outro lado, o Romantismo começou no Brasil nas primeiras décadas, após a Fonte: blogdolabjor.wordpress.com Cena do filme Caramuru FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 125 Independência, coincidindo com o movimento de construção da identidade nacional, através de uma cultura autêntica, que marcasse definitivamente a autonomia do Brasil em relação a Portugal. Assim, os poetas e romancistas, como Gonçalves Dias e José de Alencar se empenharam na construção de obras representativas da nacionalidade da literatura brasileira, tendo o índio como figura idealizada do herói medieval, ou ainda, do ”bom selvagem” esboçado na teoria de Jean Jacques Rousseau. Gonçalves Dias, poeta maranhense, foi o primeiro grande poeta do Romantismo brasileiro e seu nome está ligado de forma indissociável à poesia indianista. Conhecedor dos costumes, crenças, tradições dos índios brasileiros, Gonçalves Dias fez do indígena o verdadeiro representante da cultura nacional. Dentro da sua poesia, o índio assume caráter mítico e épico e traz à tona a sua relação com a natureza e as virtudes intrínsecas à sua raça, como honra, coragem e pureza de sentimento, ainda que se trate de uma imagem idealizada do homem selvagem. Tomemos como exemplo o poema que segue: Canção do Tamoio I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar. II Um dia vivemos! Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 126 O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que entesa Tem certa uma presa, Quer seja tapuia, Condor ou tapir. III O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos velhos Nos graves concelhos, Curvadas as frontes, Escutam-lhe a voz! IV Domina, se vive; Se morre, descansa Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte há de vir! [...] (DIAS, Gonçalves. 1982, p.56-57) Antônio Gonçalves Dias, filho de um com- erciante português e de uma mãe mestiça de índio e negro, nasceu em Caxias-MA, no ano de 1823, e faleceu em um naufrá- gio na costa maranhense, em 1864. Orgul- hava-se de possuir nas veias o sangue das três raças que formavam o povo brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e no ano seguinte retornou ao Brasil, trazendo na bagagem alguns poemas e peças teatrais escritas quando ainda era estudante. Passou a viver no Rio de Janeiro, onde assumiu emprego público, prestando relevantes serviços ao governo imperial, na chefia de comissões científicas exploratórias pelo Nordeste e pela Amazônia. Publicou volumosa obra poética: Primeiros cantos, Segundos cantos, Sextilhas de Frei Antão, Últimos cantos, Os timbiras (inacabado). Em sua poesia épica cantou os feitos heróicos de índios fortes e valorosos, que substituíram os heróis medievais europeus. É autor, ai- nda, de um Dicionário da língua tupi. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 127 A partir do Romantismo, surgiu um novo gênero literário: o romance. Ao contrário da epopeia, narrativa clássica, que trata de acontecimentos extraordinários vividos por heróis nobres e aristocratas, o romance dá conta do cotidiano da vida de pessoas comuns, em linguagem simples, ao alcance do grande público. No Brasil, no período imediato após a independência, surgiram os primeiros romancistas, dentre os quais, destaca-se José de Alencar, representante do indianismo na prosa literária, produzindo romances que se tornaram célebres na literatura brasileira, como é o caso de O Guarani (1857) e Iracema (1865). Ainda na vertente indianista publicou Ubirajara (1874). Em O Guarani, é o herói indígena (Peri) quem vive junto aos brancos europeus, já em Iracema, é o branco europeu (Martim) quem vive no meio dos índios, somente em Ubirajara todos os personagens são índios, vivendo numa época anterior à chegada dos portugueses. O Guarani é a primeira obra do ciclo indianista de Alencar, na qual o autor representa o herói nacional, com características físicas e morais idealizadas, traçando o perfil de homem jovem, saudável, belo e valente, conforme se pode observar no seguinte fragmento: Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade. Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem. Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência. Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham rogar com as pontas negras o pescoço flexível. Era de alta estatura; tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa, ornada com uma axorca de frutos amarelos, apoiava- se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. (ALENCAR, O Guarani. São Paulo: Ática, 2002 p.27-28) Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 128 http://www.cinemanafaixa.com Em O Guarani, o personagem central é Peri, um índio Goitacá, que voluntariamentese põe a serviço da família do aristocrata português D. Antonio de Mariz, por amor a sua filha, Cecília, a qual estava destinada ao jovem fidalgo D. Álvaro de Sá, mas tornou-se alvo de cobiça do vilão Loredano, ex-frade italiano, que buscava encontrar as minas de prata, a partir de um mapa que havia roubado de um moribundo. Quando a casa de D. Antonio de Mariz se encontra cercada por índios e aventureiros, o fidalgo incumbe Peri de conduzir Cecília até a cidade do Rio de Janeiro. E, assim, enfrentando uma grande enchente do rio Paquequer, Peri consegue cumprir a sua missão. O final do romance projeta sutilmente o inicio da formação do povo brasileiro através da miscigenação entre o branco e o índio. Eis a cena em que Peri e Cecília, salvam-se da enchente, flutuando sobre as águas na copa de uma palmeira, arrancada da margem do rio pela força e determinação de Peri. A cúpula da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flor da água como um ninho de garças ou alguma ilha flutuante, formada pelas vegetações aquáticas. Peri estava de novo sentado junto de sua senhora quase inanimada, e, tomando-a nos braços, disse-lhe com um acento FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 129 de ventura suprema: - Tu viverás! Cecília abriu os olhos e vendo seu amigo junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna. - Sim!... murmurou ela; viveremos!... lá no céu, no seio de Deus, junto daqueles que amamos!... O anjo espanejava-se para remontar o berço. - Sobre aquele azul que tu vês, continuou ela, Deus mora no seu trono, rodeado dos que o adoram. Nós iremos lá, Peri! Tu viverás com tua irmã, sempre!... Ela embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte. O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face. Fez no semblante da virgem um ninho de castos rubores e lânguidos sorrisos; os lábios abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o voo. A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia... E sumiu-se no horizonte... (ALENCAR, 1984, p.295) Em Iracema: lenda do Ceará, o segundo romance indianista de Alencar, o autor representa o nascimento de uma nova civilização, através do nascimento do mestiço Moacir, filho da índia Iracema com o branco português Martim. O primeiro cearense, por extensão, o primeiro brasileiro, logo ao nascer, emigra, para a Europa, onde será educado na cultura e religião paterna. Fonte: estudosliterariosnaweb Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 130 [...] “O cajueiro floresceu quatro vezes depois Martim partiu das praias do Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora. O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?” [...] (ALENCAR, José de. 1955, p.158) O romance que encerra a trilogia indianista de José de Alencar é Ubirajara: lenda tupi, único que aborda a vida indígena antes da chegada do colonizador. Na primeira edição do romance, o autor escreveu uma “Advertência“, da qual extraímos o seguinte trecho: Este livro é irmão de Iracema. Chamei-lhe de lenda como o outro. Nenhum título responde melhor pela propriedade, como pela modéstia, às tradições da pátria indígena. Quem por desfastio percorrer estas páginas, se não tiver estudado com alma brasileira o berço de nossa nacionalidade, há de estranhar, entre outras coisas, a magnanimidade que ressumbra no drama selvagem e forma-lhe o vigoroso relevo. (ALENCAR, José de. Advertência. In: Iracema. Ubirajara. 