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1 
 
 
 
 
Centro Universitário de Patos de Minas 
 
 
 
 
 
 
 
 
Patos de Minas, agosto de 2011 
 2 
 
Professores 
 
 
Agenor Gonzaga dos Santos 
Carlos Roberto da Silva 
Elizene Sebastiana de Oliveira 
Elisa Aparecida Ferreira Guedes Duarte 
Fátima Aparecida dos Santos 
Geovane Fernandes Caixeta 
Gisele Carvalho Araújo Caixeta 
Moacir Manoel Felisbino 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Centro Universitário de Patos de Minas 
 
 
 3 
Caros alunos, 
 
A disciplina Linguagem e Comunicação consta da grade curricular do curso escolhido por vocês. Isso 
mereceria algumas justificativas acadêmicas, mas não queremos nos dirigir a vocês como “professores de 
português”. Dirigimo-nos a vocês como facilitadores no aprimoramento de suas habilidades lingüísticas. 
Linguagem e Comunicação está presente nos primeiros semestres de quase todos os cursos de graduação 
deste país – isso já mostra sua importância na formação profissional de qualquer estudante. Infelizmente, os 
anos anteriores de formação escolar não foram suficientes para o aprimoramento de tais habilidades. O 
acadêmico tem, na faculdade, uma das últimas oportunidades para desenvolver sua capacidade de expressão por 
meio da língua, seja na modalidade falada, seja na modalidade escrita. Se perdida essa oportunidade, ou mal 
aproveitada, poderá sofrer punições principalmente no mercado de trabalho, caso consiga ingressar-se nele. 
Sabemos que, no nosso dia-a-dia, não comunicamos por meio de palavras – elas existem apenas no 
dicionário. Comunicamos, sim, por meio de textos. Nossas relações pessoais ou profissionais realizam-se por 
meio de textos que (co)produzimos com nossos semelhantes. Tecemos idéias, tecemos compromissos. Sem o 
domínio eficiente da língua, sem o domínio da feitura de textos, não conseguiremos nos mover neste mundo 
marcadamente tecnológico. Marcadamente sem fronteiras. Marcadamente informativo. Mundo de exigências, 
então! 
Nosso papel no curso escolhido por vocês, caros alunos, é contribuir para que a formação de vocês 
esteja, também, respaldada pelas exigências deste mundo em que informações, que são textos circulantes, são 
extremamente necessárias para o desempenho profissional. Mesmo que, no futuro profissional, vocês não 
precisem escrever textos, não precisem ministrar palestras ou seminários, a desenvoltura lingüística poderá 
lhes garantir possibilidades de crescimento ininterrupto, já que irão (co)produzir textos menos formais em suas 
relações. Não há profissional isolado; há, sim, aquele que tece conhecimentos, que troca idéias, que comunica 
achados e os compartilha. E isso é o que nós chamamos de produção de textos. 
Produzir um texto falado ou escrito é uma atividade que se aprende, por ensaio e erro. Não é 
privilégio de poucos, mas direito de todos. O seu curso proporciona esse direito. Na nossa disciplina Linguagem 
e Comunicação, possibilitamos a vocês mecanismos de compreensão de textos, nos aspectos lingüístico, 
argumentativo e expressivo, para que desenvolvam suas habilidades de interação. Neste mundo sem limites 
para a troca de informações – vocês sabem o que a tecnologia pode fazer –, a partilha de textos, ou com 
amigos, ou com colegas de profissão, pode ser, também, o percurso para uma vida feliz e realizada. Sem 
textos, não há amigos, não há profissionais, não há homens. 
Esperamos – e acreditamos nisto – que a prática de textos seja um instrumento-chave na participação 
da vida social, profissional e intelectual. Oferecer, portanto, a vocês instrumentos para capacitá-los nessa 
empreitada é nosso dever! 
 
Os professores 
 4 
Sumário 
 
CARTA AOS ALUNOS ...................................................................................... 
 
3 
NOSSO MAIOR DIREITO ...................................................................................... 
 
6 
PLANO DE ENSINO ......................................................................................... 
 
7 
01 LINGUAGEM E SOCIEDADE ............................................................... 
 
10 
1.1 Informação e conhecimento ................................................................... 10 
1.1.1 Quem sabe .......................................................................................... 10 
1.1.2 Onde mora a inteligência .......................................................................... 12 
1.2 Linguagem, indivíduo e profissão ............................................................. 13 
1.2.1 Língua e poder ..................................................................................... 13 
1.3 Texto e sua circulação .......................................................................... 14 
1.3.1 Intenções do produtor .......................................................................... 15 
1.3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 16 
1. 3.2 Diversidade textual.............................................................................. 17 
1.3.2.1 Textos e atividades .............................................................................. 17 
1.3.3 Polifonia e intertexto ........................................................................... 34 
1.3.3.1 Textos e atividades .............................................................................. 
 
34 
02 TEXTO E SUA TEXTUALIDADE .......................................................... 
 
39 
2.1 Coerência textual ................................................................................ 39 
2.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 40 
2.2 Coesão textual ................................................................................... 46 
2.2.1 Textos e atividades .............................................................................. 49 
2.3 Parágrafo, estrutura e articulação ............................................................. 55 
2.3.1 Textos e atividades .............................................................................. 
 
56 
03 PROCESSOS DE COMPREENSÃO ........................................................ 
 
64 
3.1 Sentido literal e não-literal .................................................................... 64 
3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 65 
3.2 Atividade inferencial ............................................................................ 67 
3.2.1 Informações implícitas .......................................................................... 67 
3.2.1.1 Subentendidos e pressupostos ................................................................. 68 
3.2.1.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 69 
3.3 Estrutura da argumentação .................................................................... 74 
3.3.1 Recursos e falácias da argumentação ......................................................... 78 
3.3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 
 
79 
 5 
04 PRÁTICA DE TEXTOS ....................................................................... 
 
83 
4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades .................................................................. 83 
4.1.1 Artigo de opinião ................................................................................ 83 
4.1.2 Textos e atividades .............................................................................. 83 
4.1.3 
 
Sugestão de atividade ........................................................................... 944.2 Dossiê Política e Economia ....................................................................... 95 
4.2.1 Resumo ........................................................................................... 95 
4.2.2 Textos e atividades .............................................................................. 96 
4.2.3 
 
Sugestão de atividade ........................................................................... 98 
4.3 Dossiê Arte e Cultura ............................................................................. 100 
4.3.1 Resenha ........................................................................................... 100 
4.3.2 Textos e atividades .............................................................................. 101 
4.3.3 
 
Sugestão de atividade ........................................................................... 103 
4.4 Dossiê Biodiversidade, Ecologia e Meio Ambiente ............................................... 107 
4.4.1 Artigo científico ................................................................................. 107 
4.4.2 Textos e atividades .............................................................................. 108 
4.4.3 
 
Sugestão de atividade ........................................................................... 128 
4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento ............................................................. 128 
4.5.1 Seminário ......................................................................................... 128 
4.5.2 Organização de seminário ...................................................................... 129 
4.5.3 
 
Sugestão de seminários ......................................................................... 130 
 
REFERÊNCIAS ................................................................................................ 
 
 
 
 6 
Nosso maior direito 
Você já pensou na maravilha que é 
pensar? Poder pensar? Por que maravilha? Nem 
sei como explicar, mas ter consciência de que 
se está pensando é extraordinário; quantas 
vezes na vida você se deu conta de que estava 
pensando e na liberdade que se tem quando se 
pensa? 
Pensar nos leva de um deserto na 
Mongólia ao palácio de um rei, do sofrimento 
mais doloroso à mais escandalosa das 
felicidades, do ódio à paixão, da descrença à 
mais profunda fé, até da doença à saúde -e vale 
o vice-versa. 
Pensar: o maior privilégio que alguém 
pode ter. As guerras, as revoluções, as obras de 
arte, os filmes, os livros, tudo, absolutamente 
tudo, só existe porque um dia, em algum lugar, 
um homem pensou, e há quem afirme que a 
força do pensamento pode até fazer com que as 
coisas aconteçam. Todas não sei, mas algumas, 
com certeza. 
É divertido pensar; quando se pensa não 
há censura, nada é pecado, proibido ou contra a 
lei. Talvez seja, verdadeiramente, a única 
liberdade total que se tem. 
Muitas pessoas talvez nunca tenham 
prestado atenção em seus próprios 
pensamentos: pois deviam. Essa prática pode 
ser melhor do que muitos filmes e muita 
conversa fiada, mas difícil, para quem não está 
acostumado. Você sabia que há muita gente que 
passa a vida inteira sem se dar conta do 
privilégio que é poder pensar? 
Uma maravilha e também um perigo: 
basta que se fique "pensativa" para que alguém 
pergunte "o que você tem? Está pensando em 
quê?" 
Nada desestabiliza mais um grupo do 
que perceber que uma das pessoas está longe, 
pensando. 
Pensar é perigoso; é pensando que se 
descobre que a vida não está boa mas que pode 
mudar, que o país vai bem mas poderia ir 
muito melhor, é pensando que se pode 
transformar nossa vida e o mundo. 
Nelson Mandela disse que tinha 
saudades do tempo que passou na prisão, 
porque preso ele tinha tempo para pensar. No 
nosso dia a dia, quando sobra um momento 
para se estar só, inventa-se imediatamente 
alguma coisa para fazer, para evitar o perigo 
maior que é pensar. 
Ninguém – ou pouquíssimas pessoas- 
está completamente feliz com sua vida pessoal, 
seus amores, seu trabalho. Mas durante a 
novela ninguém está pondo em questão se 
poderia fazer alguma coisa para ser mais feliz. 
Será que os altos homens de negócios já 
pararam para pensar se vale a pena trabalhar 
tanto, se não têm nem tempo para gastar o 
dinheiro que já têm? E para que mais dinheiro? 
Para ter mais cinco pares de sapato, três bolsas, 
12 camisetas? É muito bom ter um carro do 
ano, mas se ele fosse de 2007 seria tão 
diferente? 
E essa mania de acumular, para deixar 
uma herança para os filhos, isso no fundo é um 
problema político. Todos sabemos que em 
alguns países a educação, a saúde e a 
aposentadoria são garantidas para toda a 
população, que sem precisar se preocupar tanto 
com o futuro, vive mais feliz -com menos 
frescuras, mas com mais alegria. 
Está vendo no que dá, pensar? 
Pensar é perigoso e subversivo, e uma 
coisa é certa: quem não pensa apenas faz o que 
os outros mandam: usam a bolsa da mesma 
grife porque inventaram, começaram a fumar e 
deixaram de fumar porque inventaram, e 
correm o risco de votar errado porque 
inventaram que quem tem carisma pode ser um 
bom presidente. 
Quem não pensa não escolhe, e são as 
escolhas que podem mudar. 
 
(LEÃO, Danuza. Nosso maior direito. Folha de S. Paulo, São 
Paulo, 25 julho 2010, p. C2) 
 
 7 
Plano de ensino de Linguagem e Comunicação 
 
EMENTA 
 
A noção de linguagem como interação e o domínio de mecanismos lingüísticos (gramaticais) e 
discursivos que permitam ao usuário da língua não só a leitura eficiente de textos variados, mas 
também a produção deles, a fim de que possa interagir e atuar sobre o(s) outro(s), social e 
profissionalmente. 
 
OBJETIVO GERAL 
 
• Proporcionar aos educandos conhecimentos teóricos e práticos que os levem a ler e a produzir 
textos de maneira eficiente, considerando o interlocutor, o contexto de produção, a circulação 
e o papel dos textos numa dada comunidade. 
 
OBJETIVOS ESPECÍFICOS 
 
• Refletir com os educandos sobre a importância da circulação de informações na construção 
do conhecimento, sobre o papel da linguagem como meio de sobrevivência e como 
instrumento-chave nas relações sociais e profissionais. 
 
• Provocar nos educandos, junto com a prática de produção de texto, reflexão sobre os 
fenômenos lingüísticos, a consciência de sua diversidade e não a simples repetição mecânica 
de regras. 
 
 
• Mostrar aos educandos que a produção eficiente de um texto resulta de operações que 
envolvem a língua e o raciocínio e não de um dom inato, o que equivale dizer também que 
escrever se aprende, por ensaio e erro, não sendo privilégio de poucos, mas direito de 
todos. 
 
• Possibilitar aos educandos uma melhor compreensão de textos, nos aspectos lingüísticos, 
argumentativos e expressivos, para que desenvolvam a habilidade de interação nas 
modalidades escrita e falada. 
 
 
• Oferecer aos educandos mecanismos que os conduzam a uma adequação lingüístico-
pragmática quanto às diversas tipologias e gêneros textuais, para que a prática da linguagem 
escrita seja um instrumento-chave na participação da vida social, profissional e intelectual. 
 
• Desenvolver nos educandos a capacidade de reflexão de natureza multi e interdisciplinar, 
para que possam desempenhar, por meio do domínio da língua(gem), suas atividades 
futuras, de modo globalizante. 
 
 
• Despertar nos educandos o interesse não só pela leitura variada de textos de temáticas 
atuais mas também pela produção deles, tanto nas relações diárias de convivência quanto 
nas profissionais. 
 
 8 
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 
 
01 LINGUAGEM E SOCIEDADE 
 
1.1 Informação e conhecimento 
1.1.1 Quem sabe 
1.2 Linguagem, indivíduo e profissão 
1.2.1 Linguagem e sobrevivência 
1.2.2 Cada um com sua língua 
1.2.3 Línguae poder 
1.3 Texto e sua circulação 
1.3.1 Intenções do produtor 
1.3.1.1 Textos e atividades 
1.3.2 Diversidade textual 
1.3.2.1 Textos e atividades 
1.3.3 Polifonia e intertexto 
1.3.3.1Textos e atividades 
 
02 TEXTO E SUA TEXTUALIDADE 
 
2.1 Coerência textual 
2.1.1 Textos e atividades 
2.2 Coesão textual 
2.2.1 Textos e atividades 
2.3 Parágrafo, estrutura e articulação 
2.3.1 Textos e atividades 
 
03 PROCESSOS DE COMPREENSÃO 
 
3.1 Sentido literal e não-literal 
3.1.1. Textos e atividades 
3.2 Informações implícitas 
3.2.1 Subentendidos e pressupostos 
3.2.1.1. Textos e atividades 
3.3 Atividade inferencial 
3.3.1 Textos e atividades 
3.4 Estrutura da argumentação 
3.4.1 Recursos e falácias da argumentação 
3.4.1.1 Textos e atividades 
 
04 PRÁTICA DE TEXTOS 
 
4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades 
4.1.1 Artigo de opinião 
4.1.2 Textos e atividades 
4.1.3 Sugestão de atividade 
 
4.2 Dossiê Política e Economia 
4.2.1 Resumo 
4.2.2 Textos e atividades 
4.2.3 Sugestão de atividade 
 
4.3 Dossiê Arte e Cultura 
4.3.1 Resenha 
4.3.2 Textos e atividades 
4.3.3 Sugestão de atividade 
 
4.4 Dossiê Biodiversidade e Ecologia 
4.4.1 Artigo de opinião 
4.4.2 Textos e atividades 
4.4.3 Sugestão de atividade 
 
4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento 
4.5.1 Seminário 
4.5.2 Organização de seminário 
4.5.3 Sugestão de seminários 
 
05 PROBLEMAS GERAIS DA LÍNGUA CULTA 
 
ATIVIDADES PRÁTICAS SUPERVISIONADAS 
 
Os discentes farão leituras de textos variados e de fontes diversas, selecionados pelo professor, 
voltados, direta ou indiretamente, à área de atuação escolhida, com a finalidade de reconhecer, de 
interpretar e de analisar os apontamentos teóricos feitos nas aulas. Será contemplada também a 
produção de textos a partir das leituras recomendadas. 
 
 
 
 
 
 9 
METODOLOGIA 
 
Para que se alcancem os objetivos propostos nas aulas de Linguagem e Comunicação, serão adotados os 
seguintes procedimentos didático-metodológicos: aulas expositivas, estudos de textos, debates, 
apresentação de seminários, oficinas de leitura e produção de textos. 
 
RECURSOS DIDÁTICOS 
 
Coletânea de textos e atividades, quadro, giz, textos selecionados de revistas, jornais e livros, 
retroprojetor, vídeo, salas de computadores e outros recursos necessários ao desenvolvimento das 
aulas. 
 
AVALIAÇÃO 
 
Do discente: 
• A avaliação, que consiste em um processo contínuo e permanente, será concebida e utilizada nesta 
disciplina como elemento constitutivo do processo ensino-aprendizagem que permite identificar, 
qualitativa e quantitativamente, os avanços e dificuldades na concretização dos objetivos propostos. 
Em cumprimento ao que prevê o regimento, no decorrer do semestre letivo, serão distribuídos 100 
(cem) pontos, de acordo com a nova proposta pedagógica. 
 
• É fundamental ressaltar que freqüência, empenho, compromisso, atitude e participação do aluno nas 
aulas, em eventos e em todo o contexto da vida acadêmica são fatores de grande relevância para a 
configuração do painel avaliativo. 
 
• Para efeito de aprovação por freqüência, o aluno deverá assistir, no mínimo, a 75% das aulas 
ministradas. A chamada nominal dos alunos será realizada oralmente, em momento determinado 
pelo professor. 
 
Do docente: 
• Os alunos avaliarão o desempenho e atuação do professor por meio de instrumento avaliativo 
elaborado pela CPA. 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
Básica 
 
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed. 
São Paulo: Ática, 2006. 
FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Oficina de texto. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2001. 
 
Complementar 
 
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. 4. ed. São Paulo: Parábola, 2008. 
DISCINI, Norma. Comunicação nos textos: leitura, produção, exercícios. São Paulo: Contexto, 
2005. 
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz C. A coerência textual. 17 ed. São Paulo: Contexto, 
2007. 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2. ed. São Paulo: 
Parábola, 2008. 
GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever aprendendo a pensar. 12. 
ed. São Paulo: FGV, 1985. 
 10 
Capítulo 1 
 
01 Linguagem e sociedade 
 
Neste capítulo, você vai ler e discutir, 
num primeiro momento, textos que abordam a 
relação entre informação e conhecimento, a 
construção do conhecimento como processo e 
a importância da linguagem técnica nas diversas 
áreas do conhecimento. Num segundo 
momento, serão apresentados textos para que 
você aprimore sua visão acerca do que seja 
(inter)texto, sua circulação e suas intenções. 
Ainda neste momento, você irá ler vários 
textos sobre um mesmo tema para que 
compreenda a importância dos gêneros textuais 
nas suas atividades diárias, profissionais e 
acadêmicas. Para cada texto ou conjunto de 
textos, serão elaboradas atividades para reforço 
de aprendizagem e para discussão nas aulas. 
 
1.1 Informação e conhecimento 
 
 Neste ainda recente intercurso de 
séculos, uma exigência é feita: devemos ter 
acesso a informações. No entanto, não 
podemos confundir esse acesso com a 
construção de saberes ou de conhecimento. 
Ter informação não significa necessariamente 
ter capacidade de produzir conhecimento. É 
consensual, porém, que informações recebidas 
são necessárias à elaboração de conhecimento. 
A evolução do homem foi e é garantida, em 
grande parte, pelo fluxo de informações e pelo 
conhecimento resultante do intercâmbio delas, 
ora confirmando-as, ora negando-as, ora 
aprimorando-as. 
 A cada dia, somos exigidos, 
principalmente no trabalho: devemos produzir 
sempre mais. Em qualquer atividade, somos 
levados a pensar, refletir, discutir, entre outras 
questões. Quem não tem informação não 
interage e quem não interage torna-se um 
indivíduo sem relações. Não há sociedade sem 
relações entre os indivíduos, não há atividade 
profissional que não gere resultados. Portanto, 
para que seja alcançada a interdependência 
necessária entre os indivíduos e entre os 
profissionais, a linguagem é necessária. É por 
meio dela que se constroem conhecimentos. 
 O domínio de linguagens, da língua às 
manifestações não verbais, não garante ao 
falante regalias sociais, culturais, profissionais. 
Não adianta ter acessos a meios que veiculam 
informações; isso não nos faz melhores nas 
nossas relações diárias e intelectuais. Não 
adianta ter a capacidade de assimilar a 
linguagem técnica de nossas profissões; outras 
exigências são necessárias. Talvez a nossa 
disposição para receber informações e colocá-
las em confronto com outras seja a nossa 
principal característica. Somos seres de 
produção de conhecimento, e a linguagem é a 
ponte para as travessias. 
 
 
1.1.1 Quem sabe ? 
 
Galileu revolucionou a ciência e a 
tecnologia ao afirmar que a natureza é escrita 
na linguagem dos números. A nova revolução 
tecnológica afirma que a sociedade é escrita na 
linguagem da informação. Mas de que tipo de 
sociedade estamos falando? 
O 0 e o 1 são os blocos básicos com os 
quais será construído o futuro. Dois algarismos 
apenas formam o alfabeto do fenômeno mais 
complexo dos tempos modernos: a tecnologia 
de informação e comunicação. Novas formas de 
atividade e expressão, novas práticas de 
 11 
trabalho e de lazer já emergiram, e as velhas já 
estão passando por transformações radicais. 
Essas mudanças tremendas estão 
ocorrendo em escala global porque a partilha 
de informações em rede está, pouco a pouco, 
alcançando todo o planeta. Ainda restam 
grandes disparidades, principalmente entre os 
hemisférios Sul e Norte, mas esses processos 
estão longe de completos. Em que direção eles 
estão nos conduzindo? Comodevem ser 
implementados e regulamentados? Quais 
devem ser os envolvidos? 
Essas perguntas todas levaram a ONU a 
convocar a Cúpula Mundial sobre a Sociedade 
de Informação, que terá lugar em Genebra em 
dezembro. Essa cúpula reunirá governos, 
ONGs, participantes-chaves no setor privado e 
na sociedade civil, a mídia e organizações que 
integram o sistema da ONU. Prevendo alguns 
dos tópicos constantes da agenda da cúpula, a 
Unesco recentemente lançou um novo ciclo em 
sua série de fóruns de filosofia. Para situar-se 
em uma discussão diretamente relacionada à 
sua área de competência, ela postulou a 
pergunta “Quem sabe?” a 20 figuras de 
destaque de uma série de áreas geográficas e 
intelectuais que participam do Fórum de 
Filosofia da Unesco. 
Alguns dirão que essa pergunta já é 
obsoleta. Para que memorizar se máquinas 
podem fazer melhor e mais rapidamente que 
nós? De que adianta conhecermos um teorema 
ou uma receita se podemos acessá-los 
facilmente na web? Essas perguntas não deixam 
de fazer sentido. Mas será que devemos 
concluir que a sociedade da informação conduz 
a uma sociedade caracterizada pela amnésia e 
ignorância? Deve a derrota de um homem pela 
máquina numa partida de xadrez nos fazer 
colocar em dúvida aquilo que é intrinsecamente 
humano? Não. Precisamos repensar o problema 
em novos termos. 
O Fórum de Filosofia da Unesco 
mostrou que a pergunta “Quem sabe?” só terá 
perdido a relevância se confundirmos 
informação com conhecimento. No entanto, 
essas são duas coisas distintas, embora 
relacionadas, na medida em que a informação é 
uma ferramenta do conhecimento. 
A informação é uma técnica que tem 
por objetivo eliminar o elemento do ruído na 
comunicação. Mas comunicação não é 
inovação. Calibrar as palavras e mensagens 
melhora a transmissão do conhecimento, mas 
não o cria. O ponto forte da informação 
também é sua limitação. A inovação ocorre 
apenas quando existe uma busca pelo que é 
novo; não existe pesquisa – logo, não há 
progresso – sem conhecimento e sem a 
curiosidade e a experiência, as falhas e as 
tradições que ele pressupõe. É o conhecimento 
que dá sentido à informação. 
O conhecimento inclui dimensões 
sociais, éticas e políticas que não podem ser 
reduzidas à tecnologia. Uma sociedade que 
fosse exclusivamente só de informação seria um 
conjunto de enormes redes interligadas, 
eficazes e ágeis, mas que não iria produzir 
inovações. A informação não é base suficiente 
sobre a qual erguer uma sociedade. Mas a 
sociedade se baseia no diálogo, não em bits de 
informação. Assim, “sociedades do 
conhecimento” parece ser uma expressão mais 
apropriada do que “sociedade da informação” 
para designar os fenômenos dos quais estamos 
tratando. 
Existe apenas uma sociedade da 
informação, já que existe apenas um padrão de 
dados e comunicações. As sociedades do 
conhecimento existem no plural, já que, na 
medida em que dizem respeito à criatividade, 
elas necessariamente implicam diversidade e 
partilha. 
Sem o intercâmbio do conhecimento 
não podem existir avanços econômicos, 
científicos ou políticos em nível local, regional 
ou global. A partilha eqüitativa do 
conhecimento será a origem da riqueza do 
amanhã. 
Isso também é verdade no que diz 
respeito à vida cívica. Sem cultura democrática 
– ou seja, sem a tradição e o aprendizado dos 
costumes e valores democráticos –, a 
informação será utilizada para as finalidades dos 
regimes oligárquicos ou tirânicos, tanto quanto 
 12 
para as dos regimes fundamentados em 
processos decisórios públicos e compartilhados. 
O conhecimento se tornou um potencial-chave 
de investimento em todas as áreas da atividade 
humana. 
É por essa razão que a Unesco decidiu 
dedicar às sociedades do conhecimento seu 
primeiro relatório mundial, a ser publicado em 
2005, e também organizar uma mesa-redonda 
sobre o mesmo tema durante sua conferência 
geral de outubro de 2003. Afinal, a idéia do 
conhecimento não resume, melhor do que 
qualquer outra, as exigências implícitas na 
educação, ciência e cultura? Nossa meta é 
promover uma reflexão progressiva sobre os 
desafios postos pelas sociedades emergentes. 
Diante da revolução do conhecimento, a 
Unesco se mantém fiel a seu papel essencial: 
atuar como laboratório das idéias do amanhã. 
 
(Jérome Bindé é diretor de Antecipação e Estudos de 
Perspectivas da Unesco; Joseph Goux é professor de filosofia 
na Universidade Rice (Texas), EUA) 
 
(Folha de S. Paulo, 23 nov. 2003) 
 
 
1) Informação e conhecimento são conceitos sinônimos e equivalentes? Argumente. 
2) Qual o problema enfrentado pela sociedade da informação? 
3) O que poderá acontecer se a informação e a tecnologia de ponta substituírem a cultura 
democrática? 
4) Com base no texto e em seus conhecimentos, discorra, num único parágrafo, sobre a força e a 
importância do fluxo de informação para a sociedade moderna. 
 
 
1.1.2 Onde mora a inteligência 
 
Retorno ao lugar onde parei, na Escola 
da Ponte, em Portugal. A menina que me 
levava me havia dito umas coisas que me 
espantaram por não combinarem com aquilo 
que eu pensava saber sobre as escolas. Foi 
então que me veio à cabeça a sabedoria do 
Riobaldo: "O real não está na saída nem na 
chegada: ele se dispõe para a gente é no meio 
da travessia". Sem intenção consciente, o dito 
do Riobaldo passou por uma transformação 
pedagógica e virou "a inteligência não está na 
saída nem na chegada, ela se dispõe para a 
gente é no meio da travessia". A inteligência 
acontece no "estar indo". Quando ela não está 
indo, ela está dormindo... 
Lembrei-me dos meus anos de ginásio, 
a pedagogia que os professores usavam 
naqueles tempos, e não sei se as coisas 
mudaram, porque o hábito tem um poder 
muito grande... Pois os professores me 
ensinaram as coisas que estavam na chegada, 
mas não me contaram como foi que a travessia 
tinha sido feita. 
O professor entrou em sala e anunciou: 
equação do segundo grau. Aí, ele se pôs a falar 
e a escrever símbolos no quadro negro. 
Aprendi automaticamente, sem entender, 
porque tinha memória boa: "x = -b + ou - raiz 
quadrada de b2 - 4ac sobre 2a". Lembro-me de 
um colega que não havia entendido a coisa, 
estava perturbado com o símbolo "x" e veio 
me perguntar: "Afinal, qual é mesmo o valor 
de "x"? 
Eu sabia que a fórmula para se 
determinar o valor de "x" não havia caído dos 
céus. Ela aparecera na cabeça de algum 
matemático que a deduzira séculos atrás depois 
de uma longa travessia numa jangada feita de 
pensamentos. O dito matemático a descobriu 
porque seus pensamentos estavam infelizes. 
"Ostra feliz não faz pérola". O que é dor para a 
ostra é uma interrogação para a cabeça. 
Mas por onde o pensamento 
matemático navegou para fazer a travessia, isso 
o professor não ensinou. É possível que ele não 
soubesse, ou que achasse que isso não 
importava. Para que entender a gravidez se o 
nenê já nasceu? O que importa é comer o bolo 
e não saber a receita... 
 13 
Me ensinaram também as três leis dos 
movimentos dos planetas que Kepler 
descobriu, curtinhas, fáceis de guardar na 
memória. Mas essas três leis na minha memória 
em nada contribuíram para dar poder à minha 
inteligência. Enquanto a memória trabalhava 
para decorar a "chegada", minha inteligência 
dormia. Nada me contaram sobre os caminhos 
fascinantes por onde errou o pensamento do 
astrônomo por dezoito anos. Uma hipótese 
errada atrás da outra, um caminho que não 
levava a lugar algum depois do outro. Por que 
gastar tempo com os erros da "travessia", se se 
pode ir diretamente à "chegada", conclusão? 
Não se percebe que, ao assim proceder, o 
aluno ganha uma memória musculosa e uma 
inteligência flácida... 
Pensar é como escalar montanhas. Um 
alpinista recusaria o caminho rápido e seguro 
de chegar ao topo da montanhavia helicóptero, 
sem sofrer e sem suar. Onde está a graça? O 
que ele deseja são os medos, os calafrios, os 
desafios da montanha, o que ele vê enquanto 
sobe... A arte de pensar se ensina fazendo a 
inteligência seguir o caminho da travessia, com 
todos os seus erros e enganos. 
 
(ALVES, Rubens. Onde mora a inteligência. Folha de S. Paulo, 
28 junho 2011, p. A2. Caderno Cotidiano) 
 
1) O que o autor discute no texto? Você concorda com o ponto de vista dele? Por quê? 
2) Qual a importância da citação no primeiro parágrafo para a montagem do esquema argumentativo 
do texto? 
3) Traduza a seguinte passagem: “Não se percebe que, ao assim proceder, o aluno ganha uma 
memória musculosa e uma inteligência flácida...” 
4) Para você, em relação ao conhecimento, a tecnologia é uma ferramenta para a “travessia” ou para a 
“chegada”? 
5) Como você pretende percorrer o caminho da leitura e da produção de textos neste momento 
acadêmico e na vida profissional futura? 
 
1.2 Linguagem, indivíduo e profissão 
 
 Conforme, Nicola, Cavallete Terra 
(2002), todo falante tem um certo conceito 
sobre que linguagem usar, dependendo da 
situação em que se encontra. Por isso, utiliza 
um registro formal em situação formal e um 
registro mais livre em situação menos formal. 
Por isso, também, notamos que a linguagem é 
desenvolta quando o sujeito tem o domínio da 
situação e, ao contrário, ele se cala ou se inibe 
se esse domínio não existe. Nas relações 
profissionais, o uso da linguagem, sobretudo a 
técnica, é primordial para que o falante se 
sobressaia bem. 
 
1.2.1 Língua e poder 
 
“A terapia teve um efeito idiossincrático 
com prognóstico favorável em caso de pronta 
supressão”. Essa frase, enigmática para os não-
iniciados nas sendas médicas, não significa 
muito mais do que “o remédio teve efeito 
contrário, mas não causará problemas se for 
suspenso logo”. 
Esse é um dos exemplos de jargão que 
consta da reportagem sobre linguagens técnicas 
publicada na semana passada no caderno 
Sinapse. O jargão é de fato inevitável, mas isso 
não significa que ele deva ser empregado em 
todas as ocasiões. Com efeito, toda profissão, 
do telemarketing à física de partículas, acaba 
por desenvolver um vocabulário específico, 
muitas vezes impenetrável para o leigo. Não 
apenas neologismos são criados como palavras 
comuns podem ter sua significação alterada. 
 14 
Em alguns casos, trata-se de uma 
necessidade. O jargão, no mínimo, economiza 
palavras, concentrando carga informativa em 
termos específicos. Quando um médico fala em 
“miocardiopatia idiopática”, ele está na verdade 
dizendo um pouco mais do que apenas 
“problemas cardíacos de causa ignorada”. No 
subtexto, um outro médico compreenderá que 
o paciente sofre de moléstia cardíaca de origem 
desconhecida e para a qual já foram descartadas 
as causas que mais comumente provocam 
doenças do coração. 
Em determinadas áreas científicas, os 
próprios objetos de estudo não passam de 
jargão. É o caso, por exemplo, da lingüística, 
com seus morfemas, sintagmas e lexemas, e da 
física de partículas, com seus quarks, glúons e 
léptons. No limite, sem o jargão, os fenômenos 
estudados não podem nem ser enunciados. 
Reconhecer a importância e a 
necessidade do jargão em certas situações não 
significa chancelar seu uso indiscriminado. Um 
médico ou um advogado que se dirijam a seus 
clientes em linguagem técnica incompreensível 
estão, na verdade, atendendo muito mal ao 
consumidor, que deve ter, em todas as 
ocasiões, acesso a uma explicação completa de 
sua situação em linguagem acessível. 
Infelizmente, as coisas nem sempre se 
passam assim. Desde que o mundo é mundo, 
profissionais de uma determinada área tendem 
a unir-se para manter sua arte impenetrável 
para o público em geral e, assim, aumentar seu 
poder. Não foi por outra razão que os escribas 
do antigo Egito complicaram 
desnecessariamente a escrita hieroglífica: era 
uma forma de conservarem e até de ampliarem 
sua posição hierárquica. Os tempos e as 
ciências mudaram, mas o princípio de 
complicar para valorizar-se permanece em 
vigor. 
Não devemos, é claro, ser ingênuos e 
acreditar que poderemos promover a plena 
igualdade através da língua. Democracia é, 
antes de mais nada, a arte de negociar, de 
aplicar o bom senso na solução de problemas. 
Nesse sentido, o bom profissional é aquele 
capaz de comunicar-se no melhor jargão com 
seus colegas, mas que consegue, sem grandes 
perdas, fazer-se entender pelo leigo. Os que 
ostensivamente abusam da linguagem técnica 
tendem a ser os menos capazes, os que mais 
precisam afirmar-se para não perder poder. 
 
(Folha de S. Paulo, 20 junho 2003) 
 
 
1) Qual a relação entre domínio da língua e poder? Dê exemplos. 
2) Qual a sua opinião sobre o uso exagerado do jargão na profissão que você escolheu. Qual a 
linguagem ideal para o profissional? 
3) Você percebeu que esse texto faz referência a um anterior. De modo geral, como você vê a relação 
entre os textos? 
4) O jargão, nas mais diversas profissões, pode ser considerado fator de exclusão? Comente. 
5) Você acredita que o sucesso profissional esteja ligado ao domínio da linguagem técnica da área de 
conhecimento que você escolheu? Por quê? 
 
 
1.3 Texto e sua circulação 
 
 Alguns teóricos da linguagem 
consideram que, na era da informação, tudo é 
texto. Um slogan de uma campanha política, 
uma música, um gráfico, um discurso oral, 
uma placa de trânsito, enfim, os mais variados 
arranjos organizados com o propósito de 
informar, comunicar, veicular sentidos são 
textos. Assim, um texto é não exclusividade da 
palavra. O texto é determinado pela finalidade 
comunicativa. E não faltam meios e recursos, 
nesta época em que vivemos, para a produção e 
circulação de textos dos mais diversos e 
diferentes possíveis. 
 15 
1.3.1 Intenções do produtor 
 
Conforme, Nicola, Florina e Ernani 
20002), o falante, ao realizar um ato de 
comunicação verbal, escolhe, seleciona palavras 
para depois organiza-las, combina-las, 
conforme a sua vontade. Esse trabalho de 
seleção e combinação não é aleatório, não é 
realizado por acaso (afinal, seleção significa 
“escolha fundamentada”), mas está diretamente 
ligado à intenção do produtor do texto. Desse 
modo, a linguagem passa a ter funções, como 
as de informar, seduzir, emocionar, convencer, 
entre outras. 
 
1.3.2 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, os dois textos a seguir para responder ao que se pede. 
 
Governo emite nota oficial sobre caso Grafite 
 
O Governo Federal emitiu nota à 
imprensa dando seu parecer sobre o caso 
Grafite. A nota foi assinada pelo Ministro dos 
Esportes, Agnelo Queiroz, e pela secretária 
especial de Políticas de Promoção da Igualdade 
Racial, Matilde Ribeiro. 
Na nota, o ministro repudia qualquer 
tipo de preconceito e de discriminação. Para 
Agnelo Queiroz, o caso entre Grafite e 
Desábato representa “mais um caso na escalada 
do preconceito que vem se tornando rotineiro 
no futebol feito por torcedor e jogadores 
contra os atletas afro-descendentes”. 
O ministro afirma na nota que “A 
atitude racista do jogador argentino vai contra 
todos os valores de igualdade, respeito e união 
que o esporte promove”. 
Ainda segundo a nota, “O Governo 
Federal acionará as esferas da administração 
esportiva nacional e internacional para que 
adotem medidas concretas para banir 
definitivamente do espetáculo esportivo a 
discriminação racial, o preconceito e a 
xenofobia, que, se não eliminados, 
representam ameaça à democracia”. 
O ministro e a secretária informaram 
que em 2005, Ano Nacional de Promoção da 
Igualdade Racial, o tema é de relevante 
importância nos trabalhos da Comissão “Paz no 
Esporte”, lançada em março para acabar com 
qualquer tipo de violência nessa área.(Disponível em : <tv.terra.com.br/esportes/esportestv>. 
Acesso em: 20 abril 2007)
 
[Fragmento do Código Penal] 
 
Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a 
dignidade ou o decoro: 
Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou 
multa. 
§ 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: 
I - quando o ofendido, de forma reprovável, 
provocou diretamente a injúria; 
II - no caso de retorsão imediata, que consista 
em outra injúria. 
§ 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias 
de fato, que, por sua natureza ou pelo meio 
empregado, se considerem aviltantes: 
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) 
ano, e multa, além da pena correspondente à 
violência. 
§ 3º - Se a injúria consiste na utilização de 
elementos referentes a raça, cor, etnia, religião 
ou origem: 
Pena - reclusão de um a três anos e multa. 
* § 3º acrescentado pela Lei nº 9.459, de 13 de 
maio de 1997. 
Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo 
aumentam-se de um terço, se qualquer dos 
crimes é cometido: 
 16 
I - contra o Presidente da República, ou contra 
chefe de governo estrangeiro; 
II - contra funcionário público, em razão de 
suas funções; 
III - na presença de várias pessoas, ou por meio 
que facilite a divulgação da calúnia, da 
difamação ou da injúria. 
Parágrafo único - Se o crime é cometido 
mediante paga ou promessa de recompensa, 
aplica-se a pena em dobro. 
 
