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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 213 REGRAS E AUTO-REGRAS NO LABORATÓRIO E NA CLÍNICA SONIA BEATRIZ MEYER • As regras têm valor quando as contin- gências são complexas, pouco claras ou quando não são muito efetivas, en- quanto o comportamento modelado por contingências demanda maior tempo de aprendizagem, podendo nem mesmo ser aprendido sob tais contingências. • Por meio das regras – da gramática e do dicionário – é possível aprender um novo idioma quando o indivíduo não foi exposto a uma comunidade verbal adequada, necessária para modelar a fala correta. • A pessoa que segue instruções acata conselhos, atende advertências ou obedece a regras ou leis, não se com- porta da mesma maneira como aque- la que foi exposta diretamente às con- tingências, porque a descrição de con- tingências nunca é completa ou exata (usualmente ela é simplificada para poder ser ensinada e compreendida mais facilmente), e as contingências que sustentam o comportamento des- crito raramente se mantêm de forma perfeita. • O comportamento governado por re- gras é tão diferente do comportamen- to modelado por contingências quan- to são diferentes os sentimentos asso- ciados aos dois tipos de comportamen- tos (mas os sentimentos não explicam as diferenças entre esses comporta- mentos). Há diversas ocasiões em que 12 Uma das grandes contribuições de Skinner (J. Michael, comunicação pessoal, 3 de abril de 1978) foi a distinção entre comportamen- tos modelados por contingências e comporta- mentos governados por regras ou, conforme Catania (1998/1999), comportamentos gover- nados verbalmente. O comportamento mode- lado por contingências é aquele modelado e mantido diretamente por conseqüências rela- tivamente imediatas. Já o comportamento go- vernado por regras depende do comportamen- to verbal de outra pessoa (o falante), ou seja, está sob controle de antecedentes verbais que descrevem contingências (Baum, 1994/1999). Skinner (1974/1982) definiu como regra o estímulo discriminativo verbal que descreve uma contingência. O enunciado de regras tem a vantagem de poder substituir o procedimen- to de modelagem de uma resposta em seres humanos. Mas há diferenças importantes en- tre o comportamento governado por regras e o modelado por contingências. Skinner (1974/ 1982, p. 109-111) descreveu essas diferenças em seu livro Sobre o Behaviorismo: • Quanto à velocidade de aprendiza- gem, regras podem ser aprendidas mais rapidamente do que o compor- tamento modelado pelas contingên- cias descritas pelas regras. • As regras tornam mais fácil o aprovei- tamento de semelhanças entre con- tingências, enquanto o processo de generalização pode prover uma res- posta fraca. 214 ABREU, RIBEIRO & COLS. o sentimento associado ao seguimen- to de regras é apenas o de medo de punição, enquanto aquele associado ao comportamento modelado pelas contingências consiste em alegria e em entusiasmo. • O controle exercido por orientações, conselhos, regras e leis é evidente, não é sutil; já o controle por contingên- cias é bem menos evidente. Nesta úl- tima forma de controle é comum que a comunidade considere que o indiví- duo tenha maior contribuição pessoal e mérito interno. Fazer o bem porque recebe o reforço social por ter feito o bem é considerado mais virtuoso do que fazer o bem porque a lei assim o determina. Já o indivíduo que realiza uma obra planejada pode sofrer das reservas associadas aos comportamen- tos emitidos de forma calculada. Skinner (1974/1982) analisou diversas formas de regras: a ordem descreve um ato e implica uma conseqüência aversiva; no aviso, as conseqüências aversivas não são organiza- das pela pessoa que o emitiu; um conselho es- pecifica um comportamento e implica conse- qüências positivamente reforçadoras que não foram ideadas pelo conselheiro. Orientações en- globam ordens, avisos e conselhos, sendo sua descrição abrangente: orientações descrevem o comportamento a ser executado e expõem ou implicam conseqüências. Depois de Skinner ter feito a distinção en- tre comportamento governado por regras e comportamento modelado por contingências, Hayes, em conjunto com outros pesquisadores (por exemplo, Hayes e Ju, 1998; Hayes, Zettle e Rosenfarb, 1989), fez uma nova distinção entre tipos de comportamentos governados por regras, destacando-se: aquiescência (em inglês pliance) e rastreamento (em inglês tracking). Um comportamento aquiescente seria aquele que essencialmente depende de contingências sociais (o reforço é contingente diretamente ao comportamento de fazer o que a regra diz); um comportamento de rastreamento depende essencialmente da correspondência entre a re- gra e os eventos ambientais. Uma norma, uma lei ou um costume controlam comportamen- tos de aquiescer; uma instrução ou uma des- crição de um trajeto controlam comportamen- tos de rastrear. Ou seja, as conseqüências que mantêm o comportamento governado por re- gras são de dois tipos: a obediência à regra (aquiescência) é mantida por contingências sociais; a execução do comportamento especi- ficado pela regra (rastreamento) é, em geral, um desempenho motor modelado por contin- gências naturais (Matos, 2001). Os seres humanos seguem não apenas as regras apresentadas por outros, como também formulam e seguem suas próprias regras. Quan- do estas são formuladas ou reformuladas pelo indivíduo cujo comportamento passam a con- trolar, dizemos que são auto-regras. Neste caso, uma parte do repertório do indivíduo afeta ou- tra parte deste repertório. As auto-regras po- dem ser explicitadas publicamente, ou podem ocorrer de forma encoberta quando o indiví- duo pensa (Jonas, 1997). A distinção proposta por Skinner, entre o comportamento modelado por contingências e o governado por regras, foi submetida a es- tudos experimentais, e o corpo de conhecimen- tos resultante tem implicações diretas para tra- balhos aplicados. O objetivo deste capítulo é verificar quais as contribuições da pesquisa básica e de que forma esse conhecimento teó- rico-experimental pode contribuir para uma das áreas de aplicação da psicologia, a clínica, e pretende também analisar algumas contri- buições da pesquisa clínica a respeito do uso de regras, de conselhos e de intervenções cha- madas diretivas, incluindo os problemas de adesão ao tratamento e a chamada resistência em psicoterapia, assim como analisar qual pro- cesso de mudança – por regras ou por modela- gem pelas contingências – é responsável pelas mudanças clínicas. CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA BÁSICA Para que um psicólogo clínico mantenha- se a par tanto de pesquisas desenvolvidas em clínica quanto de pesquisa básica, é extrema- mente útil a tarefa realizada por colegas pes- quisadores de prover à comunidade artigos de ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 215 revisão de literatura. Nesse sentido, vários ar- tigos foram escritos para a comunidade de analistas do comportamento brasileiros nos atuais 10 livros da coleção Sobre Comportamen- to e Cognição, baseados nas apresentações fei- tas nas Reuniões Anuais da Associação Brasi- leira de Psicoterapia e Medicina Comportamen- tal (ABPMC) (por exemplo, Albuquerque, 2001; Banaco, 1997; de Rose, 1997; Guedes, 1997; Jonas, 1997; Sanabio e Abreu-Rodrigues, 2002), na Revista Brasileira de Terapia Compor- tamental e Cognitiva (por exemplo, Matos, 2001; Simonassi, 1999) e em capítulos de ou- tros livros (por exemplo, Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). As contribuições da pesquisa básica descritas a seguir foram baseadas nos artigos de revisão feitos por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo) e por Matos (2001). Na literatura de controle por