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L e r F r e u d 11 
Descoberta da obra 
R e f e r ê n c i a s 
P a r a c a d a o b r a e s t u d a d a , i n d i q u e i q u a s e 
s e m p r e d o i s t e x t o s d e referência e n t r e a s t r a d u -
ções disponíveis e m língua f r a n c e s a . O p r i m e i -
r o t e x t o d e referência é a q u e l e d e o n d e extraí a s 
citações d e F r e u d i n d i c a d a s e m itálico: t r a t a - s e 
d e traduções p u b l i c a d a s n a "Bibliothèque d e 
P s y c h a n a l y s e " ( P r e s s e s U n i v e r s i t a i r e s d e F r a n -
c e ) , n a coleção " C o n n a i s s a n c e d e 1 ' i n c o n s c i e n t " 
e " F o l i o , E s s a i s " ( G a l l i m a r d ) , e a i n d a n a " P e t i t e 
Bibliothèque P a y o t " . Q u a n d o o t e x t o e s t u d a d o 
a p a r e c e e m u m d o s v o l u m e s já lançados d a s 
CEuvres Completes de Freud, Psychanalyse ( o u 
OCF.P), i n d i q u e i e n t r e c o l c h e t e s u m s e g u n d o 
t e x t o d e referência. 
A s s i m , a s páginas d e referência contêm e m 
g e r a l d u a s c i f r a s : ( p . 2 3 5 [132]). A p r i m e i r a c i -
f r a - p . 2 3 5 - r e m e t e às páginas d e u m a t r a d u -
ção c o r r e n t e d e t e x t o s f r e u d i a n o s , a s e g u n d a -
[132]- r e m e t e a o s t o m o s já lançados d e CEuvres 
Completes de Freud, Psychanalyse [OCF.P]. 
O l e i t o r encontrará n a b i b l i o g r a f i a a s r e f e -
rências c o r r e s p o n d e n t e s a o s v o l u m e s d e 
Sigmund Freud, Gesammelte Werke ( F r a n k f u r t 
a m M a i n : F i s h e r V e r l a g ) e d e The standard 
edition of the complete psychological works of 
Sigmund Freud ( L o n d o n : T h e H o g a r t h P r e s s 
a n d t h e I n s t i t u t e o f P s y c h o a n a l y s i s ) . 
Q u e t e x t o s dc r a e u 
d e v e r i a e s c o l h e r ? I 
P a r a c a d a o b r a , e x i s t e m m u i t a s traduções 
disponíveis e m língua f r a n c e s a e m d i v e r s a s 
edições, c o m d a t a s d i f e r e n t e s , p o r t r a d u t o r e s 
d i f e r e n t e s . Além d i s s o , a s CEuvres Completes 
estão e m f a s e d e publicação p e l a s P r e s s e s 
U n i v e r s i t a i r e s d e F r a n c e , e até a g o r a só f o i 
lançada p o u c o m a i s d a m e t a d e . P a r a f a z e r e s s a 
difícil e s c o l h a , a p o i e i - m e n a experiência a d -
q u i r i d a c o m o seminário, l e v a n d o e m c o n t a a 
constatação d e q u e o s p a r t i c i p a n t e s u t i l i z a v a m 
p r e f e r e n c i a l m e n t e o s l i v r o s d e b o l s o e a s e d i -
ções e m b r o c h u r a , p o r razões económicas, m a s 
também p o r q u e e l a s têm u m a l i n g u a g e m m a i s 
acessível. 
Desa ta r o f i o c o n d u t o r da o b r a 
C o m o a p r e s e n t a r u m a o b r a s e m s e r s i m p l i f i -
c a d o r a o r e s u m i - l a e , a o m e s m o t e m p o , s e m 
s e r enciclopédico, a b a r r o t a n d o o l e i t o r d e r e f e -
rências? D i a n t e d e s s e d i l e m a , o p t e i p o r a p r e -
s e n t a r c a d a o b r a d e m a n e i r a a d e s p e r t a r a c u r i o -
s i d a d e d o l e i t o r , p a r a q u e d e s e j e l e r o t e x t o c o m -
p l e t o , o u n o o r i g i n a l , o u e m u m a tradução. P r o -
c u r e i também c o m u n i c a r o e s s e n c i a l , e x p r e s -
s a n d o - m e e m u m a l i n g u a g e m s i m p l e s e o m a i s 
próxima possível d a c o t i d i a n a . 
A c o m p a n h a n d o o t e x t o d e F r e u d , e n c o n -
t r a - s e u m p e n s a m e n t o e m c o n s t a n t e evolução, 
q u e a b a n d o n a u m a i d e i a a n t e r i o r p o r u m a 
n o v a e d e p o i s r e t o r n a à p r i m e i r a , m e s m o q u e 
e s s a s posições s e j a m contraditórias. A l e i t u r a 
d o t e x t o o r i g i n a l n o s f a z p e r c e b e r também a 
q u e p o n t o a o b r a d e F r e u d e s t i m u l a n o s s a pró-
p r i a s reflexões e e v o c a o u t r a s e c o n s t i t u i v e r -
d a d e i r a m e n t e u m a o b r a " a b e r t a " n o s e n t i d o 
d e e c o , c o m o m o s t r o u A . F e r r o ( 2 0 0 0 ) . F r e u d 
e s c r e v e c o m o u m e x p l o r a d o r q u e d e s c o b r e 
p a i s a g e n s d e s c o n h e c i d a s , a n o t a s u a s i m p r e s -
sões d e p a s s a g e m , f a z u m esboço e m s e u c a -
d e r n o e , às v e z e s , s e detém p o r m a i s t e m p o 
p a r a a r m a r s e u c a v a l e t e e f i x a r a p a i s a g e m e m 
u m a o b r a - p r i m a . 
Pr i v i l eg ia r u m a a b o r d a g e m c l í n i ca 
A o r e d i g i r Ler Freud, p r i v i l e g i e i i g u a l m e n -
t e u m a a b o r d a g e m clínica t a n t o n a m i n h a pró-
p r i a l e i t u r a d e F r e u d c o m o n o s d i v e r s o s e s -
c l a r e c i m e n t o s . A c h o i m p o r t a n t e t e r s e m p r e 
e m m e n t e q u e a psicanálise não é s i m p l e s m e n -
t e u m a t e o r i a e u m método d e p e s q u i s a d o 
p s i q u i s m o h u m a n o , m a s é s o b r e t u d o u m a 
a b o r d a g e m clínica e técnica q u e a i n d a h o j e 
p e r m i t e a inúmeros p a c i e n t e s r e s o l v e r c o n f l i -
t o s i n c o n s c i e n t e s q u e não c o n s e g u i r i a m r e s o l -
v e r p o r o u t r o s m e i o s . 
Cronologia dos conceitos freudianos 
A o f i n a l d e c a d a capítulo, m e n c i o n e i o s 
p r i n c i p a i s c o n c e i t o s q u e a p a r e c e m n a o b r a e s -
t u d a d a , n a m e d i d a e m q u e F r e u d l h e s a t r i b u i 
12 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
o e s t a t u t o d e u m v e r d a d e i r o c o n c e i t o p s i c a -
nalítico. M a s e s s a m a n e i r a d e a p r e s e n t a r u m 
c o n c e i t o s i t u a n d o - o e m u m período d e t e r m i -
n a d o d a evolução d e F r e u d não d e i x a d e s e r 
problemática. P o r u m l a d o , é q u a s e s e m p r e 
arbitrário f i x a r u m m o m e n t o p r e c i s o e m q u e 
u m c o n c e i t o a p a r e c e e m u m a o b r a d e F r e u d . 
Q u a n d o s e f a z u m a l e i t u r a r e t r o s p e c t i v a , d e s -
c o b r e - s e q u e F r e u d d e s c r e v e u fenómenos q u e 
c o r r e s p o n d e m a u m c o n c e i t o psicanalítico 
m u i t a s v e z e s e e m m o m e n t o s d i f e r e n t e s e q u e 
só m a i s t a r d e e l e a t r i b u i u m e s t a t u t o d e c o n -
c e i t o a e s s e fenómeno. P o r e x e m p l o , o t e r m o 
"transferência" já a p a r e c e e m Estudos sobre a 
histeria, e m 1 8 9 5 , m a s a p e n a s 1 0 a n o s d e p o i s , 
e m 1 9 0 5 , será d e f i n i d o c o m o c o n c e i t o p s i c a -
nalítico, c o m o c a s o D o r a . 
Evolução dos conceitos freudianos 
A l g u n s c o n c e i t o s f r e u d i a n o s e s s e n c i a i s f o -
r a m d e s e n v o l v e n d o - s e a o l o n g o d e várias dé-
c a d a s . P o r e s s a razão, d e d i q u e i u m q u a d r o a o s 
m a i s i m p o r t a n t e s , c o m o o c o m p l e x o d e Édipo, 
a transferência e a l g u n s o u t r o s . 
Pós-freudianos 
N e s s a r u b r i c a , m e n c i o n e i o s p r i n c i p a i s d e -
s e n v o l v i m e n t o s d a s i d e i a s d e F r e u d f e i t o s p o r 
s e u s discípulos i m e d i a t o s e p e l o s p r i n c i p a i s p s i -
c a n a l i s t a s q u e o s u c e d e r a m até o s n o s s o s d i a s . 
P a r a e v i t a r q u e o l e i t o r s e p e r c a e m u m e x c e s s o 
d e referências bibliográficas, l i m i t e i m i n h a s e s -
c o l h a s às contribuições f u n d a m e n t a i s , m e n c i o -
n a n d o d e p a s s a g e m a l g u m a s referências q u e m e 
t o c a m m a i s d i r e t a m e n t e . O s d e s e n v o l v i m e n t o s 
pós-freudianos m o s t r a m c o m o c e r t a s noções 
esboçadas p o r F r e u d f o r a m r e t o m a d a s e m s e -
g u i d a p or u m a o u o u t r a c o r r e n t e d e p e n s a m e n t o 
e e n r i q u e c i d a s p o r a p o r t e s i n o v a d o r e s . N e s s e 
espírito, p r i v i l e g i e i u m a a b o r d a g e m i n t e r n a c i o -
n a l , c o m o o b j e t i v o d e d i m e n s i o n a r a d i v e r s i -
d a d e d e c o r r e n t e s a t u a i s e n t r e o s p s i c a n a l i s t a s 
p e r t e n c e n t e s à Associação Psicanalítica I n t e r n a -
c i o n a l f u n d a d a p o r F r e u d . 
U M S E M I N Á R I O DE L E I T U R A C R O N O L Ó G I C A DA O B R A DE F R E U D 
G o s t a r i a d e f a z e r u m a b r e v e apresentação 
d e s s e seminário p a r a m o s t r a r o t r a b a l h o q u e 
f o i p r o d u z i d o d u r a n t e m a i s d e 1 5 a n o s , p o i s 
f o i e l e q u e m e f o r n e c e u o p o n t o d e p a r t i d a p a r a 
r e d i g i r Ler Freud. D e v o e s c l a r e c e r q u e a f o r m a 
q u e a d o t a m o s n e s s e seminário é a p e n a s u m a 
e n t r e t a n t a s o u t r a s possíveis e q u e c a b e a c a d a 
u m e n c o n t r a r a m a n e i r a q u e l h e convém d e 
a b o r d a r a l e i t u r a d a s o b r a s f r e u d i a n a s . 
U m a a b o r d a g e m a o m e s m o t e m p o 
c r o n o l ó g i c a e e m r e d e 
A a v e n t u r a começou e m 1 9 8 8 , q u a n d o a 
i d e i a d e u m t a l seminário p a r t i u d e u m g r u p o 
d e c a n d i d a t o s d e n o s s a S o c i e d a d e q u e e s t a -
v a m à p r o c u r a d e p s i c a n a l i s t a s f o r m a d o r e s 
q u e a c e i t a s s e m c o o r d e n a r u m seminário d e 
l e i t u r a cronológica d a o b r a d e F r e u d . E s s e 
d e s a f i o m e a n i m o u : j u l g u e i q u e e u m e s m o 
a p r e n d e r i a m u i t o c o o r d e n a n d o u m seminá-
r i o , p o i s e m b o r a l e s s e F r e u d a s s i d u a m e n t e até 
então, f a z i a i s s o d e m a n e i r a p o n t u a l e s e m 
o r d e m . M a s a f o r m a h a b i t u a l d e u m t a l s e m i -
nário, b a s e a d a n a comunicação i n f o r m a l d a s 
reflexões d e c a d a u m a p a r t i r d e u m a l e i t u r a 
i n d i v i d u a l , não m e atraía. T i v e então a i d e i a 
d e p r o p o r q u e c a d a p a r t i c i p a n t e contribuísse 
p a r a e s c l a r e c e r a o b r a e s t u d a d a d e d i f e r e n t e s 
p e r s p e c t i v a s - b i o g r a f i a , história d a s i d e i a s , 
d e s e n v o l v i m e n t o s pós-freudianos, e t c . I m a g i -
n a v a q u e e s s e método d e t r a b a l h o a j u d a r i a a 
c o m p l e t a r a l e i t u r a d a o b r a d e F r e u d graças a 
u m a d u p l a a b o r d a g e m : u m e s t u d o cronológi-
c o d e s e u s t e x t o s , não l i n e a r , e u m a a b o r d a -
g e m e m r e d e . E s s e p r o j e t o m e a g r a d o u e a c h e i 
q u e v a l i a a p e n a t o p a r o d e s a f i o , c o m a c o n d i -
ção d e q u e o s p a r t i c i p a n t e s i n t e r e s s a d o s e s t i -
v e s s e m d i s p o s t o s a a c e i t a r o método d e t r a b a -
l h o q u e e u l h e s p r o p u n h a . 
A i m p o r t â n c i a d o e s q u e m a d o s e m i n á r i o 
A o s p o u c o s f u i m e d a n d o c o n t a d a i m p o r -
tância d o e s q u e m a e m q u e s e d e s e n v o l v e u m 
seminário d e l e i t u r a cronológica, d e p o i s q u e 
p e r c e b i q u e p a r t e d o êxito d o seminário d e p e n -
d e d i s s o . P o r e x e m p l o , c o n s i d e r o e s s e n c i a l q u e , 
L e r F r e u d 13 
d e s d e a p r i m e i r a sessão d o seminário, o s p a r t i -
c i p a n t e s s e j a m i n f o r m a d o s d o p r o g r a m a d o s 
próximos três a n o s p a r a q u e t e n h a m u m a i d e i a 
d a f o r m a e d a duração d o t r a b a l h o q u e o s a g u a r -
d a . D i v i d i a s p r i n c i p a i s o b r a s d e F r e u d e m três 
períodos p a r a s e r e m l i d a s a o l o n g o d e três a n o s , 
e r e t o m e i e s s e p l a n o d e t r a b a l h o e m Ler Freud. O 
seminário r e a l i z a - s e a c a d a 1 5 d i a s , o q u e 
c o r r e s p o n d e a c e r c a d e 1 5 sessões p o r a n o , e c a d a 
sessão d u r a u m a h o r a e m e i a . O número d e p a r -
t i c i p a n t e s g e r a l m e n t e é d e 1 6 a 1 8 , e o seminário 
f u n c i o n a e m g r u p o f e c h a d o , i s t o é, não a c e i t a -
m o s m a i s ninguém d e p o i s d e i n i c i a d o o p r o c e s -
s o . A sessão d e apresentação d o p r o g r a m a p e r -
m i t e q u e o s p a r t i c i p a n t e s s e e n g a j e m c o m c o -
n h e c i m e n t o d e c a u s a e q u e a v a l i e m s e estão d i s -
p o s t o s a d e d i c a r o esforço necessário p a r a a t i n g i r 
u m o b j e t i v o i m p o r t a n t e e a s e n t i r p r a z e r n i s s o . 
P a r t i c i p a ç ã o a t iva p e c a d a u m 
É i g u a l m e n t e e s s e n c i a l q u e c a d a p a r t i c i -
p a n t e s i n t a q u e e s s e seminário l h e p e r t e n c e , 
q u e não é u m c u r s o ex cathedra e q u e m e u p a -
p e l s e l i m i t e a acompanhá-los e m s e u p e r c u r -
s o p o r e s s e período l i m i t a d o d e três a n o s . E s s a 
participação i m p l i c a , a o m e s m o t e m p o , u m 
t r a b a l h o i n d i v i d u a l e u m a coletivização. A o 
l o n g o d o p r o c e s s o , p e r c e b i q u e q u a n t o m a i s 
s e p e d e u m a participação a t i v a p a r a a c o n s -
trução d o seminário, m a i s o s p a r t i c i p a n t e s o 
v a l o r i z a m e t i r a m p r o v e i t o d e l e . I s s o s e t r a -
d u z n a s p o u c a s ausências e , n o c a s o d e i m p e -
d i m e n t o , n o f a t o d e a p e s s o a t e r a p r e o c u p a -
ção d e m e i n f o r m a r d e s u a ausência e d e c u i -
d a r e l a própria d e a r r a n j a r u m s u b s t i t u t o p a r a 
o t r a b a l h o q u e d e v e r i a a p r e s e n t a r . 
O t r a b a l h o p e s s o a l i m p l i c a a s s e g u i n t e s 
a t i v i d a d e s : 
- A leitura da obra escolhida: e s p e r a - s e q u e 
c a d a u m t e n h a l i d o p o r c o n t a própria, 
a n t e s d e u m a sessão, a o b r a q u e está n o 
p r o g r a m a e q u e c o l o q u e s u a s i n d a g a -
ções d u r a n t e a discussão. 
- A livre escolha da tradução: c a d a u m é l i -
v r e p a r a e s c o l h e r o t e x t o n a língua q u e 
d e s e j a r e n a tradução q u e p r e f e r i r . A l -
g u n s lêem o t e x t o o r i g i n a l e m alemão, 
u m a g r a n d e p a r t e d o s p a r t i c i p a n t e s u t i -
l i z a u m a d a s traduções c o r r e n t e s e m lín-
g u a f r a n c e s a , e o u t r o s lêem a i n d a e m i n -
glês, e m i t a l i a n o o u e m e s p a n h o l . A d i -
v e r s i d a d e d e traduções dá u m a i d e i a d a 
c o m p l e x i d a d e d e questões q u e e n f r e n -
t a m o s t r a d u t o r e s d e F r e u d . 
- A redação de uma rubrica: c a d a p a r t i c i p a n -
t e r e d i g e n a s u a v e z u m t e x t o c u r t o , n o 
máximo d e u m a página ( c e r c a d e 3 0 0 p a -
l a v r a s ) , r e p o r t a n d o - s e a u m a d a s s e g u i n -
t e s r u b r i c a s : ( 1 ) "Biografia e história": b r e -
v e apresentação d a v i d a d e F r e u d e m r e -
lação à o b r a e s t u d a d a , s i t u a n d o - a n o 
c o n t e x t o histórico. ( 2 ) "Cronologia dos 
conceitos freudianos": d e s t a c a r n a o b r a e s -
t u d a d a o s c o n c e i t o s i n t r o d u z i d o s p o r 
F r e u d à m e d i d a q u e a p a r e c e m , d e m a -
n e i r a a f a z e r s o b r e s s a i r u m a história d a s 
i d e i a s . ( 3 ) "Pós-freudianos": seleção d a s 
p r i n c i p a i s contribuições pós-freudianas 
n a o b r a e s t u d a d a , e m u m a p e r s p e c t i v a 
a o m e s m o t e m p o histórica e i n t e r n a c i o -
n a l . ( 4 ) "Minutas do seminário": redação 
d o r e s u m o d adiscussão q u e será d i s t r i -
buído n a sessão s e g u i n t e . 
A exposição d o t r a b a l h o p e s s o a l é f e i t a 
d u r a n t e a sessão d o seminário. E s t a g e r a l m e n -
t e começa c o m informações b r e v e s e c o m a d i s -
tribuição d o s t e x t o s d a s d i v e r s a s r u b r i c a s . E m 
p r i m e i r o l u g a r , o p a r t i c i p a n t e lê e m v o z a l t a a 
r u b r i c a c o n s a g r a d a à b i o g r a f i a d e F r e u d , a p r e -
sentação q u e é s e g u i d a d e u m a c u r t a d i s c u s -
são. E m s e g u i d a , d e p o i s q u e o u t r o p a r t i c i p a n t e 
lê p u b l i c a m e n t e a r u b r i c a d e d i c a d a a o s c o n -
c e i t o s f r e u d i a n o s , i n i c i a - s e u m a discussão g e -
r a l e a b e r t a . D u r a c e r c a d e 1 5 m i n u t o s e , e m 
g e r a l , é m u i t o a n i m a d a . S e a discussão d e m o -
r a a d e s l a n c h a r , v o u c h a m a n d o u m p o r u m 
p a r a q u e c o l o q u e u m a questão q u e e l e c o l o c o u 
a s i próprio a propósito d o t e x t o , a f i m d e 
r e a t i v a r a discussão g e r a l . N a última p a r t e d o 
seminário, u m t e r c e i r o p a r t i c i p a n t e lê e m v o z 
a l t a a r u b r i c a d e d i c a d a às contribuições d o s 
pós-freudianos, apresentação q u e é s e g u i d a d e 
n o v o s comentários e d e u m a r e t o m a d a d a d i s -
cussão g e r a l . E m o u t r o t e x t o , d e s c r e v i d e t a l h a -
d a m e n t e a s e t a p a s d e u m a sessão d o seminário 
c o n s a g r a d o a o t e x t o d e F r e u d " U m a criança é 
e s p a n c a d a " ( J . - M . Q u i n o d o z , 1 9 9 7 b ) . O t e m -
14 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
p o m u i t o c u r t o d e d i c a d o a c a d a sessão c o n s t i -
t u i , p a r a d o x a l m e n t e , u m f a t o r e s t i m u l a n t e , 
p o i s a s p e s s o a s p r e c i s a m p e n s a r a n t e s e e x p o r 
d e f o r m a c o n d e n s a d a a s reflexões q u e d e c i -
d a m c o m u n i c a r a o g r u p o . 
E x i g ê n c i a s e l e v a d a s : f a to r d i n â m i c o 
T e n h o consciência d e q u e não é p o u c o p e d i r 
a o s p a r t i c i p a n t e s q u e não a p e n a s l e i a m a m a i o r 
p a r t e d a s o b r a s d e F r e u d c a d a u m p o r s i , c o m o 
também e x p o n h a m s u a s reflexões e façam a s 
p e s q u i s a s necessárias p a r a a redação d e u m a d a s 
r u b r i c a s . A preparação d a s sessões r e q u e r u m a 
g r a n d e d i s p o n i b i l i d a d e , r e t i r a d a d o t e m p o r e -
s e r v a d o a u m a v i d a p r o f i s s i o n a l e m g e r a l já 
m u i t o c h e i a , a s s i m c o m o d a v i d a p r i v a d a e f a -
m i l i a r . E s s e esforço só é possível s e o s e n c o n t r o s 
são também u m m o m e n t o d e p r a z e r c o m p a r t i -
l h a d o . Além d i s s o , p a r a q u e s e conheçam m e -
l h o r f o r a d a s reuniões d e t r a b a l h o , p r o p o m o s 
u m e n c o n t r o t o d o f i n a l d e a n o e m u m " b u f e c a -
n a d e n s e " , u m a reunião f e s t i v a p a r a a q u a l são 
c o n v i d a d o s cônjuges e p a r c e i r o s . 
A s exigências i m p o s t a s p e l a participação 
a t i v a d e t o d o s r e v e l a r a m - s e u m f a t o r d e c i s i v o 
n a dinâmica q u e v a i i n s t a l a n d o - s e a o l o n g o 
d o s e n c o n t r o s . E s s e " p / u s " d e participação a 
serviço d a construção d o seminário c r i a u m 
c l i m a a f e t u o s o n o t e m p o d e l i m i t a d o q u e c o m -
p a r t i l h a m o s , s a b e n d o q u e v a m o s n o s s e p a r a r 
d a l i a três a n o s . E m última análise, o seminá-
r i o p r o p o r c i o n a m a i s q u e u m a u m e n t o d o s c o -
A G R A D E C I M E N T O S 
D e v o a g r a d e c e r e m p r i m e i r o l u g a r a o s 
p a r t i c i p a n t e s d o " S e m i n á r i o d e L e i t u r a 
Cronológica d a O b r a d e F r e u d " . S u a p a r t i c i -
pação a t i v a d u r a n t e a s discussões e a s c o n t r i -
buições p e s s o a i s a c u m u l a d a s d e s d e 1 9 8 8 m e 
s e r v i r a m d e b a s e e m p a r t e p a r a r e d i g i r a r u -
b r i c a " B i o g r a f i a s e história" e a q u e l a d e d i c a d a 
a o s "Pós-freudianos". S e n t i - m e o b r i g a d o a 
m e n c i o n a r s e u s n o m e s e m a n e x o p a r a e x p r e s -
s a r - l h e s m e u r e c o n h e c i m e n t o . Agradeço i g u a l -
m e n t e a H a n n a S e g a l , André H a y n a l , A u g u s -
n h e c i m e n t o s , p o i s o t r a b a l h o c o l e t i v o p e r m i t e 
q u e c a d a p a r t i c i p a n t e a p r e n d a a s e o u v i r e a 
o u v i r o q u e o o u t r o t e n t a e x p r e s s a r e q u e e v o -
l u a n o c o n t a t o c o m t o d o s . E u m a m a n e i r a d e 
e s t a r m a i s à e s c u t a d e F r e u d e d e p o d e r a v a l i a r 
a d i v e r s i d a d e d e p o n t o s d e v i s t a . 
T i v e a demonstração d o p a p e l e s t i m u l a n t e 
q u e d e s e m p e n h a m a s exigências r e l a t i v a m e n t e 
e l e v a d a s e m f a v o r d o b o m f u n c i o n a m e n t o d o 
g r u p o q u a n d o r e n u n c i e i a impô-las p o r ocasião 
d o s e g u n d o c i c l o d e três a n o s . N a p r i m e i r a s e s -
são d e s s e s e g u n d o c i c l o d e seminário, u m p a r t i c i -
p a n t e opôs-se à f o r m a d e t r a b a l h o q u e e u p r o p u -
n h a , c r i t i c o u - a v e e m e n t e m e n t e e s e r e c u s o u a 
e n t r a r e m u m a t a l " m a r a t o n a " , c o n f o r m e s e u s 
t e r m o s . E u a i n d a não e s t a v a c o n v e n c i d o d a 
pertinência d a s exigências d o seminário e s u b -
m e t i a questão a o v o t o . A oposição d e a p e n a s 
u m c o n s e g u i u a adesão d e o u t r o s , e a c a b e i a c e i -
t a n d o , a c o n t r a g o s t o , q u e o s p a r t i c i p a n t e s d e i x a s -
s e m d e r e a l i z a r u m t r a b a l h o p e s s o a l d e e l a b o r a -
ção d e r u b r i c a s ; o único t e x t o e s c r i t o q u e c o n s e -
g u i o b t e r f o r a m a s " m i n u t a s d o seminário". 
C o n t u d o , m a n t i v e o seminário. D u r a n t e e s s e s 
três a n o s , a discussão g e r a l f o i a m a i s p r e j u d i c a -
d a , p o i s g e r a l m e n t e d e m o r a v a a s e i n s t a l a r : 
m e s m o q u e t o d o s t i v e s s e m l i d o a t e n t a m e n t e o s 
t e x t o s d e F r e u d , e u s e n t i a q u e p a r a c r i a r u m e s -
pírito d e g r u p o f a l t a v a a e s t r u t u r a d e p e n s a m e n -
t o q u e v a i c o n s t r u i n d o - s e p o u c o a p o u c o a o l o n -
g o d o t e m p o , graças p r i n c i p a l m e n t e a o esforço 
p e s s o a l q u e r e q u e r a redação d e u m a r u b r i c a e 
s u a exposição. S e v o l t a s s e atrás h o j e , e u não c e -
d e r i a c o m o n a época, p o r f a l t a d e experiência. 
t i n J e a n n e a u , C h r i s t o p h H e r i n g , J u a n M a n z a -
n o e P a c o P a l a c i o , q u e s e d e r a m a o t r a b a l h o 
d e c o m e n t a r m e u m a n u s c r i t o , a s s i m c o m o a 
M a u d S t r u c h e n q u e p r e p a r o u a b i b l i o g r a f i a . 
E n f i m , last but not least, d e d i c o Ler Freud a 
D a n i e l l e , q u e f o i q u e m p r i m e i r o m e e n c o r a -
j o u a m e lançar n e s s a a v e n t u r a . 
P a r a c o n c l u i r , d e s e j o u m a b o a j o r n a d a a o 
l e i t o r , l e m b r a n d o q u e l e r u m g u i a j a m a i s s u b s -
t i t u i a v i a g e m ! 
Jean-Michel Quinodoz 
L e r F r e u d 21 
0 Continuação 
Freud e s t u d a c o m p r e c u r s o r e s : C h a r c o t e B e r n h e i m 
Para aprender mais, decidiu fazer um estágio com Charcot em Paris, entre 1885 e 1886, e depois com Bernheimem Nancy, em 1889. Durante alguns meses, seguiu os ensinamentos de Charcot, que se ilustrara tentando 
resolver o problema que à histeria colocava para a medicina. Abandonando as teses da Antiguidade e da Idade 
Média que atribuíam à histeria a uma excitação de origem uterina ou à estimulação, Charcot conferiu a essa 
afecção o estatuto de uma entidade nosológica bem delimitada e fez dela um objeto de estudos e pesquisas. 
Classificou a histeria entre as doenças nervosas funcionais ou neuroses para distingui-las das afecções psiquiátri-
cas de origem orgânica. Estabeleceu essa distinção observando que a distribuição das paralisias histéricas era 
aleatória e diferente da distribuição radicular observada nas paralisias neurológicas. Charcot procurava demonstrar 
que os distúrbios histéricos eram de natureza psíquica, e não orgânica, empregando a sugestão hipnótica para 
reproduzir os sintomas histéricos e fazê-los desaparecer. Ele lançou a hipótese de uma "lesão dinâmica" cere-
bral de origem traumática, que poderia ser a causa da histeria tento em mulheres como em homens. 
Mas Charcot empregava a sugestão hipnót ica mais para fins de demonst ração do que de t ratamento. 
Ass im, em 1889, Freud decid iu aperfeiçoar sua própr ia técnica junto a Bernheim em Nancy. Este úl t imo 
havia demonst rado que a h ipnose era uma sugestão que passava antes de tudo pela palavra, e não pelo 
magne t i smo do olhar, o que fez dessa abordagem uma verdadeira técnica psicoterapêut ica que Freud 
passou a aplicar desde que retornou a Viena. 
