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[Dados sobre esta edição:
Ed. eletrônica baseada na 1ª ed. impressa - Texto integral. Sem imagens.]
CAFUNDÓ
DA
INFÂNCIA
Carlos Lébeis
Para você,
quando tiver mais quatro palmos e meio.
A Curió Xavier,
filho do Curió Xavier, que sabia as coisas direitinho.
CAFUNDÓ DA INFÂNCIA
ORA, ISTO SE passou num lugar distante e encantado o nde tudo pode acontecer, até o impossível; num
lugar rodeado de árvores sempre carregadinhas de flores e de frutas, onde todos os bichos e
passarinhos resolveram viver juntos; num lugar cheio de luz e de alegria chamado Cafundó da
Infância.
Não me recordo exatamente do ano em que isto se deu, porque o Curió que me contou a história,
com aquela vozinha de passarinho triste, morreu pouco depois, numa epidemia de sarampo que
sarapintou a cara de toda a meninada de meu bairro. Neste instante ele provavelmente estará
cantando os aborrecimentos da vida naquela gaiola azul e grande como o maior dos viveiros para
onde, segundo ele mesmo afirmava, vão os passarinhos depois que batem a linda plumagem.
Não me lembro, pois, do ano em que a história aconteceu, mas isso não tem grande importância
porque, em compensação, sei como ela aconteceu direitinho, em todos os seus pormenores, tal como
me foi narrada pelo meu querido e sempre lembrado amigo Curió Xavier.
Não se espantem com esse nome, nem franzam a testa. Você aí, que está com vontade de rir,
também não ria porque a coisa é séria. Bem sei que não parece nome de passarinho, mas para dizer a
verdade (e eu já lhes disse que no Cafundó da Infância tudo pode acontecer), aquele curió, um curió
pequeno e chorão, vestido sempre de fraque preto e colete marrom, chamava-se Curió Xavier. Nem
mais, nem menos.
Vou explicar por que. É que no Cafundó da Infância todos os passarinhos e bichos tinham nome e
eram tratados como gente. Havia um tico-tico que era conhecido como Tico-tico de Sousa, como
existia um vira chamado Maneco Vira-vira; lembro-me também de ter ouvido do curió referências à
Nhá Rôla, a “seo” Pintassilgo Caruso, ao Grilo Maciste, a Nhô Lambari Nanico e até, se não me
engano, a um tal João de Barros, especialista em fazer casa protegida dos ventos de chuva. Recordo-
me tão exatamente de tudo quanto me disse o curió que vou tentar reproduzir a estranha história na
mesma linguagem em que a ouvi.
COMEÇO DA HISTÓRIA DO CURIÓ
VOCÊS JÁ OUVIRAM Curió falar? Ouviram ou não ouviram? Não ouviram! Pois o meu amigo Curió
Xavier falava nas horas vagas, quando lhe dava na telha e simpatizava com a gente. Ora se falava!
Ao descobrir o milagre quase caí da rede de taboa em que me balançava. Isso foi numa tarde de
maio do ano passado. Estava ali recostado, matutando na maneira mais cômoda de fazer uma viagem
de ida e volta até a Lua sem me machucar, ideia que me persegue há uns três anos e oitenta e cinco
dias, mais ou menos, quando ouvi, mas ouvi nitidamente, uma vozinha que vinha da gaiola. Estava
sozinho com o curió; olhei em torno e não vi mais ninguém. Não acredito em assombração. Comecei,
então, a observar o passarinho que naquele momento limpava com o bico a aba do fraque.
Foi quando verifiquei que a voz era dele, dele mesmo, daquele curió que havia tantos anos me
acompanhava sem dizer uma palavra!
Fiquei radiante com a descoberta e nem era para menos! Tenho visto muito papagaio falador, mas
de curiós nunca soube que conseguissem mais do que aquela toadinha de passarinho encabulado:
– Hoje estou aborrecido... aborrecido... aborrecido...
Imaginem, pois, a minha satisfação quando me vi diante de um curió capaz de dar lição em
qualquer papagaio!
Foi nessa ocasião que o curió me contou todas essas coisas estranhas e maravilhosas que vocês
vão ler.
Quem já ouviu um curió cantar pode muito bem imaginar o que seja um curió falando; é a voz
mais engraçada deste mundo; voz de pernilongo constipado ou de grilo com bronquite. Mas eu me
gabo de ter bons ouvidos e graças a isso não perdi uma palavra da história do curió.
Pois é... Eu estava recostado, ao lado da gaiola, pensando naquele célebre piquenique na Lua,
quando o curió começou a narrativa espantosa:
– Um dia ainda hei de escrever as minhas memórias – disse ele, enquanto piscava o olho
esquerdo.
– Memórias? – respondi meio espantado.
– Não se espante, nem franza a testa – continuou o curió. – Garanto-lhe que se você soubesse a
metade do que sei, se tivesse visto a terça parte do que vi, já teria escrito as suas.
– Pois se assim é – declarei –, vamos entrar num acordo: você ditará as suas memórias e eu as
escreverei e publicarei com o seu nome: Memórias de...
– Curió Xavier é o meu nome.
– Curió Xavier? – perguntei rindo.
– Não ria não, nem franza a testa. E fique também sabendo de uma vez para sempre que no
Cafundó da Infância nós, os passarinhos, temos nome como vocês. Curió eu sou desde que saí do ovo
numa noite de garoa; Xavier é o sobrenome de uma das mais importantes famílias de curiós. Meu pai,
o velho Curió Xavier, deixou fama! Cantava tanto que até perdia o equilíbrio e caía do galho!
Coitado! Morreu de muda encruada, o pobre!...
Houve um momento de silêncio em que o curió parecia pensar.
– Mas continue – disse eu.
O curió espreguiçou a perna direita e a asa esquerda e prosseguiu com a cabecinha meio de lado:
– Esse negócio de publicar as minhas memórias não me agrada. Não quero ficar conhecido. Meu
pai sempre dizia: “Curió, meu filho, não queira ser patativa; lembre-se que a nossa família é
modesta”. Prefiro, pois, contar a história e você que se arranje depois.
– Já que você prefere, curió...
– Curió Xavier, não se esqueça.
– Pois está bem, Curió Xavier. Pode começar que sou todo ouvidos.
O curió tomou um gole de água, pigarreou e falou mais ou menos assim.
ERA UMA VEZ...
ERA UMA VEZ o lugar onde eu nasci. Árvores de todos os tamanhos espetadas por toda parte;
mangueiras grandes como o mundo, jaqueiras que apostavam para ver a que crescia mais ligeiro e
mais alto. Havia de tudo; era só pensar numa fruta e ela aparecia prontinha para ser chupada. Era de
lamber os beiços, como vocês costumam dizer. Bons tempos! Quando o vento dava no milharal, eu
gostava de ficar pendurado numa espiga de milho, balançando que balançando... E na hora em que o
sol estava tinindo de quente, enquanto as cigarras estalavam de tanto cantar, era um prazer molhar as
penas na água clara do ribeirão e espiar os lambaris sempre fresquinhos da silva!
