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Disciplina: Desenvolvimento da Infância à Idade Adulta Profª: Bianca Novaes - Os Estágios de Desenvolvimento (segundo Piaget) * Estágio Pré-Operatório (2 a 7 anos) “No momento da aparição da linguagem, a criança se acha às voltas, não apenas com o universo físico como antes, mas com dois mundos novos e intimamente solidários: o mundo social e o das representações interiores” (Piaget, 2005, p.24). No estágio anterior, o estágio sensório-motor, o bebê adquirira o domínio do mundo físico, coordenando suas sensações a ações motoras, ou seja, aprimorando a recepção dos estímulos sensoriais e as reações motoras sobre eles. Agora, neste estágio, chamado por Piaget de Pré-Operatório, a criança, por já ter acesso à linguagem, passa a defrontar-se não somente com o mundo físico, mas com o mundo social e o universo das representações interiores. Defronta-se com o mundo social, porque a linguagem lhe permite comunicar-se com os outros; e com o universo das representações interiores, porque através da linguagem ela pode construir uma representação sobre suas experiências. A partir dessas primeiras representações interiores de suas experiências com o mundo dos objetos, a criança torna-se capaz de construir narrativas, ou seja, relações entre representações que dão sentido às experiências sensório-motoras adquiridas no período anterior. No entanto, assim como no período anterior o bebê mantinha uma atitude egocêntrica com os objetos materiais, também a criança, que agora passa a defrontar-se com o mundo social e o mundo da representação, manterá uma atitude egocêntrica com esses novos universos. O predomínio da assimilação sobre a acomodação, que caracteriza a atitude egocêntrica frente ao universo físico no estágio sensório-motor, é também manifestado no estágio Pré-Operatório, mas referindo-se, agora, ao universo social e do pensamento. O que foi conquistado no estágio sensório-motor é aplicado em outros universos no estágio Pré-Operatório, até que o egocentrismo seja inteiramente abandonado nas diversas esferas da vida mental em prol da conquista da objetividade, alcançada paulatinamente nos estágios posteriores. A evolução mental parte de uma harmonização gradual da assimilação à acomodação até a constituição de um universo objetivado. Nas palavras de Piaget: Lembremo-nos de que, a respeito dos objetos materiais ou corpos, o lactente começa por uma atitude egocêntrica – na qual a incorporação das coisas à sua atividade predomina sobre a acomodação – conseguindo, apenas gradativamente, situar-se em um universo objetivado (onde a assimilação ao sujeito e a acomodação ao real se harmonizam entre si). Da mesma maneira, a criança reagirá primeiramente às relações sociais e ao pensamento em formação com um egocentrismo inconsciente que prolonga o do bebê. Ela só se adaptará, progressivamente, obedecendo às leis de equilíbrio análogas às do bebê, mas transpostas em função destas novas realidades. É por este motivo que se observa, durante toda a primeira infância, uma repetição parcial, em planos novos, da evolução já realizada pelo lactente no plano elementar das adaptações práticas. Contudo, a atitude egocêntrica que caracteriza esta fase não prejudica de modo algum o desenvolvimento, ao contrário, dá prova de seu curso. O aparecimento da linguagem, ainda que egocêntrica, traz para a criança grandes e fundamentais conquistas. Do aparecimento da linguagem resulta três consequências essenciais para o desenvolvimento mental: - troca entre indivíduos (o início da socialização da ação); - interiorização da palavra (a aparição do pensamento propriamente dito, que tem como base a linguagem interior e o sistema de signos); - interiorização da ação ( ação deixa de ser exclusivamente perceptiva e motora como era no estágio anterior, podendo, agora, se reconstituir no plano intuitivo das imagens e das “experiências mentais”). Portanto, o encontro possibilitado pela linguagem com o mundo social e o universo da representação interior provoca no desenvolvimento do indivíduo profundas modificações no plano intelectual e no plano afetivo. No plano intelectual, através da linguagem, a criança torna-se capaz de reconstruir suas ações passadas sob forma de narrativas e de antecipar suas ações futuras pela representação verbal. A criança pode, agora, planejar as ações sensório- motoras outrora adquiridas, sem que seja necessário reproduzir a ação no momento