Estudos sobre a histeria: qu inze a n o s d e g e s t a ç ã o 
Freud levou muitos anos para convencer Breuer a reunir em uma obra c o m u m as observações clínicas que 
t inham feito desde 1881, assim c o m o suas respectivas hipóteses. Começaram a publicar conc lusões pro-
visórias sobre os resultados do método catárt ico em "Comunicação prel iminar" (1893), que foi reproduz ida 
em 1895 em Estudos sobre a histeria, const i tu indo seu primeiro capítulo. 
A pub l icação de Estudos sobre a histeria marca, porém, o f im co laboração dos dois autores, e a partir de 
1896 Freud prosseguiu sozinho suas pesquisas, decepc ionado c o m a falta de ambição de Breuer. Uma das 
causas do afastamento de ambos foi o fato de que Breuer não estava convenc ido da importância dos 
fatores sexuais na or igem da histeria, que Freud enfatizava cada vez mais. Mas Breuer cont inuou acompa-
nhando de longe o desenvolv imento das ideias de Freud. Este só f icou sabendo disso, para sua surpresa, 
por ocas ião da morte de Breuer em 1925, quando seu fi lho Robert Breuer, em resposta à carta de condo -
lências de Freud, falou-lhe do interesse permanente do pai por seus trabalhos (Hirschmúller, 1978). 
D E S C O B E R T A DA O B R A 
A s páginas i n d i c a d a s r e m e t e m a o t e x t o p u b l i c a d o e m S . F r e u d e J . B r e u e r ( 1 8 9 5 d ) , Études 
sur Vhystérie, t r a d . A . B e r m a n , P a r i s , P U F , 1 9 5 6 . 
O M E C A N I S M O PSÍQUICO 
DOS FENÓMENOS HISTÉRICOS 
por J. Breuer e S. Freud 
O capítulo introdutório r e t o m a o t e x t o d e 
"Comunicação p r e l i m i n a r " , já p u b l i c a d a e m 
1 8 9 3 , n a q u a l o s a u t o r e s d e s c r e v e r a m a s e t a p a s 
s u c e s s i v a s d e s u a s c o n d u t a s clínicas e q u e f a z 
p a r t e d e s u a s p r i m e i r a s hipóteses. E m g e r a l , 
d e c l a r a m e l e s , é u m a observação f o r t u i t a q u e 
p e r m i t e d e s c o b r i r a c a u s a o u , m a i s p r e c i s a m e n -
t e , o i n c i d e n t e q u e p r o v o c o u p e l a p r i m e i r a v e z 
o s i n t o m a histérico e m u m p a s s a d o longínquo. 
E s s a c a u s a e s c a p a a o s i m p l e s e x a m e clínico e o 
próprio d o e n t e já não s e r e c o r d a d e s s e a c o n t e -
c i m e n t o . A a j u d a d a h i p n o s e c o s t u m a s e r n e -
cessária p a r a d e s p e r t a r n o p a c i e n t e a s l e m b r a n -
ças d a época e m q u e o s i n t o m a f e z s u a p r i m e i -
r a s aparição: " E só depois disso que se consegue 
estabelecer da forma mais nítida e mais convincente 
a relação em questão" ( p . 1 ) . N a m a i o r i a d a s v e -
z e s , a c o n t e c i m e n t o s o c o r r i d o s n a infância é q u e 
p r o v o c a r a m p o s t e r i o r m e n t e manifestações p a -
tológicas m a i s o u m e n o s g r a v e s . 
E s s a s observações m o s t r a m q u e e x i s t e u m a 
a n a l o g i a e n t r e a h i s t e r i a e a n e u r o s e traumática, 
22 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
d o p o n t o d e v i s t a d a p a t o g e n i a , e p o r i s s o p o d e -
s e c o n s i d e r a r q u e o s s i n t o m a s histéricos s e d e -
v e m a u m traumatismo psíquico. E m s e g u i d a , o 
t r a u m a t i s m o psíquico e s u a lembrança "agem 
como um corpo estranho que, muito tempo após sua 
irrupção, continua desempenhando um papel ativo" 
( p . 4 ) . S e g u n d o o s a u t o r e s , o d e s a p a r e c i m e n t o 
d o s s i n t o m a s q u e s e s e g u e à evocação d a l e m -
brança traumática v e m c o n f i r m a r e s s a hipótese. 
P a s s o a p a l a v r a a F r e u d e B r e u e r p a r a a descrição 
d e s e u n o v o método terapêutico: "Para nossa gran-
de surpresa, descobrimos que, de fato, todos os sinto-
mas histéricos desapareciam imediatamente e sem re-
torno quando se conseguia trazer à luz do dia a lem-
brança do incidente desencadeante e despertar o afeto 
ligado a ele e, depois disso, o doente descrevia o que lhe 
tinha acontecido deforma bastante detalhada e dando 
uma expressão verbal à sua emoção" ( p . 4 ) . M a s , 
c o m o a d v e r t e m e l e s , e r a indispensável q u e o p a -
c i e n t e r e v i v e s s e a emoção o r i g i n a l p a r a q u e a e v o -
cação d a lembrança t i v e s s e u m e f e i t o terapêutico: 
"Uma lembrança livre de toda carga afetiva é quase 
sempre totalmente ineficaz" ( p . 4 ) . E s s a s o b s e r v a -
ções r e i t e r a d a s c o n d u z e m F r e u d e B r e u e r à a f i r -
mação q u e h o j e s e t o r n o u célebre: " O histérico sofre 
sobretudo de reminiscências" ( p . 5 ) . 
A l i n g u a g e m d e s e m p e n h a u m p a p e l d e t e r -
m i n a n t e n o e f e i t o "catártico", p r o s s e g u e m o s a u -
t o r e s , p o i s a obliteração d e u m a lembrança 
patogênica i m p l i c a u m a reação d e d e s c a r g a 
e m o c i o n a l , s e j a d e lágrimas o u u m a t o d e v i n -
gança: "Mas o ser humano encontra na linguagem 
o equivalente do ato, equivalente graças ao qual o 
afeto pode ser verdadeiramente "ab-reagido" mais 
ou menos da mesma maneira. Em outros casos, são 
as próprias palavras que constituem o reflexo ade-
quado, por exemplo, as queixas, a revelação de um 
segredo opressivo (confissão). Quando não ocorre 
esse tipo de reação pelo ato, pela palavra e, nos casos 
mais leves, pelas lágrimas, a lembrança do aconteci-
mento preserva todo seu valor afetivo" ( p . 6 ) . 
Além d i s s o , F r e u d e B r e u e r a s s i n a l a m q u e 
a memória d o d o e n t e não p r e s e r v a n e n h u m 
traço d o s i n c i d e n t e s o r i g i n a i s , e q u e s e t r a t a 
q u a s e s e m p r e d e lembranças p e n o s a s q u e e l e 
"guardava, repelia, reprimia, fora de seu pensa-
mento consciente" ( p . 7 ) . O s a u t o r e s a t r i b u e m 
o s fenómenos histéricos a u m a "dissociação do 
consciente", i s t o é, a u m a "dupla consciência" 
l i g a d a à presença d e u m "estado hipnóide" q u e 
c o n s t i t u i r i a o fenómeno f u n d a m e n t a l d a h i s -
t e r i a . E m r e s u m o , o s s i n t o m a s histéricos s e -
r i a m o r e s u l t a d o d e u m t r a u m a t i s m o g r a v e -
análogo a o d e u m a n e u r o s e traumática - q u e 
p r o d u z i r i a u m a repressão p e n o s a - n a q u a l o 
e f e i t o s e x u a l t i n h a um p a p e l - , c u j o e f e i t o s e -
r i a u m a "dissociação" d e g r u p o s d e r e p r e s e n -
tações patogênicas. C o m o a g e o p r o c e d i m e n -
t o terapêutico?, p e r g u n t a m - s e F r e u d e B r e u e r 
p a r a c o n c l u i r . "Ele suprime efeitos da represen-
tação que não tinha sido primitivamente ab-
reagida, permitindo ao afeto inibido extravasar-se 
verbalmente; leva a que essa representação se mo-
difique por via associativa trazendo-a para o cons-
ciente normal (sob hipnose leve) ou suprimindo-a 
por sugestão médica, do mesmo modo que, no so-
nambulismo, suprime-se a amnésia" ( p . 1 3 ) . 
"HISTÓRIAS DE DOENTES" : C INCO ÊXITOS 
DO MÉTODO CATÁRTICO 
O s a u t o r e s a p r e s e n t a m e m s e g u i d a o r e l a t o 
d e c i n c o observações clínicas, d a s q u a i s s o m e n -
t e a p r i m e i r a é r e d i g i d a p o r B r e u e r , e n q u a n t o 
a s o u t r a s q u a t r o s e r e f e r e m a p a c i e n t e s t r a t a -
d o s p o r F r e u d . V a m o s recordá-las b r e v e m e n t e 
a q u i , e m l i n h a s m u i t o g e r a i s , p a r a d e s t a c a r a s 
e t a p a s s u c e s s i v a s p e r c o r r i d a s p o r B r e u e r e 
F r e u d e m s u a s r e s p e c t i v a s p e s q u i s a s . 
"S r ta . A n n a O. " (J . B r e u e r ) : O p r i m e i r o c a s o 
Q u a n d o J . B r e u e r v i u p e l a p r i m e i r a v e z 
" A n n a O . " - c u j o v e r d a d e i r o n o m e e r a B e r t h a 
P a p p e n h e i m - , a j o v e m p a c i e n t e t i n h a 2 1 a n o s 
e s o f r i a d e u m a t o s s e n e r v o s a e d e vários o u t r o s 
s i n t o m a s histéricos: variações d o h u m o r , d i s -
túrbios d a visão, p a r a l i s i a d o l a d o d i r e i t o , " a u -
sências" p o v o a d a s d e alucinações, distúrbios d a 
l i n g u a g e m , e t c . N o d e c o r r e r d e s e u s f r e q u e n t e s 
e l o n g o s e n c o n t r o s c o m e l a , B r e u e r p e r c e b e u q u e 
c e r t o s s i n t o m a s d e s a p a r e c i a m q u a n d o a j o v e m 
l h e r e l a t a v a e m d e t a l h e a lembrança l i g a d a a o 
m o m e n t o d e s u a p r i m e i r a aparição, a o m e s m o 
t e m p o e m q u e r e v i v i a i n t e n s a m e n t e a emoção 
q u e t i n h a s e n t i d o n a época. D e p o i s d e f a z e r e s -
s a s observações p o r a c a s o , B r e u e r r e p e t i u a e x -
periência d e f o r m a m a i s sistemática c o m o u t r o s 
L e r F r e u d 2 3 
s i n t o m a s e c o n s t a t o u q u e , a o i n t e r r o g a r A n n a 
O . s o b r e a s circunstâncias d e s u a p r i m e i r a 
aparição, e l e s s e m p r e d e s a p a r e c i a m s i m u l t a n e a -
m e n t e às r e s p o s t a s d a p a c i e n t e . E i s o q u e r e l a t a 
B r e u e r : "Cada sintoma desse quadro clínico com-
plicado foi tratado isoladamente; todos os incidentes 
motivadores vieram à tona na ordem inversa àquela 
em que se produziram, começando dos dias que pre-
cederam o adoecimento e remontando à causa da pri-
meira aparição dos sintomas. Uma vez revelada essa 
causa, os sintomas desapareciam para sempre" ( p . 
2 5 ) . Além d i s s o , B r e u e r o b s e r v o u q u e e s s e f e -
nómeno o c o r r i a q u a n d o a p a c i e n t e s e e n c o n -
t r a v a e m u m e s t a d o d e consciência diminuído, 
próximo d a a u t o - h i p n o s e , e s t a d o secundário 
q u e e l e c h a m o u d e "estado hipnóide". E m s e g u i -
d a , B r e u e r aperfeiçoou s u a técnica h i p n o t i z a n -
d o e l e m e s m o s u a p a c i e n t e , a o invés d e e s p e r a r 
q u e e l a e n t r a s s e e m a u t o - h i p n o s e , o q u e l h e 
p e r m i t i a g a n h a r t e m p o . A própria A n n a O . 
u s o u a expressão talking cure ( c u r a p e l a p a l a -
v r a ) p a r a q u a l i f i c a r e s s e p r o c e d i m e n t o d e r e c u -
peração e d e s i g n o u p e l o t e r m o chimney sweeping 
( l i m p e z a d e chaminé) a rememoração d o s a c o n -
t e c i m e n t o s l i g a d o s à aparição d o s s i n t o m a s q u e 
p e r m i t e a ab-reação. 
B r e u e r p r o s s e g u e c i t a n d o u m a l o n g a l i s t a 
d e s i n t o m a s e l i m i n a d o s graças a o q u e e l e c h a -
P Ó S - F R E U D I A N O S 
m a d e "catarse" ( o u ab-reação) ( p . 2 5 - 2 6 ) e c i t a 
vários e x e m p l o s . O êxito terapêutico m a i s i m -
p o r t a n t e é, s e m dúvida, o q u e s e r e f e r e à p a r a -
l i s i a d o braço d i r e i t o d e A n n a O . A p a c i e n t e 
e s t a v a s e n t a d a j u n t o a o s e u p a i g r a v e m e n t e 
d o e n t e , q u a n d o , d e súbito, t e v e u m a espécie 
d e alucinação e m q u e v i a u m a s e r p e n t e a p r o -
x i m a r - s e d e s e u p a i p a r a mordê-lo, a o m e s m o 
t e m p o e m q u e s e d a v a c o n t a d e q u e não c o n s e -
g u i a m a i s m e x e r s e u braço d i r e i t o , q u e e s t a v a 
i m o b i l i z a d o n o e n c o s t o d e s u a c a d e i r a . D e p o i s 
d e s s e p r i m e i r o episódio, a alucinação a n g u s -
t i a n t e s e r e p r o d u z i a c o n s t a n t e m e n t e , a c o m p a -
n h a d a d a p a r a l i s i a d o braço d i r e i t o e d a i m -
p o s s i b i l i d a d e d e s e e x p r e s s a r a não s e r e m i n -
glês. B r e u e r c o n t a q u e , n o f i n a l d o t r a t a m e n t o , 
A n n a O . l h e f e z u m r e l a t o c o m p l e t o d a s c o n d i -
ções e m q u e a alucinação d a s e r p e n t e s u r g i r a . 
Q u a n d o e l a c o n s e g u i u l e m b r a r q u e t i n h a s i d o 
n a n o i t e dramática e m q u e v e l a v a à c a b e c e i r a 
d e s e u p a i d o e n t e , a p a r a l i s i a d o l a d o d i r e i t o 
d e s a p a r e c e u e e l a r e c u p e r o u o u s o d a língua 
alemã: "Imediatamente após esse relato, ele se ex-
pressou em alemão e a partir dali se livrou dos 
incontáveis distúrbios que a afetavam antes. Em se-
guida viajou, mas ainda precisou de um bom tempo 
antes de recuperar inteiramente seu equilíbrio men-
tal. Desde então, gozou de plena saúde" ( p . 3 0 ) . 
wBÊÊÊÊÊÊBBSmBBSBÊÊBÊ 
C o m o A n n a O. c o m p l e t o u sua cu ra? 
Breuer concluiu seu relato com uma nota mais otimista, declarando que a paciente ainda precisou de um bom 
tempo antes de recuperar inteiramente seu equilíbrio mental, mas que, desde então, "gozou de plena saúde" (p. 
30), o que não é bem verdade, segundo pesquisas recentes. Freud, por sua vez, deu várias versões sobre o f im 
da análise de Anna O. Muito tempo depois, ele declarou que a cura fora interrompida porque Breuer não 
suportou a transferência amorosa de sua paciente e fugiu, conforme escreveu mais tarde: "Apavorado, como 
qualquer médico não-psicanalista teria ficado em um caso como esse, ele fugiu, abandonando sua paciente a 
um colega" [caria a Stefan Zweig de 2 de junho de 1932]. Em sua biografia de Freud, Jones (1953-1957) retoma 
uma dessas versões: no último dia do tratamento, segundo ele, Breuer teria sido chamado à cabeceira de Anna 
O. onde a encontrou em plena crise histérica, simulando o parto de uma criança que dizia ter t ido com ele. 
Breuer teria fugido e viajado no dia seguinte com sua esposa para Veneza, onde conceberiam uma filha. 
Pesquisas históricas posteriores estabeleceram que, na realidade, a versão amplamente difundida por Jones foi 
uma construção posterior por parte de Freud e que não corresponde aos fatos. Assim, Hirschmúller (1978) 
mostrou que Breuer cont inuou tratando de sua paciente depois de concluir a cura catártica. O que houve, de 
fato, foi que certas manifestações da doença de Anna O. persistiram; além disso, ela sofria de dores nevrálgicas 
do nervo tr igêmeo que foram tratadas à base de morfina, o que causou uma dependência. Em julho de 1882, ele 
Continua 0 
24 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
P Ó S - F R E U D IA N O S • Continuação 
encaminhou a paciente a Ludwig Binswanger, diretor do sanatório de Kreuzlingen, para que prosseguisse o 
tratamento, e de lá ela saiu curada em outubro do mesmo ano. Depois, Anna O. foi viver em Viena, onde ainda 
foi tratada algumas vezes, e mais tarde mudou-se para Frankfurt. Na Alemanha, teve uma vida muito ativa como 
escritora e dedicou-se a obras sociais. À luz desses novos dados, R. Britton (2003) lançou uma série de hipóte-
ses convincentes sobre a natureza do conflito histérico partindo do reexame desse primeiro caso. 
Alguns detratores da psicanál ise se apoiaram no fato de os pacientes descr i tos em Estudos sobre a histeria 
não terem se l ivrado comple tamente de seus s intomas para contestar sua val idade, acusando Freud e 
Breuer de mist i f icação e Anna O. de s imulação. É verdade que, em seu entusiasmo, Breuer e Freud florea-
ram um pouco o relato de seus casos clínicos, pois sua publ icação destinava-se e m parte a demonstrar 
que suas pesquisas eram anteriores às de Janet. Mas, para isso, não era preciso tapar o sol c o m a peneira, 
pois qualquer que tenha s ido o resultado relativo dessa cura, o t ratamento de Anna O. permanecerá nos 
anais c o m o o pr imeiro êxito do método chamado de catárt ico e que deu a Freud o pr imeiro impulso em 
direção à descober ta da psicanál ise. 
"S ra . E m m y v o n N. " ( F r e u d ) : F r e u d u t i l i za 
o m é t o d o c a t á r t i c o pe la p r i m e i r a v e z 
D o m e s m o m o d o q u e s e s i t u o u a d e s c o b e r -
t a d o método catártico n a c u r a d e A n n a O . p o r 
B r e u e r , s i t u o u - s e n a c u r a d e E m m y v o n N . p o r 
F r e u d o a b a n d o n o d a h i p n o s e e m f a v o r d o 
método d e associação l i v r e . E s s a m u l h e r d e 
4 1 a n o s - c u j o v e r d a d e i r o n o m e e r a F a n n y 
M o s e r - e r a viúva d e u m r i c o i n d u s t r i a l c o m 
q u e m t e v e d u a s f i l h a s e s o f r i a d e g r a v e s f o b i a s 
d e a n i m a i s . A o l o n g o d e s s a c u r a , q u e c o m e -
çou n o d i a I o d e m a i o d e 1 8 8 9 e l e v o u s e i s s e -
m a n a s , F r e u d f e z e n t r e v i s t a s c o m f i n a l i d a d e 
catártica, a c o m p a n h a d a s d e m a s s a g e n s e d e 
sessões d e h i p n o s e p a r a e s t i m u l a r a r e m e m o -
ração. M a s e l e p e r c e b e u , n a s e n t r e v i s t a s , q u e 
b a s t a v a q u e a p a c i e n t e f a l a s s e e s p o n t a n e a -
m e n t e p a r a t r a z e r à t o n a a s lembranças s i g n i -
f i c a t i v a s e p a r a q u e o e f e i t o catártico v i e s s e 
d o s i m p l e s f a t o d e e l a s e d e s c a r r e g a r e s p o n t a -
n e a m e n t e p o r m e i o d a p a l a v r a : "É como se ela 
tivesse se apropriado do meu procedimento", e s -
c r e v e F r e u d . "Ela parece utilizar essa conversa 
aparentemente interrompida como complemento da 
hipnose" ( p . 4 2 ) . A l g u n s d i a s d e p o i s , i r r i t a d a 
c o m a s p e r g u n t a s d e F r e u d , a p a c i e n t e l h e 
p e d i u q u e não a i n t e r r o g a s s e s e m p a r a r e "que 
a deixasse contar o que ela tinha a dizer" ( p . 4 8 ) . 
F r e u d c o n c o r d o u e a c a b o u c o n s t a t a n d o q u e 
c o n s e g u i a a rememoração d e s e j a d a m e s m o 
s e m a h i p n o s e q u e , n o e n t a n t o , c o n t i n u a v a a 
u t i l i z a r c o m e s s a p a c i e n t e . E l a própria i n s i s t i a 
c o m F r e u d p a r a q u e não a t o c a s s e q u a n d o às 
v e z e s e r a t o m a d a d e t e r r o r d i a n t e d e s u a s l e m -
branças: "Fique tranquilo!", d i z i a e l a . "Não fale 
nada!... não toque em mim!", e d e p o i s s e a c a l -
m a v a . F r e u d c o n c l u i u q u e , n o c a s o d e E m m y 
v o n N . , não s e t r a t a v a d e u m a h i s t e r i a d e c o n -
versão, m a s d e s i n t o m a s psíquicos histéricos 
c o m angústias, depressão e f o b i a s . Q u a n t o à 
o r i g e m d e s s a h i s t e r i a , F r e u d c o n s i d e r o u q u e 
a repressão d o e l e m e n t o s e x u a l t e v e u m p a -
p e l d e t e r m i n a n t e , p o i s e l a e r a "mais capaz do 
que outras causas de traumatismos" ( p . 8 0 ) . 
" M i s s Lucy R." (F reud) : F reud 
a b a n d o n a p r o g r e s s i v a m e n t e a 
h i p n o s e pe la s u g e s t ã o 
E m d e z e m b r o d e 1 8 9 2 , F r e u d t r a t o u p o r 
n o v e s e m a n a s d e u m a j o v e m g o v e r n a n t a i n -
g l e s a q u e s o f r i a d e u m a p e r d a d e o d o r e d e a l u -
cinações o l f a t i v a s e q u e e r a p e r s e g u i d a p o r c h e i -
r o d e q u e i m a d o e p o r distúrbios c o n s i d e r a d o s 
s i n t o m a s histéricos. D e p o i s d e t e r t e n t a d o e m 
vão u t i l i z a r a h i p n o s e c o m e l a , F r e u d d e s i s t i u e 
p a s s o u a a p l i c a r o c h a m a d o método d e "associa-
ção livre", a j u d a n d o às v e z e s c o m u m a l e v e p r e s -
são n a t e s t a d a p a c i e n t e c o m a mão q u a n d o a s 
lembranças d e m o r a v a m a s u r g i r : "e apoiava a 
mão na testa da paciente ou segurava sua cabeça 
com as duas mãos dizendo: 'Você se lembrará sob a 
L e r F r e u d 25 
pressão das minhas mãos. No momento em que a 
pressão parar, você verá alguma coisa à sua frente 
ou passará uma ideia por sua cabeça que é preciso 
captar, é ela que vamos perseguir. E então, você viu 
ou pensou?"' ( p . 8 6 ) . E s s e t r a t a m e n t o c o n f i r m o u 
a hipótese d e q u e a lembrança d e u m i n c i d e n t e 
e s q u e c i d o , m a s f i e l m e n t e c o n s e r v a d o n a m e -
mória, está n a o r i g e m d o e f e i t o patogênico d o s 
s i n t o m a s histéricos. T r a t a - s e d e u m c o n f l i t o 
psíquico, q u a s e s e m p r e d e n a t u r e z a s e x u a l , c u j o 
e f e i t o patogênico s e d e v e a q u e u m a i d e i a i n -
compatível é "reprimida do consciente e exclui a 
elaboração associativa" ( p . 9 1 ) . N e s s e c a s o , o s s i n -
t o m a s f o r a m e l i m i n a d o s n o m o m e n t o e m q u e 
F r e u d d e s c o b r i u q u e M i s s L u c y R . s e a p a i x o -
n a r a s e c r e t a m e n t e p o r s e u patrão e e m q u e e l a 
a d m i t i u t e r r e p r i m i d o e s s e a m o r p o r q u e não 
t i n h a esperança. 
" K a t h a r i n a " (F reud)a Re la to d e u m a 
b r e v e t e r a p i a ps i cana l í t i ca 
N e s s e r e l a t o , F r e u d f a z u m a demonstração 
c u r t a e b r i l h a n t e s o b r e o p a p e l d o s t r a u m a t i s m o s 
s e x u a i s n a o r i g e m d o s s i n t o m a s histéricos. E s s e 
t r a t a m e n t o d e s e n v o l v e - s e e m f o r m a d e u m a e n -
t r e v i s t a d e a l g u m a s h o r a s e n t r e F r e u d e e s s a 
moça d e 1 8 a n o s , a q u e m e l e c o n c e d e u u m a c o n -
s u l t a i m p r o v i s a d a d u r a n t e u m p a s s e i o e m s u a s 
férias n a m o n t a n h a , e m a g o s t o d e 1 8 9 3 . K a t h a r i -
n a e r a f i l h a d a d o n a d a e s t a l a g e m e , s a b e n d o 
q u e F r e u d e r a médico, p e r g u n t o u - l h e s e p o d e -
r i a ajudá-la a r e s o l v e r s i n t o m a s d e sufocação 
a c o m p a n h a d o s d a visão d e u m r o s t o a s s u s t a -
d o r . E m s e u s diálogos, r e p r o d u z i d o s f i e l m e n t e 
p o r F r e u d , K a t h a r i n a l e m b r o u q u e s e u s s i n t o -
m a s t i n h a m começado d o i s a n o s a n t e s , q u a n d o 
p r e s e n c i o u u m a relação s e x u a l e n t r e s e u " t i o " e 
s u a p r i m a F r a n z i s k a , o q u e a d e i x a r a p r o f u n d a -
m e n t e c h o c a d a . E s s a lembrança r e c o r d o u a 
K a t h a r i n a q u e e s s e " t i o " já t e n t a r a s e d u z i - l a vá-
r i a s v e z e s , q u a n d o e l a t i n h a 1 4 a n o s .F r e u d o b -
s e r v a q u e , após o r e l a t o d o s f a t o s , a moça s e s e n -
t e a l i v i a d a , p o i s , s e g u n d o s u a s p a l a v r a s , a h i s t e -
r i a f o i "em grande medida ab-reagida" ( p . 1 0 4 ) . 
F r e u d v i u n i s s o a confirmação d e s u a t e s e : "A 
angústia que Katharina sente nesse acesso é uma an-
gústia histérica, isto é, a repetição da angústia que 
surge em cada traumatismo sexual" ( p . 1 0 6 ) . E m 
u m a n o t a a c r e s c e n t a d a e m 1 9 2 4 , F r e u d r e v e l a 
q u e não s e t r a t a v a d o "tio" d a m e n i n a , m a s d e 
s e u próprio p a i ( p . 1 0 6 , n . 1 ) . 
"S r ta . E l i s a b e t h v o n R." (F reud ) : P r i m e i r a 
a n á l i s e c o m p l e t a d e u m c a s o d e h i s te r i a 
O q u a r t o c a s o d e s c r i t o p o r F r e u d é o d e 
u m a moça d e o r i g e m húngara, d e 2 4 a n o s , 
E l i s a b e t h v o n R . - c u j o v e r d a d e i r o n o m e e r a 
I l o n a W e i s s - , q u e e l e t r a t o u d o o u t o n o d e 1 8 9 2 
a j u l h o d e 1 8 9 3 . A moça s o f r i a há d o i s a n o s d e 
d o r e s v i o l e n t a s n a s p e r n a s e d e distúrbios i n e x -
plicáveis d a m a r c h a , distúrbios q u e t i n h a m 
a p a r e c i d o p e l a p r i m e i r a v e z q u a n d o e l a c u i d a -
v a d e s e u p a i d o e n t e . P o u c o a n t e s d a m o r t e d e 
s e u p a i , s u a irmã f i c o u d o e n t e e também m o r -
r e u , e e s s a s d u a s p e r d a s t i v e r a m u m p a p e l 
d e t e r m i n a n t e n a c a u s a d a s i n t o m a t o l o g i a . O 
t r a t a m e n t o s e d e s e n v o l v e u e m três f a s e s , s e g u n -
d o F r e u d . A p r i m e i r a f a s e f o i d o m i n a d a p e l a 
i m p o s s i b i l i d a d e d e e s t a b e l e c e r c o m e s s a p a -
c i e n t e u m a relação e n t r e s e u s s i n t o m a s e a c a u -
s a d e s e n c a d e a n t e . E l a s e m o s t r o u refratária à 
h i p n o s e e F r e u d s e c o n t e n t o u e m mantê-la d e i -
t a d a , c o m o s o l h o s f e c h a d o s , m a s c o m o s m o v i -
m e n t o s l i v r e s . A d e s p e i t o d a s t e n t a t i v a s d e 
F r e u d , não s e p r o d u z i a o e f e i t o terapêutico e s -
p e r a d o . Então e l e r e c o r r e u a o p r o c e d i m e n t o p o r 
pressão d a mão s o b r e a cabeça, p e d i n d o - l h e q u e 
f a l a s s e o q u e l h e v i e s s e à m e n t e . O p r i m e i r o 
p e n s a m e n t o d e E l i s a b e t h v o n R . f o i a lembrança 
d e u m r a p a z p o r q u e m s e a p a i x o n o u q u a n d o 
s e u p a i e s t a v a d o e n t e . D e v i d o à g r a v i d a d e d o 
e s t a d o d e s e u p a i , e l a r e n u n c i a r a d e f i n i t i v a m e n -
t e a e s s e a m o r . E l a s e l e m b r o u também q u e n o 
m o m e n t o e m q u e a p a r e c e u o c o n f l i t o i n t e r n o , 
s u r g i u a d o r n a s p e r n a s - m e c a n i s m o c a r a c t e -
rístico d a conversão histérica, s e g u n d o F r e u d . 
O d e s p e r t a r d e s s e f r a c a s s o a m o r o s o l e v o u a q u e 
a própria p a c i e n t e d e s c o b r i s s e o m o t i v o d e s u a 
p r i m e i r a conversão: "A doente surpreendeu-me 
primeiro ao dizer que agora sabia por que razão as 
dores partiam sempre de um determinado ponto da 
coxa direita e eram sempre mais violentas ali. Era 
justamente o lugar onde todas as manhãs seu pai 
repousava sua perna muito inchada quando ela tro-
26 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
cava o curativo" ( p . 1 1 7 ) . Após e s s e período d e 
"ab-reação", o e s t a d o d a p a c i e n t e m e l h o r o u . 
