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INGO WOLFGANG SAHLET
MAHCUS ORIONE GONÇALVES COHHEIA
WALTER CLAUDIUS HOTHENBUHG
JOÃO LUIZ MOHAES ROSA
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2010
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~ Saraava
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ÍNDICE
J. J. Gomes Canotilho
O direito constitucional como ciência de direcção- o núcleo
essencial de prestações sociais ou a localização incerta da socia-
lidade (contributo para a reabilitação da força normativa da
"constituição social")............................................................... 11
§ I" Retrospectiva .............................................................................. li
I A análise estrutural da posição jurídico-prestacional....... 11
li Os direitos sociais e os "cam<:Jlcões normativos".............. 12
III - O direito é política, o direito é economia........................ 13
IV O local incerto da socialidade ......................................... 13
V A "governance" do terceiro capitalismo e a constituição social 18
I. Colocação do problema............................................... 18
2. Os pressupostos económico-financeiros do Estado Social.. 19
3. O Estado Social como instrumento da inclusão social 20
§ 2" Desafios metódicos e metodológicos à sustentabilidade norma-
tiva do Estado Social........................................................ 22
- A direcção através do direito............................................. 23
TI - Refracções metódico-metodológicas................................. 25
1. A determinação dos níveis essenciais de prestações
sociais.......................................................................... 25
J. J. Gomes Canotilho
O direito dos pobres no activismo judiciário ............................ 33
Érica Paula Barcha Correia
A relação homoafetiva e o direito de seguridade social -uma lei-
tura a partir dos direitos fundamentais......................................... 37
5
Introdução .................................................................................... 37
A proteção jurídica à relação homoaFetiva à luz da Consti-
tuição Federal......................................................................... 3 7
1. O direito como regulador das relações sociais- neces-
sidade de dinamismo e evolução- a parceria civil entre
pessoas do mesmo sexo................................................ 38
2. O princípio constitucional da igualdade - proibição
constitucional de discriminação em razão do sexo- ado-
ção de igual tratamento por parte da Administração Pú-
blica............................................................................. 38
3. A proteção especial do Estado à Família e o reconheci-
mento, para fins previdenciários, de união estável entre
homossexuais............................................................... 40
II - A proteção do sistema de seguridade social em casos de
união homoafetiva .................................................................. 40
1. O direito à Previdência Social como direito fundamental. 40
1.1. A Previdência Social no plano infraconstitucional
-Lei n. 8.213/91 ................................................. 40
1.2. A Instrução Normativa n. 25/2000 do INSS e a
dificuldade prática de sua aplicação...................... 41
1.3. A concessão do beneFício previdenciário salário-
-maternidade para o segurado adotante................. 43
2. O direito à saúde como direito fundamental................ 45
III - A força normativa da Constituição Federal......................... 51
Flávia Piovesan
Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos: desafios e pers-
pectivas........................................................................................ 53
Introdução........................................................................53
li Proteção dos direitos sociais e econômicos na Constitui-
ção brasileira de 1988 ..................................................... 53
III - Justiciabiliclade dos direitos sociais e econômicos nas Cor-
tes brasileiras.................................................................... 57
1. Casos relativos ao direito à saúde................................... 58
6
7
7
1 .I. Casos relativos ao fornecimento de medicamentos e
ao acesso à assistência médico-hospitalar............. 58
1.2. Casos relativos a tratamento diferenciado............ 60
1.3. Casos relativos à responsabilidade por dano à saú-
de e ao alcance de contratos de seguros de saúde 61
2. Casos relativos ao direito à educação............................. 62
2.1. Casos relativos ao ensino Fundamental................. 62
2.2. Casos relativos à matrícula em instituições de en-
sino superior e à cobrança de mensalidades esco-
lares...................................................................... 63
IV - Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos nas
Cortes brasileiras: desafios e perspectivas........................ 64
Ingo Wolfgang Sarlet
Segurança social, dignidade da pessoa humana e proibição de re-
trocesso: revisitando o problema da proteção dos direitos funda-
mentais sociais............................................................................. 71
I Considerações introdutórias ............................................ 71
II Fundamentação e conteúdo da assim chamada proibição
de retrocesso na ordem jurídico-constitucional brasileira. 74
1. Aspectos terminológicos e conceituais: em busca de
um consenso possível .................................. ................ 7 4
2. Elementos para uma Fundamentação jurídico-consti-
tucional de uma proibição de retrocesso, especialmen-
te em matéria de direitos sociais.................................. 82
III - Parâmetros para aferição do alcance do princípio da proi-
bição de retrocesso em matéria de direitos sociais, com
destague para a dignidade da pessoa humana e o assim
chamado "mínimo existencial".......................................... 93
!V - Considerações finais ........................................................ 106
Marcus Orione Gonçalves Correia
Interpretação dos direitos fundamentais sociais, solidariedade e
consciência de classe .................................................................... 111
- Introdução ........................................................................ 111
7
li - Vícios de interpretação em matéria de direitos sociais ..... 114
Ili - Algumas soluções propostas ............................................. 125
A) Direitos sociais e consciência de classe .......................................... 126
B) O direito social na lógica da intensificação da solidariedade - en-
quanto espaço para a consolidação da consciência da classe dos que
vivem do trabalho ........................................................................... 139
C) A interpretação e a aplicação do direito como indissociáveis de seu
aspecto científico- uma demonstração a partir dos direitos sociais.
A questão central do valor social do trabalho ................................. 142
D) O princípio da igualdade como técnica de efetivação dos direitos
sociais- um elemento capital na consolidação de uma tática ...... 150
D.l) Introdução - a igualdade como postulado indissociável da
solidariedade ......................................................................... !50
0.2) A isonomia como um dos elementos basilares das teorias da
justiça .................................................................................... !54
0.3) A igualdade como técnica para otimização de direitos sociais .. 158
I. No direito civil.. ................................................................. 160
2. No direito processual civil ................................................. 162
3. Nos direitos sociais, em geral, e mais especificamente nos
direitos do trabalho e previdenciário ..................................... 163
Walter Claudius Rothenburg, João Luiz Moraes Rosa,
Thaís de Figueiredo Federighi, Ana Paula Magenis Pereira,
Camila Galvão Tourinho
Assistência e previdência social em conexão com os direitos fun-
damentais: análise de casos .......................................................... 173
1. Introdução ...................................................................................... 173
2. Capacidade de trabalho parcial e incapacidade econômica total em
relação à assistência social.. ............................................................ 175
3. Como aferir a carência econômica nos beneFícios assistenciais: re-
latividade do art. 20, § 32 , da Lei n. 8. 742/93 (Lei Orgânica de As-
sistência Social) .............................................................................. 182
4. Um salário mínimo é igual a um salário mínimo: a possibilidade de
cumulação do benefício assistencial no Estatuto do Idoso (a analo-
gia do art. 34, parágrafo único, da Lei n. 10.741/2003) .................. 188
8
4
5
6
J
S. Conversão entre benefícios previdenciários e assistenciais indepen-
dentemente de pedido: tutela jurisdicional efetiva ......................... 192
6. Menor sob guarda como dependente de segurado da Previdência
Social ..................................................................................... 198
7. A educação não morre nunca: o afastamento do limite de 21 anos
para a pensão por morte ................................................................. 202
S. A plebeia das provas: comprovação de tempo de trabalho exclusiva-
mente por testemunhas, especialmente para o trabalhador rural.. .. 21 O
9. Os casamentos resistem, mas resiste a pensão por morte? .............. 213
9
O DIREITO CONSTITUCIONAL COMO
CIÊNCIA DE DIRECÇÃO- O NÚCLEO ESSENCIAL
DE PHESTAÇÕES SOCIAIS OU A LOCALIZAÇÃO
INCERTA DA SOCIALIDADE (CONTHIBUTO
PAHAA REABILITAÇÃO DA FORÇA NORMATIVA
DA "CONSTITUIÇÃO SOCIAL")
J. J. Gomes Canotilho 4
Retrospectiva
I-A análise estrutural da posição jurídico-prestacional
Ao fazermos o trabalho de casa para elaborar esta intervenção, resol-
vemos interrogar-nos sobre o acerto teórico e dogmático das nossas ante-
riores incursões pelo tema da "socialidade estatal" e pela "constituição dos
direitos econômicos, sociais e culturais". Temos de confessar que o resul-
tado, em termos práticos, não é animador. Resolvemos, por isso, revisitar
o tema, desde logo porque se assiste a inquietantes regressões, nos planos
doutrinário, metodológico e jurisprudencial, quanto à concretização dos
princípios da socialidade nos estados de direito democráticos 1• Vejamos,
per suma capita, as nossas anteriores posições sobre o problema. Em tra-
balho intitulado "Tomemos a sério os direitos econômicos, sociais e cultu-
rais"2, procuramos fazer um estudo analítico-estrutural sobre a "posição
*Professor Catedrático cla Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
1 Veja-se numa incisiva discussão do problema no trabalho co\ectivo coordenado por l'vi. Bovcro,
Quale LiberM. Dizionario m[nimo contra i fa]si libcrali, Roma-Bari, Laterza, !."!OO+.
~Publicado inicialmente no número especial do Boletim da Faculdade dt! Direito de Coimbm- Estu-
dos em Homem1gem ao Prol: Doutor Antônio de Arruda Fcrrcr Correia, 1988, c rcpublicado no
nosso livro Estudos sobre direito.rjimdameutais, Coimbra, 200.'J, p . .'J5 c s.
11
jurídico-prestacional". O nosso objectivo era recortar uma posição jurídico-
-prestacio11al com a mesma densidade jurídico-subjectiva dos direitos de
defesa. No entanto, e embora tenha sido reconhecido que o Estado, os
poderes públicos e o legislador estão vinculados a proteger e a garantir
prestações existenciais,a doutrina e a jurisprudência abraçaram uma posi-
ção cada vez mais conservadora: (i) as prestações existenciais partem do
mínimo para uma existência minimamente condigna; (ii) são consideradas
mais como dimensões de direitos, liberdades e garantias (direito à vida,
direito ao desenvolvimento da personalidade, direito ou princípio da digni-
dade da pessoa humana) do que como elementos constitutivos de direitos
sociais; e (iii) a posição jurídico-prestacional assenta primariamente em
deveres objectivos, ]Jrima facie do Estado, e não em direitos subjectivos
prestacionais derivados directamente da constituição.
Tal como se poderá ver na retórica argumentativa do Tribunal Cons-
titucional Português no caso referente ao rendimento social de inserção (Ac.
590/02), a jurisprudência reconduz o direito ao rendimento social de inser-
ção à ideia de "conteúdo mínimo do direito a um mínimo de existência
condigna" e acaba por colocar entre parênteses os próprios direitos econó-
micos, sociais e culturais3• A metódica jurisprudencial tende a transformar-se
em uma metodologia funcional de obtenção de vencimento decisório.
II- Os direitos sociais e os "camaleões normativos"
Voltamos ao tema quase dez anos depois em trabalho intitulado "Me-
todologia 'fuzzy' e 'camaleões normativos' na problemática actual dos direi-
tos económicos, sociais e culturais"4• Em tal estudo procuramos problema-
tizar a dependência legal dos direitos constitucionais sociais tendo em
conta a "reserva de coFres financeiros". De certo modo, a nossa perspectiva
dirigia-se no sentido de salvar a dimensão normativa da socialidade me-
diante dois esquemas: (i) procurar novas vias para a "des-introversão" da
socialidade estatal; e (ii) distinguir entre direitos coustiUtcionais sociais e
políticas públicas de realização de direitos sociais. A linha ideológica de
fundo poderia ser resumida da seguinte forma: o carácter dirigente da
~ V~ja-se a crítica desse acórdilo em Jorge Reis Nm•ais, Os pril1cípios constituciomús estrutunmfes da
RejJiíblica Portuguem, Coimbra, ~00·~. p. 67.
I Este trabalho foi preparm.lo para um colóquio em Madrid, promovido pela Universidade Carlos
Ill, sobre Deredws econômicos, .wcialeseculturolt!.l', em B~/26 de abril de 1996. Está também publicado
em Estudo sobre direitosfimdamenflús, cit., p. 93 s.
12
constituição social não significa a optimização directa e já dos direitos so~
ciais, antes postula a graduabilidade de realização destes direitos. Gradua~
bilidade não signiFica, porém, reversibilidade social.
O problema desta posição é que ela foi rapidamente ultrapassada pela
chamada "crise do Estado Social" e pelo triunfo esmagador do globalismo
neoliberal. Em causa está não apenas a graduabilidade, mas também a
reversibilidade das posições sociais.
III- O direito é política, o direito é economia
Quase na mesma altura do trabalho anterior, iniciamos a aprofundar
as nossas dúvidas sobre o tom e o do1n do nosso discurso 5• Começou a
ganhar centralidade metódica aquilo a que chamamos paradoxia da autos~
sujiciê11cia das normas jurídico-constitucionais, sobretudo o mperdiscHrso
social em torno dos direitos fundamentais.
Tratava-se, como é óbvio, de uma proposta de leitura crítica da "consti-
tuição dirigente social". As críticas dirigidas por quadrantes culturais opostos
~pelos cultores da sociologia crítica e pelos adeptos da constituição, quadro
rebelde a programas constitucionalizados -levaram-nos a considerar que as
"políticas constitucionalizadas fecharam a comunicação com o direito respon-
srivcl expresso na criação jurídica por meio de pactos e de concertação social,
quer com o direito refle.~:ivo gerado na "rua", no "asfalto", no "emprego parale-
lo", na "economia subterrânea". Em boa medida, a socialidade constitucional
dirigente estava colocada sob a pressão de dois antinormativismos: o das so-
ciologias críticas e o dos teóricos liberais. O compromisso constitucional
possível para manter a força normativa da constituição social passava, a nosso
ver, por uma leitura mais pós-positivista da socialidade estatal.
IV- O local incerto da socialidade
Voltamos recentemente ao tema dos direitos sociais e a socialida-
de estatal6 e procuramos fazer o ponto da situação quanto à constituição
i; Cfr., precisamente, o trabalho "O tom c o dom na teoriajurfdico-constitucional dos direitos funda-
mentais", in Estudos subn direitus.fillulmnwtaú, cit., p. 115 s. O texto inicial foi lido no Colôquio ln-
ternacirmal de Direito Crm.rtitucimllll realizado em Recife (~2/~H de agosto de 1996).
r. Cfr. o trabalho de 2006, .m mws de Cmr.>tituirllo da Hejlli/Jlica: a sedimentaçllo dos direitos funda-
13
portuguesa de direitos sociais. Os tópicos que salientamos foram os
seguintes:
1) C01IIiu1tação da crítica ideológica à "carta de direitos sociais"
A carta constitucional de direitos sociais não é mais do que um con-
junto de preceitos sem determinabi\idade aplicativa, impositivos de políti-
cas públicas caracterizada pela mistura de "keynesismo económico" e de
"humanitarismo socializante".
2) C0111estação do arquétipo ant-ropológico
A dimensão estruturante da socialidade andava ligada (e ainda se
mantém) a uma coucepçüo maropolágica complexa, cujo centro é o indivíduo
como pessoa, como cidadão e como trabalhador. Esta "trindade antropoló-
gica", por mais ontologicamente radicada que seja, vê-se confrontada com
quatro deslocações contextualizadoras: (i) acentuação da dignidade da
pessoa como princípio fundante da sociedade, mas simultaneamente
dcssubstantizador da autonomia jurídico-constitucional dos direitos sociais;
(ii) desmbjectivizaçüo regulatária conducente à substituição da cidadania
social pela cidadania do consumidor; (iii) dessolidarizaçào liberal empresarial
relativLimente aos encargos sociais; e (iv) crítica da eficácia e eficiência dos
serviços públicos sociais pelas correntes económico-reguladoras da boa
govemaçüo.
Não colocaremos o discurso no plano do ideologismo, hoje obsessivo
nos quadrantes liberais que procuram um "revisionismo" sem Fronteiras de
Forma a purificar as "constituições" por meio da expulsão dos direitos eco-
nómicos, sociais e culturais. Interessa-nos mais a desconstrução do arqué-
tipo antropológico. Comecemos pela hipertrofia da dignidade da ]Jessoa
huma11a.
Aparentemente, o recurso à dignidade da pessoa humana como prin-
cípio ontoFenomenológico Fundante da dignidade social da pessoa humana
nada teria de problemático. O desenvolvimento da personalidade ancorado
na dignidade da pessoa ainda é o fundL!mento mais inquestionável das
prestações sociais a cargo do Estado. \VIas o "teste dóxico" de jurisprudên-
cia constitucional portuguesa aponta para o "esvaziamento solidarístico"
desta estratégia discursiva do Tribunal Português. O leading case é o Acór-
dão n. 509/2002 sobre o rendimento de inserção social que veio alterar o
mentais c o local incl!rto da Hocialidadc {texto inêdito), embora com leitura em Coimbra (Curso de
Direi los Humanos) c em Sllo Paulo {Curso de Direito Social).
14
anterior regime do rendimento mínimo garantido. O cerne argumentativo
do Tribunal acabou por ser o da conformidade ou não do regime legislativo
definidor do subsídio de inserção social com o princípio jurídico-constitu-
cional fundante da dignidade da pessoa humana. Este princípio postularia
sempre um agasalho prestacional assegurador de uma existência minima-
mente condigna. A dignidade da pessoa só seria afectada se o regime jurí-
dico-legislativo não garantisse os "mínimos" da dignidade. O problema é
que a estratégia discursiva do Tribunal, sob a aparente solidez da dignidade
da pessoa humana, acaba por proceder à redução eidética da socialidade,
colocando entre parênteses os direitos econômicos, sociais e culturais. Em
toda a sua radicalidade, a orientação do Tribunalconduziria a este resulta-
do desolador: não há direitos sociais autonomamente recortados, mas re-
fracções sociais da dignidade da pessoa humana aferidas pelos stcmdards
mínimos da existência.
A segunda deslocação da socialidade remete-nos para a problemática
da dessHhjectivação regulatória. De uma forma ou de outra. os figurinos do
"sen,ice p11hlique'', à francesa, e do "Daseinsvorsorge", à alemã, justificavam
a existência de serviços garantidores de cidadania social e econômica
quanto aos bens públicos essenciais. Subjacente à missão do Estado Social,
estava a ideia dos "bens sociais" (saúde, ensino, segurança, trabalho) como
bens públicos que só excepcionalmente podiam ser prosseguidos por priva-
dos. A convergência das políticas liberalizadoras (globais e europeias) e
privatizadoras juntamente com a atribuição a entidades independentes da
competência regulatória conduzem a uma rotação de 360 graus na qualifi-
cação desses bens. Agora são bens privados que só excepcionalmente devem
ser prosseguidos por serviços públicos. A socialidade estatal é um lugar
incerto. Por um lado, a ideia de serviços públicos de interesse econômico
geral é uma fórmula de manutenção do acesso a bens essenciais (energia,
água, telecomunicações) não já na qualidade de cidaclüo social, mas sim na
qualidade de 11tente ou de consumidor. É possível que, em termos de efi-
cácia e eficiência, o "novo modelo" seja mais transparente e racional, mas
não é líquido que lá onde falha o mercado o Estado Social possa ser subs-
tituído por um conglomerado de serviços privados aqui e ali sensíveis às
responsabilidades sociais. Isto nos conduz ao terceiro teste da socialidade.
Quem estiver atento às tendências políticas e econômicas neoliberais
facilmente compreenderá que o mercado de serviços tende a preencher o
espaço social em domínios tão sensíveis como hospitais, estabelecimentos
de ensino, sistemas de segurança social. A actual pressão no sentido de
transformar os serviços públicos em indústrias de sen1iços não deve neces-
15
sariamente ser remetida para o campo dos malefícios econômicos do neo-
liberalismo. Daremos dois exemplos, um relacionado ao direito à saúde e
o outro, ao direito ao ensino.
A Lei Constitucional n. 1/97 (4.!!. Revisão) acrescentou ao art. 642
(direito à saúde) em novo inciso onde se estabelece:
i\rL 64!!, n. 3 "Para assegurar o direito il saúde incumbe prioritariamente
ao Estado:
( .. )
d)- Disciplinur e fisculizar as formas empresariais c privadas da medi-
cina, articulando-as com o senriço nacional de smíde, por Forma a assegu-
rar, nas instituições de saúde públicas c privadas, mlequl/[los padnles de
ejiciê11cia e qualidade". (griro nosso)
Esse inciso consagra a expressa valorização constitucional dos padrões
de eficiência e qualidade que, além de estar em consonância com as dispo-
sições da União Europeia nas quais se estabelece como objcctivo a garantia
de um uível elevado ele protecção da saúde humana, sugere o novo contexto
do princípio ela ecoJZomicidade na prestação de senriços públicos. Ademais,
aponta para diferentes esquemas organizativos do serviço público de saúde
como gestão empresarial c regime convencional e para sistemas específicos
de monitorização c controlo dos respectivos serviços. Por sua vez, o elevado
nível de protecção pressupõe a e .. Ycelêucia e a govemação clínica ("clinicai
governance") como veículo de qualidade clínica e como instrumento de
excelência assistencial. A progressiva especificação de padrões de qualidade,
recortados em termos de gestão, regulação, procedimento e controlo, acaba
por ter incidência materialmente positiva nos direitos dos doentes (direito à
autonomia e informação, liberdade de escolha, direito à equidade no acesso,
direito a tratamento em prazo clinicamente razoável com gestão racional e
eficiente ajuste das listas de espera, direito à participação democrática dos
doentes ou associações de doentes na definição de escalas de prioridades e
sua definição de períodos de espera clinicamente aceitáveis). Devemos ter
serenidade bastante para reconhecer que a optimização dos direitos sociais
não deriva só ou primordialmente da proclamação exaustiva do texto cons-
titucional, mas da "good governance" dos recursos públicos e privados
afectados ao sistema de saúde.
O segundo exemplo relaciona-se com o direito ao ensino. O paradig-
ma constitucional português do ensino assenta na centralidade de uma rede
de estabelecimentos públicos de ensino. fvlas a ideia de rede passou a ser
interpretada por alguns sectores como rede de estabelecimentos de ensino,
16
abrangente do ensino particular e cooperativo, em que é reconhecido a
todos os estabelecimentos de ensino uma dimensão pública. O ensino é,
em todos os sectores- público, privado e cooperativo-, um sen,iço ptíH
blico. É óbvio que essa interpretação só estará em conformidade com a
Constituição se ela não implicar a neutralização do imperativo constitucio-
nal de criação da rede de estabelecimentos públicos estatais de ensino
público, pois é essa a matriz republica1la de ensino constitucionalmente
consagrado. Vale a pena, porém, aprofundar as deslocações normativas de
sentido insinuadas pelo conceito de rede, ampliada de serviço público de
ensino. Ao incorporar-se na rede, o ensino particular e cooperativo procu-
ra, directa ou indirectamente, fomentar esquemas de concorrência entre
os vários estabelecimentos de ensino à qual não é alheia a ideia de marhe-
t.iug comercial. Esta concorrência seria, de resto, um factor decisivo para
aumentar a eficiência e a rentabilidade do ensino público, pois ela permi-
tiria que os utentes directos do serviço- as famílias- se convertessem
em árbitros do mercado de emino por meio do exercício do direito à escolha
de escola. Mais do que isso, ainda. A concepção jacobina de ensino, tradu-
zida na unicidade e uniformidade da oferta escolar, seria substituída por
um sistema plural marcado pela flexibilidade do sistema ed11catiro mais apto
para a concretização do livre desenvolvimertto dos jovens (combatendo-se,
inclusive, de forma mais eficaz, os Fenômenos de abandono e de insatisfa-
ção escolar). Por último, o esquema em concorrência serviria de esteio à
própria relegitimação do sistema de ensino mediante os mecanismos de
avaliação c coJltrolo ex/emas indispensáveis à promoção de qualidade e à
eFicácia de toda a rede de estabelecimentos de ensino. É bom de ver que
o núcleo central das novas propostas se reconduz à transformação de todo
o sistema de ensino em uma empresa ed11cacioual, centrada em problemas
da utilização racional dos recursos e da gestão da qualidade. A teleologia
intrínseca da liberdade de aprender e de ensinar pela escola pública dá
lugar a uma outra compreensão finalística. O direito à escola é o direito à
aprendizagem das lcges art.is de uma profissão inserida no mercado de tra-
balho. Em termos mais analíticos, dir-se-ia que o direito à escola é (i) o
direito à obtenção de meios para estudar; (ii) o direito à aprendizagem das
leis da profissão; e (iii) o direito a resultados formativos em concorrência
com as exigências da procura e da oferta do mercado de trabalho para jovens.
O actual confronto de modelos - a ('universidade pública republicana" e
a "universidade privada livre"- demonstra, com e.xuberância, que também
nesse domínio a socialidade estatal já não é o que era, embora continuemos
fiéis à bondade da escola pública republicana, livre, igual e laica.
17
V-A "governance" do terceiro capitalismo e a
constituição social
Como o título em epígraFe, redigimos um trabalho que se destinava
a ser discutido em São Paulo em setembro de 2009. Por motivos pessoais,
não nos foi possível colocar a sua discussão no espaço público. Como ver-
-se-á, o campo da análise retoma alguns passos dos itinerários anteriores,
mas procura tambémquestionar o modelo de acção social universal insinu-
ado pela "governance" do terceiro capitalismo.
1. Colocação do problema
Em substituição do Estado Social constitucionalmente conformado
propõe-se - umas vezes de forma sub-reptícia, outras vezes em termos
abertamente frontais - que o terceiro capitalismo com a sua sociedade
aberta conduz necessariamente a um corolário lógico: a empresa privada,
a actuar no mundo global, será o único sujeito capaz de responder a um
modelo de acção social univcrsaF. A demonstração dessa tese é Feita de
diversos modos e presta-se a várias abordagens consoante a localização dos
problemas. Por uma questão de economia discursiva, partiremos aqui das
seguintes proposições:
( l) o Estado Social é o tipo de Estado que coloca entre os seus prin-
cípios Fundantes e estruturantes o princípio da socialidade;
(2) o princípio da socialidade postula o reconhecimento e a garantia
dos direitos sociais; e
(3) a garantia dos direitos sociais pressupõe uma articulação do direi-
to (de todo o direito, a começar pelo direito constitucional) com a economia
intervencionista progressivamente neutralizada pela expressão do mercado
global.
Vejamos, então, com mais pormenor, a sequência destas proposições.
Todos estaremos de acordo que o Estado Social- ou, melhor, o "modelo
social" tal como ele, de forma diversa, ganhou substância na Europa Oci-
dental- ergueu os direitos sociais a dimensão estruturante da juridicida-
de e da democracia. Por um lado, passadas que Foram as disputas sobre a
7 Cfr. o perturbador livro cle Pictro Barccllona, Lu Spa:do del/a jmlitim, Honw: Editora Hiuniti, 1993,
p. li.
18
incompatibilidade entre Estado ele Direito e Estado Social ou, se preFerir-
mos entre o princípio da juricliciclade e o princípio ela socialiclade, ganhou
relativa estabilidade a compreensão constitucional do Estado como Estado
de direito social. Por outro lado, o reconhecimento e a garantia dos direitos
sociais passaram a dimensão estruturante do próprio princípio democráti-
co. Com eFeito, a ideia de liberdade igual estrutura o princípio democrático,
dado que: (i) arranca do postulado inquestionável (desde as primeiras de-
clarações ele direito) de que os homens nascem livres e iguais em direitos;
(ii) a liberdade e a igualdade começam pela garantia dos direitos de liber-
dade, e, dentre estes, dos direitos fundamentais da pessoa humana (direi-
to à vida, à integridade física e pessoal, ao desenvolvimento da personali-
dade, à família); e (iii) a liberdade igual passa pela progressiva radicação de
uma igualdade real ou substancial entre as pessoas.
A articulação da socialidade com democraticidade torna-se, assim,
clara: só há verdadeira democracia quando todos têm iguais possibilidades
de participar no governo da polis8 • Uma democr"acia não se constrói com
Fome, miséria, ignorância, analfabetismo e exclusão. A democracia só é um
processo ou procediJJle11to jmto de pmticipação política se existir uma jusJ.iça
distributiva no plano dos bens sociais. A juridicidade, a sociabilidade e a
democracia pressupõem, assim, uma base jusfunclamental incontornável,
que começa nos direitos fundamentais da pessoa e acaba nos direitos sociais.
2. Os presmpostos económico-financeiros do Estado Social
Os direitos sociais são caros, já o dissemos. Algumas prestações in-
dispensáveis à efectivação desses direitos devem ser asseguradas pelos
poderes públicos de forma gratuita ou tendencialmcnte gratuita. Ora, o
Estado Social só pode desempenhar positivamente as suas tarefas de so-
cialidade se se verificar em quatro condições básicas:
(I) provisões Financeiras necessárias c suficientes, por parte dos cofres
públicos, o que implica um sistema fiscal eficiente e capaz de assegurar e
exercer relevante capacidade de coacção tributária;
(2) estrutura da despesa pública orientada para o financiamento dos
serviços sociais (despesa social) e para investimentos produtivos (despesa
produtiva);
11 A indissociabilidade de democracia c os direitos sociais têm sido postos em relevo por v;írios au-
tores. Citaremos apenas A. B;lldassare, Dirittidellapemuw evalori costitu::.imwli, Torino: Giappiehelli,
l!J97.
19
(3) orcamenlo público equilibrado de forma a assegurar o controlo do
déFice das despesas públicas c a evitar que um déFicc elevado tenha refle-
xos negativos na inflação e no valor da moeda; e
(4) taxa de crescimento do rendimento nacional de valor médio ou
elevado (3% pelo menos ao ano).
A verificação de todas as condições enumeradas coloca o Estado
Social em reais dificuldades. Em primeiro lugar, o modelo social subjacen-
te às premissas indicadas é, dizem alguns, um modelo dos países ricos. Em
segundo lugar, mesmo nos países ricos ela pode ser posta em causa por
vários motivos (desde o crescimento incontrolável das despesas com alguns
serviços, como o de saúde, passando pelo desequilíbrio das obras públicas
regionais e locais, e terminando na existência de défices estruturais, como
políticas de coesão econômica e territorial, como acontece com a integração
da ex-DDR na Alemanha Federal). É por isso que desde os anos 1970 se
insiste na crise fiscal do Est.ado e a partir da década de 90 do século passa-
do o tema obsidiante é o da s11stentabilidade do modelo social. As críticas ao
Estado Social e às constituições programático-sociais inserem-se neste
contexto, insistindo uma significativa parte dos políticos e economistas
inHuentes na reorientação das políticas das finanças e despesas públicas.
No banco dos réus está a célebre política do deficit. spemliug: endividamen-
to do Estado com a finalidade de Financiar a despesa pública, sobretudo a
despesa social.
3. O Estado Social como instrumento da inclusão social
A crise do Estado Social tornou-se, para muitos, um problema do
ocaso da socialidade. Nas sociedades funcionalmente diferenciadas não há
lugar para políticas de inclusão. A chamada iudividualizaçüo da sociedade
signiFica precisamente o indeclinável direito c o dever de cada indivíduo
colocar no seu plano de vida e condução da existência as responsabilidades
que lhe cabem na luta pela sobrevivência. Dito por outras palavras: o risco
da vida é também, e sobretudo, um risco individual'~. Ainda de outro modo,
cada um deve assumir um papel activo para assegurar a sua inclusão nos
novos sistemas diferenciados da sociedade10 • O problema é o de que a di-
~Vejam-se as considerações de Ulrich. Beck na sua conhecida obra sobre a sociedade tlc risco:
Risikogesellschqjl, Fran]ifurt, I D8G, p. 115.
w De uma !Orma incisiva, cfr. Bcdt/Bed\-Gernsheim (org.), Ri:;kmJte Freiheiten, Franl1furt/M, 19H+,
Jl· 12 S.
20
l
I
I
I
ferenciação funcional individualizadora conduz a uma dependência orga-
nizativa mais forte. Individualmente responsável dentro dos vários sistemas
funcionalmente diferenciados- família, trabalho, formação e qualiFicação,
transporte, saúde, consumo-, a pessoa corre sempre o risco de não ter
possibilidade de inclusão nos esquemas prestacionais dos vários sistemas 11 •
[sso tanto mais quanto é certo que a necessidade de inclusão nos sistemas
funcionais diferenciados começa muito cedo: o direito de nascer não se
exerce em casa, mas na maternidade "incluída" no sistema de saúde; o
desenvolvimento da criança não é um problema de crescer nos braços da
ama, mas de socialização nos jardins de infância "incluídos" no sistema de
ensino pré-escolar; o conhecimento e a informação começam na escola e
isto é parte integrante do sistema de ensino.
A liberdade igual é interpretada neste contexto como a igual possibi-
lidade de inclusão em um sistema social diferenciado. A realização deste
princípio de igiJaldade de iJiclmão continua a colocar o nó górdio da socia-
lidade: a inclusividade pressupõe justiça quanto às possibilidades iguais de
acesso.Como garantir esta justiça? A resposta para muitos (nos quais nos
incluímos) é a reinvenção do Estado Social. Os direitos sociais e os prin-
cípios socialmente conformadores significam, no actual contexto, a legiti-
mação de medidas públicas destinadas a garantir a inclusão do indivíduo
nos esquemas prestacionais dos sistemas sociais funcionalmente diferen-
ciados!:!.. Mesmo que este Estado Social não seja mais, hoje, do que um
simples "pendant" funcional de relações subjectivas interpessoais, ele
continua a ter a indeclinável tarefa da inclusão social politicamente pon-
derada. f'vlas como poderá o Estado Social continuar a desempenhar essa
função de inclusão em um contexto global de progressiva carência de meios
financeiros? Como alicerçar expectativas sabendo-se, à partida, que é
muito difícil preencher os pressupostos da sua realização? Na verdade,
algumas das críticas mais persistentes contra o Estado Social e a constitui-
ção dos direitos sociais reconduzem-se a esta ideia básica: eles alicerçam
expectativas normativas que não mais estão em condições de garantir. Isso
pode ilustrar-se facilmente por meio de três tópicos, hoje correntes na li-
teratura "globalizadora":
li E o prôprio Ni!das Luhmann a salientar esse problema cle inclusilo. Cfi-. Potitischen Theorie im
lfáh{fillmttwt, !viUnchcn, 1981, p. ~5.
~~Nesse sentido, di-., por último, Thorsten 1\ingreen, Da.r Srr::ialstaaL>jtrin'=i_/1 im europiiischen l'ú:fiJS-
srmgn!abmui, TUbingen, :!OO.'J, p. ~07: "a autorizaçilojurlclico-constitucional para a inclusilo clc vários
sistemas parciais sociais encontra-se no princípio do Eswclo Social".
21
1) O mercado global e a collcorrêucia
Não há pacto de estabilidade e crescimento que escape à lógica da
captação de investimentos directos, nacionais e estrangeiros. Mas o Estado
que os atrai tem de ser um Estudo garnlztido da concorrência. As empresas
privadas adaptam estratégias de deslocalização, de política de investimen-
to e de mão de obra tendentes a redução dos custos de exercício e maxi-
mização de lucros. O Estado, por sua vez, assume cumplicidade com estas
estratégias mediante a criação de infraestruturas, benefícios fiscais c legis-
lação laboral. As políticas públicas optam por encaminhar os dinheiros
públicos para grandes investimentos infraestruturantcs (aeroportos, vias
férreas, autoestradas) em vez de os desonerar para os serviços garantidores
da eFectivação de direitos sociais. Em quase todos os países assiste-se à
substituição de serviços públicos por empresas de interesse económico
geral, muitas delas privatizadas.
2) A redução dm despesas pliblicm
A redução das despesas públicas obriga a cortes orçamentais c ao
drástico emagrecimento do aparelho organizativo do Estado. Alguns, em
termos puramente ideológicos, combatem o Estado, empurrando-o para
um Estado mínimo e subsidiário. Outros salientam a lógica económica: o
equilíbrio do deficite orçamental indispensável à criação de um clima
atractivo para investimentos não é compatível com uma administração
pública herdada do "Estado máximo".
3) O calllércio elect.rónico e as tmnsacções telellláticm
O impacto sobre os cofres do Estado do incremento do comércio
clectrónico c das transacções telemáticas permite uma fuga fiscal para os
caminhos da anacionalidade intemética relativamente à qual o sistema
tributário nacional pouco pode fazer. Como se sabe, a evasão Fiscal anda
de mãos dadas, muitas vezes, com a fraude fiscal c a lavagem de dinheiro.
Além de impotente no combate às actividades ilícitas, o Estado Social vê
os seus recursos Fiscais em permanente retrocesso.
Desafios metódicos c metodológicos
à sustentabilidade normativa do Estado Social
Um jovem constitucionalista brasileiro escreveu "que não há mais
espaço para optimismo metodológico, isto é, para a crença de que o rcsul-
22
tado da interpretação constitucional depende pura e simplesmente do
método utilizado"13 • Estamos de acordo. Mas o que se exige, hoje, do juris-
ta é que, sem deixar de ser um pessimista metodológico, dê positividade à
sua retórica e abra caminhos hermenêuticas capazes de auxiliarem a ex-
trinsecação do direito constitucional. Ora, a nosso ver, a "lloresta tem ca-
minhos". É necessário descobrir os caminhos da floresta.
I -A direcção através do direito
O primeiro ponto que merece nova suspensão reflexiva relaciona-se
com o problema da ca1Jacidade de direcção do direito constitucional. Se a
"lógica dirigente" está hoje posta em causa, isso não significa que o direito
tenha dei:x:ado de se assumir como instrumento de clirecção de uma comu-
nidade juridicamente organizada. A constituição pode ter dei'\ado de ser
uma norma dirigente, mas não está demonstrado que não tenha capacidade
para ser uma Jwmw directora. lVIesmo tendo em conta as críticas dirigidas
contra o normativismo constitucional (a que atrás fizemos referência),
cremos que o direito continua a ser um instrumento fiável c incontornável
de comando em uma sociedade H. Este ponto de partida justifica, desde
logo, a clarificação do conceito de direcçüo. A simples convocação dogmá-
tica deste conceito para assumir um papel relevante na problemática me-
todológica de concretização do direito significa que não estamos em sinto-
nia com as conhecidas teorias autorrcferenciais do direito. Como se sabe,
várias abordagens teóricas têm tentado demonstrar a mudança de paradig-
mas na compreensão do direito e da estabilidade. As fórmulas linguísticas
escolhidas são sugestivas, embora nem sempre contenham rigor e:%:plicati-
vo: "direito pós-intervencionista", "direito regulatório", "direito procedural"
etc. Em comum, têm todas elas o chavão da insuFiciência, da ineficiência
e da improdutividade do direito intervencionista. A isso acrescenta-se a
chamada "décalage" regulat.iva do normativismo: a crescente discrepância
entre os fins das normas e os resultados fácticos e jurídicos. Embora isso
não seja sempre salientado, o comando normativo é também considerado
1!1 Cfr. Virgllio AfOnso da Silva, "Interpretação consritudonal e sincretismo metoclolôgico", in Vir-
gflio Afonso cln Silva (coord.), 11Jlerpretap1u cuustituciunal, Sllo Paulo, 2005, p. HS.
H Cfr., por ültimo, Dictmar Braun, Die Polifische Steuenmg der !Vissensduifl, 1D97, p. ~g s.; Gunnar
Fol\w Shuppert, "Selbstvcrwaltung, Selbststeuerung, Sc\bstorganization", in Archiv des i!ffeutlidwll
Rechts, 1 H {IHBD), p. 127; c Florian Bed!er, J\oopemtive mtd f{unmzsualeStntkfuren in der Normsel!::1111g,
TUhingcn, ~ooLi, p. IS s.
23
como um modo clecisionista de resolver problemas a partir de um signiFica-
do monocausal. Acresce que o modo normativo-intervencionista descura a
necessidade de infomwção quer no momento do impulso regulativo quer
na Fase de controlo. l\!las há mais. No que respeita às formas de interacção
entre o estado e a sociedade, subsiste a dominância da razão hierárquica,
com completa indiferença e até ignorância relativamente aos destinatários.
Não admira, assim, que em muitos sectores (incluindo o campo dos pro-
fissionais do direito) se venham acumulando imponentes Fundamentações
teoréticas e teóricas da perda de capacidade de direcção e de comando por
parte do Estado e do direito.
Embora as teorias autorreferenciais tenham obrigado a revisão (por
vezes dramática) dos esquemas de direcção do estado e do direito, enten-
demos que é possível manter tendencialmente a ideia de direcção: coman-
do dirigido à conformação, regulação, alteração intencional e finalística de
situações polít~cas, econômicas, sociais e culturais por meio dos instrumen-
tos jurídicos. A semelhança das teorias sistémicas, a direcção não deve
conceber~se como ordem autocrática do Estado soberano juridicamente
imposta, antes deve compreender esquemas múltiplos de mecanismos
accionados por vários actores sociais. É nesta perspectiva quese orienta a
análise ueoinstitucioualista centrada nos vários actores sociais e nos vários
instrumentos de direcção. O conceito de direcção é, assim, um conceito
analítico que engloba vários meios ele clirecção ao lado do direito (mercado,
finanças, organizações). Daí que seja importante salientar a centralidade
directora do direito em um Estado de direito democrático, mas não a sua
exclusividade, impondo~se mesmo a conjugação de vários instrumentos de
direcção para que sejam obtidos os fins desejados. Em segundo lugar, a
direcção pressupõe actores sociais mesmo que se reconheça - como sa~
lientam as teorias autopoiéticas - a existência de sistemas diferenciados
dotados de uma dinâmica própria 15 • Diversamente, porém, da autorrefen-
cialidade sistémica, o institucionalismo centrado nos actores depende de
urna direcçilo político~social entendida como um sistema intencional e co-
municativo de acção influenciadora da conformação de relações sociais
orientadas para o bem comum. O que é absolutamente necessário, neste
modo de ver as coisas, é dar centralidade regulativa aos sistemas de inte-
racção sociais por meio dos seus actores individuais ou colectivos. A partir
desse conceito analítico de direcção, o institucionalismo centrado nos
15 Cfr., por todos, Frit1. Sc\mrpt: bJ/emktion.~fonneu .• -Jkteur.::mtrierter Jnstitulirmali.mws i11 tler Politik-
Jorsdwng, Oph1dcn, 2000.
24
actores defende uma "nova estatalidade", uma "nova arquitectura de Esta-
do", em que se recortem novas formas institucionalizadas de cooperação e
de comHnicação entre: (i) os actores sociais mais importantes e os interes-
ses politicamente organizados; e (ii) o Estado e as organizações políticas.
li- Refracções metódico-metodológicas
Chegamos ao momento de perguntar pelo impacto praxeológico
desse esquema de direcção no campo da interpretação e da concretização
do direito directivo-consUtucional. Antes de procedermos à exemplificação
prática da metódica aplicadora, tentemos sintetizar algumas das dimensões
a ter em conta:
(1) as grandezas de referência são as instituições (sistemas) ao lado
dos esquemas tradicionais das relações jurídicas e dos mecanismos jurídi-
co-processuais e procedimentais;
(2) relevância dos novos modelos de direcção, designadamente os
modelos de mauagemeu-t- desenvolvidos pela ciência econômica no âmbito
do mercado e da economia privada (particularmente importantes para as
questões da modernização c eficiência dos mecanismos de direcção);
(3) pluralidade das regulações jurídicas, tendo, sobretudo, atenção que
a regulação dircctora pode convocar complexos normativos diversos como
o direito dos contratos, o direito da lei, o direito da constituição, o direito
europeu, o direito intemacional; c
(4) mecanismos densificadores (boas práticas, excelência de serviços,
standards) de normas de direcção constitucionais.
1. A determinação dos níveis essenciais de prest-ações sociais
Os esquemas de racionalização de prestações sociais, no âmbito dos
direitos sociais (saúde, segurança social, ensino), são o exemplo típico de
que a constituição social directora precisa de novos arrimos jurídico-dog-
máticos. A sua análise do modo como os juristas têm discutido o problema
das prestações sociais leva-nos a algumas conclusões desconsoladoras. Em
primeiro lugar, os anseios da constituição social vinculados às premissas
típicas do positivismo legalista mais não fazem do que repetir até à exaus-
tão o círculo vicioso de qualquer positivismo. Em termos simples, o círcu-
lo pode descrever-se assim: (i) as normas consagradoras dos direitos sociais,
econômicos e culturais consagram o direito à saúde, à segurança social, ao
25
ensino; (ii) logo, todos temos direitos por via da constituição a todas as
prestações da saúde, da segurança social e do ensino; e (iii) então, a polí-
tica do direito constitucionalmente conforme no campo destes direitos é a
que consagra a gratuitidade de todas as prestações reclamadas pela neces-
sidade de realização desses direitos.
Em sentido diametralmente inverso, os ideólogos liberais partem das
seguintes premissas: (i) os direitos sociais não são verdadeiros direitos,
porque não possuem a dignidade de direitos subjectivos; (ii) as normas
constitucionais consagradoras desses direitos são normas programáticas
que, em rigor, não deveriam estar no texto constitucional, pois as suas
concretizações dependem das políticas públicas dos órgãos políticos legi-
timados para desenvolvê-las; e (iii) os bens protegidos por essas normas
são, em primeira linha, bem privados, cuja protecção só excepcionalmente
deve ser confiada às entidades públicas. É bom de ver que não é por sermos
positivistas constitucionais que os direitos sociais são realizados pelos po-
deres públicos e não é por insistirmos na mão invisível que os problemas
sociais deixam de existir, e, mais do que isso, são satisfatoriamente solu-
cionados para todas as camadas da população. De qualquer modo, impõe-se
discutir o modo como se assegura a direcção jurídica- política da concre-
tização dos direitos constitucionais sociais. E já vimos que as recentes
leituras jurisprudenciais portuguesas, a pretexto de reconhecerem o "míni-
mo social" compatível com o "mínimo de dignidade", estão a reforçar indi-
rectarnente o retrocesso social do Estado. Vamos tentar uma recentração
do problema com base na ideia central de clirecção constitucional social. A
ideia do direito como instrumento de direcção ao lado de outros instrumen-
tos (financeiros, organizatórios) é, hoje, como dissemos, uma das premissas
metodológicas de institucionalismo jurídico. Essa perspectiva neoinstitu-
cionalista mantém as tradicionais categorias jurídicas e hermenêuticas mas
introduz outras valências normativas. Testemos a sua operacionalidade
prática.
a) A icleia de "11úcleo esseucial"
Trata-se de uma categoria central da dogmática jurídico-constitucio-
nal do último meio século. O recorte de um "núcleo essencial" de direitos,
liberdades e garantias perFilava-se como o último reduto de garantia contra
as leis e as medidas agressivamente restritivas desses direitos. Hoje, pare-
ce reconhecer-se que a determinação da essência de um direito não é ta-
refa fácil, sobretudo quando eles se colocam perante os juízos de balance-
amelltO de bens e direitos em caso de conflito. Por outro lado, defende-se,
em alguns trabalhos, que a sua autonomia dogmática acaba por ser residu-
26
ul, dado que se trat<:J <:Jpenas de um conceito-limite depois da operaciona-
lizaçilo hermenêutica do priucípio da jmta 111edida e da razoabilidade. Em
terceiro lugar, contesta-se a própria bondade jurídico-dogmática deste
conceito, dizendo-se que, como postulado nascido no pós-guerra, pretendia
apenas reForçar no plano geral a garantia da liberdade e dos direitos pesso-
ais. Não é este o lugar para retomar a gênese da essênci<:J das essências dos
direitos, mas damos como jurídica e constitucionalmente adquirido que o
núcleo essencial desempenha um papel relevante na garantia dos direitos.
Mas de que direitos? Este é o ponto central ela presente nota.
A doutrina do núcleo essencial Foi desenvolvida tendo em vista o regi-
me de protecção de direitos, liberdades e garantias (cl'r. art. 187" da Consti-
tuição portuguesa). Ora, o problema que se coloca é o de saber se ela não
deve ser alargada aos direitos econômicos, sociais e culturais, pelo menos em
aspectos em que eles têm uma natureza análoga aos direitos de liberdade.
Sendo assim, o prmctum salie115 da questão é este: como determinar o núcleo
essencial do direito à saúde? Como o direito à saúde implica um fei-...:e de
prestações, como determinar o nível essencial de prestações sociais?
h) Os IZÍveis esseuciais ele prestações sociais
Em recente trabalho, tentam-se Fornecer algumas pistas inovadoras
a este respeito16 • Os pontos de partida para a compreensão do chamado
Lep (Livelli essen::ial i clelle prestazioui), consagrado no art. I 172/2 da Cons-
tituição italiana (revista), parecem Formulados em um linguajar clássico:
(i) o nível essencial de uma prestação referente a um direito social con-
substancia um autêntico direito individual irrcstringível Fundado nas normas
constitucionais; (ii) a constitucionalização de um direito essencial de pres-
tação constitui uma heterodeterminação constitucional à autonomia nor-
mativa c administrativa de todos os níveis de governo, começando no go-
verno central e acabando nos governos regionais e locais; e (iii) o nível
essencial de prestação condiciona as políticas econômicas c financeiras.
No entanto, os autores sujeitam um modelo unidimensional assente na
deFinição de prestações e propõem uma aproximação multidimensional na
determinação dos níveis essenciais das prestações que tem como ponto de
partida a consideração de que as prestações transportam determinadas
dimensões consideradas esse11ciais em relação a essas mesmas prestações.