presente, pois através da representação verbal ela pode prever suas consequências. No plano afetivo, paralelamente ao início da socialização, com o surgimento primeiras trocas sociais propiciadas pelo aparecimento da linguagem, desenvolvem-se também os primeiros sentimentos interindividuais (simpatias e antipatias, respeito, etc.) e, por isso, uma afetividade inferior passa a organizar-se de forma mais estável do que no estágio anterior. Vamos examinar, a seguir, as importantes conquistas que o aparecimento da linguagem permite à criança neste estágio de sua vida, sobre o plano social, do pensamento, da intuição e afetivo. A) Plano Social É evidente que a troca e a comunicação entre os indivíduos são a conseqüência mais direta do aparecimento da linguagem, embora essas relações interindividuais existam “em germe” desde a segunda metade do primeiro ano, ou seja, já no estágio sensório-motor. Porém, a natureza dessas trocas é inteiramente diferente em cada um desses dois estágios. No estágio sensório-motor, essas trocas se dão através da “imitação”. Primeiramente, o bebê imita, apenas por excitação, os gestos do outro que ele já sabe executar espontaneamente- tais como visíveis movimentos com as mãos. Em seguida, essa imitação sensório-motora torna-se uma cópia cada vez mais precisa dos movimentos que o bebê observa nas pessoas próximas. Enfim, o bebê torna-se capaz de reproduzir movimentos novos e mais complexos (os mais difíceis são os que se referem a partes do corpo que o bebê não vê em si mesmo, como o rosto e a cabeça). Mas é somente no estágio Pré-Operatório que as relações interindividuais deixam de limitar-se à mera imitação de gestos corporais e exteriores, e, por isso, a relação afetiva deixa de ser global (geral) sem comunicações diferenciadas. Somente com o aparecimento da linguagem é que o indivíduo pode comunicar aos outros a sua própria vida interior, uma vez que com as palavras pode formar uma representação interna, ou seja, pode representar para si mesmo e para os outros o seu estado interior. Nas palavras de Piaget: “Com a palavra, ao contrário, é a vida interior como tal, que é posta em comum e, deve- se acrescentar que se constrói conscientemente, na medida em que pode ser comunicada” (Piaget, 2005, p.25). São, assim, as funções elementares da linguagem que dão início à socialização da ação neste estágio da vida infantil. Então, para encontrar as principais características da socialização neste período, Piaget observou crianças de 2 a 7 anos durante algumas horas em intervalos regulares, a fim de analisar como elas utilizavam a linguagem. Piaget descobriu, durante o estágio Pré-Operatório, três importantes fatos no plano social: - subordinação e coação espiritual da criança pelo adulto - monólogo coletivo (comunicação sem uma troca real de pensamentos) -solilóquio (comunicação apenas para si mesma, como auxiliar da ação) Os fatos de subordinação e coação espiritual exercidos pelo adulto sobre a criança aparecem nestas primeiras trocas sociais, revelando que neste estágio da vida infantil a criança (que nesta fase considera os adultos como seres grandes efortes que lhe provocam admiração) passa a se submeter às vontades e pensamentos deles, pois agora a criança já compreende através da linguagem o desejo dos adultos. Em outras palavras, a criança quando entra no domínio da linguagem passa a admirar o mundo novo e surpreendente que os adultos lhe apresentam através da linguagem; passando a admirá-los, e entendendo também a vontade deles expressa em palavras. Então, ela se submete ao desejo deles, obedecendo cegamente suas imposições. Nas conversas que as crianças travam com os adultos e com as outras crianças nesta fase, não há, de fato, uma comunicação capaz de propiciar uma cooperação real. A comunicação entre elas se reduz a um monólogo coletivo. Através de representações internas, a criança pode comunicar seu pensamento aos outros, assim como pode entender o significado do pensamento das outras pessoas, expresso em palavras, mas ela não pode ainda modificar seu pensamento em função do pensamento de seu interlocutor. Aproximadamente até os sete anos, as crianças não sabem discutir entre si e, quando discutem, se limitam a apresentar suas afirmações contrárias, sem procurar um consenso, pois é muito difícil para elas colocar-se sob ponto de vista do outro. O jogo com regras compartilhadas, por exemplo, é algo com que a criança dessa fase não é capaz