F r e u d g a n h o u confiança e m s e u p r o c e d i m e n t o 
d e pressão s o b r e a cabeça p a r a p r o v o c a r o a p a -
r e c i m e n t o d e i m a g e n s e d e i d e i a s , e não h e s i t a -
v a m a i s e m i n s i s t i r c o m a p a c i e n t e q u a n d o e l a 
a f i r m a v a não t e r p e n s a d o e m n a d a , s o b o e f e i -
t o d a s resistências: "Durante esse trabalho peno-
so, aprendi a atribuir uma grande importância à re-
sistência que a doente mostrava ao evocar suas lem-
branças (...)" ( p . 1 2 2 ) . 
A p e n a s n a t e r c e i r a f a s e d e s s a c u r a f o i 
possível c h e g a r à eliminação c o m p l e t a d o s s i n -
t o m a s . F o i e m decorrência d e u m episódio f o r -
t u i t o q u e F r e u d c o n s e g u i u d e s c o b r i r o "segre-
do" q u e e s t a v a n a o r i g e m d a s d o r e s : d u r a n t e 
u m a sessão, a p a c i e n t e p e d i u a F r e u d p a r a s a i r 
p o r q u e t i n h a o u v i d o s e u c u n h a d o c h a m a n d o - a 
d o l a d o d e f o r a . A o v o l t a r , após e s s a i n t e r r u p -
ção, s e n t i u n o v a m e n t e d o r e s v i o l e n t a s n a s p e r -
n a s , e F r e u d d e c i d i u i r até o f i m d e s s e e n i g m a . 
A c h e g a d a d o c u n h a d o f e z c o m q u e a p a c i e n t e 
l e m b r a s s e q u e s u a s d o r e s r e m o n t a v a m à m o r t e 
d e s u a irmã, e q u e u m p e n s a m e n t o inconfessá-
v e l l h e a t r a v e s s a r a o espírito a o e n t r a r n o q u a r -
t o o n d e j a z i a a m o r t a : a i d e i a d e q u e a m o r t e d e 
s u a irmã d e i x a v a s e u c u n h a d o l i v r e , e q u e a g o -
r a p o d e r i a c a s a c o m e l e ! M a s o a m o r p o r s e u 
c u n h a d o s e c h o c a v a c o m s u a consciência m o -
r a l , e p o r i s s o e l a t i n h a "reprimido" f o r a d e s u a 
consciência e s s a i d e i a intolerável. E a s s i m s e p r o -
d u z i u o m e c a n i s m o d e conversão: "ela tinha pro-
duzido dores por uma conversão bem-sucedida do 
psíquico em somático" ( p . 1 2 4 ) . O e f e i t o d e s s a t o -
m a d a d e consciência t e v e c o m o r e s u l t a d o a c u r a 
d e f i n i t i v a , o q u e F r e u d pôde c o n f i r m a r u m a n o 
d e p o i s a o vê-la dançando e m u m b a i l e . O êxito 
d e s s e t r a t a m e n t o não i m p e d i u q u e e l a f o s s e t e r -
r i v e l m e n t e a g r e s s i v a c o m F r e u d p o r t e r r e v e l a -
d o s e u s e g r e d o . 
CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS (BREUER) 
E m u m capítulo teórico, B r e u e r d e s e n v o l v e 
a l g u m a s hipóteses esboçadas n a " C o m u n i c a -
ção p r e l i m i n a r " . S u a contribuição r e f e r e - s e 
e s s e n c i a l m e n t e a o " e s t a d o hipnóide" e à d i s s o -
ciação d o p s i q u i s m o c o m o r e s u l t a d o d a p r e -
sença d e representações i n c o n s c i e n t e s q u e não 
p o d e m s e t o r n a r c o n s c i e n t e s e q u e p o r i s s o a d -
q u i r e m u m caráter patogênico. E l e a s s i n a l a q u e 
o s distúrbios histéricos sobrevêm e m p e r s o n a -
l i d a d e s q u e a p r e s e n t a m u m a e x c i t a b i l i d a d e 
p a r t i c u l a r e u m a tendência à a u t o - h i p n o s e -
q u e e l e c h a m a d e "hipnoidia" -, o q u e f a c i l i t a a 
sugestão. E l e m o s t r a também q u e e s s e s p a c i -
e n t e s têm u m a predisposição a r e j e i t a r o q u e é 
s e x u a l , p a r t i c u l a r m e n t e n o c a s o d e conversão 
histérica: "a maior parte das representações assim 
repelidas e convertidas têm um conteúdo sexual" 
( p . 1 9 9 ) . M a s , e n q u a n t o B r e u e r s e c o n t e n t a v a 
e m a p l i c a r o método catártico q u e h a v i a d e s -
c o b e r t o s e m t e n t a r melhorá-lo, F r e u d d e s c r e v e 
n o último capítulo a m a n e i r a c o m o o d e s e n -
v o l v e u , o q u e c o n f e r e a o capítulo d e B r e u e r u m 
i n t e r e s s e m a i s histórico d o q u e teórico. 
A PSICOTERAPIA DA HISTERIA (FREUD) 
Da h i p n o s e à a s s o c i a ç ã o l i v re 
A p a r t i r d e s u a experiência clínica, F r e u d 
m o s t r a q u e f o i l e v a d o a m o d i f i c a r p ou c o a 
p o u c o a técnica catártica p a r a c h e g a r a u m a 
a b o r d a g e m terapêutica o r i g i n a l , d i f e r e n t e d a 
d e B r e u e r , e e x a m i n a a s v a n t a g e n s e o s i n c o n -
v e n i e n t e s d e s t a . A s s i m , n a l e i t u r a d e s s e capí-
t u l o f u n d a m e n t a l , v e m o s esboçar-se s o b a 
p e n a d e F r e u d o s c o n t o r n o s c a d a v e z m a i s 
p r e c i s o s d o q u e será o método psicanalítico, 
c o m s e u s princípios c o n s t i t u t i v o s já d e l i n e a -
d o s : n e s s e t e x t o d e 1 8 9 5 e n c o n t r a m - s e a s n o -
v a s noções d e i n c o n s c i e n t e , resistências, d e f e -
s a s , transferências e m u i t a s o u t r a s . 
F r e u d começa p o r r e c o r d a r q u e f o r a m a s 
d i f i c u l d a d e s e o s l i m i t e s e n c o n t r a d o s n a a p l i -
cação d o método catártico q u e o i n c i t a r a m a 
b u s c a r m e i o s m a i s e f i c a z e s p a r a t r a z e r à t o n a 
a s lembranças patogênicas e a e x p l o r a r n o v a s 
técnicas q u e l o g o substituirão a a n t e r i o r . D e 
f a t o , t a l c o m o e r a a p l i c a d o , o t r a t a m e n t o 
catártico l e v a v a m u i t o t e m p o e e x i g i a t o t a l 
confiança n o médico p o r p a r t e d o p a c i e n t e 
p a r a q u e a h i p n o s e t i v e s s e êxito. Porém, n e m 
t o d o s o s p a c i e n t e s t i n h a m o m e s m o g r a u d e 
confiança. A o invés d e d e s a n i m a r , F r e u d s u -
p e r o u e s s e obstáculo e n c o n t r a n d o u m m e i o d e 
p e r m i t i r a o p a c i e n t e r e c u p e r a r s u a s l e m b r a n -
ças patogênicas s e m a h i p n o s e . E s s a f o i u m a 
d e s u a s t i r a d a s g e n i a i s . E l a n o t a r a q u e , d e i -
t a n d o o p a c i e n t e e l h e p e d i n d o q u e f e c h a s s e 
o s o l h o s e s e c o n c e n t r a s s e , e i n s i s t i n d o r e p e t i -
d a m e n t e , c o n s e g u i a q u e s u r g i s s e m n o v a s l e m -
branças. M a s , d a d o q u e e s s e p r o c e d i m e n t o 
a i n d a e x i g i a m u i t o s esforços e o s r e s u l t a d o s 
d e m o r a v a m a a p a r e c e r , F r e u d p e n s o u q u e i s s o 
t a l v e z f o s s e s i n a l d e u m a "resistência" v i n d a 
d o p a c i e n t e . C a b i a a o médico s u p e r a r e s s e s 
n o v o s obstáculos q u e t r a v a v a m a emergência 
d e s s a s representações. 
F o i a s s i m q u e F r e u d d e s c o b r i u o p a p e l d e -
s e m p e n h a d o p e l a s resistências e defesas, m e -
c a n i s m o s psíquicos q u e i m p e d i a m q u e a s r e -
presentações patogênicas c h e g a s s e m a o "ego" 
( p . 2 1 7 ) . P a r e c i a - l h e q u e s e u o b j e t i v o e r a "re-
jeitar para fora do consciente e da lembrança" a s 
i d e i a s inconciliáveis, s o b a ação d e u m a força 
q u e c h a m o u d e censura: "Tratava-se, portanto, 
de uma força psíquica, de uma aversão do ego, que 
provocara primitivamente a rejeição da ideia 
patogênica para fora das associações e que se opu-
nha ao retorno desta na lembrança" ( p . 2 1 7 ) . S e -
g u n d o F r e u d , a representação patogênica s o -
f r e r i a u m a rejeição n o p s i q u i s m o q u e a s s o c i o u 
à "repressão" ( p . 2 1 7 ) . M a s s e a emoção não 
e l i m i n a d a u l t r a p a s s a o s l i m i t e s d o q u e o p a -
c i e n t e p o d e t o l e r a r , a e n e r g i a psíquica s e con-
verteu e m e n e r g i a somática e dá l u g a r a u m 
sintoma histérico, c o n f o r m e u m m e c a n i s m o d e 
conversão. 
F r e u d f u n d a m e n t a r a s u a a b o r d a g e m n a 
insistência r e p e t i d a c o m s e u s p a c i e n t e s p a r a 
q u e s u p e r a s s e m s u a s resistências. C o m p l e -
m e n t o u - a a c r e s c e n t a n d o a i s s o o g e s t o técni-
c o d e u m a pressão s o b r e s u a t e s t a c o m o 
o b j e t i v o d e f a c i l i t a r a emergência d e l e m b r a n -
ças patogênicas. C o n t u d o , q u a n d o d e s c o b r i u 
l o g o d e p o i s o método d a associação l i v r e , r e -
n u n c i o u também a o g e s t o técnico. A d e s c o -
b e r t a d a associação l i v r e s e d e u p r o g r e s s i -
v a m e n t e e n t r e 1 8 9 2 e 1 8 9 8 , e não t e m o s c o m o 
datá-la, m a s F r e u d já f a z menção a e l a n o c a s o 
d e E m m y V o n N . , e m q u e f o i l e v a d o a d a r l u -
L e r F r e u d 27 
g a r p o u c o a p o u c o à expressão espontânea d e 
s u a p a c i e n t e . 
O s Estudos sobre a histeria - p a r t i c u l a r m e n -
t e a s contribuições d e F r e u d - são a b u n d a n t e s 
e m comentários clínicos, técnicos e teóricos 
q u e a b r e m c a m i n h o s n o v o s e c o n s t i t u e m a s 
b a s e s s o b r e a s q u a i s s e edificará d e p o i s a p s i -
canálise. E n t r e o s c o n c e i t o s inéditos i n t r o d u -
z i d o s a q u i , três noções m e r e c e m u m e x a m e 
m a i s d e t i d o : a s e x u a l i d a d e , o s i m b o l i s m o e a 
transferência. 
O p a p e l d e s e m p e n h a d o pe la s e x u a l i d a d e 
E m b o r a F r e u d t e n h a c o n s t a t a d o d e s d e 
m u i t o c e d o q u e o s t r a u m a t i s m o s d e o r d e m 
s e x u a l s o b r e v i n h a m r e g u l a r m e n t e n o r e l a t o 
d a s circunstâncias d e aparição d o s p r i m e i r o s 
s i n t o m a s histéricos, d e início e l e s e m o s t r o u 
cético q u a n t o a i d e n t i f i c a r a l i u m a relação d e 
c a u s a e e f e i t o : "Recém-saído da Escola de Charcot, 
eu enrubescia em face da conexão entre a histeria e 
o tema da sexualidade, que é mais ou menos o que 
ocorre com os pacientes em geral" ( p . 2 0 8 - 2 0 9 ) . 
M a s , p o r força d e v e r i f i c a r a presença r e i t e r a -
d a d e t r a u m a t i s m o s d e o r d e m s e x u a l n o s r e -
l a t o s d e s e u s p a c i e n t e s , e l e s e r e n d e u à e v i -
dência d e q u e o f a t o r s e x u a l d e s e m p e n h a v a 
u m p a p e l d e c i s i v o c o m o p o n t o d e p a r t i d a d e 
s u a s i n t o m a t o l o g i a . M a i s t a r d e , p e r c e b e u q u e 
e s s e f a t o r não e s t a v a r e l a c i o n a d o a p e n a s à h i s -
t e r i a , m a s às n e u r o p s i c o s e s e m g e r a l . P o r i s s o , 
c h a m o u - a s d e "neuroses sexuais". 
N o s Estudos sobre a histeria, F r e u d f a l a r e l a t i -
v a m e n t e p o u c o s o b r e i s s o ; porém, expõe e s s e 
p o n t o d e v i s t a revolucionário e m d i v e r s o s a r t i -
g o s d a m e s m a época, e m q u e r e a f i r m a q u e n o s 
c a s o s d e n e u r o s e e , e m p a r t i c u l a r , n a h i s t e r i a , o 
t r a u m a t i s m o originário está s e m p r e l i g a d o a e x -
periências s e x u a i s r e a l m e n t e v i v i d a s n a p r i m e i -
r a infância, a n t e r i o r e s à p u b e r d a d e . E s s a s e x p e -
riências, q u e p o d e m i r d a s s i m p l e s i n v e s t i d a s 
a o s a t o s s e x u a i s m a i s o u m e n o s c a r a c t e r i z a d o s , 
n a s p a l a v r a s d e F r e u d , "devem ser qualificadas 
como abusos sexuais no sentido estrito do termo" 
( 1 8 9 7 b , p . 2 0 9 ) . C o m a noção d e u m t r a u m a t i s m o 
s e x u a l real o c o r r i d o n a infância p r e c o c e , F r e u d 
28 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
lançou u m a hipótese q u e a s s u m i u d u r a n t e u m 
c u r t o período, e n t r e 1 8 9 5 e 1 8 9 7 . N o t e - s e q u e , 
a o f a l a r d e t r a u m a t i s m o s e x u a l r e a l , F r e u d não 
f a z i a n e n h u m a referência à s e x u a l i d a d e i n f a n -
t i l , i s t o é, a o f a t o d e q u e a criança t e m pulsões 
s e x u a i s , c o m o a s s i n a l a R . W o l l h e i m ( 1 9 7 1 , p . 3 9 ) . 
M a s a s n o v a s observações clínicas f iz e r a m c o m 
q u e F r e u d m o d i f i c a s s e r a p i d a m e n t e s e u p o n t o 
d e v i s t a . A p a r t i r d e s s a época, p a s s o u a d u v i d a r 
d a r e a l i d a d e d a c e n a s e x u a l r e l a t a d a : será q u e 
e l a não t i n h a s i d o i m a g i n a d a , e não r e a l m e n t e 
v i v i d a ? D e s d e então, p a s s o u a c o n s i d e r a r q u e o 
f a t o r traumático d e t e r m i n a n t e d e p e n d e m a i s d a 
fantasia e d a pulsão d o q u e d a realidade d a c e n a 
s e x u a l . V o l t a r e m o s a e s s a questão m a i s a d i a n t e . 
S í m b o l o s e s i n t o m a s h i s t é r i c o s 
F r e u d o b s e r v o u i g u a l m e n t e q u e h a v i a u m 
d e t e r m i n i s m o simbólico n a f o r m a a s s u m i d a 
p e l o s s i n t o m a s , c u j a conversão v i a m e c a n i s m o 
d a simbolização constituía a expressão m a i s 
m a r c a n t e . E l e dá vários e x e m p l o s d e s s a "deter-
minação pelo simbolismo", c o m o o d a d o r d e c a b e -
ça l a n c i n a n t e q u e u m a p a c i e n t e s e n t i a , e n t r e o s 
d o i s o l h o s , e q u e d e s a p a r e c e u q u a n d o e l a s e l e m -
b r o u d o o l h a r tão "penetrante" d e s u a avó, c u j o 
o l h a r , s e g u n d o e l e "se infiltrara profundamente em 
seu cérebro" ( p . 1 4 4 ) . E l e a f i r m a c o m m u i t a 
pertinência q u e s e t r a t a "em geral de jogos de pala-
vras ridículos, de associações por consonância, que 
ligam o afeto e o reflexo entre si" ( p . 1 6 6 ) . F i n a l -
m e n t e , e l e e v o c a a p o s s i b i l i d a d e d e q u e a histé-
r i c a d e v o l v a "seu sentido verbal primitivo" às s u a s 
sensações e às s u a s enervações, p o i s "parece que 
tudo isso teve outrora um sentido literal" ( p . 1 4 5 ) . 
Porém, n e s s e m o m e n t o , e l e não irá m u i t o m a i s 
l o n g e n a s investigações d a noção d e "símbolo 
mnésico", q u e retomará m a i s t a r d e . 
E s b o ç o d a n o ç ã o d e t r a n s f e r ê n c i a 
F i n a l m e n t e , d e s c o b r e - s e c o m s u r p r e s a q u e , 
d e s d e s e u s p r i m e i r o s e s c r i t o s s o b r e a h i s t e r i a , 
F r e u d h a v i a d e s c r i t o o fenómeno d a t r a n s f e -
rência já u t i l i z a n d o e s s e t e r m o . N o início, r e -
f e r e - s e a e l e d e f o r m a i n d i r e t a , d a p e r s p e c t i v a 
d a n e c e s s i d a d e d e e s t a b e l e c e r u m a relação d e 
confiança. A s s i m , q u a n d o d e s c r e v e o p r o c e d i -
m e n t o catártico, a s s i n a l a q u e o êxito d a h i p n o -
s e r e q u e r o máximo d e confiança d o p a c i e n t e 
e m relação a o médico e i n c l u s i v e u m a "adesão 
total" ( p . 2 1 3 ) . P o s t e r i o r m e n t e , q u a n d o a b o r -
d a a m a n e i r a d e e l i m i n a r a s resistências, F r e u d 
c h a m a a atenção p a r a o p a p e l e s s e n c i a l d e s e m -
p e n h a d o p e l a p e r s o n a l i d a d e d o médico, p o i s 
"em inúmeros casos, só ela será capaz de suprimir 
a resistência" ( p . 2 2 9 ) . 
F r e u d m e n c i o n a d e f o r m a explícita a n o -
ção d e transferência q u a n d o s e a p r o f u n d a n o s 
m o t i v o s d e resistência d o p a c i e n t e , e m p a r t i -
c u l a r n o s c a s o s e m q u e o p r o c e d i m e n t o p o r 
pressão não f u n c i o n a . E l e vê e s s e n c i a l m e n t e 
d o i s obstáculos à t o m a d a d e consciência d a s 
resistências: e m p r i m e i r o l u g a r , u m a objeção 
p e s s o a l e m relação a o médico, fácil d e r e s o l -
v e r ; e m s e g u n d o l u g a r , o t e m o r d e s e l i g a r 
d e m a i s a e l e , obstáculo m a i s difícil d e s u p e -
r a r . E l e a c r e s c e n t a d e p o i s u m t e r c e i r o obstá-
c u l o à conscientização d a s resistências q u e 
s u r g e m "quando o doente teme reportar à pessoa 
do médico as representações penosas que emergem 
do conteúdo da análise. Esse é um fato constante 
em certas análises. A transferência ao médico se 
realiza por uma falsa associação" ( p . 2 4 5 ) . F r e u d 
r e l a t a o b r e v e e x e m p l o d e u m a p a c i e n t e q u e 
d e s e j a v a s e r abraçada e b e i j a d a p o r u m h o -
m e m d e s e u círculo. N o f i n a l d e sessão, e l a f o i 
t o m a d a p e l o m e s m o d e s e j o d e s e r abraçada e 
b e i j a d a p o r F r e u d , o q u e a d e i x o u a s s u s t a d a . 
Q u a n d o F r e u d f o i i n f o r m a d o p o r e l a d a n a t u -
r e z a d e s s a resistência, e s t a f o i s u p e r a d a e o 
t r a b a l h o pôde p r o s s e g u i r . E l e q u a l i f i c a e s s e f e -
nómeno d e desajuste o u d e falsa relação: "Desde 
que soube disso, toda vez que minha pessoa é en-
volvida dessa maneira, consigo postular a existên-
cia de uma transferência e de uma falsa relação. O 
que é curioso, a c r e s c e n t a e l e , é que nesse caso os 
doentes estão sempre enganados" ( p . 2 4 5 - 2 4 6 ) . 
L e r F r e u d 29 
P Ó S - F R E U D I A N O S 
"A h is te r ia c e m a n o s d e p o i s " 
C o m o os psicanalistas vêem a histeria atualmente? Ela desapareceu? Ainda sabemos como diagnosticá-la 
hoje? Essas perguntas foram feitas por E. Nersessian (New York) aos participantes de uma mesa redonda 
intitulada "A histeria cem anos depois" durante o Congresso Internacional de Psicanálise realizado em San 
Francisco, em 1995. Segundo o relato de J.-M. Tous (1996), os debates deram uma ideia geral das principais 
posições contemporâneas, que resumimos brevemente aqui. 
Hoje, a maioria dos psicanalistas concorda em que a histeria repousa em um amplo leque de patologias que 
vai da neurose à psicose, passando pelos estados borderline e narcisísticos graves. Contudo, do ponto de 
vista da abordagem terapêutica, há duas tendências principais que se destacam, uma representada por 
psicanalistas franceses e outra por psicanalistas l igados à escola inglesa. 
Para Janine Chasseguet-Smirgel (Paris), é essencial que o psicanalista não perca de vista a dimensão sexual da 
histeria e que não se limite a pensar que ela se fundamenta unicamente em uma patologia arcaica pré-genital. 
Evidentemente, a autora reconhece que o psicanalista muitas vezes se confunde diante da profusão de fenóme-
nos clínicos que enfrenta com esse tipo de pacientes que evocam uma grande variedade de patologias primitivas. 
Mas, segundo ela, não se trata de minimizar o papel que tem a interpretação dos conflitos edipianos e da culpabi-
lidade em face dos ataques destrutivos em relação à mãe. Quando se focaliza a atenção apenas nos aspectos 
arcaicos, há um risco muito grande de diluir a histeria como entidade clínica estreitamente ligada à identidade 
sexual e no nível edipiano. J. Chasseguet-Smirgel diz ainda que não é a única a manifestar esse tipo de preocupa-
ção, pois outros psicanalistas da escola francesa, como A. Green e J. Laplanche, manifestam o mesmo temor. 
Entretanto, ela considera que a histeria pertence ao "reino das mães", na medida em que o útero e a gravidez estão 
altamente implicados, seja na fantasia ou na realidade. Por essa razão, ela insiste no fator biológico na histeria: ele 
não deve ser subestimado, pois se trata de uma patologia psíquica que tem como cenário o corpo. Ao reafirmar o 
papel desempenhado pela dimensão corporal, J. Chasseguet-Smirgel se demarca de outros psicanalistas, que 
privilegiam a linguagem em detrimento do corpo. 
Eric Brenman (Londres), representante da escola inglesa, expõe uma posição teórica e clínica muito diferente. 
Ele sustenta a ideia de que, já em suas primeiras relações de objeto, a criança pequena cria defesas contra as 
angústias que determinarão a maneira como irá geri-las na idade adulta. Sem dúvida, E. Brenman reconhece 
que a sexualidade desempenha um papel capital na histeria, mas, para ele, o que predomina em um paciente 
histéricoé a luta incessante que trava contra angústias primitivas. Ele descreve como esses pacientes agem na 
transferência para a realidade psíquica do psicanalista e como procedem em face das angústias arcaicas, que 
são sentidas como angústias catastróficas e como perigos inexistentes. Geralmente, observam-se neles clivagens 
determinantes de estados psíquicos que decompõem todos os níveis de sua vida psíquica. Por exemplo, os 
pacientes histéricos procuram relações com objetos ideais, mas se decepcionam tão logo entram em contato 
c o m eles e, por isso, transitam permanentemente de um extremo a outro. Para E. Brenman, a histeria se deve, 
antes de tudo, a distúrbios psicóticos graves. Contudo, em cem anos, a psicanálise evoluiu na capacidade de 
conter as angústias psicóticas e de elaborá-las, de modo que hoje esses pacientes dispõem de melhores meios 
para superar suas angústias e enfrentar as vicissitudes da existência. 
" O rub i t e m hor ro r d o v e r m e l h o " 
Esse é o título de um artigo em que Jacquel ine Schaeffer (1986) descreve a relação que o histérico mantém 
c o m a sexualidade. A metáfora que utiliza é inspirada na definição que o mineralogista dá do rubi: ikO rubi é 
uma pedra que tem horror do vermelho. Ele absorve todas as outras cores do prisma e guarda-as para ele. 
Rejeita o vermelho, eéo que nos permite ver" (p. 925). Do mesmo modo que o rubi, a histeria "cinti la", diz J . 
Schaeffer: "Haverá uma melhor ilustração do que o histérico nos permite ver: seu horror pelo vermelho, pela 
sexualidade, pela exibição de seu traumatismo? (...) Subterfúgio do ego que consiste em pôr adiante, em 
mostrar o que é mais ameaçador e mais ameaçado, o que é estranho, detestado, o que faz mal, e agredir com 
o que agride. Será que existe então, como para o rubi, algo precioso a guardar tão bem escondido?" (p. 925). 
£ C R O N O L O G I A DOS C O N C E I T O S FREUDIANOS 
Ab-reação - censura 
repressão - resistênc 
conversão - defesa - fantasia - incons< 
a - t raumat ismo sexual real 
ação livre - mé todo catárt ico -
L e r F r e u d 9 3 
P Ó S - F R E U D I A N O S 
N e u r o s e e ps i cose j u s t a p o s t a s e m Gradiva? 
Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen tem interesse não apenas do ponto de vista da psicanál ise apl ica-
da a u m a obra literária, mas igualmente do ponto de vista clínico e teór ico. No que se diz respeito à clínica, 
Freud descreve c o m u m d o m de observação incomparável um amp lo leque de sintomas que atribui à 
neurose, como a inibição do herói em relação às mulheres e seu delírio alucinatório episódico. Con tudo , 
Freud fala unicamente de "delír io" quando evoca as alucinações de Hanold e não utiliza o termo "ps icose" . 
Mas, será que se pode falar de psicose nesse caso? 
Os comentár ios dos psicanalistas pós-freudianos variam quanto a esse ponto. Para os psicanalistas que se 
atêm ao texto de Freud, o delírio de Hanold provém essencialmente de um distúrbio de consciência passagei-
ro, não-psicótico, que se pode observar em uma personal idade neurótica (Jeanneau, 1990). Para outros 
psicanalistas pós-freudianos que fazem uma leitura de Gradiva levando em conta os últimos trabalhos de 
Freud sobre a negação da realidade e a cl ivagem do ego, pode-se considerar que as alucinações de Hanold 
per tencem à parte de seu ego que nega uma realidade insuportável, enquanto que a outra parte do ego a 
aceita. Desse ponto de vista, a cura ocorre quando essa últ ima aceita a realidade e toma a frente da parte do 
ego que a nega. Ass im, para F. Ladame (1991), o delírio e as a luc inações do herói ser iam t íp icos da 
psicopatologia que se encontra na adolescência, que qualif icaríamos hoje de uma descompensação psicótica, 
cujos destinos são vários. Por sua vez, D. Quinodoz (2002) evidenciou a maneira como Freud nos oferece u m 
mode lo que ensina ao psicanalista "como falar aparte "louca" de nossos pacientes sem ignorar o resto de sua 
pessoa" (p. 60). Segundo a autora, o fato de Hanold ter um delírio e ao mesmo tempo levar uma vida mais ou 
menos normal implica uma cl ivagem do ego, como se encontra hoje com muita frequência em pacientes que 
ela chama de "heterogéneos". A coexistência em uma mesma pessoa de uma parte que delira e de uma outra 
parte que leva em conta a realidade conduz a uma abordagem técnica particular pelo psicanalista. Ass im, 
embora Zoé não se deixe levar pelo delírio de Hanold, ela evita lhe dizer imediatamente: Zoé utiliza "um 
discurso de duplo sentido" que pode ser compreend ido pela parte delirante de Hanold, mas também por sua 
parte que leva em conta a realidade. 
Se f izermos uma leitura dos textos de Freud à luz de seus t rabalhos do últ imo período, poderemos obser-
var u m a justaposição de mecan ismos decorrentes da psicose e mecan ismos decorrentes da neurose na 
maior ia dos casos clínicos que ele descreve, mas ainda sem conceituar, desde Estudos sobre a histeria, em 
1895, até "O homem dos lobos" , em 1918. De fato, Freud mostra em Esboço de psicanálise (1940a [1938]) 
que a parte do ego que nega a real idade e a parte do ego que a aceita são encontradas em proporções 
variáveis não apenas na psicose, mas t ambém na neurose e m e s m o no indivíduo normal. 
F ina lmente , a lguns comen tado res enfat izaram a p rob lemát ica d o fe t ich ismo onipresente nesse texto 
f reudiano, como destacou J. Bel lemin-Noèl (1983), do fet ichismo do pé ao do andar de Gradiva. 
C R O N O L O G I A DOS C O N C E I T O S FREUDIANOS 
Delírio alucinatór io - alu : inação - neurose - psicanál ise apl icada a uma obra literária - psicose 
"ANALISE DE UMA FOBIA EM UM MENINO 
DE CINCO ANOS (O PEQUENO HANS)" 
S. FREUD (1909b) 
A p r i m e i r a p s i c a n á l i s e d e c r i a n ç a 
E s s e e s t u d o d e c a s o c o n s t i t u i o r e l a t o d o 
p r i m e i r o t r a t a m e n t o psicanalítico d e u m a c r i a n -
ça. A c u r a d o m e n i n o , o " p e q u e n o H a n s " , o u 
H e r b e r t G r a f , f o i c o n d u z i d a p o r s e u p a i , M a x 
G r a f , prática q u e não e r a r a r a n a época. A aná-
l i s e s e d e s e n v o l v e u d e j a n e i r o a m a i o d e 1 9 0 8 e 
f o i s u p e r v i s i o n a d a p o r F r e u d c o m b a s e n a s a n o -
tações q u e o p a i f a z i a r e g u l a r m e n t e e l h e t r a n s -
m i t i a , m a s e l e só i n t e r v e i o p e s s o a l m e n t e u m a 
v e z , d u r a n t e u m a e n t r e v i s t a d e c i s i v a c o m o p a i 
d a criança. F r e u d e s c r e v e u u m r e l a t o d e s s a 
c u r a , q u e p u b l i c o u e m 1 9 0 9 c o m a autorização 
d o p a i . E s s a contribuição d e F r e u d i n a u g u r o u 
a n o v a r e v i s t a psicanalítica, Jahrbuch fur 
psychoanalytische und psychopathologische 
Forschungen, c u j a criação f o r a d e c i d i d a n o a n o 
a n t e r i o r n o P r i m e i r o C o n g r e s s o d e Psicanálise 
e m S a l z b u r g . E s s a r e v i s t a efémera f o i p u b l i c a d a 
até a véspera d a P r i m e i r a G u e r r a M u n d i a l . 