regras, o ter- mo instrução tem sido freqüentemente empre- gado às vezes como sinônimo de regra, outras vezes indicando maior especificidade (Abreu- Rodrigues e Sanabio, no prelo). Neste texto, seu uso não será diferenciado. Pesquisas básicastêm confirmado que re- gras facilitam a aquisição de novos comporta- mentos, principalmente quando as contingên- cias são complexas, imprecisas ou aversivas. Entretanto, um dos resultados mais salientes dessas pesquisas tem sido a constatação de que as regras podem produzir uma redução na sen- sibilidade comportamental às contingências (Madden, Chase e Joyce, 1998, citados em Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). O com- portamento sensível seria aquele que muda sis- tematicamente diante de mudanças nas con- tingências de reforço. Assim, quando as con- tingências mudam e o comportamento não se altera, diz-se que o comportamento é insensí- vel às contingências. Este fenômeno foi obser- vado em investigações sobre controle instru- cional. Nesse tipo de investigação, criam-se situações experimentais em que as instruções para o desempenho podem ser coincidentes ou discrepantes com os esquemas de reforçamento em vigor. Tipicamente, quando há discrepância, os participantes apresentam desempenhos em acordo com as instruções recebidas e insensí- veis aos esquemas de reforçamento (Abreu- Rodrigues e Sanabio, no prelo). A redução na sensibilidade às contingên- cias, entretanto, não pode ser considerada uma característica inerente ao controle instrucional, já que tal redução foi modulada por diversos aspectos, conforme indicado nos estudos ex- perimentais revistos por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo). Um desses aspectos é a extensão com que os comportamentos gerados pela instrução entram em contato com a dis- crepância entre instrução e contingência atual. As autoras descreveram um experimento rea- lizado por Galizio (1979) em que havia uma condição segundo a qual seguir as instruções não permitiria contato com a discrepância ins- truções-contingência, e uma outra condição segundo a qual este contato ocorreria. A con- clusão desse autor foi de que o contato com a discrepância instrução-esquema é necessário para a redução/eliminação do controle ins- trucional (ou aumento na sensibilidade com- portamental), e não apenas a existência de tal discrepância. Outros estudos constataram o mesmo fenômeno (Buskist e Miller, 1986; Hayes et al., 1986, Experimento 1, citados em Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Um segundo aspecto considerado por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo) ao ana- lisarem a insensibilidade às contingências no comportamento governado por regras, foi o conteúdo das instruções. Vários estudos foram citados (Danforth et al., 1990; Dixon e Hayes, 1998; Otto, Torgrud e Holborn, 1999; Raia et al., 2000; Wulfert, et al., 1994), nos quais, quando as instruções especificavam com exa- tidão a tarefa, ocorreram respostas estereoti- padas e insensibilidade comportamental. Já as instruções vagas favoreceram o desenvolvimen- to de controle pelas contingências. A variabilidade comportamental é um ou- tro aspecto que afeta a sensibilidade às contin- gências. No estudo de LeFrancois, Chase e Joyce (1988), descrito por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo), os participantes que foram expostos a apenas uma instrução e um esque- ma de reforçamento ficaram sob controle instrucional, enquanto aqueles que receberam várias instruções e vários esquemas de refor- çamento apresentaram sensibilidade a mudan- ças nas contingências. A diferença foi discuti- da em termos da presença de alternativas 216 ABREU, RIBEIRO & COLS. comportamentais promovidas pela exposição à instrução e a esquemas variados, o que favo- receria a sensibilidade às novas contingências. A densidade de reforços contingentes ao comportamento instruído também afeta a sen- sibilidade à mudança. No estudo de Newman, Buffington e Hemmes (1995, citado por Abreu- Rodrigues e Sanabio, no prelo), observou-se um controle instrucional quando o comporta- mento de seguir instruções sempre produzia reforços, tendo tal controle diminuído quando esse comportamento era reforçado apenas par- cialmente e sido eliminado quando não havia reforços programados para seguir instruções. Esse resultado pode ser uma evidência adicio- nal de que comportamento de seguir instru- ções é um operante mantido apenas quando reforçado. A história de reforçamento do compor- tamento de seguir instruções foi apontada como outra variável de controle da sensibili- dade às contingências. No estudo de Martinez e Ribes (1996), descrito por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo), os participantes foram submetidos a uma condição experimental de seguimento de instrução falsa (que não des- creviam acuradamente a relação resposta-con- seqüência). Aqueles que haviam passado an- teriormente pela condição de seguimento de instrução verdadeira seguiram muito mais as instruções falsas do que aqueles que não tive- ram essa história prévia. A persistência do controle instrucional em situações em que o comportamento de seguir instruções ocorre mesmo quando há discre- pância entre a instrução e a relação resposta- conseqüência, e mesmo quando há contato com tal discrepância, tem sido atribuída à história de reforços sociais para correspondência entre instrução e comportamento (Hayes et al., 1986, citados em Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Uma descrição não-experimental dos efei- tos da história de vida foi apresentada por Ma- tos (2001): quando uma pessoa é “deixada à vontade” ou é criada mais livremente “para se defender por si mesma”, ela desenvolve estra- tégias para discriminar mais rapidamente as contingências importantes para sua sobrevivên- cia e, também, para discriminar mudanças nes- sas contingências. Uma pessoa a quem sempre foi dito o que fazer, a quem não foi dada a chance de entrar em contato com as contin- gências naturais, senão com suas descrições, torna-se especialmente dependente de contin- gências sociais, de regras sobre como agir. Se um indivíduo obedece sempre a instruções, as contingências naturais nunca terão oportu- nidade de atuar sobre seu comportamento. Se ele obedece a instruções, conseqüências agra- dáveis (sociais e naturais) podem ocorrer, e conseqüências aversivas são evitadas; se as desobedece, conseqüências aversivas ocorrem, contribuindo para aumentar o controle pela regra. A sensibilidade poderia ser, ainda, in- fluenciada pelo grau de discriminabilidade das contingências em vigor. No estudo realizado em 1995, por Newman e colaboradores, citado por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo), os es- quemas de reforçamento intermitente geraram insensibilidade, ao passo que o esquema de reforçamento contínuo produziu um desempe- nho sensível, havendo relação direta entre se- guir instruções e densidade de reforços. Esse resultado poderia ser explicado pelo fato de que os esquemas intermitentes são mais difi- cilmente discrimináveis do que os esquemas contínuos. Conclusões similares sobre o grau de discriminabilidade das contingências foram apresentadas por Matos (2001): quando as re- gras são ambíguas, mas as contingências são simples, fáceis de serem discriminadas, as pes- soas passam a agir de acordo com tais contin- gências; mas se são complexas e o desempe- nho exigido é elaborado, os indivíduos podem apresentar um desempenho bastante variável inicialmente, até ficarem sob controle das con- tingências em vigor, ou até formularem auto- regras a partir de suas experiências passadas com situações semelhantes. Estudos sobre controle verbal investiga- ram não somente os efeitos de estímulos