de brincar. Geralmente, neste período, as conversações entre crianças são rudimentares e restritas à ação sobre o mundo material. Por isso, nessas primeiras trocas sociais, como não há uma troca de pensamentos, a socialização é mais restrita. As trocas sociais também não alcançam maior efetividade porque o uso da linguagem fica reduzido também a mais um tipo de comunicação que não esgota o alcance social da linguagem: os solilóquios. Os solilóquios são falas dirigidas, não para os outros, mas para si mesmo. Nesta fase, esses incessantes solilóquios acompanham as atividades e jogos da criança, assemelhando-se à linguagem interior do adolescente e do adulto, mas diferem desta por serem pronunciados em voz alta e exercerem a função de auxiliares da ação imediata. Por exemplo, quando a criança, desenhando, fala sozinha, descrevendo o que está desenhando. Mais uma vez, vemos manifestar-se nesta fase o egocentrismo, que no estágio sensório-motor era aplicado ao mundo dos objetos, e que, agora, aplica-se ao mundo social. Conforme Piaget resume: Em suma, o exame da linguagem espontânea entre crianças, como o comportamento dos pequenos nos jogos coletivos, mostra que as primeiras condutas sociais permanecem ainda a meio caminho da verdadeira socialização. Em lugar de sair de seu próprio ponto de vista para coordená-lo com o dos outros, o indivíduo permanece inconscientemente centralizado em si mesmo; este egocentrismo face ao grupo social reproduz e prolonga o que notamos no lactente face ao universo físico. Nos dois casos, há uma indiferenciação entre o eu e a realidade exterior, aqui representada pelos outros indivíduos e não mais pelos objetos isolados; este tipo de confusão inicial estabelece a primazia do próprio ponto de vista (Piaget, 2005, p.27). B) Plano do Pensamento Sob a dupla influência da linguagem e da socialização, ocorre nesta fase uma transformação da inteligência sensório-motora em pensamento propriamente dito. Nas palavras de Piaget: A linguagem, permitindo ao sujeito contar suas ações, fornece de uma só vez a capacidade de reconstituir o passado, portanto, de evocá-lo na ausência de objetos sobre os quais se referiram as condutas anteriores, de antecipar as ações futuras, ainda não executadas, e até substituí-las, às vezes, pela palavra isolada, sem nunca realizá-las. Este é o ponto de partida do pensamento. (Piaget, 2005, p.27) Embora a linguagem conduza à socialização das ações, uma vez que a língua é um código compartilhado por todos, tornando o pensamento individual um pensamento coletivo, somente gradativamente a criança alçará a esse plano do pensamento e da linguagem. Neste momento inicial de encontro com a linguagem, seu pensamento permanece egocêntrico, intuitivo e verbal. Assim, as principais características do pensamento durante o estágio Pré- Operatório são: - pensamento egocêntrico (jogo simbólico) - pensamento intuitivo - pensamento verbal (finalismo, animismo e artificialismo) Em uma primeira etapa do estágio Pré-Operatório, o pensamento da criança caracteriza-se pelo egocentrismo até culminar, em uma segunda etapa, no pensamento intuitivo, um pensamento um pouco mais adaptado aos outros e ao real. O pensamento egocêntrico é um pensamento por incorporação ou assimilação, cujo egocentrismo exclui toda e qualquer objetividade. Este tipo de pensamento se manifesta de forma mais pura no jogo simbólico, chamado ainda de “jogo de imitação”. As brincadeiras de boneca, comidinha e casinha são jogos deste tipo. A função do jogo simbólico consiste em satisfazer o eu por meio de uma transformação do real em prol dos desejos: “a criança que brinca de boneca refaz sua própria vida, corrigindo-a à sua maneira, e revive todos os prazeres ou conflitos, resolvendo-os, compensando-os, ou seja, completando a realidade através da ficção” (Piaget, 2005, p.29). Não se trata de uma submissão da criança ao real, mas, ao contrário, uma assimilação deformada da realidade aos desejos da criança. Neste tipo de pensamento imaginativo, a linguagem intervém de forma ainda restrita, pois nesses jogos o instrumento de linguagem utilizado é um símbolo reduzido a um signo individual. Ao invés de dominar inteiramente os signos coletivos que constituem o sistema da linguagem, a criança utiliza nestes jogos signos individuais, muitas vezes compreendidos somente por elas, porque se referem a lembranças e estados íntimos. Em seguida, a criança encontra um tipo de pensamento mais adaptado