Isso tudo é verdade, continuou o curió, e não precisa franzir a testa. Mas, como ia dizendo,
vivíamos felizes, na mais franca e cordial camaradagem. Não havia brigas nem rivalidades entre os
bichos; tatus, lagartos e lagartixas, grilos e cigarras, saltões e gafanhotos, formigas-cuiabanas e
saúvas, marimbondos e caçunungas, tatuzinhos e micuins, todos os bichos, desde os maiores até os
mais miúdos, e os passarinhos todos, desde o pintassilgo até as corruíras, desde o palhaço tizio que
leva a vida dando cambalhotas, até o mestre sabiá que parece professor de canto, todos enfim,
vivíamos satisfeitos e dando graças a Deus por aquele pedaço de céu sempre azul em cima daquele
punhado de terra sempre verde e florido!
Ora, no Cafundó da Infância vivia um menino miúdo e esperto como um serelepe, mas dono de um
coração maior do que a manga coração de boi! Um anjo sem as asas; bom até ali! Era o nosso grande
amigo e protetor; auxiliava em tudo. Se acontecia do vento derrubar do ninho os nossos filhotes, ele
acudia logo e os colocava de novo no ninho com um cuidado que só vendo. Uma vez uma lagartixa
destroncou a perna querendo apostar corrida com um lagarto. Pois o nosso amigo foi encontrar a
pobre lagartixa triste, curtindo sozinha as suas dores, escondida embaixo de um pé de couve, e
imediatamente consertou-lhe a perna destroncada, recomendando-lhe depois:
– Agora fique uns dias em casa sem fazer estripulias.
Enfim, de tal forma ele se comportava e tantas provas de amizadedava aos bichos que ficou
sendo o pai de todos nós. O pai e o conselheiro. A gente não fazia nada sem lhe pedir conselhos. Às
vezes passava pito nos nossos filhotes quando os apanhava em travessuras, mas era para o bem
deles. Ralhava, mas de um jeito tão macio que até era um prazer. Quando ele aparecia, de manhã ou à
tarde, que alegria no Cafundó da Infância! Era um alvoroço! Cada um queria fazer bonito e mostrar as
suas habilidades: as cigarras cantavam mais, os gafanhotos e saltões saíam pela grama afora dando
pulos de satisfação, os lagartos e lagartixas apostavam corrida para diverti-lo, os ouriços se
encolhiam e viravam bolas para ele brincar, e nós, os passarinhos, cantávamos cada vez mais alto
para agradá-lo. Até as formigas largavam as folhinhas que vinham carregando e corriam ao encontro
daquele que era tudo para nós. Ora se era!
Um dia resolvemos mostrar-lhe a nossa gratidão da melhor forma e, reunidos todos os bichos
numa conferência, ficou combinado que lhe faríamos uma surpresa na noite de Natal. Era uma festa
de arromba! Não é para falar, mas a coisa saiu ainda mais bonita do que imaginávamos. Levamos
muitos dias e muitas noites em preparativos e ensaios. Foi nomeada uma comissão de passarinhos
para ir buscar o nosso amigo homenageado às onze e meia da noite de Natal. Ainda me lembro que a
comissão era composta de Maneco Vira-vira, “seo” Pintassilgo Caruso, Nhá Rôla, Tizio
Cambalhota, João Bobo e este seu criado Curió Xavier.
Que boniteza de noite! Nem feita de encomenda! O vento não deu o ar de sua graça e as estrelas
fizeram a maior reunião que já se viu no céu. A Lua cresceu como um balão e como não havia vento,
ficou parada derramando um breu branco sobre a terra.
Às onze e meia em ponto, justamente na hora em que o povo passava para a missa do galo, nós da
comissão estávamos na porta dos fundos da casa do nosso amigo. Ele também não se fez esperar e foi
logo perguntando qual era a surpresa.
– Só à meia-noite, quando o galo der o sinal – respondeu Nhá Rôla com aquela vozinha meiga que
só ela possui.
E Maneco Vira-vira acrescentou:
– Preciso tapar os olhos dele!
Todos aplaudiram a magnífica ideia de Maneco Vira-vira, inclusive o nosso amigo e protetor, que
mais que depressa tirou um lenço do bolso e com ele vendou os seus próprios olhos.
– Pronto! – disse ele. – Juro que não enxergo um palmo diante do nariz. E agora? É preciso que
vocês me guiem porque não vejo nada. Que escuridão! Parece que a noite entrou em mim.
– Você fica por nossa conta – disse Tizio Cambalhota.
– Acompanhe-nos, venha por aqui – falou “seo” Pintassilgo Caruso.
– Cuidado, não vá tropeçar na sombra – acrescentou João Bobo no meio de uma gargalhada geral.
E assim fomos andando devagarzinho e conduzindo o nosso amigo ao local designado para a
festa.
Chegados lá, justamente embaixo da maior mangueira do Cafundó da Infância, Nhá Rôla falou de
mansinho:
– Só pode tirar o lenço quando o galo der o sinal.
Correndo os olhos pelas árvores verifiquei que tudo estava pronto para a surpresa.
Não demorou muito e o sino da igreja começou a repicar para a missa do galo. Então não foi só
um galo que deu o sinal; foram todos os galos reunidos:
– Có... Có... Ró... cóóóóóó...
Um garnisé ficou atrasado e cantou depois:
– Qui... qui... ri... quiiiii...!
– Pode tirar o lenço, gritamos todos juntos.
O nosso amigo arrancou o lenço que lhe tapava os olhos e, olhando em redor, não viu nada de
mais.
– Ora essa! Aonde é que está a surpresa? – perguntou.
Então um sabiá-laranjeira que estava empoleirado num galho abriu o bico e soltou um assobio
alto e demorado. Era o sinal.
Num instante todas as árvores se acenderam iluminadas por todos os vaga-lumes do Cafundó da
Infância; não havia galho, não havia folha que não estivesse coberta de vagalumes acesos! Tudo
verde, tudo claro! No céu, a Lua ajudava a iluminação. E então, aos olhos maravilhados do nosso
amigo, começaram a desfilar, marchando, todos os habitantes do Cafundó da Infância! Era um
verdadeiro exército em marcha. Na frente vinham os galos tocando clarins; depois as galinhas-
d’angola queixando-se de fraqueza: “Estou fraca, estou fraca, estou fraca...”. Depois, passou o
batalhão dos lagartos verdes e pardos com bandeirinhas amarradas nos rabos; vieram os ouriços
cheios de frutas espetadas nos espinhos; eram jabuticabas, cambucás amarelos como o sol, araçás,
cambucis, mangas, laranjas e goiabas. Veio depois uma interminável correição de formigas-
cuiabanas e saúvas de mãos dadas; desfilaram milhares de grilos tocando flautins, enquanto todas as
borboletas voavam sobre eles dançando como bandeirinhas de todas as cores; em seguida passaram
as lagartixas marchando, umas atrás das outras, na mais perfeita ordem. Depois começou o barulho:
eram as cigarras que passavam cantando como nunca. Nesse momento os vaga-lumes ficaram
entusiasmados e acenderam ainda mais as lanterninhas verdes. As cigarras eram tantas que não
acabavam mais de desfilar fazendo uma algazarra que doía no ouvido. Por último, chegou a vez dos
passarinhos e foi uma maravilha!