Em outras palavras que pertencem aos autores da obm: por cada prestação
1<1 ReiCrinm-nos ;i obra Jri'{fim~ e.fi!demlúmrJ, Bo\ogna, :!005, elaborada por um grupo de peritos
reunido na otssociaçilo Astrid c coordenado por L. Torchia.
27
são especificadas e pormenorizadas as dimensões que asseguram a sua
adequação. Se bem interpretamos as propostas multidimensionais, elas
pretendem conseguir aquilo que as interpretações- concretizações dou-
trinárias e jurisprudenciais clássicas - não conseguiram até agora: asse-
gurar a eFectividade da disciplina constitucional ao nível das prestações
sociais. A efectivação passa pelo recurso aos esquemas tradicionais de le-
gislação e regulação porque se considera indispensável uma lei e um regu-
lamento de execução. Aquela disciplinaria as prestações, os destinatários,
os indicadores, o sistema informativo, os recursos financeiros, as acções
estaduais de suporte, os programas de intervenção extraordinária e o remé-
dio para a inobservância de standards. O regulamento, por sua vez, devia
especificar a lista dos indicadores, individualizando, para cada um deles, o
valor objectivo que as administrações devem respeitar.
O que há de novo é a tentativa de introduzir guicle-liues de boas prá-
ticas ou de sta11dards possibilitadores de controlo e que, primariamente,
dirão respeito aos mecanismos de govemmzce c de accountability, mas que
poderão constituir também elementos de facto para a eventual jurisdicio-
nalização dos conllitos prestacionais. l\'las não é só isso: perante a incon-
tornável pressão dos custos dos serviços de saúde e consequentes políticas
de racionalização, a metodologia mais segura para a garantia dos direitos
não é a da subsunção positivista-constitucional, mas a de recortar o núcleo
duro da subjectivização dos direitos sociais1;.
c) Do direito à sazíde aos direitos dos doentes
Outra forma de dar efectividade à direcção normativo-constitucional
do direito fundamental à saúde é a de a metódica constitucional estar
atenta aos outros instrumentos ele direcção, designadamente os instrumen-
tos reguladores e a carta de direitos dos utentes. Mesmo que se aceite a
lógica sistémica da diFerenciação e autonomização de sistemas- sistemas
de saúde, sistemas de segurança social-, a direcção por meio do direito
constitucional pode concretizar-se mediante boas prâticas18 emergentes da
17 A efectivid;ldl! da regulu~~ao do Lep assenta na individualizaçilo d<Js dimensücs IHísicas: i) macro-
área de intervenção; ii) prestaçfies; iii) descrição sintética; h·) destinat<irios; v) indicadores; vi) \'alor
o~jcctivo. Exemplo: i) macroârea rh~ iulervençlio- assistência sanitária; ii) jlreslaç11o- tomografia
axial computadorizada; iii) deo~criç110 si11!iftica- utilização de aparelho de alta prcds;1o no diagnôs-
tico tu moral; h·) desti1111lârios- pessoas a quem é passada uma prcscri~~iio médica expressa para o
caso; v) iudimdores- tempo qui! ocorri! entre a prestaçilo e a e!Cl:tiva~~ilo da prestaçilo; vi) valor
olljectir.•u- até ao fim clc ~006 (:x. clias).
tH Para o conceito de boas jmílicas, cfr. Rosaleth Moss I\anter (coord.), Beo~t Jmzrtiu !wudlmok, London,
2003, p. 1: "best practicc is a simplc conccpt: measurablc standards".
28
cli 11 ical govemauce. A qualidade dos serviços de saúde- quer sob o ponto
de vista clínico quer do ponto de vista assistencial-, com a consequente
uarantia dos direitos dos utentes, sobretudo dos doentes, pode resultar da
~bservância dos padrões técnicos e humanos deFinidos em códigos de boas
práticas do que na execução hierárquica de regulamentos c procedimentos
administrativos. Não foi a exegese da constituição e o platonismo subsun-
tivo que permitiram individualizar os direitos elos H lentes (autonomia, infor-
mação, vontade previamente manifestada, liberdade de escolha, privacida-
de, acesso à informação da saúde, não discriminação e não estigmatização,
acompanhamento espiritual, primado da pessoa sobre a ciência e a socie-
dade, direito de guei'Xa e reclamação, equidade no acesso, acessibilidade
em tempo útil) 19• Se o direito constitucional quiser continuar a ser um
instrumento de direcção e, ao mesmo tempo, reclamar a indeclinável fun-
ção de ordenação material, só tem a ganhar se introduzir nos seus proce-
dimentos metódicos de concretização os esquemas reguladores e de direc-
ção oriundos de outros campos do saber (economia, teoria da regulação).
E a conclusão parece-nos clara: a governação clínica (cliuical govenwnce)
é um esquema de boas práticas concretizador do direito à saúde.
d) Direcçüo cousUt.uciOJwl e metódica de concreti:ação dos direitos sociais
A metódica de concretização por meio de instrumentos normativos e
de instrumentos reguladores de boas práticas não significa que ponhamos
de lado a metódica de concretização judicial. O que os anteriores exemplos
pretendem demonstrar é que o direito constitucional como ciência de di-
recção não pode ficar alheio a esquemas novos de concretização. E não
deb.:a de ser um bom "teste" à metodologia jurídico-constitucional a carac-
terização, em sede judicial, do nível essencial de prestações sociais.
O simples reconhecimento de um núcleo essencial de prestações
sociais, equivalente ao nlicleo essencial dos direitos, liberdades c garantias,
impõe uma revisão do canícter prestacionalmente dependente dos direitos
sociais. Isso não tanto porque não seja juridicamente correcto, mas porque,
de uma Forma ou de outra, todos os direitos- desde os direitos, liberdades
e garantias pessoais aos direitos - apresentam dimensões caracterizada-
mente regulativo-prestacionais. Lembramos tão somente o direito de aces-
so ao direito e à tutela jurisdicional efectiva, o direito de participação na vida
política (financeiramente, por exemplo, dos partidos e das campanhas elei-
torais), da liberdade de ensino da religião (com professores pagos pelo Es-
w Cfr. Hui Nunes, llegulllçlio tlil smid1~, Portu, ~005, p. H~ s.
29
tado}. Em segundo lugar, se há um núcleo essencial de prestação, então
deve colocar-se o problema da aplicabilidade directa das normas constitu-
cionais garantidoras das prestações essenciais constitutivas desse núcleo20 •
Esgrimir aqui com as tradicionais ''reservas"- "reserva de lei" constitutiva
das prestações e "reserva do possível" em termos econômicos e financeiros"
- significaria que bastaria o legislador e todos os órgãos responsáveis pela
concretização Ficarem silentes, para se negar a existência de um núcleo
essencial de prestações sociais. Afinal, a direcção da constituição, ou melhor,
da direcçüo, dos direitos sociais constitucionalmente garantidor ficaria neu-
tralizada pelas omissões legislativas e executivas. A "reserva de lei" transmu-
ta-se em inimigo dos direitos sociais que, no Fundo, são dimensõesconsti-
tutivas da igual dignidade social e da jmtiça distribut-iva.
É óbvio que os tribunais não podem ficar alheios à concretização
judicial das normas directoras da constituição social. Não pode é impor-se
à metódica constitucional a criação de presmpostos de facto e de direitos
claramente fora da sua competência ou extravazando os seus limites jurí-
dico-Funcionais. Os tribunais não podem neutralizar a liberdade de confor-
mação do legislador21 , mesmo em um sentido regressivo em épocas de
escassez e de austeridade financeira. Isso significa que a chamada tese da
"irreversibilidade de direitos sociais adquiridos" deve entender-se com ra-
zoabilidade e racionalidade, pois poderá ser necessário, adequado e pro-
porcional baixar os níveis de prestações essenciais para manter o núcleo
essencial do próprio direito sociaF2 •
e} E o que dize/Jl os juí:es quem to ao 11ível esse11cial de prestações socinis?
As jurisprudências comuns c constitucionais, ao ser confrontadas com
o "direito ao mínimo existcncial"2\ orientaram a sua estratégia hermenêu-
tica no seguinte sentido: (i) o direito ao mínimo prestacional para uma
existência condigna é um direito prestacional originário fundado em um
~o A doutrina italiana tem aprofUndado o tema em trabalhos recentes: A. Giorgis, La autitula!::ioua-
li!::!:llziolle dei diritti all'eqmtglitlll!:ll .m.r/au!:liiie, Napoli, 19DH, p. 87 s.; C. Salawr, Dal riamoscimeuto
alfa ganwda dá diritti socialt: Orientamenti e tccniche decisorie della Corte Costituzionalc italiana,
lvlilano, 1 D9U.
~~ Cfr. Virgflio Afonso da Silva, Gnmdrechte mui geul!:gelwriJdw Sj,elrilume, Badcn-Badcn, ::!OO:J, p.
JJj S.
~~ Cfr., por Ultimo, L i\•lnssa Pinto, .. Conrenuro minimo cssenziale dei diritti costituzionalc c conce-
úone espansiva della Costituzione", in Diritti Pubblim, ~001, p. 109li s.
~'1 Cfr., para o caso português, Jorge Reis Novais, Os Jm"ndjliru e.ílrulunmln, cit., p. :!91 s.; José Carlos
Vieira de Andrade, Os direitosfimdanu·nlaiJ 11/l Coustituirtio Portuguesa de 1976, !!. ed., ~001, p. :171 s.
30 l
direito fundamental da dignidade da pessoa; e (ii) os direitos, liberdades e
garantias transportam uma dimensão objectivn conducente à ressubjectivi-
zação de posições prestacionais, configurando-se, assim, eles próprios em
esquemas de garantia dos direitos sociais24 • Temos dúvidas quanto a este
ponto de partida. Em primeiro lugar, com o uso e abuso do recurso à dig-
nidade da pessoa humana (de resto sendo problemática a sua estrutura
como direito autónomo) corre-se o risco de "dessubstantivar" todos os
outros direitos, quer os de liberdade, quer os sociais. Em segundo lugar,
mesmo quando não se convoca apenas a dignidade da pessoa humana e se
apela para outros direitos e liberdades (ex.: direito à vida, direito ao desen-
volvimento de personalídade) insinua-se que há uma fwrçüo prestaciOJml.
geral inerente a todos os direitos negativos de liberdade. Em terceiro lugar,
uma jurisprudência aparentemente amiga da dignidade humana e das suas
refracções sociais pode, afinal, ser uma jurisprudência que cncapuçada-
mente se recusa a olhar de frente para o direito à igual diguidade social (e
não apenas dignidade da pessoa humana), o direito à igHaldade distributiva,
o direito ao desenvolvimento da personalidade, o direito a níveis esseuciais de
prestações sociais inerentes aos direitos sociais. O problema é, afinal, nesse
contexto o de saber se os juízes têm instrumentos metódicos e metodoló-
gicos para concretizarem a direcçüo constitucional de direitos sociais15 . O
limite que os tribunais constitucionais invocam, em geral, é o de que não
lhes pertence interferir nas políticas públicas. Resta saber se o ecological
approach da função judicial não vai entrar decisivamente na extrinsecação
dos direitos sociais. Aqui a resposta é clara: o juiz participa na política
porque desempenha um papel considerado adequado para assumir a cum-
plicidade de partilhar os valores e interesses dos grupos e indivíduos que
perante ele reivindicam direitos e posições prestacionais negadas ou blo-
queados pelos decisores político-representativos26 • Isso obrigará a desen-
volvimentos doutrinais que estão fora da economia deste trabalho.
~f Cfr. us trabalhos de \V. Neumann sobre a problcmiitica do mini mo g-.~ramido de existência a
partir da dignidade da pessoa humana: "MenschenwUrde unr.l psychischer 1\ranl\cit", in NVWZ,
1995, p. ·H~ü s.; "Sozialstaat und Grundrecht~r.logmatil\", in DT'BL, 1997, p. 92 s.
~r. A doutrina mostra-se reticente. Cff., por exemplo, C. Salazar, Dal ricrmoscimeu/o al/n ganm:::li1 dei
diritti soda!~ cit., p. 150; Wolfram Cremen, Frâheitsgrundrechte, TUbingen, eoo:J, p . .'JüO s.
~~~Veja-se este ecolo~::,riralajJjmJach em H. Jacob, "The governance of trialjudges", in Law lllul.mciety
revzi.'1lJ, .'J 1, I, p . .'J s.
31
O DIREITO DOS POBRES
NO ACTIVISMO ]UDICIARIO
]. ]. Gomes Canotilho""
Um tipo de activismo judiciário está relacionado com a "opção pelos
pobres" na ciência do direito e na actividade jurisprudencial. No plano da
ciência jurídica, um autor teve a corajosa ideia de desafiar a responsabili-
dade social dos juristas e colocou a seguinte questão: "É (será) possível uma
opção pelos pobres na ciência do direito?"
A "opção pelos pobres" exige, desde logo, um esclarecimento sobre
as premissas ou os pontos de partida. Em primeiro lugar, o que são e quais
são os pobres? Pobres são os proletários no clássico sentido marxista da luta
de classes? Pobres são os pobres de espírito no sentido bíblico? Pobres são
os excluídos da sociedade de conhecimento? Pobres são os que vivem em
"bairros" de lata? Pobres são os que vivem em países pobres? Pobres são
"os fracos e os oprimidos" desde os doentes, os perseguidos? Pobres são os
que vivem no limite de uma existência minimamente condigna? Pobres são
os beneficiários de um rendimento social de inserção? Essa catadupa de
interrogações aponta já para a indispensabilidade da clariFicação da cate-
goria nuclear subjacente ao tratamento jurídico-dogmático e dos direitos
dos pobres. A nosso ver, se a ciência do direito quiser colocar os "pobres
como sujeitos relevantes" nas construções teórico-dogmáticas, deverá,
desde logo, ultrapassar as pré-compreensões ou cosmovisões meramente
ideológicas, religiosas e econômicas. Uma opção realista pelos pobres as-
sentará em uma perspectiva inclusiva e dialógica, não devendo elimiuar
nenhuma camada de excluídos. Em segundo lugar, uma opção pelos pobres
leva a sério todas as pessoas, tendo em conta a situação concreta. Por pa-
lavras muito em voga na sociologia americana, o direito deve ter aberturas
dialógicas para os rostos, os corpos, as almas, dos que enfrentam as difi-
culdades da dor, da pobreza, do isolamento, da opressão, da ignorância
(pobres sem meios de subsistência, doentes, perseguidos, discriminados,
velhos, humilhados) 1• Em terceiro lugar, uma "opção pelos pobres" reivin-
• Profbsor Catednitko da Faculdade de Direito da Univ['rsidade clc Coimbra.
1 Cfr. Hob['rtDeinlmmmcr, 1st ['ine "Option furdie Armcn" in der Hcchtswissl'nschaft?, in Fur Rechts
mui So=ialphilosophie, D:J (!:!OOi), p. 551 s.
33
clicaria uma atitude crítica perante as desigualdades fácticas e jurídicas
existentes. As "teorias da justiça" sempre problematizaram os temas da li-
berdade e da igualdade. E se hoje se insiste na ideia de respo11sabilidade
individual pela Formação da personalidade e conduta na vida, também se
eleve ter em consideração o facto de muitas pessoas no mundo não terem
culpa de ter nascido pobres ou de ter caído na situação de ''fracos e opri-
midos" (doença, desemprego involuntário, catástrofes humanitárias). Em
quarto lugar, e esta nota é particularmente importante para os juristas, a
"opção pelos pobres" aponta para o recorte dos princípios da solidariedade
e do solidarismoe dos direitos sociais como regras jurídicas capazes de
radicar pretensões a prestações juridicamente accionáveis. Convém lembrar
que o direito, se quiser ser direito, tem de permanecer em diálogo com os
problemas mais difíceis da filosofia prática. Diríamos que as normas jurí-
dicas não são "tratados de razão pura", tão pouco servem de declarações de
amor para quem quer que seja. Seria trágico, porém, que fossem cascas
vazias de legalidade e de regulações sem qualquer fôlego de vida e de im-
pulso para a justiça social. Chegados aqui; perguntar-se-á: como credibili-
zar uma "opção pelos pobres" em termos jurídica e cientificamente susten-
tados? A resposta passa (i) por dar mais relevo a disciplinas que, de uma
forma explícita, se preocupam com a pobreza, a segurança social, a saúde
e o emprego (direito social, direito da segurança social, direito da saúde,
direito do trabalho e do emprego); (ii) analisar com serenidade reflexiva,
mas também com intencionalidade de justiça, as normas que, directa ou
indirectarnente, colocam em relevo os "fracos" nas relações jurídicas (di-
reito do trabalho, direito de arrendamento); (iii) dignificar o estatuto jurí-
dico de um número crescente de pessoas carecidas de protccção interna-
cional (estrangeiros, exilados, imigrantes ilegais); (iv) estudar as normas de
direito internacional, europeu e nacional que se destinam ã protccção da
dignidade das pessoas; (v) dirigir o sistema fiscal e a fiscalidade no sentido
de dar efectividade a uma redistribuição socialmente justa; (vi) apoiar e
dinamizar esquemas de acção positiva (afirmative actious, quotas contra
sub-representação de sexos) para neutralizar a perpetuação de excluídos e
iniciar a tendência firme de inclusão; e (vii) conferir a devida importância
aos estudos sobre direitos humanos e realçar a vinculatividade jurídica das
convenções internacionais a eles respeitantes. Além disso, no plano estri-
tamente teorético-.dogmático, promove a articulação da racionalidade e
cultura jurídicas com as teorias políticas da justiça e da ética filosófica,
alicerçando uma metodologia com partilha de transversalidadcs cognitivas
e criar os pressupostos científicos da aquisição de competências c de sa-
beres na sociedade de inovação e de conhecimento. E quanto à "opção
34
pelos pobres" no âmbito da actividade juridiciária? Essa pergunta os ma-
uistrados responderão também, na sua maioria, que a costumagem juris-
;rudencial não olha para os pobres. Talvez não seja desconhecido que um
poderoso movimento- o chamado ecologicalapproach- pretende colo-
car o problema dos pobres no âmago da sua responsabilidade constitucio-
nal e funcional. Partindo da verificação de que os poderes políticos com-
petentes para a dinamização de políticas públicas de solidariedade e de
socialidade permanecem indiferentes ou actuam em manifesta desconfor-
midade com os princípios de justiça, constitucionalmente plasmados, a
magistratura judicial assume a sua accowztability e a sua responsive1zess para
com os pobres ousando proferir sentenças de inequívoca conformação
político-social. Temos manifestado as mais sérias reticências a esse activis-
mo, por mais nobre que seja a sua intencionalidade solidária. Além de se
limitarem a sentenças casuísticas - sobretudo no âmbito de prestações
de saúde- falta-lhes legitimidade para a apreciação político-judicial das
dcsconFormidades constitucionais das políticas públicas. Neste contexto,
parecem-nos mais politicamente eficazes as manifestações públicas de
"cidadãos difíceis" contra as políticas da saúde ou contra as políticas am-
bientais do que o sistemático recurso ao Poder Judiciário. Compreendemos
a angústia do cidadão brasileiro que consegue chegar aos Tribunais, in-
cluindo o Supremo Tribunal Federal, reclamando "o mandado judicial para
Fornecimento de 'Viagra' em nome da dignidade da pessoa humana", mas,
por enquanto, a prudência jurisprudencial não tem legitimidade para se
transFormar em instância com pensadora de disFunções humanas e sociais,
como se de órgãos politicamente responsáveis se tratasse. fVlais uma vez,
as normas jurídicas não são declarações de amor.
35
r A RELAÇÃO 1-IOMOAFETIVA
E O DIREITO DE SEGURIDADE
SOCIAL- UMA LEITURA
A PARTIR DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS
Érica Paula Barcha Correia*
Introdução
O presente estudo tem como objeto o tratamento dado pelo Sistema
de Seguridade Social aos companheiros homossexuais para fins de conces-
são de benefícios previdenciários, tais quais a pensão por morte, o auxílio-
-reclusão e o salário-maternidade, e das prestações de saúde.
Embora tais relações sejam cada vez mais considemdas como união
est;ivel, há uma lacuna a ser preenchida, em termos de rcgubmentação,
em nosso ordenamento jurídico.
Assim, a partir de uma análise constitucional, passamos ao estudo do
tema.
I -A proteção jurídica à relação homoafetiva à luz da
Constituicão Federal ,
A Constituição Federal de 1988, cunhada como Carta Cidadã, trou-
xe para o seu bojo dispositivos hábeis à promoção do bem-estar social, e
declara como um de seus fundamentos a proteção à dignidade da pessoa
humana (art. I", lll).
Conjugando~se o dispositivo constitucional acima mencionado com
o que dispõe o art. 52 do mesmo diploma legal, temos que todos são iguais
perante a lei, proibindo~se a discriminação em razão do sexo.
"Mestre c Doutora em direito prcvidenci1írio pela PUCSP, c autora de obras na área. Diretora da
Escola Paulista de Direito Social. Professora em cursos de pôs~graduação em Direito.
37
1. O direito como reg21lador das relações sociais- necessidade
ele dina·mismo e evol.Hção -a parceria civil entre pessoas do
·mesmo sexo
Sabemos que o direito vem para regular as relações sociais. Para isso,
ele deve ser dinâmico e estar em constante evolução, sob pena de deixar
sem regulação e à sua margem questões decorrentes da mutação das rela-
ções entre as pessoas que vivem n<J sociedade moderna.
Destacamos, aqui, a mudança sofrida no conceito de família, que, ao
longo dos anos, deixou de ser aquela figura clássica, composta pelo pai,
pela mãe e os Filhos.
No capítulo destinado à proteção da família, a Constituição Federal,
em seu art. 226, reconhece como entidade familiar não só a família clás-
sica, formada a partir do casamento, como também a família monoparental
(constituída pelo pai ou pela mãe e seus Filhos) e a união estável, Formada
pela parceria entre duas pessoas. Neste diapasão, o dispositivo não deter-
mina como deverá ser a sua composição, limitando-se à união entre duas
pessoas, não mencionando o sexo de cada uma delas.
Entretanto, o interesse do presente estudo está na chamada parceria
civil entre pessoas do mesmo se.xo que, embora não reconhecida por expressa
disposição leg<~l, faz parte da evolução das relações humanas em sociedade.
A despeito da ausência de regulamentação legal, o Poder Judiciário
vem reconhecendo tais relações como união estável, a Fim de cumprir o
comando constitucional do art. 2261 no tocante à preservação da entidade
Familiar'.
2. O princípio constit21cional da igllaldacle- proibição
constitucional de discrintinação e·m razão do sexo- adoção
de igual tratamento por parte ela Administração Pública
Reza o nosso texto constitucion<Jl que todos são iguais perante a lei e
1 CF/HH: ·~A.rt. 226. A lilmíli<J, base Ja sncieJade, tem especinl prute~·fio do Eslndn".
~'!\pesar da omisslio du legislatlnr o Judici;írin \'~m se mostrando sensfvel a essas mudanças. O compro-
misso de fazer justi~11 tem lev;Jdo a uma percepçilo mais a[enta das relações de fiunOin. As uniões t.le pes-
soas do mesmo sexo vêm sendo recnnhecidns corno uniões est<íveis. Passou-se a prestigiar a pmernit.lade
afetiYa como elemento identilk:Jdor da li!iaç;1o e <1 adoçfio por flnnllias homoafetiYas se mullip!ir:mt. Por
DIAS, !vlaria Berenice."Famllia nornwl?" Rt.'TJÚ/<tJurútas,.lono Pessoa, n. H::!, a. 111, 19-9-~000. Disponfvd
em: <hltp:/ /wwwjuristas.combr/mod_rcvist;Js.a~p?ic=:J:J:J.'l>. Aces~o em: :1 abr. ~OOH.
38
que brasileiros e estrangeiros residentes em nosso país n8o sofrerão discri-
minação de qualquer nuturcza3•
Por outro lado, um dos objetivos fundamentais da Hepública Federa-
tiva do Brasil é a promoção do bem-estar de todos, sem preconceitos,
dentre outros, em razão do sexo4•
Mencionada disposição constitucional carrega em seu bojo detcrmi-
naç8o de que homens e mulheres são iguais pemntc a lei.
Desse modo, partindo da premissa de que o direito é dinâmico e está
para regular as relações sociais, deve ser prestigiada a opção sexual do ci-
dudão, para fins de constituição de entidade familiar c consequentes refle-
xos, em nosso caso, no direito de seguridade social.
Como corolário do princípio da igualdade, insere-se a proibição cons-
titucional de discriminação em razão do sexo, não limitada tal valoração à
mera distinção entre homens e mulheres.
Entendemos, portanto, que não pode haver discriminação em mzão
do sexo, seja o cidadão homossexual, transexual ou não, sob pena de má-
cula aos princípios constitucionais da igualdade c da proteção à dignidade
da pessoa humana.
Destarte, uma vez constituída a sociedade civil entre pessoas do
mesmo sexo (até que sobrevenha a legislação para expressamente reconhe-
cer c autorizar essa união), o( a) companhciro(a) homossexual em tais rela-
ções deve ser considerado(a) como dependente econômico presumido do( a)
segurado( a) falecido( a) ou rccluso(a).
Pelo princípio da igualdade, deve a autarquia previdenciária tratar de
forma igual todos os dependentes de segurados, sob pena de discriminação
em razão do sexo.
Entender de forma contrária seria atentar contra a proteção consti-
tucional à dignidade humana c liberdade constitucional de escolha de sexo,
concebida como direito fundamental ao desenvolvimento de personalidade.
5 CF /88: "Art. 5~ Todos sao iguais perante n lei, sem distinçao de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e OlOS estrangeiros residentes no Pafs a inviolabilidade do direito i1 vida, à liberdade,
;i igualdade, ;i ~egurança c ;i propriedade ...
XLI- a lei punirã qualquer discrirniml\~ao atentatória dos direitos e liberdades fimdamcntais'·.
'CF/8H: ':Art.~~~ Constituem objetivos fundamentais da Rcpltblica Federativa do Brasil:( ... )
IV- promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, ra\·a, sexo, cor, idndc c quaisquer
outras formas de discriminação ...
39
3. A proteção especial do Estado à família e o reconhecimento,
para fins previdenciários, de ttnião estável entre lzoHzossexuais
Como anteriormente mencionado, o ordenamento jurídico brasileiro
ainda não se adaptou às mudanças sociais ocorridas, como as que resultam
na formação de novos modelos de entidade familiar.
Entretanto, com base no disposto no art. 226, caput, e seu § 3!!., da
Constituição Federal, o Estado não pode, sob pena de discriminação, dei-
xar à margem de sua proteção a união entre pessoas do mesmo sexo com
o fim de constituir família.
I!-A proteção do sistema de seguridade social em casos
de união homoafetiva
1. O direito à Previdência Social como direito fundamental
Heza o art. 62 da CF/88 que dentre os direitos sociais jnclui-se o di-
reito à Previdência Social. Como anteriormente consignado\ os direitos
sociais também são direitos fundamentais, tendo em vista que se encontram,
na Constituição Federal, no mesmo Título II, que trata dos direitos e ga-
rantias fundamentais.
Nos termos do art. 20 I da Carta Magna, a Previdência Social atende-
rá à cobertura de contingências geradoras de necessidade decorrentes,
dentre outras, da morte, cabendo aos dependentes do(a) segurado(a)
falecido( a) o recebimento de pensão previdenciária e o auxílio-reclusão para
os dependentes do( a) segurado(a) recluso( a) e a proteção à maternidade.
1.1. A Previdência Social no plano infraconstitucional
-Lei n. 8.213/91
Com o advento da Lei n. 8.213/91, que dispôs sobre o Plano de Be-
nefícios da Previdência Social, há o reconhecimento do( a) companheiro( a)
como dependente presumido do( a) scgurado(a).
No direito previdenciário nota-se a mesma ausência de disciplina
legal apta a amparar o( a) companheiro(a) homossexual.
"CORREIA, Marcus; CORREIA, Êrica. Curso tle direüo da seguric/IJ(/e .wczid. ·L ed. São Paulo: Sarai-
va, :mos.
40
Todavia, a disposição contida no art. I 6 da Lei n. 8.2 I 3/91, que trata
dos dependentes presumidos do( a) segurado( a), ao admitir em seu rol de
dependentes presumidos o( a) companheiro(a), de certa forma, não exclui
05 homossexuais.
Cabe ressaltar que o mencionado dispositivo legal, ao tratar clo(a)
companheiro( a), não exige que o dependente seja exclusivamente oriundo
de uma relação heterossexual, o que dá ao intérprete a possibilidade de
concessão do beneFício de pensão por morte ou auxílio-reclusão, a partir do
Fato de que a lei se refere tão somente ao(à) companheiro(a). Inclui-se,
portanto, o(a) companheiro(a) homossexual.
1.2. A Instrução Normativa n. 25/2000 do INSS e a
dificuldade prática de sua aplicação
Por força da decisão exarada em ação civil pública, que tramitou na 3!!
Vara Previdenciária de Porto Alegre/RS, o INSS editou a Instrução Norma-
tiva n. 25/2000 para regulamentar a concessão dos benefícios de pensão por
morte a auxílio-reclusão ao( à) companheiro( a) homossexual.
1bdavia, na prática, o que se nota por parte da autarquia previdenci-
ária é a reiterada negativa de concessão de benefícios previdenciários em
casos de união homoafetiva sob o fundamento de ausência de prova de
dependência econômica.
Por meio de tais justificativas, o INSS, para não discriminar em razão
do sexo, incorre em outra prática, também de exclusão, pois acaba por
desconstitucionalizar direito social (cf. art. 6" da CF) do dependente à
Previdência Social, direito este fundamental.
Diante de tais práticas da Administração Pública, a esse cidadão outra
opção não há que socorrer-se do Poder Judiciário, o qual, consoante grande
parte de suas decisões, tem resgatado a cidadania e conferido a dignidade
humana no trato da Administração Pública com seus administrados.
Nesse sentido, confira acórdão do STJ abaixo transcrito:
"RECURSO ESPECIAL N. 395.904-RS (2001/0189742-2)
RELATOR: MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA
RECORRENTE: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL
-INSS
PROCURADOR: CARLOS DOS SANTOS DOYLE E OUTROS
RECORRIDO: VITOR HUGO NALÉRIO DULOR
41
ADVOGADO: FRANCISCO DA ROSA MALACÃO E OUTROS
RECORRIDO: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
EMENTA
RECURSO ESPECIAL. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO
POR MOlHE. RELACIONAMENTO 1-IOMOAFETIVO. POSSIBILI-
DADE DE CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. MINISTÉRIO PÚBLICO.
PARTE LECÍTIMA.
I -A teor do disposto no art. 127 da Constituição Federal, 'O Mi-
nistério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional
do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime demo-
crático de direito e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.' fll
casu, ocorre reinvindicação de pessoa, em prol de tratamento igualitário
quanto a direitos fundamentais, o que induz à legitimidade da Ministério
Público, para intervir no processo, como o Fez. 2- No tocante à violação
ao artigo 535 do Código de Processo Civil, uma vez admitida a intervenção
ministerial, quadra assinalar que o acórdão embargado não possui vício
algum a ser sanado por meio de embargos de declaração; os embargos in-
terpostos, em verdade, sutilmente se aprestam a rediscutir questões apre-
ciadas no v. acórdão; não cabendo, todavia, redecidir, nessa trilha, quando
é da índole do recurso apenas reexprimir, no dizer peculiar de PONTES
DE lVIIHANDA, que a jurisprudência consagra,arredando, sistematica-
mente, embargos declaratórios, com feição, mesmo dissimulada, de infrin-
gentes. 3 -A pensão por morte é: 'o benefício previdenciário devido ao
conjunto dos dependentes do segurado Falecido - a chamada família
previdenciária- no exercício de sua atividade ou não (neste caso, desde
que mantida a qualidade de segurado), ou, ainda, quando ele já se encon-
trava em percepção de aposentadoria. O benefício é uma prestação previ-
denciária continuada, de caráter substitutivo, destinado a suprir, ou pelo
menos a minimizar a falta daqueles que proviam as necessidades econômi-
cas dos dependentes.' (Rocha, Daniel Machado da. Comentários à lei de
benefícios da previdência sociai/Daniel Machado da Rocha, José Paulo
Baltazar Júnior. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora: Esmafe,
2004. p. 25 1). 4 - Em que pesem as alegações do recorrente quanto à
violação do art. 226, § 32 , da Constituição Federal, convém mencionar que
a ofensa a artigo da Constituição Federal não pode ser analisada por este
Sodalício, na medida em que tal mister é atribuição exclusiva do Pretória
Excelso. Somente por amor ao debate, porém, de tal preceito não depende,
obrigatoriamente, o desate da lide, eis que não diz respeito ao âmbito pre-
videnciário, inserindo-se no capítulo 'Da Família'. Face a essa visualização,
42
a aplicação do direito à espécie se fará à luz de diversos preceitos consti-
tucionais, não apenas do art. 226, § 32 , da Constituição Federal, levando
a que, em seguida, se possa aplicar o direito ao caso em análise. 5- Dian-
te do§ 3" do art. 16 da Lei n. 8.213/91, verifica-se que o que o legislador
pretendeu Foi, em verdade, ali gizar o conceito de entidade familiar, a par-
tir do modelo da união estável, com vista ao direito previdenciário, sem
exclusão, porém, da relação homoafetiva. 6- Por ser a pensão por morte
um beneFício previdenciário, que visa suprir as necessidades básicas dos
dependentes do segurado, no sentido de lhes assegurar a subsistência, há
que interpretar os respectivos preceitos partindo da própria Carta Política
de 1988 que, assim estabeleceu, em comando específico: 'Art. 20 l. Os
planos de previdência social, mediante contribuição, atenderão, nos termos
da lei, a: ( ... ) V- pensão por morte de segurado, homem ou mulher, ao
cônjuge ou companheiro e dependentes, obedecido o disposto no § 22 '. 7
-Não houve, pois, de parte do constituinte, exclusão dos relacionamentos
homoafetivos, com vista à produção de efeitos no campo do direito previ-
denciário, configurando-se mera lacuna, que deverá ser preenchida a
partir de outras fontes do direito. 8- Outrossim, o próprio INSS, tratan-
do da matéria, regulou, através da Instrução Normativa n. 25 de 07-06-2000,
os procedimentos com vista à concessão de benefício ao companheiro ou
companheira homossexual, para atender a determinação judicial expedi-
da pela juíza Simone Barbasin Fortes, da Terceira Vara Previdenciária de
Porto Alegre, ao deferir medida liminar na Ação Civil Pública
n. 2000.71.00.009347-0, com eficácia erga amues. Mais do que razoável,
pois, estender-se tal orientação, para alcançar situações idênticas, merece-
doras do mesmo tratamento. 9- Recurso Especial não provido".
1.3. A concessão do benefício previdenciário salário-
-maternidade para o segurado adotante
São direitos sociais c, portanto, fundamentais o direito à saúde, à
previdência c à assistência social, e a proteção à maternidade e à infânciatí.
No contexto da proteção constitucional dada à maternidade e à in-
fância, destacamos os casos de adoção por segurado, na condição de homem
solteiro ou integrante de casal homossexual masculino.
H'"Art. G2 Silo direitos sociais a eúucaçilo, a saüdc, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a pr<-"-
vidência social, a proteçno à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na fOrma
desta Constituiçilo. (Redaçilo dada pela Emenda Constitucional n. 26, de 2000}".
43
Muitos são os casos de adoção por pessoas do sexo masculino e que,
embora segurados do sistema previdenciário, não são beneficiários da li-
cença-maternidade, tendo em vista que a disposição contida na lei de be-
neFícios da previdência social (Lei n. 8.213/91) remete-se, exclusivamente,
à figura feminina, conforme disposições abaixo transcritas:
"Art. 71. O salário-maternidade é devido à segurada da Previdência
Social, durante 120 (cento e vinte) dias, com início no período entre 28
(vinte e oito) dias antes do parto e a data de ocorrência deste, observadas
as situações e condições previstas na legislação no que concerne à proteção
à maternidade. (Redação dada pala Lei n. 10.710, de 5-8-2003)".
e
"Art. 71-A. À segurada da Previdência Social que adotar ou obtiver
guarda judicial para fins de adoção de criança é devido salário-maternidade
pelo período de 120 (cento e vinte} dias, se a criança tiver até 1 (um) ano
de idade, de 60 (sessenta) dias, se a criança tiver entre I (um) e 4 (quatro)
anos de idade, e de 30 (trinta) dias, se a criança tiver de 4 (quatro) a 8 (oito)
anos de idade. (Incluído pela Lei n. I 0.421, de 15-4-2002)".
Entretanto, o texto constitucional em seu art. 20 l, I, prescreve que
o sistema de previdência social deve proteger a maternidade (o que inclui
a relação entre a criança adotada e o segurado adotante}, não importando
qual o sexo, se feminino ou masculino, da pessoa que adota.
Nesse contexto, o Tribunal Regional do Trabalho da 15" Região, em
Campinas, concedeu licença-maternidade de três meses a um funcionário
-pai solteiro- que adotou um recém-nascido. Ele obteve o mesmo di-
reito que uma mãe adotiva no serviço público conseguiria;.
7 "Justiça d~i licença-adoção por 90 dias a pai solteiro; decisão nbre precedente jurídico Publicidade
da Agência Brasil.
O CSJT (Conselho Superior da .Justiçn do Trnbalho) reconheceu o direito à licença de HO dias pela
udoçilo de uma criança ao servidor da Justiça do Trabalho Gilberto Semensato. De acordo com o
udvogado do Sindicato dos Servidores Püblicos Federais da Justiça do Trabalho da 15! !legião,
Mário Trigilho, o exemplo servirá como precedente para outros casos. A deciso1o fOi divulgada na
Ultima sexta-feira (~7).
'A decisão foi normativa, abrangendo todos os servidores do TfiT e represenl~mdo um precedente
para outros cnsos semelhantes. Prevaleceu o bom-senso e a proteção à crian~~a. O adotante será pai
e mãe da criança. Nada mais justo', nfirmou o advogado.
A Juta de Sernensato dura llUase um ano. Em março de ~008, após adotar uma criança, de quatro
meses, ele pediu ao Tribunal Regional do Trabalho, da 15~ Região de Campinas, o direito a trCs
meses de licença. A Lei 8,112 concede o beneficio somente às servidoras e não aos homens. 'A deci-
são abre uma discussão para a atualizuçllo da~ leis na sociedade moderna, para um novo conceito de
famm~l. Espero que estimule mais homens a fazer a adoção', afirmou Semeosato.
O artigo 208 da lei, que rege o funcionalismo pUblico federal, prevê que exclusivamente as mulheres
tenham direito a três meses para adoção de crianças até um ano e de um mês com mais de um ano.
44
Desse modo, desde que segurado da Previdência Social, na condição
de companheiro em união estável de pessoas do mesmo sexo, no caso em
tela, do sexo masculino, em nome do princípio da igualdade e da proteção
constitucional à maternidade, tem o segurado direito ao pagamento do
salário-maternidade. Entendimento diverso incorreria em ofensa ao sobre-
princípio da dignidade da pessoa humana ao ferir o disposto no art. 6.!!. do
texto constitucional que garante ao cidadão, dentre outros direitos sociais,
agasalhados pelo manto da cláusula pétrea, o direito à previdência social e
a proteção à maternidade.
2. O direito à saúde como direito fundamental.
O direito constitucional à saúde tem previsão nos arts. 196 a 200 de
nossaCarta Magna. O acesso às ações e aos serviços destinados à promo-
ção, proteção e recuperação da saúde é universal e igualitário, sendo direi-
to de todos e dever do Estado8 •
Dessa forma, independentemente de contribuição para o sistema,
denominado SUS (Sistema Único de Saúde) pela CF 88, todo cidadão em
território brasileiro tem direito às prestações de saúde.
Paralelamente aos serviços prestados pelo SUS, há autorização cons-
titucional para que empresas privadas ofertem serviços privados de saúde,
mediante adesão dos interessados aos planos de saúde9 •
Sendo assim, em nome do princípio da igualdade e da liberdade e do
princípio da universalidade que rege o sistema de saúde, não pode haver
recusa no atendimento em razão da orientação sexual do usuário do SUS
Foi com base nesta lei que o então presidente do TRT de Campinas, juiz Luiz Carlos de Araújo,
negou administrativnmentc a licl!nça no primt!iro pt!dido, em 200/l. St!ml!nsalo, na ocasião, recorreu
;10 Tribunal Pleno que acollwu o pedido com I .'i votos favoráveis I! quatro contrários. O presidente
então recorreu ao CS.IT e pediu efeito suspensivo até que o recurso fOsse decidido. O qui! ocorreu,
por unanimidade de votos, em março dt! 200H.
O relator do procl!sso, conselheiro do CSJT, Carlos Albt!rto Reis de Paula, reconheceu o direito com
b;Jse no ECA (Estatuto da Criança c do Adolescente) e na Constituição Federal, que garantem 1l
criança ter um perfodo de adaptação à nova famllia"'.
H Conforme o arL 196 da CF: 'f\ saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
polfticns sociais c econômicas que vismn à redução do risco de doença c de outros agravos e ao
acesso univl!rsal e igualit1irio iis ilçües e serviços para sua promo~~iio, protc~~ão e recuperação".
9Cf: '1\rt. 197. São de rt!levfmcia pública as ações c serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor,
nos termos da lei, sobre sua regulanwntaçilo, fiscalização c controle, devendo sua execução ser !Ciw
diretmncme ou 11través de terceiros e, tamb~m. por pessoa fisica oujurfdica de direito privado"'.
45
e da plano de saúde, sob pena de ofensa ao princípio vetor de proteção à
dignidade da pessoa humana.
Não obstante, a discriminação em função de orientação sexual tem
sido objeto de ações judiciais visando a reparação e a aplicação das normas
e princípios constitucionais violados.
O primeiro caso que relatamos diz respeito à recusa de plano de
saúde em incluir como dependente companheiro de união estável entre
pessoas do mesmo sexo. O TRF da 4!!. Região julgou a favor do autor, de-
terminando à empresa de saúde a inclusão do companheiro como depen-
dente e beneficiário do plano de saúde.
Neste sentido, confira a decisão mencionada:
"EMENTA: ( ... )UNIÃO ESTÁVEL ENTRE PESSOAS DOMES-
MO SEXO. RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. VEDAÇÃO
DO § 32 DO ART. 226, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INCLUSÃO
COMO DEPENDENTE EM PLANO DE SAÚDE. VIABILIDADE.
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA LIBERDADE, DA IGUALDA-
DE, E DA DIGNIDADE HUMANA. ART. 273 DO CPC. EFETIVIDADE
À DECISÃO JUDICIAL. CAUÇÃO. DISPENSA.
( ... )
6. A recusa das rés em incluir o segundo autor como dependente do
primeiro, no plano de saúde PAMS e na FUNCEF, foi motivada pela
orientação sexual dos demandantes, atitude que viola o princípio constitu-
cional da igualdade que proíbe discriminação sexual. Inaceitável o argu-
mento de gue haveria tratamento igualitário para todos os homosse.xuais
(femininos e masculinos), pois isso apenas reforça o caráter discriminatório
da recusa. A discriminação não pode ser justiFicada apontando-se outra
discriminação.
7. Injustificável a recusa das rés, ainda, se for considerado que os
contratos de seguro-saúde desempenham um importante papel na área
econômica e social, permitindo o acesso dos indivíduos a vádos benefícios.
Portanto, nessa área, os contratos devem merecer interpretação que res-
guarde os direitos constitucionalmente assegurados, sob pena de restar
inviabilizada a sua função social e econômica.
8. No caso em análise, estão preenchidos os requisitos exigidos pela
lei para a percepção do benefício pretendido: vida em comum, laços aFeti-
vos, divisão de despesas. Ademais, não há que se alegar a ausência de
previsão legislativa, pois antes mesmo de serem regulamentadas as relações
concubinárias, já eram concedidos alguns direitos à companheira, nas re-
46
\ações heterossexuais. Trata-se da evolução do Direito, que, passo a passo,
valorizou a afetividade humana abrandando os preconceitos e as formali-
dades sociais c legais.
9. Descabida a alegação da CEF no sentido de que aceitar o autor como
dependente de seu companheiro seria violar o princípio da legalidade, pois
esse princípio, hoje, não é mais tido como simples submissão a regras nor-
mativas, e sim sujeição ao ordenamento jurídico como um todo; portanto, a
doutrina moderna o concebe sob a denominação de princípio da juridicidade.
1 O. Havendo comprovada necessidade de dar-se imediato cumpri-
mento à decisão judicial, justifica-se a concessão de tutela antecipada,
principalmente quando há reexame necessário ou quando há recurso com
efeito suspensivo. Preenchidos os requisitos para a concessão da medida
antecipatória, autoriza-se o imediato cumprimento da decisão. No caso em
análise, estão presentes ambos os requisitos: a verossimilhança é verificada
pelos próprios fundamentos da decisão; o risco de dano de difícil reparação
está caracterizado pelo fato de que os autores, portadores do vírus HIV, já
começam a desenvolver algumas das chamadas 'doenças oportunistas',
sendo evidente a necessidade de usufruírem dos benefícios do plano de
saúde. Ademais, para os autores o tempo é crucial, mais do que nunca, o
viver e o lutar por suas vidas. O Estado, ao monopolizar o poder jurisdicio-
nal, deve oferecer às partes uma solução expedita c eficaz, deve impulsio-
nar a sua atividade, ter mecanismos processuais adequados, para que seja
garantida a utilidade da prestação jurisdicional" (Des. Relatora: lvlarga Inge
Barth Tessler, AC 96.04.55333-0/RS, THF4, Terceira Turma, data da de-
cisão: 20-8-1998, publicada no D], 24-11-1998, p. 585).
No tocante às prestações pertinentes ao SUS, entendemos oportuno
mencionar decisão que detennina à União a inclusão na tabela de proce-
dimentos remunerados pelo SUS de cirurgias de readequação de sexo aos
transexuais.
"APELAÇÃO CÍVEL N. 2001.71.00.026279-9/HS
HELATOR: Juiz Federal ROGER HAUPP RIOS
APELANTE: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
APELADO: UNIÃO FEDERAL
ADVOGADO: Luis Antonio Alcoba de Freitas
EMENTA
DIREITO CONSTITUCIONAL. TRANSEXUAL!Sfv!O. INCLU-
SÃO NA TABELA SIH-SUS DE PROCEDIMENTOS MÉDICOS DE
47
TRANSGENITAUZACÃO. PRINCÍPIO DA IGUALDADE E PROIBI-
ÇÃO DE DISCR!iVIINAÇÃO POR MOTIVO DE SEXO. DISCR!iVll-
NAÇÃO POR MOTIVO DE GÊNERO. DIREITOS FUNDAMENTAIS
DE LIBERDADE, LIVRE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDA-
DE, PRIVACIDADE E RESPEITO À DIGNIDADE HUMANA. DIREI-
TO À SAÚDE. FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO.
1 -A exclusão da lista de procedimentos médicos custeados pelo
Sistema Único de Saúde das cirurgias de transgenitalização e dos procedi-
mentos complementares, em desfavor de transexuais, configura discrimi-
nação proibida constitucionalmente, além de ofender os direitos funda-
mentais de liberdade, livre desenvolvimento da personalidade, privacidade,
proteção à dignidade humana e saúde.
2 -A proibição constitucional de discriminação por motivo de sexo
protege heterossexuais, homossexuais, transexuais e travestis, sempre que
a sexualidade seja o fator decisivo para a imposição de tratamentos desfa-
voráveis.
3 -A proibição de discriminação por motivo de sexo compreende,
além da proteção contra tratamentos desfavoráveis fundados na distinção
biológica entre homens e mulheres, proteção diante de tratamentos desfa-
voráveis decorrentes dogênero, relativos ao papel social, à imagem e às
percepções culturais que se referem à masculinidade e à feminilidade.
4- O princípio da igualdade impõe a adoção de mesmo tratamento
aos destinatários das medidas estatais, a menos que razões suficientes exijam
diversidade de tratamento, recaindo o ônus argumcntativo sobre o cabimen-
to da diferenciação. Não há justificativa para tratamento desfavorável a
transexuais quanto ao custeio pelo SUS das cirurgias de neocolpovulvoplas-
tia c neofaloplastia, pois (a) trata-se de prestações de saúde adequadas c
necessárias para o tratamento médico do transe.xualismo e (b) não se pode
justificar uma discriminação sexual (contra transcxuais masculinos) com a
invocação de outra discriminação sexual (contra transexuais femininos).
5 - O direito Fundamental de liberdade, diretamente relacionado
com os direitos fundamentais ao livre desenvolvimento da personalidade e
de privacidade, concebendo os indivíduos como sujeitos de direito ao invés
de objetos de regulação alheia, protege a sexualidade como esfera da vida
individual livre da interferência de terceiros, afastando imposições indevi-
das sobre transexuais, mulheres, homossexuais e travestis.
6- A norma de direito fundamental que consagra a proteção à dig-
nidade humana requer a consideração do ser humano como um fim em si
48
mesmo, ao invés de meio para a realização de fins e de valores que lhe são
externos e impostos por terceiros; são inconstitucionais, portanto, visões
de mundo heterônomas, que imponham aos transe.xuais limites e restrições
indevidas, com repercussão no acesso a procedimentos médicos.
7-A força normativa da Constituição, enquanto princípio de inter-
pretação, requer que a concretização dos direitos fundamentais empreste
a maior força normativa possível a todos os direitos simultaneamente, pelo
que a compreensão do direito à saúde deve ser informada pelo conteúdo
dos diversos direitos fundamentais relevantes para o caso.