(Disponível em : <tv.terra.com.br/esportes/esportestv>. 
Acesso em: 20 abril 2007) 
 
 
1) Com que intenções os textos foram escritos? 
2) No Texto 1, percebe-se o uso do discurso direto. Que efeito esse uso confere à notícia lida? Já no 
Texto 2, não se percebe de quem é a voz que fala. Por quê? De quem seria essa voz? 
 
 
2) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. 
 
Isabella mora ao lado 
 
A violência doméstica é pior do que se 
imagina – aliás, muito pior. É o que se conclui 
de uma investigação em andamento feita pela 
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) 
com 800 famílias na periferia da cidade de São 
Paulo. É a primeira pesquisa de que se tem 
notícia feita de casa em casa, e não apenas com 
bases nos falhos registros oficiais. 
Os pesquisadores estão constatando 
uma incidência de 20% de agressões graves 
contra as crianças, o que significa queimaduras, 
asfixia ou espancamento, resultando em 
fraturas e lesões que, muitas vezes, acabam no 
hospital, mas não punem o agressor, protegido 
por um manto de silencio familiar. Mas deixam 
seqüelas psicológicas profundas. 
Essa pesquisa, que detalhei em meu site 
(www.dimenstein.com.br), mostra que o 
drama da menina Isabella, que parece tão 
distante, mora, na verdade, ao lado. A criança 
vira a depositária do estresse da pobreza 
combinada com o desequilíbrio emocional de 
adultos – e, claro, é vítima da ignorância. Os 
pesquisadores da Unifesp ouvem a desculpa das 
mães e pais de que estão apenas educando seus 
filhos. 
Esse é mais um aspecto de uma mais das 
maiores fragilidades sociais brasileiras: a pouca 
atenção à primeira infância, especialmente nas 
camadas mais pobres. 
 
(Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial 
da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. 
Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve 
para a Folha Online às segundas-feiras. Texto disponível em: 
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/gilbertodi
menstein>. Acesso: 23 abril 2008) 
 
 
1) Com que intenções o texto foi escrito? 
2) Procure identificar o que é informação da pesquisa e o que é informação do autor do texto. 
3) Simbolicamente, quem é a Isabella de Dimenstein? Argumente. 
 
 
3) Leia, com atenção, as informações a seguir para responder ao que se pede. 
 
No ano de 2010 principalmente, as diversas 
mídias divulgaram notícias e juízos de valor 
acerca do julgamento do casal Nardoni, 
suspeito da morte da menina Isabella Nardoni. 
A mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, após 
a sentença, “abatida e com olheiras profundas”, 
segundo a Folha de S. Paulo (28 março 2010), 
falou à imprensa. 
 
 17 
 
Com base nessas informações e em seu conhecimento sobre o caso, qual das frases abaixo NÃO 
poderia ter sido dita por Ana Carolina Oliveira numa de suas entrevistas à imprensa? Justifique sua 
resposta. 
 
I – A justiça foi feita, mas minha filha não vai voltar. 
II – Minha filha não vai voltar, mas a justiça foi feita. 
 
 
 
1.3.2 Diversidade textual 
 
A seguir, você terá acesso a vários 
textos sobre a temática guerra e paz. Após ler 
esses textos e discuti-los com os colegas e com 
o professor, complete o quadro ao final da 
coletânea, cujo objetivo é compreender e fixar 
o conceito de gênero textual, identificando as 
principais características dos vinte gêneros 
selecionados. Espera-se que, por meio dessa 
atividade, você desenvolva sua leitura crítica e 
sua produção textual. 
 
1.3.2.1 Textos e atividades 
 
1 Artigo de opinião 
 
Sobre a tolice de erguer estátuas 
 
Virar estátua pode ter forte apelo. Seja 
de bronze, de pedra ou de madeira, ela é feita 
de material muito mais durável do que carne e 
osso. Sobrevivem até hoje estátuas de muitos 
milhares de anos. Graças a elas conhecemos os 
nomes dos faraós do Egito e as feições dos 
imperadores romanos. A estátua também 
permite ao ser humano projetar-se muito acima 
das reais dimensões. Nelas, o corpo pode alçar-
se a 10 ou 20 metros de altura e escorar-se 
numa massa de 1 tonelada ou mais. Ainda 
assim, erguer estátuas à própria glória, como 
ficou provado na semana passada, é a mais 
estúpida das políticas. Pois, ainda que a estátua 
ofereça uma carona para a magnificência e um 
atalho para a eternidade, e ainda que semeie 
temor e reverência, bem ao gosto de certos 
regimes, algo que não oferece é a segurança de 
que um dia não será derrubada. E, quando isso 
acontece, pobre do infeliz ali representado. 
Nada mais gráfico, nada mais eloqüente de sua 
desgraça. Saddam Hussein caiu não em carne e 
osso, mas em pedra. No plano simbólico, pior 
para ele. Foi assim arrastado pelas ruas, 
golpeado e insultado como de outra forma não 
seria. 
A derrubada da estátua de Saddam, de 6 
metros de altura, mais 6 de pedestal, numa 
praça central de Bagdá, foi como a encenação 
de um auto didático. Primeiro os próprios 
iraquianos tentaram derrubá-la, com 
picaretadas no pedestal ou com uma corda a 
puxá-la pelo pescoço. Não conseguiram. Seus 
métodos eram muito primitivos, os materiais, 
insuficientes para o tamanho da empreitada. 
Precisaram dos americanos, que vieram com 
tecnologia várias vezes superior à necessária: 
um tanque. Um marine subiu ao topo para 
amarrar um cabo de aço ao pescoço da estátua. 
Aproveitou para enrolar-lhe ao rosto uma 
bandeira americana. Foi vaiado, tirou-a e 
substituiu-a por uma bandeira do Iraque. O 
tanque então puxou o cabo de aço e a estátua, 
por puro efeito da força e da tecnologia 
americanas, veio abaixo. Não seria melhor caso 
a ação tivesse obedecido a um roteiro. Não 
daria tão certo se tivesse sido ensaiada. Até o 
marine que enrolou a bandeira americana no 
rosto do ditador representava um papel. Ele 
tinha traços orientais. Com isso lembrava que, 
 18 
assim como o grosso das legiões romanas era 
formado pelos povos conquistados, assim 
também o Exército americano vai se 
transformando num mosaico onde as minorias 
são cada vez mais representadas. 
O fato de a derrubada do regime se ter 
dado por obra dos americanos, como bem 
expôs o auto da praça, tirou-lhe um pedaço da 
legitimidade. Claro, é sempre bom ver desabar 
um regime sanguinário. Mas nos regimes que 
desabaram na Europa do Leste, às vezes 
também na forma de assalto a um símbolo de 
pedra, como no caso clássico do Muro de 
Berlim, o feito foi dos próprios povos. Assim 
nãohumilha. No Iraque o invasor, agora feito 
tropa de ocupação, é não só o autor da 
derrubada como o sucessor do regime deposto. 
É também o autor de uma investida que deixou 
mortos e feridos no caminho. A libertação que 
proporcionou manchou-se do sangue dos 
libertados. Uma grande interrogação se abre 
diante da reinauguração do sistema colonial a 
que se propõem os americanos, no coração da 
região mais conturbada do mundo. 
Erguer estátuas a si mesmo, para voltar 
ao tema de três parágrafos atrás, tem, na outra 
face da moeda, o inconveniente de oferecer ao 
inimigo um símbolo grandioso a pôr abaixo. 
Acresce, no caso presente, que esta guerra 
estava sem uma imagem disponível para ser 
apresentada como fecho de ouro na televisão. 
A rendição do inimigo, na forma de um 
cavalheiro que se apresenta para assinar 
solenemente um armistício, como nas guerras 
do passado, parecia fora de cogitação. O 
paradeiro ignorado de Saddam Hussein, desde 
o início do conflito, também fazia prever que o 
ditador não se apresentaria de corpo presente 
para ser preso ou morto. A estátua veio a 
calhar. Ainda mais que se situava de cara para o 
hotel onde se concentravam os jornalistas. 
Todos os caderninhos, os notebooks, os 
telefones por satélite, os videofones, as 
máquinas fotográficas e as câmeras de TV já 
estavam naturalmente apontados para ela. Não 
precisaram nem ser convocados. 
O espetáculo da praça deu aos 
americanos uma das duas coisas de que mais 
necessitavam: uma multidão amiga (a outra são 
estoques de armas químicas). Mas é bom não 
esquecer: a multidão não era tão multidão 
assim. Não dá para, com base nela, extrair o 
sentimento dominante entre os iraquianos. A 
multidão da praça certamente é menor do que 
a que lotou os hospitais e cemitérios iraquianos 
nas últimas três semanas. O que conduz à 
conclusão de que, crime por crime, os de 
Saddam têm um contrapeso nos dos invasores. 
Nos Estados Unidos os governantes não 
costumam erigir estátuas a si mesmos. George 
W. Bush não poderá ser derrubado dessa 
forma. Mas, para honra dos Estados Unidos, há 
o voto. Resta esperar que, numa apoteótica 
volta à lucidez, o eleitorado americano faça a 
justiça que ficou faltando para um dos lados, 
numa guerra em que os dois mereciam perder. 
 
(TOLEDO, Roberto Pompeu de. Sobre a tolice de erguer 
estátuas. Veja, São Paulo,16 abril 2003, p. 122) 
 
2 Resenha 
A revolução dos bichos 
Verdadeiro clássico moderno, 
concebido por um dos mais influentes 
escritores do século 20, “A revolução dos 
bichos” é uma fábula sobre o poder. Narra a 
insurreição dos animais de uma granja contra 
seus donos. Progressivamente, porém, a 
revolução degenera numa tirania ainda mais 
opressiva que a dos humanos. Escrita em plena 
Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 
depois de ter sido rejeitada por várias editoras, 
essa pequena narrativa causou desconforto ao 
satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa 
época em que os soviéticos ainda eram aliados 
do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. 
Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas 
razões que causaram constrangimento na época 
de sua publicação levaram “A revolução dos 
bichos” a ser amplamente usada pelo Ocidente 
nas décadas seguintes como arma ideológica 
contra o comunismo. O próprio Orwell, 
 19 
adepto do socialismo e inimigo de qualquer 
forma de manipulação política, sentiu-se 
incomodado com a utilização de sua fábula 
como panfleto. Depois das profundas 
transformações políticas que mudaram a 
fisionomia do planeta nas últimas décadas, a 
pequena obra-prima de Orwell pode ser vista 
sem o viés ideológico reducionista. Mais de 
sessenta anos depois de escrita, ela mantém o 
viço e o brilho de uma alegoria perene sobre as 
fraquezas humanas que levam à corrosão dos 
grandes projetos de revolução política. Escrito 
com perfeito domínio da narrativa, atenção às 
minúcias e extraordinária capacidade de criação 
de personagens e situações, “A revolução dos 
bichos” combina de maneira feliz duas ricas 
tradições literárias - a das fábulas morais, que 
remontam a Esopo, e a da sátira política, que 
teve talvez em Jonathan Swift seu 
representante máximo. 
 
(Disponível em: <http://br.gojaba.com>. Acesso em: 8 jan. 
2011) 
 
3 Entrevista 
A guerra irracional 
Fascinado por guerras e pela vida 
militar desde que viu as tropas aliadas se 
preparando para o Dia D, no interior da 
Inglaterra, sir John Keegan não conseguiu 
realizar o sonho juvenil de se tornar soldado. 
Uma doença de infância o deixou manco e o 
impediu de ingressar na academia militar. Os 
ingleses perderam um general, mas o mundo 
ganhou seu mais celebrado historiador militar. 
Quando entrou na Universidade de Oxford, 
em 1953, dedicou-se à história das atividades 
militares. Em 1960, aos 25 anos, foi aceito 
como professor na Real Academia Militar de 
Sandhurst, a escola de cadetes ingleses, onde 
ficou até 1986. Casado há quarenta anos com 
Susanne e pai de quatro filhos, é editor de 
defesa do jornal inglês Daily Telegraph, mas 
passa a maior parte de seu tempo fazendo 
pesquisas e escrevendo livros. Ao todo, já 
publicou vinte obras, entre elas o clássico Uma 
História da Guerra (lançado no Brasil pela 
Companhia das Letras). Atualmente, prepara 
um livro sobre as operações de inteligência nos 
últimos 200 anos. De sua casa, no interior da 
Inglaterra, Keegan concedeu a seguinte 
entrevista a Veja. 
 
Veja – O que será necessário fazer para que os 
terroristas sejam punidos pelos atentados em 
Nova York e Washington? 
Keegan – A prisão, o julgamento e a execução 
de Osama bin Laden. Mas isso não seria o fim 
dos problemas. Os objetivos dos terroristas não 
deixam o menor espaço para negociações e 
concessões. Estamos vivendo uma situação 
muito incômoda. Não consigo ver um fim para 
isso. Para cidadãos comuns, é muito 
deprimente. Para os governantes, é 
preocupante. A única saída é eliminar os 
terroristas. Ou os prendemos pelo resto de 
suas vidas ou os matamos. Não tem outro jeito. 
Não temos como convencê-los de que estão 
errados com conversa, usando a razão. 
 
Veja – Será difícil para os americanos derrotar 
o Talibã, a milícia que controla o Afeganistão? 
Keegan – O Talibã não é tão forte quanto 
alguns falam. Não é numeroso nem tem um 
exército bem organizado e equipado. Muitos 
componentes nem são afegãos. Vêm do 
Paquistão e não conhecem tão bem o terreno. 
O Talibã é impopular devido à forma radical 
com que impôs o islamismo fundamentalista. 
Historicamente, os afegãos não são 
particularmente fervorosos em termos 
religiosos. Uma intervenção no Afeganistão não 
deve encontrar forte resistência. Pelo menos, 
não em grandes proporções. Já encontrar 
Osama bin Laden será difícil. O país é grande e 
selvagem, com um terreno dificílimo. 
Operações pequenas e rápidas para capturar 
Laden são a melhor opção. [...] 
 
 
Veja – Estamos vendo a primeira guerra 
verdadeiramente mundial? 
 20 
Keegan – Não. Muitos países não são 
suscetíveis ao terrorismo. As nações 
escadinavas têm população homogênea e 
urbana. Não correm perigo. O terrorismo 
precisa de um certo grau de sofisticação e de 
financiamento. A maior parte do mundo é 
muito primitiva para dar apoio a grupos 
terroristas. É importante lembrar que os 
fundamentalistas são apenas uma minoria. Na 
Inglaterra, temos uma comunidade muçulmana 
e a maior parte de seus membros está 
preocupada em educar os filhos e prosperar. É 
claro que muitos nutrem certa simpatia por 
seus companheiros de crença. Mas são pessoas 
sofisticadas e sabem que é melhor não se 
misturar com os fundamentalistas. É possível 
que os radicais organizem algum ataque na 
Inglaterra, contudo não acredito em algo 
continuado. Já a França deve estar atenta. Tem 
uma grande população islâmica e a maior partedela vive na pobreza e está descontente. [...] 
 
Veja – Por que existe a guerra? 
Keegan – Os homens lutam por questões 
racionais. Acham que os custos de ir à guerra 
valem a pena em vista de vantagens em caso de 
vitória. Desta vez, temos uma guerra 
irracional. 
 
Veja – O significado da guerra varia de acordo 
com a cultura? 
Keegan – Sim. No mundo acadêmico, há dois 
grupos. Um acha que a guerra tem 
características imutáveis e outro diz que os 
conflitos mudam conforme a cultura. Sou do 
segundo grupo. A mais recente evidência de 
que a guerra é cultural são os guerreiros 
suicidas islâmicos, que não existem na tradição 
judaico-cristã. 
 
Veja – Em que circunstância uma guerra é 
considerada justa? 
Keegan – Antes de Hugo Grotius, escritor 
holandês do século XVII, a idéia de justiça na 
guerra era relacionada à moralidade cristã. 
Quando Estados protestantes começaram a 
lutar contra Estados católicos e vice-versa, foi 
um choque para todos, e a idéia de justiça 
relacionada à moral cristã caiu em desgraça. 
Grotius procurou nova base para estabelecer o 
que é uma guerra justa. No fim das contas, 
resumiu seu pensamento da seguinte forma: o 
Estado deve ser o juiz de seus atos. Se o Estado 
acredita que uma guerra é justa, então a guerra 
é justa. Isso valeu até a criação das Nações 
Unidas. A partir da década de 40, guerras justas 
são as que recebem a aprovação das Nações 
Unidas e aquelas levadas a cabo em autodefesa. 
[...] 
 
(KEEGAN, John. A guerra irracional. Veja, São Paulo, Ed. 
1720, 3 out. 2001. p. 9, 12-13. Entrevista concedida a 
Eduardo Salgado) 
 
 
4 Poema 
Manhã dos mortos 
 
Todos os dias, bem cedo, 
enquanto contemplais a manhã: 
de fome 
de dor 
de medo 
e de sede 
morrem milhares no Vietnam. 
 
Todos os dias, bem cedo, 
enquanto contemplais a manhã. 
 
(CASTRO, Altino Caixeta de. Cidadela da rosa: com fissão da flor. Brasília: Horizonte Editora Limitada, 1980. p. 281) 
 
 21 
5 Carta pessoal 
“Amados pais. Se estão lendo esta carta, 
é porque ainda temos o aeroporto. Tenho 
certeza que esta será a última que seu amado 
filho lhes escreverá. Temos russos por todos os 
lados e não nos mandam ajuda de Berlim. Lhes 
tenho uma triste notícia, Granstsau morreu 
semana passada. Estava ele, eu e mais três 
andando quando simplesmente caiu no chão 
com a cabeça aberta. Amados pais, chorei 
muito ao vê-lo, porque crescemos juntos, 
lembram-se? Quando éramos crianças, quebrei 
a perna, ele me levou a casa nas suas costas com 
a minha perna quebrada. Sinto muito pelos pais 
dele. Perdi meu único amigo. E aqui haverá o 
fim. Nosso comandante se matou com um tiro 
na boca ontem de noite. Nossa moral não 
existe mais. Mas espero que essa maldita guerra 
acabe, pouco me importa o que aconteça. Se 
não receberem mais cartas minhas, vão para 
Espanha o quanto antes, sabemos que é uma 
questão de tempo dos russos chegarem em 
Berlim. Amados pais, após essa guerra, a 
Alemanha ficará atônita ao saber que o soldado 
que lhes escreve teve a vida salva por um 
médico judeu. Estou bem dos ferimentos, mas 
a cicatriz é enorme e horrível. Amados pais, se 
cuidem. Se não receberem mais cartas minhas, 
vão para Espanha, o dinheiro vocês já tem. 
Logo estaremos de novo conversando com 
Hilse, nos bom tempos dos dias de sol. Com 
muita devoção, seu filho querido.” 
 
(Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958. 
Disponível em: 
<http://avidanofront.blogspot.com/2010/07/cartas-de-
soldados-alemaes-escritas.html>. Acesso em: 06 jan. 2010) 
 
6 Notícia 
Zelador afirma ter assassinado ex-ministro do TSE por “medo” 
 
O ex-zelador Leonardo Campos Alves, 
44, disse ter matado o ex-ministro do TSE 
(Tribunal Superior Eleitoral) José Guilherme 
Villela, 73, a mulher dele Maria Carvalho, 69, 
e a empregada Francisca da Silva, 58, por 
“medo de ser reconhecido”. Alves, que 
trabalhou 15 anos no prédio onde morava a 
família, foi apresentado pela Polícia Civil do 
Distrito Federal, que o prendeu em Minas 
Gerais na segunda. Ele contou que entrou no 
apartamento do casal com um comparsa, Paulo 
Cardoso, “somente para roubar”. Essa é a 
terceira versão apresentada pela polícia desde o 
assassinato. Apesar de classificar com “versão 
harmônica”, a polícia diz que há lacunas no 
relato de Alves. Ele afirma que deixou a porta 
aberta após o crime, mas a perícia diz que 
estava trancada. Além disso, Alves nega que ele 
e o amigo tenham dado as 73 facadas que a 
perícia identificou nos corpos. Ele disse que 
Adriana Villela, até então a principal suspeita 
do crime, não tinha boa relação com os pais. 
Afirmou ainda que já viu a neta Carolina Villela 
– que encontrou os corpos – bater na avó. 
“Não tem fundamento. Carolina era o xodó dos 
avós”, afirma o advogado de Adriana e 
Carolina, Rodrigo Alencastro. 
 
(Folha de S. P aulo, 18 nov. 2010 – adaptado) 
 
 
 
 
 
 22 
7 Letra de música 
Canção do senhor da guerra 
Existe alguém esperando por você 
Que vai comprar a sua juventude 
E convencê-lo a vencer 
 
Mais uma guerra sem razão 
Já são tantas as crianças com armas na mão 
Mas explicam novamente que a guerra gera 
empregos 
Aumenta a produção 
 
Uma guerra sempre avança a tecnologia 
Mesmo sendo guerra santa 
Quente, morna ou fria 
Pra que exportar comida? 
Se as armas dão mais lucros na exportação 
 
Existe alguém que está contando com você 
Pra lutar em seu lugar já que nessa guerra 
Não é ele quem vai morrer 
 
E quando longe de casa 
Ferido e com frio o inimigo você espera 
Ele estará com outros velhos 
Inventando novos jogos de guerra 
Que belíssimas cenas de destruição 
Não teremos mais problemas 
Com a superpopulação 
Veja que uniforme lindo fizemos pra você 
E lembre-se sempre que Deus está 
Do lado de quem vai vencer 
 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças 
O senhor da guerra 
Não gosta de crianças" 
 
 
(Letra e Música: Renato Russo.Disponível em 
<http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/03/2
49790.shtml>. Acesso em: 10 jan. 2011) 
 
8 Editorial 
O que incomoda o terror 
 
O verdadeiro alvo visado pelos 
terroristas que atacaram Nova York e 
Washington na semana passada não foram as 
torres gêmeas do sul de Manhattan nem o 
edifício do Pentágono. O atentado foi 
cometido contra um sistema social e 
econômico que, mesmo longe da perfeição, é o 
mais justo e livre que a humanidade conseguiu 
fazer funcionar ininterruptamente até hoje. 
Não foi um ataque de Davi contra Golias. Nem 
um grito dos excluídos do Terceiro Mundo 
que, de modo trágico mas efetivo, se fez ouvir 
no império. Foi uma agressão perpetrada 
contra os mais caros e mais frágeis valores 
ocidentais: a democracia e a economia de 
mercado. 
O que realmente incomoda a ponto da 
exasperação os fundamentalistas, apontados 
como os principais suspeitos de autoria dos 
atentados, não é só a arrogância americana ou 
seu apoio ao Estado de Israel. O que os radicais 
não toleram, mais que tudo, é a modernidade. 
É a existência de uma sociedade em que os 
justos podem viver sem ser incomodados e os 
pobres têm possibilidades reais de atingir a 
prosperidade com o fruto de seu trabalho. Esse 
é o verdadeiro anátema dos terroristas que 
atacaram os Estados Unidos. Eles são enviados 
da morte, da elite teocrática, medieval, tirânica 
que exerce o poder absoluto em seus feudos. 
Para eles, a democracia é satânica. Por isso tem 
de ser combatida e destruída. 
(Veja, Ed. 1718, 19 set. 2001, p. 9, Carta ao leitor) 
 23 
9 Conto 
 
Passeio noturno 
Cheguei em casa carregando a pasta 
cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas,propostas, contratos. Minha mulher, jogando 
paciência na cama, um copo de uísque na mesa 
de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das 
cartas, você está com um ar cansado. Os sons 
da casa: minha filha no quarto dela treinando 
impostação de voz, a música quadrifônica do 
quarto do meu filho. Você não vai largar essa 
mala?, perguntou minha mulher, tira essa 
roupa, bebe um uisquinho, você precisa 
aprender a relaxar. 
Fui para a biblioteca, o lugar da casa 
onde gostava de ficar isolado e como sempre 
não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre 
a mesa, não via as letras e números, eu 
esperava apenas. Você não pára de trabalhar, 
aposto que os teus sócios não trabalham nem a 
metade e ganham a mesma coisa, entrou a 
minha mulher na sala com o copo na mão, já 
posso mandar servir o jantar? 
A copeira servia à francesa, meus filhos 
tinham crescido, eu e a minha mulher 
estávamos gordos. É aquele vinho que você 
gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu 
filho me pediu dinheiro quando estávamos no 
cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na 
hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós 
tínhamos conta bancária conjunta. 
Vamos dar uma volta de carro?, 
convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da 
novela. Não sei que graça você acha em passear 
de carro todas as noites, também aquele carro 
custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é 
que cada vez me apego menos aos bens 
materiais, minha mulher respondeu. 
Os carros dos meninos bloqueavam a 
porta da garagem, impedindo que eu tirasse o 
meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, 
tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois 
carros novamente na garagem, fechei a porta, 
essas manobras todas me deixaram levemente 
irritado, mas ao ver os pára-choques salientes 
do meu carro, o reforço especial duplo de aço 
cromado, senti o coração bater apressado de 
euforia. Enfiei a chave na ignição, era um 
motor poderoso que gerava a sua força em 
silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, 
como sempre sem saber para onde ir, tinha que 
ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais 
gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não 
podia ser, muito movimento. Cheguei numa 
rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o 
lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não 
fazia grande diferença, mas não aparecia 
ninguém em condições, comecei a ficar tenso, 
isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio 
era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, 
ainda que mulher fosse menos emocionante, 
por ser mais fácil. Ela caminhava 
apressadamente, carregando um embrulho de 
papel ordinário, coisas de padaria ou de 
quitanda, estava de saia e blusa, andava 
depressa, havia árvores na calçada, de vinte em 
vinte metros, um interessante problema a 
exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as 
luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que 
eu ia para cima dela quando ouviu o som da 
borracha dos pneus batendo no meio-fio. 
Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no 
meio das duas pernas, um pouco mais sobre a 
esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do 
impacto partindo os dois ossões, dei uma 
guinada rápida para a esquerda, passei como 
um foguete rente a uma das árvores e deslizei 
com os pneus cantando, de volta para o asfalto. 
Motor bom, o meu, ia de zero a cem 
quilômetros em nove segundos. Ainda deu para 
ver que o corpo todo desengonçado da mulher 
havia ido parar, colorido de sangue, em cima 
de um muro, desses baixinhos de casa de 
subúrbio. 
Examinei o carro na garagem. Corri 
orgulhosamente a mão de leve pelos pára-
lamas, os pára-choques sem marca. Poucas 
pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha 
habilidade no uso daquelas máquinas. 
A família estava vendo televisão. Deu a 
sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou 
minha mulher, deitada no sofá, olhando 
 24 
fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para 
todos, respondi, amanhã vou ter um dia 
terrível na companhia. 
 
(FONSECA, Rubem. Passeio noturno. Disponível em 
<http://arquivopodoslivros.blogspot.com>.Acesso em: 10 
jan. 2011) 
 
10 Crônica 
A menina Silvana 
 
Um camponês velho deu as informações 
ao sargento: Silvana Martinelli, 10 anos de 
idade. 
A menina estava quase inteiramente 
nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma 
granada alemã a haviam atingido em várias 
partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, 
acostumados a cuidar rudes corpos de homens, 
inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os 
pedaços de aço que haviam dilacerado aquele 
corpo branco e delicado como um lírio - agora 
marcado de sangue. A cabeça de Silvana 
descansava de lado, entre cobertores. A 
explosão estúpida poupara aquela pequena 
cabeça castanha, aquele perfil suave e firme que 
Da Vinci amaria desenhar. Lábios cerrados, 
sem uma palavra ou um gemido, ela apenas 
tremia um pouco – quando lhe tocavam num 
ferimento contraía quase imperceptivelmente 
os músculos da face. Mas tinha os olhos abertos 
– e quando sentiu a minha sombra ergueu-os 
um pouco. Nos seus olhos eu não vi essa 
expressão de cachorro batido dos estropiados, 
nem essa luz de dor e raiva dos homens 
colhidos no calor do combate, nem essa 
impaciência dolorosa de tantos feridos, ou o 
desespero dos que acham que vão morrer. Ela 
me olhou quietamente. A dor contraía-lhe, 
num pequeno tremor, as pálpebras, como se a 
luz lhe ferisse um pouco os olhos. Ajeitei-lhe a 
manta sobre a cabeça, protegendo-a da luz, e 
ela voltou a me olhar daquele jeito quieto e 
firme de menina correta. 
Deus, que está no céu - se é que, depois 
de tantos desgovernos cruéis e tanta criminosa 
desídia, ninguém o pôs para fora de lá, ou Vós 
mesmo, Senhor, não vos pejais de estar aí 
quando Vossos filhos andam neste inferno! – 
Deus sabe que tenho visto alguns sofrimentos 
de crianças e mulheres. A fome dessas meninas 
da Itália que mendigam na entrada dos 
acampamentos, a humilhação dessas mulheres 
que diante dos soldados trocam qualquer 
dignidade por um naco de chocolate – nem 
isso, nem o servilismo triste mais que tudo, dos 
homens que precisam levar pão à sua gente – 
nada pode estragar a minha confortável posição 
de correspondente. Vai-se tocando, vai-se a 
gente acostumando no ramerrão da guerra; é 
um ramerrão como qualquer outro: e tudo 
entra nesse ramerrão – a dor, a morte, o 
medo, o disco de "Lili Marlene" junto de uma 
lareira que estala, a lama, o vinho, a cama-rolo, 
a brutalidade, a ajuda, a ganância dos 
aproveitadores, o heroísmo, as cansadas 
pilhérias – mil coisas no acampamento e na 
frente, em sucessão monótona. Esse corneteiro 
que o frio da madrugada desafina não me 
estraga a lembrança de antigos quartéis de 
ilusões, com alvoradas de violino – Senhor, eu 
juro, sou uma criatura rica de felicidades 
meigas, sou muito rico, muito rico, ninguém 
nunca me amargará demais. E às vezes um 
homem recusa comover-se: meninas da 
Toscana, eu vi vossas irmãzinhas do Ceará, 
barrigudinhas, de olhos febris, desidratadas, 
pequenos trapos de poeira humana que o vento 
da seca ia a tocar pelas estradas. Sim, tenho 
visto alguma coisa e também há coisas que 
homens que viram me contam: a ruindade fria 
dos que exploram e oprimem e proíbem 
pensar, e proíbem comer, e até o sentimento 
mais puro torcem e estragam, as vaidades 
monstruosas que são massacres lentos e frios de 
outros seres – sim, por mais distraído que seja 
um repórter, ele sempre, em alguma parte em 
que anda, vê alguma coisa. 
 25 
Muitas vezes não conta. Há 13 anos 
trabalho neste ramo – e muitas vezes não 
conto. Mas conto a história sem enredo dessa 
menina ferida. Não, sei que fim levou e se 
morreu ou está viva, mas vejo seu fino corpo 
branco e seus olhos esverdeados e quietos. Não 
me interessa que tenha sido inimigo o canhão 
que a feriu. Na guerra, de lado a lado, é 
impossível, até um certo ponto, evitar essas 
coisas. Maspenso nos homens que começaram 
esta guerra e nos que permitiram que eles 
começassem. Agora é tocar a guerra - e quem 
quer que possa fazer qualquer coisa para tocar a 
guerra mais depressa, para aumentar o número 
de bombas dos aviões e tiros das 
metralhadoras, para apressar a destruição, para 
aumentar aos montes a colheita de mortes – 
será um patife se não ajudar. É preciso acabar 
com isso, e isso só se acaba a ferro e fogo, com 
esforço e sacrifícios de todos, e quem pode 
mais deve fazer muito mais, e não cobrar o 
sacrifício do pobre e se enfeitar com as glórias 
fáceis. É preciso acabar com isso, e acabar com 
os homens que começaram isso e com tudo o 
que causa isso - o sistema idiota e bárbaro de 
vida social onde um grupo de privilegiados 
começa a matar quando não tem outro meio de 
roubar. 
Pelo corpo inocente, pelos olhos 
inocentes da menina Silvana (sem importância 
nenhuma no oceano de crueldades e injustiças), 
pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da 
menina Silvana (mas ó hienas, ó porcos, de 
voracidade monstruosa, e vós também, águias 
pançudas e urubus, ó altos poderosos de 
conversa fria ou voz frenética, que coisa mais 
sagrada sois ou conheceis que essa quieta 
menina camponesa?), pelo corpo inocente, 
pelos olhos inocentes da menina Silvana (ó 
negociantes que roubais na carne, quanto valem 
esses pedaços estraçalhados?) – por esse 
pequeno ser simples, essa pequena coisa 
chamada uma pessoa humana, é preciso acabar 
com isso, é preciso acabar para sempre, de uma 
vez por todas. 
Fevereiro, 1945 
 
(BRAGA, Rubem. A menina Silvana. Disponível em: 
<http://www.letraselivros.com.br>. Acesso em: 24 jan. 
2011) 
 
11 Artigo de lei 
Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora 
cometidos no estrangeiro: 
I - os crimes: 
a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da 
República; 
b) contra o patrimônio ou a fé pública da 
União, do Distrito Federal, de Estado, de 
Território, de Município, de empresa pública, 
sociedade de economia mista, autarquia ou 
fundação instituída pelo Poder Público; 
c) contra a administração pública, por quem 
está a seu serviço; 
d) de genocídio, quando o agente for brasileiro 
ou domiciliado no Brasil; 
II - os crimes: 
a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se 
obrigou a reprimir; 
b) praticados por brasileiro; 
c) praticados em aeronaves ou embarcações 
brasileiras, mercantes ou de propriedade 
privada, quando em território estrangeiro e aí 
não sejam julgados. 
§ 1º - Nos casos do inciso I, o agente é punido 
segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou 
condenado no estrangeiro. 
§ 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei 
brasileira depende do concurso das seguintes 
condições: 
a) entrar o agente no território nacional; 
b) ser o fato punível também no país em que 
foi praticado; 
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos 
quais a lei brasileira autoriza a extradição; 
d) não ter sido o agente absolvido no 
estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; 
 26 
e) não ter sido o agente perdoado no 
estrangeiro ou, por outro motivo, não estar 
extinta a punibilidade, segundo a lei mais 
favorável. 
§ 3º - A lei brasileira aplica-se também ao 
crime cometido por estrangeiro contra 
brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as 
condições previstas no parágrafo anterior: 
a) não foi pedida ou foi negada a extradição; 
b) houve requisição do Ministro da Justiça. 
 
(Artigo 7º do Código Penal) 
 
12 Charge 
 
 
(Disponível em: <http://esmaelmorais.com.br>. Acesso em: 8 jan. 2011) 
 
13 Anúncio publicitário 
 
 
(Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/platb/christianmunaier/2009/02/>. Acesso em: 8 jan. 2011) 
 
 27 
14 Infográfico 
 
(Veja, 19 set. 2001, p. 64-65) 
 
 28 
15 Gráfico 
 
 
(Disponível em: <http://www.vermelho.org.br>. Acesso em: 24 jan. 2011) 
 
16 Cartaz de filme 
 
 
 
(Disponível em: <http://www.borbulhando.com.br/operacao-valquiria-trailer.html>. Acesso em: 15 jan. 2011) 
 29 
17 Capa de revista 
 
 
(Veja, 26 março 2003) 
18 Fotografia 
 
 
 
(Disponível em: <http://mnegocio.blog.uol.com.br/arch2008-09-28_2008-10-04.html>. Acesso em: 8 jan. 2011) 
 
 
 30 
19 Escultura 
 
Escultura Amor e da Angústia, de Kenneth Treister. 
Monumento dedicado às vítimas do Holocausto. 
 
Detalhe 
 
 
Pormenores 
 
 
 
 
 
 
(Disponível em: <http://histoblogsu.blogspot.com>. 
Acesso em: 10 jan. 2011 
 
 
 
 
 
 
 
 
 31 
20 Quadro de pintura 
 
 
(Goya, Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808. Disponível em: <http://annualia-verbo.blogs.sapo.pt/56515.html>. Acesso em: 19 jan. 2011) 
 
Preencha o quadro a seguir, destacando: a) as principais características dos gêneros 
selecionados quanto ao suporte, à estrutura e ao conteúdo; b) o conteúdo temático dos 
textos selecionados. 
 
 
Gêneros e 
textos 
 
Análises 
 a) dos gêneros b) dos textos 
 
 
1. Artigo de 
opinião 
 
 
 
 
 
2. Resenha 
 
 
 
 
 
3. Entrevista 
 
 
 
 
 
4. Poema 
 
 
 
 32 
 
 
5. Carta pessoal 
 
 
 
 
 
6. Notícia 
 
 
 
 
 
7. Letra de 
música 
 
 
 
 
 
8. Editorial 
 
 
 
 
 
9. Conto 
 
 
 
 
 
10. Crônica 
 
 
 
 
 
11. Artigo de lei 
 
 
 
 
 
12. Charge 
 
 
 
 33 
 
 
13. Anúncio 
publicitário 
 
 
 
 
 
14. Infográfico 
 
 
 
 
 
15. Gráfico 
 
 
 
 
 
16. Cartaz de 
filme 
 
 
 
 
 
17. Capa de 
revista 
 
 
 
 
 
18. Fotografia 
 
 
 
 
 
19. Escultura 
 
 
 
 
 
20. Quadro de 
pintura 
 
 
 
 
 34 
1.3.3 Polifonia e intertexto 
 
 Podemos dizer que textos são reuniões 
de várias vozes: polifonia. Isso significa dizer 
que os textos possuem uma multiplicidade de 
vozes que os atravessam por meio de uma voz 
privilegiada – a do locutor principal – que vai 
incorporando as outras. Essas vozes podem 
aparecer no texto de maneira explícita ou 
implícita. Um exemplo do primeiro caso é a 
citação no texto de ideias de outra pessoa. Um 
exemplo do segundo caso é a introdução no 
texto de ideias ou conceitos que fazem parte do 
senso comum, como afirmar que “televisão faz 
mal à saúde”. 
 Nenhum texto se produz no vazio ou se 
origina do nada. Todo texto se alimenta, de 
modo claro ou subentendido, de outros textos. 
Um, ao retomar outro, tanto pode reiterar ou 
subverter as ideias presentes no texto 
“original”. O autor utiliza-o com o objetivo de 
apoiar ou de dizer algo totalmente diferente do 
que foi dito em outro texto, de criticar um 
ponto de vista, uma visão de mundo. 
 Para Nicola, Florina e Ernani (2002), o 
conhecimento das relações entre os textos – e 
os textos utilizados como intertexto – é um 
poderoso recurso de produção e apreensão de 
significados. Quando um determinado autor 
recorre a outros textos para compor os 
próprios, certamente tem um motivo muito 
claro – a construção de significados específicos 
(crítica, reflexão, releitura, entre outras 
questões). Percorrer o caminho inverso, ou 
seja, buscar esse motivo e reconstruir o 
processo de produção leva a desvendar tais 
significados, pois um texto completa outro, 
lança luz sobre o outro. É o exercício da leitura 
que irá garantir tudo isso. 
 
 
1.3.3.1 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, o texto seguinte para responder ao que se pede. 
 