1955, p.333) A passagem de Ubirajara, transcrita a seguir, representa um dos rituais da cultura indígena, em que o jovem índio faz a passagem de caçador para guerreiro: Jaguarê chegou à idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela glória do guerreiro. Para ser aclamado guerreiro por sua nação é preciso que o jovem caçador conquiste esse título por uma grande façanha. Por isso, deixou a taba dos seus e a presença de Jandira, a virgem formosa que lhe guarda o seio de esposa. (ALENCAR, José de. op.cit. p.214) FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 131 4.2.3 Modernismo – a paródia do nacionalismo e do indianismo O Modernismo literário no Brasil se caracterizou pela ruptura com o passado, com a imitação dos modelos europeus e, sobretudo com a linguagem convencional da literatura academicista, ou seja, aquela produzida por escritores que pertenciam às academias de letras. A partir da famosa Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, no ano de 1922, os modernistas promoveram uma verdadeira revolução na literatura brasileira, preocupando-se com a renovação da linguagem através de recursos formais, que aproximassem a escrita literária da fala cotidiana. José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana-CE, em 1829. Filho de um senador do Império. Formou-se em Direito em São Paulo em 1850, mudando-se em seguida para a Corte no Rio de Janeiro, onde começou a carreira jornalística. Em1856, sob o pseudônimo de Ig, publicou uma série de artigos criticando a obra A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães. No ano seguinte publicou sob forma de folhetim o romance O Guarani, um estrondoso sucesso de público. Funcionário do Ministério da Justiça, chegou a ser ministro dessa pasta. Exerceu também o mandato de deputado, fazendo oposição ao Imperador D. Pedro II. Faleceu de tuberculose, no Rio de Janeiro, no ano de 1877. Além dos três romances indianistas já abordados, escreveu ainda: A viuvinha (1857); Lucíola (1862); Diva (1864); As minas de prata (1862-1866) O Gaúcho (1870); A pata de gazela (1870); A guerra dos mascates (1871); O tronco do ipê (1871-1873); Sonhos d’Ouro (1872); Til (1872); Alfarrábios (1873); Senhora (1875); O Sertanejo (1875). Para o teatro, publicou: Verso e reverso (1857); Demônio familiar (1857); As asas de um anjo (1858); Mãe (1867); O jesuíta (1875). Além de outros escritos de crítica literária, polêmicas e autobiografia – Como e por que sou romancista (publicado em 1893) reuniu um conjunto de crônicas no livro Ao correr da pena, publicado em 1854. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 132 O nacionalismo cultuado pelo Romantismo passou a ser tratado de forma crítica, daí a recorrência à paródia, que é uma forma subverter o sentido original de um texto, trata-se de um texto que se refere a um outro, mas de modo a rebaixando-o ou ridicularizando-o. Vejamos a paródia que Oswald de Andrade fez do poema nacionalista Canção do exílio, de Gonçalves Dias. Canto de regresso à pátria Minha terra tem palmares onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Sem que volte pra São Paulo Sem que veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo. (Oswald de Andrade. In: CAMPEDELLI, Samira Yousseff e SOUZA, Jésus Barbosa. Literaturas Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Saraiva, 2001, p.357 FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 133 Outro exemplo de paródia é obra Macunaíma, de Mário de Andrade, que tem a literatura indianista romântica como objeto parodiado. Vejamos a abertura de Macunaíma em que se pode observar que o texto parodiado é o início do romance Iracema, de José de Alencar. Eis um fragmento de cada obra: Iracema “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábiosde mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jatinão era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas”. (ALENCAR, op.cit., p.31) Macunaíma No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: If — Ai! que preguiça!. . . e não dizia mais nada.”] Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 134 soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. (ANDRADE, Mário. Macunaíma. Belo Horizonte/Brasília: Itatiaia/INL. 1984, p.9) http://www.youtube.com Assim como José de Alencar fez no seu romance O Guarani, Mário de Andrade, em Macunaíma, tenta construir um herói que represente o povo brasileiro, embora Peri e Macunaíma sejam tão diferentes um do outro, enquanto o primeiro tem a conduta ética de um cavaleiro medieval, o segundo é preguiçoso, oportunista, sensual. Ao contrário do Romantismo, que apresenta um herói idealizado, o Modernismo se mostra crítico em relação à sociedade brasileira, daí representar o brasileiro