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EA D América Pré-colombiana: Zona Andina Central 4 ObjEtivOs1. Identificar as principais características das sociedades • pré-colombianas da zona andina central. Conhecer a pluralidade cultural e étnica que compõe o • universo andino. COntEúDOs2. Sociedades tribais da zona andina central pré-colombia-• na. Primeiras civilizações andinas: chavín, nazca, tiahuanaco-• huari e chimú. Incas: sociedade, economia, política e cultura.• © História da América I Centro Universitário Claretiano 152 OriEntAçõEs pArA O EstuDO DA uniDADE3. Leia as orientações a seguir, as quais são fundamentais ao estudo desta última unidade: No Tópico 5, que tratará sobre os povos da zona andina 1) central, você observará que o fato de eles não produzi- rem cerâmica nem desenvolverem agricultura não sig- nifica que eles não possuíam técnica, mas sim que não precisavam dela. Diante disso, pense na seguinte máxi- ma: a necessidade é a mãe das invenções? Lembre-se de que não podemos julgar uma cultura com o olhar e os referenciais de outras. Nesta unidade, você vai conhecer um pouco da obra de 2) Garcilaso de la Vega, um mestiço filho de pai espanhol e mãe indígena (nobre inca). Esse escritor, após mui- tos intentos de se incorporar à sociedade criolla e de ser aceito como espanhol, ao final de sua vida (já em território espanhol), decidiu narrar a vida e história de seus antepassados maternos – os incas, os quais serão aqui abordados. Tal fonte foi muito difundida na Europa quando da época de sua publicação, ganhando versões em francês, inglês e outros idiomas. Apesar de ela guar- dar muitos elogios ao catolicismo, a partir dessa obra, intensificaram-se vários mitos a respeito da justiça social que haveria existido no império inca, assunto muito im- portante para este estudo. Portanto, recomendamos que você busque conhecer esse renomado trabalho, fazendo o download de seu texto completo no site disponível em: <http://www.bibliotecasvirtuales.com/biblioteca/ LiteraturaLatinoamericana/IncaGarcilasodelaVega/Co- mentariosReales/index.asp>. Acesso em: 24 nov. 2010. Para iniciar o estudo da Unidade 4, é importante que 3) você conheça, pela Figura 1, o mapa físico e geográfico do Peru atual. Durante seu estudo, lhe orientaremos a visualizar esse mapa para um melhor entendimento so- bre o assunto em questão. 153© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Fonte: Kláren (2005, p. 26). Figura 1 Mapa físico e geográfico do Peru atual. A Figura 2 permite a você uma clara visualização do que 4) descreve o conteúdo estudado nesta unidade. © História da América I Centro Universitário Claretiano 154 Figura 2 Mapa topográfico do Peru. Na Figura 3, você pode visualizar o relevo dos Andes, re-5) sultante da ação das placas tectônicas. Um desenho que ilustra litoral, montanhas e florestas, de oeste para leste, à semelhança da Figura 3, também seria interessante e serviria como um exemplo de perfil topográfico. 155© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Figura 3 Estrutura geológica dos Andes. intrODuçÃO à uniDADE4. Nas unidades anteriores, você acompanhou o desenvolvi- mento das principais sociedades pré-colombianas da região me- soamericana. Lembre-se de que, em virtude dos problemas relati- vos às fontes mencionados na Unidade 1, há muitas especulações, teorias e hipóteses sobre esses povos; portanto, trata-se de um exercício de aproximação e investigação que sempre permite no- vas interpretações e abordagens. Dando continuidade aos estudos dos chamados “povos ame- ríndios”, nesta unidade, trabalharemos de maneira mais detida as principais características das sociedades localizadas na região an- dina central. Com certeza, você já deve ter ouvido algo sobre os incas e a “cidade perdida” de Machu Picchu (Figura 4). © História da América I Centro Universitário Claretiano 156 Fonte: arquivo pessoal. Figura 4 Machu Picchu. Durante muito tempo, acreditou-se que os povos da zona andina central tivessem vivenciado um desenvolvimento indepen- dente ao de seus vizinhos mesoamericanos. No entanto, da mes- ma forma que as características geográficas do continente permi- tiram uma ampla dispersão dos primeiros "americanos", o mesmo aconteceu com os demais povos que apareceram no decorrer dos séculos e milênios, o que abriu possibilidades para a ocorrência de encontros entre eles. Muitos indícios, como a adoção de técnicas agrícolas e a im- portação de tipos específicos de alimentos e de estilos de confec- ção de cerâmicas, nos apontam para esse caminho. Outro vestígio que nos permite pensar na validade dessa afirmação é encontrado nas semelhanças existentes entre os rituais religiosos dos olmecas e dos chavins. Assim como na sociedade mesoamericana, havia, por parte dos chavins, a adoção de entidades felinas em seus rituais. Confor- 157© América Pré-colombiana: Zona Andina Central me sugere Murra, "através das planícies tropicais, Chavín pode ter alcançado fontes de inspiração muito mais antigas na Mesoaméri- ca" (2004, p. 76). Teriam os olmecas influenciado os chavins? Não podemos afirmar nem que sim nem que não. Essa é apenas uma hipótese, aceita por alguns, refutada por vários. Entretanto, no estudo des- ses povos do passado americano, pensamos que a melhor pergun- ta a ser feita é: "por que não?". Nós já conhecemos os olmecas; então, vamos ver, no próxi- mo tópico, um pouco mais sobre os chavins e as primeiras socieda- des da zona andina central. priMEirOs pOvOs DA ZOnA AnDinA CEntrAL5. O desenvolvimento da vida em sociedade na zona andina central é marcado por uma diferença estabelecida por suas pecu- liaridades geográficas. Como sabemos, essa região recebe o nome de “zona andina” por conta da presença imponente da Cordilhei- ra dos Andes, que se estende da fronteira norte do Chile com o Peru, passando pelo noroeste argentino, cortando todo território de Peru, Bolívia, Equador e Colômbia, e se expande até a porção oeste da Venezuela. Assim, a cordilheira, por onde passa, estabelece uma nítida divisão entre costa, serra e floresta. No Peru (região atual), o qual, no passado, concentrou as principais sociedades pré-colombianas da região andina central, essa separação é ainda mais evidente. O país atual divide-se em três faixas verticais, muito bem delimitadas pelos Andes, que dispõem: à esquerda, a região costeira; à direita, a região da selva; e, no centro, a região andina, conforme você pode ver no recorte topográfico disponibilizado ao final desta unidade. O pico mais alto da cordilheira andina se chama Huascarán e está a 6.768 metros acima do nível do mar. © História da América I Centro Universitário Claretiano 158 A geografia não somente influencia a paisagem, mas tam- bém os hábitos e costumes de cada civilização. O clima frio, o ar rarefeito e a flora escassa da região andina contribuíram para o desenvolvimento de sociedades muito mais "avançadas" tecnolo- gicamente do que aquelas da costa e, especialmente, da selva. O fácil acesso a alimentos produzidos na floresta fez que o desenvol- vimento de técnicas de cultivo e armazenagem de alimentos não fosse uma necessidade dos povos das selvas. Por causa dos sambaquis, é possível verificar que a coleta de moluscos e frutos do mar na costa pacífica gerou condições para que povos se tornassem semissedentários, apesar de uma vida baseada somente na caça e coleta. Posteriormente, já no Holo- ceno, com o descongelamento