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167 SANTO SUDÁRIO, UM MITO?SANTO SUDÁRIO, UM MITO?SANTO SUDÁRIO, UM MITO?SANTO SUDÁRIO, UM MITO?SANTO SUDÁRIO, UM MITO? Shroud of Turin, a myth? Joaquim Blessmann* Resumo:Resumo:Resumo:Resumo:Resumo: Em Ciência, ao se tratar de um tema, deve-se obrigatoriamente começar por um criterioso estudo de tudo o que de sério e bem fundamentado já exista sobre ele. Apresentaremos alguns dos cerca de 300 indícios fortes e provas que levam à conclusão da legitimidade do Santo Sudário, contrariamente ao que é dito no artigo que vamos comentar. Nas últimas décadas o argumento fundamental para negar a autenticidade do Sudário está baseado nos testes efetuados com carbono 14. Estes testes teriam provado que essa relíquia é uma falsificação do século 13 ou 14. Na realidade, esses testes levaram a uma falsa conclusão, como foi reconhecido por membros dos três laboratórios que os fizeram. Erros fragorosos já foram constatados com esses testes, alguns dos quais serão aqui citados. Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Santo Sudário — Carbono 14 — Igreja Católica. Abstract: Abstract: Abstract: Abstract: Abstract: In Science, when dealing with a theme, one must necessarily begin with a thorough study of all serious and well reasoned statements that already exist about it. We will present some of the nearly 300 strong evidences and proofs which lead to the logical assertion of the Shroud of Turin’s legitimacy, in opposition to what is said in the article to be commented. In recent decades, the fundamental argument to deny the authenticity of the Shroud is based on tests made with Carbon-14. These tests supposedly have proven that this relic is a forgery of the 13th or 14th century. In fact, these tests led to a false conclusion, as recognized by members of the three laboratories that made them. Terrible errors have already been detected with these tests, some of which are mentioned here. Keywords: Keywords: Keywords: Keywords: Keywords: Shroud of Turin – Carbon-14 – Catholic Church * Engenheiro Civil. Mestre e Doutor em Ciências pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Professor Emérito da UFRGS. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 168 No jornal Zero Hora de 6/10/09, apareceu na página 33, com destaque, um artigo intitulado “Santo Sudário, uma fraude confirmada”. Informa o jornal que essa fraude foi confirmada por uma pesquisa financiada pela Comissão para a Investigação de Alegações de Paranormalidade e por uma organização italiana de agnósticos e ateus. Terão sido imparciais? Pelas alegações apresentadas como prova, parece-nos que não. Vejamos tópicos do que afirmaram, seguidos de comentários pertinentes. 1 — “1 — “1 — “1 — “1 — “Estudos científicos feitos com carbono 14 já haviam revelado, em 1988, que a mortalha datava dos séculos 13 ou 14, na Idade Média”. ComentáriosComentáriosComentáriosComentáriosComentários — Em Ciência, se uma pesquisa diverge frontalmente de dezenas de outras, concordantes entre si, é essa pesquisa que deve ser posta sob suspeita, examinada e reproduzida cuidadosamente. É o caso da datação do tecido do Sudário por meio de teste do carbono 14 (C-14). Ele contradisse cerca de 300 outros criteriosos estudos, feitos em vários ramos da ciência e da tecnologia. Decorridos alguns anos desse teste, o erro foi reconhecido, inclusive por membros das equipes que, em três laboratórios, tentaram datar o tecido do Sudário. Vejamos a razão desse erro. É bem conhecido dos arqueologistas que uma amostra arqueológica destinada a testes com o C-14, uma vez obtida, deve ser imediatamente encerrada em uma caixa metálica, hermeticamente fechada, para evitar contaminação com o ar ambiente, carregado de gás carbônico, pó, polens, microorganismos, etc. A amostra não pode ser tocada com as mãos nuas, nem se admite caixa de madeira, para evitar qualquer contaminação pelo carbono da madeira. Eis o que recomenda Eugênia Nitowski, citada em E. Marinelli: Quando uma amostra é colhida no campo por um arqueólogo para datação com C-14, deve ser observada uma série de precauções: ninguém deve fumar nas imediações, a amostra deve ser removida com um instrumento estéril e não deve ser tocada com as mãos, não deve ser embrulhada em papel ou papelão, nem ser posta em recipiente orgânico, e deve ser analisada CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 169 no laboratório antes que passe muito tempo depois de sua retirada.1 Repare o leitor que o Santo Sudário está muito longe de ter sido tratado de acordo com essas exigências, necessárias para que qualquer teste feito com o C-14 tenha certa credibilidade. Cremos que quase dois milênios não podem ser considerados como pouco tempo para uma análise em laboratório... Durante todos esses séculos, o Santo Sudário esteve submetido a muitos tipos de contaminações: incêndios, suor e toque humano, respiração de multidões de fiéis em recintos fechados, fumaça de archotes, velas e incenso, poeira, além de alterações no teor de Carbono 14 por matéria orgânica que foi se depositando no tecido durante séculos. Fungos, esporos, pólen e outros elementos microscópicos de pó não só se depositaram sobre o tecido, mas foram impregnando-o de tal modo que a retirada total dessas impurezas acabaria por destruir as próprias fibras do tecido. O Professor Leoncio Garza-Valdés, do Instituto de Microbiologia da Universidade de San Antonio, Texas, conseguiu uma amostra do tecido do Sudário. Ele afirma ter encontrado nela uma “camada bacteriana” que, como um melaço não- eliminável, cobre uniformemente os fios do tecido, com isso falsificando a datação pelo C-14. O próprio Harry Gove, um dos idealizadores da técnica utilizada para a datação do Sudário pelo C-14, afirmou que “a ideia não é absurda. Uma alteração de mais de mil anos (na datação) é uma grande mudança, mas não é inadmissível”. Em um artigo, Gove afirmou: Recentemente, porém, o Dr. Garza-Valdés, de San Antonio, Texas, forneceu provas consistentes a respeito de um tipo de contaminação de carbono produzida nos fios do Santo Sudário por um certo tipo de bactéria que os procedimentos de limpeza utilizados pelos três laboratórios poderiam não ter removido.2 1 MARINELLI, E. O Sudário: uma imagem “impossível“. São Paulo: Paulus, 1998, p. 110. 