na figura de um “herói sem nenhum caráter.” Alguns críticos entendem que a falta de caráter de Macunaíma significa que o povo brasileiro ainda não tem um caráter definido e o Brasil ainda não possui uma identidade cultural. cena do filme Macunaíma FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 135 4.2.4 O índio na literatura brasileira contemporânea No seu livro O percurso da indianidade na literatura brasileira, (2009) Luzia Aparecida Oliva dos Santos utiliza a expressão indigenismo literário para classificar as obras literárias que tratam, de maneira crítica, as questões do índio brasileiro. Segundo a autora, a obra que inaugura essa fase é romance Quarup, de Antonio Callado, publicado em 1967. Aponta, ainda, o conto Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, publicado em 1969, e o romance Maíra, de Darcy Ribeiro, publicado em 1976, como obras que compõem o indigenismo literário no Brasil. As três obras têm em comum uma narrativa em que mito e fatos da atualidade da vida dos índios no Brasil se misturam. No conto O meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, tem-se a própria voz do indígena em um monólogo, que dispensa a figura do narrador para apresentar a visão de mundo do índio. A palavra Iauaretê significa onça verdadeira. O texto narra a história de um bugre, exímio caçador, contratado para matar as onças da região. Ele mata muitos desses animais, contudo, com o tempo, começa a se identificar com as onças, se arrepende e passa a protegê-las. Mário de Andrade nasceu em São Paulo em 1893 em São Paulo e faleceu em 1945. Foi aluno do Conservatório Dramático e Musical Nacional de São Paulo, do qual se tornou catedrático de História da Música, anos depois. Foi um dos idealizadores da semana de Arte Moderna de 1922 e um dos fundadores do Modernismo brasileiro. Foi crítico literário, poeta e prosador. Publicou as seguintes obras: Há uma gota de sangue em cada poema (1917); Pauliceia desvairada (1922); A escrava que não era Isaura (1925); Losango cáqui (1926); Amar verbo intransitivo(1927); Macunaíma (1928); Remate dos males (1939); Lira paulistana ( 1945), entre outras. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 136 O meu tio o Iauaretê, “Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei? Axi. Não falei – eu viro onça? Onça grande, tubixaba. Ói unha minha: mecê olha – unhão preto, unha dura... Cê vem, me cheira: tenho catinga de onça? Preto Tiodoro falou eu tenho, ei, ei... Todo dia eu lavo corpo no poço... Mas mecê pode dormir, hum, hum, vai ficar esperando camarada não. Mecê tá doente, carece de deitar no jirau. Onça vem cá não, cê pode guardar revólver... Aaã! Mecê já matou gente com ele? Matou, a’pois, matou? Por quê que não falou logo? Ã-hã, matou, mesmo. Matou quantos? Matou muito? Hã-hã, mecê homem valente, meu amigo... Eh, vamos beber cachaça, até a língua da gente picar de areia... Tou imaginando coisa, boa, bonita: a gente vamos matar camarada, ’manhã? A gente mata camarada, camarada ruim, presta não, deixou cavalo fugir p’los matos... Vamos matar?! Uh, uh, atimbora, fica quieto no lugar! Mecê tá muito sopitado... Ói: mecê não viu Maria-Maria, ah, pois não viu. Carece de ver. Daqui a pouco ela vem, se eu quero ela vem, vem munguitar mecê... Nhem? A’bom, a’pois... Trastanto que eu tava lá no alecrinzinho com ela, cê devia de ver. Maria-Maria é careteira, raspa o chão com a mão, pula de lado, pulo frouxo de onça, bonito, bonito. Ela ouriça o fio da espinha, incha o rabo, abre a boca e fecha, ligeiro, feito gente com sono... Feito mecê, eh, eh... Que anda, que anda, balançando, vagarosa, tem medo de nada, cada anca levantando, aquele pêlo lustroso, ela vem sisuda, mais bonita de todas, cheia de cerimônia... Ela rosnava baixinho pra mim, queria vir comigo pegar o preto Tiodoro. Aí, me deu aquele frio, aquele friiio, a cãimbra toda... Eh, eu sou magro, travesso em qualquer parte, o preto era meio gordo... Eu vim andando, mão no chão... Preto Tiodoro com os olhos doidos de medo, ih, olho enorme de ver... Ô urro!...” (ROSA, Guimarães. In: Estas Histórias, Rio, José Olympio, 1962) FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 137 Quarup, romance de Antonio Callado, narra a história de um jovem sacerdote chamado Nando, que tinha o sonho de viver