dos oceanos e o aumento do nível do mar, foi possível o desenvolvimento de técnicas de pesca e de construção de barcos pesqueiros. Nos Andes, as baixas temperaturas obrigaram à construção de casas mais resistentes feitas de pedra, e a baixa disponibilidade de alimentos selvagens levou à necessidade de se criar estruturas de armazenagemde alimentos, bem como o desenvolvimento de novas técnicas de agricultura e plantio. Tais condições provocaram o trabalho associativo de grupos de pessoas, também conhecido como “reciprocidade andina”, conforme veremos adiante. Além da geografia e da fauna, outro elemento possui impor- tância para o desenvolvimento de mais técnicas de sobrevivência nesse local: a presença de camélidos, tais como alpacas, vicunhas e lhamas. Se, por um lado, as condições de vida mais difíceis nas altitu- des dos Andes possibilitaram o desenvolvimento de técnicas mais avançadas de sobrevivência, por outro, as boas condições de vida na costa permitiram o surgimento das primeiras sociedades orga- nizadas na zona andina central. Há indícios que apontam para a presença de comunidades de sambaquis no vale de Chira-Piura, como você pode observar no 159© América Pré-colombiana: Zona Andina Central mapa da Figura 1, por volta de 11.000 a.C. a 8.000 a.C. Já a utiliza- ção de pontas de pedra muito bem talhadas para a pesca ocorreu na região de Trujillo e remonta a um período entre 10.000 a.C. e 7.000 a.C. Apesar da vida semissedentária, essas populações ainda es- tavam muito expostas às alterações climáticas, o que ocasionavam várias e constantes levas de migração ou a extinção da vida organi- zada, como vimos na Unidade 1. Somente por volta de 2.500 a.C. foi que surgiram as primei- ras sociedades organizadas, em forma de pequenas aldeias que viviam do cultivo de plantas e da criação de animais. Conforme escreve o peruanista americano Peter Kláren: [...] começaram a surgir pequenas aldeias povoadas por granjeiros e pescadores nos férteis vales ribeirinhos da costa norte peruana. Elas marcaram a passagem dos acampamentos de caçadores e co- letores para os assentamentos mais permanentes. Estes antigos peruanos viviam em casas simples de tijolos, cultivavam batatas, feijões, algodão, com o que teciam sua roupa e pescavam no mar vizinho (2005, p. 28). Não demorou muito para essas sociedades desenvolverem outras técnicas de agricultura que possibilitavam o crescimento populacional e geográfico de seus domínios. Todavia, a princi- pal invenção a dar novos rumos para a história desses povos foi, sem dúvida, o sistema de irrigação. Isso ocorreu entre 3.000 a.C. e 1.800 a.C., expandindo-se rapidamente e sendo assimilado por outras culturas. Ainda segundo Kláren: A difusão da irrigação permitiu aos povos costeiros trasladar seus assentamentos terra adentro a partir da costa, subindo pelos vales às estribações dos Andes. A construção de canais de irrigação lhes permitiu cultivar e produzir mais de um produto por ano. Além do amendoim e feijões, apareceram novos cultivos tais como o abaca- te, a batata, a batata doce e o amendoim, assim como o algodão (2005, p. 28). Além dos sistemas de irrigação, outra tecnologia desenvol- vida que possibilitou um salto no grau de estruturação social dos povos "peruanos" foi a cerâmica. Esta, desenvolvida por volta de © História da América I Centro Universitário Claretiano 160 1.800 a.C. sob influência da região norte do Peru, permitia a esto- cagem de alimentos e era utilizada na realização de rituais religio- sos mais elaborados. A cerâmica, denominada “valdívia”, surgiu na América, na porção sul do Equador (quase divisa com o norte do Peru). Acha- dos arqueológicos na cidade de Lima, na Huaca Pucllana, apontam a utilização da cerâmica em rituais cerimoniais, que se configura- vam na oferenda de grandes vasos de cerâmica ao Sol. Depois de serem quebrados, eram erguidas sobre eles estruturas administra- tivo-religiosas. Na zona andina central, a primeira grande sociedade a nos deixar vestígios sobre sua organização e a apontar padrões de comportamento social definidos foi a chavín, já mencionada an- teriormente. Você deve estar curioso para saber um pouco mais sobre eles, não é mesmo? Então, vamos lá! Chavín A sociedade chavín desenvolveu-se entre 800 a.C. e 300 a.C. Localizava-se na serra norte de Ancash, perto da atual cidade de Huaráz, na região central do Peru. Para que você a encontre no mapa da Figura 1, está na região andina, na altura entre Chimbote e Lima, perto do rio Pachitea. A princípio, arqueólogos como Julio Tella acreditavam que se tratava de um povo natural dos Andes, sendo, assim, a matriz ét- nica da civilização andina. No entanto, estudos recentes apontam para a sua origem amazônica. A localização de chavín contribuiu consideravelmente para o seu desenvolvimento, uma vez que ficava no meio do caminho de uma rota de intercâmbio entre a costa e a selva e no encontro de vários rios importantes para a irrigação da região, como o rio Tingo. 161© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Chavín não pode ser considerada uma sociedade urbana. No entanto, configurou-se como um grande centro cultural e religioso, que contribuiu para a difusão de concepções religiosas que esta- riam presentes em quase todas as sociedades andinas sucessoras. Essa importância foi consolidada pela construção do Templo del Dios Sonriente (“Templo do Deus Sorridente”, em português), que você terá a oportunidade de conhecer na Figura 5. Debaixo do templo, foram construídos canais de passagem de água que vinham dos rios originados do degelo da cordilheira. O som pro- duzido pela passagem da água no subsolo do templo conferia-lhe ainda maior mistério. Figura 5 Painel em baixo-relevo do Deus Sorridente da civilização chavín, em Ancash. Para os povos da época, esse templo era o lugar mais sagra- do de todos; era o centro do Universo. Tal relação do sagrado com a localização geográfica do cosmo seria algo que permaneceria em todas as sociedades andinas. © História da América I Centro Universitário Claretiano 162 Além dessa espacialização da divindade, outra contribuição fundamental dos chavins foi a associação das produções metalúr- gicas e têxteis com os rituais religiosos. A produção de tecidos pos- suiu uma relação importante com o poder espiritual até a época dos incas. Muitas oferendas ou doações entre líderes tribais eram feitas à base de tecidos minuciosamente produzidos. Ademais, a faca de sacrifício feita de ouro representava a herança da relação entre o ritual e a metalurgia. Outro importante elemento introduzido pelos chavins à cul- tura e à religião andina foi a figura de três importantes símbolos da religiosidade andina: a ave de rapina (condor), o puma e a ser- pente. Como escreve Meggers (1979, p. 99), “o aspecto mais espe- tacular da cultura Chavin é o seu estilo artístico, que retrata feli- nos, serpentes e aves de rapina ornados e altamente estilizados". Assim como os olmecas introduziram a figura do jaguar, deus da chuva, e organizaram o panteão básico de deuses da cultura mesoamericana, os chavins foram responsáveis pela inserção do puma aos rituais religiosos e pela criação de vários rituais que se repetiriam. Ainda que seja difícil comprovar a relação entre os olmecas (zona mesoamericana) e os chavins (zona andina central), essa possi- bilidade não pode ser totalmente descartada. Nesse sentido, será que a adoção de deuses felinos no panteão chavín não pode ter sido influência mesoamericana? Eis o questionamento: por que não? No entanto, não somente contribuições religiosas foram dei- xadas pelos chavins. A criação de aquedutos e túneis subterrâneos de passagem de água e a adoção da mandioca na alimentação e de técnicas de cultivo possibilitaram o crescimento de novos po- vos e novas tribos em volta de sua região. No apogeu chavín, sua influência atingiu partes ao norte de Ancash até Cajamarca e, ao sul, até Arequipa. 163© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Justamente por isso é que Kláren destaca a importância dos chavins, uma vez que eles uniram "pela primeira vez as culturasnão relacionadas entre si em todo Peru, com uma religião e tecno- logia compartilhada" (2005, p. 30). A influência dos chavins perdurou mais do que sua socieda- de. Por volta de 300 a.C., sua importância econômica e política deu espaço para outros povos, tais como os moches (ou mochicas) e os nazca. Moche e nazca Enquanto os moches se desenvolveram ao norte do Peru, na região costeira perto da atual cidade de Trujillo, os nazcas cresce- ram na porção andina, no vale da atual cidade de Ica, na região sul do litoral peruano. Os moches alcançaram seu apogeu por volta do ano 400 d.C.; já os nazcas existiram entre os anos 100 d.C. e 600 d.C. Entre os povos que se desenvolveram nos cinco primeiros séculos da Era Cristã no Peru, aqueles sobre os quais possuímos maiores informações são os moches. Esse conhecimento é possí- vel por conta de sua significativa e diversificada produção de arte- fatos de cultura material. Eram grandes ourives, construtores de pirâmides e ceramistas. As cerâmicas mochicas são as principais fontes que possuí- mos para compreender a organização social desse grupo. Por meio delas, é possível perceber a existência de hierarquias sociais e de divisão do trabalho (como escravos, guerreiros, artesãos, pescado- res etc.). Além disso, podemos nos aproximar de elementos de sua religiosidade, tais como a sua mitologia e a existência de sacrifícios humanos. Detalhes da vida cotidiana também são possíveis de serem captados, como, por exemplo, tipos elaborados de penteados, vestimentas estilizadas, diferenciação social por trajes etc. O mais © História da América I Centro Universitário Claretiano 164 interessante é que, por meio das análises das cerâmicas, é possí- vel perceber que vários elementos da vida andina retratada pelos cronistas durante o processo de conquista da América já existiam. Entre elas, temos "liteiras para transportar indivíduos de classe elevada, corredores para levar mensagens (correio) e organização militar" (MEGGERS, 1979, p. 102). Note como os vestígios mate- riais deixados por uma sociedade podem fornecer importantes in- dícios a respeito de seu modo de vida. Outro legado impressionante da cultura moche foi a chama- da "construção civil". Utilizando-se de técnicas de confecção de blocos de adobe, eles levantaram enormes prédios, os quais im- pressionavam a todos que passavam por seus domínios. Sua maior construção foi, sem dúvida, a Huaca del Sol, um complexo cerimo- nial e administrativo construído na capital mochica, localizada no vale de Moche. A pirâmide impressiona até hoje pelo tamanho que tinha, podendo ser comparada às construções piramidais do Egito. Meg- gers (1979, p. 107) a descreve assim: [...] consiste numa imensa plataforma de 228 por 136m de base e 18m de altura com lados terraceados e um caminho que conduz ao extremo norte. Na parte sul do cume uma pirâmide com 103m2 e 23m de altura. Na Figura 6, você pode visualizar a Huaca del Sol atual e a sua reconstrução computadorizada, feita pelo canal televisivo History Channel. 165© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Figura 6 Huaca del Sol. Trata-se de um achado recente, realizado em meados do sé- culo 20, e que ainda apresenta muitas informações a serem deci- fradas. No entanto, em seu interior, é possível verificar a existência de afrescos que descrevem costumes e rituais. Sobre esses últimos, dentro da Huaca del Sol, foram encontrados restos de esqueletos humanos sacrificados. Em volta dessa enorme construção, os arqueólogos acredi- tam que uma grande cidade se ergueu, uma vez que ela possui não somente a função religiosa, mas especialmente administrati- va, servindo como a moradia dos governantes. Os moches provavelmente ergueram a primeira cidade da América do Sul ainda no início da Era Cristã. Não só as grandes construções atestam isso, mas também a intensa produção e es- trutura agrícola (grandes canais de irrigação). A estratificação so- cial bem delimitada nos permite afirmar que se tratou de uma sociedade urbana; aliás, a cultura moche exerceu fascínio e influ- ência cultural e econômica em uma extensa região, que englobou vários vales até a região de Casma, próximo à cidade de Chimbote, de acordo com o mapa da Figura 1. Outra importante característica dos moches é a ourivesaria. Joias, anéis, adornos para o corpo, roupas, camisas e coletes são alguns dos artefatos confeccionados em ouro por esse povo. Um importante achado arqueológico que nos possibilita encontrar tais artigos é o Senhor de Sipán, mencionado na Unidade 1. © História da América I Centro Universitário Claretiano 166 A civilização nazca é uma das mais conhecidas pelo público comum após os incas. Boa parte desse conhecimento vem de suas famosas linhas desenhadas em forma de gigantescos animais no solo semiárido dos Andes peruanos. Vamos acompanhar alguns desses desenhos nas Figuras 7, 8, 9 e 10. Figura 7 Baleia. Figura 8 Aranha. Figura 9 Macaco. Figura 10 Linhas de nazca. Durante boa parte do século 20, esses desenhos levantaram polêmica e povoaram o imaginário racionalista do Ocidente com a seguinte indagação: como eles fizeram isso? Essas imagens somente podem ser vistas a uma distância ra- zoável do chão, mas eles não possuíam nenhuma tecnologia para sobrevoar a região. Então, quem os orientou a fazer desenhos tão grandes e tão perfeitos sem o auxílio de tecnologias tão modernas quanto as nossas? Uma das respostas a essas perguntas foi formulada pelo es- critor holandês Erich von Däniken. Em sua obra Eram os Deuses 167© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Astronautas? (1968), ele afirmou que a obra nazca somente po- deria ser feita orientada por um observador que estivesse no céu, no espaço, ou seja, extraterrestre. Além disso, sustentou que as linhas retas que acompanham e marcam os desenhos e boa parte da região eram, na realidade, pistas de pouso para aeronaves ex- traterrestres. Apesar da fascinante e intrigante resposta trazida por Erich von Däniken, tal teoria nos parece um grande exercício de etno- centrismo, uma vez que não se aceita que obras tão magníficas sejam feitas sem a utilização de técnicas e cálculos existentes ape- nas em nossa cultura. Trata-se de uma afirmação que diz: um povo tão primitivo e atrasado não poderia fazer algo sem o avião e o helicóptero, inventados, somente, em nossa cultura. Parte do mistério foi desvendada pela pesquisadora polone- sa Maria Reiche. Levantando um andaime de cerca de cinco me- tros de altura do chão, Reiche demonstrou que é extremamente possível observar as figuras por completo. Assim, em vez de um "ET", bastava um homem encarregado pela obra ditar ordens aos seus subordinados no chão. Hoje, para se observar as linhas de nazca, no local, há três opções: a primeira é