ver- bais gerados por outra pessoa, como também de estímulos verbais gerados pelo próprio in- divíduo sobre seu comportamento não-verbal, ou seja, têm sido estudados os efeitos de auto- instruções. Uma das formas de estudá-las é verificar se há correspondência entre os com- ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 217 portamentos verbais e os não-verbais da mes- ma pessoa. Para conduzir tais estudos, os par- ticipantes são expostos a um determinado es- quema de reforçamento e, duranteou após a sessão experimental, são questionados acerca de seus desempenhos não-verbais. Quando ocorre a correspondência entre o relato e o desempenho não-verbal, é comum a conclu- são (apesar de questionável) de que o desem- penho do participante estava sob o controle de auto-instruções formuladas durante o ex- perimento (Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Catania, Matthews e Shimoff (1982) es- tudaram os efeitos de relatos verbais modela- dos e instruídos sobre a resposta não-verbal. Os participantes deveriam trabalhar em um esquema múltiplo de razão (na chave da es- querda) e de intervalo (na chave da direita). Periodicamente deveriam completar a frase: “o modo de ganhar pontos na chave da esquer- da/direita é ...”. No Grupo Instrução, os parti- cipantes recebiam dicas sobre o que escrever; no Grupo Modelagem, os participantes recebi- am pontos pelas descrições. Quando os relatos foram modelados, houve uma correspondên- cia entre os comportamentos de relatar e de pressionar a chave, mesmo na presença de dis- crepância entre os relatos e as contingências não-verbais programadas. Mas quando os re- latos eram instruídos, seu controle foi incon- sistente sobre o comportamento de pressionar a chave. Os autores concluíram que é mais provável que o comportamento verbal contro- le comportamentos não-verbais quando o pri- meiro é modelado (e não-instruído). Alguns estudos têm demonstrado que o controle verbal, tal como o observado no estu- do de Catania e colaboradores (1982), só ocor- re quando as contingências não-verbais em vi- gor não estão exercendo um controle discrimi- nativo. Nos estudos em que havia contingên- cias não-verbais consistentes e previsíveis, o comportamento verbal e o não-verbal foram controlados por suas respectivas contingências (Cerutti, 1991; Torgrud e Holborn, 1990, cita- dos por Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Já quando as contingências não-verbais pro- gramadas eram aleatórias e/ou incontroláveis, os relatos influenciaram o desempenho não- verbal (Cerutti, 1991, citado por Abreu- Rodrigues e Sanabio, no prelo). A correspondência entre o dizer e o fazer também é influenciada por sua história de reforçamento. Após uma história de reforça- mento de correspondência entre os comporta- mentos verbal e não-verbal, se um determina- do tipo de relato é reforçado, a ação corres- pondente é observada; no caso de uma histó- ria de reforçamento de ausência de correspon- dência, o reforçamento de um relato pode não ser acompanhado de uma ação corresponden- te (Amorim, 2001, citado em Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Uma comparação entre instruções, au- to-instruções e ausência de instruções foi efetuada no estudo de Rosenfarb e colabora- dores (1992), relatado por Abreu-Rodrigues e Sanabio (no prelo). Nesse estudo, três grupos foram formados: no Grupo Auto-Instruções, os participantes eram solicitados a relatarem a melhor forma de obter reforços; no Grupo Ins- truções Externas, eram apresentados os rela- tos gerados pelo primeiro grupo; e no Grupo Sem Instruções, os participantes nem foram solicitados a emitir relatos, nem recebiam re- latos externos. Ao final da fase de aquisição, os Grupos Auto-Instruções e Instruções Exter- nas apresentaram desempenhos mais apropria- dos aos esquemas em vigor do que o Grupo Sem Instruções; mas após uma fase de extin- ção, o Grupo Sem Instrução apresentou maior redução de respostas do que os outros dois gru- pos. As conclusões a que os autores chegaram foram de que: a) auto-instruções e instruções externas facilitam o controle exercido por con- tingências complexas; b) instruções e auto-instruções retardam o processo de extinção, ou seja, redu- zem a sensibilidade à mudança; c) a formulação de instruções não é uma condição necessária para que as con- tingências exerçam o controle sobre o comportamento. Quanto à comparação entre instruções e auto-instruções, a conclusão foi de que seus efeitos são funcionalmente equivalentes, sen- 218 ABREU, RIBEIRO & COLS. do ambas mantidas por reforçamento da co- munidade verbal. É importante considerar que quando há correspondência entre auto-relato e desempe- nho não-verbal é difícil afirmar se o desempe- nho não-verbal está sendo controlado pelo re- lato ou se as mesmas contingências controlam tanto a ação quanto a descrição da ação, sem que o relato participe da determinação da ação. É necessário cautela ao interpretar relações entre eventos privados e públicos. Algumas relações são possíveis (Abreu-Rodrigues e Sanabio, 2001): a) um evento ambiental observável produz o comportamento privado (neste caso, a auto- regra) e este, por meio de suas funções de estí- mulo, influencia o comportamento público (neste caso, o desempenho não verbal); b) o comportamento público é afetado diretamente pelo evento ambiental, mas também é influen- ciado pelo comportamento privado produzido pelo mesmo evento ambiental; e c) o evento ambiental gera tanto o comportamento priva- do quanto o comportamento público, mas não há relação entre esses dois comportamentos. Uma outra consideração a ser levada em conta é a de que os relatos podem não ser tatos puros (Skinner, 1957), ou seja, serem determi- nados não apenas pelos estímulos que descre- vem, mas também por outras variáveis am- bientais. O relato de encobertos pode ser, por exemplo, uma forma de exprimir um sentimen- to, ou de se esquivar de um tema, ou mesmo uma forma de agredir o interlocutor ou de tes- tar seu nível de aceitação ou de empatia (Delitti e Meyer, 1995). Conforme indicado por Abreu- Rodrigues e Sanabio (no prelo), as pesquisas têm indicado que vários fatores podem exercer influência sobre os auto-relatos: o limite de tem- po para a resposta de escolha (Critchfield e Perone, 1990), o número de estímulos-modelo (Critchfield e Perone, 1993), o número de estí- mulos de comparação (Critchfield, 1993) e uma história de punição (Sanabio, 2000). Uma análise das contribuições da pesqui- sa básica indica que a insensibilidade às con- tingências de reforçamento e à correspondên- cia entre o dizer e o fazer não são efeitos inevi- táveis do seguimento de regras. Devem ser le- vados em consideração a densidade de refor- ços; o grau de contato com a discrepância entre instruções e contingências e o grau de discri- minabilidade da contingência em vigor; a his- tória de vida do indivíduo e o grau de variabi- lidade comportamental; o tipo de regra – se é modelada ou instruída, se descreve desempe- nho específico ou se é vaga, a equivalência entre instruções e auto-instruções. REGRAS E PSICOTERAPIA Na maioria das terapias em consultório com adultos, o terapeuta não tem controle di- reto sobre as contingências em vigor fora da sessão terapêutica, sendo a intervenção base- ada em “conversas”. É, porém, essa conversa durante a sessão que ajuda o cliente a lidar com problemas enfrentados fora dali, no dia a dia (Kohlenberg, Tsai e Dougher, 1993). O en- tendimento dos processos de mudança contem- plados em terapia pode ser auxiliado pelo con- ceito de controle por regras. No livro Recent Issues in the Analysis of Behavior (Questões Recentes na Análise Comportamental), Skinner (1989) afirmou que terapeutas comportamentais, ao