Sem adjetivos 
 
“Eu sabia que estava com um cheiro de 
suor, de sangue, de leite azedo. Ele [delegado 
Fleury] ria, zombava do cheiro horrível e mexia 
em seu sexo por cima da calça com olhar de 
louco.” 
De Rose Nogueira,jornalista em São 
Paulo. Da ALN, foi presa em 1969, semanas 
depois de dar à luz. 
“No quinto dia, depois de muito 
choque, pau de arara, ameaça de estupro e 
insultos, abortei. Quando melhorei, voltaram a 
me torturar.” 
De Izabel Fávero, professora de 
administração em Recife. Da VAR-Palmares, 
foi presa em 1970. 
“Eu passei muito mal, comecei a 
vomitar, gritar. O torturador perguntou: 
‘Como está?’. E o médico: ‘Tá mais ou menos, 
mas aguenta’. E eles desceram comigo de 
novo." 
De Dulce Chaves Pandolfi, professora 
da FGV-Rio. Da ALN, foi presa em 1970 e 
serviu de “cobaia” para aulas de tortura. 
“Eu não conseguia ficar em pé nem 
sentada. As baratas começaram a me roer. Só 
pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos.” 
De Hecilda Fontelles Veiga, professora 
da Universidade Federal do Pará. Da AP, foi 
presa em 1971, no quinto mês de gravidez. 
“Eu era jogada, nua e encapuzada, como 
se fosse uma peteca, de mão em mão. Com os 
tapas e choques elétricos, perdi dentes e todas 
as minhas obturações.” 
De Marise Egger-Moellwald, socióloga, 
mora em São Paulo. Do então PCB, foi presa 
em 1975. Ainda amamentava seu filho. 
 35 
“Eu estava arrebentada, o torturador 
me tirou do pau de arara. Não me aguentava 
em pé, caí no chão. Nesse momento, fui 
estuprada.” 
De Gilze Cosenza, assistente social 
aposentada de Belo Horizonte. Da AP, foi 
presa em 1969. Sua filha tinha quatro meses. 
Trechos de 27 depoimentos de 
sobreviventes, intercalados às histórias de 45 
mortas e desaparecidas no livro “Luta, 
Substantivo Feminino”, da série “Direito à 
Verdade e à Memória”. Será lançado na PUC-
SP hoje, a seis dias do 31 de março. 
 
(Eliane Cantanhêde, Folha de S. Paulo, 25 março 2010, p. A2. 
Opinião) 
 
 
1) Esse texto apresenta unidade temática. Qual? O que assegura essa unidade? 
2) Que efeito produz a identificação das mulheres citadas? 
3) No último parágrafo, em virtude da posição dos termos sintáticos que compõem o primeiro 
parágrafo, há um absurdo. Escreva o período para que o texto fique claro. 
 
 
 
2) Leia, com atenção, os textos a seguir para responder ao que se pede. 
 
Os três macacos sábios 
 
 
 
A escultura Sanzaru, OS TRÊS 
MACACOS, - do Santuário de Toshogu, 
localizado na cidade de Nikko, Japão - é uma 
das mais famosas do templo Nikko Toshogu, o 
Templo do Xogum divinizado (Ieyasu 
Tokugawa). 
O três macacos são conhecidos como 
“Os Três Macacos Sábios” e significam: “não 
veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”. 
Seus nomes são: “Mizaru”, o que cobre os olhos 
e não vê o mal; “Kikazaru” o que cobre os 
ouvidos e não ouve o mal; e “Iwazaru”, o que 
cobre a boca e não fala o mal. 
Segundo alguns autores, haveria um 
quarto macaco, chamado Shizaru, com as mãos 
sobre o abdômen para lembrar “não faça o 
mal”. E embora não haja comprovação, eles 
teriam sido levados ao Japão por um monge 
budista chinês no século VIII. 
Dizem que o Mahatma Gandhi 
carregava uma gravura dos Três Macacos Sábios 
em suas viagens para lembrá-lo constantemente 
dos três segredos da Sabedoria: “não ouça o 
mal, não veja o mal, não fale o mal”." 
 
(Disponível em: 
<http://expiracaoeinspiracao.blogspot.com/2011/05/nao-
ouca-nao-veja-e-nao-fale-o-mal.html>. Acesso em 18 julho 
2011) 
 
 
Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer 
 
Um músico me escreve contando que 
pertence a uma grande orquesta, mas não tem 
prazer no trabalho por causa dos colegas. Não 
suporta o despotismo, a vaidade, a prepotência, 
a arrogância e a mania de grandeza de alguns. 
O convívio com “egos inflados” é 
 36 
demasiadamente penoso, e ele me pergunta o 
que fazer. 
Eu, que sempre faço a apologia do ato 
generoso da escuta, sugiro ao músico que faça 
ouvidos moucos. Lembro que ele tem o 
privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe 
ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao 
que não interessa. Inclusive porque egos 
inflados estão em toda parte e a luta contra eles 
não leva a nada. Evitar a luta de prestígio é um 
bem que nós fazemos a nós e aos outros. 
Para viver, nem tudo nós podemos ver, 
escutar ou dizer. Isso é representado, desde a 
Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. 
Cada um cobre uma parte diferente do rosto 
com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o 
segundo, as orelhas e o terceiro, a boca. A 
representação é originária da China. Foi 
introduzida no Japão, no século VIII, por um 
monge budista. A máxima que ela implica é 
“não ver, não ouvir e não dizer nada de mau”. 
Foi adotada por Gandhi, que levava sempre 
consigo os três macaquinhos, o cego, o surdo e 
o mudo – Mizaru, Kikazaru e Iwazaru. 
Eles ensinam a não enxergar tudo o que 
vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não 
dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, 
ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é 
decisivo para uma atitude construtiva, mas não 
é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos 
prejudica – impelidos por um gozo masoquista 
ao qual temos de nos opor continuamente. Só a 
consciência disso permite não sair do caminho 
em que a vida desabrocha. 
Seleção e contenção tornam a existência 
mais fácil. Desde que não sejam um efeito da 
repressão, como na educação tradicional, e sim 
do desejo do sujeito – um desejo vital de se 
opor às forças do inconsciente que podem nos 
fazer mal. Isso implica a humildade de aceitar 
que o inconsciente existe e nós não somos 
donos de nós mesmos. 
A ideia não é nova. Data da descoberta 
da psicanálise por Freud, no fim do século XIX, 
mas continua a ser ignorada porque é difícil nos 
livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade 
como a nossa, que tanto valoriza, e que não 
condena a vaidade, a prepotência, a arrogância. 
Pelo contrário, estimula-as para se perpetuar. 
 
(MILAN, Bety. Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer. Veja, 
12 janeiro 2011. p. 92. A autora é e psicanalista e escritora) 
 
 
Três macaquinhos 
 
Três macacos juntos 
Na sabedoria 
Eles me ensinaram 
A filosofia 
 
Um que nada ouve 
Não ouviu, se cala 
Um que nada vê 
Outro nada fala 
 
Fala, fala... 
 
Três macacos juntos 
Na filosofia 
Eles me ensinaram 
A sabedoria 
 
Eu que nada ouço 
Não ouvi, não falo 
Eu que tudo vejo 
Tudo vejo e calo 
 
Calo, calo... 
 
Tô, eu tô na minha, tô, tô 
Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) 
 
Quero aproveitar o ensejo 
Pra te dizer que mal falo, mal ouço, mal vejo 
Quero aproveitar esse embalo 
Pra te dizer que mal ouço, mal vejo, mal falo 
 
Sou macaco velho seu moço 
Por isso digo mal falo, mal vejo, mal ouço 
Porque... 
 
Tô, eu tô na minha, tô, tô 
Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) 
 37 
 
Três macacos juntos 
Na sabedoria 
Eles me ensinaram 
A filosofia 
 
Um que nada ouve 
Não ouviu, se cala 
Um que nada vê 
Outro nada fala 
 
Fala, fala... 
 
Três macacos juntos 
Na filosofia 
Eles me ensinaram 
A sabedoria 
 
Eu que nada ouço 
Não ouvi, não falo 
Eu que tudo vejo 
Tudo vejo e calo 
 
Calo, calo... 
 
Tô, eu tô na minha, tô, tô 
Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) 
 
Quero aproveitar o ensejo 
Pra te dizer que mal falo, mal ouço, mal vejo 
Quero aproveitar esse embalo 
Pra te dizer que mal ouço, mal vejo, mal falo 
 
Sou macaco velho seu moço 
Por isso digo mal falo, mal vejo, mal ouço 
Porque... 
 
Tô, eu tô na minha, tô, tô 
Tô, eu tô na minha, tô – falo? 
 
(Artista: Baiano e Os Novos Caetanos. Album: Otras. 
Disponível em: 
<http://letras.azmusica.com.br/B/letras_baiano_ 
e_os_novos_caetanos_4486/letras_otras_3030/letra_tres_
macaquinhos_1251294.html>. Acesso em: 18 julho 2011) 
 
 
Charge Palloci 
 
 
Folha de S. Paulo, 21 maio 2011. p. A2. Caderno Opinião 
 
 
 
1) Os textos foram produzidos com que intenções? Justifique sua resposta apontando elementos e/ou 
passagens dos textos. 
2) Como entender o processointertextual instaurado na produção dos textos? 
3) A partir da análise dos textos, comente a seguinte colocação: não há texto isolado, o que há é uma 
imensa rede de textos. 
 
 
 38 
3) Ainda que de forma não intencional, o movimento dos bailarinos do célebre A 
Dança, do francês Henri Matisse, influenciou não só a logomarca das Olimpíadas Rio 
2016 mas também a da Tellurde Foundation, copiada em 2004 pelo Carnaval de 
Salvador. Legalmente, a logo do Rio 2016 não é considerada plágio. Após analisar as 
imagens com cuidado, responda: onde estariam as diferenças? 
 
 
A Dança, de Henri Matisse 
 
 
 
 
Telluride Foundation, logo 
 
 
Carnaval de Salvador, 2004, logo 
 
 
 
 Rio 2016, logo 
 
 
 39 
Capítulo 2 
 
02 Texto e sua textualidade 
 
Não adianta saber que escrever é 
diferente de falar. É necessário preocupar-se 
com o sucesso dos objetivos da produção 
textual, como a interação entre o produtor do 
texto e o seu receptor. Para que se tenha êxito 
nesse processo, deve-se construir um todo 
significativo. É preciso, portanto, recorrer a 
elementos que possam auxiliar na ligação das 
partes, na construção da coerência, entre 
outos. 
Neste capítulo, você terá acesso, num 
primeiro momento, a uma questão 
fundamental quando se fala de textos, que é a 
coerência. Num segundo momento, será 
abordado outro fator que contribui para o 
sucesso da produção de textos, que é a coesão. 
Por último, será vista a construção do 
parágrafo e sua articulação no texto. 
 
 
2.1 Coerência textual 
 
Como vimos anteriormente, os textos 
são veiculadores de intenções. 
Essas intenções ou propósitos do autor de um 
texto somente terão sentido se houver uma 
organização harmônica das ideias apresentadas. 
Podemos dizer, portanto, que um texto não é 
um aglomerado de frases, mas um todo 
organizado capaz de manter contato com seus 
leitores, agindo sobre eles. Dizer que um texto 
é uma organização de sentido é dizer que ele é 
coerente. 
A coerência é resultante da não-
contradição entre os segmentos textuais e da 
adequação entre o que está na materialidade 
textual e o contexto extraverbal. No primeiro 
caso, um segmento é pressuposto para o 
seguinte e assim sucessivamente. No segundo, 
o que é dito no texto deve estar em harmonia 
com o nosso conhecimento de mundo, sobre o 
que é permitido ou não em determinadas 
situações – que inclui nosso conhecimento 
sobre tipo e gêneros textuais. Assim, há uma 
transmissão e uma recepção de uma linha de 
pensamento. 
Frequentemente nos deparamos com 
situações em que se afirma algo, mas se faz o 
contrário. Como exemplo, na última campanha 
eleitoral política, muitos eleitores se sentiram 
traídos pela candidata Dilma Rousseff ou 
deixaram de dar créditos ao seu discurso, uma 
vez que constataram uma mudança de 
pensamento da candidata em relação ao tema 
do aborto. 
A capa de Veja (13 out. 2010), abaixo 
reproduzida, enfatiza essa “mudança de 
pensamento”, para, de certo modo, o que fica 
mais evidente na reportagem, desqualificar a 
candidata. A incoerência está clara não só nas 
citações em discurso direto da candidata, mas 
também na organização visual da capa. Os dois 
blocos de informações da capa, um vermelho 
(discurso desfavorável à opinião pública) e 
outro branco (discurso favorável à opinião 
pública), mostram ao leitor de Veja uma dupla 
face da candidata. Não estaria a revista dizendo: 
“Veja o discurso da candidata, (e)leitor!” 
 
 40 
 
 
 
Fiorin e Savioli (2007) apresentam três 
níveis em que a coerência deve ser observada: 
narrativo, figurativo e argumentativo. No 
primeiro, a coerência está na decorrência lógica 
das ações e de suas relações com os 
personagens que as praticam. No segundo, a 
coerência está na articulação harmônica entre o 
que é descrito (as figuras), com base na relação 
de significado que mantém entre si. No 
terceiro, a coerência está na apresentação 
concatenada de uma ideia que será defendida, 
de argumentos que sustentam essa ideia e do 
remate dado pela conclusão. 
Ao produzir nossos textos, devemos 
estar atentos à organização coerente de nossas 
ideias. Recuperar a credibilidade e a confiança 
do nosso interlocutor não é uma tarefa simples. 
Embora eleita, a candidata perdeu eleitores em 
virtude de contradições ditas durante sua 
campanha. 
 
2.1.1 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. 
 
Em março de 2005, o acordo com o 
FMI não foi renovado, resultado do sucesso do 
ajuste na economia promovido pelo governo 
federal nesses dois anos, que, entre outras 
coisas, permitiu a queda da relação dívida 
pública/PIB por dois anos seguidos, ao mesmo 
tempo em que a distribuição de renda 
melhorava e se criavam 100.000 empregos 
formais por mês. Com a economia continuando 
a se fortalecer nos meses seguintes (mais 
exportações, menos inflação), a decisão de 
quitar integralmente a dívida com o Fundo de 
forma antecipada pôde ser tomada com toda a 
segurança, trazendo benefícios para a melhora 
da imagem do país e a diminuição do custo de 
captação da dívida pública. (Adaptado de Em 
Questão, n. 387 - Brasília, 26 de dezembro de 2005) 
 
Assinale a opção que não completa o período abaixo de acordo com as idéias do texto acima. 
 
Foi possível dispensar a renovação do acordo com o FMI em decorrência de 
 
a) sucesso do reajuste na economia promovido pelo governo federal. 
b) queda da dívida pública/PIB por dois anos seguidos. 
c) melhoria da distribuição de renda e criação de 100.000 empregos por mês. 
d) melhora da imagem do país no exterior. 
 
2) Sem afetar o princípio da coerência, assinale a alternativa que apresenta o título mais 
adequado para o texto a seguir. 
 
 41 
A Receita Federal prepara uma grande 
operação de fiscalização na indústria de 
refrigerantes. Os alvos são as fábricas de 
concentrado que funcionam em Manaus. Por 
lei, os produtos com matéria-prima regional – 
como o guaraná – têm isenção de IPI. Mas a 
Receita descobriu que muitas empresas levam 
ingredientes de outras regiões para Manaus, 
colocam em novas embalagens e mandam de 
volta às engarrafadoras no Sudeste como se 
fossem produzidos na Zona Franca, sem pagar 
imposto. (Exame, 12 julho 2007) 
 
a) Indústria de refrigerantes 
b) Guaraná sem imposto 
c) Combate à sonegação 
d) Embalagens ilegais 
 
3) Sem afetar a coerência, assinale a alternativa que apresenta o título adequado para o 
texto a seguir. 
 
Na semana passada, Lula garantiu que 
os ministérios não foram entregues de 
"porteira fechada" aos partidos aliados – ou 
seja, o partido que fez o ministro não nomeará 
verticalmente os outros cargos do ministério. 
Beleza de discurso. Mas não é bem assim. Um 
bom exemplo é o Ministério das Cidades, 
sesmaria sob o comando do PP. Com exceção 
de um posto relevante, que a pedido do 
próprio Lula continuará nas mãos de uma 
petista ligada aos "movimentos sociais", o resto 
está sendo loteado dentro do próprio PP. (Veja, 
11 abril 2007, p. 50) 
 
a) Porteira (quase) fechada 
b) Porteira (totalmente) fechada 
c) Discurso (quase) filosófico 
d) Discurso (totalmente) filosófico 
 
4) Todas as manchetes abaixo admitem mais de uma interpretação, EXCETO: 
 
a) Pelé critica futebol movido por dinheiro. 
b) TCE autoriza instalação de 100 radares. 
c) Cruzeiro enfrenta Atlético sem cinco titulares. 
d) Procurador não crê em fim de subsídio prometido por Governador. 
 
5) Assinale a asserção que dá seqüência coerente ao texto. 
 
Ao longo da história capitalista, o 
mundo viveu alguns momentos 
particularmente felizes em termos de 
crescimento econômico e produção de riqueza, 
nos quais tudo parecia conspirar a favor da 
prosperidade. Foi assimno início do século 20, 
quando a indústria moderna deu um salto para 
um patamar até então inédito. O mesmo 
ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, com a 
Europa e o Japão literalmente se reerguendo 
das cinzas para se transformar em potências 
econômicas de primeira grandeza. É também o 
que se observa, em escala sem precedentes, 
neste início do século 21. A taxa de expansão 
mundial no ano passado, de 5,1 %, é a mais alta 
em décadas. Mas o que realmente chama a 
atenção é sua dispersão geográfica. 
 
A taxa de juro se encontra num dos 
patamares mais baixos dos últimos tempos – o 
que funciona como um impulso extra ao 
crescimento. Como conseqüência, o que se vê 
mundo afora é produção e consumo em alta, 
desemprego e miséria em queda. (Exame, 28 
set.2005, pág. 21, adaptado). 
 
 42 
a) A desvantagem fica mais evidente ao se confrontar o desempenho brasileiro não com a média do 
globo, mas com países em estágio de desenvolvimento semelhante, as chamadas economias 
emergentes. 
b) Para os brasileiros, esse momento de rara felicidade global deixa a incômoda sensação de que não 
estamos participando como deveríamos da festa. 
c) Não se pode esquecer que o aquecimento da demanda global foi um grande alicerce para que a 
economia brasileira se mantivesse em pé em tempos de crise política. 
d) Graças a um volume recorde no comércio global, os bons ventos têm soprado não apenas para as 
nações ricas, mas especialmente para as remediadas e até para as mais pobres. 
 
6) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título 
mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (10 set. 2008). 
 
 
 
a) Entrada na casa, salário a discutir 
b) Maior tempo de casa, menor salário 
c) Bonificações salariais e tempo de casa 
d) Redução salarial de executivos antigos 
 
7) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título 
mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (23 abril. 2008). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
a) Mercado aquecido 
b) Grandes montadoras 
c) Montadoras em ascensão 
d) Crescimento menor 
 43 
8) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título 
mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (26 março 2008). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
a) Eles se preocupam 
b) Eles estão com receios 
c) Elas movem o mercado 
d) Elas dominam o mercado 
 
9) Vamos supor que você recebeu de um amigo de infância e seu colega de escola um 
pedido, por escrito, vazado nos seguintes termos: 
 
“Venho mui respeitosamente solicitar-lhe o empréstimo do seu livro de Redação para Concurso, para 
fins de consulta escolar.” 
 
Essa solicitação em tudo se assemelha à atitude de uma pessoa que 
 
a) comparece a um evento solene vestindo smoking completo e cartola. 
b) vai a um piquenique engravatado, vestindo terno completo, calçando sapatos de verniz. 
c) vai a uma cerimônia de posse usando um terno completo e calçando botas. 
d) freqüenta um estádio de futebol usando sandálias de couro e bermudas de algodão. 
 
10) A respeito dos dois textos, é correto afirmar que; 
 
I. O assédio em si trás no meio um poder 
aquisitivo escondendo ao trabalho, assim 
podendo fazer e refazer, adicionando o sentido, 
junto a essa conduta de mulher ideal, Não 
querendo ser prejudicial ao método agressivo, 
mas ao jeito decisivo a maneira pela força que o 
traz da forma de se agir, A teimosia 
circunstancial vem devido ao exotismo da 
participação com credibiloso contraste à 
elevacidade do adultério da simples cena de 
uma turbulência a um ser precioso. (Trecho de 
dissertação de um aluno de ensino médio) 
 
II. A safra pertenceu originalmente a um sultão 
que morreu em circunstâncias misteriosas, 
quando urna mão saiu de seu prato de sopa e o 
estrangulou. O proprietário seguinte foi um 
lorde inglês, o qual foi encontrado certo dia, 
florindo maravilhosamente numa jardineira. 
Nada se soube da jóia durante algum tempo. 
Então, anos depois, ela reapareceu na posse de 
um milionário texano que se incendiou 
enquanto escovava os dentes. (Woody Allen, Sem 
plumas) 
 
 44 
a) O texto I é incoerente, pois não faz sentido no contexto em que foi escrito. 
b) O texto I e o texto II são incoerentes, qualquer que seja o contexto imaginado para sua 
interpretação. 
c) O texto I é coerente: dada sua finalidade, as relações de sentido tornam-se claras. 
d) Os textos I e II são coerentes: dada sua finalidade, as relações de sentido tornam-se claras. 
e) O texto II é incoerente, pois faz referência a acontecimentos que contrariam a lógica de qualquer 
mundo imaginável. 
 
11) Quando o treinador Leão foi escolhido para dirigir a seleção brasileira de futebol, o 
jornal Correio Popular publicou um texto com muitas imprecisões, do qual consta a 
seguinte passagem: 
 
Durante sua carreira de goleiro, iniciada no 
Comercial de Ribeirão Preto, sua terra natal, 
Leão, de 51 anos, sempre impôs seu estilo ao 
mesmo tempo arredio e disciplinado. Por 
outro lado, costumava ficar horas aprimorando 
seus defeitos após os treinos. Ao chegar à 
seleção brasileira em 1970, quando fez parte do 
grupo que conquistou o tricampeonato 
mundial, Leão não dava um passo em falso. 
Cada atitude e cada declaração eram pensadas 
com um racionalismo típico de sua família, já 
que seus outros dois irmãos, Edmílson, 53 
anos, e Édson, 58, são médicos. (Correio Popular, 
Campinas, 20 out. 2000) 
 
a) O que aconteceria com Leão se ele, efetivamente, ficasse “aprimorando seus defeitos”? Reescreva o 
trecho de maneira a eliminar o equívoco. 
b) A expressão “por outro lado”, no início do segundo período, contribui para tornar o trecho 
incoerente. Por quê? 
c) Por que o emprego da palavra “racionalismo” é inadequado nessa passagem? 
 
12) Leia, com atenção, as considerações a seguir. 
 
Não importam suas diferenças e efeitos, os vírus da dengue enganam com 
facilidade o sistema imunológico. 
 
PORQUE 
 
Num organismo que foi contaminado anteriormente, quando a infecção é 
por outro tipo de vírus, as células de defesa acham que se trata do mesmo 
micróbio e baixam a guarda. 
 
Analisando a relação proposta entre os dois blocos de ideias, assinale a alternativa correta. 
 
a) As duas afirmativas são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira. 
b) As duas afirmativas são verdadeiras e a segunda não justifica a primeira. 
c) A primeira afirmativa é verdadeira e a segunda é falsa. 
d) A primeira afirmativa é falsa e a segunda é verdadeira. 
e) As duas afirmativas são falsas. 
 
 
 
 
 45 
13) O que é necessário saber para tornar o texto da tirinha abaixo coerente? 
 
 
 
 
 
 
14) Em que aspectos a publicidade abaixo é incoerente? Em que aspectos é coerente? 
 
 
 
 
 
 
(Disponível em: <http://www.benetton.com/portal/web/guest/home>. Acesso em: 24 jan. 2011) 
 
 
 
15) Nesse texto, há um caso de incoerência argumentativa. Procure identificá-la. 
 
 
Embora existam políticos competentes e honestos, preocupados com 
as legítimas causas populares, os jornais, na semana passada, noticiaram 
casos de corrupção comprovada, praticados por um político eleito pelo 
povo. 
Isso demonstra que o povo não sabe escolher seus governantes. 
 
 
 46 
2.2 Coesão textual 
 
 Nas seções anteriores vimos uma 
diversidade de gêneros textuais, verbais, não 
verbais e mistos. Nesta seção, abordaremos 
apenas textos da modalidade escrita devido a 
sua importância para o fazer acadêmico e 
profissional. Veremos, portanto, um dos 
principais recursos que contribuem para fazer 
com que frases amontoadas sejam consideradas 
um texto: a coesão. 
Há certa confusão entre os termos 
coerência e coesão. Enquanto a coerência se 
refere à unidade de sentido e, por isso, é de umnível profundo, a coesão é a ligação, a relação, 
a conexão entre as palavras, expressões, frases 
ou parágrafos do texto. Os elementos coesivos 
assinalam a conexão entre partes do texto. 
A palavra texto, na sua etimologia, vem 
do latim textum, que significa tecido, 
entrelaçamento. Produzir um texto é o mesmo 
que praticar a ação de tecer, entrelaçar 
unidades e partes com a finalidade de formar 
um todo. Desse modo, podemos falar em 
textura de um texto, que é a rede de relações 
coesivas. 
São muitos os mecanismos de coesão 
textual. Nesta seção, vamos estudar alguns. 
Esperamos que, a partir desse estudo, você 
esteja apto a não só perceber outros em suas 
leituras, mas também a recorrer a outros em 
sua produção textual. Escolhemos um editorial 
da revista Veja (27 abril 2006, p. 9) para 
demonstração do que consideramos um texto 
bem tecido. Destacamos apenas alguns recursos 
coesivos para estudo e para demonstração da 
continuidade textual. 
 
O Brasil tem jeito 
 
Desde a volta da democracia, em 1985, 
o país tem passado por uma série de escândalos na 
esfera institucional (1). No Poder Executivo (2), 
houve o impeachment de um presidente e, 
recentemente, a demissão de ministros 
envolvidos em esquemas ilícitos. No Legislativo 
(3), por seu turno (4), ainda se escutam os ecos 
do mensalão e não empalideceram as imagens 
dos “anões” da Máfia do Orçamento sendo 
banidos da vida pública. Agora, com a Operação 
Hurricane (furacão, em inglês), deflagrada pela 
Polícia Federal para prender os integrantes de 
uma quadrilha que explorava o jogo de caça-
níqueis, chegou a vez de (5) o Judiciário (6) ter 
exposta a sua banda podre (7). Três 
desembargadores foram presos e um ministro do 
Superior Tribunal de Justiça (8) está afastado das 
suas funções. Pesa sobre esses togados (9) a 
acusação de venda de liminares. Com tais 
instrumentos jurídicos (10), os exploradores do jogo 
(11) conseguiam manter em funcionamento 
milhares de casas ilegais de jogatina, dotadas de 
máquinas manipuladas para lesar o jogador. Há 
indícios de que pode haver ainda (12) outros 
altos integrantes do Judiciário (13) comparsas 
dessa máfia (14). 
A sucessão de escândalos de corrupção no 
Brasil costuma provocar nos cidadãos a impressão de 
que o país não tem jeito (15). É como se a 
desonestidade fosse parte inextirpável do 
caráter nacional. Compreende-se que os 
ânimos se arrefeçam, mas (16) é preciso 
enxergar o fenômeno (17) de um ângulo mais 
amplo. Em primeiro lugar (18), os escândalos só 
vêm à tona graças ao bom funcionamento das 
instâncias responsáveis pela fiscalização do poder 
(19) – entre as quais a imprensa livre, a polícia 
e, ressalte-se (20), a imensa maioria dos integrantes 
do Poder Judiciário (21). Em segundo lugar (22), a 
cada quadrilha estourada, a cada esquema 
desvendado, dá-se um passo a mais para a 
depuração das instituições. Por isso (23), pode-
se analisar a operação da Polícia Federal ora em 
curso (24) como uma contribuição ao 
aprimoramento da Justiça (25), cuja (26) 
distribuição igualitária e eficiente é um dos 
pilares das sociedades abertas e modernas. A 
continuar por esse caminho (27), o Brasil tem jeito 
(28), sim. 
 
 47 
No quadro abaixo, encontram-se os comentários acerca dos elementos de coesão destacados no texto. 
 
 
(1) Embora essa “série de escândalos” esteja indefinida, é a expressão desencadeadora da organização 
do texto. 
(2) O autor apresenta, sem comentários, o primeiro dos três poderes institucionais e, a partir daí, 
dois escândalos aí ocorridos. 
(3) O autor apresenta, sem comentários, o segundo dos três poderes institucionais. 
(4) Essa expressão marca a passagem para a apresentação dos escândalos no Legislativo. Não há 
comentários acerca desses escândalos. 
(5) Essa expressão marca a passagem para a apresentação do escândalo no Judiciário. No meio da 
expressão é apresentado o escândalo aí ocorrido. 
(6) Essa expressão apresenta o terceiro dos três poderes, que é o Judiciário. 
(7) Refere-se “quadrilha que explorava o jogo de caça-níqueis”, que, por sua vez, antecipa a “banda 
podre” do Judiciário. 
(8) Refere-se a “banda podre”, identificando-a. 
(9) Refere-se a “três desembargadores” e a “um ministro”. 
(10) Refere-se a “liminares”. 
(11) Refere-se aos envolvidos no escândalo que pagaram pelas liminares. 
(12) Elemento que mostra a inclusão de membros do Judiciário no escândalo. 
(13) Refere-se aos desembargadores e ao ministro, além de deixar marcado o envolvimento de outros 
integrantes do Judiciário. 
(14) Refere-se a “banda podre”, já detalhada anteriormente. 
(15) Recupera “uma série de escândalos na esfera institucional” do primeiro parágrafo para o articular 
com o segundo e para acrescentar que o Brasil não tem jeito. 
(16) Conector que opõe a impressão de que o Brasil não tem jeito a um novo modo de “ver” os 
escândalos, anunciando-se um otimismo. 
(17) Refere-se aos escândalos na esfera institucional. 
(18) Expressão que fragmenta, num primeiro momento, a noção “amplo”, anteriormente 
apresentada. 
(19) Essas “instâncias” são apresentadas a seguir, após um travessão, destacando-se o Judiciário. 
(20) Operador que enfatiza a ideia seguinte. 
(21) Opõe-se a “banda podre” do primeiro parágrafo, assinalando o otimismo do autor. 
(22) Expressão que fragmenta, num segundo momento, a noção “amplo”, anteriormente apresentada. 
(23) Conector responsável por encaminhar o fechamento da questão de que o Brasil tem jeito. 
(24) Refere-se a “Operação Hurricane”, no primeiro parágrafo. 
(25) Refere-se ao Poder Judiciário. 
(26) Refere-se a “Justiça”. 
(27) Expressão que abre a conclusão subjetiva do autor. “Esse caminho” refere-se ao fato de que, se os 
esquemas são desvendados, há depuração das instituições. 
(28) Recupera o título do título do texto, deixando explícito o otimismo do autor. 
 
 
 
 Você percebeu que um texto não é 
simplesmente um conjunto de frases aleatório. 
A nossa experiência como falante não é a de 
formar frases; a nossa experiência é a de 
produzir textos a todo momento. A análise e a 
leitura do texto O Brasil tem jeito mostraram o 
papel dos mecanismos de coesão, que é, de 
acordo com Antunes (2005, p. 47), criar, 
estabelecer e sinalizar os laços que deixam os 
vários segmentos do texto ligados, articulados, 
 48 
encadeados. Portanto, a função da coesão é a 
de promover a continuidade do texto, a 
sequência interligada de suas partes, para que 
não se perca o fio de unidade que garante sua 
interpretabilidade. 
Quando lemos o primeiro parágrafo do 
texto O Brasil tem jeito, temos a impressão – ou 
somos levados a isso – de que o Brasil não tem 
jeito. São mencionados vários escândalos nos 
poderes constitutivos de nosso país. Na 
transição para o segundo parágrafo, o autor 
retoma a “série de escândalos” do primeiro 
parágrafo para, além de dar continuidade ao 
seu texto, fazê-lo progredir noutra direção, 
que é a de nos levar a acreditar que o Brasil tem 
jeito. No interior de cada parágrafo, são feitas 
retomadas e antecipações, além de se deixarem 
explícitas algumas conexões. Tudo isso para 
garantir não só a continuidade do texto, mas 
também o sucesso de sua interpretabilidade. 
Há dois tipos de coesão: a referencial e 
a sequencial. O primeiro tipo se caracteriza por 
substituições de um elemento por outro e por 
reiterações de elemento do texto. O segundo 
tipo se refere ao desenvolvimento 
propriamente dito, ora por procedimentos de 
manutenção temática, como emprego de 
termos pertencentes ao mesmo campo 
semântico, ora por meio de processos de 
progressão temática, que podem realizar-se por 
meio da satisfação de compromissos textuais 
anteriores ou por meio de novos acréscimos ao 
texto. 
Quando vamos escrever um texto nos 
baseamos em quatro elementos centrais: a 
repetição, a progressão, a não-contradiçãoe a 
relação. Todas essas partes compõem o texto, 
relacionando-se com o que já foi dito ou com o 
que se vai dizer. Vejamos o que quer dizer cada 
um desses elementos. 
 
Repetição – Ao longo de um texto coerente, ocorrem repetições, retomadas de elementos. Essa 
retomada é normalmente feita por pronomes ou por palavras e expressões equivalentes ou 
sinônimas. Também podemos repetir a mesma palavra ou expressão, o que deve ser feito com 
cuidado, a fim de que não seja prejudicado. 
 
Progressão – Num texto coerente, devemos sempre acrescentar novas informações ao que já foi 
dito. A progressão complementa a repetição: esta garante a retomada de elementos passados; 
aquela garante que o texto não se limite a repetir indefinidamente o que já foi colocado. Dessa 
forma, equilibramos o que já foi dito com o que se vai dizer, garantindo a continuidade do tema e a 
progressão do sentido. 
 
Não-contradição – Num texto coerente, não devem surgir elementos que contradigam aquilo 
que já foi considerado falso, ou vice-versa. Esse tipo de contradição só é tolerado se for 
intencional. Não se deve confundir a não-contradição com o contraste, pois a aproximação de 
idéias e fatos contrastantes é um recurso muito freqüente no desenvolvimento da argumentação. 
 
Relação – Num texto coerente, os fatos e conceitos devem estar relacionados. Essa relação deve 
ser suficiente para justificar sua inclusão num mesmo texto. Para que se avalie o grau de relação 
dos elementos que vão construir o texto, é importante organizá-lo esquematicamente antes de 
escrever. Feito o esquema, é importante observar se a aproximação das idéias é realmente eficaz. 
 
Esses quatro itens (repetição, 
progressão, não-contradição e relação) podem 
ajudar a avaliar o grau de coesão dos textos. A 
configuração final do texto depende ainda de 
outros fatores, como o canal de comunicação, 
o perfil do receptor e as finalidades pretendidas 
pelo emissor. Todos esses fatores afetam 
diretamente as feições do texto que se pretende 
bem-sucedido. Nas atividades a seguir, você 
verá, de modo operacional, os tipos de coesão 
mencionados e esses elementos centrais de 
avaliação dos textos. 
 
 
 
 49 
2.2.1 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, texto a seguir para preencher o quadro. Na coluna de coesão 
referencial, escreva o referente ao qual o termo ou expressão destacada faz alusão. Na 
coluna da coesão sequencial, diga o valor semântico do conector destacado. 
 
Cerveja preta aumenta o leite? 
 
Não. APESAR DA antiga crença de 
que beber cerveja preta aumenta a quantidade 
de leite em mulheres grávidas, não existem 
estudos que comprovem o fato. E, na 
realidade, qualquer tipo de bebida alcoólica é 
contra-indicada nessa situação. Num estudo 
feito em 1993, a cientista americana Julie 
Mennella acompanhou lactantes que ingeriram 
bebidas alcoólicas E encontrou indícios de que 
elas produziam menos leite. 
Ninguém sabe ao certo a origem da 
crença. Uma das hipóteses é que ela tenha 
surgido PORQUE mulheres que ingeriram 
bebidas de alto teor alcoólico não eram bem 
vistas na sociedade. “A cerveja preta tem 
menos álcool QUE bebidas COMO a cachaça 
e, POR ISSO, ganhou status de bebida de 
‘mulheres decentes’. OU SEJA, mães. A 
partir daí, a relação foi se aperfeiçoando”, diz 
Maria Amélia Bitar, autora da tese 
“Aleitamento materno: um estudo sobre 
crenças e tabus ligados à prática”. 
O que se sabe é que o mito não é 
exclusividade brasileira. E já foi levado TÃO a 
sério QUE, nos anos 80, nos Estados Unidos, 
foi criada a Malt Nutrine, uma bebida escura 
que era vendida em farmácias e recomendada 
por médicos PARA incentivar a produção de 
leite. 
 
(Taíssa Stivanin. Super Interessante, fev. de 2005, p. 30) 
 
Coesão referencial Coesão sequencial 
o fato – APESAR DA – 
nessa situação - E – 
que – PORQUE – 
elas – QUE – 
da crença – COMO – 
ela – POR ISSO – 
mães – OU SEJA – 
o mito – TÃO ... QUE – 
bebida escura – PARA – 
 
 
2) Os textos abaixo necessitam de conectores para sua coesão. Empregue as partículas 
que estão entre parênteses no lugar adequado. 
 
a) Uma alimentação variada é fundamental seu organismo funcione de maneira adequada. Isso significa 
que é obrigatório comer alimentos ricos em proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e sais 
minerais. Esses alimentos são essenciais. Você esteja fazendo dieta para emagrecer, não elimine 
carboidratos, proteínas e gorduras de seu cardápio. Apenas reduza as quantidades. Você emagrece sem 
perder saúde. (assim, mesmo que, para que). 
 
b) Nem sempre é fácil identificar a violência. Uma cirurgia não constitui violência, visa o bem do 
paciente, é feita com o consentimento do doente. Será violência a operação for realizada sem 
necessidade ou o paciente for usado como cobaia de experimento científico sem a devida autorização. 
(mas certamente, se, se, primeiro porque, depois porque, por exemplo) 
 50 
 
c) O Brasil pretende sediar as Olimpíadas do ano 2004. A idéia é interessante. O que não podemos 
esquecer antes de mais nada temos que conquistar muitas meda­lhas nas olimpíadas da nossa existência 
como uma nação digna. Alguns dos nossos velhos e temíveis adversários a serem derrotados são a 
fome, a miséria, a violência, o analfabetismo e a ignorância. O nosso principal desafio será ganhar a 
medalha de ouro da moralidade, “o povo sem moral vai mal”. (pois, até que, afinal, é que) 
 
3) Apresentamos alguns segmentos de discurso separados por ponto final. Retire o 
ponto final e estabeleça entre eles o tipo de relação que lhe parecer compatível, usando 
para isso os elementos de coesão adequados. 
 
a) O solo do Nordeste é muito seco e aparentemente árido. Quando caem as chuvas, imediatamente 
brota a vegetação. 
b) Uma seca desoladora assolou a região sul, principal celeiro do país. Vai faltar alimento e os preços 
vão disparar. 
c) Inverta a posição dos segmentos contidos na questão B e use o conectivo apropriado: 
d) O trânsito em São Paulo ficou completamente paralisado dia 15, das 14 às 18 horas. Fortíssimas 
chuvas inundaram a cidade. 
 
