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EA
D
América Pré-colombiana: 
Zona Andina Central
4
ObjEtivOs1. 
Identificar as principais características das sociedades •	
pré-colombianas da zona andina central.
Conhecer a pluralidade cultural e étnica que compõe o •	
universo andino.
COntEúDOs2. 
Sociedades tribais da zona andina central pré-colombia-•	
na.
Primeiras civilizações andinas: chavín, nazca, tiahuanaco-•	
huari e chimú.
Incas: sociedade, economia, política e cultura.•	
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
152
OriEntAçõEs pArA O EstuDO DA uniDADE3. 
Leia as orientações a seguir, as quais são fundamentais ao 
estudo desta última unidade:
No Tópico 5, que tratará sobre os povos da zona andina 1) 
central, você observará que o fato de eles não produzi-
rem cerâmica nem desenvolverem agricultura não sig-
nifica que eles não possuíam técnica, mas sim que não 
precisavam dela. Diante disso, pense na seguinte máxi-
ma: a necessidade é a mãe das invenções? Lembre-se de 
que não podemos julgar uma cultura com o olhar e os 
referenciais de outras. 
Nesta unidade, você vai conhecer um pouco da obra de 2) 
Garcilaso de la Vega, um mestiço filho de pai espanhol 
e mãe indígena (nobre inca). Esse escritor, após mui-
tos intentos de se incorporar à sociedade criolla e de 
ser aceito como espanhol, ao final de sua vida (já em 
território espanhol), decidiu narrar a vida e história de 
seus antepassados maternos – os incas, os quais serão 
aqui abordados. Tal fonte foi muito difundida na Europa 
quando da época de sua publicação, ganhando versões 
em francês, inglês e outros idiomas. Apesar de ela guar-
dar muitos elogios ao catolicismo, a partir dessa obra, 
intensificaram-se vários mitos a respeito da justiça social 
que haveria existido no império inca, assunto muito im-
portante para este estudo. Portanto, recomendamos que 
você busque conhecer esse renomado trabalho, fazendo 
o download de seu texto completo no site disponível 
em: <http://www.bibliotecasvirtuales.com/biblioteca/
LiteraturaLatinoamericana/IncaGarcilasodelaVega/Co-
mentariosReales/index.asp>. Acesso em: 24 nov. 2010. 
Para iniciar o estudo da Unidade 4, é importante que 3) 
você conheça, pela Figura 1, o mapa físico e geográfico 
do Peru atual. Durante seu estudo, lhe orientaremos a 
visualizar esse mapa para um melhor entendimento so-
bre o assunto em questão.
153© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Fonte: Kláren (2005, p. 26).
Figura 1 Mapa físico e geográfico do Peru atual.
A Figura 2 permite a você uma clara visualização do que 4) 
descreve o conteúdo estudado nesta unidade.
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
154
Figura 2 Mapa topográfico do Peru.
Na Figura 3, você pode visualizar o relevo dos Andes, re-5) 
sultante da ação das placas tectônicas. Um desenho que 
ilustra litoral, montanhas e florestas, de oeste para leste, 
à semelhança da Figura 3, também seria interessante e 
serviria como um exemplo de perfil topográfico. 
155© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Figura 3 Estrutura geológica dos Andes.
intrODuçÃO à uniDADE4. 
Nas unidades anteriores, você acompanhou o desenvolvi-
mento das principais sociedades pré-colombianas da região me-
soamericana. Lembre-se de que, em virtude dos problemas relati-
vos às fontes mencionados na Unidade 1, há muitas especulações, 
teorias e hipóteses sobre esses povos; portanto, trata-se de um 
exercício de aproximação e investigação que sempre permite no-
vas interpretações e abordagens. 
Dando continuidade aos estudos dos chamados “povos ame-
ríndios”, nesta unidade, trabalharemos de maneira mais detida as 
principais características das sociedades localizadas na região an-
dina central. Com certeza, você já deve ter ouvido algo sobre os 
incas e a “cidade perdida” de Machu Picchu (Figura 4).
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
156
Fonte: arquivo pessoal.
Figura 4 Machu Picchu.
Durante muito tempo, acreditou-se que os povos da zona 
andina central tivessem vivenciado um desenvolvimento indepen-
dente ao de seus vizinhos mesoamericanos. No entanto, da mes-
ma forma que as características geográficas do continente permi-
tiram uma ampla dispersão dos primeiros "americanos", o mesmo 
aconteceu com os demais povos que apareceram no decorrer dos 
séculos e milênios, o que abriu possibilidades para a ocorrência de 
encontros entre eles.
Muitos indícios, como a adoção de técnicas agrícolas e a im-
portação de tipos específicos de alimentos e de estilos de confec-
ção de cerâmicas, nos apontam para esse caminho. Outro vestígio 
que nos permite pensar na validade dessa afirmação é encontrado 
nas semelhanças existentes entre os rituais religiosos dos olmecas 
e dos chavins.
Assim como na sociedade mesoamericana, havia, por parte 
dos chavins, a adoção de entidades felinas em seus rituais. Confor-
157© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
me sugere Murra, "através das planícies tropicais, Chavín pode ter 
alcançado fontes de inspiração muito mais antigas na Mesoaméri-
ca" (2004, p. 76).
Teriam os olmecas influenciado os chavins? Não podemos 
afirmar nem que sim nem que não. Essa é apenas uma hipótese, 
aceita por alguns, refutada por vários. Entretanto, no estudo des-
ses povos do passado americano, pensamos que a melhor pergun-
ta a ser feita é: "por que não?".
Nós já conhecemos os olmecas; então, vamos ver, no próxi-
mo tópico, um pouco mais sobre os chavins e as primeiras socieda-
des da zona andina central.
priMEirOs pOvOs DA ZOnA AnDinA CEntrAL5. 
O desenvolvimento da vida em sociedade na zona andina 
central é marcado por uma diferença estabelecida por suas pecu-
liaridades geográficas. Como sabemos, essa região recebe o nome 
de “zona andina” por conta da presença imponente da Cordilhei-
ra dos Andes, que se estende da fronteira norte do Chile com o 
Peru, passando pelo noroeste argentino, cortando todo território 
de Peru, Bolívia, Equador e Colômbia, e se expande até a porção 
oeste da Venezuela.
Assim, a cordilheira, por onde passa, estabelece uma nítida 
divisão entre costa, serra e floresta. No Peru (região atual), o qual, 
no passado, concentrou as principais sociedades pré-colombianas 
da região andina central, essa separação é ainda mais evidente. O 
país atual divide-se em três faixas verticais, muito bem delimitadas 
pelos Andes, que dispõem: à esquerda, a região costeira; à direita, a 
região da selva; e, no centro, a região andina, conforme você pode 
ver no recorte topográfico disponibilizado ao final desta unidade. O 
pico mais alto da cordilheira andina se chama Huascarán e está a 
6.768 metros acima do nível do mar.
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
158
A geografia não somente influencia a paisagem, mas tam-
bém os hábitos e costumes de cada civilização. O clima frio, o ar 
rarefeito e a flora escassa da região andina contribuíram para o 
desenvolvimento de sociedades muito mais "avançadas" tecnolo-
gicamente do que aquelas da costa e, especialmente, da selva. O 
fácil acesso a alimentos produzidos na floresta fez que o desenvol-
vimento de técnicas de cultivo e armazenagem de alimentos não 
fosse uma necessidade dos povos das selvas.
Por causa dos sambaquis, é possível verificar que a coleta de 
moluscos e frutos do mar na costa pacífica gerou condições para 
que povos se tornassem semissedentários, apesar de uma vida 
baseada somente na caça e coleta. Posteriormente, já no Holo-
ceno, com o descongelamento dos oceanos e o aumento do nível 
do mar, foi possível o desenvolvimento de técnicas de pesca e de 
construção de barcos pesqueiros.
Nos Andes, as baixas temperaturas obrigaram à construção 
de casas mais resistentes feitas de pedra, e a baixa disponibilidade 
de alimentos selvagens levou à necessidade de se criar estruturas 
de armazenagemde alimentos, bem como o desenvolvimento de 
novas técnicas de agricultura e plantio. Tais condições provocaram 
o trabalho associativo de grupos de pessoas, também conhecido 
como “reciprocidade andina”, conforme veremos adiante.
Além da geografia e da fauna, outro elemento possui impor-
tância para o desenvolvimento de mais técnicas de sobrevivência 
nesse local: a presença de camélidos, tais como alpacas, vicunhas 
e lhamas. 
Se, por um lado, as condições de vida mais difíceis nas altitu-
des dos Andes possibilitaram o desenvolvimento de técnicas mais 
avançadas de sobrevivência, por outro, as boas condições de vida 
na costa permitiram o surgimento das primeiras sociedades orga-
nizadas na zona andina central.
Há indícios que apontam para a presença de comunidades 
de sambaquis no vale de Chira-Piura, como você pode observar no 
159© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
mapa da Figura 1, por volta de 11.000 a.C. a 8.000 a.C. Já a utiliza-
ção de pontas de pedra muito bem talhadas para a pesca ocorreu 
na região de Trujillo e remonta a um período entre 10.000 a.C. e 
7.000 a.C. 
Apesar da vida semissedentária, essas populações ainda es-
tavam muito expostas às alterações climáticas, o que ocasionavam 
várias e constantes levas de migração ou a extinção da vida organi-
zada, como vimos na Unidade 1.
Somente por volta de 2.500 a.C. foi que surgiram as primei-
ras sociedades organizadas, em forma de pequenas aldeias que 
viviam do cultivo de plantas e da criação de animais. Conforme 
escreve o peruanista americano Peter Kláren:
[...] começaram a surgir pequenas aldeias povoadas por granjeiros 
e pescadores nos férteis vales ribeirinhos da costa norte peruana. 
Elas marcaram a passagem dos acampamentos de caçadores e co-
letores para os assentamentos mais permanentes. Estes antigos 
peruanos viviam em casas simples de tijolos, cultivavam batatas, 
feijões, algodão, com o que teciam sua roupa e pescavam no mar 
vizinho (2005, p. 28).
Não demorou muito para essas sociedades desenvolverem 
outras técnicas de agricultura que possibilitavam o crescimento 
populacional e geográfico de seus domínios. Todavia, a princi-
pal invenção a dar novos rumos para a história desses povos foi, 
sem dúvida, o sistema de irrigação. Isso ocorreu entre 3.000 a.C. 
e 1.800 a.C., expandindo-se rapidamente e sendo assimilado por 
outras culturas. Ainda segundo Kláren: 
A difusão da irrigação permitiu aos povos costeiros trasladar seus 
assentamentos terra adentro a partir da costa, subindo pelos vales 
às estribações dos Andes. A construção de canais de irrigação lhes 
permitiu cultivar e produzir mais de um produto por ano. Além do 
amendoim e feijões, apareceram novos cultivos tais como o abaca-
te, a batata, a batata doce e o amendoim, assim como o algodão 
(2005, p. 28). 
Além dos sistemas de irrigação, outra tecnologia desenvol-
vida que possibilitou um salto no grau de estruturação social dos 
povos "peruanos" foi a cerâmica. Esta, desenvolvida por volta de 
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
160
1.800 a.C. sob influência da região norte do Peru, permitia a esto-
cagem de alimentos e era utilizada na realização de rituais religio-
sos mais elaborados.
A cerâmica, denominada “valdívia”, surgiu na América, na 
porção sul do Equador (quase divisa com o norte do Peru). Acha-
dos arqueológicos na cidade de Lima, na Huaca Pucllana, apontam 
a utilização da cerâmica em rituais cerimoniais, que se configura-
vam na oferenda de grandes vasos de cerâmica ao Sol. Depois de 
serem quebrados, eram erguidas sobre eles estruturas administra-
tivo-religiosas.
Na zona andina central, a primeira grande sociedade a nos 
deixar vestígios sobre sua organização e a apontar padrões de 
comportamento social definidos foi a chavín, já mencionada an-
teriormente. Você deve estar curioso para saber um pouco mais 
sobre eles, não é mesmo?
Então, vamos lá!
Chavín
A sociedade chavín desenvolveu-se entre 800 a.C. e 300 a.C. 
Localizava-se na serra norte de Ancash, perto da atual cidade de 
Huaráz, na região central do Peru. Para que você a encontre no 
mapa da Figura 1, está na região andina, na altura entre Chimbote 
e Lima, perto do rio Pachitea.