2 Apud PACI, S.M. “Resurrexit sicut dixit“. 30 Dias, ano 16, n. 3, (1998), p. 54- 56. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 170 Dependendo da espessura desta contaminação, continua Gove, ela “pode fazer com que a data fornecida pelos três laboratórios seja falsa”. Também Timothy Jull, geofísico da Universidade de Tucson, que participou do exame com C-14 do Santo Sudário, crê ser possível que a contaminação devida à camada bacteriana tenha falsificado os resultados.3 O Sudário sofreu dois ou três incêndios. No de consequências mais graves, o de Chambéry, em 1532, houve até chamuscamento e queima de tecido. O Sudário estava guardado em um cofre de carvalho e prata, forrado internamente com veludo. A fumaça da combustão, que chegou a derreter a prata, certamente contaminou o tecido, o qual foi também danificado por pingos da prata derretida. A própria água usada para apagar o fogo também deve ter colaborado na contaminação do tecido por carbono. Pelo que vimos, o problema é o da contaminação, causa de erros clamorosos já observados em datações pelo C-14. Eis alguns exemplos: — Na revista “Science”, de dezembro de 1988, é indicado o caso de cascas de caracóis ainda vivos terem sido datadas como tendo 26 mil anos. — A revista “Antarctic”, especializada em biologia e geologia, publicou o caso de uma foca recém-morta para a qual o teste de C-14 indicou uma idade de 1.300 anos. — O periódico “Radicarbon” cita o caso da pele de um mamute da pré-história, comprovadamente de 26 mil anos, que foi datado como tendoapenas 5.600 anos. — O Conselho de Pesquisas da Inglaterra enviou a 38 laboratórios de vários países objetos de idades conhecidas. Somente sete resultados foram aceitáveis. — Um fio, subdividido e com suas partes datadas na Universidade da Califórnia, teve sua idade fixada tanto em 200 d.C. como em 1000 d.C. — O Diretor do Laboratório de Zurique (um dos três do exame do Sudário) obteve, para datação de uma toalha de linho, que seguramente não tinha mais de 50 anos, a idade de 350 anos. O diretor atribuiu a culpa do erro aos detergentes... 3 Ibidem. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 171 — O Laboratório de Tucson (outro dos três) datou um capacete viking como sendo do ano 2006 d.C. Sim, isso mesmo, datou no futuro, ele ainda não existia quando foi datado! — Um absurdo semelhante foi obtido na datação de peças arqueológicas de muitos séculos: elas continham mais C-14 que seres vivos. Razão: havia uma central nuclear nas proximidades que emitia radioatividade. — Com rochas do terciário e do pré-cambriano deu-se um “fenômeno” inverso: elas foram datadas como sendo sete vezes mais velhas que nosso planeta! — Uma múmia do “British Museum” foi datada como tendo entre 800 e 1.000 anos a mais do que a idade comprovadamente conhecida das faixas que a envolviam. — Uma árvore, cuja datação indicou sua morte há vários séculos, na realidade continuava viva, plantada à beira de uma estrada muito movimentada. Razão do erro: absorção dos gases de escapamento de veículos (combustível obtido do petróleo de muitos milhares de anos). Estes exemplos mostram que os testes de datação pelo C- 14 não são ainda muito confiáveis. Não pelo método científico em si, mas por alterações que podem ter ocorrido no teor de C- 14 ao longo do tempo, por causas as mais diversas, as quais, parece-nos, podem ser resumidas em uma palavra: contaminação. Esta imprecisão por vezes absurda na datação está muito bem definida no seguinte pronunciamento de Michel Winter, especialista nestes testes: “Se uma datação com C-14 confirma as nossas teorias, nós a colocamos no texto principal; se as contradiz em parte, colocamos em uma nota de rodapé; se contradiz completamente, omitimos”.4 2 — “2 — “2 — “2 — “2 — “Na época [1988], os cientistas não conseguiram descobrir como a fraude teria sido feita”. ComentáriosComentáriosComentáriosComentáriosComentários — Que fraude? São cerca de 300 provas e fortes indícios de que o Sudário é autêntico e do 1º século. Citaremos alguns. A imagem no Sudário é a de um negativo fotográfico. Esta é uma das provas de que o Sudário não pode ter sido forjado na Idade Média. Naquela época ainda não existia o conceito de negativo fotográfico, tampouco técnica que o permitisse simular. 4 Apud PACI, S.M. “O caso não está encerrado“, 30 Dias, ano 5,. 6, (1990), p. 51. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 172 O processo fotográfico, com o respectivo conceito de negativo, só apareceu no século XIX (entre 1835 e 1840). Em 1978, algumas dezenas de pesquisadores e especialistas reuniram-se em Turim, no chamado Projeto STURP (Shroud of Turin Research Project — Projeto de Pesquisa sobre o Sudário de Turim), com uma tríplice finalidade: verificar a autenticidade do Sudário, como se formara a imagem e estudar sua conservação. Só dos Estados Unidos chegaram cerca de 40 toneladas de equipamento. Foram gastas 120 horas de medidas, análises e registros diretamente sobre o Sudário e 600 horas de observação em microscópio eletrônico, a partir desses registros e de pequenas amostras tiradas do tecido. No total foram despendidas cem mil horas-homem em estudos diversos, dos quais surgiram 85 novos quesitos, muitos deles ainda sem resposta. Entre outras pesquisas, trabalharam com fotografias e microfotografias especiais, radiografia completa do tecido do Sudário, inspeção com raios infravermelhos e espectro da luz obtido por fluorescência. Concluíram que a imagem do Sudário não é uma pintura, mas que originou-se por uma modificação bem superficial dos fios de linho do tecido. O que pode ter causado essa modificação veremos mais adiante. Além do que, trata-se de uma imagem tridimensional. Um estudo mais científico desta tridimensionalidade foi feito por dois físicos e oficiais da Força Aérea Norte-americana no Laboratório de Armas da Força Aérea, em Albuquerque, Novo México, dentro do já citado Projeto STURP. Estes dois oficiais, John Jackson e Eric Jumper, juntamente com o colega Bill Mottern, verificaram que a intensidade da figura está matematicamente relacionada com a distância entre o corpo e o tecido: a intensidade da imagem é inversamente proporcional ao quadrado da distância entre tecido e corpo. Onde o corpo tocava o tecido (como as costas, nariz, testa e sobrancelhas) a figura é mais forte, sendo tanto mais fraca quanto maior a distância entre a parte do corpo e o tecido (como as cavidades oculares, as partes laterais da face e de todo o corpo). Estes físicos tinham a sua disposição um equipamento sofisticado, chamado Analisador de Imagens VP-8, utilizado para, a partir de fotos de objetos distantes, como os planetas e suas luas, determinar o relevo de suas superfícies. Com este equipamento obtiveram uma fotografia em relevo do corpo do Sudário, isto é, uma imagem em três dimensões: como se fora uma estátua, e não a fotografia dela. O VP-8 permitiu CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 173 obter imagens tridimensionais com vários ângulos de observação. Apareceram detalhes não perceptíveis a olho nu, o que também comprova que não se trata de uma pintura, pois não seria possível pintar detalhes não-visíveis e que só apareceram com um tratamento matemático complexo e em um equipamento sofisticado. Entre esses detalhes, apareceu o cabelo trançado na nuca, bem como foi percebida a existência de objetos arredondados sobre as pálpebras, mais tarde identificados como moedas. A imagem tridimensional, sem distorção, do Sudário, é única no mundo; não há técnica artística que tenha podido reproduzi- la. Outras tentativas de obter imagens tridimensionais de outras fotos ou pinturas fracassaram. Só imagens deformadas puderam ser obtidas, o que prova que o Sudário esteve em contato com um corpo humano. O Sudário é um lençol de linho, de dimensões 4,30m x 1,10m, atualmente de cor amarelo pálido. Em um incêndio ocorrido em 1532, em Chambéry, França, o pano, além de chamuscado, foi queimado em 12 locais, tendo os buracos sido remendados com pano de linho pelas irmãs Clarissas, em 1534. O linho é a planta têxtil com os registros históricos mais antigos; entre eles citamos as pinturas relativas ao cultivo do linho e confecção de tecido existentes em sepulcros do Egito Antigo. É originário do Oriente Médio, região da antiga Síria, tendo sido cultivado há milhares de anos, inclusive em terras do atual Israel. Na época de Cristo, tecidos de linho eram usados nas vestes rituais e nos funerais judaicos. O principal componente de suas fibras é a celulose, responsável pela coloração amarelada que o tecido, mesmo quando originariamente branco, vai tomando com o decorrer do tempo. Cada fio do Sudário é composto de muitas fibrilas, cujo número varia de 70 a 120, cada uma delas com um diâmetro de cerca de 1/10 do diâmetro de um fio de cabelo. O diâmetro dos fios é bastante variável, de torcedura em Z (torcidos no sentido horário), a mesma torcedura encontrada em panos daquela época na Síria, Iraque e no deserto da Judeia. A torcedura em S (sentido anti-horário) era mais comum no Egito. O tecido do Sudário, bastante irregular, foi feito em um tear manual rudimentar. O professor Gilbert Raes, do Instituto Ghent de Tecnologia Têxtil, Bélgica, examinou alguns fios retirados do Sudário em 1973 e constatou, entre as fibras de linho, a existência CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86174 de vestígios de algodão da espécie Gossypium Herbaceum. Silvio Curto, professor Adjunto de Egiptologia da Universidade de Turim e membro da comissão de cientistas italianos que examinou o Sudário em 1973, confirmou esta descoberta. Estes vestígios de algodão explicam-se pelo fato de o mesmo tear ter sido usado tanto para linho como para algodão. O algodão chegou ao Oriente Médio, procedente da Índia, no século I a.C. E são da espécie então muito difundida naquela região os traços de algodão encontrados no Sudário. Este é outro argumento para refutar a tese de ser o Sudário uma farsa medieval, na Europa: nem no tempo de Cristo, tampouco na Idade Média, o algodão era cultivado na Europa. Os materiais mais usados na Europa medieval para roupas eram a lã, para as classes