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Curso FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE ___ Versão 1.4 2 NE@D Formação em Psicanálise Clínica - Curso de Formação em Psicanálise Clínica Elaborado pelo IPAVIAMG por meio do Núcleo de Educação à Distância IPAVIAMG - Instituto Psicanalítico AVia Minas Gerais Tutor - Prof. Alexandre Motta Alonso Coordenador Acadêmico - Prof. Alexandre Motta Alonso Coordenação do Núcleo de Educação a Distância e Direção Acadêmica - Prof. Dr. Alexandre Motta Alonso Conteudista - Prof. Dr. Alexandre Motta Alonso Desenvolvimento do Material Instrucional - Prof. Alexandre Motta Alonso Suporte Pedagógico - Prof. Alexandre Motta Alonso e Prof. Gustavo Ribas Rezende Revisão - Prof. Gustavo Ribas Rezende Projeto Gráfico - Equipe do Núcleo de Educação a Distância do IPAVIAMG 3 Conteúdo Programático Aula 02 O que veremos nesta aula? 1. Psicanálise em Definição 2. Id, Ego e Superego 3. Histeria 1. OBJETIVO Para iniciar no caminho da formação em Psicanálise Clínica, é importante que se faça muita leitura, reflexão e análise crítica. Compreender e conhecer a definição da psicanálise e os três níveis de consciência segundo Freud. Ampliar alguns conceitos como a histeria para a teoria psicanalítica. 4 2. RESUMO Esperamos que, ao final, você possa ter acrescentado novas perspectivas sobre o tema aos diversos conhecimentos e experiências que já possui. Assim, construiremos um perfil de um profissional mais ético, respeitoso e justo. Vamos começar? “O afeto estrangulado é convertido nos sintomas físicos da histeria por estímulo inconsciente.” Freud 5 NE@D Formação em Psicanálise Clínica - Curso de Formação em Psicanálise Clínica 2 Elaborado pelo IPAVIAMG por meio do Núcleo de Educação à Distância IPAVIAMG - Instituto Psicanalítico AVia Minas Gerais 2 Conteúdo Programático 3 O que veremos nesta aula? 3 OBJETIVO 3 RESUMO 4 “O afeto estrangulado é convertido nos sintomas físicos da histeria por estímulo inconsciente.” 4 Freud 4 TEORIA PSICANALÍTICA 6 INCONSCIENTE, PRÉ-CONSCIENTE, CONSCIENTE 10 TEORIA ESTRUTURAL OU DINÂMICA 13 ID 13 EGO 14 SUPEREGO 15 ID, EGO, SUPEREGO 16 ID OU ISSO 17 CONCEITO DE ID 18 EGO OU EU 19 CONCEITO DE EGO 21 SUPEREGO OU SUPEREU 25 CONCEITO DE SUPEREGO 25 REFLEXÕES SOBRE A HISTERIA 29 HISTERIA EM DEFINIÇÃO 32 HISTÓRIA DO PRIMEIRO VIBRADOR 35 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA (1895) 35 FREUD E BREUER 36 PROGRESSOS DA HISTERIA 42 Referências: 42 Tutores: 44 Dúvidas Frequentes: 44 6 Psicanálise em Definição TEORIA PSICANALÍTICA A metodologia científica em Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a psicanálise é uma pesquisa. A Psicanálise aplicada é o tratamento psicanalítico. Tudo aquilo que escapa ao tratamento psicanalítico é a teoria psicanalítica. O anterior no leva a importante reflexão, pois quer dizer, que o psicanalista pode aprender através da investigação da cultura humana, ou seja, das atividades humanas, como fez o ilustre Freud com a obra de Sófocles com o Édipo Rei. Ao longo da próxima unidade será possível um mergulho na mitologia grega e sua relação com a psicanálise, bem como, ampliar a noção e compreensão do “Complexo de Édipo” para a psicanálise. Ainda pensando no campo da investigação é que Pinheiro (1999), comenta em seu artigo que a cada momento de elaboração teórica corresponde uma proposta terapêutica específica, implicando no avanço paralelo de seu corpo teórico e de suas aplicações práticas. Na verdade esta proposição, por um lado, impede que a teoria psicanalítica, desvinculada de sua prática, se transforme, conforme nos advertiu Freud (1933[1932]), em uma visão de mundo (Weltanschauung). No artigo “O ensino da teoria psicanalítica: falar sobre o inconsciente com o discurso lógico do consciente”, Chiapello (2012), apresenta algumas alusões acerca da teoria psicanalítica e esclarece, que as dificuldades que caracterizam o saber a ser transmitido referem-se à especificidade das descobertas psicanalíticas: seu caráter de ser do registro do agir, ou seja, de uma práxis e não unicamente do saber. Segundo Petry (2006), A teoria psicanalítica, ainda que fique entre a reinvenção e a repetição, continua parte da formação analítica e seu ensino é exigido por várias instituições psicanalíticas. Pelo anterior, se observa que surge a importância deste presente capítulo e do 7 ensino da teoria psicanalítica como parte da formação de novos psicanalistas. Ainda segundo é possível observar o constructo teórico que nos espera e o quanto o saber psicanalítico requer leitura, busca pelo conhecimento, investigação e aprendizado constante. Vemos em Safouan (1985) apud Petry (2006), defende que um dos três pontos que seriam admitidos pelos analistas é o de que um psicanalista, independente de sua linha teórica, necessariamente deve passar previamente por uma análise que o habilite, de alguma forma, a analisar outros. Todos os psicanalistas em formação se deparam com está parte da tradição das instituições psicanalíticas e na aposta no chamado tripé da formação do analista, composto de análise didática, análise de controle (supervisão, a partir de Lacan) e estudo teórico. Segundo vemos por meio dos autores, também se pode considerar consenso entre psicanalistas de diferentes orientações teóricas que a formação de novos analistas não é comparável à simples aprendizagem de conceitos psicanalíticos ou de uma técnica de trabalho, uma vez que a formação não é redutível ao ensino ou à aprendizagem de conceitos e métodos. O ensino desses conceitos ou do que poderia ser considerada uma técnica psicanalítica nunca foi, portanto, considerado suficiente para a formação de analistas, mas tampouco foi abandonado pelas instituições psicanalíticas (PRETY, 2006). Freud não é apenas o pai da psicanálise, mas o fundador de uma forma muito particular e inédita de produzir ciência e conhecimento. Ele reinventou o que se sabia sobre a alma humana (a psique), instaurando uma ruptura com toda a tradição do pensamento ocidental, a partir de uma obra em que o pensamento racional, consciente e cartesiano perde seu lugar exclusivo e egrégio. Seus estudos sobre a vida inconsciente, realizados ao longo de toda a sua vasta obra, são hoje referência obrigatória para a ciência e para a filosofia contemporâneas. Na leitura do “Compêndio da psicanálise”, vemos que as formulações da psicanálise se apoiam numa profusão imensa de observações e de experiências, e só quem repete essas observações em si mesmo e em outros tomou o caminho que leva a um juízo próprio. De qualquer forma surge um alerta interessante no artigo “Entre o necessário e o impossível: o ensino da teoria psicanalítica na formaçãode psicanalistas”, que defende que a impossibilidade de reduzir a psicanálise a uma ciência preditiva e o ofício do psicanalista ao exercício de uma técnica pode, num extremo, levar a minimizar a importância da teoria 8 psicanalítica na formação de novos analistas e na própria prática analítica. Em toda a história do movimento psicanalítico que será estuda nas próximas unidades com mais profundidade, aponta a partir da dissensão de Jung e Adler, a questão de como proteger a psicanálise das resistências que podem surgir internamente ao movimento que foi alvo de muitos ataques. Nesse ínterim, foi quando Ferenczi destacou a necessidade de uma primeira forma de controle: que um pequeno grupo fosse analisado pessoalmente por Freud, de modo que estes pudessem se tornar referências de confiança nos vários centros psicanalíticos – nascia aqui o paradigma da formação embutida da ideia de que “a transmissão da psicanálise é regulada pela transferência, e que a transferência (a Freud) seria o melhor instrumento para evitar “adulterações teóricas” com base em complexos pessoais”. Pelo anterior, é possível deduzimos que as bases da continuidade da psicanálise se encontram, primeiramente, na própria experiência analítica como apontado por seu fundador no texto bem como na questão da análise leiga (1926), mas também na reunião daqueles que se propõem trabalhar os desdobramentos dessa prática nas chamadas instituições psicanalíticas, espaço no qual o ensino e a transmissão da psicanálise ocupam lugar privilegiado. A amplitude e complexidade do conceito freudiano de inconsciente, e consequentemente, de sua invenção teórica – a psicanálise – logo produziu interlocuções com outros saberes e interesses variados, até o momento em que veio a ser absorvida pelo discurso das massas, embora frequentemente permeada por certos equívocos, como bem exemplifica o famoso dito: Freud explica! De todo modo, a psicanálise hoje ocupa um lugar no discurso social. A fim de compreender o que é a psicanálise, destaca-se que a psicanálise é: Psicanálise é um ramo clínico teórico que se ocupa em explicar o funcionamento da mente humana, ajudando a tratar distúrbios mentais e neuroses. O objeto de estudo da psicanálise concentra-se na relação entre os desejos inconscientes e os comportamentos e sentimentos vividos pelas pessoas. (Fonte: https://www.significados.com.br/psicanalise /) Procedimento para investigação de processos mentais, os quais são praticamente inacessíveis de outra forma, especialmente de vivências internas e profundas, como pensamentos, sentimentos, emoções, fantasias e sonhos. A criação da Psicanálise se deve ao desenvolvimento do método psicanalítico. 