A princípio, arqueólogos como Julio Tella acreditavam que se 
tratava de um povo natural dos Andes, sendo, assim, a matriz ét-
nica da civilização andina. No entanto, estudos recentes apontam 
para a sua origem amazônica.
A localização de chavín contribuiu consideravelmente para 
o seu desenvolvimento, uma vez que ficava no meio do caminho 
de uma rota de intercâmbio entre a costa e a selva e no encontro 
de vários rios importantes para a irrigação da região, como o rio 
Tingo.
161© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Chavín não pode ser considerada uma sociedade urbana. No 
entanto, configurou-se como um grande centro cultural e religioso, 
que contribuiu para a difusão de concepções religiosas que esta-
riam presentes em quase todas as sociedades andinas sucessoras.
Essa importância foi consolidada pela construção do Templo 
del Dios Sonriente (“Templo do Deus Sorridente”, em português), 
que você terá a oportunidade de conhecer na Figura 5. Debaixo 
do templo, foram construídos canais de passagem de água que 
vinham dos rios originados do degelo da cordilheira. O som pro-
duzido pela passagem da água no subsolo do templo conferia-lhe 
ainda maior mistério.
Figura 5 Painel em baixo-relevo do Deus Sorridente da civilização chavín, em Ancash.
Para os povos da época, esse templo era o lugar mais sagra-
do de todos; era o centro do Universo. Tal relação do sagrado com 
a localização geográfica do cosmo seria algo que permaneceria em 
todas as sociedades andinas.
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
162
Além dessa espacialização da divindade, outra contribuição 
fundamental dos chavins foi a associação das produções metalúr-
gicas e têxteis com os rituais religiosos. A produção de tecidos pos-
suiu uma relação importante com o poder espiritual até a época 
dos incas. Muitas oferendas ou doações entre líderes tribais eram 
feitas à base de tecidos minuciosamente produzidos. Ademais, a 
faca de sacrifício feita de ouro representava a herança da relação 
entre o ritual e a metalurgia.
Outro importante elemento introduzido pelos chavins à cul-
tura e à religião andina foi a figura de três importantes símbolos 
da religiosidade andina: a ave de rapina (condor), o puma e a ser-
pente.
Como escreve Meggers (1979, p. 99), “o aspecto mais espe-
tacular da cultura Chavin é o seu estilo artístico, que retrata feli-
nos, serpentes e aves de rapina ornados e altamente estilizados".
Assim como os olmecas introduziram a figura do jaguar, deus 
da chuva, e organizaram o panteão básico de deuses da cultura 
mesoamericana, os chavins foram responsáveis pela inserção do 
puma aos rituais religiosos e pela criação de vários rituais que se 
repetiriam.
Ainda que seja difícil comprovar a relação entre os olmecas (zona 
mesoamericana) e os chavins (zona andina central), essa possi-
bilidade não pode ser totalmente descartada. Nesse sentido, será 
que a adoção de deuses felinos no panteão chavín não pode ter 
sido influência mesoamericana? Eis o questionamento: por que 
não?
No entanto, não somente contribuições religiosas foram dei-
xadas pelos chavins. A criação de aquedutos e túneis subterrâneos 
de passagem de água e a adoção da mandioca na alimentação e 
de técnicas de cultivo possibilitaram o crescimento de novos po-
vos e novas tribos em volta de sua região. No apogeu chavín, sua 
influência atingiu partes ao norte de Ancash até Cajamarca e, ao 
sul, até Arequipa.
163© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Justamente por isso é que Kláren destaca a importância dos 
chavins, uma vez que eles uniram "pela primeira vez as culturasnão relacionadas entre si em todo Peru, com uma religião e tecno-
logia compartilhada" (2005, p. 30). 
A influência dos chavins perdurou mais do que sua socieda-
de. Por volta de 300 a.C., sua importância econômica e política deu 
espaço para outros povos, tais como os moches (ou mochicas) e os 
nazca.
Moche e nazca
Enquanto os moches se desenvolveram ao norte do Peru, na 
região costeira perto da atual cidade de Trujillo, os nazcas cresce-
ram na porção andina, no vale da atual cidade de Ica, na região sul 
do litoral peruano. Os moches alcançaram seu apogeu por volta do 
ano 400 d.C.; já os nazcas existiram entre os anos 100 d.C. e 600 
d.C.
Entre os povos que se desenvolveram nos cinco primeiros 
séculos da Era Cristã no Peru, aqueles sobre os quais possuímos 
maiores informações são os moches. Esse conhecimento é possí-
vel por conta de sua significativa e diversificada produção de arte-
fatos de cultura material. Eram grandes ourives, construtores de 
pirâmides e ceramistas.
As cerâmicas mochicas são as principais fontes que possuí-
mos para compreender a organização social desse grupo. Por meio 
delas, é possível perceber a existência de hierarquias sociais e de 
divisão do trabalho (como escravos, guerreiros, artesãos, pescado-
res etc.). Além disso, podemos nos aproximar de elementos de sua 
religiosidade, tais como a sua mitologia e a existência de sacrifícios 
humanos.
Detalhes da vida cotidiana também são possíveis de serem 
captados, como, por exemplo, tipos elaborados de penteados, 
vestimentas estilizadas, diferenciação social por trajes etc. O mais 
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
164
interessante é que, por meio das análises das cerâmicas, é possí-
vel perceber que vários elementos da vida andina retratada pelos 
cronistas durante o processo de conquista da América já existiam. 
Entre elas, temos "liteiras para transportar indivíduos de classe 
elevada, corredores para levar mensagens (correio) e organização 
militar" (MEGGERS, 1979, p. 102). Note como os vestígios mate-
riais deixados por uma sociedade podem fornecer importantes in-
dícios a respeito de seu modo de vida.
Outro legado impressionante da cultura moche foi a chama-
da "construção civil". Utilizando-se de técnicas de confecção de 
blocos de adobe, eles levantaram enormes prédios, os quais im-
pressionavam a todos que passavam por seus domínios. Sua maior 
construção foi, sem dúvida, a Huaca del Sol, um complexo cerimo-
nial e administrativo construído na capital mochica, localizada no 
vale de Moche.
A pirâmide impressiona até hoje pelo tamanho que tinha, 
podendo ser comparada às construções piramidais do Egito. Meg-
gers (1979, p. 107) a descreve assim:
[...] consiste numa imensa plataforma de 228 por 136m de base e 
18m de altura com lados terraceados e um caminho que conduz ao 
extremo norte. Na parte sul do cume uma pirâmide com 103m2 e 
23m de altura. 
Na Figura 6, você pode visualizar a Huaca del Sol atual e a sua 
reconstrução computadorizada, feita pelo canal televisivo History 
Channel.
165© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Figura 6 Huaca del Sol.
Trata-se de um achado recente, realizado em meados do sé-
culo 20, e que ainda apresenta muitas informações a serem deci-
fradas. No entanto, em seu interior, é possível verificar a existência 
de afrescos que descrevem costumes e rituais. Sobre esses últimos, 
dentro da Huaca del Sol, foram encontrados restos de esqueletos 
humanos sacrificados.
Em volta dessa enorme construção, os arqueólogos acredi-
tam que uma grande cidade se ergueu, uma vez que ela possui 
não somente a função religiosa, mas especialmente administrati-
va, servindo como a moradia dos governantes.
Os moches provavelmente ergueram a primeira cidade da 
América do Sul ainda no início da Era Cristã. Não só as grandes 
construções atestam isso, mas também a intensa produção e es-
trutura agrícola (grandes canais de irrigação). A estratificação so-
cial bem delimitada nos permite afirmar que se tratou de uma 
sociedade urbana; aliás, a cultura moche exerceu fascínio e influ-
ência cultural e econômica em uma extensa região, que englobou 
vários vales até a região de Casma, próximo à cidade de Chimbote, 
de acordo com o mapa da Figura 1.
Outra importante característica dos moches é a ourivesaria. 
Joias, anéis, adornos para o corpo, roupas, camisas e coletes são 
alguns dos artefatos confeccionados em ouro por esse povo. Um 
importante achado arqueológico que nos possibilita encontrar tais 
artigos é o Senhor de Sipán, mencionado na Unidade 1.
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
166
A civilização nazca é uma das mais conhecidas pelo público 
comum após os incas. Boa parte desse conhecimento vem de suas 
famosas linhas desenhadas em forma de gigantescos animais no 
solo semiárido dos Andes peruanos. Vamos acompanhar alguns 
desses desenhos nas Figuras 7, 8, 9 e 10.
Figura 7 Baleia. Figura 8 Aranha.
Figura 9 Macaco. Figura 10 Linhas de nazca.
Durante boa parte do século 20, esses desenhos levantaram 
polêmica e povoaram o imaginário racionalista do Ocidente com a 
seguinte indagação: como eles fizeram isso?
Essas imagens somente podem ser vistas a uma distância ra-
zoável do chão, mas eles não possuíam nenhuma tecnologia para 
sobrevoar a região. Então, quem os orientou a fazer desenhos tão 
grandes e tão perfeitos sem o auxílio de tecnologias tão modernas 
quanto as nossas?
Uma das respostas a essas perguntas foi formulada pelo es-
critor holandês Erich von Däniken. Em sua obra Eram os Deuses 
167© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Astronautas? (1968), ele afirmou que a obra nazca somente po-
deria ser feita orientada por um observador que estivesse no céu, 
no espaço, ou seja, extraterrestre. Além disso, sustentou que as 
linhas retas que acompanham e marcam os desenhos e boa parte 
da região eram, na realidade, pistas de pouso para aeronaves ex-
traterrestres. 
Apesar da fascinante e intrigante resposta trazida por Erich 
von Däniken, tal teoria nos parece um grande exercício de etno-
centrismo, uma vez que não se aceita que obras tão magníficas 
sejam feitas sem a utilização de técnicas e cálculos existentes ape-
nas em nossa cultura. Trata-se de uma afirmação que diz: um povo 
tão primitivo e atrasado não poderia fazer algo sem o avião e o 
helicóptero, inventados, somente, em nossa cultura.
Parte do mistério foi desvendada pela pesquisadora polone-
sa Maria Reiche. Levantando um andaime de cerca de cinco me-
tros de altura do chão, Reiche demonstrou que é extremamente 
possível observar as figuras por completo. Assim, em vez de um 
"ET", bastava um homem encarregado pela obra ditar ordens aos 
seus subordinados no chão.
Hoje, para se observar as linhas de nazca, no local, há três 
opções: a primeira é sobrevoar a região; a segunda é subir na tor-
re, denominada “Maria Reiche”, construída às margens da Rodovia 
Pan-americana; e a terceira é fazer o download gratuito do softwa-
re Google Earth e procurar as figuras no computador.
Contudo, uma segunda dúvida persiste: por que fizeram es-
ses desenhos? Antes de respondermos a essa questão, vamos co-
nhecer um pouco melhor os nazcas.
Além das linhas de nazca, pouco se sabe sobre essa socie-
dade. Como apresentamos anteriormente, trata-se de um povo 
que viveu em uma região semidesértica, onde a água era muito 
escassa e a área total para o cultivo agrícola era muito menor se 
comparada às regiões costeiras, como no caso dos moches.
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
168
Dessa forma, os períodos constantes de seca e a ausência de 
rios importantes na região obrigaram o surgimento de duas téc-
nicas agrícolas muito importantes: a criação de aquedutos para 
aproveitar os chamados "rios subterrâneos" e o desenvolvimento 
da cerâmica.Aliás, a cerâmica nazca, assim como seu tecido, é de 
excelente qualidade e destaca-se pelo colorido e estilo próprios. 
Essas breves características levantadas sobre os nazcas nos 
permitem retornar à pergunta suscitada anteriormente a respeito 
do porquê dos desenhos. Como você viu, por conta das dificulda-
des geográficas, a agricultura era algo extremamente difícil e im-
portante. Justamente por isso, era muito valorizada pela cultura 
local, tendo centralidade em sua vida.
A importância era celebrada, realçada e lembrada por ma-
nifestações culturais, como, por exemplo, construções. Dessa ma-
neira, podemos dizer que tais desenhos guardam relações com o 
ciclo agrícola e as técnicas de irrigação desenvolvidas. Nas ima-
gens apresentadas anteriormente, repare que há linhas retas que 
cortam os desenhos, representando o caminho feito pela água no 
subsolo.