Havia pássaros de todos os tamanhos e de todas as cores e cada batalhão cantava o seu canto
diferente dos outros. Na frente vinham os beija-flores roncando as asas como aeroplanos; passaram
depois os curiós, os canários, os tizios dando cambalhotas, os tuins barulhentos, maitacas, papagaios
e araras, pintassilgos, sabiás, ticos, viras, todos eles cantando os cantos mais variados e diferentes,
satisfeitos e orgulhosos da festa!
O que eu posso dizer é que o nosso amigo e protetor ficou tão emocionado que quase chorou; e
tão entusiasmado que a todo o momento dava vivas e batia palmas e, quando o último batalhão
passou, ele foi marchando também atrás daquela multidão de aves e bichos. Os vaga-lumes então
resolveram sair das árvores e acompanhá-lo, iluminando o caminho. Bonito mesmo! Parecia
procissão acesa subindo ladeira! Foi a mais linda festa que houve no Cafundó da Infância... Tudo
isso que estou lhe contando é verdade pura, sem tirar nem pôr, por isso não se espante, nem franza a
testa.
– E como se chamava esse menino? – perguntei.
E curió respondeu prontamente:
– Chamava-se Esperidião Caxuxo.
SONHO DE LAMBARI
CURIÓ XAVIER INTERROMPEU a história que me vinha narrando, desceu do poleiro, gargarejou para
refrescar a goela, cuspiu, pigarreou, comeu nove alpistes, beliscou uma folha de alface, empoleirou
novamente e quedou mudo e pensativo.
Eu também estava pensativo e mudo, recordando tudo quanto acabara de ouvir com os olhos
arregalados e os ouvidos atentos.
– Ai que saudades que eu tenho da aurora de minha vida! – disse o curió. E depois cantou a
toadinha triste:
– Hoje estou aborrecido... aborrecido... aborrecido...
E ficou mudo novamente. Passados um minuto e trinta e seis segundos de silêncio, Curió Xavier
me perguntou se eu gostava de adivinhação. Respondi que apreciava e até sabia algumas de cor.
– Pois então – continuou o curió –, responda: o que é o que é: dá um pulinho para cima e vira do
avesso.
Dei tratos à imaginação sem encontrar a resposta e o curió, vendo o meu embaraço, perguntou:
– Não sabe?
– Não! – confessei.
– Não sabe mesmo?
– Não sei não.
– É pipoca, seu bobo – concluiu o curió, dando uma risadinha.
Depois cantou de novo:
– Hoje estou aborrecido... aborrecido... aborrecido...
– Você está aborrecido e eu ansioso por ouvir o resto da história – disse eu. – Por que não
continua?
– Vou continuar, mas antes quero contar o que sucedeu a um lambari pretensioso. Essa história me
foi contada por meu pai, o velho Curió Xavier, que sabia as coisas direitinho. Não sei se era
verdadeira, mas parece. Ora se parece!
Um dia o lambari sonhou que era zepelim. Pôs a cabecinha para fora da água do ribeirão, espiou e
começou a dar umas voltas sobre as taboas e aguapés.
Um bagre que o tinha visto mal pode conter o seu espanto, exclamando:
– Mestre lambari, que é isso?– Lambari vírgula. Eu sou um zepelim! – respondeu o lambari, roncando mais forte.
O bagre arredondou ainda mais os olhos e disparou para o fundo da água a fim de contar aos
outros bagres, às traíras e às piracanjubas que Mestre Lambari, coitado, estava ruim da cabeça...
– Louco? – indagaram todos de uma vez, esbugalhando os olhos.
– Louco varrido! – respondeu o bagre. – Imaginem que agora lhe deu a mania de ser zepelim!
Foi uma gargalhada geral da peixarada e durante três minutos e meio as espumas rebentaram à
superfície da água a ponto de uma libélula estranhar o fato e dizer:
– Uai! Esse rio parece que virou de água mineral!
Depois, todos os peixes vieram espiar e deram com o lambari que roncava como um porco e fazia
evoluções em torno de um galho de ingazeiro.
Ora, aconteceu que lá no alto, um gavião, um legítimo gavião-carapinhé, deslizava de asas abertas
e olhar atento. Estava à procura de almoço para os filhotes que haviam ficado na beira do ninho
dando gritos de fome:
– Pinhé! Pinhé! Cará... Pinhé!
Vendo o lambari, o gavião não teve um momento de indecisão e despencou rápido, como uma
flecha, sobre o coitado que já estava vermelhinho de tanto roncar.
– Pinhé! Os meus filhotes estão com desejo de comer peixe frito!
O pobre e pretensioso lambari se debatia entre as garras do gavião, gritando:
– Eu não sou um lambari! Você não sabe com quem está falando! Largue-me seu bruto! Não vê
que está machucando a minha espinha dorsal?
– Então eu não sei com quem estou tratando? – respondeu o gavião. – Quem é você senão um
lambari de água rasa?
– Lambari vírgula! – retrucou o lambari. – Eu sou zepelim em carne e osso! – E roncou mais forte.
– Pois tanto melhor – disse o gavião. – Há muito tempo que tenho umas contas a ajustar com o
zepelim. Em vez de peixe frito comeremos zepelim ensopado! – Foi em vão que o lambari gritou, se
debateu e protestou. O gavião, indiferente às súplicas e protestos, lá se foi, céu acima, cada vez mais
alto.
O lambari pensava consigo mesmo: “Nunca o zepelim voou tão alto!”.
Viu a terra se afastando; as árvores e as casas foram diminuindo e o ribeirão de águas claras,
onde sempre vivera feliz e despreocupado, parecia uma serpentina branca desenrolada no meio do
mato.
Afinal, depois de algum tempo de voo, o gavião começou a descer na direção de uma perobeira,
mas descia com tal velocidade que o pobre lambari sentiu um frio doído no estômago e fechou os
olhos, dizendo:
– Cuidado! Olhe que zepelim não desce tão depressa!
O gavião, indiferente e forte, vinha de asas fechadas a cento e trinta e cinco quilômetros por hora,
até que abriu novamente as asas largas para pousar no galho mais alto da perobeira onde seus
filhotes, de bico aberto, reclamavam em altos gritos o almoço que estava tardando:
– Pinhé! Pinhé! Cará... Pinhé!
– Sosseguem – disse o gavião, enquanto os filhos lhe pediam a bênção. – Temos hoje peixe frito!
– Protesto! Gritou o lambari. Eu sou o zepelim e zepelim não se come!
Os gaviõezinhos riram batendo as asas peladas.
– Pelo jeito está se vendo que você é lambari – retrucou um deles, de penacho em pé.
– As aparências enganam. Eu sou zepelim!
– É lambari!
– Eu sou zepelim!
– É lambari!
– Então sou, está aí – concluiu o lambari para acabar com aquela discussão inútil.