9 Este método nasce de uma prática, consistindo em três fatores fundamentais: observação, investigação e interpretação. Portanto complementando um método (baseado nessa investigação) para o tratamento das neuroses; De acordo com Kabori (2013), Por meio desta lente (psicanálise), foi possível entender a histeria e, a partir daí a psique humana. Até o momento pré-psicanalítico, apenas existiam noções nosográficas a respeito desta patologia e tentativas de tratamento sem muito sucesso, como a hipnose por exemplo. Uma observação importante para todos nós, é que o material clínico e teórico em seus escritos sempre que possível era acompanhado de mitos, obras literárias e estudos antropológicos, como forma de comparação, ilustração ou exemplo, tanto para facilitar o entendimento da comunicação, quanto para reforçar seu argumento, o que na época, era necessário devido à grande oposição à Psicanálise no meio científico (Mezan, 1985). De outro modo, gostaríamos também de destacar a relação dialética existente entre teoria e clínica encontrada na obra freudiana. Em nenhum momento desta, os campos teórico e clínico se afastam. De tal forma que, encontra-se nas possibilidades e limites circunscritos pela prática clínica, o espaço no interior do qual a teoria pode ser construída por meio da escuta psicanalítica e dos casos clínicos essenciais à transmissão da psicanálise enquanto saber. Portanto, a psicanálise, é um método de investigação que busca evidenciar o significado inconsciente das palavras, atos e produções imaginárias (sonhos, devaneios) de um indivíduo, baseado na associação livre. Então surge a seguinte pergunta: qual é o objetivo da atividade psicanalítica e como podemos interpretar o papel do psicanalista? De acordo com o artigo “"A análise é o que se espera de um psicanalista”, vemos que a análise é o que se espera de um psicanalista": das múltiplas definições que Lacan pôde dar, essa talvez seja a mais certeira. Ela precisa, com humor e rigor, a especificidade da psicanálise, fazendo-a depender do que é um psicanalista, ou seja, da sua formação, que não é senão o resultado de uma análise. Em outras palavras e buscando uma simplificação podemos dizer de forma simples: psicanalista = espelho Complementando o anterior, nosso objetivo claramente posto está em tornar consciente o inconsciente. 10 INCONSCIENTE, PRÉ-CONSCIENTE, CONSCIENTE Sigmund Freud empregou a palavra "aparelho" para definir uma organização psíquica dividida em sistemas, ou instâncias psíquicas, com funções específicas, que estão interligadas entre si, ocupando certo lugar na mente. Assim, o modelo tópico designa um "modelo de lugares"; Freud formulou primeiramente a primeira tópica, conhecida como Teoria Topográfica, e posteriormente apresentou a segunda tópica, conhecida como Teoria Estrutural ou Dinâmica. Na primeira tópica de Freud, de acordo com a obra freudiana vemos que o aparelho psíquico é composto por três sistemas: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. As tópicas serão objetivo de estudo nas próximas unidades e seguiremos aprofundando em um dos pilares mais importantes da psicanálise e de toda a obra freudiana. De acordo com o pai da psicanálise, o consciente é somente uma pequena parte da mente, incluindo tudo aquilo de que estamos cientes num dado momento. Do ponto de vista tópico, o sistema percepção-consciência está situado na periferia do aparelho psíquico, recebendo, ao mesmo tempo, as informações do mundo exterior e as provenientes do interior. Na proposta topográfica apresentada por Freud, o pré-consciente foi concebido como articulado com o consciente e funciona como uma espécie de barreira que selecionaaquilo que pode ou não passar para o consciente. O pré-consciente seria uma parte do inconsciente que pode tornar-se consciente com relativa facilidade, ou seja, seus conteúdos são acessíveis, podem ser evocados e trazidos à consciência. O sistema inconsciente designa a parte mais arcaica do aparelho psíquico. Ainda segundo Freud, é possível constatar que por herança genética, existem elementos instintivos ou pulsões, acrescidos das respectivas energias.No inconsciente estariam os elementos instintivos não acessíveis à consciência. Além disso, há também material que foi excluído da consciência pelos processos psíquicos de censura e repressão. Esse conteúdo "censurado" não é permitido ser lembrado, mas não é perdido, permanecendo no inconsciente. Para Freud, a maior parte do aparelho psíquico é inconsciente. Freud em a interpretação dos sonhos (1900) aponta que “a maior parte do aparelho psíquico é inconsciente”. Esta afirmação no remete a reflexão sobre o fato de que há 11 também material que foi excluído da consciência pelos processos psíquicos de censura e repressão. Além do mais, esse conteúdo "censurado" não é permitido ser lembrado, mas não é perdido, permanecendo no inconsciente. Pelo anterior exposto, sintetizamos inicialmente conforme estudo e levantamento bibliográfico em Freud a distinção proposta de três níveis de consciência, em sua inicial divisão topográfica da mente: Consciente - Diz respeito à capacidade de ter percepção dos sentimentos, pensamentos, lembranças, ações intencionais e fantasias do momento; Pré-consciente - Relaciona-se aos conteúdos que podem facilmente chegar à consciência. São pensamentos que, apesar de temporariamente inconscientes, não são reprimidos. O pré-consciente é como uma peneira entre os níveis consciente e inconsciente; Inconsciente - Refere-se ao material não disponível à consciência ou ao escrutínio do indivíduo. Cabe ressaltar que Sigmund Freud empreendeu todo um esforço para desenvolver a teoria psicanalítica tendo como base a sua experiência clínica, a qual foi por ele amplamente registrada e divulgada. No texto, A história do movimento psicanalítico, Freud (1914/1996) nos relata que durante dez anos seu trabalho foi solitário; de início, não aceitaram a natureza peculiar das descobertas principalmente por revelarem o papel fundamental da sexualidade na etiologia das neuroses. O ponto central dessa teoria é o postulado da existência do inconsciente como: a) um receptáculo de lembranças traumáticas reprimidas; b) um reservatório de impulsos que constituem fonte de ansiedade, por serem socialmente ou eticamente inaceitáveis para o indivíduo. O estudo do inconsciente, aos poucos vai demonstrando que as modificações inconscientes estão disponíveis para a consciência e podem ser acessadas por meio da análise e da livre associação, e que geralmente estão sob a forma disfarçada. Freud conclui que tanto os os sonhos, os atos falhos e o chiste são também uma forma de expressão do inconsciente. Muitos experimentos da psicobiologia (neurociência comportamental) vêm corroborando a validade das ideias psicanalíticas sobre o inconsciente. Segundo Lima (2010), Insatisfeito com o "Modelo Topográfico", porquanto esse não 12 conseguia explicar muitos fenômenos psíquicos, Freud elaborou uma segunda teoria, a segunda tópica. Na segunda tópica, Freud estabeleceu a sua clássica concepção do aparelho psíquico, conhecido como "modelo estrutural" ou "dinâmico", tendo em vista que a palavra "estrutura" significa um conjunto de elementos que têm funções específicas, porém que interagem permanentemente e se influenciam reciprocamente. Essa concepção estruturalista ficou cristalizada em "O ego e o id", de 1923, e consiste em uma divisão da mente em três instâncias psíquicas: o id, o ego e o superego. Os conceitos ora apresentados, serão discutidos nas próximas páginas e ao longo de toda a formação. 13 Id, Ego, Superego TEORIA ESTRUTURAL OU DINÂMICA Conforme estudado nos capítulos anteriores, Sigmund Freud formulou primeiramente a primeira tópica, conhecida como Teoria Topográfica. Nessa primeira tópica proposta por Freud, o aparelho psíquico é composto por três sistemas: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. E como vimos anteriormente, foi que Freud, insatisfeito com o "Modelo Topográfico", porquanto esse não conseguia explicar muitos fenômenos psíquicos, elaborou uma segunda teoria, a segunda tópica. Foi quando apresentou a segunda tópica, e esta ficou conhecida como Teoria Estrutural ou Dinâmica. De acordo com a segunda tópica, ou a teoria estrutural da mente, é possível inferir que o id, o ego e o superego funcionam em diferentes níveis de consciência. Ainda no sentido de retomar a palavra "estrutura" cabe esclarecer que esta significa um conjunto de elementos que têm funções específicas, porém que interagem permanentemente e se influenciam reciprocamente. Essa concepção estruturalista ficou cristalizada em "O ego e o id", de 1923, e consiste em uma divisão da mente em três instâncias psíquicas: o id, o ego e o superego. Portanto, há um constante fluxo, um movimento de lembranças e impulsos de um nível para o outro. ID Estabelecido no nível inconsciente, o id é o reservatório das pulsões, as quais estão sempre ativas. Regido pelo princípio do 14 prazer, o id exige satisfação imediata desses impulsos, sem levar em conta a possibilidade de consequências indesejáveis. Ampliando mais esta construção, o artigo “O modelo estrutural de Freud e o cérebro: uma proposta de integração entre a psicanálise e a neurofisiologia”, apresenta uma consolidação do ID de acordo com Freud. O id foi concebido como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem inconsciente, constituindo o polo psicobiológico da personalidade. É considerado a reserva inconsciente dos desejos e impulsos de origem genética, voltados para a preservação e propagação da vida. Contém tudo o que é herdado, que se acha presente no nascimento, acima de tudo os elementos instintivos que se originam da organização somática. Do ponto de vista "topográfico", o inconsciente, como instância psíquica, virtualmente coincide com o id. Portanto, os conteúdos do id, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro lado, adquiridos e recalcados. Do pontode vista "econômico", o id é, para Freud, a fonte e o reservatório de toda a energia psíquica do indivíduo, que anima a operação dos outros dois sistemas (ego e superego). Do ponto de vista "dinâmico", o id interage com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior como aqueles que, introjetados, habitam o superego. Do ponto de vista "funcional", o id é regido pelo princípio do prazer, ou seja, procura a resposta direta e imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias da realidade. Assim, o id tem a função de descarregar as tensões biológicas, regido pelo "princípio do prazer" (Freud - “O ego e o id”) EGO Funciona principalmente a nível consciente e pré-consciente, embora também contenha elementos inconscientes, pois evoluiu do id. Regido pelo princípio da realidade, o ego cuida dos impulsos do id, tão logo encontre a circunstância adequada. Desejos inadequados não são satisfeitos, mas reprimidos. Ainda segundo o artigo de Lima (2010), O ego se desenvolve a partir da diferenciação das capacidades psíquicas em contato com a realidade exterior. Sua atividade é, em parte, consciente (percepção e processos intelectuais) e, em parte, pré-consciente e também inconsciente. É regido pelo princípio da realidade, que é o fator que se incumbe do ajustamento ao ambiente e da solução dos conflitos entre o organismo e a realidade. O ego lida com a estimulação que vem tanto da própria mente como do mundo exterior. Desempenha a função de obter controle sobre as exigências das 15 pulsões, decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas, adiando essa satisfação para ocasiões e