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EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INTERDISCIPLINARIDADE: EM BUSCA DE
UMA VISÃO HOLÍSTICA DA SUSTENTABILIDADE
Enoí Dagô Liedke
Ivana Ferrer Silva
Marcos Paulo da Silva
Mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFRN
INTRODUÇÃO
As questões ambientais tem sido amplamente discutidas em todos os níveis da sociedade,
ocorrendo um grande enfoque na necessidade de mudanças do comportamento dos seres humanos.
Esta alteração é prioritária, tendo em vista, impedir que os recursos naturais existentes se esgotem,
permitindo a manutenção dos mesmos para as próximas gerações. Tal fato será possível através da
conscientização, obtida via ações de Educação Ambiental formal ou informal, que possuam no seu
cerne a Desenvolvimento Sustentável.
Por outro lado, no meio acadêmico e educacional, vários trabalhos e atividades tem sido
desenvolvidos de modo à inter-relacionar distintas áreas do conhecimento, estabelecendo uma
Interdisciplinaridade e um saber não segmentados.
Verifica-se, assim que os temas, Educação Ambiental e Interdisciplinaridade, se encontram
em evidência por tentarem buscar uma sociedade mais justa e igualitária. Contudo, a conexão entre
os temas não se dá apenas na evidência que têm recebido nos meios educacionais, mas, sobretudo
na interdependência dos mesmos, pois, a Educação Ambiental formal necessita para sua eficaz
implantação, ser trabalhada de forma interdisciplinar em todas as áreas do conhecimento,
estabelecendo a relevância do Desenvolvimento Sustentável, conceito que tem como marco inicial a
Conferência sobre a Biosfera, realizada em 1968, na qual foi estabelecida a preocupação com a
busca do equilíbrio ambiental.
 Mais especificamente em 1992, por ocasião da Eco92, o significado do termo
Desenvolvimento Sustentável agregou novos paradigmas, incorporando valores não apenas
econômicos e ambientais, mas também sociais. A evolução desse conceito deu-se em função da
percepção, pela sociedade, da existência de questões maiores, referentes ao relacionamento
interdependente dos ecossistemas, incluindo o ser humano como elemento (Kinlaw, 1997).
O Meio Ambiente não pode continuar sendo visto como algo fragmentado e distante do
elemento humano, isso reafirma a interdependência das referidas dimensões. Os limites impostos
pela própria natureza demonstraram a fragilidade e a dependência de forças auto-reguladoras, não
velozmente renováveis, exigindo assim, uma grande responsabilidade social para com o
ecossistema. Constata-se que o ser humano, para uma sobrevivência saudável e harmoniosa,
necessita de recursos econômicos e mais ainda dos recursos ambientais. Devido a tal fato, a
sociedade civil passou a exercer uma certa pressão sobre o setor público e privado, cobrando
atitudes e políticas sustentáveis, fruto da conscientização de alguns concidadãos, e apenas a
sensibilização de todos os setores poderá mudar a conduta das futuras gerações, de modo a
assegurar a qualidade de vida dos indivíduos.
Um dos caminhos para se conscientizar a sociedade é através da disseminação de
informações a respeito do Meio Ambiente e das dimensões que o envolve, e a Interdisciplinaridade
do tema, faz com que a Educação Ambiental tenha sua relevância atribuída a cada disciplina
lecionada nas instituições de ensino. Este trabalho tem como objetivo demonstrar esta conexão.
Para o alcance deste propósito serão abordados, através de revisão bibliográfica, os conceitos de
Educação Ambiental, Desenvolvimento Sustentável e Interdisciplinaridade.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL
A expressão Educação Ambiental (EA) foi utilizada pela primeira vez em março de 1965 na
Conferência em Educação da Universidade de Keele na Grã-Bretanha, sendo aceito desde o início
que esta deveria ser uma parte essencial na vida de todos os cidadãos (Dias, 1994).
Em 1969, nos Estados Unidos, é publicado o primeiro número do Journal of Environmental
Education, e em 1970 é lançada a revista Ecologist na Grã-Bretanha, contribuindo para formação de
novas idéias a respeito do assunto.
Na ocasião do Plano de Ação Mundial em 1972, propõe-se um programa interdisciplinar
para a abordagem da EA junto ao cidadão comum, sendo este pensamento reforçado pela
Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Belgrado, culminando este
encontro com a proposta de um programa internacional de EA contínua, multidisciplinar e integrada
às diferenças regionais.