A verdade, porém, é que o lambari estava começando a ver as coisas mal paradas. Isso de acabar
na barriga de gavião não tem graça, pensava.
Então lhe veio à memória o seu riacho humilde e bom, de águas claras e sempre renovadas, de
margens perfumadas pelos lírios-do-brejo, o seu ribeirãozinho que na verdade era estreito e raso,
mas para ele, lambarizinho de polegada e meia, era bem maior e mais fundo do que o mar!
O gavião havia levantado voo novamente, depois de recomendar aos filhotes:
– Tomem bem conta dele enquanto vou buscar tempero para fritá-lo.
– Deixem-me, ao menos, mandar um recado para a minha família que deve estar com cuidado de
mim – implorou o lambari.
Mas os gaviõezinhos fingiram que não ouviram.
– Pinhé! Pinhé! Carapinhé!
– Um dia vocês hão de se convencer que comeram o zepelim – disse o lambari. – Vocês hão de
ter uma indigestão de zepelim; hão de morrer de indigestão de zepelim! Bem feito!
Mas os três gaviõezinhos não prestaram atenção. O gaviãozinho número um disse:
– Eu é que vou comer a cabeça dele!
O lambari ficou gelado como sorvete.
– A cabeça é minha! – gritou o gaviãozinho número dois.
– Não é sua nem dele! – interveio o gaviãozinho número três, aquele que tinha o penacho em pé. E
concluiu: – A cabeça é minha!
O lambari sentiu um frio na espinha, pensando: “E dizer que daqui a pouco estarei no bucho desse
perverso!”.
Então, os gaviõezinhos pegaram numa discussão brava:
– É minha!
– Pinhé! É minha!
– Carapinhé! É minha!
Enquanto eles discutiam, o lambari espiou para fora do ninho e verificou que o ribeirão, o seu
ribeirão de águas claras, corria de mansinho justamente embaixo da perobeira e, sem pestanejar, fez
pontaria com a cabeça bem no meio das águas e precipitou-se gritando:
– Enquanto vocês discutem eu vou ali e já volto!
Sentiu um vazio na boca do estômago, mas foi tudo rápido porque meio minuto depois deu um
mergulho como nunca nenhum lambari havia dado e foi bater com a cabeça no fundo do ribeirão.
Quando o gavião chegou com o tempero, encontrou os filhotes na discussão.
– É minha!
– Pinhé! É minha!
– Carapinhé! É minha!
– Onde está ele? – perguntou, zangado, o gavião.
Só então os gaviõezinhos verificaram que o lambari fugira. Correram para a beirada do ninho e
olharam para baixo. Nesse mesmo instante o lambari regressava do mergulho e punha a cabecinha
para fora da água, gritando-lhes:
– Eu não dizia que era o zepelim? Enganei três bobos na casca do ovo, enganei três bobos na
casca do ovo...
E foi assim que os gaviõezinhos ficaram chupando o dedo, sem peixe frito e, por castigo, sem
sobremesa, concluiu o curió.
E depois, olhando bem para mim, perguntou:
– Mas por que é que você está com a testa tão franzida?...
ESPERIDIÃO CAXUXO
– MAS CONTINUE A HISTÓRIA do menino – disse eu.
– Aonde é que nós estávamos mesmo? – perguntou Curió.
– Na festa que ofereceram a ele. Como era mesmo seu nome?
– Es-pe-ri-di-ão Ca-xu-xo – respondeu o curió, destacando as sílabas.
– Bonito nome!
– Bonito mesmo! – continuou o curió. – Apareceu um dia e nunca ninguém soube direito de onde e
porque veio. Chegou cansado e cheio de pó, com uma trouxinha atirada ao ombro. Adormeceu
exausto à beira do córrego e no dia seguinte de manhã verificamos, com grande alegria, que ele
falava a nossa língua, a doce língua em que os bichos, os passarinhos e as árvores se entendem. Foi
uma alegria geral!
– Quem é você? – perguntamos.
– Desde que nasci sou um menino e não consegui crescer até agora – respondeu-nos.
– Mas como é que você se chama?
– Dizem que sou o Esperidião Caxuxo.
– De onde é que você vem?
– Ih! De muito longe... Vocês estão vendo aquela montanha azul? – continuou ele, apontando para
o horizonte. – Pois é de lá que eu venho... Caminhei muitos dias e muitas noites... Subi e desci muitas
ladeiras; saltei muitos riachos; afundei a canela em muitos brejos e percorri muitos caminhos para
poder chegar aqui. Mas cheguei e me sinto contente por estar no meio de vocês. Quero morar aqui,
viver a mesma vidoca que vocês levarem. Eu não tenho asas, mas sei cantar como os passarinhos; sei
falar a mesma língua dos bichos e das árvores, entendo tudo quanto vocês dizem e sou amigo de
vocês. Quero ficar morando aqui, se vocês deixarem...
– Pode morar conosco – respondemos. – A nossa casa é sua e conte com a nossa amizade.
Desde então Esperidião Caxuxo se tornou o nosso maior amigo e protetor. Nós tínhamos até uma
cantiga que dizia mais ou menos assim:
Manequinho Vira-vira / Que é passarinho sem luxo;
“Seo” Bagre, Dona Traíra, / Nhô Lambari pequerrucho,
Toda a bichada delira / Vendo o Esperidião Caxuxo!Não me lembro bem do resto. A música era assim, continuou Curió Xavier. E assobiou uma
musiquinha alegre.
– Esperidião Caxuxo – prosseguiu o curió – nunca nos quis contar porque tinha vindo de tão
longe, daquele horizonte que se confunde com o céu.
Um dia, João Bobo lhe perguntou, indiscretamente:
– Por que é que vosmecê andou tanto para chegar até aqui?
– Porque me obrigaram! – respondeu, simplesmente, Esperidião Caxuxo. – Perseguiram-me tanto
que achei melhor partir. É o meu destino! Não digo mais nada.
E não disse mesmo, nem ninguém perguntou. Mas também, que nos adiantava saber, se os dias
corriam felizes na sua companhia, se ele fazia tudo para nos agradar, se vivia exclusivamente para
nós?
– Nós gostamos de você porque você é nosso amigo e nos protege – dizíamos sempre.
E protegia mesmo, protegia em todas as ocasiões necessárias. Um dia, por exemplo, às cinco
horas e quarenta e dois minutos e meio segundo da manhã, Mestre Grilo cansado de cantar a noite
inteira, ia indo para a sua casa, quando deu com o pobre Tico-tico de Sousa que se debatia dentro de
uma arapuca. O coitado do tico se esforçava inutilmente por sair daquela prisão. O grilo parou e
perguntou-lhe:
– Mas que é isso?
O tico respondeu:
– Estou aqui desde três horas e vinte e um minutos de ontem. Não consegui pregar o olho esta
noite.
O grilo declarou:
– Nem é para menos! Isso é malvadez! Espere que vou ajudá-lo.
Fez dois ou três movimentos de ginástica para preparar o muque, aprumou-se batendo no peito
estufado como Tarzan, deu um assobio como nenhum grilo havia dado ainda.