circunstâncias mais favoráveis ou reprimindo parcial ou inteiramente as excitações pulsionais. Assim, o ego atua como mediador entre o id e o mundo exterior, tendo que lidar também com o superego, com as memórias de todo tipo e com as necessidades físicas do corpo. Como o ego opera de acordo com o princípio da realidade, seu tipo de pensamento é verbal e se caracteriza pela lógica e pela objetividade. Dinamicamente, o ego é pressionado pelos desejos insaciáveis do id, pela severidade repressiva do superego e as ameaças do mundo exterior. Assim, a função do ego é tentar conciliar as reivindicações das três instâncias a que serve, ou seja, o id, o mundo externo e o superego. Para Freud, estamos divididos entre o princípio do prazer (que não conhece limites) e o princípio de realidade (que nos impõe limites). Com referência aos acontecimentos externos, o ego desempenha sua função armazenando experiências sobre os diferentes estímulos na memória e aprendendo a produzir modificações convenientes no mundo externo em seu próprio benefício. A teoria psicanalítica procura explicar a gênese do ego como um sistema adaptativo, diferenciado a partir do id em contato com a realidade exterior. SUPEREGO Apenas parcialmente consciente, o superego serve como um censor das funções do ego (contendo os ideais do indivíduo derivados dos valores familiares e sociais), sendo a fonte dos sentimentos de culpa e medo de punição. Apoiando no esforço do artigo de Lima (2010) e na consolidação apresentada com base em Freud, O superego desenvolve-se a partir do ego, em um período que Freud designa como período de latência, situado entre a infância e o início da adolescência. Nesse período, forma-se nossa personalidade moral e social. O superego atua como um juiz ou um censor relativamente ao ego. Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação de ideais, funções do superego. Classicamente, o superego constitui-se por interiorização das exigências e das interdições parentais. Num primeiro momento, o superego é representado pela autoridade parental que molda o desenvolvimento infantil, alternando as provas de amor com as punições, geradoras de angústia. Num segundo tempo, quando a criança renuncia à satisfação edipiana, as proibições externas são internalizadas. Esse é o momento em que o superego vem substituir a instância parental por intermédio de uma identificação da criança 16 com os pais. Freud salientou que o superego não se constrói segundo o modelo dos pais, mas segundo o que é constituído pelo superego deles. O superego estabelece a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem ao id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. É o órgão psíquico da repressão, particularmente a repressão sexual. ID, EGO, SUPEREGO Pelo exposto até o momento, a representação tópica exposta no capítulo VII de “A Interpretação dos Sonhos” fixa a ordem de coexistência das diferentes regiões do aparelho psíquico, entre cujas extremidades - sensível e motora - se desenrolam os processos. No entanto, em nota introduzida numa edição posterior, Freud ressalta a insuficiência do esquema anteriormente construído. Segundo Freud, “o desenvolvimento posterior deste esquema desdobrado linearmente”, sinaliza o pai da psicanálise, “deverá levar em conta esta suposição de que o sistema que sucede ao pré-consciente é aquele a que devemos atribuir a consciência”. A primeira tópica - teoria topográfica -, que foi inspirada pela análise do sonho e da histeria, dará lugar logo após 1920, em função da insatisfação com o "Modelo Topográfico", já que esse, como vimos, não conseguia explicar muitos fenômenos psíquico. Daí a origem de uma segunda tópica, elaborada em resposta aos problemas da psicose. Como exposto nos parágrafos anteriores, esta abrange o id, o ego, e o superego. Segundo dizeres de Freud, sobre a primeira tópica ou teoria topográfica acreditava que tinha um valor descritivo, ao passo que na segunda tópica -Teoria Estrutural ou Dinâmica - reconhece um valor sistemático. Freud, afirma: “Daremos o nome de inconsciente”, escrevia ele em 1900, “ao sistema situado mais atrás; ele não poderia ter acesso à consciência, a não ser passando pelo pré-consciente, e durante essa passagem o processo de excitação deverá se submeter a certas modificações”. O contexto histórico e a construção das tópicas propostas por Freud se deu gradativamente e desde o momento em que ele vinha trabalhando e elaborando uma nova concepção, mas, foi por volta de 1920 - mais precisamente a partir do importante trabalho metapsicológico “Além do Princípiodo Prazer” - que Freud estabeleceu de forma definitiva a sua clássica concepção do aparelho psíquico, conhecido como modelo estrutural (ou dinâmico), tendo em vista que a palavra “estrutura” significa um 17 conjunto de elementos que separadamente tem funções específicas, porém que são indissociáveis entre si, interagem permanentemente e influenciam-se reciprocamente. Ou seja, diferentemente da Primeira Tópica, que sugere uma passividade, a Segunda Tópica é eminentemente ativa, dinâmica. Essa concepção estruturalista ficou cristalizada em “O ego e o id” de 1923, e consiste em uma divisão tripartite da mente em três instâncias: o id, o ego e o superego. ID OU ISSO Georg Groddeck, foi quem introduziu este termo em 1923 e posteriormente conceituado por Sigmund Freud no mesmo ano. A construção do termo se deu a partir do pronome alemão neutro da terceira pessoa do singular (Es), para designar uma das três instâncias da segunda tópica freudiana, ao lado do ego (eu) e do superego (supereu). O id (isso) é concebido como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem inconsciente. O id neste ínterim constitui o polo pulsional da personalidade. De acordo ao exposto nos parágrafos anteriores, os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e adquiridos. Do ponto de vista "econômico", o id é, para Freud, a fonte e o reservatório de toda a energia psíquica do indivíduo, que anima a operação dos outros dois sistemas (ego e superego). Do ponto de vista "dinâmico", o id interage com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior como aqueles que, introjetados, habitam o superego. Do ponto de vista "funcional", o id é regido pelo princípio do prazer, ou seja, procura a 18 resposta direta e imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias da realidade. Assim, o id tem a função de descarregar as tensões biológicas, regido pelo "princípio do prazer". De acordo com a representação topográfica, O id foi concebido como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem inconsciente, constituindo o polo psicobiológico da personalidade. CONCEITO DE ID Ampliando as noções anteriores e o contexto histórico, vemos que o termo das Es (isso, aquilo) é introduzido em “O Ego e o Id” (Das Ich und das Es, 1923). Neste contexto, Freud vai buscá-lo em Georg Groddeck e cita o precedente de Nietzsche, que designaria assim “... o que há de não pessoal e, por assim dizer, de necessário por natureza do nosso ser”. Entre 1920 e 1923, vemos um reformulação que deu lugar ao conceito de id (isso) por Freud dentro teoria psicanalítica. Todo o movimento anterior e revisão culminou na modificação da teoria das pulsões, e na elaboração de uma nova psicologia do ego, que levava em conta suas funções inconscientes de defesa e recalque, e pela definição de uma nova tópica (segunda tópica), na qual o id veio a ocupar o lugar que antes era do inconsciente na tópica anterior (primeira tópica). Uma revisão da obra freudiana, demonstra que foi seu ensaio sobre “O Ego e o Id” que Freud introduziu o termo pela primeira vez, refutando o fundamento da acepção definida por Groddeck: a de uma vivência passiva do indivíduo, confrontado com forças desconhecidas e impossíveis de dominar. A teoria topográfica, denominada também de primeira tópica, pretendia uma descrição cômoda dos processos psíquicos. Esta permitia distinguir entre o consciente e duas modalidades de inconsciente - o inconsciente propriamente dito, cujos conteúdos só raramente (ou nunca) podiam ser transformados em pensamentos conscientes, e o pré-consciente, feito de pensamentos latentes, passíveis de se tornar ou de voltar a se tornar conscientes. Por volta de 1915, resultado de uma lenta evolução fundamentada na experiência clínica, foi que Freud chegou à conclusão de que partes do ego e do superego eram inconscientes. Todo o processo e descoberta tornou impossível afirmar a existência de uma identidade entre o ego e o consciente, de um lado, e o recalcado e o inconsciente, de outro. Após todas as revisões e dos avanços clínicos e teóricos, percebe-se que foi preciso revisar por completo a concepção das relações consciente-inconsciente 19 expressa pela primeira tópica. Daí a introdução do termo id para designar o inconsciente, considerado um reservatório pulsional desorganizado, semelhante a um verdadeiro caos, sede de “paixões indomadas” que, sem a intervenção do eu, seria um joguete de suas aspirações pulsionais e caminharia inelutavelmente para sua perdição. Ao mesmo tempo, o ego perdeu sua autonomia pulsional, tornando-se o id a sede da pulsão de vida e da pulsão de morte. Diferente da abordagem descritiva da primeira tópica, a abordagem dinâmica da segunda não instaurou nenhuma separação radical entre as instâncias que a compunham: os limites do id deixaram de ter a precisão dos que marcavam a separação entre o inconsciente e o sistema consciente-pré-consciente, e o ego deixou de ser estritamente diferenciado do id, no qual o superego mergulha suas raízes. Foi através das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, que versava sobre “A decomposição da personalidade psíquica”, que Sigmund Freud inaugurou uma reflexão sobre os respectivos futuros do ego e do id e sobre a missão que, sob esse ponto de vista, cabia à psicanálise. Nesse contexto, enunciou sua célebre frase “Wo Es war, soll Ich werden” ( “Aonde o Isso estava, deve advir o Eu”), que daria margem a diversas leituras, por sua vez articulada com as modalidades de interpretação da segunda tópica. EGO OU EU Sigmund Freud, retomou esse termo amplamente utilizado e empregado na filosofia e na psicologia para designar a pessoa humana como consciente de si e objeto do pensamento, designando-o num primeiro momento como a sede da consciência. O ego (eu) foi então delimitado num sistema chamado primeira tópica, que abrangia o consciente, o pré consciente e