8 - O direito à saúde é direito fundamental, dotado de eFicácia e
aplicabilidade imediatas, apto a produzir direitos e deveres nas relações dos
poderes públicos entre si e diante dos cidadãos, superada a noção de nor-
ma meramente programática, sob pena de esvaziamento do caráter norma-
tivo da Constituição.
9- A doutrina e a jurisprudência constitucionais contemporâneas
admitem a eficácia direta da norma constitucional que assegura o direito
à saúde, ao menos quando as prestações são de grande importância para
seus titulares e inexiste risco de dano financeiro grave, o que inclui o di-
reito à assistência médica vital, que prevalece, em princípio, inclusive
quando ponderado em face de outros princípios e bens jurídicos.
10 -A inclusão dos procedimentos médicos relativos ao transexua-
lismo, dentre aqueles previstos na Tabela SIH-SUS, configura correção
judicial diante de discriminação lesiva aos direitos fundamentais de tran-
sexuais, uma vez que tais prestações já estão contempladas pelo sistema
público de saúde.
11- Hipótese que configura proteção de direito fundamental à
saúde derivado, uma vez que a atuação judicial elimina discriminação in-
devida que impede o acesso igualitário ao serviço público.
12-As cirurgias de transgenitalização não configuram ilícito penal,
cuidando-se de típicas prestações de saúde, sem caráter mutilador.
13 -As cirurgias de transgenitalização recomendadas para o trata-
mento do transexualismo não são procedimentos de caráter e~verimental,
conforme atestam Comitês de Ética em Pesquisa Médica e manifestam
Resoluções do Conselho Federal de Medicina.
14-A limitação da reserva do possível não se aplica ao caso, tendo
em vista a previsão destes procedimentos na Tabela SIH-SUS vigente e o
muito reduzido quantitativo de intervenções requeridas.
49
14- Precedentes do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Regio-
nal Federal da 4" Região, da Corte Europeia de Justiça, do Tribunal Euro-
peu de Direitos Humanos, da Suprema Corte dos Estados Unidos, da
Suprema Corte do Canadá, do Tribunal Constitucional da Colômbia, do
Tribunal Constitucional Federal alemão e do Tribunal Constitucional de
Portugal.
DIREITO PROCESSUAL. LEGITIMIDADE ATIVA DO MINIS-
TÉRIO PÚBLICO FEDERAL. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA CONTRA
A FAZENDA PÚBLICA. ABRANGÊNCIA NACIONAL DA DECISÃO.
I 5 -O Ministério Público Federal é parte legítima para a proposi-
tura de ação civil pública, seja porque o pedido se fundamenta em direito
transindividual (correção de discriminação em tabela de remuneração de
procedimentos médicos do Sistema Único de Saúde), seja porque os direi-
tos dos membros do grupo beneficiário têm relevância jurídica, social e
institucional.
16 - Cabível a antecipação de tutela, no julgamento do mérito de
apelação cível, diante da fundamentação definitiva pela procedência do
pedido e da presença do risco de dano irreparável ou de difícil reparação,
dado o grande e intenso sofrimento a que estão submetidos transexuais nos
casos em que os procedimentos cirúrgicos são necessários, situação que
conduz à automutilação e ao suicídio. Jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional Federal da
4" Região.
17- Conforme precedentes do Supremo Tribunal Federal e deste
Tribunal Regional Federal da 4" Região, é possível a atribuição de eficácia
nacional à decisão proferida em ação civil pública, não se aplicando a limi-
tação do artigo 16 da Lei n. 7.347/85 (redação da Lei n. 9.494/97), em
virtude da natureza do direito pleiteado e das graves consequências da
restrição espacial para outros bens jurídicos constitucionais.
18- Apelo provido, com julgamento de procedência do pedido e
imposição de multa diária, acaso descumprido o provimento judicial pela
Administração Pública. Relator: ROGER RAUPP RIOS, Porto Alegre,
14.08.2007".
Cabe destacar que cirurgias para mudança de sexo acarretam con-
sequências de ordem previdenciária, mais especificamente nos benefícios
de aposentadoria que têm critérios diferenciados para sua concessão em
razão do sexo masculino ou feminino.
50 I
T
No caso da aposentadoria por idade, a idade para o homem é 65 anos
e para a muher é 60 anos.
A aposentadoria por tempo de contribuição exige 30 anos para a
mulher e 35 para o homem.
Registre-se que questões como as apresentadas não poderão ficar à
margem do direito previdenciário, e deverão ser objeto de legislação espe-
cífica, adequada às mudanças da sociedade.
III- A força normativa da Constituição Federal
Por Fim, diante do exposto, outra conclusão não há senão a de que o
próprio Estado, por meio de seus agentes, macula, diariamente, preceitos
constitucionais tão caros à consecução de um Estado Democrático de
Direito. O Poder Judiciário tem desempenhado importante papel na ma-
nutenção da força normativa de nossa Constituição Federal.
Nas palavras de Konrad Hesse "a resposta à indagação sobre se o
futuro do nosso Estado é uma questão de poder ou um problema jurídico
depende da preservação e do fortalecimento da força normativa da Cons-
tituição, bem como de seu pressuposto fundamental, a vontade de Cons-
tituição. Essa tarefa Foi confiada a todos nós"10.
10 HESSE, 1\onrnd. A.fãrpl mmuativa da Crmslitui(11o. Tmdução de Gilmar Ferreira Mendes. Porto
Alegre: Sêrgio Antonio Fabris Editor, 1991, p. 32.
51
JUSTICIABILIDADE DOS DIREITOS
SOCIAIS E ECONÔMICOS:
DESAFIOS E PERSPECTIVAS
Flávia Piovesan'~-
I - Introdução
O objetivo deste artigo é enfocar a e:-.:periência brasileira no que se
refere à justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos, seus desafios e
perspectivas.
Inicialmente, será examinada a proteção dos direitos sociais e econô-
micos à luz da Constituição brasileira de 1988, com destaque às inovações
e aos avanços dela decorrentes, ao ineditamente contemplarestes direitos
no universo dos direitos fundamentais.
A partir da análise constitucional, será examinada a justiciabilidade
dos direitos sociais e econômicos pemnte as Cortes nacionais, com o estu-
do de casos relativos aos direitos à saúde e à educação, avaliando-se a
resposta das Cortes nacionais quanto à interpretação e à implementação
dos direitos sociais e econômicos.
Por fim, serão lançadas conclusões a respeito da justiciabilidade dos
direitos sociais e econômicos no Brasil, com ênfase em seus desafios e
perspectivas.
II - Proteção dos direitos sociais e econômicos na
Constituição brasileira de 1988
A Constituição brasileira de 1988 simboliza o marco jurídico da
transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no
• ProlCssora doutora em Direito Constitucional e Direitos Humanos da PUCSP. ProlCssora de Di-
reitos Humanos dos Programas de Pôs-Graduação da Pontificia Universiclade Católica de São
Paulo, da PUCPR e cla Universidade Pablo cle Olavide (Se\·ilha, Espanha). l"isiliugfilluwdo 1-bmum
Righls Progrum da IIaroard Law Sclwol (1995 e ~ooo). Visiting.fidlrr.v clo Cmlrej'or Brw:::ilimz Studies
cla Uuiv~r.rity ~f 0Jford(!WD5). Visitir1gje!lowclo .Ma.r Planck Inslitule.fõr Com]Jilmlh•e Public Law 1111d
53
País. O texto constitucional demarca a ruptura com o regime autoritário
militar instalado em 1964 e reilete o consenso democrático "pós-ditadura".
Após pouco mais de duas décadas de regime autoritário, objetiva a Cons-
tituição resgatar o Estado de Direito, a separação dos poderes, a Federação,
a democracia e os direitos Fundamentais, à luz do princípio da dignidade
humana. O valor da dignidade da pessoa humana, como Fundamento do
Estado Democrático de Direito (art. lu, III, da Constituição), impõe-se
como núcleo básico e informador de todo ordenamento Jurídico, como
critério e parâmetro de valoração a orientar a interpretação do sistema
constitucional.
Introduz a Carta de 1988 um avanço extraordinário na consolidação
dos direitos e garantias fundamentais, situando-se como o documento mais
avancado, abrangente e pormenorizado sobre a matéria na história consti-
tucio.nal do País. É a primeira Constituição brasileira a iniciar com capítu-
los dedicados aos direitos e garantias para, então, tratar do Estado, da sua
organização e do exercício dos poderes. De forma inédita, os direitos e as
garantias individuais são elevados a cláusulas pétreas, e passam a compor
o núcleo material intangível da Constituição (art. 60, § 4u). l-lá a previsão
de novos direitos e garantias constitucionais, bem como o reconhecimento
da titularidade coletiva de direitos, com alusão à legitimidade de sindicatos,
associações e entidades de classe para a defesa de direitos.
De todas as Constituições brasileiras, Foi a Carta de 1988 a que mais
assegurou a participação popular em seu processo de elaboração, a partir
do recebimento de elevado número de emendas populares. É, assim, a
Constituição que apresenta o maior grau de legitimidade popular.
A Constituição de 1988 acolhe a ideia da universalidade dos direitos
humanos, na medida em que consagra o valor da dignidade humana como
princípio Fundamental do constitucionalismo inaugurado em 1988. O
texto constitucional ainda realça que os direitos humanos são tema de le-
gítimo interesse da comunidade internacional, ao prever, pela primeira vez,
dentre os princípios a reger o Brasil nas relações internacionais, o da pre-
valência dos direitos humanos. Trata-se, ademais, da primeira Constituição
brasileira a incluir os direitos internacionais no elenco dos direitos consti-
tucionalmente garantidos.
/nlenwtirma!Law(Heide!berg-~007). Procurndora do Estado de Silo Pnulo. Membro do CLADEM
(Comitê Latino-Americano c do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher). [\'lembro clo Conse-
lho Nacional de Dc!Csa dos Direitos da Pessoa Humana c membro da SUH- Humrm RighLí Uui-
~·ersity• Network.
54
I
j
r
Quanto à indivisibilidade dos direitos humanos, faz-se necessano
enfatizar que a Carta de 1988 é a primeira Constituição que integra ao
elenco dos direitos fundamentais os direitos sociais e econômicos, que nas
Cartas anteriores restavam pulverizados no capítulo pertinente à ordem
econômica e social. Observe-se que, no direito brasileiro, desde 1934, as
Constituições passaram a incorporar os direitos sociais e econômicos.
Contudo, a Constituição de 1988 é a primeira a afirmar que os direitos
sociais são direitos fundamentais, tendo aplicabilidade imediata.
Nesse passo, a Constituição de 1988, além de estabelecer no art. 62
que são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer,
a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, ainda apresenta uma ordem social com um
amplo universo de normas que enunciam programas, tarefas, diretrizes e
Fins a ser perseguidos pelo Estado e pela sociedade. A título de exemplo,
destacam-se dispositivos constitucionais constantes da ordem social, que
fixam como direitos de todos e deveres do Estado a saúde (art. 196), a
educação (art. 205), as práticas desportivas (art. 217}, dentre outros. Nos
termos do art. 196, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de
doença e outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e senriços
para sua promoção, proteção e recuperação 1• No campo da educação, a
Constituição determina que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é
direito público subjetivo, e acrescenta que o não oferecimento do ensino
obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsa-
bilidade da autoridade competente. Para os direitos sociais à saúde e à
educação, a Constituição disciplina uma dotação orçamentária específica2,
1 A respeito, obsen•a Varun Gauri: 't\ rcvicw conducrcd for this paper assessed constitutional rights
to education and health care in 187 countries. Of the 165 countrics with availab]e written consti-
tutions, 1 W madc reference to n right to cducation and 7:1 to i! right to health cure. Ninety-livc,
morcovcr, stipulated free education and 29 lfee health carc fOr at least some population subgroups
and serviccs. Brazil offers a compelling example of thc fOrce of human rights lnnguage. Thc Bra-
zi!ian Constitution of 1988 guarantees each citizen thc right to frec hcalth carc. Although the
constitutional guarantee lws not eliminatcd shortage:; and incgualities in the sector, that provision
lmd real bitr in \90ü, whcn a nationallaw initiated a program of unh·ersa\ access to highly aclive
anti-retroviral therapy (HAART) for Aids patienl~. ffec of charge" (Varun Gauri, Social Rights and
Economics: Claims to Hcalth Care and Education in Dcveloping Countrics, lfãrld Devdopmml, vol.
!J~, n . .'1, !:WO·~. p. ·1-65).
~Quanto ao direito f1 educação, dispõe o art. :! I~ da Constituição: '/\ Unitlo aplicani, anualmente,
nunca menos de 18, e os Estados, o Distrito Federal c os :rviunidpios ~5%, no mínimo, da receita
resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na nmnutcn~~ilo c no desen-
volvimento do ensino". Quanto ao direito à saüde, os recursos orçament~irios serilo dispostos em
conformid!lde com os critérios estabelecidos no art. ID8 da Constitui~~tlo.
55
adicionando a possibilidade de intervenção federal nos Estados em que não
houver a observância da aplicação do mínimo exigido da receita resultante
de impostos estaduais na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas
ações e serviços públicos de saúde (art. 34, VII, e).
A ordem constitucional de 1988 acabou por alargar as tarefas do Es-
tado, incorporando fins econômico-sociais positivamente vinculantes das
instâncias de regulação jurídica. A política deixa de ser concebida como um
domínio juridicamentelivre e constitucionalmente desvinculado. Os domí-
nios da política passam a sofrer limites, mas também imposições, por meio
de um projeto material vinculativo. Surge verdadeira configuração norma-
tiva da atividade política. Como afirma]. ] . Gomes Canotilho: "A Consti-
tuição tem sempre como tarefa a realidade: juridificar constitucionalmente
esta tarefa ou abandoná-la à política é o grande desafio. Todas as Constitui-
ções pretendem, implícita ou explicitamente, conformar o político"~.
Cabe ainda mencionar que a Carta de 1988, no intuito de proteger
maximamente os direitos fundamentais, consagra dentre as cláusulas pé-
treas a cláusula "direitos e garantias individuais". Considerando a univer-
salidade e a indivisibilidade dos direitos humanos, a cláusula de proibição
do retrocesso social\ o valor da dignidade humana e demais princípios
fundamentais da Carta de 1988, conclui-se que essa cláusula alcança os
direitos sociais. Para Paulo Bonavides: "os direitos sociais não são apenas
justiciáveis, mas são providos, no ordenamento constitucional da garantia
da suprema rigidez do parágrafo 4º do art. 60"5• São, portanto, direitos in-
tangíveis, direitos irredutíveis, de forma que tanto a lei ordinária como a
emenda à Constituição que afetarem, abolirem ou suprimirem os direitos
sociais padecerão do vício de inconstitucionalidade.
Desde o processo de democratização do País e em particular a partir
da Constituição Federal de 1988, os mais importantes tratados internacio-
nais de proteção dos direitos humanos foram ratificados pelo Brasil6 , eles-
~~José Joaquim Gomes Canotilho, Direito crmslitucional e teoria tia Crmstituipio, Coimbra: Livraria
Almcúina, 1998.
1 A respeito da necess1íri:~ aplicação progressiva dos direitos sociais e econômicos c da consequente
cliiusu\a da proibição do retrocesso social, ver art.~".§ lu, do Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos, Sociais c Culturais, bem como o General Commcnt n. 3 úu Comitê sobre Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais (General Comment n. 3, UN doc. E/1901/~3).
5 Paulo Bonavides, Cur.w de direito constitucioTwl, São Paulo; Ma\hciros, 2000.
fi Dentre eles, destacam-se; a) a Convenção Intcramericana para Prevenir e Punir a Tortura, em
56
r
tacando-se, no âmbito dos direitos sociais e econômicos, a ratificação do
Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais em 1992
e do Protocolo de San Salvador em matéria de direitos econômicos, sociais
e culturais, em 1996.
Além dos significativos avanços decorrentes da incorporação, pelo
Estado brasileiro, da normatividade internacional de proteção dos direitos
humanos, o pós-1988 apresenta a mais vasta produção normativa de direi-
tos humanos de toda a história legislativa brasileira. A maior parte das
normas de proteção aos direitos humanos foi elaborada após a Constituição
de 1988, em sua decorrência e sob a sua inspiração.
A Constituição Federal de !988 celebra, desse modo, a reinvenção
do marco jurídico-normativo brasileiro no campo da proteção dos direitos
humanos, em especial dos direitos sociais e econômicos.
III- Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos nas
Cortes brasileiras
Considerando o alcance da proteção constitucional dos direitos sociais
e econômicos, importa avaliar o grau de justiciabilidade desses direitos nas
Cortes brasileiras.
A análise jurisprudencial será concentrada nos casos referentes aos
direitos à saúde e à educação submetidos às Cortes superiores, em parti-
cular o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça
(STJ).
:!Ode julho de 1989; b) n Converwno contra a Tortura c Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou
Degradantes, em 28 de setembro de ID89; c) a Convcnçilo sobre os Direitos da Crian~~a, em :!·f. cle
setembro de HJ90; d) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Polfticos, em!:!+ de janeiro de 1992;
e) o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em 2·1· de janeiro de IfJ92; I)
a Convençilo Americana de Direitos Humanos, em 25 de setembro de IH92; g) a Conven~~no Intera-
mericana para Prevenir, Punire Erradicar a Violência contra a Mulher, em 27 de novembro de 1995;
h) o Protocolo â Convençilo Americana referente il Aboliçilo da Pena de Morte, em 1.'1 de agosto de
1996; i) o Protocolo à Convençilo Americana em nmtéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(Protocolo de San Salvndor), em 2.1 de agosto cle 199ü;j) o Estatuto de Horna, que cria o Tribunal
Penal internacional, em 20 de junho de 2002; h) o Protocolo Facultativo à Convençilo sobre a Eli-
rninaçllo de Todas as Formas de Discriminaçilo contra a Mulher, em 28 cle junho de 2002; c I) os
dois Protocolos Facultativos à Convençilo sobre os Direitos dn Criança, re!Crentes ao envolvimento
de crianças em conllitos armados e à venda de crianças c prostituição e pornografia infantis, em 5!·1,
de janeiro de 200+. A estes avanços, sorna-se o reconhecimento dajurisdiçilo da Corte Interamcri-
cana de Direitos Humanos, em dezembro de 1908.
57
1. Casos relativos ao direito à saúde
1.1. Casos relativos ao fornecimento de medicamentos e ao
acesso à assistência médico-hospitalar
Reiteradas decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal con-
sagram o direito à saúde como decorrência do direito à vida, e determinam
o fornecimento gratuito de medicamentos a pessoas carentes, portadoras
do vírus HIV e a portadoras de outras doenças graves.
A título exemplificativo, destaca-se decisão do STF no RE 271.286
AgR/HS, na qual afirmou o direito à saúde como "conseguência constitu-
cional indissociável do direito à vida". A decisão adicionou que o "direito
público subjetivo à saúde representa prerrogativa Jurídica indisponível",
cabendo ao Estado formular e implementar políticas que visem garantir a
todos, inclusive aos portadores do vírus HTV, o acesso universal e igualitá-
rio à assistência farmacêutica e médico-hospitalar. Ressaltou que "o poder
público não pode transformar norma programática em promessa constitu-
cional inconsequente". Nesse sentido, a distribuição gratuita de medica-
mentos permitiria "conferir efetividade aos preceitos constitucionais, re-
presentando um gesto reverente e solidário de apreço à vida e à saúde das
pessoas, especialmente daquelas que nada têm e nada possuem, a não ser
a consciência de sua própria humanidade e sua essencial dignidade"i.
Acrescentou ainda o STF que "o sentido de fundamentalidade do direito à
saúde - que representa, no contexto da evolução histórica dos direitos
básicos da pessoa humana, uma das expressões mais relevantes das liber-
dades reais ou concretas- impõe ao Poder Público um dever de prestação
positiva, que somente se terá por cumprido, pelas instâncias governamen-
tais, quando estas adotarem providências destinadas a promover, em ple-
nitude, a satisfação efetiva da determinação ordenada pelo te.xto constitu-
cional". Em outro caso, afirmou o STF que "entre proteger a inviolabilida-
de do direito à vida, que se qualifica como direito subjetivo inalienável
assegurado pela própria Constituição da República (artigo su, capui-), ou
fazer prevalecer, contra essa expressa prerrogativa fundamental, um inte-
resse financeiro e secundário do Estado, entende-se que razões de ordem
7 No mesmo sentido, destl1carn-se as decis()es proferidas pelo STF nos c11sos RE :!~2.33.~, AI :!3:!.'!.fi9,
RE 93G.:wo,AI ~3G.fi·H,AI Q,'lH.3~8-AgH, RE 2+2.859, RE-~·n.~Joo, RE-2(H.3G9, HE 267.61~, RE
~73.0·E!, HE 37:l.A.'H, RE 35.~.G27AgH, AI 23H.328 AgR, SS 702 AgR, AI ·I·SG.81fi AgR, dentre
outros. No RE l9.'>.w~/RS, em grau de mandndo t.le segurança para aquisição- e fOrnecimento de
mcdicmnento pomt doença rara, envolvendo criomça e i!do\escentc, a decisão do STF determinou ao
Poder Ptiblico proporcionar meios para a\can~ar a saüdc c frisou a responsabilidade linear da Unif!o,
dos Eslados e dos l'vluniclpios,devido ao Sistema Único de Saltde.
58
ético-jurídica impõem ao julgador uma só possível opção: o respeito inde-
clinável à vida"11 •
No mesmo sentido, as decisões do Superior Tribunal de Justiça en-
dossam o direito à saúde como dever do Estado, que "deverá propiciar aos
necessitados não qualquer tratamento, mas o tratamento mais adequado e
eficaz, capaz de ofertar ao enfermo maior dignidade c menor sofrimento".
Deste modo, deve ser assegurado o medicamento mais eficaz e adequado
ao tratamento, mesmo que não previsto em portaria do .i'vlinistério da Saú-
de, com fundamento nos direitos à saúde e à vida'l.
O ST] tem ainda rompido com uma ótica formalista procedimental,
a fim de assegurar o direito à saúde. A título de exemplo, cita-se medida
judicial concedida em ação civil pública para proteger o direito à vida c à
saúde de criança portadora de doença grave, reformando decisão de Tribu-
nal estadual que teria extinto o processo sem julgamento de mérito por
considerar que o Ministério Público não teria legitimidade para a deFesa
ele interesse individual indisponível. O argumento central da decisão foi
que "a busca pela entrega da prestação jurisdicional deve ser prestigiada
pelo juiz, de modo que o cidadão tenha, cada vez mais facilitada, com a
contribuição do Poder Judiciário, a sua atuação em sociedade, quer nas
relações jurídicas de direito privado, quer nas de direito público"10 •
Em outro caso, também rompendo com uma ótica Formalista, em prol
da implementação do direito à saúde, o STJ decidiu destrancar recurso
especial, sob o argumento de que a saúde é dever do Estado, sendo que a
falta de medicamentos poderia acarretar morte prematura ele criança com
doença grave e atrofia muscular espinhal li.
No mesmo sentido, em reiteradas decisões, o STJ tem autorizado
levantamento de saldo de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
11 STF, DJ, Seção 1, de 13-~-1997, n. ~:m, p. 11:1~10.
11 Ver RMS 17.90~1. Na mesma direção, destacam-se dedsfks que determinmn ser o IOrnecimentu de
medicamentos um dever do Estado: REsp mH-.iHG, B.Esp {i58 . .':1~.':1, AgRg na STA (suspcnsilu tlc
tutela mllecipat.la) .'iH, AGSS !.·~OH, AgRg na STA HS, H.MS 17.-1-:!5, REsp ii::!.'í.~J2~J, n.Esp 507.~05,
REsp +:J0.5~G, H.i'viS I5A5~, RMS! !.!:!!1, REsp ~ !~ . .3·!·6, H.Esp .':1~5.~1~17. RMS iJ.HI:l6, IThJS 11.183,
REsp 57.608. No B.Esp 658.3~3, afirmou o ST,J; "O Sistema Único de Saúde (SUS) visa a integrali-
dade da assistência à saúde, s~ja individual ou coletiva, devendo atender aos que dela necessitem em
qualquer grau de complexidade'". No H.Esp 65fl.97D reconheceu que o fornecimcnw gratuito de
medicamentos é responsabilidHde soli(híria da União, dos Estados c dos i\ilunicípios.
to STJ, REsp GG2.0.'l~l.
11 STJ, I\TC 7.~·1-0.
59
(FGTS) para tratamento de moléstia grave, mesmo que não previsto em
norma 12 •
Contudo, constatam-se, ainda, decisões que, com fundamento em
uma ótica liberal clássica e na cláusula da separação dos poderes, afastam
a justiciabilidade do direito à saúde. A respeito, cita-se decisão proferida
no RE 259.508AgR/RS, em que se discutia a aplicação de lei estadual do
Estado do Rio Grande do Sul, que previa distribuição gratuita de medica-
mentos a pessoas carentes e a portadores de 1-IIV/AIDS, mediante acordo
entre o Estado e o Município de Porto Alegre. O STF entendeu que não
lhe cabia examinar a efetivação do acordo, na medida em que não lhe cabe
controlar critérios de conveniência e oportunidade da Administração para
atender demanda da população na área da saúde, sob a justificativa de que
seria ofensa ao princípio da separação de poderes. Há também decisões
que negam a justiciabilidade aos direitos sociais com fundamento na insu-
ficiência de recursos orçamentários. A respeito, destaca-se decisão do STJ,
no MS 6.564/RS, em que se sustentou: "no sistema jurídico-constitucional
brasileiro, a nenhum órgão ou autoridade é dado realizar despesas sem a
devida previsão orçamentária. A dotação consignada no orçamento, para o
Fim da efetivação da despesa, seja de qual natureza for, obriga aos órgãos
da Administração, sob pena de incorrer no desvio de verbas" 13 •
1.2. Casos relativos a tratamento diferenciado
Há ainda decisões do STP·1 que, à luz de um recorte de classe, per-
mitem internação hospitalar na modalidade "diferença de classe", median-
te o pagamento da diFerença pelo paciente. O argumento é que a Consti-
tuição Federal estabelece o direito à saúde e o acesso universal c igualitário
aos serviços e ações para promoção, proteção e recuperação. Consequen-
temente, o direito à saúde não deve sofrer embaraços impostos por autori-
dades administrativas, no sentido de reduzir ou dificultar o seu acesso. Para
a decisão, não há quebra de isonomia, pois não se estabeleceu tratamento
desigual entre pessoas em uma mesma situação, mas facultou-se atendi-
mento diFerenciado em situação diferenciada, sem ônus extra ao sistema
público.
~~Dentre outras decisões, destacam-se STJ, REsp IH-1-.557; e STJ, REsp 686.500.
~~Sobre o tema, ver Alessandra Gotti Bontempo, Dirá/os .wdaiJ: ifinicia e aciorwbilidade à lu:: da
Ctmstituip1o de 1988, Curitiba: Juruá, ~005, p. ~7+.
H Ver STF, RE ~~6.835/HS; RE 261.268/RS.
60
I-lá decisões do STF e do STJ que ressaltam a absoluta prioridade da
criança e do adolescente na efetivação do direito à saúde, assegurando a
internação e o tratamento diferenciado para criança e adolescentes no
Sistema Único de Saúde 15 •
Também há decisões do ST] 1tí que, a fim de garantir o direito à saú-
de de presos, autorizam a prisão domiciliar, considerando o estado crítico
de saúde (por e.xemplo, na hipótese de doença grave e de pós-operatório
com quimioterapia e medicamentos) e a falta de estrutura básica do siste-
ma penitenciário.
1.3. Casos relativos à responsabilidade por dano à saúde e
ao alcance de contratos de seguros de saúde
Há um número significativo de decisões judiciais a respeito do alcan-
ce e da cobertura de seguros em planos privados de saúde, com base no
Código de Defesa do Consumidor. Nesse sentido, há decisões que acolhem
pedidos de dano moral em caso de recusa de seguro-saúde em custear o
tratamento de segurado regularmente contratado com suspeita de câncer17 •
Há, ainda, decisões que reconhecem a abusividade de cláusula que, em
contrato de seguro-saúde, afasta tratamento de moléstias infectocontagiosas
de notificação compulsória, como é o caso daA1DS 1H. Essas decisões inspi-
ram-se no princípio da interpretação favorável ao consumidor, tendo em
vista a relação desigual e assimétrica entre o consumidor e o Fornecedor.
Há decisões judiciais proferidas pelo STJ que fixam indenização por
responsabilidade civil, em razão do não fornecimento de remédios que
teria levado o paciente à perda de rim, com base no argumento de que "a
omissão no fornecimento de remédio certamente configura inequívoca
responsabilidade apta a produzir o dever de indenizar"1'', bem como há
15 Neste sentido, ver STJ, REsp, m7.836, REsp, 95. !GS, REsp, E!B.HO~J, c REsp, H9.6 12.
16 STJ, HC 19.91.'1/SP.
n STJ, AgRg no AG 520.390.
111 ST.I, AgRg no REsp 265.fl72, AgRg no REsp 251.722, HEsp 255.06·1, REsp 3IJ.50fJ, REsp ::!·H.S·l· 1,
REsp 2+.0H7, REsp .'lO.J-. .'126, REsp 255.065 {em rclaçilo à cirrose). No mesmo sentido, considera-se
abusiva a cláusula que determina a limimção temporal ao tratamento einternaçilo, conforme decisões
nos REsp 251.02·1 e REsp 158.728. Por outro ludo, h<í urna tendência minoritária de julgudos que
considenl válida a exclusão de AIDS definidu no contrato do convênio {REsp 160 . .'107).
1n Nesse caso, o STJ condenou o Estudo do Rio de Janeiro a indenizar o puciente em 500 salários
mínimos a título de danos morais c uma pensilo vitalfcia correspondente à metade do que rcccb~ria
quundo perdeu o rim (ST.I condena o Hio por nilo darremédio a trunsplantudo, Folha de S. Paulo,
61
decisões que fixam indenização por responsabilidade civil, em razão de
deficiência física decorrente de gestante que fez uso de talidomida:w.
Por fim, há decisões judiciais que relacionam o direito à informação
e o direito à saüde, endossando existir um manifesto risco à saúde pública
quando obstaculizada a informação à população sobre a paralisação de obras
em hospitais e a suspensão de aquisição de medicamentos pela adminis-
tração21.
2. Casos relativos ao direito à educação
2.1. Casos relativos ao ensino fundamental
Diversos julgados reconhecem a absoluta relevância do direito ao
ensino fundamental, com destaque à decisão do STF que assim afirmou:
"Conforme preceitua o artigo 208, inciso IV, da Carta Federal, consubstan-
cia dever do Estado a educação, garantindo o atendimento em creche c
pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade. O Estado - União,
Estados propriamente ditos, ou seja, unidades federadas, c Municípios
-deve aparelhar-se para a observância irrestrita dos ditames constitucio-
nais, não cubendo tergiversar mediante escusas relacionadas com a defici-
êncin de caixa"22.
Na mesma direção, há decisões que reforçam o dever do Estado de
garantir vaga em creche para crianças de O a 6 anos, em especial com a
edição da Emenda Constitucional n. 14, de 1996, que estabelece que "os
Municípios atuarão prioritariamente no ensino Fundamental e na educação
infantil" (Constituição Federal, art. 211, § 2", com a redação dada pela
Emenda Constitucional n. 14/96)".
O ST] tem compartilhado do mesmo entendimento a respeito do
direito ao acesso ao ensino Fundamental. A lítulo de exemplo, destaca-se
decisão em ação civil pública com o objetivo de assegurar creche para
~H de junho de !:!005, p. Cü; Rio teni que indenizar transplantado que penleu rim, O Estado de
S. Paulo, 2H de junho de ~005, p. AIS).
~o STJ, REsp üO.I~!J.
~~ STJ, AgRg na STA 20.
~~ STfo", RE ·fii.518/SP.
~: 1 No mesmo sentido: HE :J9H.7~!!/Sl~ HE 377.057/SP, HE +I U:l~, RE ·Hl!-!.0!:!·1,, AI ·HO.OHi AgH,
B.E ·1•11.51 S, RE .'J5!:!.fiHfl/Sl~ dl.'ntrl.' outros.
62 l
criancas de O a 6 anos, com fundamento do dever constitucional do Estado
e no direito subjetivo da criança. Adicionou ainda o STJ: "Não se pode
relegar direito à educação de criança a plano diverso da garantia constitu-
cional. O Estado tem o dever de educação mediante oferecimento de
creche para crianças de O a 6 anos. O que não soa lícito é repassar este
dever para instituições particulares e deixar crianças em 'fila de espera'"24 •
2.2. Casos relativos à matrícula em instituições de ensino
superior e à cobrança de mensalidades escolares
I-lá, ainda, um significativo universo de casos relativos à matrícula em
Universidades e à cobrança de mensalidades escolares. A tendência majo-
ritária das decisões, em se tratando de estudantes inadimplentes do ensino
superior, tem sido no sentido de que não se pode condicionar a renovação
de matrícula ao pagamento de mensalidade atrasada, restando consagrado
o direito à renovação de matrícula25 •
Somam-se, também, diversos julgados sobre o tema da transferência
de ofício de agente público e matrícula em Universidade, bem como a
matrícula de seus dependentes no ensino fundamental. Quanto ao direito
à matrícula em Universidade, decorrente de transFerência de servidor pú-
blico civil ou militar por interesse da Administração, destacam-se dois
entendimentos distintos: a) os servidores públicos e seus dependentes têm
direito à matrícula em instituição de ensino do local de destino, observado
o requisito da congeneridade em relação à instituição de origem26 ; e b) os
servidores públicos e seus dependentes têm direito à matrícula em estabe-
lecimento superior em seu novo domicílio, em qualquer época do ano, e
em qualquer instituição de ensino, público ou privado, não importando se
a universidade de origem for um estabelecimento particular27 . Há decisões
restritivas que entendem que os dependentes de servidor público removido
~~ REsp ii7."i.2HO/SP. No mesmo sentido, destaca-se o HEsp 50:1.028, reconhecendo a legitimidade
do Ministério Público para pleitear vaga em creche.
~.o Ver decisões do STJ, REsp 61 1 .. '19+/RN, REsp .'l li .. '19+, HEsp ;JG5.771, REsp .'Hl+.·HJ I, AgRg REsp
·HJ1.202.
~r. STJ, HEsp 7.'12.727/PE, AG REsp ü26.fl8B/RS, AG HEsp, 529.:152/PR, REsp 710.~82/RJ, REsp
707.D·H·/HN, HEsp 689.608, AgRg no REsp 62L55:3, HEsp 7:E!.727, AGREsp ü21.5.'i5/RJ, REsp
G67.630/IU, dentre outros.
~• STJ, AEHEsp :Jfl 1.0·1·8/DI~ AGA '1·26.·1·8+/DF, HEsp G02.82ü/PE, REsp 611.07:1/RN, HEsp
·I·~G.IGS/010: EREsp 388.9·!·2/Dt\ REsp 550.2H7/HN, HEsp G·l•:l.H6/R.J, AGREsp 538.080/R.J,
REsp ·1·3:1.777/PE, REsp GOO.:JG5/I-ll, dentre outros.
63
de ofício não têm direito à matrícula em instituição de ensino fundamental
público:!8 • I-lá também decisões que entendem que, se o vínculo com a
Administração não for permanente (mas transitório), os dependentes não
têm direito à transferência2'\ diversamente de decisões que, apesar da
falta de previsão legal, com o obJetivo de evitar preJuízo ou retrocesso à
situação do educando, mantém a transferência da matrícula na hipótese
de cargo em comissão30•
IV- Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos nas
Cortes brasileiras: desafios e perspectivas
Considerando os casos relativos à justiciabilidade dos direitos à saú-
de e à educação nas Cortes superiores brasileiras, conclui-se ainda ser
reduzido o grau de provocação do Poder Judiciário para demandas relacio-
nadas à implementação dos direitos sociais e econômicos. Observa-se
também que as demandas judiciais são, em sua vasta maioria, de cunho
individual e não coletivo.
Quanto ao direito à saúde, as decisões judiciais proferidas asseguram
este direito como uma prerrogativa constitucional inalienável e indisponível,
decorrente do direito à vida. A esse direito as decisões correlacionam o
dever de o Estado formular e implementar políticas que visem garantir a
todos, inclusive aos portadores do vírus HIV, o acesso universal e igualitá-
rio à assistência farmacêutica e médico-hospitalar. Ao efetuar a ponderação
de bens envolvidos, as decisões tecem expressa opção pelo respeito à vida,
como direito subjetivo inalienável assegurado pela própria Constituição,
em detrimento de interesse financeiro e secundário do Estado. O objetivo
é assegurar o tratamento mais adequado e eficaz, capaz de ofertar ao en-
fermo maior dignidade e menor sofrimento.
Nesse sentido, há uma tendência jurisprudencial que rompe com
uma visão Formalista e procedimental do direito, em prol da relevância do
direito à vida.
~~sTJ, REsp íH8.!80/IU, lllisp ·~87.7D5/IU.
~9 STJ, HEsp s6g.9sü/MG, REsp M8.2·H1/PB, MC I.5oo/HN.
:IOSTJ, EREsp Hg.nn!/RN, EREsp 2!l9.·W2/fu'l', EREsp 109.721/PR, REsp 5:;s.66i/fu'\l', AGA
515..1<97/RJ, REsp 267.U26/DF, REsp s W.7::7/PR, REsp 1-t.'l.DD::!/RN, REsp 155.052/RN, REsp
1+2AS8/CE.
64
No tocante à especificação do sujeito de direito, surge o recorte de
classe para autorizar o tratamento diferenciado, que permite internação
hospitalar na modalidade "diferença de classe", mediante o pagamento da
diferença pelo paciente. Todavia, é o recorte geracional que se faz mais
expresso e corrente, mediante decisões judiciais que ressaltam a absoluta
prioridade da criança e do adolescente na eFetivação do direito à saúde,
assegurando-lhes a internação e o tratamento diferenciado para crianças e
adolescentes no Sistema Único de Saúde.
Embora a tendência majoritária das decisões seja no sentido de
efetivar a proteção constitucional do direito à saúde, há uma tendência
minoritária que, com fundamento em uma ótica liberal clássica e na cláu-
sula da separação dos poderes, afasta a justiciabilidade do direito à saúde.
O argumento centralé que não cabe ao Poder Judiciário controlar critérios
de conveniência e oportunidade da Administração para atender demanda
da população na área da saúde, sob justificativa da ofensa ao princípio da
separação de poderes, bem como da ofensa a critérios de dotação orçamen-
tária, com base ainda no princípio da "reserva do possível".
Não sob a ótica de direitos (/111man rights approlJcll), mas sob a ótica
das relações de consumo, vislumbra-se um universo significativo de decisões
a respeito do alcance e da cobertura de seguros em planos privados de
saúde, com base no Código de Defesa do Consumidor. A tendência juris-
prudencial predominante é afastar cláusulas abusivas de contratos de se-
guro-saúde, que negam tratamento de moléstias infectocontagiosas, como
é o caso da AIDS. Essas decisões inspiram-se no princípio da interpretação
favorável ao consumidor, tendo em vista a relação assimétrica entre este e
o fornecedor.
Portanto, no âmbito do direito à saúde, percebe-se que a jurisprudên-
cia oscila, por um lado, a assegurar o acesso à saúde, mediante o forneci-
mento de medicamentos, como um direito constitucional inviolável, e, por
outro, a tratar a saúde como uma relação de consumo, entre consumidor e
fornecedor, merecendo o primeiro, como parte vulnerável, maior proteção
jurídica. Não se discute a qualidade dos serviços de saúde prestados, mas,
sobretudo, o acesso a esses serviços, seu alcance e sua cobertura.
As demandas são, sobretudo, individuais. Importa realçar, especial-
mente no caso das demandas individuais a respeito de fornecimento de
medicamentos para portadores do vírus HIV, que essa foi, inclusive, uma
estratégia de litigância. Isto é, optou-se por demandas individuais em de-
trimento das coletivas, sob o risco de as últimas serem af<1stadas pelo Poder
Judiciário, ainda com elas pouco Familiarizado, temendo, inclusive, o amplo
65
impacto social de uma decisão de alcance coletivo. Os ganhos judiciais
individuais é que propiciaram a resposta legislativa universal, mediante a
adoção de lei que determinou o Fornecimento obrigatório e gratuito de
medicamentos a todos os portadores do vírus HIV. Ou seja, em razão da
larga jurisprudência que condenava o Poder Público a oferecer gratuita-
mente medicamentos às pessoas portadoras do vírus HIV, foi aprovada a
Lei n. 9.313, de 13 de novembro de 1996, que dispõe sobre a distribuição
gratuita de medicamentos aos portadores do HIV e doentes de AIDS, ca-
bendo ao Sistema Único de Saúde fornecer toda medicação necessária a
seu tratamento.
Considerando a urgência das questões que envolviam a epidemia de
AIDS, o movimento de defesa dos direitos das pessoas portadoras do vírus
HIV privilegiou a judicialização das reivindicações, e sustentou a autoapli-
cabilidade dos dispositivos constitucionais e a atuação junto ao Poder
Executivo, mediante a participação em vários projetos, conselhos e comis-
sões, o que vem permitindo uma extensa regulamentação sobre o tema no
âmbito do Sistema Único de Saúde, por meio de Portarias Ministeriais c
Interministeriais31 . À elaboração legislativa conjuga-se a adoção de políti-
cas públicas consideradas, atualmente, exemplares no tratamento daAIDS 32,
compreendendo o protagonismo do Brasil na esfera internacional, com
destaque à iniciativa no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU
de propor uma resolução, ao Final aprovada, considerando o acesso a me-
dicamentos para os portadores de AIDS, malária e tuberculose como um
direito humano fundamental, o que acabou por contribuir para o pleito da
quebra de patentes da produção de medicamentos para a AIDS, no âmbi-
to da Organização fVIundial do Comércio33 .
Quanto ao direito à educação, tal como ocorre com o direito à saúde,
de um lado há decisões judiciais que asseguram a efetivação do direito ao
~~A consolidação dessas normas encontra-se na publicaçilo do Ministério da Saúde-Secretaria de
Polfticas de Saúde- Coordenaçilo Nacional de DST e AIDS, organizada por Miriam Ventura,
Legisla(tlo sobre DST e .-JIDS 110 Bmsil, :!. ed., outubrohmoo.
-~~ Varun Gauri, ao enfocar o impacto da Lei n. 9 . .'113, de I .'1 de novembro de 1996, aponta: "Partly
as n rcsult, in major Brazilian citics AIDS dellths have dropped sharply, falling over +O% during
1997-m" (op. cit. p. ·~65).
·1>~ Em 2·1· de junho de ~005, o Governo brasileiro anunciou que (1uebrani a patente do medic[JJncnto
lí:aletra, do laboratório norte-americano Abbott, usndo no tratamento de portadores do vfrus dll
AIDS (Governo dá dez dias para quebrar p<ttente, Falha de S.Pmslo, ~5 de junho de ~00:3, p. C!;
Costa assume Unaids e re!Or~~a prcssilo pnr quebra de jllltentes, O Estado 1Ü S. Paulo, !!8 de junho de
:!005, p. A !8).
66 l
ensino fundamental. Uma vez mais, a esse direito constitucional correia~
ciona-se o dever do Estado relativamente à educação, de forma a garantir,
por exemplo, o atendimento em creche e pré~escola às crianças de O a 6
nnos de idade. Tal como apontam julgados na área da sáude, as decisões
aFetas ao direito à educação realçam a importância de conferir observância
irrestrita aos ditames constitucionais, não cabendo afastá-los sob o argu-
mento de insuficiência orçamentária.
Por outro lado, tal como ocorre no campo da saúde, há um universo
de demandas fundamentadas não sob a ótica dos direitos (1mman right.s
approach), mas sob a ótica das relações de consumo. Nesse sentido, des-
tacam~se os casos relativos à matrícula em Universidades e à cobrança de
mensalidades escolares. Reitere~se que a tendência majoritária das decisões,
em se tratando de estudantes inadimplentes do ensino superior, tem sido
no sentido de que não se pode condicionar a renovação de matrícula ao
pagamento de mensalidade atrasada, restando consagrado o direito à rena~
vação de matrícula. Novamente, confere~se maior proteção jurídica à
parte mais vulnerável de uma relação vista como de consumo.
No âmbito do direito à educação, também se constatam demandas
de natureza individual e não coletiva. Não se discute a qualidade da edu~
cação prestada, mas, sobretudo, o acesso à educação e seu alcance.
As decisões judiciais estudadas, seja na área da saúde ou da educação,
não mencionam os tratados internacionais de proteção dos direitos huma~
nos, nem tampouco as observações gerais dos Comitês da ONU. O silêncio
quanto à incorporação dos parâmetros protetivos mínimos da ordem inter~
nacional revela tanto o desconhecimento do Poder Judiciário a respeito da
matéria e sua vocação refratária ao direito internacional como também a
não utilização de tais instrumentos internacionais de direitos humanos
pelos próprios litigantes.
O incipiente grau de provocação do Poder Judiciário para demandas
que envolvem a tutela dos direitos sociais e econômicos revela a apro~
priação ainda tímida pela sociedade civil dos direitos econômicos, sociais
e culturais como verdadeiros direitos legais, acionáveis e justiciáveis.
Como aludem Asbjorn E ide e Alian Rosas: "Levar os direitos econômicos,
sociais e culturais a sério implica, ao mesmo tempo, um compromisso
com a integração social, a solidariedade e a igualdade, incluindo a ques-
tão da distribuição de renda. Os direitos sociais, econômicos e culturais
incluem como preocupação central a proteção aos grupos vulneráveis.
( ... )As necessidades fundamentais não devem Ficar condicionadas à
caridade de programas e políticas estatais, mas devem ser definidas como
67
direitos"34 • No Brasil, apenas 30% dos indivíduos envolvidos em disputas
procuram a] ustiça estataP~, existindo uma clara relação entre índice de
clesenvolvimento humano e litigância, ou seja, é acentuadamente maior
a utilização do Judiciário nas regiões que apresentam índices mais altos
de desenvolvimento humano:11'.
O incipiente grau de provocação do Poder Judiciário para demandas
que envolvem atutela dos direitos sociais c econômicos no Brasil rdletc
ainda um "estranhamento recíproco" entre a população e o Poder ]ucliciá-
rio, tendo em vista que ambos apontam o distanciamento como um dos
maiores obstáculos para a prestação jurisdicional. De acordo com pesquisa
rcaliwda pela IUPERJ/ABM, 79,5% dos juízes entendem que uma dil'icul-
dade do ]ucliciário considerada essencial está radicada no fato de ele se
encontrar distante da maioria da população. No mesmo sentido, pesquisas
conduzidas não apenas no Brasil, mas na Argentina, Peru c Equador, evi-
denciam que 55% a 75% da população apontam para o problema da ina-
cessibilidade do] udiciário37 •
:11 1bbjorn Eidc c Allan Hosas, Economic, social and cultural rights: a universal challcnge, in: Asb-
jorn Eide, Catarina 1\rause c Allan Rosas, Eco11omic, .wcial11111i cultuml right.r, Dordrecht, Boston c
Londres: Marlinus Nijholr Publishcrs, WH5, p. 17-JH. Para Paul Farmcr: "Thc conccpl of human
rights may al times bc hrandislu~d as an all-purposc and universal tonic, but it was devclopet.l to
prmcct the vulncrablc. The truc valuc of human rights movement's central documents is rcvcaled
only when they scr\'c to protect the rights of thosc who are rnost lillel}' ro havc thcir rights violatcd.
Thc proper hencficiaries of lhe Universal Declaration of Human llights ( ... ) nrc thc poor and
othcrwise dbempowercd" (Paul Farmcr, P<1tlwlog"i~s qf" pm.cer, Berl~elcy: Unh·ersity of Calili.Jrnia
Press, ~003, p. ~~~).
:1.1 Como explica Maria Terew Sadel<, '"as razões para isso são imímcras, indo desde a dcscren~·a na
lei c nas instituiçUes até a banalização da violência.( ... ) Por outro lado, ainda que em menor grau
que no passado, ê baixa a conscientização da populução tanto sobre seus direitos, como sobre os
canais institucionais disponlvcis para a soluçilo de seus litlgios". (Maria Tereza Sadel< (org.), Acesso
újus!Í(il, Silo Paulo: Fundação 1\onrad Adenauer, ~001, p. 7).
:111 Para i\'laria Tereza Sade\1, "'No que se refere lis regiões, o IDH permite afirnmr que o Nordeste c
o Norte reli nem os mais baixos indicadores socioeconómicos do pais, durante todo o período. Em
comraste, o Sul, o Sudeste c o Centro-Oeste apresentam as melhores condiçfks no que diz respeito
às dimensões c;lpladas pelo IDH. E not;\\"cl como quanto mais alto ê o IDH melhor é a relação entre
processos entn1dns c população. Ou seja, é acentuadamente maior u utiliza~·ão do Judiciário nas
rcgiUcs que apresentam índices mais altos de descnvol\'imcnto humano" (1\faria Tereza Sadel1,
Fcrnilo Dias de Lima c José Renato de Campos Aralijo, O Judicilirio c a prestação da justiç;J, In:
Maria Tereza Sadelt (nrg.), Aa.uo tlju.rtira, São Paulo: Fundaçno 1\onrad Adcnauer, 2001, p. ~n-~ !).
j; Ver Alejandro M. Garra, Acccss to .Justicc !Or thc poor in Latin America, in: .hl<!!l E. Mêndcz,
Guillermo O'Donnel c Paulo Sérgio Pinheiro (orgs.), The (un)rule r!l" lmv & t!Je muierprhrileged in
l~alill Amerim, Nutre Damc: University of Nutre Damc Prcss, IDD!J, p. ó!H3. Ver também Flavia
Piovcsan, A litigfmcia de direitos humanos no brasil: desatios c perHpectivas no uso dos sistemas
nacional c internacional de proteção, in: Fla\·ia Piovesan, Tr.•11111.r de diràtos huma1ws, 0!. cd. ~00:1,
p. ·!·!O.
