Prévia do material em texto
ALCIONE MAZUR CIÊNCIA E CONHECIMENTO Série Metodologia do Trabalho Científico, 1 Curitiba 2013 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M476 Mazur, Alcione. Ciência e conhecimento [recurso eletrônico] / Alcione Mazur. – Curitiba: FESP, 2013. 17 p. – (Metodologia do trabalho científico; 1) Modo de acesso: <http://ead.fesppr.br> ISBN 978-85-88215-12-2 1. Pesquisa - Metodologia. I. Título. CDD 001.42 UNIDADE DE ESTUDO 1 - CIÊNCIA E CONHECIMENTO A DISCIPLINA DE METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO Agora que você já conheceu um pouco da importância da disciplina de Metodologia do Trabalho Científico vamos aprofundar a reflexão sobre a sua presença no seu curso. Você deve estar se perguntando: que conhecimentos essa disciplina me trará e porque tenho que aprender sobre isso? Para responder a essa e outras possíveis dúvidas precisamos compreender a etimologia1 do termo“Metodologia Científica”. Inicialmente vamos compreender o sentido da palavra método. Na Grécia antiga, a palavra methodos significava “caminho para se chegar a um fim”. Hoje, depois de tantos anos, o seu significado estendeu-se um pouco mais e vários autores apresentaram diferentes definições para essa palavra. No entanto, o conceito de método continua tendo uma ligação muito forte com o sentido grego original, e é precisamente esse ponto que nos interessa: falar do método como um caminho para se chegar a um fim. (FONSECA, 2008, p. 21) Os métodos fazem parte de nossa vida. Galliano (1986, p. 4) diz que “qualquer pessoa civilizada é uma espécie de ilha cercada de métodos por todos os lados, ainda que nem sempre tenha consciência disso”. Todas as ações que excutamos cotidianamente são baseadas em métodos, desde as ações mais simples como preparar uma refeição, dirigir e até estudar. “Método” representa caminho, e “logia” significa estudo e ciência, saber. Assim a metodologia científica pode ser traduzida como disciplina que estuda o caminho a se chegar ao saber científico. O método, portanto, constitui um dos pontos centrais nas formas do ser humano. Ao levarmos esse conceito para a aquisição do conhecimento em ciência, teremos um método chamado científico. Este, por sua vez, caracteriza-se por um conjunto de procedimentos racionais e preestipulados de que o pesquisador se utiliza para atingir uma determinada meta. (FONSECA, 2008, p. 21) 1 Estudo da origem e formação das palavras de determinada língua. (MICHAELIS ONLINE - http://michaelis.uol.com.br) É sobre esse “conjunto de procedimentos racionais e pré-estipulados” que vamos conversar durante toda essa disciplina. Além disso, você conhecerá também, a arte da leitura, da análise e da interpretação de textos para que se prepare para a jornada de acadêmico crítico e não de aluno-copista que apenas reproduz o que os outros disseram. Mas essas habilidades de leitura crítica, análise, interpretação e escrita científica irão depender da sua participação ativa no processo de ensino- aprendizagem. Aqui apresentaremos as ferramentas, dominá-las e utiliza-las depende de você. Nesse ponto da sua leitura novas questões devem ter surgido em sua mente: O que é ciência? O que é exatamente pesquisa científica? Quais são esses procedimentos racionais e pré-estipulados do método científico?O que é ser pesquisador? Todas essas questões serão trabalhadas e respondidas no decorrer das próximas páginas. O QUE É CIÊNCIA? Imagine o que os homens pré-históricos pensavam ao se depararem com fenômenos naturais como raios e trovões. Que tipo de sentimentos eles tinham nesse momento? Que explicações eles davam a tudo isso? A partir do momento em que o homem tomou conhecimento de sua existência no mundo, começou a explicar os fenômenos com os quais se deparava constantemente. Inicialmente, o fez de uma forma intuitiva, criando mitos para justificar aquilo que não compreendia. Durante algum tempo, essas explicações bastaram ao homem, porém, a sua capacidade pensante fez surgir nele a necessidade de uma outra explicação, que fosse racional, sobre si próprio, sobre o mundo e os seus inúmeros fenômenos. (FONSECA, 2008, p. 11) Dessa necessidade humana de saber o porquê dos acontecimentos é que surgiu a ciência. (LAKATOS; MARCONI, 2003, p.84). O homem queria uma nova explicação para o mundo, por isso partiu em busca de verdades decorrentes de um pensamento lógico e coerente. Essa busca o tornou cada vez mais exigente com o conhecimento que adquiria e transmitia. (FONSECA, 2008, p. 11) Percebesse que a curiosidade humana é a mola propulsora da ciência que busca a verdade sobre os acontecimentos. A ciência é, essencialmente, o fascínio do conhecimento, a busca incessante para a compreensão dos fenômenos que nos cercam. É a resposta para nossas indagações diante da vida, dos males que afligem as espécies e assim por diante. A busca das suas verdades, sempre instáveis e mutáveis. Verdade e certeza absolutas são inatingíveis. Aquilo que temos apenas provisórios, que construímos, para entrar um pouco no mundo misterioso do desconhecido.