mais pobres, e o linho, para as mais abastadas. No Sudário, não há vestígios de fibras de origem animal (lã). Este é mais um indício a favor de sua autenticidade, pois, como comenta Marinelli, “isso faz pensar num ambiente hebraico, no qual se respeitava a lei mosaica (Dt 22,11), a qual prescrevia que se mantivesse a lã separada do linho.”5 No Sudário está impressa a imagem, frente e costas, do corpo de um homem com cerca de 1,80m de altura e pesando aproximadamente 80 quilos, de boa constituição física e musculoso, com idade entre 30 e 35 anos. Rebeca Jackson, pesquisadora de origem judaica, informa que o rosto da imagem apresenta características de judeu: proximidade dos olhos, raiz e comprimento do nariz e dimensões do lábio inferior. Como já vimos, essa imagem equivale a um negativo fotográfico e apresenta as marcas da paixão de Cristo. Também foi constatado que a imagem é estável, tendo resistido a altas temperaturas (no incêndio de Chambéry a temperatura próxima ao Sudário chegou a 900°C, fundindo peças de prata da caixa de carvalho que guardava o Sudário) e a água (usada para apagar esse incêndio). Consta, sem comprovação, que o lençol foi fervido em óleo para verificar sua autenticidade e excepcionalidade. Além disso, a coloração amarela da imagem não foi dissolvida, clareada ou alterada por agentes químicos padronizados. A imagem torna- se fluorescente quando submetida a raios ultravioletas. A imagem é monocromática, levemente amarelada e muito superficial (como se fosse um estampado). Só atinge duas ou três das fibrilas que estão próximas à superfície do tecido. Alguém 5 MARINELLI, E. Op.cit., p.14. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 175 encontrou vestígios de materiais corantes, mas foi provado que eles provinham de outro pano, pintado, que por vezes cobria o Sudário. Os tons mais fortes são devidos a um maior número de fibrilas que foram amareladas quando a imagem se formou. A tonalidade de cada fibrila afetada é sempre a mesma, o que varia é o número de fibrilas afetadas na unidade de área, à semelhança de um clichê tipográfico em preto e branco: o número de pontos por unidade de área define a tonalidade de cinza do clichê. A hipótese de ser uma pintura tem sido refutada com diversos argumentos. Já no início do século XX, o biólogo e artista francês, Paul Vignon, baseado em várias experiências, concluiu que a imagem não podia ser uma pintura. O químico Alan Adler, professor da Universidade Estadual do Oeste de Connecticut, EUA, ateu, disse o seguinte: “É impossível que seja uma pintura. O tecido tem várias camadas de fibras, e apenas a mais superficial delas apresenta outra tonalidade, criando o desenho. Mesmo o mais habilidoso dos artistas, com traços levíssimos, atingiria duas camadas, no mínimo”. Também no Projeto STURP foi confirmado que não se trata de uma pintura. Não só por não haver vestígios de tintas ou pigmentos, mas também porque a figura não é direcional, isto é, nada há que indique os movimentos da mão do suposto pintor. A propósito, o fotógrafo deste projeto, Barrie Schwortz, conta que, no início dos estudos em Turim, pensou que, ao entrar na sala que abrigava o Sudário, caminharia até ele, olharia as pinceladas (pensava, preconceituosamente, que era uma pintura) e iria embora. Não foi o que aconteceu: permaneceu firme em seu trabalho e, “no final do estudo”, conta ele, “não conseguimos dizer o que a imagem é; só o que ela não é.” Em uma das verificações iniciais, o tecido foi separado de seu forro em cerca de 10cm e uma câmara endoscópica foi colocada entre os dois tecidos, para analisá-lo pelo verso. Foi constatado que, apagando-se as luzes da sala e iluminando por trás do pano, a imagem desaparecia, o que era mais uma prova de que não era uma pintura, pois tal fenômeno não ocorreria em uma pintura. A microanálise das fibras mostrou que a imagem foi formada por uma modificação localizada na celulose que compõe o linho. Mais precisamente, uma rápida desidratação e oxidação das fibrilas de celulose do tecido. Além disso, foi provado que a imagem não pode ter surgido de uma reação química entre a mirra e aloés CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 176 (usados antes do sepultamento) e o sangue, soro sanguíneo e suor do cadáver, ou pelo uso de um ácido. Eis o que escreveram a respeito dois componentes do projeto STURP: Não há nenhuma substância estranha sobre o Sudário que possa ter sido responsável pela formação da figura. Não há vestígios de pinceladas ou de outro tipo de aplicação. Para completar, a pintura não poderia ser responsável pelas propriedades observadas na figura. Do mesmo modo, os processos naturais, tais como o contato direto ou a vaporgrafia, não podem ser considerados responsáveis pela formação da imagem. Tanto as hipóteses de fraude como os processos naturais apresentam-se falhos quando se pretende tomá- los como causa de tais fenômenos, pois não conseguem justificar a qualidade tridimensional, superficial e não- direcional da figura, bem como o fato de não existir superposição de camadas ou pontos de saturação sobre suas fibras. Tais hipóteses são também refutadas com base na densidade ou intensidade da figura, na falta de distorção, nas sombras e na distribuição de cor. Os estragos decorrentes do incêndio e da água usada para extinguir o fogo em 1532 não alteraram sua estrutura química, como certamente teria acontecido se ela fosse uma pintura. Ela não foi produzida por difusão a vapor, porque o vapor não se espalha em linhas retas ou paralelas. Em outras palavras, estudos científicos revelam que a figura do Sudário não pode ter sido criada por contato direto, por fraude nem por vapores.6 Mais recentemente, em março de 2000, 40 cientistas de dez países, reunidos em um simpósio organizado pelo Centro de Sindologia (estudo do Sudário, Sindon em italiano), confirmaram que “pesquisas físicas e químicas e análises por computador permitiram estabelecer que a imagem humana visível na tela não é uma pintura”.7 6 STEVENSON K.E.; HABERMAS, G.A. A verdade sobre o udário. 