inconsciente. A partir de 1920, o termo mudou de estatuto, sendo conceituado por Freud como uma instância psíquica, no contexto de uma segunda tópica que abrangia outras duas instâncias: o superego e o id. Sua atividade é, em parte, consciente (percepçãoe processos intelectuais) e, em parte, pré-consciente e também inconsciente. Essa segunda tópica “Teoria Estrutural ou Dinâmica” (id, ego, superego) deu origem a três leituras divergentes da doutrina freudiana: a primeira destaca um eu concebido como um polo de defesa ou de adaptação à realidade (Ego Psychology, annafreudismo); a segunda mergulha o ego no id, divide-o num ego (eu) [moi] e num Ego (Eu) [je] -sujeito, este determinado por um significante (lacanismo); e a terceira 20 inclui o ego numa fenomenologia do si mesmo ou da relação de objeto (Self Psychology, kleinismo). Ampliando um pouco mais essa discussão, do ponto de vista tópico, o ego está numa relação de dependência tanto para com as reivindicações do id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade. Embora se situe como mediador, encarregado dos interesses da totalidade da pessoa, a sua autonomia é apenas relativa. Do ponto de vista dinâmico, o ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o polo defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados pela percepção de um afeto desagradável (sinal de angústia). Do ponto de vista econômico, o ego surge como um fator de ligação dos processos psíquicos; mas, nas operações defensivas, as tentativas de ligação da energia pulsional são contaminadas pelas características que especificam o processo primário: assumem um aspecto compulsivo, repetitivo, desreal. Pelo anterior, concluímos que a teoria psicanalítica, parte essencial da formação de novos psicanalistas, procura explicar a gênese do ego em dois registros relativamente heterogêneos, quer vendo nele um aparelho adaptativo, diferenciado a partir do id em contato com a realidade exterior, quer definindo-o como o produto de identificações que levam à formação no seio da pessoa de um objeto de amor investido pelo id. Relativamente à primeira teoria do aparelho psíquico, o ego é mais vasto do que o sistema pré-consciente-consciente, na medida em que as suas operações defensivas são em grande parte inconscientes. Neste contexto, S. Freud descreveu o ego como uma parte do id, que por influência do mundo exterior, ter-se-ia diferenciado. O id tem a função de descarregar as tensões biológicas, regido pelo "princípio do prazer. Partindo do suposto, que o ser humano é um animal social e, se quiser viver com seus congêneres, não poderia se instalar nessa espécie de nirvana, que é o princípio de prazer, ponto de menor tensão, assim como lhe é impossível deixar que as pulsões se exprimem em estado puro. Um clássico exemplo que nos ajuda a ilustrar melhor as ideias ora apresentadas, é se de fato, o mundo exterior impõe à criança pequenas proibições que provocam o recalcamento e a transformação das pulsões, na busca de uma satisfação substitutiva que irá provocar no eu, por sua vez, um sentimento de desprazer. O princípio de realidade substitui o princípio de prazer. O princípio do prazer e o princípio da realidade podem ser considerados importantes conceitos psicanalíticos. 21 Compreende-se que o princípio do prazer descrito por Freud ([1920] 1969) direciona toda a ação psíquica e orgânica, com a intenção de atingir um prazer idealizado, ignorando ou mesmo evitando as frustrações. CONCEITO DE EGO Como conseguimos observar ao longo deste estudo, existem em Freud duas teorias tópicas do aparelho psíquico, a primeira (Teoria Topográfica) das quais faz intervir os sistemas inconscientes, pré-consciente, consciente e a segunda (Teoria Estrutural ou Dinâmica) as três instâncias id, ego e superego. Este arcabouço teórico é bem vasto e requer muita leitura e esforço de compreensão por parte do leitor tanto nas obras de Freud como dos pós freudianos. É unânime na psicanálise admitir que a noção de ego só se teria revestido de um sentido estritamente psicanalítico, técnico, após aquilo a que se chamou a “virada” de 1920, aquela virada marcada pela revolução sinalizada no conceito de id. Não menos evidente, conforme revisão bibliográfica, é que Freud utilizava a noção de ego desde os seus primeiros trabalhos e é interessante ver destacarem-se dos textos relativos ao período de 1894-1900 certos temas e problemas que se reencontraram depois, resultado de um esforço permanente de Freud inclusive em uma das suas últimas publicações “O compêndio da psicanálise”. O Compêndio da psicanálise, em seu vigor, apresenta esse mesmo tom de afirmação de verdades e, assim, seu novo título em português restitui ao leitor de língua portuguesa o sentido pleno de um texto que traz a última exposição da doutrina psicanalítica, estabelecida pelo próprio Freud, sem embargo, foi a experiência clínica das neuroses que levou Freud a transformar radicalmente a concepção tradicional do ego. Algumas contribuições da psicologia, sobretudo a psicopatologia, por volta de 1880, aponta as “alterações e desdobramentos da personalidade”, dos “estatutos segundos”. Todo o movimento psicanalítico, foi Por outro lado, inclusive por ser inovador em muitos sentidos dentro da psicologia e dos estudos sobre a mente humana, o movimento foi atacado e difamado por psiquiatras, psicólogos e pela imprensa da época. Um exemplo deste foi Henri F. Ellenberg que dá mostras de excessiva severidade ao escrever, a propósito da segunda tópica freudiana, que “o ego (eu) não passa de um antigo conceito filosófico, vestido numa nova roupagem psicológica”. 22 Não parece fazer sentido atribuir à Freud a invenção do termo “eu” ou mesmo a noção do inconsciente e consciente, tampouco, pareceria se essa a sua intenção com o advento do psicanálise. Um revisão histórica é capaz de apresentar que a ideia do ego, muitas vezes sinônima da de consciência, de fato está presente nas obras da maioria dos grandes filósofos, sobretudo os alemães, desde meados do século XVIII. E, ante a constatação das experiências das experiências mesmerianas, Wilhelm von Schelling (1775-1854) e Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) relativizam a importância do eu em sua concepção do funcionamento mental. Freud era incontestavelmente um admirador da filosofia e ao longo das próximas unidades veremos um pouco das influências da filosofia em Freud e na psicanálise. Por outro lado, essas referências filosóficas constituem o pano de fundo contrao qual se desenvolveram as primeiras etapas de uma psiquiatria dinâmica que procurava desvincular-se das concepções organicistas do funcionamento do espírito humano. Assim, podemos considerar que Wilhelm Griesinger (1817-1869), inspirador de Theodor Meynert, foi um dos ancestrais de Freud. Nomeado diretor, em 1860, do novíssimo hospital psiquiátrico de Zurique, o Burghölzli, Griesinger foi um dos primeiros psiquiatras a afirmar que a maioria dos processos psicológicos decorria de uma atividade inconsciente. Ele elaborou uma psicologia do eu cujas distorções são tidas como resultantes do conflito que opõe esse eu a representações que ele não consegue assimilar. Meynert, cujas aulas Foi em 1883 que Freud acompanhou e formulou, por sua vez, uma concepção dual do ego, fazendo uma distinção entre o ego primário, parte inconsciente da vida mental que tem sua origem na infância, e o ego secundário, ligado à percepção consciente. Encontramos a marca desse ensino na primeira grande elaboração teórica de Freud, seu “Projeto para uma psicologia científica”. Desde esse momento, o ego se inscreve na trama da análise do conflito psíquico. Assim, nessa primeira síntese teórica, evocando o conflito entre a “atração provocada pelo desejo” e a tendência ao recalcamento, cujo teatro é o sistema neuronal concernido nas excitações endógenas, Freud discerne a existência de uma “instância” cuja presença entrava a passagem das quantidades energéticas, quando esse fluxo é acompanhado de sofrimento ou de satisfação. Pelo anterior, é que Freud esclarece: “Essa instância - chama-se o ego (eu)”. Para Sigmund Freud, esse ego tem um modo duplo de funcionamento: esforça-se por se livrar dos investimentos dos quais é objeto, procurando a satisfação, e tenta por meio do 23 processo que Freud denomina de inibição, evitar a repetição de experiências dolorosas. No conceito de id e do ego, abordamos a questão da reformulação. Em 1914, introduz conceito de narcisismo que acabou contribuindo para conferir ao ego um lugar de primeiro plano. Posteriormente, os trabalhos de Karl Abraham, no estudo das psicoses permitiu estabelecer que o ego podia ser sede de um investimento libidinal, como qualquer objeto externo. O anterior, favoreceu o surgimento de uma libido do ego, oposta à libido objetal, como proposta por Freud enunciando a hipótese de um movimento de balança entre as duas. Todo o movimento anterior, levou o eu a deixar de ter apenas o papel de mediador perante a realidade externa, sendo também objeto de amor e se tornando, em virtude da distinção entre narcisismo primário - que se pressupõe a existência de uma libido no ego - e narcisismo secundário, um reservatório de libido. Depois de Freud, o ego, sua concepção e as funções de que ele é supostamente a sede iriam constituir um desafio teórico e político a partir do qual se instituiu algumas correntes contraditórias nos movimento psicanalítico e que embora não aprofundaremos nestas correntes no presente estudo, é importante que se sabia quais foram e o que propunham. Como dito anteriormente, se formaram duas correntes, destinadas a se tornar dominantes na psicanálise norte-americana: o “annafreudismo” e a “Ego Psychology”, em torno de Anna Freud, por um lado, e de “Heinz Hartmann”, por outro, para privilegiar o ego e seus mecanismos de defesa, em detrimento do id, do inconsciente e do sujeito. Dessa maneira, elas contribuíram para fazer da psicanálise uma terapia da adaptação do eu à realidade. Em reação a essa normalização, Heinz Kohut retomou o conceito de self (o si mesmo), introduzido em 1950 por Hartmann, para assinalar uma distinção em relação ao ego, e elaborou uma teoria do aparelho psíquico em que o self se tornou uma instância particular, que permite explicar os ataques narcísicos. Além das duas correntes anteriores, outras correntes surgiram, como o kleinismo e o lacanismo, correntes estas que adotam uma orientação radicalmente oposta, na perspectiva de um “retorno