68
I
I Esse "estranhamento recíproco" tem implicado um reduzido universo
de demandas submetidas ao Poder Judiciário a respeito dos direitos huma-
nos. Pura a formaçi:'io de uma jurisprudência protetora dos direitos humanos,
bem como para a consolidação do Poder Judiciário como um locus de afir-
macão ele direitos, é fundamental que a sociedade civil, mediante suas
múltiplas organizações c movimentos, acione de Forma crescente o Poder
Judiciário, otimizando o potencial cmancipatório e transformador que o
direito pode ter. Só assim haverá um judiciário mais aberto, próximo e com
maior responsabilidade social e política. Só assim haverá maior transparên-
cia e accowztability dos deveres do Estado no tocante à implementação dos
direitos à saúde e à educação3H.
Ainda que incipiente, a justiciabilidade dos direitos sociais e econô-
micos na experiência brasileira é capaz de invocar um legado transformador
e emancipatório, com a ruptura gradativa de uma visão conservadora e
Formalista do Poder Judiciário. Assinala-se, como caso emblemático, as
decisões judiciais acerca do fornecimento gratuito de medicamentos, que,
somadas a articuladas e competentes estratégias de litigância, Fomentaram
transformações legislativas e a adoção de políticas públicas consideradas
exemplares na área.
É necessário, contudo, avançar em estratégias de litigância no âmbi-
to nacional, que otimizem a justiciabilidade e a exigibilidade dos direitos
econômicos e sociais, como verdadeiros direitos públicos subjetivos3~\ por
meio do empawer111e11t da sociedade civil e de seu ativo e criativo protago-
nismo.
Há que se rcinventar a relação com o Poder Judiciário, ampliando
seus interlocutores e alargando o universo de demandas, para converter
este Poder em um locus de afirmação de direitos, que dignifique a raciona-
lidade emancipatória dos direitos sociais e econômicos como direitos hu-
manos nacional e internacionalmente garantidos.
:1~ Pura Varun Guuri: "From the perspeclive of social rights, participation, empnwermenl, transpar-
ency, and accountubility in service delivery are importam fOr ensuring health care and education
quality" (Varun Guuri, op. cit., p. +70).
:n• NotL'-se que, em razõio da indivi~ibilidade dos direitos humanos, a violaçõio aos direitos econômi-
cos, sociai~ e culturais propicia a violaçõio aos direitos civis e pol!ticos, visto que a vulnerabilidade
econômico-social leva â vulnerabilidade dos direitos civis c políticos. Para Amartya Sen: "A lle!:,ração
da liberdade econômica, sub a fOrma da pobreza extrema, torna a pessoa vulnenixel a Yiolaçiics de
outrns formas de liberdade.{ ... ) A ncg;1~·ão da liberdade econômica implica a negação da lihcrdaclc
socinl e política .. (Amartya Sen, lJt.'t!elupnwut asJi-wfom, Ncw Yorl': Alfrcd A. 1-\nopf, HJ!JO, p. 1:1).
69
l
I
I
I
SEGURANCA SOCIAL, DIGNIDADE
DA PESSOA HUMANA E
PROIBIÇÃO DE RETROCESSO:
REVISITANDO O PROBLEMA
DA PROTEÇÃO DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS SOCIAIS
Ingo Wolfgang Sarlet"
I - Considerações introdutórias
A discussão de quanto é -juridicamente! - segura a segurança
social, em outras palavras, a controvérsia a respeito de quais são os limites
e as possibilidades de uma tutela jurídico-constitucional dos direitos sociais
em face do impacto dos processos sociais, econômicos e políticos, que
inHuenciam profundamente as reformas legislativas e as políticas públicas,
colocando constantemente em xeque tanto os sistemas de proteção social
quanto os correlatos direitos humanos e fundamentais, longe está de
perder em atualidade e relevância. l\.tlesmo que a instabilidade das relações
econômicas e sociais possa ser considerada como um estado permanente,
o que, embora não com a mesma intensidade, atinge até mesmo socieda-
des marcadas por níveis relativamente elevados de saúde econômica e de
segurança social, pelo menos quando se considera o problema do desem-
prego (ou da instabilidade laboral), da redução gradativa dos benefícios
sociais, entre outros aspectos, segue correta a percepção de que o clamor
das pessoas por segurança (aqui compreendida em um sentido amplo), e,
no que diz com as mudanças experimentadas na esfera jurídico-normativa,
o anseio por uma estabilidade pelo menos relativa das relações jurídicas
• Doutor e Pós-Doutor em Direito (Universidade de i'vlunique e Instituto l'vlax-Planck cle Direito
Social Estrangeiro e Internacional, Alemanha). Professor Titular de Direito Constitucional na Fa-
culclacle e no Progruma cle Pós-Graduação em Direito (1\lestraclo e Doutorado) da PUCRS e na
Escola Superior da ivlagistratura do RioGrande do Sul. !\,lembro da Diretoria do IBEC -Institu-
to Brasileiro clc Estudos Constitucionais. Juiz de Direito no Rio Grande do Sul.
71
constitui um valor fundamental de todo e qualquer Estado que tenha a
pretensão de merecer o título de Estado de Direito. Assim, resulta evi-
dente a conexão entre as categorias da segurança jurídica e da segurança
social, notadamente no marco do Estado de Direito, aspecto que aqui vai
apenas referido, sem a preocupação de maior desenvolvimento.
Por outro lado, embora se trate de mais uma categoria importada de
outras experiências jurídicas, também entre nós acabou sendo recepcio-
nada a noção de que, especialmente na esfera dos direitos sociais, preci-
samente no que diz respeito à sua tutela contra medidas que tenham por
escopo a redução e/ou supressão de posições jurídicas (aqui tomadas em
sentido amplo) já implantadas, a ordem jurídico-constitucional brasileira,
pelo menos de acordo com setores da doutrina e alguma jurisprudência,
agasalhou o que se tem designado de princípio da proibição de retrocesso,
temática que, de resto, nos tem sido particularmente cara e a respeito da
qual possivelmente tenhamos publicado o primeiro artigo exclusivamente
dedicado ao tema no Brasil, muito embora a existência de algumas con-
tribuições anteriores embutidas em obras de maior amplitude, inclusive
de nossa autoria 1•
Desde então, especialmente nos últimos anos, constata~se que, além
de toda uma produção doutrinária mais recente que verse sobre o tema
no BrasiJ2, também na esfera jurisprudencial, embora de modo ainda
l Ingo \Volfbr.mg Sarlet, "O estm.lo .social de direito, a proibição de rctroce.sso e a garantia fundmnen~
ml da proprietl11de", Rr.vista da Fitctddadi!de Direita tia VFRGS, n. 17, 1999, p. 111-132. No sentido
do necesslirio reconhecimento de uma proteção contra o retrocesso emmatêria de direitos sociais,
v. tambêm o nosso A ~firâctii dos âireitos.fimdamellfais, 9. ct!., Porto Alegre: Livraria do AdYogado,
2008, p. ·1·3ü c s., com item espcd!ico sobre o tema inserido já na primeira edi~·ão, de 19~JH, periodi-
camente revisto e atualiwdn, por sua vez resultante da adequação de capftulo da nossa tese doutoral
sobre os direitos sociais no Brasil c na Alemanha, apresentada em julho de IH~J6 c publicada em
HJDi, na Alemanha, sob o titulo Die Problematik der so~tiilen Grmulredtfe in der bmsihimúclten l~t:Jits
stmg mui im deufschett Gnnulgt!.>el::- eine rer.ht.sr.•ergfeiclwnde Untermclwng, Peter Lang: Franl<furl am
Main, IDHi, 629 p. Da mesma êpoca do nosso artigo data a primeira edi\~ão da já chíssica obra de
Lenio Luiz Strec\1, Hermen(uficajuridim e(m) crise, Porto Alegre: Livruria do Advogado, 1999, p . .99,
com referência i"1 decisão do Tribunal Constitucional de Portugal sobre o tema, invocando a noçno
de uma proibi~·i!o de retrocesso soda\.
~C!:, por ültimo, alêm de uma sêrie de artigosjâ publicados, bem como intimeras referências ao tema
em cursos, manuais c obras que não versam exclusivamente sobre ;1 questão, a imporlan!e obra
monognílica de Felipe Derhli, O princf}!io da proiln[lio de refroas.m socillimJ canstittli(lio de 1988, Rio
de Janeiro: Renuvar, ~007, em que tamhêm se encontra uma excelente sinopse do rcconhedmentu
da no\'ão de proibiçno de retrocesso na evolução doutrin~íria c jurisprudencial e.strangeira e brasi-
leira, em especial p. WG c s.
72
j
\
muito tímido, são encontradas referências à noção de proibição de retro-
ccsso3. Já por essa razão, consideramos oportuno, ainda que com base em
nossos escritos anteriores, retomar a discussão, pelo menos para o eFeito
de render homenagem aos novos aportes doutrinários, ampliando o deba-
te quanto a alguns aspectos em particular, bem como reFletindo sobre a
correcão das nossas próprias posições. Dessa forma, é possível afirmar que
0 pre~ente estudo tem por objetivo principal, a partir de textos anteriores,
e mediante o diálogo com novas contribuições, revisitar o tema da assim
designada proibição de retrocesso na esFera elos direitos sociais, especial-
mente retomando a discussão em torno dos limites e das possibilidades
de tal instituto para a proteção de direitos sociais, com destaque para o
papel do princípio da dignidade da pessoa humana neste contexto. Com
efeito, embora o núcleo essencial dos direitos fundamentais sociais não
possa, no nosso sentir, ser identificado (pelo menos em toda a extensão)
com o seu conteúdo em dignidade ela pessoa humana e nem com a noção
de um mínimo existencial, ambas as categorias (dignidade e mínimo exis~
tencial) têm sido habitualmente invocadas também na esfera da proibição
de retrocesso, designadamente como parâmetro material para controlar a
legitimidade constitucional de medidas que tenham por escopo a supres~
são ou a redução de direitos sociais. Assumida como correta a premissa
de que um Estado Democrático (e Social) de Direito tem como tarefa
assegurar a todos uma existência digna (pelo menos é o que deFlui do art.
170, caput, da nossa CF), coloca-se o problema de saber até que ponto
pode este mesmo Estado, por meio de reformas na esfera da segurança
social, suprimir prestações (benefícios) ou piorar os níveis de proteção
social atingidos, ainda mais se com isso acabar ficando aquém do assim
designado mínimo existencial e, portanto, daquilo que exige o princípio
da dignidade da pessoa humana. Antes, todavia, de enFrentar a conexão
entre a dignidade da pessoa humana e a assim designada proibiçi'io de
retrocesso, importa retomar a análise de algumas premissas de ordem
terminológica e conceitual sobre a proibição de retrocesso, assim como a
respeito de seu conteúdo jurídico-normativo no sistema constitucional
brasileiro.
:I C!:, por exemplo, o acórdão no Becurso Especial n. 5Hi.87:J-rvlG, Rei. Min. Luiz Fux (D./, 25-:!-
0!00·!·), que versa sobre a ilegitimidade da supressilo da isenção do IPI para a nqubição de automóveis
por parte de portadores de necessidades especiais. Apresentando um invent<írio de decisííes onde
houve referência à nor;llo de proibiçllo de retroo .. -sso, \:, em especial, Felipe Derbl~ O princífJirJ da
jmJibiçlio de rfln;ceJSo social, cit., p. 1 Hü e s.
73
li- Fundamentação e conteúdo da assim chamada proibição
de retrocesso na ordem jurídico-constitucional brasileira
1. Aspectos terntinológicos e conceituais: enz busca de tt111
consenso possível
Se tomarmos a ide ia da proibição de retrocesso em um sentido amplo,
que significa toda e qualquer forma de proteção de direitos fundamentais
em face de medidas do Poder Público, com destaque para o legislador e o
administrador que tenham por escopo a supressão ou mesmo a restrição
de direitos fundamentais (sejam eles sociais ou não), constata-se que a
nossa ordem jurídica, ainda que não sob este rótulo, de há muito já consa-
grou a noção, pelo menos em algumas de suas possíveis dimensões. Com
efeito, desde logo se verifica que a garantia constitucional dos direitos
adquiridos, dos atos jurídicos perfeitos e da coisa julgada, assim como as
demais vedações constitucionais de atos retroativos (evidenciando o já
referido liame com a segurança jurídica) ou mesmo - e de modo todo
especial - a construção doutrinária e jurisprudencial de um sistema de
controle das restrições de direitos fundamentais já dão conta do quanto,
também entre nós, a questão da proteção de direitos contra a ação supres~
siva e mesmo erosiva por parte dos órgãos estatais encontrou ressonância.
Da mesma forma, a proteção contra a ação do poder constituinte reforma~
dor, notadamente no concernente à previsão de limites materiais à reforma,
igualmente não deixa de constituir uma relevante manifestação em favor
da manutenção de determinados conteúdos da Constituição, em particular
de todos aqueles que integram o cerne material da ordem constitucional
ou- para os que ainda teimam em refutar a existênciade limites implíci-
tos- pelo menos daqueles dispositivos (e respectivos conteúdos norma~
tivos) expressamente tidos como não insuscetíveis de abolição efetiva ou
tendencial, a teor do que dispõe o art. 60, § 4°, da Constituição Federal de
l9884• De outra parte, o reconhecimento, antes mesmo do advento da
+Sobre o tema, v. o nosso A ifioiria drJS direitosjimdamelllais, D. ed., Porto Alegre: Livra riu do
Advo6'1ldo, p. ·IO·!· e s.; a tftulo de contraponto, propondo uma exegese mais restritiva no que diz
com quais os conteúdos protegidos com base no art. fiO,§ •!!!, da Constituição Federal, v., por tH-
timo, Rodrigo Brandão, Direitos.fimdamnlfais, rlemocmcia e cláusulas jJétrl!lls, Rio Je Janeiro: Renovar,
;:!OOH. Em ambos os trtulos cit:~clos C possfvel encontrar uma avaliação detida Uns principais posi-
ções doutrimirias a respeito do temot, ussim como da oricntnção prevalcntc no Supremo Tribunal
Federal.
74
L
atual Constituição, por parte de um número expressivo de autores, de um
direito subjetivo negativo, ou seja, da possibilidade de impugnação de
qualquer medida contrária aos parâmetros estabelecidos pela normativa
constitucional, mesmo na seara das assim designadas normas constitucio-
nais programáticas (impositivas de programas, Fins e tarefas) ou normas
impositivas de legislação, também aponta para a noção de uma proibição
de atuação contrária às imposições constitucionais, tal qual adotada no
âmbito da proibição de retrocesso5• Nesse sentido, o reconhecimento de
uma proibição de retrocesso situa-se na esfera daquilo que se convencionou
chamar, abrangendo todas as situações referidas, de uma eFicácia negativa
das normas constitucionais.
A partir do e;\lJOSto, já se percebe que não podem soar tão mal os ar-
gumentos daqueles que, como é o caso de Jorge Reis Novais, sustentam que
a problemática da proibição de retrocesso social constitui, na verdade, ape-
nas uma forma especial de designar a questão dos limites e restrições aos
direitos Fundamentais sociais no seu âmbito mais amplo, visto que os direi-
tos sociais, precisamente por serem também direitos Fundamentais, encon-
tram-se sujeitos, em Lermos gerais, ao mesmo regime jurídico-constitucional
no que diz com os limites às restrições impostas pelo Poder Públicd'. Com
efeito, admitir que apenas os direitos sociais estão sujeitos a uma tutela
contra um retrocesso poderia, inclusive, legitimar o entendimento de que
existe uma diferença relevante com relação ao regime jurídico (no caso, a
tutela) constitucional dos direitos sociais e dos demais direitos fundamentais,
visto que a estes se aplicariam os critérios convencionais utilizados para
legitimar (limites) e controlar (limites dos limites) a constitucionalidade de
medidas restritivas, reforçando, inclusive, a ideia- que segue encontrando
5 Basm aqui recordar as contribuições indispens~ívcis, inclusive por terem influenciado fortemente
o discurso r.ln efetivir.ladc constitucional que tem caracteri1.ar.lo especialmente o momento constitu-
cional posterior a 1988, de Josê Allmso da Silva, Aplic11bilidade dm mmna.i cml.ititucionaú, 7. ed., Siio
Paulo: Malheiros, ~007, p. 117 c s., neste particular, embora a significativa atualiza\·iio da obra,
mantendo-se liel, em termos gerais, ao entendimento susrenrar.lo nas er.liçücs 11ublicadas ainda sob
a êgidc da Constituiçiio r.le W67-6D. Trilhando a mesma linha argumentativa, v. Luis Roberto Bar-
roso, O direito con.rtitucional e a tfeti1Jidade de suas normas, Rio de Janeiro: Renovar, l!HJO, p. JOG c s.
(em edições mais recentes, o autor também se refere à proibiçiio de retrocesso como prindpio im-
plfcito do direito constitucional brasileiro). I gualmcnte associando a proibi~~iio d c retrocesso ;) noçiiu
de clic~ícia ncgutiva dos princfpios constitucionais, v. também Ana Paula de Barcellos, A tjfcâciaju-
rídica rlu.r princípios am.rtitucimuzis, o prinCJj!iu da diguidade ,Jt, pes.wa/uwuwa, Rio óc Janeiro: Henovar,
2001,p. 70es.
1J Cf. Jorge Reis Nm·ais, Direitos.fimdameutais: trunfos contra a maioria, Coimbra: Coitnbra Er.litora,
2006, p. 200.
75
adeptos- de que os direitos sociais, especialmente em relação aos direitos
de liberdade, ou não são sequer fundamentais ou estão sujeitos a um regime
jurídico menos reforçado.
Justamente pelo fato de que importa reconhecer a força dos argu-
mentos referidos, reitera-se a nossa posição em prol da possibilidade de
uma aplicação da noção de proibição de retrocesso, desde que tomada em
sentido amplo de uma proteção dos direitos contra medidas de cunho
restritivo a todos os direitos fundamentais. Dessa forma, verifica-se que a
designação proibição de retrocesso social, que opem precisamente na es-
fera dos direitos sociais, especialmente no que diz com a proteção "nega-
tiva" (vedação da supressão ou diminuição) de direitos a prestações sociais,
além de uma ideia-Força importante (a iluminar a ideia de que existe de
fato um retrocesso- c não um simples voltar atrás, portanto, uma mera
medida de cunho regressivo), poderia ser justificada a partir de algumas
peculiaridades dos direitos sociais, o que, importa sempre Frisar, não se
revela incompatível com a substancial equivalência- referente a sua re-
levância para a ordem constitucional- entre os direitos sociais (positivos
e negativos) e os demais direitos fundamentais. Em primeiro lugar, o repú-
dio da ordem jurídica a medidas que, de algum modo, instaurem um esta-
do de retrocesso (expressão que por si só já veicula uma carga negativa)
sinaliza que nem todo ajuste, ainda que resulte em eventual restrição de
direito fundamental, configura uma violação do direito, mesmo no campo
da reversão (ainda mais quando parcial) de políticas públicas, mas que
haverd retrocesso, portanto, de uma situação constitucionalmente ilegítima,
quando forem transpostas certas barreiras.
No campo dos direitos sociais, tal Fenômeno talvez seja ainda mais
perceptível, especialmente quando se trata de alterações legislativas que
afetam um determinado nível de concretização de tais direitos. Ainda que
se diga que no campo das restrições aos direitos fundamentais sociais a
noção de limites dos limites dos direitos fundamentais (gênero ao qual
pertencem os direitos sociais) substitui por completo e com vantagens a de
proibição de retrocesso, percebe-se que a noção de proibição de retrocesso
(aqui afinada com a ideia de proibição de regressividade, tal qual difundida
no direito internacional), especialmente quando empregada para balizar a
tutela dos direitos sociais, assume uma importância toda especial, mesmo
que, como já frisado, atue como um elemento argumentalivo adicional, a
reforçar a necessidade de tutela dos direitos sociais contra toda e qualquer
medida que implique supressão ou restrição ilegítima dos níveis vigentes
de proteção socidl. Também pelas razões ora colacionadas, justifica-se a
76
r
i
nossa opção em seguir privilegiando, no plano terminológico, a expressão
proibição de retrocesso, justamente pelo fato .de que não será qualquer
medida restritiva ou regressiva (que, de certa f-orma, sempre veicula uma
restrição} que ensejará uma censura por Força da violação da proibição de
retrocesso, consoante, aliás, será examinado mais adiante.
O que já resulta do C:\.lJOSto é que também a proibição de retrocesso,
como categoria jurídico-normativa de matriz constitucional, reclama uma
deFinição jurídica, para que possa alcançar uma adequada aplicação e não
se transformar- como, de resto, se suspeita já esteja sendo o caso- em
mais um rótulo que se presta a toda a sorte de arbitrariedades e que, em
não sendo devidamente compreendido c delimitado, acaba por inserir- de
forma paradoxal - mais insegurança no sistema, justamente aquilo que
pretende- também e em certa medida!- combater.
De outra parte, é preciso enfatizar que, mesmo em se reconhecendouma Função autônoma para a proibição de retrocesso, especialmente na
seara dos direitos sociais, tal autonomia sempre será parcial e relativa. Com
eFeito, se é verdade que a noção de proibição de retrocesso não se confun~
de com a de segurança jurídica e suas respectivas manifestações, o que
sempre Fizemos questão de sublinhar7, também resulta evidente que se
registra uma incensurável conexão entre ambas as Figuras (proibição de
retrocesso c segurança jurídica), assim como incontornável o liame entre
a proibição de retrocesso e outros princípios c institutos jurídico-constitu-
cionais. Ainda que tal perspectiva venha a ser confirmada pelos desenvol-
vimentos posteriores, vale investir alguma argumentação adicional, de modo
especial em Face das críticas recebidas.
Em primeiro lugar, embora correto o argumento advogado por Felipe
Derbli, no sentido de que a proibição de retrocesso, a segurança jurídica
(incluindo a proteção da confiança) c a dignidade da pessoa humana não
se conFundem!\- aspecto que sempre Foi objeto de nosso reconhecimcn~
to! -, de tal sorte que o princípio da proibição de retrocesso assume
contornos autônomos, não se poderá aFirmar que tal autonomia implica
uma aplicação isolada e sem qualquer relação com outros institutos, como,
7 Confira-se o nosso.·/ r;ftnícia dos direitos.fimdamel!tais, cit., p. +.'1fi e s. Não é, todavia, o que parece
alinnar Felipe Derbli, O j•rincípio da proibirt1o de rdroas.w social, dt., p. 22D-221, em relação ao nos-
so pensamento, e~pedahnenw quando- de modo evidentemente equivocaclo -sugere que em-
prestamos ao princípio um caráter meramente instrumental.
H C!: Felipe Derbli, O jwiudj•io da proibirt1o de rdroa.uo social, cit., p. 213 c s.
77
de resto, demonstram absolutamente todos os exemplos encontrados na
doutrina e na jurisprudência, inclusive os casos colacionados pelo referido
autor. Com isso, ao contrário do que sugere Felipe Derbli9 , não se está
reconhecendo caráter meramente instrumental ao princípio da proibição
de retrocesso (o que, de resto, não seria em si algo grave, visto que o obje-
tivo é o de assegurar a maior proteção possível aos direitos fundamentais),
mas apenas afirmando que, como princípio implícito, a proibição de retro-
cesso se encontra reFerida ao sistema constitucional como um todo, in-
cluindo o sistema internacional de proteção dos direitos humanos, como
bem atesta o dever de progressividade m1 promoção dos direitos sociais.
Assim, perceptível que a proibição de retrocesso atua, sim, como baliza
para a impugnação de medidas que impliquem supressão ou restrição de
direitos sociais e que possam ser compreendidas como efetiva violação de
tais direitos, os quais, por sua vez, também não dispõem de uma autonomia
absoluta no sistema constitucional, sendo, em boa parte e em níveis dife-
renciados, concretizações da própria dignidade da pessoa humana. Assim,
na sua aplicação concreta, isto é, na aferição da e.xistência, ou não, de uma
violação da proibição de retrocesso, não se poderiam - como, de resto,
tem evidenciado toda a produção jurisprudencial sobre o tema- dispensar
critérios adicionais, como é o caso da proteção da confiança (a depender
da situação, é claro), da dignidade da pessoa humana e do correlato míni-
mo existencial, do núcleo essencial dos direitos Fundamentais sociais, da
proporcionalidade, apenas para citar os mais relevantes.
Por outro lado, a própria segurança jurídica e os institutos que lhe são
inerentes, com destaque aqui para o direito adquirido, exigem uma com-
preensão que dialogue com as peculiaridades dos direitos sociais, inclusive
no que diz com a própria proibição de retrocesso, abandonando-se uma
perspectiva individualista e privilegiando-se, sem prejuízo da tutela dos
direitos individuais, uma exegese afinada com a noção de justiça social,
razão pela qual, como é o caso de Marcus Orione Gonçalves Correia 10 , há
quem sustente a necessidade de se reconhecer um direito adquirido social,
aspecto que, todavia, aqui não temos condições de desenvolver.
Neste mesmo contexto, afirmar (como o fizemos em escrito anterior
e aqui reafirmamos) que a proibição de retrocesso encontra fundamento
n Ct: Felipe Dcrbli, O jm"ucípio da proibiÇiiO de relrocex.w soczid, dt., p. 221.
wct: M:1rcus Orionc Gonçalves Correia, "Direito <u.lquirido social", in: Érica Paula Barcha Correia
c Marcus Orionc Gonçalves Correia, Curso de direito da seguridade social,+. cd., Silo Paulo: Sarniva,
2008, p. 1 e s.
78
_i
wmbém (mas jamais exclusivamente) na segurança jurídica e na dignidade
da pessoa humana, com as quais, embora guarde relação, não se confunde,
também não implica reconhecer à proibição de retrocesso caráter mera-
mente instrumental. Com efeito, além da circunstância de que a proibição
de retrocesso não protege apenas a dignidade da pessoa humana e o míni-
mo existencial (o que igualmente sempre destacamos), o que se afirma é
que a própria noção de segurança jurídica, no âmbito de uma constituição
que consagra direitos sociais, não pode ficar reduzida às tradicionais Figuras
da tutela dos direitos adquiridos ou da irretroatividade de certas medidas
do Poder Público, exigindo, portanto, uma aplicação em sintonia com a
pleni:1 tutela e promoção dos direitos fundamentais em geral, incluindo os
direitos sociais. Aliás, precisamente quando apontamos para a possibilida-
de de uma noção de proibição de retrocesso em sentido amplo (que dialo-
ga- aqui sim com maior ênfase- com a segurança jurídica e a noção de
limites e restrições dos direitos fundamentas), abrangendo as designadas
"cláusulas pétreas", a garantia dos direitos adquiridos, da coisa julgada e do
ato jurídico perfeito, assim como a vedação de leis retroativas, reconhecen-
do, portanto, como já resulta do nosso primeiro texto sobre o tema, que tais
figuras não dispensam, especialmente no campo dos direitos sociais, o
reconhecimento de uma proibição de retrocesso social (em sentido mais
estrito, portanto) como princípio (?) implícito na ordem constitucional
brasileira 11 , é que se evidencia o quanto valorizamos a proibição de retro-
cesso, pois, do contrário, esta seria realmente desnecessária e cairia no
vazio, uma vez que identificada com institutos já conhecidos e que não dão
conta, na extensão devida, da tutela dos direitos sociais. Com efeito, o
reconhecimento, também e de modo especial no âmbito da ordem jurídico-
-constitucional brasileira, de uma proibição de retrocesso revela-se como
necessário (e isso também o afirmamos desde a nossa primeira manifesta-
ção a respeito do tema), pois boa parte elas medidas que resultam em su-
pressão e diminuição de direitos sociais ocorre sem que haja uma alteração
11 Embora a ampla referência a um principio da proibiçno de retrocesso, que em termos gerais as-
sumimos como possfve\, não se pode simplesmente desconsiderar a necessidnde de nmior investi-
mento argumcumtivo no que diz com a própria condição prindpio\ógicn (ou mesmo exclusivamen-
te principio lógica) dit proibição de retroce.~.~o. Aliás, o termo proiln(íiu (ns.~hn como vedaríirJ), mnbo-
ra tal aspecto por si só não sejn suficiente pnra descaracterizar a condição de principio, a partir de
determinado enunciado semântico, guarda maior proximidade com a estrutura dns regras, que são
normas que proíbem ou impõem certas condutas. De qualquer sorte, não é nosso propósito adentrar
mais nestn dimensão do problema, ainda mais em !ltce dos estreitos limites .do presente estudo,
visto que nossa intenção é a de problematizar algo tpte talve7. mereça maior reflexão do que tem
recebi~o, inclusive por nós mesmos.
79
do texto constitucional, sem que se verifique a violação de direitos adqui-
ridos ou mesmo sem que se trate de medidas tipicamente retroativas e que
possam ser resolvidas com base na tutela da confiança. Não se compreen-
de, portanto,o propósito de uma crítica (pelo menos no que concerne ao
ponto ora tratado), visto que tal crftica se direciona a algo que não afirma-
mos - pelo menos e seguramente não da forma como é sugerido - c
apenas confirma, em grande parte, o nosso próprio pensamento.
Dando sequência à tentativa de definir os contornos da proibição de
retrocesso, é preciso lembrar aqui da hipótese - talvez a mais comum
consideradas as referências Feitas na doutrina e na jurisprudência - da
concretização pelo legislador infraconstitucional do conteúdo c da proteção
dos direitos sociais, especialmente (mas não exclusivamente) na sua di-
mensão positiva, o que nos remete diretamente à noção de que o conteúdo
essencial dos direitos sociais deverá ser interpretado - também! - no
sentido dos elementos nucleares do nível prestacionallegislativamente
definido, o que, por sua vez, desemboca inevitavelmente no já anunciado
problema da proibição de um retrocesso social. Em suma, a questão central
que se coloca neste contexto específico da proibição de retrocesso é a de
saber se e até que ponto pode o legislador infraconstitucional (assim como
os demais órgãos estatais, quando for o caso) voltar atrás no que diz com a
concretização dos direitos fundamentais sociais, assim como dos objetivos
estabelecidos pelo Constituinte- por exemplo, no art. 32 da Constituição
de 1988- no âmbito das normas impositivas de programas, fins e tarefas
na esfera social, ainda que não o faça com efeitos retroativos e que não
esteja em causa uma alteração do texto constitucional.
Desde logo, à vista do gue foi colocado, parece-nos dispensar maiores
considerações o quanto medidas tomadas com efeitos prospectivos podem
representar um grave retrocesso, não apenas (embora também) sob a ótica
dos direitos de cada pessoa considerada na sua individualidade, quanto
para a ordem jurídica e social como um todo. Além disso, percebe-se niti-
damente ajri lembrada amplitude e comple.."Xidadc da temática I:!, especial-
mente no âmbito daquilo que pode ser designado como constituindo uma
1 ~ Sobre o ponto, v. a contribuiç1io de José Vicente dos Santos Mendonça, ''Vcdaçilo do retrocesso: o
que é e como perder o medo", in: Gustavo Binenbqfm (coord.), lJireitus Fuudameu/ais- Revi.lta de
Direito da Associll(lio do.> Pmcuradores do Novo Estmio do Rio de.!anâro, v. XII, Rio de .Janeiro: Lumen
.Turis, ~oo:J, p. ~05 c s., lJO referir tanto a ausência de uniformidade terminológica no âmbito da
doutrina quanto ao destacar, ainda que com bnse em omro critério do que o aqui adotado, algmm1s
das diversas e poss{veis acep~·õcs da problenHirica ( cspeciahnentc p. ~ 18 e s.).
80
"eficácia protetiva" dos direitos fundamentais. Portanto, mais uma vez vale
repisar que estamos diante de um fenômeno que, compreendido em sen-
tido amplo, à Feição, por exemplo, da proposta de <~corda com a qual se
trata ele um problema de limites dos limites próprio de todos os direitos
fundamentais, não se manifesta apenas na seara elos direitos Fundamentais
sociais, pelo menos se tomados em sentido estrito, como direitos a presta-
cães sociais 13 • Assim, por exemplo, dentre as diversas possibilidades que
~nvolvcm uma noção abrangente de proibição de retrocesso, designada-
mente em Face das peculiaridades do direito ambiental, é possível, como
bem aponta Carlos Alberto Molinaro, falar de um princípio de ved<~ção da
retrogradação, já que o direito ambiental cuida justamente da proteção e
promoção dos bens ambientais, especialmente no sentido de impedir a
degradação do meio ambiente, o que corresponde, por sua vez, a uma
perspectiva evolucionista (e não involucionista) da vida 14 •
Verifica-se, portanto, que insistir no Fato de que a blindagem dos
direitos fundamentais contra medidas retrocessivas (ou regressivas, se
preferirmos) seja um "privilégio" dos direitos sociais, como se apenas nes-
ta esfera se colocasse o problema (por mais que haja peculiaridades a ser
consideradas e que justificam o reconhecimento de uma proibição de re-
trocesso social), significaria, ao fim e ao cabo, ou a exclusão dos demais
direitos Fundamentais de tal proteção (como se aqui a proteção com base
na segurança jurídica fosse suficiente) ou a constatação- evidentemente
equivocada - de que o sistema de limitações às restrições de direitos,
designadamente a proporcionalidade e a garantia do núcleo essencial,
apenas para citar os mais importantes, nada teria que ver com a proibição
de retrocesso em matéria de direitos sociais.
Sem que se pretenda, todavia, avançar no debate sobre o quão autôno-
ma é (ou não) a garantia constitucional contra um retrocesso em relação a
outros institutos jurídico-constitucionais, partiremos aqui do pressuposto de
que o princípio da proibição de retrocesso, em diálogo permanente com
outros princípios e regras, tem assumido uma posição de destaque, seja na
esfera constitucional, seja na esfera do direito internacional dos direitos
humanos, como importante Ferramenta (não como "mero" instrumento)
~~Nesse sentido, v. tamb~m Luis Fernando Calil de Freitas, Direito.;.fmu!ameutais: limites e restrirr!es,
Porto Alegre: Livraria do Advogado, :moa, p. O! IH.
H C[ Carlos Alberto Molinaro, Direito ambiental. Proiln(lio t!e retrocesso, Porto Alegre: Livraria do
Advogado, !."!007, especialmente p. 91 e s.
81
I
il
contra uma evolução regressiva (retrocessiva) em matéria de direitos sociais,
econômicos, culturais e ambientais.Aliás, apenas para que fique consignado,
a possibilidade de se controlar medidas de cunho retrocessivo, com base em
uma proibição jurídica de retrocesso, pressupõe avaliação sempre em caráter
relaciona!, pois um retrocesso (no sentido de uma supressão, diminuição,
um voltar atrás, um regresso) somente se pode dar em relação a um estado
anterior, que sinta de referência para tal avaliação. Assim, é fim (objetivo)
constitucional erradicar a pobreza e a desigualdade, promover uma existência
digna, concretizar os direitos sociais etc., mas não poderá ser um fim em si
mesmo (no sentido de deslocado de outros parâmetros) a proibição de um
retrocesso em relação à realização dos fins referidos em caráter exemplifica-
tivo. Que com isso o princípio da proibição de retrocesso não resta diminu-
ído em importância, parece-me tão elementar quanto reconhecer que a
proporcionalidade não perde em relevância na condição de parâmetro para
o controle de constitucionalidade de medidas restritivas de direitos. De outra
parte, enfatizando a nossa opção (sumariamente justificada acima) pelo
termo proibição de retrocesso, renunciamos à pretensão de aprofundar a
querela em tomo da terminologia mais apropriada, especialmente no que diz
com a possibilidade de atribuição de um conteúdo e um significado distintos
aos demais rótulos convencionais, no caso, proibição de regressividade,
proibição de evolução reacionária, princípio da não reversibilidade, ou mes-
mo outros que possam ser utilizados. Tais expressões, para efeitos deste
trabalho, serão tidas como equivalentes à proibição de retrocesso, não apenas
pelo Fato de a considerarmos mais apropriada, mas também em Função de
um necessário acordo semântico.
Por derradeiro, antes de adentrarmos a questão da Fundamentação
constitucional e do conteúdo do princípio da proibição de retrocesso e a
despeito dos desenvolvimentos anteriores, também há que reconhecer-
até mesmo em face dos exemplos citados em caráter especulativo no pará-
grafo anterior- que é na seara das normas que estabelecem objetivos na
esfera da justiça social e, acima de tudo, dos direitos fundamentais sociais,
que a problemática tem alcançado a sua maior repercussão e onde também
nós - tal como anunciado e reafirmado aqui no nosso próprio discurso
-seguiremos centrando a nossa atenção.
2. Elenwntos para tt11za fundmnentação jurídico-constit.Hcional
de tuna 'proibição deretrocesso, especialmente em.
nzatéria de direitos sociais
De partida, aderindo ao justificado ceticismo em relação à importação
acrítica e muitas vezes inadequada de institutos oriundos de outras expe-
82
l
riências jurídicas1\ convém relembrar o leitor 1 ~> de que, ao mesmo tempo
em que a discussão em torno da redução (e até mesmo do desmonte) do
Estado Social de Direito e dos direitos sociais que lhe são inerentes apre-
senta proporções mundiais, não há como desconsiderar que as dimensões
da crise e as respostas reclamadas em cada Estado individualmente consi-
derado são inexoravelmente diversas, ainda que se possam constatar pontos
comuns. Diferenciadas são, por outro lado, as soluções encontradas por
cada ordem jurídica para enfrentar o problema, diferenças que não se li-
mitam à esfera da natureza dos instrumentos, mas que, de modo especial,
abrangem a intensidade da proteção outorgada por aqueles aos sistemas de
seguridade social, o que, à evidência, não poderá deixar de ser considerado
nas linhas que seguem, de tal sorte que também a temática da proibição
de retrocesso reclama um tratamento constitucionalmente adequado. Tal
enfoque - necessariamente diferenciado e contextualizado - assume
Feições ainda mais emergenciais quando nos damos conta de que a Cons-
tituição brasileira insere-se em um ambiente significativamente diverso,
por exemplo, do e:\']Jerimcntado pelo constitucionalismo europeu, além de
ter (ainda) um caráter marcadamente compromissário e dirigente, o que,
somado ao fato- bem lembrado por Lenio Streck- de que as promessas
da modernidade entre nós sequer foram minimamente cumprid<1s e de que
o Estado Democrático (e Social) de Direito brasileiro, na condição de
Estado da justiça material, não passa de um simulacro 17, transforma a
15 C!:, cspeciahnente na seara dos direitos sociais, Andreas !\reli, Direitos soriaú e rrmtmle ji/(Jiriallw
Bmsil e J!ll .:Jlnnallha: os (des)mminlw.r de um tfireito amstitucimwl ~companulo", Porto Alegre: Sergio
Antonio fabriti, Editor, ~00::!, p. ·H!.
16 Hcportamo-nos aqui ;)s considt!r<Jções tecidas em nosso estudo anterior sobre o tema ("'O estado
social de direito, a proibiçilo de retrocesso c a garantia fundamental da propriedade", Jln,iJta da
Facu/dlldetle Direito tia UFRGS, n. 17, 1999, p. 111 e s.), no qual, contudo, centramos a nossa atenção
na npresentação da ·•solução" germfmica, com algumas considerações juscompnrativns, inclusive
apontando para a inadt!qlmçilo (pelo menos em termos gerais) do modelo alemilo ao sistema cons-
titucional brasileiro.
17 Nt!sse contexto insere-se a (entre nós) célebre discussão a respeito da "sobrevivência'· do consti-
tucionalismo dirigente, tal qual sm·tcntmlo, ori!:,rinariamcnte, por Jo.~é Joaquim Gome.~ Canotilho m1
sua obra Co11stituip1o dirigmte e tlinmla(IIo do legislador, Coimbra: Coimbra Editora, 1982, justamen-
te emlimçilo da rcvisilo crftica levada a e!Cito pelo próprio Gomes Canoti\ho em divt!rsos trabalhos
mais rt!Centcs, especialmente a contar da déc;Jdn de 1990, no que diz com as prcmiss<JS basilares de
sua antiga tese, bastando nqui remeter o leitor no prcfiício redigido para a segunda ccliçilo da obra
ora citmla. Nilo st!ndo o cnso de adentrar lHJUi tal controvérsia, o que se verifica é que OIS mudançns
no âmbito do pensamento do Professor Gomes Canotilho, sem dúvida, devem ser enquadradas no
seu devido contexto, jâ que nem o texto da Constituiçilo portuguesa de 1976 guarda o mesmo
perfil revolucionário c dirigente que lhe foi originariamente atribufdo,jã que objeto de várias e re-
lativamt!nte prolimdas revisões, notadamente emli1ce da inst!r~~ilo de Portugal na Unillo Europcia c,
83
discussilo em torno da proibição de retrocesso na esFera dos direitos sociais
em tareFa permanente. Também por essa razi'io, resulta evidente que entre
nós o problema maior ainda é o de dar cumprimento eficiente e eFicaz ao
dever de progressiva concretizaçi'io dos objetivos sociais e dos direitos sociais
constitucionalmente reconhecidos c assegurados, do que propriamente o
de coibir retrocessos, o que não afasta a necessidade de se levar (muito) a
sério a proibição de retrocesso, naquilo onde mesmo o pouco que Foi al-
cançado possa estar em risco. Pelo contrário, onde a ampla maioria da
população se situa na faixa do assim designado mínimo existencial ou
mesmo aquém deste patamar, maior vigilância se impõe em relação a toda
e qualquer medida potencialmente restritiva ou mesmo supressiva de pro-
teção social. O dever de progressividade e a proibição de retrocesso (de
uma evolução regressiva) constituem, portanto, dimensões interligadas e
que reclamam uma produtiva e dinâmica compreensão e aplicação.
Embora se trate de instituto que recebeu ampla acolhida na comu-
nidade internacional (pelo menos, no âmbito dos direitos sociais, econô-
micos e culturais), não se pode afirmar que a proibição de retrocesso,
especialmente na perspectiva aqui privilegiada, ocupe hoje, em diversos
ordenamentos jurídicos, uma posiçilo de destaque similar a que lhe tem
sido outorgada entre nós, nem mesmo que represente um amplo consen-
so no direito comparadolB. Pelo menos, faz-se necessário reconhecer que
em muitos países a proibiçilo de retrocesso tem sido aplicada ou com
outro rótulo ou mediante recurso a outras figuras jurídicas. De outra
portanto, seu enquadramento em uma ordem jurídica supranncionrrl. Por isso também, nós- em-
bora nno de modo necessariamente coincidente com o de outros autores- seguimos sustentando
que o par<Jdignm da Constitui~·no dirigente ainda cumpre um relevante papel no ftmbito do consti-
tucionalismo p<itrio e apresenta- mesmo hoje (c talve1. por isso mesmo)- todo um potencial a
ser explorm.ln. :\ rcspeiw dessa temática, v., ainda, além do indispcns<ível contributo de Lenio Luiz
Stred<, .Jurúdirl7u constituci01wl e herme11êutica, Porto Alegre: Livraria do Advogudo, especialmente
p. IOG e s., também as lições de Gilberto Bercovid, "A problemática da Constituição dirigente: al-
gumas considerações sobre o caso brasileiro", Rn!IS!a de h!fimt/i/(1111 Lt'gúlativa, n. 1-}Q, Brasília:
Senado Feder;J\, abril/junho de w~m. p. ;J5-ii !, <Jssim como a oportuna coletf!nca organizada por
Jacinto Nelson de r>.·Jiranda Coutinho, Cmwtillw e 11 COIIS!Í/uirt7o dirige11!1', Rio de- Janeiro: Henovar,
20UQ, que rcline aportes de diversos autores nacionais e retrata uma discussão sobre o tema travada
com o próprio Gomes Canotilho.
! 11 Sobre a proibição de retrocesso no sistema internacional de protcçno dos direi tos humanos e no
direito constitucional comparado, v. a indispens;ive\ co\et5nea de Chris6an Courtis (mmp.), Ni rm
pa.m atrâs. La pruhibidón de regresividad cn materia de derechos socia\cs, Buenos Aires: Editores
Del Puerto, :!OOG, com dcst<Jque paru o ensaio introdutório do próprio organizador, Christian Cour-
tis, "La prohibición de regresividad en materia de dcrechos suciales: apuntcs introductorios'', in: J.,Tj
1111 pa.m llfnis, cit., p. 3-52.
84
parte, não se pode negligenciar pura e simplesmente a existência de ar-
gumentos contra o reconhecimento, em princípio, de uma proibição de
retrocesso na esfera das conquistas sociais. Assim, entre outros, costuma
esgrimir-se o argumento de que uma proibição de retrocesso esbarra no
fato de que o objeto dos direitos fundamentais sociais não se encontra,
de regra, deFinido no nível da Constituição, sendo, além disso, indeter-
minável sem a intervenção do legislador, de tal sorte que este deverá
dispor de uma quase absoluta liberdade de conFormação nesta seara, que,
por sua vez, engloba a autonomia para voltar atn'is no que diz com as
próprias decisões, liberdade esta que, no entanto, se encontra limitada
pelo princípio da proteção da confiança e pela necessidade de justificação
das medidas reducionistas 1"'.
Tal concepção, ao menos no nosso sentir, nãopode merecer acolhida,
sob pena de se outorgar ao legislador o poder de dispor do conteúdo essen-
ci<Jl dos direitos fundamentais sociais, notadamente no que diz com a sua
concretização legislativa, visto que no plano da mudança constitucional
Formal já se dispõe da proteção (igualmente não absoluta, embora reforça-
da) assegurada pelos limites à reforma da Constituição, temática que- tal
como anunciado - aqui não será desenvolvida. Além disso, se parece
correto afirmar que não se poderá outorgar aos direitos sociais, com base
no princípio da proibição de retrocesso, uma proteção maior daquela asse-
gurada aos demais direitos fundamentais no âmbito do sistema constitu-
cional de limitação das restrições de direitos, também não se poderá admi-
tir, ainda mais quando se cuida de ordem constitucional que reconhece aos
direitos sociais a sua condição ele direitos fundamentais, uma tutela em
princípio menor de tais direitos20•
w Este o pensamcnw de Miguel AfOn~o Vaz, Lei e re.>enm de lei. A causa da lei na Constituiçiln
portuguesa Ue 19í6, Porto, ID9!.!, p .. 'lH;J e s., consignando-se, todavia, que o a~Jtor nilo chega a
comiderar inexistente qual{lller nwni!Cst<J~~ilo de uma proibiçilo de retrocesso, jli que fotz men~~Uo il
proteção da conliança c à necessidade de mnajustilica\·ilo para a edição de medidas retrocessivas no
àmbiw da legislaçilo infraconstitucional. Entre nós, seguindo precisamente esta linha de entendi-
mento, "· Suzana Ue To\cdo Barros, O j1rindpio da proporcionalidade e u rontrole de constitucirmalidade
dm leis re.>tritinls de dirútos.fimdamentaú, Brasrlia: Brasília Jurldica, I DOU, p. lü:J, para quem .. a ad-
missão de um principio da proibi\'fio de retroce~so social, entendido como uma g-uramia dos direitos
sociais perante a lei conOita com o principio da autonomia do legislador, uma vez que o nível de
detcrminaçilo constitucional desses direito~ parece ser nenhum ...
~0 No sentido de urna tutela em regra menor dos direitos sociais em relaçilo aos direitos, liben.hu.les
c garantias, pelo menos no âmbito do direito constitucional positivo de Portugal, v., por totlos, José
Carlos Vieira de Andrade, Os tlireitos.fuudameutaú Jlil CrmJtituipio Jmrtuguesa de 1.976', :J. cd., Coimbra:
Ahncdina, 200·1·, p. ·I-OG e~-
85
Da mesma Forma, não há como acolher- pelo menos não integral-
mente (de modo especial no que diz com a exclusão da possibilidade de se
invocar uma proibição de retrocesso)- a tese sustentada entre nós por
H.oger StieFelmann Leal, que chega a admitir- em face da incapacidade
de o Poder Público atender às demandas na esFera social, isto é, no âmbito
dos limites póstos pela reserva do possível- a possibilidade de uma total
supressão de uma determinada legislação concretizadora de direitos sociais
ou a suspensão de políticas públicas na esfera da proteção sociaF1• Tal
aspecto, por guardar relação também com o problema das limites de uma
proibição de retrocesso, voltará a ser abordado mais adiante, especificada-
mente no que diz com a relevância do assim designado "mínimo existencial"
e da dignidade da pessoa humana como critérios materiais para a aFerição
da legitimidade de medidas retrocessivas.
Com eFeito, em se admitindo uma ausência de vinculação mínima do
legislador (assim como dos órgãos estatais em geral) ao núcleo essencial já
concretizado na esfera dos direitos sociais e das imposições constitucionais
em matéria de justiça social, estar-se-ia chancelando uma &aude à Cons-
tituição, pois o legislador- que, ao legislar em matéria de proteção social,
apenas está a cumprir um mandamento do constituinte- poderia pura e
simplesmente desFazer o que fez no estrito cumprimento da Constituição.