 4) As questões a seguir apresentam problemas de coesão por causa do mau uso do 
conectivo. Substitua a forma errada pela correta. 
 
a) Em São Paulo já não chove há mais de dois meses, apesar de que já se pense em racionamento de 
água e energia elétrica. 
b) As pessoas caminham pelas ruas, despreocupadas, como se não existisse perigo algum, mas o 
policial continua folgadamente tomando o seu café no bar. 
c) Talvez seja adiado o jogo entre Botafogo e Flamengo, pois o estado do gramado do Maracanã não é 
dos piores. 
 d) Uma boa parte das crianças mora muito longe, vai à escola com fome, onde ocorre o grande 
número de desistências. 
 
5) Leia, com atenção, o texto a seguir. Identifique, grifando no texto, os mecanismos 
responsáveis pela continuidade das ideias. Apresente um esquema da organização 
textual. 
 
Durante muito tempo, três 
inquietações dominaram a relação com a 
cultura escrita. A primeira é o temor da perda. 
Ela levou à busca dos textos ameaçados, à cópia 
dos livros mais preciosos, à impressão dos 
manuscritos, à edificação das grandes 
bibliotecas. Contra os desaparecimentos 
sempre possíveis, trata-se de recolher, fixar e 
preservar. A tarefa, jamais finda, é ameaçada 
por um outro perigo: a corrupção dos textos. 
No tempo da cópia manuscrita, a mão do 
escriba pode falhar e acumular os erros. Na era 
do impresso, a ignorância dos tipógrafos ou dos 
revisores, como os maus modos dos editores, 
trazem riscos ainda maiores. Preservar o 
patrimônio escrito frente à perda ou à 
corrupção suscita também uma outra 
inquietude: a do excesso. A proliferação 
textual pode se tornar obstáculo ao 
conhecimento. Para dominá-lo, são necessários 
instrumentos capazes de triar, classificar, 
hierarquizar. Mas, irônicoparadoxo, essas 
ferramentas são elas próprias novos livros que 
se juntam a todos os outros. 
 
(CHARTIER, Roger. As aventuras do livro: do leitor ao 
navegador: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: 
UNESP, 1998, p.99) 
 51 
6) Leia atentamente os itens a seguir para responder ao que se pede: 
 
I. No dia seguinte, o acusado compareceu ao tribunal, apesar de haver declarado que não o faria. 
II. Se tivesse decidido continuar no futebol de alto nível, não o faria nem no Flamengo nem no 
Fluminense. 
III. O fato de estar trabalhando como professor não o faria mais feliz. 
 
Assinale a alternativa em que o elemento sublinhado tenha sido CORRETAMENTE identificado. 
 
a) comparecer ao tribunal – continuar – ele, como professor 
b) comparecer ao tribunal – continuar no futebol de alto nível – ele 
c) comparecer, no dia seguinte – decidir continuar – estar trabalhando como professor 
d) comparecer ao tribunal no dia seguinte – continuar no futebol – ele estar trabalhando 
 
7) Os trechos abaixo constituem um texto, mas estão desordenados. Ordene-os e 
assinale a opção correta. 
 
( ) Tal incremento da carga orgânica poluidora nos corpos d´água leva à escassez de água com boa 
qualidade, fato já verificado em algumas regiões do país. 
( ) Entre os maiores desafios da gestão de recursos hídricos no Brasil está a redução das cargas 
poluidoras que degradam os corpos d’água. 
( ) Tanto é assim que menos de 20% do esgoto urbano recebe algum tipo de tratamento, o restante é 
lançado nos corpos d´água “in natura”, colocando em risco a saúde do ecossistema e da população 
local. 
( ) Nesse cenário, os efluentes domésticos representam uma das principais fontes de degradação dos 
ecossistemas aquáticos do território nacional. 
( ) Principalmente em regiões metropolitanas, essa degradação da qualidade da água vem criando 
situações insustentáveis do ponto de vista de desenvolvimento. 
 
a) 2, 1, 4, 5, 3 
b) 3, 2, 4, 5, 1 
c) 3, 5, 4, 2, 1 
d) 5, 1, 4, 3, 2 
e) 4, 3, 2, 1, 5 
 
8) Assinale a alternativa que propõe alteração ADEQUADA para o trecho a seguir, de 
modo a eliminar o efeito de sentido indesejável que ele pode imprimir ao texto. 
 
O delegado Clóvis Rodrigues de Souza, conforme a emissora, disse que o avião partiu do aeroclube de 
Garibaldi e fazia acrobacias. 
 
a) O delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia 
acrobacias consoante a emissora. 
b) Em acordo com a emissora, o delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião partiu do 
aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias. 
c) O delegado Clóvis Rodrigues de Souza também disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi 
e, conforme a emissora, fazia acrobacias. 
d) De acordo com informações da emissora, o delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião 
partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias. 
 52 
9) Considere o seguinte período para analisar os esquemas propostos abaixo: 
 
Descumprir a lei gera o risco da punição prevista pelo Código Penal ou de sofrer sanções civis. 
 
A = Descumprir a lei 
B = gera o risco 
C = da punição prevista pelo Código Penal 
D = de sofrer sanções civis 
 
a) A → C 
 A → B → D 
 
b) A → B → C 
 B → D 
 
c) A → B 
 A → C 
 A → D 
 
d) A → B 
 A → C → D 
 
e) A → B → C 
 A D 
 
10) Que pergunta pode ser feita para receber todas as respostas a seguir? 
 
Porque o trânsito estava muito congestionado, e eu fiquei preso(a) duas horas num engarrafamento. 
É que o metrô não funcionou hoje de manhã. 
Porque ontem fui a uma festa e dormi muito tarde. 
Porque meu irmão precisou ser levado ao hospital durante a madrugada. 
Porque ontem fiquei na firma até tarde, e o senhor me autorizou a compensar as horas hoje de manhã. 
Porque fui convocado pela justiça para depor no caso dos precatórios. 
 
11) Fazer a pergunta certa na hora certa é, às vezes, mais difícil do que achar uma boa 
resposta. Essa é a dificuldade do cientista da história abaixo. Leia a história e tente 
resolver o problema. 
 
Um antropólogo desembarca numa ilha, com 
projetos de pesquisa. Na ilha, moram duas 
tribos: na primeira, a tribo A, as pessoas 
sempre mentem, são traiçoeiras, e tentam 
atrair os estrangeiros para matá-los. Na 
segunda, a tribo B, as pessoas são amigáveis e 
sempre dizem a verdade. Evidentemente, o 
antropólogo quer chegar com segurança à tribo 
B. Da praia, sai um caminho que, em 
determinado ponto bifurca. O antropólogo 
sabe que cada um dos caminhos da bifurcação 
leva a uma aldeia, mas não sabe qual. Na 
bifurcação, ele encontra um indígena, e resolve 
pedir informações, mas há dois problemas: 1) 
ele não sabe se o indígena encontrado na 
bifurcação pertence à tribo A ou B; 2) os índios 
daquela ilha só respondem a uma pergunta a 
cada dez anos, e não há ninguém mais por 
perto. O antropólogo faz uma única pergunta e 
chega com segurança à aldeia que procura. 
Qual é a pergunta? 
 
 53 
12) Tem-se, abaixo, um fragmento de uma entrevista publicada em Exame (25 abril 2007, 
p. 90). Leia-o, com atenção, para responder ao que se pede. 
 
O desafio das marcas novas 
 
O termo neofobia é usado para descrever a 
aversão ao que é novidade. Para Daniel 
Goldstein, professor de marketing da London 
Business School, ele também pode ser aplicado 
à resistência de consumidores em testar 
produtos de uma nova marca. 
PERGUNTA 1 – ................................... 
GOLDSTEIN – Pode-se criar uma categoria 
diferente para um produto. O Cirque du Soleil 
se auto-denomina um "circo de vanguarda". O 
Stomp se intitula como um grupo artístico de 
percussão, apesar de usar latas de lixo como 
instrumento. Por isso as pessoas não os 
comparam a outros espetáculos tradicionais. 
PERGUNTA 2 – ................................... 
GOLDSTEIN – Sob pressão, os consumidores 
tendem a favorecer marcas que já conhecem. 
Exponha seu produto em lugares agradáveis, 
que motivem as pessoas a gastar tempo para 
analisá-lo. 
 
Sem afetar o princípio da textualidade, assinale a alternativa que apresenta as 
perguntas adequadas às respostas dadas por Goldstein. 
 
PERGUNTA 1 PERGUNTA 2 
O que é neofobia? Quais são os lugares para a exposição? 
O que é um produto diferente? Como motivar os consumidores? 
Quais as causas da neofobia? Em que momento motivar as pessoas? 
 
a) 
b) 
c) 
d) Como combater a neofobia? E quando isso não é possível? 
 
13) Leia, com atenção, as informações abaixo para responder ao que se pede. 
 
Uma compra é às vezes representada 
como uma dupla troca, em que o dinheiro 
passa das mãos do comprador para as do 
vendedor, e algum objeto (ou serviço) passa 
das mãos deste para as do comprador. No 
diagrama abaixo, os dois quadros representam 
dois momentos sucessivos. Sabendo que a letra 
d representa o dinheiro, o que representam as 
letras A, B e X? Qual seria o gráfico apropriado 
para os verbos “vender” e “pagar por”? 
 
 
 
 
14) Leia o período para responder: é compreensível o seu conteúdo? Qual é o defeito? 
 
Chegaram instruções repletas de 
recomendações para que os participantes do 
congresso, que, por sinal, acabou não se 
realizando por causa de fortes chuvas, que 
inundaram a cidade e paralisaram todos os 
meios de comunicação. 
 
 54 
15) O Jornal da Imprensa de Goiás, de 10 a 16.9.95, dedicou ao jornalismo daquele 
estado um longo “Especial”, do qual foi transcrita sem alterações a passagem a seguir: 
 
Hoje, apenas dois jornais diários 
existem em Goiás: O Popular e o Diário da 
Manhã. As redações são modernas, sendo que a 
informatização já chegou ao Diário da Manhã, e 
está anunciada para completa implantação em 
O Popular no máximo até dezembro. Os 
salários seguem pisos mínimos, contando-se 
nos dedos os jornalistas que contam com 
vencimentos,nas redações dos diários, à 
excessão [sic] dos editores, superiores a R$ 
1000,00 por mês. 
 
a) Nesse trecho, foi empregado duas vezes o verbo contar. Transcreva a única ocorrência em que 
contar dá idéia de número. 
b) As duas ocorrências de contar diferem na construção e no sentido. Explique essas duas diferenças. 
c) Considerando que, no diagrama a seguir: 
– os círculos A, B, C e D identificam conjuntos de indivíduos que compartilham uma das seguintes 
propriedades: “ser jornalista”, “trabalhar numa redação de jornal”, “ser editor” e “ganhar 
mais de mil reais”; 
– a área preta identifica o tipo de profissional que, segundo o artigo do jornal é raro em Goiás, diga a 
que correspondem as letras A, B, C e D. 
 
 
 
16) As frases abaixo apresentam quebra de paralelismo. Reescreva-as. 
 
a) É enorme a discrepância entre os candidatos e as vagas nos concursos. 
b) Obedeça e exija o cumprimento deste regulamento. 
c) Faríamos a pesquisa na biblioteca, mas, à última hora, desistiu-se. 
d) Não, não se trata de defender mais intervenção do Estado na economia ou que o Estado volte a 
produzir aço… 
e) Ele não só trabalha mas também é estudante. 
f) Trata-se de um argumento forte e que pode encerrar o debate. 
g) Funcionários cogitam nova greve e isolar o governador. 
h) Pedida a prisão de petista e empresário. Lula e Dantas têm duas semanas para recorrer. 
i) Ele hesitava entre ir ao cinema ou ir ao teatro. 
j) Com isso, conseguia-se o objetivo duplo de fortalecer o governo amigo e ainda por cima os 
oposicionistas eram incriminados. 
l) Não só todos ficaram perplexos e partiram desesperançados. 
 55 
17) O trecho em destaque neste anúncio publicitário é marcado por quebra de 
paralelismo entre os termos relacionados pela noção de similaridade. 
 
80% dos professores são mestres e doutores – índice similar às melhores faculdades públicas 
brasileiras. 
 
a) Explique em que consiste essa quebra de paralelismo no contexto dado. 
b) Reescreva o trecho, eliminando essa impropriedade. 
 
 
2.3 Parágrafo, estrutura e articulação 
 
O parágrafo é, segundo Garcia (1978, 
p. 203), “uma unidade de composição, 
constituída por um ou mais de um período, em 
que se desenvolve determinada idéia central, 
ou nuclear, a que se agregam outras 
secundárias, intimamente relacionadas pelo 
sentido e logicamente decorrentes dela.” A 
definição desse autor não se aplica a todo tipo 
de parágrafo; aplica-se a apenas ao parágrafo-
padrão. 
O parágrafo-padrão é bastante 
recorrente nos textos de natureza dissertativa, 
já que trabalham com ideias e exigem rigor e 
objetividade na composição. Apresenta a 
seguinte estrutura: a) introdução ou tópico 
frasal: expressa a ideia principal do parágrafo, 
definindo seu objetivo; b) desenvolvimento: 
corresponde a ampliação do tópico frasal, com 
apresentação de ideias secundárias que o 
fundamentam ou esclarecem; c) conclusão: 
nem sempre presente, especialmente nos 
parágrafos mais curtos e simples, a conclusão 
retoma a ideia central, levando em 
consideração os diversos aspectos no 
desenvolvimento. 
O texto a seguir, que é uma resenha, 
ilustra essa concepção de parágrafo-padrão. 
 
Os descobridores, de Daniel J. Boorstin; Civilização Brasileira; 646 páginas 
 
O caminho que o historiador americano Daniel Boorstin escolheu para 
escrever essa história* compacta da ciência é duplamente inovador. Em primeiro 
lugar, ele deixou de lado os habituais catálogos de nomes e descrições 
de experimentos que costumam rechear as obras de referência, 
entediando o leitor não especializado. Preferiu fazer a crônica da luta 
surda que sempre se travou entre as fantasias que os séculos 
transformariam em ciência e a “intocável realidade” que os instrumentos 
científicos de uma época podiam detectar. A segunda novidade foi a 
opção por uma narrativa romanceada – e não burocraticamente 
cronológica – para descrever a trajetória da evolução de alguns 
instrumentos, como o relógio, a bússola e o microscópio. Com isso, 
algumas passagens da obra ganham sabor inesperado. É o caso da 
história dos despertadores digitais, que o leitor aprenderá, 
deliciosamente, ter sua origem numa engenhoca inventada nos mosteiros 
medievais com a finalidade de acordar os monges para as orações 
noturnas. Longe da sisudez dos textos técnicos, Boorstin consegue a 
proeza de unir precisão científica e leitura acessível. 
 
 
 
 56 
Assunto: a obra Os descobridores, de Daniel J. Boorstin, editada pela Civilização Brasileira. 
 
Delimitação do assunto: resenha crítica da obra. 
 
Objetivo fixado: mostrar a dupla inovação pelo escritor Boorstin ao escrever a história da ciência. 
 
Tópico frasal: Daniel Boorstin, ao escrever uma história compacta da ciência, procede a duas 
inovações. 
 
Plano de desenvolvimento das ideias: 
1 Apresentação das duas novidades: 
1.1 Abandono dos catálogos de nomes e descrições de experimentos e preferência pela crônica. 
1.2 Opção por uma narrativa romanceada. 
 
Conclusão: o autor une precisão científica e leitura acessível. 
 
 Num texto de vários parágrafos, seria 
pertinente que houvesse entre eles uma 
interligação – isso ajudará não só na elaboração, 
mas também na recepção do texto. Segundo 
Vianna (1998, p. 70), os parágrafos “funcionam 
como partes de um todo e devem articular-se 
de forma perfeita para que a informação não se 
disperse”. São eles responsáveis pelo nosso 
processo reflexivo. Enfim, cada parágrafo deve 
explorar uma só ideia, já que explorar várias 
delas ao mesmo tempo torna o texto confuso, 
o que pode prejudicar a coerência. 
 
 
2.3.1 Textos e atividades 
 
1) Nos parágrafos abaixo, destaque os elementos linguísticos que auxiliam na 
organização textual do desenvolvimento das ideias. 
 
[Opiniões sobre Freud] Se há opinião 
unânime sobre Sigmund Freud, é a de que 
mudou nossa maneira de compreender a 
cultura, o outro e a nós mesmos. Mas as 
divergências em torno de sua pessoa e de sua 
obra são imensas. Para alguns, Freud foi um 
gênio, um herói que desbravou as profundezas 
do inconsciente e expôs à posteridade sua vida 
pessoal em um grau desconhecido até então, 
por amor à ciência (...). Para outros, não foi 
mais que um charlatão, um covarde que 
abandonou a verdade por medo da opinião 
pública, um homem que enxergava o sexual em 
todas as coisas, alguém que perseguia os 
discípulos dissidentes, que não media os meios 
para impor suas idéias. 
 
(FREUD: a exploração do inconsciente. História do 
pensamento, Fase. 54, p. 641) 
 
[Tipos de poluição] Temos, na atmosfera, 
quatro tipos principais de poluição. A de 
origem natural, causada por agentes com 
poeira, nevoeiros, gases vulcânicos, odores de 
fermentação natural etc. Outra forma liga-se à 
ação de veículos automotores, que eliminam 
gases como monóxido de carbono, óxido de 
enxofre, cloro, bromo. Existe ainda a poluição 
registrada em conseqüência de fenômenos de 
combustão como aquecimento doméstico e 
outras incinerações, que explodem bióxido de 
carbono, composto de enxofre, 
hidrocarbonetos não queimados. Por último, a 
degradação deve-se à atividade industrial. 
 
(Revista Interior, ano II, número 18, jul/ago. 1987, p.42) 
 
 
 
 
 57 
Progresso social e fertilidade. Os 
demógrafos explicam a relação entre progresso 
social e fertilidade em termos de uma transição 
demográfica de três fases. Na primeira, as 
condições sociais são más, tanto as taxas de 
mortalidade quanto as de natalidade são altas, e 
a população cresce pouco ou nada. Na segunda, 
aquelas condições começam a melhorar e as 
taxas de mortalidade decrescem, mas as de 
natalidade permanecem altas – de modo que o 
aumento da população é rápido. No estágio 
final, as taxas de natalidade também declinam, 
restabelecendo o equilíbrio com astaxas de 
mortalidade, e a população aumenta 
lentamente, ou não aumenta. 
 
(BROWN, Lester R. Por uma sociedade viável. Rio de Janeiro: 
Fundação Getúlio Vargas, 1983, p. 172) 
 
2) Com as informações do quadro, produza um parágrafo dissertativo completo. Para a 
elaboração do tópico frasal e do desenvolvimento, você deverá ser fiel ao quadro; não 
faça comentários, apenas descreva. Na conclusão, apresente sua opinião. 
 
 
MAIS TRANSPARÊNCIA 
O que as empresas podem fazer para que os funcionários conheçam as políticas de remuneração 
 
 
1. Enviar extratos 
mensais com todos os 
detalhes da remuneração 
– salário fixo, variável e 
benefícios 
 
 
2. Criar simuladores de 
projeção dos bônus na 
intranet 
 
3. Treinar os chefes para 
que saibam orientar seus 
subordinados sobre as 
regras de remuneração 
 
4. Identificar, por meio 
de pesquisas, as práticas 
consideradas falhas pelos 
empregados. 
 
3) Alguns assuntos são mostrados esquematicamente a seguir. Observe a delimitação de 
cada um deles e fixe um objetivo. As orientações do exercício anterior também se 
aplicam nesta tarefa. Feito isso, redija um parágrafo completo para cada esquema. 
 
a) Medidas para promoção da sáude 
 
 
 
 58 
 
b) Tática de aproximação 
 
 
 
 
c) De olho na balança 
 
 
 
 
 
 59 
 
d) Entenda a escala Richter 
 
 
 
 
 
e) Divisão internacional do trabalho 
 
 
 
 
 
 
 
 60 
4) Com as informações do quadro a seguir, produza um texto de cinco parágrafos. Para 
a delimitação deles, observe o modo como as informações foram distribuídas no 
quadro. Nos quatro primeiros, seja fiel ao quadro; faça descrições das informações. No 
último, manifeste sua opinião acerca do assunto. 
 
 
 
 
 61 
5) Aponte os mecanismos responsáveis pelo aparecimento de cada parágrafo no texto. 
Com a ajuda do professor, identifique também alguns elementos de coesão dentro dos 
parágrafos. 
 
Viver em sociedade 
 
A sociedade humana é um conjunto de 
pessoas ligadas pela necessidade de se ajudarem 
umas às outras, a fim de que possam garantir a 
continuidade da vida e satisfazer seus interesses 
e desejos. 
 Sem vida em sociedade, as pessoas não 
conseguiriam sobreviver, pois o ser humano, 
durante muito tempo, necessita de outros para 
conseguir alimentação e abrigo. E no mundo 
moderno, com a grande maioria das pessoas 
morando na cidade, com hábitos que tornam 
necessários muitos bens produzidos pela 
indústria, não há quem não necessite dos outros 
muitas vezes por dia. 
Mas as necessidades dos seres humanos 
não são apenas de ordem material, como os 
alimentos, a roupa, a moradia, os meios de 
transportes e os cuidados de saúde. Elas são 
também de ordem espiritual e psicológica. 
Toda pessoa humana necessita de afeto, precisa 
amar e sentir-se amada, quer sempre que 
alguém lhe dê atenção e que todos a respeitem. 
Além disso, todo ser humano tem suas crenças, 
tem sua fé em alguma coisa, que é a base de 
suas esperanças. 
 Os seres humanos não vivem juntos, 
não vivem em sociedade, apenas porque 
escolhem esse modo de vida, mas porque a vida 
em sociedade é uma necessidade da natureza 
humana. Assim, por exemplo, se dependesse 
apenas da vontade, seria possível uma pessoa 
muito rica isolar-se em algum lugar, onde 
tivesse armazenado grande quantidade de 
alimentos. Mas essa pessoa estaria, em pouco 
tempo, sentindo falta de companhia, sofrendo a 
tristeza da solidão, precisando de alguém com 
quem falar e trocar idéias, necessitada de dar e 
receber afeto. E muito provavelmente ficaria 
louca se continuasse sozinha por muito tempo. 
Mas, justamente porque vivendo em 
sociedade é que a pessoa humana pode 
satisfazer suas necessidades, é preciso que a 
sociedade seja organizada de tal modo que 
sirva, realmente, para esse fim. E não basta que 
a vida social permita apenas a satisfação de 
algumas necessidades da pessoa humana ou de 
todas as necessidades de apenas algumas 
pessoas. A sociedade organizada com justiça é 
aquela em que se procura fazer com que todas 
as pessoas possam satisfazer todas as suas 
necessidades, é aquela em que todos, desde o 
momento em que nascem, têm as mesmas 
oportunidades, aquela em que os benefícios e 
encargos são repartidos igualmente entre 
todos. 
 Para que essa repartição se faça com 
justiça, é preciso que todos procurem conhecer 
seus direitos e exijam que eles sejam 
respeitados, como também devem conhecer e 
cumprir seus deveres e suas responsabilidades 
sociais. 
 
(DALLARI, Dalmo de Abreu. Viver em sociedade. São Paulo: 
Moderna, 1985. p. 5-6.) 
 
6) Leia os textos a seguir, dois artigos de opinião, sobre o mesmo tema, mas com 
abordagens diferentes: um destaca mais as conseqüências do problema e o outro 
objetiva analisar suas causas. Juntamente com o professor, identifique as causas e as 
consequências, para, posteriormente, fazer o que se pede. 
 
 
 
 
 
 62 
Miséria infantil 
 
No relatório apresentado em março de 95 
na Cúpula sobre Desenvolvimento Social, em 
Copenhague, o governo já reconhecera que 16% 
das crianças brasileiras entre 5 e 14 anos de idade 
trabalham. A novidade do estudo da Organização 
Internacional do Trabalho divulgado esta semana é 
que, com esse espantoso índice uma em cada seis 
crianças trabalha -, o Brasil só não está em pior 
situação do que cinco outros países. 
Os casos mais graves, ignominiosos, são os 
de trabalho insalubre - crianças em longas jornadas 
em olarias, como no Piauí, ou em produções de 
gesso e carvão no Nordeste, intoxicando-se com 
tais materiais. 
A atividade precoce na lavoura, ainda que 
nos casos de agricultura familiar pareça menos 
atroz, não deixa de ser uma grave chaga social. Essa 
situação explica em grande medida o analfabetismo 
e o baixo grau de instrução dessas populações. São 
crianças que não freqüentam normalmente a escola 
e que, dependendo da idade e do tipo de esforço a 
que estão submetidas, podem ver prejudicado 
também seu desenvolvimento físico. 
Apesar do inegável mérito de alguns 
projetos específicos, está claro que somente 
medidas gerais e de grande fôlego, como os 
programas de renda mínima, são capazes de reduzir 
essa exploração infantil. 
Afinal, enquanto persistir uma realidade 
econômica impelindo as famílias pobres a submeter 
suas crianças ao trabalho, dificilmente o poder 
público eliminará tais práticas só com a repressão. 
A renda mínima vinculada à assiduidade escolar é 
um projeto extremamente promissor, pois força a 
escolarização e ajuda a combater a miséria. Em 
Brasília, o programa praticamente eliminou o 
abandono escolar, que caiu a 0,2% (contra índices 
da ordem de 6% até 94). 
O combate ao trabalho infantil pode ser 
feito. Trata-se de conferir-lhe a devida prioridade. 
 
(Folha de 5. Paulo, 17 nov. 1996) 
 
 
 
 
 
 
 
A fabricação do menor no trabalho 
 
As famílias pobres e exploradas buscam 
sobreviver, na desigualdade, através do trabalho. O 
trabalho da criança e dos adolescentes constitui um 
dos recursos que as famílias pobres utilizam para 
aumentar sua renda, e como mecanismo social para 
enfrentar emergências e situações de agravamento da 
subsistência. Isto acontece, por exemplo, em casos de 
invalidez, acidente, separação, desemprego e doença. 
Estas situações devem ser entendidas não como 
resultantes de dramas ou histórias isoladas e 
individuais das famílias pobres, mas como parte da 
história social da exploração. 
Nas regiões predominantemente rurais o 
trabalho de menores é um fator de expansão da 
produção. No caso de fronteiras agrícolas há 
condições do menor prover, quando adulto, a própria 
subsistência pela ocupação de novas terras. 
A modernização da agricultura, pela 
introdução de novas tecnologias e doassalariamento 
no campo, vem expulsando grandes contingentes de 
trabalhadores para as cidades, mudando a situação 
econômica, política e social da forma de inserção da 
família no sistema de produção. 
Na zona urbana há uma determinação de 
condições de produção próprias ao desenvolvimento 
urbano-industrial e a uma economia direcionada para 
bens de consumo duráveis, que recruta um número 
relativamente reduzido de trabalhadores pela alta 
tecnologia utilizada, combinada à expansão de 
serviços e de pequenas oficinas que sobrevivem na 
periferia das grandes empresas. 
Esta situação faz com que a família pobre se 
desarticule, levando, muitas vezes, o pai a ser uma 
espécie de pioneiro na busca de trabalho, obrigando-o 
a longos períodos de separação do resto da família. 
Por determinações do trabalho ocorre também um 
grande número de separações na família proletária, 
levando a mulher a ser chefe de família. As mulheres 
ocupam 35,6% da população em atividade 
econômica. (...) 
Verifica-se, pois, que a desagregação da 
família proletária é provocada por condições de vida, 
de trabalho e de renda, bem como pela migração 
rural. 
Nessas condições não basta à sobrevivência 
da família proletária o trabalho dos pais, o que obriga 
os filhos a ingressarem muito cedo no mercado de 
trabalho. 
 
(Vicente Ferreira, Humanidades, n. 12, fev./ abr. 1987. p. 7 -
8) 
 
 
 63 
Elabore um parágrafo dissertativo completo sobre o seguinte tema: Trabalho infantil: 
causas, consequências e desafios. Orientações: seu parágrafo deve ter, no mínimo, 10 
linhas e, no máximo, 15. Distribua as ideias em períodos, de modo que fiquem claros o 
tema e o objetivo, as causas, as consequências e o seu posicionamento, em que pode 
propor soluções para o problema e/ou expressar sua indignação e/ou fazer algum 
comentário importante. 
 64 
Capítulo 3 
 
03 Processos de compreensão 
 
De acordo com Marcuschi (2008), a 
compreensão de um texto não é uma atividade 
natural, uma herança genética, uma ação 
individual isolada do meio e da sociedade em 
que se vive. Compreender um texto exige 
habilidade, interação e trabalho. Quando 
participamos de um diálogo ou lemos um 
texto, entendemos algo, mas nem sempre a 
compreensão é bem-sucedida. Não podemos 
pensar que compreender seja apenas uma ação 
linguística ou cognitiva. É muito mais uma 
forma de inserção no mundo e um modo de 
agir sobre o mundo na relação com o outro 
dentro de uma cultura e sociedade. 
Para se compreender bem um texto, 
tem-se que sair dele, pois o texto sempre 
monitora o seu leitor para além de si próprio e 
esse é um aspecto quanto à produção de 
sentido. Isso significa dizer que: a) entender 
um texto não equivale a entender palavras ou 
frases; b) entender frases ou as palavras é vê-las 
em um contexto maior; c) entender é produzir 
sentidos e não só extrair conteúdos prontos; d) 
entender o texto é inferir numa relação de 
vários conhecimentos. 
São muitas as suposições que subjazem a 
essas colocações, a saber: a) os textos são em 
geral lidos com motivações muito diversas; b) 
diferentes indivíduos produzem sentidos 
diversos com o mesmo texto; c) um texto não 
tem uma compreensão ideal, definitiva e única; 
d) mesmo que variadas, as compreensões de 
um texto devem ser compatíveis; e) em 
condições socioculturais diversas, temos 
compreensões diversas do mesmo texto. 
De modo geral, pode-se admitir que 
compreender um texto em uso é entendê-lo 
em seus contextos. É no uso efetivo da língua e 
de modo especial no texto em sua relação com 
seu leitor ou ouvinte que o sentido se constitui. 
Neste capítulo, portanto, você terá acesso a 
algumas noções teórico-práticas que o 
auxiliarão na compreensão de textos: sentido 
literal e não literal, informações implícitas, 
atividade inferencial e aspectos da 
argumentação. 
 
 
3.1 Sentido literal e não literal 
 
 São muitas as discussões e divergências 
acerca da questão do sentido literal e do 
sentido não literal. Sem entrar nos méritos das 
polêmicas que envolvem as concepções literal e 
não literal, podemos dizer que o sentido literal 
nada mais é que um sentido básico que 
entendemos quando usamos a língua em 
situações normais. Já o sentido não literal não 
seria direto e teria uma origem em geral de 
caráter inferencial. 
Fiorin e Savioli (2007) abordam a 
questão da denotação e da conotação; os 
autores discutem os dois textos abaixo 
reproduzidos. 
 
Bandeirante cai no México e mata 20 ocupantes 
 
Dois aviões comerciais mexicanos 
caíram, causando a morte de 21 pessoas, 
anunciaram ontem funcionários do governo do 
México. O acidente mais grave aconteceu com 
um Bandeirante de fabricação brasileira. O 
aparelho caiu no oeste do país, matando todos 
os 20 ocupantes. Segundo os funcionários, o 
avião provavelmente se chocou com uma 
montanha devido ao mau tempo e explodiu. O 
outro acidente aconteceu no leste do país. A 
 65 
fuselagem do avião se rompeu quando ele 
tentava decolar. Um passageiro morreu. 
Ambos os desastres aconteceram 
anteontem, o que eleva para cinco o número de 
acidentes aéreos – causando um total de 49 
mortes – na última quarta-feira. 
O Bandeirante 110 da empresa aérea 
estatal mexicana, Transporte Aéreo Federal 
(TAF), decolou do aeroporto de Uruapán (224 
km a oeste da Cidade do México) às 9h45 
(12h45 em Brasília) com destino a Lázaro 
Cárdenas, na costa do oceano Pacífico, ambas 
no Estado de Michoacán. O aparelho perdeu 
contato com a torre de controle de Uruapán às 
10h30 (13h30 em Brasília). Nove horas depois, 
os restos do aparelho foram encontrados perto 
do povoado de Arteaga, 60 km ao norte de 
Lázaro Cárdenas. 
 
(Folha de S. Paulo, 2 set. 1998, p. A-11) 
 
O grande desastre aéreo de ontem 
 
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que 
levava uma flor para a noiva, abraçado com a 
hélice. E o violinista em que a morte acentuou 
a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra 
e seu estradivárius. Há mãos e pernas de 
dançarinas arremessadas na explosão. Corpos 
irreconhecíveis identificados pelo Grande 
Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva 
de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo 
sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora 
belíssima, no seu último salto de banhista, mais 
rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas 
caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem 
ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de 
rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a 
prima-dona com a longa cauda de lantejoulas 
riscando o céu como um cometa. E o sino que 
ia para uma capela do oeste, vir dobrando 
finados pelos pobres mortos. Presumo que a 
moça adormecida na cabine ainda vem 
dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o 
paralítico vem com extrema rapidez, vem 
como uma estrela cadente, vem com as pernas 
do vento. Chove sangue sobre as nuvens de 
Deus. E há poetas míopes que pensam que é o 
arrebol. 
 
(LIMA, Jorge de. Poesia. Org. por Luiz Santa Cruz. 3. ed. 
R.J.: Agir, 1975. p. 64-5) 
 
Os dois textos abordam o mesmo tema: 
um desastre aéreo. De acordo com Fiorin e 
Savioli, o primeiro tem uma função utilitária. 
Não é um texto literário. O segundo tem uma 
função estética. É um texto literário. Enfim, o 
mesmo tema recebe um tratamento utilitário 
(sentido literal, denotativo, unissignificativo) 
ou um tratamento estético (sentido não literal, 
conotativo, plurissignificativo). Cada um dos 
textos produz um efeito de sentido distinto. 
Você, como leitor e produtor de textos, deve 
atentar-se a essas concepções, com o propósito 
de melhor evidenciar suas intenções. 
 
3.1.1 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, o texto abaixo para responder ao que se pede. 
 
Goteira como metáfora 
 
Um cano estourado provocou 
vazamento de lama no subsolo do Palácio do 
Planalto.Não é piada. Aconteceu anteontem. 
Três meses depois de uma reforma que 
consumiu R$ 111 milhões (muito além do 
previsto inicialmente) e mais de um ano, o 
palácio exibe vários sinais de desmazelo: 
alagamentos em banheiros e na garagem, 
infiltrações, paredes descascadas, deformações 
no teto de gesso, fechaduras novas estragadas... 
Um dos objetivos da reforma era 
eliminar os “puxadinhos” que descaracterizaram 
a arquitetura original. Mas parece que o Brasil 
voltou pela porta dos fundos. O representante 
 66 
de Oscar Niemeyer em Brasília foi até gentil: 
“Faltou refinamento aos órgãos responsáveis 
para fazer um restauro de qualidade”. 
De goteiras e infiltrações o senador 
Gim Argello (PTB-DF) entende. O relator do 
Orçamento da União destinou R$ 3 milhões 
em emendas de sua cota individual para 
entidades fantasmas do DF, conforme revelou 
“O Estado de S. Paulo”. 
Em geral, funciona assim: o 
parlamentar faz uma emenda reservando 
recursos públicos para shows ou eventos 
culturais; o dinheiro é destinado a um instituto 
fantasma; este, por sua vez, repassa a verba 
para empresas fictícias em nome de laranjas. 
Tudo, como se dizia antigamente, "numa 
nice". O governo não fiscaliza nada. 
A Folha noticiou ontem que Argello 
incluiu entre suas emendas para 2011 um 
repasse de R$ 250 mil para a ONG de uma 
amiga. E que amiga: condenada por evasão de 
divisas no escândalo dos Anões do Orçamento, 
nos anos 90, ela ficou presa por seis meses em 
2007. Este ano, foi impedida graças à Lei da 
Ficha Limpa de disputar uma vaga à Câmara 
Legislativa do DF. 
Ontem, Argello renunciou à Comissão 
de Orçamento. É muito pouco. Virão outros 
“gins” no lugar. Até quando vamos tolerar as 
goteiras das emendas e o “puxadinho” de 
descalabros que é a Comissão do Orçamento? É 
preciso uma reforma. Mas não como a do 
Planalto. 
 
(SILVA, Fernando de Barros e. Goteira como metáfora. Folha 
de S. Paulo, 8 dez. 2010, p. A2) 
 
 
1) O autor faz uso da denotação e da conotação. Qual o propósito desses usos de linguagem no texto? 
2) Como você compreende as seguintes passagens do texto: “De goteiras e infiltrações o senador Gim 
Argello (PTB-DF) entende” e “repassa a verba para empresas fictícias em nome de laranjas”. 
3) Faça um apanhado das ocorrências das aspas no texto e procure distinguir as diferenças de uso. 
4) “É preciso uma reforma”. Apresente dois sentidos para a palavra “reforma”. 
5) Você acha que a conotação dá informações sobre o autor e sua posição diante do assunto? Explique. 
6) Você considera o título apropriado? Por quê? 
 
 
 
Palavras, palavras 
 
Bárbaro, chocante, terrível. Alguns 
adjetivos fartamente usados pela imprensa na 
cobertura do caso Bruno são ambivalentes. Ao 
menos como gírias, essas palavras também 
podem ter acepções positivas. 
Sabemos que o grotesco é ingrediente 
que não falta nas receitas da comunicação de 
massa. O tom frenético (outro adjetivo 
ambivalente) que marcou nos últimos dias o 
acompanhamento jornalístico do caso indica 
como é estreita a separação entre o ímpeto 
necessário e a compulsão alucinada. 
A menção aqui não é ao 
sensacionalismo de certos programas e jornais, 
pois ele é figura antiga e, diga-se, já até 
produziu grandes textos e imagens. 
Mas por que uma boa repórter de um 
canal de TV paga interrompe uma delegada na 
operação de embarque de Bruno para Minas e 
faz perguntas sem nexo? 
Por que tantas coletivas e exclusivas – 
sem nenhum contraponto crítico – de um 
delegado mineiro nitidamente destrambelhado, 
fascinado por estar gastando sua prosódia 
constrangedora diante de Ana Maria Braga, 
Datena e outras potências, e que pôs querosene 
na alucinação coletiva ao chamar seu principal 
investigado de “monstro” (mais um 
ambivalente)? 
Por que tanto destaque para gritos de 
“assassino”, se está claro que são dados por 
gente que só vai às portas de delegacias por 
estar magnetizada pelos amontoados cada vez 
maiores de câmeras, e assim realiza a Inquisição 
da era digital? 
 67 
A ampliação de modelos de 
comunicação e a necessidade de tudo se dar 
agora, ao vivo, com urgência, faz com que já 
achemos normais esses helicópteros 
acompanhando comboios de carros de polícia e 
nós, jornalistas, falando, falando, falando... 
Ainda há algum controle ou ele está para lá de 
remoto? 
As coberturas são intensas, maciças, 
arrasadoras. Somos bárbaros, chocantes, 
terríveis. 
 