O q u e n o s e n s i n a e s s e e s t u d o d e c a s o ? E m 
p r i m e i r o l u g a r , o c a s o d o " p e q u e n o H a n s " 
p r o p o r c i o n o u a F r e u d a " p r o v a " q u e e l e t a n t o 
b u s c a v a d e s u a s hipóteses s o b r e a existência 
d e u m a s e x u a l i d a d e n a criança e m g e r a l ; e m 
s e g u n d o l u g a r , a c u r a d e s s e c a s o d e f o b i a v e i o 
i l u s t r a r d e f o r m a m a g i s t r a l a s p o s s i b i l i d a d e s 
terapêuticas d a psicanálise não a p e n a s n o 
a d u l t o , m a s também n a criança. 
BIOGRAFIAS E Hl 5TÓRIA 
O " p e q u e n o Hans" : uma car re i ra b r i l han te c o m o d i re to r d e ó p e r a 
Os pais do pequeno Hans não eram estranhos para Freud, pois sua mãe, Olga Graf, t inha sido anal isada por 
ele a lguns anos antes. Quanto ao pai de Hans, Max Graf,composi tor e crítico musical, ele conhecera Freud 
em 1900, e sendo apaixonado pelas descobertas da psicanálise, part icipou regularmente das reuniões da 
Sociedade Psicanalítica das quartas-feiras até 1913. Desde 1906, quando Hans t inha menos de 3 anos, Max 
Graf transmitiu regularmente a Freud observações que fazia sobre seu filho. Ele respondia assim ao apelo de 
Freud que exortara seus discípulos mais próximos a tomar notas sobre tudo o que pudesse estar relacionado 
c o m a sexualidade infantil a f im de confirmar as hipóteses que sugerira em Três ensaios sobre a teoria da 
sexualidade em 1905. Freud utilizou certas observações feitas pelo pai do pequeno Hans em dois art igos: "O 
esclarecimento sexual das crianças" (1907c) e "Sobre as teorias sexuais das crianças" (1908c). Quanto ao 
caso do "pequeno Hans", publ icado em 1909, trata-se de um relato do trabalho de interpretação e de elabo-
ração realizado até a el iminação parcial dos conflitos subjacentes à or igem do s intoma fóbico. 
Depois disso, Freud perdeu de vista o menino assim c o m o seus pais, mas em um posfácio acrescentado 
e m 1922 ele conta que nesse ano recebeu a vista de um jovem que se apresentou c o m o o pequeno Hans 
descr i to por ele no art igo de 1909. Freud f icou feliz por saber que a cr iança para q u e m "se previra todo t ipo 
de desgraça" (p. 198 [129]) estava muito bem e não sofria mais de inibição. Ele soube t a m b é m que seus 
Continua £ 
96 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
0 B I O G R A F I A S E H ISTÓRIA • Continuação 
pais t inham-se d ivorc iado e que ambos t inham se casado novamente. Finalmente, Freud se surpreendeu 
ao constatar que o j ovem não t inha guardado nenhuma lembrança de sua cura psicanalít ica. 
Herbert Graf, que t inha c o m o padr inho o composi tor Gustav Mahler, se tornaria mais tarde u m diretor de 
ópera reconhec ido . C o m a n d o u , entre outras, a Metropol i tan Opera de New York, tendo retornado à Europa 
onde terminou sua carreira c o m o diretor de Grand Théâtre de Genebra. Mas, apesar da trajetória profissio-
nal bri lhante, sua v ida pessoal foi marcada por fracassos conjugais que o levaram a retomar u m a psicaná-
lise em 1970, c o m H u g o So lms, em Genebra. Graf morreu nessa c idade em 1973. C h e g o u a publ icar 
quatro entrevistas c o m o jornal ista F. Rizzo, lançadas c o m o título Memórias de um homem invisível (1972), 
em que se revela pub l icamente c o m o o "pequeno Hans". Porém, não tem o m e s m o interesse pela psicaná-
lise que seu pai , Max Graf, a q u e m se deve a publ icação pós tuma de um art igo de Freud, "Personagens 
psicopát icos no pa lco" (1942 [1905-1906]), que lhe foi presenteado em 1906. 
D E S C O B E R T A D A O B R A 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1909b), "Analyse de la phob ie d 'um garçon 
de c inq ans (Le petit Hans)" , in Cinq psychanalyses, t rad. M. Bonaparte e R. Loewenste in, Paris, PUF, 1954, 
p. 93-198 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R IX, p. 1-130]. 
A c o n f i r m a ç ã o d a i m p o r t â n c i a 
da s e x u a l i d a d e e m u m a c r i a n ç a p e q u e n a 
O r e l a t o d e F r e u d contém d u a s p a r t e s : u m a 
c u r t a introdução, q u e reúne a s observações f e i -
t a s p e l o p a i d o " p e q u e n o H a n s " q u a n d o e l e 
t i n h a e n t r e 3 e 5 a n o s , período q u e p r e c e d e u o 
a p a r e c i m e n t o d a f o b i a ; e u m a s e g u n d a p a r t e , 
q u e r e l a t a o d e s e n v o l v i m e n t o d a c u r a , s e g u i -
d o d e comentários d e F r e u d . 
T r a n s c r i t a s f i e l m e n t e p o r s e u p a i , a s p a l a -
v r a s d i t a s p e l o m e n i n o s o b r e questões s e x u a i s 
d e m o n s t r a r a m q u e a cabeça d o " P e q u e n o 
H a n s " e s t a v a t o m a d a d e preocupação p e l o s 
e n i g m a s d a s e x u a l i d a d e s o b t o d a s a s s u a s 
f o r m a s . Além d i s s o , o q u e s e o b s e r v o u n e s s a 
criança p o d i a s e r g e n e r a l i z a d o a t o d a s a s c r i a n -
ças d e s d e s e u s p r i m e i r o s a n o s , e não s e t r a t a -
v a d e u m c a s o patológico. F i n a l m e n t e , e s s a s 
observações f e i t a s e m H a n s v i n h a m f u n d a -
m e n t a r hipóteses q u e F r e u d f o r m u l a r a e m Três 
ensaios sobre a teoria da sexualidade s o b r e a e x i s -
tência d e u m a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l , hipóteses 
q u e t i n h a d e d u z i d o e s s e n c i a l m e n t e a p a r t i r d e 
lembranças s u r g i d a s d u r a n t e a análise d e p a -
c i e n t e s a d u l t o s . 
M a n i f e s t a ç õ e s p r e c o c e s d a s e x u a l i d a d e 
in fan t i l n o " p e q u e n o H a n s " 
F r e u d e n c o n t r a n a s anotações f e i t a s p e l o p a i 
a confirmação d o i n t e r e s s e p a r t i c u l a r m e n t e i n -
t e n s o d e s s e m e n i n o p o r s e u próprio c o r p o , e 
s o b r e t u d o p o r s e u pênis q u e e l e c h a m a d e s e u 
"faz-xixi". E s s e órgão é o b j e t o d e u m a c u r i o s i -
d a d e i l i m i t a d a e c o n s t i t u i p a r a e l e u m a f o n t e 
d e p r a z e r e d e angústia. P o r i s s o , não p a r a d e 
f a z e r p e r g u n t a s às p e s s o a s d e s e u convívio: 
"Papai, você também tem um faz-xixi?", i n d a g a 
a o p a i , q u e r e s p o n d e a f i r m a t i v a m e n t e . M a s a s 
r e s p o s t a s q u e r e c e b e às v e z e s são ambíguas, s o -
b r e t u d o q u a n d o s e t r a t a d e questões r e l a c i o n a -
d a s à s u a mãe e às m e n i n a s . U m d i a , e n q u a n t o 
o b s e r v a s u a mãe s e d e s p i n d o , e l a l h e p e r g u n -
t a : "O que você está olhando desse jeito?" - "Eu só 
quero ver se você também tem um faz-xixi" - "En-
tão, r e s p o n d e a mãe, isso quer dizer que você não 
sabia?" ( 1 9 0 9 b , p . 9 6 [8]). E m s u a r e s p o s t a a m -
bígua, será q u e a mãe d e H a n s q u i s d i z e r s i m -
p l e s m e n t e q u e e l a t i n h a u m orifício p a r a u r i -
n a r , o u d e u a e n t e n d e r q u e também t i n h a u m 
pênis? P a r a F r e u d , é a s e g u n d a p o s s i b i l i d a d e 
q u e t e m m a i s importância a o s o l h o s d o m e n i -
L e r F r e u d 139 
d i f u n d i d o e m a i s r i g o r o s o d i z r e s p e i t o à e v i -
tação e n t r e s o g r a e g e n r o . D e u m p o n t o d e v i s -
t a psicanalítico, F r e u d c o n s i d e r a q u e e s s a 
evitação recíproca está f u n d a d a e m u m a r e l a -
ção " a m b i v a l e n t e " , i s t o é, s o b r e a coexistên-
c i a recíproca d e s e n t i m e n t o s t e r n o s e h o s t i s , 
e s t r e i t a m e n t e l i g a d o s a o t e m o r d o i n c e s t o . 
S e g u n d o e l e , o t e m o r d o i n c e s t o a s s o c i a d o 
a o t o t e m q u e e n c o n t r a m o s n o s "selvagens" está 
p r e s e n t e também n a v i d a psíquica d o s neuró-
t i c o s , n a q u a l c o n s t i t u i u m traço i n f a n t i l : "A psi-
canálise nos mostrou que o primeiro objeto a que se 
dirige a escolha sexual do menino é de natureza in-
cestuosa, condenável, pois esse objeto é representa-
do por sua mãe ou por sua irmã, e nos mostrou tam-
bém o caminho seguido pelo menino, à medida que 
cresce, para escapar da atração do incesto" ( p . 3 3 
[218]). C o n s e q u e n t e m e n t e , a s fixações o u a s r e -
gressões i n c e s t u o s a s i n c o n s c i e n t e s d a l i b i d o d e -
s e m p e n h a m u m p a p e l c e n t r a l n a n e u r o s e , d e 
m o d o q u e o d e s e j o i n c e s t u o s o e m relação a o s 
p a i s c o n s t i t u i o "complexo nuclear da neurose". A 
revelação p e l a psicanálise d a importância d o 
t e m o r d o i n c e s t o n o p e n s a m e n t o i n c o n s c i e n t e 
d o s neuróticos c h o c o u - s e c o m a i n c r e d u l i d ad e 
g e r a l , o q u e , p a r a F r e u d , é a p r o v a d a angústia 
g e n e r a l i z a d a q u e e l a d e s e n c a d e i a e m q u a l q u e r 
indivíduo: "Somos obrigados a admitir que essa 
resistência decorre sobretudo da profunda aversão 
que o homem sente por seus desejos incestuosos de 
outrora, hoje completamente e profundamente repri-
midos. Assim, não deixa de ser importante poder 
mostrar que os povos primitivos sentem ainda de 
uma maneira perigosa, a ponto de se verem obrigados 
a se defenderem contra eles por medidas extrema-
mente rigorosas, os desejos incestuosos destinados a 
se perderem um dia no inconsciente" ( p . 3 4 [218]). 
O t a b u e a a m b i v a l ê n c i a d e s e n t i m e n t o s 
F r e u d p r o s s e g u e e x a m i n a n d o a noção d e 
t a b u , p a l a v r a polinésia c u j o s i g n i f i c a d o é d u p l o , 
p o i s e l a contém, d e u m l a d o , a i d e i a d e s a g r a d o , 
d e c o n s a g r a d o e , d e o u t r o , a d e i n q u i e t a n t e , p e r i -
g o s o , p r o i b i d o . A s proibições l i g a d a s a o t a b u não 
f a z e m p a r t e d e u m s i s t e m a m o r a l o u r e l i g i o s o , 
m a s são proibições e m s i ; o t a b u n a s c e u p r i m e i r o 
d o m e d o d a s forças demoníacas, e d e p o i s t a m -
bém s e t o r n o u demoníaco. S u a f o n t e é u m a f o r -
ça d e e n c a n t a m e n t o q u e s e a s s o c i a a p e s s o a s e m 
u m e s t a d o d e exceção - r e i s , p a d r e s , m u l h e r e s 
m e n s t r u a d a s , a d o l e s c e n t e s , e t c . - , o u a l u g a r e s , 
e , s e j a q u a l f o r , o t a b u d e s e n c a d e i a a o m e s m o 
t e m p o u m s e n t i m e n t o d e r e s p e i t o e d e i n q u i e t a -
ção. N a psicanálise, e n c o n t r a m o s p e s s o a s q u e 
s e i n f l i g e m t a b u s c o m o o s "selvagens": são o s n e u -
róticos o b s e s s i v o s . E s s a s p e s s o a s estão c o n v e n -
c i d a s i n t i m a m e n t e - p o r u m a i m p i e d o s a "cons-
ciência moral" - q u e s e t r a n s g r e d i r e m c e r t a s p r o i -
bições enigmáticas, ocorrerá u m a desgraça. O 
t e m o r l i g a d o à proibição não i m p e d e q u e s e o b -
s e r v e n o s p o v o s p r i m i t i v o s , d o m e s m o m o d o q u e 
n o s neuróticos, u m "prazer-desejo" d e t r a n s g r e -
d i r o t a b u , e F r e u d a c r e s c e n t a q u e o d e s e j o d e 
t r a n s g r e d i r o p r o i b i d o é a l t a m e n t e c o n t a g i o s o . 
E m s e g u i d a , F r e u d p r o c u r a e s t a b e l e c e r u m a 
semelhança e n t r e o s t a b u s d e t r i b o s p r i m i t i v a s 
e a q u e l e s d o s neuróticos o b s e s s i v o s , e a e n c o n -
t r a n a ambivalência d e s e n t i m e n t o s . N o s p r i -
m i t i v o s , n o t a - s e u m a l t o g r a u d e ambivalência 
n a s inúmeras prescrições q u e a c o m p a n h a m o s 
t a b u s . T e m o s e x e m p l o s n a m a n e i r a d e t r a t a r o s 
i n i m i g o s q u a n d o s u a m o r t e é a c o m p a n h a d a d e 
prescrições d e expiação, o u n o t a b u d o s s o b e r a -
n o s , e m q u e o r e i v e n e r a d o p e l o s súditos é a o 
m e s m o t e m p o e n c l a u s u r a d o p o r e l e s e m u m s i s -
t e m a c e r i m o n i a l c o e r c i t i v o , s i n a l d e ambivalên-
c i a e m relação a o e n v i a d o p r i v i l e g i a d o . 
A presença r e g u l a r d e s e n t i m e n t o s d e 
ambivalência n o s t a b u s c o n d u z F r e u d a e x a m i -
n a r m a i s d e p e r t o o p a p e l q u e d e s e m p e n h a m 
a l g u n s m e c a n i s m o s psíquicos f u n d a m e n t a i s . 
P o r e x e m p l o , e l e e s t a b e l e c e u m p a r a l e l o e n t r e o 
s e n t i m e n t o persecutório e x p e r i m e n t a d o p o r u m 
p r i m i t i v o e m relação a o s e u s o b e r a n o e o delí-
r i o d o paranóico: a m b o s s e r i a m f u n d a d o s n a 
ambivalência d e s e n t i m e n t o s d e a m o r e d e ódio 
q u e a criança e x p e r i m e n t a e m relação a o s e u 
p a i , c o m o e l e já m o s t r a r a a propósito d o c o m -
p l e x o p a t e r n o d e S c h r e b e r . N o q u e s e r e f e r e a o 
t a b u d o s m o r t o s , F r e u d c h a m a a atenção p a r a o 
f a t o d e q u e a s acusações o b s e s s i v a s q u e s e i n f l i -
g e o s o b r e v i v e n t e após u m f a l e c i m e n t o , p o r s e 
s e n t i r c u l p a d o p e l a m o r t e d a p e s s o a a m a d a , d e -
c o r r e m i g u a l m e n t e d e u m a f o r t e ambivalência: 
"Encontramos a mesma hostilidade, dissimulada por 
trás de um amor terno, em quase todos os casos de 
140 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
fixação intensa do sentimento em uma pessoa deter-
minada: é o caso clássico, o protótipo da ambivalência 
da afetividade humana" ( p . 9 1 [267]). M a s , então, 
o q u e é q u e d i s t i n g u e u m neurótico o b s e s s i v o 
d e u m h o m e m p r i m i t i v o ? F r e u d r e s p o n d e q u e 
n o neurótico o b s e s s i v o a h o s t i l i d a d e e m r e l a -
ção a o m o r t o é i n c o n s c i e n t e , p o i s é a expressão 
d e u m a satisfação condenável p r o v o c a d a p e l o 
f a l e c i m e n t o ; m a s o m e c a n i s m o é d i f e r e n t e , p o i s 
n o p r i m i t i v o s u a h o s t i l i d a d e é o b j e t o d e u m a 
"projeção" n o m o r t o : "O sobrevivente se defende 
de nunca ter experimentado um sentimento hostil 
em relação ao morto querido; ele acha que é a alma do 
desaparecido que nutre esse sentimento que ela pro-
curará saciar durante o período de luto" ( p . 9 2 [268]). 
E F r e u d d e s t a c a também a "cisão" q u e o b s e r v a 
n o s s e n t i m e n t o s a m b i v a l e n t e s , a n t e c i p a n d o 
s e u s t r a b a l h o s p o s t e r i o r e s s o b r e a c l i v a g e m : 
"Aqui também as prescrições tabu têm um duplo sig-
nificado, assim como os sintomas dos neuróticos: se, 
de um lado, essas expressam, pelas restrições que im-
põem, o sentimento de dor que se experimenta diante 
da morte de um ser amado, de outro lado deixam 
transparecer o que gostariam de ocultar, ou seja, a 
hostilidade em relação ao morto à qual atribuem ago-
ra um caráter de necessidade" ( p . 9 2 [268]). 
A compreensão d o t a b u e s c l a r e c e também a 
noção d e "consciência moral" o u "consciência de 
culpa" q u e F r e u d começa a e s c l a r e c e r . E l e d e f i n e 
e s s a consciência m o r a l c o m o a percepção d e u m 
j u l g a m e n t o i n t e r i o r d e condenação p o r d e s e j o s 
s e n t i d o s p e l o neurótico, s e n t i m e n t o h o r r i p i l a n -
t e q u e não s e d i f e r e n c i a d o "mandamento de sua 
consciência moral" l i g a d a a o t a b u n o s e l v a g e m , 
c u j a violência f a z e m e r g i r "um terrível sentimen-
to de culpa" ( p . 1 0 1 [276]). P a r a e l e , s e n t i m e n t o 
d e c u l p a e t e m o r d a punição f u n d a m e n t a m - s e 
n a ambivalência d e s e n t i m e n t o s , t a n t o n o n e u -
rótico q u a n t o n o p r i m i t i v o ; m a s o q u e d i f e r e n -
c i a o p r i m e i r o d o s e g u n d o é q u e o t a b u não é 
u m a n e u r o s e , m a s u m a formação s o c i a l . E s s e s 
a r g u m e n t o s a n t e c i p a m a noção d e s u p e r e g o q u e 
será d e f i n i d a 1 0 a n o s m a i s t a r d e , e m 1 9 2 3 . 
A n i m i s m o , m a g i a , o n i p o t ê n c i a 
d o s p e n s a m e n t o s 
O a n i m i s m o é p a r t i c u l a r m e n t e d e s e n v o l v i d o 
n o s p r i m i t i v o s , q u e i m a g i n a m o m u n d o p o v o a -
d o p o r u m a m f i n i d a d e d e s e r e s e s p i r i t u a i s b e n e -
v o l e n t e s o u m a l - i n t e n c i o n a d o s e m relação a e l e s , 
e a c r e d i t a m q u e e s s e s espíritos são responsáveis 
p o r fenómenos n a t u ra i s . S e g u n d o F r e u d , a h u -
m a n i d a d e c o n h e c e u a o l o n g o d e s u a história três 
p r i n c i p a i s visões d o m u n d o : a anímica (mitoló-
g i c a ) , a r e l i g i o s a e a científica. A p r i m e i r a visão 
f o i o a n i m i s m o , q u e n a d a m a i s é d o q u e u m a 
t e o r i a psicológica; além d i s s o , o a n i m i s m o é 
a c o m p a n h a d o d o e n c a n t a m e n t o e d a m a g i a , 
s e n d o q u e o e n c a n t a m e n t o é a a r t e d e i n f l u e n c i a r 
o s espíritos e a m a g i a c o n s t i t u i a técnica própria 
a o a n i m i s m o . D e f a t o , a m a g i a s e r v e p a r a s u b -
m e t e r o s p r o c e s s o s n a t u r a i s à v o n t a d e d o h o -
m e m , e p a r a p r o t e g e r o indivíduo c o n t r a i n i m i -
g o s e p e r i g o s , a o m e s m o t e m p o e m q u e l h e dá a 
força p a r a d e r r o t a r s e u s i n i m i g o s . N e s s a visão 
d o m u n d o , a sobrestimação e x c e s s i v a d o p e n -
s a m e n t o o f u s c a a percepção d a r e a l i d a d e , d e 
m o d o q u e o princípio q u e r e g e a m a g i a é o d a 
onipotência d o p e n s a m e n t o : "O princípio que rege 
a magia, a técnica do modo de pensamento animista, 
éoda 'onipotência das ideias" ( p . 1 2 3 [295]). 
N o neurótico, a psicanálise e v i d e n c i o u o 
m o d o p r i m i t i v o d e f u n c i o n a m e n t o q u e c o n s t i -
t u i a onipotência d o s p e n s a m e n t o s , e m p a r t i c u -
l a r n a n e u r o s e o b s e s s i v a , n a q u a l a sobrestimação 
d o p r o c e s s o d e p e n s a m e n t o s u p l a n t a a r e a l i d a -
d e , c o m o n a obsessão d o s r a t o s n o " H o m e m d o s 
r a t o s " . A sobrestimação d o p o d e r q u e u m i n d i -
víduo a t r i b u i a o s e u próprio p e n s a m e n t o , a i n -
d a s e g u n d o F r e u d , é u m e l e m e n t o e s s e n c i a l d o 
"narcisismo", f a s e d o d e s e n v o l v i m e n t o n a q u a l 
a s pulsões s e x u a i s já e n c o n t r a r a m u m o b j e t o , 
m a s e s s e o b j e t o , m a s e s s e o b j e t o c o n t i n u a s e n d o 
o e g o d o indivíduo. D e s s e m o d o , p o d e - s e c o n s i -
d e r a r q u e a onipotência d o s p e n s a m e n t o s n o s 
p r i m i t i v o s c o r r e s p o n d e a u m a f a s e p r e c o c e d o 
d e s e n v o l v i m e n t o l i b i d i n a l - u m "narcisismo in-
telectual" - a q u e o indivíduo neurótico c h e g o u , 
p o r s u a v e z , o u p o r regressão o u p o r fixação p a -
tológica. F i n a l m e n t e , F r e u d r e t o m a a i d e i a d e 
q u e , n o a n i m i s m o , o s espíritos e demónios q u e 
p o v o a m o m u n d o são a p e n a s "projeções" d e s e n -
t i m e n t o s e p e s s o a s i m p o r t a n t e s p a r a o indiví-
d u o e m questão, q u e e n c o n t r a s e u s p r o c e s s o s 
psíquicos n o e x t e r i o r d e s i m e s m o , d a m e s m a 
m a n e i r a q u e S c h r e b e r o s e n c o n t r a v a n o conteú-
d o d e s e u delírio paranóico. 
L e r F r e u d 141 
O r e t o r n o in fan t i l d o t o t e m i s m o 
Totem e Édipo 
A p o i a n d o - s e e m t r a b a l h o s c o m o o s d o 
etnólogo F r a z e r , q u e m o s t r a v a m q u e o a n i m a l 
t o t e m e r a v i s t o e m g e r a l c o m o o a n c e s t r a l d a 
t r i b o e q u e o t o t e m e r a t r a n s m i t i d o h e r e d i t a r i a -
m e n t e , F r e u d s u g e r e a hipótese d e q u e o t o t e -
m i s m o e a e x o g a m i a t e r i a m u m a o r i g e m a n c e s -
t r a l , reforçando a i d e i a d e D a r w i n s o b r e a e x i s -
tência d e u m a h o r d a p r i m i t i v a originária t a n t o 
n o s p r i m a t a s c o m o n o h o m e m . A p a r t i r d e s s e 
p o s t u l a d o , F r e u d e s t a b e l e c e u m a aproximação 
e n t r e o a n i m a l t o t e m e a f o b i a i n f a n t i l , p o i s n e s t a 
última o o b j e t o c o s t u m a s e r u m a n i m a l . S e g u n -
d o e l e , o a n i m a l t o t e m , a s s i m c o m o o o b j e t o d a 
f o b i a , s e r i a r e p r e s e n t a n t e d o p a i t e m i d o e r e s p e i -
t a d o , c o m o d e m o n s t r a r a a f o b i a d o c a v a l o n o 
" p e q u e n o H a n s " . A presença d e s e n t i m e n t o s 
a m b i v a l e n t e s e m relação a o p a i n a s d u a s s i t u a -
ções p e r m i t e a F r e u d c h e g a r à conclusão d e q u e 
o t o t e m e o c o m p l e x o d e Édipo têm u m a m e s -
m a o r i g e m : "Se o animal totem nada mais é do que 
o pai, temos de fato o seguinte: os dois mandamentos 
capitais do totemismo, as duas prescrições tabu que 
formam como que seu núcleo, a saber, a proibição de 
matar o totem e a proibição de casar com uma mu-
lher pertencente ao mesmo totem, coincidem quanto 
ao conteúdo com os dois crimes de Édipo, que matou 
com o pai e casou com a mãe, e com os dois desejos 
primitivos da criança que, por não serem suficiente-
mente reprimidos ou por despertarem, talvez consti-
tuam o núcleo de todas as neuroses" ( p . 1 8 6 [349]). 
A refeição totêmica e o assassinato do pai 
P r o s s e g u i n d o s u a investigação a c e r c a d e 
o u t r a s características d o t o t e m i s m o , p a r t i c u l a r -
m e n t e a s u p o s t a existência d e u m a "refeição 
totêmica" originária, F r e u d lança u m a hipóte-
s e a u d a c i o s a s e g u n d o a q u a l o p a i d a h o r d a p r i -
m i t i v a t e r i a s i d o m o r t o e d e v o r a d o p o r s e u s f i -
l h o s n a o r i g e m d o s t e m p o s , e m u m a refeição 
s a c r i f i c i a l : "Um dia, os irmãos expulsos se reuni-
ram, mataram e comeram o pai, o que pôs fim à horda 
paterna. Reunidos, eles se tornaram valentes e pude-
ram realizar o que cada um, tomado individualmen-
te, teria sido incapaz de fazer" ( p . 1 9 9 [361 ]). A c e -
rimónia d e refeição totêmica d a s t r i b o s p r i m i t i -
v a s s e r i a u m a lembrança c o m e m o r a t i v a : "A re-
feição totêmica, que é talvez a primeira festa da hu-
manidade, seria a reprodução e uma espécie de festa 
comemorativa desse ato memorável e criminoso que 
serviu de ponto de partida para tantas coisas: orga-
nizações sociais, restrições morais, religiões" ( p . 2 0 0 -
2 0 1 [361 ]). T e n d o a s s i m s a c i a d o s e u ódio, o s f i -
l h o s começaram a s e n t i r a consciência d e c u l p a 
e o d e s e j o d e s e r e c o n c i l i a r e m c o m o p a i o f e n d i -
d o . D e s s e s e n t i m e n t o d e c u l p a d e c o r r e r i a a r e -
ligião totêmica a c o m p a n h a d a d e s e u s d o i s t a -
b u s f u n d a m e n t a i s , a proibição d e m a t a r o a n i -
m a l t o t e m , r e p r e s e n t a n t e d o p a i , e a proibição 
d o i n c e s t o . S e g u n d o F r e u d , e s s a consciência d e 
c u l p a e s t a r i a não a p e n a s n a o r i g e m d a religião 
totêmica, m a s também n a o r i g e m d e t o d a s r e l i -
giões, d a s o c i e d a d e e d a m o r a l : "A sociedade re-
pousa agora sobre uma falta comum, sobre um crime 
cometido em comum; a religião, sobre o sentimento 
de culpa e sobre o arrependimento; a moral, sobre as 
necessidades dessa sociedade, de um lado, e sobre a 
necessidade de expiação engendrada pelo sentimento 
de culpa, de outro" ( p . 2 0 5 [365]). 
O sacrifício totêmico na origem das religiões 
F r e u d v a i m a i s l o n g e e m o s t r a q u e a religião 
c o n s t i t u i a expressão e x t r e m a d a ambivalência 
c o m relação a o p a i : d e f a t o , a eliminação d o p a i -
e s u a incorporação p e l o s irmãos p a r a q u e t o r -
n a s s e m s e m e l h a n t e s a o p a i - t e r i a s i d o s u c e d i d a 
d e u m a exaltação d o p a i m o r t o , i d e a l i z a d o e 
t r a n s f o r m a d o e m d e u s d a t r i b o . A s s i m , a l e m -
brança d o p r i m e i r o g r a n d e a t os a c r i f i c i a l e s t a r i a 
p e r p e t u a d a d e m a n e i r a indestrutível, e o s vários 
d e s d o b r a m e n t o s p o s t e r i o r e s d o p e n s a m e n t o r e -
l i g i o s o s e r i a m u m a f o r m a d e racionalizá-lo. E l e 
vê a demonstração d i s s o n o c r i s t i a n i s m o , e m q u e 
C r i s t o s a c r i f i c o u s u a própria v i d a p a r a r e d i m i r 
s e u s irmãos d o p e c a d o o r i g i n a l : "No mito cristão, 
o pecado original resulta incontestavelmente de uma 
ofensa contra o Deus Pai" ( p . 2 3 0 [374]). 