ao inconsciente”, seguindo caminhos que por outro lado, são bem distintos entre si. Se por um lado Melanie Klein enfatiza a fase pré-edipiana do desenvolvimento psíquico, consagrando sua atenção ao estudo das relações arcaicas mãe-filho e a seu conteúdo pulsional negativo, por outro, o procedimento de Jacques Lacan volta-se desde logo para a análise das condições de 24 emergência de um sujeito do inconsciente, apanhado, em sua origem, na armadilha do ego (eu), que é constitutivo do registro do imaginário, este conclamado, desde 1953, a se tornar uma das instâncias da tópica lacaniana, ao lado do real e do simbólico. Nossa formação básica não irá aprofundar em Lacan, mas é muito comum entre os círculos psicanalíticos a defesa da bandeira: “Freudianos” e “Lacanianos”. De outro lado, é comum que os pacientes questionem qual “linha” seguimos. Embora na atualidade nos deparamos com estas bandeiras, retomamos um dizer de Lacan sobre esta divisão: “se vocês quiserem podem ser lacanianos, eu de minha parte sou freudiano.” Lacan teve um papel muito importante para a psicanálise, quando por volta da década de 1950, demarca este fenômeno de resistência à psicanálise dentro do próprio campo das sociedades psicanalíticas – representados pelos modelos anti freudianos adotados pela IPA – é por um retorno à Freud que ele apoia sua proposta. O interessante de se observar, é que a questão introduzida por Lacan parece recair justamente sobre a questão da formação e as contradições do arranjo institucional da IPA com o próprio discurso analítico. Retomando o anterior, para Lacan, o eu (ego) se distingue, como núcleo da instância imaginária, na fase chamada de estádio do espelho. A criança se reconhece em sua própria imagem, caucionada nesse movimento pela presença e pelo olhar do outro (a mãe ou um substituto) que a identifica, que a reconhece simultaneamente nessa imagem. Não pretendemos contudo confundi-los com outras abordagens, porém, ilustrar especialmente a imagem do “espelho” em Lacan que permeia nosso acionar e ofício. Retomando o postulado por Lacan, o Eu (ego) [je] - sujeito - é como que captado por esse eu (ego) [moi] imaginário: de fato, o sujeito, que não sabe o que é, acredita ser aquele eu (ego) [moi] a quem vê no espelho. Através do discurso desse eu [moi] como um discurso consciente, que faz “semblante” deser o único discurso possível do indivíduo, enquanto existe, como que nas entrelinhas, o discurso não controlável do sujeito do inconsciente. Consideradas essas bases, podemos compreender a interpretação lacaniana da célebre frase de Freud nas “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”: “Wo Es war, soll Ich werden”. Lacan traduz essa frase da seguinte maneira: “Ali onde isso (id) era, eu (ego) devo advir”. Para ele, trata-se de mostrar que o ego não pode surgir no lugar do id, mas que o sujeito (je) deve estar ali onde se encontra o id, determinado por ele, pelo significante. 25 Ainda segundo Lacan, pode-se acrescentar que a criança se banha em um mundo de linguagem, que veicula as proibições e que é somente porque o ser humano é um ser falante que se instaura o recalcamento e, por meio dele, a divisão do sujeito. SUPEREGO OU SUPEREU Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação de ideais, funções do superego. Aqui nos deparamos com uma das instâncias da personalidade tal como Freud a descreveu no quadro da sua segunda teoria do aparelho psíquico: o seu papel é assimilável ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego. De acordo com Lima (2010), classicamente, o superego constitui-se por interiorização das exigências e das interdições parentais. Num primeiro momento, o superego é representado pela autoridade parental que molda o desenvolvimento infantil, alternando as provas de amor com as punições, geradoras de angústia. Num segundo tempo, quando a criança renuncia à satisfação edipiana, as proibições externas são internalizadas. Esse é o momento em que o superego vem substituir a instância parental por intermédio de uma identificação da criança com os pais. Freud salientou que o superego não se constrói segundo o modelo dos pais, mas segundo o que é constituído pelo superego deles. O superego estabelece a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem ao id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. É o órgão psíquico da repressão, particularmente a repressão sexual CONCEITO DE SUPEREGO Conforme revisão histórico-bibliográfica, o termo Über-Ich foi introduzido por Freud em O ego e o id (Das Ich und das Es, 1923). Como observamos no tópico do superego, este apresenta que a função crítica, assim designada, constitui uma instância que se separou do ego e que parece dominá-lo, como demonstram os estados de luto patológico ou de melancolia em que o sujeito se vê criticar e depreciar. Em 1924, Freud declarou sobre a economia do masoquismo: “O imperativo categórico de Kant é herdeiro direto do complexo de Édipo”. Ainda segundo revisões da obra freudiana, vemos o conceito de superego, que apareceu em 1923, em “O ego e o id”. O anterior, foi segundo se desprende o produto de uma longa elaboração, iniciada 26 em 1914 no artigo “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Em Freud nasce a noção de ideal, substituto do narcisismo infantil e que seria, supostamente, o instrumento de medida utilizado pelo ego para observar a si mesmo. Em 1933, na intitulada trigésima primeira conferência de introdução à psicanálise, que, depois de haver apresentado a instância do superego (particularmente em “O mal-estar na cultura”) como um censor, por delegação das instâncias sociais, junto ao ego, Freud forneceu o quadro exaustivo da formação do superego e de suas funções. O mal-estar na cultura" não é apenas o ensaio mais célebre de Freud, mas uma das obras seminais do século XX. Sem a categoria de "mal-estar" não é possível pensar os destinos do sujeito na atualidade. A formação é correlata do apagamento da estrutura edipiana. Se num primeiro tempo, o superego é representado pela autoridade parental que dá ritmo à evolução infantil, alternando as provas de amor com as punições, geradoras de angústia. Num segundo tempo, quando a criança renuncia à satisfação edipiana, as proibições externas são internalizadas. Esse é o momento em que o superego vem substituir a instância parental por intermédio de uma identificação. Sigmund Freud distinguiu bem o processo de identificação do processo de escolha do objeto, ele se revelou insatisfeito, entretanto, com sua explicação, e manteve a ideia de uma instituição do superego “como um caso bem-sucedido de identificação com a instância parental”. Na medida em que o supereu é concebido como herdeiro da instância parental e do Édipo, como o “representante das exigências éticas do homem”, seu desenvolvimento é distinto no menino e na menina. Pelo anterior, enquanto, no menino, o superego se reveste de um caráter rigoroso, às vezes feroz, que resulta da ameaça de castração vivida durante o período edipiano, na menina o percurso é diferente: o complexo de castração instala-se muito antes do Édipo. O supereu feminino, por conseguinte, seria menos opressivo e menos implacável. 27 Outro ponto importante sobre o conceito, está em que Freud sublinhou também que o superego não se constrói segundo o modelo dos pais, mas segundo o que é constituído pelo superego deles. Nos livros “O mal estar na cultura” e “O mal estar na civilização” é possível entender que para Freud, a transmissão dos valores e das tradições perpetua-se, dessa maneira, por intermédio dos superegos, de uma geração para outra. O mal-estar na civilização nos apresenta a teoria freudiana de que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem seria a principal causa dos distúrbios psicológicos de nosso tempo. Adicionalmente, cabe destacar, que o superego é particularmente importante no exercício das funções educativas. Em ambas publicações, Freud censurou as “chamadas concepções materialistas da história”, por ignorarem a dimensão do superego, veículo da cultura em seus diversos aspectos, em prol de uma explicação fundamentada unicamente na determinação econômica. A concepção freudiana do supereu não obteve unanimidade entre os psicanalistas. Sandor Ferenczi, Em 1925, insistiu na internalização de certas proibições muito antes da dissolução do Édipo, em particular aquelas que dizem respeito à educação esfincteriana: “A identificação anal e uretral com os pais, que já apontamos antes, parece constituir uma espécie de precursora fisiológica do Ideal do ego ou do Superego no psiquismo da criança”. Melanie Klein situouas “primeiras fases do superego” no momento das “primeiras identificações da criança”, quando, muito pequena, ela “começa a introjetar seus objetos”; o medo que ela sente em decorrência disso determina processos de rejeição e projeção cuja interação parece ter “uma importância fundamental, não somente para a formação do superego, mas também para relações com as pessoas e a adaptação à realidade”. 