(VIANA, Luiz Fernando. Palavras, palavras. Folha de S. Paulo, 
11 julho 2010, p. A2) 
 
 
 
1) Para o autor, alguns adjetivos são ambivalentes. Como compreender essa colocação? Responda 
comentando os adjetivos “bárbaro”, “chocante” e “terrível”. 
2) O que seria necessário para que distinguir os sentidos de uma palavra ambivalente? 
3) Como você compreende as seguintes passagens do texto: “querosene na alucinação coletiva” e 
“Inquisição da era digital”? 
4) O autor recorre, algumas vezes, ao tom lúdico. Explique como isso aconteceu na seguinte 
passagem: “Ainda há algum controle ou ele está para lá de remoto?” 
5) Na passagem “As coberturas são intensas, maciças, arrasadoras.”, que adjetivo você considera mas 
ambivalente? 
6) O texto é de caráter metalinguístico. Como compreender essa questão? 
 
 
3.2 Atividade inferencial 
 
Para Marcuschi (2008), a atividade 
inferencial, quando vista na sua complexidade, 
não pode ser considerada um mecanismo 
espontâneo e natural. Pode ocorrer que, em 
dado momento, determinada seja mais eficaz 
do que outra para dada operação inferencial. O 
autor apresenta, para discussão, a seguinte 
situação: suponhamos que na porta de certo 
estabelecimento comercial esteja escrito: 
“Aberto aos domingos”. Podemos entender, 
por exemplo, a) que o estabelecimento só abre 
aos domingos; b) que o estabelecimento abre 
também aos domingos e c) que o 
estabelecimento abre todos os dias da semana. 
Qual seria, portanto, a interpretação mais 
provável? Seguramente, todos diriam que a 
intenção do autor desse aviso foi dizer que o 
estabelecimento abre todos os dias, inclusive 
aos domingos. Assim, parece que (c) seria a 
interpretação preferencial e impliciaria (b). 
Mas (a) também não estaria errada; só não seria 
usual, porque o normal é abrir durante os dias 
não-feriados. 
 
3.2.1 Informações implícitas 
 
Os textos podem transmitir tanto 
informações explícitas quanto implícitas. Uma 
leitura eficiente deve captar esses dois tipos de 
informações. Portanto, leitor perspicaz é 
aquele que lê as entrelinhas. Caso não tenha 
essa habilidade, deixará de perceber 
significados importantes ou concordará com 
ideias e opiniões que rejeitaria se as percebesse. 
 Há dois tipos de informações implícitas: 
os pressupostos e os subentendidos. Quanto 
aos pressupostos, podemos dizer que são ideias 
não expressas de maneira explícita, que são 
resultantes logicamente do sentido de certas 
palavras ou expressões contidas na frase. 
Quanto aos subentendidos, são insinuações 
contidas em uma frase ou um grupo de frases. 
 
 
 68 
3.2.1.1 Pressupostos e subentendidos 
 
 Qual seria então a diferença entre os 
pressupostos e os subentendidos? Os 
pressupostos são informações estabelecidas 
como indiscutíveis tanto para o falante quanto 
o ouvinte, uma vez eles decorrem do sentido 
de algum elemento linguístico colocado na 
frase. Eles podem ser negados, mas o falante o 
coloca implicitamente para não o ser. Já os 
subentendidos são de responsabilidade do 
ouvinte. O falante pode esconder-se atrás do 
sentido literal das palavras e negar que tenha 
dito o que o ouvinte depreender de suas 
palavras. 
 Em “Pedro tornou-se fumante”, a 
informação explícita é a de que hoje Pedro é 
um fumante. Do sentido do verbo “tornar-se”, 
que significa vir a ser, decorre logicamente que 
anteriormente Pedro nãoera fumante. Temos, 
nessa situação, uma pressuposição. Suponha 
que, numa sala de aula, na época do inverno, 
um aluno, ao dizer que estivesse sentindo frio, 
talvez sugerisse que um outra pessoa fechasse a 
porta, já que rajadas de vento estariam 
entrando na sala. Temos, nessa situação, um 
caso de subentendidos. 
 De um único texto muitas informações 
implícitas ou inferenciais podem ser feitas. 
Apontaremos no texto a seguir algumas delas.
O que vai ser quando crescer? 
 
O grupo de jovens que agrediu pelo 
menos três rapazes por volta das 6h30 de 
anteontem, na avenida Paulista, estuda num 
colégio particular. Menos de 15% dos 
adolescentes nessa faixa etária frequentam 
escolas privadas em São Paulo; o resto está na 
escola pública ou fora da escola. 
Além disso, desde o primeiro instante 
os agressores contaram com a proteção de pelo 
menos um advogado. É, em tese, um direito de 
todos, embora, na prática, seja mais um 
indicador de privilégio social. 
Os jovens já estão em casa. Foram 
liberados ontem – quatro deles, entre 16 e 17 
anos, da Fundação Casa; Jonathan Lauton 
Domingues, 19, o único universitário, de um 
centro de detenção provisório. 
Não sei se deveriam permanecer 
detidos. Mas seria bom que não ficassem 
impunes. É possível, porém, que a maior 
punição seja a repercussão pública do caso, 
com os constrangimentos, para os jovens e 
familiares, daí decorrentes. 
Não se pode compactuar com o 
linchamento sumário dos agressores, não há 
dúvida; mas também não é possível tolerar ou 
ser conivente com esse tipo de delinquência 
juvenil. As vítimas, talvez não seja demais 
lembrar, são os que foram espancados 
covardemente. 
Há fortes indicações de que os garotos 
agiram movidos por homofobia. Isso apesar dos 
esforços do advogado – que está ali para 
reduzir danos dos clientes e não para dizer a 
verdade – para caracterizar o episódio como 
mera “confusão”. 
Quase todos já fizemos porcaria quando 
jovens. É a fase da explosão hormonal e da 
vitalidade física, dos exageros e da insensatez, 
dos impulsos para desafiar o perigo, das 
transgressões e dos ritos de afirmação diante 
dos (e com os) colegas. Mas a juventude 
também é o período em que fixamos os valores 
que vão nos servir de norte na vida adulta. O 
que pretendem ser quando crescer os meninos 
bem nascidos que se divertiam distribuindo 
pauladas em inocentes em plena Paulista no 
feriadão escolar? 
 
(SILVA, Fernando de Barros e. O que vai ser quando crescer? 
Folha de S. Paulo, 16 nov. 2010) 
 
 69 
Muitos leitores concordaram com as 
colocações e questionamentos do autor acerca 
do casa noticiado e comentado. Aceitar ou 
refutar as ideias do autor faz parte da 
capacidade inferencial do leitor: ou é capaz de 
uma compreensão aprofundada ou apenas uma 
compreensão literal do texto. A inferência é 
que irá permitir que se dê coerência ao texto, 
que se extraiam informações não ditas, que se 
evoquem informações que devem ser 
adicionadas ao texto para completá-lo. 
Nos primeiros parágrafos, o autor 
identifica os jovens que praticaram os 
atentados: estudantes de escola particular, com 
residência fixa e com condições de pagar um 
advogado. A seguir, emite alguns juízos de 
valar quanto ao andamento do caso. No último 
parágrafo, faz um contraponto sobre o que ser 
jovem: fase hormonal e fase de fixação de 
valores. Em seguida, faz um questionamento 
acerca do futuro dos jovens agressores. O 
leitor, de acordo com suas crenças e com seu 
conhecimento de mundo, fará suas inferências, 
as quais, acreditamos, se darão, sobretudo, 
acerca dos valores sociais na formação moral 
dos jovens de classe média. O que sabemos 
sobre o autor, o jornal e o tema abordado é 
decisivo para a nossa atividade inferencial. 
O nosso conhecimento é filtrado pelos 
valores, opiniões e emoções. Ao ler o texto O 
que vai ser quando crescer?, podemos nos sentir 
irritados, revoltados, divertidos, comovidos ou 
até apaziguados. Para alguns estudiosos, os 
bons leitores avaliam o que leem e respondem 
de um modo tanto mais intenso quanto maior o 
seu interesse sobre o assunto lido. 
 
 
3.2.1.1.1 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, o diálogo a seguir. 
 
_ Eu não quero ir para São Paulo. 
_ Mas é preciso: aqui você não terá as mesmas chances de estudo. 
_ Eu não quero estudar. 
_ Sem um diploma hoje ninguém mais consegue um bom emprego. 
_ Pior que um mau emprego é viver em São Paulo. 
_ Olha aqui, filhinho, quando você estiver morando no seu apartamento perto do metrô, prometo 
que vou visitá-lo e você vai prometer me ligar toda a semana para me contar as novidades. 
 
Como se nota, no diálogo acima, a argumentação é interrompida por uma última interferência, cheia 
de pressupostos. Detecte alguns deles. 
 
2) Leia, com atenção, as passagens abaixo e aponte alguns pressupostos nelas contidos. 
 
a) É preciso que os sindicalistas encaminhem as negociações com responsabilidade, com senso de 
patriotismo, sem induzir os trabalhadores a radicalismos inaceitáveis. 
 
b) A Rússia continuará financiando o deficit econômico cubano. 
 
c) Será que o povo soviético, no plebiscito, vai preferir continuar na miséria do comunismo ou vai 
arriscar a prosperidade do capitalismo? 
 
3) Suponha que dois jornais publiquem, num determinado dia, o seguinte: 
 
Jornal A: Os índios que estavam nus não puderam entrar no Congresso. 
Jornal B: Os índios, que estavam nus, não puderam entrar no Congresso. 
 
Pergunta-se: os dois jornais publicaram a mesma notícia? Explique. 
 70 
4) Leia, com atenção, os enunciados abaixo para responder ao que se pede. 
 
a) Nesta última eleição, os políticos, que foram derrotados, estão analisando as causas do seu fracasso. 
b) Nesta última eleição, os políticos que foram derrotados estão analisando as causas do seu fracasso. 
 
A oração adjetiva (que foram derrotados) instaura os mesmos pressupostos em ambos os enunciados? 
Explique sua resposta. 
 
5) O texto abaixo é uma seqüência de perguntas de um juiz e respostas de um 
acusado durante uma audiência no tribunal. Estude o texto com base na seguinte 
concepção: “Em todo dizer há uma mensagem de não-ditos que significam”. 
 
Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em N. Iorque? 
Resposta: Eu me recuso a responder a essa pergunta! 
Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em Chicago? 
Resposta: Eu me recuso a responder a essa pergunta! 
Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em Miami? 
Resposta: Não! 
 
6) Muitas manchetes de jornais e títulos de notícias dão margem a pressupostos e 
subentendidos. Explicite em cada situação abaixo pelo menos um implícito 
 
a) “Fora do governo, Ciro ataca PT e Palocci” (Folha de S. Paulo, 1º abril 2006). 
b) “Ministro da Justiça é o novo alvo da oposição” (Folha de S. Paulo, 3 abril 2006) 
c) “As medidas provisórias tornaram a Lei do Orçamento inócua” (Folha de S. Paulo, 3 julho 2010) 
a) “Ministério vai criar ‘lista negra’ de desmatadores e estuda cortar créditos de proprietários em 
situação irregular” (Folha de S. Paulo, 16 set. 2010). 
b) “Novas acusações derrubam ex-braço direito de Dilma” (Folha de S. Paulo, 17 set. 2010). 
c) “Corrupção no Amapá envolve até Judiciário” (Folha de S. Paulo, 19 set. 2010). 
 
7) Tire a conclusão cabível: 
 
a) Na cidade, todos os prédios com mais de três andares ficam na praça da matriz. O Zé Carlos disse 
que morava no 6º andar. Logo, o Zé Carlos.... 
b) As marcas dos pneus ficaram a um metro e noventa de distância. Nenhum carro tem uma bitola tão 
larga. Portanto, as marcas de pneus ... 
c) Nenhum político de expressão é demagogo. Nosso prefeito é um grande demagogo, o que leva a 
concluir que.... 
d) Todo universitário tem QI superior a 70. Mas alguns universitários são estúpidos. Logo, um QI 
superiora 70 não garante que .... 
e) Nenhum bolo de aniversário comprado em confeitaria custa hoje menos de 30 reais. Se o João 
gastou menos de 30 reais com o bolo de aniversário do irmãozinho, então... 
f) Na véspera do concerto, o banco mandou um convite para cada um dos clientes com mais de 5 mil 
reais na carteira de investimentos. Se o Zé Carlos não foi convidado, é que... 
g) Só quem conheceu o Godofredo antes de ele ficar rico sabe que ele tinha apelido de “Almôndega”. 
O Zé Carlos vive chamando o Godofredo de Almôndega, logo... 
h) Para ser diplomata, era preciso ter o curso do Itamaraty, ou ter se notabilizado por uma obra 
artística considerada de grande expressão. Não me consta que o poeta Vinicius de Moraes tivesse feito 
o curso do Itamaraty. Logo, sua obra... 
 71 
8) Coloque todos ou nem todos, nos espaços vazios, de modo que chegue a uma 
afirmação verdadeira. 
 
a) ..................... os carros são veículos, mas ..................... os veículos são carros. 
b) .................... os paulistanos são paulistas, mas ................. os paulistas são paulistanos. 
c) ................ os remédios são beta-bloqueadores, mas ............... beta-bloqueadores são remédios. 
d) Até 1950, ................... os automóveis que circulavam no Brasil eram importados,mas 
................... os importados eram automóveis. 
e)......................... os escritores da Academia Brasileira de Letras são velhos, mas ................. os 
velhos são escritores da Academia Brasileira de Letras. 
f) ........................ os acidentes automobilísticos ocorridos nesta estrada se deveram a falhas 
mecânicas ou humanas, mas .................. os acidentes automobilísticos devidos a falhas mecânicas ou 
humanas aconteceram nesta estrada. 
 
9) Todos nós já deparamos com propagandas como esta: 
 
 
Não se deixe explorar pela concorrência! 
Compre na nossa loja. 
 
 
Explique por que essa propaganda é potencialmente prejudicial ao comerciante que a utiliza. 
 
10) Na revista Veja (26 jan. 2011), nas suas Páginas Amarelas, o cantor Ricky Matin 
concedeu uma entrevista a Bruno Meier. Leia um fragmento desse entrevista para 
responder ao que se pede. 
 
Por que você decidiu falar 
publicamente sobre sua sexualidade? 
 
Eu não aguentava mais me esconder e fingir ser 
quem não era. Sou uma boa pessoa e tento 
fazer o bem ao próximo, mas algo me faltava. 
O que virou a mesa foi a paternidade. Um dia, 
olhei nos olhos dos meus filhos e pensei: “Se 
quero que eles sejam felizes, eu tenho de viver 
com transparência”'. Nesse mesmo dia, 
coloquei no meu site uma carta revelando que 
sou gay. Se não fizesse isso, poderia dizer quem 
sou na minha casa? Ou será que eu iria mandar 
meus filhos mentir a meu respeito na escola? 
Nada disso. Quero mais é que eles falem aos 
seus amigos: “Meu pai é gay e ele é muito legal. 
Seu pai não é gay. Triste o seu caso”. Quero 
que eles sintam orgulho em fazer parte de uma 
família moderna. 
 
Na semana seguinte, Veja publicou várias cartas de leitores sobre entrevista, mais especificamente 
sobre essa parte transcrita. Uma das cartas é a seguinte: 
 
Sou pai há menos de um ano e fiquei 
decepcionado com Ricky Martin. Ele afirma 
que quer que seus filhos digam: “Meu pai é gay 
e ele é muito legal. Seu pai não é gay. Triste o 
seu caso”. Ora, quer dizer que, pelo fato de eu 
não ser gay, sou um pai menos legal que ele? 
Gostaria de mostrar a ele quanta felicidade e 
amor existe em uma família simples aqui do 
interior de Minas Gerais, um casal normal 
(homem e mulher) que tem uma filhinha 
maravilhosa cheia de saúde e sem os milhões de 
dólares que esse senhor tem. 
 
(Eduardo Fernandes Silva, Nova Lima, MG) 
 
 
 72 
 
a) Você diria que o autor da carta é um leitor de informações implícitas? Por quê? 
b) Que inferências você faz do emprego dos parênteses em (homem e mulher)? 
c) E você? O que acha da questão? Escreva, pelo menos, cinco linhas. 
 
 
11) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. 
 
Debate do segundo turno 
 
DILMA – Em nome do Pai, do Filho e do 
Espírito Santo. SERRA – Louvado seja Nosso 
Senhor Jesus Cristo! 
DILMA – Para sempre seja louvado! SERRA – 
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor seja 
convosco, bendita sois vós entre as mulheres e 
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus! 
DILMA – Santa Maria, mãe de Deus, rogai por 
nós, pecadores, agora e na hora de nossa 
morte, amém. SERRA – o Senhor é o meu o 
pastor... 
DILMA – ... e nada me faltará. SERRA – 
Deixai vir a mim as criancinhas... 
DILMA – ... e quem nunca pecou atire a 
primeira pedra. SERRA – Não só de pão vive o 
homem... 
DILMA – De que vale ao homem possuir todo 
o mundo se vier a perder a sua alma? SERRA – 
Os últimos serão os primeiros... 
DILMA – Eu sou o caminho, a verdade e a 
vida... SERRA – Passarão o céu e a terra, mas 
as minhas palavras não passarão. 
DILMA – O meu reino é o da verdade e da 
justiça. SERRA – Verdadeiramente é digno e 
justo, racional e salutar, que, sempre e em 
todo o lugar, vos demos graças, oh Senhor 
Santo Pai, onipotente, eterno Deus! 
DILMA – Porque quem não é contra nós, é por 
nós. SERRA – A minha casa será chamada por 
todas as nações de casa de oração. Mas vós a 
tendes feito covil de ladrões. 
DILMA – Vai, vende tudo o que tens, dá aos 
pobres e terás um tesouro, vem e segue-me. 
SERRA – Ai de vós, escribas e fariseus 
hipócritas, que coais um mosquito e engolis um 
camelo! 
DILMA – Lançai sobre mim a vossa luz e a 
vossa verdade, para que elas me guiem e me 
conduzam ao vosso monte santo e a vossos 
tabernáculos! SERRA – Ai do mundo por causa 
dos escândalos; porque é necessário que 
venham escândalos, mas ai daquele por quem o 
escândalo vem. 
 
(CONY, Carlos Heitor. Debate do segundo 
turno. Folha de S. Paulo, 7 out. 2010, p. A2. 
Caderno Opinião) 
 
 
a) Como entender o processo intertextual instaurado na produção do texto? 
b) Quem é a Dilma e quem é o Serra nos planos explícito e implícito? 
c) Você acha que o autor critica o discurso religioso? Por quê? 
 
 
12) Por que as afirmações abaixo são falaciosas? 
 
—“É muito articulado, para um ex-torneiro mecânico.” 
—“É muito discreto para um descendente de italianos.” 
—“É muito inteligente para um preto.” 
—“É esperta para uma loira.” 
 
 
 
 73 
13) O ato de ler é motivação para muitos artistas plásticos. A retratação artística desse 
ato torna-se uma fonte de pesquisa acerca do comportamento do cidadão e suas 
relações com a leitura. Leia, com atenção, os quadros de pintura selecionados para 
responder ao que se pede. 
 
 
 
Rembrandt. Rembrandt mother reading 
the Staten Bible.1631 
 
 
 
Jean-Francois de Troy. The Reading from Moliere. 1728 
 
 
Simon Glücklich. Aprendendo a ler. 1889 
 
 
Lucia de Lima (Brasil, Rio de Janeiro). Menina lendo. 2011 
 
 
 
 
a) Como entender a relação intertextual entre as imagens selecionadas? 
b) Cada artista, de modo particular, representa uma visão subjetiva do ato de ler. A partir das escolhas 
do artista (cores, cenário, personagens, entre outras), infira, de cada quadro, a ideia de leitura 
representada. Informações sobre quem é o artista e sobre a escola a que se filia podem auxiliá-lo nesta 
tarefa. 
 
 
 
 
 74 
14) Com base na leitura das duas charges, inferia o conceito de arte criticado. Qual a 
sua opinião sobre o que é arte. 
 
 
(Folha de S. Paulo, 32 março 2010 – Caderno Ilustrada) 
 
 
 
(Folha de S. Paulo, 27 dez. 2010 – Caderno Ilustrada) 
 
3.3 Estrutura da argumentação 
 
Há uma confusão sobre o que seja texto 
dissertativo e texto argumentativo. Emdiato 
(2008) procura esclarecer essa questão. 
Segundo esse autor, considera-se, de modo 
geral, o texto dissertativo como um tipo de 
discurso explicativo, cujo objetivo é explorarum certo assunto sem, no entanto, incluir um 
posicionamento ou uma opinião. A 
argumentação visa a persuadir ou convencer 
um auditório da validade de uma tese ou 
proposição, cujo objetivo é construir uma 
comunicação persuasiva. 
Atualmente, somos bombardeados pelo 
discurso persuasivo. A noção de 
argumentatividade está presente nos mais 
diversos gêneros. Segundo Ernani e Nicola 
(2002), a maneira como o falante organiza seu 
discurso para chegar a determinadas conclusões 
(ato de argumentar) está intimamente ligada à 
persuasão. A argumentação é a base da 
persuasão e, assim, podemos ver a 
argumentação como uma estrutura criada que 
pressupõe o uso de estratégias linguísticas e 
racionais. Para que a argumentação seja válida, 
deve surgir de um raciocínio lógico, que 
comprove e justifique um ponto de vista, mas 
deve também estar adequada ao interesse ou à 
expectativa o interlocutor. Sem a noção do 
outro como alvo, a argumentação perde a 
força. 
Segundo Emidiato (2008), a estrutura 
básica do discurso argumentativo deve 
pressupor a existência de atitudes antiéticas 
(posições contra e a favor) explícitas ou 
implícitas, o que nos permite propor a seguinte 
estrutura o discurso argumentativo: 
 
Afirmação (tese, proposição): afirmação feita pelo falante sobre a verdade de algum 
fenômeno, seguida da análise de seus termos essenciais, que se contrapõe, explícita ou 
implicitamente, a uma outra concepção sobre o mesmo fenômeno; 
 75 
 
Posicionamento: o falante explicita sua posição sobre o fenômeno posto em discussão, posição 
que pode demonstrar uma concordância, parcial ou total, com uma tese já existente, ou uma 
discordância,parcial ou total, com a mesma – o posicionamento pode ser acompanhado, ainda, de 
uma avaliação que o falante faz; 
 
Quadro de problematização: insere a argumentação numa perspectiva social, econômica, 
política, ideológica, religiosa, científica, moral, ética – as possibilidades de problematização são 
bem diversificadas e dependem, basicamente, do tipo de público ao qual é a argumentação é 
dirigida; 
 
Formulação dos argumentos: não se pode argumentar bem sem apresentar, em determinado 
momento, argumentos que possam ser aceitos como plausíveis e aceitáveis pelo interlocutor ou 
pelo público – a formulação dos argumentos será, portanto, a parte da argumentação relativa aos 
tipos de provas, à lógica dos raciocínios e princípios de explicação e justificação que fundamentam 
a tese; 
 
Conclusão: dedução ou inferência a que se quer chegar a partir dos argumentos apresentados e 
sua pertinência e adequação ao quadro de problematização apresentado. 
 
Tomasi e Medeiros (2010) fazem a 
análise da montagem do esquema 
argumentativo do texto a seguir. Leia, com 
atenção, o texto e, depois, a análise dos 
autores. 
 
A revolução da brevidade 
 
Toda área do conhecimento humano 
tem a sua beleza, as suas circunstâncias e as suas 
dificuldades. O mundo jurídico, 
tradicionalmente, debate-se com duas 
vicissitudes: (a) a linguagem empolada e 
inacessível; e (b) os oradores ou escribas 
prolixos, que consomem sem dó o tempo 
alheio. Verdade seja dita, no entanto, o 
primeiro problema vem sendo superado 
bravamente: as novas gerações já não falam 
nem escrevem com a obscuridade de 
antigamente. 
De fato, em outra época, falar difícil era 
tido como expressão de sabedoria. Chamar 
autorização do cônjuge de "outorga uxória" ou 
recurso extraordinário de “irresignação 
derradeira” era sinal de elevada erudição. Hoje 
em dia, quem se expressa assim é uma 
reminiscência jurássica. 
Nos dias atuais, a virtude está na 
capacidade de se comunicar com clareza e 
simplicidade, conquistando o maior número 
possível de interlocutores. A linguagem não 
deve ser um instrumento autoritário de poder, 
que afaste do debate quem não tenha a chave de 
acesso a um vocabulário desnecessariamente 
difícil. 
Essa visão mais aberta e democrática do 
direito ampliou, significativamente, a 
interlocução entre juristas e tribunais, de um 
lado, e a sociedade e os meios de comunicação, 
de outro. Não se passam dois dias sem que 
algum julgado importante seja notícia nas 
primeiras páginas dos jornais. 
Pois agora que finalmente conseguimos 
nos comunicar com o mundo, depois de 
séculos falando para nós mesmos, está na hora 
de fazermos outra revolução: a da brevidade, 
da concisão, da objetividade. Precisamos deixar 
de escrever e de falar além da conta. Temos de 
ser menos chatos. 
Conta-se que George Washington fez o 
menor discurso de posse na Presidência dos 
Estados Unidos, com 133 palavras. William 
Harrison fez o maior, com 8.433, num dia frio 
e tempestuoso em Washington. Harrison 
morreu um mês depois, de uma gripe 
severíssima que contraiu naquela noite. Se não 
foi uma maldição, serve ao menos como 
advertência aos expositores que se alongam 
demais. 
 76 
Tenho duas sugestões na matéria. 
A primeira importa em cortar na 
própria carne. Petições de advogados devem 
ter um limite máximo de páginas. Pelo menos 
as idéias centrais e o pedido têm que caber em 
algo assim como 20 laudas. Se houver mais a 
ser dito, deve ser junto como anexo, e não no 
corpo principal da peça. Aliás, postulação que 
não possa ser formulada nesse número de 
páginas dificilmente será portadora de bom 
direito. 
Einstein gastou uma página para expor a 
teoria da relatividade. É a qualidade do 
argumento, e não o volume de palavras, que 
faz a diferença. 
A segunda sugestão corta em carne 
alheia. A leitura de votos extremamente 
longos, ainda quando possa trazer grande 
proveito intelectual para quem os ouve, torna 
os tribunais disfuncionais. Com o respeito e o 
apreço devidos e merecidos – e a declaração é 
sincera, e não retórica –, isso é especialmente 
verdadeiro em relação ao Supremo Tribunal 
Federal. 
Registro, para espantar qualquer 
intriga, que o tribunal, sob a Constituição de 
1988, vive um momento de virtuosa ascensão 
institucional, com sua composição marcada 
pela elevada qualificação técnica e pelo 
pluralismo. Todos os meus sentimentos, 
portanto, são bons, e o comentário tem 
natureza construtiva. 
O fato é que, nas sessões plenárias, 
muitas vezes o dia de trabalho é inteiramente 
consumido com a leitura de um único voto. E a 
pauta se acumula. E o pior: como qualquer 
neurocientista poderá confirmar, depois de 
certo tempo de exposição, os interlocutores 
perdem a capacidade de concentração e a 
leitura acaba sendo para si próprio. 
Não há problema em que a versão 
escrita do voto seja analítica. A complexidade 
das questões decididas pode exigir tal 
aprofundamento. Mas a leitura em sessão 
deveria resumir-se a 20 ou 30 minutos, com 
uma síntese dos principais argumentos. Ou, em 
linguagem futebolística, um compacto com os 
melhores momentos. 
A revolução da brevidade tornará o 
mundo jurídico mais interessante, e a vida de 
todos nós, muito melhor. 
Quem sabe um dia chegaremos à 
capacidade de síntese do aluno a quem a 
professora determinou que escrevesse uma 
redação sobre “religião, sexo e nobreza”, mas 
que fosse breve. Seguindo a orientação, o 
jovem produziu o seguinte primor de concisão: 
“Ai, meu Deus, como é bom, disse a princesa 
ainda ofegante”. 
 
(BARROSO, Luís Roberto. A revolução da brevidade. Folha 
de S. Paulo, 17 julho 2008, p. A3. Caderno Tendências e 
Debates) 
Quem é o autor do texto? Luís Roberto 
Barroso tem 50 anos é advogado, é professor 
titular de direito constitucional da Uerj 
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e 
autor de “O Controle de Constitucionalidade 
no Direito Brasileiro”, entre outras obras. Essa 
identificação gera credibilidade. 
A variante de linguagem utilizada que 
dá apoio aos argumentos é a gramatical. O 
mesmo artigo, se escrito numa variante não 
gramatical, poderia perdersua força 
persuasiva. Portanto, a primeira estratégia 
utilizada pelo autor, consciente ou 
inconscientemente, foi a escolha de uma 
variante de linguagem adequada a seus 
interlocutores e ao próprio assunto de que 
trata. 
O texto é contrário aos que entendem 
que o Direito se deve fazer com linguagem 
empolada e prolixa. As ideias do texto se 
opõem à ideologia de que a redação forense é 
para entendidos, juristas, pessoas dedicadas ao 
saber jurídico. Trata-se, pois, de ideias que 
tendem a tornar o direito mais compreensível 
ao cidadão comum, bem como a leitura do 
voto mais breve. 
O leitor pode notar já no primeiro 
parágrafo o gerenciamento da relação: “Toda 
área do conhecimento humano tem a sua 
beleza, as suas circunstâncias e as suas 
dificuldades.” 
 77 
Enumera em seguida dois problemas 
comuns nos meios jurídicos: a linguagem 
empolada e inacessível e os oradores ou 
escribas prolixos, que “consomem sem dó o 
tempo alheio”. Em seguida, novamente o autor 
do artigo gerencia a relação: “Verdade seja dita, 
no entanto, o primeiro problema vem sendo 
superado bravamente: as novas gerações já não 
falam nem escrevem com a obscuridade de 
antigamente.” 
Para defender seu ponto de vista sobre 
a necessidade da brevidade e sobre a 
dificuldade de linguagem dos textos jurídicos, 
faz imediatamente referência a “outra época”, 
em que falar difícil “era tido como expressão de 
sabedoria”. E o faz exemplificando, 
apresentando duas expressões (“outorga 
uxória” e “irresignação derradeira”) que eram 
utilizadas. E conclui o parágrafo: “Hoje em dia, 
quem se expressa assim é uma reminiscência 
jurássica.” 
A tese da necessidade de alterar a 
linguagem forense é paulatinamente defendida. 
Afirma: 
 
Nos dias atuais, a virtude está na capacidade de 
se comunicar com clareza e simplicidade, conquistando 
o maior número possível de interlocutores. A 
linguagem não deve ser um instrumento autoritário de 
poder, que afaste do debate quem não tenha a chave de 
acesso a um vocabulário desnecessariamente difícil. 
 
Para o autor do artigo a mudança de 
postura em relação à linguagem traz benefícios 
à sociedade, visto que “essa visão mais aberta e 
democrática do direito” amplia significamente a 
interlocução entre juristas, tribunais e os meios 
de comunicação. 
Os argumentos sucedem-se, agora 
endereçando-os para o combate à prolixidade: 
 
Pois agora que finalmente conseguimos nos 
comunicar com o mundo, depois de séculos falando 
para nós mesmos, está na hora de fazermos outra 
revolução: a da brevidade, da concisão, da objetividade. 
Precisamos deixar de escrever e de falar além da conta. 
Temos de ser menos chatos. 
 
Para ilustrar a defesa de sua tese, 
apresenta dois exemplos deoradores: George 
Washignton, que teria usado 133 palavras em 
seu discurso de posse na Presidência dos 
Estados Unidos, e de William Harrison, que 
teria feito um discurso com 8.433 palavras, 
num dia frio e tempestuoso em Washington: 
 
Harrison morreu um mês depois, de uma gripe 
severíssima que contraiu naquela noite. Se não foi uma 
maldição, serve ao menos como advertência aos 
expositores que se alongam demais. 
 
Apresenta em seguida sugestões para a 
prática nos tribunais: cortar na própria carne e 
cortar em carne alheia. Para a primeira 
sugestão, ilustra-a com uma referência a 
Einstein que teria gasto uma página para expor 
a teoria da relatividade: “ É a qualidade do 
argumento, e não o volume de palavras, que 
faz a diferença.” Para o argumento de cortar 
em carne alheia, vale-se da neurociência: 
“depois de certo tempo de exposição, os 
interlocutores perdem a capacidade de 
concentração e a leitura acaba sendo pra si 
próprio”. 
Como podemos verificar, a tese do 
autor vai progressivamente sendo elucidada. 
Finalmente, um argumento para tocar o 
leitor, porque o remete à própria vida: “A 
revolução da brevidade tornará o mundo 
jurídico mais interessante, e a vida de todos 
nós, muito melhor.” 
E para fechar o artigo, mantendo o tom 
bem-humorado do texto, conta a história do 
estudante que deveria escrever sobre religião, 
sexo e nobreza. 
Um texto argumentativo vale-se, 
portanto, de vários expedientes de 
argumentação, como referência a outras 
citações. No caso, Luís Roberto Barroso, 
advogado e professor titular de Direito 
Constitucional da Universidade Federal do Rio 
de Janeiro, para expor sua tese, ilustra-a com 
exemplos da história e uma anedota. A 
constituição de um ponto de vista (essência da 
argumentação) resulta da observação criteriosa 
da realidade, de leituras, da capacidade de 
compreensão dos fatos do dia a dia. 
 
 78 
3.3.1 Recursos e falácias da argumentação 
 
 Com base no que já foi visto, pode-se 
reafirmar que a argumentação é um conjunto 
de recursos de natureza linguística destinados a 
persuadir a pessoa a quem a comunicação se 
destina. A argumentação está presente em todo 
tipo de texto e visa a promover adesão à tese e 
pontos de vista defendidos no texto. Os 
recursos argumentativos são inúmeros. Fiorin e 
Savioli (1990) comentam alguns desses 
recursos. 
 
Argumento de autoridade: é a citação , no texto, de autores reconhecidos como autoridade 
em certo domínio do saber. Esse recurso produz efeitos distintos: revela o conhecimento do 
produtor do texto a respeito do assunto tratado; dá ao texto a garantia do autor citado. É preciso, 
no entanto, não fazer do texto um amontoado de citações. A citação precisa ser pertinente e 
verdadeira. 
 
Argumento baseado no consenso: são aquelas afirmações que, numa determinada época, são 
aceitas como verdadeiras e que, portanto, dispensam comprovações, a menos que o objetivo o 
texto que está sendo elaborado seja comprovar alguma delas. Em nossa época, são consensuais as 
afirmações de que o meio ambiente precisa ser protegido e de que as condições de vida são piores 
nos países subdesenvolvidos. Não se pode, no entanto, deixar de notar que, nesse tipo de 
argumento, corre-se o risco de passar dos argumentos válidos para os lugares-comuns e as frases 
carentes de qualquer base científica. 
 
Argumento por meio de provas concretas: é aquele em que se comprova a veracidade de 
uma afirmação como dados estatísticos, com fatos históricos, com experiências da vida cotidiana. 
 
Argumento com base nas relações lógicas: é a utilização correta e adequada das relações 
como causa e efeito, analogia, implicação, identidade etc. Um texto coerente do ponto de vista 
lógico é mais facilmente aceito do que um texto incoerente. 
 
Vários são os defeitos que concorrem para 
desqualificar o texto do ponto de vista lógico: 
fugir do tema proposto, cair em contradição, 
tirar conclusões que não se fundamentam nos 
dados apresentados, ilustrar afirmações gerais 
com fatos inadequados, narrar um fato e dele 
extrair generalizações. 
 
Uso de norma linguística culta: a utilização da variante culta e formal da língua (em geral, é o 
texto dissertativo que exige esse tipo de linguagem) mostra que o produtor do texto conhece a 
norma linguística socialmente mais valorizada e, por conseguinte, deve produzir um texto em que 
se pode confiar. Nesse sentido, é que se diz que o modo de dizer dá confiabilidade ao que se diz. 
 
Os recursos argumentativos são 
indefinidos. Vão dos modos de citação do 
discurso alheio (discurso direto, indireto e 
indireto livre) aos recursos retóricos (metáfora, 
hipérbole, ironia etc), da seleção de palavras 
adequadas, às informações implícitas. 
Além dos defeitos de argumentação 
mencionados, quando tratamos dos recursos 
argumentativos, vamos citar algumas falácias. 
 
Uso sem delimitação adequada de palavras de sentido tão amplo: servem de argumento 
para um ponto de vista e seu contrário. São noções confusas, como “paz”, que hoje está na boca 
dos norte-americanose de seus inimigos, os iraquianos. Essas palavras podem ter valor positivo 
(paz, justiça, honestidade, democracia) ou vir carregada de valor negativo (autoritarismo, 
depredação do meio ambiente, injustiça, corrupção). 
 
Uso de afirmações tão amplas: podem ser derrubadas por um único contra-exemplo. Quando 
se diz “Os políticos são ladrões”, basta um único exemplo de político honesto para destruir o 
argumento. 
 79 
Emprego de noções científicas sem nenhum rigor: é o uso de termos fora do contexto 
adequado, sem o significado apropriado, vulgarizando-os e atribuindo-lhes uma significação 
subjetiva e grosseria. É o caso da frase “O imperialismo de certas indústrias não permitem que 
outras cresçam”, me que o termo “imperialismo” é descabido, uma vez que essa palavra, a rigor, 
significa “ação de um Estado visando a reduzir outros à sua dependência política e econômica” ou 
“estágio superior do capitalismo”. 
 
A boa argumentação é aquela que está 
de acordo com a situação concreta do texto, 
que leva em consideração os componentes 
envolvidos na discussão (o tipo de pessoa a 
quem se dirige a comunicação, o assunto etc). 
Convém alertar que não se convence ninguém 
com manifestações de sinceridade do autor 
(como “Eu, que não costumo mentir”...) ou 
com declarações de certeza expressas em 
fórmulas feitas (como “estou certo”, “creio 
firmemente”, “é claro”, “é óbvio”, “é evidente”, 
“afirmo com toda a certeza” etc) 
O autor não promete, em seu texto, 
sinceridade e certeza, autenticidade e verdade; 
ele constrói um texto que revela isso. Essas 
qualidades não se prometem, age-se com 
sinceridade e com certeza. A argumentação é a 
exploração de recursos para fazer parecer 
verdadeiro aquilo que se diz num texto e, com 
isso, levar a pessoa a quem o texto é 
endereçado a crer naquilo que ele diz. 
 
3.3.2 Textos e atividades 
 
1) Para cada grupo de palavras formule uma tese, dois argumentos e uma conclusão. 
 
a) Juventude e mercado de trabalho 
b) Empresas e meio ambiente 
c) Sociedade e crimes pela Internet 
d) Consumo de bebidas alcoólicas e direção 
e) Exclusão social e acesso à cultura 
 
Considere o fragmento abaixo para as questões 02 e 03. 
 
“Um dos mais respeitados colégios particulares 
da cidade de São Paulo está fechando suas 
portas por causa da briga crônica entre pais de 
alunos e donos de escolas em torno das 
mensalidades escolares”. (Veja, 27/9/89, p. 114). 
 
2) Assinale a alternativa que contém uma conseqüência do fato relatado: 
 
a) A interferência do governo na fixação dos índices de reajuste das mensalidades escolares é 
conseqüência do lobby bem-sucedido dos proprietários de escolas privadas junto ao MEC. 
b) Dois meses depois que o governo federal liberou os preços das mensalidades escolares, a Justiça de 
São Paulo decidiu que os reajustes voltam a ser controlados, não podendo exceder os índices mensais 
de inflação. 
c) O triste desfecho desse fato é emblemático da situação da educação brasileira. 
d) Duas escolas se prontificaram a admitir os alunos da escola extinta. Uma delas está contratando boa 
parte de seu corpo docente. 
e) O Sindicato dos Professores de São Paulo realizou um levantamento segundo o qual esta é a escola 
que melhor remunera os professores. 
 