na Amazônia, ajudando os povos indígenas a construir uma sociedade justa e harmoniosa. O contato com pessoas ligadas ao Estado, ao SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e partidos políticos termina por mudar os ideais de Nando, que abandona o sacerdócio e envolve-se com a política e passa a militar nas Ligas Camponesas. Com o golpe militar de 1964, Nando é preso e torturado. Depois de libertado passa a viver uma vida de orgia sexual, deixando escandalizados os antigos companheiros de militância política. Luzia Aparecida Oliva dos Santos, na obra já referida explica, assim, o sentido do título do romance de Antonio Callado: Fonte:/www.google.com João Guimarães Rosa nasceu em Minas Gerais em 1908 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1967. Médico, Gui- marães Rosa serviu como oficial do exército e exerceu vários cargos como diplomata. Renovou a linguagem da prosa ficcional brasileira com suas nar- rativas de caráter de regional e univer- sal, ao mesmo tempo. Publicou Saga- rana (contos, 1946); Corpo de baile (ciclo novelesco, 1956); Grande sertão: veredas (romance, 1956); Primeirasestórias (contos, 1962); Tutameia (con- tos, 1967); entre outras obras. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 138 As inflexões modificadoras do esquema mítico original são as molas conflitantes que vão guiar a narrativa em sua solução. Em Quarup, por exemplo, a identidade de Nando resolve-se da esfera individual para a coletiva, no episódio do jantar em que, comendo e bebendo antropofagicamente, Levindo assume seu nome e sua condição de guerrilheiro. À maneira do quarup indígena, o jantar dá, então a simbiose entre o mito e sociedade, uma solução encontrada pela ficção para o caráter de verdade simbólica. (op.cit.p. 345) Quarup “[...] Anta sorriu de novo, o rosto largo iluminado, e foi seguindo Sônia que se diluía no mato noturno. Foi ela quem estendeu a mão. E seguiu na frente, para a maloca do Anta. Um índio descansava na rede, outro se enfeitava para o quarup. Os tipitis pingavam mandioca esprimida, havia cuias com restos de caxiri. Uma índia se recostava na rede, curumim dormindo a seu lado, peito da mãe na boca. Sônia tirou o vestido pelos ombros, depois o resto da roupa e sentiu um gostoso arrepio pela incuriosidade que sua nudez despertava.será que os índios não iam falar naquilo? Mulher branca em rede de índio devera valer pelo menos uma fofoca xinguana. Mas ali estava ela nua em pelo no meio da maloca diante de homens e mulheres e todo mundo continuava balouçando em rede de buriti, dormitando, esfregando tinta no corpo. Sônia entrou na rede do Anta feito fêmea índia e deixou ele deitar em cima e pensou que só queria estar ali na maloca com um homem desencrencado por cima e pensou que só queria estar ali na maloca com um homem desencrencado por cima e que era só isso, mas então viu em cima da rede do Anta pendurado do poste central da maloca um espelho redondo de barba que algum caraíba tinha dão em troca do arco ou flauta e que aumentava a gente e pelo espelho viu as costas castanho- vermelhas do Anta enterrado nela e viu a rede e o fogo no chão tudo muito maior e cheio por dentro feito bola de soprar e coisa que vai estourar virando outra sei lá e entendeu que tinha mesmo querido não apenas passar o tempo mas vir trepar ali na maloca diante dos outros”. (CALLADO, Antonio. Quarup. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1967, p.244) FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 139 Maíra “Todos os homens nascem em Jerusalém. Eu também? Padre serei, ministro de Deus da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas gente, eu sou? Não, não sou ninguém. Melhor que seja padre, assim poderei viver quieto e talvez até ajudar o próximo. Isto é, se o próximo deixar que um índio de merda o abençoe, o confesse, o perdoe. Reconheço que estou com complexo, obsessivo: paranoico ou esquizofrênico? Sei lá. Na verdade ninguém me quer mal porque eu sou, ou porque eu fui índio. Apenas constatam. Muitos até se comovem: “um índio convertido?” Quase sempre se espantam: “vai receber ordens?” E todos concluem: “para se dedicar às missões?” Nesta altura perguntam: “vai voltar para seu povo?” Querem dizer: “à sua tribo?”, “aos selvagens”. Eu vou? Não vou? Belga ou holandês