(QUADROS, 2007, p. 90). Quando faz referência à ciência, Oliveira (2002, p.47) afirma que: Trata-se do estudo, com critérios metodológicos, das relações existentes entre causa e efeito de um fenômeno qualquer no qual o estudioso se propõe a demonstrar a verdade dos fatos e suas aplicações práticas. É uma forma de conhecimento sistemático, dos fenômenos da natureza, dos fenômenos sociais, dos fenômenos biológicos, matemáticos, físicos e químicos, para se chegar a um conjunto de conclusões verdadeiras, lógicas, exatas, demonstráveis por meio da pesquisa e dos testes. É importante ressaltar que ciência não é algo pronto e acabado, muito pelo contrário, ela está em constante atualização. Logo, a ciência é, em sua essência, um processo social, dinâmico, contínuo, volátil e cumulativo. Há séculos, influencia a humanidade, rompe fronteiras e convicções, modifica hábitos, gera leis, provoca acontecimentos, e mais do que tudo amplia, de forma contínua, as fronteiras do conhecimento(TARGINO, 2005 apudQUADROS, 2007, p. 90). Mas de nada adianta fazer ciência e não divulga-la. A pesquisa científica e a divulgação dos seus resultados caminham juntas, ou seja, não existe pesquisa científica sem a sua divulgação. Se os grandes pesquisadores da humanidade, cientistas, filósofos, matemáticos, físicos não divulgassem as descobertas de suas pesquisas nossa evolução estaria prejudicada e provavelmente não conheceríamos muitas das tecnologias atuais. Você pode perceber que o sentido da palavra ciência é “conhecimento”, mas nem todos os tipos de conhecimento são científicos. Existem outros como o vulgar, por exemplo, também conhecido como “senso comum”. Esse e outros tipos de conhecimentos veremos a seguir. A NATUREZA DO CONHECIMENTO O objetivo da ciência é a busca pelo conhecimento, mas você sabe exatamente o significado da palavra conhecimento? Conhecer é elucidar a realidade. Elucidar vem do latim lucere, que significa trazer luz. Então, conhecer é trazer luzà realidade. “Dependendo da forma como o homem vê o mundo e de como o interpreta e o interioriza, surge a dimensão de seu entendimento e ação.”(MAGALHÃES, 2007, p. 03). Mas você já parou para refletir sobre os diversos tipos de conhecimento existentes? Existem ao menos quatro níveis de conhecimento fundamentais: empírico (popular/senso comum), científico, filosófico e teológico (religioso). É importante conhecer e distinguir cada um desses conhecimentos para saber diferenciá-los, mas lembre-se que academicamente utilizamos apenas conhecimento científico. Oliveira (2003) apresenta sinteticamente as características desses quatro tipos de conhecimento apresentados: QUADRO 1 - As várias formas de conhecimento VULGAR CIENTÍFICO FILOSÓFICO RELIGIOSO Valorativo Reflexivo Falível Assistemático Verificável Inexato Real Contingente Falível Sistemático Verificável Exato Valorativo Racional Infalível Sistemático Não verificável Exato Valorativo Inspiracional Infalível Sistemático Não verificável Exato FONTE: OLIVEIRA (2003, p. 37) CONHECIMENTOEMPÍRICO Ao contrário do conhecimento científico que busca a verdade por meio de explicações racionais o conhecimento empírico, também conhecido como popular e/ou senso comum é um tipo de conhecimento construído na vida cotidiana ou ao acaso. De acordo com AnderEgg (1978 apud CRUZ; RIBEIRO, 2003, p. 21) o conhecimento vulgar apresenta características como: - superficialidade – conforma-se apenas com a aparência. - sensitivo – referente às vivências. - subjetivo – é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conhecimentos. - assistemático – a organização da experiência não visa a uma sistematização das ideias. - acrítico – verdadeiro ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam, não se manifesta