Apesar de a relação entre desenhos e agricultura ser algo 
amplamente aceito pelos pesquisadores, alguns autores diver-
gem sobre o significado das obras. Paul Kosok e Maria Reiche, por 
exemplo, viam os desenhos como um grande calendário agrícola 
que demarcaria os ciclos de plantio, seca e colheita; todavia, hoje 
se acredita que, em torno dos desenhos, ocorriam festividades 
que se relacionavam à agricultura, mas, primordialmente, à água.
Kláren (2005, p. 32) considera que "mais plausível parece à 
idéia apresentada por J. Reinhard, a respeito de que elas [as li-
nhas] formavam parte dos rituais associados com o transporte de 
água ao vale de Nazca”. 
Assim, as linhas demarcariam trajetos de encontros entre 
grupos de pessoas que traziam água armazenada em cerâmicas, 
representando o percurso feito pelos aquedutos subterrâneos que 
garantiam a existência de vida a eles.
169© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
tiahuanaco-Huari
A partir do século 5º, as sociedades que prevaleceram nos 
Andes foram Tiahuanaco (ou Tiwanaku) e Huari (ou Wari). Além de 
se constituírem como duas grandes sociedades de características 
urbanas e alto grau de desenvolvimento tecnológico, elas repre-
sentaram, em seu período, uma síntese da cultura andina, tal qual 
ocorreu na época dos chavins.
Vale ressaltar que o fato de analisarmos uma sociedade após 
outra não quer dizer que as anteriores deixaram de existir da noi-
te para o dia. Ao contrário, continuaram existindo, mas passaram 
a sofrer influências de outros grupos. Além disso, problemas cli-
máticos e geográficos levaram à diminuição de seus contingentes 
populacionais e, consequentemente, à diminuição de sua zona de 
influência.
Durante muito tempo, acreditou-se que essas duas socieda-
des, Tiahuanaco e Huari, chegaram a conviver compartindo terri-
tórios, leis e costumes regulados por uma mesma capital. No en-
tanto, essa afirmação não pôde ser comprovada.
Como esclarece John Murra (2004, p. 76):
[há] testemunhos de contemporaneidade e mesmo contato en-
tre ambos; no começo do século, costumava-se considerar os dois 
uma única comunidade política, cuja capital ficava nas montanhas 
do sul. Pesquisa recente sugere que, embora tiahuanaco e huari 
possam ter exercido sua hegemonia ao mesmo tempo, suas esferas 
de interação foram distintas.
Assim, os tiahuanacanos viveram próximos do lago Titicaca, 
como mostra o mapa da Figura 1, na divisa do Peru com a Bolí-
via, em uma das regiões habitadas mais altas e frias dos Andes, 
a cerca de 3.800 metros acima do nível do mar. Para eles, o lago 
constituiu-se peça fundamental para o desenvolvimento agrícola 
de sua grande cidade.
As margens pantanosas do lago Titicaca geravam um terreno 
fértil para o plantio de batata e de quinoa. Além disso, os tiahuana-
© História da América I
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170
canos utilizavam sistemas de ilhas flutuantes feitas de junco (tais 
como as chinampas astecas) para o plantio, e o restante de sua 
dieta era completado por carne de camélidos. Essa é uma região 
dos Andes onde, historicamente, há uma grande quantidade de 
lhamas e alpacas. Além das chinampas para o plantio, com o junco, 
eles construíam barcos de pesca.
Em volta do lago, também construíram sua capital, que che-
gou a possuir cerca de 6,5km2 de extensão territorial, cobertos por 
estruturas feitas com grandes pedras. Diferentemente dos mo-
ches, que utilizavam blocos de adobe para erguer suas estrutu-
ras, os tiahuanacanos construíram seus templos, portais e palácios 
utilizando-se das enormes pedras retiradas dos próprios Andes.
A Porta do Sol, principal monumento da cidade de Tiahua-
naco, o qual ainda existe, possui três metros de altura por cinco 
metros de largura e pesa cerca de dez toneladas. Outros monu-
mentos impressionam pelo tamanho das pedras utilizadas e pela 
grandiosidade das esculturas.
Na Figura 11, você pode ver a entrada da cidade de Tiahua-
naco, localizada no lado boliviano do lago Titicaca. Ao fundo, a por-
ta do Sol.
Figura 11 Entrada da cidade de Tiahuanaco.
171© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Na parte superior da Porta do Sol, existe um calendário solar 
com ênfase para fases de plantio e colheita. Além disso, há figuras 
mitológicas esculpidas compondo o calendário, como o deus pan-
andino Wiracocha.
São poucos os detalhes que possuímos a respeito da vida 
cotidiana em Tiahuanaco. Nada sabemos de sua organização social 
e temos poucas informações sobre sua religião. Todavia, sabemos 
que esta foi fundamental para o estabelecimento de sua influência 
sobre os demais povos da região.
Segundo se especula, tal "dominação" não teve um caráter 
militar, mas, sim, religioso e cultural. Isso faz que os tiahuanaca-
nos sejam, hoje, um dos povos mais exaltados por religiões e sei-
tas exotéricas. Há até quem diga que Atlântida se encontrava na 
região andina do Titicaca, como diz o pesquisador britânico Jim 
Allen. O período protagonizado por Tiahuanaco-Huari é conhecido 
como “urbano clássico”.
Os huaris encontravam-se em uma parte mais baixa da cor-
dilheira, onde hoje se localiza a cidade de Ayacucho, conforme 
mostra a Figura 1. Diferentemente do caso dos tiahuanacanos, ali 
não havia um grande lago que propiciasse o desenvolvimento de 
grandes áreas de plantio. Ao contrário, existiam várias cadeias de 
montanhas e um misto de vales áridos e picos gelados.
Como forma de superar essa dificuldade geográfica, os hua-
ris desenvolveram um sistema de plantio que utiliza como base os 
próprios Andes para a plantação. São as chamadas terrazas (ter-
raços).
Como elas funcionam? Aproveitando a ladeira inclinada dos 
Andes, construiu-se uma parede de pedra que sobe verticalmente 
sobre o terreno, originando uma espécie de degrau. O vão entre 
a parede de pedra e a montanha é preenchido com terra. Nessa 
nova estrutura, realizam-se plantações, cuja técnica é denominada 
“andenes”. 
© História da América I
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172
Assim, nessas terrazas, realizavam o plantio de seu principal 
produto, base de sua alimentação: o milho. Dele, extraíam um lí-
quido que era especialmente utilizado em festas e rituais; falamos 
da chicha, uma espécie de bebida alcoólica que, até hoje, é impor-
tante nos Andes, sendo o símbolo tradicional do Peru.
Vale destacarmos que, além da chicha alcoólica, produz-se a 
chicha sem álcool e de variados tipos de milho; do milho roxo, por 
exemplo, sai a chicha morada (morena). É consumida no cotidia-
no, havendo, para isso, lugares próprios. São as chamadas “chiche-
rias”, as quais remetem ao período colonial.
É interessante informarmos que o plantio de milho ocorria, 
especialmente, nas zonas mais quentes. Dessa forma, para as par-
tes mais frias, era preciso remanejar a sua produção. Essa prática 
levou à necessidade da criação de instrumentos de armazenamen-
to de grãos, tais como os prédios de estocagem, conhecidos como 
“tambos”, e a elaboração de um sistemade contagem e controle 
da produção.
Também devemos aos huaris a elaboração dos quipus, uma 
espécie de corda maior, amarrada em volta do pescoço, com vá-
rias outras menores que saem desse tronco. A cada dez unidades 
contadas, realiza-se um nó em uma das cordas ramificadas, sinali-
zando sua contagem. Os quipus guardam mais "segredos" do que 
imaginamos. No entanto, quando apresentarmos a civilização inca, 
explicaremos outras interpretações feitas sobre eles.
Nas Figuras 12 e 13, respectivamente, você pode ver o siste-
ma de terrazas (andenes) em Ollantaytambo e o quipu.
173© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Fonte: arquivo pessoal.
Figura 12 Sistema de Terrazas.
Figura 13 Quipu.
Essa estrutura agrícola possibilitou a criação de um grande 
centro urbano na região andina dominada pelos huaris. Além de 
sua cidade principal, como forma de administrar e controlar a ex-
pansão de sua sociedade, que chegou a cobrir uma região que ia 
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
174
de Cuzco a Trujillo (como você pôde ver no mapa da Figura 1), ou-
tros pequenos centros administrativos foram instituídos naquela 
época.
Esses dois impérios possuíram grande importância para os 
dois reinos que surgiram após eles: o dos chimors e o dos incas. 
Você verá que várias técnicas de construção e de cultivo agrícola 
adotadas pelos incas não passaram de uma adaptação dos proce-
dimentos que mencionamos anteriormente – as terrazas, os qui-
pus e as grandes pedras para construção.
Conforme aponta Kláren:
Em síntese, tanto Tiahuanaco como Huari desenvolveram grandes 
assentamentos urbanos e sistemas estatais de amplo alcance nos 
Andes entre os anos 500 d.C e 1000 d.C. Ambos mostraram suas ha-
bilidades e destrezas como engenheiros, tais como extensos siste-
mas viários e estilos arquitetônicos aperfeiçoados posteriormente 
pelos incas (2005, p. 34).
Após a decadência dessas duas civilizações, algumas peque-
nas aldeias e chefias, bem como reinos e estados, foram erguidas 
ao longo do atual território peruano, mas sem o estabelecimento 
de uma unidade política ou cultural. Esse é o chamado “período de 
fragmentação política da zona andina central”.
Entre esses vários grupos espalhados pela costa e pelos 
Andes, aquele sobre o qual possuímos mais informações é o dos 
chimors. Não é para menos; trata-se de um grupo que teve uma 
extensa produção de artesanato e uma capital de tamanho consi-
derável, proporcionando-nos uma série de vestígios de sua cultura 
material. 
Além dos chimors, nesse mesmo período, tivemos a convi-
vência de outros povos, como os chancais (costa central), os ica-
chichas (costa sul), os chancas (serra central) e os reinos de Ay-
mara (Altiplano). No entanto, vamos aqui apresentar somente um 
breve histórico do povo chimor. 
Vamos conhecê-lo?
175© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
O império chimú
No final da hegemonia de Tiahuanaco-Huari nos Andes, por 
volta de 850 d.C, surgiu, na região da costa norte peruana, o impé-
rio chimú – ou reino chimor, como prefere Peter Kláren (2005). Sua 
localização é exatamente a mesma que a dos mochicas no século 
5º, próximo à atual cidade de Trujillo. Justamente por isso, costu-
ma-se dizer que essa civilização se desenvolveu sobre as ruínas da 
cultura moche.
A capital chimú era denominada Chan Chan e representou 
um dos maiores centros urbanos vistos no período pré-colombia-
no, com uma extensão de quase 26km2, que abrigaram, no auge 
do reino chimú (1.200 d.C), uma população de, aproximadamente, 
100 mil habitantes.
O urbanismo, portanto, foi uma característica predominan-
te dos chimus. Talvez pela influência de Tiahuanaco-Huari, Chan 
Chan era muito bem organizada e apresentava um plano urbanísti-
co muito bem delimitado, que dividia áreas públicas, cerimoniais e 
habitacionais. Conforme descreve Meggers (1979, p. 113):
Dez grandes setores eram delimitados por paredes de adobe com 
9 metros de altura e 3 metros de espessura na base e continham 
casas, pirâmides, construções públicas, ruas, parques, cemitérios e 
até mesmo reservatórios revestidos de pedra e jardim [...]. Faixas 
de motivos geométricos e criaturas míticas gravadas na argila orna-
mentavam as paredes das construções principais.
Na Figura 14, você pode ver a porta de entrada da cidade de 
Chan Chan.
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176
Figura 14 Porta de entrada da cidade de Chan Chan (Trujillo).
Ao mesmo tempo em que o urbanismo bem elaborado de-
monstra uma influência huari, as técnicas de construção, por sua 
vez, possuíam uma continuidade à utilização de blocos de adobe, 
típica da tradição moche, a qual se estendeu por toda a costa pe-
ruana. Além disso, o tipo de cerâmica guarda nítida referência às 
culturas moche e huari, mas sempre em tons monocromáticos, ao 
contrário do colorido marcante das outras duas culturas.