 
 80 
3) Assinale o trecho que constitui uma premissa do fato relatado: 
 
a) As escolas que pagam salários baixos a seus professores e funcionários são as que mais dão lucros. 
b) O ensino privado custa caro e tende a ficar mais caro com as necessidades tecnológicas impostas a 
cada dia pela moderna educação. 
c) No vácuo criado pela ausência do Estado no ensino secundário proliferaram as escolas privadas. 
d) Para manter a qualidade do ensino requerida pela sociedade, as escolas privadas estão 
incrementando convênios com empresas e indústrias. 
e) Como decorrência do crescimento populacional urbano, existe hoje, nas grandes metrópoles, um 
grande déficit de salas de aula. 
 
4) Indique o único item que serve como argumento favorável à defesa da legalização da 
pena de morte no Brasil: 
 
a) A incapacidade de um ser humano julgar o outro com isenção de ânimo. 
b) O sensacionalismo da mídia ao expor o sentimento dos familiares e amigos do réu diante da 
consumação da pena. 
c) A irreparabilidade do erro judiciário. 
d) Os estados americanos que legalizaram a pena de morte apresentam um recrudescimento no 
número de crimes violentos. 
e) O sistema carcerário encontra-se privado das condições necessárias capazes de promover a 
reabilitação para a plena convivência social. 
 
5) Indique o único segmento que serve como argumento contrário à defesa da 
manutenção do ensino superior gratuito no Brasil: 
 
a) A Europa Ocidental considera investimento a formação de quadros de nível superior. 
b) Há um princípio de justiça social, segundo o qual o pagamento por bens e serviços deve se fazer 
desigualmente, conforme as desigualdades de ganho. 
c) Nos EUA, a maior parte do orçamento das melhores universidades é composta por doações, 
convênios com empresas ou órgãos federais, fundos privados, cursos de atualização profissional. 
d) Nos EUA, o montante arrecadado pelas universidades de seus estudantes, a título de taxas escolares, 
não chega ao percentual de 20% de seu orçamento global. 
e) No Brasil, país com renda per capita de aproximadamente US$ 2 mil, uma taxa escolar de US$ 13 
mil/ano por aluno, conforme estimativa do Banco Mundial, é quantia astronômica. 
 
6) Comente a estratégia do eu lírico para seduzir sua amada no poema, a seguir, de 
Gregório de Matos. 
 
Pintura admirável de uma beleza 
 
Vês esse Sol de luzes coroado? 
Em pérolas a Aurora convertida? 
Vês a Lua de estrelas guarnecida? 
Vês o Céu de Planetas adorado? 
 
O Céu deixemos; vês naquele prado 
A Rosa com razão desvanecida? 
A Açucena por alva presumida? 
O Cravo por galã lisonjeado? 
Deixa o prado; vem cá, minha adorada, 
Vês de esse mar a esfera cristalina 
Em sucessivo aljôfar desatada? 
 
Parece aos olhos ser de prata fina? 
Vês tudo isto bem? pois tudo é nada 
À vista do teu rosto, Caterina. 
 81 
7) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. 
 
Velocidade máxima 
 
Você está cansado de saber que hoje em 
dia não basta ter conhecimento: é preciso ser 
rápido. Rápido na tomada de decisões, no trato 
da informação, na geração de novas idéias (e na 
sua transformação em novos centros de 
receita), no desenvolvimento da própria 
carreira. Tornou-se imprescindível pensar 
rápido, agir rápido, ter um computador 
supersônico. No mundo dos negócios, não 
existe um código nacional de trânsito que 
limite a velocidade dos executivos. Se 
houvesse, recomendaria: corra. Multa, só para 
os lentos. 
Os devagar-quase-parando não se 
estressam para assumir um posto de comando. 
Sua motivação não está em conquistar prêmios 
ou um bônus mais polpudo. Não fazem hora 
extra e, se puderem escapar de uma reunião, 
tanto melhor. Estão em dia com seus 
batimentos cardíacos e seus níveis de 
colesterol. Dormem 8 horas por noite; não 
têm insônia. Passam os fins de semana na praia 
com o celular desligado. Encontram tempo 
para ver os filhos e os filmes em cartaz. Estão 
em casa na hora do Jornal Nacional. 
Profissionais de Neandertal. 
Voltar à caverna, no entanto, está sendo 
considerado uma atitude moderna. Ao menos é 
o que prega há anos o sociólogo napolitano 
Domenico De Masi, que viaja pelo mundo 
dando palestras que enaltecem as virtudes do 
ócio criativo. De Masi acredita que trabalhar 10 
horas por dia aniquila a criatividade e que todos 
deveriam cortar pela metade sua carga horária, 
aproveitando o resto do tempo para fazer 
qualquer coisa longe das tarefas cotidianas do 
escritório. Vale bungee jump, vale meditação, 
vale ouvir Beatles. 
Há quem pense que essa desaceleraçãoé zen-budista demais para quem tem metas 
concretas como comprar e vender ações na 
Bolsa de Nova York ou virar presidente de 
empresa antes dos 40 anos. Mas não há como 
negar que a inteligência e a cultura são, cada 
vez mais, os combustíveis que geram novos 
negócios e determinam a própria ascensão de 
um profissional. E nenhum dos fatores precisa 
do horário comercial para ser ativado. Podem 
estar em combustão durante um mergulho no 
mar, durante a leitura de um poema, durante 
uma cavalgada ecológica, talvez até durante o 
sexo. Durante é exagero. Depois do sexo. 
O escritor português José Saramago 
certa vez escreveu: “Não ter pressa não é 
incompatível com não perder tempo”. O 
conceito de velocidade anda cada vez mais 
flexível. Para alguns, ser ligeiro significa 
ultrapassar os ponteiros do relógio, executar 
um projeto a cada minuto, agendar reuniões, 
ler apenas livros técnicos, só fazer contatos que 
sejam política ou economicamente rentáveis e 
sentir uma culpa tremenda nos coffee breaks, 
como se parar fosse sinônimo de regredir. 
Já para o neo-Neandertal, que prefere 
Saramago a Philip Kotler, e Marguerite Duras a 
Tom Peters, manter um ritmo comedido pode 
realmente fazer o trabalho render mais. São 
pessoas que não têm pressa de subir pelo 
elevador, por exemplo. Preferem subir pela 
escada, exercitando as pernas e a imaginação, 
ou jogando conversa fora com um 
desconhecido. Não têm a pressa de apresentar 
pareceres e pontos de vista em 60 segundos. 
Ao contrário, dedicam seu tempo a escutar os 
pontos de vista alheios. Não têm a pressa de 
engolir um sanduíche em pé no escritório; 
reservam um tempo para fazer da gastronomia 
um hobby. Sem pressa, eles não pegam atalhos: 
procuram caminhos com paisagem e assim não 
sofrem com taquicardias e infartos. O estresse 
envelhece antes da hora. Inclusive as idéias. 
O mundo se apresenta hoje como uma 
auto-estrada alemã, livre de radares 
patrulhando a velocidade, onde quem tem mais 
potência e tecnologia pisa mais fundo, sem 
olhar para os lados. Você há de concordar que 
é tenso. Tirando levemente o pé do acelerador, 
o coração acalma e os olhos percebem melhor 
o que há nas laterais da pista. Pode-se trocar de 
música, ajeitar o retrovisor, prestar atenção no 
 82 
que diz o companheiro de viagem. Ou parar e 
provar uma fruta na beira da estrada. Faz-se 
tudo correndo muito menos risco de sofrer 
acidentes e chegando ao destino do mesmo 
jeito. Na moda, costuma-se dizer que “menos é 
mais”. Não é uma frase que se aplique 
literalmente ao mundo dos negócios. Mas sou 
obrigada a concordar tanto com De Masi 
quanto com Saramago: a velocidade máxima 
permitida para vencer é aquela que não nos 
deixa esquecer que, além da estrada, existe um 
troço chamado vida, sem a qual não faz o 
menor sentido chegar lá. 
 
(MEDEIROS, Martha. Exame, 15 dez. 1999). 
 
 
a) Antes de redigir seu texto, a autora certamente organizou suas idéias a fim de construir um texto 
coeso e coerente. Podemos observar essa organização se nos detivermos em cada parágrafo e 
extrairmos a idéia desenvolvida em cada um. Releia o texto e grife a idéia principal de cada parágrafo. 
Mostre como foi feita a articulação dos parágrafos. 
b) Em que parágrafo a autora começa a expor realmente seu ponto de vista? O que ela nos apresenta 
antes disso? 
c) Na construção de seu texto, a autora cita dois intelectuais: Domenico De Mais de José Saramago. 
Qual a importância dessas citações para a organização argumentativo do texto? 
d) Dificilmente um texto é construído a partir de uma única voz. É muito comum encontrarmos, no 
meio de um discurso, o discurso de outrem. Neste texto, percebemos que há, pelo menos, quatro 
vozes. Identifique-as. 
e) Dê sua opinião sobre o que você leu, elaborando um parágrafo dissertativo completo 
 
 
 
8) Leia, com atenção, o anúncio publicitário a seguir para responder ao que se pede. 
 
 
(Veja, 21 dez. 2005, p. 106-107) 
 
 
a) Que recurso o anunciante utilizou para comprovar que seu produto é realmente bom? Justifique. 
b) Explique o trocadilho feito por meio da palavra “padrão”. 
c) Como compreender o processo metalinguístico instaurado nessa publicidade? Que efeitos ele pode 
gerar no leitor? 
d) A que conclusões você chega acerca da linguagem persuasiva da publicidade? 
 
 
 83 
Capítulo 4 
 
4 Prática de textos 
 
4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades 
 
Nesta seção, você estudará diversos 
textos sobre fatos do cotidiano e sobre questões 
atuais. No Capítulo 3, você estudou a estrutura 
da argumentação, os recursos argumentativos 
mais recorrentes e algumas falácias. A partir de 
agora você destinará sua atenção apenas à 
leitura e à produção de artigo de opinião, gênero 
textual escolhido para essa seção. Espera-se que 
você aprimore suas habilidades e competências 
na elaboração e organização de suas opiniões e 
juízos de valor acerca dos acontecimentos aos 
quais estamos expostos. 
 
4.1.1 Artigo de opinião 
 
 Opiniões não se restringem à fala; elas 
também podem ser dadas por escrito. Jornais, 
revistas, blogs publicam artigos de opinião, 
editoriais, cartas dos leitores, entre outros 
textos de natureza opinativa. Ao escrever um 
artigo de opinião, o articulista parte de uma 
questão polêmica de relevância social, criada 
em torno de um fato que foi notícia – sem essa 
questão polêmica não existe artigo de opinião. 
A questão gera discussões porque há pontos de 
vista opostos sobre o assunto. Por isso, o 
articulista, ao escrever, assume uma posição, 
defende-as com argumentos e dialoga com 
diferentes pontos de vista que circulam sobre a 
polêmica. 
 Os artigos de opinião são importantes 
instrumentos para a formação do cidadão. 
Aprender a ler e a escrever esse gênero 
contribui para desenvolver a capacidade de 
participar, com argumentos convincentes, das 
discussões sobre questões do lugar onde se vive 
e, mais do que isso, de formar opinião sobre 
elas, colaborar para resolvê-las, praticar a 
cidadania. 
 
4.1.2 Textos e atividades 
 
1) Há uma fórmula desejada para a produção de artigos de opinião: introdução (ideia 
principal), desenvolvimento (argumentos) e conclusão (confirmação da ideia principal 
e sugestões). Outros fatores também interferem na produção desse gênero textual, 
listados abaixo. Com base neles, analise os textos a seguir. 
 
 
 
1. O autor se baseia numa questão polêmica para elaborar seu texto. 
2. O autor informou a origem dessa questão. 
3. O autor tomou uma posição. 
4. O autor considerou pontos de vista de opositores para construir argumentos. 
5. O autor usa elementos de coesão para garantir a progressão e articulação das ideias. 
6. O autor usa argumentos de autoridade, de exemplificação, de provas, de princípio / crença 
pessoal, causa e conseqüência. 
7. O autor conclui o texto reforçando sua posição. 
8. O autor elaborou o texto com legibilidade e com paragrafação adequada. 
9. O autor usou um registro de linguagem adequado e ortografia correta. 
10. O autor elaborou um título criativo e chamativo. 
 
 84 
Texto 1: A bola da vez 
 
Pode-se concordar ou não com a 
iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 
ao lado da Turquia, de participar diretamente dos 
esforços em busca de uma solução para a séria 
crise gerada pelo programa nuclear do Irã. 
Dependendo do analista, a atitude foi 
considerada ingênua, precipitada ou ousada. 
Não há, porém, como negar que a 
governança mundial precisa de novas estruturas e 
novas lideranças. Uma frase de Lula diz muito a 
respeito dessa questão: “O mundo já não é o 
mesmo do tempo em que as decisões eram 
tomadas por Churchill, Stálin e Roosevelt”. 
De fato, o sistema de governança 
mundial montado no pós-guerra, que, aliás, teve 
extraordinária eficiência na Europa e na Ásia, é 
mantido até hoje,como se as forças políticas e 
econômicas não tivessem mudado nos últimos 65 
anos. Alemanha e Japão, que perderam a guerra e 
foram beneficiados pelos planos de reconstrução, 
transformaram-se em potências econômicas, mas 
continuam fora do Conselho de Segurança da 
Organização das Nações Unidas, ainda hoje 
dominado pelos cinco grandes países vencedores 
da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, 
China, Reino Unido, França e Rússia. 
Os quatro grandes emergentes, 
conhecidos como Brics, responderam por metade 
do crescimento global de 2000 a 2008 e, segundo 
as previsões, serão responsáveis por dois terços 
da expansão de produção esperada para os 
próximos cinco anos. Apesar disso, dois dos 
quatro Brics –Brasil e Índia – não têm voz nem 
voto proporcionais ao seu tamanho e importância 
nos dias de hoje. 
Os organismos de governança na área 
financeira, como o FMI e o Banco Mundial, 
também criados no pós-guerra, são impotentes 
para enfrentar as crises dos tempos de 
globalização. Só para ter uma ideia, o BNDES 
brasileiro empresta hoje mais recursos do que o 
Banco Mundial. Na crise americana de 2008 e na 
atual da Europa, o FMI teve participação 
secundária, por falta de influência e recursos 
financeiros. 
Na área social, a ineficiência da 
governança mundial é literalmente dramática. 
Milhões de pessoas passam fome diariamente em 
países pobres, principalmente na África, sem que 
a FAO, organização da ONU que cuida de 
agricultura e alimentação, tenha condição de 
fazer alguma coisa para distribuir os excessos de 
produção de alimentos que existem pelo mundo. 
Em vários outros setores, há fragilidade 
dos organismos multilaterais. A OMC 
(Organização Mundial do Comércio) impõe 
sanções contra países que desrespeitam as regras 
do livre comércio, mas essas punições não são 
cumpridas e continua tudo do mesmo jeito. As 
negociações na área ambiental são um fiasco, e 
grandes países simplesmente ignoram a vontade 
da maioria sobre um problema que tem potencial 
para levar à destruição do planeta. 
Imigrantes em busca de oportunidades de 
emprego são discriminados e maltratados sem 
que nenhum organismo internacional cuide de 
exigir que pelo menos sejam respeitados como 
seres humanos. 
Há, portanto, importantes tarefas a 
serem cumpridas pela nova comunidade 
internacional do século 21, como o combate à 
fome, a manutenção do livre mercado, a abertura 
comercial, a batalha contra o aquecimento 
global, a contenção das armas nucleares e o 
enfrentamento do terrorismo. Essas tarefas não 
podem ser assumidas apenas por meia dúzia de 
nações, como se faz desde 1945. 
O mundo claramente está a demandar 
uma administração mais moderna, eficiente e 
representativa das atuais forças políticas e 
econômicas. A comunidade internacional não é 
mais constituída pela voz dos EUA e da Europa. 
As crises financeiras que atingiram ambos 
deixaram isso muito claro. 
Os críticos de Lula o chamaram de 
ingênuo. Alguns o acusaram de ter agido em 
nome dos Estados Unidos. Pode ser que exista 
um pouco de ingenuidade na atitude do 
presidente. Não há dúvida, porém, de que o 
Brasil tem o direito de reivindicar um novo papel 
internacional, adequado à sua condição de 
potência emergente. 
 
(STEINBRUCH, Benjamin. A bola da vez. Folha de S. Paulo, 
1º junho 2010, p.B10. Caderno Mercado) 
 
 85 
Texto 2 – A loira do banheiro 
 
Dia desses fiquei mais bravo do que 
cachorro de japonês com uma loira de cabelos 
sebosos em um shopping aqui de São Paulo. 
Funcionária de uma loja, ela se viu no 
direito de usar o único banheiro acessível do 
andar com a justificativa de que "tinha pouco 
tempo de almoço" e ali não tinha fila. E mais, 
segundo ela, "não há lei" que a proíba de 
retocar a maquiagem no espaço reservado para 
deficientes e pessoas com mobilidade reduzida. 
Reconheço que o banheiro acessível -
aquele com o símbolo de uma cadeira de rodas 
na porta- disponha de vantagens que convidam 
para o uso os mortais comuns: é ligeiramente 
maior, tem aquelas barras de apoio, sem falar 
que é difícil faltar papel higiênico, uma vez que 
muita gente usa o local inadequadamente como 
depósito. 
Acontece que essas "vantagens" 
estruturais têm razões práticas. O espaço mais 
generoso é porque não rola deixar a cadeira de 
rodas na porta, levantar e usar o WC. 
Tem que entrar com quatro rodas 
mesmo. Para os cegos que arrastam cão-guia, 
também é preciso maior metragem, ou alguém 
consegue imaginar um cachorro naqueles 
cubículos junto com o dono? As barras de apoio 
servem para ajudar que os desequilibrados, 
como eu, consigam se transferir da cadeira e se 
manter firmes no trono. 
Mas, voltando à loira do banheiro, tudo 
aconteceu quando eu esperava para usar a 
casinha, que ficou ocupada por cerca de 15 
minutos por uma morena, também funcionária 
do shopping. Quando ela me viu na porta, 
batendo palmas, quis se transformar no 
Belchior e sumir. Ela me pediu desculpas, e 
bola para a frente. Antes disso, chegou a loira, 
ignorou a entrada do banheiro feminino e ficou 
do meu lado, esperando vaga no acessível. 
“Moça, esse banheiro é reservado”, quis 
eu alertar. “Eu sei, mas a lei obriga que haja o 
espaço acessível, e não que ele seja exclusivo 
para vocês”, declarou a rábula com desdém. 
Naquele momento, como diz um amigo meu 
chamado Wadê, “eu pirei”. Era só o que falta, 
ter de criar leis para que as pessoas sejam 
cidadãs, tenham bom senso, ajam com o 
mínimo de dignidade com o outro. 
Existe uma lógica de os deficientes 
defenderem o uso exclusivo do banheiro 
acessível. Imagine você, depois daquela coxinha 
criminosa devorada no pé-sujo da esquina, 
procurando desesperadamente um lugar para se 
livrar do pesadelo. Para os "normais", um 
banheiro público oferece diversas opções de 
relaxamento com mais ou menos coliformes, 
mas oferece. Para cadeirantes, quando existe 
UM, já é um alívio, literalmente. Agora, se 
esse UM estiver ocupado por quem poderia 
usar outra casinha, é de chorar de tanga no 
meio da rua. 
O banheiro exclusivo também é 
importante por uma razão de saúde. Pessoas 
que tiveram lesão medular -devido a um 
acidente, por exemplo- ficam mais suscetíveis a 
contrair infecções urinárias. Num ambiente 
com menos uso, o risco de contaminação pode 
ser menor. Sem falar dos cegos que, por 
motivos óbvios, se expõem menos num 
banheiro menos frequentado. 
Entendo que não é preciso lei que 
regule o respeito às diferenças. Um bocadinho 
de informação e um pouco mais de 
compreensão talvez acabassem de vez com as 
assombrações e indignações por causa de 
banheiros. 
 
(MARQUES, Jairo. A loira do banheiro. Folha de S. Paulo, 6 
julho 2010, p. C2. Caderno Cotidiano) 
 
 
 
 
 
 
 86 
Texto 3 – Terrorismo é vaidade 
 
Certo dia visitei o "museu do terrorismo" 
do Centro de Informações Meir Amit, em Israel. 
Aconselho. 
O "museu" não será propriamente um 
Louvre ou um Metropolitan. Mas permite 
contemplar, em vitrines legendadas, o tipo de 
material que os militares israelenses confiscam em 
seus "raids" contra grupos terroristas. Foguetes, 
sim. Metralhadoras, também. E bazucas. E bombas 
artesanais. 
Mas o melhor do passeio está no material 
"didático" (digamos assim) que os "mártires" 
deixam ficar para os vivos. 
No Ocidente, as nossas crianças 
colecionam figurinhas colantes de jogadores de 
futebol, atores, cantores. No estranho mundo do 
terrorismo suicida, crianças de igual idade levam 
para a escola álbuns coloridos com imagens dos que 
morreram pela causa. 
Existem sinistras semelhanças entre esses 
"mártires" e as nossas celebridades. Todos são 
jovens. Todos assumem uma pose blasé. No caso 
dos "mártires", a pose é refinada por uma AK-47 
empunhada com orgulho. 
É também possível admirar pôsteres de 
tamanho generoso onde estão reunidosos melhores 
atentados terroristas e, claro, os seus brilhantes 
autores. Uma espécie de "best of" a exigir 
adoração. E imitação. 
Não dá para acreditar? Pois não, leitor, não 
dá. Eu próprio falei com alguns nativos (palestinos 
inclusos) e confessei pasmo e horror. 
Inútil tanto pasmo e horror. Faz parte do 
negócio, disseram-me: antes do grande dia 
(tradução: antes do massacre indiscriminado de 
civis em restaurantes ou discotecas), o "mártir" tira 
fotos e grava vídeos. Só não concede autógrafos 
porque o inimigo sionista está atento e convém não 
abusar. 
Curiosamente, essa cultura de morte e de 
celebração da morte está bem retratada no filme 
(palestino) do diretor (palestino) Hany Abu-Assad. 
Chama-se "Paradise Now". Também aconselho. 
E aconselho mais: prudência. Os ataques 
de 11 de Setembro inauguraram uma indústria 
profícua: a indústria da sabedoria islamita 
instantânea. Livros, artigos, conferências -não 
faltam especialistas de todas as cores ou feitios 
dispostos a explicar a mente terrorista. A explicar e 
a desculpar. 
O terrorismo existe porque a pobreza 
existe. O terrorismo existe porque os Estados 
Unidos existem. O terrorismo existe porque Israel 
existe. O terrorismo existe porque a religião 
existe. O terrorismo existe porque a alienação 
social existe. O terrorismo existe porque a doença 
mental existe. 
Ausente de tanta sabedoria está uma 
hipótese mais banal e mais humana: o terrorismo 
existe porque a vaidade existe. E o terrorista 
participa no ritual da morte porque encontra nesse 
ritual uma consagração pop que o redime de todos 
os fracassos passados e terrenos. São os seus 15 
minutos de fama. É a sociedade do espetáculo 
levada até às últimas consequências. 
E Osama bin Laden sabia disso. Tudo foi 
escrito sobre a morte de Osama. Mas o melhor 
dessa morte foi revelado agora pelos Estados 
Unidos: vídeos caseiros confiscados durante o 
ataque. E com Bin Laden no papel principal. 
É ver para crer: o mais famoso terrorista 
do mundo em sua casa, com barba grisalha e feições 
envelhecidas; mas olhando ainda com orgulho para 
imagens televisivas das suas atrocidades. 
Há algo de infantil nos vídeos caseiros de 
Bin Laden; há algo de obscenamente pueril na 
forma como aquele homem contempla, 
envaidecido, os produtos do seu próprio horror; há 
algo de fascinante e repugnante na forma como ele 
sorri interiormente sempre que o seu nome é 
proferido pelos jornalistas. 
Sem falar da versão construída para 
consumo midiático: sabemos também, por meio 
dos vídeos, que aquele velho pintava de preto a 
barba e o cabelo para lançar as suas diatribes 
retóricas contra o Ocidente; sabemos que ensaiava 
os discursos, que se enganava, que recomeçava. E 
que finalmente acertava, na pose e no tom. As 
televisões só emitiam o "take" perfeito. 
Nesses momentos, imagino Osama 
gritando da sala: "Meninos, venham ver o vosso pai 
na TV!". Imagino a família Bin Laden, reunida em 
frente à telinha, como se Osama fosse um mero 
concorrente do Big Brother. Imagino a sra. Bin 
Laden, orgulhosa do seu homem, e sussurrando-lhe 
ao ouvido com entusiasmo adolescente: 
"Osaminho, você continua sendo a minha estrela 
de cinema favorita". 
 
(COUTINHO, João Pereira. Terrorismo é vaidade. Folha de 
S. Paulo, 10 maio 2011, p. E8. Caderno Ilustrada) 
 
 87 
Texto 4 – Jovens 
 
Chego ao caixa do supermercado, onde 
estão a mulher de unhas cor-de-rosa e o senhor 
de Rider, e nos olhamos de esguelha -nossas 
pupilas nem se cruzam, trata-se apenas daquela 
checada rápida, com o canto do olho, herança 
das savanas, talvez, quando tínhamos que 
avaliar, num átimo, se havia algum leão à 
espreita. 
Não há: nenhum de nós é skin- head, 
bêbado ou aparenta levar uma machadinha 
escondida embaixo do casaco, de modo que a 
paz logo se instaura no microcosmo do nosso 
caixa; a mulher diz que sim, quer Nota Fiscal 
Paulista, não, não tem o cartão do 
supermercado e, após breve hesitação, decide 
pagar no crédito; o senhor começa a colocar 
sobre a esteirinha rolante suas compras de 
homem solitário, uma pizza congelada, dois 
limões, três latas de cerveja; eu batuco, 
despreocupado, na grade do carrinho. 
É aí que ouvimos as risadas. 
Várias, estridentes. Os mesmos genes 
responsáveis pela esguelha preventiva nos 
acionam o alerta laranja: "atenção, barulho, 
perigo!" e fazem com que viremos na direção 
da algazarra. São três meninos e duas meninas, 
entre 16 e 18 anos. Empurram um carrinho 
com cervejas, uma vodca e um pacote de 
Doritos. "Ai, cala a boca, Amanda!", diz um 
deles, bem alto, e logo recebe, da menina, um 
soco no braço. Riem muito. 
Nós, a turma dos veteranos da fila, 
damos as costas aos garotos e, pela primeira 
vez, nos olhamos nos olhos. É um pacto 
silencioso, que diz: a paz foi perturbada, não 
estamos de acordo com este comportamento, 
somos contra jovens que chegam rindo, 
dizendo "Ai, cala a boca, Amanda" e trocando 
soquinhos, no supermercado. 
Eles param atrás da gente, com uma 
extroversão que é diretamente proporcional ao 
nosso incômodo. A mulher de unhas rosa 
espera a máquina emitir seu recibo, tensa, o 
senhor limpa a garganta, mandando para dentro 
o pigarro e para fora seu sinal de desaprovação, 
eu pego uma barra de cereais e finjo a mim 
mesmo um grande interesse pela tabela 
nutricional - e é entre kcals e fibras alimentares 
que a razão do meu desconforto vai se 
revelando. 
Faz muito pouco tempo, eu estava ali 
atrás, falando alto, desdenhando dos adultos, 
com plena consciência de que o mundo é um 
palco e todos os papéis são cômicos. Agora, 
estou do lado do Rider, das unhas cor-de-rosa, 
do "cada coisa em seu lugar" e "a liberdade de 
um vai até onde começa a...". 
Não, não tenho a menor saudade da 
adolescência. Sete anos sem saber se punha as 
mãos nos bolsos ou pra fora das calças, a 
obrigação de estudar química às sete e quinze 
da manhã, a certeza absoluta de que iria morrer 
virgem, puro e besta - cruz-credo. 
O lado de cá é bem mais confortável, e 
é justamente esse conforto que os garotos 
ameaçam, de maneira tão ingênua e eficaz, 
inserindo risadas, extroversão e agressividade 
onde deveria haver apenas "boa noite", "Nota 
Fiscal Paulista?", "débito ou crédito?". 
Enquanto entrega o cartão à moça do 
caixa, posso ouvir o senhor ruminando: 
"absurdo! Se cada um fizesse o que tem 
vontade, na hora que tem vontade, o que seria 
do mundo?" 
O que seria do mundo? E de nossas 
vidas? Eis as perguntas que não ousamos nos 
fazer, e que os moleques nos esfregam na fuça, 
com suas risadas. 
 
(PRATA, Antonio. Jovens. Folha de S. Paulo, 16 março 2011, 
p. C2. Caderno Cotidiano) 
 
 
 
 
 
 88 
Texto 5 – Grandes e pequenos desejos 
 
Os adolescentes de hoje me parecem 
desejar de maneira tímida. Como já escrevi, 
surpreende-me que eles desejem pequeno. 
De fato, poderia estender essa 
constatação aos adultos de hoje. Não que eles 
deixem de desejar (isso só acontece em raras 
depressões graves), mas há, aparentemente, uma 
preferência contemporânea generalizada pelos 
desejos pequenos. Cuidado: um desejo não é 
pequeno porque seu objeto seria pouco 
relevante. 
Tomemos, por exemplo, "Maria está a 
fim de cerejas" e "Antônia quer o fim de todas as 
guerras". Será que o desejo de Antônia é grande 
e o de Maria pequeno? Nada disso. 
Melhor nunca comparar desejos por sua 
suposta "nobreza" - até porque essa tal "nobreza" 
pode esconder motivações bem mais torpes do 
que uma saudável vontade de cerejas. Então, 
como diferenciar desejos grandes e pequenos? 
Pois bem, há desejos fluidos, suscetíveis 
de infinitos deslizamentos, como se, de alguma 
forma, o objeto desejado fosse indiferente. Esses 
são desejos pequenos. 
Por exemplo, estou a fim de uma calça 
nova. Entro na loja e o tamanho 39 está em falta.Olho ao redor de mim e acabo comprando duas 
camisas que não têm nada a ver com a calça que 
eu desejava. 
Quero rever "Cisne Negro", mas a sessão 
está lotada; nenhum drama, compro ingresso 
para "Bruna Surfistinha" (incidentemente: me dei 
bem, amei o filme). Também posso querer o fim 
de todas as guerras e, ao ver na TV uma ação do 
Greenpeace, decidir que de agora em diante só 
me importa o destino das baleias. Nesse caso, por 
se revelar facilmente substituível, o fim de todas 
as guerras é um desejo pequeno. 
Há um outro tipo de desejo, mais 
incômodo, que não admite a substituição. Quero 
circum-navegar a Terra de veleiro, quero vingar 
meu pai, quero produzir uma obra, construir um 
império, rezar em silêncio no deserto, comer 
cerejas a cada dia: se eles forem insubstituíveis, 
se sua insistência moldar nossa vida, esses desejos 
são grandes porque eles nos definem. 
O desejo pequeno é ideal para uma 
sociedade que conta com o consumo para 
alimentar a produção e organizar as diferenças 
sociais. Desejos substituíveis garantem que a 
gente seja sempre levemente insatisfeito e 
levemente desejante, esvoaçando de objeto em 
objeto como uma abelha num campo de flores. 
Quanto ao desejo grande, que já foi ideal 
dominante, ele é hoje raro na prática, mas 
(anúncio de uma mudança dos tempos?) a 
sedução que ele exerce está crescendo. 
Como Mônica Waldvogel (no "Entre 
Aspas", da Globo News, na última quinta) e o 
crítico da Folha Inácio Araújo (na Ilustrada de 
domingo), reparei que a safra do Oscar deste ano 
é peculiar: quase todos os filmes indicados 
ilustram desejos grandes. 
Estamos tão acostumados a desejar 
pequeno que desejar grande (e pagar o preço 
disso) nos parece ser um comportamento 
patológico (o cara enlouqueceu, está obcecado) 
ou, então, sinal de crise (os EUA devem estar 
muito mal se eles precisam idealizar esses heróis 
que desejam grande). 
Penso o contrário: patológico é desejar 
pequeno. E, se os Estados Unidos estão gostando 
de heróis que sonham grande, talvez eles estejam 
saindo da futilidade dos anos 90: o sinal não seria 
de crise, mas de saída da crise. 
Recentemente, vários leitores e leitoras 
me perguntaram por que não escrevi sobre 
"Cisne Negro", que (alguns notaram) é um prato 
cheio para um psicanalista. Pois é, amei o filme e 
concordo com a ideia do prato cheio, mas 
acontece que, no filme, o que me comoveu não 
foi tanto o desabrochar da loucura quanto o 
heroísmo do desejo de perfeição da protagonista 
-um desejo grande. 
Falando em desejo grande, "Bruna 
Surfistinha", que estreou na última sexta, é outro 
exemplo. O filme de Marcus Baldini não é uma 
apologia nem uma crítica moralista da 
prostituição: é um filme sobre o difícil e tortuoso 
caminho de alguém que quis ser livre. É a história 
de um desejo grande. 
 
(CALIGARIS, Contardo. Grandes e pequenos desejos. Folha 
de S. Paulo, 3 março 2011, p. E15. Caderno Ilustrada) 
 
 89 
Texto 6 – Deus me livre de ser feliz 
 
Deus me livre de ser feliz. Existem coisas 
mais sérias que a felicidade. 
Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-
se inteligentinho: "Existem várias formas de 
felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. 
Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários 
tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim". 
Um bom teste para saber se o que você 
está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo 
em questão visa te deixar feliz. 
Se for o caso e você tiver uns 40 anos de 
idade, você corre o risco de sair do "curso" 
engatinhando como um bebê fora do prazo de 
validade. A mania da felicidade nos deixa 
retardados. 
Querer ser feliz é uma praga. Quando 
queremos ser felizes sempre ficamos com cara de 
bobo. Preste atenção da próxima vez que vir 
alguém querendo ser feliz. 
Mas hoje em dia todo mundo quer deixar 
todo mundo feliz porque agradar é, agora, um 
conceito "científico". Quem não agrada, não 
vende, assim como maçãs caem da árvore devido à 
lei de Newton. 
Mas eu, talvez por causa de algum trauma 
(fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou 
em tudo o que disse), não quero agradar ninguém. 
Não considero isso uma "vantagem 
moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso 
tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se 
você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou 
eles são, ou os dois. 
Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu 
nunca penso em deixar felizes, graças a Deus. 
Desejo para eles uma vida atribulada, 
conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis 
quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar. 
Desejo que, caso optem por não ter 
família, experimentem a mais dura solidão da 
existência humana, porque, no fundo, não passam 
de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que 
percebam como os filhos cada vez mais são egoístas 
porque querem ser felizes e livres. 
Desejo para eles pressões violentas no 
mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante 
de um trabalho que não pode ficar para amanhã 
porque querem viajar e ter grana para gastar. 
Quem quiser ser livre, que aguente a 
insegurança da liberdade. Quem for covarde e 
optar por uma vida miseravelmente cotidiana que 
veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi 
um covarde. 
Especialmente, desejo um futuro cruel 
para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a 
protege de ser infiel, infeliz, abandonada e 
invejosa. 
Espero que um dia descubram que, sim, 
eles têm um preço (apenas desejo que seja um 
preço alto) e que se vendam. 
Espero que percebam que seus pais não 
foram santos e parem com essa coisa de gente brega 
de classe média que tenta inventar uma "tradição 
ética familiar" que só engana bobo. 
E por que digo isso? Porque hoje todos nós 
estamos um tanto infantilizados e só queremos que 
nos digam o que achamos legal. 
O resultado é uma massa de obviedades. A 
tendência é transformar o pensamento público em 
autoajuda ou em "compromisso com um mundo 
melhor", o que é a mesma coisa. 
Quem quer agradar é, no fundo, um 
frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto 
"querer ser feliz". Comecemos por quem acha que 
o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado. 
Talvez você queira virar luz quando morrer 
porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de 
querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas. 
Se for para continuar vivendo depois de 
morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, 
porque sou cego como um morcego. 
Normalmente, quem quer virar luz quando 
morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres 
bonitas vão para o inferno, logo... 
E gente que acha que frango tem mãe (só 
porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e 
ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-
se de uma nova forma de compromisso com a 
"felicidade social e política". 
Entre esses "felizes que desejam a 
felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 
anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que 
um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de 
dez. Não creio que mudem. 
Hoje é Carnaval. Espero que você não 
tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas 
para ser feliz na praia. 
 
 
(PONDÉ, Luiz Felipe. Deus me livre de ser feliz. Folha de S. 
Paulo, 7 março 2011, p. E6. Caderno Ilustrada) 
 90 
Texto 7 – A outra chave de casa 
 
Silenciosamente, enquanto todos 
prestavam atenção nas últimas flores das 
tecnologias de consumo pessoal, uma mudança 
enorme aconteceu. Praticamente ninguém se 
deu conta dela, por mais que afetasse 
profundamente boa parte das dinâmicas sociais. 
Suas consequências para o comportamento dos 
seres urbanos são imprevisíveis, mas acredito 
que sejam bastante sérias: falo do 
desaparecimento da fronteira entre os 
territórios de "casa" e "rua". 
Essa fronteira foi erguida no ocidente 
ao longo dos últimos séculos, quando as 
famílias quese diziam civilizadas separaram, aos 
poucos, os bens públicos dos privados. Foi uma 
atitude estranha, egoísta e contraproducente, 
pois demandava infinitas cópias de cada bem, 
mas que mesmo assim funcionou tão bem que 
mesmo hoje é raro alguém perguntar o porquê 
de tão poucos bens coletivos. Ora, porque sim. 
E pronto. 
A internet começou a romper a barreira 
artificial ao entregar o que a televisão sempre 
prometeu: colocar, efetivamente, o planeta 
dentro de casa. Por mais importantes que 
fossem as notícias da telinha, elas sempre 
diziam respeito aos "outros", àqueles que, "lá 
fora", faziam o mundo acontecer. 
Aos poucos, home banking, e-
commerce e tantos outros nomes em inglês de 
que mal se ouvira falar no final do século 
passado mudaram a relação de poder e 
passividade. Quem tinha acesso à rede passava a 
ter, de casa, uma alavanca e um ponto de apoio 
para mover o mundo. O muro começava a 
ruir. 
Com a banda larga, o processo se 
acelerou. Tecnologias como P2P, streaming e 
computação em nuvem permitiram o 
compartilhamento de milhões de documentos, 
lícitos ou não, via Google, Flickr, YouTube, 
BitTorrent e tantos outros. Esse conteúdo, por 
não estar aparentemente no computador de 
ninguém, foi parar no computador de todos. 
Sem que se percebesse, a inteligência voltava a 
ser coletiva. 
As mídias sociais derrubaram de vez a 
divisão. Até então, os sistemas de comunicação 
pessoal eletrônica -e-mail e mensageiros 
instantâneos como MSN ou Skype- não eram 
muito diferentes de um telefone ou um correio 
anabolizados. O que acontecia neles ficava por 
ali e não era da conta de ninguém. 
À medida que blogs, YouTube, Orkut, 
Facebook e Twitter passaram a dar a qualquer 
indivíduo um grau de exposição antes 
reservado às celebridades, as portas e janelas de 
todos foram abertas para multidões de voyeurs 
declarados. 
Quem está conectado em casa passou a 
estar, ao mesmo tempo, na rua. E vice-versa. 
Onde quer que se esteja, os amigos sempre 
estão por perto. Muitas vezes, perto demais. E 
nem são tão amigos assim. 
O celular, em especial o smartphone, 
se tornou a nova chave de casa. Com ele é 
possível trazer o mundo inteiro para dentro de 
um ambiente privado, ao mesmo tempo que se 
possibilita o compartilhamento de experiências 
pessoais com o mundo. 
Aquele que surgiu como um telefone 
móvel é hoje um aparelho de identidade, 
contato e inclusão digital. Ele ainda é tão 
importante quanto o cartão do banco e aquele 
outro objeto de metal, pesado e 
desconfortável, que não presta pra nada além 
de abrir uma porta de madeira que fecha uma 
cela contemporânea. Mas não demorará para 
que os substitua. 
 