Esta proposta passa a ser fortemente apoiada após a Conferência de Tbilisi, em 1977, na
qual é definida a natureza, os objetivos, as características, assim como, as estratégias a serem
adotadas no plano nacional e internacional.
Após este momento são traçadas políticas de introdução da EA, sob uma forma crítica,
referenciando uma ação interdisciplinar em benefício de um desenvolvimento sustentável e
elevação da qualidade de vida.
No Brasil segundo Dias (1994), a abordagem da EA se dá, como veremos a seguir:
1972 Criação do curso de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
1976 Firmado o protocolo de intenções entre o MEC e o MINTER com o objetivo de
incluir temas ecológicos nos currículos das escolas de 1º e 2º graus
1979 MEC e CETESB publicam uma proposta de ensino ecológico de 1º e 2º graus
1984 O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) apresenta resolução
estabelecendo diretrizes para as ações de EA
1986 Realização do primeiro curso de especialização em EA na Universidade de Brasília
1987 MEC aprova inclusão da EA nos currículos de 1º e 2º graus
1988 Secretaria de Estado de Meio Ambiente de São Paulo lança o guia do professor de
1º e 2º graus de EA
1989 Realiza-se em Recife o primeiro Encontro Nacional sobre EA no Ensino Formal
1991 Portaria 678 do MEC decide que os sistemas de ensino em todas as instâncias,
níveis e modalidades façam referência em seus currículos a EA
1992 IBAMA cria Núcleos de EA; a Rio-92 através de Agenda 21, define as áreas de
programas para a EA
1993 MEC formaliza a implantação de Centros de EA
Em decorrência destes eventos históricos e da evolução dos estudos relacionados a EA se
estabelece uma definição, citada por Medina (1996:16):
Processo que consiste em propiciar as pessoas uma compreensão crítica e global do
Meio Ambiente, para elucidar valores e desenvolver atitudes que lhes permitam
adotar uma posição crítica e participativa a respeito das questões relacionadas com
a conservação e adequada utilização dos recursos naturais, para a melhoria da
qualidade de vida e a eliminação da pobreza extrema e do consumerismo
desenfreado. Visando a construção de relações sociais, econômicas e culturais
capazes de respeitar e incorporar as diferenças, (minorias étnicas, populações
tradicionais), a perspectiva da mulher e a liberdade para decidir caminhos
alternativos de desenvolvimento.
Destaca-se na EA uma proposta crítica para interpretação das matérias relacionadas ao
campo de estudo, desta forma ao cidadão é concedida a liberdade de interferir no estabelecimento
das teorias, assim como, na aplicação das mesmas junto a comunidade, sendo característico do
processo de educação a interatividade existente entre cidadão/educador/meio ambiente. A EA dá
margem a percepção da fragilidade da proposta de neutralidade científica através de duas formas,
conforme Faria (1994).
9 Educação informal - através de campanhas populares que visem à formação de atos e
atitudes que possibilitem a preservação dos recursos naturais (fauna, flora, rios, matas etc.) e
a correção de processos degenerativos da qualidade de vida na terra (poluições do ar e da
água, enchentes, chuvas ácidas, aumentos e temperatura ambiente etc.). Via de regra
envolve os meios de comunicação de massa;
9 Educação formal ou escolar - envolvendo regularmente a rede de ensino, através da
atuação curricular, tanto no planejamento quanto na execução de currículos.
Dias (1994), define claramente os princípios e características que representam o alicerce da
EA:
9 Conscientizaçãoda comunidade sobre seu Meio Ambiente na forma de conhecimento,
valores, habilidades, experiências, tornando-a apta a agir e resolver seus problemas
ambientais presentes e futuros;
9 Seus objetivos são traçados mediante consideração da realidade econômica, social,
ecológica e os objetivos de desenvolvimento de cada comunidade;
9 Permite a percepção dos fatores que interagem no tempo e espaço na modelagem do Meio
Ambiente;
9 Sintonia com a vida da sociedade, sendo primordial sua participação para melhoria de suas
relações com o Meio Ambiente, através da conscientização do seu envolvimento e de suas
responsabilidades.