Esperidião Caxuxo ouviu logo e sem perder tempo veio correndo e encontrou o grilo de um lado
para outro e dizendo:
– Ah! Isso é malvadez!
Esperidião Caxuxo levantou a tampa da arapuca e o tico escapuliu tão ligeiro que nem teve tempo
de agradecer. Chegando em casa, o grilo, que é prosa como ninguém, foi mentir para a família,
dizendo que o tico devia a vida a ele... E inventou uma história comprida mesmo.
Casos como esse aconteciam quase diariamente no Cafundó da Infância depois da chegada de
Esperidião Caxuxo. O que sei dizer é que ele sabia tudo, resolvia tudo, chegava sempre no momento
oportuno, estava em toda a parte. E assim a nossa vida corria feliz, graças a ele! Correu feliz até
aquele dia da prisão do tico, pois aquela história do alçapão armado começou a nos inquietar,
tirando-nos o sossego.
– Quem será que anda armando arapuca no Cafundó da Infância? – perguntou Tizio Cambalhota,
passeando de um lado para outro.
– Esquisito mesmo – respondeu Maneco Vira-vira.
– Aqui há coisa – ponderou Mestre Grilo. – Aqui há dente de coelho!
– Que judiação! – concluiu Nhá Rôla, com a vozinha mansa de sempre.
Tico-tico de Sousa, que estava presente, narrou então o que tinha sucedido:
– Às três horas e vinte e um minutos em ponto eu estava, como de costume, satisfeito da vida.
Senti fome: bom sinal, sinal de saúde, como dizia meu avô. Então fui procurar o que comer e fiquei
radiante quando vi um punhado de alpiste espalhado numa sombrinha, embaixo de uma laranjeira.
– Isso até parece feito de propósito! Pensei com meus botões, mas não podia desconfiar de nada,
pois aqui nunca houve arapuca, nem alçapão, nem laço, nem visgo... Notei que por cima do alpiste
havia uma espécie de cabana e que a comida que tanto me apetecia estava colocada por baixo de um
poleiro, muito bem esparramada. Mas também não desconfiei; ao contrário, achei aquilo a coisa mais
natural do mundo e decidi-me a comer. Mal tinha beliscado a comida ouvi um barulho e vi que a
cabaninha desabava sobre mim. Ainda quis fugir, mas era tarde; estava preso, bem preso entre as
grades de uma arapuca! Então comecei a pensar na minha família e em vocês. Chamei pelo
Esperidião Caxuxo, mas ninguém me ouviu.
“O que vai ser de mim?”, pensei.
E assim as horas começaram a passar devagarinho. Vi a tarde cair, vi a noite chegar e não
consegui dormir um minuto. Via as estrelas lá no alto e os vaga-lumes aqui embaixo, piscando,
piscando... Afinal, depois de uma noite interminável de insônia, percebi que o dia estava para
chegar. As árvores iam aparecendo cada vez mais e a sombra se escondia pelos cantos. Foi quando
Mestre Grilo passou e deu comigo. O resto vocês já sabem como foi: Esperidião Caxuxo ouviu o
assobio do grilo e libertou-me.
Mestre Grilo aproveitou para fazer uma bravata:
– Se não fosse eu, o Tico a esta hora estaria ensopado com batata!
Ninguém riu por que o momento não era para rir.
– Quem será que anda armando arapuca no Cafundó da Infância? –perguntávamos uns aos outros.
Mas era um mistério. Ninguém sabia.
MAS UM DIA...
UM DIA, PORÉM, apareceram no cafundó da infância, ninguém sabe de onde, uns meninos esquisitos,
mal-encarados e perversos, de barba grande e voz de trombone rachado.
– Meninos de barba grande e voz grossa? – perguntei, franzindo a testa.
– É o que lhe digo! Palavra de curió! Não precisa franzir a testa – respondeu o curió. – Eu
também nunca tinha visto coisa igual!
– Quem sabe se eram anões? – indaguei.
– Qual anões, qual nada – continuou o curió. – Eram meninos e bem meninos; a única diferença é
que tinham barba crescida e falavam grosso. Vieram andando e gritando: “Precisamos derrubar estas
árvores!”. As árvores nem se mexeram de medo... Os bichos ficaram com o coração batendo
depressa. Nós, passarinhos, não podíamos imaginar o que aquilo representava e continuamos
cantando, indiferentes àqueles vozeirões de trombone.
E os meninos continuaram andando e gritando:
– Precisamos exterminar esses passarinhos!
O eco repetiu duas vezes: “Estes passarinhos... passarinhos...”.
Meu pai, o velho Curió Xavier, que sabia as coisas direitinho, cantou com a voz mais sumida
deste mundo:
– Estou ficando aborrecido... aborrecido... aborrecido...
O eco não respondeu nada e os meninos continuaram andando e gritando:
– Precisamos matar todos os bichos!
O eco então respondeu duas vezes: “Todos os bichos... os bichos... bichos...”.
Um lagarto verde que estava esquentando ao sol disparou numa carreira louca e desapareceu
embaixo de um toco.
Os meninos continuavam andando e gritando, cada vez mais alto:
– Precisamos acabar com tudo isto!
O eco, então, respondeu quatro vezes: “Acabar com tudo isto... com tudo isto... tudo isto... isto...”.
Os meninos, ouvindo suas vozes reproduzidas pelo eco, pensaram que alguém estivesse caçoando
e esbravejavam:
– Precisamos comer o Esperidião Caxuxo!
O eco respondeu de todos os lados: “Comer o Esperidião Caxuxo... Esperidião Caxuxo...
Esperidião Caxuxôôôôôô... Caxuuuuuuuuxoooooo!...”.
– Que ééééé? – respondeu Esperidião, que descansava à sombra de uma latada de chuchu e mal
podia imaginar quem o estava chamando.
Os meninos, mal ouviram a voz de Esperidião, desandaram a correr e o cercaram de todos os
lados. Esperidião ainda tentou fugir, enganando dois e dando três rasteiras e meia em quatro
barbados, mas era inútil qualquer tentativa de fuga. Estava dentro de um círculo, cercado por todos
os cantos e por meninos muito mais numerosos e mais fortes do que ele; viu-se logo agarrado e
subjugado e, enquanto lhes puxava a barba, eles uivavam de dor e, com maior raiva, o iam amarrando
como se fosse um embrulho.
Durou pouco tempo a luta desigual. Completamente amarrado, Esperidião Caxuxo nem espernear
podia. Era inútil qualquer esforço e assim os meninos o arrastaram como se fosse uma carga e o
amarraram no tronco de um mamoeiro.
Nesse momento o céu franziu o sobrolho e ficou carrancudo de repente. Nuvens pretas vieram
chegando de todos os lados e iam se acumulando umas por cima das outras. O vento começou a zunir
e a gemer no bambual. As folhas secas dançavam no meio de uma poeirada ruiva e os bichos e
passarinhos iam se recolhendo assustados.
Uma andorinha passou chispando e gritando:
– Vem água muita, minha gente! O mundo vem abaixo!