invés de or- ganizarem novas contingências de reforça- mento – tal como pode ser feito na escola, no lar, no local de trabalho ou no hospital –, for- necem conselhos na forma de ordens ou de descrição de contingências, ou seja, emitem regras. Também os terapeutas comportamen- tais cognitivos (por exemplo, Beck e Freeman, 1990/1993) descrevem sua própria atuação como diretiva, por exemplo, ao instruir seus clientes a realizarem diversas atividades fora do consultório. Matos (2001) analisou, de ma- neira similar, que a habilidade de lidar com o comportamento humano verbal é a grande arma dos terapeutas e a garantia de sucesso de suaspráticas. Quando os terapeutas orien- tam seus clientes a respeito de algo, estão, muitas vezes, verbalizando regras, que podem ou não ser seguidas. Entretanto, há debates sobre quais são os mecanismos responsáveis por mudanças ocor- ridas em psicoterapias. Pergunta-se se são as técnicas específicas ou as variáveis da relação terapêutica que propiciam os efeitos da tera- ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 219 pia. Também tem sido questionado se mudan- ças comportamentais produzidas pela terapia são modeladas por contingências da relação terapêutica ou se são governadas por novas re- gras produzidas na terapia (Meyer, 2001; Meyer e Vermes, 2001). Atualmente, a importância da relação te- rapêutica é um consenso para os terapeutas comportamentais, porém há diferenças quan- to ao papel desempenhado por ela (Raue e Goldfried, 1994). Por um lado, alguns autores vêem o vínculo terapêutico como um meio para facilitar outros aspectos importantes do pro- cesso de mudança, o que levaria a um maior engajamento na terapia (Rangé, 1995; Shinohara, 2000). Por exemplo, para Cahill, Carrigan e Evans (1998), à medida que a rela- ção desenvolve-se e a terapia entra em uma fase de tratamento mais ativa, uma boa rela- ção terapeuta-cliente torna o terapeuta mais eficaz, como um estímulo reforçador, e mais diretivo, o que, por sua vez, permitiria ao terapeuta ser consideravelmente mais influente em encorajar o cliente a tentar novas formas de pensamento e de ação. Por outro lado, há autores que atribuem ao relacionamento que ocorre em terapia o principal mecanismo de mudança do cliente. Para estes terapeutas comportamentais, a relação terapêutica é uma oportunidade para o cliente emitir comporta- mentos que lhe têm trazido problemas e, a partir da interação com o terapeuta, aprender formas mais efetivas de respostas, ou seja, o comportamento seria mais modelado pelas contingências da relação terapêutica do que governado por novas regras (Follette, Naugle, e Callaghan, 1996; Kohlenberg e Tsai, 1991/ 2001; Rosenfarb, 1992). Processos psicoterápicos aparentemente podem promover mudanças, quer por meio da alteração do controle por regras, quer da mo- delagem na relação terapêutica. O mais pro- vável é que os dois tipos de procedimentos es- tejam envolvidos nos processos de mudança, em proporções diferentes, conforme o tera- peuta e o cliente. A pesquisa de Zamignani (2001) fornece apoio à noção de que terapeutas comportamentais podem usar, para promover mudanças, tanto procedimentos de modelagem por conseqüências (reforçamento diferencial), como controle por regras (sugestão de alter- nativas de resposta para solução de problemas, proposta de atividade incompatível com a res- posta-queixa, recomendação de exposição e/ ou prevenção de respostas, ensino de procedi- mentos, solicitação de coleta de dados ou re- comendação para o cliente alterar pensamen- tos ou sentimentos). Foram comparados os de- sempenhos verbais de dois terapeutas analis- tas do comportamento atendendo um cliente com, e um sem, o diagnóstico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Constatou-se que um dos terapeutas apresentou um percen- tual elevado de verbalizações de aprovação para ambos os clientes, apresentando verbali- zações de aconselhamento praticamente só com o cliente com TOC, o qual tinha dificulda- de em iniciar respostas de forma espontânea. Já o outro terapeuta apresentou predominan- temente verbalizações de aconselhamento e de explicação com ambos os clientes. O uso da orientação, como uma das for- mas de produzir mudanças por regras, pode ter vários determinantes: a abordagem teórica comportamental, que tem produzido interven- ções bem-sucedidas com o uso de procedimen- tos padronizados envolvendo orientação; o cliente, que por vezes solicita conselhos; a ex- periência clínica, durante a qual pode ter havi- do reforço diferencial do emprego de estraté- gias diretivas; a história de vida pessoal, que poderia ter modelado, por exemplo, um estilo de interação pessoal mais controlador (Meyer e Donadone, 2002). Dois grandes grupos de variáveis serão analisados a seguir: a aborda- gem teórica e história de vida do cliente. Abordagem teórica Ao descrever diversas modalidades de te- rapia, autores como Frank e Frank (1993) e Garfield (1995) afirmam que as terapias comportamentais e cognitivas são diretivas e que nelas o terapeuta prescreve um programa terapêutico que compreende procedimentos es- pecíficos, guiando e encorajando os esforços do cliente nas sessões de tratamento e na vida diária. Por exemplo, terapeutas comportamen- tais podem dar instruções ao cliente de como 220 ABREU, RIBEIRO & COLS. relaxar, dar exercícios para serem praticados em casa, instruí-lo em como visualizar expe- riências particulares e ajudá-lo a construir uma hierarquia de situações temidas. O estudo de Ablon e Jones (2002) forne- ce alguns dados empíricos para essa concep- ção. Os autores utilizaram um instrumento de cem itens e analisaram o processo de interação terapeuta-cliente em 58 sessões de terapia cognitivo-comportamental para indivíduos de- primidos. Segundo eles, alguns dos itens mais característicos dessa forma de terapia (e que se relacionam ao controle por regras) foram: discussão freqüente sobre atividades e tarefas específicas para o cliente tentar fora da ses- são, explicações e conselhos explícitos. Foi ve- rificado que os clientes freqüentemente con- cordavam e aceitavam as colocações do terapeuta, não iniciavam muitos tópicos de conversa em sessão, além de cumprirem as solicitações feitas. A melhora foi associada, entre outros fatores, à obediência, à admira- ção ou à aprovação apresentada pelos clientes em relação a seus terapeutas, desejo de maior proximidade e aceitação de suas intervenções sem ambivalência ou suspeita. É possível infe- rir que os procedimentos adotados funciona- ram como regras, e que seus efeitos foram ob- tidas através do reforçamento social fornecido pelo terapeuta. Esse efeito seria uma forma de mais comportamento aquiescente do que de rastreamento (Hayes e Ju, 1998), ou seja, mais controlado por aprovação social do terapeuta do que pelas contingências naturais (fora da sessão) do comportamento instruído. Já terapias psicodinâmicas consideram que dar sugestões não seria uma atuação psicoterapêutica evocativa ou que propicie des- cobertas, objetivos que seriam alcançados por meio da auto-exploração e da busca de solu- ções pelo próprio cliente, estratégias que con- sideram mais intensas e desejáveis (Garfield, 1995). Corey (1983) afirmou ser freqüente ha- ver clientes que, quando estão passando por um sofrimento, chegam à sessão de terapia bus- cando ou até exigindo um conselho inteligen- te para tomar uma decisão ou que o terapeuta resolva um problema por eles. Esse autor diz, no entanto, que a terapia não deve ser confun- dida com o ato de dar informação, orientação ou conselho. A tarefa do terapeuta consistiria em ajudar o cliente a descobrir suas próprias soluções e encontrar seu caminho, mas sem dizer como deveria fazê-lo. Miranda e Miranda (1993) descreveram a tarefa de orientar como o ato de avaliar com o cliente as alternativas de ações possíveis e facilitar a escolha de uma delas. À medida que o terapeuta atende, res- ponde, personaliza e orienta, o cliente começa a se comportar de modo a promover sua pró- pria mudança. Isso quer dizer que, explorada sua situação insatisfatória e compreendidas as várias peças dessa situação, o cliente muitas vezes elabora sozinho seu plano de ação, sem ajuda direta do terapeuta. Mas mesmo terapeutas não-comporta- mentais (Corey, 1983; Miranda e Miranda, 1993) consideram que há casos em que a orien- tação direta do terapeuta mostra-se necessá- ria, por exemplo, quando o cliente não tem domínio da área, quando se encontra claramen- te em perigo de se prejudicar (como naamea- ça de suicídio) ou de prejudicar outros, ou quando se vê por certo tempo incapacitado para fazer opções. Ainda assim, eles consideram que a decisão final sempre é do cliente. As afirmações de que o terapeuta com- porta-se de forma a fazer com que o cliente encontre novas formas de ação “sem ajuda di- reta” (Garfield, 1995; Corey, 1983; Miranda e Miranda,1993) sugerem que a intervenção te- rapêutica baseia-se na modelagem direta do comportamento verbal, incluindo a modelagem de auto-regras (ver o Capítulo 13 para infor- mações mais específicas sobre essa questão). Esse procedimento estaria em acordo com a sugestão de Catania (1998/1999) de que a mudança do comportamento verbal do indiví- duo pode facilitar a mudança do comportamen- to não-verbal correspondente. Nesta forma de intervenção, o terapeuta modelaria o compor- tamento verbal do cliente em vez de instruí-lo diretamente. Com relação à análise de qual processo de mudança, de regras ou de mode- lagem pelas contingências é responsável pelas mudanças clínicas, não se deve perder de vista que mesmo que o processo acima descrito seja o de modelagem de auto-regras (modelagem dentro da sessão terapêutica), ainda assim a mudança produzida pela psicoterapia na vida ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 221 diária do cliente seria obtida primordialmente pela introdução ou pela alteração de regras, quer formuladas pelo terapeuta, quer pelo cliente. História de vida do cliente Para Hayes, Kohlenberg e Melancon (1989), muitas desordens clínicas envolvem problemas no controle verbal, como os quatro a seguir: a) problemas do cliente na formulação de auto-regras; b) probelmas nas regras aprendidas; c) problemas no não-seguimento de re- gras; d) problemas no seguimento excessivo de regras. Para entender os problemas no seguimen- to de regras é necessário analisar os controles envolvidos no aquiescer e no rastrear. Pelo me- nos cinco variáveis ou circunstâncias modulam o comportamento controlado por regras do tipo aquiescer de acordo com Zettle e Hayes (1982, citado em Matos, 2001): a) a habilidade ou a capacidade do agen- te social de monitorar o comportamen- to de seguir a regra; b) a habilidade ou a capacidade do agen- te social de realmente poder cumprir com as conseqüências previstas; c) a importância das conseqüências pre- vistas ou a magnitude do reforço; d) a história de confiabilidade do agente social; e) a importância das conseqüências pre- vistas para outros comportamentos que não seja o de seguir a regra. Já a regra tipo rastreamento é afetada por variáveis que influenciam a concordância da regra aos eventos (por exemplo, sua clareza, sua precisão, o fato de a regra ser completa ou incompleta), por variáveis que afetam a im- portância dessa concordância, das conseqüên- cias existentes para outros comportamentos que não o instruído, e a importância ou mag- nitude da conseqüência prevista na regra. Ao contrário do aquiescer, o rastrear praticamen- te dispensa a figura do agente social (Matos, 2001). Problemas na formulação de auto-regras Formular auto-regras é um repertório im- portante, especialmente nos casos em que o comportamento gerador de problemas está sob um maior controle das contingências diretas e imediatas, como ocorre na impulsividade. Quando o repertório de seguimento de regras de uma pessoa não está bem-desenvolvido, ela pode ser rotulada tanto como impulsiva quan- to como preguiçosa, antisocial ou imoral (Hayes e Ju, 1998). De acordo com esses auto- res, as auto-regras introduzem novas formas de regulação social, propiciando maior resis- tência à extinção ou a conseqüências imedia- tas, e estas são características similares às do seguimento de regras enunciadas por outros. Desordens na formulação de auto-regras podem ocorrer pelo menos de duas maneiras básicas: a pessoa pode falhar na formulação de regras, quando seria vantajoso fazê-lo e a pessoa pode formular regras, mas o faz de ma- neira imprecisa ou não-realista. De acordo com Hayes e Ju (1998), a estratégia terapêutica mais acertada nesses casos pode ser a de ensi- nar a formulação de regras apropriada, ou seja, ensinar o cliente a colocar seu comportamen- to verbal sob controle direto dos eventos vivenciados e de suas conseqüências naturais. Problemas nas regras formuladas pelo grupo Muitas das regras que guiam nosso com- portamento são aprendidas de outras pessoas. Problemas podem ocorrer nas práticas de for- mulação de regras da comunidade verbal em geral. Culturas particulares e subculturas po- dem falhar no desenvolvimento de regras ade- quadas ou podem desenvolver regras impreci- sas. Por exemplo, uma subcultura religiosa pode desenvolver regras verbais sobre cura pela fé que proíba seus adeptos de procurarem aju- 222 ABREU, RIBEIRO & COLS. da médica para doenças que ameacem suas vi- das. Similarmente, uma cultura pode deixar de dar qualquer orientação verbal sobre tópicos importantes de saúde (Hayes et al., 1989). Nessas situações, o terapeuta pode tanto pro- curar na cultura em questão uma melhor for- mulação de regras como colocar o comporta- mento do cliente em contato direto com as contingências naturais. Falha em seguir regras Formular regras vantajosas não é suficien- te. É preciso também aprender a entendê-las e a segui-las. Sem um repertório de ambos os aspectos do seguimento de regras, padrões desordenados de comportamento são prová- veis. Em certas circunstâncias é desejável que as regras compitam efetivamente com os efei- tos destrutivos de algumas formas de controle imediato por contingências. Por exemplo, a regra “Não às drogas!” tem a intenção de esta- belecer uma insensibilidade comportamental a determinadas contingências diretas. Entre- tanto, mesmo que um adolescente saiba que tomar drogas que viciam pode levá-lo a pro- blemas extremamente indesejáveis, as contin- gências sociais imediatas (por exemplo, acei- tação do grupo de amigos) e os efeitos ime- diatos da própria droga podem conduzi-lo a um padrão de vício. Sem um padrão suficien- temente forte de seguimento de regras, é mais provável que a pessoa tenha seu comportamen- to controlado pelas contingências imediatas, mesmo o resultado sendo destrutivo (Hayes et al., 1989). Algumas das técnicas usadas com pesso- as com transtornos de caráter ou impulsivas podem ser entendidas como uma tentativa de estabelecer um maior grau de seguimento de regras. Por exemplo, programas de tratamen- to em grupo para drogados são organizados em torno de regras de conduta claramente especificadas. A obediência às regras é promo- vida através de encontros em grupo, que enfocam o sucesso e as infrações dos membros do grupo. Esse controle social intenso pode ser entendido como uma tentativa de estabelecer aquiescência em relação às regras do progra- ma. Contingências sociais fortes e consisten- tes são dadas para o seguimento de ordens, possivelmente com a esperança de que surja um maior grau de insensibilidade a conse- qüências