sempre de uma forma crítica. Exemplo: quando cortamos os cabelos na lua crescente, eles crescem mais rápido do que, quando os cortamos em outras luas. Assim como esse exemplo de conhecimento popular você deve conhecer inúmeros outros que passam de geração para geração. Vale ressaltar que o fato de um conhecimento ser popular não significa que ele não pode ser comprovado cientificamente. Muitos desses conhecimentos nos dão pistas para que fenômenos sejam observados mais atentamente com olhar científico, e assim, analisados e verificados. Agora pare e pense: você conhece algum exemplo de conhecimento empírico que se tornou científico? CONHECIMENTO FILOSÓFICO Conhecimento filosófico tem por origem a capacidade de reflexão do homem. Por meio desse tipo de conhecimento procura-se conhecer a realidade em seu contexto universal. Ele não produz soluções definitivas para grande número das questões analisadas, mas possibilita o entendimento melhor do sentido da vida. Cervo e Bervian (2002) apresentam alguns exemplos para esclarecer esse conceito: - A máquina substituirá o homem? - As conquistas espaciais comprovam o poder ilimitado do homem? - O que é valor hoje? CONHECIMENTO TEOLÓGICO/RELIGIOSO Retrata o estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade, baseando-se na fé e na crença em algo superior ao ser humano. Provém das revelações do mistério do oculto, por algo que é interpretado como mensagem ou manifestação da divindade. O conhecimento revelado – relativo a Deus – aceito pela fé teológica constitui o conhecimento teológico. É aquele conjunto de verdades a que os homens chegaram, não com o auxílio de sua inteligência, mas mediante a aceitação dos dados da revelação divina. (MAGALHÃES, 2007, p. 07). Um bom exemplo desse conhecimento são os conhecimentos adquiridos e praticados pelos homens tendo como fundamento os textos de livros sagrados como a Bíblia Sagrada ou outros. Esse conhecimento é totalmente oposto à ciência. Ele não é colocado à prova e nem pode ser verificado. CONHECIMENTO CIENTÍFICO O conhecimento científico é real e sistemático, ele advém muitas vezes do conhecimento empírico. O conhecimento científico resulta da pesquisa metodológica, sistemática, do contexto factual; procura analisar os fatos e os fenômenos da realidade, a fim de descobrir suas causas e concluir as leis gerais que o orientam. É verificável, na prática por demonstrações ou por testagem, explica e demonstra com clareza e precisão, descobre relações de predomínio, igualdade ou subordinação com outras descobertas, e estabelece leis gerais e universais válidas para todos os casos da mesma espécie. O conhecimento científico vai além do empírico, procurando conhecer, além do fenômeno, suas causas e leis. (MAGALHÃES, 2007, p. 06). Como já destacamos anteriormente o conhecimento científico não é entendido como pronto, acabado e definitivo, sendo assim, pode-se dizer que ele tem um caráter provisório, pois busca constantemente a verdade, suas explicações e soluções, que podem ser revistas e reavaliadas a qualquer momento de posse de novos métodos e instrumentos de pesquisa, pois segundo Cervo e Bervian (2002), a ciência é um processo em construção. O conhecimento científico pode ser: contingente (hipóteses traduzem resultado através da experimentação); sistemático (procedimento ordenado forma um sistema encadeado de ideias); verificável (afirmações podem ser comprovadas); falível (novas proposições podem mudar as teorias existentes); real (lida com o real, conforme ocorrência dos fatos) isso é o que enfatiza Oliveira (2003, p. 39-40). TRABALHOS CIENTÍFICOS Como já vimos, a metodologia cientifica trata das formas de se fazer ciência, mais especificamente dos procedimentos, das ferramentas e dos caminhos para se atingir a realidade teórica e prática, pois essa é a finalidade da ciência (DEMO, 1985). São vários os caminhos que a metodologia nos oferece para se fazer ciência, cabe ao pesquisador/cientista optar e utilizar a alternativa mais adequada ao seu objetivo. Durante o seu curso você irá desenvolver diversos trabalhos científicos e precisa conhecer um pouco sobre cada um deles para poder realiza-los em conformidade com os objetivos e especificidades de cada um. Agora você conhecerá alguns dos trabalhos científicos mais comuns em cursos de graduação. Mas além deles, você poderá se deparar com outros, se isso acontecer vale colocar em