Clay Shoenfeld (apud Tanner, 1978) sintetiza, muito bem, as premissas da EA quando
afirma que esta se preocupa com a coexistência do Meio Ambiente total e o homem, enfocando o
efeito das ações deste nas interações realizadas, buscando por meio de uma abordagem
interdisciplinar, ao invés de soluções simplistas e de curta duração, soluções de longo prazo com o
apoio de uma ética ambiental integrada.
A abordagem Sócio-Ambiental da EA é caracterizada por Medina (1994), da seguinte
forma:
9 Enfatiza os conteúdos tidos como essenciais ao entendimento dos conhecimentos científicos
acumulados historicamente, variando os métodos e técnicas didáticas adotadas conforme a
especificidade da circunstância;
9 Prioriza os métodos ativos, onde a relação professor aluno deve ser de cooperação e
colaboração;
9 Resgata o planejamento educacional da pedagogia tecnicista, adotando uma forma coletiva;
9 Ressalta a importância de desenvolver uma atitude de reflexão crítica comprometida com
uma ação emancipadora, permitindo a efetiva análise dos processos de opressão
internalizados pelos educandos das camadas populares, em função dos processos sociais
repressivos e homogeneizantes;
9 Enfatiza através da ótica histórico-crítica da prática social, os condicionantes sociais,
históricos e econômicos, para a compreensão das questões ambientais e na apropriação do
conhecimento historicamente acumulado;
9 Especifica os objetivos educacionais, de caráter qualitativo, como norteadores do processo
educacional;
9 Coloca a construção do conhecimento como resultado do exercício da inteligência através
do estabelecimento de relações, pela construção e consolidação das estruturas mentais e da
Interdisciplinaridade.
Todos estes aspectos corroboram a afirmação de Santos (1996) que define como função
primordial da EA a aplicação de metodologias voltadas para uma educação para a vida, abrangendo
toda sua diversidade e complexidade, formando indivíduos comprometidos com a transformação e
humanização da sociedade. Desta maneira é colocada uma alternativa para novas formas de
interpretação e ação no mundo, suprimindo a visão técnica e instrumental, permitindo a
manifestação do construtivismo de forma plena, tanto no nível individual quanto social, na
construção de conhecimentos significativos. Estes aspectos, contudo, devem ter como base o
Desenvolvimento Sustentável e utilizarem a Interdisciplinaridade na sua aplicação conforme
apresentado a seguir.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Em decorrência de um desenvolvimento antropocêntrico, onde as restrições de ordem
ambiental são vencidas via tecnologia através da qual o homem domina a natureza, dicotomizando
esta relação, ocorre a destruição de habitats, a perda da biodiversidade, desflorestamentos, escassez
de água potável, poluição do ar atmosférico, das águas subterrâneas e dos solos.
A observação desta crise ambiental faz com que respectivamente em 1968 e 1972, sejam
realizadas a Conferência sobre a Biosfera e a Conferência das Nações Unidas, onde é colocada a
questão ambiental nas agendas internacionais. De acordo com Patten (2000: 34) a primeira vez em
que foi feita alusão ao Desenvolvimento Sustentável (DS) foi na Conferência das Nações Unidas,
com a seguinte frase: Nós devemos viver aqui na terra como se pretendêssemos ficar para sempre,
não apenas visitar por um final de semana.
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD, 1991:46),
realizada em 1987, definiu o DS com o seguinte enunciado: é aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer as gerações futuras a atenderem as suas próprias necessidades.
 Porém, o início de uma ação global em direção ao DS ocorre em 1992 com a Cúpula da
Terra, no Rio de Janeiro, através da elaboração da Agenda 21, onde se estabeleceram diretrizes para
o tratamento do tema ambiental nas próximas décadas, por meio da cooperação entre os Estados, os
diversos setores da sociedade e a população de maneira geral (Stigson, 2000).
De acordo com Valle (1995) na definição de DS estão embutidos dois conceitos, o primeiro
é o das necessidades, que podem variar de sociedade para sociedade, mas que devem ser satisfeitas
para assegurar as condições essenciais de vida a todos. O segundo diz respeito a limitação dos
recursos atualmente disponíveis e a necessidade de tecnologias que permitam renová-los, na
medida, em que eles sejam necessários às futuras gerações.