ao real, chamado pensamento intuitivo. O pensamento intuitivo é aquele que reconstitui e antecipa a experiência e a coordenação sensório-motora através de representações. Por meio das representações, a criança torna-se capaz de representar ações sensório-motoras passadas e prever ações sensório-motoras futuras. Entre o pensamento egocêntrico expresso no jogo simbólico, dominado pela subjetividade, e esse pensamento intuitivo, mais próximo da objetividade, a criança encontra ainda uma forma de pensamento simplesmente verbal. O pensamento verbal é mais próximo do real do que o jogo simbólico e é mais afastado do real do que o pensamento intuitivo, mas, ainda assim, manifesta o egocentrismo (não mais pelo predomínio do universo subjetivo, como nos jogos simbólicos, mas por uma indiferenciação do subjetivo e do objetivo). A sua função principal é compreender as noções de finalidade e de causa, manifestando-se, portanto, nos célebres “porquês” infantis. Mas a criança confunde o “para quê” com o “porquê”. Quando Piaget colocou as crianças de 2 a 7 anos para responder a essas perguntas de outras crianças, observou que elas sempre davam explicações finalistas, animistas e artificialistas. O finalismo se apresenta para a criança através da crença de que tudo tem uma causa e um fim, por exemplo, quando ela pergunta “Por que a ponte Rio-Niterói não vai até Nova Friburgo?”. O animismo infantil é a tendência a conceber as coisas como vivas e dotadas de intenção, por exemplo, quando as crianças acreditam que a lua as acompanha em seus passeios e depois volta para a casa delas para esperá-las. Para a criança, a lua faz isso porque quer. E o artificialismo é a crença de que as coisas foram construídas pelo homem ou por uma atividade divina, por exemplo, quando a criança crê que asmontanhas foram construídas porque alguém plantou várias pedrinhas umas em cima das outras. O pensamento verbal se caracteriza assim pela indiferenciação entre leis naturais e leis morais, entre determinismo e obrigação, entre o físico e o psíquico, bem como pelo predomínio do egocentrismo intelectual. C) Plano Intuitivo É importante notar que quando falamos de “intuição” em relação à obra de Piaget não nos referimos de modo algum ao sentido corrente dessa palavra no senso- comum. Longe de significar poderes premonitórios ou expressões de forças sobrenaturais, Piaget utiliza a palavra “intuição” simplesmente no sentido de um pensamento para o qual não oferecemos explicações racionais. Dizemos que a criança faz algo por intuição quando ela afirma algo sem nunca demonstrar. A questão a que se dedica Piaget é a da justificação lógica das ações que a criança empreende nesta fase da vida infantil. Ele se pergunta se a inteligência prática que a criança já adquiriu no estágio anterior e o planejamento de tais ações que agora ela realiza possuem ou não para a criança uma explicação lógica. Será ela capaz de explicar logicamente suas ações? Piaget responde: Até cerca de sete anos a criança permanece pré-lógica e suplementa a lógica pelo mecanismo da intuição; é uma simples interiorização das percepções e dos movimentos sob a forma de imagens representativas e de “experiências mentais” que prolongam, assim, os esquemas senso-motores sem coordenação propriamente racional (PIAGET, 2005, p.33). A intuição é, neste estágio, o substituto da operação racional e do pensamento lógico. Como a intuição é submetida ao primado da percepção, prolonga ainda o egocentrismo. As principais características da intuição são: - Primado da percepção sobre as relações lógicas - Irreversibilidade Devido ao primado da percepção sobre as relações lógicas, a criança, por volta de 4-5 anos, avalia a quantidade pelo espaço ocupado, sem deter-se nas relações existentes entre os elementos. Por exemplo, se apresentarmos para a criança oito fichas vermelhas dispostas em intervalos regulares e cinco fichas azuis dispostas em um espaço maior do que o da fileira vermelha, ela dirá que há mais fichas na fileira azul. Isso porque a criança desta fase avalia a quantidade pelo espaço ocupado, considera a equivalência como correspondência visual. A igualdade, para a criança desta fase, não se conserva por correspondência lógica, não havendo, portanto, uma operação racional, mas sim uma simples intuição. Essas intuições primárias se caracterizam também pela irreversibilidade, isto é, baseiam-se em esquemas perceptivos ou esquemas de ação (esquemas