prática um hábito importante: pesquisar. RESENHA É um resumo crítico de determinada obra/livro. “Geralmente é requerida como tarefa intermediária complementar a uma disciplina de curso ou é solicitada como artigo para divulgação em publicações periódicas”. (FONSECA, 2008, p. 06). Essas resenhas são geralmente elaboradas por especialistas no assunto abordado ou por estudantes como forma de exercitar a compreensão e desenvolver a crítica. RESUMO E SÍNTESE Ambos são classificados como textos reduzidos escritos com as próprias palavras de quem os redige.O resumo “é um exercício de leitura, depende da capacidade de interpretação e síntese do texto (...). Procura-se guardar fidelidade ao texto original.” (MAGALHÃES, 2007, p. 71). E a síntese é a “exposição simplificada (em síntese) do assunto tratado em uma obra. Contém de forma reduzida todas as partes da obra”. (MAGALHÃES, 2007, p. 72). ARTIGO CIENTÍFICO É um documento escrito por um ou mais autores que pode representar uma ideia, uma pesquisa, o resultado de um estudo, entre outros. Os artigos são geralmente publicados em revistas especializadas com o objetivo de comunicar resultados e/ou novidades sobre um determinado assunto/tema. Existem diversos tipos de artigos: Artigos de opinião. Argumentos favoráveis ou contráriosa um pinto de vista. Artigos de análise ou meta-análise. Análise de cada elemento que constitui o assunto; definição, classificação, descrição dos tópicos; revisão sistemática. Artigos classificatórios. Ordenar, organizar e sistematizar, classificando a temática. Explicação dos critérios usados para classificação. Artigos de revisão, atualização, relatos de caso. Síntese de tudo o que já foi escrito sobre o tema até a data. Artigos de atualização. Enfoque em assunto a partir de novas descobertas que promovam modificação de comportamento. Relatos de caso. Descrição de determinado acontecimento ou fenômeno com maior número de variáveis intervenientes explicitadas. (MAGALHÃES, 2007, p. 73). PROJETO DE PESQUISA Como o próprio nome retrata, projeto de pesquisa é um planejamento da pesquisa em si. É o documento escrito solicitado como primeira etapa de uma pesquisa que se pretende desenvolver. Nesse planejamento são descritos elementos como delimitação do tema, as fontes, a metodologia, o cronograma de desenvolvimento, entre outros. Aprofundaremos esse assunto “projeto de pesquisa” em outro momento dessa disciplina. MONOGRAFIA OU TRABALHO DE CONCLUSÃO É o relato escrito de uma pesquisa que foi realizada, geralmente proposta como tarefa final de um curso de graduação ou de especialização. “Monos (um só); graphein (escrever) – monografia é o estudo por escrito de um único tema específico, bem delimitado” (SALOMON, apud MARTINS; LINTZ, 2000, p.21). Para a escrita da monografia é exigido que ela aborde com precisão, clareza e encadeamento lógico um tema de relevância social e científica. Ela é composta de três partes inevitáveis, ou seja: introdução, desenvolvimento e conclusões ou recomendações. Segundo Fonseca, (2007), essas partes são distribuídas em elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais. Veremos especificamente cada um desses elementos em um capítulo específico sobre o tema. Agora que você já conheceu os tipos de trabalhos científicos, principalmente, “projeto de pesquisa” e “monografia” vamos conversar um pouco sobre a escolha do tema de pesquisa, pois ele é a base de uma pesquisa. A ESCOLHA DO TEMA DE PESQUISA O seu curso de graduação oferece diversas vertentes e temáticas de estudo e atuação, por isso a escolha do tema de pesquisa muitas vezes não é uma tarefa fácil. Como você já viu anteriormente, o termo monografia nos indica que dentre todas as opções de tema que a sua área/curso oferece você deve optar por apenas um para o desenvolvimento de sua pesquisa. COMO ESCOLHER O TEMA DE PESQUISA? Essa escolha precisa estar intimamente ligada a sua área de atuação profissional, ou seja, ao seu curso e pode envolver também a sua experiência pessoal. Isso torna o trabalho de desenvolvimento monográfico muito mais interessante e eficiente, porque o estudante já possui conhecimentos prévios que poderão facilitar a interpretação de textos, ideias e jargões da área, além de orientar a busca de bibliografia e consulta a profissionais especializados. (FONSECA, 2008, p. 29). E para te ajudar nesse processo de escolha do temapodem ser utilizadas diversas