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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO FACULDADE NACIONAL DE DIREITO MATHEUS DA SILVA CEIA A INSTRUMENTALIZAÇÃO DO PODER COMO MEIO DE SUBVERSÃO DA ORDEM JURÍDICA RIO DE JANEIRO 2018 MATHEUS DA SILVA CEIA A INSTRUMENTALIZAÇÃO DO PODER COMO MEIO DE SUBVERSÃO DA ORDEM JURÍDICA Trabalho apresentado no curso de graduação em Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito para obtenção de grau na disciplina Sociologia e Antropologia Jurídica. Professor: Alexandre França. RIO DE JANEIRO 2018 INTRODUÇÃO O presente trabalho visa analisar a conjuntura atual da relação existente entre direito e poder, e como essa associação pode desviar a finalidade do ordenamento brasileiro, de modo a comprometer substancialmente a ordem jurídica e suas funções. Para isso, será traçada uma linha evolutiva dos rituais da justiça dos primórdios até a contemporaneidade, buscando apontar de modo sintetizado o grau de influência do poder e como ele prejudica a legitimidade dos meios considerados justos. Destaca-se, por fim, o reflexo de referidos pontos no cenário da atualidade, com poder exacerbado de determinadas classes em detrimento de outras e suas consequências no meio judicial. O PODER COMO ELEMENTO INFLUENCIADOR DA JUSTIÇA AO LONGO DO TEMPO No século XXI, ao refletirmos sobre justiça, é automático o pensamento em torno de isonomia, devido processo legal, juízes, promotores, defensores e tribunais. No entanto, nem sempre tais figuras estiveram presentes para fins de persecução da justiça. Em tempos anteriores ao século XII, era inconcebível a ideia de fazer justiça como é latente atualmente. Isso porque o Estado não dispunha dos mecanismos necessários para busca real da verdade. Não havia sequer a noção e utilização de inquérito e investigação, a fim de esclarecer eventuais conflitos entre indivíduos e auxiliar no alcance da melhor solução possível. Era comum que as partes conflitantes resolvessem a controvérsia através de uma luta corporal, por exemplo, na qual potencialmente os mais fortes venciam os mais fracos. Ainda que tenha havido evolução nos rituais com o decorrer do tempo, é forçoso constatar que sempre houve brecha para influência de elementos variáveis, como status social e situação financeira. Aquele que construísse melhores relações sociais e dispusesse de maior riqueza, certamente estaria mais capacitado para um combate ou guerra e, posteriormente, para encarar tribunais, uma vez que poderia aplicar melhores recursos na defesa de seus interesses. Portanto, ainda que desde a Antiguidade se tenha ideias acerca de justiça como dar a alguém o que lhe é devido, por exemplo, conforme ensinamento de Aristóteles, a realidade é que nem sempre a prática permitiu que tal fim fosse atingido. Diversas variáveis influenciaram e continuam influenciando o meio jurídico, criando um verdadeiro abismo entre a teoria e a realidade, de modo que o mais forte prevalece sobre o mais fraco. Podemos notar que referida prevalência perdurou ao longo dos anos, se ampliarmos o conceito de “forte”: encontra-se aqui não apenas a ideia de força física, mas força financeira, força das relações e correlatas, ou seja, o poder que determinado indivíduo dispõe na sociedade na qual que está inserido. Os séculos passaram, os procedimentos jurídicos evoluíram, novas figuras judiciais surgiram, mas algo não mudou: desde os tempos remotos, o poder dita, em maior ou menor grau, as regras da justiça e, mais que isso, a conduz pelos caminhos de seu interesse. O MONOPÓLIO DO PODER E, CONSEQUENTEMENTE, DA VIOLÊNCIA O direito considera o poder um potencial instrumento de subversão da ordem jurídica. Logo, quando ele não está em suas mãos, acaba ameaçando-o, nem sempre pelos fins que possa almejar, mas fundamentalmente pela sua existência fora da órbita jurídica. Sabe-se que o poder pode gerar autoritarismo e violência para imposição da sua verdade, e o maior problema para o direito é que essa violência se torne