A CMMAD (1991) propõe seis dimensões para o DS ou Sustentabilidade:
9 Sustentabilidade ambiental – não se pode colocar em risco os elementos naturais que
sustentam a integridade global do ecossistema, deve-se garantir a todos o acesso aos
recursos ameaçados de extinção e encontrar novas tecnologias para reduzir a pressão sobre o
Meio Ambiente;
9 Sustentabilidade econômica - as nações devem avaliar seu modelo de desenvolvimento e o
impacto que suas políticas estão exercendo sobre o Meio Ambiente e o desenvolvimento de
outros países, adotando estratégias direcionadas para as atividades econômicas que
consumam o mínimo de matérias-primas e energia e buscando uma distribuição mais
eqüitativa da renda;
9 Sustentabilidade social - propõe uma idéia global das necessidades humanas, que agregam
outras variáveis não econômicas, como saúde e educação; o desenvolvimento econômico e
o social devem caminhar juntos;
9 Sustentabilidade cultural – refere-se a elaboração de uma diversidade de soluções
particulares, que respeitem as especificidades de cada contexto ambiental, cultural e local,
ao invés de se procurar soluções homogêneas;
9 Sustentabilidade espacial - voltada para um maior equilíbrio na distribuição territorial,
urbana e rural, de assentamentos humanos e atividades econômicas;
9 Sustentabilidade política - que pode ser relacionada a sustentabilidade social e econômica.
A eqüidade social proposta pode ser facilitada por meio de sistemas políticos e processos
democráticos, que garantam a participação dos cidadãos na tomada de decisões em âmbito
nacional e internacional.
Estas dimensões devem ser observadas ao se elaborarem políticas de EA, afim de que se
obtenha resultados coerentes com o DS necessário as populações alvo. A observância das
dimensões acima citadas prescinde, a nosso ver, uma ação Interdisciplinar.
INTERDISCIPLINARIDADE
A Interdisciplinaridade busca proporcionar uma maior interação entre os vários
componentes do saber contemporâneo, possibilitando um saber abrangente, interativo que dá
origem a uma percepção holística da realidade. A Interdisciplinaridade moderna é uma
conseqüência do processo de globalização que requer indivíduos mais capacitados a solucionar
problemas complexos, baseados na internacionalização da vida social, econômica, política, cultural,
religiosa e militar.
Para Fazenda (1979, 1995a, 1995b) o termo Interdisciplinaridade não possui, ainda, um
sentido único e estável e trata-se de um neologismo cuja significação, nem sempre é a mesma, e
cujo papel, nem sempre, é compreendido da mesma forma.
Por outro lado Souza citado por Nozaki e Pichitelli (1998) salienta que a
Interdisciplinaridade tem sido discutida e vivenciada nos vários grupos que integram o ambiente
educacional, sejam componentes do governo, pais e professores.
Segundo Japiassu (1976: 74) a interdisciplinaridadecaracteriza-se pela intensidade das
trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um
mesmo projeto de pesquisa.
 Pereira, juntamente com outros autores, citado por Nozaki e Pichitelli (1998) acredita que a
Interdisciplinaridade contribui para o surgimento de uma nova escola, onde será possível produzir
em conjunto e com uma postura critica, uma nova forma de saber.
Verifica-se, portanto, que apesar de Fazenda (1979, 1995a, 1995b) salientar que não existe
uma unanimidade conceitual,, vários autores utilizam como ponto de partida os conceitos
estabelecidos no relatório CERI/HE/CP/69.011, organizado em dezembro de 1969 e assinado por
Guy Michaud (apud Fazenda, 1979):
Disciplina Conjunto específico de conhecimentos com suas próprias características
sobre o plano de ensino, da formação dos mecanismos, dos métodos, das
matérias;
Multidisciplinar Justaposição de disciplinas diversas, desprovidas de relação aparente
entre elas. Ex.: música + matemática + história
Pluridisciplinar Justaposição de disciplinas mais ou menos vizinhas nos domínios do
conhecimento. Ex.: domínio científico: matemática + física
Interdisciplinar Interação existente entre duas ou mais disciplinas. Essa interação vai da
simples comunicação de idéias à integração mútua dos conceitos
diretores da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos
procedimentos, dos dados e da organização referentes ao ensino e à
pesquisa;
Transdisciplinar Resultado de uma axiomática comum a um conjunto de disciplinas. Ex:
antropologia, a ciência do homem e de suas obras (Linton apud Fazenda,
1979:27)
Conforme elucidado pelos conceitos apresentados, a Interdisciplinaridade caracteriza a
colaboração existente entre disciplinas diversas ou entre setores heterogêneos de uma mesma
ciência (Fazenda, 1979: 41).