3. ed., São Paulo: Paulinas, 1986, p. 186-87. 7 ZER0 HORA. Porto Alegre, 16/3/00, p. 57, “RELIGIÃO” CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 177 Também a teoria do chamuscamento (semelhante ao produzido por um ferro de passar roupa demasiadamente quente) é facilmente refutada: a imagem não aparece quando iluminada com luz ultravioleta. Porém, continuam visíveis os chamuscamentos oriundos do incêndio de Chambéry. A hipótese mais plausível é a de que a imagem tenha sido produzida por calor, luz intensa ou outra radiação, provindos do próprio cadáver. Assim sendo, a causa não pode ter sido puramente natural, pois os cadáveres não emitem luz ou calor, concluem os cientistas do Projeto STURP. A imagem pode ter sido formada por uma radiação, rápida e intensa, emitida pelo corpo de Jesus no momento de sua Ressurreição. Como justificativa é lembrado o caso de Hiroshima. Os dois já citados cientistas da NASA, Jumper e Jackson (Projeto STURP), concordam com esta explicação. Eles constataramque as figuras de objetos e corpos de pessoas, formadas em paredes ou no solo pela radiação atômica, em Hiroshima, apresentam semelhanças com a imagem do Sudário. Eles admitem que esta imagem tenha sido causada por uma radiação calórico-luminosa emanada do corpo do homem do Sudário. Esta radiação teria “chamuscado” superficialmente o tecido. A hipótese da radiação explica porque as partes do corpo que não estavam em contato direto com o lençol também estão reproduzidas na imagem. Anteriormente, a hipótese da radiação já tinha sido lançada por Noguier de Malijay em 1930 e reapresentada por Geoffrey Ashe em 1966. Luigi Gonella, do Instituto Politécnico de Turim, também admite esta hipótese. Diz ele: “Do ponto de vista físico-fotométrico, a imagem aparece como se tivesse sido formada por um fluxo de radiação colimada (isto é, um feixe de raios paralelos) e atenuada com a distância. Qualquer que seja o mecanismo de formação da imagem, o seu resultado global é igual ao que seria produzido por uma radiação colimada”. Continuando seu raciocínio, Gonella descarta a possibilidade de ser uma pintura: “Obter esse resultado através da coordenação entre os olhos e as mãos de um artista parece tecnicamente impossível, considerando os limites de resolução de contraste do olho humano, e não corresponde a nenhuma técnica pictórica conhecida”. Além disso, a imagem não é visível a menos de dois metros de distância. Ela só pode ser observada em todos seus detalhes a uma distância de cerca de quatro até seis metros. O pintor teria CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 178 que usar um pincel de cerca de dois metros, com uma cerda finíssima, a fim de pintar isoladamente só as fibrilas mais próximas à superfície, fibrilas essas que têm um diâmetro muito pequeno, em torno de 15 milésimos de milímetro (inferior às cerdas dos pincéis mais delicados). Resumindo, a imagem apresenta as seguintes características: 1 - É superficial, afetando, no máximo, três fibrilas da camada externa do tecido. 2 - É termicamente estável. Não foi afetada pelas altas temperaturas a que foi submetida no incêndio de Chambéry. Se fosse pintura, o calor teria afetado a imagem, mudando sua cor, com uma alteração proporcional à temperatura em cada parte da imagem, conforme a distância entre tecido e chamas. 3 - Sob radiação ultravioleta, não emite fluorescência (as partes chamuscadas no incêndio de Chambéry emitem). 4 - É hidrologicamente estável. No incêndio acima referido, o Sudário foi mergulhado em água, para apagar o incêndio, e não houve alterações na imagem. 5 - É quimicamente estável. O uso de 25 solventes padronizados de laboratório não conseguiu dissolver nem ao menos alterar a imagem. 6 - Não apresenta pigmentos, tintas ou vernizes. 7 - Não há direcionalidade, característica de qualquer pintura. 8 - É um negativo fotográfico. 9 - É tridimensional, com a intensidade da imagem variando inversamente com a distância entre corpo e tecido. John Jackson, do Projeto STURP, assim se manifestou: “Com base nos processos físico-químicos até hoje conhecidos, teríamos motivos para dizer que a imagem do Sudário não pode existir, mas ela é real, embora não possamos explicar como ela se formou.”8 E Solé, em seu histórica e cientificamente muito bem fundamentado livro, conclui o seguinte: 8 MARINELLI, E. Op.cit., p. 71. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 179 Jesus queria deixar-nos uma “reportagem gráfica de sua paixão e morte” e um “testemunho de sua ressurreição” [...] Queria deixar-nos um testemunho digno de fé de sua ressurreição gloriosa, e lançou mão - em seu poder omnímodo - no momento de ressuscitar, de uma energia termo-luminosa, não-natural, emanada de seu próprio corpo [...]