sobrevoar a região; a segunda é subir na tor- re, denominada “Maria Reiche”, construída às margens da Rodovia Pan-americana; e a terceira é fazer o download gratuito do softwa- re Google Earth e procurar as figuras no computador. Contudo, uma segunda dúvida persiste: por que fizeram es- ses desenhos? Antes de respondermos a essa questão, vamos co- nhecer um pouco melhor os nazcas. Além das linhas de nazca, pouco se sabe sobre essa socie- dade. Como apresentamos anteriormente, trata-se de um povo que viveu em uma região semidesértica, onde a água era muito escassa e a área total para o cultivo agrícola era muito menor se comparada às regiões costeiras, como no caso dos moches. © História da América I Centro Universitário Claretiano 168 Dessa forma, os períodos constantes de seca e a ausência de rios importantes na região obrigaram o surgimento de duas téc- nicas agrícolas muito importantes: a criação de aquedutos para aproveitar os chamados "rios subterrâneos" e o desenvolvimento da cerâmica.Aliás, a cerâmica nazca, assim como seu tecido, é de excelente qualidade e destaca-se pelo colorido e estilo próprios. Essas breves características levantadas sobre os nazcas nos permitem retornar à pergunta suscitada anteriormente a respeito do porquê dos desenhos. Como você viu, por conta das dificulda- des geográficas, a agricultura era algo extremamente difícil e im- portante. Justamente por isso, era muito valorizada pela cultura local, tendo centralidade em sua vida. A importância era celebrada, realçada e lembrada por ma- nifestações culturais, como, por exemplo, construções. Dessa ma- neira, podemos dizer que tais desenhos guardam relações com o ciclo agrícola e as técnicas de irrigação desenvolvidas. Nas ima- gens apresentadas anteriormente, repare que há linhas retas que cortam os desenhos, representando o caminho feito pela água no subsolo. Apesar de a relação entre desenhos e agricultura ser algo amplamente aceito pelos pesquisadores, alguns autores diver- gem sobre o significado das obras. Paul Kosok e Maria Reiche, por exemplo, viam os desenhos como um grande calendário agrícola que demarcaria os ciclos de plantio, seca e colheita; todavia, hoje se acredita que, em torno dos desenhos, ocorriam festividades que se relacionavam à agricultura, mas, primordialmente, à água. Kláren (2005, p. 32) considera que "mais plausível parece à idéia apresentada por J. Reinhard, a respeito de que elas [as li- nhas] formavam parte dos rituais associados com o transporte de água ao vale de Nazca”. Assim, as linhas demarcariam trajetos de encontros entre grupos de pessoas que traziam água armazenada em cerâmicas, representando o percurso feito pelos aquedutos subterrâneos que garantiam a existência de vida a eles. 169© América Pré-colombiana: Zona Andina Central tiahuanaco-Huari A partir do século 5º, as sociedades que prevaleceram nos Andes foram Tiahuanaco (ou Tiwanaku) e Huari (ou Wari). Além de se constituírem como duas grandes sociedades de características urbanas e alto grau de desenvolvimento tecnológico, elas repre- sentaram, em seu período, uma síntese da cultura andina, tal qual ocorreu na época dos chavins. Vale ressaltar que o fato de analisarmos uma sociedade após outra não quer dizer que as anteriores deixaram de existir da noi- te para o dia. Ao contrário, continuaram existindo, mas passaram a sofrer influências de outros grupos. Além disso, problemas cli- máticos e geográficos levaram à diminuição de seus contingentes populacionais e, consequentemente, à diminuição de sua zona de influência. Durante muito tempo, acreditou-se que essas duas socieda- des, Tiahuanaco e Huari, chegaram a conviver compartindo terri- tórios, leis e costumes regulados por uma mesma capital. No en- tanto, essa afirmação não pôde ser comprovada. Como esclarece John Murra (2004, p. 76): [há] testemunhos de contemporaneidade e mesmo contato en- tre ambos; no começo do século, costumava-se considerar os dois uma única comunidade política, cuja capital ficava nas montanhas do sul. Pesquisa recente sugere que, embora tiahuanaco e huari possam ter exercido sua hegemonia ao mesmo tempo, suas esferas de interação foram distintas. Assim, os tiahuanacanos viveram próximos do lago Titicaca, como mostra o mapa da Figura 1, na divisa do Peru com a Bolí- via, em uma das regiões habitadas mais altas e frias dos Andes, a cerca de 3.800 metros acima do nível do mar. Para eles, o lago constituiu-se peça fundamental para o desenvolvimento agrícola de sua grande cidade. As margens pantanosas do lago Titicaca geravam um terreno fértil para o plantio de batata e de quinoa. Além disso, os tiahuana- © História da América I Centro Universitário Claretiano 170 canos utilizavam sistemas de ilhas flutuantes feitas de junco (tais como as chinampas astecas) para o plantio, e o restante de sua dieta era completado por carne de camélidos. Essa é uma região dos Andes onde, historicamente, há uma grande quantidade de lhamas e alpacas. Além das chinampas para o plantio, com o junco, eles construíam barcos de pesca. Em volta do lago, também construíram sua capital, que che- gou a possuir cerca de 6,5km2 de extensão territorial, cobertos por estruturas feitas com grandes pedras. Diferentemente dos mo- ches, que utilizavam blocos de adobe para erguer suas estrutu- ras, os tiahuanacanos construíram seus templos, portais e palácios utilizando-se das enormes pedras retiradas dos próprios Andes. A Porta do Sol, principal monumento da cidade de Tiahua- naco, o qual ainda existe, possui três metros de altura por cinco metros de largura e pesa cerca de dez toneladas. Outros monu- mentos impressionam pelo tamanho das pedras utilizadas e pela grandiosidade das esculturas. Na Figura 11, você pode ver a entrada da cidade de Tiahua- naco, localizada no lado boliviano do lago Titicaca. Ao fundo, a por- ta do Sol. Figura 11 Entrada da cidade de Tiahuanaco. 171© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Na parte superior da Porta do Sol, existe um calendário solar com ênfase para fases de plantio e colheita. Além disso, há figuras mitológicas esculpidas compondo o calendário, como o deus pan- andino Wiracocha. São poucos os detalhes que possuímos a respeito da vida cotidiana em Tiahuanaco. Nada sabemos de sua organização social e temos poucas informações sobre sua religião. Todavia, sabemos que esta foi fundamental para o estabelecimento de sua influência sobre os demais povos da região. Segundo se especula, tal "dominação" não teve um caráter militar, mas, sim, religioso e cultural. Isso faz que os tiahuanaca- nos sejam, hoje, um dos povos mais exaltados por religiões e sei- tas exotéricas. Há até quem diga que Atlântida se encontrava na região andina do Titicaca, como diz o pesquisador britânico Jim Allen. O período protagonizado por Tiahuanaco-Huari é conhecido como “urbano clássico”. Os huaris encontravam-se em uma parte mais baixa da cor- dilheira, onde hoje se localiza a cidade de Ayacucho, conforme mostra a Figura 1. Diferentemente do caso dos tiahuanacanos, ali não havia um grande lago que propiciasse o desenvolvimento de grandes áreas de plantio. Ao contrário, existiam várias cadeias de montanhas e um misto de vales áridos e picos gelados. Como forma de superar essa dificuldade geográfica, os hua- ris desenvolveram um sistema de plantio que utiliza como base os próprios Andes para a plantação. São as chamadas terrazas (ter- raços). Como elas