Logo depois o trovão ribombou. Um bando de maitacaslevantou o voo assustado. O vento soprou
mais forte e a chuva, como uma cortina espessa, veio vindo rapidamente, batendo tambor nas copas
das árvores. Começou aos pingos até que caiu em torrente, inundando tudo. Dentro de poucos
minutos, a terra estava ensopada e escorregando como sabão. Riachinhos se formavam de repente e
lá iam, espumando nas pedras e raízes, levando folhas e gravetos na correnteza. E a chuva caía cada
vez mais forte.
Ensopado como um pinto, o coitado do Esperidião Caxuxo lá estava amarrado no mamoeiro. Os
meninos de fala grossa e barba grande haviam fugido espavoridos, logo depois do primeiro raio,
deixando o prisioneiro ao Deus dará. Pobre Esperidião Caxuxo! Com os pés enterrados na lama,
espirrava mais do que um bode e em vão procurava por alguém que lhe pudesse valer naquele
momento difícil!
E assim se passou algum tempo, até que a chuva amainou e o arco-íris desenrolou a serpentina das
sete cores. Os primeiros passarinhos mais ousados começaram a aparecer de novo, sacudindo as
penas empapadas de água. Tico-tico de Sousa, como de costume, foi dos primeiros a sair e mal tinha
ensaiado um voo quando deu com Esperidião Caxuxo que espirrava como se houvesse cheirado rapé.
O espanto do tico foi tal que ficou pateta como o João Bobo, de bico aberto, como quem diz: “Será
possível?”. Só depois de algum tempo é que desceu do galho em que estava e perguntou a Espiridião
o que significava aquilo.
– Fui preso e amarrado por uns barbados de fala grossa, explicou Esperidião. Por favor, ajude-
me a sair daqui o quanto antes.
Tico-tico de Sousa não se esquecera do benefício que havia recebido de Esperidião naquele dia
em que ficara preso na arapuca desde as três horas e vinte e um minutos, até as cinco e quarenta e
sete do dia imediato.
– Ah, isso é malvadez, disse o tico, imitando o grilo. Espere que vou tomar providências.
Levantou voo rápido e desapareceu por entre as árvores. Um bem-te-vi que passava espiou e
cantou: “Bem te vi!”. E foi contar aos outros que não tinham visto.
Esperidião Caxuxo ficou aguardando as providências de Tico-tico de Sousa, tremendo de frio e
de medo que os barbados voltassem. Mas a espera não foi grande: dois minutos e meio segundo
depois o tico estava de volta com uma porção de passarinhos e de bichos e todos ficaram indignados
quando deram com aquele quadro triste.
– Amarrado assim parece São Sebastião – disse Nhá Rôla, com a voz meiga de sempre.
– Vamos soltá-lo! – gritaram todos. – Ninguém há de fazer mal ao nosso amigo!
O grilo, que toda vida foi muito prosa, adiantou-se, fez dois ou três movimentos de ginástica,
aprumou-se e, batendo no peito como Tarzan, gritou a plenos pulmões!
Mas um camundongo esfriou-lhe o entusiasmo, dizendo:
– Você com essa musculatura de grilo não arranja nada. Deixe isso por nossa conta.
E, chamando os outros camundongos, ordenou-lhes que mais que depressa roessem as cordas que
amarravam Esperidião Caxuxo.
Se bem ele disse, melhor os outros fizeram. Num abrir e fechar de olhos as cordas estavam roídas
e o nosso amigo recebia os cumprimentos de toda a bicharada. Nisso chegou Tizio Cambalhota.
Assustadíssimo, foi logo dizendo que Esperidião Caxuxo devia fugir, pois os barbados vinham
voltando para buscá-lo.
– Salve-se quem puder! – gritou o grilo.
Ligeiro como um mico, Esperidião Caxuxo subiu numa jaqueira, a maior de todas, e escondeu-se
no galho mais alto, no meio das folhas. Os bichos e os passarinhos desapareceram como por encanto
e quando os meninos barbados chegaram aos gritos, não encontraram Esperidião Caxuxo, nem
ninguém.
Sentindo-se enganados, os meninos gritavam raivosamente:
– Havemos de comer o Esperidião Caxuxo!
O eco respondeu lá longe: “...Esperidião Caxuxôôô!...”.
Mas Esperidião não foi tolo de responder. Ao contrário, encolheu-se ainda mais no meio das
folhas e ficou tão quieto que nem respirava.
Afinal, os meninos resolveram retirar-se, mas antes gritaram para que todos ouvissem que haviam
de derrubar as árvores, exterminar os pássaros, matar os bichos, comer o Esperidião Caxuxo e
acabar com tudo.
– A felicidade do Cafundó da Infância terminou nesse dia – prosseguiu Curió Xavier. – À tardinha
ouvi meu pai, o velho Curió Xavier que sabia as coisas direitinho, cantar com a voz mais triste deste
mundo:
– ... Hoje estou aborrecido... aborrecido.... aborrecido...
Tudo isso é verdade; tão certo como eu estar aqui. Por isso não adianta franzir a testa...
BOA VIAGEM
– E DEPOIS?– perguntei ao Curió.
– Espere um minuto e trinta e oito segundos – respondeu-me. – Deixe-me ao menos tomar fôlego e
molhar a garganta que já está seca de tanto falar. Ademais, estou com uma pontinha de dor de
estômago e creio que é fome. Vamos à merenda...
Desceu do poleiro, comeu sete alpistes, beliscou a alface, tomou três goles de água, fez tudo
quanto tinha que fazer e, depois de espreguiçar a asa esquerda e a perna direita, cantou em surdina:
– Hoje estou aborrecido... aborrecido... aborrecido...
– E depois? – perguntei novamente, pois estava ansioso para ouvir o fim da história.
– Onde é que estávamos mesmo? – indagou o curió. – Ah! Já sei! Na fuga do Esperidião Caxuxo.
Pois é. Como ia dizendo – prosseguiu Curió Xavier –, com aquelas ameaças, todos os meninos se
retiraram, prometendo voltar mais tarde, armados e dispostos à destruição. Esperidião Caxuxo
desaparecera logo após a retirada dos meninos. Naquele dia os passarinhos se reuniram como faziam
todas as tardes, empoleirados nas árvores do Cafundó da Infância, para cantar, cada qual na sua
linguagem, as aventuras do dia, as alegrias e tristezas da vida. Nós, curiós, isolados num galho,
estávamos aborrecidos, aborrecidos, aborrecidos... A verdade é que naquele dia ninguém se achava
com disposição para cantar e se divertir. A passarada sentia-se acabrunhada; os bichos também
passeavam pensativos, de um lado para outro. Cada um de nós procurava uma solução para o caso. O
que havíamos de fazer naquela expectativa? O grilo, que toda vida foi muito prosa, propôs liquidar
os meninos barbados a sopapos:
– Deixem por minha conta – declarou, batendo no peito. – Eu sozinho dou conta deles!