meio para derrubar o próprio ordenamento jurídico que o rege. Em face dessas considerações, torna-se importante para o Estado a manutenção do monopólio do poder e violência. Cabe, neste momento, traçar um paralelo entre poder e violência. A violência, segundo alguns teóricos, pode ser vista como meio para fins justos ou injustos. Para o direito natural, ela é algo da natureza, algo inerente ao ser humano (base ideológica do terrorismo na Revolução Francesa), e que pode ser utilizada para atingir fins justos ou injustos. Os estudiosos defensores do direito natural também defendem o poder, em sua maior amplitude de sentidos, como algo da natureza. Sendo assim, poder e violência caminhariam, em algumas vezes, lado a lado, uma vez que pessoas de maior poder poderiam utilizar da violência como meio de impor sua verdade não só a outros indivíduos, mas também ao Poder Judiciário. Mais que isso, a violência pode ser uma forma de manutenção do poder. Insta ressaltar que referida violência é praticada, em maior parte, pelo próprio Estado, que não mede esforços para manter seu status de soberano em relação aos outros. A pergunta que se faz é: até que ponto é legítima a violência perpetrada pelo Estado na busca desenfreada pela manutenção de seu poder exacerbado? DIREITO, PODER E VIOLÊNCIA: A REALIDADE BRASILEIRA A busca desenfreada praticada pelo Estado almejando a manutenção do poder é escancarada se nos debruçarmos sobre ambientes como comunidades, favelas e periferias. É extremamente comum, ao ligarmos o rádio e a televisão, ser noticiada uma operação policial truculenta, arrombamento de casas e até mesmo morte de crianças vítimas de bala perdida em porta de escola. O desrespeito a inúmeros direitos fundamentais – protegidos na Lei Maior e infraconstitucionalmente – é praticado, veja só, por aquele que deveria zelar por eles: o Estado. Por outro lado, temos grandes corruptos, especialistas em lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, morando em luxuosas coberturas de belíssimos bairros da zona sul das principais cidades brasileiras. Quanto a esses “medalhões” do crime, principalmente os chamados “crimes de colarinho branco”, há uma clara diferenciação no tratamento: é preciso respeitar seus direitos. Não é recomendável invadir o prédio portando enormes fuzis de modo visível, a truculência abre espaço para a cordialidade e todos os direitos são concedidos. Muitas vezes, cabe ressaltar, são concedidos não só direitos, mas também vantagens. A verdade é que, quando se trata de manutenção do monopólio da força, a fim de que haja alcance do bem comum – que não é bem verdade, conforme explicitado acima, tendo em vista os privilégios de uma classe em relação à outra –, o Estado não mede esforços. Claro exemplo é a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que, em seu art. 5º, XLVII, a, assevera: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XLVII - não haverá penas: de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; Ora, em caso de guerra declarada, a própria CRFB/1988 autoriza que o Estado institua pena de morte e execute indivíduos, a fim de proteger sua soberania. Há também o exemplo do militarismo. Segundo estatísticas, a polícia militar brasileira é uma das que mais mata no mundo inteiro. É certo que enfrentam diariamente criminosos altamente violentos, mas os índices revelam inegável despreparo e violência na busca pelos fins de Estado. Fato é que tal problemática militar se torna acentuada se olharmos sob a ótica dos menos favorecidos. É inegável o uso generalizado da violência para manutenção do poder e amparado pela ordem jurídica, de modo que acaba subvertendo-a. Não é crível alegar a imprescindibilidade deuma operação militar violenta, com arrombamento de casa de diversos moradores, tiros e mais tiros, balas perdidas e até mesmo mortes de inocentes sob o argumento de que está impondo ordem. Usa-se, em síntese, alto grau de violência para instituir e manter o poder e o direito, que caminham lado a lado.