(RADFAHRER, Luli. A outra chave de casa. Folha de S. Paulo, 
23 fevereiro 2011, p. F8. Caderno Tec) 
 
 
 
 
 
 91 
Texto 8 – Qualidade de morte 
 
Até meados do século 20, dava quase na 
mesma ser pobre ou rico na hora de morrer: 
iam-se todos de modo semelhante, pois as 
doenças ignoravam privilégios. 
Diante da tuberculose, por exemplo, 
não havia ouro que comprasse sofrimento 
menor ou alguma sobrevida: morriam 
afogados, na derradeira hemoptise, tanto os 
operários de Manchester estudados por Engels 
como os burgueses dos quais nos fala Thomas 
Mann em "A Montanha Mágica". 
Com o avanço da ciência, porém, tudo 
parece ter mudado. Hoje há muitos que 
acreditam que o dinheiro, além de comprar 
uma vida mais "rica", também garante a 
qualidade da morte: por meio dele, os 
abastados despedem-se deste mundo no 
ambiente glamuroso de "hospitais-boutique", 
sob os cuidados dos "médicos da moda". Mas 
será que as coisas são tão simples? 
Por um lado, ainda que a pobreza torne 
a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, 
por si só, seja capaz de resolver os enigmas que 
a existência nos impõe, magnatas ou não. E o 
remorso não raro corrói a paga que os "eleitos" 
recebem por sua ganância. 
Se isso não é tão claro, é porque a 
maioria das pessoas desconhece a intimidade 
dos poderosos, sempre dilacerada por 
conflitos: os psicoterapeutas e os próprios 
poderosos sabem bem do que falo. Por outro 
lado, o acesso à medicina "de ponta" nem 
sempre é garantia de boa recuperação ou de 
morte tranquila, além de dar origem a 
paradoxos. 
Um exemplo é a angústia que destrói a 
saúde dos que sofrem, no presente, com as 
moléstias que – imaginam – terão no futuro. 
Martirizam-se, assim, por não terem um plano 
de saúde "top", o qual já se tornou, ao lado do 
carro "zero", o atual sonho de consumo. 
Para essa angústia contribuem, 
crucialmente, a propaganda dos centros 
diagnósticos – que não param de crescer – e a 
ingenuidade de médicos que confundem 
prevenção com obsessão por doenças. 
Outro exemplo é o caso dos doentes 
terminais mantidos vivos mesmo à custa de 
muita dor, bem como a insensatez de uma 
legislação que proíbe a eutanásia para as pessoas 
que dela necessitam, condenando-as, 
cruelmente, ao papel de axiomas de grotesca 
tese: a de que a vida deve ser sempre 
preservada, "coûte que coûte"... 
Mas, já que a morte segue inevitável -
muito embora a publicidade procure nos 
convencer de que somos imortais-, não seria 
melhor que encarássemos a vida de outro 
modo, empregando-a não só para "conquistar 
um lugar ao sol" mas também para aceitar um 
"cantinho" nas sombras para onde iremos 
todos? Não seria importante que 
aprendêssemos a morrer, buscando, se preciso, 
nas ideias de outras épocas a espiritualidade que 
tanta falta nos faz? 
Infelizmente, não é o que vemos. Ao 
ideal da morte honrosa dos gregos, da morte-
libertação dos gnósticos, da boa morte dos 
cristãos medievais, da morte heroica dos 
românticos, nós contrapomos a "morte segura" 
no leito high-tech de um hospital chique, 
transfixados por catéteres e "plugados" na TV. 
Uma morte que é o símbolo perfeito da doença 
que acomete a nossa civilização e que, decerto, 
vai matá-la: o conformismo hedonista. 
 
(SANTOS, Cláudio Guimarães dos. Qualidade de morte. 
Folha de S. Paulo, 9 março 2011, p. A3. Caderno Opinião) 
 
 
 
 
 
 
 
 92 
Texto 9 – O comércio de crack 
 
A disseminação vertiginosa da epidemia de 
crack deixa a sociedade perplexa. Tememos por 
nossos filhos, pela violência que caminha no rastro 
da droga, lamentamos o destino dos farrapos 
humanos que perambulam pela cidade, mas nos 
sentimos impotentes para lidar com problema 
social de tamanha complexidade. 
Diante desse desafio, a única saída que 
fomos capazes de encontrar é a de reprimir. 
Partimos do princípio que, se prendermos todos os 
traficantes, as drogas ilícitas desaparecerão ou 
chegarão aos centros urbanos a preços proibitivos. 
Alguém já disse que todo problema 
complexo admite uma solução simples; sempre 
errada. Pretender acabar com o crack por meio da 
repressão é ingenuidade. Gastamos fortunas para 
conseguir o quê? Cadeias lotadas, polícia 
corrompida, violência urbana, judiciário 
sobrecarregado, traficantes poderosos, mortes de 
adolescentes e droga barata. Barata como nunca. 
Tratar o uso de crack como simples caso de 
polícia, é política pública destinada ao fracasso. É 
enxugar gelo, como disse um delegado. 
Os jornalistas Mario Cesar Carvalho e 
Laura Capriglione publicaram no jornal Folha de 
São Paulo (caderno Ilustríssima de 23/6/2010) 
uma das análises mais brilhantes que já li sobre a 
epidemia de crack no Brasil. Para eles, é impossível 
compreender como uma droga com tal poder 
destrutivo se espalhou pelo país, sem analisar os 
dados econômicos envolvidos em seu comércio. 
Estão certíssimos. 
Citando dados da Polícia Federal enviados 
à ONU, os autores fazem a seguinte análise: “um 
grama de cocaína vale R$ 6 no atacado e R$ 25 no 
varejo, gerando um lucro de 300%. O lucro do 
crack é menor, de 200% — o traficante graúdo 
pega o grama por R$ 4 e o revendepor R$ 12. O 
que faz toda a diferença do crack é o tamanho da 
clientela em potencial. As classes C, D e E 
correspondem a 84% da população do país (162 
milhões de pessoas)…” 
Segundo os dois jornalistas, as 
propriedades farmacológicas da cocaína fumada sob 
a forma de crack, causadoras da sensação imediata 
de prazer intenso que leva ao uso compulsivo, e a 
liquidez espantosa que o crack encontra nas ruas 
completam o quadro. 
Há mais um detalhe a considerar. No 
comércio de qualquer mercadoria, os custos para 
transportá-la do centro de produção ao de 
consumo são cruciais para o sucesso das vendas. No 
caso das drogas ilícitas, esse gasto é irrelevante. Se 
um traficante pagar 2 mil dólares por quilo de 
cocaína pura na Bolívia, e um piloto cobrar a 
quantia absurda de 500 mil dólares para transportar 
500 quilos para os Estados Unidos num voo 
clandestino, que diferença fará? O preço final 
aumentará apenas 1.000 dólares por quilo, que será 
vendido por 30 mil dólares em Nova York. 
É impossível eliminar do mercado um 
produto com essas características, comercializado 
por capitalistas selvagens que não recolhem 
impostos nem reconhecem direitos trabalhistas, 
com poder suficiente para corromper a sociedade e 
condenar à morte os que lhes prejudiquem os 
negócios. 
Veja os americanos, leitor. Investiram na 
guerra contra as drogas mais do que a soma gasta 
por todos os países reunidos, e qual foi o resultado? 
São os maiores consumidores do mundo. 
O que fazer, então? Cruzar os braços? 
A forma mais sensata de enfrentá-lo é 
reduzir o número de usuários. Dependência 
química não é mero hábito de pessoas sem força de 
vontade para livrar-se dela, é uma doença grave 
que modifica o funcionamento do cérebro. Nós, 
médicos, devemos confessar nossa ignorância: não 
sabemos tratá-la, porque nos faltam experiência 
clínica e conhecimento teórico. Só recentemente a 
comunidade científica começa a se interessar pelo 
tema. 
É preciso oferecer ao craqueiro uma 
alternativa de vida para tirá-lo das ruas. Além 
disso, criar novos centros de recuperação formados 
por equipes multidisciplinares de profissionais bem 
pagos, dispostos a aprender a lidar com os 
dependentes, a conduzir pesquisas e a definir 
estratégias baseadas em evidências capazes de 
ajudar os inúmeros usuários dispostos a escapar do 
inferno em que vivem. 
O dependente de crack deve receber apoio 
social e ser tratado com critérios semelhantes aos 
que usamos no caso dos hipertensos, dos 
diabéticos, dos portadores de câncer, Aids e de 
outras doenças crônicas. 
 
(VARELLA, Drauzio. O comércio de crack. Folha de S. Paulo, 
5 junho 2010, p. E12. Carderno Ilustrada) 
 93 
Texto 10 – Tatuagens são para sempre 
 
Conheço uma moça que gastou um 
bom dinheiro, e um bocado de tempo, 
tentando, sem sucesso, tirar da orelha uma 
tatuagem que havia feito na Índia, no tempo em 
que era devota de um guru famoso. Não sei por 
que ela queria tirar a marca, mas o que me 
ficou marcado, para mim, é que ela não estava 
conseguindo. 
Eu não tenho tatuagens. Na minha 
geração não era moda. Quando se tornou 
moda, nos anos 90, eu não consegui embarcar. 
Tenho dificuldade em responder às duas 
perguntas básicas que antecedem a tatuagem: 
onde tatuar e o quê tatuar. Imagino que essas 
dúvidas expressem uma resistência mais 
profunda. Tatuagens são para sempre e eu 
tenho dificuldade com o que é irremovível. 
Vou morrer com a tela do corpo intacta – ou, 
pelo menos, livre de marcas voluntárias. 
Mas, ao meu redor, as tatuagens se 
multiplicam. São como itens de série num 
grupo de mulheres urbanas entre 20 e 30 anos. 
Em geral, vêm em dupla: uma na nuca, outra 
no ombro; uma no pé, outra na virilha; uma no 
cóccix, outra na panturrilha. Os temas das 
tatuagens também são parecidos, o que faz com 
que as pessoas fiquem mais ou menos iguais. 
Homens e mulheres. 
Houve um tempo em que fui tocado 
pela novidade e achei que esses adereços 
expressavam alguma forma de rebeldia. Ou de 
erotismo. Hoje eles não me dizem muita coisa, 
num terreno ou no outro. A revolta embutida 
nas tatuagens-padrão ficou para trás há muito 
tempo. Para chocar, hoje em dia, é preciso 
cobrir uma vasta porção do corpo – ou 
inventar um desenho totalmente inusitado. E 
bem agressivo. 
No capítulo do erotismo, uma pele sem 
mácula me parece tão sensual quanto uma pele 
desenhada, talvez mais. Vi este fim de semana 
as fotos da Cléo Pires sem roupa e fiquei com a 
impressão de exagero – com todas aquelas 
palavras tatuadas, a moça parecia São Paulo 
antes da lei Cidade Limpa. Continuava linda, 
mas, de alguma forma, aquele monte de 
desenhos desviava a atenção do essencial. Oscar 
Niemeyer, um homem que entende de beleza, 
disse uma vez que o corpo da mulher é a forma 
perfeita – por que, então, conspurcá-lo com 
tantas intervenções desnecessárias? Fica a 
pergunta. 
Para escrever este texto, eu tentei 
conversar com uma amiga que tem 13 
tatuagens. Queria que ela me falasse do barato 
em desenhar e escrever no corpo com tinta que 
não apaga, mas a conversa não aconteceu. 
Minha curiosidade, portanto, permanece. 
Mas eu já tenho algumas opiniões. Acho 
que estão superestimando o ganho estético – e 
erótico – da decoração corporal. Se as atrizes 
dos pornôs baratos fazem as mesmas tatuagens 
das garotas de classe média, alguém está usando 
a coisa errada. Por isso que eu aposto que 
dentro de poucos anos nós veremos uma 
revalorização do corpo intacto. Chique vai ser 
não ter marcas. 
Outra coisa que me parece óbvia é que 
as pessoas tentam usar as tatuagens como uma 
forma de diferenciação. É um statement, como 
se diz em inglês, uma declaração sobre si 
mesmo. Os desenhos dão uma pista do que a 
pessoa pensa ou é. Ou pensa que é. Mas, 
quando todo mundo faz a mesma coisa, onde 
fica a individualidade? Não fica. Desaparece 
num mar de clichês visuais. Luas, estrelas, 
fadas, lírios, beija-flores, tribais... Parece uma 
feira hippie. 
Eu acho a onda das tatuagens mais uma 
expressão da nossa dificuldade cada vez maior 
em tratar com o abstrato, com aquilo que vai 
além das aparências. O corpo deixa de ser o 
complexo portador dos sentidos, dos 
sentimentos e das ideias para se transformar 
num outdoor. Frases curtas, imagens 
marcantes, cores. A complicada troca de ideias 
(eu falo, você ouve, depois a gente inverte), dá 
lugar a uma espécie de comunicação 
instantânea. Carrego todos os meus símbolos 
comigo e os revelo de uma só vez, exibindo o 
braço em que uma imagem me define: Cristo, 
 94 
Che Guevara ou Gaviões da Fiel. Eu sou isso, 
sacou? 
Como virou moda e todo mundo usa, 
alguém pode dizer que a tatuagem tornou-se 
simbolicamente inofensiva. Ela passa, como 
outras rebeldias visuais da adolescência ou 
modismos de décadas passadas. Os piercings 
que a garotada usava na sobrancelha e no 
umbigo sumiram, embora tenham ficado os 
buraquinhos. Cabelos esverdeados, tranças 
rastafári, cavanhaques – isso tudo vai embora 
quando o dono cansa. A tatuagem não. Ela fica. 
O corpo muda, as ideias se transformam, mas a 
aquele desenho permanece, na contramão da 
natureza. 
Imagine a sua mãe até hoje com o 
cabelo que ela usava nos anos 80. A tatuagem 
pode ser isso, um anacronismo existencial 
colado na pele, a lembrança de algo que você já 
foi, deixou de ser, mas continua sinalizando, 
como uma placa de trânsito que esqueceram de 
arrancar – e que agora indica a direção errada. 
Talvez eu esteja exagerando, mas 
sempre penso nas pessoas que escrevem na pele 
o nome daqueles que amam. O que acontece 
com elas? O sujeito vai embora, viver com 
outra, mas a ex tem o nome dele escrito na 
nuca. O rapaz levou um pé na bunda, o 
noivado acabou, mas ele fica com o nome da 
Fulana escrito no braço. Acho essas coisas 
antinaturais. 
A marca do humanoé ser transitório. 
Tentar fixar na pele uma paixão, um momento, 
uma filiação, é inútil. As coisas passam, elas nos 
escapam. E aquelas que realmente permanecem 
estão tão fundas dentro de nós, tão 
entranhadas, que dispensam adereços e 
representações. Eu diria que as coisas essenciais 
não precisam ser tatuadas - e que as coisas que 
precisam ser tatuadas não são essenciais. Mas 
dêem um desconto no meu ponto de vista: eu 
sempre fui apaixonado por cadernos em 
branco. 
 
 
(MARTINS, Ivan Martins. Tatuagens são para sempre. 
Disponível em: 
<http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT163
971-15230-163971-3934,00.html>. Acesso em: 24 jan. 
2011) 
 
4.1.3 Sugestão de atividade 
 
Na seção anterior, você leu e analisou 
artigos de opinião que abordam vários assuntos. 
Com base nas informações adquiridas e em 
sugestões de leitura do professor, produza um 
artigo de opinião acerca de uma das seguintes 
propostas – cada proposta está ligada aos textos 
anteriores, respectivamente. O professor é 
responsável pela execução dessa atividade ou 
por sua alteração. 
 
 
 
1. Comportamento e questões econômicas 
2. Deficientes físicos e sociedade 
3. Mundo moderno e terrorismo 
4. Jovens e suas relações sociais 
5. Consumo e limites de desejos 
6. Ser feliz: sociedade versus indivíduo 
7. Tecnologia e espaços público e privado 
8. Eutanásia e direito de morrer 
9. Crack: coerção ao tráfico ou prevenção ao vício 
10. Liberdades adquiridas versus modismos 
 
 
 
 95 
4.2 Dossiê Política e Economia 
 
Nesta seção, você estudará diversos 
textos, enfatizando-se aqueles que abordam 
questões de política e economia e sua influência 
em setores, em grupos e em modos de vida da 
sociedade contemporânea. Esta seção também 
se destina ao desenvolvimento de suas 
competências e habilidades para a prática de 
produção de resumos, gênero textual muito 
utilizado na sua vida acadêmica e profissional. 
Ao final da unidade, você será avaliado pelas 
habilidades e competências desenvolvidas em 
atividades de produção de resumos construídos 
em torno de texto sobre o tema política e 
economia. 
 
4.2.1 Resumo 
 
O resumo, conforme Platão e Fiorin 
(1997) é uma condensação fiel das ideias ou dos 
fatos contidos num texto. Resumir um texto 
significa reduzi-lo ao seu esqueleto essencial 
sem perder de vista três elementos: a) cada 
uma das partes essenciais do texto; b) a 
progressão em que elas se sucedem; c) a 
correlação que o texto estabelece entre cada 
uma dessas partes. 
O resumo é, pois, uma redução do 
texto original, procurando captar suas ideias 
essenciais, na progressão e no encadeamento 
em que aparecem no texto. Quem resume 
deve exprimir, em estilo objetivo, os 
elementos essenciais do texto. Por isso, não 
cabem, num resumo, comentários ou 
julgamentos ao que está sendo condensado. 
Muitas pessoas julgam que resumir é 
reproduzir frases ou partes de frases do texto 
original, construindo uma espécie de 
"colagem". Essa "colagem" de fragmentos do 
texto original não é um resumo. Resumir é 
apresentar, com as próprias palavras, os pontos 
relevantes de um texto. A reprodução de frases 
do texto, em geral, atesta que ele não foi 
compreendido. 
Para elaborar um bom resumo, é 
necessário compreender antes o conteúdo 
global do texto. Não é possível ir resumindo à 
medida que se vai fazendo a primeira leitura. É 
evidente que o grau de dificuldade para resumir 
um texto depende basicamente de dois fatores: 
a) da complexidade do próprio texto (seu 
vocabulário, sua estruturação, seu sentido, suas 
relações lógicas, o tipo de assunto tratado etc.); 
b) da competência do leitor (seu grau de 
amadurecimento intelectual, o repertório de 
informações que possui, a familiaridade com os 
temas explorados). O uso de um procedimento 
apropriado pode diminuir as dificuldades de 
elaboração do resumo. 
Aconselhamos as seguintes passadas: 
 
 
1. Ler uma vez o texto ininterruptamente, do começo ao fim. Já vimos que um texto não é um 
aglomerado de frases: sem ter noção do conjunto, é mais difícil entender o significado preciso de 
cada uma das partes. Essa primeira leitura deve ser feita com a preocupação de responder 
genericamente à seguinte pergunta: do que trata o texto? 
 
 
2. Uma segunda leitura é sempre necessária. Mas esta, com interrupções, com o lápis na mão, para 
compreender melhor o significado de palavras difíceis (se preciso, recorra ao dicionário) e para 
captar o sentido de frases mais complexas (longas, com inversões, com elementos ocultos). Nessa 
leitura, deve-se ter a preocupação, sobretudo, de compreender bem o sentido das palavras 
relacionais, responsáveis pelo estabelecimento das conexões (assim, isto, isso, aquilo, aqui, lá, daí, 
seu, sua, ele, ela etc.). 
 
 
 96 
3. Num terceiro momento, tentar fazer uma segmentação do texto em blocos de ideias que 
tenham alguma unidade de significação. Ao resumir um texto pequeno, pode-se adotar como 
primeiro critério de segmentação a divisão em parágrafos. Pode ser que se encontre uma 
segmentação mais ajustada que a dos parágrafos, mas como início de trabalho, o parágrafo pode ser 
um bom indicador. Quando se trata de um texto maior (o capítulo de um livro, por exemplo), é 
conveniente adotar um critério de segmentação mais funcional, o que vai depender de cada texto. 
Em seguida, com palavras abstratas e mais abrangentes, tenta-se resumir a ideia ou as ideias 
centrais de cada fragmento. 
 
 
4. Dar a redação final com suas palavras, procurando não só condensar os segmentos, mas 
encadeá-los na progressão em que se sucedem no texto e estabelecer as relações entre eles. 
 
4.2.2 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, os artigos de opinião a seguir. Escolha um deles para responder ao 
roteiro de perguntas e para elaborar um resumo a ser entregue ao professor. 
 
 
 
1) Faça uma leitura seguida e completa do texto. A seguir, assinale os pontos desconhecidos, como 
vocabulários, fatos, dentre outros e busque esclarecimentos sobre eles. 
2) Determine o tema do texto. Lembre-se de que para isso é necessário responder à seguinte 
pergunta: “De que o texto fala”? 
3) Explicite como o assunto do texto foi problematizado. 
4) Aponte a ideia principal do texto, ou seja, a tese. Não se esqueça de que ela constitui a resposta do 
autor ao problema levantado. 
5) Identifique os argumentos utilizados pelo autor para demonstrar a tese. 
6) Avalie o texto, tanto do ponto de vista interno (alcance dos objetivos propostos, logicidade na 
apresentação das ideias, argumentação sólida, etc.) quanto do ponto de vista externo (originalidade na 
abordagem do tema, contribuição do texto, etc.). 
7) Elabore um resumo para entregar ao seu professor. 
 
 
Texto 1 – O Brasil lá 
 
Desde o governo Fernando Henrique 
Cardoso, e com insistência maior no governo 
Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil tem 
reivindicado uma cadeira permanente no 
Conselho de Segurança da Organização das 
Nações Unidas. 
O pleito é legítimo, até porque vem 
sendo apresentado no contexto de ampla 
reforma a ser realizada no colegiado, a fim de 
dotá-lo de mais representatividade. O 
Conselho é o único órgão das Nações Unidas 
que tem poder coercitivo. Pode impor sanções 
econômicas e autorizar ações militares contra 
países que a seu juízo violem as normas 
internacionais. 
Sua composição reflete a relação de 
forças no fim da Segunda Guerra Mundial. 
Assim, são membros permanentes Estados 
Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França 
(cinco dos hoje nove países que dispõem de 
armas nucleares). Cada um deles tem poder de 
veto sobre qualquer deliberação do Conselho. 
Os demais integrantes são eleitos pela 
Assembleia Geral para um mandato de dois 
anos. Eram seis países até que em 1965 uma 
emenda à Carta da ONU elevou seu número97 
para dez. Toda alteração tem de ser aprovada 
por 2/3 da Assembleia e pela totalidade dos 
membros permanentes do Conselho. 
Longe de ser inédita, a pretensão brasileira tem 
raízes numa antiga obsessão. Basta dizer que 
em 1926 o Brasil abandonou a Liga das Nações, 
protótipo da ONU formado após a Primeira 
Guerra Mundial, quando viu negada sua 
aspiração de converter o posto de membro 
provisório do então conselho em membro 
permanente. 
Hoje pelo menos mais três países 
reclamam a sério o mesmo que o Brasil: 
Alemanha, Japão e Índia. Mas uma reforma no 
Conselho é muito difícil de implantar. Será, 
talvez, um resultado tardio da multipolaridade 
em gestação. 
Cada país mencionado, inclusive o 
Brasil, desperta oposição em sua própria área 
de influência. Aos atuais membros 
permanentes tampouco agrada ver o poder que 
compartilham ser diluído, como seria inevitável 
com o ingresso de novos parceiros. 
Há outras dificuldades. O atual 
mecanismo, que condiciona as decisões à 
anuência dos cinco grandes, já emperra a 
resolução da maioria dos tópicos examinados. 
Essa inoperância, que os críticos das potências 
talvez considerem positiva, aumentaria 
conforme aumentasse o colegiado. 
A reforma teria de ser, portanto, mais 
profunda. O ideal seria uma composição 
ampliada para cerca de duas dezenas de 
membros, sem poder de veto, que decidissem 
por maioria qualificada. O mundo está 
mudando depressa, em muitos sentidos para 
melhor; o que agora parece uma quimera talvez 
não o seja em poucos anos. 
Enquanto isso, o melhor que a 
diplomacia brasileira tem a fazer é sustentar 
com serenidade a reivindicação brasileira, mas 
sem elevá-la à condição de prioridade zero, 
nem permitir que imponha distorções à 
coerência de nossas atitudes no cenário 
internacional. 
 
(O BRASIL lá. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 março 2011. 
Caderno Opinião) 
 
Texto 2 – Economia: causa ou consequência? 
 
As manchetes da imprensa funcionam 
em uníssono sempre que é divulgado novo 
índice de inflação, nova estatística do 
desemprego ou quando ocorre uma reunião do 
Copom, para nos lembrar de que a economia 
mudou. Como consequência, os temas das 
manchetes ecoam nos corredores das empresas, 
nas rodas de bar e nas esteiras das academias. 
Impressiono-me como uma alta de 
meio ponto percentual na taxa Selic é capaz de 
ganhar mais repercussão do que, por exemplo, 
a descoberta de um tratamento revolucionário 
contra o câncer. 
O Brasil transformou-se em um país de 
economistas sem diploma.Em cada lar, cada 
igreja e cada roda de café no corredor das 
empresas há sempre um economista de plantão 
para nos informar da variação de um 
importante indicador. 
"A Bolsa subiu forte hoje" já é uma 
frase comum entre casais -mesmo na cama! 
Pudera: há pouco menos de duas décadas, 
tempos de inflação elevada, quem não 
acompanhasse a seção de economia dos jornais 
não saberia o valor a receber de salário dali a 
dois dias, pois tudo mudava com o passar das 
horas. 
Viciamo-nos em acompanhar 
indicadores econômicos. Hoje, muitos 
acompanham a evolução da Bolsa ou da taxa 
Selic com a mesma expectativa e ansiedade que 
já dedicaram para descobrir o assassino de 
Odete Roitmann. 
É certo que indicadores econômicos 
ditam as decisões de grandes empresas e de 
investidores de grande porte. Porém 
questiono-me se essa busca pelo saber 
realmente agrega à maioria das pessoas. Depois 
de anos orientando as pessoas, por meio de 
livros e palestras, a se manterem informadas 
sobre seus investimentos, percebo que muitos 
acumulam informação, mas não conhecimento. 
 98 
Quem acredita que uma decisão do Copom, 
por exemplo, impacta sua vida a ponto de 
exigir mudança em sua estratégia de 
investimento ou contratação de crédito está 
provavelmente enganado. 
Se desprezarmos o fato de que altas nos 
juros geralmente refletem um aumento na 
inflação, não é difícil demonstrar que o ganho é 
pequeno em uma alta de, digamos, 0,5% na 
Selic. Se aplicarmos R$ 10 mil hoje em um 
título com rendimento de 6% ao ano, teremos 
R$ 32.071 daqui a 20 anos. Com rendimento 
de 6,5%, o saldo final seria de R$ 35.236 -
cerca de 10% a mais. 
Se lhe parece muita diferença, saiba que 
se, exatamente no meio desse prazo, você 
resgatar o título, fizer um investimento que 
dobre seu capital em um ano e depois voltar a 
investir no mesmo título, teria um resultado 
final de R$ 45.384 com títulos de 6% e de R$ 
49.629 com títulos de 6,5%. Em outras 
palavras, ganharia muito mais ao se dedicar à 
pesquisa de oportunidades, como um imóvel 
barato ou automóvel em leilão, do que 
perdendo tempo com mudanças de estratégia 
de renda fixa. 
Seja sincero: qual o impacto que o 
aumento de meio ponto da inflação pode trazer 
em seu consumo? Certamente, a compra de 
uma peça de roupa que não será usada ou de 
um produto pirata que não funcionará será 
muito mais prejudicial a seu orçamento do que 
o aumento no preço do tomate. Atitude mais 
inteligente seria atentar aos preços em compras 
frequentes, evitar a compra do tomate quando 
ele estiver caro demais e, com isso, anular a 
inflação em seu orçamento. 
Seremos economicamente mais 
eficientes quando percebermos que o impacto 
de nossas decisões na economia é mais 
importante do que o impacto da economia em 
nossas decisões. Sem pesquisar preços e sem 
praticar o orçamento, acabamos por adquirir 
produtos com preços em alta e, 
consequentemente, comprimindo nosso 
consumo. 
Ao não pesquisar juros nos 
financiamentos, contribuímos para manter o 
"spread" bancário elevado. Ao contrair dívidas 
sem critério, contribuímos para a ineficiência 
do mercado de crédito e para o encarecimento 
dos empréstimos. Quem não se esforça para 
encontrar oportunidades sucumbe à ineficiência 
dos convenientes produtos de investimento de 
prateleira. Em vez de simplesmente conhecer a 
economia, procure praticá-la e transformá-la. 
O país agradece. 
 
(CERBASI, Gustavo. Economia: causa ou consequência. Folha 
de S. Paulo, São Paulo, 16 ago. 2010, p. B10) 
 
 
4.2.3 Sugestão de atividade 
 
Leia, com atenção, o texto a seguir. 
Depois elabore um resumo para avaliação. O 
professor é responsável pela execução dessa 
atividade ou por sua alteração. 
 
Faltam engenheiros no governo 
 
Poucas coisas têm sido tão 
ridicularizadas nos últimos tempos, em todo o 
mundo, quando a prática da Economia por 
economistas alojados no poder. As chacotas se 
tornaram quase que diárias, e famosos 
economistas, como John Kenneth Galbraith, 
Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen e 
Roberto Macedo, já soltaram farpas contra seus 
colegas de profissão. Talvez seja por isso que o 
número de candidatos para a carreira de 
economista venha caindo, ano após ano, na lista 
de vestibulares. 
Estamos falando, obviamente, dos 
economistas governamentais, que são aqueles 
que ainda acreditam na Ciência Econômica. Os 
economistas empregados no setor privado 
perceberam ainda cedo que muito pouco do 
que aprenderam da Ciência Econômica é usado 
 99 
nas suas atividades profissionais. São 
economistas por causa do diploma, não porque 
acreditam piamente nas teorias aprendidas nas 
universidades. Mesmo assim, apesar de toda a 
incompetência e de reconhecimento dessa 
incompetência pela sociedade, os economistas 
governamentais continuam a ser o grupo de 
profissionais mais poderoso dentro do governo. 
Qual a razão de tanto poder após tantos 
fracassos é um mistério insondável. 
Os seres humanos se dividem em dois 
grandes grupos: os quantitativos e os verbais. 
Os primeiros são bons em números, e os 
segundos, hábeis na fala. É a grande divisão do 
ensino: exatas versus humanas, clássico versus 
científico. Os bons de fala irão tornar-se 
advogados, jornalistas, sociólogos, economistas 
governamentais,políticos. Tendem a ser 
românticos e de esquerda, a acreditar na 
autoridade da palavra e nas soluções de cima 
para baixo. Os bons em números irão tornar-se 
engenheiros, cientistas, químicos, empresários, 
contadores, administradores. Tendem a ser 
pragmáticos, apolíticos e a acreditar nas 
soluções de baixo para cima. Falam mal, 
escrevem pior ainda, têm pouca influência 
política. 
Ao contrário do que se pensa, os 
economistas governamentais não são bons em 
números. Eles fazem parte do grupo verbal da 
sociedade. Normalmente falam bem e 
escrevem melhor ainda. Seus artigos, porém, 
são recheados de analogias, não de números. 
Observem, em seus artigos assinados, que a 
argumentação é verbal, teológica, com poucas 
fórmulas, deduções, números, muito menos 
projeções de resultados. Seus artigos primam 
pelas analogias verbais, não pela quantificação 
numérica. “Somos um Boeing sem rumo”; 
“precisamos de um choque de credibilidade”, 
“política do feijão-com-arroz”. Seus planos não 
são quantificados - são mais um jogo de 
palavras do que planos operacionais concretos. 
Por isso não dão certo. 
A maioria dos economistas 
governamentais acredita que Lotus 1-2-3 é uma 
posição de ioga, e não uma planilha eletrônica. 
Um dos poucos economistas governamentais 
brasileiros que entendem de números, Mário 
Henrique Simonsen, tinha sólida formação em 
Engenharia. É a exceção que confirma a regra. 
Eles são tão numerosos porque nosso ensino 
tem sido voltado aos verbais. Afinal, é mais 
barato formar um verbal do que um 
quantitativo. Bastam um professor e um 
quadro-negro. Não é por menos que o Brasil 
forma mais economistas do que engenheiros, 
quando no Japão a relação é oposta a esta e é de 
100 para 1. 
Apesar de desprovidos das capacidades 
necessárias para comandar uma economia, 
dominam nossas vidas. Primeiro, porque os 
economistas governamentais falam na mesma 
frequência dos políticos e são, por isso, seus 
principais assessores. Empolgam os políticos 
pelo discurso e pela visão utópica de que 
podem consertar o mundo de cima para baixo. 
Sua visão é lírica como a de um poeta, e foi 
justamente na gestão de um presidente-poeta 
que os economistas governamentais mais 
influência tiveram. A bem da verdade, os 
economistas governamentais erram em seus 
planos não por sadismo, nem por ignorância, 
mas por incapacidade genética. São pessoas 
verbais. 
Precisamos deixar de ser platéia e ouvir 
menos os economistas, e aí se inclui a 
imprensa, e ouvir mais as outras profissões. 
Existiam várias soluções alternativas para a 
inflação brasileira, vindas de engenheiros, 
financistas, empresários, psicólogos e 
contadores, que não alçaram vôo por falta de 
ouvidos. As outras profissões precisam sair da 
toca e preencher esse enorme espaço ocupado 
exclusivamente pelo economista. O fato de não 
ser tão verbal quanto os economistas têm 
levado muitos a se omitir irresponsavelmente 
em suas contribuições. A questão que se coloca 
é esta: mexam-se ou serão mexidos. 
 
(KANITZ, Stephen. Faltam engenheiros no governo. Exame, 
27 junho 1990, p. 122) 
 
 
 100 
4.3 Dossiê Arte e Cultura 
 
Nesta seção, você estudará diversos 
textos que envolvem questões sobre arte e 
cultura. São questões necessárias ao homem, 
uma vez que funcionam como meios de 
catarse, como veículos ideológicos, entre 
outros. Sua atenção, nesta seção, será voltada a 
textos no formato resenha, gênero escolhido 
para estudo. Espera-se que você aprimore, por 
meio de leitura e produção de resenhas, suas 
habilidades e competências na elaboração e 
organização de suas opiniões e juízos de valor 
acerca dos acontecimentos artísticos aos quais 
estamos expostos. 
 
 
4.3.1 Resenha 
 
Resenha é um trabalho de síntese, 
publicado logo após a edição de uma obra. Tem 
por objetivo servir como veículo de crítica e 
avaliação. Geralmente constitui seção especial 
de revistas, sendo também chamado de revisão, 
nota de livros ou simplesmente resenha. 
Podem-se fazer resenhas de livros, 
artigos de periódicos, filmes e outros, 
separadamente, ou reunir vários trabalhos que 
tratam do mesmo tema, analisando-os em 
conjunto. As resenhas devem vir precedidas da 
referência bibliográfica completa das obras a 
que se referem – diferentemente das públicas 
pela mídia sem intenção acadêmica. 
Uma diferença entre resumo e resenha 
é que o primeiro se restringe ao conteúdo do 
trabalho analisado, enquanto esta última 
introduz um quadro de referência mais amplo, 
comparando, avaliando e criticando a obra – 
sob o ponto de vista pessoal do autor da 
resenha – em relação a outros trabalhos e ao 
estado-da-arte. 
Ao se acrescentar à análise da obra um 
julgamento de valor, é necessário ficar atento 
aos seguintes aspectos: a) o tipo de publicação: 
não podem ser idênticos os critérios de uma 
obra científica, técnica e didática, em que a 
autenticidade do texto deve ser analisada 
objetivamente, e uma obra de arte, em que se 
deve levar em conta a presença do emocional, 
subjetivo, de cada autor; b) o tipo de crítica a 
ser elaborada: embora existam vários tipos de 
crítica, duas são mais usuais: a crítica interna, 
quando se avalia o conteúdo da obra e o 
significado das ideias nela contidas, e a crítica 
externa, que ressalta o significado, a 
importância, o valor histórico da obra. 
Compreende a crítica do texto, a da 
autenticidade e a da proveniência. 
A resenha deve ser elaborada com 
apreciação justa, clareza de exposição, precisão 
e concisão, para cumprir sua finalidade de 
auxiliar na seleção de leituras. Além de seus 
objetivos gerais, (instrumento de pesquisa 
bibliográfica, atualização bibliográfica, decisão 
de consultar ou não o texto original), 
acrescentem-se os de desenvolvimento da 
capacidade de síntese, interpretação e crítica. 
Ela contribui para desenvolver a mentalidade 
científica e levar o iniciante à pesquisa e à 
elaboração de trabalhos monográficos. 
 Lakatos e Marconi (1995, p. 245), em 
propõem um roteiro para elaboração de 
resenhas científicas e/ou acadêmica: 
 
1. Referência bibliográfica 
2. Credenciais do autor 
3. Resumo da obra 
4. Conclusões da autoria 
5. Metodologia da autoria 
6. Quadro de referência do autor 
7. Crítica do resenhista 
8. Indicações do resenhista 
 
 
 
 101 
4.3.2 Textos e atividades 
 
1) Leia, com atenção, a resenha a seguir para responder ao que se pede. 
 
PIRANDELLO, Luigi. Henrique IV. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas. São 
Paulo: Edusp, 1991. 
 