Apesar da seriedade do momento, ainda houve quem risse da prosápia do Mestre Grilo. A chuva
passara inteiramente. O capim-gordura do pastinho cheirava mais do que nunca.
– O que havemos de fazer? – indagou um de nós. Mas a pergunta ficou sem resposta. Afinal,
depois de muito pensar, quando já havíamos decidido resistir de qualquer forma à investida dos
barbados, vimos Esperidião Caxuxo que vinha chegando com uma pequena trouxa ao ombro.
– O que é isso? – perguntamos.
– Estou de partida... Vou-me embora amanhã cedo e vim despedir-me de vocês que sempre foram
meus únicos amigos.
– Não vá! Fique conosco! Não deixaremos você partir...
– Não posso ficar – disse ele tristemente. – Sinto que já sou demais aqui. Por isso vou-me
embora.
– Para onde?
– Ah, isso não sei, não... O mundo é grande e cortado de caminhos.
Nhá Rôla tentou convencê-lo de que não devia ir. Falou com aquela vozinha mansa de sempre,
mas foi tudo inútil. Um lagarto então lhe contou que todos estavam dispostos a resistir e resistiriam
ainda que isso lhes custasse a vida. Haviam de combater peito a peito e haviam de vencer! O grilo
aproveitou a ocasião para exclamar, batendo no peito:
– Antes de tocarem em você hão de passar por cima do meu cadáver!
Mas não houve argumento que convencesse Esperidião Caxuxo. Todos falavam ao mesmo tempo,
mas ele estava mesmo decidido a partir. Não queria lutas nem sacrifícios.
– Vou-me embora amanhã cedo – concluiu.
Houve um grande silêncio. Tudo estava triste como o canto do jaó. Afinal, Esperidião Caxuxo
rompeu o silêncio, procurando animar a bicharada:
– Isso não é nada! Um dia hei de voltar... É o meu destino!
Todos nós sabíamos que ele não voltaria, mas também sabíamos que não adiantava insistir. E foi
no meio da maior tristezaque Esperidião Caxuxo se despediu de todos, tendo uma palavra de carinho
para cada um. Muito bicho chorou nesse dia, muito passarinho engoliu em seco. Depois da despedida
geral, Esperidião Caxuxo atirou a trouxinha ao ombro e, sem coragem de voltar o rosto e olhar para
nós que ali ficávamos aborrecidos, aborrecidos, aborrecidos, lá se foi ele, o nosso bom e querido
amigo de todas as horas.
– Boa viagem!
Ia andando e se despedindo das flores e das árvores:
– Adeus mangueira espada! Você se lembra do dia em que caí do seu galho?... Adeus
jabuticabeira, quando você carregar não se esqueça de mim... Goiabeiras, sapotiseiros, abacateiros,
adeus para vocês todos...
– Até um dia, Esperidião Caxuxo.
E assim ele foi andando, andando, até que desapareceu de vista. Mal havia sumido e o Pintassilgo
Caruso pediu um minuto de atenção e fez um discursão, dizendo que aquele menino que acabava de
desaparecer com a trouxinha no ombro era toda a vida do Cafundó da Infância. Depois de falar
bonito durante sete minutos e três quartos de segundo, acabou exclamando:
– Vocês façam o que bem entenderem. Eu é que não posso viver sem ele!
– Nem nós! – gritaram todos os bichos e passarinhos.
– Pois então – prosseguiu Pintassilgo Caruso –, ponham o despertador para acordar amanhã mais
cedo.
– Vivôôôôôôôô! – gritaram todos.
O eco respondeu: “... Vivôôôôôôôô!...”.
– Boa noite! Até amanhã!... Até amanhã... Até...
Curió Xavier olhou-me e disse:
– Xi! Como sua testa está franzida!...
FIM DA HISTÓRIA DO CURIÓ
– E COMO FOI no dia seguinte? – perguntei.
– É escusado dizer, continuou o curió, que nessa noite ninguém dormiu. Dormir como? Parecia
véspera de viagem. Todos estavam aflitos. Nós, os passarinhos, cantamos a noite inteira, como se
fosse dia. Os bichos passaram a noite correndo de um lado para outro, transmitindo recados,
cochichando, combinando. Como a madrugada custou a chegar! Os minutos corriam devagar como se
fossem horas intermináveis. Mas afinal chegou o momento em que o céu corou encabulado, um
ventinho fresco veio de repente. Os galos tocaram o despertador:
– Có-có-ró-cóóóó! O dia vem vindo! Atenção para o sol!
– Qui-qui-ri-quiiiii! – responderam os garnisés.
O céu e a terra foram se colorindo e o dia amadureceu como um fruto. Tico-tico de Sousa chegou
logo com a notícia de que Esperidião Caxuxo estava à beira do córrego, prontinho para partir. Então
a bicharada toda correu para lá. Esperidião Caxuxo já ia andando, de trouxa ao ombro e todos os
bichos e todos os passarinhos foram andando atrás dele, em fila, como numa procissão, pela margem
do córrego. Eram milhares de tatus, ouriços, camundongos, lagartos e lagartixas, gafanhotos, saltões,
vaga-lumes, libélulas, cigarras, grilos e formigas; eram multidões de borboletas de todas as cores e
de pássaros de todos os tamanhos. A um sinal do sabiá-laranjeira aquela multidão começou a cantar
de repente, em todos os tons, marchando atrás do nosso amigo e gritando:
– Sem você não podemos viver!
Esperidião Caxuxo, que se voltara ao primeiro barulho, ficou tão emocionado que quase caiu.
– Sem você não podemos viver!
– Pois eu também não posso viver sem vocês! – respondeu Esperidião Caxuxo. Vamos todos
juntos! O mundo está cheio de Cafundós da Infância! – concluiu e, atirando a trouxinha no ombro,
rompeu a marcha, acompanhado por aquela multidão colorida e sonora.
Então as árvores se entreolharam; sentiram seus galhos vazios de pássaros e gritaram:
– Sem vocês não podemos viver!
Uma suinã que morava na beira do ribeirão deu o exemplo, sacudiu-se toda, foi se sacudindo cada
vez mais, até que conseguiu desenterrar as raízes e lá se foi, toda enfeitada de flores vermelhas.
Vendo aquilo, os ipês se sacudiram também até que partiram carregadinhos de flores amarelas. Os
jacarandás, depois de algumas sacudidelas, os acompanharam cheios de flores roxas. Uma gameleira
levou doze minutos se sacudindo; estorcia-se, esforçando-se por desenterrar as raízes profundas,
parava um instante cansada, tentava novamente, até que a terra foi se abrindo em volta e, num esforço
supremo, reuniu todas as suas forças e, arrancando do chão as raízes enormes, que mais pareciam
outras árvores de cabeça para baixo, lá se foi também, tropeçando aqui e acolá, mas toda orgulhosa
de sua vitória. As jabuticabeiras e laranjeiras também se puseram em marcha, enfileiradas de seis em
seis, como num batalhão. E assim todas as árvores, arrancando as raízes da terra, começaram a
caminhar sacudindo as cabeças verdes e os galhos cheios de frutas, e arrastando um manto de cipós.