Sobre a produção dessas cerâmicas, especula-se que, na ci-
dade de Chan Chan, havia centros de produção em larga escala de 
artesanato, como pequenas oficinas, o que teria levado à neces-
sidade de especialização de artistas responsáveis pela fabricação 
desses artefatos. Além disso, os chimus aperfeiçoaram técnicas de 
seus antecessores moches e tornaram-se especialistas na arte de 
ourivesaria, produzindo vasilhas e adornos corporais de rara com-
plexidade e beleza inventiva.
Outra característica econômica que destaca a sociedade chi-
mú é a utilização de barcos para transporte e pesca. Geralmen-
te feitas de bambu, as barcaças carregavam poucas pessoas, mas 
permitiam uma utilização mais segura dos recursos marítimos.
177© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Assim, Chan Chan configurou-se não somente como o cen-
tro religioso e administrativo do reino chimor, mas também como 
polo de produção artística de uma sociedade que chegou a exercer 
influência sobre uma região de, aproximadamente, 1.500km de 
extensão, compreendidos na faixa litorânea do Peru, entre Tum-
bes e Chincha, conforme você poderá ver mais adiante, no mapa 
da Figura 16.
Diferentemente das outras sociedades que vimos até aqui, a 
chimú estabeleceu sua influência mais pelo poderio militar e me-
nos pela organização cultural e religiosa, apesar de esta ter tam-
bém ocorrido. Essa organização militarizada da sociedade fez que 
a região litorânea do norte do Peru e sul do Equador sofresse um 
impacto menor da dominação inca nos séculos posteriores, embo-
ra esta existisse.
Mesmo assim, os chimus sofreram com o enfraquecimento 
de sua sociedade e a diminuição de seus territórios ao longo do 
século 14. Assim como outras sociedades da região litorânea do 
Peru, eles estavam sujeitos às alterações climáticas inesperadas, 
que causavam chuvas em excesso ou longos períodos de seca. Su-
gere-se que esse tenha sido um dos motivos que levaram à disper-
são total do povo moche 800 anos antes e, justamente por isso, se 
especula que essas foram as primeiras vítimas do fenômeno que 
hoje chamamos de El Niño.
Vale ressaltar que o El Niño é um evento atmosférico-oceâni-
co de aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico tropical. 
Tal fenômeno, cuja atuação sobre as temperaturas mundiais ainda 
é motivo de estudo, foi reconhecido por pescadores da costa oeste 
da América do Sul, que notaram o fato de ele ocorrer comumente 
no fim do ano, associando-o ao Natal (Menino Jesus); por isso, a 
denominação El Niño (FREITAS, 2010).
Após o período de fragmentação das sociedades da zona 
andina central, quando vários reinos e impérios, tais como os chi-
mus, desenvolveram autonomamente suas comunidades, somen-
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
178
te no século 15, teríamos o surgimento de um povo capaz de trazer 
nova unidade política e cultural à zona andina central e articular 
economicamenteas várias sociedades que habitavam a costa e os 
Andes: os incas.
inCAs6. 
Finalmente, nossa viagem pelas sociedades pré-colombianas 
da zona andina central chegou ao seu objetivo principal: a civiliza-
ção inca. Além da grandeza de seu império, a civilização inca desta-
ca-se perante as outras pelo fato de possuir um número maior de 
relatos a seu respeito e por sintetizar muitos elementos presentes 
em outras culturas que vimos até aqui.
As terrazas dos huari, o artesanato em série dos chimus, a 
construção com grandes pedras dos tiahuanacos e a figura de al-
guns deuses introduzidos pelos chavins (condor, puma e serpen-
te) são apenas alguns dos exemplos de permanência, adaptação e 
aprimoramento de elementos culturais alheios à sociedade incaica 
e incorporados ao seu modo de vida.
O número maior de fontes a respeito dos incas, por sua vez, 
deu-se pelo momento de chegada dos europeus em solo peruano, 
uma vez que, no início do século 16, o império inca vivia o seu apo-
geu e, para muitos, o início de seu declínio.
Dessa forma, vários cronistas (mestiços, jesuítas e explora-
dores, entre outros) que conviveram com os incas e viram suas 
obras deixaram relatos a respeito da sociabilidade, religião, políti-
ca e economia incaica, muitos deles carregados de etnocentrismo. 
Além disso, os trabalhos de história oral, que buscam, na memória 
das sociedades andinas, resquícios do passado, também nos aju-
dam nessa averiguação em torno da vida dos incas.
No entanto, apesar de serem importantes fontes de docu-
mentação, esses textos nos trazem algumas implicações para sua 
análise. Como lembra María Rostworowski Tovar de Diez Canseco 
(1999, p. 13): 
179© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Na investigação da história inca nos apresenta duas séries dificul-
dades. Uma em relação ao modo andino de recordar e transmitir 
os acontecimentos; e a outra, com o critério dos espanhóis para 
interpretar e registrar a informação que logo nos deixaram através 
de suas crônicas. 
Assim, a história do povo inca foi contada aos espanhóis e 
permanece na memória de muitas comunidades andinas em for-
ma de mitos e lendas. Não há uma exatidão de fatos e datas, mas, 
sim, a presença de símbolos, alegorias e metáforas que remontam 
às origens de sua civilização.
De outra maneira, os espanhóis transportaram para a inter-
pretação do povo inca uma série de elementos próprios do imagi-
nário e da cultura europeia, dando novas significações às manifes-
tações sociais incaicas.
Uma das primeiras dúvidas impostas por esse emaranhado 
de sentidos produzidos pela interpretação das crônicas e dos mi-
tos andinos diz respeito ao surgimento e à origem de seu povo.
Afinal, de onde vieram os incas?
Origem e expansão dos incas
A origem dos incas é uma questão sobre a qual não se tem 
consenso. Segundo Kláren (2005, p. 37):
[...] uma escola tradicional sustenta que eles se originaram na re-
gião do lago Titicaca, desde onde começaram a expandir gradual-
mente, ingressando (talvez invadindo) o vale de Cuzco já no ano de 
1.200 d.C. De outra maneira, a concepção predominante é que os 
incas não foram invasores do vale, senão que, na realidade viviam 
ali à centenas de anos, e que mais tarde começaram a incorporar a 
diversos outros povos também assentados na região de Cuzco. 
Essa divergência nasce da confrontação dos documentos es-
critos e da tradição oral produzida a respeito dos incas. A crônica 
mais difundida e utilizada para o estudo da sociedade inca é, sem 
sombra de dúvida, Los Comentarios Reales de los Incas (Figura 15), 
de Garcilaso de la Vega, escrita no início do século 17.
© História da América I
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Figura 15 Los Comentarios Reales de los Incas, de Garcilaso de la Vega.
Nessa obra, o autor conta que a origem do povo inca se re-
montava à figura de um casal: Manco Capac (ou Manko Kapaq) e 
sua esposa, Mama Ocllo. Eles teriam saído da região do lago Titi-
caca a fim de encontrar entre as montanhas o vale escolhido pelos 
deuses para abrigar a formação de seu novo povoado. De posse de 
uma vara mágica, Manco Capac passou por vários vales, fincando 
tal cajado no chão: onde este permanecesse fixo, lá seria o local 
de sua nova morada. Foi assim que chegaram e se estabeleceram 
no vale de Cuzco.
Talvez pelo vulto da obra e pela importância que teve esse 
cronista, essa é a lenda mais difundida e conhecida a respeito da 
origem do povo inca. Justamente por isso, boa parte da historio-
grafia tradicional concorda com a origem inca relacionada ao lago 
Titicaca, como vimos em Kláren.
Já para María Rostworowski, a história contada e transmitida 
por Garcilaso de la Vega seria, na realidade, uma adaptação de 
outra lenda amplamente compartilhada pelas comunidades que 
habitam os Andes: o mito dos irmãos Ayar.
181© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Segundo os relatos dos andinos, o povo inca teria sua origem 
estabelecida por quatro irmãos: Ayar Ucho, Ayar Kachi, Ayar Awka 
e Ayar Mango. Acompanhados de suas quatro irmãs, Mama Ocllo, 
Mama Huaco, Mama Ipacura e Mama Raua, os irmãos teriam saí-
do de sua paqarina, uma gruta chamada Paqariqtampu, em busca 
de uma nova morada.
No decorrer da lenda, os irmãos, figuras divinas, transfor-
maram-se em objetos, paisagens e lugares sagrados, marcando 
sua presença e influência na vida dos povos andinos, mesmo que 
não mais na forma humana. Assim, Ayar Kachi, aprisionado pelos 
irmãos na cova de Paqariqtampu, converteu-se em uma huaca, en-
quanto Ayar Ucho e Ayar Awka assumiriam formas líticas.
Ainda segundo a lenda, Ayar Awka, a pedido do irmão Ayar 
Mango, voou em direção ao vale de Cuzco, próximo ao local onde 
o bastão lançado por ele havia sido fincado. Lá, converteu-se em 
pedra e passou a ser venerado pelos povos locais. A partir daí, Ayar 
Mango mudou seu nome para Manko Kapaq e, juntamente com 
suas irmãs, conduziu os ayllus errantes para a edificação da civiliza-
ção inca. Os ayllus são os agrupamentos familiares que expressam 
o conjunto social básico da sociedade andina e, por consequência, 
incaica. Veremos mais sobre eles no decorrer desta unidade.
Mesmo que conte sobre a formação do povo inca, essa lenda 
não nos permite afirmar a sua origem. Na realidade, ela não narra 
um ciclo histórico de migração e instalação de um povo nômade 
na região de Cuzco. Ao contrário, a porção percorrida pelos irmãos 
Ayar limita-se às regiões muito próximas do vale de Cuzco, e, em 
vários momentos da lenda, conta-se que, ao longo da peregrina-
ção, os irmãos praticavam atividades agrícolas.
De certa maneira, essa lenda aumenta as possibilidades de 
que os incas sejam o resultado de uma junção de vários grupos se-
dentários que viviam no vale cusquenho por séculos e que foram 
se incorporando uns aos outros, resultando no surgimento de uma 
confederação tribal, como defende a segunda linha historiográfica 
descrita por Kláren.
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182
Assim, a lenda não nos permite afirmar a origem desse povo, 
mas nos ajuda a compreender a sua passagem de uma etapa tribal 
para uma confederação, ou melhor, a inserção do grupo inca às co-
munidades já existentes no local. Veja como o historiador francês 
Henri Favre (1990, p. 15) elucida essa hipótese:
Quando os Incas penetram nessa região, muitas tribos já haviam 
muito antes fixado suas aldeias. A mais antiga era, sem dúvida, a 
dos Sawasiray, que tinham Paqariqtampu como paqarina e Ayar 
Kachi como ancestral. Os Sawasiray eram vizinhos dos Allkawisa, 
cuja paqarina era Wanakawri e o ancestral, Ayar Uchu. Essas tribos 
haviam concluído uma aliança com os Maras, que acreditavam des-
cender de Ayar Awka; e foi nessa aliança que entraram os Incas, os 
quais traçavam sua decendência a partir de Manko Kapaq. O mito 
dos irmãos Ayar aparecia, assim,como elaboração tardia a partir 
de elementos díspares. Ele visa, em primeiro lugar, atribuir uma ori-
gem comum aos ancestrais-fundadores de quatro grupos étnicos 
diferentes que haviam decidido confederar-se. Sua principal função 
era justificar a situação política de Cuzco após a chegada dos Incas, 
e não descrever o itinerário que estes teriam empreendido.
Para Rostworowski (1999), apesar de não trazer muitas pistas 
sobre a verdadeira origem dos incas, a lenda possibilita-nos com-
preender a maioria dos elementos da religiosidade inca e estabe-
lecer explicações para a origem de algumas características de sua 
composição social, como a formação das panacas (famílias nobres) 
– os incas de privilégios (etnias que se convertem em incas no pro-
cesso de incorporação e anexação de territórios) – e a importância 
e paridade na relação entre gêneros e a matrilinearidade de alguns 
grupos sociais. Trataremos desses itens mais adiante.
Durante algum tempo, os incas desempenharam papel de 
coadjuvantes nessa confederação. Dividida em duas partes, Hanan 
(a parte de cima e a "mais forte") era responsável pela organiza-
ção política e religiosa da região, enquanto Hurin (parte de baixo 
e a "mais fraca") era responsável pela organização militar. Dessa 
forma, os incas ocupavam a parte de baixo da confederação e, su-
jeitos às deliberações políticas dos outros chefes tribais, estavam 
encarregados da proteção militar do vale cusquenho.
183© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Somente com Inca Roka (o quinto inca da dinastia após a fi-
gura lendária de Manco Capaq) foi que essa condição se inverteu. 
Conduzindo seus homens a um ataque contra a parte de cima da 
confederação, o sinchi (como era chamado o chefe da guerra) to-
mou o poder de Hanan pela força, transportou a estátua de Manco 
Capac para a parte de cima da confederação e passou a concentrar 
os poderes religiosos, políticos e militares.
Estaria aí o início da expansão inca, que continuaria com os 
sucessores de Inca Roka, Yawarr Waqaq e Wiraqocha Inca. No en-
tanto, para compreender a etapa mais pujante da expansão incai-
ca, devemos nos ater a outra lenda: a guerra dos incas com os 
chancas.
María Rostworowski (1999) afirma que essas duas lendas, a 
dos irmãos Ayar e a da guerra contra os chancas, são fundamen-
tais para compreender a formação e a expansão do império inca, 
bem como as principais características de sua organização social, 
religiosa, política e econômica.
Os chancas formavam um grupo com origem na região do 
vale dos Pampas, com uma cultura que remontava à tradição na-
zca. Tratava-se de uma chefia com forte poder bélico. Por volta 
de 1440, avançaram em direção ao vale de Abancay. Depois de 
derrotarem as sociedades locais, seguiram em direção ao vale de 
Cuzco.
Na Figura 16, podemos observar a cidade de Pisac, localizada 
no “vale sagrado” de Cuzco.
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Fonte: acervo pessoal.
Figura 16 Cidade de Pisac, localizada no “vale sagrado” de Cuzco.
A fama de bons guerreiros que possuíam os chancas e as úl-
timas conquistas da chefia nos vales ao redor de Cuzco assustavam 
os incas. Convencido da inevitabilidade de uma derrota para os 
chancas, o velho líder Wirakocha Inca decidiu se refugiar com o 
seu povo nas montanhas localizadas no vale de Cuzco.
Tal determinação foi descumprida por seu filho Pachacútec, 
que, com o apoio de seus familiares maternos e de outros dois 
sinchis, decidiu esperar pelos chancas na cidade de Cuzco. Favre 
(1990, p. 18) narra a estratégia de Pachacútec assim:
Exageradamente certos do sucesso, os Chankas expuseram impru-
dentemente a estátua de seu ancestral-fundador, da qual os incas 
conseguiram apoderar-se. Tiveram que recuar desordenadamente 
em direção de Ichupampa para aí reorganizar suas fileiras. Pachaku-
ti, porém, não lhes deu tempo. À frente de forças acrescidas pelo 
contingente das etnias dependentes - que se haviam mantido em 
prudente expectativa na hora do perigo, mas que agora se propu-
nham acorrer para assegurar sua vitória –, caiu sobre o acampa-
mento Chanka, aniquilando-o.
185© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Depois de vencer a batalha, Pachacútec assassinou os dois 
sinchis que o apoiaram e massacrou vários guerreiros submissos 
aos chefes de guerra. Apoiado pela força política gerada por sua 
vitória, depôs seu pai Wirakocha e retirou de seu irmão Urqu o 
direito de dirigir o Estado inca. Como primeira medida, Pachacú-
tec decidiu ocupar o território habitado pelos chancas e incorporar 
esse grupo ao seu exército, valendo-se de sua fama para engran-
decer suas conquistas.
Ao solidificar seu poderio sobre os chancas e incorporá-los 
ao Estado, Pachacútec deixou seu filho Tupac Yupanqui responsá-
vel pela administração da região. Enquanto isso, partiu rumo ao 
sul para conquistar o território dos collas e lupacas, na região do 
lago Titicaca. 
Ao mesmo tempo em que Pachacútec tomava o sul dos An-
des, seu filho não se restringiu à administração da terra dos chan-
cas e empreendeu, por conta própria, guerras de conquista para o 
norte da região andina, expandindo seus domínios até a atual re-
gião do Equador e, posteriormente, outras regiões do atual Chile.
Desde então, uma guerra conduziu à outra. Cada vitória e 
ocupação de um território os levavam, inexoravelmente, ao con-
fronto com outras etnias. Dessa forma, em poucos anos, juntos, 
Pachacútec e Tupac Yupanqui conquistaram a maioria das terras 
que se converteriam no império inca e seus quase 1 milhão de 
km2, o equivalente a 1/3 do continente sul-americano.
É importante salientar que o império inca foi o maior em ex-
tensão de toda a América pré-colombiana. Entre a guerra com os 
chancas e a conquista dos espanhóis, ocorrida no século 16, foram, 
aproximadamente, 90 anos. Assim, podemos dizer que o império 
inca não teve, entre a formação da confederação cusquenha e sua 
derrocada, mais do que 150 anos.
A natureza das conquistas e a expansão do território inca é, 
também, um ponto de divergência na historiografia, colocando em 
lados opostos vários autores. Peter Kláren (2005, p. 39) apresenta 
as diversas linhas e os seus autores da seguinte maneira:
© História da América I
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186
A visão tradicional, baseada em uma cuidadosa análise de crônicas 
hispânicas efetuadas por Rowe (1946) e outros, atribui a figura ca-
rismática de Pachacutec e a seu gênio organizador e a sua lideran-
ça. Um segundo grupo questiona essa visão [...]. Para esta escola, 
o desenvolvimento do estado inca se derivou de processos mais 
amplos de mudança social, ainda que não tenham claras as cau-
sas específicas. Por exemplo, no que tange à expansão, Rostworo-
wski de Diez Canseco (1988) destaca a manipulação das relações 
de intercâmbio institucionalizadas e não as conquistas militares; 
Lumbreras (1978) recalcou a luta de classes, assim como a animo-
sidade tradicional entre Cuzco e os Chancas; Murra (1980) e outros 
assinalaram o manuseio econômico e o sistema de redistribuição, e 
finalmente, Conrad e Demarest (1984) e outros dão importância ao 
sistema hereditário incaico. 
Dessa forma, não excluindo nenhuma das hipóteses, pode-
mos dizer que não somente pela guerra foi que ocorreu a expan-
são do império inca. Durante o processo de ampliação do seu terri-
tório, os incas tentavam comprar o apoio dos grupos vizinhos com 
riquezas e alimentos, redistribuindo os suprimentos que faltavam 
à região em questão. Muitos cediam às ofertas e eram pacifica-
mente incorporados ao Estado inca.
Outros grupos, diante da inevitabilidade de possíveis con-
frontos e derrotas para os incas, preferiam se render antes mesmo 
do combate e, assim, aceitavam se incorporar à lógica do império. 
Somente os grupos que não chegavam a acordos políticos é que 
eram subjugadospela força do exército de Pachacútec e Tupac Iu-
panqui.
Os líderes de cada grupo "pacificamente" dominado não 
perdiam seu poderio regional e, de certa forma, eram peças fun-
damentais para a administração do império, como veremos mais 
adiante. Já nos grupos mais hostis, de acordo com Murra (2004, p. 
85):
Os incas realmente designavam “governadores” para substituir o 
“senhor natural”. Usualmente eram parentes dos “rebeldes”, ou 
membros da pequena nobreza vizinha cuja hegemonia regional 
Cuzco desse modo endossava. 
A "divisão" da administração imperial com os antigos gover-
nantes foi apenas uma das medidas tomadas por Pachacútec para 
187© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
administrar o vasto império. Aliás, para comandar todo o território 
e suas etnias, Pachacútec teve de estabelecer uma nova organiza-
ção estatal e civilizatória, que transformou, completamente, todas 
as estruturas políticas, sociais, religiosas e trabalhistas do império 
inca.
Em quéchua, a palavra “pachacútec” (ou pachacuti) significa 
"revirar a terra" ou "a inversão do mundo". Por conta disso, muitos 
autores acreditam que o próprio imperador civilizador do império 
inca, Pachacuti Yupanqui, tenha recebido esse nome por ter sido 
ele quem inverteu o sentido do império inca. Sob seu comando, 
como veremos, o império viveu uma reestruturação e um remo-
delamento de todo o seu sistema de crenças e organização social, 
com a incorporação de novos tipos de trabalhadores e sistemas 
compulsórios de trabalho.
Na religião, por exemplo, foi estabelecida uma nova hierar-
quia no panteão de deuses. Entre as várias entidades que o com-
punham, três possuíam principal destaque: Inti, o Sol; Wiracocha, 
o deus criador; e Illapa, o deus do clima e dos ventos. Como agra-
decimento à vitória sobre os chancas, Pachacútec deu a Wiracocha 
um ligeiro favorecimento em relação aos outros dois deuses.
Mesmo assim, Inti não perdeu seu papel fundamental na 
cultura inca. Todo inca era filho de Inti; eram filhos do Sol. Em ho-
menagem a ele, Pachacútec ergueu, em Cuzco, um suntuoso pa-
lácio repleto de ouro, para que este brilhasse assim como ele: o 
Qoricancha.
Sob o domínio de Pachacútec, o Qoricancha, ou Templo do 
Sol, passou a ser visto como a huaca principal do império inca. 
Em torno dele, outras huacas espalhadas de maneira circular pelo 
vasto território, compondo espécies de arcos sobrepostos tendo 
Cuzco como centro, se converteram em lugares sagrados. Cada 
huaca possuía um dia especial para a realização de oferendas, ri-
tuais e atividades sociais, compondo, assim, 328 huacas para cada 
dia do calendário religioso inca.
© História da América I
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188
Vejamos como o cronista Pedro Cieza de León descreveu o 
Qoricancha no século 16: 
Qoricancha ou Templo do Sol ––––––––––––––––––––––––––
Lá também estava o imponente Templo do Sol... que figurava entre os mais ricos 
em ouro e prata possível de ser encontrado em qualquer lugar do mundo... Este 
templo tinha uma circunferência de cerca de 122 metros e achava-se rodeado 
por um forte paredão. A construção era de pedra finamente cortada, igualada e 
acoplada, sendo algumas das pedras muito grandes e bonitas. Não havia arga-
massa de pedra ou cal; somente a resina era empregada em suas construções, 
e as pedras eram bem cortadas que não existiam sinais de cimento e ligas. Em 
toda a Espanha eu nunca vi nada que possa se comparar a essas paredes... 
Havia muitos portões e as passagens eram primorosamente entalhadas; no meio 
da parede corria uma faixa de ouro com dois palmos de largura e quatro dedos 
de espessura. O portão e as portas eram cobertos de lâminas desse metal... 
Havia um jardim cuja terra eram blocos de puro ouro e ele estava engenhosa-
mente plantado com espigas de milho também de ouro... Além disso, existiam 
mais de vinte ovelhas (lhamas) de ouro com seus cordeiros e os pastores que as 
guardavam, com seus cajados e fundas, tudo deste metal. Havia muitos tonéis 
de ouro, prata, esmeralda e tigelas, potes e todo tipo de vasilha, tudo de puro 
ouro... Numa palavra, era um dos mais ricos templos do mundo (LEÓN apud 
MEGGERS, 1979, p. 123). 
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Pensando sobre etnocentrismo, perceba que o Templo do 
Sol chama a atenção do cronista pelos metais preciosos lá ante-
riormente dispostos. Ele não fala dos fiéis ou da própria entida-
de religiosa principal – ao menos nesse trecho. É o etnocentrismo 
em ação. Além disso, perceba como o valor dado ao ouro é uma 
característica de convenção social; nesse caso, um valor incutido 
no pensamento ocidental. Provavelmente, o “valor” dado ao ouro 
pelo espanhol era diferente daquele dado pelos incas.
Na Figura 17, podemos ver como o Qoricancha se encontra 
nos dias de hoje.
189© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
 
Fonte: acervo pessoal.
Figura 17 Qoricancha hoje.
Dessa forma, a religião foi totalmente remodelada por Pa-
chacútec. Essa reformulação e a vinculação direta de seu poderio 
a Wirakocha conceberam-lhe maior legitimidade e permitiram-lhe 
estabelecer uma espécie de influência cultural sobre todo o terri-
tório dominado. Além disso, as imagens dos deuses locais de cada 
etnia anexada eram levadas para Cuzco e colocadas no Qorican-
cha.
Outra modificação importante feita por Pachacútec foi a im-
posição do quéchua (ou quíchua) como língua geral para o Estado. 