pode catequizar índio. Espanhol e italiano e até norte-americano pode pregar na Itália, na França, no Brasil, onde quiser. Mas eu, índio mairum posso ser sacerdote deles? Nunca! No Brasil também não me tomarão por índio o tempo todo? Não. Lá é diferente. Muita gente tem cara de índio e anda lampeiro por todo lado, sem ninguém ligar. Muitos até proclamam que a avó foi pegada no laço. Sobretudo se são escuros. Mas comigo é diferente. Nenhuma avó minha foi pegada no laço. O selvagem sou eu mesmo. Minha avó sou eu.” (RIBEIRO, Darcy. Maíra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p.29-30) Antonio Callado nasceu em 1917 em Niterói e faleceu no Rio de Janeiro em 1997. Trabalhou sempre como jornalista. Foi preso várias vezes pela ditadura militar, implantada no Brasil em 1964. A experiência da prisão inspirou muitos dos personagens que criou em suas obras. Publicou os romances Assunção de Salviano, A madona de cedro, Quarup, Reflexos do baile e Sempreviva. Para o teatro publicou O fígado de Prometeu, A cidade assassinada, Pedro Mico, O colar de coral,O tesouro de Maria Chica, Uma rede para Iemanjá, Forró no engenho e Cananeia. É autor ainda de vários livros de reportagens, como Tempo de Arraes, Vietnã do norte e Passaporte sem carimbo. Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 140 SAIBA MAIS Darcy Ribeiro nasceu em Minas Gerais em 1922 e faleceu em Brasília em1997. Foi antropólogo, escritor e político brasileiro conhecido por sua dedicação à questão indígena e à causa da educação no Brasil. Como muitos intelectuais brasileiros que faziam oposição à ditadura militar, esteve exilado durante anos, vivendo no Uruguai. Foi um dos fundadores da Universidade de Brasília, no governo João Goulart, sendo seu primeiro reitor. Durante o primeiro governo de Leonel Brizola (1983-1987) idealizou e implantou os Centros Integrados de ensino Público, os CIEPs. Exerceu os cargos de vice-governador do Rio de Janeiro, senador da República, ministro da Educação e da Casa Civil. Membro da academia Brasileira de Letras, publicou os seguintes romances: Maíra (1976); O mulo (1981) Utopia selvagem (1982), Migo (1988). Deixou uma vasta produção científica, como exemplo de obras etnológicas temos:Culturas e línguas indígenas do Brasil (1957), Arte plumária dos índios Kaapo (1957), A política indigenista brasileira (1962), Uirá sai à procura de Deus (1974),Diários índios – os urubus-kaapor (1996). De cunho antropológico publicou: O processo civilizatório – etapas da evolução sócio- cultural (1968), As Américas e a civilização – processo de formação e causas do desenvolvimento cultural desigual dos povos americanos (1970), Os índios e a civilização – a integração das populações indígenas no Brasil moderno (1970) e O povo brasileiro – a formação do Brasil (1995), entre outros. GLOSSÁRIO Antropofagia: Prática institucionalizada de consumo de carne humana por seres humanos, em rituais simbólicos Antropologia: ciência que estuda a história natural e cultural dos homens e dos grupos humanos. Bandeirante: referência aos sertanistas do Brasil colonial, que desbravaram os sertões brasileiros em busca de riquezas minerais, de indígenas para escravização ou de quilombos para extermínio. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 141 Etnografia: estudo descritivo de um determinado grupo humano. Indígena: pessoa natural do lugar ou país em que habita, o mesmo que nativo. Kuarup: madeira que dá nome a um ritual indígena, cujo significado para os índios é a despedida dos mortos e encerramento do período de luto. Bugre: povo indígena; designação dada ao indivíduo índio. Caramuru: designação dada pelos índios brasileiros ao lendário náufrago português Diogo Álvares Correia, que supostamente viveu entre os índios tupinambás, na Bahia. Este, certa vez, usando uma arma de fogo atirou num pássaro, matando-o. Os índios, impressionados, gritaram: “Caramuru! Caramuru! O vocábulo significa “homem de fogo”. Caramuru é o título da obra do Frei Santa Rita Durão, cujo protagonista é Diogo Álvares Correia. Identidade cultural: identidade cultural é um conjunto de representação das relações entre indivíduos e grupos, que envolve historicamente o compartilhamento de patrimônios simbólicos, como língua, religião, artes, trabalho, esportes, festas, entre