Valendo-nos aqui da lição de Jorge Miranda (que, todavia, admite uma
proibição apenas relativa de retrocesso), o legislador não pode simplesmen-
te eliminar as normas (legais) que concretizam os direitos sociais, pois isso
equivaleria a subtrair às normas constitucionais a sua eficácia jurídica, já
que o cumprimento de um comando constitucional acaba por converter-se
em uma proibição de destruir a situação instaurada pelo legislador22 • Em
outras palavras, mesmo tendo em conta que o "espaço de prognose e deci-
são" legislativo seja variável, ainda mais no marco dos direitos sociais e das
correlatas políticas públicas para a sua realização2\ não se pode admitir
que, em nome da liberdade de conformação do legislador, o valor jurídico
~~ Cf. Rogcr Stiefclnwnn Leal, "Direitos sociais c a vulgarizuçilo du noçilo de direitos fi.mdan1cntais",
arligo extra ido da p<ígina do Programa de Pós-GradLmçilo em Direito du Universidade Federal do
Rio Gramlc do Sul, acessível em <http:/ /orion.ufrgs.br/mestredir/doutrina/lcal~.htm>.
~~ Cf. Jorge Miranda, <1lamwl de direita caTJSti/uciunal, Coimbra: Coimbra Editonl, ~ooo, v. IV, p. 397
c S.
~9 C f. Cristina Queiroz, Dirdto.rfmulamentais .mciais, Coimbra: Coimbra Editora, ~006, p. 7 5. Desen-
volvendo o tópico no âmbito cla proibiçilo de retrocesso, v., cla mesma autora, O princíj,io da m1o re-
versibilidllt!e dos direito~fimdamenftlis sociais, Coimbra: Coimbra Eclitora, 2006, p. 83 c s., cuidando cla
vinr.ulaçno do legisludor aoH direitos sociais.
86
elos direitos sociais assim como a sua própria fundamentalidade acabem
sendo esvaziados2~. Tudo somado, constata-se que também a problemáticl:l
da proibição de retrocesso acaba sendo reconduzida ao tema da liberdade
de conformação do legislador (em outras palavras, da margem de ação le-
oislativa) c as possibilidades c os limites de seu controle, em especial por
;arte da assim chamada jurisdição constitucional, no marco do Estado
Democrático de Direito.
Além disso, mediante a supressão pura c simples do próprio núcleo
essenciallegislativamente concretizado de determinado direito social (es-
pecialmente dos direitos sociais vinculados ao mínimo existencial), será
violada, a depender da hipótese, a própria dignidade da pessoa, o quedes-
de logo se revela como sendo em geral inadmissível. De qualquer sorte,
cuida-se de aspecto que voltará a ser desenvolvido logo adiante, visto que
constitui ponto central do presente estudo c que diz respeito ao alcance
(limites e possibilidades) da proibição de retrocesso.
Sendo possível, à vista do exposto, considerar como inconsistentes as
teses que negam a possibilidade de reconhecimento de um princípio da
proibição de retrocesso, pelo menos no sentido da negativa de uma vincu-
lação do legislador que o impeça de suprimir ou esvaziar uma prévia con-
cretização de direitos sociais, daí não resulta automaticamente uma deter-
minada justificativa (fundamentação) jurídico-constitucional de um prin-
cípio (ou garantia) da proibição de retrocesso. Retomando aqui a tentativa
de construir uma argumentação suficientemente robusta c constitucional-
mente adequada para o reconhecimento de um princípio de proibição do
retrocesso também na ordem jurídico-constitucional brasileira, colhe-se a
lição de Luís Roberto Barroso, que, aderindo à evolução doutrinária prece-
dente, representa o entendimento que hoje aparentemente domina o
nosso cenário jurídico. Como bem averbao constitucionalista carioca, "por
este princípio, que não é expresso, mas decorre do sistema jurídico-cons-
titucional, entende-se que se um8 lei, ao regulamentar um mandamento
constitucional, instituir determinado direito, ele se incorpora ao patrimônio
jurídico da cidadania e não pode ser absolutamente suprimido"25 • Em linhas
gerais, o que se percebe é que a noção de proibição de retrocesso segue
sendo em parte reconduzida, como já frisado acima, à noção que José
~ 1 C[ Jorge Reis Novais, Direitosjimdamenfais. trunfos contra a maioria, cit., p. 180.
~r. Cf. Luis Roberto Borroso, O direi/o constitucional e 11 t:fttivúl11de de slllt.r 1wrnws, 5. ed., Rio de Janei-
ro: Renovar, 2001, p. !58.
87
AFonso daSilva apresenta como sendo de um direito subjetivo negativo, no
sentido de que é possível impugnar judicialmente toda e qualquer medida
que se encontre em conflito com o teor da Constituição (inclusive com os
objetivos estabelecidos nas normas de cunho programático), bem como
rechaçar medidas legislativas que venham, pura e simplesmente, subtrair
supervenientemente a uma norma constitucional o grau de concretização
anterior que lhe foi outorgado pelo legislador6 • Em suma, reiterando aqui
a lição de Gomes Canotilho e Vital Moreira, as normas constitucionais que
reconhecem direitos sociais de caráter positivo implicam uma proibição de
retrocesso, já que "uma vez dada satisfação ao direito, este se transforma,
nessa medida, em direito negativo, ou direito de defesa, isto é, num direi-
to a que o Estado se abstenha de atentar contra ele"27 •
A partir dessa perspectiva e renunciando desde logo ao esgotamento
e aprofundamento individualizado de todo o leque de razões passíveis de
ser referidas, verifica-se que, no âmbito do direito constitucional brasileiro,
o princípio da proibição de retrocesso (na sua dimensão mais estrita aqui
versada) decorre - como já sinalizado - de modo implícito do sistema
constitucionaFH, designadamente dos seguintes princípios e argumentos de
matriz jurídico-constitucional, o que não vale dizer- insista-se!- que a
proibição de retrocesso se conFunda com tais institutos ou mesmo que
deles decorra exclusivamente, ainda mais quando considerados de modo
isolado.
a) Do princípio do Estado Democrático e Social de Direito, que impõe
a manutenção de um patamar mínimo tanto em termos de proteção social
quanto em termos de segurança jurídica, o que necessariamente, entre
outros aspectos, abrange a garantia do mínimo existencial, assim como a
proteção da confiança c a manutenção de certa continuidade da ordem
~n Nesse sentido, H ponta-se, entre outros, além do jú relCrido entendimento de Lu[s Roberto Barro-
so, a lição jâ chissica (nmntida em edições mais recentes de sua obra) de José AfOnso da Silva, AjJ/i-
rabilidade rim Twmuis cmHti/ucimwi.r, cit., p. 1+7 c 156 c .s.; Jorge Miranda, Jlfmwal de direito cmtstitu-
donal, dt., v. IV, p. 397-JfJD; Lenio Luiz Strec!1, Hermeniulirlljilrídica e(m) crise, cit., p. 31 c .s.; assim
como Ana Paula de Barcellos, A ificââa rios f!riTtdpios curTsliluciutiiJÚ, cit., p. GH e s., que su~tema
tratar-se de um dcsdobrmncnto de uma eficlicia negativa dos princlpios con~titucionais. José Vicen-
te dos S. Mendonça, lêdarlio do retrocesso, cit., p. ~ 18 c s., muito embora .sinnlando que niio se trata
de uma quc.stilo apcnns atrelada il efidcia negativa das normas constitucionais.
~ 7 Cf. José Joaquim Gomes Canoti\hn c Vital Moreira, Fumlame111o.r da CrmxliltÚ(i1tJ, Coimbra: Coim-
bra Editora, 19~1l,p.I.'IJ.
~H Nesse .sentido também Felipe Derbli, O pri11dpio thl pmibi(üo de re/rorn.w social, cit., p. l!JD c s.,
igualmente adotando a concepção de que se cuida de um principio implrcito e hem desenvolvendo o
ponto.
88
jurídica, além de uma segurança contra medidas retroativas e, pelo menos,
de tal Forma, contra atos de cunho retrocessivo - ainda que de efeitos
prospectivos - de modo geral.
b) Do princípio da dignidade da pessoa humana que, exigindo a
s<~tisfação- por meio de prestações positivas (e, portanto, de direitos
Fundamentais sociais) - de uma existência condigna para todos, tem
como efeito, na sua perspectiva negativa, a inviabilidade de medidas que
fiquem aquém desse patamar9 • Embora o conteúdo da dignidade da pessoa
humana dos direitos fundamentais não possa, ainda mais no caso brasilei-
ro (em função da amplitude e heterogeneidade do catálogo constitucional
de direitos e garantias), ser pura e simplesmente equiparada ao conteúdo
essencial dos direitos fundamentais, é certo que tanto a dignidade da pes-
soa humana quanto o núcleo essencial operam como limite dos limites aos
direitos Fundamentais, blindando tais conteúdos (dignidade e/ou núcleo
essencial) em face de medidas restritivas, o que se aplica, em termos gerais,
tanto aos direitos sociais quanto aos demais direitos fundamentais.
c) Do princípio (e dever) da máxima eficácia e efetividade das normas
definidoras de direitos fundamentais, reForçado pela norma contida no art.
5!!., § 1 !!., da CF/88 e que necessariamente abrange também a ma.x:imização
da proteção dos direitos fundamentais, exigindo um sistema de tutela
isento de lacunas.
d) As manifestações específicas e expressamente previstas na Cons-
tituição, no que diz com a proteção contra medidas de cunho retroativo (na
qual se enquadra a proteção dos direitos adquiridos, da coisa julgada e do
ato jurídico perfeito), não dão conta do universo de situações que integram
a noção mais ampla de segurança jurídica, que, de resto, encontra Funda~
menta direto no art. 5!!., caput, da nossa Lei Fundamental e no princípio do
Estado Social e Democrático de Direito.
e) O princípio da proteção da confiança, na condição de elemento
nuclear do Estado de Direito Uá em função de sua íntima conexão com a
própria segurança jurídica), impõe aos órgãos estatais- inclusive (mas não
exclusivamente) como exigência da boa-fé nas relações com os particulares
-o respeito pela confiança depositada pelos indivíduos em relação a um
~n Aderindo a tal entendimemo e enfatizando a relação entre o prindpio da dignidade da pesson
humana eu da proibição de retrocesso social, v., mais recentemente, Dayse Coelho de Almeida, 'i\
fundamentnlidndt! dos direitos sociais c o princípio da proibição de retrocesso", in: lndu.wio .wcial, n.
1, out. 200G/niar. 2007, v. !!, p. I 18-1 ~H.
89
determinado nível de estabilidade e continuidade da ordem jurídico~objeti
va, assim como dos direitos subjetivos atribuídos às pessoas. A proteção da
conFiança, portanto, atua menos no sentido de um fundamento da proibição
de retrocesso do que como critério auxiliar para sua adequada aplicação.
Com efeito, parece evidente que os órgãos estatais, inclusive (mas não só!)
por força da segurança jurídica e da proteção à confiança, encontram-se
vinculados não apenas às imposições constitucionais no âmbito da sua
concretização no plano infraconstitucional, mas devem observar certo grau
de vinculação em relação aos próprios atos já praticados30 • Tal obrigação,
por sua vez, alcança tanto o legislador quanto os atos da administração e,
em certa medida, os órgãos jurisdicionais, aspecto que, todavia, carece de
maior desenvolvimento do que o permitido pelos limites do presente estudo.
f) Além do e:\vosto, constata-se que negar reconhecimento ao prin~
cípio da proibição de retrocesso significaria, em última análise, admitir que
os órgãos legislativos (assim como o Poder Público de modo geral), a des-
peito de estarem inquestionavelmente vinculados aos direitos fundamentais
e às normas constitucionais em geral, dispõem do poder de tomar livremen-
te suas decisões mesmo em Hagrante desrespeito à vontade e.xpressa do
constituinte31 • Com efeito, como bem lembra Luís Roberto Barroso, me-
diante o reconhecimento de uma proibição de retrocesso está a se impedir
a frustração da efetividade constitucional, já que, na hipótese de o legisla-
dor revogar o ato que deu concretude a uma norma programática ou tornou
viável o exercício de um direito, estaria acarretando um retorno à situação
~10 C f., dentre outros, Harmut Maurer,"liontinuitiitsgewilhr und Vertrauensschutz", in: Jose f lsensee/
Paulliircbhof (org.), Hmuilmch des S/aatsrah/.1 der Bmulesrejmb!ik Deutsrhla11d, v. 111, p. !:!·H e s., nilo
ob.~t<Jnte o autor- as.~im como a doutrina e njurbprudênda em gemi- .seja !:n~tnnte restritivo
no que diz com H admissilo de uma autovinculaçilo do legislador, temãtica que aqui não desenvolve-
remos, mas que tem sido objeto de certa discussilo na Almmmha, sob a rubrica tle uma vincu\açilo
sistêmicado legislador, desenvolvida essencialmente à luz do principio úa igualdade. Nesse sentido,
v., entre outros, Uwe liischcl, "Systembindung des Gesctzgehcrs und Gleichheitssatz ", in: Archiv
de.r f!J.'fimtlichen Rechts, 1999, v. l!H, p. 17•1-31 L Entre nós, conlira~se, sobre a prote~·no da confiança
no Direito Püblico, o paradig:mútico contributo de Almiro do Couto c Silva, "O principio da segu-
nmçn jurídica (proteção à confiança) no direito püblico brasileiro e o direito da ~1dministn1~·ão pU-
blica de anular os seus próprios atos administrativos: o prazo decadencial do art. 5·1• dn lei do pro-
cesso administn1tivo da Uniilo (Lei n. 9.78·1-199)", llevút11 de Direito Admim'stmtivo, n. 237, Rio de
J:mciro,jul./set. 300+; mais recentemente, v., também, a monogr;Jiia de Rai1Jell\.fallini, Princípio da
prult~çBo substancilll da COI!/illll(/1 1w direito admínistmtivo lmuileiru, Porto Alegre: Verbo Jurídico, 300G.
·~ 1 Tal ponto de vista apenas poderia ser sustentado, em tese, em se partindo da premissa de que os
direitos sociais não podem (mesmo no que diz com seu conteúdo essencial) ser definidos em nfvel
constitucional, a exemplo do que parece propor Manuel Afonso Vaz, Lei e resenlll íle le1; cit., p. 383-1·,
mas que contraria até mesmo a lógica do sistelnajurfdico~constitucional, notadamente com relaçiio
;l funçilo concretizadora exercidl! pelo legislador c demais órgãos estatais.
90
de omissão (inconstitucional, como poderíamos acrescentar) anterior32 •
Precisamente neste contexto insere-se a também argumentação deduzida
pelos votos condutores (especialmente do então Conselheiro Vital Morei-
ra) do já referido leading case do Tribunal Constitucional de Portugal, que
versa sobre o Serviço Nacional de Saúde, e sustenta que "as tarefas cons-
titucionais impostas ao Estado, em sede de direitos fundamentais no
sentido de criar certas instituições ou serviços, não o obrigam apenas a
criá-los, obrigam também a não aboli-los uma vez criados", aduzindo que
"após ter emanado uma lei requerida pela Constituição para realizar um
direito fundamental, é interdito ao legislador revogar esta lei, repondo o
estado de coisas anterior". Daí se extrai, na linha de pensamento do autor,
que as instituições, os serviços ou os institutos jurídicos, uma vez criados
pela lei ou por ato da administração pública, com o intuito de concretizar a
proteção e a promoção de direito Fundamental ou Finalidade constitucional,
passam a ter a sua existência constitucionalmente garantida, de tal sorte que
uma nova lei pode vir a alterá-los ou reformá-los nos limites constitucional-
mente admitidos, mas não pode, pura e simplesmente, revogá-los.
g) Os argumentos esgrimidos restam enrobustecidos por um funda-
mento adicional extraído do direito internacional, notadamente no plano
dos direitos econômicos sociais e culturais. Com eFeito, de acordo com
arguta observação de Victor Abramovich e Christian Courtis3\ bem reto-
mada, entre nós, por André de Carvalho Ramos·'\ que sustenta que o sis-
~~C[ Luís Roberto Barroso, O direito constitucional e 11 ifetividade de suas IWmws, cit., p. 158-169.
N~sse contexto, assume relevfmcia a controvérsia a respeito dos limites do controle da atividade
legislativa pelo Poder Judichírio, vinculada, por sua vez, à questrlo da legitimidndc dos ôrgiiosjuris-
dicionais para tal controle, temática que cYidcntemente aqui niio poderia ser desenvolvida e sobre a
qual existe vasta c qualificada doutrina nacional c estrangeira.
j~ Cf. Victor Abramovich e Christian Courtis, Los t!eredws sociales como deredws e:J:igibles, Madrid:
Trotta, ~002, p. 9!:! c s. Aprofundando o tema, com destaque paru o direito internacional e compa-
rado, v., ainda, Christian Courtis, "'La probibiciôn de regrcsh·idnd en nmtcria de derechos socialcs:
apuntes introductorios", in: Christian Courtis (cd.), Ni llll paso atrâs, cit., p. ~-52, além dos demais
ensaios constantes dn co\ctünca, dcstncando-sc os trabalhos deJulicta Rossi (p. 79-llfi) c Magdale-
na SepUlvedn (p. 117-152), ambos versando sobre a jurisprudência do Comitê de Direitos Sociab,
Econômicos e Culturais, c de Magdalena Scpú\vcda, portanto, com especial atençHo para a perspec-
tiva internacional.
~I f c r. André de Carvalho Ramos, Ttmria gemi tlo.r tlireitos lwmmws IUl ordem intenwcimwl, Rio de Ja-
neiro: Renovar, 2005, p. 2+!1 c s.; também Alcssandra Gotti Bontempo, Direilo.r sociais: ~{inicia e
tlcirmabilidade á lu= da Ccmstituiciio de !.988, Curitiba: Jurmi, 2006, especialmente p. 225 c s. bem
sustenta uma proibição de rctrocc~·so soda\ i6'1Hlhnente imucando as \içties de Abramovich e Cour-
tis, notadamente no que diz com o argumento ligado ao dever (internacional c constitucional) de
implantação progrcssiV~l dos direitos sociais. Por último, enfiltizando também este fimdamcnto, v.
Pflblo Castro 1\iriozzo, O princípio dajJroibicl1u de refrocesm soci11l e a dupla vinada(ilo do estado 11r1 det1er
91
terna ele proteção internacional impõe a progressiva concretização da pro~
teção social por parte elos Estados, encontra-se implicitamente vedado o
retrocesso em relação aos direitos sociais já concretiz<~dos.
hj) Além dos fundamentos possíveis já expostos, há quem pretenda
extrair a proibição de retrocesso, no plano de sua fundamentação jurídico-
-constitucional, dos objetivos fundamentais da H.epública, enunciados no
art. 3ll ela Constituição de 198835 • Tal proposta, embora corretamente, corno
também nós já apontamos, vincule a proibição de retrocesso não apenas
aos direitos fundamentais sociais, mas também a todas as normas consti-
tucionais impositivas de objetivos, programas e tareFas relevantes para a
consecução da justiça social e de uma existência digna para os cidadãos
(aqui também a relevância do art. 170 ela Constituição), revela-se falha
caso pretenda oferecer um Fundamento constitucional exclusivo ou mesmo
preponderante à proibição ele retrocesso social. Do contrário, poderia levar
à conclusão de gue os direitos sociais (gue não podem ser equiparados,
ainda mais no sistema constitucional brasileiro, às normas constitucionais
impositivas de programas e tareFas) encontram sua tutela assegurada de
outra maneira, não estando sequer sujeitos a uma proteção mediante a
proibição de retrocesso, por exemplo, por meio da aplicação elo regime ele
controle de restrições praticado para os demais direitos fundamentais, na
linha do gue sugere Jorge Reis Novais, reFerido acima.
A partir do exposto, verifica-se que a proibição de retrocesso, mesmo
na acepção mais estrita agui enfocada, também resulta diretamente do
princípio (e do dever) de maximização ela eficácia e efetividade de (todas)
as normas de direitos fundamentais. Por via de conseguência, o art. 52 , §
12 , da nossa Constituição, embora em primeira linha contenha uma nomm
impositiva de um dever de aplicação direta das normas de direitos funda-
mentais, serve também de fundamento para um dever de maximização do
gue também designamos de uma "eficácia protetiva" elos direitos Funda-
mentais. Isso se reflete não apenas no campo da proteção contra a atuação
do poder ele reForma constitucional (neste caso diretamente referido ao art.
60 da Constituição Federal, gue dispõe a respeito dos limites Formais e
materiais às emendas constitucionais), mas também no que diz respeito ao
dt• crmcreti:::llr os dirálos.fmulamentais: uma amilisc lu:ormenêmica, mnnogra!ia aprcscnlm.!a no âmbito
da espedalh~;Jçilo em direitos humanos, UFRGS, 10-R-:!OOB, p. H e s .
. % Nesse sentido, por exemplo, Pab]o Castro f'v[iozzn, O principirJ th! jmlibirliu de retroa.1.w soda/, dt.,
p. 5!.] e s., embora sem deixar de referir outros fundamentos rc]evnntcs e adequados do princípio na
ordem cnnstitucional brasileirn.
92
legislador ordinário e aos demais órgãos estatais, que, portanto, além de
estarem incumbidos de um dever permanente de desenvolvimento ccon-
cretizacão eficiente dos direitos fundamentais (inclusive e, no âmbito da
temáti~a versada, de modo particular os direitos soci<lis), não podem- em
qualquer hipótese - suprimir ou mesmo restringir de modo demasiada-
mente invasivo (notadamente, por invadir o núcleo essencial) o direito
Fund<:~mental, ou mesmo atentar contra as exigências da proporcionalidade.
Se em Favor do reconhecimento de uma proibição de retrocesso em
matéria de direitos fund<:~mentais não parecem subsistir maiores dúvidas,
embora a reFerida discussão sobre a terminologia36 c a maior ou menor au-
tonomia de um princípio da proibição de retrocesso em matéria de direitos
sociais, já que cada vez mais isoladas as vozes que se posicionam contraria-
mente ao instituto (ainda mais em face do elenco- não exaustivo- de
argumentos colacionados), também é verdade que há, ainda, considerável
espaço para controvérsia em torno da amplitude ela proteção outorgada pelo
princípio da proibição de retrocesso social. Este, contudo, o tema do próxi-
mo segmento, no âmbito do qual versaremos a questão da dignidade da
pessoa humana e do mínimo existencial para a sua garantia material.
I1I - Parâmetros para aferição do alcance do princípio da
proibição de retrocesso em matéria de direitos sociais,
com destaque para a dignidade da pessoa humana e o
assim chamado "mínimo existencial"
Se parece correto apontar a existência de elevado grau de consenso
(pelo menos no Brasil, em alguns Estados, assim como, de modo geral, na
esfera do direito internacional) quanto à existência de uma proteção contra
o retrocesso social, igualmente é certo que tal consenso (como já foi lem-
brado) abrange o reconhecimento de que tal proteção não pode assumir
um caráter absoluto, notadamente no que diz com a concretização dos
direitos sociais a prestações. Para além desse consenso (no sentido de que
existe uma proibição relativa ele retrocesso em matéria de direitos sociais),
constata-se intensa discussão em torno da amplitude da proteção contra o
retrocesso, sendo significativas as diferenças de entendimento registradas
-~6 C[, por exeJnp\o, controverte Cristina Queiroz, Diràlos.fimdamentllis .mcíais, c i t., p. IU5, ao referir
que "a expressão 'proibição do retrocesso social' não ó lCiiz'".
93
no âmbito doutrinário e jurisprudencial, mas também na seara das soluções
adotadas pelo direito positivo de cada ordem jurídica individualmente
considerada. Assim, ilustrando as principais tendências no que diz com o
reconhecimento de um valor jurídico à proibição de retrocesso, pode-se
partilhar do entendimento de que entre uma negativa total da eficácia ju-
rídica do princípio da proibição de retrocesso (que, ao fim e ao cabo, teria
a função de mera diretriz para os agentes políticos) e o outro extremo, o
que propugna uma vedação categórica de todo e qualquer ajuste em termos
de direitos sociais, também aqui o melhor caminho é o do meio, ou seja, o
que implica uma tutela forte, mas não cega e descontextualizada dos direi-
tos fundamentais sociais37 •
Que o reconhecimento de uma proibição de retrocesso não pode
resultar na transformação do legislador em órgão de mera execução das
decisões constitucionais e nem assegurar (caso compreendida como abso-
luta vedação de qualquer alteração ou ajuste) aos direitos fundamentais
sociais a prestações legislativamente concretizados uma eficácia mais re-
forçada do que a atribuída aos direitos de defesa em geral, visto que estes
podem ser restringidos pelo legislador, desde que preservado seu núcleo
essencial, já foi objeto de referência, na esteira das lições de Vieira de
Andrade". Com efeito, como bem averba Andreas Krell, a aplicação de
uma proibição de retrocesso, por si só, não veda uma diminuição dos direi-
tos sociais individuais para assegurar interesses públicos urgentes e rele-
vantes, pois do contrário poderia levar a uma proteção maior dos direitos
sociais em relação aos direitos de liberdade, ou direitos de defesa de um
modo geraF9 • Em síntese, se uma posição preferencial das liberdades
(Rawls) há de ser afastada, pelo menos no sentido de um caráter meramen·
te secundário dos direitos sociais, no Estado Democrático de Direito também
não se poderia justificar uma posição preferencial dos direitos sociais, tema
que, à evidência, merece maior reflexão do que aqui se pode oferecer.
Aliás, bastaria esta linha argumentativa para reconhecer (ainda que
no Brasil não se possa acolher a tese de um regime jurídico diferenciado e
reforçado dos direitos de defesa) que não se pode encarar a proibição de
:n Nesse sentido, v. Hodrigo Upriumy e Diana Guarnizo, "Es posib]e mm dogmática adccuar.la sobre
la prohibición de regrcsividml? Un enfoque desde lajurisprudencia constitucional colombiana", in:
Dú·áto.r Fmulamentaú & Jus/t(a, n . .'1, ano 2, abr./jun. 2DOH, especialmente p. ·W c s.
~IH Cl: José Carlos Vieira de Andrade, Os dirútoJjimdameutais, cit., p . .'JH 1 c s.
3n C f. Andreas ({reli, Direitos .wâais e contmle jtu!ictiiiiw Bnuil e m1 Alemtwflll, cit., p. ·W.
94
í
retrocesso como tendo a natureza de uma regra de cunho absoluto·10 , já que,
consoante apontado, não apenas a redução da atividade legislativa à exe-
cução pura e simples da Constituição se revela insustentável, mas também
pelo fato de que esta solução radical, caso tida como aceitável, acabaria por
conduzir a uma espécie de transmutação das normas infraconstitucionais
em direito constitucional, além de inviabilizar o próprio desenvolvimento
deste41 • Ademais, resulta evidente que a admissão de uma vedação absolu-
ta de retrocesso- especialmente no sentido estrito aqui versado- ine-
xoravelmente cUlminaria com a procedência das críticas formuladas pelos
seus adversários.
Feito este registro, no sentido da afirmação de que a proibição de
retrocesso assume (como parece ter sido suFicientemente Fundamentado)
feições de verdadeiro princípio constitucional fundamental implícito, que
pode ser reconduzido tanto ao princípio do Estado de Direito (por exemplo,
dada a sua vinculação com a proporcionalidade e a proteção da confiança
e da estabilidade das relações jurídicas inerentes à segurança jurídica)
quanto ao princípio do Estado Social, na condição de garantia da manu-
tenção dos graus mínimos de segurança social alcançados, sendo, afinal de
contas, corolário da máxima eficácia e efetividade das normas de direitos
fundamentais sociais e do direito à segurança jurídica, assim como da
própria dignidade da pessoa humana.
Resta, contudo, avaliar o mais difícil, qual seja, como deve ocorrer o
controle da limitação da aplicação da proibição de retrocesso. Por outro
lado, como tal aspecto diz respeito a um conjunto significativo de questões
de alta relevância, que, por sua vez, dialogam muito fortemente com os
elementos do sistema jurídico-constitucional geral de proteção dos direitos
fundamentais, será dada prioridade ao papel da dignidade da pessoa hu-
mana e do assim designado direito (e garantia) de um mínimo existencial
para uma vida digna, na condição de critérios materiais para aferição da
incidência, ou não, da proibição de retrocesso.
Em primeira linha, antes de adentrarmos o exame da dignidade da
pessoa humana, impende destacar a orientação doutrinária e jurispruden-
·lo Nesse sentido, v. tambêm, entre nôs, a reflexão de Patricia do Couto Vi!lc\a Abbud Martins, "A
proibição do retrocesso social como fenômeno jurídico", in: Emerson Garcia (coord.), A t;{elividade
dOJ direitos sociais, Rio de Janeiro: Lumen Juris, ~OO+, p. +08 c s.
11 Nesse sentido, v. tambl!m Joilo Caupers, Os direitoi.fimdameutaú dos tmbal/uulorcs e 11 Constituirr7o,
Coimbra: Almcdina, 1985, p. ·H, que, apesar de favorável à proibiçilo de retrocesso social, comunga
o entendimento de que a proteçilo dos sistemas prestacionais existentes nilo pode ser maior do que
a concedidanos direitos de liberdade (direitos de defesa).
95
cial, de acordo com a qual qualquer redução do alcance de um direito social
deverá, pelo menos prima facie, ser considerada como constituindo uma
violação do dever de progressiva realização dos direitos sociais e, portanto,
tida como ofensa à proibição de retrocesso, de tal sorte que a restrição do
conteúdo protegido de um direito social apenas se revela constitucional-
mente legítima quando cuidadosamente avaliada pelo órgão estatal (no mais
das vezes, o legislador) que a promove e que se revela como razoável e
proporcional, sendo mesmo necessária para alcançar propósitos constitu-
cionais relevantes ou até cogentes~2 • Tal orientação, como se percebe sem
esforço, guarda relação com a dogmática de há muito praticada no plano
do controle das restrições dos direitos fundamentais em geral, visto que
condiciona a liberdade de conformação do legislador e a discricionariedade
administrativa aos critérios da proporcionalidade e razoabilldade, que ba-
lizam toda e qualquer restrição de direito fundamental. Nesse sentido,
verifica-se que (aqui sem maior preocupação no que diz com a precisão
terminológica) a proibição de retrocesso opera como espécie de limite elos
limites elos direitos fundamentais sociais. Por outro lado- o que inclusive
é apontado como uma das principais vantagens dessa metódica ele contro-
le das medidas supressivas ou restritivas de direitos sociais-, presen'a-se
a necessária margem de ação e adequação do Poder Público em face dos
câmbios sociais e econômicos e mesmo no que diz com a manutenção do
equilíbrio e coerência interna do sistema jurídico-constitucional, além de
se fomentar uma ampla e responsável deliberação pública no sentido de
justificar a necessidade dos ajustes no campo dos direitos sociais~3 •
Embora não se pretenda desenvolver aqui, com a necessária proFun-
didade, os aspectos ventilados, vinculados aos critérios da proporcionali-
dade e razoabilidade e ao dever de justificação elas medidas restritivas,
assume-se como correta, pelo menos em termos gerais, tal linha de enten-
dimento, até mesmo pelo Fato de que, como já apontamos nos nossos es-
critos anteriores, em se cuidando de controlar a atuação do Poder Público
resultante em restrições de direitos fundamentais sociais, não se poderia
aqui deixar de operar com os correlatos critérios para o controle de tais
restrições, ainda que com a eventualmente necessária adequação ao regime
c peculiaridades dos direitos sociais.
~~C[, por todos, Rodrigo Uprimny e Diana Guarnizo, Dirâtos.fimdamwlaú & justiÇII, cit., p. ++e s.
•~ 1 Sobre o tôpico, v. também Rodrigo Uprimny e Dianil Gunrizo, Dirâlos.Jimdamentais & jus/i[ll, cit.,
p. 55 c s., à lu1. de diversos exemplos exlrah.los da rica jurisprudência constitucional colombiana.
96
De outra parte, também é perceptível que reduzir a proibição de re-
trocesso o. um controle da ~azoabilidade e proporcionalidade, assim como
de uma adequada justificação das medidas restritivas, poderá não ser o
suficiente, ainda mais se ao controle da proporcionalidade não For agrega-
do. a no cão de que qualquer medida restritiva deverá preservo.r o núcleo (ou
conteúdo essencial) do direito fundamental aFetado. É precisamente aqui
que a dignidade da pessoa humana e o designado mínimo existencial (assim
como a garo.ntia do núcleo essencial dos direitos) assumem particular re-
levüncia, tal como tem apontado relevante doutrina c jurisprudência.
Com eFeito, adentrando a problemática central deste texto, cobciona-se
lição ele Gomes Canotilho, a sustentar que o núcleo essencial dos direitos
sociais que Foi realizado e efetivado pelo legislador encontra-se constitu-
cionalmente garantido contra medidas estatais que, na prática, resultem
na anulação, revogação ou aniquilação pura e simples desse núcleo essen-
cial, de tal sorte que a liberdade de conformação do legislador e a inerente
autorreversibilidadc encontram limitação no núcleo essencial já realizado"'-'.
O legislodor (ossim como o Poder Público em geml) não pode, portanto,
uma vez concretizado determinado direito social no plano da legislação
infraconstitucional, mesmo com efeitos meramente prospectivos, voltar
atrás e, mediante uma supressão ou mesmo relativização (no sentido de
uma restrição), afetar o núcleo essenciallegislativamente concretizado de
determinado direito sacio.\ constitucionalmente assegurado. Assim, é em
primeira linha o núcleo essencial dos direitos sociais que vincula o Poder
Público no âmbito de uma proteção contra o retrocesso c que, portanto,
representa aquilo que efetivamente se encontra protegido~ 5 •
Muito embora tal concepção possa servir como ponto de partida para
a análise ela problemática do alcance da proteção contra o retrocesso em
matéria de direitos sociais, não nos parece dispensável algum tipo de apro-
fundamento, notadamente no que diz com a vinculação do problema às
noções de dignidade da pessoa c ela garantia elas condições materiais mí-
nimas para uma vida digna, que, por sua vez, guardam relação com a noção
de núcleo essencial dos direitos sociais, embora não se confundam neces-
sariamente.Além disso, a noção ele mínimo existencial, compreendida, por
sua vez, como a que abrange o conjunto de prestações materiais que asse-
H cr. .lose .lnnquim Gomes Canotilhu, IJir~üo canstituci01111l e lt'oria da Constitrll[ilO, 7. ctl., Coimbra:
Ahucdimt, 2007, p. 3:JH c H.
15 Neste sentido v. também Cristina Queiroz, Direitos.filmlamenllli.~ sociais, cit., p. 81 c s. c p. I O I c s.
97
guram a cada indivíduo Uma vida com dignidade, no sentido de uma vida
saudável'11', ou seja, de uma vida que corresponda a padrões qualitativos
mínimos, revela-nos que a dignidade da pessoa atua como diretriz jurídico-
-material tanto para a definição do núcleo essencial (embora não necessa-
riamente em todos os casos e da mesma forma) quanto para a definição do
que constitui a garantia do mínimo existencial, que, na esteira de farta
doutrina, abrange bem mais do que a garantia da mera sobrevivência física,
não podendo ser restringido, portanto, à noção de um mínimo vital ou a
uma noção estritamente liberal de um mínimo suficiente para assegurar o
exercício das liberdades fundamentais47•
Com efeito, partindo do pressuposto de que as prestações estatais
básicas destinadas à garantia de uma vida digna para cada pessoa constituem
(tal como já Foi lembrado), inclusive, parâmetro necessário para a justicia-
bílidade dos direitos sociais prestacionais, no sentido de direitos subjetivos
definitivos que prevalecem até mesmo em face de outros princípios cons-
titucionais (como é o caso da "reserva do possível" [e da conexa reserva
parlamentar em matéria orçamentária] e da separação dos poderes, apenas
para referir os que têm sido mais citados na doutrina), resulta evidente
-ainda mais em se cuidando de uma dimensão negativa (ou defensiva)
dos direitos sociais (e neste sentido não apenas dos direitos a prestações48 )
111 Sobre o ponto, v. o nosso Dignidade da pesJ'OII lwmmw e direitosfimdammtai.r 1111 Cmutituip1o Fedem!
t!e 1988, fi. ed., Porto Alegre; Livraria do Advogado, ~008, p. 63.
l7 A respeito da noção de mfnimo existencial, remetemos uo indispensável e pioneiro estudo- atu-
alizwJo c aprofUndado em contribuições mais recentes - de Ricardo Lobo Torres, "O mfnimo
existencial e t1s direitos 1\mdamcntais", Revista de Direi/o Adminislmfivo, 11. 177, 1989, p. 29 c s.,
muito embora o autor -H partir de uma protUnda amílise especialmente dn doutrina norrc*ameri-
cana c germf!nica- esteja aparentemente a se inclinar em prol de uma noção liberal (embora não
necessariamente reducionista) de mfnimo existencinl,já que bem destaca o papel da dignidade da
pessoa na construção do conceito de mfnimo existencial. Dentre as contribuições mais recentes,
importa referir, além do nossoA ificâcill dos direitosfinuiauwutmS, cit., p. titiO c s., o joí citado estudo
de Ana Paula de Barcellos, ,.J ~{tctÍCÜijurídica dos ]'ri11CÍjlios constitucia111Ús, especialmente p. 2+7 c s.,
assim como Paulo Gilberto Cogo Leivas, Teoria dos t!ireitosfimdtmWIItais soci11Ú, Porto Alegre: Li-
vraria do Advogado, eo06.
IH Registre-se aqui que, a despeito das críticas incisivas formuh:~das por Flâvio Galdino, "O custo dos
direitos", in; Ricardo Lobo Torres (org.), Legitimtl(lia dos direitos lmmmws, Rio de Janeiro: Henovar,
p. ltl9 c s. (especialmente a partir da p. 173), sempre reconhecemos (embora talvez nfio com sufi-
ciente ênfase) 11 interligação entre direitos negativos c positivos, assim como o fato de que oH direitos
positi\'lls possuem uma dimensão negativa (e 11 proibiçilo de retrocesso é um dos aspectos que melhor
d1i conta dessa drcunstàncin). De outra parte, convém não esquecer que, ao priorizarmos o critério
da clicá c ia jurídica (e nfio propriamente o da efetividade, a despeito de estar intimamente relaciona-
do com o primeiro), acabamos sustentando- c assim seguimos entendendo- que o fi1to de todos
os direitos terem uma dimensno positiva {como bem cnfatiza Flávio Galdino, na esteira de Hohncs
98
'l
!
!
! _que este conjunto de prestações básicas não poderá ser suprimido ou
reduzido (pura aquém do seu conteúdo em dignidade da pessoa) nem
mesmo mediante ressalva dos direitos adquiridos, já que afetar o cerne
material da dignidade da pessoa (na sua dupla dimensão positiva e negati-
va) continuará sempre sendo uma violação injustiFicável do valor (e princí-
pio) máximo da ordem jurídica e social. Com isso, também se percebe
nitidamente que a proibição de retrocesso no sentido aqui versado repre-
senta, em verdade, uma proteção que vai além da tradicionalmente impri-
mida pelas figuras do direito adquirido, da coisa julgada, bem como das
demais vedações específicas de medidas retroativas. Assim, até mesmo em
homenagem às evidentes e igualmente já referidas diferenças entre atos de
cunho retroativo e medidas prospectivas, não se poderia imprimir, ao menos
em princípio, tratamento similar a ambas as situações.
Independentemente da discussão em torno da maior ou menor au-
tonomia (se é que tal autonomia - no sentido de autonomia absoluta
-de fato existe, visto que sempre apontamos a conexão da proibição de
retrocesso com outras categorias, como a segurança jurídica e a proporcio-
nalidade, por exemplo) da proibição de retrocesso em relação ao regime
jurídico dos limites dos direitos fundamentais - no contexto do qual a
proibição de retrocesso atuaria, segundo já se apontou, como limite dos
limites-, merece acolhida a já lembrada tese de que uma medida restri-
tiva em matéria de direitos sociais em princípio deve ser encarada com
resen'aS, isto é, como uma medida "suspeita" e submetida a uma presunção
(sempre relativa) de inconstitucionalidade, de tal sorte que sujeita a con-
trole no que concerne à sua proporcionalidade ou mesmo no que diz com
a observância de outras exigências·19 • Dentre tais exigências, situa-se preci-
samente a salvaguarda do núcleo essencial e, de modo especial, do conte-
údo em dignidade humana do direito social objeto de restrição. Assim, se
uma medida restritiva de direito social deve passar pelos testes da razoabi-
lidade e da proporcionalidade, desafiando a declaração da sua ilegitimidade
constitucional se não For adequada e necessária, também deverá- ainda
c Sunstcin), no sentido de que também para proteger o direito de propriedade e a liberdade de ex-
pressão o Poder Ptib!ico necessita disponibilizar todo um aparato judiciúrio, polici:ll etc., que impli-
ca im•estimento~ de ordem econômica (aspecto que nunca nebr;unos, pois Sl!ria negar o óbvio), não
afasta a possibilidade de qualquer Juiz (independentemente de uma dimensão positiva e economica-
mente rc\cmnte), desJe logo c sem qualquer intcrmer.lia\·fio do lcgislat.lor, assegurar-emquollqucr
processo- a fruição e/ou proteção dos direitos designados (por essa raziio) de negativos ou dcfen-
si\'Os.
!!J Ct: tambóm Jorge Reis Novais, Direitos.Jiaulmnentllis: trunfos contra a maioria, cit., p. ~O!.
99
que adequada e necessária- respeitar a barreira do núcleo essencial e da
dignidade da pessoa humana.
Tais premissas, embora não mencionadas da mesma forma na funda-
mentação, encontram-se na base do Acórdão do Tribunal Constitucional
ele Portugal (Acórdão n. 509/2002), a respeito da inconstitucionalidade (por
violação do princípio da proibição de retrocesso) do Decreto daAssembleia
da Repúblíca que, ao substituir o antigo rendimento mínimo garantido por
um novo rendimento social de inserção, excluiu da fruição do beneFício
(ainda que mediante a ressalva dos direitos adquiridos) pessoas com idade
entre 18 e 25 anos. Em termos gerais e para o que importa neste momen-
to, a decisão, apesar de não unânime, entendeu que a legislação revogada,
atinente ao rendimento mínimo garantido, concretizou o direito à seguran-
ça social dos cidadãos mais carentes (incluindo os jovens entre 18 e 25
anos), de tal sorte que a legislação mais recente, ao excluir do novo rendi-
mento social de inserção as pessoas nessa faixa etária, sem a previsão e/ou
manutenção de algum tipo de proteção social similar, estaria a retroceder
no grau de realização já alcançado do direito à segurança social a ponto de
violar o conteúdo mínimo desse direito, já que atingido o conteúdo nuclear
do direito a um mínimo de existência condigna, não havendo outros ins-
trumentos jurídicos que o possam assegurar com um mínimo de eficácia.
Destaque-se, ainda, que o Tribunal Constitucional português reiterou
pronunciamentos anteriores, reconhecendo que, no âmbito da concretiza-
ção dos direitos sociais, o legislador dispõe de ampla liberdade de conFor-
mação, podendo decidir a respeito dos instrumentos e sobre o montante
dos beneFícios sociais a serem prestados, sob o press11posto de que, em qual-
qller caso, a escolha legislativa assegure, com um mínimo de eficácia jurí-
dica, a garantia do direito a um mínimo de existência condigna para todos
50 os casos .
Para além do exposto, convém frisar que, na fundamentação do pe-
dido de fiscalização da constitucionalidade em sede preventiva, aforado
pelo Presidente da República, restou assentado que "mesmo quando se
sustente numa justificação objectivamente com provável e de base consti-
tucional, o Estado não pode afetar ou suprimir prestações existentes de
uma forma arbitrária, discriminatória, com eventual violação de princípios
constitucionalmente consagrados, como sejam o princípio da confiança
"u Para quem deseja aprofundar a análise, vale a pena conferir na Integra a fundamentação do já
citado Acónlilo n. ií09/2002, Processo n. 7GB/2U02, apreciado pelo Tribunal Constitucional de
Portugal em W-12-2002.
100
r
I
própria do Estado de Direito ou, mais especificamente, no caso, o princípio
da joualdade ou o princípio da universalidade na titularidade e exercício
dos direitos Fundamentais".
Da análise da paradigmática decisão ora citada, que harmoniza com
a argumentação desenvolvida ao longo do presente texto, resulta que uma
medida de cunho rctrocessivo, para que não venha a violar o princípio ela
proibição de retrocesso, deve, além de contar com uma justiFicativa de
porte constitucional, salvaguardar - em qualquer hipótese - o núcleo
essencial dos direitos sociais, notadamente naquilo em que corrcsponde às
prestações materiais indispensáveis para um<~ vida com dignidade para
todas as pcssoas51 , já que - como bem revela o caso ora examinado -
também haverá de ser respeitado o princípio da universalidade no que diz
com u titularidade dos direitos Fundamentais5\ pelo menos daqueles que
possuem um conteúdo em dignidade da pessoa humana. De tal sorte, não
há, de fato, como sustentar que o reconhecimentode uma proibição de
retrocesso em matéria de direitos sociais (nos termos expostos) resultaria
em uma aniquilação da liberdade de conFormação do legislador, que, de
resto- e importa relembrar tal circunstância- nunca foi e nem poderia
ser ilimitada no contexto de um Estado constitucional de Direito, como
bem revelam os significativos limites impostos na seara das restrições le-
gislativas ao exercício dos direitos fundamentais.
Considerando que o núcleo essencial dos direitos fundamentais,
inclusive sociais, nem sempre corresponde ao seu conteúdo em dignidade
(que poderá ser variável, a depender do direito Fundamental em causa), é
de se admitir até mesmo a eventual inconstitucionalidade de medidas que
- mesmo não afetando diretamente a dignidade da pessoa humana -
inequivocamente estejam a invadir o núcleo essencial. Que também no
âmbito da proibição de retrocesso importa que se tenha sempre presente
a circunstância de que o conteúdo do mínimo existencial para uma vida
digna encontra-se condicionado pelas circunstâncias históricas, geográficas,
sociais, econômicas e culturais em cada lugar e momento em que estiver
em causa, mas varia também conforme a natureza do direito social em
.1 1 Entre nós, v., nesse sentido e na esteira da li~·ão de Gomes Cm10tilho, a en!~ítica posi\·ão também
de Aldacy Rachid Coutinho, "15 anos de Constituição de direitos dos trabalhadores", in: Fernando
Fncury Sca!f (org.), Cmutitucionali:::ando direitos, llio de .Jnneiro: Renovar, 200~, p. 5/H-~80.
"~A respeito da titularidade dos direitos fundmnentais, em uma perspectiva também basemJa na
dignidade e universalidade, v., por último e dentre tantos, o nosso .-1 ~ficâria dosdireitosfundmmmtaú,
ciL, p. ~~~e s.
101
particular (moradia, saúde, assistência social, apenas para mencionar alguns
exemplos), resulta evidente e vai aqui assumido como pressuposto de nos-
sa análise.
Com relação à objeção -já referida- de que em função da inci-
dência da assim designada "reserva do possível", isto é, de uma justificati-
va calcada na falta de recursos e, portanto, fundada na necessidade de
promover ajustes para menos ou mesmo a supressão de certas prestações
sociais, não haveria como invocar, com sucesso, a proibição de retrocesso,
importa ter presente alguns fatores que, no mínimo, não deveriam ser
negligenciados. Em primeiro lugar, se tem sido geralmente admitido que,
na esfera da garantia do mínimo e.xistencial, há um direito subjetivo defi-
nitivo às prestações que lhe são inerentes, ou seja, que eventual obstáculo
de ordem financeira e orçamentária deverá ceder ou ser removido, inclu-
sive mediante a realocação de recursos, fixação de prioridades, ou mesmo
outras medidas, também- c neste caso com mais razão ainda- não se
poderá pretender suprimir ou esvaziar, pelo menos não aquém do mínimo
existencial, a concretização já levada a efeito dos direitos sociais. Como
exemplo dessa tutela negativa do mínimo existencial, colaciona-se a sua
Função corno limite material ao poder de tributar do Estado, já que este,
em regra, não pode tributar o mínimo existencial (no âmbito do imposto
sobre a renda, por exemplo), ainda que mediante a alegação da necessida-
de de reforçar a arrecadação para promover os direitos sociais 53 • Aliás, até
mesmo a exigência de determinadas contribuições, tributos e taxas poderá,
dadas as circunstâncias, ser questionada no concernente à sua legitimida-
de constitucional, se tiver como efeito a compressão desproporcional de
direitos sociais, em especial comprometendo o mínimo existencial5\ ques-
tões que definitivamente não temos condições de aqui desenvolver. O que
se percebe, à vista do exposto, é que o mínimo existencial e a dignidade da
pessoa humana operam tanto como fundamentos para a limitação de direitos 55,
"~1 Subre o mínimo existencial e a cligniJacle t.!<l pessoa humana como limites ao poder de tributar, v.,
entre nós e por todos, Ricardo Lobo Torres, Tmtado de direi/o nmstiludrmalfimmceiru e lrilmtârio: os
direitos humanos c a tributaç;lo- imunidades e isonomia, Rio clc Janeiro: Renovar, 1999, p. 1+1· e s.,
bem como, mais recentemente, Humberto A.vila, Sistemtl constitucional tributlirio, ~- cd., Siio Paulo:
Saraiva, !:!OOfl, p. ,'1!11 c s.