indesejáveis e imediatas (Hayes et al., 1989). A adesão às regras também é freqüen- temente conseguida com procedimentos simi- lares em programas para emagrecimento, como o dos Vigilantes do Peso, e nos grupos anôni- mos, como o dos Alcoólatras Anônimos. Uma falha importante de seguimento de regras, que afeta o resultado de psicoterapias, é a chamada resistência do cliente. Alguns in- divíduos que procuram ajuda profissional das mais diversas formas de psicoterapia rejeitam as orientações dadas por seus terapeutas. Es- tes clientes têm sido designados por terapeutas como opositores, reacionários, não-cumpri- dores, intratáveis, não-motivados, resistentes. O comportamento resistente e o colaborador podem ter vários determinantes. Um deles é a diretividade do terapeuta (incluindo conselhos, perguntas, interpretações, apoio). Beutler, Mo- leiro e Talebi(2002) realizaram uma revisão de 20 estudos que verificavam os efeitos dife- renciais da diretividade do terapeuta, tendo em vista a resistência dos clientes. Foi constatado que 80% desses estudos demonstraram que as intervenções diretivas funcionaram melhor entre os clientes com baixo nível de resistên- cia, enquanto as intervenções não-diretivas funcionaram melhor entre os clientes com graus mais altos de resistência, sugerindo que os efeitos da resistência podem ser circunda- dos pelo uso de intervenções não-diretivas e autodirecionadas. As pesquisas que indicam uma forte cor- relação entre a resistência do cliente e um re- sultado negativo da terapia e/ou abandono da mesma e entre a resistência do cliente e comportamentos diretivos do terapeuta (Ablon e Jones, 2002; Beutler, Moleiro e Talebi, 2002; Bischoff e Tracey, 1995) sugerem que o uso de estratégias diretivas, tal como a orientação, não deveria estar vinculado apenas à linha teórica e à preferência do terapeuta, a histó- ria de seguimento de regras e instruções do cliente deve ser levada em consideração. Por exemplo, para clientes com uma história de dificuldades de seguimento de regras não se- ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 223 ria recomendado o uso de procedimentos muito estruturados. Outras considerações sobre a resistência do cliente a mudanças foram feitas por Guilhardi (2002) e sobre o manejo da resistência sob o enfoque analítico-comportamental por Cautilli e Connor (2000). Para esses autores, a resis- tência pode ser entendida e, portanto, traba- lhada por meio de análise funcional. A resis- tência pode ser produzida por cinco problemas (Cautilli e Connor, 2000): 1. falta de motivação, ou seja, refor- çamento insuficiente para executar a tarefa ou punição por executá-la, ou existência de demasiados obs- táculos; 2. tempo insuficiente para praticar a habilidade antes de usá-la; 3. necessidade de mais ajuda para implementar a habilidade nas con- dições existentes; 4. a habilidade é uma exigência inédi- ta, que a pessoa não precisou fazer antes; 5. a habilidade é complexa demais. Falhas no seguimento de regras têm sido também estudadas sob o tópico de adesão a tratamentos. Problemas de adesão ou de ade- rência têm sido uma preocupação de profissi- onais da saúde e de relevantes pesquisas. Malerbi (2000), ao analisar a questão da ade- são aos tratamentos médicos, afirmou que o nível de adesão não aumentou muito durante os mais de 20 anos de estudos sobre o proble- ma. A pesquisadora verificou, em levantamen- to bibliográfico, que o fator mais importante que afeta a adesão é a complexidade do trata- mento, ou seja, quanto mais complexo o trata- mento, menor a adesão. Seguimento excessivo de regras Quando a formulação e/ou seguimento de regras é muito forte, o comportamento pode ser descrito como obsessivo, ansioso, depen- dente, insensível ou rígido. Nesses casos, o ensino de formulação de regras ou o aumento da insensibilidade às contingências diretas podem piorar o problema. Diminuir ou evitar o controle por regras seria a estratégia reco- mendada (Hayes e Ju, 1998). De fato, uma im- portante função da terapia tem sido a dimi- nuição do controle exercido pelas regras, ou seja, do controle exercido pela aprovação so- cial e o aumento correspondente do controle das contingências naturais e “genuínas”. O comportamento governado por regras nunca apreende de forma completa as sutilezas do comportamento controlado diretamente pela experiência. Dirigir um carro após a leitura de um livro a esse respeito não equivale a dirigir após haver dirigido por muitos meses. Interagir com membros do sexo oposto após receber al- gumas dicas de amigos não é o mesmo que a interação de um indivíduo socialmente ex- periente. Para diminuir o controle pelas regras, en- tretanto, não basta ter suficiente experiência. Algumas regras podem ser apoiadas de manei- ra generalizada pela comunidade verbal de tal forma que a experiência direta pode não so- brepujar os efeitos da regra. Há casos, de acor- do com a pesquisa básica, nos quais o uso pré- vio da regra pode interferir no controle de ex- periências diretas de tal forma que os benefí- cios da experiência direta subseqüente são ate- nuados. Nestes casos, pode ser importante con- siderar o alerta dado por Matos (2001): se um comportamento foi instalado e está sendo man- tido por conseqüências sociais, mesmo existin- do conseqüências naturais colaterais, não será suficiente o terapeuta trabalhar com conse- qüências naturais ao tentar eliminar um com- portamento controlado por regras. Se for de- sejável modificar ou afetar um comportamen- to controlado por regras, pode ser preciso mudar a regra. Quando o controle por regras é indesejá- vel, dois cursos terapêuticos parecem dis- poníveis: evitar controle verbal ou alterá-lo a fim de diminuir os efeitos de produção de in- sensibilidade. A terapia de aceitação e com- promisso (ACT), proposta por Hayes, Strosahl e Wilson (1999), e a psicoterapia analítica fun- cional (FAP), proposta por Kohlenberg e Tsai (1991/2001), exemplificam essas estratégias terapêuticas. De acordo com as bases teóricas 224 ABREU, RIBEIRO & COLS. da ACT (Hayes et al., 1999), quando determi- nadas regras tornam o comportamento do in- divíduo insensível às contingências naturais, elas podem adquirir uma autonomia funcio- nal e podem tornar-se a causa presumida do comportamento problemático, de forma que a tentativa de eliminar essa causa por meio de outras regras pode piorar o problema. A ACT, então, atuaria para alterar o contexto em que as regras são formuladas, e não as regras em si (Hayes e Ju, 1998). Já na FAP, o terapeuta prioriza a modelagem direta dos comportamen- tos clinicamente relevantes que ocorrem na ses- são. As reações genuínas do terapeuta ao com- portamento do cliente reforçam, provavelmen- te, de maneira natural, melhoras à medida que elas ocorrem na sessão terapêutica. Por exem- plo, ao invés de instruir o cliente que procurou ajuda por problemas de intimidade em relacio- namentos a realizar exercícios de comunicação com seu companheiro, o terapeuta pode refor- çar melhoras nas respostas de retraimento que ocorrem na própria relação com o terapeuta (Kohlenberg e Tsai, 1991/2001). O único tipo de regra que é formalmente estimulado é o rastreamento, de modo que tanto o cliente quanto o terapeuta são encorajados a descre- ver verbalmente as contingências envolvidas em experiências vividas (Hayes et al., 1989). INVESTIGAÇÕES RECENTES E POSSIBILIDADES FUTURAS Apesar de terem sido detectadas dife- renças de atuação do terapeuta em terapias de diferentes abordagens (ver, por exemplo, Garfield, 1995), é possível que existam práti- cas comuns a uma cultura terapêutica que sur- gem da solução de problemas clínicos. As pes- quisas deveriam procurar responder se os te- rapeutas comportamentais (tanto os denomi- nados analítico-comportamentais quanto os cognitivo-comportamentais) utilizam a formu- lação de novas regras como mecanismo básico de mudança e se há diferenças quando estas são enunciadas pelo terapeuta ou pelo cliente (auto-regras), assim como se regras e auto-re- gras são realmente menos utilizadas por terapeutas de outras abordagens teóricas. Tais pesquisas já foram iniciadas. Meyer e Donadone (2002) estudaram o emprego da orientação por terapeutas comportamentais. O objetivo da pesquisa foi verificar se os tera- peutas comportamentais experientes (isto é, os que já tiveram seus comportamentos terapêu- ticos modelados e não apenas instruídos por seus professores e supervisores) utilizam a es- tratégia de orientar seus clientes, qual a fre- qüência do uso desta estratégia e quais as for- mas dessas orientações. O estudo foi descriti- vo, procurando controlar parcialmente as va- riáveis “influência das características do cli- ente” ao solicitar trêsclientes para cada terapeuta, a “influência das características do terapeuta” ao selecionar três terapeutas da mesma abordagem teórica e a “influência das sessões” ao pedir três sessões por cliente. O número de clientes por terapeuta e de sessões por cliente foi diferente do planejado, mas per- mitiu a análise de tendências. Nesse estudo, a orientação foi entendida como uma descrição do comportamento a ser executado pelo cliente fora das sessões de te- rapia, com indicação explícita ou implícita das conseqüências desta ação. As seguintes sub- categorias foram selecionadas para análise. Primeiro, orientação para a ação, isto é, orien- tações que indicavam diretamente de que for- ma o cliente deveria comportar-se no cotidia- no. Segundo, a orientação para a reflexão, ou seja, indicações mais indiretas, aconselhando o cliente a refletir sobre determinado tema. E, terceiro, prescrição de tarefas, indicando tare- fas terapêuticas para casa como parte de um procedimento estruturado. Pretendeu-se veri- ficar ainda se, quando orientava, o terapeuta estava especificando o comportamento a ser emitido ou se dava orientações genéricas, uma vez que a literatura tem mostrado que princi- palmente a primeira destas formas pode pro- duzir o efeito de “insensibilidade às contingên- cias naturais” (por exemplo, Hayes e Ju, 1998). Os terapeutas variaram o número total de falas e o número de falas com orientação por sessão com todos os clientes. A flutuação de falas dos terapeutas não pareceu ser con- trolada por diferenças entre clientes, já que houve variações entre sessões de um mesmo cliente para todos os terapeutas. Para os três ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 225 terapeutas foi baixa a proporção de falas com orientação, indicando não ser esta uma estra- tégia muito usada por nenhum dos terapeutas comportamentais experientes. Observaram-se também grandes flutuações entre sessões e entre clientes de cada terapeuta quanto ao número de falas contendo orientação, não sen- do estas, portanto, variáveis de controle rele- vantes. Quando os terapeutas usavam orienta- ções, estas tendiam a ser específicas e poucas vezes genéricas. Quando orientou, o primeiro terapeuta indicou ações específicas a serem realizadas por seus clientes no cotidiano, na maioria das vezes; já o segundo terapeuta pres- creveu tarefas, enquanto o terceiro terapeuta indicou tanto ações quanto reflexões para seus clientes. A prescrição de tarefas, tipo de orien- tação que mais se esperaria de terapeutas com- portamentais, de acordo com a literatura, não ocorreu em todas as sessões, tampouco foi apre- sentada a todos os clientes. Apesar de o núme- ro de dados não ter sido suficiente para gene- ralizações, aparentemente o comportamento de orientar não foi modelado pelos clientes destes terapeutas experientes. Mais pesquisas poderiam ser conduzidas para verificar a vali- dade das conclusões. Em continuação a esta investigação, Donadone (2002) elaborou um projeto de pes- quisa no qual parte do procedimento do estu- do anterior será contestado, mas que contará também com a análise de auto-orientações, en- tendidas como uma descrição do comporta- mento, feita pelo cliente, a ser executado por ele mesmo fora da sessão, com descrição ex- plícita ou implícita das conseqüências de suas ações. O estudo pretende comparar o empre- go de orientações e o uso de estratégias para produzir auto-orientações, tanto por terapeutas comportamentais experientes quanto por tera- peutas com pouca experiência. O interesse em estudar o uso de orienta- ção por terapeutas iniciantes surgiu a partir de uma comparação não planejada: o treino em categorizar, realizado no estudo anterior, foi feito com transcrições de sessões de tera- peutas em início de carreira, nas quais havia uma freqüência bem mais alta de orientações do que a encontrada com os terapeutas expe- rientes. A diferença poderia ser explicada pe- las afirmações de Banaco (1993), de Ferrari (1996) e de Alvarez (1999), de que terapeutas experientes encontram-se mais sob controle das contingências das sessões, enquanto terapeutas pouco experientes ficam mais sob controle de instruções, tendo dificuldades em discriminar contingências da relação terapêutica durante as sessões. O uso de orientação por terapeutas pouco experientes poderia estar relacionado ao seguimento de regras sobre “como proceder em terapia” e à ansiedade em produzir mudanças rápidas. Já os terapeutas experientes podem ter tido uma história de punição por parte de seus clientes quando usaram orientação, ou pe- lo menos foram reforçados diferencialmente ao utilizarem outras estratégias: pode ser difícil ser empático e orientar ao mesmo tempo. Pesquisas deveriam ser conduzidas para comparar o processo de manutenção das mu- danças obtidas quando comportamentos foram instalados por procedimentos diferentes. Con- tingências naturais do comportamento instru- ído passam a modelar sua forma de emissão? Esse comportamento se extingue na ausência de reforçamento social? Uma outra questão a ser investigada re- fere-se ao efeito, na clínica, do emprego de orientações genéricas e específicas tanto com relação à insensibilidade às contingências na- turais do comportamento (ou, em outras pala- vras, ao controle social ou ao controle direto pelas contingências) quanto ao seu seguimen- to ou não. É importante, também, procurar responder a questionamentos sobre que pro- cessos comportamentais são responsáveis pe- las mudanças obtidas por meio da psicoterapia: alteração do controle por regras, modelagem na relação terapêutica, ambas, e, em caso po- sitivo, em que proporção? E os resultados ob- tidos diferem em sua manutenção e generali- zação? Certamente, a cada pesquisa realizada, novas perguntas surgirão. CONCLUSÃO As razões do desenvolvimento do contro- le por regras relacionam-se com o fato de que os homens podem, utilizando descrições ver- bais, induzir uns aos outros – ou a si mesmos – 226 ABREU, RIBEIRO & COLS. a se comportarem de modo efetivo sem que haja necessidade de exposição, geralmente lon- ga, às conseqüências descritas. Esta caracte- rística do comportamento governado por re- gras parece especialmente necessária quando as conseqüências produzidas pelo comporta- mento são muito atrasadas ou escassas, tor- nando-se, portanto, ineficazes na modificação de comportamentos; ou ainda quando os com- portamentos que seriam modelados pelas con- tingências em vigor são indesejáveis. As van- tagens do controle por regras são justamente sua eficácia – rapidez com que se instala – e sua força (Skinner, 1974/1982). A desvanta- gem de seguir regras é evidenciada quando as contingências mudam e as regras não. Pode ocorrer a insensibilidade às contingências, ou seja, a