28 Na obra de Jacques Lacan, o conceito de superego é objeto de múltiplas elaborações, relacionadas com a teorização do par supereu/ideal do eu. Nessa perspectiva, o supereu continua dominante, mas, diferentemente de Freud, Lacan o concebe como a inscrição arcaica de uma imagem materna onipotente, que marca o fracasso ou o limite do processo de simbolização. Nessas condições, o supereu encarna a falha da função paterna e esta, por conseguinte, é situada do lado do ideal do eu. 29 Histeria REFLEXÕES SOBRE A HISTERIA O presente capítulo tem o propósito oferecer algumas reflexões sobre o tema Histeria a partir de diferentes enfoques: as concepções tanto históricas quanto atuais da histeria. No artigo “Histeria”, apresenta o contexto histórico e o fato de que a histeria vem sendo objeto de estudo desde os primórdios da medicina, na Grécia Antiga com Hipócrates. O diagnóstico para a pessoa histérica era conhecido como neurose histérica ou histeria de conversão. Hoje o diagnóstico é nomeado como transtorno dissociativo ou conversivo. Segundo Belintani (2003), foi por meio dos atendimentos às histéricas, que Sigmund Freud, no final do século XIX, descobriu o inconsciente, elaborando um método de tratamento, a Psicanálise. E desde a época de Freud que esse tratamento vem sendo utilizado em pacientes com o referido diagnóstico. Observa-se por meio da revisão bibliográfica e por meio dos relatos de documentários que Freud estava feliz realizando seu trabalho científico no laboratório de Brucke, na Universidade, quando em 1885, Brucke ajuda-o com uma bolsa de estudo para um estágio em Paris, juntamente com o célebre Joseph Charcot. O termo histeria é derivado da palavra grega hystera e significa matriz. De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, matriz é o "lugar onde algo se gera ou cria; órgão das fêmeas dos mamíferos onde se gera o feto; útero" (1988, p. 422) Segundo o artigo, Hipócrates, médico renomado da Grécia Antiga (460-377 a.C) entendia a histeria como sendo uma doença orgânica de origem uterina e, portanto, especificamente feminina que afetava todo o corpo por sufocação da matriz. Ele supunha que a histeria se desenvolvia pela privação de relações sexuais, dissecando o útero, que perderia peso e se deslocaria pelo corpo em busca da umidade necessária. A paciente teria sua respiração afetada, desenvolvendo convulsões se o útero subisse até o hipocôndrio e estacionasse 30 nesse órgão. Caso o útero prosseguisse sua subida e atingisse o coração, a paciente emitiria sinais de ansiedade, opressão e vômitos. Na Idade Média, "período histórico compreendido entre o começo do séc. V e meados do séc. XV" (Ferreira, 1988, p. 348-349), a histeria deixou de ser abordada pela medicina e, sob a influência das idéias religiosas mais especificamente as concepções agostinianas, passou a ser objeto da Teologia. De acordo com as concepções religiosas da época: "O homem, dotado de uma alma imortal, seria sujeito a tentação pelo não cumprimento de seus deveres religiosos ou por não conduzir a sua vida dentro do espírito cristão" (Ramadam, 1985, p. 55). Elisabeth Roudinesco e Michel Plon afirmam apud Belintani (2003), que "as convulsões e as famosas sufocações da matriz eram consideradas a expressão de um prazer sexual e, por conseguinte, de um pecado" (1998, p. 338). A mulher era vista como sendo possuída por um demônio, que a fazia agir involuntariamente, simulando doenças. A Igreja Católica Romana, por meio da Inquisição, investigava e reconhecia os casos de bruxaria e mandava para a fogueira todos aqueles que se comportavam histericamente. Durante mais de dois séculos, a caça às bruxas fez muitas vítimas, mesmo a opinião médica se opondo contra essa concepção demoníaca da possessão. Ramadam considera que no período clássico (século XVII até parte do século XVIII), a histeria era entendida como desenvolvida pelo efeito de "um calor interno que propagaria através de todo o corpo uma efervescência, uma ebulição, manifestando-se sem cessar em convulsões e espasmos" (1985, p. 56). Esse calor seria representante da paixão, entusiasmo ou ardor amoroso. Sob essa perspectiva, a histeria é associada a moças que procuram namorados, jovens viúvas ou separadas. Em meados do século XVIII com as colaborações de Franz Anton Mesmer apud Belintani (2003), as concepções demoníacas da histeria cederam às concepções científicas da mesma. A histeria deixa de ser objeto de investigação da Igreja para ser uma doença dos nervos, cabendo à medicina estudá-la e tratá-la. Ainda na segunda metade do século XVIII segundo o presente artigo, com os estudos e pesquisas do neurologista francês Jean-Martin Charcot, a histeria é tratada como uma neurose. A moderna noção de uma neurose histérica subentendia uma causa traumática de ordem genital tornando-se uma doença funcional, de origem hereditária, afetando tanto os homens quanto as mulheres. Charcot utilizava a hipnose para demonstrar o fundamento de suas hipóteses. Ele 31 hipnotizava as loucas do hospital parisiense Salpêtrière, fabricando sintomas histéricos para suprimi-los de imediato, comprovando o caráter neurótico da doença. Reforçando o anterior, Charcot era o médico que mais entendia das questões da histeria, e utilizava a hipnose como técnica básica para tratamento dos seus pacientes. Sua figura causou grande impressão em Freud. O que parece ter afetado os avanços e pesquisas dele é que apesar de Charcot lidar com os histéricos de forma mais humana e de acreditar que podiam ser tratados, ele se prendia à opinião de que a histeria era uma degeneração hereditária. Sigmund Freud, médico austríaco, entre 1888 a 1893, usufruindo dos achados de Charcot sobre os aspectos traumáticos da histeria, afirma com sua Teoria da Sedução que o trauma vivido pelo paciente histérico era de origem sexual, sublinhando quea histeria era fruto de um abuso sexual realmente vivido pelo sujeito na infância (sedução real). Num segundo momento, apresentando a noção de fantasia, renúncia à teoria da sedução, introduzindo as idéias de um trauma, não de ordem física, mas sim de ordem psíquica. Na Comunicação Preliminar dos Estudos sobre a histeria, Freud nos alerta para o fato de que a conexão entre o acontecimento precipitante e o desenvolvimento da histeria freqüentemente é bem clara. E completa que "em outros casos, a conexão causal não é tão simples. Consiste somente no que poderia ser denominado uma relação simbólica entre a causa precipitante e o fenômeno patológico - uma relação tal como as pessoas saudáveis forma os sonhos" (Freud, 1895/1974, p. 45). Um registro histórico de Abril de 1886 indica que Freud inicia sua clínica privada como neuropatologista e encontra seu primeiro paciente histérico. Sem se dar conta, tinha se deparado com um fato revolucionário. A verdadeira explicação dos sintomas histéricos não era biológica, nem mecânica. Roudinesco e Plon (1998, p. 340) apud Belintani (2003), escrevem que foi nos Estudos sobre a histeria, que Freud propôs "os grandes conceitos de uma nova apreensão do inconsciente: o recalcamento, a ab-reação, a defesa, a resistência e, por fim, a conversão". Citam também que com a publicação, em 1900, de A Interpretação dos Sonhos, "o conflito psíquico inconsciente é que foi reconhecido por Freud como a principal causa da histeria" (Roudinesco & Plon, 1998, p. 340). E continuam enfatizando os achados de Freud, que "ao lado da realidade material, existia uma realidade psíquica do sujeito", que era de igual importância na história do seu desenvolvimento. E afirmam que "em seguida, a teorização da sexualidade infantil permitiu a Freud identificar o conflito nuclear da neurose histérica, desenvolvendo 32 os conceitos de Complexo de Édipo e Angústia de Castração" (Roudinesco & Plon, 1998, p. 340). HISTERIA EM DEFINIÇÃO Histeria ou neurose histérica é uma psiconeurose caracterizada por alterações transitórias da consciência, como períodos de amnésia ou perda de memória, e por várias manifestações sensitivas ou motoras, também passageiras, como tiques, perda da sensibilidade cutânea, paralisia dos membros, cegueira ou convulsões. Freud, em 1895, publica seus Estudos sobre a histeria em que apresenta seus achados e conclusões a respeito da histeria. Essa obra é composta pelo relato de cinco casos clínicos, sendo que quatro deles foram atendidos pelo próprio Freud. As pacientes de Freud foram Frau Emmy von N., Miss Lucy R., Katharina e Fraülein Elisabeth von R. O caso Anna O. é o primeiro caso clínico citado na obra. Ela foi atendida por Josef Breuer, médico austríaco, que teve com Freud uma relação bastante significativa, tanto afetiva quanto profissional. Freud (1895/1974), nessa obra enfatiza a importância que suas pacientes tiveram para a construção da teoria e técnica psicanalítica. As histéricas ensinaram a Freud alguns dos principais rudimentos da Psicanálise. Emmy von N., por exemplo, se aborrecia quando Freud a questionava de onde veio isto ou aquilo e pedia para ele que a deixasse falar o que ela tinha a dizer. Assim, ouvir para Freud, "tornou-se mais do que uma arte, tornou-se um método, uma via privilegiada para o conhecimento, à qual os pacientes lhe davam acesso" (Gay, 1989, p. 80). A escuta do terapeuta e a fala do paciente foram ganhando reconhecimento de tal forma que a hipnose, como técnica terapêutica, foi perdendo seu valor, sua importância. Com a ajuda de Emmy von N., reconhece a hipnose como sendo um procedimento inútil e sem sentido. Ao abandonar gradualmente a hipnose, Freud adota um novo modelo de tratamento: a técnica da associação livre. Seja porque a histeria fosse mais freqüente entre as mulheres, seja porque, como para todo homem, a mulher era um enigma para Freud. O anterior, nos leva a constatação de que a histeria era um problema muito mais comum nas mulheres do que nos homens, realidade que não se aplica aos dias de hoje e esta premissa não faz mais sentido. Freud, quando começou a tratar as primeiras histéricas de que nos deu notícia - Emmy de N., Lucy R., Catalina, Isabel de R. - estava fundamentalmente preocupado com a questão do trauma. Embora muito já se tenha falado a respeito do engano de Freud - e ele mesmo foi o primeiro a reconhecê-lo - sobre a veracidade das cenas de sedução 33 sofridas pelas histéricas, o pai da psicanálise já destacava então que o traumático não era a sedução em si, mas a recordação da cena. As histéricas sofriam então de reminiscências. Isso porque Freud reconheceu que a sexualidade humana acontecia em dois tempos marcantes: a infância e a puberdade (SCOTTI, 2002). Importante destacar que a psicanálise começou tratando do problema dos sofrimentos neuróticos histéricos que o médico tentava diminuir ou eliminar, e não pela construção de um sistema teórico — seja empírico seja especulativo — sobre a organização do psiquismo humano. Segundo Scotti (2002), A psiquiatria alemã considerava, grosso modo, que as doenças das quais se ocupava eram causadas por algum dano no sistema nervoso, constitucional ou devido a uma lesão ou a uma inflamação. É neste ambiente que Freud se forma e, como pesquisador, começa a se aproximar do problema das histerias. Nele encontra Breuer, que já era um médico extremamente bem-sucedido e de renome, que se torna para ele um amigo, conselheiro e protetor. Nesse momento, Freud, ainda residente de medicina, não tinha seu próprio consultório, mas Breuer tem pacientes histéricas, o que colaborou para aproximar Freud desse problema. Normalmente a histeria afeta pessoas com personalidade histérica, ou seja, com uma forte tendência para ser o centro das atenções, seduzir e sensualizar as reações sociais e afetivas, manipular ou confundir a realidade e teatralizar os conflitos, porém, não pretendemos com isto incorrer num reducionismo infundado e tampouco conclusivo sobre o tema, senão que dar mostras de possíveis sintomas e sinais. O artigo “Histeria” traz importantes