"'Cf, entre oulros, busca demonstrar Gustavo Podcstá Sedra, '1\ im:onstirucionalidade da incidên-
cia de contribuiçí\('s prc\'idenciárias (cota patronal) sobre o fOrnecimento gratuito de utilidades
destinadas a melhorar as condições sociais dos trabalhadores {seguro~saüde, bolsa-cducaçiio, cursos
d(' capacitação profissional etc.)", lla11"sta Dialética rlt! Direito Tributário, n. !·H·, sct. !:!007, p. lli e s.
55 C[ o nosso Diguidade tia f'essoalwmtuwe direito.rjimdammtais na Con.rtitm(tio Fedem{ de 1988, cit.,
Jl· 12:1 C S.
102
I
I
quando tal se revelar indispensável à salvaguarda da dignidade, quanto
atuam como limite dos limites, pois constituem, ao mesmo tempo, o mar~
co a ser respeitado pelas medidas restritivas.
Por outro lado, o que importa, nesta quadra, é enfatizar que, embora
a alegação da falta de recursos para a manutenção de determinados bene-
fícios sociais ou, o que é mais comum, para a preservação de determinado
patamar de proteção social, seja um possível fundamento para justificar uma
medida restritiva, não poderá servir de justificativa para a afetação do núcleo
essencial dos direitos sociais, ainda mais quando em causa as exigências
mínimas para uma vida com dignidade. Com efeito, se o mínimo existencial
é aquilo que o Estado, em todo o caso, deve assegurar positivamente, tam-
bém é aquilo que o estado deve respeitar por força de um dever de não in-
tervenção. Precisamente nessa perspectiva (ainda que não idêntica a argu-
mentação), vale referir julgado do Tribunal Constitucional da Colômbia, de
acordo com o qual a decisão de reduzir os recursos destinados a subsidiar
habitações para a população de baixa renda, promovida pelo Poder Público
municipal, embora em abstrato justificada pela necessidade de contenção
de despesas (pela carência de recursos) e atendimento a outras demandas
de cunho social, não resultou convincente no caso concreto, especialmente
quando as dificuldades financeiras apontadas podem ser atribuídas à falta
de planejamento e gestão deficiente do próprio Poder Público,.,.
Em face do exposto, importa reafirmar, no contexto da proteção dos
direitos sociais na esfera de uma proibição de retrocesso, que uma violação
do mínimo existencial (mesmo em se cuidando do núcleo essencial legis-
lativamente concretizado dos direitos sociais) significará sempre uma vio-
lação da dignidade da pessoa humana e, por esta razão, será sempre des-
proporcional e também inconstitucional, o que, à evidência, não afasta a
discussão sobre qual o conteúdo do mínimo existencial em cada caso e no
contexto de cada direito social'7•
Ainda no que diz com relevância ao princípio da proporcionalidade
na esfera da assim designada proibição de retrocesso e da salvaguarda dos
·'
6 C[ senhm~·a T-1518 de ~OO.'í, re!Crida e comentada por Rodrigo Uprimny c Diana Guarizo, Di-
reitos.fimdtlTIIelllllÚ & jusli(ll, op. cit., p. ·1·8-t9 .
• 17 A respeito da dignidade da pessoa humana como limite das restrições a direitos fundamentais v.
o nosso .1th~'7lidade da jJeJwalwmmw, p. 119 e s.; sobre o princfpio da proporcionalidade e a filnção
da dignidade da pessoa humana neste contexto, v., entre outros, Heinrich Schullcr, "O prindpio da
proporcionalidade no direito constitucional c administrativo da Alemanha", R~'VÚ'/11 Interesse Público,
n. s, 1999, p. DS- 107.
103
~.!1'.·
i
li
I
direitos sociais vinculados ao mínimo existencial, importa lembrar que a
proporcionalidade opera tanto como uma proibição de excesso quanto
naquilo em que, vinculadd aos deveres de proteção- com os quais não se
confunde-, proíbe uma proteçãoinsuficiente- demandando, pelo con-
trário, uma proteção social compatível com as exigências da dignidade da
pessoa humana no marco de um Estado Democrático e Social de Direito58•
A conexão entre a proibição de retrocesso social e a assim designada proi-
bição de proteção insuficiente ou deficiente (o que abrange, no caso, a
proteção social, em geral representada pela concretização dos direitos so-
ciais) resulta evidente, pois atua tanto como parâmetro para o controle das
omissões e ações insuficientes do Poder Público quanto serve de critério
para o controle de medidas que venham a resultar na supressão ou dimi-
nuição de direitos sociais antes concretizddos em nível satisFatório, ou seja,
em patamares correspondentes às exigências do mínimo e.xistencial.
Daí para extrair da proibição de retrocesso, que opera como salva-
guarda (na perspectiva negativa) dos direitos sociais em relação a restrições
estabelecidas pelo Poder Público, uma obrigação positiva de atuação no
sentido de implantação, por meio de ações estatais, de níveis adequados
de proteção social, parece-nos metodologicamente inapropriado e dogma-
ticamente equivocado59 • Com efeito, não sení a proibição de voltar atrás
no que diz com os níveis de concretização dos direitos sociais o Fundamen-
to do dever de progressiva implantação e realização de tais direitos, mas é
de tal dever que, ao revés, se deduz (assim como tem sido apontado espe-
cialmente na í.'írea do direito interndcional dos direitos humanos) a proibi-
ção de regressividade. Do contrário, sequer haveria necessidade de normas
constitucionais impositivas de programas e tarefas na Constituição, ou
mesmo dos direitos sociais, já não decorreria diretamente um dever de
proteção e promoção por parte dos órgãos estatais.
Para além do exposto e tendo em conta que a dignidade da pessoa
humana c a correlata noção de mínimo existencial, a despeito de sua trans-
cendental e decisiva relevância, não são os únicos critérios a ser conside-
rados no âmbito da aplicação do princípio da proibição de retrocesso, im-
5 H C[ bem apontado por Cri~ tina Queiroz, Dirdtos.fmu!amentaú .wciais, cit., p. 117. Da mesma nu to-
ra, com maior tlesenvolvimentu, O jwilldj!Ío da mio revenibilidmü dos direilmfwulaml'lllllÍS .wáais, cit.,
p. ífiep. IOOes.
"'
1 Esse, todavia, parece ser o entendimento de Pablo Castro Miozzo, O princípio da j>roiln(110 dtl re-
lrort.s.m .wcial, dt., p. 81 e s., que buscu !hndamentar uma dupla dimensilo (limçiio) da proihiçilo de
rctrncesso.
104
porliJ relembrar aqui .as noções de segurança jurídica e proteção da con-
Fiança, igualmente rderidas na decisão colacionada. Assim- mesmo que
não se pretenda desenvolver esses aspectos -, é certo que, também na
esFera da proibição de retrocesso tal como versada, a noção de segurança
jurídica pressupõe a confiança na estabilidade de uma situação legal atual60 •
Com eFeito, a partir do princípio da proteção da confiança, eventual inter-
venção restritiva no âmbito de posições jurídicas sociais exige, portanto,
uma ponderação (hierarquização) entre a agressão (dano) provocada pela
lei restritiva à conFiança individual e a importância do objetivo almejado
pelo legislador para o bem da coletividaclé1• Que tais questões- conso-
ante já frisado- remetem-nos novamente ao princípio da proporcionali-
dade, mas também dizem com o princípio da isonomia, os quais igualmen-
te devem ser obsen,~ados neste contexto, salta aos olhos, embora aqui não
venha a ser mais desenvolvido. Para o nosso propósito, basta aqui que se
Faça referência, com particular ênFase, ao fato de que tanto o princípio da
proteção da conFiança quanto os princípios da proporcionalidade c da
isonomia desaFiam a adoção não apenas de regras razoáveis de transição,
mas também a imposição de soluções suficientemente diFerenciadas e
proporcionais mesmo no âmbito interno das regras de transição.
De outra parte, mas ainda na esfera das possíveis relações entre a
proibição de retrocesso c a segurança jurídica, relembre-se aqui a já citada
lição ele Hartmut J\!Iaurer (muito embora este não tenha explorado com
maior ênFase a questão da proibição de retrocesso no sentido aqui propos-
to), que afirma que segurança jurídica acaba por signiFicar igualmente
lillC[ \Vinfried Boechen, Derver:fimungsrechtlidtt. ~\'clwt:; '1!011 Altersrentmansjmtche utuiAnwartschqflen
in Italien mui in der B111ulesrejmblik Dwtsch!mul sowie deren Sdwt:; im Rilhmeu der Eurujuiúrhm
1Uenschenrechlskonvenlilm, Berlin: Duncher & Humblot, 19fl7, p. l:lO.
111 C!:, dentre tantos, Dietrich 1\atzcnstein, "Die hi!ihcrigc flechtsprechung des. Bundesverfassun-
gsgerkhts zum Eigentumsschutz sozialrerhtlicher Pnsitionen", in: FeJlschr!JlJilr Helmut Simou,
Baden-Baden: Nomos, J.ql:l7, p. 8ü!!, com apoio najurisprudl•ncia do Tribun1d Constitucional Fede-
ral. Neste contexto, Hans-Jtirgen Papier, "Der Einlluss des Verfassungsrechts auf t.I;Js Sot.htlrecht",
in: Bcrnd Baron von M:tydcll/Frant. fluland (org.), So:::ialruh!.ílullulburh, 3. ct.l., Batlen-Badcn: Nomos,
2005, p. 120, lembra que no âmbito da pondernçiio de bens e interesses a ser procedida em e<tda caso,
a regulaçilo legislativa será inconstitucional apenns qu;mdo se verilicar que a confiança do individuo
na continuidade da sitllôiÇilo legal /Jtual pode ser tida como prevnlentc em face clos o~jcüvos alme-
jados pelo legis\;Jdor com as alterações propostas, destacando, todavia, que tais critérios assumem
um papel secundúrio na aferiçiio da constitucionalidade de medidas retroativns. Tallõrmu]a rem sido
laq,ramcnte adot:u..la pelo Tribunal Constitucional Fcder;tl da Alemanha {cspecinlmentc desde
BTé~fGE !!+, p. !!!!0, 250 c s.), no sentido de que importa ponderar, em cada caso, entre a extcnsno
do dano ;i confmnça do individuo c o signilicndo da medida adotadn pelo Poder Ptiblico para a co-
munidade.
105
certa garantia de continuidade da ordem jurídica, que, evidentemente, não
se assegura exclusivamente com a limitação de medidas estatais tipicamen-
te retroativas{'2• Que o princípio da proibição do retrocesso atua como re-
levante fator assecuratório também de um padrão mínimo de continuidade
do ordenamento jurídico nos parece, portanto, mais um dado elementar a
ser levado em conta, que apenas reforça as demais dimensões exploradas
neste estudo. Assim, parece ter sido suficientemente demonstrado o quan-
to a otimização da eficácia e a efetividade de um direito à segurança (in-
cluindo a segurança jurídica) reclamam - também - certa proteção
contra medidas do Poder Público que venham a aniquilar ou reduzir, de
modo desproporcional e/ou ofensivo à dignidade da pessoa Uá que as duas
situações nem sempre são coincidentes), os níveis já concretizados de
proteção social. Além do mais, atentando especialmente para os gritantes
níveis de exclusão social e os correspondentes reclamos de proteção contra
medidas que venham a corroer ainda mais os deficitários patamares de
segurança social ora vigentes entre nós, é possível afirmar- com ênfase
- que a análise sóbria e constitucionalmente adequada da temática ora
sumariamente versada assume caráter emergencial.
Neste contexto, voltamos a Frisar que um dos principais desafios a serem
enfrentados, também no âmbito de uma proibição de retrocesso, é o da
adequada hierarquização entre o direito à segurança jurídica (que não possui
-convém frisá-lo- uma dimensão puramente individual, já que constitui
elemento nuclear da ordem objetiva de valores do Estado de Direito como
tal) e a igualmente Fundamental necessidade de, sempre em prol do inte-
resse comunitário, realizar os ajustes que se fizerem indispensáveis, por
vezes até mesmo para a salvaguarda dos próprios direitos sociais, já que a
possibilidade de mudanças constitucionalmente legítimas e que correspon-
dam às necessidades da sociedade como um todo (mas para a pessoa indi-
vidualmenteconsiderada) carrega em si um componente de segurança
(inclusive jurídica) que não pode ser desconsiderado.
IV- Considerações finais
Cientes de que desta feita deixamos muitas questões em aberto, es-
peramos, todavia, ter logrado ê.'\ito pelo menos na tarefa de, ao revisitar o
ti~ C[ Hartmut Maurcr, "1\ontinuitntsgcwllhr unr.l Vcrtraucnsschutz,", in: 1-lmuilmch des ._\'ltwfsrechts
der Brmdesrejl/lblik Deutschll/lul, cit., p. ~H:J c~ .• sinalando, todavio1, a existência de uma distinção cnlrc
106
_1_
tema, incorporar uma série de novas contribuições ao debate, mas em es-
pecial, melhor explicitar algumas questões, além de dialogar com alguns
aportes, pelo menos em parte, divergentes. Em síntese, sem qualquer
pretensão de efetuar um inventário completo dos aspectos apresentados,
seguem algumas conclusões e proposições, que, talvez, possam contribuir
para o avanço no debate sobre as possibilidades e os limites da proibição
de retrocesso.
Em primeiro lugar, cremos ter conseguido reForçar- respondendo
às críticas recebidas neste particular- que a estreita ligação entre o pro-
blema ela proibição de retrocesso social e a segurança jurídica, assim como
com outros princípios e direitos fundamentais, com destaque para a digni-
dade da pessoa humana, não diminui a relevância da proibição de retroces-
so, especialmente na seara dos direitos sociais, nem lhe retira a sua -
sempre parcial- autonomia.
Da mesma forma, foi amplü1da e mais bem e:x']Jlicitada a fundamen-
tação jurídico-constitucional da proibição de retrocesso na ordem jurídico-
-constitucional brasileira, na condição de princípio implícito, com a função
precípua de atuar na salvaguarda dos direitos sociais contra sua supressão
c diminuição.
No que diz com a sua forma de aplicação, restou demonstrado que,
entre a desconsideração de sua eficácia jurídica e uma proteção absoluta
elos direitos sociais, a proibição ele retrocesso não impede medidas que
venham a suprimir ou, pelo menos, restringir o âmbito de proteção dos
direitos sociais e a aFetar o seu conteúdo legislativamente concretizado.
Nesta perspectiva, além da circunstância de que a edição de uma
medida restritiva de direitos sociais desafia uma justificativa consistente
por parte do Poder Público, em especial demonstrando a necessidade
efetiva do ajuste, também deverá ser demonstrada a ausência de meios
alternativos menos gravosos, portanto, necessária à aferição da proporcio-
nalidade c razoabilidade da medida. A proporcionalidade manifesta-se na
sua dupla acepção, como proibição de intervenção excessiva no âmbito de
proteção dos direitos Fundamentais, e também como proibição de ausência
e insuficiência de proteção, o que acabou sendo igualmente estabelecido.
De outra parte, invocada a ausência de recursos suficientes para a
manutenção de determinados direitos sociais ou políticas públicas, tal si-
a proteção de confiança c a garantia de continuidade da ordemjurfdica, aspecto que aqui nllo desen-
volveremos e a respeito do qual, inclusive na doutrina gl!rmânica, não existe pleno consenso.
107
I' ,,
!j
I
tuação (da disponibilidade de recursos) nilo poderá ser imputável ao Poder
Público, ainda mais quando existirem alternativas à disposiçilo para evitar
a supressão ou a diminuição de prestações sociais essenciais. Que as Figu-
ras vinculadas à segurança jurídica, como é o caso da proteção da confian-
ça, nilo podem pura e simplesmente ser tidas como complet<:Jmente alheias
a tal processo de controle das medidas supressivas e/ou restritivas de direi-
tos sociais, igualmente resulta evidente e foi novamente objeto de atenção
no presente texto.
No que diz com o papel da dignidade da pessoa humana no contexto
da aplicaçilo da proibição de retrocesso em matéria de direitos sociais,
destacam-se tanto a vinculação da dignidade da pessoa humana com o
direito (e a garantia) a um mínimo existencial, por sua vez relacionado com
os direitos sociais básicos e com o seu núcleo essencial, com os quais, to-
davia, não se confunde, quanto com as noções de limite dos direitos Fun-
damentais c de limite dos limites, Nesta perspectiva, a dignidade da pessoa
humana, o mínimo existencial e o núcleo essencial dos direitos Fundamen-
tais operam como barreiras que demarcam o espaço de proteção em Face
da liberdade de conformação do legislador e da discricionariedade admi-
nistrativas, embora tais questões apenas possam ser devidamente avaliadas
no caso concreto.
Além do mais, atentando especialmente para os gritantes níveis de
exclusão social c os correspondentes reclamos de proteção contra medidas
que venham a corroer, ainda mais, os deFicitários patamares de segurança
social ora vigentes entre nós, é de reafirmar que a análise sóbrü:J e consti-
tucionalmente adequada ela temática ora versada neste ensaio (que não
possui mais do que caráter exploratório) assume caráter emergencial e
segue reclamando uma atenção constante da nossa doutrina e jurisprudên-
cia, em especial no que diz com a construção de uma sólida e adequada
dogmática jurídico-constitucional, que define os contornos, os limites e as
possibilidades da proibição de retrocesso.
É pelas razões enunciadas que se faz necessária também a reconstru-
ção (e nilo abandono) da noção de constitucionalismo dirigente, que,
portanto, impõe uma vinculação do legislador ao postulado de uma eficien-
te c eficaz promoção e garantia dos direitos fundamentais, mesmo (e talvez
por isso, como já o lembramos ao tratar da segurança jurídica) em uma
sociedade em constante processo de mudança. Com efeito, considerando
os desenvolvimentos antecedentes, seguimos acreditando que o reconhe-
cimento de um princípio constitucional (implícito) da proibição de retro-
cesso constitui- pelo menos no que diz com a vinculação do legislador
108
aos programas de cunho social e econômico (nos quais se insere a previsão
dos próprios direitos sociais, econômicos e culturais)- uma manifestação
possível de um dirigismo constitucional, que, além de vincular o legislador
de Forma direta à Constituição, também assegura uma vinculação que
poderíamos designar de mediata, no sentido de uma vinculação do legisla-
dor à sua própria obra, especialmente com o propósito de impedir uma
frustração da vontade constitucional. Ainda que a concepção de uma cons-
tituição dirigente careça de alguma revisão, como de hei muito foi proposto
pelo seu maior teórico"3 , também tal revisão- como bem o demonstraram
autores de nomeada entre nós- há que ser devidamente contextualizacla,
pena de chegarmos a resultados constitucionalmente inadequados c, por-
tanto, ilegítimos.
Por derradeiro, se o manejo constitucionalmente adequado c respon-
sável do princípio da proibição ele retrocesso (que definitivamente não se
presta a blindar privilégios injustificáveis, pelo simples fato de terem sido,
em determinado conte:xto, assegurados a certo grupo de pessoas) não cons-
titui certamente a única via para proteger os direitos fundamentais sociais,
também não restam dúvidas de que se trata de uma importante conquista
da dogmática jurídico-constitucional para assegurar, especialmente no
plano de uma eficácia negativa, a proteção dos direitos sociais contra sua
supressão e erosão pelos poderes constituídos.
r.~ C[, em especial, o prcfãcio tle .José Joaquim Gome~ C.motilho na segunda edição cla sua obra sobre
a Constituiçno dirigentc,jã referida.
109
I - Introdução
INTERPRETAÇÃO DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS SOCIAIS,
SOLIDARIEDADE E
CONSCIÊNCIA DE CLASSE
Marcus Orione Gonçalves Correia"'
Temos, há algum tempo, tentado realizar uma interpretação dos direi-
tos sociais a partir de uma hermenêutica constitucionaJl. É claro que, no
nosso caso particular, por termos uma atuação direta com os direitos sociais
no nosso dia a dia, a discussão não se dá apenas emtese, mas essencialmen-
te a partir da práxis desses direitos. Sentimo-nos, pois, aptos a realizar
tanto uma discussão Filosófica quanto procedimental em relação aos direitos
sociais- na medida em que vivenciamos o seu exercício diário2•
Essa constatação se Faz importante, uma vez que temos entendido,
cada vez mais, que as duas óticas são indispensáveis para a percepção dos
• Doutor c Livre-docente. Professor Associado da Faculdade do Departamento de Direito do Tra-
balho c da Seguridade Social e da úrca de concentraçllo da P6s-Graduaçilo em Direitos Humanos da
Faculdade de Direito {la Universidllde de Silo Paulo c da Escn\a Paulista de Direito Social. Juiz da
t.! Vara Federal Previdenchíria de Silo Paulo.
1 Assim temos !Cito em v;írias de nossas obro1s c participaçno em obras coletivas. Veja-se, por exem-
plo: CORREIA, Érica Paula Darcha e CORREIA, Marcus Orionc Gonçalves. Curso tÜ direito lia
seguridade .wâal. +~ ed. Sno Paulo: Saraiva, 2008; CORREIA, Érica Paula Barcha e CORREIA,
Marcus Orione Gonçalves (org.). Direito pn'Videnciârio e amsliluipio. Silo Pollllo: LTr, !:JOO+; COHREIA,
Marcus Orione Gonçalves (org.). Curso de direi/o do tmlmllw. Silo Paulo: LTr, ~007. V. L
~Aqui ê interessante levantar algumas considerações tecidas por l\arl Mnrx. Neste, a impurtoincia
de se aliar a prú:xis ao pensamento filosófico ê uma constante. A rt!speito, por exemplo, "resumida-
mente, é impossível extinguir a Filosofia sem a realizar" (In i.1llllwscrilw ecumimica:ftlosrificus. São
Paulo: Martin Clarct, p. 51). Ou ainda: '1\ssim, como antagonista decidida da anterior conligurnçilo
da consciência polltica alemã, a crftica da filosófica cspeculativa do direito nno se perde em si mesma,
mas leva a tarefas que só podem ser resolvidas por um Unico meio: a atividade pr;itica" (Ibidem, p.
52). E mais adiante: "Mas a própria teoria torna-se, da mesma forma uma fOrça material quando se
apodera das massas" (Ibidem, p. 53). E também: '1\ teoria só se concretiza num povo na medida em
que é realizaçllo das suas necessidades" (Ibidem, p . .'H). Concluindo: ':Agora iremos à slntesc dos
resultados: a cmancipn~·i\o dos alemiles só é poss{vel na prática se adotar o ponto de vista da teorin,
segundo a qual o homem C para o homem o Sl.!r supremo" (Ibidem, p. 59).
111
I!
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(
f
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fenômenos da interpretação e aplicação do direito social. Há a necessidade,
contra a qual não se pode lutar, de que a interpretação se processe a partir
de uma postura Filosófica do hermeneuta. Assim, o intérprete deve-se
postar criticamente e conhecer de forma clara a posição que ocupa no ato
de intcrpretar3• Logo, a interpretação, já de início, insere-se na perspectiva
científica, até mesmo porque conduz às indagações metodológicas de sua
efetivação.
Para a consolidação do direito como ciência, no entanto, é indispen-
sável a dimensão da práxis. Curiosamente, ciências como o direito somen-
te se realizam à medida que são instrumentalizadas. Portanto, o direito
como instrumento é elemento apriorístico para a consolidação do direito
como ciência. A instrumentalização do direito é condicionante e condicio-
nada na ciência jurídica. É interessante perceber que, antes de proceder à
sua instrumentalização, o cientista deve saber quais os pressupostos meto-
dológicos que conduzem a interpretação.
i'VIal concluindo: somente há ciência no direito onde há o estudo de
sua complexa dinâmica da interpretação. Existe, pois, um pressuposto fi-
losófico na hermenêutica do direito que é constantemente afetado pela
práxis dos instrumentais jurídicos. Este, por seu turno, não é imutável, já
que deixa, com a práxis, de ser o mesmo que era antes para se transformar
constantemente em um novo pressuposto. Em síntese, a práxis atingindo
a teoria e a teoria sendo reFeita pela práxis como única dimensão científica
do direito, que somente pode ser decodificada na ciência hermenêutica.
Por seu turno, a aplicação, em si, não teria, aparentemente, uma dimensão
científica na medida em que é práxis. Esta Frase posta de forma precipita-
da, porém, conduziria à impressão de que, no ato prático do direito, não
haveria qualquer dimensão de ciência. Não obstante, a aplicação já vem
carregada da dimensão científica, previamente estabelecida pela filosofia
que informa <1 construção científica da hermenêutica; passa, portanto, a
ser também ciência, já que forma, informa c reforma a concepção do cien-
tista da interpretação. A única preocupação que poderíamos aparentemen-
te ter é a de que, para ser ciência, o direito é recebido essencialmente a
partir da visão do homem que processa a leitura do direito. No entanto, o
prestígio ao posicionamento do hermeneuta é fundamental para se entcn-
·
1 No que diz respeito i\ complexidade do ato de interpretação, sugerimos a leitura de Hans-Georg
Gadouncr, na obra Térdade e método. Pctrôpo\is: Vm.es, Bragança Paulista: EU i tora Universit;iria São
Francisco, ~00:!.
112
der a hermenêutica. Do contrário, a ciência extrairia da sua concepção o
homem e o seu posicionamento diante do objeto de sua compreensão,
transformando a equação em algo alheio ao próprio homem. A ciência, no
nosso entender, somente tem razão se For construída a partir de um olhar
do homem. Busca-se, com isso, a fuga ele uma concepção positivista, tida
como científica. E o homem seria desconsiderado na própria consolidação,
que é antes de tudo filosófica, da ciência. O mesmo se dá com a ciência
do direito. O direito não pode ser consolidado cientificamente a não ser a
partir do olhar ele seu intérprete.
O cientista que concebe uma construção para o direito sem a sua
dimensão de práxis acaba por construir um castelo de areia, que será, ain-
da que em um dia dist<mte, destruído pelas forças não da natureza, mas da
vivência social. Terá produzido uma bela obra científica in fiere, mas não
terá produzido uma obra para a humanidade, e, sim, uma obm para si
mesmo (e para alguns, e às vezes muitos, seguidores).
Em relação aos direitos sociais, isso é muito comum. A produção de
uma quantidade de textos científicos remonta a uma leitura em tese dessa
realidade - sendo que, algumas vezes, insiste em não fazê-la parecer.
Esquecem-se, no entanto, tais "cientistas" que os direitos sociais lidam com
u situação imediata de vários seres humanos invisibilizados pela ação de
uma construção hermenêutica que se estende no tempo. O problema bá-
sico da ciência que envolve os direitos sociais implica a práxis acima de
tudo4, considerando-se não como objeto de estudo, mas como cerne da
I Nao se fala aqui da insuficiente construção empirista. Aliás, a utilização do mêtodo conhecido como
materialismo histórico representa uma superação-c que superação!-do que foi pretendido pelos
empiristas. Diga-se de passagem que mesmo no caso do idealismo alemão, dado -que nos interessa,
j1í se percebe a insufici~ncia do empirismo. A respeito: "'Os empiristas ingleses haviam demonstrado
que nem sequer um único conceito ou lei da raz3o poderia <lspirar il universalidade, c que a unidade
da razão era apcmJs uma unidade confi:rida pelo hábito ou pelo costume, unidade que aderia aos
faros sem jamais os governar. Segundo os idealistas alemiles, este ataque comprometia quaisquer
esforços que se fizessem no sentido de impor ordem i'\s filrmas estabelecidas de vida. A unidade c a
universalidade não podiam ser encontradas na rl.!alidadc cmpfrica; não eram finos. Alêm disso, a
própria estrutura da realidade empírica parecia confirmar a hipótese r.lc que elas nunca poderiam
ser derivadas dos fatos. Se o homem, pois, não conseguisse criar a unidade c a universalidade por
meio de sua raz3o autônoma, contrariando embora os Ü1tos, teria r.lc expor não .somente sua exis-
tência intelectual, como tambêm sua cxist~nda material, âs pressões c processos desordenados, do
tipo de vida empírica dominante. O problemanilo era pois um problema meramente filosófico, mas
ligava-se ao destino histórico da humanidade.( ... ) O empirismo, por limitar a natureza humana no
conhecimento do 'dado', liquidava com o dcst;jo de transcender e, pois, com o desespero que ele
pudesse suscitar. 'Pois ê certo que a desesperança causa em nós quase o mesmo c-li:ito da felicidade,
c que t3o depressa nos acostumemos com a impossibilidade de satisfazer a urn desejo, e o próprio
113
! j
investigação o homem mais fragilizado na sua essência. A natureza existen-
cial dos direitos previdenciários ou trabalhistas, por exemplo, deve invadir
o intérprete de forma visceral a ponto de que ele, em geral alguém de uma
classe mais abastarda quando se trata de realizar· a equação do direito,
transforme o seu olhar a partir daquele que ele não é: o postulante desse
direito social. Essa práxis é a única transformadora da filosofia dos direitos
sociais. A única que pode condicioná-los e ser sua condicionante no sen-
tido transformador que buscamos dar à dimensão científica que o direito
pode assumir. Caso contrário, o processo será sempre de naturalização da
fragilidade do detentor de direitos sociais. Essencialmente no espaço da
ciência é que o direito poderá ultrapassar alguns de seus limites, inerentes
à lógica da superestrutura na qual está inserido .. Mais adiante nos ocupa-
remos melhor de tal questão.
li -Vícios de interpretação em matéria de direitos sociais
A interpretação em matéria de direitos sociais pode ser traduzida em
uma das mais difíceis missões a serem realizadas na ciência jurídica.
Há uma intrincada equação a ser destrinchada. O direito é tocado
pela realidade na sua perspectiva hermenêutica, mas, ao mesmo tempo,
não pode ser totalmente subserviente, a partir de seus propósitos, a alguns
aspectos espúrios desta. No que diz respeito ao ato de conhecimento que
tende à justiça, c a seu discurso ínsito da igualdade, deve-se apreender os
fatos sociais e deles extrair seu vigor no ato de interpretação/aplicação.
Logo, a equação inicial da lei é tida como decorrente de uma expressão de
igualdade, externada na lógica democrática de que, advindo da escolha do
legislativo, produzirá a lei. O legislativo, poder que confecciona a norma,
seria fruto supostamente da igualdade entre os homens, que, em uma
perspectiva de suFrágio universal, ricos ou pobres, escolhem os represen-
tantes. Aqueles mesmos representantes que farão supostamente a igualda-
de na lei produzida, a partir do mumrs que lhes foi conferido.
des~jo desaparece. Quanclo percebemos que atingimos os Ultimas limites cla razão humana, cruzamos
os braços, satis!Citos'. Os idealistas alemães consideravam aquela filosofia a expressão da reminda
à razão. Para eles, atribuir a existência das ideias gerais à força do hábito, ou derivar de mecanismos
psicológicos os principias pelos quais se apreende a realidade, ern o mesmo que negar a verclndc c n
razão" (In MAHCUSE, Herberl. Ra:=iio e revoluriio- Hegel e u adveulo da leoritl social. Tradução
Marflia Barroso. fí! ed. São Paulo: Paz e Terra, :::!00+. p. 27, 28 e 29).
114 1
Por sua vez, o intérprete da norma produzida por processo democrá-
tico deverá realizar escolhas em que, percebendo a realidade em que se
encontra, devolverá a norma sempre à constante democrática da igualdade.
É óbvio que, para que isso ocorra, não se pode pensar em um intérprete
único da norma, no caso, o juiz. Essa equação processa-se já na própria
sociedade quando alguém, descontente com a generalização da norma (que
pode reverter contra a igualdade- mormente em uma sociedade como a
atual), busque, para o seu caso concreto, o seu dimensionamento, a fim de
evitar a injustiça. Esse agente não estaria, em tese, apoderando-se, para
Fins individuais, de uma norma de natureza generalizante. Ele estaria, isso
sim, corrigindo a distorção generalizante. Não estamos aqui falando de
situações individuais que pervertam o interesse coletivo- isso jamais deve
ser respaldado pelo direito. Nesse caso, a interpretação começa no senso
de injustiça de determinada solução para a sua hipótese por parte do mais
simples dos destinatários das normas. Logo, o ato de interpretar é ato en-
tregue, democraticamente, a todos. No entanto, para que todos possam
efetivá-lo com plenitude, é indispensável que se ultrapassem problemas de
conhecimento e acesso à ordem jurídica justa.
Nesse compasso, o direito deve extrair da realidade dos homens a sua
Força. O direito, como expressão do poder, deve espelhar a força que habi-
ta no mais simples dos homens que habitam o ambiente democrático. É
claro que aqui já temos problemas, hoje quase intransponíveis e que, mui-
tas vezes, colocam-nos em dlivida sobre a possibilidade de o direito vir a
ser efetivamente expressão do poder popular - e não instrumento de
contenção desse poder. Aliás, temos certeza de que, caso não seja ultrapas-
sado esse empecilho, nada do que foi dito tem razão de ser. Portanto, na
estrutura social de hoje- e com os problemas vividos pela democracia na
sua c;xpressão burguesa-, devemos confessar que muito do que falamos
está ainda longe de ser alcançado- ou, pelo menos, totalmente alcança-
do. No entanto, a despeito disso, cremos que vale o esforço (ainda que seja
em uma perspectiva tática).
Por outro lado, se há dificuldades da superação deste primeiro em-
bate realidade/direito, há outro, correlato e tão ou mais difícil de ser su-
perado: o da relação subserviente do direito aos padrões de poder que
subjugam o seu código, pervertendo-o em seu favor. Assim, não é incomum
realizar-se a permeabilização do direito à realidade quando isso interessa
a grupos de poder mais expressivos. Em direitos sociais, isso é muito co-
mum. Não são poucas as vezes em que se diminui a força que tende à
115
igualdade do direito do trabalho a partir da realidade econômica e da
flexibilização. Quando o direito do trabalho busca a igualdade jurídica
como forma de compensar a desigualdade econômica é comum que os
Fatos econômicos, para além da relação instaurada, sejam trazidos à tona
para inviabilizar a igualdade mencionada como pressuposto científico do
direito do trabalho. Ora, estamos, aqui, diante da constatação da suFici-
ência da noção pretendida pelo direito do trabalho de se estabelecer
igualdades, querendo fazer acreditar que isso vai dar-se internamente na
relação jurídica estabelecida contratualmente, que esta vai ser equilibrada
ele forma justa, a despeito das injustiças que a antecedem que não dão
plena liberdade ao trabalhador para não realizar o contrato de trabalho. A
admissão da flexibilização é o acolhimento de que o direito do trabalho
não se sustenta na lógica da igualdade interna entre os sujeitos contratan-
tes, necessitando de elementos externos (de estrutura, de dominação
econômica) para completá-lo. Aliás, nesse ponto, resta claro que a adoção
desse tipo de discurso remete mesmo à Falência científica desse ramo do
direito. Quanto mais se busca a igualdade na perspectiva interna, pouco
se ocupando de Fatos econômicos e:xternos, mais justiça será obtida. Ora,
neste exemplo, a mera utilização elas equações do direito inviabilizaria a
maior exploração - embora, ainda assim, não inviabilize a mais-valia.
Perceba-se que o direito, nesse caso, não se curvando à economia, ou
melhor, dela se distanciando, mais cumpriria a sua missão de efetivamen-
te promover a igualdade. Portanto, é fácil constatar que o direito fica ou
não permeável à realidade, na mesma proporção em que isso mais inte-
ressa a determinados centros espúrios de poder.
Percebe-se, assim, que, para o direito dialogar verdadeiramente com
a realidade, ele, antes, precisaria estabelecer uma conversa com os palas
opostos do poder. No entanto, não dialoga com a realidade dos mais caren-
tes economicamente, já que estes também são, na sociedade,os carentes
de poder. Dialoga demais com a realidade dos poderosos. já que estes
acabam por ditar o sentido que pretendem que o mundo assuma. Logo,
submetendo-se a um jogo de poder, a efetividade do direito está na efeti-
vidade dos grupos, mais ou menos favorecidos, em usar do poder. Logo, a
crítica ao direito não se insere, ab in i tio, no interior do próprio direito, mas
essencialmente no poder e, portanto, na política.
Não há como se ultrapassar tudo isso com mera técnica, mais ou
menos sofisticada, de interpretação/aplicação do direito de Forma a aten-
der o interesse dos menos poderosos -que demanda mesmo a própria
116
reversão elo quadro do poder. Explico. Para interpretar, o mais simples
dos intérpretes elo direito- o homem comum, o seu grande destinatário
_deve apoderar-se ela realidade quase intransponível, para ele, do direi-
to. Deixando este de ser o legítimo intérprete do direito no mais das vezes,
a equação jurídica continua a ser construída essencialmente, apenas ou
em grande parte, pelos que produziram esse signo cultural de sua domi-
nação. Portanto, mesmo na interpretação, continuam a emitir sinais que
silo próprios aos seus interesses. O intérprete final, o Judiciário ou os
outros centros legitimados a tanto por determinados estados (árbitros,
negociadores e outros tantos) passam a ser expressão, nesta moldura, da
completude desse fenômeno de distanciamento do direito de seu real
destinatário: o povo.
A partir dessas premissas é que construímos este artigo. Trata-se, na
realidade, de uma tentativa de, além de detectar o problema, oferecer aos
insatisfeitos com esta realidade alternativas para confrontá-la ua medida do
que é possível com o liSO do direito. Dedica-se, portanto, o texto aos incon-
formados com o eterno, até este instante, destino do direito de apenas fazer
conformar os menos poderosos aos desígnios dos mais poderosos. Pedimos
que não se esqueçam desta premissa, constante no texto, mesmo que em
alguns instantes não seja enunciada.
Estabelecidas as premissas, passemos a enFrentar a questão.
De tudo, percebemos que, embora não se deseje Fazer do direito um
lugar inFenso ao mundo, especialmente em matéria de direitos sociais, há
uma incomum e indesejável interpretação a partir de pressupostos total-
mente impertinentes aos próprios postulados informadores do direito.
Diversamente dos ramos mais ligados aos direitos individuais, em que
o positivismo parece imperar absoluto, quando se trata de direitos sociais,
a postura metodológica positivista, senão abandonada, é, certamente, re-
dimensionada de forma a atender os interesses inadequados dos detentores
do poder.
No caso, estamos tratando do positivismo jurídico, uma expressão
mais instrumental do método positivista. Do positivismo fica essencialmen-
te aquilo que há de mais perverso: a naturalização, importada das ciências
que se ocupam elos fenômenos da natureza para as ciências sociais. Fato
que se revela na admissão, muito mais moral do que científica, da pobreza
como um "mal necessário", natural e impossível de ser transposto, o que
contamina a interpretação jurídica dos direitos sociais. lVlenos cruel fica a
impressão de que o lobo, que se esconde na pele de cordeiro, diz que a
117
neutralidade é que deve imperar em nome do rigor cientíFico, se desnuda.
Não há neutralidade na interpretação do direito; no entanto, sob esta pre-
tensa premissa positivista, é consolidada a opressão a partir de uma lógica
típica dos direitos individuais, importada para os direitos sociais, cuja in-
terpretação passa a se imiscuir com questões econômicas, a se promiscuir
com questões morais e, enfim, a se travestir de econômico- embora seja
problema de cunho, essencialmente, político. Esse exercício perverso, re-
alizado por diversos intérpretes dos direitos sociais, busca esconder-se sob
o manto da neutralidade. Felizmente, hoje esse fenômeno vem sendo ex-
posto, totalmente descortinado.
!'VIu i to desta questão pode ser entendido a partir das rellexões mesmo,
postas pelos autores, para a e.x-plicação da falência do Estado de Bem-estar
Social.
Sobre a falência do Estado de Bem-estar Social, há reflexões profun-
das sobre as causas morais desta.
A respeito há que se destacar as rcllexões de Claus O!Te5 neste sen-
tido, lembrando que os críticos do Estado de Bem-estar Social mencionam
que este acarreta a indolência nos homens, que, ao terem as suas necessi-
dades providas pelo ente estatal, não se esforçam para melhorar de vida.
Além disso, certos grupos aproveitam-se das vantagens do Estado de Bem-
-estar Social em detrimento de outros menos organizados. Ambos os Fatos
trariam, segundo tais críticos, uma quebra na solidariedade social6 •
No entanto, a despeito da falência do dito Estado de Bem-estar Social,
resta claro que as objeções postas a esse modelo de Estado, mesmo em se
acreditando na eliminação total na vida da humanidade, continuam pre-
sentes em um modelo de Estado que albergue de forma substanciosa
previsões constitucionais garantidoras de direitos sociais.
A ideia de que existem pessoas que se aproveitarão das vantagens
geradas pelo esforço da maioria, sem mérito pessoal suficiente, está sempre
presente na mente daqueles que criticam os direitos sociais (e, em especial,
a sua constitucionalização). Está presente, pois, também em uma certa
r. OFFE, Claus. CiJjlilalismo desorgmli=.ado. Silo Paulo: Brasiliense, 19fl5.
''Toda a argumenta~~ilo desenvolvida neste artigo tentará demonstrar que esta critica, a meu ver :1
mais di!Tcil de ser contonmda -já que ac:1ba se sedimentando no espfrito da classe dominante com
muita li1dlidmle -, nilo resiste a uma an~ílise mais profunda e, pelo contrário, a promoçilo do bem-
-estar promove, em certo estágio da vida de um povo e até determinado ponto, a solidariedade entre
os homens.
118
r:
i
forma de se entender e interpretar os direitos sociais, que parte da lógica
de que a sua concessão implica a quebra do pacto de solidariedade estabe-
lecido pela sociedade. Esta ideia realiza-se como antecedente lógico da
interpretação- existindo antes mesmo do próprio ato de interpretar e se
enraizando em vários aspectos da realidade atual.
Citaremos vários exemplos prosaicos desta afirmação.
Perceba-se a quantidade de apreciação moral existente quando se fala
em uma aposentadoria precoce. Pensa-se: mas você não é muito jovem para
se aposentar? Não se consideram nesta indagação sequer os fatores econô-
micos, tais como o fato de a pessoa já haver contribuído significativamen-
te para o sistema. Aqui, como em outros momentos, é estranho que a
apreciação econômica entre na composição da equação no instante de se
fazer uma interpretação restritiva dos direitos sociais, a qual, muitas vezes,
é abstraído quando se busca fazer uma interpretação mais Favorável- ou,
até mesmo, uma interpretação correta decorrente da lógica contributiva,
isto é, do fato de sua contraprestação. A e:'\plicação é simples e retoma as
nossas premissas: o intérprete é o detentor do poder, utilizando-se das
premissas econômicas da forma como bem desejar-, conForme melhor
lhe aprouver. O aposentado, sem poder suficiente, passa a ser encarado
como um mal a ser eliminado. Não podendo interferir no processo de
produção inicial, e principalmente final, da interpretação, será sempre vi-
timado pela interpretação que mais o exclui, que mais o estigmatiza.
Da mesma forma, há este tipo de apreciação em relação àqueles que
busquem qualquer outro benefício social e que, para muitos, passam a ser
confundidos com alguém que deseja tirar algum proveito do sistema -
daqueles que, pelo seu suor, contribuíram para a integridade do regime
previdenciário. Se isso se revela presente em matéria de direito previden-
ciário, a situação é muito mais frequente quando se fala em benefícios
assistenciais- vejam-se os ataques ao programa conhecido como bolsa-
-família (que, embora possa ser questionado, inclusive no que diz respeito
à sua maior adequação a outras políticas públicas, passa a sofrer questio-
namentos insuficientes a partir de premissas insuficientes, em geral de
natureza moral- até mesmo por pessoas conhecidas como "de esquerda").
Vemos a intensidade dessas apreciações, que são tidas como jurídicas,
mas que não resistem a uma análise mais efetiva do rigor científico-jurídi-
co do direito previdenciário. Na verdade, embora o cerne da preocupação
pareça ser econômico, entendemos que haja elevada carga política (moral
coletiva?) a respeito do Fato.
119
Como exemplo, teríamos a interpretação do Supremo Tribunal Fede-
ral a respeito da contribuição dos inativos em controle concentrado de
constitucionalidade. I-louve, ali, uma total desconsideração da solidariedade
sob a perspectiva do beneFício, baseando-se a análise na insuficiente cate-
goria de solidariedade, apenas a partir do custeio. Passou a existir mesmo
uma inversfio no pacto das gerações. Uma geração, com vantagens conce-
didas pelo sistema, na perspectiva democrática, teria supostamente- mes-
mo porque a premissa é da inexorabilidade do déFicit da previdência, não
submetida a qualquer contraditório ou democrático confrontamento no
processo- criado uma dívida que terá de ser paga pela geração futura. No
entanto, essa nova geração não se compõe de todos os brasileiros. Um gru-
po, não necessariamente o que se beneficiou dos valores sem contribuir,
passa agora, em nome de uma catarse supostamente democrática, a respon-
der pelo passado, indenizando os prejuízos, também apenas supostamente
existentes, causados pela geração passada. Essa nova geração não é vísuali-
zada a partir de qualquer pacto com as gerações futuras, mas apenas na
lógica do ressarcimento, indevido, de dívidas de uma geração pretérita. Não
há aqui qualquer noção de previdência, mas sim de cobertura da imprevi-
dência forjada no contexto da própria democracia. DeLxa de se trabalhar com
noções previdenciárias para se trabalhar com categorias de direito privado.
Deixa-se o campo da previdência, na medida em que o recurso foi à "con-
tribuição social" de natureza meramente indenizatória. Não se paga por uma
contraprestação de benefício, mas para, com base em suposições ideológicas
(tais como a de uma previdência deFicitária), indenizar, sem motivação legal,
por um suposto rombo criado pela geração pretérita. Não há contribuição
que se possa chamar de social se dela não for proveniente o beneFício, e não
apenas a suposição do não pagamento do próprio benefício. Sem a respon-
sabilização de quem teria causado o "rombo", paga, novamente, o segurado.
Pergunta-se: quando o sistema já For "solvável", com o pagamento por anos
desta contribuição pelos inativos, o servidor parará de pagar enquanto ina-
tivo? Tememos que não. Mais uma vez, a e;\:propriação do coletivo, sem o
verdadeiro retorno das vantagens sociais, dar-se-á, no futuro, como vantagem
incorporada e consolidada em torno de um Estado que insiste em não pro-
duzir o bem público. Aliás, será que teima porque não poderá jamais ser
verdadeira Fonte de produção dessa espécie de bem coletivo, ocultando, na
verdade, interesse de classes no seu bojo que o impedem e o impedirão para
sempre de realizar este mister?
É de estranhar, por outro lado e neste instante, que existam estudos
indicando que o gasto com políticas públicas que prestigiem a concessão
de direitos sociais é menos dispendioso, por exemplo, que o gasto com
120
políticas públicas envolvendo segurança pliblica- mais especificamente
gastos com o encarceramento de pessoas. Ainda assim, não é incomum
Estados que preFiram as segundas políticas pl1hlicas às primeiras. Logo, é
de concluir que o problema não é realmente econômico, mas sim de opção
política. A opção pelos pobres é a opção pelo seu encarceramento c não
pela realização de políticas concessivas de direitos sociais. Claro que é
cômodo ter em mãos um contingente significativo de exército de reserva
e, com o excesso, também expressivo, concluído pela sua total desnecessi~
dade, jogá~lo em prisões em condições sub~humanas7 •
Este exercício pode ser feito até mesmo na apreciação de um exemplo
prosaico c cotidiano. Assim, não precisamos contemplar a questão à luz
da lógica do direito, basta debruçarmos o olhar para o nosso dia a dia para
entender as respostas da sociedade às suas injustiças sociais. O mesmo
olhar farão os que operam a equação do direito, guardadas as proporções.
Recorremos, aqui, a três cenas do cotidiano:
Primeira cena: uma pessoa, confortavelmente em seu carro, para no
Farol. Vê um pedinte se aproximando, e antes ele dar a esmolaH, pergunta
a si mesmo se aquela pessoa, varão viril, merece o benefício. Logo após
emenda: se fosse uma velhinha, talvez eu desse a esmola. Sem perceber,
houve uma seletividade no caso. A seletividade e a Focalização típica de
qualquer política pública envolvem os direitos sociais. Na realidade, é uma
opção individualista na lógica da caridade que deve ser analisada, com
muito mais cuidado, quando se faz a transposição da questão para o campo
das políticas pliblicas, que devem superar (será que superaram?) a visão
cristã e a noção meramente caritativa.
't\ respeito do tema conlira~se uma coleçilo, bastante intcrc~~antc, chamada Pt•nsamt•n/o Criminulâ~
gico, editada pela Edimra Hcvan c dirigida por Nilo Batista. Dcve~~e re~snltar, nesta coleção c (j\ll.'
~crviu como basc da as~crtiva !Cita no corpo do texto, a obra de LOic \Vacquant denominada Punir
w jwlm~s -11 mwa gesftlo da mis,iria l/IH Estados Unidos. :12 cd. Traduçilo Sérgio Lanmrilo. Rio de Ja-
neiro: Hevan, ~007.
s Utilizamos o cxcmplo da esmola nilo porquc cntcndemos que o~ dircims ~ociai~ sejam csrnolas
nu favor. No cntanto, e~ te é o comportamento dc muitos em relaçilo aos direitos ~ociais, dcsvirtu-
;mdo a sua intcrpretação e a implemcntnçilo de polftka~ pltblica~ adcquadas. É claro que essa as~
sertiva nilo pode scr utilizada, dc forma destacada c inaclequada, no ~entido de que a concessãn de
direitos sociai~, a partir de uma intcrprctaçflo mais permi~siva, confunda-se com ato de miHcricór-
dia. Pelo comnírio, a generosidade na intcrprcla~·fio dos direitos sociais somente é po~~lvcl <iqucle
que sc afasta da idcia Je que estes devem ser tratados como esmola, concebendo na verdadeira
dimcnsilo dos direitos e da c!Ctiva redc dc protcçilo ~ocial. Portanto, essa forma de interpremçilo
~umcnte é permitida <iquelc~ que se atltstararn do~ vícios que identificamos, ne~tc texto, na inter~
prctuçilo dos direitos sociai~ c comprccndcm a sua exata dimensão no mundo atual.