não-alteração do desempenho e a con- tinuidade de emissão da resposta anteriormen- te necessária a sua produção. A terapia comportamental tem tido um amplo reconhecimento e aceitação, especial- mente com casos difíceis de transtornos psi- quiátricos. Uma das vantagens apontadas é a rapidez com que os resultados são obtidos. E a rapidez da aprendizagem é uma das vantagens dos comportamentos governados por regras. É possível que o sucesso dos procedimentos usados nestes casos se devam, em parte, a essa vantagem do controle por regras. Outra forma de trabalho de terapeutas é o favorecimento do autoconhecimento de seus clientes, ou seja, a promoção da identificação e da descrição das prováveis contingências que controlam os comportamentos atuais e as que foram responsáveis por sua instalação no pas- sado. As descrições de contingências, como vi- mos, são regras se elas controlarem o compor- tamento subseqüente. Assim, um comporta- mento modelado por contingências pode pas- sar a ser, em parte, controlado por sua descri- ção, uma vez que a regra produzida pode faci- litar o desempenho (Skinner, 1974/1982).Entretanto, o mero fato de descrever as con- tingências não significa que essas necessaria- mente passem a participar do controle do com- portamento descrito. Comportamentos não precisam de descrição para mudar. É possível, por exemplo, solucionar problemas sem a pré- via descrição das contingências em vigor (Simonassi, 1999). Kohlenberg e Tsai (1991/ 2001) também analisaram a questão da influ- ência do comportamento verbal sobre o não- verbal, ao falar dos papéis que os pensamen- tos podem ter, considerando essa influência uma relação entre respostas e não uma rela- ção de causalidade, uma vez que na aborda- gem analítico-comportamental a explicação do comportamento é encontrada no ambiente. Esses autores definiram pensamento como tato (descrições) e mando (solicitações) a si mes- mo e afirmaram que os três papéis dos pensa- mentos são: influenciar comportamentos sub- seqüentes; não influenciar comportamentos subseqüentes; contribuir para aumentar a for- ça de um comportamento subseqüente mo- delado por contingências. O grau de controle exercido pelo pensamento sobre problemas clínicos estaria em um continuum. Abreu- Rodrigues e Sanabio (2001) também descre- veram sete possíveis relações entre eventos privados e públicos, estando três delas descri- tas na discussão sobre correspondência entre auto-relato e desempenho não-verbal, no tó- pico “Contribuições da pesquisa básica” deste capítulo (p.208). Essas análises têm implicações para o tra- tamento, o qual deve ser diferente de acordo com o tipo de controle. Quando o pensamento ou evento privado tem influência no problema do cliente, o procedimento indicado pode ser o de mudança dos pensamentos, ou seja, o pro- cedimento é aplicado a um elo da cadeia comportamental, no qual são observadas mu- danças. O terapeuta pode apresentar argumen- tos lógicos, questionamento das evidências e apresentação de instruções para mudança de crenças. No caso do pensamento ou o evento privado não influenciar o comportamento sub- seqüente, o tratamento deve ser direcionado para mudar diretamente as ações do indivíduo que estão lhe causando problemas. Nesta situa- ção, o terapeuta cria condições de expor o com- portamento do cliente a reforçamento positi- vo na sessão de terapia e no ambiente natural, que poderia modelar e manter novos compor- tamentos (Kohlenberg e Tsai, 1991/2001). Alguns cuidados devem ser tomados ao empregar o conceito de governo por regras para explicar fenômenos que ocorrem na clínica. ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 227 Não se deve confundir crenças, conceito usado pelos terapeutas comportamentais cognitivos, com regras, apesar de existirem algumas se- melhanças. Afirmar que um cliente possui uma crença, muitas vezes irracional, e que ela é res- ponsável por comportamentos que causam pro- blemas é usualmente uma afirmação sobre a probabilidade de comportamento (e não so- bre o controle do comportamento por um estí- mulo discriminativo verbal que descreve uma contingência) e está baseada na observação de instâncias ou de relatos passados do compor- tamento (Costa, 2002). O termo “regra” é por vezes usado de maneira similar, isto é, indi- cando probabilidade de comportamentos, como nos alertou Baum (1994/1999), ao afir- mar que não é correto afirmar que uma pessoa está seguindo uma regra quando se percebe algum tipo de regularidade no comportamen- to dela, prática comum entre alguns analistas clínicos do comportamento. Por exemplo, um terapeuta pode ter identificado em cliente um comportamento inadequado em relação à apro- ximação de mulheres e também uma história de punição para essa classe de ações. Não se- ria correto concluir que essa história levou-o ao desenvolvimento da regra “se eu for falar com alguma moça, vai dar tudo errado”, que teria, então, passado a controlar seu compor- tamento de esquiva social. Não há necessida- de de supor que uma regra esteja controlando o comportamento: identificar contingências que atuaram na história de vida provavelmen- te é suficiente para entender a função deste comportamento. Uma outra consideração diz respeito ao problema que pode ocorrer ao se desenvolver uma avaliação funcional, de se atribuir a re- gras aprendidas ou a auto-regras o controle dos comportamentos que fizeram um indivíduo buscar ajuda psicológica. Por serem, pelo me- nos na maioria das vezes, comportamentos ins- talados há bastante tempo, certamente eles estão sendo mantidos por contingências. É possível que as contingências que mantenham o comportamento problemático sejam sociais, e que estejam mantendo comportamentos de seguimento de regras, mesmo que estas regras estejam em desacordo com as contingências diretas do comportamento especificado pela regra. Não se pode, contudo, dizer que se tra- ta de comportamento governado por regra, pois, segundo Albuquerque (2001, p. 139): Quando regras são discrepantes das contin- gências de reforço, pode-se dizer que a emis- são do comportamento previamente especifi- cado pela regra é controlado por esta, apenas antes de as conseqüências produzidas por este comportamento (isto é, as conseqüências que contradizem a própria regra) exercerem algum efeito sobre ele. Depois disso, o comportamen- to observado passa a ser controlado pelas con- tingências de reforço. Novos comportamentos que surgem a par- tir da relação terapêutica podem, entretanto, ser governados por regras. Está implícito nas considerações anterio- res o cuidado que se deve ter ao afirmar que um comportamento é insensível a contingên- cias. A insensibilidade pode ocorrer com rela- ção a algumas conseqüências diretas da ação instruída, mas não se pode dizer que o com- portamento de seguir regras não é mantido por contingências (sociais). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Ablon, J. S.; Jones, E. E. (2002). Psychotherapy process in the NIMH collaborative study of depression. Manus- crito não publicado. Abreu-Rodrigues, J.; Sanabio, E. T. (2001). Eventos pri- vados em uma psicoterapia externalista: Causa, efeito ou nenhuma das alternativas? Em H. J. Guilhardi, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz e M. C. Scoz (Orgs.), Sobre comportamento e cognição: Vol. 7. Expondo a variabili- dade (p. 206-216). Santo André, SP: ESETec. Abreu-Rodrigues, J.; Sanabio, E. T. (no prelo). Instru- ções e auto-instruções: Contribuições da pesquisa bá- sica. Em C. N. de Abreu e H. J. Guilhardi (Orgs.), Manual prático de técnicas em psicoterapia comporta- mental, cognitiva e construtivista. São Paulo: Editora Roca. Albuquerque, L. C. (2001). 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