considerações e informações a respeito de um, entre muitos outros, transtorno mental e de comportamento, o transtorno dissociativo (ou conversivo), a antiga neurosehistérica ou histeria de conversão. De modo complementar, o artigo atesta e alerta para o fato de que hoje, quando temos um paciente com tais manifestações em tratamento psicoterapêutico, devemos pensar na responsabilidade que nos cabe como profissional e ser humano para com aquela pessoa e tentar ajudá-la na elaboração dos seus traumas, não somente físicos, mas também de ordem psíquica. Outra alusão, diz respeito, aos avanços da medicina e com os da psicologia, mais especificamente os da psicanálise, avançamos que no permitem oferecer aos nossos pacientes, além de um tratamento mais adequado e aprimorado, compreensão, acolhimento e respeito. Complementando o anterior acerca das características e sintomatologia predominante, é o outro traço importante desse tipo de personalidade, marcado por 34 um evidente poder de autossugestão, fazendo assim com que esses indivíduos se tornem vulneráveis e dependentes nas suas relações pessoais, o que lhes pode perturbar as suas percepções sensoriais. A clínica da histeria configura-se uma das bases principais da Psicanálise. No entanto, do ponto de vista clínico, considera-se que a histeria possa ser causada por conflitos vividos durante a infância, os quais foram reprimidos e esquecidos mas, depois de alguns anos, foram inconscientemente ativados diante de determinadas situações. É necessário reservar um espaço importante dentro da formação para a compreensão dessa patologia, sua etiologia, desenvolvimentos, formas de intervenção e interpretação, além do tratamento. Dizemos que foi a primeira patologia estudada por Freud e especialistas dos estudos da mente. E, desde então, o conceito de Histeria foi desdobrado, revelando-se outras patologias, de modo que os psiquiatras atuais preferem não adotar esta terminologia. (Fonte: https://www.psicanaliseclinica.com/o-que-e -histeria-conceitos-e-tratamentos/) Com base no que foi desenvolvido até aqui, podemos pressupor que o significado de Histeria está ligado: ● a um trauma na idade infantil ● de que a pessoa adulta não consegue se lembrar muito bem (recalque) ● este afeto se desprende da lembrança original, isto é, da representação “verdadeira” e acaba se manifestando no corpo, isto é, com incômodos físicos (somatização). A histeria pode apresentar diversos tipos de manifestações psíquicas e físicas sob a forma de episódios passageiros, designados, respectivamente, por: Acidentes psíquicos: ● Perdas da memória de uma determinada fase da vida; ● Situações de multiplicação da personalidade; ● Estados de sonambulismo; ● Crises de perda da consciência; ● Alucinações. Acidentes somáticos - Podem afetar o funcionamento de todos os órgãos ou sistemas do organismo, manifestando-se como: ● Perda da mobilidade ou contraturas musculares de um membro; ● Crises de dor abdominal; ● Estados de cegueira passageira; ● Perda da sensibilidade cutânea. ● Perda da fala Apesar da personalidade histérica ser crônica, por definição, a histeria não costuma prolongar-se por muitos anos, 35 exceto em alguns casos em que predominam as manifestações físicas. HISTÓRIA DO PRIMEIRO VIBRADOR O Filme “Histeria”, dirigido por Tanya Wexler, retrata o tratamento das histéricas e de neuroses. É um filme contemporâneo e muito divertido que ajuda a ilustrar algumas definições apresentadas neste estudo. A trama se passa na Londres vitoriana, quando dois médicos (Dancy e Jonathan Pryce) se juntam para tratar de histeria - condição que, na época, se associava à irritabilidade das mulheres. Inicialmente o personagem Pryce "alivia" as suas pacientes manualmente, mas o parceiro inventa um aparato elétrico que pode revolucionar o tratamento desse mal. ESTUDOS SOBRE A HISTERIA (1895) Apesar de relutante, Breuer foi persuadido por Freud a escrever com ele o livro “Estudos sobre a Histeria” (1895). Alguns termos e ideias-chave: 1. Os histéricos padecem de recordações dolorosas e desprazerosas de natureza traumática (trauma, palavra grega que designa “ferida”) 2. As lembranças traumáticas são patogênicas, ou seja, produzem doença. Esta foi uma noção anti mecanicista revolucionária, a qual implicava em que um agente psíquico (estritamente mental) influencia diretamente os processos orgânicos do corpo. 3. As lembranças traumáticas não se desgastam normalmente, mas permanecem como uma força ativa 36 inconsciente motivadora do comportamento. (O que não pode ser lembrado também não pode ser esquecido). 4. A retirada da consciência de lembranças dolorosas carregadas de afeto requer a ação de um mecanismo de repressão num nível inconsciente da vida mental. 5. Enquanto negativas, as lembranças inconscientes não podem se expressar normalmente, e sua carga emocional ou afeto é represado, estrangulado. 6. O afeto estrangulado é “convertido” nos sintomas físicos da histeria por estímulo inconsciente. 7. Os sintomas estimulados pelo inconsciente desaparecerão se ocorrer a ab-reação. Ab-reação é o processo de liberação de um afeto reprimido relativo a um acontecimento anteriormente esquecido. O problema da terapia é levar o paciente a reviver a experiência original traumática que causou o sintoma. Uma das coisas mais importantes que Freud e Breuer descobriram foi que o gatilho que aciona a histeria também podia ter origem psicológica. Também se observou que os pacientes não se lembravam deste evento. Isto fez com que Freud começasse a pensar na noção de processos inconscientes de memória e na idéia de repressão. Constatou-se mais de uma vez que depois de se trabalhar uma memória, ou dela se tornar consciente através da hipnose, ela desaparecia. A única maneira de explicar isso era reconhecer o fato de que as memórias são reprimidas e distorcidas. O grande avanço neste ponto foi o desenvolvimento da noção de RECALQUE (ligada à sexualidade). FREUD E BREUER Assim, nos Estudos sobre a histeria (1895/1969), Freud e Breuer introduzem suas idéias sobre a doença, como sendo originária de uma fonte da qual os pacientes relutam em falar ou mesmo não conseguem discernir sua origem. 37 No final do século XIX as neuroses que se manifestavam através de somatizações, alucinações e angústias eram chamadas de "histerias". Para estudar esse fenômeno, Freud escreveu junto com o médico Breuer os Estudos sobre a histeria — obra essencial para compreensão da psicanálise. Relatando os casos de cinco pacientes — entre elas a célebre Anna O. —, eles argumentam que oshistéricos sofrem por haverem sufocado a memória dos eventos que originaram a doença. É preciso, então, trazer à luz esses traumas, inicialmente por meio da hipnose. Mas, como isso não funciona com alguns pacientes, Freud passa a recorrer à associação livre, tornando seu método ainda mais complexo. Retomando o anterior, observa-se que tal origem seria encontrada em um trauma psíquico ocorrido na infância, em que uma representação atrelada a um afeto aflitivo teria sido isolada do circuito consciente de idéias, sendo o afeto dissociado desta e descarregado no corpo. Através da hipnose, os pacientes conseguiam reencontrar a lembrança traumática, tendo assim a oportunidade de reagir a esta por suas palavras, aliviando seus sintomas. Levantamentos históricos e revisões bibliográficas, dão conta de que ao observar seus pacientes, Freud chegou à conclusão de que ela derivava de desejos sexuais que estes não queriam admitir. Quando pensamos no fato de Breuer se recusar a aceitar esta hipótese, apesar de todas as provas, parece corroborar o argumento de que a resistência e o recalque são características gerais da mente humana. Em 1886, Freud apresentou uma palestra sobre histeria masculina na sociedade de medicina de Viena, onde expôs algumas de suas idéias. A reação do público não foi muito entusiástica. Para Freud, foi completamente hostil. Ele começou a perceber que estava trilhando um caminho solitário e que a recompensa pelas suas ideias radicais poderia ser a ridicularização, em vez da fama. A etiologia sexual da histeria e das neuroses em geral adquiriu tal peso para Freud, que ele chegou a dedicar-lhe trabalho específico: “La Sexualidad en la Etiologia de las Neurosis” (A Sexualidade na Etiologia das Neuroses), editado em 1898 (1898/1973). Além dos mais, importa considerar o contexto histórico, social e político daquela época, já que sexualidade recalcada não podia ser um assunto popular numa época que dava uma importância enorme à respeitabilidade. O ano de 1887, foi marcado por alguns acontecimentos históricos como o momento em que Freud ganhou uma filha, mais pacientes e um novo amigo, um certo 38 Wilhelm Fliess, (1858 - 1928) um famosos otorrinolaringologista de Berlim. Fliess foi mais que um amigo, mas o interlocutor de todo o período em que Freud se debruçou sobre a psicanálise. Ele foi “um amigo íntimo e um inimigo odiado e sempre foram requisitos necessários de minha vida afetiva”, revela Freud em “A Interpretação dos Sonhos”. Fliess ocuparia o cargo de amigo íntimo; inimigos ele conseguia encontrar em todos os cantos. Fliess manteve uma correspondência constante com Freud. Freud relatava que todas as suas reflexões e investigações direcionadas a Fliess, forma muito importantes, já que Fliess assumiu o importante papel de confidente, ou de “termômetro” de suas teorias. É através das cartas que escreveu para Fliess que podemos saber dos avanços que Freud estava fazendo nesta época. Fliess lia e comentava todos os seus trabalhos, atuando como um bom crítico e editor. O artigo “A invenção da psicanálise e a correspondência Freud/Fliess”, busca demonstrar que a correspondência Freud/Fliess foi um dispositivo essencial para invenção da psicanálise por Freud. A leitura das cartas nos permite acompanhar a emergência dos novos conceitos (fantasia, Édipo etc.) e como seu surgimento exigiu de Freud um percurso subjetivo que culminou na invenção do analista, lugar que não cabe na relação entre médico e paciente. Na carta de 06/12/1896, o mau encontro com a sexualidade, com o gozo do Outro – tomado no sentido subjetivo, do Outro que goza – é imputado explicitamente ao pai, ao pai perverso sedutor: "Parece-me cada vez mais que o aspecto essencial da histeria é que ela decorre da perversão por parte do sedutor, e parece cada vez mais que a hereditariedade é a sedução pelo pai" (Freud, 1986, p. 213). Ao redefinir em termos de sedução paterna a