fontes de ideias, como: experiências individuais; materiais escritos como livros, revistas, periódicos, entre outros; conversas com professores, profissionais diversos envolvidos com a sua área e até colegas de curso; observações de fenômenos e fatos; participação em eventos como seminários, encontros, congressos, etc.; Opte por um tema que além de relevância científica lhe desperte também o interesse pessoal, para tenha prazer em desenvolver sua pesquisa a cerca dele. COMO FORMULAR UM PROBLEMA? Toda pesquisa se inicia com algum tipo de problema ou indagação. Mas o que é problema de pesquisa? Consiste em dizer de maneira explícita, clara, compreensível e operacional, qual adificuldade com a qual nos defrontamos e que pretendemos resolver. Mas segundo Gil (1991), nem todo problema é passível de tratamento científico, é precisoidentificar o que é científico daquilo que não é. Um problema é de natureza científica quandoenvolver variáveis que podem ser tidas como testáveis. Gil (1996, p. 29) ainda aponta algumas regras básicas para a formulação de problemas científicos: - O problema deve ser formulado como pergunta: Exemplo: se alguém disser que vai pesquisar a “falência das empresas”, fica difícil compreender exatamente o que se vai pesquisar. Mas, se lermos a questão: “Que fatores provocam a falência das empresas?”, então compreendemos o problema da pesquisa. - O problema deve ser claro e preciso: Imagine o seguinte problema de pesquisa: “Como funciona a mente?” como ele não está claro e também não é preciso, não se pode ter a noção do que exatamente será pesquisado. Agora se propusermos o seguinte: “Quais os mecanismos psicológicos envolvidos no processo de memorização?”. - O problema não deve ter base exclusivamente empírica: eles não devem referir-se a valores, percepções pessoais, mas a fatos empíricos. É bastante complexo investigar certos problemas que já trazem em si uma carga muito grande de juízos de valor. Por exemplo, "a mulher deve realizar tarefas tipicamente masculinas?" Estes problemas conduzem inevitavelmente a julgamentos morais e, consequentemente, a considerações subjetivas, invalidando os propósitos da investigação científica, que tem a objetividade como uma das mais importantes características. - O problema deve ser suscetível de solução:Um problema pode ser claro, preciso e referir-se a conceitos empíricos, mas, se não for possível coletar os dados necessários à sua resolução, ele torna-se inviável. Por exemplo, "ligando-se um computador à memória de um homem, é possível realizar transferência de dados?". Esta pergunta só poderá ser respondida quando a tecnologia neurofisiológica progredir a ponto de possibilitar a obtenção de dados relevantes. Para formular adequadamente um problema é preciso ter o domínio da tecnologia adequada à sua solução. - O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável: É preciso cuidar para que o problema não seja muito amplo. Por exemplo, "o que pensam os jovens?". Seria necessário ainda delimitar os muitos aspectos, tais como: percepção, religião, sociais, econômicos, políticos, psicológicos, profissionais etc. Então seria mais delimitado o seguinte problema: “O que pensam os jovens sobre a escolha da carreira profissional?”. Uma vez formulado o problema, com a certeza de ser cientificamente válido, propõe-seuma resposta “suposta”, provável e provisória, isto é, uma hipótese. Ambos, problema e hipótesesão enunciados de relações entre variáveis, a diferença reside em que o problema constitui sentençainterrogativa e a hipótese sentença afirmativa. (LAKATOS, 1991). COMO CONSTRUIR HIPÓTESES? Após a formulação do problema o próximo passo é oferecer uma solução possível, ou seja, a formulação de hipóteses. Vários são os conceitos de hipóteses, enumerados por Lakatos (1996): “Hipótese é uma proposição enunciada para responder, tentativamente a um problema” (Pardinas). “A hipótese de trabalho é a resposta a um problema para cuja solução se realiza toda a investigação” (Bourdon). “A hipótese é uma proposição antecipatória à comprovação de uma realidade existencial. É umaespécie de pressuposição que antecede a constatação dos fatos. Por isso se diz também que ashipóteses de trabalho são formulações provisórias do que se procura conhecer e, em consequência,são supostas respostas para o problema ou assunto da pesquisa”. (Trujillo). Mas para a formulação dessas hipóteses é