. Em síntese, apenas uma radiação de tipo preternatural, emanada do corpo de Jesus no momento de ressuscitar, pode explicar tudo que a ciência descobre com surpresa no Sudário, sem poder decifrar nada. Tal energia nada tem a ver, em sua essência e comportamento, com as energias radioativas conhecidas da natureza. Por isso, quanto mais os sábios estudam o fenômeno com seus aparelhos tão sofisticados, mais misteriosas e inexplicáveis se lhes apresentam as imagens do Sudário”.9 Em 1973, o Sudário foi examinado pelo botânico e criminólogo suíço Max Frei, professor da Universidade de Zurique, fundador e por 25 anos diretor do serviço científico da polícia de Zurique. Com auxílio de uma lupa, ele notou a presença de pó sobre o tecido. Obtida permissão para tirar amostras deste pó, com a ajuda do professor Aurelio Ghio e usando fita adesiva comum, aplicada a diversas regiões do tecido, conseguiu 12 amostras. Levado por sua curiosidade científica e “sem preconceitos religiosos de espécie alguma”, como ele mesmo salientou, dedicou- se em caráter particular a classificar as dezenas de tipos de pólen que encontrou neste pó. Para isso, além de consultar manuais de botânica e arquivos de polens, visitou diversos jardins botânicos na Europa e empreendeu sete viagens ao Oriente Médio, por sua conta, para examinar plantas na época de floração. E, mais ainda, examinou restos fossilizados de dois mil anos extraídos do lodo do fundo do lago de Genesaré e do mar Morto. Frei constatou que o pólen mais frequente era idêntico ao pólen que mais aparece nos estratos sedimentares acima referidos. Além disso, perto de Jerusalém, Frei encontrou a assueda, planta 9 SOLÉ, M. O Sudário do Senhor. São Paulo: Loyola, 1993. 414 p. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 180 que só cresce na Palestina. No total, classificou 25 plantas da Palestina, que florescem na primavera, algumas delas já extintas. Das outras, embora algumas sejam encontradas na Europa (acácia, amieiro, bétula, carpino, centeio, faia, loureiro, murta, plátano, etc.), nove só crescem nas estepes meridionais da Turquia (região da Anatólia) e nos arredores de Constantinopla. Os primeiros resultados das pesquisas de Frei foram publicados em 1976. No II Congresso Internacional de Sindologia, Turim, em 1978, Frei informou que já tinha identificado 48 tipos de pólen. Eis um trecho de seu pronunciamento, citado por Solé: Três quartas partes das espécies encontradas sobre o Sudário crescem na Palestina. Dessas, treze espécies são muito características e exclusivas do Negueb e da região do mar Morto (plantas halófilas). Portanto, a palinologia permite afirmar que o Sudário permaneceu na Palestina no curso de sua história (compreendido o período de sua fabricação). Segundo a palinologia, o Santo Sudário deve também ter sido exposto ao ar livre na Turquia, já que vinte das espécies encontradas são abundantes em Anatólia (Urfa e Edessa), e quatro nas imediações de Constantinopla, e completamente inexistentes na Europa central e ocidental.10 Vemos, pois, que os polens classificados por Frei correspondem a plantas de locais em que a tradição e/ou documentos informam que o Sudário esteve: Jerusalém, Edessa e Constantinopla (ambos na Turquia), Lirey e Chambéry (ambos na França) e, finalmente, Turim. A partir da exposição pública em Lirey, em 1357, a existência e localização do Sudário estão historicamente comprovadas. Nesse mesmo ano, 1978, Frei coletou outras amostras de pólen do Sudário e continuou seus estudos até sua morte, em 1983, sem ter podido classificar 19 espécies de pólen. O último relato de suas pesquisas é de 1981, no “II Convegno Nazionale”, Bolonha, em 27 e 28 de novembro, quando informou que já tinha classificado um total de 57 espécies de plantas, ou seja, mais nove após o II Congresso de Sindologia de 1978. Com as 10 Ibidem, p.103. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 181 19 espécies não-classificadas, chega-se a um total de 76 espécies de plantas cujos polens foram encontrados no Sudário por Frei. Frei não era católico, mas, sobre uma possívelfalsificação, assim tinha se manifestado no Congresso de 1978: Posto que o lençol sagrado está sob estrito controle há pelo menos cinco séculos (desde 1356), a falsificação teria de ter sido perpetrada durante a Idade Média e provavelmente na França. Naquele tempo, o estudo do pólen ainda não era conhecido. Se um falsário qualquer tivesse procurado um pedaço de tecido de linho da Palestina (com dificuldades evidentes) impregnado com pólen daquela parte do mundo, seguramente não teria feito vir o pó da Anatólia ou de Constantinopla para simular um passado em sua obra fraudulenta, que naquele tempo não estava em discussão. Portanto, o espectro polínico permite excluir uma falsificação na França durante os tempos medievais, pois a região não tem essa flora oriental cujo pólen, em contrapartida, se acha sobre a superfície do Sudário.11 Na zona do rosto da imagem há uma quantidade de pólen maior que no restante do Sudário, o que “poderia significar uma exposição maior dessa parte da tela ao ar, nos primeiros séculos, quando o Sudário era dobrado de modo a deixar ver só o rosto e quando era venerado como Mandylion (“lenço”) em Odessa”12. Uri Baruch, o maior perito em pólen de Israel, confirma os estudos de Frei. Informa que 58 tipos de pólen já estavam identificados até a data em que fez essa declaração. Dessas, acrescenta ela, 28 são de plantas que só existem no Oriente Médio. Entre elas, a Fagonia molis, de folha muito espinhosa, à qual pertence a maioria do pólen encontrado no Sudário. Pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém confirmam que o Sudário contém polens de plantas exclusivas da região de Jerusalém, algumas delas há muito tempo extintas. Além de pólen, também microorganismos (ácaros) das mesmas épocas e regiões foram detectados no Sudário, bem como sinais de aloés e mirra. 