Assim, além da língua local, povos de fala aymará e pukina, entre 
tantas outras, viram-se obrigados a aprender a se comunicar em 
quéchua.
A Microsoft desenvolveu, para o povo peruano, uma versão do 
sistema operacional Windows em quéchua.
Para controlar a produção do império, apareceram os qui-
ppucamayos. Além de controlarem os estoques, regulavam a re-
distribuição e a formação dos arquipélagos verticais, que eram a 
base da distribuição alimentar do império inca. Sobre eles, falare-
mos mais adiante.
Entre todas as reformas empreendidas por Pachacútec, a 
mais importante se deu no sistema de trabalho. Para executar re-
formas e construções públicas, bem como plantio e colheita em 
© História da América I
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190
terras estatais, foram necessárias a introdução de impostos sobre 
tempo de trabalho (a mita) e a incorporação de novos contingentes 
de trabalhadores (os mitimacs). Entretanto, para entender como 
se deram essas alterações, temos de compreender a fundo como 
funcionava a organização econômica e social mais elementar de 
todo império inca: o ayllu. 
Os ayllus: sociabilidade e desenvolvimento econômico
Como vimos no início desta unidade, as condições de vida 
para os primeiros habitantes dos Andes não eram nada fáceis. A 
convivência com frequentes terremotos, erupções vulcânicas, as 
baixas temperaturas da altitude e o clima árido das estepes, bem 
como a ausência de água ou reservatórios em abundância, obriga-
ram o desenvolvimento de técnicas de cultivo e o estabelecimento 
de ciclos agrários engenhosos.
Da mesma forma, essas condições exigiram uma vida de co-
operação e reciprocidade entre os grupos de uma mesma socie-
dade. Dividindo o trabalho, era mais fácil superar as dificuldades 
geográficas de plantio e, também, uma forma de se proteger dos 
constantes conflitos com os povos vizinhos. Ataques como aque-
les planejados pelos chancas aos incas para o domínio das terras 
férteis do vale de Cuzco eram extremamente comuns nos Andes 
pré-colombianos.
Por conta disso, muitas vezes, grupos inteiros construíam 
suas aldeias e tribos em beiras de penhascos ou na base de uma 
montanha, cercando o restante de suas fronteiras expostas com 
muros altos de pedra maciça. A busca pela defesa e extração e 
o cultivo de alimentos e recursos naturais levaram ao estabele-
cimento de práticas de reciprocidade entre os membros de uma 
sociedade,estas baseadas, essencialmente, na troca de trabalho.
Como funcionava a troca de trabalho?
191© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Cada sociedade andina, uma aldeia de tribos ou chefias, era 
formada "por um conjunto de famílias unidas por laços de paren-
tesco ou aliança, que representavam um ayllu” (FAVRE, 1990, p. 
31). Tratava-se de um grupo grande de várias famílias, compos-
tas pelo casal e seus filhos celibatários. Quando atingiam a idade 
determinada, os filhos casavam-se e, consolidando o matrimônio, 
tornavam-se membros completos do ayllu, não devendo mais obe-
diência aos pais e se integrando à lógica familiar maior que regia o 
ayllu. Os casamentos ocorriam entre pessoas de um mesmo ayllu; 
por isso, eram endogâmicos.
Todas as famílias que compunham um ayllu tinham algum 
tipo de parentesco (direto, próximo ou distante) regulado pela 
existência de um antepassado comum. Uma característica interes-
sante dos ayllus é que a filiação não se remetia, conjuntamente, ao 
pai e à mãe, como ocorre na sociedade ocidental.
Como esclarece Favre (1990, p. 31):
[...] a filiação se traçava em linha masculina direta entre os homens 
e em linha feminina direta para as mulheres, de tal modo que os 
homens descendiam de seus pais e as mulheres de sua mãe. 
Justamente por isso, dentro de um ayllu, seguindo as con-
venções ocidentais, era muito difícil delimitar quem era irmão, pri-
mo, tio, pai ou mãe entre si.
Quando os espanhóis chegaram aos Andes, não compreen-
deram como se estabeleciam os matrimônios entre os incas, uma 
vez que, para eles, ocorriam entre "irmãos" que casavam entre si. 
Muitos indígenas responderam a processos por incesto. Atahual-
pa, último imperador inca, por exemplo, entre as acusações que o 
levaram à sua execução, constava o incesto, já que era casado com 
sua irmã.
Um ayllu compunha uma faixa de terra localizada e delimi-
tada, dividida entre as famílias que cultivavam esse solo. Dentro 
desse território, as zonas de pastagem eram coletivas, e todos po-
diam desfrutar livremente de suas dependências. Essas terras, ge-
ralmente estepes, eram chamadas de marka.
© História da América I
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192
Contudo, o mesmo não ocorria com as terras de cultivo. 
Dentro de cada ayllu, havia uma nova divisão da terra entre as fa-
mílias nucleares destinada à plantação. Esse pedaço de terra era 
chamado tupu, e seu tamanho era determinado pela qualidade da 
terra. Assim, quanto mais fértil era a terra, menor era o tupu. Cada 
tupu era cultivado pelos pais e filhos, seguindo uma divisão de tra-
balho. Os homens cuidavam das lavouras e de alguns tipos de arte-
sanatos, enquanto as mulheres cuidavam das tarefas relacionadas 
à manutenção da habitação.
Há outros pontos importantes sobre o tupu que merecem se-
rem destacados. O tupu era a quantidade de terra necessária para 
o sustento de um casal sem filhos. Quando nascia um menino, o 
curaca cedia ao casal mais um tupu de terra para o sustento desse 
garoto. No entanto, quando nascia uma menina, o curaca cedia ao 
casal apenas meio tupu. Quando o menino se tornava adulto e se 
casava, ele levava para a relação o tupu que seu pai recebera para 
sustentá-lo. O meio tupu cedido para o sustento da filha era devol-
vido ao ayllu quando do casamento desta, já que, para seu próprio 
sustento, iria usufruir do tupu de seu marido.
Os tupus não eram estáticos dentro dos ayllus. Ao invés dis-
so, havia intensa interação entre os diversos tupus de um ayllu. 
Por exemplo, na relação entre os tupus, poderia ocorrer de uma 
família nuclear contribuir para a realização de uma tarefa dentro 
de outro tupu. Realizando isso, a família beneficiada ficava em "dí-
vida" com seus colaboradores, vendo-se obrigada a devolver tal 
trabalho, agindo, assim, reciprocamente. O pagamento da dívida 
não poderia acontecer de outra maneira que não pela realização 
de um trabalho proporcional àquele prestado por seus colabora-
dores. Esse trabalho era chamado ayni. Todo trabalho prestado ao 
alheio era feito na expectativa do retorno – a base da reciprocida-
de andina.
Já os trabalhos coletivos dos grupos familiares feitos para o 
benefício do ayllu como um todo, tais como a construção de pon-
tes e canais de irrigação, eram chamados de minga.
193© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Quem determinava a realização de construções nos ayllus 
e organizava a vida social entre as famílias era o curaca. Ele era, 
geralmente, o membro fundador do grupo familiar e o grande res-
ponsável pela distribuição de terra e por resolver contendas em 
torno de fronteiras. Além desse poder "político" perante o ayllu, o 
curaca desempenhava uma função religiosa, sempre estabelecida 
por seu vínculo com uma huaca, um "lugar santo" ou santuário 
regional, localizado no ayllu, que fazia referência à divindade da 
qual a família era tributária.
Cabe aqui lembrar a definição do que se caracterizava como 
tributo: a mita (ou minga) levanta muita discussão, uma vez que 
as fontes escritas sobre essa modalidade de tributo/trabalho são 
do período colonial, no qual houve a incorporação do sistema de 
trabalho espanhol, o chamado repartimiento. Justamente por isso, 
não podemos afirmar com certeza se o que os autores descrevem 
como mita inca não foi, na realidade, uma interpretação colonial 
sobre ela.
Para muitos autores, a mita somente se caracteriza quando 
feita em benefício do Estado, nas terras dos curacas ou em tem-
plos. Alguns a caracterizam como todo tributo cumprido em forma 
de tempo de trabalho em obras e na construção de prédios pú-
blicos; já outros defendem que todo tributo é mita. Finalmente, 
há aqueles que diferenciam o tributo de trabalho na lavoura da 
mita, somente aplicável a obras públicas. Por conta disso, atente-
se! Você pode encontrar em outros autores a supressão do termo 
“minga” e a utilização do termo “mita” para todo trabalho coletivo 
com tempo determinado. 
O curaca também possuía uma faixa de terra somente para 
usufruto de sua família. No entanto, os responsáveis pelo cultivo 
dessa terra eram os próprios membros do ayllu, como forma de 
pagamento de tributo ao curaca. Assim, em vez de ser em espécie, 
tal retribuição ocorria em forma de trabalho.
Como explica Favre (1990, p. 37):
© História da América I
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194
Todos os homens adultos do ayllu eram obrigados rotativamente 
a esse serviço, conhecido como mita, que lhes cabia a intervalos 
regulares e cuja duração oscilava freqüentemente de três meses a 
um ano.
Durante o tempo de permanência dos homens na terra do 
curaca, este deveria prover o alimento e a moradia daqueles.
Havia uma ordem predefinida pelos incas para o plantio e a co-
lheita. Inicialmente, os indígenas deveriam cultivar as terras do 
templo em honra aos deuses. Depois, deveriam cultivar as terras 
dos “incapacitados”, isto é, órfãos, viúvas, velhos e soldados que 
não tinham condições de cultivar seu próprio sustento e o de sua 
família. Em seguida, eram cultivadas as próprias terras. Em quar-
to lugar, cultivavam as terras do curaca, para, finalmente, serem 
cultivadas as terras dos incas. Nessa última etapa, os indígenas 
compareciam à colheita ou plantação com suas melhores roupas, 
e aconteciam enormes festejos. Se essa ordem fosse desrespeita-
da, o curaca, responsável final pela obediência a essa norma, era 
severamente punido. Quando ele, por exemplo, exigia que suas 
terras fossem cultivadas antes que as terras dos próprios indíge-
nas, tal violação poderia significar a sua própria morte.
Para o pagamento desse tributo, o curaca tinha de apresentar, 
formalmente, a finalidade e a justificativa de cada atividade propos-
ta. Todavia, a abundância de mão de obra em seu favor permitia que 
um curaca possuísse, em suas terras, um número muito grande de 
alimentos estocados ede animais de pastoreio, como as lhamas e as 
alpacas. Em momentos de escassez de alimento, o curaca revertia 
parte desses alimentos para as famílias mais necessitadas, as viúvas 
e os velhos, demonstrando sua benevolência, ponto importante de 
sua legitimidade. Tal postura do curaca serviu como uma das bases 
para a tese marxista do socialismo primitivo incaico, defendido por 
alguns teóricos do marxismo.
A Figura 18 ilustra a formação de um ayllu.
195© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Figura 18 Formação ilustrativa de um ayllu.
O interessante é que, de uma forma ou de outra, dentro de 
uma confederação maior, essa estrutura se repetia, e um ayllu de-
pendente de outro se submetia, também, ao seu curaca, sendo 
ele uma espécie de curaca de todos os ayllus, chamados jatuncu-
racas.
A organização social do ayllu, bem como os tipos de traba-
lhos exercidos dentro de cada organização, era algo muito comum 
entre os povos andinos de várias etnias, não somente entre os in-
cas. Ocorreu que, com a expansão do império inca, como na ex-
pansão do império huari, esse modelo de sociedade também se 
replicou em tamanhos muito mais vultosos.
Assim, o mesmo tipo de tributo “pago” ao curaca passou a ser 
feito ao imperador inca, como a realização da mita em terras do Es-
tado para o plantio ou, então, para a construção de obras públicas. 
Homens de vários cantos do império largavam sua família, localiza-
da há dias ou meses de caminhada, para cultivar o milho nas terra-
zas do império. O milho era um alimento fundamental na dieta do 
trabalhador, mas seu cultivo, devido às diferenças de temperaturas 
nos Andes, não era algo possível de ser feito em qualquer lugar.