P a r a c o n c l u i r , F r e u d s e i n d a g a s o b r e a m a -
n e i r a c o m o s e p e r p e t u o u d u r a n t e milénios a 
consciência d e c u l p a l i g a d a à m o r t e d o p a i , à 
r e v e l i a d e indivíduos e d e gerações. E l e supõe 
q u e e x i s t a u m a "alma do grupo" o u "psique de 
massa" análoga à "alma individual" o u "psique 
individual" q u e s e p e r p e t u a d e u m a geração a 
142 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
o u t r a p a r a além d a "comunicação direta e da tra-
dição". E s s e p r o c e s s o a i n d a é p o u c o c o n h e c i -
d o : "Em geral, a psicologia de grupo se preocupa 
muito pouco em saber por que meios se dá a conti-
nuidade da vida psíquica das sucessivas gerações. 
Essa continuidade é assegurada em parte pela here-
ditariedade das disposições psíquicas que, no entan-
to, precisam ser estimuladas por certos acontecimen-
tos da vida individual para se tornarem eficazes. 
Assim, é preciso interpretar o verso do poeta: 'Aquilo 
que herdaste de teus pais conquista-o para fazê-lo 
teu'" ( G o e t h e , Faust I, v . 6 8 2 - 6 8 3 ; L a N u i t ( m o -
nólogo d e F a u s t o ) ( p . 2 2 2 [379]). F r e u d t e r m i -
n a s u a o b r a e s t a b e l e c e n d o u m a distinção e n -
t r e o neurótico e o p r i m i t i v o : "No neurótico, diz 
e l e , a ação é completamente inibida e totalmente 
substituída pela ideia. O primitivo, ao contrário, 
não conhece entraves a ação; suas ideias transfor-
mam-se imediatamente em atos; poderíamos dizer 
inclusive que o ato substitui a ideia, e por isso (...) 
podemos arriscar esta afirmação: 'No princípio era 
o ato'" ( p . 2 2 5 - 2 2 6 [382]). 
P Ó S - F R E U D I A N O S 
Uma ob ra v i s i oná r i a q u e p r o v o c o u as cr í t i cas 
Embora esta ob ra tenha provocado inúmeras críticas desde seu lançamento, tanto por parte dos antropó-
logos c o m o dos psicanal istas, os debates a inda hoje estão longe de se esgotarem, c o m o revelam as 
ci tações a seguir extraídas de uma literatura part icularmente abundante sobre a questão. 
Críticas das hipóteses etnológicas 
Em 1920, o e tnó logo Kroeber foi um dos primeiros a levantar objeções em relação a Totem e tabu. Ele contes-
tou tanto sua metodologia quanto suas conclusões teóricas, e rejeitou a hipótese de uma or igem sociorreligiosa 
da civilização suger ida por Freud. Contudo, mostrou-se aberto à utilização das descobertas da psicanálise na 
pesquisa antropológica. Outros críticos se voltaram contra a própria pessoa de Freud, c o m o D. Freeman 
(1967), para q u e m a teoria do assassinato original era essencialmente a expressão da ambivalência de Freud 
em relação à f igura de seu pai. De maneira geral, as posições tomadas por Freud foram contestadas não 
apenas em razão do "darwin ismo social" em que se inspirou, mas também porque a maior partes dos espe-
cialistas rejeitou as bases etnológicas e antropológicas em que se apoia Totem e tabu. 
A filogênese, uma questão polémica 
Uma das principais críticas às teses apresentadas por Freud em Totem e tabu partiu dos própr ios psicanalis-
tas, e vale a pena examiná-la aqui , pois, depois de ter lido o conjunto da obra de Freud, estou convencido de 
que ele cont inua sendo um precursor i luminado por ter mostrado a importância da transmissão fi logenética. 
Essa questão controversa diz respeito à hipótese da transmissão de traços mnésicos por gerações sucessi-
vas, desde as or igens da humanidade, concepção a que Freud recorre na maior parte de seus trabalhos. De 
fato, ele dist ingue o processo de desenvolvimento individual da infância à idade adulta - a ontogênese - e o 
processo evolutivo do género humano, das origens aos nossos dias - a f i logênese. Segundo ele, traços de 
acontecimentos t raumát icos ocorr idos ao longo da história da humanidade ressurgiriam em cada indivíduo e 
contribuiriam para estruturar a personal idade. Por exemplo, em Totem e tabu ele considera que o complexo 
de Édipo e o sent imento de culpa de cada indivíduo estariam fundados em elementos pessoais, l igados ao 
contexto familiar, aos quais se acrescentaria o traço "histórico" do assassinato do pai da horda primitiva, 
remontando à or igem da humanidade. 
Ainda hoje, numerosos psicanalistas rejeitam a hipótese de uma transmissão fi logenética que implicaria ao 
mesmo tempo a biologia e a genética. Alguns apelam a argumentos de ordem técnica, dizendo que, em relação 
à sua prática cotidiana, pouco importa a origem das pulsões e dos conflitos: qualquer que seja a parte do 
adquir ido e a parte do inato, isso não muda em nada a interpretação, de modo que, para eles, essa distinção é 
puramente teórica. Outros apelam a um argumento de ordem psicológica, e afirmam que Freud recorre a esse 
tipo de explicação filogenética sempre que sua compreensão pela ontogênese topa com a "rocha biológica", 
como ele próprio reconhece em seus momentos de dúvida. Contudo, estou convencido da intervenção de uma 
Continua Q 
L e r F r e u d 143 
£ Continuação 
causalidade psíquica pela fi logênese, como sustenta, entre outros, D. Braunschweig (1991), ainda que não se 
d isponha de conhecimentos suficientes no que se refere às bases biológicas sobre as quais se efetua uma 
transmissão filogenética. Estou certo de que Bion abriu um caminho na psicanálise ao introduzir a noção de 
"preconcepção", que ele entende como uma capacidade inata de ter experiências psicológicas. A preconcepção 
ainda "não experimentada" espera unir-se a uma "realização", a partir da qual se torna uma "concepção". 
Há a lgumas décadas, contata-se u m interesse crescente pelos t rabalhos psicanalít icos pós- f reudianos 
acerca de um aspecto particular da t ransmissão, a t ransmissão t ransgeracional , fenómeno observado c o m 
f requência em clínica. Essa t ransmissão se desenvolve através de processos psíquicos de ident i f icação 
inconsciente, passando sucessivamente de uma geração a outra, e t omando caminhos diferentes daque-
les postu lados na forma de t ransmissão f i logenética. 
De resto, acho que seria desejável que os psicanal istas se inspirassem igualmente em fenómenos de 
t ransmissão da pulsão que se verif ica nos animais, c o m o Freud sugere em 1939 em Moisés e o monoteísmo. 
Desse ponto de vista, estou convenc ido de que os psicanalistas contemporâneos tirariam proveito de um 
melhor conhec imento das descober tas recentes da etnologia que não dominam suf ic ientemente, e que 
esses novos dados contr ibuir iam para aproximar discipl inas complementares que têm c omo objet ivo co-
m u m conhecer melhor a natureza humana (R. Schaeppi , 2002). 
Por uma psicologia psicanalítica 
A despeito de seus aspectos contestados, há fortes razões para se considerar Totem e tabu como o ponto de 
partida de uma verdadeira antropologia psicanalítica e de uma etnopsicanálise. Várias obras testemunham a 
riqueza desses desenvolvimentos. A. Kardiner (1939), psicanalista americano, procurou conciliar psicanálise e 
antropologia social, e elaborou a noção de "personalidade de base", que concebeu como uma integração de 
normas sociais no nível subconsciente. G. Roheim (1950), antropólogo e psicanalista húngaro, foi o primeiro a 
entrar nesse terreno ao introduzir na pesquisa antropológica não apenas a noção de complexo de Édipo, mas 
também o conjunto de concepções psicanalíticas.Ele analisou os sonhos dos indígenas, seus jogos, seus 
mitos, suas crenças, tomando-se o pioneiro dessa disciplina. Se, para G. Roheim, a universalidade dos meca-
nismos psíquicos em todas as culturas não deixa dúvida, outros autores comparti lham seus pontos de vista, 
c o m o W. Múnsterberger (1969), Hartmann, Kris e Loewenstein, assim como R Parin e F. Morgenthaler (in 
Múnsterberger, 1969). Em compensação, antropólogos como Malinowski e M. Mead põem em dúvida a univer-
sal idade do complexo de Édipo, mas esse tema ainda é controverso. Quanto a G. Devereux (1972), ele adota 
uma posição "complementarista": para ele, a psicanálise e a antropologia apresentam pontos de vista diferen-
tes mas complementares sobre uma mesma realidade, sendo que uma a observa de dentro e a outra de fora. 
Os desenvolvimentos teóricos de Devereux culminaram em uma clínica etnopsicanalítica que leva em conta as 
particularidades contratransferenciais na prática da psicanálise transcultural. 
C R O N O L O G I A DOS C O N C E I T O S FREUDIANOS 
Ambiva lênc ia - amor-c dio - an imismo - consciência moral - mag ia - assassinato do pai - f i logênese -
sent imento de cu lpa - abu do incesto - onipotência do pensamento - t ransmissão f i logenét ica 
L e r F r e u d 157 
t e r i o r ( i n d i f e r e n t e o u d e s p r a z e r o s o ) , m a s e n -
t r e u m "ego de prazer" q u e i n c l u i o s o b j e t o s q u e 
t r a z e m a satisfação e u m mundo externo q u e s e 
t o r n a u m a f o n t e d e d e s p r a z e r , p o r s e r p e r c e -
b i d o c o m o e s t r a n h o : "O ego-realidade do início, 
que distinguiu interior e exterior com a ajuda de 
um bom critério objetivo, transforma-se assim em 
um ego de p r a z e r purificado que situa o caráter 
de prazer acima de qualquer outro. O mundo ex-
terno se decompõe para o ego em uma parte 'pra-
zer , que ele incorporou, e um resto que lhe é estra-
nho" ( p . 3 7 [180-181]). E m o u t r a s p a l a v r a s , a 
intervenção d o o b j e t o n a f a s e d o n a r c i s i s m o 
primário i n s t a l a então o "odiar" q u e s e opõe a 
"amar": "O exterior, o objeto, o odiado seriam idên-
ticos no início. Quando mais tarde o objeto se reve-
la como uma fonte de prazer, ele é amado, mas tam-
bém incorporado ao ego, de modo que, para o ego 
de prazer purificado, o objeto coincide de novo com 
o estranho e o odiado" ( p . 3 8 [181]). 
O amor, exp ressão | a t endênc ia sexua l to ta l 
Q u a n d o o o b j e t o é f o n t e d e p r a z e r , d i z e m o s 
então q u e "amamos" o o b j e t o , e q u a n d o e l e é f o n -
t e d e p r a z e r nós o "odiamos". M a s , i n d a g a - s e 
F r e u d , será q u e s e p o d e d i z e r q u e u m a pulsão, 
n a l i n g u a g e m c o r r e n t e , "ama" o o b j e t o ? C e r t a -
m e n t e não, r e s p o n d e e l e , a s s i m c o m o não s e 
p o d e d i z e r q u e u m a pulsão "odeia" o o b j e t o . E 
p o r i s s o , i n s i s t e a i n d a , q u e "os termos 'amor' e 
'ódio' não devem ser utilizados para a relação das 
pulsões com seus objetos, mas reservados para as re-
lações do ego-total com os objetos" ( p . 3 9 [182]). N o 
máximo p o d e m o s u t i l i z a r o s t e r m o s "eu gosto, 
eu aprecio" n o q u e r e f e r e a o s o b j e t o s q u e s e r v e m 
p a r a a conservação d o e g o (alimentação, e t c ) . 
Q u a l é então o e s t a t u t o d a p a l a v r a "amar" 
q u a n d o e l a é p l e n a m e n t e r e a l i z a d a ? P a r a 
F r e u d , o a m o r a p a r e c e i n e q u i v o c a m e n t e n a f a s e 
g e n i t a l , q u a n d o s e e s t a b e l e c e a síntese d a s 
pulsões p a r c i a i s d e n t r o d e u m "ego-total" ( p . 3 9 
[182]): "O emprego mais adequado da palavra 'amar' 
encontra-se na relação do ego com seu objeto sexual: 
isso nos ensina que o emprego dessa palavra para 
uma tal relação só pode começar com a síntese de 
todas as pulsões parciais da sexualidade sob o pri-
mado dos órgãos genitais e a serviço da função de 
reprodução" ( p . 4 0 [182]). 
N o q u e s e r e f e r e a o e m p r e g o d a p a l a v r a 
"ódio", e l a não t e m u m a relação tão íntima c o m 
o p r a z e r s e x u a l q u a n t o o a m o r , e a p e n a s a r e -
lação c o m o d e s p r a z e r p a r e c e d e t e r m i n a n t e : 
"O ego odeia, detesta, persegue com a intenção de 
destruir todos os objetos que são para ele fontes de 
desprazer, que significam uma frustração da satis-
fação sexual ou da satisfação das necessidades de 
conservação" ( p . 4 0 [183]). S e g u n d o F r e u d , a o r i -
g e m d o ódio d e v e r i a s e r b u s c a d a n a l u t a d o 
e g o p e l a autoconservação, i s t o é, n o ódio s e n -
t i d o e m relação a o o b j e t o q u e não s a t i s f a z a s 
pulsões d e autoconservação, m a i s d o q u e n a 
v i d a s e x u a l . Lá, n o nível d a autoconservação, 
s e e n c o n t r a r i a , s e g u n d o F r e u d , a o r i g e m d o 
c o n f l i t o d e ambivalência, p a r t i c u l a r m e n t e m a -
n i f e s t a n a s n e u r o s e s . 
A g é n e s e d o a m o r e d o ó d i o a o 
l o n g o d o d e s e n v o l v i m e n t o 
N a o r i g e m , d i z F r e u d , o e g o é c a p a z d e s a -
t i s f a z e r e m p a r t e s u a s pulsões auto-eróticos, e , 
p o r t a n t o , o a m o r é narcísico. D e p o i s , o e g o s e 
d i r i g e p a r a o s o b j e t o s : "Na origem, o amor é 
narcísico, pois ele se estende aos objetos que foram 
incorporados ao ego ampliado, e expressa a tendên-
cia motriz do ego a esses objetos na medida em que 
eles são fontes de prazer" ( p . 4 1 [183]). F r e u d d e s -
c r e v e e m s e g u i d a a s f a s e s p r e l i m i n a r e s d o 
a m o r , começando p e l a p r i m e i r a f i n a l i d a d e , q u e 
é incorporar o u devorar, f a s e a m b i v a l e n t e p o r 
excelência e m q u e o indivíduo não s a b e s e d e s -
trói o o b j e t o p o r a m o r o u p o r ódio; d e p o i s , v e m 
a f a s e pré-genital sádica a n a l e , f i n a l m e n t e , a 
f a s e a n a l : "Foi só com a organização genital que o 
amor se tornou o oposto do ódio" ( p . 4 2 [184]). E l e 
c o n c l u i q u e o ódio é d e f i n i t i v a m e n t e m a i s a n -
t i g o q u e o a m o r e q u e o a m o r a p a r e c e d e p o i s , 
q u a n d o o e g o s e t o r n a u m e g o t o t a l . 
É i s s o q u e e x p l i c a também a n a t u r e z a d a 
ambivalência, i s t o é, d o ódio j u s t a p o s t o a o 
a m o r e m relação a o m e s m o o b j e t o : "O ódio 
mesclado ao amor provém em parte de fases preli-
minares do amor, não totalmente superadas, e em 
parte se funda na recusa das pulsões do ego, reações 
que, nos frequentes conflitos entre os interesses do 
ego e os do amor, podem invocar motivos reais e 
atuais. Assim, nos dois casos, esse elemento de ódio 
158 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
encontra sua fonte nas pulsões de conservação do 
ego" ( p . 4 2 [184]). F i n a l m e n t e , F r e u d e v o c a o 
s e n t i m e n t o d e ódio q u e p o d e a p a r e c e r d e p o i s 
d e u m a r u p t u r a d e relação d e a m o r , d e s t a c a n -
d o q u e n e s s e s c a s o s "temos então a impressão de 
ver o amor se transformar em ódio" ( p . 4 3 [184]), 
m a s não e x p l i c a m e l h o r o q u e e n t e n d e p o r e s s a 
transformação. E l e t e r m i n a e s s e t r a b a l h o m e n -
c i o n a n d o a p o s s i b i l i d a d e d e q u e o ódio a s s u -
m a u m caráter erótico q u a n d o r e g r e s s a à f a s e 
sádica, a n u n c i a n d o a s s i m f u t u r o s d e s e n v o l -
v i m e n t o s s o b r e o s a d o m a s o q u i s m o c o m o t a m -
bém s o b r e o c o n f l i t o f u n d a m e n t a l e n t r e pulsão 
d e v i d a e pulsão d e m o r t e . 
• " R E P R E S S Ã O " (1915d) 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1915d), "Lerefoulement", t rad. J . Laplanche 
e J.-B. Pontalis, in Metapsychologie, Paris, Gal l imard, 1968 , p. 45-63 [as páginas indicadas entre colchetes 
remetem ás OCF.P, XIII, p. 187-201]. 
O pape l d a r e p r e s s ã o 
U m a pulsão está e s s e n c i a l m e n t e e m b u s c a 
d o p r a z e r d a satisfação, d e a c o r d o c o m a " p r i -
m e i r a t e o r i a d a s pulsões" à q u a l F r e u d a d e r e e m 
1 9 1 5 . M a s , e m s u a b u s c a d e p r a z e r , a pulsão s e 
c h o c a c o m resistências q u e t e n t a m torná-lo i n e -
f i c a z . E n t r e e s s a s resistências, a repressão o c u -
p a u m l u g a r p a r t i c u l a r p o r s e t r a t a r d e u m c o m -
p r o m i s s o e n t r e a f u g a - impossível e m f a c e d e 
u m a pulsão v i n d a d e d e n t r o - e a condenação. 
P o r q u e u m a pulsão d e v e r i a s e r r e p r i m i d a , v i s -
t o q u e e l a está e m b u s c a d o p r a z e r d a s a t i s f a -
ção? P o r q u e , e m b o r a a satisfação d a pulsão p r o -
d u z a o p r a z e r e m u m a p a r t e d o p s i q u i s m o , e s s e 
p r a z e r p a r e c e inconciliável c o m a s exigências d e 
u m a o u t r a p a r t e d o p s i q u i s m o , e é, então, q u e 
intervém o "julgamento pela condenação" q u e d e -
s e n c a d e i a a repressão: "A essência da repressão 
consiste exatamente nisto: afastar e manter à distân-
cia do consciente" ( p . 4 7 [190]). P o r t a n t o , a r e p r e s -
são não é u m m e c a n i s m o d e d e f e s a p r e s e n t e n a 
o r i g e m , m a s s e i n s t a l a só d e p o i s q u e s e e s t a b e -
l e c e a separação e n t r e c o n s c i e n t e e i n c o n s c i e n t e . 
C o m e s s a separação, F r e u d lança a hipótese d e 
q u e o u t r o s m e c a n i s m o s d e d e f e s a c o n t r a a s 
pulsões estão a t i v o s , c o m o a transformação e m 
s e u contrário o u o r e t o r n o à própria p e s s o a . 
O d e s t i n o d a r e p r e s e n t a ç ã o 
F r e u d r e t o m a a q u i , s e m mencioná-las e x p l i -
c i t a m e n t e , a s hipóteses q u e lançara e m s e u s a r -
t i g o s d e 1 8 9 4 e 1 8 9 6 s o b r e a s n e u r o p s i c o s e s d e 
d e f e s a . E l e d i s t i n g u e d o i s e l e m e n t o s n o r e p r e -
s e n t a n t e psíquico d a pulsão q u e p o d e m s o f r e r 
a repressão: a representação e o a f e t o , s e n d o q u e 
c a d a u m s o f r e u m d e s t i n o d i f e r e n t e . N o q u e d i z 
r e s p e i t o à representação, e x i s t e s e g u n d o F r e u d 
u m a repressão originária: "Primeira fase da re-
pressão que consiste em que o representante psíquico 
(representante-representação) da pulsão se depara 
com a recusa de ser assumido no consciente" ( p . 4 8 
[191]). P o r e x e m p l o , n o p e q u e n o H a n s , a a n -
gústia d e s e r m o r d i d o p e l o c a v a l o o c u l t a a a n -
gústia i n c o n s c i e n t e d e s e r c a s t r a d o p e l o p a i , s e n -
d o a i d e i a d e " p a i " a representação r e p r i m i d a . 
A s e g u n d a f a s e d a repressão, a repressão p r o -
p r i a m e n t e d i t a , "refere-se aos derivados psíquicos 
do representante reprimido, ou então essas cadeias 
de pensamento que, vindas de outra parte, estabele-
ceram relações associativas com ele" ( p . 4 8 [191]). 
A repressão r e f e r e - s e , p o r t a n t o , não a p e n a s à 
representação p r o p r i a m e n t e d i t a , m a s também 
a o s derivados d o i n c o n s c i e n t e , i s t o é, às p r o d u -
ções e m conexão, m a i s o u m e n o s a f a s t a d a s d o 
q u e é r e p r i m i d o , q u e p o r s u a v e z são o b j e t o d e 
d e f e s a s . D e s s e p o n t o d e v i s t a , o s s i n t o m a s são 
i g u a l m e n t e d e r i v a d o s d o r e p r i m i d o . M a s a r e -
pressão d a pulsão não d e s a p a r e c e , l o n g e d i s s o , 
c o n t i n u a a s e o r g a n i z a r n o i n c o n s c i e n t e , a p r o -
d u z i r d e r i v a d o s e "a se proliferar na obscuridade" 
( p . 4 9 [192]). E s s e p r o c e s s o contínuo t e m c o m o 
consequência q u e a repressão p r o p r i a m e n t e d i t a 
é u m a repressão a posteriori, e x p l i c a F r e u d . P o r 
e x e m p l o , n o p e q u e n o H a n s , a angústia d o c a -
v a l o , a i n c a p a c i d a d e d e s a i r n a r u a o u a l e m -
brança d a q u e d a d o c a v a l o d e u m c o l e g a , e t c , 
são t o d o s d e r i v a d o s d o r e p r i m i d o . 
E s s e s d e r i v a d o s i n c o n s c i e n t e s p o d e m t e r l i -
v r e a c e s s o à consciência q u a n d o estão s u f i c i e n -
t e m e n t e a f a s t a d o s d o conteúdo r e p r i m i d o . É 
então q u e o p s i c a n a l i s t a c o n s e g u e circunscrevê-
l o s através d a s associações l i v r e s d o p a c i e n t e . 
L e r F r e u d 159 
A s c a r a c t e r í s t i c a s < a r e p r e s s ã o 
S e g u n d o F r e u d , a repressão t r a b a l h a "de 
maneira inteiramente individual" ( p . 5 2 [194]), t r a -
t a n d o c a d a d e r i v a d o psíquico e m p a r t i c u l a r . 
Além d i s s o , a repressão é e x t r e m a m e n t e mó-
v e l e e x i g e u m g a s t o d e e n e r g i a i n c e s s a n t e , d e 
m o d o q u e dependerá d o f a t o r quantitativo a 
manutenção n o i n c o n s c i e n t e d o conteúdo psí-
q u i c o r e p r i m i d o d a pulsão, o u s u a reaparição 
n o c o n s c i e n t e : "Mas o fator quantitativo se mos-
tra decisivo para o conflito: desde que a representa-
ção chocante em seu conteúdo se reforça além de um 
certo grau, o conflito se torna atual, e é precisamen-
te a reativação que causa a repressão" ( p . 5 4 [195]). 
O d e s t i n o d o afet< 
D e p o i s d e t e r m o s t r a d o o d e s t i n o d a r e p r e -
sentação, F r e u d m o s t r a a g o r a o q u e s o f r e o 
a f e t o . S e g u n d o e l e , o a f e t o - o u , m a i s p r e c i s a -
m e n t e , o "quantum de afeto" c o n s t i t u i o e l e m e n -
t o q u a n t i t a t i v o d a pulsão s u b m e t i d a à r e p r e s -
são: "Ele corresponde à pulsão na medida em que 
esta se separa da representação e encontra uma ex-
pressão correspondente à sua quantidade nos pro-
cessos que são sentidos sob a forma de afetos. Daqui 
em diante, na descrição de um caso de repressão, será 
preciso buscar separadamente o que advém da re-
presentação por ter sido reprimido e o que advém da 
energia pulsional associada a ela" ( p . 5 5 [195]). S e 
r e t o m a m o s o e x e m p l o d o p e q u e n o H a n s , o 
a f e t o s u b m e t i d o à repressão é o i m p u l s o h o s t i l 
d a criança e m relação a o s e u p a i s , d e s e j o a s s a s -
s i n o q u e p e r t e n c e a o c o m p l e x o d e Édipo. 
O d e s t i n o d o representante-representação 
d a pulsão é s e r a f a s t a d o d o c o n s c i e n t e , c o m o 
v i m o s a n t e r i o r m e n t e , m a s o d o f a t o r q u a n t i t a -
t i v o d o r e p r e s e n t a n t e d a pulsão p o d e s e r t r i p l a : 
a pulsão p o d e s e r r e p r i m i d a e não d e i x a r n e -
n h u m traço, p o d e s e m a n i f e s t a r c o m u m a c o l o -
ração q u a n t i t a t i v a , o u p o d e s e t r a n s f o r m a r e m 
angústia. D a d o q u e a f i n a l i d a d e d a repressão é 
e v i t a r o d e s p r a z e r , "o resultado disso é que o desti-
no do q u a n t u m de afeto pertencente ao represen-
tante é de longe maior que o da representação: é ela 
que decide o julgamento que fazemos sobre o proces-
so de repressão" ( p . 5 6 [196]). F r e u d o b s e r v a e m 
s e g u i d a q u e a repressão é a c o m p a n h a d a d e f o r -
mação d e s u b s t i t u t o s e d e s i n t o m a s e s e p e r -
g u n t a s e e s t e s últimos s e r i a m o p r o d u t o d e u m 
r e t o r n o d o r e p r i m i d o p o r v i a s m u i t o d i f e r e n -
t e s . E l e t e r m i n a co m u m a demonstração m u i t o 
e s c l a r e c e d o r a p a r a a prática clínica d e s c r e v e n -
d o e m d e t a l h e a ação d a repressão n a s três m a i o -
r e s n e u r o p s i c o s e s . N a h i s t e r i a d e angústia ( o u 
f o b i a ) , a s s i m c o m o n a f o b i a d e a n i m a i s , a r e -
pressão f r a c a s s a , e n o máximo c o n s e g u e s u b s -
t i t u i r a representação p o r u m a o u t r a , s e m c o n -
s e g u i r s u p r i m i r a angústia. N a v e r d a d e i r a h i s -
t e r i a d e conversão, a repressão c o n s e g u e e l i m i -
n a r c o m p l e t a m e n t e o quantum d e a f e t o , o q u e 
e x p l i c a a " b e l a indiferença histérica"; m a s é a o 
preço d e i m p o r t a n t e s formações d e s u b s t i t u t o s 
sintomáticos q u e a t r a e m p o r condensação a t o -
t a l i d a d e d o m v e s t i m e n t o . F i n a l m e n t e , n a n e u -
r o s e o b s e s s i v a , é a h o s t i l i d a d e e m relação à p e s -
s o a a m a d a q u e é r e p r i m i d a , m a s a repressão 
não p e r s i s t e e o a f e t o r e t o r n a e m f o r m a d e i n -
termináveis auto-recrirninações. 
EVOLUÇÃO DOS C O N C E I T O S FREUDIANOS 
O q u e é u m afe to? 
Quando se procura definir o que é um afeto, logo se topa com problemas complexos, pois esse é um termo que 
assume significados muito diversos em psicanálise. O afeto é uma noção presente desde o início em Freud, e 
ele a utiliza em duas acepções principais: em sentido amplo, o afeto designa um estado emocional em geral, de 
qual idade e intensidade variáveis, enquanto em sentido estreito o afeto constitui a expressão quantitativa da 
pulsão, em uma teoria que leva em conta a intensidade da energia pulsional. É em Estudos sobre a histeria 
(1895d) que o afeto adquire uma importância central, na medida em que Freud atribui a or igem dos sintomas a 
Continua Q 
160 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
H E V O L U Ç Ã O D O S C O N C E I T O S FREUDIANOS • Continuação 
um "afeto imobil izado" que não pôde ser descarregado. A finalidade da ação terapêutica é a descarga dessa 
emoção c o m a volta de um acontecimento traumático esquecido, descarga que constitui a ab-reação. Desde 
então, Freud atribui dois destinos diferentes à representação e ao afeto, e destacará a d imensão económica do 
afeto referindo-se a "quantum de afeto" em Artigos sobre metapsicologia em 1915. 
Poster iormente, a noção de afeto terá uma extensão mais ampla, passando a englobar u m a grande varie-
dade de afetos, c o m o a angúst ia, o luto, o sent imento de culpa, o amor e o ód io , e t c , sobre tudo a partir de 
Inibições, sintomas e ansiedade (1926d). Apenas a lguns desses efeitos serão ob jeto de es tudos mais 
deta lhados por parte de Freud, que estabelecerá uma estreita relação entre eles e o desenvolv imento do 
ego, sendo que para ele o ego é verdadeiramente o lugar do afeto. Contudo, se a noção de afeto adquir iu 
uma acepção que ul t rapassa amplamente a perspect iva energét ica compreend ida na expressão "quantum 
de afeto", ela a inda está longe de ser expl ici tada na teoria psicanalít ica atual. 
• " O I N C O N S C I E N T E " (1915e) 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1915e), "Ulnconsc ient" , t rad. J . Laplanche 
e J.-B. Pontal is, in Metapsychologie, Paris, Gal l imard, 1968, p. 65-121 (os subtítulos a seguir são os 
mesmos ut i l izados por Freud [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R XIII, p. 203-242]. 
J u s t i f i c a ç ã o d o i n c o n s c i e n t e 
F r e u d d e d i c a e s t e capítulo a d e m o n s t r a r a 
existência d o i n c o n s c i e n t e , a f i r m a n d o q u e a p s i -
canálise e v i d e n c i o u p r o c e s s o s psíquicos q u e são 
"inconscientes em si", e q u a n d o são p e r c e b i d o s 
p e l a consciência p o d e - s e c o m p a r a r s u a p e r c e p -
ção à percepção d o m u n d o e x t e r n o p e l o s órgãos 
d o s s e n t i d o s . E l e l e m b r a i g u a l m e n t e q u e o p r o -
c e s s o d e repressão não c o n s i s t e e m s u p r i m i r u m a 
representação d a pulsão, m a s e m i m p e d i r q u e 
e l a s e t o r n e c o n s c i e n t e , d e m o d o q u e c o n t i n u a 
p r o d u z i n d o e f e i t o s q u e a t i n g e m a consciência, 
e n q u a n t o e l a própria p e r m a n e c e i n c o n s c i e n t e . 