Esta “colaboração” permite várias utilidades e gera grandes valores à Interdisciplinaridade,
principalmente neste mundo globalizado, em que a necessidade dos conhecimentos diversos, mais e
 
1 CERI – Centre pour la Recherche et I’Innovation dans I’Enseignement – Tem por finalidade, entre outras, as de
encorajar e desenvolver a cooperação entre os países membros da Organization de Cooperation et de Développement
Economique , no campo da pesquisa e da inovação no ensino.
mais se torna necessário. Busca-se, então, garantir um ensino adequado a este “novo” mundo, um
ensino que permita uma melhor formação geral e desperte o interesse em um constante apreender.
Japiassu (1976) salienta três pontos para os quais a Interdisciplinaridade se aplica na
melhoria de uma formação geral:
9 Permite aos estudantes melhorar suas atividades, assegurando sua orientação, a fim de
definir o papel que deverão desempenhar na sociedade;
9 Auxilia no “aprender a aprender”;
9 Gera estudantes mais críticos, que compreendem as inumeráveis informações que recebem
diariamente.
Verifica-se que a Interdisciplinaridade auxilia na relação entre o estudado e o vivido,
permitindo uma inter-relação de múltiplas e variadas experiências. Existindo uma preocupação pela
verdade do homem (Fazenda, 1979: 42). Este aspecto torna a Interdisciplinaridade importante para a
manutenção de um ensino preocupado com o futuro da humanidade, originando novas gerações
mais conscientes e críticas.
Por outro lado, as escolas e universidades preocupadas com uma educação permanente,
devem preparar os indivíduos para serem profissionais capazes, devendo também, segundo Fazenda
(1979), fazer com que ao saírem de suas classes, continuem seus processos de educação. Seja
através da reciclagem no domínio da atividade profissional, através do engajamento (Jantsch apud
Fazenda, 1979), ou, ainda, pelo aperfeiçoamento da personalidade.
O objetivo desta educação permanente é a própria manutenção do indivíduo na sociedade, e
esta se dará através da Interdisciplinaridade. Ao estar constantemente em processo de educação, os
integrantes da sociedade podem compreender e modificar o próprio mundo em que vivem,
permitindo assim o desenvolvimento de uma sociedade igualitária, com menores distinções de
classes e responsáveis pelo ambiente em que se encontram, ou seja, alcança-se uma mudança de
atitude através da Interdisciplinaridade.
Portanto, para o desenvolvimento da Interdisciplinaridade considera-se fundamental o
engajamento e participação dos professores na construção de um projeto comum, voltado para a
superação da fragmentação do ensino e de seu processo pedagógico (Luck, 1994). No entanto as
práticas interdisciplinares só serão possíveis de serem realizadas, caso não ocorra comodismo e
egoísmo dos professores e das próprias autoridades educacionais.
Luck (1994) apresenta um conjunto de procedimentos que agilizariam o processo
interdisciplinar, proposto por um grupo de professores:
9 Usar a oportunidade para falar, expressar minhas idéias e críticas construtivas;
9 Fazer autocrítica, como um processo contínuo de compreender-se;
9 Estudar mais para aprofundar a prática;
9 Aceitar novas e diferentes idéias dos outros;
9 Respeitar os limites de cada um;
9 Levar as pessoas a expressarem suas idéias;
9 Aceitar a possibilidade de errar;
9 Dar tempo aos colegas de manifestarem suas opiniões;
9 Superar a insegurança desenvolvendo maior autoconfiança;
9 Trabalhar cooperativamente.
Agindo desta forma os professores podem criar as bases para a construção da
Interdisciplinaridade em seu trabalho pedagógico, alcançando a formação de um novo sujeito capaz
de atuar de forma mais participativa e crítica nesta sociedade.
Conforme Luck (1994) a educação tem por finalidade a formação do homem pleno, inteiro,
uno, cada vez mais integrado com o mundo, a fim de que, seja capaz de solucionar os problemas
globais e complexos que a vida apresenta, assim, como ser capaz também de produzir
conhecimentos contribuindo para a renovação da sociedade e para a resolução dos problemas com
que os diversos grupos sociais se defrontam.