Luigi Pirandello é natural de Agrigento. 
Nasceu na Sicília, em 1867, e morreu em 
Roma, em 1936. Romancista, contista, poeta, 
ensaísta, dramaturgo. Uma de suas obras mais 
famosas e constantemente representada é Seis 
personagens à procura de um autor, de 1921. 
Esta tradução oferece ao leitor brasileiro a 
oportunidade de conhecer o texto de Luigi 
Pirandello, que focaliza o homem que 
enlouquece, vítima de uma experiência 
desastrosa. Recupera sua saúde mental, mas 
prefere continuar fingindo-se louco, uma vez 
que se sente incapaz de enfrentar a realidade. 
Assim, o autor rompe os limites da loucura e 
da sanidade, da ilusão e da realidade, e já não 
pode saber o que é a verdade. Erige-se, 
portanto, o reino da total relatividade. 
O leitor está diante de uma obra teatral do 
maior dramaturgo deste Século. Um autor que 
é, ao mesmo tempo, irônico, sagaz e, às vezes, 
até pessimista. O significado de sua obra não 
pode ser apreendido imediatamente numa 
leitura linear, ou como espectador burguês, 
freqüentador de teatro para puro exibicionismo 
ou divertimento. É grande a profundidade das 
locações de Pirandello e, conseqüentemente, 
grande seu valor, bem como prazer que se 
extrai do texto. Pirandello destaca-se 
particularmente pela análise que faz da 
realidade/ilusão,falso/verdadeiro, a verdade 
das relações humanas e a máscara social. 
Para a crítica, o autor de O falecido Matias 
Pascal é considerado um autor intelectual, 
muito mais para ser lido e refletido que, 
propriamente, representado. Engano. Sua 
representação consegue manter o espectador 
atento, tenso com o desenrolar da ação e é 
capaz de levá-lo ao entendimento das ideias que 
subjazem ao texto. Em verdade, o autor criou 
um estilo próprio, inconfundível. 
Em Henrique IV, a personagem principal 
inventa para si uma personagem e transforma 
sua vida numa representação. Os espectadores 
e as próprias personagens que contracenam 
com Henrique IV vêem-no como louco que 
pensa ser o imperador alemão do século XI. 
Vive numa casa de campo há 20 anos. Seus 
parentes transformaram a propriedade em um 
palácio e contrataram empregados para 
representar os mais diversos papéis, inclusive o 
de conde e de conselheiros. 
Assim, todas as personagens representam 
para Henrique IV e alimentam sua loucura com 
encenações de situações históricas vividas pelo 
imperador alemão, particularmente suas 
discórdias com o papa Gregório VII. 
No segundo ato, Henrique IV revela aos 
empregados que sua loucura tivera a duração 
de 12 anos e que há oito anos está totalmente 
lúcido, isto é, somente nos últimos anos é que 
vinha representando, com tanta competência 
que ninguém percebera nada. 
Por que Henrique IV prefere a máscara da 
loucura à lucidez? Para rebelar-se contra a ideia 
de que o homem é o que a sociedade quer que 
seja. Retomando à vida normal, os outros é que 
lhe imporiam uma máscara, roubando-lhe a 
liberdade de ação. Com a loucura, pode tomar 
a iniciativa e submeter todos a seus caprichos e 
desejos. Prefere a loucura à sanidade para 
poder viver com prazer, viver para "vingar-me 
da brutalidade de uma pedra que me machucara 
a cabeça!". 
A desgraça de Henrique IV fora causada 
pela marquesa Matilde Spina e seu amante 
Belcredi. Apaixonado, fantasiara-se de 
Henrique IV numa fatídica cavalgada que 
terminou com sua queda, após seu cavalo ter 
sido ferido pelo rival. Ódio e vingança 
explodem então dentro dele. 
Após a revelação da personagem principal 
a seus empregados, a peça ganha ritmo tenso, 
 102 
alcançado pela ambigüidade que permanece até 
o fim. 
Henrique IV apóia-se no enigma da 
lucidez/loucura, ser/parecer louco, que 
provoca tanto espectadores quanto leitores. 
Até o segundo ato o espectador tem a certeza 
de que a personagem está louca; daí em diante 
não poderá afirmar categoricamente sua 
lucidez. Henrique IV a todos confunde, 
misturando fatos da vida real com os da vida da 
personagem criada para si. 
Ao final, o protagonista fere Belcredi com 
uma espada, concretizando sua vingança. E, 
assim, condena-se ao uso da máscara para 
sempre, uma única defesa contra a punição 
pelo assassínio de Belcredi. Agora, a máscara 
será uma imposição, uma prisão. E a 
personagem acaba não tendo outro nome que o 
de sua máscara. 
 
 
 
1. Identifique as partes estruturais presentes na resenha lida. 
2. A resenha lida apresenta todas as partes estruturais de uma resenha acadêmica? Explique. 
 
 
 
2) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. As atividades 
propostas foram adaptadas de Produção de texto: interlocução e gêneros, de Maria 
Bernadete (2007). 
 
Piratas do Caribe é um hamburgão de fantasia 
 
Se há uma palavra para designar a 
terceira parte da trilogia Piratas do Caribe, esta 
palavra é excesso. Piratas do Caribe 3 – No Fim 
do Mundo abusa dos efeitos visuais, das 
reviravoldas, traições sem sentido e das lutas. 
O diretor Gore Verbinski e o produtor Jerry 
Bruckheimer trabalharam com o excesso da 
imagem e da ação – e, claro, com um olho fixo 
na bilheteria. 
O filme, que estréia mundialmente hoje 
– e em 769 salas de cinema só no Brasil –, é 
todo ele um acúmulo de elementos. Os dois 
longas anteriores já arrecadaram 1,8 bilhão de 
dólares – e este No fim do mundo pode bater o 
recorde do anterior, O baú da morte, que 
amealhou nada menos que US$ 100 milhões 
em apenas dois dias de exibição. Ontem, na 
pré-estréia brasileira, que aconteceu na quinta 
gelada de São Paulo, no UCI do Shopping 
Jardim Sul, a agitação foi grande. Tinha até 
espectador vestido de pirata. Um abuso. 
Aliás, traje apropriado à poética do 
excesso da produção. No fim do Mundo dura 165 
minutos. Vem carregado de enredos, que 
correm paralelos sobre os trilhos do tema da 
morte. O roteiro compreende quatro linhas de 
trama. A primeira é o restate que os piratas 
têm de fazer de dois mortos: o do pai do 
mocinho Will Turner (Orlando Bloom), preso 
no navio Holandês Voador, e o resgate do 
pirata rebelde Jack Sparrow (Johnny Depp), 
desgarrado em uma geleira ártica. A segunda 
linha está na fronteira entre o mundo dos vivos, 
dos mortos e da imaginação. Há, em terceiro 
lugar, o amor entre os piratas bonitinhos Will e 
Elisabeth (Keira Knightley). E trata, por fim, 
do confronto entre o Mercantilismo, o 
Romantismo e a Natureza. É a melhor linha do 
longa-metragem. 
O capital é encarnado pelo lorde 
Cuttler Beckett (Tom Hollander), 
exterminador de piratas a serviço da 
Companhia das Índias. Ele diz, com um jeito 
cândido de Mozart, uma frase emblemática, 
quando tenta assassinar Sparrow: "Nada 
pessoal, Jack Sparrow. É apenas um bom 
negócio." O Romantismo tem duas frentes: 
Jack Sparrow, o pirata impenitente e niilista, e 
a Corte da Irmandade, uma entidade 
globalizada de bucaneiros, que se reúne para 
 103 
defender o mar sem-fronteiras contra os 
avanços da Companhia das Índias. A Natureza é 
representada pelo amor doentio do 
comandante Davy Jones (Bill Nighy), do 
Holandês Voador, pela deusa Calíope (Naomie 
Harris): o coração de Jones está aprisionado a 
um baú, ao passo que ele aprisiona Calíope na 
masmorra do navio. 
Não há profundidade nesse 
entrelaçamento de linhas, nem mesmo na mais 
forte delas. O fato de uma liga internacional de 
piratas ser a detentora dos princípios da 
liberdade, em contraposição aos negócios 
(aparentemente legais) da Companhia das 
Índias, não é convincente. Nem por que a 
morte pode ser mais divertida que a vida, como 
Sparrow tenta mostrar o tempo todo. Os 
valores são relativos neste filme, como em 
muitos outros produzidos por Hollywood. 
Tudo isso leva o espectador que não 
acompanhou os outros dois episódios a se 
perder no maremoto de fantasia de No fim do 
mundo. Mas ele é recompensado em pelo 
menos duas cenas. Pode descansar na 
seqüência, da solidão de Jack Sparrow, que 
contraccena com um exército de caranguejos 
camuflados de pedra e com o navio Pérola 
Negra. Aqui prevalece o talento de clown de 
Johnny Depp, uma espécie de Carlitos do 
século XXI. A cena é despida de efeitos: o 
pirata sobre o vazio, tentando puxar seu navio 
por uma corda. Outra cena que vale o filme é a 
da batalha entre os piratas e os lordes durante 
uma tempestade. Os efeitos especiais são 
fenomenais e bonitos, numa seqüência que 
deve durar mais de 20 minutos, com direito a 
tons cinzentos, movimentos vertigionosos das 
naves e uma luta tão brutal quanto fantasiosa. 
No olho de todo esse furacão, Elisabeth e Will 
encontram tempo parara serem casados pelo 
rival de Sparrow, o capitão Barbossa (Geoffrey 
Rush). Imagem de Zeitgeist: enquanto o casal 
se beija (numa temperatura altíssima para os 
padrões Disney), eles decapitam monstros 
marinhos e empalam oficiais ingleses. 
Muita rapidez, muito efeito e muitas 
histórias compõem No fim do mundo. É um 
hamburgão de fantasia. É preciso reconhecer 
que o excesso pega bem neste fim de década de 
2000. A audiência contemporânea sente fome 
de filmes carregados de efeitos e referências. 
Certamente o público se excede nas calorias do 
espírito para compensara dieta magra da vida 
real. 
 
(GIRON, Luís Antônio. Piratas do Caribe é um hamburgão 
de fantasia. Disponível em: 
<http://revistagalileu.globo.com>. Acesso em: 20 jan. 
2011) 
 
 
 
1. Qual a finalidade desse texto Piratas do Caribe é um hamburgão de fantasia? 
2. Observa-se que os parágrafos 2, 3 e 4 caracterizam-se por sua natureza mais informativa. Os 
demais parágrafos apresentam uma característica diferente. Qual é ela? 
3. Embora o 4º parágrafo tenha natureza informativa, em alguns trechos a opinião do resenhista 
começa a se manifestar. Identifique esses trechos. 
4. Segundo Luís Antônio Giron, quais são os pontos negativos e os positivos de Piratas do Caribe 3? 
5. Como pode ser interpretado o título do texto? 
 
 
 
4.2.3 Sugestão de atividade 
 
Leia, com atenção, os textos a seguir. 
Escolha um deles. Elabore uma resenha para 
ser entregue ao professor. 
O professor é responsável pela 
execução dessa atividade ou por sua alteração. 
 
 
 
 104 
Texto 1: O sentido da arte 
 
Há coisas que nunca imaginei que 
viveria para ver. Elas incluem assistir ao PT no 
comando da fisiologia nacional (sim, “? if 
culpa, mea maxima culpa”, eu fui um dos 
trouxas que acreditaram que o partido era 
“diferente”) e testemunhar o pedido da OAB 
(Ordem dos Advogados do Brasil) para que os 
trabalhos do artista pernambucano Gil Vicente 
sejam excluídos da Bienal de São Paulo, que 
começa neste sábado. 
É verdade que os desenhos da série 
“Inimigos” são fortes. Eles retratam o próprio 
artista atentando contra a vida de figuras 
públicas como Lula, Fernando Henrique 
Cardoso, Bento 16 e o presidente do Irã, 
Mahmoud Ahmadinejad. Mas, como já escrevi 
algumas vezes neste espaço, ninguém precisa 
de licença para dizer o que todos querem 
ouvir. Para fazer sentido, as garantias 
constitucionais à liberdade de expressão 
precisam ser robustas. Devem necessariamente 
abranger discursos, textos e imagens capazes de 
chocar e até de causar a revolta de parcelas da 
sociedade. Que boa parte dos cidadãos não 
entenda isso e proteste contra a exibição de 
obras específicas é esperado; que o presidente 
da OAB caia nessa mesma esparrela e advogue 
pela censura é sintomático da decadência dessa 
instituição, que já desempenhou papéis mais 
nobres na história deste país. Mas não 
pretendo, na coluna de hoje, falar mal da OAB. 
Isso eu já fiz num texto mais antigo. O que eu 
quero discutir é a arte. 
Para que diabos ela serve? A questão é 
das mais polêmicas entre neurocientistas. A 
exemplo do que se dá com a religião, os 
especialistas podem ser divididos no bloco dos 
que acreditam que a arte é uma adaptação 
humana obtida por seleção natural e o dos que 
pensam que ela é apenas um efeito colateral 
resultante da forma como nossos cérebros estão 
montados. No último grupo encontram-se 
pesos-pesados do neodarwinismo, como o 
eterno Richard Dawkins, Stephen Jay Gould e 
Steven Pinker. No primeiro, estão o próprio 
Charles Darwin (para ele, o senso estético era 
uma faculdade intelectual fruto da seleção), a 
antropóloga Ellen Dissanayake, o psicólogo 
Geoffrey Miller, e a dupla dinâmica da 
psicologia evolutiva, John Tooby e Leda 
Cosmides, que mudaram de lado, abandonando 
a tese da arte como subproduto para abraçar a 
teoria da adaptação. Mas prossigamos com um 
pouco mais de calma, pois essa é uma questão 
extremamente controversa e que envolve 
conceitos complicados. 
Dawkins, Gould e Pinker relutam em 
aceitar a arte como adaptação porque isso teria 
implicações profundas sobre a biologia. Em 
primeiro lugar, mesmo que recuemos o 
comportamento artístico para uns 50 mil ou 
100 mil anos atrás (e poucos ousam ir mais 
longe), esse ainda é um período curto demais 
para que a evolução tenha deixado marcas em 
nossos genes. 
Outra objeção forte é que admitir o 
caráter adaptativo da arte abre um flanco para a 
noção de seleção de grupo, vista com grande 
desconfiança pela linha dura do darwinismo. A 
ideia, defendida principalmente por 
Dissanayake, é que a arte teria sido selecionada 
porque, ao reforçar a coesão do grupo através 
de cantos e danças comunais, por exemplo, ela 
o tornaria mais apto a enfrentar bandos rivais e 
sobreviver. O problema com a seleção de 
grupo é que ela não é lá muito estável, porque 
sempre valeria a pena para indivíduos egoístas 
pegar uma carona na coesão grupal sem dar sua 
justa contribuição. Eles teriam maior sucesso 
reprodutivo, espalhando genes menos 
colaborativos. Seria assim muito difícil fixar 
num “pool” genético qualquer características 
que favorecem o grupo. 
É por essas e outras que Pinker 
classifica a arte como “cheesecake mental”, algo 
sem valor adaptativo em si, mas que explora, 
como as comidas gordurosas e doces, os 
mecanismos biológicos que nos dão prazer. 
Uma outra analogia válida é com as drogas 
recreativas. Seria até ridículo imaginar que elas 
representam uma adaptação, mas é inegável 
que afetam, e muito, nossos cérebros, 
 105 
proporcionando prazer em doses tão cavalares 
que podem mobilizar toda nossa atenção 
neuronal, como no caso do vício. 
A exemplo do neurocientista Michael 
Gazzaniga, autor de “Human: The Science 
Behind What Makes Your Brain Unique”, acho 
mais prudente não tomar partido nessa 
polêmica, mas apenas expor o que me parecem 
ser os melhores argumentos de cada lado. E, 
por falar em argumento, Geoffrey Miller, tem 
um interessante. Para ele, a arte é o resultado 
da seleção sexual. Ela está para o gênero 
humano como a cauda do pavão está para a 
família dos fasianídeos: uma exuberância 
biologicamente custosa que só existe porque 
atribui a seu detentor inequívoco sucesso entre 
as fêmeas, o que se traduz em importante 
vantagem reprodutiva. 
Curiosamente, a teoria de Miller acaba 
explicando um pouco da demografia da arte: 
considerados os grandes números, a maioria 
dos artistas são homens no pico da atividade 
sexual. São ideias que, se levadas muito a sério, 
tiram algo da transcendência da arte e nos 
aproximam dos canários. Mas quem disse que 
pássaros, ao cantar, não experimentam a versão 
aviária da transcendência? 
Outro ponto interessante é o da ficção. 
Foi ele que fez com que Tooby e Cosmides 
mudassem de posição. OK, todo mundo está 
cansado de saber que a arte é um universal 
humano. Não há aldeia indígena, por mais 
remota que seja, que não faça alguma coisa 
pragmaticamente inútil com penas e sementes e 
não se reúna para cantar e dançar. Mas isso não 
é tudo. A ficção, isto é, histórias inventadas 
também são universais e, exceto por 
fundamentalistas religiosos, ninguém as toma 
por realidade. Já desde a mais tenra idade 
aprendemos a ? iferencia-las. Para os dois 
pesquisadores, esse mecanismo de decupagem 
é um sinal de adaptação. Confundir fatos com 
ficções é, evidentemente, perigoso, como o 
provam os homens-bombas que imaginam ir 
para um paraíso repleto de virgens (Alcorão 
44:54 e 55:70) e “mancebos eternamente 
jovens” (Idem 56:17). Se desenvolvemos um 
sistema para operar a distinção e 
aparentemente estamos todos dotados com a 
capacidade de extrair prazer de narrativas 
inventadas, isso implica que a experiência 
ficcional é benéfica. Ponto para a adaptação. 
Resta apenas explicar como ela pode ser 
benéfica. Já abordei com algum detalhe esse 
tema na coluna “A título de brincadeira”, 
publicada em junho. O que vale a pena reter é 
que a ficção nos proporciona a possibilidade de 
“viver” determinadas situações. A experiência 
pode não ser tão intensa como na realidade e, 
embora isso atenue as sensações, também nos 
preserva dos perigos. Assistir no cinema a 
alguém sendo devorado por tubarões é mais 
seguro do que presenciar a cena “in loco”. 
Sempre pode sobrar uma dentada. Essa 
simulação segura é, em geral, uma boa 
oportunidade de aprendizado,seja para lidar 
com as próprias emoções, seja para adestrar-se 
numa atividade relevante. No mundo animal, 
as brigas de brincadeira entre filhotes são uma 
forma de aprendizado para a luta –sem o risco 
de ferimentos. 
É exatamente isso o que faz Gil Vicente 
ao “atentar” artisticamente contra Lula, FHC 
“et caterva”. De um só golpe, ele exibe seus 
dotes para o desenho, nos faz experimentar 
emoções e quem sabe até refletir. É o 
verdadeiro sentido da arte. Só a OAB não 
percebe aqui a diferença entre ficção e 
realidade. 
 
(SCHWARTSMAN, Hélio. O sentido da arte. Disponível 
em: 
<http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsma
n/802957-o-sentido-da-arte.shtml>. Acesso em: 20 de jan. 
2011) 
 
(Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel 
em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de 
Avicena – Uma Aventura no Afeganistão”, em 2001. Escreve 
para a Folha.com) 
 
 
 
 
 
 106 
Texto 2: Arte sem arte 
 
Não tenho a pretensão de estar sempre 
certo no que escrevo, nas opiniões que emito, 
muito embora acredite seriamente nelas. 
Não foi à toa que, de gozação, me 
apelidaram de profissional do pensamento, por 
tanto atazanar os amigos com minhas 
indagações e tentativas de explicação. Por isso 
também volto a certos temas, desde que 
descubra, ao repensá-los, modos outros de 
enfocá-los e entendê-los. 
Se há um tema sobre o qual estou 
sempre indagando é a situação atual das artes 
plásticas, precisamente porque exorbitaram os 
limites do que -segundo meu ponto de vista- se 
pode chamar de arte. Sei muito bem que 
alguém pode alegar que arte não se define e 
que toda e qualquer tentativa de fazê-lo 
contraria a natureza mesma da arte. 
Esse é um argumento ponderável e 
muito usado ultimamente, mas acerca do qual 
levanto dúvidas. Concordo com a tese de que 
arte não se define, mas não resta dúvida de 
que, quando ouço Mozart, sei que é música e, 
quando vejo Cézanne, sei que é pintura. Logo, 
a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de 
definir o que é arte não elimina o fato de que as 
obras de arte têm qualidades específicas que as 
distinguem do que não o é. 
Do contrário, cairíamos numa espécie 
de vale-tudo, numa posição insustentável 
mesmo para o mais radical defensor do que 
hoje se intitula de arte contemporânea. 
Isto é, o sujeito teria de admitir que 
uma pintura medíocre tem a mesma qualidade 
expressiva que uma obra-prima e que ele 
mesmo teria de se obrigar a gostar 
indistintamente de toda e qualquer coisa que 
lhe fosse apresentada como arte. Por mais 
insensato que possa ser alguém na defesa de 
uma tese qualquer, não poderia evitar que esta 
ou aquela coisa que vê ou ouve ou lê tenha a 
capacidade maior ou menor de sensibilizá-lo, 
emocioná-lo ou deixá-lo indiferente. 
Creio não haver dúvida de que, seja ou 
não possível definir o que é arte, há coisas que 
nos emocionam ou nos fascinam ou nos 
deslumbram e outras que nos deixam 
indiferentes. 
Se se der ou não a tais coisas a 
qualificação de arte, pouco importa: é inegável 
que a "Bachiana nº 4" é belíssima e que um 
batecum qualquer não se lhe compara, não nos 
dá o prazer que aquela obra de Villa-Lobos nos 
dá. 
Do mesmo, um desenho de Marcelo 
Grassmann me encanta e um desenho medíocre 
me deixa indiferente. Mas um artista conceitual 
-ou que outras qualificação se lhe dê- 
responderá que esta visão minha é velha, 
ultrapassada, pois ainda leva em conta valores 
estéticos, enquanto a nova arte não liga mais 
para isso. Mas pode haver arte sem valor 
estético? Arte sem arte? 
Essa pergunta me leva à experiência 
radical de Lygia Clark (1920-1988), sob muitos 
aspectos antecipadora do que hoje se chama 
arte conceitual. 
Dando curso à participação do 
espectador na obra de arte -elemento 
fundamental da arte neoconcreta-, chega à 
conclusão de que pode ele ir além, de 
espectador-participante a autor da obra, 
bastando, por exemplo, cortar papel ou 
provocar em si mesmo sensações táteis ou 
gustativas. Assim atingimos, diz ela, o singular 
estado de arte sem arte. 
De fato, esse rumo tomado por alguns 
artistas resultou da destruição da linguagem 
estética e na entrega a experiências meramente 
sensoriais, anteriores portanto a toda e 
qualquer formulação. 
Descartando assim a expressão estética, 
concluíram que se negar a realizar a obra é 
reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o 
que se chama de arte é o resultado de uma 
expressão surgida na linguagem da pintura, da 
gravura ou da escultura, buscar se expressar 
sem se valer dessa linguagem seria fazer arte 
sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem 
mesma da expressão. 
Isso nos leva, inevitavelmente, a 
perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: 
 107 
se amasso uma folha de papel, o que daí resulta 
é uma forma expressiva; pode-se dizer que se 
trata de uma obra de arte? Se admito que sim, 
todo mundo é artista e tudo o que se faça é 
arte. 
Já eu considero uma piada achar que 
todas as pessoas têm o mesmo talento artístico 
de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh 
ou que esse talento seja apenas mais um 
preconceito inventado pelos antigos. As 
pessoas são iguais em direitos, mas não em 
qualidades. 
 
(GULLAR, Ferreira. Arte sem arte. Disponível em:< 
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2111201022.htm>
Acesso em: 20 jan. 2011) 
 
 
 
4.4 Dossiê Biodiversidade, Ecologia e Meio Ambiente 
 
Nesta seção, você estudará diversos 
textos sobre questões que envolvem 
biodiversidade, ecologia e meio ambiente. O 
gênero textual escolhido para estudo dessa 
temática, nesta seção, foi o artigo científico. 
Não se pode excluir essa temática do fazer 
acadêmico; afinal, qualquer aspecto que 
envolve questões acerca de sustentabilidade e 
do discurso “verde” merecem uma atenção 
especial. Todos nós dependemos, para 
sobreviver, de um mundo ecologicamente 
correto. É na academia, sobretudo, que são 
discutidos pontos sobre essa temática, para que 
se chegue a respostas viáveis aos problemas. 
Espera-se que você aprimore suas habilidades e 
competências na aquisição das informações e na 
produção de conhecimento sobre a temática. 
 
4.4.1 Artigo científico 
 
 Conforme Votre, Pereira & Gonçalves 
(2009), a pesquisa não pode ficar restrita a um 
pequeno círculo de leitores. Sem divulgação, a 
pesquisa não cumpre o objetivo de ajudar a 
evolução da ciência, pois só se ela for conhecida 
por outros pesquisadores poderá ser usada 
como referência para futuros estudos. Assim, 
se queremos que nosso trabalho seja 
reconhecido e útil aos demais, devemos 
apresentá-lo em congressos e seminários ou 
publicá-lo na forma de artigos científicos em 
periódicos especializados. Veja que, mesmo 
que você opte por expor seu trabalho 
oralmente em congressos, costuma-se exigir do 
congressista uma versão escrita de seu texto, na 
forma de um artigo, o qual é publicado em 
anais do evento. No que diz respeito à 
publicação em periódicos, a primeira coisa que 
se deve esclarecer é que toda área tem os seus, 
impressos ou digitais, os quais divulgam 
resultados e métodos de pesquisas de forma 
bem mais detalhada e sistemática do que 
relatórios. 
Uma boa pesquisa bibliográfica alia a 
leitura dos clássicos em torno de uma 
determinada questão, os quais geralmente estão 
publicados na forma de livros, e a leitura dos 
mais recentes estudos sobre essa mesma 
questão, frequentemente publicados na forma 
de artigos científicos. Há dois tipos de artigo 
científico: a) artigos originais ou de divulgação, 
que apresentam temas ou abordagens originais, 
em relatos de caso, comunicações ou notas 
prévias; b) artigos de revisão, que analisam e 
discutem trabalhos já publicados e revisões 
bibliográficas. 
No artigo acadêmico (e em outros 
gêneros, como a monografia, a dissertação e atese), predominam os modos de organização 
textual expositivo e argumentativo, que 
normalmente vêm entrelaçados. A expectativa 
é que se comece expondo, criando o contexto 
da pesquisa, e que na análise dos dados e nas 
 108 
conclusões se enfatize o tom argumentativo, 
defendendo pontos de vista e sugerindo 
aplicações. Portanto, o texto deve ser marcado 
por concisão, coerência, coesão e clareza, 
aspectos já estudados nesta Coletânea, além de 
ser escrito na modalidade culta. A estrutura do 
artigo científico segue o que se esboçou 
anteriormente no projeto de pesquisa, o qual já 
supõe uma pesquisa de campo e/ou de revisão 
bibliográfica. No entanto, cabe ressaltar que 
um artigo tem dimensões menores que a de 
uma monografia, devendo, portanto, se centrar 
em um recorte mais específico. 
A seguir, você lerá um artigo 
acadêmico. As atividades a ele referentes visam 
a demonstrar a sua organização. 
 
4.4.2 Textos e atividade 
 
 Leia, atentamente, o artigo Lixo 
eletrônico em Patos de Minas: desafios e descarte. 
Em seguida, responda às seguintes questões: 
 
 
1. O resumo de um trabalho acadêmico tem a finalidade de apresentar, de forma concisa, os 
objetivos, a metodologia e os resultados alcançados em uma investigação. Verifique se tais elementos 
se fazem presentes no resumo desse artigo. 
2. Em toda pesquisa, existem questões às quais o investigador quer responder e que norteiam seu 
trabalho. Identifique as questões de pesquisa apresentadas pelas pesquisadoras no artigo. 
3. Os objetivos de uma pesquisa devem estar diretamente relacionados às questões de pesquisa, 
constituindo quase uma formulação afirmativa daquilo que foi colocado em forma de perguntas. 
Identifique os objetivos apresentados pelas pesquisadoras no artigo. 
4. A justificativa de um trabalho consiste em indicar a relevância do estudo empreendido. Mostre, no 
artigo, as contribuições apresentadas pelas pesquisadoras com a investigação realizada. 
5. A metodologia, em uma pesquisa, tem a função de narrar os procedimentos de coleta e análise dos 
dados que levaram à obtenção de resultados. Indique as ações realizadas pelas pesquisadoras para 
coletar e analisar os dados. 
6. Busque, no artigo, passagens em que são citadas ideias de outros autores. Verifique se tais autores 
integram a lista de referências. 
7. Os dados coletados em uma pesquisa devem ser apresentados e discutidos em relação à literatura. 
Verifique se esse procedimento pode ser observado no artigo. 
8. Verifique, no artigo, se a conclusão apresenta os seguintes itens: síntese dos resultados 
encontrados, sugestões e recomendações para trabalhos futuros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 127 
 
 128 
4.4.3 Sugestão de atividade 
 
 Muitos acadêmicos, no início do curso, 
ainda não conhecem periódicos da área. É 
interessante já no início da graduação tomar 
contato com textos de pesquisadores, pois, 
além do aprendizado de novos conteúdos, 
ganha-se mais intimidade com a escrita 
acadêmica, que pode variar em termos de estilo 
de uma área do conhecimento para outra. 
Vá à biblioteca de sua universidade e 
busque periódicos. Caso não saiba como fazê-
lo, peça ajuda ao bibliotecário do setor. Caso 
prefira, visite a base de dados on-line SCIELO, 
no endereço 
http://www.scielo.org/php/index.php. 
Busque periódicos de sua área e dê uma olhada 
nos artigos que encontrar. Faça um breve 
relatório dessa experiência, incluindo sua 
primeira impressão dos periódicos e dos 
artigos. Lembre-se de que toda pesquisa 
envolve uma etapa como essa, de levantamento 
de referenciais teóricos. 
O professor é responsável pela 
execução dessa atividade ou por sua alteração. 
 
 
4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento 
 
Esta seção se destina ao 
desenvolvimento de competências e habilidades 
para falar em público, em situações formais, 
principalmente aquelas ligadas ao meio 
acadêmico e ao exercício profissional. O 
gênero oral destacado será o seminário. Dessa 
forma, além de leitura e interpretação de 
textos escritos, haverá atividades da 
modalidade falada, por meio de seminários. Ao 
final da etapa, os alunos serão avaliados pelo 
conhecimento construído em torno do tema 
“tecnologia no mundo contemporâneo” e pelas 
habilidades e competências desenvolvidas em 
atividades formais de oralidade. 
 
4.5.1 Seminário 
 
O nome dessa técnica vem da palavra 
“semente”, o que parece indicar que o 
seminário deve ser uma ocasião de semear 
idéias ou de favorecer sua germinação. Talvez 
seja por essa razão que nas Instituições de 
Ensino Superior o seminário constitui, em 
geral, não uma ocasião de mera informação, 
mas uma fonte de pesquisas e de procura de 
novas soluções para os problemas propostos 
para pesquisa. 
O seminário é um recurso científico 
bastante dinâmico, em que se pode englobar, 
plenamente, a capacidade dos discentes, 
docentes e demais participantes, pois o 
seminário é um estudo aprofundado de uma 
questão. Proporciona o desenvolvimento da 
capacidade de pesquisa, de análise sistemática 
dos fatos, por meio do raciocínio, da reflexão, 
preparando o discente para a elaboração clara e 
objetiva dos trabalhos científicos. [...]. 
Em linhas gerais, o seminário é um 
grupo de pessoas que se reúnem com o 
propósito de estudar um tema sob a direção de 
um professor ou autoridade no assunto. Cabe 
aos discentes, antes de realizar a reunião do 
grupo, fazer uma leitura prévia sobre o assunto 
para que tenham subsídios a discutir no 
encontro grupal. 
 
 
 
 
 129 
4.5.2 Organização de seminário 
 
Uma prática comum nos cursos 
superiores é a adoção de seminários. 
Naturalmente, como toda comunicação oral, o 
seminário, deve levar em conta a linguagem 
falada (que se utiliza da entonação e ritmo), 
alguns aspectos físicos (dos 
apresentadores/falantes e do lugar) e o 
conteúdo que está sendo tratado. 
Ao apresentar um seminário, o 
expositor tem, como objetivo, transmitir um 
conteúdo, para interferir no conhecimento dos 
ouvintes. Para atingir esse objetivo, o expositor 
deve levar em conta aquilo que seus ouvintes já 
sabem sobre o tema; deve, ao longo de sua 
exposição, avaliar a dificuldade daquilo que está 
ensinando e, se necessário, dizer de outra 
maneira, reformular, dar exemplos. O 
expositor deve, também, promover e manter 
uma interação com os ouvintes, de forma a tê-
los atentos durante toda a sua apresentação. 
Uma forma de se conseguir isso é fazer 
perguntas, a fim de estimular a atenção dos 
ouvintes e de verificar se seus objetivos estão 
sendo atingidos, ou seja, se todo mundo está 
compreendendo sua exposição. 
É recomendável que o tema seja 
inserido de forma progressiva, que o expositor 
se aprofunde na discussão gradativamente, de 
modo a não comprometer a compreensão do 
que ele tem a dizer. Assim, um seminário pode 
ser dividido em partes para um melhor 
entendimento dos objetivos de cada uma de 
suas fases, desde a introdução até o 
fechamento. A seguir, uma proposta de 
seqüência das fases de um seminário. 
 
1 Abertura 
 
Um expositor (pode ou não fazer parte do 
grupo) dirige-se ao auditório, saúda-o e 
apresenta os expositores ou a si próprio se o 
expositor for ele mesmo. Exemplos: a) “Bom 
dia, pessoal! Gostaria de apresentar a vocês os 
componentes do meu grupo: Fulano, Ciclano, 
Beltrano ...”; b) “Atenção, turma! Vamos 
chamar à frente da classe o grupo Tal que vai 
falar a vocês sobre um tema muito interessante, 
a ser apresentado em forma de seminário...”2. Introdução ao tema e apresentação do plano da 
exposição 
 
Etapa de apresentação, delimitação do assunto. 
Dá ao orador a oportunidade de explicar as 
razões de suas escolhas. Essa fase deve 
mobilizar a atenção e a curiosidade dos 
ouvintes e, para isso, o expositor deve utilizar 
uma foto ou ilustração relacionada ao tema, 
colocar uma questão-isca que desperte a 
curiosidade, contar uma anedota, fazer 
perguntas etc. Deve esclarecer, ao mesmo 
tempo, sobre o produto (o texto planejado) e 
sobre o procedimento (a forma, a seqüência da 
exposição). Exemplos: a) “Esse seminário 
abordará tal assunto... Falaremos, 
primeiramente sobre... Depois, daremos 
alguns exemplos, para, em seguida, 
abordarmos os seguintes aspectos...”; b) 
”Vamos tentar explicar a vocês a importância 
da ... Iniciaremos com uma descrição geral 
sobre... Em segundo lugar, vamos nos ater 
especialmente a... Depois, faremos também 
um detalhamento... E, ainda, veremos... Por 
fim, iremos...” 
 
3 Desenvolvimento do assunto 
 
É o encadeamento dos diferentes temas (e 
subtemas), e a quantidade deles deve 
corresponder ao número anunciado no plano. 
Faz-se necessário ressaltar que esta fase é a mais 
importante do seminário e, para que as idéias 
sejam assimiladas pelos ouvintes, é importante 
que elas sejam expostas numa progressão 
coerente. A utilização de slides deve ser 
comedida; neles, os textos devem ser 
extremamente sucintos. Exemplos: a) “A 
questão que abordaremos agora é... Isso nos 
leva à seguinte reflexão:... Então, chegamos 
agora a um ponto muito importante...”; b) 
Devemos notar, sobretudo, esses dois 
aspectos... Em outras palavras, podemos 
chamar de... E, agora, exemplificando...” 
 
 130 
4 Recapitulação e síntese 
 
É a retomada dos pontos principais da 
exposição e também a fase de transição entre 
ela e a conclusão que virá a seguir. Exemplos: 
a) “Então, para terminar, vamos fazer uma 
síntese de tudo o que vimos até aqui...” b) “Em 
resumo, podemos dizer...” 
 
5 Conclusão 
 
É a transmissão da mensagem final, mas pode 
ser também, a proposta de um problema novo 
aos ouvintes, ou o início de um debate, uma 
roda de conversa, a execução de algum 
exercício ou atividade de verificação, uma 
dinâmica, etc. Exemplos: a) “Agora, 
finalizando nosso seminário, vamos colocar a 
seguinte questão...”; b) “Para concluir, 
queremos deixar a seguinte mensagem...” 
 
6 Encerramento 
 
Nessa fase, cabem os agradecimentos ao 
auditório. Exemplos: a) “Gostaríamos de 
agradecer a atenção de todos os presentes...”; 
b) “Esperamos que, de alguma forma, 
tenhamos contribuído para ampliar o 
conhecimento de vocês sobre...” 
 
Em resumo, apresentações orais em geral 
envolvem as etapas abaixo discriminadas, 
dentre outras: 1) explorar textos e/ou 
documentos diversos a fim de coletar 
informações sobre o tema a ser exposto; 2) 
ordenar os temas, subtemas e/ou tópicos, 
intercalando-os com exemplos, ao elaborar o 
plano de exposição; 3) preparar 
anotações/esquema, transparências, mapas, 
gráficos, tabelas... para servirem de suporte 
durante a exposição; 4) antecipar as 
dificuldades de compreensão dos ouvintes 
reformulando ou substituindo as palavras 
difíceis; 5) coordenar a distribuição da palavra 
entre os elementos do grupo; 6) treinar para a 
exposição, tomando consciência da importância 
da voz, do olhar, da atitude corporal. 
 
 
4.5.3 Sugestão de seminários 
 
 
 Os temas para a apresentação dos 
seminários estão listados a seguir. O professor 
é responsável pela execução da atividade ou por 
sua alteração. 
 
 
1. Tecnologia e mundo do trabalho 
2. Tecnologia, exclusão e inclusão 
3. Tecnologia e conhecimento 
4. Tecnologia e juventude 
5. Tecnologia e ética 
 
 
 
 131 
Referências 
 
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. 4. ed. São Paulo: Parábola, 2008. 
 
DISCINI, Norma. A comunicação nos textos: leitura, produção e exercícios. São Paulo: Contexto, 2005. 
 
EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto: redação, argumentação e leitura: técnicas inéditas de redação 
para alunos de graduação e ensino médio. São Paulo: Geração Editorial, 2008. 
 
FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Oficina de texto. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 
 
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed. São 
Paulo: Ática, 2006. 
 
FRANÇA, Junia Lessa; VASCONCELLOS, Ana Cristina de. Manual para normalização de publicações 
técnico-científicas. Colaboração de Maria Helena de Andrade Magalhães e Stela Maris Borges. 8. ed. rev. 
e ampl. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007. 
 
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever aprendendo a pensar. 12. ed. 
São Paulo: FGV, 1985. 
 
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2001. 
 
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 17. ed. São Paulo: 
Contexto, 2007. 
 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2. ed. São Paulo: 
Parábola, 2008. 
 
SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Português: livro 2: interpretação de textos. São Paulo: 
Anglo, 1990. Apostila. 
 
TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Práticas de linguagem: leitura e produção de textos. São Paulo: 
Scipione, 2001. 
 
TERRA, Ernani; NICOLA, José de; CAVALLETE, Floriana Toscano. Português para ensino médio: 
língua, literatura e produção de textos: volume único. São Paulo: Scipione, 2002. 
 
TOMASI, Carolina; MEDEIROS, João Bosco. Português jurídico. São Paulo: Atlas, 2010. 
 
VIANA, Antônio Carlos (Coord.) Roteiro de redação: lendo e argumentando. São Paulo: Scipione, 
1998. 
 
VOTRE, Sebastião Josué; PEREIRA, Vinícius Carvalho; GONÇALVES, José Carlos. Desenvolvendo a 
competência comunicativa em gêneros da escrita acadêmica. Niterói: EdUFF, 2010.

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