11 Apud SOLÉ, M. Op.cit., p. 104. 12 MARINELLI, E. Op.cit., p. 28. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 182 Também bactérias e mofos foram encontrados no Sudário. A maioria dos mofos absorve muito anidrido carbônico do ar e o introduzem em seu organismo (sem fotossíntese). Se esses elementos não forem completamente eliminados das amostras submetidas ao teste do C-14, a datação dessas amostras será prejudicada. Nas fitas adesivas em que coletou material, Frei encontrou também esporos e fungos. Posteriormente, L. A. Garza-Valdés e F. Cervantes-Ibarrola identificaram o fungo Lichenotelia, que forma uma película contínua sobre as superfícies em que se aloja. Alan Whanger, Professor da “Duke University”, Durham, USA, sua esposa Mary e o Professor Avinoam Danin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, com o emprego de luz polarizada e técnicas sofisticadas, conseguiram fotografias com um grande aumento dos contrastes, tornando visíveis imagens de flores não observáveis a olho nu, com lupa ou microscópio. Estas imagens foram comparadas com desenhos publicados em Flora Palestina, um clássico da botânica regional. Eles identificaram imagens de 28 flores, todas elas com florescimento, na Palestina, entre março e abril (primavera e Páscoa, exatamente na época em que ocorreu a crucifixão de Cristo). Dessas, Frei havia classificado o pólen de 25. Esta pesquisa foi iniciada em 1995 e terminada em 1997. Eles concluíram, entre outras coisas, que o Sudário foi tecido na Palestina. Em um Congresso internacional de botânica realizado em S. Louis, USA, em agosto de 1999, Danin confirmou suas declarações anteriores: “Identificamos no Sudário, por meio de imagens de plantas e grãos de pólen, espécies que só são encontradas nas imediações de Jerusalém”. Danin identificou uma concentração alta de pólen de uma espécie da erva Gundelia tournefortii e de um tipo específico de alcaparra. As duas espécies, segundo ele, coexistem apenas em uma área bastante limitada, em uma única região do mundo: em torno de Jerusalém. No já citado estudo sobre a tridimensionalidade da figura do Sudário, os três cientistas da NASA, John P. Jackson, Eric J. Jumper e R. W. Mottern (Projeto STURP), observaram a existência de pequenos objetos, semelhantes a botões, sobre os olhos. Eles julgaram que se tratava de moedas, o que foi confirmado por estudos posteriores, como veremos a seguir. Em 1979, o Professor Pe. Francis L. Filas S.J., da Universidade de Loyola, Chicago, verificou que o “botão” situado 183 sobre o olho direito da imagem era na realidade uma moeda, um lepton, cunhado por Pôncio Pilatos entre 14 e 37 d.C. Posteriormente, Mario Moroni, especialista em numismática, identificou mais especificamente esta moeda: tratava-se de uma dilepton lituus, cunhada por Pôncio Pilatos no final do ano 29 d.C., em homenagem a Julia, mãe do Imperador Tibério. Além disso, Whanger, com a técnica de sobreposição com luz polarizada, encontrou 74 pontos de congruência entre essa moeda e a imagem sobre o olho direito, número de pontos de concordância mais do que suficiente para a identificação. E em 1981, uma ampliação computadorizada dessa região da imagem do Sudário, efetuada pela E/Interpretations Systems, Kansas, USA, mostrou que o “botão” sobre o olho direito era fortemente tridimensional, com o relevo próprio de uma moeda. Em 1996, dois cientistas italianos da Universidade de Turim, Prof. Dr. Luigi Baima-Bollone (médico) e Prof. Nello Balossino (perito em pesquisas computadorizadas), utilizando sofisticada tecnologia computacional, verificaram que a moeda, cujos vestígios apareciam sobre o olho esquerdo da imagem, tinha sido cunhada no 16º ano do reinado do imperador romano Tibério, que começou a reinar em 14 d.C. Isto é, a moeda, uma lepton simpulum, foi cunhada no ano 29 d.C. Eles chegaram a esta conclusão comparando as características da moeda sobre o olho da imagem com moedas consideradas como autênticas peças do tempo de Cristo, que se encontram no catálogo de moedas da Palestina guardadas no Museu Britânico. Outra comprovação: há uma exata correspondência com um exemplar de moedas romanas da coleção do italiano Cesare Colombo. Esta notável descoberta fez o Professor Bollone declarar: “Não precisamos mais apelar para testes ou cálculos. Temos agora uma prova intrínseca, claramente estampada, podemos dizer, sobre o próprio Sudário. Nenhum artista medieval poderia ter realizado tal obra.” E isto, acrescentamos, não poderia ter sido falsificado mesmo que o falsário tivesse conseguido essas moedas, pois como conseguiria fazer aparecer na imagem indícios muito tênues de moedas, os quais só foram detectados por sofisticados processos computacionais? Lembramos que foi constatado que os judeus do primeiro século de nossa era colocavam pedacinhos de cerâmica ou moedas sobre as pálpebras dos olhos dos mortos para mantê-los fechados. Em um cemitério judeu perto de Jericó, que tinha sido 184 usado no século I de nossa era até 68, ano em que esta cidade foi destruída, foram encontrados esqueletos com moedas nas caveiras. O mesmo foi constatado em um ossário do século I, em Jerusalém, e em um esqueleto do século II em Boqeq, no deserto da Judeia; neste último, as moedas ainda