A visão Interdisciplinar procura estabelecer a interligação das funções do conhecimento que
polarizam o significado da vida, ou espiritualizar-se abandonando a dimensão material, ou
tecnificar-se materializando a vida e perdendo o sentido de humanização e transcendência. Com
esta visão, a Interdisciplinaridade procura ver o homem por inteiro, reconhecendo a interação
dialética entre a materialidade e a espiritualidade. Luck (1994), ao apresentar o pensamento de
Marques enfatiza que Interdisciplinaridade busca restabelecer a intercomunhão entre todos os
aspectos que envolvem a vida e os seres humanos, criando uma nova prática de pensar, analisar e
representar a realidade, que tenha como base a intercomunicação com os outros.
Esta dinâmica proposta serve para recuperar a reciprocidade das relações do próprio sujeito
do conhecimento, consigo mesmo, com seus semelhantes, com o produto social do seu trabalho e
com a natureza, cabendo esta premissa interdisciplinar, tanto aos educadores, quanto aos educandos.
Por todos estes aspectos que envolvem a Interdisciplinaridade pode-se verificar a
importância da mesma ser utilizada na propagação dos conceitos de Educação Ambiental formal,
relação abordada no tópico seguinte.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INTERDISCIPLINARIDADE
A relevância em se incorporar ao dia-a-dia da sociedade o DS decorre de exigências
internacionais em se reestruturar os padrões de consumo mundiais, baseados em uma sociedade
capitalista extrativista, de modo a prover o equilíbrio dos aspectos sociais, ambientais e econômicos
que afetam a qualidade de vida de toda a sociedade. A Desenvolvimento Sustentável tenta buscar a
adequação entre as exigências ambientais e as necessidades de prover recursos econômicos para
gerar benefícios a toda a sociedade. Esse equilíbrio dinâmico, segundo Valle (1995), é obtido
através da adoção de tecnologias limpas, da gestão ambiental eprincipalmente da conscientização
social, por meio da EA, sendo aplicada interdisciplinarmente.
Para Reigota (1997), devido as situações em que o globo hoje se encontra, uma nova aliança
deve ser estabelecida entre a humanidade e a natureza, estimulando a ética nas relações políticas,
econômicas e sociais. Buscando uma tripla cidadania: local, continental e planetária, tendo implícita
a perspectiva de uma sociedade internacionalmente mais justa.
Torna-se necessário incorporar novos conceitos de DS na sociedade e conseqüentemente em
todas as organizações integrantes da mesma, o que segundo Valle (1995), requer a inserção de
novos paradigmas na cultura. Para isso, prossegue o autor, um eficiente programa de EA
interdisciplinar deve ser implantado, permitindo que todos os níveis organizacionais e sociais sejam
mobilizados, propiciando as pessoas a capacidade de mudarem seus hábitos e padrões de consumo.
Por meio da educação é possível conscientizar as pessoas quanto a importância do DS para o
futuro da humanidade, e a EA, aplicada interdisciplinarmente, dará condições para se criar uma
sociedade menos consumista, mais preocupada com a manutenção dos recursos ambientais e com a
própria qualidade da vida humana.
A EA passa então a ter, como uma de suas metas, a sensibilização das pessoas quanto a
complexidade do Meio Ambiente natural e artificial, resultante da inter-relação de seus aspectos
biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais. Deve permitir, também, aos indivíduos
adquirirem novos conhecimentos, valores, atitudes e as aptidões práticas que possibilitam a
participação de forma responsável e eficaz no trabalho de prever e de resolver problemas ambientais
e de uma gestão qualitativamente apropriada ao Meio Ambiente.
Dentro destes objetivos deverão também estar implícitos a interdependência econômica,
política e ecológica do mundo moderno, onde qualquer tipo de atitude irresponsável, para com a
humanidade, poderá gerar repercussões internacionais.
Com toda esta responsabilidade a EA carece de instrumentos e meios eficazes, e a
Interdisciplinaridade vem ao encontro desta necessidade, pois conforme relembra Simões (1999), a
ciência e a técnica possuem a responsabilidade social de formar homens plenos e conscientes
quanto ao seu papel no mundo moderno. O saber fragmentado acaba por limitar a capacidade do
homem de visualizar a complexidade social. Neste ponto ao se tratar a questão ambiental de forma
interdisciplinar, passa-se a permitir aos diferentes setores educacionais a proteção da qualidade de
vida no mundo, que a cada dia vê seus recursos naturais e essenciais à vida se tornarem mais
escassos.