funcionam? Aproveitando a ladeira inclinada dos Andes, construiu-se uma parede de pedra que sobe verticalmente sobre o terreno, originando uma espécie de degrau. O vão entre a parede de pedra e a montanha é preenchido com terra. Nessa nova estrutura, realizam-se plantações, cuja técnica é denominada “andenes”. © História da América I Centro Universitário Claretiano 172 Assim, nessas terrazas, realizavam o plantio de seu principal produto, base de sua alimentação: o milho. Dele, extraíam um lí- quido que era especialmente utilizado em festas e rituais; falamos da chicha, uma espécie de bebida alcoólica que, até hoje, é impor- tante nos Andes, sendo o símbolo tradicional do Peru. Vale destacarmos que, além da chicha alcoólica, produz-se a chicha sem álcool e de variados tipos de milho; do milho roxo, por exemplo, sai a chicha morada (morena). É consumida no cotidia- no, havendo, para isso, lugares próprios. São as chamadas “chiche- rias”, as quais remetem ao período colonial. É interessante informarmos que o plantio de milho ocorria, especialmente, nas zonas mais quentes. Dessa forma, para as par- tes mais frias, era preciso remanejar a sua produção. Essa prática levou à necessidade da criação de instrumentos de armazenamen- to de grãos, tais como os prédios de estocagem, conhecidos como “tambos”, e a elaboração de um sistemade contagem e controle da produção. Também devemos aos huaris a elaboração dos quipus, uma espécie de corda maior, amarrada em volta do pescoço, com vá- rias outras menores que saem desse tronco. A cada dez unidades contadas, realiza-se um nó em uma das cordas ramificadas, sinali- zando sua contagem. Os quipus guardam mais "segredos" do que imaginamos. No entanto, quando apresentarmos a civilização inca, explicaremos outras interpretações feitas sobre eles. Nas Figuras 12 e 13, respectivamente, você pode ver o siste- ma de terrazas (andenes) em Ollantaytambo e o quipu. 173© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Fonte: arquivo pessoal. Figura 12 Sistema de Terrazas. Figura 13 Quipu. Essa estrutura agrícola possibilitou a criação de um grande centro urbano na região andina dominada pelos huaris. Além de sua cidade principal, como forma de administrar e controlar a ex- pansão de sua sociedade, que chegou a cobrir uma região que ia © História da América I Centro Universitário Claretiano 174 de Cuzco a Trujillo (como você pôde ver no mapa da Figura 1), ou- tros pequenos centros administrativos foram instituídos naquela época. Esses dois impérios possuíram grande importância para os dois reinos que surgiram após eles: o dos chimors e o dos incas. Você verá que várias técnicas de construção e de cultivo agrícola adotadas pelos incas não passaram de uma adaptação dos proce- dimentos que mencionamos anteriormente – as terrazas, os qui- pus e as grandes pedras para construção. Conforme aponta Kláren: Em síntese, tanto Tiahuanaco como Huari desenvolveram grandes assentamentos urbanos e sistemas estatais de amplo alcance nos Andes entre os anos 500 d.C e 1000 d.C. Ambos mostraram suas ha- bilidades e destrezas como engenheiros, tais como extensos siste- mas viários e estilos arquitetônicos aperfeiçoados posteriormente pelos incas (2005, p. 34). Após a decadência dessas duas civilizações, algumas peque- nas aldeias e chefias, bem como reinos e estados, foram erguidas ao longo do atual território peruano, mas sem o estabelecimento de uma unidade política ou cultural. Esse é o chamado “período de fragmentação política da zona andina central”. Entre esses vários grupos espalhados pela costa e pelos Andes, aquele sobre o qual possuímos mais informações é o dos chimors. Não é para menos; trata-se de um grupo que teve uma extensa produção de artesanato e uma capital de tamanho consi- derável, proporcionando-nos uma série de vestígios de sua cultura material. Além dos chimors, nesse mesmo período, tivemos a convi- vência de outros povos, como os chancais (costa central), os ica- chichas (costa sul), os chancas (serra central) e os reinos de Ay- mara (Altiplano). No entanto, vamos aqui apresentar somente um breve histórico do povo chimor. Vamos conhecê-lo? 175© América Pré-colombiana: Zona Andina Central O império chimú No final da hegemonia de Tiahuanaco-Huari nos Andes, por volta de 850 d.C, surgiu, na região da costa norte peruana, o impé- rio chimú – ou reino chimor, como prefere Peter Kláren (2005). Sua localização é exatamente a mesma que a dos mochicas no século 5º, próximo à atual cidade de Trujillo. Justamente por isso, costu- ma-se dizer que essa civilização se desenvolveu sobre as ruínas da cultura moche. A capital chimú era denominada Chan Chan e representou um dos maiores centros urbanos vistos no período pré-colombia- no, com uma extensão de quase 26km2, que abrigaram, no auge do reino chimú (1.200 d.C), uma população de, aproximadamente, 100 mil habitantes. O urbanismo, portanto, foi uma característica predominan- te dos chimus. Talvez pela influência de Tiahuanaco-Huari, Chan Chan era muito bem organizada e apresentava um plano urbanísti- co muito bem delimitado, que dividia áreas públicas, cerimoniais e habitacionais. Conforme descreve Meggers (1979, p. 113): Dez grandes setores eram delimitados por paredes de adobe com 9 metros de altura e 3 metros de espessura na base e continham casas, pirâmides, construções públicas, ruas, parques, cemitérios e até mesmo reservatórios revestidos de pedra e jardim [...]. Faixas de motivos geométricos e criaturas míticas gravadas na argila orna- mentavam as paredes das construções principais. Na Figura 14, você pode ver a porta de entrada da cidade de Chan Chan. © História da América I Centro Universitário Claretiano 176 Figura 14 Porta de entrada da cidade de Chan Chan (Trujillo). Ao mesmo tempo em que o urbanismo bem elaborado de- monstra uma influência huari, as técnicas de construção, por sua vez, possuíam uma continuidade à utilização de blocos de adobe, típica da tradição moche, a qual se estendeu por toda a costa pe- ruana. Além disso, o tipo de cerâmica guarda nítida referência às culturas moche e huari, mas sempre em tons monocromáticos, ao contrário do colorido marcante das outras duas culturas. Sobre a produção dessas cerâmicas, especula-se que, na ci- dade de Chan Chan, havia centros de produção em larga escala de artesanato, como pequenas oficinas, o que teria levado à neces- sidade de especialização de artistas responsáveis pela fabricação desses artefatos. Além disso, os chimus aperfeiçoaram técnicas de seus antecessores moches e tornaram-se especialistas na arte de ourivesaria, produzindo vasilhas e adornos corporais de rara com- plexidade e beleza inventiva. Outra característica econômica que destaca a sociedade chi- mú é a utilização de barcos para transporte e pesca. Geralmen- te feitas de bambu, as barcaças carregavam poucas pessoas, mas permitiam uma utilização mais segura dos recursos marítimos. 177© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Assim, Chan Chan configurou-se não somente como o cen- tro religioso e administrativo do reino chimor, mas também como polo de produção artística de uma sociedade que chegou a exercer influência sobre uma região de, aproximadamente, 1.500km de extensão, compreendidos na faixa litorânea do Peru, entre Tum- bes e Chincha, conforme você poderá ver mais adiante, no mapa da Figura 16. Diferentemente das outras sociedades que vimos até aqui, a chimú estabeleceu sua influência mais pelo poderio militar e me- nos pela organização cultural e religiosa, apesar de esta ter tam- bém ocorrido. Essa organização militarizada da sociedade fez que a região litorânea do norte do Peru e sul do Equador sofresse um impacto menor da dominação inca nos séculos posteriores, embo- ra esta existisse. Mesmo assim, os chimus sofreram com o enfraquecimento de sua sociedade e a diminuição de seus territórios ao longo do século 14. Assim como outras sociedades da região litorânea do Peru, eles estavam sujeitos às alterações climáticas inesperadas, que causavam chuvas em excesso ou longos períodos de seca. Su- gere-se que esse tenha sido um dos motivos que levaram à disper- são total do povo moche 800 anos antes e, justamente por isso, se especula que essas foram as primeiras vítimas do fenômeno que hoje chamamos de El Niño. Vale ressaltar que o El Niño é um evento atmosférico-oceâni- co de aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico tropical. Tal fenômeno, cuja atuação sobre as temperaturas mundiais ainda é motivo de estudo, foi reconhecido por pescadores da costa oeste da América do Sul, que notaram o fato de ele ocorrer comumente no fim do ano, associando-o ao Natal (Menino Jesus); por isso, a denominação El Niño (FREITAS, 2010). Após o período de fragmentação das sociedades da zona andina central, quando vários reinos e impérios, tais como os chi- mus, desenvolveram autonomamente suas comunidades, somen- © História da América I Centro Universitário Claretiano 178 te no século 15, teríamos o surgimento de um povo capaz de trazer nova unidade política e cultural à zona andina central e articular economicamenteas várias sociedades que habitavam a costa e os Andes: os incas. inCAs6. Finalmente, nossa viagem pelas sociedades pré-colombianas da zona andina central chegou ao seu objetivo principal: a civiliza- ção inca. Além da grandeza de seu império, a civilização inca desta- ca-se perante as outras pelo fato de possuir um número maior de relatos a seu respeito e por sintetizar muitos elementos presentes em outras culturas que vimos até aqui. As terrazas dos huari, o artesanato em série dos chimus, a construção com grandes pedras dos tiahuanacos e a figura de al- guns deuses introduzidos pelos chavins (condor, puma e serpen- te) são apenas alguns dos exemplos de permanência, adaptação e aprimoramento de elementos culturais alheios à sociedade incaica e incorporados ao seu modo de vida. O número maior de fontes a respeito dos incas, por sua vez, deu-se pelo momento de chegada dos europeus em solo peruano, uma vez que, no início do século 16, o império inca vivia o seu apo- geu e, para muitos, o início de seu declínio. Dessa forma, vários cronistas (mestiços, jesuítas e explora- dores, entre outros) que conviveram com os incas e viram suas obras deixaram relatos a respeito da sociabilidade, religião, políti- ca e economia incaica, muitos deles carregados de etnocentrismo. Além disso, os trabalhos de história oral, que buscam, na memória das sociedades andinas, resquícios do passado, também nos aju- dam nessa averiguação em torno da vida dos incas. No entanto, apesar de serem importantes fontes de docu- mentação, esses textos nos trazem algumas implicações para sua análise. Como lembra María Rostworowski Tovar de Diez Canseco (1999, p. 13): 179© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Na investigação da história inca nos apresenta duas séries dificul- dades. Uma em relação ao modo andino de recordar e transmitir os acontecimentos; e a outra, com o critério dos espanhóis para interpretar e registrar a informação que logo nos deixaram através de suas crônicas. Assim, a história do povo inca foi contada aos espanhóis e permanece na memória de muitas comunidades andinas em for- ma de mitos e lendas. Não há uma exatidão de fatos e datas, mas, sim, a presença de símbolos, alegorias e metáforas que remontam às origens de sua civilização. De outra maneira, os espanhóis transportaram para a inter- pretação do povo inca uma série de elementos próprios do imagi- nário e da cultura europeia, dando novas significações às manifes- tações sociais incaicas. Uma das primeiras dúvidas impostas por esse emaranhado de sentidos produzidos pela interpretação das crônicas e dos mi- tos andinos diz respeito ao surgimento e à origem de seu povo. Afinal, de onde vieram os incas? Origem e expansão dos incas A origem dos incas é uma questão sobre a qual não se tem consenso. Segundo Kláren (2005, p. 37): [...] uma escola tradicional sustenta que eles se originaram na re- gião do lago Titicaca, desde onde começaram a expandir gradual- mente, ingressando (talvez invadindo) o vale de Cuzco já no ano de 1.200 d.C. De outra maneira, a concepção predominante é que os incas não foram invasores do vale, senão que, na realidade viviam ali à centenas de anos, e que mais tarde começaram a incorporar a diversos outros povos também assentados na região de Cuzco. Essa divergência nasce da confrontação dos documentos es- critos e da tradição oral produzida a respeito dos incas. A crônica mais difundida e utilizada para o estudo da sociedade inca é, sem sombra de dúvida, Los Comentarios Reales de los Incas (Figura 15), de Garcilaso de la Vega, escrita no início do século 17. © História da América I Centro Universitário Claretiano 180 Figura 15 Los Comentarios Reales de los Incas, de Garcilaso de la Vega. Nessa obra, o autor conta que a origem do povo inca se re- montava à figura de um casal: Manco Capac (ou Manko Kapaq) e sua esposa, Mama Ocllo. Eles teriam saído da região do lago Titi- caca a fim de encontrar entre as montanhas o vale escolhido pelos deuses para abrigar a formação de seu novo povoado. De posse de uma vara mágica, Manco Capac passou por vários vales, fincando tal cajado no chão: onde este permanecesse fixo, lá seria o local de sua nova morada. Foi assim que chegaram e se estabeleceram no vale de Cuzco. Talvez pelo vulto da obra e pela importância que teve esse cronista, essa é a lenda mais difundida e conhecida a respeito da origem do povo inca. Justamente por isso, boa parte da historio- grafia tradicional concorda com a origem inca relacionada ao lago Titicaca, como vimos em Kláren. Já para María Rostworowski, a história contada e transmitida por Garcilaso de la Vega seria, na realidade, uma adaptação de outra lenda amplamente compartilhada pelas comunidades que habitam os Andes: o mito dos irmãos Ayar. 181© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Segundo os relatos dos andinos, o povo inca teria sua origem estabelecida por quatro irmãos: Ayar Ucho, Ayar Kachi, Ayar Awka e Ayar Mango. Acompanhados de suas quatro irmãs, Mama Ocllo, Mama Huaco, Mama Ipacura e Mama Raua, os irmãos teriam saí- do de sua paqarina, uma gruta chamada Paqariqtampu, em busca de uma nova morada. No decorrer da lenda, os irmãos, figuras divinas, transfor- maram-se em objetos, paisagens e lugares sagrados, marcando sua presença e influência na vida dos povos andinos, mesmo que não mais na forma humana. Assim, Ayar Kachi, aprisionado pelos irmãos na cova de Paqariqtampu, converteu-se em uma huaca, en- quanto Ayar Ucho e Ayar Awka assumiriam formas líticas. Ainda segundo a lenda, Ayar Awka, a pedido do irmão Ayar Mango, voou em direção ao vale de Cuzco, próximo ao local onde o bastão lançado por ele havia sido fincado. Lá, converteu-se em pedra e passou a ser venerado pelos