© História da América I
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196
Desse modo, os locais de plantio de alimentos próprios para 
a redistribuição de alimentos organizavam-se em forma de arqui-
pélagos, uma vez que se apresentavam como ilhas de produção es-
palhadas em vários pontos do império, garantindo a redistribuição 
de alimentos ricos em sais minerais, proteína e vitaminas (como 
os tubérculos e o milho) para os trabalhadores ou as zonas im-
possibilitadas de cultivá-los. Conforme delimitou Murra, "[a] esse 
modo de complementar e ter acesso a muitos pisos ecológicos es-
palhados deu-se o nome padrão de ‘arquipélagos’ de colonização 
andina" (2004, p. 70). 
Perceba que, da mesma forma que os incas impuseram no-
vos costumes, língua e hábitos às populações conquistadas, eles 
também incorporaram várias técnicas e tradições de outros povos 
andinos à sua cultura (como as terrazas), como também contri-
buíram para a expansão de práticas econômicas e sociais que se 
constituíram ao longo dos séculos nos Andes, tais como a recipro-
cidade, o ayllu e os arquipélagos verticais.
Entretanto, à medida que o império inca foi avançando para 
as proporções adquiridas após a vitória sobre os chancas, o siste-
ma de trabalho, redistribuição e reciprocidade precisou de altera-
ções, as quais foram feitas por Pachacútec e permaneceram em 
funcionamento até a chegada dos espanhóis. Afinal, administrar 
um império de um milhão de km2 requeria estratégias maiores do 
que as de organizações familiares de até 25 mil famílias.
Organização política imperial
Na Figura 19, podemos visualizar a divisão política regional 
do império inca. Ao Leste, temos Antisuyo; ao Oeste, Contisuyo; ao 
Sul, Collasuyo; e, ao Norte, Chinchasuyo.
197© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Fonte: Kláren (2005, p. 29).
Figura 19 Divisão política regional do império inca.
O tahuantinsuyo (os quatro cantos), como era chamado o 
império inca, era dividido em quatro regiões, as quais faziam re-
ferência às etnias importantes presentes em cada uma delas. O 
Collasuyo (em referência aos collas, que habitavam a região do 
Titicaca) era a porção mais populosa; o Antisuyo (referência aos 
antis, como eram chamados, pejorativamente, os povos da flo-
resta) foi a de mais difícil domínio; o Chinchasuyo (referência ao 
reino ica-chincha) foi uma das primeiras áreas conquistadas após 
© História da América I
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198
a guerra com os chancas e foi expandida por Tupac Yupanqui. Por 
fim, o Contisuyo era a região de menor extensão territorial entre 
as quatro.
A divisão do império em quatro, feita por Pachacútec, visava 
sua melhor administração. Como vimos anteriormente, no princí-
pio do império, algumas estruturas do mundo andino foram repli-
cadas na organização do Estado. No entanto, sua grande expansão, 
a partir do ano 1438, aproximadamente, exigiu que seu governan-
te maior revirasse a ordem andina, criando novas fórmulas de tra-
balho e tributos.
Para Murra (2004, p. 73):
Inicialmente, o Estado seguiu as normas andinas correntes: suas 
rendas eram cobradas sobre as terras cultivadas que tinham sido 
alienadas das comunidades políticas locais no modelo do "arquipé-
lago". Essas terras do Estado eram cultivadas pela população local 
num sistema rotativo em que as linhagens se alternavam, da mes-
ma forma que haviam trabalhado os campos dos seus senhores ét-
nicos ou do santuário regional. Vez por outra os mitmacs do Estado 
eram transplantados para novos territórios a fim de assegurar ao 
inca o governo e as rendas. Mas, esse governo ainda era "indireto", 
era exercido através dos senhores "naturais" anteriores aos incas. 
Assim, para dispor de uma mão de obra mais presente e 
capaz de ajudar na colonização dos novos territórios, Pachacútec 
criou a figura dos mitimacs, grupo de trabalhadores oriundos de 
etnias anteriormente conquistadas ou anexadas pelos incas. No 
entanto, por seu longo convívio com o império, gozavam da con-
fiança da elite cusquenha.
Por conta disso, os mitimacs eram transplantados em gran-
des contingentes para outras partes do império, para viver e tra-
balhar como espécies de "colonos". Dessa maneira, "substituíam 
grupos rebeldes, e outros, de cuja lealdade suspeitava-se, e que 
haviam sido deportados a outras regiões para serem reeducados e 
integrados ao império" (KLÁREN, 2005, p. 43). 
As terras ocupadas pelos mitimacs podiam ser destinadas à 
construção de obras públicas, como estradas, aquedutos e pon-
tes, para a produção de alimentos e artesanatos ou, então, para o 
199© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
estabelecimento de edificações permanentes para a proteção e o 
controle das fronteiras incaicas, como aduanas ou observatórios. 
Esses tipos de trabalhos eram alvos da mita. Murra (2004) ainda 
sugere que os mitimacs podem ter sido utilizados para fins milita-
res.
Já os povos desocupados pela desconfiança eram geralmen-
te alocados em outros territórios ou se convertiam em yanas. Os 
yanas eram usualmente enviados para Cuzco para trabalhar como 
serventes da elite cusquenha ou na extração de recursos minerais. 
Muitos yanas trabalhavam no cultivo das terras das panacas.
Mas o que eram as panacas?
Independentemente do que você esteja imaginando, as pa-
nacas eram as famílias reais do Sapa Inca (nome dado ao impe-
rador dos incas). Mesmo após a morte do imperador, sua família 
continuava sendo considerada real, gozando de todos os privilégios 
cabíveis. Diferentemente dos ayllus, as panacas não eram patriar-
cais; geralmente levavam o nome da esposa do imperador (Coya) 
e eram regidas por uma ordem matriarcal.
Aliás, sobre a diferença entre os gêneros, é importante lem-
brar que, antes da expansão militar do Tahuantinsuyo, não havia 
uma supremacia masculina nos ayllus. Apesar da divisão do traba-
lho, tanto homens quanto mulheres gozavam dos mesmos "direi-
tos". No entanto, a expansão militar e bélica ressaltou a virilidade 
masculina, atribuindo ao homem um papel de destaque, ainda 
que não muito ressaltado, nos ayllus. A própria lenda de formação 
dos incas dá-nos ótimos indícios da importância das mulheresno 
processo de construção do império.
Voltando ao assunto principal, as panacas eram responsáveis 
por cuidar dos bens do imperador, bem como por preservar os res-
tos mortais do líder falecido. Para isso, utilizavam-se do processo de 
mumificação. Durante as festas na capital do império, levavam os 
corpos em praça pública para que o imperador pudesse comparti-
lhar das festividades.
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200
Apesar da morte de seu representante, essas panacas não 
possuíam papel figurativo. Nas constantes desavenças e reviravol-
tas sucessórias, elas realizavam os conchavos políticos e aponta-
vam para os possíveis novos líderes.
Para Rostworowski (1999, p. 43), "é induvidável que esses 
grupos criaram facções e alianças e deveram exercer suas influên-
cias nos diversos episódios da história Inca". 
Ao contrário dos astecas, que elegiam um nome consensu-
al entre os membros do grupo dos tlazo pilpitins, entre os incas, 
tinha direito ao “trono” o filho mais apto ao cargo. No entanto, 
esse é um critério muito subjetivo. Por exemplo, Wirakocha Inka 
achava que seu filho mais apto ao cargo era Uerqu. Opinião com-
pletamente oposta à de Pachacútec, que acabou tomando o trono 
à força.
Já que mencionamos Pachacútec, vamos lembrar de outra 
medida administrativa adotada por ele para governar seu vasto 
império. Como nos indica o último trecho de John Murra (2004) 
que citamos, o novo império estabelecia governos indiretos. Mas 
o que isso quer dizer?
Os antigos líderes dos grupos dominados, caso houvessem 
aceitado pacificamente o governo incaico, continuavam exercendo 
sua influência regional como representantes do governo central, 
que ficava em Cuzco. Como garantia de seu contínuo apoio, os in-
cas levavam o filho do governante para estudar na capital e, quan-
do julgavam pertinente, uma de suas filhas para trabalhar como 
tecelãs no Templo do Sol. Eram as chamadas acllas, ou “prometi-
das”, “escolhidas”.
Por serem as escolhidas do Sol, as acllas deveriam manter-se 
virgens até que seu futuro fosse decidido. Podiam ser dadas em 
casamento para membros da aristocracia cusquenha ou permane-
cer celibatárias nos templos, transformando-se em mamas acllas. 
Assim, quando eram pegas fugindo do templo ou mantendo rela-
ções sexuais, eram sumariamente executadas, tendo sua pele toda 
201© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
retirada ainda em vida e ficando expostas, junto a seus parceiros, 
em carne viva.
Assim, os incas estabeleciam uma relação de subordinação 
com os administradores regionais, supervisionados de perto pelos 
tucurucuits (espiões reais). Tal como era o império dividido em qua-
tro partes, cada parte era novamente separada em quatro regiões, 
e assim sucessivamente. Era uma forma de se criar uma “burocra-
cia” para manter comando sobre as regiões dominadas. Essas regi-
ões orbitavam ao redor do centro maior do império: Cuzco. Com a 
ascensão de Pachacútec ao poder:
[...] Cuzco deixou de ser, no século 15, o núcleo de uma comuni-
dade local para tornar-se um importante centro urbano, capital da 
Tahuantinsuyo descrita pelos europeus. Não era apenas o coração 
administrativo do reino inca, mas também um centro cerimonial, 
onde eram sacrificadas centenas de peças de roupas finas e um 
grande número de sacerdotes jejuava enquanto observavam dos 
seus observatórios-palácio os movimentos do sol (MURRA, 2004, 
p. 84). 
 A centralidade de Cuzco trazia um número incontável de 
pessoas à capital; pessoas de passagem, pagando tributos em tra-
balho, cumprindo a serventia aos panacas etc. Era gente de dife-
rentes lugares e etnias, com roupas, hábitos e cortes de cabelo 
diversificados, características essas que chamaram a atenção de 
cronistas. Um deles, León (apud MEGGERS, 1979, p. 123-124), des-
creveu assim o ritmo da vida cusquenha:
Como esta era a principal e mais importante cidade do reino, em 
certas épocas do ano os índios das províncias vinham até ela, al-
guns para construir edifícios, outro para limpar as ruas e distrito e 
qualquer outra coisa que lhes fosse ordenada... E como essa cidade 
estava cheia de pessoas estranhas e estrangeiros, pois havia índios 
do Chile, Pasto e Cañari, Chachapoyas, Collas e todas as outras tri-
bos que podiam ser achadas pelas províncias..., cada grupo se es-
tabelecia num local e distrito determinado pelos governantes da 
cidade. Observavam os costumes de seu próprio povo e vestiam-se 
de acordo com a moda de sua própria terra, de modo que, em meio 
a centenas de homens, cada grupo podia ser facilmente reconheci-
do pelas insígnias que usavam sobre a cabeça. 
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
202
Para finalizar, não podemos nos esquecer do importante 
papel desempenhado pelos quippucamayos e pelos chasquis. Os 
primeiros trabalhavam como contabilistas da produção e da redis-
tribuição, operando seus quippus com um número incontável de 
cordas e dobras.
Estudos recentes apontam para a possibilidade de que os 
quippus também servissem como forma de escrita. O indício parte 
das próprias crônicas. Muitas vezes, os cronistas, quando queriam 
obter informações sobre o passado dos incas, recorriam aos qui-
ppucamayos, que lhes contavam com detalhes a história de seus 
antepassados. Dessa forma, seriam não apenas contadores, mas 
também escrivães do império.
Já os chasquis eram os mensageiros reais. Por meio das infi-
nitas rotas e estradas que ligavam o Tahuantinsuyo em seus quatro 
cantos e mais de 20 mil km de extensão (do centro do Chile ao 
norte do Equador), levavam mensagem às províncias e comida ao 
rei. Corriam oito quilômetros por dia e, ao chegarem a seu des-
tino, passavam adiante a mensagem ou o alimento real ao outro 
chasqui, o qual seguia em frente, sucessivamente assim, até fina-
lizarem a missão. A tradição oral e o treinamento de memorização 
recebido garantiam a preservação do teor das mensagens.
QuEstõEs AutOAvALiAtivAs7. 
Para finalizar as atividades desta unidade, sugerimos que 
você responda às questões subsequentes, as quais tratam do de-
senvolvimento da vida na zona andina central, com especial aten-
ção aos incas.
