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Marília Mattos maridmij@gmail.com MAX WEBER E HANS KELSEN: A SOCIOLOGIA E A DOGMÁTICA JURÍDICA DANIEL BARILE FICHAMENTO I. INTRODUÇÃO O trabalho busca analisar a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito/Dogmática Jurídica. Weber representa um dos mais altos expoentes da sociologia jurídica. Weber, em Economia e Sociedade, remonta à ideia de que a lei não poderia criar efetivamente o Direito, visto que tal tarefa era destinada ao órgão vivo, ao elemento subjetivo do Direito, o juiz. Herman Kantorowics e Euger Erlich afirmavam que a ciência deveria pautar-se nos acontecimentos da realidade, nos elementos empiricamente contestáveis. Criticavam os juristas que se atinham às leis formalmente criadas pelo legislador, propondo a livre criação do Direito, pois para eles a Sociologia Jurídica se voltava a atingir o escopo do próprio Direito, que é a transformação do mundo fática. Eles também tentaram reduzir a Ciência do Direito à uma mera disciplina. II. A POSTURA WEBERIANA A Ciência do Direito não poderia ser reduzida a uma disciplina sociológica. Weber adaptou a teoria de Jellinek, que trazia como validade ideal a validade de uma norma frente as outros, e validade empírica a validade da norma frente à sociedade. A sua obra “Economia e Sociedade” trata dessa diferenciação. O ponto de vista jurídico, para ele, era o real significado do Direito. O ponto de vista sociológico, por sua vez, se refere ao que de fato ocorre, pois, as pessoas da sociedade podem considerar determinadas ordens de formas diferentes ou subjetivas, orientando por elas a sua conduta. A dogmática jurídica seria feita por um método logico-normativo, onde as normas seriam verificadas, as suas regras de validade e compatibilidade lógica das normas entro do ordenamento. Essa análise se situa no plano das ideias. Para Weber, essa dogmática se situaria no plano do dever-ser, pois seria a forma de melhor regular condutas e organizá-las sistematicamente. “A dogmático jurídica propõe-se a tarefa de investigar o sentido correto de normas cujo conteúdo apresenta-se como uma ordem que pretende ser determinante para o comportamento de um círculo de pessoas de alguma forma definido, isto é, de investigar as situações efetivas sujeitas a essa ordem e o modo como isso ocorre. ”. As regras jurídicas, a forma de sua criação, seu conteúdo a ser prescrito, sua organização em um sistema logico interno, isento de contradições, seriam da alçada da dogmática jurídica, visto que se Marília Mattos maridmij@gmail.com situam na esfera do dever-ser. A dogmática jurídica não tem nada a ver com o cosmos das ações efetivas, uma vez que ambos se encontram em planos diferentes. É a vigência pretendida. A sociologia do Direito seria organizada pelo método empírico-causal, que investiga o comportamento dos indivíduos frente a um sistema e regras, ainda que esses indivíduos não cumpram o dispostos nelas. A sociologia jurídica seroa p estudo do comportamento dos indivíduos frente as normas vigentes e a determinação do grau em que se verifica a orientação dos homens por esse conjunto de leis (ordem legitima). “Tem por objeto compreender o comportamento significativo dos membros de um grupamento quanto as leis em vigor e determinar o sentido da crença em sua validade ou na ordem que elas estabeleceram. Procura, pois aprender até que ponto as regras de direito são observadas, e como os indivíduos orientam de acordo com elas a sua conduta. ” O comportamento humano se orienta conforme a norma, atuar esse que se situa no plano do “ser”, da realidade fática. São os acontecimentos reais. A sociologia jurídica é responsável por investigar o comportamento dos indivíduos conforme um ordenamento jurídico posto, ou seja, vigente. Um estelionatário, a fim de livrar-se do peso da lei, orienta-se segundo a norma com o fito de escapar-lhe. Ele visa aplicar a máxima diligencia para não ser descoberto, pois sabe que está sujeito a uma sanção. O Direito é, então, uma ordem com certas garantias especificas da probabilidade de sua vigência empírica. A sociologia investiga o que efetivamente está acontecendo na sociedade porque existe certa possibilidade de que os seus membros acreditem na validade de uma ordem e adaptem a sua conduta essa ordem. O objeto de uma sociologia do Direito é a conduta humana que o indivíduo adaptou a uma ordem porque considera essa ordem como válida. Kelsen solidificou-se como a mais expressiva referência no âmbito da Dogmática Jurídica. Kelsen já citava Weber e teceu algumas considerações a respeito da Sociologia