O p o n t o d e v i s t a t ó p i c o 
Até então, F r e u d s e i n t e r e s s a r a s o b r e t u d o 
p e l o " p o n t o d e v i s t a dinâmico", i s t o é, p e l a n a -
t u r e z a d o s c o n f l i t o s n a o r i g e m d a n e u r o s e , 
c o m o , p o r e x e m p l o , q u a n d o a t r i b u i a f o b i a d o 
p e q u e n o H a n s à angústia i n c o n s c i e n t e d e s e r 
c a s t r a d o p o r s e u p a i . C o m a introdução d e u m a 
distinção e n t r e i n c o n s c i e n t e , pré-consciente e 
c o n s c i e n t e , e l e p a s s a a s e i n t e r e s s a r p e l o s p r o -
c e s s o s psíquicos d e u m n o v o ângulo, o d e s u a 
localização e m l u g a r e s topográficos d i s t i n t o s d o 
a p a r e l h o psíquico, e daí o n o m e "ponto de vista 
tópico" (topos, t e r m o g r e g o q u e s i g n i f i c a l u g a r , 
p o r e x e m p l o , geográfico). M a s F r e u d d e i x a c l a -
r o q u e e s s a localização e m d i v e r s a s regiões psí-
q u i c a s não t e m n a d a a v e r c o m a a n a t o m i a . 
O q u e l e v a F r e u d a i n t r o d u z i r o c o n c e i t o d e 
pré-consciente ( P c s ) é o f a t o d e q u e u m "ato psíqui-
co" p a s s a p o r s u a s f a s e s a n t e s d e s e t o r n a r v e r -
d a d e i r a m e n t e c o n s c i e n t e . E l e o b s e r v a d e f a t o 
q u e e n t r e e s s a s d u a s f a s e s i n t e r c a l a - s e "uma espé-
cie de prova ( c e n s u r a ) " ( p . 7 6 [212]); a p r i m e i r a 
c e n s u r a s e o p e r a e n t r e o i n c o n s c i e n t e e o c o n s -
c i e n t e e p o d e i m p e d i r o a t o psíquico d e " s e t o r -
n a r c o n s c i e n t e " , m a s s e a c a s o e l e c h e g a à c o n s -
ciência, c h o c a - s e c o m u m a s e g u n d a c e n s u r a a n -
t e s d e s e t o r n a r p l e n a m e n t e c o n s c i e n t e . É n e s s e 
nível q u e F r e u d s i t u a o pré-consciente: "Ele [ o 
a t o psíquico] ainda não é consciente, mas sim sus-
cetível de se t o r n a r consciente ( . . . ) " ( p . 7 6 [212]). 
F r e u d p r o c u r a e x p l i c a r e m s e g u i d a o m o d o 
d e p a s s a g e m d e u m a representação i n c o n s -
c i e n t e a u m a representação c o n s c i e n t e e m o s -
t r a q u e o p r o c e s s o s e d e s e n v o l v e e m d o i s m o -
m e n t o s . D e f a t o , a experiência clínica m o s t r a 
q u e não b a s t a q u e u m a representação r e p r i m i -
d a a n t e r i o r m e n t e s e t o r n e c o n s c i e n t e p a r a q u e 
s e u s e f e i t o s s e j a m s u p r i m i d o s : "Se comunica-
mos a um paciente uma representação que ele re-
primiu em um determinado momento e que nós 
L e r F r e u d 169 
EVOLUÇÃO DOS C O N C E I T O S FREUDIANOS 
O s d e s e n v o l v i m e n t o s pos te r i o res fe i tos po r F reud e m " L u t o e m e l a n c o l i a " 
Para compreender melhor os mecan ismos psíquicos da depressão descr i tos por Freud é preciso cons ide-
rar os importantes desenvolv imentos feitos por ele poster iormente. Eis a lguns pontos de referência aos 
quais retornaremos ao abordar as obras em questão. 
A introdução do conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte (1920) 
O papel central desempenhado pelas pulsões autodestrutivas nos pacientes depressivos foi um dos fatores 
que conduziram Freud a rever sua primeira teoria das pulsões fundada no princípio do prazer, tal c o m o ele 
havia formulado em 1915: de fato, se a f inalidade da pulsão é essencialmente a buscade satisfação, c o m o 
explicar que um depressivo seja levado ao suicídio? Para responder a esse t ipo de questão, Freud introduziu 
e m 1920 uma nova teoria das pulsões, baseada no conflito fundamental entre pulsão de vida e pulsão de 
morte, concepção que ele aplicará a numerosas situações psicopatológicas, entre as quais a melancol ia. 
O conflito entre e g o j id e superego (1923) 
Em 1915, em "Luto e melancolia", Freud atribui as auto-acusações do melancólico à "cr/f/ca" que uma parte do 
ego exerce sobre a outra, evocando uma "consciência moral" análoga à "voz da consciência". Em 1923, ela fará 
dessa "crítica" uma verdadeira instância psíquica que chamará de superego, e a colocará em estreita relação 
c o m outras duas instâncias recém-definidas, o ego e o id. Segundo ele, em condições normais o superego 
exerce uma função reguladora em relação ao ego, que por sua vez se confronta com as exigências pulsionais 
do id. Contudo, na melancolia, Freud constata que o superego exerce um sadismo excessivo em relação ao 
ego, pois nessa afecção, segundo ele, " [o superego] investe contra o ego com uma violência impiedosa, como 
se estivesse possuído por todo o sadismo disponível no indivíduo. (...) O que agora reina no ego é, por assim 
dizer, uma pura cultura da pulsão de morte, e de fato ela consegue quase sempre levar o ego à morte, se este não 
se defender de seu tirano a tempo transformando-o na mania" (1923b, p. 268 [296]). 
A clivagem do ego m927) 
A noção de clivagem do ego já está presente em Freud em "Luto e melancolia", e ele utiliza explicitamente ora 
o termo "clivagem", ora "cisão" do ego, particularmente quando descreve a severidade com que a "consciência 
moral" critica o ego no melancólico. Mais tarde, em "Fetichismo" (1927e), ele completará suas hipóteses sobre 
a cl ivagem do ego considerando que, no caso da depressão, ela é consequência da negação da perda de 
objeto; ele ilustra esse ponto de vista mencionando a análise de dois irmãos que na infância haviam "escotomizado" 
a morte de seu pai, mas que não se tornaram psicóticos: "Havia apenas uma corrente de sua vida psíquica que 
não reconhecia essa morte; uma outra corrente admitia-a plenamente; as duas posições, a que se fundava no 
desejo e a que se fundava na realidade, coexistiam. Essa clivagem, para um de meus dois casos, era a base de 
uma neurose obsessiva medianamente grave" (p.137). Em outros termos, no luto patológico, a noção de cl ivagem 
dá conta de que uma parte do ego nega a realidade da perda, enquanto que a outra a aceita. Em seus últ imos 
trabalhos, Freud atribuirá uma importância cada vez maior aos fenómenos de negação da realidade e de cl ivagem 
do ego. 
P Ó S - F R E U D I A N O S 
O s d e s e n v o l v i m e n t o s k le in ianos e pós -k l e i n i anos a par t i r de Artigos sobre metapsicologia 
M. Klein c o m e ç o u por desenvolver seus pontos de vista part indo da teoria f reudiana clássica e, posterior-
mente, introduziu suas própr ias ideias. Entre os concei tos f reudianos fundamenta is nos quais se apo iou , 
mui tos fo ram expostos em Artigos sobre metapsicologia, par t icularmente em "Pulsões e dest inos das 
pulsões" (1915c), e m "O inconsciente" (1915e), c o m o também em "Luto e melancol ia" (1917e [1915]) . 
Ela não falou de "metapsico log ia" , mas essencialmente apresentou seus concei tos em te rmos clínicos, 
atr ibuindo u m papel central às noções estruturais de posição esquizoparanóide e de pos ição depressiva, e 
a inda ao concei to de identi f icação projetiva. Vamos começar por uma breve rememoração. 
Continua Q 
170 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
PÓS-FREUDIANOS • Continuação 
Uma concepção estrutural do funcionamento psíquico e da mudança 
Ao introduzir a noção de "pos ição" , M. Klein pôde não apenas dist inguir dois estados fundamenta is na 
estrutura do ps iqu ismo, a pos ição esquizoparanóide e a posição depressiva, c o m o t a m b é m entender as 
mudanças estruturais que se observam do longo do processo psicanalít ico. A noção de pos ição é diferente 
da noção de fase c rono lóg ica do desenvolv imento l ibidinal, c o m o a fase oral ou a fase fál ica, pois se trata 
de um concei to estrutural dest inado a refletir o estado momentâneo da organização psíquica e as transi-
ções entre as duas fases. 
Inúmeros fatores estão envolv idos na const i tu ição da posição esquizoparanóide e da pos ição depressiva e 
na transição de u m a a outra, entre os quais: o grau de coesão do ego conforme esteja f ragmentado ou 
integrado, a natureza das relações de objeto conforme sejam parciais ou totais, o nível de defesas confor-
m e se jam pr im i t i vas o u evo lu ídas , etc . Vale ac rescen ta r q u e du ran te a t rans i ção en t re a p o s i ç ã o 
esquizoparanóide e a pos ição depressiva assiste-se à passagem do comp lexo de Éd ipo precoce, que 
pertence ao pr imeiro desenvolv imento infantil segundo Klein, para o comp lexo de Édipo tard io, tal c o m o o 
descreveu Freud. Em outros te rmos, c o m o concei to estrutural de posição, M. Klein consegu iu mostrar que 
a transição d a pos ição esquizoparanóide à posição depressiva constitui a passagem fundamenta l de um 
func ionamento ps icót ico a u m func ionamento sadio. 
Do "ego de prazer purificado" à integração do amor e do ódio 
Tomando como modelo a noção de "ego de prazer purif icado" exposta por Freud em 1915 em "Pulsões e 
destinos das pulsões", assim como as de projeção e introjeção associadas a ela, M. Klein descreve em toda 
criança pequena a evolução dos afetos a partir das primeiras relações de objeto parciais até a relação com o 
objeto separado e total. Lembro os termos em que Freud descreve a noção de "ego de prazer purificado": "Ele 
(o ego) acolhe em si, na medida em que são fontes de prazer, os objetos que se apresentam, introjeta-os 
(segundo a expressão de Ferenczi) e, ao mesmo tempo, expulsa para fora de si aquilo que, em seu interior, 
provoca o desprazer" (p. 37 [80-81]). A partir daí, M. Klein explicitará a natureza da primeira relação do bebé e 
mostrará que ela se constitui com um objeto parcial, o seio da mãe, que se encontra clivado em seio ideal, 
objeto de todas as expectat ivas, e seio persecutório, objeto de ódio e de medo, situação que chama de posição 
esquizoparanóide. Em seguida, ela descreverá a evolução que se produz à medida que a integração do ego e 
dos objetos avança, quando o bebé começa a perceber sua mãe e a amá-la como uma pessoa total, mudança 
definida como o início da posição depressiva. 
Quando se lê o que Freud escreveu em 1915 à luz das concepções kleinianas, contata-se que ele intuiu que há 
uma mudança na qual idade dos afetos e das relações de objeto, mas não conceituou explicitamente essa 
transição em termos de integração e de amor e ódio e de passagem de uma relação de objeto parcial para uma 
relação de objeto total. Eis como ele descreve essa mudança: "Poderíamos dizer rigorosamente que uma pulsão 
"ama" o objeto ao qual se dirige para sua satisfação. Mas dizer que uma pulsão "odeia" um objeto nos choca e 
por isso nos faz crer que os termos "amor" e "ódio" não devem ser utilizados para a relação das pulsões com 
seus objetos, mas reservados para as relações do ego-total com os objetos" (Freud, 1915e, p. 39 [82]). Posterior-
mente, caberá a M. Klein completar as ideias que Freud havia esboçado sobre os destinos do amor e do ódio de 
maneira a aplicá-los na clínica. 
O luto e os estados maníaco-depressivos 
Klein também se inspira nas noções introduzidas por Freud em "Luto e melancol ia" ao edificar sua própria 
teoria dos estados maníaco-depressivos (1935). Ele descobr iu, de fato, que os confl itos entre a agressividade 
e a libido, tal c o m o Freud os descreveu em 1917 na depressão do adulto, t inham uma or igem precoce, e que 
o ponto de f ixação d a depressão se situava já na infância. Estendendo as ideias freudianas sobre o pape/ 
desempenhado pelaagressividade e pelo sent imento de culpa no afeto depressivo, M. Klein atribuiu uma 
grande importância à noção de separação, isto é, ao desejo de restaurar o objeto que foi danif icado pelas 
fantasias agressivas e destrutivas. Ela dist ingue então dois t ipos de reparação: uma reparação normal, cria-
dora, que surge na posição depressiva e que está l igada ao amor e ao respeito pelo objeto, e uma reparação 
patológica, que pode assumir formas diversas. Por exemplo, a reparação maníaca, fundada na negação 
triunfal dos sentimentos depressivos, ou a reparação obsessiva, fundada na compulsão a eliminar magica-
mente a angústia depressiva. 
Continua Q 
L e r F r e u d 171 
0 Continuação 
Defesas mais primitiv s do que a repressão 
Além disso, M. Klein foi levada a rever as ideias de Freud sobre a repressão quando ele acredi tava que 
exist iam mecanismos de defesa que entrariam em jogo antes que se constituísse a repressão propr iamen-
te dita. Ass im, ela estabelece uma dist inção entre os mecan ismos de defesa primit ivos, que afetam a estru-
tura do ego e o f ragmentam, e a repressão, que incide sobre aos conteúdos psíquicos, sem alterar a 
estrutura do ego. A di ferença entre eles está na violência da repressão que exercem sobre a real idade 
externa e sobre a real idade psíquica. Entre as defesas primit ivas, c inco ocupam um lugar especial na 
concepção kleiniana: a negação, a c l ivagem, a projeção, a introjeção e a onipotência. A essas defesas, M. 
Klein acrescentará em 1946 o mecan ismo da identi f icação projetiva que resulta da projeção primit iva: na 
identi f icação projetiva, não é apenas a pulsão que é projetada, mas podem-se projetar t ambém partes do 
ego no objeto de uma forma fantasiosa. A identi f icação projetiva diz respeito não apenas à expulsão de 
partes más e indesejáveis de si mesmo para controlar o objeto, mas inclusive de partes boas. Mais tarde, 
W. R. Bion (1959) diferenciará uma forma pato lógica e uma fo rma normal de identif icação projetiva, de 
manei ra que esse se tornará um dos concei tos centrais na psicanál ise kleiniana e posterior. 
Transição entre simmolismo patológico e simbolismo normal 
Tomando c o m o base "O inconsc iente" (1915e), onde Freud expõe suas ideias sobre a l i nguagem do 
esquizofrénico, e inspirando-se nos pr imeiros t rabalhos de M. Klein (1930) sobre o s imbol ismo, H. Segal e 
W. R. Bion desenvolveram suas própr ias concepções sobre a função s imból ica e sobre a t ransição entre o 
s imbo l ismo patológico e o s imbol ismo normal . 
H. Segal: da equaçap simbólica ao simbolismo verdadeiro ou representação simbólica 
Em 1957, H. Segal di ferencia dois t ipos de fo rmação de s ímbolos e de função s imból ica: a "equação 
s imból ica" e o s imbol ismo verdadeiro ou representação s imból ica. Ela mostra igualmente que a fo rmação 
de s ímbolos é estreitamente dependente de transições entre as posições esquizoparanóide e depressiva, 
c o m o t a m b é m da in tens idade d a ident i f icação projet iva. Ass im , q u a n d o se p roduzem pe r tu rbações 
esquizó ides nas relações de objeto e a identi f icação projetiva aumenta, uma parte do ego se identif ica c o m 
o ob jeto de maneira concreta e o s ímbolo se torna de tal m o d o equivalente ao objeto s imbol izado que 
a m b o s são sent idos c o m o idênt icos; é isso o que justif ica a expressão "equação s imból ica". 
A equação s imból ica subentende o pensamento dos esquizofrênicos e é encontrada também no processo 
de identi f icação c o m o objeto perd ido que caracteriza o luto pato lógico. Apenas quando aparece a pos ição 
depressiva, que é acompanhada da vivência de estar separado, o s ímbolo representa o objeto, mas não é 
inteiramente equivalente a ele: é então que entra em jogo o s ímbolo verdadeiro ou representação s imból i -
ca. Acrescentemos que no início Segal falava de s imbol ismo concreto c o m o de uma regressão à pos ição 
esquizoparanóide, mas depois , quando Rosenfeld, Bion e ela própr ia di ferenciam uma forma normal e u m a 
fo rma pato lógica dentro da pos ição esquizoparanóide, ela esclarece que era na patologia da pos ição 
esquizoparanóide que situava o s imbol ismo concreto. 
Segundo Segal (1991), o processo de fo rmação de símbolos é crucial , na med ida em que o s ímbolo rege 
a capac idade de comunicar e toda comun icação se realiza por meio de símbolos, não apenas na comun i -
cação c o m o mundo , mas t ambém na comun icação interna. 
W. R. Bion: criação mo aparelho de pensar os pensamentos 
A distinção introduzida por W. R. Bion em 1962 entre os elementos á e os elementos â permitiu abordar a 
questão do simbol ismo e das transições de um simbol ismo patológico para um simbol ismo normal sob u m 
ângulo diferente, mas complementar em relação às ideias de H. Segal. A noção de função á nasceu das pesqui-
sas de Bion sobre as dificuldades do esquizofrénico de dar um significado ás suas vivências e a comunicá-las, 
a f im de entender o processo pelo qual os dados brutos provenientes dos sentidos se convertem em conteúdos 
psíquicos suscetíveis de adquirir um significado, de ser pensados e sonhados. Segundo Bion, para que um 
pensamento possa ser utilizado pelo psiquismo - processo análogo à função de simbolização - , é necessário 
que uma "preconcepção" se una a uma "realização" a f im de criar uma "concepção". Essa união de dois 
elementos para criar um terceiro está na base da formação de pensamentos e de teorias. Assim como Segal, 
Bion considera que os processos de pensamento estão estreitamente l igados a processos emocionais, proces-
sos que podem ser exprimidos em termos de posição esquizoparanóide e depressiva. Quando a função á é 
perturbada, os dados dos sentidos podem ser transformados, e persistem no psiquismo sob a forma de ele-
mentos p não-assimilados que são então expulsos por identificação projetiva. 
172 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
• "V ISÃO DE C O N J U N T O DAS N E U R O S E S DE TRANSFERÊNCIA" (1985a, [1915] ) 
£ B IOGRAFIAS E H ISTÓRIA 
Um m a n u s c r i t o i néd i t o d e s c o b e r t o e m 1983 
Esse ensaio ocupa uma posição especial, pois foi descoberto casualmente em 1983 por I. Grubrich-Simitis nos 
documentos conf iados por Ferenczi a M. Balint, acompanhado da carta de Freud de 28 de julho de 1915 em que 
ele pedia sua opinião. Trata-se do esboço do décimo segundo ensaio de Artigos sobre metapsicoíogia, do 
próprio punho de Freud, o único que escapou dos sete ensaios não publicados da obra que ele projetara. Dos 
12 ensaios que deviam compor esse livro, Freud só lançou os cinco primeiros em 1915 e 1917, sob a forma de 
artigos de revista. Mas sua correspondência revela que ele havia escrito os outros sete e supunha-se que os 
tivesse destruído. Foi por isso que a descoberta de "Visão de conjunto das neuroses de transferência" causou 
surpresa 
Nesse ensaio, que tes temunha sua estreita co laboração c o m Ferenczi, Freud dá cont inu idade ao tema da 
f i logênese esboçada em Totem e tabu (1912-1913a), tema que desde então perpassará t oda sua obra. 
Segundo ele, a v ida psíquica do h o m e m de hoje traz marcas indeléveis de uma herança arcaica, e aqui lo 
que se cons idera c o m o as fantasias originárias da real idade psíquica não é senão a marca de ixada por 
acontec imentos t raumát icos reais, que remontam a épocas pré-históricas c o m o a era glacial . 
D E S C O B E R T A D A O B R A 
As páginas indicadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1985a [1915]), "Vue d 'ensemble sur les 
névroses de transfert, Um essai métapsychologique", edição bilíngue de um manuscri to encontrado e edita-
do por I. Grubrich-Simit is, t rad. R Lacoste, seguido de "Commentaires" de I. Grubrich-Simitis e R Lacoste, 
Paris, Gall imard-NRF, 1986 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R XIII, p. 279-300]. 
A p r i m e i r a p a r t e d o t e x t o , e s c r i t o e m u m 
e s t i l o telegráfico,é u m b r e v e a p a n h a d o d o s 
p r i n c i p a i s m e c a n i s m o s e m j o g o n a s três "neu-
roses de transferência": h i s t e r i a d e angústia, h i s -
t e r i a d e conversão e n e u r o s e o b s e s s i v a . F r e u d 
e v o c a o p a p e l d a repressão, d o c o n t r a - i n v e s t i -
m e n t o , d a formação d e s u b s t i t u t o e d e s i n t o -
m a , e t c . A s e g u n d a p a r t e d o e n s a i o s e d i s t a n -
c i a d o conteúdo a n u n c i a d o p e l o título, p o i s 
F r e u d d e s e n v o l v e a l i m a i s d o q u e e m q u a l q u e r 
o u t r a p a r t e s u a hipótese filogenética, q u e e l e 
c h a m a às v e z e s d e s u a "fantasia" filogenética. 
E s s a p a r t e f o i r e d i g i d a q u a s e i n t e i r a , a o c o n -
trário d a p r i m e i r a . F r e u d p r o c u r a e s t a b e l e c e r 
a l g u n s p a r a l e l o s e n t r e o s f a t o r e s n a o r i g e m d a s 
n e u r o s e s - t a n t o a s n e u r o s e s d e transferência 
c o m o a s n e u r o s e s narcísicas - e a história d o 
d e s e n v o l v i m e n t o d a h u m a n i d a d e , r e f e r i n d o -
s e n o c a s o a u m t r a b a l h o p r e c u r s o r d e S . 
F e r e n c z i ( 1 9 1 3 ) s o b r e e s s e t e m a . F r e u d r e v e l a 
q u e a i n d a não e x i s t e u m o u t r o m e i o d e p e s q u i -
s a q u e não s e j a p a r t i r d a observação d a s n e u -
r o s e s : "Porém, temos a impressão aqui de que a his-
tória do desenvolvimento da libido repete uma 
sequência muito mais antiga do desenvolvimento 
(filogenético) do que a história do desenvolvimento 
do ego (...) a primeira possivelmente repete as con-
dições de desenvolvimento da ramificação dos verte-
brados, enquanto que a segunda é subordinada à 
História da espécie humana" ( p . 3 0 - 3 1 ( p . [290])). 
A s s i m , F r e u d s e i n d a g a s o b r e o i m p a c t o q u e o s 
t r a u m a t i s m o s s o f r i d o s p e l o s h o m e n s n o s t e m -
p o s originários p o d e r i a m t e r s o b r e a s n e u r o s e s , 
j u n t a m e n t e c o m f a t o r e s l i g a d o s à pulsão. P o r 
e x e m p l o , e l e p e n s a q u e "(...) algumas crianças 
trazem ao nascer a ansiedade que vem do início da 
era glacial e que essa ansiedade induz essas crianças 
desde cedo a tratar a libido insatisfeita como um pe-
rigo externo" ( p . 3 5 ( p . [293])). F r e u d também 
r e t o m a n e s s e t e x t o a t e s e d o a s s a s s i n a t o d o p a i 
originário p e l a h o r d a p r i m i t i v a , c o n s i d e r a n d o 
e s s e e v e n t o c o m o a o r i g e m d o s e n t i m e n t o d e 
c u l p a e d a civilização, t e m a já p r e s e n t e e m 
Totem e tabu e m 1 9 1 2 - 1 9 1 3 . 
"O PROBLEMA ECONÓMICO DO MASOQUISMO" 
S. FREUD (1924c) 
Do m a s o q u i s m o p e r v e r s o a o m a s o q u i s m o p r i m á r i o o u 
e r ó g e n o , p r o t e t o r d o i n d i v í d u o c o n t r a a a u t o d e s t r u i ç ã o 
N e s s e e s t u d o , F r e u d p r o s s e g u e s u a s p e s q u i -
s a s s o b r e a n a t u r e z a d o m a s o q u i s m o , perversão 
q u e c o n s i s t e e m e n c o n t r a r p r a z e r n o s o f r i m e n -
t o . E l e já h a v i a a b o r d a d o a questão d o m a s o -
q u i s m o j u n t a m e n t e c o m o a d o s a d i s m o e m e s -
c r i t o s a n t e r i o r e s ( 1 9 0 5 d , 1 9 1 5 c ) . C o n t u d o , d e p o i s 
d e t e r i n t r o d u z i d o o c o n f l i t o f u n d a m e n t a l e n t r e 
pulsão d e v i d a e pulsão d e m o r t e , a s s i m c o m o 
o s c o n c e i t o s d e e g o , i d e s u p e r e g o , i m p u n h a - s e 
u m a atualização d a noção d e m a s o q u i s m o . A i n -
d a m a i s p o r q u e a noção d e m a s o q u i s m o c o n -
t r a d i z o princípio d o p r a z e r - d e s p r a z e r p o s t u l a -
d o a n t e s , s e g u n d o o q u a l o f u n c i o n a m e n t o psí-
q u i c o t e m c o m o o b j e t i v o e v i t a r o d e s p r a z e r e 
p r o p o r c i o n a r p r a z e r . 
F r e u d começa p o r r e d e f i n i r o princípio d e 
p r a z e r a p o i a d o e m n o v o s d a d o s e c o n s i d e r a 
a g o r a q u e e x i s t e m três princípios n a b a s e d a 
regulação d o f u n c i o n a m e n t o psíquico: o prin-
cípio do Nirvana, q u e t e n d e a r e c o n d u z i r a e x c i -
tação a z e r o , o princípio do prazer, q u e e f e t u a a 
ligação e n t r e a pulsão d e v i d a e a pulsão d e 
m o r t e , e o princípio de realidade, q u e p e r m i t e 
BIOGRAFIAS E H STORIA 
a d i a r o p r a z e r t o l e r a n d o t e m p o r a r i a m e n t e o 
d e s p r a z e r . F r e u d e s t u d a e m s e g u i d a d u a s f o r -
m a s d e perversão p r o p r i a m e n t e d i t a , o maso-
quismo feminino n o h o m e m e o masoquismo mo-
ral. E s s a s f o r m a s d e m a s o q u i s m o c a r a c t e r i z a m -
s e p o r u m a regressão a u m a f a s e l i b i d i n a l a n t e -
r i o r , e m p a r t i c u l a r à f a s e sádico-anal, c o m o t a m -
bém p o r u m r e m v e s t i m e n t o d e o b j e t o s i n c e s -
t u o s o s e d i p i a n o s , q u e e l e c h a m a d e "ressexuali-
zação" d o c o m p l e x o d e Édipo. E s t a última é 
a c o m p a n h a d a d e u m a satisfação erótica culpá-
v e l e i n c o n s c i e n t e q u e d e t e r m i n a u m a n e c e s s i -
d a d e m a s o q u i s t a d o e g o d e s e r p u n i d o s a d i c a -
m e n t e p e l o s u p e r e g o . C o m a introdução d a n o -
ção d e masoquismo primário o u erógeno, F r e u d 
e s t e n d e e s s a noção p a r a além d a perversão 
m a s o q u i s t a e m s e n t i d o e s t r i t o : e l e a b r e u m a 
n o v a p e r s p e c t i v a c o n s i d e r a n d o q u e o c o n f l i t o 
pulsão d e vida/pulsão d e m o r t e c o n s t i t u i o 
próprio f u n d a m e n t o d o s p r o c e s s o s v i t a i s , d e s -
d e o início d a v i d a , o q u e s i g n i f i c a q u e o p r a z e r 
d e v i v e r d e v e i m p o r - s e p e r m a n e n t e m e n t e s o -
b r e a tendência à autodestruição. 
C o n f l i t o s i n te rnos e t e m o r e s para o f u tu ro da ps i caná l i se 
"O problema económico do masoquismo" foi escrito no final de 1923 e publicado em abril de 1924 na Internationale 
Zeitschrift fúr Psychoanalyse. Durante esse período, a vida de Freud foi permeada por acontecimentos doloro-
sos, entre os quais a eclosão de sua doença em 1923, a que já nos referimos, e o cl ima de desentendimento 
dentro do Comité. A despeito do reconhecimento internacional, Freud se preocupava com o futuro da psicaná-
lise, principalmente em razão dos conflitos entre Rank e Jones, que punham em risco o entendimento dentro do 
Comité no qual Freud depositava sua maior esperança quanto à sobrevivência de sua obra após sua morte. Já 
fazia alguns anos que Rank e Jones não se entendiam bem, embora devessem colaborar na edição de publica-
ções psicanalíticas. No verão de 1923, nas Dolomites, em uma última reunião da qual participavam Rank e 
Jones, esse conflito atingirá seu paroxismo, levando à dissolução do Comité. Foi nessa ocasião que os partici-
pantes tiveram a notícia da doença de Freud. 
234 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
D E S C O B E R T A D A O B R A 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1924c), "Le p rob lème économique du 
masoch isme" , in Névrose, psychose et perversion, t rad. J . Laplanche, Paris, PUF, 1973, p. 287-298 [as 
páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R XVII, p. 9-23]. 