121
Segunda cena: uma pessoa, confortavelmente em seu carro, para no
Farol. Vê uma pessoa em uma cadeira de rodas. Imediatamente se pergun-
ta: será que se trata de urna pessoa com deficiência ou está querendo me
enganar? Apreciação tipicamente moral que cerca várias apreciações de
direitos sociais, mesmo na sua interpretação pelos juristas. De novo o re-
paro: uma visão individualista que não consegue ser descolada do ato de
interpretar os direitos sociais.
Terceira cena: uma pessoa, confortavelmente em seu carro, para no
FaroL É confrontada por uma pessoa bêbada que pede esmola para dar de
comer aos seus Filhos. Desconfia: esta pessoa vai beber com o dinheiro que
lhe darei e não vai fazer o que está prometendo. Delibera, já de início,
sobre o destino do dinheiro que dará ao outro. Que liberdade propicia, se
já dá um destino ao valor que entregará ao terceiro mais pobre? Determina
a liberdade de terceiro simplesmente por possuir mais do que ele.
Em direitos sociais, isto é, em políticas públicas que envolvem direi-
tos sociais, todas as assertivas, guardadas as proporções, se encontram
presentes e se confundemquando da elaboração da norma ou, em momen-
to posterior, no seu ato de intepretação. Aliás, é urna pena tal constatação,
já que ela oculta o desvirtuamento de percepção daqueles gue se ocupam
dos direitos sociais.
Senão vejamos.
Quando se elenca a focalização e não a universalização como cerne
da política pública, certamente que se está escolhendo certo grupo em
detrimento de outro. A escolha, por si, pode embutir questões tipicamente
morais, mais do que de qualquer outra natureza. Pode revelar a condição
da pobreza segundo critérios que mais retiram a liberdade e que guiam os
destinos dos mais necessitados. Por exemplo, a concessão de benefícios
assistenciais apenas para famílias com certo número de filhos. Quem é rico
pode deliberar sobre quantos filhos quer ter, quem é pobre, por depender
do benefício da assistência, terá a sua liberdade restringida por uma norma
ou pela interpretação de urna norma. Os direitos sociais devem ser cons-
trutores de autonomias e não do cerceamento de liberdades de pessoas
mais pobres.
Até mesmo questões aparentemente nobres podem conduzir à mesma
conclusão. Destacamos, aqui, as soluções típicas de worlifare ou leamfare,
por exemplo. Nestes, seja por políticas específicas de trabalho ou de ensino,
o que se pretende é enquadrar o sujeito a um modelo já e.xistentc, em geral
com elevado grau de condução quanto ao seu destino - por exemplo, be-
neFícios condicionados ao exercício de atividades profissionais, cursos pro-
122
f'issionalizantes ou mesmo à educação (que, em geral, remonta a um mode-
lo de educação já existente, não se possibilitando modelos alternativos, v. g.,
0 benefício não concedido a alguém que Frequente aulas em uma tribo indí-
gena, dadas por um indígena a partir de seus próprios postulados de vida)9 •
Assim, isso pode ocorrer com a condução dos pobres a um certo tipo
de serviço nem sequer abson~ido pelo mercado de trabalho (tão carente,
como se diz por aí, de postos), ou a uma educ<:~ção formal e estrutumlmen-
te insuFiciente para dar respostas às demandas da sociedade. Nesses casos,
dá-se por completo um processo de expiação de culpas. O desconforto de
H Chamamos atenção para alguns modc\os jii existentes no mundo e que buscam escapar dessa ar-
madi\lw. IH v1irias experiências verdadeiramente contra-hegemônicas que merecem destaque nos
mais diversos campos. Emendemos por contra-hegemonia qualquer movimento que buscpJe a rup-
tura com o atual modelo de prmluçilo econôll!ico, seja direta ou indiretamente. Assim, mesmo ma-
nifestaçi'les no plano cultural que propiciem, ainda que a longo pnrw, a revisilo do alua\ modelo de
produçilo silo, no nosso sentir, expressão da contra-hegemonia. Citamos, aqui, com de~ taque, expe-
riência muito rica em que essa consciência foi, em cena medida, obtida. Trala-se de experiência de
lmrwda e recuperaçiio da fâbrica Grissinopoli na Argentin;J (v~jam-se os relatos impressiommtcs de
como os truhalhadorcs p11ssaram, no processo de tomada e recuperação da fâbrica, por uma revisão
dns conceitos de gestiio e cle produ~~iio, conlhmtando-se a sua situaçiio com a de oulros modelos de
];-ibrica~ capitalistas. Ê impressionante como os próprios trabalhadores passuram a perceber o seu
papel no mundo c que nilo deveriam reproduzir o modelo de explora\·ão e produção do capitalismo).
Confira-se o seguinte texto: FIGUERAS, Federico eL ai.; Gri~sinopo\i: t! f1ibrica recuperada)'
nuevo espacio de sncialibilidad? In NEUHAUS, Susana; Cr\LELLO, Hugo (org.). Hegemoníllyenuw-
aJNwiúii:Jiibricas rtmpermias, movimit•ulos socia/e.rypodt~r bo/imrimw. Buenos Aires: Herramienta, !.:!OOG.
p. IHD-'.!1 H. Gostamos tambêm de destacar os exemplos fornecidos nos seguintes textos, situados
nos tnais di\'ersos campos em que se estabelecem as rela\·ões hunmnas, a saber: POCH, Silvia Bofill.
La ludw f!!!r la tierra: de las armas a los Tribmw/es agmrios. Bosque poHtico: los avatarcs de la com-
trucciôn clc una comunidad modelo, San Juan Nuevo, Michoacún, J~JH 1-~0UI. Barcelona: El Colegio
de Michoadn- Universitat de Barcelona. p. I 7.'1-'.!·W; COLE'lTI, Claudinei. Avanços e impnsses
do MST c da luta pela terra no Brasil nos anos recentes. In SEOANE, José (org.) . .J'!ovimientos so-
cial~s y cot!flirlo e11 Amérim Lalitw. Buenos Aires: CLACSO, p. 73-1.'19; MARIOTTl, Daniela. E\
conflicto por la tierra de las comunidades ahnrfgenes 1\ol\as (Argentina) y Mapuche-Pchuenche
(Chile): discursos globales en escenarios loca\es. In 0\ARllACCA, Norma; LEVl~ Norma. Rumli-
dmifs latinoamericmws: idt:ntid11rüsy ludwssocliJ/es. Buenos Aires: CLACSO, '.!OCH. p. '.!fii-~JO·l•; PEDRO,
Beatriz H. Barrio Marfa Elena- La I\.fatanZlJ- '.!3 ;Jíios de experiencia territorial. De la exdusión
a la rcconstrucciôn dei t~jido social de resistcncia y potencialidad contrahegemónica.ln NEUHAUS,
Susana; CALELLO, Hugo (orgs.). 1-IegemrmfaJ' mumctJwciôu:.fii/JriruJ m:ujlemdas, 1mmimimtos .mciah•J
y j1oder /mlilmriano. Buenos Aires: Herramicnta, ::!OO(j. p. l~Jl-161; DlAZ, .los{.- Luis; ROHATSH,
.Tu lia; SANCHEZ, Gabriela. Barrio lviarfa Elenot, una cxperienda de reconstrucciôn deilejido social
en uni! wna devastada. In NEUHAUS, Susana; CALELLO, Hugo {Orgs.). Hegemmtía y emtmctjlllci-
ôtt:./iíbricm recuperadtJJ, mom'mieufo.; sociales J' poder boliwriano. Buenos Aires: Hcrramienla, ~OOG. p.
'.! HH!•l•5; 1\RUSE, Thumas. La "guerra de] agua" en Cochalmmba, Bolivia: terrenos, complejos,
convergendils nuevas. In GARZA TOLEDO, Enrique de la (Org.). Sindicalar y wn'1ms movimil'ltlrH
.mâa!es ett .·lmérim Latina. Buenos Aires: CLACSO, '.!006. p. I~ 1-161; AILLÔN, Lorgio Orellana. E!
prorcso insurreccional de abril: estructuras materiales y supercstrucluras organizativas de \os
campesinos rcgantes cn el Valle Central cochabambino. In GIAHHACCA, Norma; LEVl~ Norma.
Hum/idarlt!S Laliluumwricanm: ldentidtuÜ.IJ' /urlws .wcia/es. Buenos Aires: CLACSO, '.!OO·J.. p. ·1-íi-550.
123
políticas que envolvem direitos sociais dá lugar a um generalizado alívio em
relação aos gastos públicos, muitas vezes, sem se realizar um levantamen-
to sério sobre a sua real efetividade. Até mesmo questões morais, como os
valores Familiares, estão escondidas na hipótese. Uma pessoa que fica Fora
o dia inteiro trabalhando, para ganhar um salário mínimo, não pode estar
ao lado de seus filhos 10•
Neste passo, percebe-se a importância assumida pela burocracia
responsável pela apreciação dos requisitos legais e competente para a
concessão, a partir daí, do benefício. Burocracia que assume papel tão
repressivo quanto o de qualquer aparelho repressivo de um Estado militar.
Se alguém percebe um beneFício, para obtê-lo, primeiro deve subme-
ter-se a uma burocracia, que é cara e encnrece a própria política social,
sendo baseada em pressupostos de que há sempre alguém tentando ludi-
briá-, para obter, de forma Fraudulenta, uma vantagem em algo que a todos
pertence.
Da mesma Forma se submetem as pessoas ao controle da utilização
dos numerários. Outra burocracia é construída: não mais para concessão,
w Aqui nos lembramos do filme Tiros em CfJlumbi11e de l'vfichad Moore, em especial da cena em que
um<~ mãe tem que ficar, paro1 atender a um programa ~ocial no qual ingressou- como única forma
possfve\ de manter o seu sustento-, o dia inteiro traboJ!hando em cidade vizinha. Pela sua <~usência
e excesso de armas posto à disposição da sociedade americuna, o filho, uma cri<~nça que fica sem os
cuidados da mne, acaba se envolvendo em incidente com o manuseio de arma de lOgo. Ê de se es-
tranlmr que o discurso comervmlor norte-americano cst~ja centr;Jdo na ideia de fiunflia e que, 010
mesmo tempo, permita, por meio de um programa social, a desngreg;1~·ão do ambiente fimlilh1r. Em
direção totalmente oposta, pen:ebemo.s o exemplo de beneficio <JS~istencial para mães solteiras, no
gtwerno Clinton, em que, para perceber o beneficio, a jovem deve comprovarque vive com a sua
!hm!\ia. De um hu.lo, a desagrcga~·ão familiar com a "suposta" utilização de um direito social, de
outro o excessivo controle da vida das pessoas- e de pretemões morais de ocupames do poder
-também por meio dautiliza~·ão de direitos sociais. Ambas as hipôwscs dão a perceber o papel que
o uso {inadequado) dos direitos sociais cumpre como meio de controle da vida dnqudes que nada ou
pouco possuem. Acreditamos, mesmo, que reside aí o gmnde desafio moderno dos direitos sociais
como instrumento de transformação da sociedade, ou Ht;_j<l, a potencialidade existente nessa moda-
lidade de direitos como meio de redenção c não de controle dos mais carentes. Assim, é indispens;i-
vcl a existência de direitos sociais, mas é totalmente dispensâvd a sua utilização como fOrma de
controle social. O exemplo das mães soltcin1s nos é fOrnecido por LoTe \Vo1cquomt, tjllC tlcixa bem
nítida oJutilização dos direitos sociais como forma de controle de grupos nmrginaliz<1dos pela socie-
dade norte-americana a pllrtir da perspectiva da divisão do mundo entre wilmers c !fJsers. Indufdas
na segunda categoria e totahnentc estigmatizo1das na sociedade norte-americana, essas jovens teriam
de participar de "'oficinas de habilitação'", a fim obterem "aperfeiçoamento pesso<~l", sendo tais ofici-
nas "voltadas p<~ra ensinú-las as nornms culturais dominantes e a submissão no tr<~balho", <1 partir
da ideia de que a pobreza e o desemprego tivessem sido c;Jusados pelo medo de f.1.llmr ou por sua
mú-atitude (de mães solteiras)- a respeito r.:onlira-se a obra Puuiroi pfJbres-anova geilllo damiJi!nil
1ws E.1tados Unidos, cit., nota H, p. 15l:i.
124
--
mas para controle. O controle é r:eito também na concessão, especialmen-
te quando a lei prevê que o benef-ício não poderá ser concedido em dinhei-
ro, mas por meio de utilidades (leite, vales etc.). O vale, previsto na Lei,
como Forma de controlar a vida das pessoas, visto no exemplo anterior, em
que se controlou o que o pobre Faria com o dinheiro mendigado.
Assim, impingimos o gasto segundo as nossas intenções e nossa per-
cepção de organização de comunidades excluídas, acreditando que, com isso
c utilizando o direito, estaríamos organizando políticas públicas sociais. Não
há liberdade para essas pessoas, que passam a viver a partir de nossas e.\.TJCC-
tativas em relação ao papel -bastante reduzido se percebido na perspecti-
va da humanidade- que deve ser por elas cumprido no mundo. Um papel
sub-humano, já que desejamos delas que, quando muito, apenas se utilizem
dos beneFícios sociais para "comer" e nada mais. Enfim, viver segundo as
mais primárias condições a que se submete qualquer animal irracional.
Se a pessoa gastou dinheiro com a compra de uma bicicleta para um
Filho ou com a compra de uma dentadura, não concordamos. Deveria o
dinheiro ter sido gasto na manutenção de condições básicas (comida, por
exemplo). Impingimos <lOS outros as nossas intenções de controle, mas não
o nosso estilo de vida- somente permitido a alguns, nós mesmos, embo-
ra diuturnamente divulgado, de forma sedutora, nos meios ele comunicações
como o melhor meio de existir. A nós é dado existir na perspectiva de uma
sociedade de consumo. Somos cidadãos/consumidores. Aos pobres, apenas
a cidadania no sentido ela sobrevivência a partir dos mínimos. Uma cida-
dania menor, portanto, se a analisamos a partir da lógica que imprimimos
ao ato de viver.
Os direitos sociais devem ser concedidos, ampliados e generalizados,
mas nunca na perspectiva de que se constituam em eFiciente meio de
controle social dos seus titulares. Ninguém deve ser titular da autonomia
do outro- em especial do outro mais pobre-, como sempre nos lembra
Paulo Freirell.
III -Algumas soluções propostas
Diante de tudo quanto colocado, qual, então, a função dos direitos
sociais no mundo moderno e qual a Forma mais efetiva de implementar
1 1 Essa idcia nparece constantemente em uhras como Pedagogia da aulmltJIIJÚl. S;1o Paulo: Paz c
Terra, 2007 c Pt!d11gugia dll llprimiilll. +~ ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
125
tais direitos? Levantamos algumas propostas que analisaremos cuidado-
samente.
A) Direitos sociais e consciência de classe
O direito provoca cada vez mais um distanciamento entre o que ele
cria no seu universo próprio e aquilo que é do universo do comum, do di-
ário. E isso afeta sensivelmente a perspectiva científica do direito, aqui
considerada não apenas a base filosófica que inForma o direito, mas também
a sua operacionalização diuturna. Os que operam o direito como equação,
inclusive de sua atividade profissional, distanciam-se dos homens comuns,
crendo, mesmo, que são seres menos ordinários. Com isso, até nas situações
cotidianas ligadas ao direito social (seja como juízes, seja como advogados,
promotores), terminam por propugnar soluções que, em geral, deslegitimam
o próprio direito, já que distantes do anseio popular. Essa dicotomia dos
saberes e a dicotomia do entendimento do outro, "mais ordinário", para
esse que se compreende "menos ordinário", fazem com que haja um aden-
samento da diFiculdade de se assimilar o direito como Forma de solução das
conHitos incorporada por toda a comunidade. Trata-se de fenômeno que
intensifica o processo de não legitimação do direito. Passa a vigorar uma
deficiência na visão do mundo, que certamente aFeta o estudante de direi-
to em geral. O mais triste, no entanto, é constatar que o ensino do direito,
da forma como vem sendo formulado, em vez de diminuir esse distancia-
mento somente Faz aumentar o abismo, reforçando a dicotomia de um
mundo das coisas ordinárias e um outro mundo, o do direito.
Cremos que é muito difícil a imediata ruptura desse estado de coisas.
Basta, para tanto, veriFicarmos, v. g., o ensino jurídico no Brasil na atuali-
dade. Considerada a totalidade dos professores, e percebendo que eles são
provenientes de certa origem, com dada visão de classe, é pouco crível que
consigam, imediatamente, superar essa visão do mundo distanciada da
realidade brasileira. No entanto, preferimos acreditar que se trata de um
ciclo difícil, mas não impossível, de ser rompido. Os professores de hoje
Foram os alunos de ontem, nutrindo o seu saber de professores que eram
aqueles alunos com essa mesma tradição, e com essa mesma leitura de
mundo. Então, esse é um ciclo muito difícil de ser rompido. Acreditamos
que, na verdade, seria quase postular das pessoas que estas negassem a sua
história e se convertessem imediatamente, apresentando como proposta a
história de um país miserável. Quase como exigir o seguinte: dê-me esta
sua história de vencedor, de uma vida mais confortável, e a substitua pela
história dos vencidos, de um país que revela uma grande quantidade de
gente, que na sua ótica é perdedora. E é muito difícil acreditar que i me-
126
--
diatamente essas pessoas, de forma geral, consigam sair dessa prisão à gual
estão condenadas, que consubstancia uma visão de classe.
Entendemos que haja uma dificuldade de essas pessoas superarem
essa questão, e isso vai passando, perpassando e repassando o direito por
muitas gerações. Não vemos sequer má-fé na quase totalidade desses do-
centes. Assistimos, sim, à impossibilidade de uma visão de mundo diferen-
tel2. Estes acabam ainda mais, no seu ato de ensinar o gestual da interpre-
tação jurídica, propiciando um processo de maior alienação - já que
alienados também o são. Seria muito acreditar que um ser alienado pudes-
se ajudar a produzir seres que fugissem de sua alienação. "Ensino o que
sei, o que posso, o resto se encontra fora do meu alcance". Aliás, mesmo
para os que buscam destino diverso, o ato diário de luta contra o processo
de alienação é, na verdade, construído de forma árdua, tamanhas as forças
adversas à tomada de consciência- ou ao seu alargamento. Neste ponto,
é interessante lembrar ostextos de Gabriel Garcia l'vlarques. Deve-se re-
cordar de Macondo, cidade perdida na América Latina, de sua obra Cem
anos de solidao, onde as pessoas estão fadadas a sempre retomar, de forma
cíclica, ao mesmo ponto em que pararam os seus antepassados, quase
cumprindo de forma fatídica esse seu eterno ciclo- remontando mesmo
ao eterno ciclo de toda a América Latina 13 • E de lembrar também de Crô-
1 ~ A partir das ideias de Marx no De:oitoBnmuirio a respeito da questão da ideologia, Michacl Lüwy
se detém espcciticamente em uma questão que aqui nos interessa sobremaneira, que se rl!fere não
lli!Cessariamente à mentira deliben1da dos intell!ctuais a respeito de certo tema, mas sim ao proble-
ma do horizonte na fOrma de pcm·ar (a ideologia comportando Ull!i! pnrtc importante das ilusões e
autoi\usõe.s). Isso tudo Dcarretaria certo limite intransponh·cl para 01 ciência burguesa ou um ru;í-
ximo de conhecimento possíveL Truta-se de um campo de visibilidade, de lltll horizonte, de uma
perspectiva incompleta. Assim, na figura do observatório, o cientista burguês encontra-se em certo
ponto deste, c por não ter atingido pmamar superior não teni êxito no exame da questão na sua
completmlc. Nesse cuso sequer poderia se falar em má-intenção do intelectual (embora, não se
despreze u existência também desse sentimento em alguns casos), nms de uma posição em que se
coloca na qual a perspectiva de leitura da ciência se fhz insuticiente (cf. .-ls llvmluras de l\Ílrl11Iar.r.
COIIlm o BanJo de 1\[unchlumse/l- llltlr.rismo e positivisnw llll .máologill do conlwciuumto. 1:1! ed. São Pml-
lo: Cortcz, 2003. p. 100-1 H). No direito, isso se dá até mesmo peh1 posição historicamente ocupada
por esse ramo dn dênciil .~ocial na consolidDção dos ideais burgueses c pela própria posiçilo social
ocupada pelos seus estudiosos, de forma bastante clara. Há uma nítida opção que não se fi11. pela
das!ie proletária (para llSDr a cxpressilo consagrada) e que traduz uma forma burguesa de ver o
mundo, o que processa soluções na interpretação- portanto, na pníxis, na sua expressão técnica
-que, il nosso ver, inviabilizam que o direito enquanto dênciD s~ja, em diversas ocasiões, elemento
de redenção do homem. Por isso, o direito p!!ssD a ser visto, muitas vet.e.s, como uma mani!Cstação
dcnt!lica menor, ou mesmo, como mera técnica, a que não se pode entregar il missilo cient!lica.
1:1 "Aureliano no habla sido mâs lúcido en ningún acto de su vida que cu ando olvido sus muerto!-1 y
el clolor de sus mucrtos, y volvió a clavar las pucrtas y las ventanas con las crucetus de Fernanda
para no dejarse perturbar por ninguna tcntDción dei mundo, porque cntonccs sabia que en \os
127
nica de uma JJlDJie ammciada, em que tudo indica que a personagem será
assassinada, mas ela não consegue captar os sinais que lhe são passados no
curso da história e que indicam o que ocorrerá. Um certo fatalismo que,
no Fundo, clama por ser rompido.
É extremamente difícil a superação quando há um desenho, confor-
tável, que está traçado para certa pessoa, aliâs, que está traçado também
para as pessoas que estilo ao seu lado, inclusive e principalmente para os
seus descendentes. É claro que tudo é mais aparente do que certo- em-
bora vendido como certo. No entanto, nem mesmo isso consegue ser vis-
lumbrado pelo sujeito. Trata-se do discurso da promoção da ruptura ele um
destino previamente traçado para ser cumprido. Desde o nascimento de-
senhado. Aliás, a ruptura do seu destino previamente anunciado represen-
ta a própria saga heroica de um homem e, mesmo quando se processa em
um único homem, significa a redenção de toda a humanidade. Nesse ins-
tante, lembramo-nos muito de urna música dos Titãs, que diz basicamente:
"fVlarvin, ( ... ) o seu destino eu sei de cor". Um pai, no leito de morte, di-
zendo que já sabia que o filho dele faria a mesma coisa que ele, e que, no
final, deu o seu melhor, mas que não tinha condições de ir mais longe.
p!!rgaminos de Mclquhu.les estaba escrito su destino. Los ~m:ontrú intactos entre las plantas prehis-
tóricas y los charcos humcantes y los insectos luminosos que habfan desterrado dei cuarto todo
vestígio de! paso de los hombres por la ticrra, y no tuvo serenidad para sacarias a la luz, sino que
allf mismo, de pie, sin lu menor dificuldad, como si huhicran estado escritos cn castcllano bajo el
rcsplandor deslumbrante dclmediodfa, empezó a dedfrurlos cn voz alta. Era la historia de la 11unf-
lia, escrita por J'vlelqufades lmsta sus detalles müs triviales com cicn m1os de antccipación". A histó-
ria da família escrita pelo cigano tvi!!]qufad!!s, mesmo antes de acontecer,jü havia sido desenhada de
antemão na saga do percurso histórico que nilo li:~i rompido. E mais adiante, lendo Aureliano ansio-
samente o livro, pnra tentar ao chegar no instnnte cpte estava vivendo, a passagem final do livro vem
a:.sim posta, como uma sentenç;t de condcnaç~o eterna: ·:Aureliano saltó once páginas para no perder
e! tiernpo cn hechos demasiados conocidos, )' ernpezó a dcscifrar c\ instante qtle estaba viviendo,
desdfrándolo a medida que lo vivfa, prnH~tizMu.lose a si mismo en cl neto de dcscifrar la tiltimo pü-
gina de los pcrgaminos, comu se cstuvicra vicndo em um espcjo hahlado. Entonees dio outro salto
para anticiparsc a las predictiones y an.!riguar la fecha y las circunstancias de su mucrte". E reco-
nhecendo que nilo haveria uma segunda chance, para a reversão do que fittklicanwntc jú vinha es-
crito através dus séculos, a obr;t tcrmirm col!l o seguinte trecho; "Aureliano Bahilonia acabara de
descifrar los pcrgaminos, y que todo lo escrito cn cllos era irrepctible desde simprc y para siernpre,
porque ]as estirpes condenadas <I cien afius de soledad no tenlan una segunda oportunidad sobre la
tierra" (!'vlÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Cien ai/os de soledad. J.'l! ed. Buenos Aires; Debolsillo, :!007. p.
·J.!J3 e ·t95). Resumidmnentc: ou rompemos o ciclo antes da nossa morte ou apcm1s estaremos lendo
o capitulo final do nosso destino. O rompimento desse ciclo em um único humano é hcroico, nms o
eslim;o de todos deve ser no sentido de que ele se processe em todos os homens, em toda a huma-
nidHde. Em síntese, todos somos responsáveis pela ruptura do ciclo em nós mesmos c nos outros.
Caso contrário, estaremos sempre reescrevendo a história li1tfdica da miséria no mundo, c, mais, não
teremos uma segunda oportunidade para auxiliarmos no processo de redenção de toda a hunmni-
dadc. Ou cada um fi1z isso em vida ou não fará nunca HWiH!
128
r
Então, as pessoas se apresentam, de Forma geral, como condenadas a uma
determinada trajetória; e isso tanto na vida do mais letrado como na do
menos letrado. A ruptura dessa traJetória reproduz um esForço heroico 14 •
Ruptura que pode estar presente, ou não (aliás, o mais comum), na hora
da interpretação que o hermeneuta faz do direito, e em especial do direito
social. Chamamos a atenção, então e muito, para os textos de Paulo Freire,
sobretrudo os já mencionados, e os de Georg Luckács 15 • E esse processo
de percepção, que inHuirá em toda a leitura de qualquer símbolo existente
neste mundo, inclusive o direito, comum ente, decorre de elementos ex-
ternos, de alguma coisa que afeta enormemente o sujeito e o torna mais
aberto a essa nova leitura da vida - e, no nosso caso, dos textos legais.
Como, em geral, no nosso dia a dia se consolida a falta de percepção do
outro, acaba o jurista sendo, ao mesmo tempo, vítima e algoz neste proces-
so de banalização da injustiça sociafl 6 • Como se pode perceber, pouco o
outro (em especial o outro excluído que é o verdadeiro titular dos direitos
sociais, que já é "naturalmente" invisível) urge que nos entreguemos, nas
mais diversas esferas do nosso cotidiano (inclusive no direito), à difícil
tareFa de trazer à tona os elementos externos que poderão alterar a visão de
mundo consolidada e que nos torna os pioresintérpretes, não só do direito,
mas também da vida. Então, cada vez mais agravado esse estado de incons-
ciência (em sentido lato mesmo), deve ser maior o esforço da introdução
de outros saberes (o saber do quilombola ou do indígena, por exemplo) no
universo de qualquer Faculdade de Direito. O outro invisível passa a ter a
chance, neste quadro, de ser visibilizado. Quando quem era invisível passa
a ser visível, há maior possibilidade de alteração nos rumos do destino de
ambos: do que estava invisível e daquele que o invisibilizava. O que é visto
nos toca (não somente no sentido de visão pelos olhos, embora também,
mas visão pela alma). Quem é invisível não pode, por exemplo, ser titular
de direitos. O suJeito precisa existir, ser visibilizado, para que possa auferir
os direitos, para que possa fazer parte de uma lógica de interpretação jurí-
t fÊ lindo ver isso ocorrer em qualquer ser humano. Sugerimos que se assista ao filme Billy Elliat,
que tem como pano de limdo a greve dos mineiros na lnglaterrn de Margardh Tbacther. O menino
que rompe o seu destino deixa de ser mineiro, corno o fimun as gernçiles anteriores da l~unflia, e se
transfOrma em um bailarino - o avesso do que se poderia pret~:nder num universo totalmente
machista.
!50 livro que lemos c que sugerimos se dmma Húlúria e cmuâi!nâa de chuse- estudas .wlm• a dia lê-
fim mar.rúta. São Paulo: Martins Fontes, !:!003.
I li A respeito desse processo de banaliwção cla hüustiça soda\, ch<unamos atenção para a obra de
OEJOURS, Christophe . . ·I banali!:arüo da Ít!fllstira .wcilll. Tracl. LtJiz Alberto Monjardim, Rio de
Janeiro: Fundação GctlJ!io Vargas, 19D9, com especial destnque para as pi\ginas l!l a 5n.
129
dica. Não há sujeitos de direito onde há um processo de invisibilização
destes seus titulares. Não conseguem sequer titularizar nada, já que não
são apreendidos pelo universo dos direitos. Visíveis entram neste universo,
não somente por meio das leis, mas também, e acima de tudo, para e
pelos olhos do intérprete destas.
Como lembra Paulo Freire, há uma relação muito mais íntima de
conteúdo, do que se pode imaginar, entre oprimido e opressorli. Ora, com
a percepção do outro, passa-se a compreender o quanto de opressor exis-
te no interior de cada um, e, para o oprimido, percebe-se o quanto ele
hospeda o seu opressor1H. Ainda de acordo com Paulo Freire, só esse opri-
mido pode redimir o opressor e vice-versa. Numa Faculdade de Direito, em
geral, ou somos uma série de opressores, que estamos lado a lado, ou somos
oprimidos que viramos opressores. Somente ao trazer o oprimido para esse
mesmo ambiente poderemos aprender, com ele, o nosso próprio processo
de redenção. O grande passo, o mais difícil, no entanto, é trazê-lo para o
mesmo espaço que ocupamos, mais ainda em igualdade de condições. Se
conseguirmos dar esse passo, estaremos a mais de meio caminho andado
17 A\i;ís, nessa parte do tn1balho de Paulo Freire (que aparece em especial nu obra j;í cilada Petlaga-
güJ tio oprimido), sintimos mesmo a importância da compreensão da noção hegeliana de dialética (o
que é ;Jdmilido pelo próprio Freire nessa mesma obra â p. ;m). Embora não sejumos prolimdos co-
nhecedores do tema, a melhor leitura que fizemos dessa noção aparece na introdu\~no !Cita por
Herbert Marcusc do texto Ra:::1ia e rwolll(11o,j;í mencionado, e na apresentnçno fCit<~ por Emir Sader
da edi\:no da Boi tempo Editorial (São Paulo) do texto de Marx c Engels A idwloginnlrnui: "Hegel
rei\'indica o conceito de contradição, não como sintoma de li1lsidade, mns como motor do mo\·imen-
to do reaL O exemplo da dialética do senhor e do escravo é utilizado como <1 iàrma mais clara da
relação de interdependência das determinações aparentemente opostas, mas que estno incluídas uma
na outra. Apreender a contradição da sua relação é apreender a essência de cada pulo e o sentido de
sua relação nuHua" (p. 15). O escravo contém o senhor, que, por sua ''CZ, contém o escravo. Somen-
te assim é possível entender o escravo, mas tnmbém o senhor-j<i que ambos são partes, nilo dis-
tintas, de uma rei:Jçílo única. O mesmo com a relação entre oprimido e opressor, posta por Paulo
Freire.
lH V~ja-se, aqui, como essa percepção altera mesmo a dimensão de questões muito importantes
para oH direitos humanos. Aqui, chamamos a atençno p<~ra o pequeno texto que redigimos que
deJCnde as cotas para negros, denominado Abolição inconclusa?, publicado na Revúta Intenwcio-
lllll de Dirdto e Cüladania (REID), Silo Pnu\o, v. I, n. O~, outubro de 2008. p. ~ 19 a ::!21. Ali resta
nítida a relevfmcia da convivência do opressor (branco) com o oprimido (negro) como elemento
indbpens;ível à redenção de ambos. Sim, ambos precisam se redimir para que possam caminhar
para o seu destino final: a humnnidade, que se encontra escondida em algum canto, bastante
pouco visível, de sua existência. Ao falar da libertação pela pedo1gogia dos oprimidos, Paulo Frei-
re deixa claro que a libertaçno de oprimidos e opressores é um p<lrlo doloro5o. E lembra: "O homem
que nasce deste parto é um homem novo que só é viâve] na e pela supcraçílo da contradiçno
opressores-oprimidos, que é a libertação de todos. A superaçno da contradiçilo é o parto IJUe traz
ao mundo este homem novo nno mais opressor; nno mais oprimido, mas homem libertando-se"
(Pedagog1i1 do oprimido, cit., p. 38).
130
de nos libertarmos do ciclo fatídico que contamina, inclusive, o processo
da hermenêutica do direito (e, em especial, o elos direitos sociais).
Acredit<~mos mesmo que, em uma perspectiva capitalista, em uma
perspectiva individualista, consumista, enormemente consolidada, é mui-
to difícil que a humanidade consiga reverter qualquer quadro. Difícil, mas
n5o impossível- nunca devemos nutrir, se buscamos a humanidade que
existe dentro de nós c dos outros, o negativismo (o realismo é o que deve-
mos adotar, o que, por si só, desnuda a dificuldade de nossa tareFa). Nes-
te sentido, a importância da percepção, pelo menos pelo instante, mais
efetiva do contato com as verdadeiras experiências contra-hegcmônicas 19 •
Para romper o ciclo, inclusive no ato de interpretação do direito- e da
vida mesmo-, é preciso que haja o rompimento de algo que é típico do
atual momento: o pessimismo. Coisas do tipo: "mas a gente não tempos-
sibilidade de sair disso", "isso é o máximo que a gente consegue", "não
existem horizontes". Enfim, essa sensação constante de que nós estamos
derrotados por essa realidade. Cremos aqui que se deva buscar o reforço
da interpretação histórica - isto é extrem<~mentc importante, especial-
mente quando tratamos dos direitos soci<~is. Por exemplo, somente com-
preendendo na sua gênese os direitos sociais é possível entender as razões
verdadeiras para a sua essência única e diferente dos direitos privados
- mesmo com todas as limitações que já identiFicamos como premissa
deste trab<Jlho, há uma iniludível importância desta constatação para o
processo de luta. Da mesma forma, é indispensável a leitura dos direitos
humanos a partir de uma perspectiva histórica e n5o de imperativos cate-
góricos. A visão histórica dos direitos humanos é capaz de nos devolver a
noss<1 esperança, uma vez que somente sob essa ótica percebemos que o
homem já viveu momentos melhores e piores. Não há que se ter nem
mesmo o pior dos instantes como o final da história. A humanidade já
w A r~sp~ito do nosso conceito de contra-hegemonia, dev~ ser con!Crida a nota n. 9. Dali devem ser
~xtruíclos também os ~xemplos que entendenws contra-heg~nulnicns. Devemos r~ssa!tar que a
~xpr~ssilo ê muito utilizada por Boaventura de Souza Santos. No ~ntantu, o enfOque que damos para
o t~ma ê diferente dn alribufdo por aquele autor. Aliás, entendemos, a partir de nosso conceito, que
muitas das experiências contra-hegemônicas colecionadas pelo autor, mundo afOra, nilu o siio.,\ssim,
niln cnncordamos com váriosdos exemplos qu~ siio s~kcionadus pelo sociólogo, ~m obra de cole~·no
que coord~nou denominada lleúrvenfür 11 wumcipaçlio .wcial. Desta col~çilo destncamos os seguintes
volum~s: SANTOS, Boaventura de Sousa (org.). Democmli::aril dwwcmâa: osmmiJIIwsda dwwcmda
parlicíjialiva. Rio de Janeiro: Ci\·iliza~·ão Brasileirn, v. 1. ;-!003; Reconlwcer jmm lib1~rtm-: os mmin/ws do
comwjmlitúmo multicultuml. Rio de Janeiro: Civiliza~·f!o Brasileira, v. ~J. ~00:1; Tnllmllwr o mumlo: us
mminlws do mwo iutenwcimwli.mw openirio. Rio d~ Janeiro: Civilização Brasileira, ~005; Produ:::ir J!ilnl
11iver. os rilmiuhos da prorluçlio mio capitalista. Rio d~ Janeiro: Civilização Brasil~ira, v.~. 0!005.
131
resistiu a momentos horríveis, sendo o momento atual apenas mais um
desses instantes terríveis, por mais tempo que ele perdure. Um dia passa-
rá, como tantos outros. A visão pessimista do homem conduz à desespe-
rança, o que é terrível, por exemplo, na compreensão de fenômenos cul-
turais - e de poder- como o direito. Pelos direitos humanos e numa
prática mais intensa de direitos sociais, por exemplo, poder-se-á vislumbrar
mais luz no fim dessa longa noite de escuridão (permitindo-nos a apro-
priação da frase de Berthold Brecht). É claro que deve sempre haver uma
visão crítica e atenta do que se passa na realidade atual. Ser realista não
é o mesmo que ser pessimista ou otimista. O realismo é apenas uma apre-
ensão verdadeira c crítica dos fatos correntes. O pessimismo ou o otimis-
mo revelam mais um estado de espírito.
De tudo quanto exposto, resta, no entanto, apenas uma pergunta
realmente importante: há suficiência na retórica e prática dos direitos
humanos para Fazer suportar ou pelo menos corroer o sistema atual,
transFormando-o em algo mais próximo do que necessitam os seres huma-
nos? Por ora, acreditamos que sim. Deve-se, pois, debruçar o trabalho na
luta por metodologia para a leitura dos direitos humanos, tornando-os mais
Fortes para toda espécie de confrontamento que têm sofrido.
Enquanto não é possível romper com a atual estrutura capitalista, há
que se ajudar na precipitação de sua corrosão, e uma certa quantidade
disso está exatamente nessa identiFicação do outro e na percepção de mé-
todos para tanto que podem remontar a uma nova estrutura de compreen-
são do direito. Na verdade, quem interpreta o direito tem aquela difícil
missão de primeiro ultrapassar os seus valores próprios, e depois disso,
ainda se depara com os valores do sistema. Quando, por exemplo, interpre-
ta-se uma norma que envolve uma pessoa negra, uma mulher, um homos-
sexual, toda carga valorativa que já dorme no intérprete, mesmo quando
ele a desconheça, revelar-se-á. Aquilo que carrega do seu eterno ciclo
apresentar-se-á. A necessidade, portanto, do verdadeiro conhecimento da
condição do outro, enquanto ser humano, é indispensável para o ato de
interpretação, para evitar, por exemplo, a discriminação. Como advogado,
v. g., caso se aceite a causa de uma pessoa pobre, há que entender aquela
causa e a pessoa que postula, até para poder Fazer escolhas certas na estra-
tégia de defesa. Assim, há que se encontrar desprovido de alguns precon-
ceitos que não possibilitam a revelação desse universo que lhe é alheio. O
preconceito fecha a nossa visão de uma tal maneira que às vezes até o
óbvio, que poderia mesmo ser importante na revelação da verdade escon-
dida nos autos de um processo, não se nos apresenta como claro. Então, a
chave disso tudo é essa libertação. Essa libertação, enquanto ser humano,
132
pura verificação do outro e fazer o exercício de compreendê-lo, para melhor
entregar-lhe o que é seu de direito. Em direitos sociais, para a sua melhor
interpretação, é indispensável que abandonemos a péssima ideia de que se
Faz do outro, especialmente o outro excluído, mais pobre. A imagem desse
outro como alguém que quer tirar vantagem do sistema, que se coloca em
situacilo de trapaceiro ou vagabundo, deve ser imediatamente afastada. É
preci~o ainda deixar de vê-lo como, ao entregar o direito, se estivesse Fa-
zendo uma hospitalidade, uma caridade. Não se trata de Favor, mas sim da
concessão de um direito. É de se abismar mesmo com algumas e:\'Pressões
utilizadas para os direitos sociais, tais como benefício previdenciário (be-
neFício!), período de graça e coisas deste tipo. É de se perceber com tris-
teza mesmo Frase comumente utilizada para um empregador que cumpre
os direitos: "pelo menos meu patrão é bonzinho, ele nunca atrasou os sa-
lários". Com coisa que pagar os salários em dia fosse um favor e não uma
obrigação legal. Essa imagem remonta àquela do meio rural, quando o dono
da Fazenda fazia agrados para os seus agregados, permitindo-lhes uma
festa no seu domínio ou qualquer outra coisa de igual natureza. Isso tudo
é muito comum na interpretação do direito social.
Também o é a velha e já surrada presunção de má-fé de quem pos-
tula o direito social, como já visto anteriormente. Assim, dá-se, por exemplo,
com alguém que vai postular um auxílio-doença. Não é incomum a per-
gunta, oriunda mesmo do que é reproduzido nos noticiários de TV, se a
pessoa não está Fingindo a doença. A eterna presunção de má-fé em que é
concebido o que busca o direito social. A desconFiança do opressor com as
malícias, pura enganá-lo, do oprimido- afinal, em tempos atrás, é sabido
que o escravo fujão também era tinhoso20 • Aliás, os direitos sociais foram
demolidos no mundo inteiro, tendo como mais contundente e diFícil de ser
contornada a crítica de natureza moral, ou sej"a, as pessoas acreditam que
alguém está querendo tirar, no estado social, alguma vantagem a partir dos
~o A itlcntificaçilo de alguns problemas histciricos na formaçilo tio Brasil contemporúneo c que se
encontram presentes nas mais divcrsw; manifestações culturais, aqui incluímos por ôlwio o direito
e sua interpreta~~no, jâ era prt!senciada h<í muito por Caio Pntdo .lünior. Em interessante passagem,
apôs tal constataçilo, IU1. a s(!guinte obscrvaçno em nota de rodapé; ""Pt!ssoahnente, só comprt!emli
pt!rfeitarnente as descrições que Eschwcge, Mawe c outros !;tzem da mincraçilo em Minas Gerais
depois que \â estive c examinei de visu os processos empregados e 'JUC continuam, na qtwse totali-
dade dos casos, exatamente os mesmos. Uma viagem pelo Brasil ê, muitus yczcs, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história tlc um século c nmis para trás. Disse-me certa
vez um professor estrangeiro que im·eja os historiadores brasileiros que podiam assistir pessoal-
menti! às cenas mais vin1s de seu passado" (Fvmlllflio do Bmsil C/IIJ/emJmrãnev. '2.'J-õ! São Paulo: Brasi-
liense, 2007. p. 12).
133
direitos e que elas é que estão financiando ou subsidiando essa vantagem.
É muito comum que algumas pessoas, sem perceber isso no direito, seja
como juízes, seja como advogados, estejam "travadas" por essa lógica. Fre-
quentemente, em vários telejornais, aparece alguém jogando uma muleta
depois que pede um auxílio-doença. Claramente, se pretende estabelecer,
com essas imagens jogadas nos nossos cérebros à exaustão, uma relação
direta entre a atitude do "fraudador" (como todos o fossem) c o déficit que
ele ajuda a produzir da previdência social. Aquele que interpreta, em ma-
téria previdenciária, com esta imagem construindo a sua consciência,
acaba por crer que as pessoas que postulam direitos sociais estão indo ao
Judiciário de má-fé. Passa a existir uma dificuldade ele aceitar aquela con-
dição elo menos favorecido sem qualquer tipo de preconceito. Então, essa
presunção de má-fé, que não deveria existir na relação entre os homens,
passa a regê-los- inclusive na perspectiva do direito, que é apenas mais
uma das tantas dessas relações. rvlas a presunção, especialmente na área
jurídica, não seria a de boa-fé? A presunção de má-fé revela o total desco-
nhecimento que o opressor tem dooprimido e também da condição no
mundo que lhes foi reservada. No direito, em especial no direito social, ela
é óbice para a sua verdadeira consolidação e construção de uma humani-
dade melhor.
Então essa perspectiva de má-Fé vai sendo construída e consolidada
de tal maneira que se passa a perceber o outro a partir da lógica de que ele
vai nos enganar, o que no fundo apenas oculta uma realidade: o intérprete
não conhece o outro. A realidade elas pessoas que compõem este universo
não é de querer passar os outros para trás. A realidade das pessoas é de que
são trabalhadoras, e não vadias. No entanto, o imaginário de algumas pes-
soas vem sendo alimentado por isso, exatamente porque desconhece esse
outro que está sendo postulante do direito social. Então, quando se aprecia
a postulação desse direito, a leitura tende a Ficar mais restritiva porque o
intérprete utiliza uma série de impressões que nem sequer são pessoais,
são fabricadas, c ele não consegue superá-las. Isso não se inicia no ato ele
interpretar o direito pelos seus diversos agentes; já se encontra presente
antes mesmo do ato de enxergar o mundo do qual está impregnado aquele
que interpreta o direito. Inicia no colégio dos nossos Filhos e nos mais di-
versos estereótipos que estão ali sendo difundidos, mesmo que no mundo
elo politicamente correto. As lllUlllces é que são terríveis, pois não são per-
cebidas pelos próprios pais, que, na realidade, já Foram forjados naquela
realidade, e acreditam no seu íntimo em muitas daquelas ideías. Os nossos
filhos forjados nessa perspectiva serão os alunos das Faculdades de Direi-
Lo e os Futuros advogados, juízes, promotores. Reproduzem aquilo a que
134
estão condicionados desde pequenos. A interpretação do direito, portanto,
não poderá ser, com tamanhos equívocos na construção elo ser humano que
a realiza, outra - fatídica -, como se reproduzisse a Crônica de uma
mmie mwuciada.A vigilância a que nos devemos submeter é, portanto, bem
maior do que, muitas vezes, conseguimos en.xergar: mas urge que nos es-
forcemos para enxergá-la21 •
O exercício de compreensão do outro é difícil até mesmo para o mais
bem-intencionado dos homens. É um exercício de estar sempre se poli-
ciando. No mais das vezes, mesmo este não consegue alcançar a verdade
da sua própria limitação. É muito difícil se dizer "eu tenho limites". É
muito difícil fazer isso em uma sociedade de vencedores, em que se é ex-
tremamente estimulado a vangloriar-se dos seus acertos e não a aprender
com os seus desacertos. Chega a ser frustrante, no momento atual, estar
sempre vigilante para as próprias limitações e para "seus hábitos de pessoa
menor". É um exercício desesperado de ser vencido todo dia por você
mesmo. Não dá para fazer interpretação em direito, e em especial em di-
reitos humanos, sem esses exercícios de vigilância consigo próprio e ele
alteridade. Ver o outro é ver alguém que está fora das suas Fronteiras. Alçar
essas novas fronteiras diariamente é um exercício elos mais árduos. E, não
obstante, o direito não poderá reconstruir-se metodologicamente sem essa
percepção.
Aqui se deve destacar novamente a questão da autonomia, muito
trabalhada por Paulo Freire, como fundamental para os direitos sociais:
ninouém é titular da autonomia elo outro. Isso se revela como fundamental
o '
para a análise dos direitos sociais. Vejamos com exemplos. E corrente em
direito, a partir especialmente das obsen1ações de Cançado Trinclade22 , que
~~Devemos vigiar não apenas os nossos pensamentos, quase cornplclmnente tomados pela leitura
burguesa de mundo, mas também os nossos mais pequenos gestos. Uma respiraçüo di!Crendada, um
gesto involuntârio, um comportamento aparentemente comum ... Enfim, em tudo cstmnos impreg-
nados da consciência de classe burguesa- alhis, até mesmo em atos inconscientes, o que remete à
seguinte pergunta: mlo seria, portanto c também, uma subconsciência clc classe?
~~Devem ser destacadas, aqui c comoj1i li1.emus em outros textos de nossa autoria, as seguintes
objeções postas por Cançado Trindade no "Semin<irio cle Direitos Humanos das Mulheres: a pro-
teçilo internacional", evento associado à V Con!Crência Nacional de Direitos Humanos, reali1.ado no
dia 2.'.i de maio de 2000, na C;imara dos Deputados Federais, Bms[\ia, DF: "Eu nilo aceito de fOrma
alguma a concepção de Norberto Bobbio das teorias do direito. Primeiro, porque não são dele. Quem
formulou a tese das gerações de direito fOi o I\arel Vasak, em con!Crência ministrada em 1079, no
Instituto Internacional de Direitos Humanos, em Estrasburgo.( ... ) Em primeiro, essa tese das ge-
rações de direitos niio tem nenhum fundamento jurídico, nem na realidade. Essa teoria é frugmcnta-
dora, atomista c toma os direitos de maneira absolutamente dividida.( ... ) Essa conceitua~·no de que
135
os direitos sociais não são segmentados em relação aos direitos individuais,
devendo ser percebidos como uma unidade. Não há como falar, por exem-
plo, em inviolabilidade do domicílio sem se referir à preservação de direitos
sociais. Não se pode mencionar, v. g., em intimidade, se não se tem direito
social, porque se alguém não tem o seu próprio quarto, não está em um
lugar privado, não pode fechar a porta e, enfim, fazer o que desejar.