Depois chegou a vez das flores e das ervinhas humildes... Lá se foram também.
– Sem vocês não podemos viver! – Exclamaram os peixes do córrego. E começaram a nadar,
acompanhando a procissão. Passaram os bagres, traíras, piracanjubas e todos os outros; depois
vieram os lambaris e, por último, todo satisfeito da vida, aquele lambari nanico que sonhou que era o
zepelim. As águas do ribeirão, sentindo-se vazias, disseram:
– Sem vocês não podemos viver! E foram descendo também, acompanhando os outros e deixando
atrás de si o leito seco do riacho. Que boniteza aquela fila interminável de bichos, pássaros, plantas
e flores que marchavam cantando atrás de um menino com uma trouxinha nas costas!
Foi nesse momento que surgiu, ninguém sabe de onde, um menino vestido de folhas. Falava,
gritava, cantava, assoviava, rufava como tambor, imitava todos os ruídos, corria de um lado para
outro, dando pinotes e sem fazer o menor gesto.
– Quem é você? – perguntou um de nós.
– Quem é você? – repetiu o menino.
– Para onde você vai?
– Para onde você vai?
– Não sei!
– Não sei!
– O que é que você faz aqui?
– O que é que você faz aqui?
Então um de nós gritou:
– Nós vamos com Esperidião Caxuxo!
O menino respondeu:
– Esperidião Caxuxôôô!
Só então nós percebemos que era o eco que havia aderido à nossa retirada, repetindo conosco:
– Sem vocês não posso viver!
E aquela procissão viva, imensa, multicor e sonora foi se afastando, foi se afastando cada vez
mais, até que desapareceu no horizonte.
E assim, concluiu o curió, quando os meninos perversos, de barba grande e voz de trombone
rachado chegaram cheios de raiva para derrubar as árvores, exterminar os passarinhos, matar os
bichos, comer o Esperidião Caxuxo e acabar com tudo, não encontraram nem o Esperidião, nem
nada. Aquele Cafundó da Infância, antes tão cheio de flores, rodeado de árvores, sonoro de
passarinhos, estava reduzido a uma terra deserta e nua, a um pobre torrão seco.
ACABOU A HISTÓRIA, MORREU A
VITÓRIA
VOCÊ, MENINA DE OLHOS grandes e trancinha esticada, você também, menino de cabelo lambido e de
rosto pintado como ovinho de tico-tico, vocês todos que me escutaram até o fim, não precisam franzir
a testa...
Se acreditarem na história de Curió Xavier, eu então vou entrar por uma porta e sair por outra e
quem quiser que conte outra. Mas se não acreditarem, então vou desistir para sempre de contar
histórias e voltarei àquela ideia de fazer uma viagem de ida e volta até a Lua, sem me machucar...
Essa ideia me persegue há uns três anos e noventa dias e por causa dela estou ficando aborrecido,
aborrecido, aborrecido.
FIM
SOBRE O AUTOR
CARLOS MAGALHÃES LÉBEIS, o inesquecível tio, está ligado pelos túneis da memória e do afeto da
minha infância. A presença desse irmão de minha mãe no mundo das travessuras e das evocações é
uma constante.
Em 1928, Augusto Frederico Schmidt edita seu primeiro livro País dos Quadratins, dedicado a
mim e ao primo Gui. O texto e as ilustrações de Cândido Portinari passam a fazer parte dos passos e
do imaginário do menino-poeta.
Depois, quando tio Carlos lança pela Editora Globo A chácara da rua Um (1936), com
ilustrações do gaúcho João Fahrion, sinto-me transportado para a meninice de minha mãe, de tios e
primos na residência do bisavô Carlos Baptista de Magalhães em Araraquara, o legendário fundadorda Estrada de Ferro Araraquarense e líder da revolução monarquista que eclodiu em 1902 ao longo
dos trilhos da ferrovia que plantara.
Passa o tempo, com o falecimento do primo Fernando caiu-me nas mãos os originais do Cafundó
da Infância com ilustrações de Anita Malfatti, duplo fascínio que une o universo poético de Carlos
Lébeis à pintura da grande artista brasileira.
A consagração desta saga juvenil faz parte do culto à memória de um homem raro que criou o
Serviço Social do Estado.
Carlos, amigo de adolescência de Mário de Andrade, coloca a poesia a serviço da saudade neste
livro, publicado agora pela Cosac Naify. Completa-se a trilogia, que volta às estantes com a mesma
editora, do poeta que dedicou a vida à causa das crianças.
Com que emoção levanto este esmaecido pórtico para a obra que une duas figuras inesquecíveis
de meu convívio.
Carlos Lébeis, meu professor de lirismo, e Anita, a amiga que retratou nos anos 1940 a
inquietação de minha juventude.
O menino octogenário cumpre agora a promessa que fizera a Anita Malfatti e a si mesmo de
cuidar um dia da publicação deste livro destinado a encantar seus leitores.
PAULO BOMFIM
A editora agradece a Di Bonetti, pelo cuidado e atenção, a Márcia
Lígia Guidim pela indicação, e ao Instituto Anita Malfatti pela
generosidade.
OUTROS TÍTULOS DO AUTOR
No país dos quadratins...
A chácara da rua um
© Cosac Naify, 2011, e-book, 2014
© Carlos Magalhães Lébeis por Paulo Lébeis Bomfim, 1936, 2011
Coordenação editorial ISABEL LOPES COELHO
Projeto gráfico original ANA SABINO
Revisão ANA PAULA MARTINI
Adaptação e coordenação digital ANTONIO HERMIDA
Produção de ePub LÚCIA REIS
1ª edição eletrônica, 2014
Nesta edição, respeitou-se o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Lébeis, Carlos [1899-1943]
Cafundó da Infância / Carlos Lébeis
São Paulo: Cosac Naify, 2014
ISBN 978-85-405-0878-1
1.1. Contos - Literatura infantojuvenil
I. Malfatti, Anita. II. Título.
Índices para catálogo sistemático:
1.Contos : Literatura infantil 028.5
2. Contos : Literatura infantojuvenil 028.5
COSAC NAIFY
rua General Jardim, 770, 2° andar
01223-010 São Paulo SP
cosacnaify.com.br [11] 3218 1444
atendimento ao professor [11] 3823 6560
professor@cosacnaify.com.br
Este e-book foi projetado e desenvolvido em julho de 2014, com base na 1ª edição
impressa, de 2011.
FONTES PMN Caecilia e Estilo Pro
SOFTWARES LibreOffice e Writer2ePub de Luca Calcinai
Sumário
Capa
Cafundó da Infância
Começo da História do Curió
Era Uma Vez...
Sonho de Lambari
Esperidião Caxuxo
Mas Um Dia...
Boa Viagem
Fim Da História Do Curió
Acabou a História, Morreu a Vitória
Sobre o autor
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Colofão
	Cafundó da Infância
	Começo da História do Curió
	Era Uma Vez...
	Sonho de Lambari
	Esperidião Caxuxo
	Mas Um Dia...
	Boa Viagem
	Fim Da História Do Curió
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