R e c o n s i d e r a r o p r i n c í p i o d o p raze r 
F r e u d começa p o r e x p l i c a r o s m o t i v o s q u e 
o l e v a m a r e v e r s e u p o n t o d e v i s t a s o b r e o p r i n -
cípio d o p r a z e r e , e m p a r t i c u l a r , s u a s relações 
c o m o princípio d o N i r v a n a , q u e e l e v i a c o m o 
s e u e q u iv a l e n t e . D e f a t o , e m Além do princípio 
do prazer ( 1 9 2 0 g ) , F r e u d c h a m a v a d e "princí-
p i o d o N i r v a n a " a tendência d o a p a r e l h o psí-
q u i c o a r e c o n d u z i r a z e r o q u a l q u e r q u a n t i d a -
d e d e excitação, e e s s a tendência à aniquilação 
p a r e c i a c o i n c i d i r c o m a pulsão d e m o r t e . E m 
" O p r o b l e m a económico d o m a s o q u i s m o " , e l e 
r e a f i r m a s u a adesão a o princípio d o N i r v a n a , 
m a s a p o n t a a s e g u i n t e d i f i c u l d a d e : s e o princí-
p i o d e p r a z e r é r e a l m e n t e o e q u i v a l e n t e d o p r i n -
cípio d o N i r v a n a , c o m o a f i r m a r a a n t e s , c h e g a -
s e à conclusão d e q u e o princípio d o p r a z e r e s -
t a r i a a serviços d e pulsões d e m o r t e , o q u e é 
u m p a r a d o x o : " ( . . . ) o princípio do Nirvana (e o de 
prazer, julgado idêntico a ele) estaria totalmente a 
serviço das pulsões de morte, cujo objetivo é tirar a 
vida em perpétua mudança da estabilidade do esta-
do inorgânico (...)" ( p . 2 8 8 [12]). A e s s a p r i m e i r a 
contradição a c r e s c e n t a - s e u m a o u t r a : o princí-
p i o d o p r a z e r - q u e e l i m i n a r i a a s tensões d o 
d e s p r a z e r - é c o n t r a d i t a d o também p e l o f a t o 
d e e x i s t i r e m e s t a d o s d e tensão a c o m p a n h a d o s 
d e p r a z e r , c u j o p r i n c i p a l e x e m p l o é o e s t a d o 
d e excitação s e x u a l . T i r a n d o a s consequências 
d e s s a s contradições, F r e u d l e v a n t a a hipótese 
d e q u e o princípio d o N i r v a n a - q u e provém 
d a pulsão d e m o r t e - c e r t a m e n t e t e v e d e s o f r e r 
u m a modificação n o s o r g a n i s m o s v i v o s p a r a 
não r e c o n d u z i r a v i d a a o inorgânico e a s s i m s e 
c o l o c a r a serviço d o princípio d o p r a z e r : e l e 
a t r i b u i e s s a mudança à intervenção d a l i b i d o 
q u e está u n i d a à pulsão d e m o r t e d e m a n e i r a a 
p a r t i c i p a r d a regulação d e p r o c e s s o s v i t a i s . 
N o q u e s e r e f e r e às sensações d a g a m a p r a -
z e r - d e s p r a z e r q u e e l e h a v i a c o n s i d e r a d o até 
então c o m o d e p e n d e n t e d e u m f a t o r quantita-
tivo, l i g a d o u n i c a m e n t e a u m c r e s c i m e n t o o u 
a u m a diminuição d a s tensões d e excitação, 
F r e u d i n t r o d u z u m a n o v a diferença: s e g u n d o 
e l e , a s sensações d e p r a z e r - d e s p r a z e r não d e -
p e n d e m a p e n a s d e u m f a t o r quantitativo q u e 
e l e não c h e g a a d e t e r m i n a r : "Talvez se trate do 
ritmo do curso temporal das modificações, das ele-
vações e das quedas da quantidade de excitação: 
nós não sabemos" ( p . 2 8 8 [12]). 
D e s d e então, F r e u d c o n s i d e r a q u e três p r i n -
cípios estão n a b a s e d a regulação d e p r o c e s s o s 
v i t a i s : o princípio do Nirvana, q u e r e p r e s e n t a a 
pulsão d e m o r t e m e d i a n t e a tendência a r e d u -
z i r a s quantidades d e excitação a z e r o ; o princí-
pio de prazer, q u e e x p r e s s a m e d i a n t e u m a quali-
dade d e excitação l i b i d i n a l a ligação d a pulsão 
d e v i d a e d a pulsão d e m o r t e ; f i n a l m e n t e , o prin-
cípio de realidade, q u e p e r m i t e d i f e r e n c i a r o p r a -
z e r t o l e r a n d o t e m p o r a r i a m e n t e o d e s p r a z e r . 
E s s e s três princípios não p o d e m e s c a p a r d e 
e n t r a r e m c o n f l i t o , m a s são forçados a s e a c o -
m o d a r u m a o o u t r o a f i m d e p r e s e r v a r o s p r o -
c e s s o s v i t a i s . P a r a c o n s e g u i r p r e s e r v a r a v i d a 
d a destruição, a o q u e p a r e c e , o princípio d o 
p r a z e r d e v e n e c e s s a r i a m e n t e p a s s a r p o r u m a 
ligação l i b i d i n a l d a pulsão d e m o r t e à pulsão 
d e v i d a : "A conclusão dessas considerações é que 
não se pode deixar de designar o princípio do prazer 
como guardião da vida" ( p . 2 8 9 [13]). 
P r o s s e g u i n d o s u a s reflexões à l u z d e s s a s 
considerações teóricas, F r e u d e s t u d a s u c e s s i -
v a m e n t e três f o r m a s d e m a s o q u i s m o : o m a -
s o q u i s m o f e m i n i n o , o m a s o q u i s m o primário 
o u erógeno e o m a s o q u i s m o m o r a l . 
O " m a s o q u i s m o f e m i n i n o n o h o m e m " 
É s o b r e t u d o n o h o m e m q u e s e o b s e r v a o 
m a s o q u i s m o f e m i n i n o : p a r a F r e u d , t r a t a - s e d e 
u m a v e r d a d e i r a perversão c u j o conteúdo m a -
n i f e s t o s e e x p r e s s a p o r f a n t a s i a s e m q u e p r e d o -
m i n a o d e s e j o d e s e r a m a r r a d o , e s p a n c a d o o u 
c h i c o t e a d o , e t c , f a n t a s i a s q u e c u l m i n a m n a 
masturbação o u c o n s t i t u e m e m s i m e s m a s a s a -
tisfação s e x u a l . N e s s e s c a s o s d e perversão, c o n s -
t a t a - s e q u e o indivíduo s e c o l o c a e m u m a "posi-
ção característica da feminilidade e, portanto, que es-
L e r F r e u d 2 3 5 
sas fantasias significam ser castrado, sofrer o coito 
ou parir" ( p . 2 9 0 [14]). Provém daí a d e n o m i n a -
ção d e " masoquismo feminino", q u e s i g n i f i c a q u e 
e s s a posição p a s s i v a e m relação a o o b j e t o é o 
r e s u l t a d o d e u m a regressão à s e x u a l i d a d e i n -
f a n t i l . Além d i s s o , n e s s a perversão, a p e s s o a s e 
a c u s a d e t e r c o m e t i d o u m a f a l t a q u e d e v e e x p i a r 
p e l a d o r e p e l o s t o r m e n t o s , e x p r i m i n d o através 
d e s s a s auto-recriminações u m s e n t i m e n t o d e 
c u l p a i n c o n s c i e n t e e m relação à masturbação 
i n f a n t i l . E s s e s e n t i m e n t o d e c u l p a i n c o n s c i e n t e 
a p r o x i m a o m a s o q u i s m o f e m i n i n o d e u m a o u t r a 
f o r m a d e m a s o q u i s m o , o m a s o q u i s m o m o r a l . 
O m a s o q u i s m o p r i m á r i o o u 
m a s o q u i s m o e r ó g e n o 
F r e u d l e m b r a q u e e m 1 9 0 5 , e m Três ensaios 
sobre a teoria da sexualidade, e l e já o b s e r v a r a q u e 
u m a excitação s e x u a l s e p r o d u z e m t o d a u m a 
série d e p r o c e s s o s i n t e r n o s d e p o i s q u e a i n t e n -
s i d a d e d e s s e s p r o c e s s o s u l t r a p a s s a u m c e r t o l i -
m i t e , e q u e e s s e fenómeno q u e e l e c h a m a d e 
"co-excitação libidinal" g e r a l m e n t e é a c o m p a n h a -
d o d e d o r e d e s p r a z e r . E l e t e v e , então, a i n t u i -
ção d e q u e "talvez nada de importante ocorresse no 
organismo sem ter de fornecer seu componente á ex-
citação da pulsão sexual" ( p . 2 9 0 [15]). L e v a n d o 
e m c o n t a a g o r a a d u a l i d a d e pulsão d e v i d a / 
pulsão d e m o r t e , F r e u d dá u m n o v o d e s e n v o l -
v i m e n t o à noção d e co-excitação l i b i d i n a l : s e -
g u n d o e l e , e s s e fenómeno r e g e r i a o c o n j u n t o d e 
p r o c e s s o s v i t a i s e a l i b i d o t o r n a r i a i n o f e n s i v o à 
pulsão d e m o r t e e d e destruição q u e p r e d o m i -
n a n o o r g a n i s m o d e s d e a o r i g e m ; e l a e v i t a r i a 
a s s i m q u e o o r g a n i s m o f o s s e r e c o n d u z i d o a o 
e s t a d o inorgânico. P a r a d e s i g n a r e s s e p r o c e s s o 
d e erotização d a pulsão d e m o r t e e a f i m d e r e s -
s a l t a r s e u caráter originário, e l e o c h a m a d e "ma-
soquismo primário" o u "masoquismo erógeno". 
C o m o a l i b i d o s e d e s i n c u m b e d a t a r e f a d e 
t o r n a r i n o f e n s i v a a pulsão d e m o r t e ? E l a p r o -
c e d e d e d u a s m a n e i r a s , s e g u n d o F r e u d : d e u m 
l ad o , a l i b i d o d i r i g e u m a g r a n d e p a r t e d a 
pulsão d e m o r t e p a r a o s o b j e t o s n o e x t e r i o r 
p o r m e i o d a m u s c u l a t u r a - s o b a f o r m a d e 
pulsão d e destruição e d e domínio, d e v o n t a -
d e d e potência, e também s o b a f o r m a d e s a -
d i s m o p r o p r i a m e n t e d i t o c o l o c a d o a serviço 
d a função s e x u a l ; d e o u t r o l a d o , u m a p a r t e d a 
pulsão d e m o r t e não é p r o j e t a d a n o e x t e r i o r , 
m a s s e t o r n a i n o f e n s i v a n o próprio i n t e r i o r d o 
o r g a n i s m o : "Ela (a pulsão de morte) permanece 
no organismo e lá se encontra ligada libidinalmente 
com a ajuda da co-excitação sexual a que nos refe-
rimos; é nela que devemos reconhecer o masoquis-
mo originário, erógeno" ( p . 2 9 1 [16]). Não s e s a b e 
p o r q u e m e i o s e p r o d u z e s s a "domesticação" 
d a s d u a s pulsões, d i z F r e u d , m a s , d e u m p o n -
t o d e v i s t a psicanalítico, o b s e r v a - s e q u e e l a s 
estão s e m p r e l i g a d a s e m proporções variáveis, 
e q u e j a m a i s s e e n c o n t r a a pulsão d e v i d a o u a 
pulsão d e m o r t e e m e s t a d o p u r o . 
F r e u d e n u m e r a e m s e g u i d a a l g u m a s f a s e s 
d o d e s e n v o l v i m e n t o d a l i b i d o d a s q u a i s p a r t i -
c i p a o m a s o q u i s m o originário, p o r e x e m p l o , n a 
angústia d e s e r d e v o r a d o p e l o a n i m a l totêmico 
( o p a i ) n a f a s e o r a l , o u n o d e s e j o d e s e r e s p a n -
c a d o n a f a s e sádico-anal, o u d e s e r c a s t r a d o n a 
f a s e fálica, e t c . Além d i s s o , o m a s o q u i s m o o r i -
ginário q u e p e r m i t i u a p r i m e i r a domesticação 
d a pulsão d e m o r t e p e l a l i b i d o "preserva sempre 
como objeto o ser próprio do indivíduo" ( p . 2 9 2 [16]) 
e p r o t e g e e s t e último d a autodestruição. F i n a l -
m e n t e , F r e u d c o n s i d e r a a e v e n t u a l i d a d e d e q u e 
o s a d i s m o e a pulsão d e destruição a n t e s 
p r o j e t a d o s n o e x t e r i o r r e t o r n e m a o i n t e r i o r , o 
q u e dá l u g a r a o "masoquismo secundário" q u e s e 
s o m a a o m a s o q u i s m o primário. 
O m a s o q u i s m o m o r a l 
O m a s o q u i s m o m o r a l b u s c a o s o f r i m e n t o , 
m a s não t e m consciência d a satisfação s e x u a l 
q u e e n c o n t r a e m u m s o f r i m e n t o b u s c a d o e m 
relação a u m s e n t i m e n t o d e c u l p a i n c o n s c i e n -
t e : n e s s e s p a c i e n t e s , d e f a t o , o p r a z e r erótico 
d o s o f r i m e n t o p a r e c e a u s e n t e . O c a s o e x t r e m o 
d o m a s o q u i s m o m o r a l é o b s e r v a d o e m p a c i e n -
t e s e m psicanálise q u e s e opõem a o s p r o g r e s -
s o s d a c u r a , c o n d u t a p a r a d o x a l q u e F r e u d a t r i -
buíra e m 1 9 2 3 a o s e n t i m e n t o d e c u l p a i n c o n s -
c i e n t e , d e s i g n a n d o - o p e l o t e r m o "reação terapêu-
tica negativa". P a r a e l e s , s a t i s f a z e r o s e n t i m e n -
t o d e c u l p a i n c o n s c i e n t e c o n s t i t u i o benefício 
secundário d e p e r m a n e c e r d o e n t e e m v e z d e 
s e c u r a r , o q u e f a z d i s s o u m a d a s f o r m a s m a i s 
g r a v e s d e resistência a o t r a t a m e n t o . C o n t u d o , 
236 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
q u a n d o o p s i c a n a l i s t a f a l a d e s e n t i m e n t o d e 
c u l p a i n c o n s c i e n t e , i s s o não d i z n a d a a o s e u 
p a c i e n t e ; a o contrário, o p a c i e n t e começa a c o m -
p r e e n d e r q u a n d o e l e f a l a d e u m a "necessidade 
de punição" ( p . 2 9 4 [18]). P a r a e x p l i c a r o a p a r e -
c i m e n t o d e s s e s e n t i m e n t o d e c u l p a e s m a g a d o r , 
F r e u d r e c o r r e às noções i n t r o d u z i d a s n a s e g u n -
d a tópica e m 1 9 2 3 , e m p a r t i c u l a r à tensão e x -
c e s s i v a q u e s u r g e e n t r e o e g o e o s u p e r e g o q u a n -
d o o e g o s e s e n t e i n c a p a z d e s a t i s f a z e r a s e x i -
gências d o i d e a l e s t a b e l e c i d o p e l o s u p e r e g o 
c o m o u m m o d e l o a s e g u i r . 
E l e l e m b r a i g u a l m e n t e q u e f o i a i d e n t i f i c a -
ção c o m o c a s a l p a r e n t a l q u e d e u o r i g e m a o 
s u p e r e g o . D e f a t o , q u a n d o d a resolução d o 
c o n f l i t o e d i p i a n o , a relação c o m o s p a i s f o i 
d e s s e x u a l i z a d a p o r d e s v i o d e s e u s o b j e t i v o s 
s e x u a i s d i r e t o s , d e m o d o q u e s e c o n s t i t u i u m 
s u p e r e g o q u e c o n s e r v a a s características d o s 
p a i s i n t e r i o r i z a d o s . Além d i s s o , a s exigências 
d o s u p e r e g o t e n d e m a s e r reforçadas p e l a s i n -
fluências d o e x t e r i o r p r o v e n i e n t e s d e p r o f e s -
s o r e s e d e a u t o r i d a d e s , o q u e c o n t r i b u i p a r a o 
s e u p a p e l m o r a l : "O complexo de Édipo se revela 
portanto (...) como a fonte de nossa ética individual 
(a moral)" ( p . 2 9 5 [20]). 
A " r e s s e x u a l i z a ç ã o " d o c o m p l e x o d e É d i p o 
Após e s s a digressão s o b r e a o r i g e m d o s u -
p e r e g o , F r e u d r e t o m a a questão d o m a s o q u i s -
m o m o r a l r e s s a l t a n d o q u e e s s e t i p o d e p a c i e n t e 
dá m o s t r a s d e u m a inibição m o r a l e x c e s s i v a e 
s e c o m p o r t a c o m o u m a p e s s o a d o m i n a d a p o r 
u m a consciência m o r a l s e v e r a , s e m t e r c o n s -
ciência d e s s a "hipermoral": "Mas, detalhe nada 
desprezível, d i z e l e , o sadismo do superego é na 
maioria das vezes claramente consciente, enquanto 
a tendência do masoquismo do ego em geral perma-
nece oculta à pessoa e deve ser deduzido de seu com-
portamento" ( p . 2 9 6 [22]). F r e u d a t r i b u i o f a t o 
d e o m a s o q u i s m o m o r a l p e r m a n e c e r i n c o n s c i -
e n t e a q u e o s e n t i m e n t o d e c u l p a i n c o n s c i e n t e 
e x p r e s s a u m a n e c e s s i d a d e d e punição p o r p a r t e 
d e u m a força p a r e n t a l . E s s a p i s t a c o n d u z a o 
v e r d a d e i r o s e n t i d o o c u l t o d o m a s o q u i s m o 
m o r a l , q u e está e s t r e i t a m e n t e l i g a d o à "ressexua-
lização" d o c o m p l e x o d e Édipo. O q u e e l e e n -
t e n d e p o r i s s o ? P a r a F r e u d , o t e r m o " r e s s e x u a -
lização" s i g n i f i c a q u e o m a s o q u i s m o m o r a l f e z 
u m r e t o r n o r e g r e s s i v o a o c o n f l i t o e d i p i a n o , e o 
d e s e j o i n c e s t u o s o c a u s a o s e n t i m e n t o d e t e r 
c o m e t i d o u m a f a l t a s e x u a l - u m "pecado" - p e l o 
q u a l d e v e s e r p u n i d o p e l o r e p r e s e n t a n t e 
p a r e n t a l . I s s o e x p l i c a q u e o m a s o q u i s m o p r o -
c u r e s e r p u n i d o p e l o último r e p r e s e n t a n t e 
p a r e n t a l q u e é o D e s t i n o , q u e e l e a j a c o n t r a s e u s 
i n t e r e s s e s , c h e g a n d o às v e z e s a a n i q u i l a r s u a 
própria existência r e a l . A s s i m , p r o s s e g u e 
F r e u d , "o sadismo do superego e o masoquismo do 
ego se complementam mutuamente e se unem para 
provocar as mesmas consequências" ( p . 2 9 7 [22]). 
T i r a n d o s u a s conclusões d e s s e c o n f l i t o i n t e r i o r , 
F r e u d a f i r m a q u e o m a s o q u i s m o m o r a l é v e r -
d a d e i r a m e n t e o t e s t e m u n h o d a existência d e 
u m a união e n t r e pulsões d e v i d a e pulsões d e 
m o r t e : "Seu caráter perigoso provém do fato de que 
ele tem sua origem na pulsão de morte, de que 
corresponde à parte deste que evitouse dirigir ao 
exterior sob forma de destruição. Mas, como ele tem 
de outra parte o significado de um componente eró-
tico, nem mesmo a autodestruição da pessoa pode se 
produzir sem satisfação libidinal" ( p . 2 9 7 [23]). 
EVOLUÇÃO D O S C O N C E I T O S FREUDIANOS 
A n o ç ã o de m a s o q u i s m o e s u a s a m b i g u i d a d e s e m Freud 
A questão do "masoquismo feminino" 
O termo "masoquismo feminino" tem às vezes um uso ambíguo em Freud. Sem dúvida, quando ele fala do 
"masoqu ismo feminino no h o m e m " , trata-se c laramente para ele de uma perversão masoquista. Contudo, 
quando utiliza a expressão "masoqu ismo feminino" , ele parece entender que a mulher seria masoquis ta 
por natureza. Essa ambigu idade foi revelada, entre outros, por Laplanche e Pontalis: "Por masoquismo 
Continua Q 
L e r F r e u d 2 3 7 
4) Continuação 
feminino, evidentemente somos tentados a entender 'masoquismo da mulher', mas, no âmbito da teoria da 
bissexualidade, o masoquismo feminino é uma possibilidade imanente a todo ser humano" (1967, p. 232). 
De maneira geral, encontra-se ao longo de toda obra de Freud uma ambigu idade quanto à natureza da 
femini l idade, desde a opos ição at ivo/passivo e mascul ino/ feminino menc ionada em Três ensaios sobre a 
teoria da sexualidade (1905d), até em seus escritos tardios, em que ele persiste em ligar expl ic i tamente, de 
u m lado, atividade e mascul in idade, e, de outro, passividade e masoqu ismo feminino. Contudo, em A/ovas 
conferências introdutórias sobre psicanálise (1933a), essa opos ição entre os dois sexos é atenuada. 
O masoquismo primário ou erógeno não é uma perversão 
Vale destacar que o termo "masoqu ismo" uti l izado por Freud para designar o masoqu ismo primário ou 
erógeno é uma noção que pode se confundir c o m a de perversão. De fato, ao introduzir a noção de maso-
qu ismo primário ou erógeno, Freud procura sobretudo estender a noção de masoqu ismo para além da 
perversão propr iamente dita, c o m o objet ivo de assinalar que toda l igação do prazer sexual c o m a dor tem 
c o m o fundamento primordial uma união entre a pulsão de v ida e a pulsão de morte. Em outros termos, 
segundo Freud, o masoqu ismo primário ou erógeno "seria, portanto, um testemunho e um vestígio dessa 
fase de formação na qual se realizou essa aliança, tão importante para a vida, entre a pulsão de vida e Eros" 
(p. 292 [16]). Desde então, para ele, essa forma originária de masoqu ismo constitui-se como uma estrutura 
fundamenta l que desempenha o papel de "guardião da vida", segundo suas próprias palavras. 
C R O N O L O G I A DO: S C O N C E I T O S FREUDIANOS 
Masoqu ismo feminim > - masoqu ismo feminino no h o m e m - masoqu ismo moral - masoqu ismo pr imário ou 
erógeno - masoqu ismo secundár io - princípio do Nirvana - princípio do prazer-desprazer - pr incípio de 
real idade - "ressexué l ização" do complexo de Édipo 
L e r F r e u d 2 6 7 
análogo à repressão, p e l o q u a l o e g o s e s e p a r a 
d o m u n d o e x t e r i o r ? "Ele deveria consistir, como 
na repressão, de uma retirada pelo ego do investi-
mento que ele havia situado fora" ( p . 2 8 6 [7]). É 
n e s s e s t e r m o s q u e F r e u d a n u n c i a a introdução 
próxima d a s noções d e "negação da realidade" e 
d e "clivagem do ego", q u e esclarecerá e m 
/ / F e t i c h i s m o , , / e m 1 9 2 7 . 
• "A PERDA DA REAL IDADE NA N E U R O S E E NA P S I C O S E " (1924e) 
As páginas indicadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1924e), "La perte de la realité dans la 
névrose et dans la psychose" , t rad. D. Guér ineau, in Névrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1973, 
299-303 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R XVII, p. 35-41]. 
N o a r t i g o a n t e r i o r , F r e u d d i z i a q u e a d i f e -
rença e n t r e a p s i c o s e e a n e u r o s e c o n s i s t i a e m 
q u e n a p s i c o s e o e g o s e r e c u s a v a a p e r c e b e r a 
r e a l i d a d e e x t e r i o r e q u e n a n e u r o s e e l e a a c e i -
t a v a . N o p r e s e n t e a r t i g o , e l e r e l a t i v i z a o q u e 
h a v i a a f i r m a d o e c o n s i d e r a a g o r a q u e e x i s t e 
u m a perturbação d a percepção d o m u n d o r e a l 
n a s d u a s afecções, m a s q u e e s s a perturbação 
é d e n a t u r e z a d i f e r e n t e . E l e t e n t a e x p l i c a r a q u i 
e m q u e c o n s i s t e e s s a diferença. 
E l e começa p o r d i s t i n g u i r d o i s m o m e n t o s 
n o s m o d o s d e e n t r a d a n a n e u r o s e e n a p s i c o s e . 
N a n e u r o s e , e x i s t e e f e t i v a m e n t e u m a p e r d a d a 
r e a l i d a d e n o p r i m e i r o m o m e n t o , s e g u i d a d a 
formação d e u m c o m p r o m i s s o , o s i n t o m a . M a s , 
n e s s e p r i m e i r o m o m e n t o , é o f r a g m e n t o d e r e a -
l i d a d e e v i t a d o q u e p r o d u z a repressão. E l e dá 
c o m o e x e m p l o o c a s o d e u m a moça, a p a i x o n a -
d a p o r s e u c u n h a d o , q u e f i c o u t r a n s t o r n a d a 
c o m a i d e i a q u e l h e o c o r r e u d i a n t e d o l e i t o d e 
m o r t e d e s u a irmã: " A g o r a ele está l i v r e e pode 
se c a s a r c o m você". A c e n a l o g o é e s q u e c i d a , e 
a p a r e c e m a s d o r e s histéricas. F r e u d a s s i n a l a 
q u e o f a t o d e r e p r i m i r o a m o r p e l o c u n h a d o 
t e v e c o m o consequência q u e a moça e v i t a s s e o 
c o n f r o n t o c o m a r e a l i d a d e , i s t o é, p e n s a r q u e 
a g o r a s e u c u n h a d o e s t a r i a l i v r e : "Mas o que é 
instrutivo aqui é justamente constatar a via pela qual 
a neurose tenta regular o conflito. Ela desvaloriza a 
modificação real reprimindo a reivindicação pulsio-
nal em questão, a saber, o amor pelo cunhado. A 
reação psicótica teria sido negar o fato da morte de 
sua irmã" ( p . 3 0 0 [38]). 
F r e u d e x a m i n a e m s e g u i d a o q u e s e p a s s a 
n a p s i c o s e e i n t r o d u z a noção d e "negação da 
realidade" c o m o característica d a r e c u s a d e p e r -
c e b e r a r e a l i d a d e e x t e r i o r n a p s i c o s e . S e g u n -
d o e l e , a e n t r a d a n a p s i c o s e também o c o r r e 
e m d o i s m o m e n t o s : o p r i m e i r o s e p a r a o e g o 
d a r e a l i d a d e p o r m e i o d a negação, o s e g u n d o 
c r i a u m a n o v a r e a l i d a d e - u m delírio o u u m a 
alucinação - a f i m d e "reparar os desgastes" e 
c o m p e n s a r a p e r d a d a r e a l i d a d e . E m o u t r a s 
p a l a v r a s , n a n e u r o s e u m f r a g m e n t o s i g n i f i c a -
t i v o d a r e a l i d a d e é e v i t a d o e m f o r m a d e f u g a , 
e n q u a n t o n a p s i c o s e e s s e f r a g m e n t o n e g a d o é 
reconstruído: " A neurose não nega a realidade, 
só não quer saber nada sobre ela; a psicose a nega e 
procura substituí-la" ( p . 3 0 1 [39]). Q u a n t o a o 
c o m p o r t a m e n t o d i t o n o r m a l , e l e a d o t a a s p e c -
t o s d a s d u a s reações: c o m o n a n e u r o s e e l e não 
n e g a a r e a l i d a d e , m a s , c o m o n a p s i c o s e , t e n t a 
reconstruí-la e modificá-la. 
A n e u r o s e e a p s i c o s e a p r e s e n t a m u m a o u -
t r a característica c o m u m , i s t o é, a reação d e a n -
gústia q u e a c o m p a n h a o s s i n t o m a s . E s s a a n -
gústia provém d o "retorno do reprimido" p a r a a 
p r i m e i r a e d o r e t o r n o d a q u i l o q u e f o i n e g a d o 
p a r a a s e g u n d a . E m b o r a o r e t o r n o d o r e p r i m i -
d o s e j a u m a noção f r e u d i a n a clássica, é a p r i -
m e i r a v e z q u e F r e u d r e l a t a u m r e t o r n o análo-
g o r e f e r i n d o - s e a o q u e f o i o b j e t o d e u m a n e g a -
ção n a p s i c o s e : "Provavelmente, na psicose, o frag-
mento de realidaderepelido está sempre forçando a 
abertura para a vida psíquica, como faz na neurose 
a pulsão reprimida, e é por isso que o efeito é o mes-
mo nos dois casos" ( p . 3 0 2 [40]). O e f e i t o d e q u e 
s e t r a t a é o a p a r e c i m e n t o d a angústia. 
F i n a l m e n t e , d i z F r e u d , a distinção não é tão 
nítida e n t r e n e u r o s e e p s i c o s e n o q u e d i z r e s -
p e i t o à criação d e u m a n o v a r e a l i d a d e , c o m o 
n a p s i c o s e , p o i s a n e u r o s e é d e s t i n a d a i g u a l m e n -
t e a s u b s t i t u i r a r e a l i d a d e insustentável. A d i f e -
rença está e m q u e , n a p s i c o s e , a doença c r i a u m a 
n o v a r e a l i d a d e através d o delírio o u d a a l u c i -
nação, e n q u a n t o q u e n a n e u r o s e o d o e n t e t e n t a 
268 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
r e s t a b e l e c e r u m a n o v a r e a l i d a d e através d o 
m u n d o f a n t a s i o s o . E s s e m u n d o f a n t a s i o s o c o n s -
t i t u i u m "magazine" o n d e o p a c i e n t e neurótico, 
a s s i m c o m o o p a c i e n t e psicótico, obtém s u a s f a n -
t a s i a s . C o n t u d o , n o c a s o d o p a c i e n t e neurótico, 
s e u e g o não está t o t a l m e n t e s e p a r a d o d a r e a l i -
d a d e , c o m o está o e g o d o psicótico. S e m dúvi-
d a , o psicótico também r e c o r r e a u m t a l m a g a -
z i n e , e x p l i c a F r e u d , m a s o neurótico u t i l i z a e s s e 
n o v o m u n d o f a n t a s i o s o c o m o a criança b r i n c a , 
e l h e e m p r e s t a u m s e n t i d o "simbólico". E m o u -
t r a s p a l a v r a s , o neurótico c o n s e g u e e s t a b e l e c e r 
u m a diferença e n t r e r e a l i d a d e e f a n t a s i a , a o c o n -
trário d o psicótico q u e d e l i r a o u a l u c i n a . 
• "A NEGATIVA" (1925h) 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1925h), "La négat ion" , t rad. J . Laplanche, 
in Résultats, idées, problémes II, Paris, PUF, 1971,135-139 [as páginas indicadas entre colchetes remetem 
ás OCF.R XVII, p. 165-171]. 
F r e u d d e f i n i u a negação c o m o u m p r o c e d i -
m e n t o u t i l i z a d o p e l o p a c i e n t e q u a n t o s u r g e , d u -
r a n t e a análise, u m p e n s a m e n t o , u m d e s e j o o u 
u m s e n t i m e n t o q u e e l e n e g a q u e l h e pertença: 
"Compreendemos que é a devolução, por projeção, 
de uma ideia incidente que acaba de emergir". P o r 
e x e m p l o : "'Você pergunta quem pode ser essa pes-
soa no sonho. Minha mãe não é.' Nós retificamos: 
portanto é sua mãe" ( p . 1 3 5 [167]). A negação é 
também u m m e i o p a r a q u e u m conteúdo r e -
p r i m i d o - u m d e s e j o , u m s e n t i m e n t o o u u m 
p e n s a m e n t o - p o s s a a b r i r c a m i n h o até a c o n s -
ciência, a s s i n a l a F r e u d , m a s c o m a condição d e 
s e f a z e r negar. A q u i é necessária u m a o b s e r v a -
ção d e o r d e m terminológica, p o i s , e m língua 
alemã, o t e r m o Verneinung d e s i g n a a o m e s m o 
t e m p o a negação n o s e n t i d o lógico o u linguís-
t i c o d o t e r m o e a negação n o s e n t i d o psicológi-
c o , i s t o é, a r e c u s a d e u m a afirmação já f e i t a ( A . 