Lembre-se de que a autoavaliação é uma interessante ma-
neira de testar seu desempenho, pois, caso tenha dificuldade em 
responder às perguntas propostas, ainda poderá rever os conteú-
dos aqui estudados.
203© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Qual é a importância da discussão proposta nesta unidade para a sua for-1) 
mação?
Com base no que vimos nesta unidade, é possível dizer que, muitas vezes, as 2) 
práticas culturais de uma sociedade permanecem, a despeito do desapareci-
mento ou enfraquecimento dos povos que as criaram e as desenvolveram?
Qual é a importância que o povo chavín possui para a organização da reli-3) 
giosidade andina?
O que você pensa das "teorias" sobre o contato dos povos pré-colombianos 4) 
com seres extraterrestres?
Que importância teve Pachacútec para a organização da sociedade inca? O 5) 
que foi mantido e o que ele trouxe de novo para o sistema social incaico?
Como era a divisão do trabalho na sociedade inca?6) 
COnsiDErAçõEs DA uniDADE8. 
Ao longo desta última unidade, você acompanhou a trajetó-
ria histórica da constituição dos principais povos da região andina 
central, que teve seu apogeu com os incas, entre os séculos 15 e 
16. Poderíamos escrever outro livro-texto sobre os incas ou sobre 
cada um desses povos, pois há muito a ser escrito, bem como a ser 
pesquisado. Esperamos que estas breves páginas tenham fustiga-
do sua curiosidade.
De qualquer forma, não poderíamos terminar esta unidade 
sem tocar em um ponto polêmico e muito importante na compre-
ensão dos incas. Durante todo o século 20, houve intentos de taxar 
o império incaico como um modelo muito próximo do Estado so-
cialista. A redistribuiçãoe a reciprocidade soavam, para uma linha 
marxista de historiografia, como a socialização dos bens e meios 
de produção. Essa ideia ganhou vulto, especialmente com a obra 
de Louis Baudin, O Império Socialista dos Incas (1928).
Vale salientar que, na década de 1970, parte da historiografia 
peruana, a chamada nueva historia peruana, aliando abordagens 
de pesquisa da Antropologia às metodologias da História, tentou 
comprovar que os ayllus demonstravam uma ideia de socialismo 
© História da América I
Centro Universitário Claretiano
204
primitivo, valorizando a necessidade de compreendê-los para a 
formação de um socialismo tipicamente peruano. Alguns dos au-
tores que tentaram fazer isso foram Fernando Fuenzalida Vollmar, 
em sua Estructura de la Comunidad de Indigenas Tradicional: Una 
Hipotesis de Trabajo (1976), e Hildebrando Castro Pozo, em Del 
Ayllu al Cooperativismo Socialista (1973).
Cremos oferecer informações suficientes para você retirar 
suas conclusões. No entanto, fica sempre o convite para que pro-
cure saber outras opiniões para chegar até aquela que represente 
a sua.
E-REFERÊNCIAS9. 
Lista de figuras
Figura 2 - Mapa topográfico do peru: disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Imagem:Peru_Topography.png>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 3 - Estrutura geológica dos Andes: disponível em: <http://formacao.es-loule.edu.
pt/biogeo/geo12/temaI/imagens/andes.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 5 – painel em baixo-relevo do Deus sorridente da civilização chavín, em Ancash: 
disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1625706>. Acesso em: 25 jan. 
2009.
Figura 6 – Huaca del sol: disponível em: <http://z.about.com/d/gosouthamerica/1/0/4/
N/18263110sumtemplemoche.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 7 – baleia: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286319>. Acesso 
em: 25 jan. 2009.
Figura 8 – Aranha: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286276>. 
Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 9 – Macaco: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286298>. 
Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 10 – Linhas de nazca: disponível em: <http://www.panoramio.com/
photo/1286219>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 11 – Entrada da cidade de tiahuanaco: disponível em: <http://www.panoramio.
com/photo/4893261>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 13 – Quipu: disponível em: <http://content.answers.com/main/content/wp/en/
thumb/9/90/350px-Inca_Quipu.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009.
Figura 14 – porta de entrada da cidade de Chan Chan (trujillo): disponível em: <http://
www.panoramio.com/photo/265499>. Acesso em: 25 jan. 2009.
205© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Figura 15 – Los comentários reales de los incas, de Garcilaso de la vega: disponível em: 
<http://www.cervantesvirtual.com/bib_autor/garcilaso/graf/garcper2.jpg>. Acesso em: 
25 jan. 2009.
Figura 18 – Formação ilustrativa de um ayllu: disponível em: <http://www.luzcom.com.
br/inca/livro/images/QdXIV.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS10. 
FAVRE, H. A civilização inca. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
KLÁREN, P. Nación y sociedad en la historia del Perú. Lima: IEP, 2005.
MEGGERS, B. América pré-histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MURRA, J. As sociedades andinas anteriores a 1532. In: BETHELL, L. (Org.). História da 
América Latina: a América Latina colonial. São Paulo: Edusp/Brasília: Fundação Alexandre 
Gusmão, 2004. v.1.
ROSTWOROWSKI, M. Historia del Tahuantinsuyu. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 
1999.
COnsiDErAçõEs FinAis11. 
Conforme informamos na apresentação de nosso livro-texto, 
esta disciplina tem como enfoque primordial as principais socieda-
des que se organizaram nas zonas nucleares da Mesoamérica e da 
zona andina central. No entanto, muitas outras sociedades daqui 
mesmo, isto é, no Brasil, nos Estados Unidos, interior da Argentina, 
Alasca, Caribe e outras regiões, desenvolveram fascinantes histó-
rias e deixaram registros de sua existência.
Além das áreas nucleares principais, os arqueólogos cos-
tumam delimitar os demais tipos de organização de acordo com 
a seguinte classificação: zonas florestais, zonas desérticas, zonas 
campestres, zona ártica, zona intermediária e zonas marginais (cf. 
MEGGERS, 1979).
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Fonte: MEGGERS (1979, p. 63).
Figura 20 Zonas de concentração populacional americana. 
As zonas florestais são formadas por grupos que viveram em 
regiões de densa vegetação e de florestas contínuas e que se loca-
lizam na extensão das florestas temperadas do leste dos Estados 
Unidos e Canadá e nas florestas tropicais, as quais cobrem mais da 
metade da América do Sul.
Além da semelhança vegetativa, tais regiões guardam outra 
similaridade: abrigam os dois mais importantes sistemas fluviais da 
América, que são o Mississipi e o Amazonas. Na porção norte des-
207© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
sas regiões, encontramos as culturas adena e hopewell e, também, 
o sítio de Poverty Point. Já em sua porção sul, temos os resquícios 
da cultura marajoara e suas cerâmicas policrômicas, além de várias 
outras pequenas tribos localizadas na várzea do rio Amazonas.
As zonas desérticas também são encontradas nos dois he-
misférios: no sudeste da zona andina central, em partes do Chile, 
da Bolívia, do Peru, do Paraguai e da Argentina, e no noroeste da 
região mesoamericana, nos atuais estados norte-americanos de 
Utah, Novo México, Arizona e Colorado. 
Embora o clima semiárido provoque grandes dificuldades 
para o desenvolvimento da vida humana, encontramos vestígios 
de alguns agrupamentos que constituíram uma vida sedentária, 
como prova a utilização de cerâmicas. Dentre os vários povos 
dessas zonas, podemos destacar as culturas mogollon, pueblo III, 
anasazi e hohokan, no hemisfério norte, e a cultura aguada, no 
hemisfério sul.
Outra área que merece atenção é a zona campestre, a qual 
também é encontrada nos dois hemisférios. No norte, localiza-se 
no meio-oeste norte-americano, e, no sul, na Argentina, no Uru-
guai e no estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
A composição geográfica dos campos do norte e do sul é 
muito semelhante no que diz respeito ao relevo, à vegetação, às 
florestas e aos rios. No entanto, a diferença climática é bastante 
acentuada: no norte, há grandes oscilações sazonais (43°C no ve-
rão e, no inverno, o frio é rigoroso); já nos campos do sul, a tempe-
ratura é amena, por conta da proximidade com o oceano Atlântico, 
que faz a temperatura chegar a 27°C nas épocas mais quentes.
A presença do rio Mississipi e do rio Paraná nessas regiões 
possibilitou a formação de vida ao redor de suas margens. Por con-
ta disso, temos vários tipos de vestígios arqueológicos, como fo-
gões, suportes para secadores, vasilhames de cozinha, estacas de 
sustentação, além de grupos de pontas de pedra.
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208
As zonas marginais encontram-se em uma grande faixa cen-
tral do território brasileiro e em boa parte do atual Canadá. Essas 
áreas não receberam a atenção especial dos arqueólogos, pois os 
povos que ali habitavam deixaram poucas características peculia-
res que permitissem uma generalização ou categorização de suas 
culturas específicas. Organizaram-se, primordialmente, em formas 
de bandos ou tribos nômades. Um dos exemplos de bandos das 
zonas marginais é mencionado em nossa Unidade 1, quando fala-
mos do ciclo de subsistência encontrado na região de Tehuacán.
De todas as zonas delimitadas por sua composição geográ-
fica e pela existência de baixa densidade populacional que foram 
apresentadas aqui, a única que não possui correlação entre norte 
e sul é a zona ártica. Localizada ao norte do continente americano, 
estende-se por mais de 4.800km, desde o Estreito de Bering até a 
Groenlândia.Provavelmente, foi ali que as primeiras tribos nôma-
des americanas se constituíram, por volta de 10.000 a.C., como 
você já sabe.
No entanto, a principal tribo a se sedentarizar e estabelecer 
uma relação de subsistência com o oceano Ártico e os mamíferos 
marinhos foi a cultura esquimó, por volta de 1.000 a.C. Para ga-
rantir a sobrevivência, foi necessária a adaptação desses homens 
às condições adversas de clima e de vegetação. Para tanto, roupas 
pesadas, máscaras contra o frio, casas feitas de blocos de gelo e 
sofisticados arpões para a caça marinha foram manufaturados.
Por fim, a zona intermediária é aquela onde encontramos 
as ilhas caribenhas, tais como Santo Domingo, Haiti e Cuba. Jus-
tamente por isso, essa zona também recebe o nome de Circum-
Caribe. Contudo, além das ilhas, tal região compreende faixas de 
terra dos atuais Panamá, Venezuela e Colômbia. Essa zona possui 
uma característica especial: nela ocorreu o primeiro contato entre 
a expedição de Colombo e os nativos americanos que habitavam 
as ilhas caribenhas.
209© América Pré-colombiana: Zona Andina Central
Além disso, é importante destacarmos alguns pontos. O de-
senvolvimento da cerâmica e, por consequência, da vida sedentá-
ria ocorreu no mesmo período que nas zonas nucleares principais 
(ou seja, a mesoamericana e a andina central). É também na região 
intermediária que encontramos os chibchas (descritos na Unidade 
1), a sociedade barrancoide e a cultura coclé, do Panamá.
Todas essas informações podem ser encontradas mais bem 
explicadas e ilustradas na importante obra A América Pré-histórica 
(1979), da arqueóloga norte-americana Betty Meggers, citada à 
exaustão no decorrer deste livro-texto.
A seguir, indicamos outras obras que versam sobre a cultura 
e sociedade dos povos indígenas norte-americanos, pouco abor-
dados nestas quatro unidades.
SOLA, José Antônio. •	 Os índios norte-americanos: cinco sé-
culos de luta e opressão. São Paulo: Moderna, 1995 (Co-
leção Polêmica).
NEVINS, Allan; COMMAGER, Henry Steele. •	 Breve história 
dos Estados Unidos. São Paulo: Alfa-Omega, 1986.
Sobre as tribos brasileiras, fica a indicação do artigo escrito 
por John Hemming e intitulado Os índios do Brasil em 1500, que 
pode ser encontrado na obra A América Latina colonial, organiza-
da por Leslie Bethell e que consta em sua bibliografia básica.
Os povos pré-colombianos são diversos, e todos possuem 
histórias importantes e de grande relevância para os estudos cul-
turais e antropológicos sobre o homem e sua capacidade de rela-
cionar-se com o meio ambiente. Fica aí a sugestão para que você 
dê continuidade a esses estudos.
Esperamos, sinceramente, que você tenha aproveitado os 
conteúdos apresentados nesta disciplina. Temos a convicção de 
que muitos temas não puderam ser abordados aqui, não por des-
caso ou descuido, mas por falta de espaço.
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