hereditariedade, Freud torce, subverte a teoria de seu mestre Charcot, que faz da disposição neuropática – uma potencialidade hereditária atualizada por agentes provocadores (o trauma por exemplo) – a causa necessária da histeria. Pouco depois, em 08/02/1897, a teoria da sedução leva de roldão o próprio pai de Freud, não sem que ele deixe transparecer o quanto a hipótese da sedução paterna o divide: "a freqüência dessa situação, muitas vezes, causa-me estranheza" (Freud, 1986, p. 232). Portanto, pode-se perceber a estranha influência de Fliess no drama da teoria da sedução. Na carta de 06/12/1896, o mau encontro com a sexualidade, com o gozo do Outro – tomado no sentido subjetivo, do Outro que goza – é imputado explicitamente ao pai, ao pai perverso sedutor: "Parece-me cada vez mais que o aspecto essencial da histeria é 39 que ela decorre da perversão por parte do sedutor, e parece cada vez mais que a hereditariedade é a sedução pelo pai" (Freud, 1986, p. 213). Ao redefinir em termos de sedução paterna a hereditariedade, Freud torce, subverte a teoria de seu mestre Charcot, que faz da disposição neuropática – uma potencialidade hereditária atualizada por agentes provocadores (o trauma por exemplo) – a causa necessária da histeria (VIDAL, 2010). Realizando algumas inferências, é possível perceber que Freud chegara à conclusão de que todas as neuroses eram conseqüência de um abuso sexual sofrido na infância, cometido na maioria das vezes pelo pai. Segundo Vidal (2010), o pecado original da análise estava no fato de que ao desistir da sugestão hipnótica como instrumento terapêutico, Freud limitou os meios do tratamento a uma fala convidada a dizer o que não sabe saber. Para dar conta do que assim encontrava, do que as histéricas lhe sopravam aos ouvidos, ele conjeturou a hipótese do pai sedutor, na qual ainda ecoam resquícios da terapia hipnótica, baseada na extração de um segredo do paciente. Já a noção de fantasia enquanto teoria graças à qual os sujeitos interpretam, inscrevem o trauma, faz do inconsciente um texto, verdadeiro palimpsesto que a fala do sujeito traz para ser lido e reescrito na prática analítica. O artigo ainda traz outras reflexões como a ficção investida afetivamente que tem curso na realidade de quem a narra, a fantasia é um conceito que obriga a considerar que, naconfiguração da realidade, falta o referente: onde se esperava a coisa do mundo, a exatidão do fato a ser verificado, o que se encontra é o fato fantasmático. A conceituação do inconsciente como saber referencial, presente ainda na teoria da sedução, é substituída pela do inconsciente como saber textual a ser decifrado no dispositivo analítico. Retomando o tema da sedução, parece que essa idéia foi aplaudida por Fliess e o próprio Freud parecia acreditar que ela oferecia uma explicação satisfatória para muitos fatores complexos. O escândalo da Teoria da Sedução não foi esquecido até hoje e Freud se arrependeu profundamente de ter aceito esta noção de forma tão precipitada. Freud no processo investigativo, possuia a característica de sempre revisar suas ideias, teorias e construções teóricas, e durante uma das revisões sobre a teoria da sedução, Freud desistiu da mesma. Aos 40 anos Freud tinha 6 filhos, a esposa, pais e irmãs para sustentar. Não ganhava muito dinheiro com suas teorias. Dados da história e biografia de Freud, trazem indícios de que suas diversões eram poucas. Um jogo de cartas num sábado à 40 noite, caminhadas pelo campo, ou sair à cata de cogumelos e colecionar antiguidades. O ano de 1892 é o ano marcado pela Técnica da Pressão. Pela primeira vez Freud usa o divã. Pressiona a mão sobre a cabeça do paciente e faz perguntas. Em uma das cartas a Fliess, datada em 21/09/1897, Freud anuncia a Fliess que chegou o momento de lhe revelar o "grande segredo" – é a segunda vez que faz uso da expressão – que nele vinha tomando forma nos últimos meses: "Eu não acredito mais em minha neurótica" (1986, p. 265). São quatro as razões que o levaram a tal conclusão: primeiramente, a fuga dos pacientes diante das suas tentativas de chegar às cenas infantis; em segundo lugar, a inverossimilhança da generalização a todos os pais da perversão; em terceiro lugar, a impossibilidade de distinguir, no inconsciente, a verdade da ficção afetivamente investida; em quarto lugar, a impossibilidade de fazer emergir tal cena inconsciente até mesmo na psicose, de tal forma que "o segredo das experiências da infância não é revelado nem mesmo no mais confuso delírio" (Freud, 1986, p. 266). Foi então após alguns ensaios clínicos, que Sigmund Freud descobriu que podia fazer o paciente concentrar-se sem hipnotismo - e as recordações começavam a emergir - e o significado da lembrança foi se aprofundando. Freud cunhou o termo Psicanálise em 1896. Pertence a paciente Anna O. a expressão que dá o título a este trabalho, quando nomeou “a cura pela fala” e empregou o termo “limpeza de chaminé” ao referir-se ao tratamento que lhe foi dado por meio da palavra. Segundo Peter Gay (1989), um dos motivos que fizeram de Anna O. uma paciente tão ilustre refere-se ao fato de que ela realizou sozinha grande parte do trabalho de imaginação. Pelo avanço na cura pela fala, aos poucos a Técnica da Pressão teve que ser abandonada. A fala mostrava reminiscências, concluiu Freud. Portanto, precisava ser anunciada como um segredo, patogênico ou inconsciente, que o deixava em estado de alienação. 41 Foi, também, em uma das sessões com a paciente Emmy que Freud percebeu que deveria deixá-la falar livremente, quando ela própria sugeria que ele a deixasse falar sem interrompê-la com perguntas. Segundo Peter Gay (1989), foi essa paciente que permitiu a Freud ver que a hipnose era de fato “inútil e sem sentido”. Até o início dos anos 90 do século XIX, Freud tentara extrair, à maneira de Breuer, através da hipnose, as lembranças significativas que os pacientes relutavam em apresentar. As cenas trazidas à mente tinham frequentemente, um efeito catártico. Mas, alguns pacientes não eram hipnotizáveis e a fala sem censuras pareceu a Freud um meio de investigação muito superior. Ao abandonar, aos poucos, a hipnose, Freud caminhava para a adoção de um novo modo de tratamento. Delineava-se a associação livre que, nos anos posteriores, passou a ser considerada a regra fundamental da Psicanálise. Segundo Freud, a livre associação permitia atingir com maior facilidade os elementos que estavam em condições de liberar os afetos, as lembranças e as representações. Segundo Segundo Roudinesco (1998), dessa forma Freud foi levado a escutar os sonhos que seus pacientes passaram a lhe contar. Em 1912, no texto “Recomendação aos Médicos que Exercem a Psicanálise”, Freud introduziu a noção de uma escuta que não privilegiava nem um nem outro conteúdo. É a atenção flutuante. Diz ele sobre isso: Consiste em simplesmente não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma ‘atenção uniformemente suspensa’ em face de tudo que se escuta [...] Ver-se-á que a regra de prestar igual reparo a tudo constitui a contrapartida necessária da exigência feita ao paciente, de que comunique tudo o que lhe ocorra, sem crítica ou seleção (FREUD, 1911, p.125-26). Segundo o artigo A cura pela fala”, Freud nos ensina que escutamos o paciente com o nosso inconsciente e, por isso, não devemos nos preocupar em memorizar o que o paciente diz. O analista, da mesma forma que o paciente, utiliza-se da associação livre como se naquele momento abrisse mão de seu pensamento consciente. A escuta, assim como a fala, assume um lugar central na Psicanálise. Segundo Fochesatto (2011), É difícil falar sobre a cura pela fala e a técnica da livre associação sem mencionar um dos pilares que balizam os estudos psicanalíticos: a descoberta do inconsciente. Com a noção de inconsciente, o discurso freudiano descentrou o sujeito do registro da consciência e do eu. Segundo Roudinesco (2000) apud Fochesatto (2011), Freud introduziu a noção de “um lugar” desligado da consciência, povoado por imagens e paixões e 42 perpassado por discordâncias. O sujeito freudiano é um sujeito livre, dotado de razão. Porém, sua razão vacila no interior de si mesma. É de sua fala e de seus atos, não de sua consciência alienada, que pode surgir o horizonte de sua própria cura. Portanto, tecendo algumas considerações adicionais, entendemos que no momento que entra em cena a Técnica da associação livre - os pacientes devem se sentir livres, sem nada que os censure ou pressione, para falarem sobre o que quer quevenha às suas mentes. PROGRESSOS DA HISTERIA Vejamos de modo sintético alguns progressos que marcaram o estudo e tratamento da histeria para a psicanálise. Charcot foi quem deu o primeiro passo em direção a um tratamento mais humano para as neuroses . Aos poucos, pela vivência da clínica, a hipnose e a técnica da pressão foram deixadas para trás. Nasce a técnica da Associação Livre - A escuta, assim como a fala, assume um lugar central na Psicanálise. A associação livre ou “livre associação” foi empregada para recordar eventos traumáticos e era completamente nova e revolucionária. Segundo Roudinesco (2000), o método psicanalítico é um tratamento baseado na fala, um tratamento em que o fato de se verbalizar o sofrimento, de encontrar palavras para expressá-lo, permite, senão curá-lo, ao menos tomar consciência de sua origem e, portanto, assumi-lo. A resistência aparece no setting, na medida que o Paciente, se tornar menos cooperante e à medida que o material do inconsciente parece emergir. A partir deste referencial, “o ego não é amo em sua própria morada” (FREUD apud OGDEN, 1996), é que Freud dá outro lugar às palavras e vai além delas, buscando aquilo que é dito, mas, também, aquilo que é não dito. As palavras falam de algo que o sujeito quer falar e, também, daquilo que ele quer esconder. Assim, a escuta em Psicanálise não é qualquer escuta. Segundo Siqueira (2007), o psicanalista se propõe escutar o que não ouve, ir além do que se vê, escutando o conflito, o sofrimento humano. Referências: APARICIO, Sol. A análise é o que se espera de um psicanalista. Stylus (Rio J.), Rio de Janeiro , n. 33, p. 67-75, nov. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script =sci_arttext&pid=S1676-157X201600020000 43 6&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 21 ago. 2020. BELINTANI, Giovani. Histeria. Psic, São Paulo , v. 4, n. 2, p. 56-69, dez. 2003 . 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