B o u r g u i g n o n , P . C o t e t , J . L a p l a n c h e e F . R o b e r t , 
1 8 9 8 , p . 1 2 2 ) . 
F r e u d o b s e r v a q u e a negação é u m a m a n e i -
r a d e t o m a r c o n h e c i m e n t o d o i n c o n s c i e n t e , m a s 
i s s o não s i g n i f i c a a i n d a q u e s e a c e i t e o r e p r i m i -
d o . E a s s i m q u e s e p o d e d i s t i n g u i r a função 
i n t e l e c t u a l d o j u l g a m e n t o d o p r o c e s s o a f e t i v o . 
Q u a n d o o p a c i e n t e n e g a q u a l q u e r c o i s a n o j u l -
g a m e n t o , n o f u n d o e l e q u e r d i z e r : é i s s o q u e e u 
g o s t a r i a d e r e p r i m i r , d e m o d o q u e d i z e r não s e 
t o r n a u m s i n a l d e demarcação d o q u e é r e p r i -
m i d o , "um certificado de origem comparável ao 
'made in Germany'" ( p . 1 3 6 [168]). Só é possível 
o p e r a r a função d o j u l g a m e n t o m e d i a n t e a c r i a -
ção d o "símbolo de negação" q u e p e r m i t e a o p e n -
s a m e n t o u m p r i m e i r o g r a u d e independência 
e m relação às consequências d a repressão. 
A função d e j u l g a m e n t o t e m o u t r a s d u a s c a -
racterísticas. A p r i m e i r a é s e p r o n u n c i a r s o b r e 
u m a p r o p r i e d a d e q u e é, o u não é, a q u i l o q u e 
s e p o d e e x p r e s s a r e m l i n g u a g e m p u l s i o n a l p o r : 
i s s o e u q u e r o c o m e r o u c u s p i r , o u i s s o d e v e e s -
t a r e m m i m o u f o r a d e m i m , o q u e provém d o 
"ego de prazer original". A s e g u n d a decisão a s e r 
t o m a d a p e l o j u l g a m e n t o d i z r e s p e i t o à existên-
c i a r e a l d e u m a c o i s a r e p r e s e n t a d a , o q u e p r o -
vém d a p r o v a d e r e a l i d a d e . E s s a s d u a s funções 
estão e s t r e i t a m e n t e l i g a d a s : "O não-real, o sim-
plesmente representado, o subjetivo, está apenas den-
tro; o outro, o real, também está presente f o r a " ( p . 
1 3 7 [169]). D a d o q u e , o r i g i n a l m e n t e , a s p e r c e p -
ções são t o d a s o r i u n d a s d e percepções a n t e r i o -
r e s , a existência d a representação já é u m a g a -
r a n t i a d a r e a l i d a d e d o r e p r e s e n t a d o , i s t o p o r -
q u e : "A finalidade primeira e imediata da prova de 
realidade não é, portanto, encontrar na percepção 
real um objeto correspondente ao representado, mas 
reencontrá-lo, convencer-se de que ele ainda está 
presente" ( p . 1 3 8 [169-70]). O j u l g a m e n t o c o n s -
t i t u i p a r a F r e u d a ação i n t e l e c t u a l q u e v a i d e c i -
d i r a e s c o l h a d a ação m o t r i z , i s t o é, o f a t o r 
d e t e r m i n a n t e q u e "leva a passagem do pensar ao 
agir" ( p . 1 3 8 [170]). F i n a l m e n t e , e l e r e l a c i o n a a 
p o l a r i d a d e "inclusão no ego - expulsão para fora 
do ego" a o c o n f l i t o e n t r e pulsão d e v i d a e pulsão 
d e m o r t e : "A afirmação - como substituto da uni-
ficação - pertence ao Eros, enquanto a negação -
sucessora da expulsão - pertence à pulsão de des-
truição. O prazer generalizado da negação, o ne-
gativismo de tantos psicóticos, possivelmente deva 
ser compreendido como indicador da separação das 
pulsões pela retirada dos componentes libidinais" 
( p . 1 3 9 [170]). 
L e r F r e u d 2 6 9 
• " A L G U M A S C O N S E Q U Ê N C I A S PS ÍQUICAS DA D IST INÇÃO A N A T Ó M I C A ENTRE O S S E X O S " (1925j) 
As páginas indicadas remetem ao texto publicado em S. Freud (1925j), "Quelques conséquences psychologiques 
de la différence anatomique entre les sexes", trad. D. Berger, J. Laplanche era/. , in La vie sexuelle, Paris, PUF, 
1970,123-132 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R XVII, p. 189-202]. 
A noção d e negação também a p a r e c e e m 
p r i m e i r o p l a n o n e s t e a r t i g o q u e t r a t a e s s e n -
c i a l m e n t e d a s consequências d o c o m p l e x o d e 
castração s o b r e o d e s e n v o l v i m e n t o d a m e n i -
n a e d o m e n i n o . N o prólogo a e s s e e s t u d o , 
F r e u d i n s i s t e n a n e c e s s i d a d e d e a n a l i s a r a s e -
x u a l i d a d e i n f a n t i l t a l c o m o e l a s e d e s e n v o l v e 
a o l o n g o d o p r i m e i r o período d a infância e 
a i n d a n o t e m p o q u e é necessário d e d i c a r p a r a 
o b t e r r e s u l t a d o s . E l a m a n i f e s t a a s s i m s u a 
discordância c o m a s t e n t a t i v a s d e r e d u z i r a 
duração d a s análises: "Essa análise da primeira 
infância é longa e penosa, e o que ela exige do médi-
coe do paciente nem sempre é cumprido na práti-
ca" ( p . 1 2 3 [191]). 
O d e s e n v o l v i m e n t o p s i c o s s e x u a l 
n o m e n i n o e na m e n i n a 
F r e u d começa p o r d e s c r e v e r e m l i n h a s g e -
r a i s a s p r i n c i p a i s e t a p a s d o d e s e n v o l v i m e n t o 
d o m e n i n o . E l e l e m b r a q u e a a t i t u d e e d i p i a n a 
d o m e n i n o c h e g a a o s e u a c m e n a f a s e fálica e 
q u e s e u c o m p l e x o "perece" - c o n f o r m e s u a s 
p a l a v r a s - q u a n d o sobrevêm a angústia d e c a s -
tração. Além d i s s o , e m razão d a b i s s e x u a l i d a d e 
psíquica, o c o m p l e x o d e Édipo d o m e n i n o é s i -
m u l t a n e a m e n t e a t i v o e p a s s i v o , p o i s e l e s e i d e n -
t i f i c a c o m s e u p a i e d e s e j a s e c a s a r c o m s u a mãe 
e , a o m e s m o t e m p o , i d e n t i f i c a - s e c o m s u a mãe 
e a d o t a u m a a t i t u d e f e m i n i n a d i a n t e d e s e u p a i . 
F r e u d i n s i s t e i g u a l m e n t e s o b r e p a p e l i m p o r t a n -
t e d a masturbação d u r a n t e a "pré-história" d o 
c o m p l e x o d e Édipo, p o i s e l a p e r m i t e a d e s c a r -
g a d a excitação s e x u a l . 
D e p o i s d e s s a recapitulação, F r e u d e x a m i -
n a o c o m p l e x o d e Édipo n a m e n i n a e c o n s t a t a 
q u e e s t e e n c e r r a u m p r o b l e m a a m a i s e m r e -
lação a o d o m e n i n o , q u e é o f a t o d e q u e a m e -
n i n a é c o n d u z i d a a m u d a r d e o b j e t o a o l o n g o 
d e s u a evolução i n f a n t i l . D e f a t o , s e a mãe 
c o n s t i t u i o p r i m e i r o o b j e t o d e a m o r t a n t o p a r a 
o m e n i n o c o m o p a r a a m e n i n a , o m e n i n o a 
c o n s e r v a p o r s e u c o m p l e x o d e Édipo, e n q u a n -
t o q u e a m e n i n a r e n u n c i a a e l a e t o m a s e u p a i 
c o m o o b j e t o d e a m o r . O q u e é q u e l e v a a m e -
n i n a a f a z e r e s s a mudança d e o b j e t o ? 
E m s e g u i d a , F r e u d e s t u d a d e t a l h a d a m e n t e 
o q u e e l e c h a m a d e pré-história, i s t o é, o q u e 
p r e c e d e o e s t a b e l e c i m e n t o d o c o m p l e x o d e 
Édipo n a m e n i n a , q u e , p a r a e l e , g i r a e s s e n c i a l -
m e n t e e m t o r n o d a questão d a i n v e j a d o pênis 
e d a c a p a c i d a d e d a m e n i n a d e s u p e r a r e s s a i n -
v e j a p a r a t o m a r o c a m i n h o d a f e m i n i l i d a d e . 
F r e u d s i t u a o m o m e n t o c r u c i a l d o d e s e n v o l v i -
m e n t o d a m e n i n a n a f a s e fálica, a n t e s d e s e u 
c o m p l e x o d e Édipo, q u a n d o e l a "nota o grande 
pênis bem visível de um irmão ou de um amigui-
nho, reconhece-o logo como a réplica superior de seu 
pequeno órgão oculto, e desde então passa a ser víti-
ma da inveja do pênis" ( p . 1 2 6 [195]). 
N e s s e p o n t o , o c o m p o r t a m e n t o d o m e n i n o 
s e d i f e r e n c i a d o d a m e n i n a : q u a n d o e l e v i s l u m -
b r a a z o n a g e n i t a l d a m e n i n a , o u não vê n a d a , 
o u n e g a s u a percepção e a c r e d i t a t e r v i s t o u m 
pênis. Só m a i s t a r d e , q u a n d o a ameaça d e c a s -
tração p e s a r s o b r e e l e , é q u e e s s a observação 
g a n h a s e n t i d o a posteriori: d e s d e então, o m e n i -
n o i m a g i n a q u e a m u l h e r s e j a u m a c r i a t u r a 
m u t i l a d a , c a s t r a d a . I s s o e x p l i c a q u e e l e p a s s e a 
t e r " h o r r o r " d a m e n i n a e d e m o n s t r e e m r e l a -
ção a e l a u m " d e s p r e z o t r i u n f a n t e " ( p . 1 2 7 [196]). 
C o m a m e n i n a é d i f e r e n t e , s e g u n d o F r e u d : 
"De imediato, ela julgou e decidiu. Ela o viu, sabe 
que não o tem e quer tê-lo. É aqui que se instala o 
complexo de masculinidade da menina" ( p . 1 2 7 
[196]). A f o r m a c o m o a m e n i n a r e a g e a e s s e 
c o m p l e x o d e m a s c u l i n i d a d e determinará s e u 
f u t u r o , c o n f o r m e e l a c o n s i g a superá-lo r a p i d a -
m e n t e o u s u c u m b a a e l e . C o n t u d o , m e s m o q u e 
e l a o s u p e r e , "a esperança de um dia, apesar de 
tudo, conseguir um pênis e assim se tornar seme-
lhante aos homens, pode se manter até uma época 
incrivelmente tardia (...)" ( p . 1 2 7 [196]). Porém, 
q u a n d o a m e n i n a não s u p e r a s e u c o m p l e x o d e 
m a s c u l i n i d a d e e s u r g e a negação d e s u a c a s -
tração, e l a p a s s a a s e c o m p o r t a r e m s e g u i d a 
c o m o s e f o s s e u m h o m e m : "Ou então entra em 
cena o processo que eu gostaria de descrever como 
negação; ele não parece nem raro nem muito peri-
270 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
goso para a vida mental da criança, mas nos adultos 
criaria uma psicose" ( p . 1 2 7 [196]). 
A inve ja d o p ê n i s na m e n i n a 
A i n v e j a d o pênis t e m d i v e r s a s consequên-
c i a s psíquicas p a r a a m e n i n a . R e v e l a u m s e n -
t i m e n t o d e i n f e r i o r i d a d e q u e e l a s e n t e c o m o 
u m a "ferida narcísica" e c o m o u m a "punição 
pessoal", c h e g a n d o a c o m p a r t i l h a r e m relação 
a e l a própria o d e s p r e z o d o h o m e m p e l a m u -
l h e r . A i n v e j a d o pênis r e v e l a i g u a l m e n t e a 
ciúme p a r t i c u l a r d a m u l h e r e s e a s s o c i a à f a n -
t a s i a masturbatória d a criança e s p a n c a d a 
( F r e u d , 1 9 1 9 e ) . U m a o u t r a consequência p a r a 
a m e n i n a é "o relaxamento da relação terna com a 
mãe enquanto objeto" ( p . 1 2 8 [198]), mãe q u e 
f r e q u e n t e m e n t e é r e s p o n s a b i l i z a d a p e l a f a l t a 
d o pênis. F i n a l m e n t e , o f a t o r m a i s d e t e r m i -
n a n t e , s e g u n d o F r e u d , está l i g a d o à importân-
c i a q u e a s s u m e a masturbação c l i t o r i a n a c o m o 
a t i v i d a d e m a s c u l i n a , p o i s e s t a c r i a obstáculo 
a o d e s e n v o l v i m e n t o d a m u l h e r . P o u c o d e p o i s 
d a f a s e d e i n v e j a d o pênis l i g a d a à f a s e fálica, 
a m e n i n a começa a s e r e v o l t a r c o n t r a o o n a -
n i s m o c l i t o r i a n o , e é a r e v o l t a c o n t r a o f a t o d e 
não s e r u m m e n i n o q u e a c o n d u z à f e m i n i l i -
d a d e : "É assim que o reconhecimento de uma di-
ferença anatómica entre os sexos afasta a menina 
da masculinidade e do onanismo masculino e a co-
loca em outros caminhos que levam ao desenvolvi-
mento da feminilidade" ( p . 1 3 0 [199]). É s o m e n -
t e então q u e o c o m p l e x o d e Édipo e n t r a e m 
j o g o n a m e n i n a . E m v i r t u d e d a "(...) equação 
simbólica: pênis = filho"1, a m e n i n a r e n u n c i a à 
i n v e j a d o pênis "para substituí-lo pelo desejo de 
um filho e, com esse desígnio, ela toma o pai como 
objeto de amor. A mãe se torna objeto de seu ciú-
me; a menina vira mulher" ( p . 1 3 0 [199]). A q u i 
F r e u d i n t r o d u z u m a d a s únicas menções e x -
plícitas e m s u a o b r a s o b r e a possível existên-
c i a d e sensações e s p e c i f i c a m e n t e f e m i n i n a s , 
observação q u e s e d e v e , s e m dúvida, à c o n -
testação s u s c i t a d a p o r s u a s posições "falocên-
t r i c a s " , e m p a r t i c u l a r p o r p a r t e d a s p s i c a n a -
l i s t a s m u l h e r e s , e também d o s h o m e n s : "A se 
levar em conta uma sondagem analítica isolada, 
nessa nova situação podem se produzir sensações 
corporais que devem ser consideradas como um 
despertar prematuro do aparelho genital feminino" 
( p . 1 3 0 [199]). 
C o m p l e x o d e É d i p o d i f e r e n t e 
n o m e n i n o e na m e n i n a 
F r e u d c h e g o u a u m a série d e conclusões. 
P r i m e i r a me n t e , e l e vê u m a oposição f u n d a -
m e n t a l e n t r e o s d o i s s e x o s n o q u e s e r e f e r e a o 
c o m p l e x o d e Édipo e a o c o m p l e x o d e c a s t r a -
ção: n o m e n i n o , o c o m p l e x o d e Édipo é s e g u i -
d o d a ameaça d e castração q u e d e p o i s o f a z d e -
s a p a r e c e r , e n q u a n t o n a m e n i n a é a castração 
q u e p r e c e d e o c o m p l e x o d e Édipo e t o r n a p o s -
sível s u a aparição e m u m s e g u n d o m o m e n t o : 
" E n q u a n t o o c o m p l e x o de Édipo desaparece sob 
o efeito do c o m p l e x o de castração, o d a m e n i -
n a se t o r n a possível e é i n t r o d u z i d o p e l o c o m -
p l e x o de castração" ( p . 1 3 0 [200]). I s s o s i g n i f i c a 
q u e , p a r a F r e u d , o d e s e n v o l v i m e n t o s e x u a l d o 
h o m e m e d a m u l h e r r e s u l t a d a diferença 
anatómica e n t r e o s s e x o s e d a s consequências 
psicológicas q u e e n v o l v e m a questão d a c a s t r a -
ção: e l a c o r r e s p o n d e à diferença e n t r e "a castra-
ção realizada" - i s t o é, r e a l - n a m e n i n a e "a sim-
ples ameaça de castração" - i s t o é, f a n t a s i a d a - n o 
m e n i n o ( p . 1 3 0 [200]). M a i s u m a v e z , s e a f a l t a 
d o pênis c o n s t i t u i u m a s p e c t o i m p o r t a n t e d o 
d e s e n v o l v i m e n t o d a p s i c o s s e x u a l i d a d e t a n t o 
d a m e n i n a c o m o d o m e n i n o , F r e u d não s e dá 
c o n t a d e o u t r o a s p e c t o i g u a l m e n t e i m p o r t a n -
t e , i s t o é, q u e e x i s t e m e l e m e n t o s específicos l i -
g a d o s à f e m i n i l i d a d e , a o s órgãos f e m i n i n o s e 
às f a n t a s i a s l i g a d a s a i s s o . 
F i n a l m e n t e , s e g u n d o F r e u d , o d e c u r s o d o 
c o m p l e x o d e Édipo d i f e r e n o m e n i n o e n a m e -
n i n a . N o p r i m e i r o , o c o m p l e x o d e Édipo não é 
s i m p l e s m e n t e r e p r i m i d o , "ele vai pelos ares lite-
ralmente sob o choque da ameaça de castração" ( p . 
1 3 1 [200]) e s e u s o b j e t o s p a r e n t a i s f o r m a m o 
s u p e r e g o . N o q u e d i z r e s p e i t o a o c o m p l e x o d e 
Édipo d a m e n i n a , e l e só s e r i a a b a n d o n a d o m u i -
'Em alemão: " ( . . . ) s y m b o l i s c h e G l e i c h u n g : P e n i s = K i n c T , GW, XIV, p. 27. 
L e r F r e u d 271 
t o l e n t a m e n t e , s o b o e f e i t o d a repressão. É p o r 
i s s o q u e , s e g u n d o F r e u d , o s u p e r e g o d a m u l h e r 
n u n c a é tão inexorável q u a n t o o d o h o m e m , e 
d i s s o d e c o r r e m o s s e g u i n t e s traços d e caráter 
"que sempre se reprovem e criticou na mulher": u m 
m e n o r s e n t i m e n t o d e justiça q u e o h o m e m , u m a 
m e n o r sujeição às n e c e s s i d a d e s d a existência e 
u m a tendência a s e d e i x a r g u i a r m a i s p e l o s s e n -
t i m e n t o s , e t c . C o n t u d o , F r e u d r e c o n h e c e q u e a 
d e s p e i t o d e s u a s críticas e m relação às m u l h e -
r e s , a m a i o r i a d o s h o m e n s p e r m a n e c e b e m 
aquém d o i d e a l m a s c u l i n o . P a r a c o n c l u i r , F r e u d 
a v a l i a q u e a i g u a l d a d e d o s s e x o s r e i v i n d i c a d a 
p e l a s f e m i n i s t a s não é aceitável, e q u e t o d o s 
p o s s u e m a o m e s m o t e m p o traços m a s c u l i n o s e 
traços f e m i n i n o s , "embora o conteúdo das constru-
ções teóricas da masculinidade pura e da feminilida-
de pura permaneça incerto" ( p . 1 3 2 [201 ]). 
• " F E T I C H I S M O " ( 1 9 Í 7 e ) 
As páginas indicadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1927e), "Le fét ichisme", t rad. D. Berger, J . 
Laplanche era/ . , in La vie sexuelle, Paris, PUF, 1970, 133-138 [as páginas indicadas entre colchetes reme-
tem às OCF.R XVIII, p. 123-131]. 
A n e g a ç ã o da p e r c e p ç ã o d a r e a l i d a d e 
n o f e t i c h i s m o 
E m " F e t i c h i s m o " , F r e u d e l a b o r a a noção 
d e negação, q u e c o n s i s t e e m r e c u s a r a p e r c e p -
ção d e u m a r e a l i d a d e intolerável, e v i n c u l a 
e s s a d e f e s a à c l i v a g e m d o e g o q u e é s u a c o n -
sequência. O protótipo d e s s e t i p o d e d e f e s a é 
o f e t i c h i s m o , q u e n e g a a percepção d a c a s t r a -
ção n a m u l h e r , e o f e t i c h e é o s u b s t i t u t o d o 
pênis f a l t a n t e . Além d i s s o , F r e u d c o n s t a t a n o 
f e t i c h i s m o q u e d u a s a t i t u d e s contraditórias 
c o e x i s t e m d e n t r o d o e g o , u m a n e g a n d o a p e r -
cepção d a f a l t a d o pênis n a m u l h e r , a o u t r a 
r e c o n h e c e n d o e s s a f a l t a . A i d e i a d e q u e e x i s t e 
u m a c l i v a g e m n o e g o q u e d e t e r m i n a d u a s a t i -
t u d e s contraditórias n o p s i q u i s m o o levará a 
m o d i f i c a r s u a s concepções a n t e r i o r e s , p a r t i -
c u l a r m e n t e s o b r e a p s i c o s e , e e l e d e s e n v o l v e -
rá s e u p o n t o d e v i s t a n a s d u a s contribuições 
p o s t e r i o r e s . 
E a análise d e vários c a s o s d e f e t i c h i s m o 
q u e l e v a F r e u d a c o n s i d e r a r q u e o o b j e t o f e t i -
c h e - pé, s a p a t o , peliça, lingerie f e m i n i n a . - é 
u m s u b s t i t u t o d o pênis, m a s não i m p o r t a q u a l : 
"O fetiche é o substituto do falo da mulher (a mãe) 
em que o menino acreditava e ao qual, sabemos por 
que, ele não quer renunciar" ( p . 1 3 4 [126]). V a l e 
d e s t a c a r , a propósito d a p a l a v r a " f a l o " u t i l i -
z a d a a q u i p o r F r e u d , q u e e l e r a r a m e n t e e m -
p r e g a e s s e t e r m o ; e m compensação e l e u s a 
c o m frequência o t e r m o pênis ("inveja do pê-
nis", e t c ) , a s s i m c o m o o a d j e t i v o "fálico" ("fase 
fálica", e t c ) . Além d i s s o , F r e u d não d i f e r e n c i a -
v a o s t e r m o s pênis e f a l o c o m o a l g u n s p s i c a -
n a l i s t a s pós-freudianos, n o s q u a i s s e p o d e 
c o n s t a t a r "um uso progressivamente diferencia-
do dos termos pênis efalo, o primeiro designando o 
órgão masculino na sua realidade corporal, o se-
gundo destacando o valor simbólico deste" 
( L a p l a n c h e e P o n t a l i s , 1 9 6 7 , p . 3 1 1 ) . 
M a s , v o l t e m o s a o f e t i c h i s t a . O f e t i c h e , d e 
f a t o , é c o n s i d e r a d o n a s f a n t a s i a s i n c o n s c i e n t e s 
c o m o r e p r e s e n t a n t e d o c o r p o d a m u l h e r , e n -
q u a n t o s u b s t i t u t o simbólico d o pênis. C o m i s s o , 
p a r a o f e t i c h i s t a , a m u l h e r p e r d e s e u a t r a t i v o 
s e x u a l , q u e s e c o n c e n t r a a g o r a n o o b j e t o f e t i -
c h e , f o n t e única d a excitação s e x u a l . S e g u n d o 
F r e u d , a constituição d e u m o b j e t o f e t i c h e v i s a 
a e s t a b e l e c e r u m a "desmentida" (Verleugnung) 
d a castração n a m u l h e r , a f i m d e p r o t e g e r o f e -
t i c h i s t a d a angústia e m f a c e d e s s a percepção 
ameaçadora. " O horror da castração se erigiu um 
monumento criando esse substituto" ( p . 1 3 5 [127]). 
O f e t i c h e t e m , p o r t a n t o , u m a d u p l a função c o n -
traditória, a d e m a n t e r a crença d e q u e a m u -
l h e r t e m u m pênis e , s i m u l t a n e a m e n t e , a d e s e 
p r o t e g e r c o n t r a a percepção d a r e a l i d a d e d a 
castração d a m u l h e r : "Ele [o fetiche] permanece o 
sinal de um triunfo sobre a ameaça de castração, e 
uma proteção contra essa ameaça" ( p . 1 3 5 [127]). 
A n e g a ç ã o d a p e r c e p ç ã o d a p e r d a d e 
o b j e t o n o l u to p a t o l ó g i c o 
E s s a a t i t u d e psíquica contraditória q u a n t o 
à percepçãod a castração n a m u l h e r f o i o b s e r -
v a d a p o r F r e u d também n o l u t o patológico, e 
272 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z 
e l e dá u m e x e m p l o d i s s o a propósito d a a t i t u d e 
d e d o i s irmãos e m relação à m o r t e d e s e u p a i 
a m a d o . N e s s e s d o i s j o v e n s , e l e d e s c r e v e a 
"clivagem" q u e s e i n s t a l o u e m s u a p e r s o n a l i d a -
d e e m relação a e s s a p e r d a d e o b j e t o , c l i v a g e m 
idêntica à q u e o b s e r v o u n o f e t i c h i s m o : "Parecia 
que os dois jovens tinham 'escotomizado' a morte de 
seu pai do mesmo modo que os fetichistas o fazem 
com relação á castração da mulher. Havia apenas uma 
corrente de sua vida psíquica que não reconhecia essa 
morte, uma outra corrente a percebia perfeitamente; 
as duas posições, uma fundada no desejo e a outra 
fundada na realidade, coexistiam" ( p . 1 3 7 [129]). 
E m u m d o s irmãos, F r e u d e x p l i c a q u a l é o e f e i -
t o p r o d u z i d o n o nível d o e g o p e l a negação d a 
r e a l i d a d e d a p e r d a d o p a i : "Em todas as situa-
ções, o sujeito oscilava entre duas hipóteses: uma se-
gundo a qual o pai ainda estava vivo e impedia sua 
atividade e a outra segundo a qual, ao contrário, seu 
pai estando morto, ele podia se considerar legitima-
mente como seu sucessor" ( p . 1 3 7 [129]). E s s e 
e x e m p l o m o s t r a q u e , t a n t o n o l u t o patológico 
c o m o n o f e t i c h i s m o , a c l i v a g e m d o e g o q u e r e -
s u l t a d a introjeção d o o b j e t o p e r d i d o d e t e r m i -
n a d u a s a t i t u d e s contraditórias e m relação à p e r -
cepção d a r e a l i d a d e d a p e r d a , u m a a c e i t a n d o -
a , a o u t r a n e g a n d o - a . F r e u d c o m p l e m e n t a a s -
s i m s e u s p o n t o s d e v i s t a q u e h a v i a e x p o s t o e m 
" L u t o e m e l a n c o l i a " ( 1 9 1 7 e [ 1 9 1 5 ] ) . E l e c o n c l u i 
a f i r m a n d o q u e o m e s m o fenómeno s e p r o d u z 
n a p s i c o s e , m a s a p e n a s u m a d a s a t i t u d e s c o n -
d u z à r e t i r a d a d a r e a l i d a d e , d e m o d o q u e e l a 
não é c o m p l e t a , c o m o t i n h a p e n s a d o a n t e r i o r -
m e n t e : "Posso manter assim minha suposição de que 
na psicose, uma das correntes, aquela fundada na 
realidade, realmente desapareceu" ( p . 1 3 7 [130]). 
• "A DIVISÃO D O E G O N O P R O C E S S O DE DEFESA" (1940e [1938] ) 
As páginas ind icadas remetem ao texto publ icado em S. Freud (1940e [1938]) , "Le cl ivage du moi dans le 
processus de defense" , t rad. Roger Lewinter e J.-B. Pontalis, in Résultats, idées, problémes II, Paris, PUF, 
1971, 283-286. 
F r e u d r e t o m a a q u i a i d e i a d e q u e , d e s d e a 
infância, o e g o p o d e s e r c o n f r o n t a d o c o m e x i -
gências contraditórias e , então r e s p o n d e a o 
c o n f l i t o m e d i a n t e d u a s reações o p o s t a s : d e u m 
l a d o , e l e r e c u s a a r e a l i d a d e e não s e p e r m i t e 
p r o i b i r e m n a d a d e s u a s pulsões; d e o u t r o l a d o , 
r e c o n h e c e s i m u l t a n e a m e n t e o p e r i g o p r o v e -
n i e n t e d a r e a l i d a d e a s s u m e a angústia s o b f o r -
m a d e s i n t o m a . M a s e s s a solução m u i t o hábil 
t e m s e u preço: a c l i v a g e m d o e g o irá a u m e n -
t a n d o c o m o s a n o s : "O êxito foi atingido ao pre-
SBOÇO DE PSICANÁLISE (1940a [1938] ) 
ç o de uma ferida no ego, ferida que nunca mais será 
curada, mas aumentará com o tempo. As duas 
reações ao conflito, reações opostas, se mantêm como 
núcleo de uma clivagem no ego" ( p . 2 8 4 ) . U m a 
t a l perturbação d o e g o é e s t r a n h a , a c r e s c e n t a 
F r e u d , p o i s s e e s p e r a q u e e l e exerça u m a f u n -
ção sintética. F r e u d c o n c l u i c o m o c a s o d e u m 
m e n i n o d e 3 o u 4 a n o s q u e c o n f i r m a s e u s p o n -
t o s d e v i s t a s o b r e a c l i v a g e m d o e g o e o p a p e l 
d o f e t i c h e c o m o s u b s t i t u t o f a n t a s i a d o d o pê-
n i s d a m u l h e r . 
B I O G R A F I A S E HISTORIA 
U m tes tamen to abe r to s o b r e o f u tu ro 
Esta obra contém os últ imos desdobramentos feitos por Freud a essa série de art igos, e por isso acredi to 
que ela tem lugar entre eles, m e s m o que isso possa conturbar um pouco a o rdem cronológica. Foi escrita 
por Freud pouco após sua chegada a Londres, entre ju lho e setembro de 1938, quando ele estava c o m 82 
anos. Mas ele teve de interromper sua redação devido a uma recaída do câncer que o obr igou a uma nova 
operação. O Esboço de psicanálise foi pub l icado em 1940, um ano depois de sua morte. 
Continua 0

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