povos locais. A partir daí, Ayar Mango mudou seu nome para Manko Kapaq e, juntamente com suas irmãs, conduziu os ayllus errantes para a edificação da civiliza- ção inca. Os ayllus são os agrupamentos familiares que expressam o conjunto social básico da sociedade andina e, por consequência, incaica. Veremos mais sobre eles no decorrer desta unidade. Mesmo que conte sobre a formação do povo inca, essa lenda não nos permite afirmar a sua origem. Na realidade, ela não narra um ciclo histórico de migração e instalação de um povo nômade na região de Cuzco. Ao contrário, a porção percorrida pelos irmãos Ayar limita-se às regiões muito próximas do vale de Cuzco, e, em vários momentos da lenda, conta-se que, ao longo da peregrina- ção, os irmãos praticavam atividades agrícolas. De certa maneira, essa lenda aumenta as possibilidades de que os incas sejam o resultado de uma junção de vários grupos se- dentários que viviam no vale cusquenho por séculos e que foram se incorporando uns aos outros, resultando no surgimento de uma confederação tribal, como defende a segunda linha historiográfica descrita por Kláren. © História da América I Centro Universitário Claretiano 182 Assim, a lenda não nos permite afirmar a origem desse povo, mas nos ajuda a compreender a sua passagem de uma etapa tribal para uma confederação, ou melhor, a inserção do grupo inca às co- munidades já existentes no local. Veja como o historiador francês Henri Favre (1990, p. 15) elucida essa hipótese: Quando os Incas penetram nessa região, muitas tribos já haviam muito antes fixado suas aldeias. A mais antiga era, sem dúvida, a dos Sawasiray, que tinham Paqariqtampu como paqarina e Ayar Kachi como ancestral. Os Sawasiray eram vizinhos dos Allkawisa, cuja paqarina era Wanakawri e o ancestral, Ayar Uchu. Essas tribos haviam concluído uma aliança com os Maras, que acreditavam des- cender de Ayar Awka; e foi nessa aliança que entraram os Incas, os quais traçavam sua decendência a partir de Manko Kapaq. O mito dos irmãos Ayar aparecia, assim,como elaboração tardia a partir de elementos díspares. Ele visa, em primeiro lugar, atribuir uma ori- gem comum aos ancestrais-fundadores de quatro grupos étnicos diferentes que haviam decidido confederar-se. Sua principal função era justificar a situação política de Cuzco após a chegada dos Incas, e não descrever o itinerário que estes teriam empreendido. Para Rostworowski (1999), apesar de não trazer muitas pistas sobre a verdadeira origem dos incas, a lenda possibilita-nos com- preender a maioria dos elementos da religiosidade inca e estabe- lecer explicações para a origem de algumas características de sua composição social, como a formação das panacas (famílias nobres) – os incas de privilégios (etnias que se convertem em incas no pro- cesso de incorporação e anexação de territórios) – e a importância e paridade na relação entre gêneros e a matrilinearidade de alguns grupos sociais. Trataremos desses itens mais adiante. Durante algum tempo, os incas desempenharam papel de coadjuvantes nessa confederação. Dividida em duas partes, Hanan (a parte de cima e a "mais forte") era responsável pela organiza- ção política e religiosa da região, enquanto Hurin (parte de baixo e a "mais fraca") era responsável pela organização militar. Dessa forma, os incas ocupavam a parte de baixo da confederação e, su- jeitos às deliberações políticas dos outros chefes tribais, estavam encarregados da proteção militar do vale cusquenho. 183© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Somente com Inca Roka (o quinto inca da dinastia após a fi- gura lendária de Manco Capaq) foi que essa condição se inverteu. Conduzindo seus homens a um ataque contra a parte de cima da confederação, o sinchi (como era chamado o chefe da guerra) to- mou o poder de Hanan pela força, transportou a estátua de Manco Capac para a parte de cima da confederação e passou a concentrar os poderes religiosos, políticos e militares. Estaria aí o início da expansão inca, que continuaria com os sucessores de Inca Roka, Yawarr Waqaq e Wiraqocha Inca. No en- tanto, para compreender a etapa mais pujante da expansão incai- ca, devemos nos ater a outra lenda: a guerra dos incas com os chancas. María Rostworowski (1999) afirma que essas duas lendas, a dos irmãos Ayar e a da guerra contra os chancas, são fundamen- tais para compreender a formação e a expansão do império inca, bem como as principais características de sua organização social, religiosa, política e econômica. Os chancas formavam um grupo com origem na região do vale dos Pampas, com uma cultura que remontava à tradição na- zca. Tratava-se de uma chefia com forte poder bélico. Por volta de 1440, avançaram em direção ao vale de Abancay. Depois de derrotarem as sociedades locais, seguiram em direção ao vale de Cuzco. Na Figura 16, podemos observar a cidade de Pisac, localizada no “vale sagrado” de Cuzco. © História da América I Centro Universitário Claretiano 184 Fonte: acervo pessoal. Figura 16 Cidade de Pisac, localizada no “vale sagrado” de Cuzco. A fama de bons guerreiros que possuíam os chancas e as úl- timas conquistas da chefia nos vales ao redor de Cuzco assustavam os incas. Convencido da inevitabilidade de uma derrota para os chancas, o velho líder Wirakocha Inca decidiu se refugiar com o seu povo nas montanhas localizadas no vale de Cuzco. Tal determinação foi descumprida por seu filho Pachacútec, que, com o apoio de seus familiares maternos e de outros dois sinchis, decidiu esperar pelos chancas na cidade de Cuzco. Favre (1990, p. 18) narra a estratégia de Pachacútec assim: Exageradamente certos do sucesso, os Chankas expuseram impru- dentemente a estátua de seu ancestral-fundador, da qual os incas conseguiram apoderar-se. Tiveram que recuar desordenadamente em direção de Ichupampa para aí reorganizar suas fileiras. Pachaku- ti, porém, não lhes deu tempo. À frente de forças acrescidas pelo contingente das etnias dependentes - que se haviam mantido em prudente expectativa na hora do perigo, mas que agora se propu- nham acorrer para assegurar sua vitória –, caiu sobre o acampa- mento Chanka, aniquilando-o. 185© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Depois de vencer a batalha, Pachacútec assassinou os dois sinchis que o apoiaram e massacrou vários guerreiros submissos aos chefes de guerra. Apoiado pela força política gerada por sua vitória, depôs seu pai Wirakocha e retirou de seu irmão Urqu o direito de dirigir o Estado inca. Como primeira medida, Pachacú- tec decidiu ocupar o território habitado pelos chancas e incorporar esse grupo ao seu exército, valendo-se de sua fama para engran- decer suas conquistas. Ao solidificar seu poderio sobre os chancas e incorporá-los ao Estado, Pachacútec deixou seu filho Tupac Yupanqui responsá- vel pela administração da região. Enquanto isso, partiu rumo ao sul para conquistar o território dos collas e lupacas, na região do lago Titicaca. Ao mesmo tempo em que Pachacútec tomava o sul dos An- des, seu filho não se restringiu à administração da terra dos chan- cas e empreendeu, por conta própria, guerras de conquista para o norte da região andina, expandindo seus domínios até a atual re- gião do Equador e, posteriormente, outras regiões do atual Chile. Desde então, uma guerra conduziu à outra. Cada vitória e ocupação de um território os levavam, inexoravelmente, ao con- fronto com outras etnias. Dessa forma, em poucos anos, juntos, Pachacútec e Tupac Yupanqui conquistaram a maioria das terras que se converteriam no império inca e seus quase 1 milhão de km2, o equivalente a 1/3 do continente sul-americano. É importante salientar que o império inca foi o maior em ex- tensão de toda a América pré-colombiana. Entre a guerra com os chancas e a conquista dos espanhóis, ocorrida no século 16, foram, aproximadamente, 90 anos. Assim, podemos dizer que o império inca não teve, entre a formação da confederação cusquenha e sua derrocada, mais do que 150 anos. A natureza das conquistas e a expansão do território inca é, também, um ponto de divergência na historiografia, colocando em lados opostos vários autores. Peter Kláren (2005, p. 39) apresenta as diversas linhas e os seus autores da seguinte maneira: © História da América I Centro Universitário Claretiano 186 A visão tradicional, baseada em uma cuidadosa análise de crônicas hispânicas efetuadas por Rowe (1946) e outros, atribui a figura ca- rismática de Pachacutec e a seu gênio organizador e a sua lideran- ça. Um segundo grupo questiona essa visão [...]