outros. Indigenismo: conjunto de ideias relativas à situação dos indígenas brasileiros e à sua incorporação à sociedade nacional. Mito: narrativa de significação simbólica, transmitida de geração em geração, dentro de uma determinada sociedade, que considera como verdadeiros os acontecimentos narrados. Paródia: literalmentesignifica “canto paralelo”. Trata-se de uma imitação cômica ou satírica de uma obra séria. Tupinambá: povo indígena que habitava toda a costa brasileira. Os tupinambás são considerados os antepassados de todas as tribos tupis que habitavam o litoral brasileiro, na época do descobrimento do Brasil. Era a nação indígena mais conhecida da costa brasileira pelos navegadores europeus do século XVI. PARA APRENDER MAIS Ler o livro O que é mito. São Paulo: Brasiliense, 1986. Assistir ao filme de Joaquim Pedro, do ano de 1969, Macunaíma Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 142 ATIVIDADES 1. Pesquise e elabore uma lista de palavras da língua portuguesa do Brasil que tenham origem indígena. 2. Leia na íntegra a Carta de Pero Vaz de Caminha e faça uma síntese da descrição dos indígenas que o autor apresenta. 3. Assista ao filme Kuarup, (1989), de Ruy Guerra, baseado no romance Quarup, (1967), de Antonio Callado, e explique a relação entre o título da obra e o ritual praticado pelos povos do Alto Xingu. 4. Procure em livros ou sítios da internet o poema Marabá, de Gonçalves Dias e, após a leitura do texto, explique o seu título. 5. Releia os fragmentos de O Guarani e Iracema e justifique a afirmação de que Alencar idealiza o índio nas suas obras 6. Faça um levantamento das palavras indígenas no fragmento de Macunaíma e pesquise o significado de cada uma delas. 7. Releia os fragmentos das narrativas O meu tio o Iauaretê, Quarup e Maíra e comente sobre a questão de identidade que envolve os personagens focalizados nos textos. FUESPI/NEAD Licenciatura Plena em Letras Espanhol 143 Literatura e Cultura Afro-Brasileira e Indígena 144 REFERÊNCIAS ALENCAR, José de. Iracema. Ubirajara. Rio de Janeiro: José Olympio. 1955 ________. O Guarani. São Paulo. Ática, 2002 ALVES,Miriam. Brasil Afro Autorrevelado: literatura brasileira cotempronânea.B:Nandyala,2010 ANDRADE, Mário de. Macunaíma. Belo Horizonte/Brasília: Itatiaia/INL, 1984. ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropofágico. Apud. TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguardas européias e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1993 ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Quilombos maranhenses. In: REIS, João José e GOMES, Flávio dos Santos (org.). Liberdade por fio: história dos quilombos do Brasil. 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Poesia negra das Américas: Solano Trindade e Langston Hughes (370 folhas). Recife: Tese de Doutorado/UFPE, 2006. _________________. Poesia Negra das Américas: Solano Trindade e Langston Hughes (370 folhas), tese de doutorado. Recife: Universidade Federal de Pernambuco / Programa de Pós-Graduação em Letras, 2006. TEIXEIRA, Ivan.Multiclasscicos:Épicos:São Paulo: Edusp/Imprensa oficial,2008 TRINDADE, Solano. Cantares ao meu povo. São Paulo: Fulgor, 1961. ZILBERMAN, Regina. O Uraguai: moderno e americano. In: MALLARD, L. et al. História da Literatura: ensaios. 2 ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 1995. AVALIAÇÃO DO LIVRO Prezado(a) cursista: Visando melhorar a qualidade do material didático, gostaríamos que respondesse aos questionamentos abaixo, com presteza e discerni- mento. Após, entregue a seu tutor esta avaliação. Não é necessário identificar-se. Unidade:____________ Município: _________________ Disciplina:___________ Data: _____________________ 1. No que se refere a este material, a qualidade gráfica está visual- mente clara e atraente ( ) ÓTIMO ( ) BOM ( ) RAZOÁVEL ( ) RUIM 2. Quanto ao conteúdo, está coerente, contextualizado à sua prática de estudos ( ) ÓTIMO ( ) BOM ( ) RAZOÁVEL ( ) RUIM 3. Quanto às atividades do material, estão relacionadas aos conteú- dos estudados e compreensíveis para possíveis respostas. ( ) ÓTIMO ( ) BOM ( ) RAZOÁVEL ( ) RUIM 4. Coloque abaixo suas sugestões para melhorar a qualidade deste e de outros materiais. _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________