 Por outro lado ao passar a implantar a EA, através da Interdisciplinaridade, a sociedade
estará propiciando, por exemplo: as organizações a implantação de uma gestão comprometida com
o bem estar social, minimizando seus impactos ambientais; dá condições ao químico de criar
produtos que não agridam a camada de ozônio; conscientiza aos professores de seus papéis como
principais agentes de sensibilização quanto a problemática ambiental; e apresenta a necessidade dos
políticos de policiarem os distintos setores sociais e econômicos.
Verifica-se assim que a questão ambiental afeta todos os campos do saber, por isso não pode
ser tratada exclusivamente em uma só disciplina curricular. A ação conjunta das diversas áreas do
saber devem ser utilizadas, possibilitando a cooperação e a interação entre todas as disciplinas, o
que torna todas as ciências partes complementares de um todo que é o conhecimento
interdisciplinar.
Não se pode mais fragmentar o processo de EA, pois se percebe a necessidade de oferecer
uma perspectiva global da realidade, não apenas a perspectiva científica, pois a EA está relacionada
a sobrevivência da própria espécie humana.
Com esta preocupação o Programa Nacional de Educação Ambiental, salienta que a
interdisciplinaridade implica na utilização dos conteúdos e métodos das diversas disciplinas, para
proporcionar uma compreensão e explicação do problema tratado, superando a fragmentação do
modo de conhecer do trabalho científico (Quintas, 1994).
Ações, efetuando estes tipos de políticas educacionais, já vem sendo implantadas em alguns
estados brasileiros, entre eles São Paulo (SP, 1998) e Rio Grande do Sul (RGS, 1996). Outros
estados, buscam através da elaboração de programas e planos, estabelecer políticas estaduais que
propiciem estas ações. Situação em que se encontra o Rio Grande do Norte, que em seu Plano de
Desenvolvimento Sustentável estabelece um item específico para a implantação da EA no estado,
salientando a necessidade da Interdisciplinaridade para se estabelecer uma visão integrada da
questão ambiental (RN, 1996:71).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De um lado temos a Educação Ambiental como promotora de uma ativa postura cultural do
sujeito, objetivando atitudes sustentáveis que culminam com um Meio Ambiente saudável, e dando
a comunidade a chance de repensar seu processo de desenvolvimento. Do outro a
Interdisciplinaridade que vem proporcionar uma maior interação entre os vários componentes do
saber contemporâneo, possibilitando um saber abrangente e interativo que dá origem a uma
percepção holística da realidade.
A partir destas constatações verifica-se que a Educação Ambiental quando trabalhada com
uma metodologia interdisciplinar proporciona resultados mais eficazes em sua proposta de
sensibilização social. Uma vez que, a conexão de ambas, permite inserir a Educação Ambiental não
como uma disciplina estanque, das grades curriculares das instituições de ensino, mas sim, como
um conteúdo relevante de todas as disciplinas.
Outro fator que ressalta a importância da abordagem interdisciplinar da Educação Ambiental
é a diversidade e complexidade dos problemas com as quais ela lida, cujas soluções requerem
contribuições de diversos campos do saber.
Entretanto, faz-se necessário o acompanhamento e a realização de pesquisas junto aos
programas de Educação Ambiental, em andamento, buscando observar a efetividade desta conexão,
e assim, apresentando as formas mais utilizadas e, quem sabe, estabelecendo os caminhos mais
adequados para a operacionalização desta Interdisciplinaridade.
A Educação Ambiental ao ser aplicada interdisciplinarmente passa a integrar o cotidiano dos
indivíduos, de forma sistemática, obtendo êxito em seu propósito de buscar uma nova atitude em
relação ao ambiente saudável com indivíduos conscientes de seus papéis de mantenedores e
guardiões deste, para as gerações futuras.
BIBLIOGRAFIA
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2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991.
DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e prática. 3ª ed. São Paulo: Gaia, 1994.
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CAPES, SPEC-PADCT, 1994. 118p.
FAZENDA, Ivani C. A. Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro – efetividade ou
ideologia. São Paulo: Edições Loyola, 1979. 110p.
___________ Interdisciplinaridade: Um projeto em parceria. 3ª ed., São Paulo: Loyola 1995(a).
___________ A Interdisciplinaridade: História, Teoria e pesquisa. 2ª ed., Campinas, SP: Papirus,
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JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
222p.
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