preciso atentar-se aos seguintes requisitos destacados por Benge citado por Lakatos (1996). - A hipótese deve ser formalmente correta e nãose apresentar “vazia” semanticamente. - A hipótese deve estar fundamentada até certo ponto, em conhecimento anterior, casocontrário, volta a inspirar o pressuposto já indicado de que deve ser compatível, sendocompletamente nova em matéria de conteúdo, com o corpo do conhecimento cientifico jáexistente. As hipóteses podem ser testadas e julgadas como provavelmente verdadeiras ou falsas ao final da pesquisa. Veja a seguir na fala de Fonseca (2008, p. 32) o que acontece em cada caso. Como ilustração considere-se o seguinte problema: Quem se interessa por Marketing? A hipótese poderia ser a seguinte: “Pessoas que trabalham em campanhas publicitárias tendem a manifestar interesse por Marketing”. Suponha-se que mediante a coleta e a análise dos dados a hipótese tenha sido confirmada. Nesse caso, o problema terá sido solucionado porque a pergunta formulada pôde ser respondida. Pode ocorrer, no entanto, que não se consiga obter informações claras que indiquem ser aquela qualidade fator determinante no interesse por Marketing. “Neste caso, a hipótese não terá sido confirmada e, consequentemente, o problema não terá sido solucionado.” (GIL, 1996, p.35). O processo de elaboração das hipóteses depende muito do nível de envolvimento e conhecimento do pesquisador sobre o tema de pesquisa. E diversas são as fontes de busca dessas informações: - Observação (senso comum): O estabelecimento assistemático de relações entre os fatos no dia-a-dia é que fornece os indícios para a solução dos problemas propostos pela ciência. - Resultados de outras pesquisas: Hipóteses elaboradas com base nos resultados de outras investigações geralmente conduzem a conhecimentos mais amplos que aquelas decorrentes da simples observação. À medida que as hipóteses vão sendo testadas, e vão sendo encontrados os mesmos resultados, diz-se que esses resultados possuem significativo grau de confiabilidade. - Teorias: Hipóteses derivadas de teorias proporcionam ligação clara com o conjunto mais amplo de conhecimentos das ciências. - Intuição: São palpites que não deixam de ser tirados também do processo de observação. Frente a tudo isso se reforça novamente a importância da leitura para todo o processo de pesquisa, não apenas para identificação do tema, mas a proposição do problema de pesquisa e suas hipóteses. É sobre essa temática que iremos prosseguir a nossa disciplina, na unidade de estudo seguinte veremos o processo da leitura à redação do texto científico. REFERÊNCIAS CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica.5.ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002. DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1985. FONSECA, Regina Célia Veiga.Como elaborar projetos de pesquisa e monografias. Curitiba: Imprensa Oficial, 2007. _______________. Metodologia do Trabalho Científica. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2008. GALLIANO, A. Guilherme. O método científico: teoria e prática. São Paulo: Harbra, 1986. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3a.ed. São Paulo: Altas. 1996. QUADROS, MariveteBassetto. A importância da disciplina de metodologia da pesquisa científica na universidade.In: ANAIS – VII CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO – Educação e Interdisciplinaridade. 2007. FAFIJA, Jacarezinho, 2007. P. 88 – 98. ISSN 18083579. Disponível em: <http://formacaodigital.com.br/wp-content/uploads/2009/08/QUADROSan2007.pdf> Acesso em: 30/11/2012. LAKATOS, Eva Maria & MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia Cientifica. 2a.ed. SãoPaulo: Editora Atlas. 1991. _______________. Fundamentos de metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Atlas, 2003. MAGALHÃES, Luzia Eliana Reis. O trabalho científico: da pesquisa à monografia. Curitiba: Fesp, 2007. MARTINS, Gilberto A.; LINTZ, Alexandre. Guia para elaboração ded monografias e trabalhos de conclusão de curso. São Paulo: Atlas. 2000. OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Tratado de metodologia científica: projetos de pesquisa, TGI, TCC, monografias, dissertações e teses. São Paulo: Pioneira, Thomson Learning, 2003. TARGINO, Maria das Graças. A pesquisa científica é uma atividade criativa? (2005) Disponível em: <www.imes.edu.br/revistasacademicas.com>. Acesso em: 30/11/2012.