sensório- motores), transpostos ou interiorizados como representações, mas que não podem ser revertidos. Não constituem ainda operações lógicas passíveis de serem generalizadas e combinadas entre si. Por exemplo, se colocamos dentro de um tubo, nessa ordem, bola A, bola B e bola C, a criança constatará que as bolas chegarão à extremidade do tubo nessa mesma ordem: A, B e C. Mas se inclinamos o tubo na direção oposta, ela ficará muito surpresa em constatar que as bolas chegarão na ordem C, B e A. Isso porque as intuições são irreversíveis, ou seja, não prolongam a ação já conhecida, representada interiormente, em dois sentidos opostos. Em suma: “Comparada à lógica, a intuição, do ponto de vista do equilíbrio, é menos estável, dada a ausência de reversibilidade; mas, em relação aos atos pré-verbais, representam uma autêntica conquista.” (Piaget, 2005, p. 36) D) Plano Afetivo Nesta fase da vida infantil, em consequência do aparecimento da linguagem que dá início à socialização, mudanças profundas ocorrem na vida afetiva da criança. As três grandes novidades na vida afetiva da criança, durante o estágio Pré-Operatório, são: - desenvolvimento dos sentimentos interindividuais (simpatia e antipatia) - sentimentos morais intuitivos (respeito e moral heterônoma) - regularizações de sentimentos e valores, ligados ao pensamento intuitivo A partir do momento em que a aquisição da linguagem permite à criança comunicar-se com seu ambiente, um jogo sutil de simpatias e antipatias começa a se desenvolver, completando e diferenciando os sentimentos elementares adquirido no estágio anterior (emoções de agradável e desagradável). Em correspondência com as escalas de valores que a criança começa a construir para si mesma, a simpatia supõe a valorização mútua e valores comuns que permitem as trocas com as pessoas com quem ela convive. A simpatia surge dessas primeiras relações interindividuais em que já há a noção de valores comuns. E como afirma Piaget: “Inversamente, a antipatia nasce da ausência de gostos comuns e da escala de valores comuns” (Piaget, 2005, p.38). Outro sentimento muito importante que aparece nesse estágio é o sentimento de respeito unilateral pelos pais. Dentre os valores interindividuais já constituídos, a criança reserva aos pais e pessoas mais velhas o sentimento de que eles lhe são superiores e que ela deve obedecer-lhes. O respeito unilateral é composto de afeição e temor, estabelecendo este último a desigualdade que caracteriza este sentimento unilateral. Em virtude desse sentimento de respeito unilateral, a criança constrói suas primeiras noções de moralidade, mas uma moralidade ainda restrita, chamada de moral heterônoma. A moral heterônoma é a moral da obediência, na qual o critério de bem é simplesmente a vontade dos pais. É o respeito unilateral que faz com que a criança aceite e reconheça as regras de conduta verdadeiras, mas sem que a criança compreenda, por si mesma, o que é a verdade, pois, para ela, é a vontade dos pais que diz o que é verdadeiro, o que é correto. Por isso, nas palavras de Piaget: “A moral da primeira infância fica, com efeito, essencialmente heterônoma, isto é, dependente de uma vontade exterior, que é a dos seres respeitados ou dos pais”(Piaget, 2005, p.38). Já as regularizações de sentimentos e valores, ligados ao pensamento intuitivo, são justamente o que permite tanto os sentimentos de antipatia e antipatia quanto o sentimento já mais complexo de respeito unilateral, pois essas regularizações organizam uma escala de valores, sentimentos e interesses a partir dos quais a criança sentirá algo em relação aos outros. Em relação às outras crianças, ela experimenta simpatia quando compartilha com elas valores comuns, e antipatia quando na ausência de tais valores. Em relação aos pais, ela atribui a eles um lugar muito elevado na escala de valores, atribuindo-lhes superioridade ímpar, e, por isso, os respeita de forma unilateral, obedecendo-lhes cegamente e considerando como moralmente válido tudo o que expressa a vontade desses seres superiores. Enfim, será preciso esperar o estágio seguinte, o Operatório Concreto, para que a criança passe do respeito unilateral para o respeito mútuo e, com isso, chegue à moral autônoma. - BIBLIOGRAFIA: PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense, 2005. - QUESTÃO A SER RESPONDIDA: - Quais são as principais características do estágio Pré-Operatório, nos planos social, do pensamento, da intuição e afetivo?