Jurídica de Weber em sua obra Teoria geral do Direito e do Estado. III. A POSTURA KELSENIANA Hans Kelsen foi um dos principais contendedores de Max Weber, mas não deixou de reconhecer a clarividência do pensamento de Weber. Na época do pensamento de Weber, estavam surgindo diferentes teorias na Europa que convergiam para um ponto central de que o Direito era um universo de normas jurídicas criadas e impostas pelo Estado. Até Hans Kelsen, no início do século XX, já havia se passado praticamente um século de surgimento e consolidação do pensamento positivista/pré-positivista. Kelsen não pensava na Sociologia do Direito quanto única ciência capaz de definir o fenômeno jurídico, pois esse pensamento reduzia a ciência do direito a uma disciplina sociológica, e para a Sociologia definir o seu objeto, ela teria que recorrer a Ciência do Direito. Dessa forma, não seria a ciência do direito uma matéria da sociologia, e sim o contrário, pois a sociologia teria uma dependência conceitual daquele campo de conhecimento. O pensador vienense reduziu o estudo da Ciência Jurídica apenas à norma, razão pela qual a sua teoria é chamada “Teoria Pura do Direito”. Ele não se utilizava dos recursos sociais, políticos e psicológicos, pois esses seriam objetos da sociologia, da ciência política e da psicologia, Marília Mattos maridmij@gmail.com respectivamente. A Sociologia Jurídica, portanto, não poderia ser considerada como uma ciência autônoma, já que os seus conceitos eram da Ciência Jurídica (norma, ordenamento jurídico e ordem jurídica). Kelsen concorda com Weber no que ele diz que a sociologia jurídica está no campo do ser e a dogmática no campo do dever-ser., Entretanto, Weber considera validade o momento em que a orientação das ações sociais dá-se em função da norma jurídica, e Kelsen vê a validade como a existência especifica das normas. O problema da visão de Weber, nesse sentido, é que se o indivíduo cometesse um delito sem que tivesse consciência da ordem jurídica, esse não seria um fenômeno relevante e não estaria submetido à avaliação da sociologia jurídica. Kelsen afirma que a sociologia do Direito que investiga as causas da criminalidade deve levar em consideração delitos que foram cometidos sem que o delinquente adaptasse a sua conduta a ordem jurídica, pois ele é objeto da sociologia mesmo se o delinquente cometeu esse delito sem pensar no Direito. Por fim, para Kelsen, a única ciência capaz de definir o que viria a ser “direito” seria a Ciência do Direito, sendo a sociologia jurídica diretamente dependente desta para a sua formulação. IV. Conclusão O mérito maior de Weber, ao que parece, foi de distinguir o âmbito e atuação de ada um desses ramos do conhecimento, a saber, a Dogmática Jurídica e a Sociologia do Direito, elucidando as metodologias desse sistema. Cada uma analisa o Direito sob primas diferentes e de forma alguma excludentes. A Dogmática estabelece a melhor forma possível de se elaborar e organizar normas, e a Sociologia do Direito verifica em que grau essas normas estão sendo seguidas na sociedade. Kelsenlimitou demasiadamente o universo do fenômeno jurídico a uma visão muito restrita da realidade, pois mesmo que a Sociologia utiliza de conceito da Ciência do Direito, isso não interfere quanto a lhe conferir autonomia e capacidade de formular seus próprios conceitos e interpretações. Kelsen empregou equivocadamente posicionamentos reducionistas, confinando o fenômeno do Direito em um prisma unívoco e limitado. Weber, por sua vez, levantou a hipótese de que uma sociedade pode se reorganizar sem que com isso se altere um artigo de lei. Isso porque a verificação do comportamento dos indivíduos é determinada pelo sistema jurídico. Temos também o exemplo de que a população muitas vezes se orienta por costumes ou hábitos, sem que esse possua conhecimento da vigência ou mesmo da existência da norma que gerou esse habito ou que com ele se compatibilize. Torna-se evidente, então, que a pessoa não se orientou segundo s a norma, mas segundo um costume ou uso vigente, e para a sociologia essa diferença é gritante. Ainda, Weber defendia ser possível existirem tantas ciências quantos pontos de vista específicos para o exame de um problema, razão pela qual atacava Augusto Conte e a sua tese de hierarquização das ciências, pois Weber acreditava não ser possível uma ciência servir de base ou modelo à outra, sendo impensável conceder a prevalência de alguma delas. Por esse motivo, o ponto mais importante da sua teoria foi discernir e separar cada uma dessas ciências e relega-las aos seus respectivos campos de validade.