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UNIVERSIDADADE ESTADUAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES CURSO DE LETRAS/PORTUGUÊS/LICENCIATURA Disciplina: Sociolinguística Professora: Joao Batista Costa Goncalves Aluna: Mayara Stephany Sousa Alcindo CALVET, Louis-jean. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo: Parábola, 2002. 173 p. Tradução: Marcos Marcionilo. “Sociolinguística: uma introdução crítica” é um livro introdutório sobre os princípios básicos da teoria sociolinguística, conta com 172 páginas, organizado em seis capítulos. De leitura fácil, ainda há uma parte dedicada ao glossário com a descrição de conceitos importantes para compreensão da obra, assim pode ser indicado a todos que tem interesse na Sociolinguística, desde estudantes de graduação até aqueles com um nível mais avançado. O livro de Louis-Jean Calvet é apresentado pelo linguista brasileiro Marcos Bagno que esclarecesse a natureza crítica com que o autor aborda a relação inquestionável de linguagem e sociedade, fugindo da simples descrição de conceitos, mas engrenando discussões a respeito de frases categóricas como “a língua é um fato social”, preocupando-se em mostrar as repercussões da abordagem que realmente considere a língua como fato social (num contexto social) e como a língua atua na sociedade, na correlação entre seus diferentes usos de uma mesma língua e nas diferentes estratificações sociais. O primeiro capítulo intitulado - a luta por uma concepção social da língua - tem uma relação direta com a introdução do livro por retomar a linguística inaugurada por Saussure - entre os quais considera a língua como um sistema abstrato e homogêneo, que deve excluir de seus estudos os fatores externos - e mostrar vários estudiosos que se opõem a essa abordagem. O primeiro que é listado no livro é o linguista francês Antoine Meillet que embora seja considerado discípulo de Saussure, muito se diverge da linguística estruturalista. O linguista francês considerou o caráter social da língua, e para isso propunha uma abordagem interna e externa dos fatos da língua, ao mesmo tempo uma abordagem sincrônica e diacrônica desses mesmos fatos. Também temos com Nicolai Marr outra abordagem social da língua, mas dessa vez efeito da corrente marxista; a língua vista como um instrumento de poder. Com William Bright temos uma tentativa de síntese, isto é, a definição e a caracterização do novo campo de estudos, a Sociolinguística. O referido autor entende que a ‘relação de linguagem e sociedade’ é um termo muito vago e para isso, revela que o objeto de estudo da nova ciência é a diversidade linguística, e que essa variação não é livre, um caos como imaginou Saussure, mas é condicionada por alguns fatores. O segundo capítulo - línguas em contato - tem o objetivo de estudar a língua em situações reais de uso, para isso são elencados inúmeros conceitos indispensáveis para a compreensão do que acontece quando línguas diferentes entram em contato umas com as outras: são averiguadas situações em que uma comunidade linguística convive com mais de uma língua, seja para fins comerciais, seja como povos oriundos de outros países que tiveram que aprender uma nova língua, seja em situações de fronteira. O contato entre línguas permite três tipos de interferências: fônicas, sintáticas e lexicais. Há também situações em que falantes se encontram numa comunidade cuja língua ele não conhece, e pensando de maneira geral, essa situação pode ser aplicada a um grupo de indivíduos, como trabalhadores migrantes provindos de diferentes países: eles precisarão se comunicar e para isso vão criar uma língua que sirva a esse propósito, as línguas pidgins. No livro temos o exemplo do inglês pidgin que se desenvolveu do contato comercial entre ingleses e chineses ao longo da costa do mar da China (p. 42). Outro cenário abordado no livro foi o caso da ilha da reunião (p. 52) em que Robert Chaudenson analisa o nascimento de uma língua criola: um pequeno grupo de escravos adquiri uma língua aproximativa (do francês) que depois, com o desenvolvimento das culturas coloniais e consequentemente um aumento na mão de obra, vai ser estabelecida definitivamente como um código separado do francês. O capítulo três - comportamentos e atitudes - trata da variação linguística segundo o olhar do falante, existe um julgamento baseado nos valores culturais e sociais em relação a sua própria maneira de falar, como também do falar do outro; e esse julgamento pode ser visto em muitas comunidades, a variação linguística de alguns grupos são considerados de prestígio e de outros, não. Para abordar tal assunto, Calvet esclarece que a definição de língua não pode ser reduzida a simples instrumento de comunicação, visto que não existe uma relação neutra entre os falantes e a sua língua, muito pelo contrário, há uma relação afetiva que desperta diversas atitudes, sentimentos e comportamentos diferenciados para com as variedades da língua e para com aqueles que a utilizam, e o que interessa à sociolinguística, é