estavam nas cavidades orbitais. Este costume desapareceu durante o século II. Além do pólen e das moedas, há também no Sudário vestígios de materiais terrosos nos pés, joelho esquerdo e nas escoriações do nariz da imagem. Nos fios do tecido correspondentes a um dos calcanhares, há muita poeira, indicando que o condenado caminhou descalço. Joseph Kohlbeck, cristalógrafo da “Hercules Aerospace Laboratory”, Utah, USA, entre os minerais da poeira situada na região dos pés, identificou uma forma rara da calcita, a aragonita, composta de carbonato de cálcio com pequenas quantidades de estrôncio e ferro. Esta calcita é encontrada só na região de Jerusalém, o que foi confirmado por pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém. No caminho para o Calvário, Jesus caiu algumas vezes, batendo comos joelhos e nariz no chão. Como o sepultamento foi feito às pressas, dado o avançado da hora (estava para começar o descanso semanal dos judeus), o corpo não pode ser convenientemente limpo, o que explica os vestígios de pó e aragonita. Bendito rigorismo dos preceitos judaicos, que permitiu que chegasse até nós esta comprovação da historicidade da Paixão: a aragonita. 3 — “3 — “3 — “3 — “3 — “O Santo Sudário mostra imagem de um homem crucificado, com rastros do que seria sangue escorrendo de ferimentos nas mãos e nos pés. [...]. A equipe usou linho tecido da mesma forma que o Santo Sudário e envelhecido artificialmente por aquecimento e por lavagem. O pano foi colocado, então, sobre um estudante que usava uma máscara e esfregado com um pigmento vermelho muito usado na Idade Média”. Comentários — Comentários — Comentários — Comentários — Comentários — Esta errônea afirmação já perdeu originalidade há muitas décadas. Houve época em que afirmaram ser um pigmento natural, óxido de ferro, e não sangue. Depois foi afirmado que eram manchas de sangue de porco. É impressionante como há pessoas que escrevem sem estudar o assunto. Já em 1950, no I Congresso Internacional de Estudos sobre o Santo Sudário, o cirurgião francês Pierre Barbet provou que se tratava CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 185 de sangue humano, o que foi confirmado posteriormente por outros pesquisadores. E em 1982 os pesquisadores italianos Baima- Bollone, Jorio e Massaro, concluíram que se tratava de sangue do grupo AB. Esta descoberta foi confirmada por John H.Heller, cientista ateu e um dos maiores hematologistas dos Estados Unidos. Antes disso, Heller, juntamente com Adler, tinha detectado a hemoglobina, um dos componentes do sangue. Recentemente, Marcelo Canali, do Instituto de Medicina Legal da Universidade de Gênova, examinando amostras fornecidas em 1978 pelo médico e professor Luigi Baima-Bollone, da Universidade de Turim, detectou a presença de DNA masculino e feminino no Sudário. O DNA feminino é explicado pela manipulação feminina do Sudário no decurso dos séculos. Também Victor Trynon, bioquímico molecular estadounidense, constatou a existência de DNA masculino em fio retirado do Sudário em 1982. Na região craniana da imagem aparecem feridas pequenas, que coincidem com as que seriam produzidas por uma espécie de capacete de espinhos, e não por uma coroa, que é a apresentação tradicional. Barbet julga que a coroa foi feita com ramos do arbusto Zizyphus Spina Christi, com espinhos longos e muito agudos. Parece-lhe provável que houvesse um monte de ramos deste arbusto no pátio do pretório, para as fogueiras que aqueciam os soldados (e junto às quais esteve Pedro, como relatam os Evangelhos). Estimam-se em cerca de 50 os espinhos que penetraram no couro cabeludo, provocando dores intensas e abundante sangramento, o qual, misturado com suor, impregna os cabelos. Em algumas dessas feridas foi reconhecido sangue arterial, em outras, sangue venoso, dependendo da posição. A importância da distinção entre sangue arterial e venoso para refutar a acusação de fraude é muito bem ressaltada pelo Dr. Rodante Sebastiano: E chego à conclusão de que a perfeita correspondência dos coágulos de sangue da fronte, impressos no lençol, se sobrepõe claramente à veia e à artéria estudadas, dando- nos a certeza de que aquele tecido envolveu o cadáver de um homem que em vida tinha sofrido a lesão desses vasos sanguíneos.13 13 Citado em SOLÉ, M. Op.cit., p.183. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86 186 A diferença entre sangue venoso e arterial foi descoberta em 1593 e tornada pública em 1628. Como poderia um falsário do século XIII saber isso? No Sudário, os cravos aparecem cravados nos pulsos (espaço de Destot) e não nas palmas. Com essa localização dos cravos, os polegares dobram-se sobre as palmas das mãos e só apareceram em fotografias tiradas com luz ultravioleta. Que falsário da Idade Média poderia ter esse conhecimento e com que técnica teria feito isso? Mas afinal, o que formou a imagem? Atualmente, a hipótese mais plausível é a de que a imagem foi formada por uma radiação rápida e intensa, emitida pelo corpo de Jesus no momento de sua ressurreição. Com essa explicação concordam dois cientistas da NASA, Jumper e Jackson, que fizeram parte do STURP (Projeto de Pesquisa sobre o Sudário de Turim). Mais informações sobre o que foi aqui tratado, bem como sobre outros tópicos referentes ao Santo Sudário, são encontradas em livro de minha autoria: BLESSMANN, J. O Santo Sudário, uma farsa medieval? Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. 85 p. CULTURA E FÉ | 129 | Abril - Junho | ano 33 | p. 167-86