Se a pessoa se encontra em ambiente onde muitos coabitam em um
espaço apertado, em um único cômodo, por falta de condições financeiras,
como é que se pode falar em direitos à individualidade, à intimidade e
outros afins de primeira dimensão? Essas pessoas estão sendo cerceadas,
constantemente, nessas prerrogativas. Não podem exercer na plenitude a
sua autonomia. Veja-se a seguinte hipótese que envolve direitos sociais/
direitos individuais e liberdade de escolha. Em um pedido de benefício
assistencial previsto no art. 203, V, da Constituição, a mãe da autora- que
a representava nos autos do processo- deixou claro, em seu depoimento,
que, com a primeira parcela do numerário, desejava comprar uma porta.
Em princípio, aquele que faz a leitura do processo poderá acreditar -
tornando-se titular da autonomia do outro- que seria despiciendo entre-
gar a alguém direito a um benefício assistencial para a compra de uma
porta. No entanto, depois de prestar mais atenção no depoimento da mãe
ao ler o laudo social, percebeu-se que se tratava de uma menina com cerca
de 11 anos, com deFiciência mental. Percebeu-se, também, que não havia
porta no quarto da criança, mas apenas uma cortina improvisada, cheia de
furos, e que o padrasto da criança era alcoólatra e bastante violento. É
primeiro vieram os clircitos indivicluais e, nesta ordem, os direitos cconômico-soci;lis c o clireito da
colctiviclade correspondem â evolu~~ilo clo direito constitucional. E verdade que isso ocorreu no
plano dos direitos internos dos países, mas no plano internacional a evolução foi contníria. No
plano internacional, os clircitos que apareceram primeiro foram os econômicos c sociais.( ... ) Se-
gundo, é uma construçilo perigosa, ponpte 1hz analogia com o conceito clc gerações. O rciCriclo
conceito se refere praticamente a gerações cle seres humanos que se sucedem no tempo. Desapare-
ce uma geração, vem outra gcraçilo e assim sucessivamente. Na minha concepção, quanclo surge
um novo direito, os direitos anteriores niio desaparecem. Há um processo de cumu]açiio c de ex-
pansão do 'corpus iuris' dos direitos humanos. Os direitos se ampliam, e os novos direitos enrique-
cem os clircitos anteriores". !'.fais adiante o autor assevera que esta clivisílo tem "causado grande
dano à evolução dos clireitos", dizenclo que embora, v. g., nilo se tolere a discriminaçilo no plano dos
direitos civis e polfticos, esta \'em scnclo tolerada em relaçno aos direitos sociais, econômico~ e
sociais, apenas pela razílo de esses ültimos pertencerem à segunda gcr<lção c Berem cle rea!izaçiio
progressiv:l. Diante disso,pre]eciona que: ''Então, vemos uma condena~~ilo absoluta de qualquer
tipo de discriminaçiio quando se trata de direito individual ou mesmo cle direitos polfticos, mas uma
tolerância absoluta quando se trata de disparidacles em matéria de salário, renda, e assim por
diante. Em vez de ajudar a combater essa visiio atomizacla, essa teoria de geração de direitos con-
vn!ida esse tipo de dispariclades".
136
possível entender o temor da mãe pela falta de uma porta no quarto, com
a constante exposição da garota. Aqui resta nítida a ligação entre o direito
social e o direito individual. Somente com o benefício assistencial - di-
reito social- seria possível a preservação de direitos individuais - inti-
midade e mesmo preservação da integridade física. Não se trata de direito
meio para obtenção de um direito fim, como podem, equivocadamente,
pensar alguns- quase reduzindo a importância dos direitos sociais a di-
reitos meramente instrumentais23 • Estamos diante de dois direitos que,
para a sua existência, dependem mutuamente um do outro. Logo, se o ti-
tular do direito social deseja comprar uma porta, uma dentadura, uma bi-
cicleta para o seu filho ou comida, ele é quem deve decidir. Caso contrário,
ao dizer não ao direito, estamos dizendo não à autonomia da pessoa, sim-
plesmente porque, enquanto intérpretes, nos encontramos em posição de
superioridade para decidir se ela terá direito ou não ao benefício assisten-
cial. Enfim, o opressor como titular da autonomia do oprimido por meio da
dicção do seu direito.
O que a pessoa vai fazer daquilo que for concedido na perspectiva
dos direitos sociais não é de interesse ou titularidade de quem é responsá-
vel, juridicamente, pela sua concessão. Não interessa a este se ela vai
comprar uma porta, se ela vai comprar bicicleta para o filho dela, se ela vai
colocar antena parabólica na sua casa pobre. Aliás, é comum mesmo que
~-1 Assim, nilo conseguimos entender, corno Maria Paula Dallari llucci, que os direi los sociais s~jam
"'direitos meio, isto é, direitos cuja principal função é <Jssegurar que toda pessoa tenha condiçôes de
gozar os direitos individuais de primeira geração" {conlim-se o artigo denominado O conceito de
polflicas públicas em direiw. In BUCCI, l\.Jaria Pauh1 Dallari (org.). Políticas j11iblicas- njlerües
.~obr~ o muceitojurídico. Silo Paulo: Saraiva, ~OOü. p. 3). A despeito dos belos exemplos trazidos il
colaçào para ilustro! r a afirmação, entendemos que o direito social é um limem si mesmo e não mero
instrumento para o gozo de direitos indiYiduai~. Ali;ís, a visão dos direitos ~ociais como se !i.Jssem
meras brarantias de direitos individuais diminui-lhes a extensão c os coloca na mesma lógica proce-
dimental das g-urantias em geral -veja-se, por exemplo, o lwbeas corpus como mera garantia do
direito à liberdade de locomoçào. Assim, os direitos sociais vivem e possuemlôgicajurldica própria,
nilo sendo dependentes para a consolidaçilo e construção de sua metodologia dos direitos individuais.
Pelo eontrãrio, muitas das vezes, é impossível atribuir-se aos direitos sociais a lógica de interpreta-
çilo, por exemplo, dos direitos individunis. Ao transformá-los em meros instrumentos para obtenção
dos direitos individuais, pode-se inclusive atribuir aos direitos sociais a mesma dinâmica de conso-
!idaçào de pensamemo destes, o que é totalmente inadmissível. Assim, direitos sociais não silo ga-
rantias, mas direitos por si só- o ljlle nos leva mesmo a outras conclusões. Nesta linha de pensa-
mento, por exemplo, os direitos do trabalhador do art. 7!! da Constituição Federal nào são meras
garantias, mas direitos em si. Alhís, direitos como ao adicional noturno ou de hora extraordimíria,
;w Jg!! sahírio ou a férias remuneradas não silo instrumentais, nem brarantidorcs de direitos indh·i-
duais. Sào direitos em sua plenitude. Compõem, ressalte-se, o núcleo mesmo dos direitos fundamen-
tais sociais do traballmdor.
137
da queira coisas além de somente comer ou sobreviver, até mesmo porque
esses são os modelos que o sistema passa para todos- inclusive os mais
pobres - de sucesso, alimentado pelo consumo de bens não primários.
Todos somos forjados nesta perspectiva e, portanto, não se deve buscar
inibir, pela não concessão do benefício de direito social, que a pessoa mais
pobre se insira neste modelo de consumo. Se alguma ajuda queremos dar
aos mais pobres, devemos, isso sim, mudar o nosso próprio padrão de con-
sumo e lutar contra o atual padrão de consumo inventado para a sociedade
-inclusive, como já reconheceu, por exemplo, Herbert Marcuse, com um
incentivo a consumirmos bens dos quais não necessitamos. Deve-se lutar
para colocar no lugar do capitalismo o socialismo. Agora, aquele que é
capitalista deve sê-lo na sua exata extensão e pensar na liberdade como
uma prerrogativa de todos e não apenas de alguns. Caso contrário, não são
liberais, mas sim oportunistas. Ora, ou se é liberal ou não se é. O liberal
que concebe apenas a liberdade de alguns é um oportunista. Se não o fa-
zemos, devemos permitir que todos tenham igual acesso no padrão capita-
lista- mesmo que esta seja uma ide ia difícil de ser admitida por alguém
que admire os textos marxianos e marxistas como é o nosso caso, acredita-
mos que não haja como se dimensionar de forma diFerente e menor as li-
berdades dos excluídos. Então, cada vez que alguém concede um benefício
social- seja agente da administração ou do Judiciário-, este pensa em
dirigir a utilização do benefício social, da utilidade social. Uma verdadeira
violência contra a autonomia do outro menos afortunado. Não parece, mas
isso é uma equação que adentrao direito: concede-se um benefício ou não?
E logo emerge: "i\'las eu não posso dar o dinheiro para alguém que quer
comprar uma porta ou uma dentadura. Afinal, tem gente precisando do
dinheiro para comer". E isso certamente torna nebuloso o juízo do intér-
prete. Tem-se notícia de uma beneficiária de benefício assistencial que o
queria para comprar uma dentadura. Uma dentadura para quê? Para con-
seguir emprego. Desdentada, ela ia aos lugares e não conseguia trabalho.
!VIas mesmo que não Fosse por essa razão, ainda que o motivo fosse de
índole estética- afinal, a pessoa pobre não pode ter vaidade?-, mesmo
assim o concessor jamais poderia fazer qualquer juízo de valor sobre a
utilidade do benefício a ser concedido, sob pena de o sistema implicar
dirigismo e controle da vontade do outro- da vontade e desejo do outro
mais pobre.
De forma geral, os opressores não percebem que a nossa redenção,
enquanto seres humanos, encontra-se na libertação dos oprimidos. Liber-
dade em todos os sentidos, inclusive no anteriormente explorado. Nesse
ponto, a importância da retórica e, mais, de uma teoria, bem construída,
138
dos direitos humanos é Fundamental nesse processo de redenção de ambos,
opressor c oprimido. E isso Fica claro, pelo menos, em uma dimensão de
sua investigação: na perspectiva da alteridade, da discussão do multicultu~
ralismo c de seu cotejo com universalidade típica dos direitos humanos. A
questão do conhecimento do outro leva ao autoconhecimento e vice~versa.
Somente assim não há retirada da titularidade do poder que ao outro per-
tence. O empoderamento- palavra tão em voga- não se Faz a despeito
do titular do poder. Ninguém é titular de um poder que a outro pertence,
ainda mais crendo que, a partir daí, empoderará essa pessoa. A própria
pessoa é sujeito de seu empoderamento. No entanto, o outro não pode ser
óbice, e sempre que possível deve ser coadjuvante desse processo de liber-
tação do sujeito pela sua própria aquisição de poderes.
B) O direito social na lógica da intensificação da solidariedade
- enquanto espaço para a consolidação da consciência da
classe dos que vivem do trabalho
Ora, se essa apreciação moral continuar, cada vez mais, invadindo a
seara da hermenêuticado direito, certamente esta deixa de ser expressão
objetiva de toda uma coletividade e passa a se constituir em apreciação
subjetiva de alguém - ou de algum grupo social. Passa a existir aqueh:J
velha e indevida confusão entre direito e moral no momento de um dos
atos mais importantes da vida jurídica: a interpretação. O dia a dia dos
direitos sociais, como visto, tem simplesmente aumentado o espaço de
convergência entre ambos e a sua indevida promiscuidade em desFavor do
titular daquela modalidade de direitos. No entanto, urge que lutemos
contra a inexorabilidade de tal fenômeno e pela busca urgente da separação
de ambas as searas. É urgente, pois, que façamos que o espaço reservado
aos direitos sociais não seja habitado por apreciações de índole moral, o
que, como percebido, somente redunda no maior aprofundamento das
exclusões sociais de grupos menos Favorecidos.
É interessante verificar que isso constitui a visão não apenas de um
homem, consubstanciando a leitura de todo o grupo. Assim, há valores
que não são necessariamente os de toda a sociedade, mas de certo grupo,
que acaba se espraiando e Fazendo parecer que a todos pertence. Esse
processo de adoção de uma visão de classe24 , que mascara ainda mais e
HQ vício clc formatação decorrente de uma visilo da classe burguesa já vinha identificado por rvrarx
c Engels nu seguinte passagem: "Os indivíduos que compi'!cm a classe dominante possuem, entre
oulras coisas, também consciência c, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e
139
cliFiculta, em especial no que diz respeito aos direitos sociais, a lógica da
interpretação, precisa ser destrinchado para o bem do direito e de sua
validade como forma de expressão da humanidade- e não como forma
da manutenção de uma estrutura específica de poder, geralmente ligada
a essas ideias. Somente na ruptura da lógica do poder que faz imperar o
direito é que conseguiremos melhores resultados- ainda que não total-
mente, e não deve ser esta a nossa intenção no atual estágio da ciência
jurídica- no sentido da corrosão da lógica individualista que reina no
capitalismo. O direito, pois, nesta perspectiva da hermenêutica, pode ser
importante contribuinte para que, aind<~ que apenas em pequena parte
(mas não desprezível), a vcrdadeim vontade social venh<~ à tona. Pode-se
desmontar, pela interpretação, aquilo que, muitas vezes propositalmente,
foi posto na sua origem e de m<~neira equivocada, como Forma de conva-
lidação da vontade de determinado centro esplirio de poder. É claro que
aqui é muito importante que vingue a lógica ela difusão do ator social <1
se constituir no intérprete- que passa a ser ato do mais simples dos
membros de povo, ao buscar compreender o sentido de uma norma e
apreendê-lo como forma de sua redenção. Por outro lado, quanto aos mais
corriqueiros intérpretes da norma de direito social Uuízes, advogados,
promotores, agentes administrativos, somente para citar alguns), passa-
mos, nesta perspectiva, a buscar desarmá-los elos vícios de interpretação
antes mencionados. É claro que, em se tratando ele questão afeta à ide-
ologia, temos como certo que a tarefa não é fácil c revela mesmo a quebra
determinam todo o fimhito de uma época hi!aôrica, é ~vidente que eles o fazem em toda a sua exten-
são, portanto, entrc outras coisas, que eles dominam tambêm como pensadores, como produtores de
idcias, que regulam a produção e a distribuiçilo d;Js idcias de seu tempo; c, por conseguinte, que suas
ideias silo as iddas dominantes da époc;J" (In A ideolugia alemli. São Paulo: Boi tempo, ~007. p. ·l-7).
Chammnos, ainda, atençilo novamente para n livro jã mencionado anteriormente de Michac] Ltlwy,
{jUC advoga que o ponto de vista da classe proletãria seria a melhor para a construção metodológica
da ciência, cnm base, em especial, no seguinte argumento: "o ponto de vism de classe Uo npcrariado
representa um nível cognitivo mais elevado porque para o proletariado o conhecimento mais per-
!Citamente oqjctivn de sua situnçilo de classe ê uma neccssid;1de vital, uma questão Ue vida ou de
morte; a verdade ê uma condição silw qtw 11/JII de seu triunJO como classe re\'Oiucionária: o proleta-
riado 'recebe sua arma mais afi:Jda das milos da ciência verdadeira, da visão clara d;1 realidade tendo
vista a ação. Enquanto nas lutas de dnsses do pass;Jdo, as ideologias mais diversas, as !i:lrm;Js reli-
giosas, morais ou outras expres~ües de 'li:J.lsa consciência' eram decisivas, a luta de classes do prolc-
tarimlo, guerra emandpndnra da última classe oprimida, encontrou na revela!,.~ão da verdade, ao
mesmo tempo, seu grito de guerra c sua arma mais efica1."' {.ls avenfums, cit., p. 1:1 !-!3~). A respei-
to, !ui. que se ntentar também para i\Jarx. e Engels, segundo os {pmis "essa suhsunçilo dos indivíduos
a determinad;1s classes nilo pode ser superada antes que se forme uma classe que j:í n;1o tenha nenhum
interesse particular de classe a impor à dnsse dominante" (A itlea/()glil, cit., p. G·t.).
140
do mito da isenção- discussão típica das ciência sociais e que, no di-
reito, ganha contorno próprio e que mais contunde, já que opera por meio
de mecanismos oriundos do positivismo em sua vertente mais original
(Condorcet, Augusto Comte2~), aliada ao que dele se forjou com o posi-
tivismo jurídico (Kelsen).
Não se está aqui a vindicar para o direito o papel de único e mais
relevante desarticulador da consciência da classe que hoje detém o poder.
Isso seria ridículo, na medida em que dois dos maiores mitos da classe
dominante (a liberdade e a igualdade) constituem a base da construção do
pensamento jurídico hodierno. Tudo isso é obra que vai além do direito,
sendo este apenas um dos espaços em que seria possível a desarticulação
do mesmo sistema que o gerou. A construção da ideologia26 se processa
nas mais diversas formas de maniFestações culturais. Dentre elas, o direito
representa apenas uma pequena parcela de suas manifestações. No entan-
to, não se trata de espaço de todo desprezível, já que lida diretamente com
o lema do poder.
Para desarmar o hermeneuta dos mitos antes identificados e de mais
alguns abai"Xo descritos, bastante comuns à ideologia da classe dominante,
c armá-lo com outros que possibilitem ao direito que seja a adequada ex-
pressão da humanidade, é necessário que analisemos com seriedade certos
temas, muitos deles tidos como subsidiários quando se fala na construção
do direito, outros tantos tidos como inabaláveis. Somente assim aquele que
interpreta o direito não estará capturado. Neste processo, é importante,
por exemplo, redimensionar o mito da liberdade/igualdade e perceber a
questão na lógica também da instrumentalização- típica da ciência do
direito, como já visto. Esta questão, no entanto, será objeto de encerramen-
to deste trabalho.
~"Aqui sugiro a leitura de COMTE, Auguste. Curso rit!Ji!oJqfia poxítirm; discurJo sobre o esj•írito po.>Í-
tivo; dúcuno J•rdiminar sobre o mqjtmlo do positim"smo. Trad. José Arthur Giannoni e l'vfiguel Lemos,
2a ed. Silo Paulo: Abril Cultural, 19H:'l. Série Os pensadores. Os postulados positivistas postos nestas
obra~ chamam a atcnçilo, mas o que mais impressiona é como, na parte que os positivistas preferem
olvidar, ocorreu a concepção, por Com te, de uma estrutura dobTJn;itica parn o positivismo- em
certa parte de uma das obras mencionndas, chega a descrever a reulizaçilo de um culto positivista.
Tem-se, inclusive, a notfcia de igreja positivista na cidade do Rio de Janeiro. Visitando o seu site
<www.igr~japosith·istabnlsi\.org.br> percebe-se a sua base nas lições de positivistas como Augus-
to Comte, pregando bnsicmncnte "o amor por prindpio c n ordem por base; o progresso por fim".
~nA respeito do tema da ideologia, veja-se a obra de IvlltSZAROS, lstván. O podada ideologia. Trad.
Paulo Cezar Castanheira. Silo Paulo: Boi tempo, 200+.
141C) A interpretação e a aplicação do direito como indissociáveis
de seu aspecto científico- urna demonstração a partir dos
direitos sociais. A questão central do valor social do trabalho
Temos percebido, em especial por alguns autores de esquerda, um
certo preconceito em relação ao papel do direito na transform<1ção da so-
ciedade. Compreendemos o que é dito, e talvez até estejam todos eles
certos- já que o direito vem comprovando, nos últimos anos, se tratar de
reduto mais de resistência aos ímpetos revolucionários e de um espaço de
manutenção do stat-us quo. No entanto, <linda que possamos compreender
e até admitir grande parte das colocações feitas por estes autores, envolvi-
dos na operação diária do direito, entendemos que não é possível se curvar
à impossibilidade de, senão reverter este quadro, perceber a importância
de se dominar o direito na sua práxis, para, de alguma forma, tentar apro-
ximar-se daquela que deveria ser uma de suas verdadeiras premissas- a
construção de uma sociedade mais justa. A despeito das objeções que
possa fazer à premissa posta, em vista do serviço prestado pelo ordenamen-
to jurídico na consolidação de bases para uma sociedade injust<1 capitalis-
ta, a prá.-xis do direito revela o quanto seria possível se fazer se deLxarmos
de lado a aversão e o preconceito que vinga, em especial na esquerda, em
relação ao mundo do direito. Compreensível a aversão, comprovada histo-
ricamente como correta, mas que, alimentada na perspectiva da práxis,
somente auxilia na manutenção da própria intolerância com o direito e com
a utilização deste para aumentar o controle n<1 realidade capitalista. O di-
reito, na perspectiva de quem o vive de Forma diária, pode ser mais um dos
elementos, talvez não o mais importante como já dito, de construção de
uma sociedade mais igualitária. Há, nesse compasso, ainda que em uma
perspectiva tática, que se utilizar, no dia a dia, de suas possibilidades re-
dentoras e buscar a eliminação, ao máximo, a sua tendência, de se consti-
tuir em serviçal apenas de uma parcela da sociedade que tem o poder e
que se utiliza do direito para a obtenção de suas finalidades mais espúrias.
O mais importante, pois, é buscar interpretações que aumentem o poder
daqueles aos quais o direito pode servir como forma de eliminação de in-
justiças sociais. Não é fácil, mas é possível, no cotidiano, processar-se e
obter-se muito mais resultado de distribuição de bens- dentro do que é
possível em um sistema capitalista e tendendo à perversão de alguns códi-
gos esplirios deste sistema - por meio da práxis do direito. É claro que
essa equação, por si só, não colocará fim ao capitalismo, mas acho que se
equivocam os que leem o direito apenas na perspectiva da manutenção do
status quo, e o desprezam quando falam na solução para a alteração do
142
atual estado das coisas. O simples discurso de sua eliminação no processo
de solução é o mesmo que negar o óbvio: o direito existe, vem se aperFei-
coando c será, por muito tempo, um código do qual o poder vai se utilizar.
Lago, é importante não colocá-lo apenas como parte do problema, mas
buscar entender os seus signos e, a partir daí, posicioná-lo, na perspectiva
da tática, como parte da solução. O preconceito, decorrente da negação
pura e simples ao direito, parece-nos, fecha os olhos ao óbvio: a pertinência
das estruturas jurídicas como uma realidade na equação do poder, que
merece ser imediatamente enfrentada em suas dimensões filosófica e
prática. As duas dimensões são indispensáveis para a compreensão do di-
reito como ciência - e não mero instrumento de dominação - e neces-
s<irias no compartilhamento de soluções.
Enfim, deve-se entregar a mais este componente da disputa pelo
poder, que não deixará de existir tão proximamente na vida da sociedade,
uma leitura que mais chegue perto da vontade popular. Portanto, embora
para alguns o direito se consubstancie em pura técnica de dominação, nada
tendo de científico, acreditamos que essa crença excessiva no caráter me-
ramente instrumental do direito tem sido estrategicamente prejudicial na
perspectiva da concepção de uma tática no enfrentamento das questões do
capitalismo. Gostaríamos de frisar que não há aqui qualquer pretensão
meramente revisionista. Pretendemos a superação do capitalismo, ainda
que se utilizando de meios, como o direito, que lhe são inerentes, para a
obtenção deste fim. Há dados do capitalismo que, se bem utilizados, servem
para evidenciar a sua contradição e precipitar a percepção mesmo de que
se trata de modelo em crise e que ruma para o seu colapso. O direito é um
desses elementos. Em tempos modernos, com discursos como o dos direi-
tos humanos, fica evidente que há um nível de mercantilização do ser
humano, próprio do capitalismo, que não é mais suportável. Os direitos
humanos, ao colocar a questão c pretender soluções, Fazem evidenciar a
crise do capitalismo. A única dúvida que pode restar é se não traz em seu
bojo também uma série de soluções que são muito próprias e confortáveis
à estrutura capitalista. Acreditamos que a resposta somente virá com o
tempo- pelo instante, advogamos que se trata de um discurso que deve
ser concretizado em sua totalidade, já que, ao evidenciar as contradições
do capitalismo, trata-se de discurso atualmente indispensável.
Retomando: há que se perceber que, enquanto importante elemento
na equação do poder, o direito tem algo de científico. Somente assim po-
deremos evitar o desprezo total por ele e tê-lo como importante elemento
143
na luta pela classe elos que vivem do trabalho. Afinal, c1encia é poder,
técnica é instrumento. A redução do direito apenas a técnica2; inviabiliza
a percepção de seu conteúdo importante à preservação do poder. Devemos,
pois, perceber o que há de científico no direito, para, aí influindo, auxiliar
na desconstrução crítica deste baluarte do capitalismo.
Entendemos que a aplicação do direito, em certa medida, parece ser
apenas a sua faceta instrumental. Aparente essa percepção, já que a aplica-
ção, como veremos, insere-se na perspectiva da práxis, que não pode ser
desprezada como menor, quando se analisa um ramo da ciência. Na inter-
pretação, por sua vez, nesta sim, supostamente reside o aspecto científico
do direito. Na interpretação, ao nos colocarmos em contato com a história,
a filosofia, a economia, o direito parece se apresentar, somente aí, como
científico. No entanto, havendo que se considerar não apenas a filosofia
como o aspecto científico do direito, a práxis do direito (a sua aplicação
revelada na imediata utilização das normas que o compõem) também deve
ser considerada como científica. Não há que se separar práxis da investiga-
ção filosófica, sob pena de cairmos no erro de um idealismo que não nos
leva a nada. Assim, também no direito. Não há, v. g., como se Ficar fazendo
apenas digressões filosóficas a respeito da diferença de direito e moral, há
que se entender, como na prática diuturna do direito previdenciário, por
exemplo, que há mais ilações de natureza moral na concepção e interpreta-
ção da norma elo que as ligadas à justiça social. A compreensão desses fatos
(e a criação de mecanismos que aFastem, por exemplo, as diFiculdades de
concessão de um benefício previdenciário) aumenta a proteção da classe
que vive do trabalho- auxiliando, no nosso entender, na intensiFicação de
um processo de aumento ele sua consciência28 • Poder-se-ia objetar dizendo
que este tipo de atitude somente posterga o ímpeto revolucionário, o que
~7 Como jü vimos anteriormente, a dimensão cientflica clo direito aparece na co~junçilo clc ambos os
dados (filosofia c técnica). Aqui, no entanto, mantivemos a scparnçilo apenas para atcnclcr liquclcs
que a vecm como factível c para mostrar que, ainda ussim, as consequências de uma noçilo mera-
mente instrumental do direito silo extremamente perversasc, a nosso ver, fruto de um preconceito,
por parte de autores de esquercla, em rcla~~ilo 010 próprio direito.
~H Mostramos como isso se dtí crn outros llrtigos, como na série de artigos escritos no Cursa de Di-
rúto do Trabalho (Co\eçilo Pedro Vida\ Neto, São Paulo: LTr). Hoje, ta\vcl. somente o artigo escrito
para o volume ll seria objeto de alguns reparos, em vista das leituras fJUe lizcmos, c que aqui foram
citadas, de algumas obras de l\arl Marx. Alitis, aquele artigo tem premissas mais bem trabalhadas
neste texto. No entanto, o conjunto r.los artigo~ mcncionndos dú a cxnta dimcnsilo, conjugado a este,
do trabalho que temos tentado realizar na cunsolidaçilo da ciência do r.lireito a partir de uma leitura
r.los direitos sociuis.
144
sempre aconteceria com o direito. Não haveria possibilidade de se alcançar
consciência onde há um processo de sua ocultação. E o direito seria sempre
este espaço para que a consciência não aflorasse. Não acreditamos. Achamos
pífia a alegação de que "por estar na lei, há uma acomodação de espírito".
É uma alegação simplista, na medida em que a singela interposição da
disposição na lei não garante a ninguém melhora de vida, há nccessidad~
de uma luta incessante para que o que está posto na lei vire verdade. E
pueril, pífio mesmo, acreditar que o povo, sabendo que o direito social está
na lei (se é que sabe todo o seu direito social), deixará de buscar a luta pela
concretização daquele direito. Ora, a previsão do 132 salário não inviabiliza
a luta pela busca deste mesmo 132 salário no Judiciário- e de outras con-
quistas sociais. Pelo contrário, possibilita àqueles, prejudicados pela não
concessão, a luta judicial. Pode-se objetar que o 132 salário, em si, coloca a
questão meramente da eterna insatisFação na perspectiva da mais-valia. Não
contestam isso; os direitos sociais, em geral, alimentam-se e são alimentados
na lógica capitalista. No entanto, a cada conquista dessa natureza, em paí-
ses pobres- não falamos aqui da hipócrita convenção dos trabalhadores
ricos de alguns países europeus, que inviabilizou naquele espaço a verda-
deira revolução dos trabalhadores e sua dispersão para os proletários de todo
o mundo -, evita-se a miséria plena. Em um estado de miséria total, não
há como fazer revoluções. A fome não é o combustível das revoluções.
Gente com Fome é presa fácil de ideias de qualquer natureza. Há, assim,
lógica em se buscar direitos sociais em países pobres, Fazendo que haja
condições para a instauração da consciência de classe e do processo revo-
lucionário. Não se trata, aqui, de reconstruir o pacto trabalho/capital que
conduziu o Estado de Bem-estar Social c que foi desprezado posteriormen-
te quando interessava mais ao capitalismo29 • Nos países pobres do mundo
atual, parece-nos pouco provável que os direitos sociais cumpram o mesmo
objetivo que foram almejados nos países europeus, hoje ditos desenvolvidos,
do início do século XX..
Passamos, a partir dessa dimensão, portanto, a analisar alguns aspec-
tos dessa interpretação/aplicação, para mostrar, ainda mais, o papel tático
que deve ser assumido pelo direito na luta eterna pelo poder.
Começamos com a necessidade de resgatar na leitura dos direitos
sociais, na sua inteireza, o método histórico de interpretação. Acreditamos
~ilNiJo se pode dizer que, no momento atual de crise, este pncto nilo venha a ~er tllluramcntc consi-
derado como urna possibilidade nos países descnvolYidos, observadas, é claro, lligumas especificida-
des do mundo moderno.
145
que o método histórico conduza à compreensão originária dos institutos
desta área do direito. A sua compreensão desde a origem auxilia para que
ele possa ser percebido no seu presente momento.
A localização do instituto ou do ramo do direito na perspectiva histó-
rica nos dá a dimensão de sua existência e de seus postulados fundantes.
Somente assim podemos entender a razão histórica do surgimento do ins-
tituto. Trata-se de postura que evita que sejamos prisioneiros do hoje. A
interpretação na perspectiva histórica situa-nos o instituto ou ramo, reafir-
mando a sua essência e a preservação de sua lógica intrínseca. Por exemplo,
não há como se inviabilizar uma postura mais tutelar ao "hipossuFiciente"
nos direitos sociais, já que se trata, historicamente, da razão de seu surgi-
mento, ou seja, a sua própria razão de ser em uma perspectiva distintiva
dos demais ramos do direito. Caso não se localize historicamente este
sentido dos direitos sociais, é possível acreditar que hoje eles possam ser
algo diferente. Na verdade, não podem, sob pena de se tornarem indistin-
tos dos direitos privados em geral (e do direito civil em particular). Os
melhores exemplos são o próprio direito do trabalho e a seguridade social.
Surgiram como forma de proteção em momentos de intensa exploração do
trabalho, tratados como subvalor. Portanto, construídos a partir desta matriz,
no momento em que o trabalho voltou a ser considerado como desvalor, é
importante que a sua lógica seja retomada pelo direito e não abandonada
sob a perspectiva meramente econômica. Retomada a lógica originária, é
possível a retomada também do discurso e da prática da proteção dos tra-
balhadores por meio dos direitos sociais.
O método histórico aumenta o nível de solidariedade, já que liga
gerações, que parecem não se conhecer nem se compreender. Consegue
fazer retomar o curso do direito como elemento indispensável no processo
de desenvolvimento da sociedade. Caso contrário, o intérprete será sempre
reFém das contingências. Atn.::ilia-se, assim, no processo de consolidação da
consciência de classe. .
Passamos a exercitar, também aqui, algumas categorias que se mostram,
a nosso ver, indispensáveis para a consolidação das premissas anteriores.
Já de início gostaríamos de frisar que as considerações posteriores
possuem relevância na perspectiva da práxis do direito, importante para a
consolidação dos seus aspectos científicos como visto e de uma perspecti-
va tática. Muitas das questões a seguir podem ser submetidas, pela pers-
pectiva somente filosófica, a enfrentamento e talvez (?) não se sustentem
nessa dimensão. No entanto, sendo o direito composto das duas dimensões,
para a sua consolidação como ciência, a práxis, nesse instante, parece-nos
ter função tática fundamental.
146
T
Iniciemos algumas dessas considerações.
Os direitos sociais são vistos como programas (art. 6!! da Constituição
Federal). Somente assim seria possível agregar questões tão díspares como
habitação, lazer, educação ou trabalho.
No entanto, devem ser concebidos também, para o direito, essencial-
mente na perspectiva de sua subjetivação. Caso contrário, não se concre-
tizariam como direito - não bastando o discurso de que há um reflexo
negativo com a imposição do programa, ou seja, não se pode fazer algo
contra o programa constitucion<Jl. Entendemos que a subjetivação está
intrinsecamente ligada à essência do direito, já que, sem ela, acreditamos,
não se possa entender o direito na perspectiva positivista. Assim, como hti
a titularidade à propriedade, há a titularidade ao 13!!. salário ou ao medi-
camento, passíveis de ser postulados também na esFera judicial. Sem isso
não haveria o direito, já que a titularidade, na lógica da subjetivação, é
componente indispensável à compreensão do direito. O direito não vinga
apenas na perspectiva da -1wn1Ia agencli, mas também da facztltas agendi.
Logo, introduzir, no momento da aplicação do direito e para se inviabilizar
o acesso aos direitos sociais no Judiciário, discurso referente às políticas
públicas não é adequado, já que não se possibilita a comum atuação posi-
tivada do direito. O positivismo também é para ser usado no direito social
- espaço fértil em especial para o pós-positivismo.
O resto é preconceito, comum aos direitos sociais como visto,refe-
rentes à suposta expropriação do bem ou serviço produzido coletivamente
(ou para a coletividade) pelo sujeito individualmente considerado. Ora, se
é possível a titularidade da propriedade, sem gualquer discussão referente
a políticas públicas a ela relacionadas (ex.: a defesa da propriedade rural,
independentemente da discussão de uma política pública de reforma agrá-
ria), da mesma forma é possível a titularização do direito social sem a dis-
cussão de políticas públicas. Caso contrário, não seria possível a positivação
de qualquer direito social, já que estaria como constante refém das prefe-
rências políticas de certo grupo que detém o poder. O seu inadimplemen-
to seria sempre passível de correr, já que desacompanhado ele possibilida-
de coercitiva importante no plano individuaP0 •
:JU A respeito "t;ia~se o nosso artigo A teoria da Constitui\·fio à luz da teoria da norma- um enfOque
com destaque para as norm11s de direitos sociais. In Revista Bmsileim de DireitD Cons!llucimwl. n. 6.
São Paulo: ESDC, ~oo5. p. 28 1-~03.
147
Por outro lado, se há a horizontalidade dos direitos fundamentais de
primeira dimensão, fazendo que haja a sua incidência imediata sobre as
relações de natureza individual- independentemente mesmo de lei regu-
lamentadora -, não há como se discutir a horizontalídade também dos
direitos fundamentais de segunda dimensão.
Chamamos atenção ainda para uma interpretação que aumente a
potencialidade da expressão "valor social do trabalho", constante do art. 1.!!.,
IV, da Constituição pátria.
No mundo atual, com o grande contingente de reserva formado, o
trabalho por certo perdeu significativamente o seu valor econômico.
A única Forma jurídica de o fazer "inflar" de valor, para que possa
resgatar a solídariedade entre os trabalhadores e aumentar a consciência
de classe, é uma interpretação no direito que não descuide desse fator.
Portanto, se o valor econômico do trabalho é irrisório, o significado não lhe
pode ser atribuído enquanto valor social constante da expressão constitu-
cional. Logo, juridicamente, há que se conceber uma alternativa valorativa,
real, coincidente com o que a Constituição denominou "valor social do
trabalho". Portanto, cabe aos juristas aumentar o nível valorativo do traba-
lho, com um esforço de interpretação, nos casos concretos, neste sentido.
No mundo capitalista, somente há uma forma de fazê-lo: incorporando ao
custo de produção a necessidade de preservação do trabalho. Logo, não há
outra alternativa: os juristas devem atribuir valor econômico às soluções
que envolvem a depreciação do trabalho humano, por meio de interpreta-
ção jurídica, de tal forma que o valor deixe de ser desvalor e passe a valor.
A razão é óbvia: subvalorizado no mercado, o trabalho precisa de um
outro valor- o social, insculpido constitucionalmente. A intepretação, em
especial dos agentes envolvidos com os direitos sociais (com destaque para
os direitos do trabalho e previdencüírio), é que propiciará o contorno eFe-
tivo ao valor social do trabalho. Valorizado socialmente, por meio de cate-
gorias jurídicas próprias, embora subvalorizado economicamente, o trabalho
poderá ser dimensionado a partir de perspectiva diversa daquela posta pela
lógica capitalista. Este é um bom exemplo de tudo que estamos falando,
ou seja, da importância tática que se pode entregar ao direito a partir dos
direitos sociais.
O preenchimento do vazio desta expressão ("valor social do trabalho"),
aumentando o nível de sua proteção jurídica, pode implicar que o trabalho
passe a ser fator de produção mais caro ao capital do que os outros meios
de produção. É óbvio que não se pretende, aqui, dar conta de questões
148
r
como a mais-valia e outras que remanescem na lógica da ex1Jloração capi-
talista. Trata-se, na realidade, de uma perspectiva tática.
Assim, o direito pode ajudar a promover essa valorização.
Que o trabalho, no atual conte:xto, venha sendo tratado como merca-
doria não podemos desprezar. Que o direito cumpre importante papel na
reificação também não desprezamos. Que o direito possa cumprir impor-
tante papel na desmercantilização, este o nosso desafio.
Senão vejamos.
Tomemos como exemplo o dano moral e a pm1iUve damage. Se a
quantificação do dano moral, em situações que envolvem relações de
trabalho, fosse dimensionada de Forma significativa e na mesma proporção
da Fundamentalidade do direito danificado com a qual está envolvida,
certamente o valor do trabalho seria outro. Simplificando: o dano à pcs~
soalidade, em relações como as trabalhistas, deve ser quantilkado de
Forma extremamente elevada- na mesma proporção do valor do bem de
vida danificado. Nessa lógica, há uma nova incorporação do trabalho ao
seu titular- o trabalhador- com entidades ünicas. Ofende~se o traba~
lhador, ofende~se o homem que trabalha, deb.:ando de ser vislumbrado na
perspectiva de mera mercadoria. Ou para o sistema capitalista continuar
sendo visto como tal, trata~se de mercadoria extremamente cara, a qual
prefirimos não incorporar constantemente nos nossos custos - sendo
melhor preparar o ambiente de trabalho, para evitar o dano moral ao tra-
balhador. Será melhor fazer políticas preventivas de saüdc do que pagar,
por danos materiais e morais, ao trabalhador pelo desmazelo com a sua
saüde. A quantificação bastante onerosa- no tamanho do bem onerado
-ao dano moral daria grande contribuição para o processo de se resgatar
a humanidade que deve vingar em que cada uma das relações jurídico-
-trabalhistas.
Pelo justo valor atribuído a essa mercadoria ou pelo processo de
humanização, na lógica capitalista, poderá o valor agregado ao trabalho ser
o mais caro no Fato de produção c, somente assim, será possível que de
clesvalor o trabalho se convert<J em v<Jior. A equação seria a seguinte: eles-
valor econômico compensado por valor jurídico. É óbvio que o valor do
trabalho depende muito mais do poder de mobilização dos trabalhadores
c de su<J força reivindicatória- ou seja, de sua força política do que jurí-
dica. No entanto, como temos insistido, o direito é apen<:Js mais uma das
searas de luta dos movimentos soci<:Jis, e que não deve ser totalmente
desprezado.
149
De desvalor econômico a valor social, buscado na perspectiva jurídi-
ca- a trajetória da ruptura do modelo atual, do aumento da solidariedade
e da consciência de clusses31 •
D) O princípio da igualdade como técnica de efetivação dos
direitos sociais- um elemento capital na consolidação de
uma tática32
D.l) Introdução- a igualdade como postulado indissociável da
solidariedade
Temos, há algum tempo, desenvolvido um conceito de direito social
que o considera em toda a sua abrangência. Partindo do extenso rol do art.
62 da Constituição Federal, temos conceituado os direitos sociais a partir
da noção de hipossuficiência de slaUts33 • No entanto, como não desejamos
nos estender em relação ao Lema, devemos apenas sintetizar afirmando que
~ 1 Quando nos colocamos, por exemplo, em dc!Csa da renda mínima, usamos argumentos em seu fiivor
que propiciam um efetivo aumento da solidariedade. A respeito, confira-se o seguinte trecho de
texto que prodm.imos hli nlguns anos: "Por t;xemplo: é de todos sabido que o direito do trabalho
precisa revisitar alguns de seus conceitos cl<íssicos para melhor se adaptar â atual realidade. No
entanto, somente em um estado em que h<í IHII mínimo de hem-estar social, é possível conceber-se
relações trabalhistas mais justas. Neste contexto, por exemplo, a renda mínima poderia servir em
muito à evolução do direito do trabalho e li da economia como um todo. Assim, com ulila renda mf-
nima, \', g., é muito mais fâcil conceber-se um trabalhador que melhor vindique os seus direitos. Ora,
sabedor de, mesmo {j\JC despedido, tcni uma renda a lhe garantir a subsistência, podeni com mais
tranquilidadcbarganhar c lutar por melhores condições de trabnlho. lvlelhor para o trabalhador,
comiderado individualmente. Melhor para o trabalhador, considerado coletivamente. Melhor para a
evolw;ilo das re!nçücs de trabalho. Melhor para o Est:1clo. Por outro Indo, até ~ob o \'iés minimalista
das relaçílcs de consumo, uma renda mlnima poderia ser implementadora de um crescimento econô-
mico" (Renda mínima: uma aprcsenta~·ão. In !lenda mínima. São Paulo: LTr, ~003).
:I~ Esta parte do texto foi publicada inicialmente na flevúta tloAdvogado(AASP) n. Di (maio de ~!008).
No entanto, entendemos pertinente a stm reprodução neste artigo. A razão é data: sempre buscamos
entregar ao método que utilizamos para a leitura do direito um aspecto que lhe agregue importân-
cia parn a prâxis. Então, a despeito de as lucubrnções teóricas anteriores terem rclev;incia para a
construção de umn interpretação em direitos sociais, é relevante que deixemos claro como, na pni-
tica, isso se processa. Assim, achamos que tt:ma importltntecomn o da igualdade seria relevante para
as nossas conclusões c para aumentar a e!Ctividadc dos direitos sociais nos tempos atunis. Daí a
indispeosahi\idade de se reproduzir tal texto no bojo deste artigo.
~ 3 A respeito confira-se o artigo O que é direito social?, que publicamos conjuntamente com Jorge
Luis Souto Maior na obra Ctmo t!e tlireita tio lmbal!w. São Paulo: LTr, ~OOí. V I (colc~·ão Pedro
Vida] Neto). Da mesnm forma, pedimos licença aos leitores para reproduzir a seguir e nesta intro-
dução pequeno trecho do artigo denominado Considerações fmak um certo olhar a envolver as
relações individuais de trabalho, publicado no volume II dessa tnesma coleção, pela mesnm L'Tr,
agora no ano de ~008. Trata~se de slntese importante do nosso atual pensamento c que é imlispen-
s;ível para que se entenda a nossa visão do tema em análise.
150
r
0 direito social permeia tanto as áreas do direito público quanto as do di-
reito privado- não se constitui em um terceiro gênero, a nosso ver. Daí a
facilidade de se entender os exemplos que daremos a seguir em algumas
áreas do direito público e do direito privado, inserindo-os na lógica dos
direitos sociais. Como último tópico desta análise, tentaremos destacar a
questão à luz mais especificamente dos direitos do trabalho c da segurida-
de social.
Antes, porém, façamos algumas observações propedêuticas, neces-
sárias para o enfrentamento do tema.
No caso especíFico do contrato de trabalho, deve-se lembrar sempre
que, no sistema capitalista, a igualdade vem sendo tratada mais na pers-
pectiva apenas de que se está dando condições (uma suposta liberdade) ao
trabalhador para vender a sua força de trabalho. Sem empecilhos de qual-
quer natureza, ele se colocaria na relação contratual- figura tipicamente
liberal-, para poder vender a sua mercadoria. Para a consolidação de uma
lógica neoliberal, a figura do contrato é bem mais apropriada do que a da
admissão da simples relação de trabalho. Aliás, não são poucas as tentativas
de se mitigar o rigorismo desta figura e seus vícios de origem, como a ideia
de contrato realidade (De La Cueva).
Na perspectiva exposta por Pasukanis, mesmo a ideia de relação ju-
rídica (ou ainda a de contrato realidade) seria insuficiente para fazer supe-
rar as limitações que a abordagem legal das relações individuais é capaz de
construir. Não possuindo qualquer poder sobre os meios de produção,
visto que é apenas detentor de um desses meios (a Força de trabalho), e
sequer o real proprietário da sua disponibilidade, o trabalhador jamais
conseguiria, pelo direito individual do trabalho, uma justa retribuição con-
tratual pela mais-valia. Como bem lembrado por Alcides Ribeiro Soares:
"Tudo sob o capitalismo se transForma em mercadoria, inclusive a Força
de trabalho. Sob o capitalismo, o tmhnlhador ê livre, livre em dois sentidos:
pode vender livremente sua força de trabalho, sua capacidmle de trabalho,
ao capitalista x, y ou z, e também porque, não possuindo meios de produ-
ção para produzir seus meios de subsistência, est<í disponível pam ser
submetido ao trabalhn assalariado. Por outro lado, é neccss<:írio conside-
rarmos que, na realidade, o trabalhador assalariado, por ter de vender sua
fnrça de trabalho ü classe capilalista. vive subjugado a esta, e, conforme
afirmativa marxiana de IH67, 'a ilusão de sua independência se mantém
pela mudança contínua dos seus patrões e com a lkçilo jurídica do con-
trato'. Cabe aqui, ainda, lembrarmo-nos de que por ha"cr um contrato
entre o trabalhador assalariado e o capitalista, a mais-valia - o valor
criado durante a partl' da jornada de trabalho que constitui o tempo ex-
151
cedente é expropriado gratuitamente pelo capitulista - Fica velada, es-
condida, deixando a aparência de que todo o trabalho é pago, quando, na
realidade, existe aí o trabalho pago c o não pago"H.
É clara à estrutura capitalista, assim, a necessidade de fazer afirmar
a existência de um contrato individual do trabalho, já que se trata de uma
Forma de se conceber, pela perspectiva contratual, a ideia de autonomia
(liberdade) para o ato de contratar. É interessante ressaltar, para o enten-
dimento da idolatria da Figura contratual, a seguinte passagem:
"Ora, durante muitos séculos, a dominação de classe pressupôs a existên-
cia de vínculos de subordinação pessoal, tornando o homem dependente
de outro homem, nfin sendo ele livre para dispor de si próprio, não poden-
do oferecer a sua prüpria capacidade de trabalho cnmo mercadoria, no
mercado. A liberdade c a igualdade não reconhecidas, nem percebidas
como 'necessürias' ü condição humana. EntDo, a primeira obscrvaçilo que
eu quero fazer é a respeito desse vínculo essencial que pode ser estabe-
lecido entre a emergência da relaçilo de capital c o surgimento das cate-
gorias da liberdade e da igualdade. É somente em um momento preciso
da história, sob uma estrita determinação social, exatamente quando as
relaçües de produção capitalistas vão se constituindo, que a liberdade e a
igualdade aparecem como se Fossem inerentes à própria natureza do ho-
mem. Por que essas categorias, por tanto tempo ignoradas, por tanto
tempo negadas, agora se tornam imprescindíveis para a própria identifi-
cação da humanidade do homem? A emergência das categorias da liber-
dade e da igualdade faz com que o homem se transforme em um sujeito
de direito; o homem- qualquer homem- passa a ser dotado da mesma
capacidade jurídica, podendo realizar atos jurídicos, celebrar contratos.
Uma vez investido de personalidade, o homem, agora sujeito dc direito,
pode vender seus atributos, seus predicados, de tal sorte que podemos
dizer que a liberdade do homem ê D seu livre consentimento: o momento
mais elevado da realização da liberdade é o momento em que o homem
manifesta a sua vontade de dispor de si mesmo pnr tempo determinado
através de uma troca de equivalentes".!".
Cada vez mais, percebemos que há que se ter cuidado com essas
categorias, quando analisadas à luz do direito. Ainda que admitida a estru-
:H Relações entre sociedade, direito e economia. In Direito, socie,Jade e economia -leituras marxistas.
São Paulo: Mano\c, ó!005. p. 8 c 9.
:1r. NAVES, Márcio Bilharinho. Direito, circulnçiio mercantil e luta social. In Direito, .wriedad1~ e eco-
nomlii-Ieitum!i marxistas. São Paulo: Mano te, !:!005. p. ó!6 c ó!7.
152
tura contratual, tipicamente liberal, quando se prestigia a liberdade do
trabalhador, deve-se fazê-lo, na lógica do direito, de forma a desprendê-la
da simples perspectiva de que sua força de trabalho é mera mercadoria.
Devemos enfebtar sempre o homem e a sua força de trabalho no mesmo
ambiente para que a proteção jurídica não seja apenas proteção que leve
em consideração a mercadoria contratada e não o homem com a qual
confunde. Logo, o direito individual do trabalho, por meio das suas diversas