justamente o comportamento social que esse julgamento pode provocar. Com a pesquisa feita por Peter Trudgill na cidade de Norwich a respeito da pronúncia de suas variantes /ju:/ e /u:/ com valores de prestígio diferentes, Calvet ilustra a diferença de atitudes dos homens e das mulheres em face do comportamento social: as mulheres se autodefiniam como usuárias da forma de prestigio, embora não fossem. Assim, foi observado o fenômeno da segurança (quando o falante se sente seguro quanto ao seu modo de falar, por se considerar usuário da norma padrão) / insegurança linguística (quando os falantes consideram seu valar pouco valorizado em frente a outros modelos). Outro fenômeno observado foi a hipercorreção e hipocorreção. Calvet apresentou essas atitudes a partir da pesquisa de Morales López realizada em Porto Rico. Vemos no capítulo quatro – as variáveis linguísticas e as variáveis sociais – que numa comunidade de fala pode coexistir formas diferentes de um mesmo significado. E essas variáveis podem ser geográficas: diferentes maneiras de falar observáveis em diferentes pontos do território - pronúncia diferenciada, léxico diferente; como também podem ter um sentido social: diferentes usos de uma língua considerando as características (escolaridade, idade, sexo) dos falantes. É observada uma relação entre elas: “quando, em um mesmo ponto do território uma diferença linguística é mais ou mesmos isomorfa de uma diferença social” (p.90). O desafio é distinguir as variáveis linguísticas das variáveis sócias correspondentes. Esse problema não é algo novo porque nem sempre a sociolinguística conseguiu juntar o linguístico de um lado e o social do outro, e essa problemática também permeia a visão de comunidade linguística. Calvet mostra várias tentativas de definição que consideravam apenas o adjetivo língua, esquecendo-se da comunidade O capítulo cinco – sociolinguística ou sociologia da linguagem – continua a discutir os vínculos entre língua e sociedade através de incessante questionamento se deveria interrogar a língua por meio da sociedade ou a sociedade por meio da língua. O capítulo também se preocupa com a distinção de duas abordagens complementares de análise: microssociolinguística ou macrossociolinguística, para ilustrar a afirmativa que essas abordagens são inseparáveis, Calvet apresenta uma pesquisa de John Gumperz em que a partir da análise de uma situação micro de interação entre um estudante negro da Universidade de Berkeley e seu professor são depreendidas características da situação social a que pertencem esses indivíduos. Calvet chega à conclusão que a distinção entre sociolinguística e sociologia da linguagem, assim como abordagem micro e macro têm mais valor metodológico do que teórico, pois todas essas abordagens não podem se constituir separadamente dado o seu objeto de estudo: “o objeto de estudo da linguística não é apenas a língua ou as línguas, mas a comunidade social sob seu aspecto linguístico” (p. 145). Foi visto que as línguas mudam por influência de diferentes naturezas: seja sobo efeito de suas estruturas internas, seja no contato com outras línguas e atitudes linguísticas; o sexto e último capítulo – as políticas linguísticas – mostra-nos um novo tipo de ação sobre as línguas: ação do estado; para abordar tal assunto, Calvet começa com duas definições: política linguística como “conjunto de escolhas conscientes referentes às relações entre língua e sociedade” e planejamento linguístico “a implantação prática de uma política linguística, em suma, a passagem ao ato” (p.145), o autor esclarece que dada a importância da relação língua e sociedade, apenas o Estado tem o poder e os meios de colocar em prática a política linguística. Quando é o poder do Estado que delega a mudança na língua por meio de um planejamento, tem-se uma abordagem in vitro; esse tipo de ação foi exemplificado no livro com a reforma da escrita na China (p.149) e a padronização de uma língua: o exemplo da Noruega (p.152). Outra abordagem para a questão do plurilinguismo é a gestão in vivo que foi ilustrada nos casos de línguas aproximativas e das línguas veiculares, em que se percebeu a criação de uma língua como produto da prática, sem a interferência de uma decisão oficial do poder. Calvet conclui “Sociolinguística: uma introdução crítica” retomando uma discussão posta no capítulo cinco, especificamente no subitem “Sociolinguística e sociologia da linguagem”, discussão essa que esteve imbricada ao longo de toda obra: é inconcebível uma distinção tão binária de sociedade e linguagem, como se ocupassem dois extremos de um lado, comprometendo o objeto de estudo. O autor coloca que se deve pensar na sociolinguística como linguística, dada seu objeto de estudo. E encerra com a proposta de uma inovação gráfica para os termos sociolinguística e linguística, quando propõe (socio)linguística entre parênteses, na esperança de a linguística estruturalista e gerativista ser englobada na linguística que estuda a comunidade social em seu aspecto linguístico.