. Para esta escola, o desenvolvimento do estado inca se derivou de processos mais amplos de mudança social, ainda que não tenham claras as cau- sas específicas. Por exemplo, no que tange à expansão, Rostworo- wski de Diez Canseco (1988) destaca a manipulação das relações de intercâmbio institucionalizadas e não as conquistas militares; Lumbreras (1978) recalcou a luta de classes, assim como a animo- sidade tradicional entre Cuzco e os Chancas; Murra (1980) e outros assinalaram o manuseio econômico e o sistema de redistribuição, e finalmente, Conrad e Demarest (1984) e outros dão importância ao sistema hereditário incaico. Dessa forma, não excluindo nenhuma das hipóteses, pode- mos dizer que não somente pela guerra foi que ocorreu a expan- são do império inca. Durante o processo de ampliação do seu terri- tório, os incas tentavam comprar o apoio dos grupos vizinhos com riquezas e alimentos, redistribuindo os suprimentos que faltavam à região em questão. Muitos cediam às ofertas e eram pacifica- mente incorporados ao Estado inca. Outros grupos, diante da inevitabilidade de possíveis con- frontos e derrotas para os incas, preferiam se render antes mesmo do combate e, assim, aceitavam se incorporar à lógica do império. Somente os grupos que não chegavam a acordos políticos é que eram subjugadospela força do exército de Pachacútec e Tupac Iu- panqui. Os líderes de cada grupo "pacificamente" dominado não perdiam seu poderio regional e, de certa forma, eram peças fun- damentais para a administração do império, como veremos mais adiante. Já nos grupos mais hostis, de acordo com Murra (2004, p. 85): Os incas realmente designavam “governadores” para substituir o “senhor natural”. Usualmente eram parentes dos “rebeldes”, ou membros da pequena nobreza vizinha cuja hegemonia regional Cuzco desse modo endossava. A "divisão" da administração imperial com os antigos gover- nantes foi apenas uma das medidas tomadas por Pachacútec para 187© América Pré-colombiana: Zona Andina Central administrar o vasto império. Aliás, para comandar todo o território e suas etnias, Pachacútec teve de estabelecer uma nova organiza- ção estatal e civilizatória, que transformou, completamente, todas as estruturas políticas, sociais, religiosas e trabalhistas do império inca. Em quéchua, a palavra “pachacútec” (ou pachacuti) significa "revirar a terra" ou "a inversão do mundo". Por conta disso, muitos autores acreditam que o próprio imperador civilizador do império inca, Pachacuti Yupanqui, tenha recebido esse nome por ter sido ele quem inverteu o sentido do império inca. Sob seu comando, como veremos, o império viveu uma reestruturação e um remo- delamento de todo o seu sistema de crenças e organização social, com a incorporação de novos tipos de trabalhadores e sistemas compulsórios de trabalho. Na religião, por exemplo, foi estabelecida uma nova hierar- quia no panteão de deuses. Entre as várias entidades que o com- punham, três possuíam principal destaque: Inti, o Sol; Wiracocha, o deus criador; e Illapa, o deus do clima e dos ventos. Como agra- decimento à vitória sobre os chancas, Pachacútec deu a Wiracocha um ligeiro favorecimento em relação aos outros dois deuses. Mesmo assim, Inti não perdeu seu papel fundamental na cultura inca. Todo inca era filho de Inti; eram filhos do Sol. Em ho- menagem a ele, Pachacútec ergueu, em Cuzco, um suntuoso pa- lácio repleto de ouro, para que este brilhasse assim como ele: o Qoricancha. Sob o domínio de Pachacútec, o Qoricancha, ou Templo do Sol, passou a ser visto como a huaca principal do império inca. Em torno dele, outras huacas espalhadas de maneira circular pelo vasto território, compondo espécies de arcos sobrepostos tendo Cuzco como centro, se converteram em lugares sagrados. Cada huaca possuía um dia especial para a realização de oferendas, ri- tuais e atividades sociais, compondo, assim, 328 huacas para cada dia do calendário religioso inca. © História da América I Centro Universitário Claretiano 188 Vejamos como o cronista Pedro Cieza de León descreveu o Qoricancha no século 16: Qoricancha ou Templo do Sol –––––––––––––––––––––––––– Lá também estava o imponente Templo do Sol... que figurava entre os mais ricos em ouro e prata possível de ser encontrado em qualquer lugar do mundo... Este templo tinha uma circunferência de cerca de 122 metros e achava-se rodeado por um forte paredão. A construção era de pedra finamente cortada, igualada e acoplada, sendo algumas das pedras muito grandes e bonitas. Não havia arga- massa de pedra ou cal; somente a resina era empregada em suas construções, e as pedras eram bem cortadas que não existiam sinais de cimento e ligas. Em toda a Espanha eu nunca vi nada que possa se comparar a essas paredes... Havia muitos portões e as passagens eram primorosamente entalhadas; no meio da parede corria uma faixa de ouro com dois palmos de largura e quatro dedos de espessura. O portão e as portas eram cobertos de lâminas desse metal... Havia um jardim cuja terra eram blocos de puro ouro e ele estava engenhosa- mente plantado com espigas de milho também de ouro... Além disso, existiam mais de vinte ovelhas (lhamas) de ouro com seus cordeiros e os pastores que as guardavam, com seus cajados e fundas, tudo deste metal. Havia muitos tonéis de ouro, prata, esmeralda e tigelas, potes e todo tipo de vasilha, tudo de puro ouro... Numa palavra, era um dos mais ricos templos do mundo (LEÓN apud MEGGERS, 1979, p. 123). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Pensando sobre etnocentrismo, perceba que o Templo do Sol chama a atenção do cronista pelos metais preciosos lá ante- riormente dispostos. Ele não fala dos fiéis ou da própria entida- de religiosa principal – ao menos nesse trecho. É o etnocentrismo em ação. Além disso, perceba como o valor dado ao ouro é uma característica de convenção social; nesse caso, um valor incutido no pensamento ocidental. Provavelmente, o “valor” dado ao ouro pelo espanhol era diferente daquele dado pelos incas. Na Figura 17, podemos ver como o Qoricancha se encontra nos dias de hoje. 189© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Fonte: acervo pessoal. Figura 17 Qoricancha hoje. Dessa forma, a religião foi totalmente remodelada por Pa- chacútec. Essa reformulação e a vinculação direta de seu poderio a Wirakocha conceberam-lhe maior legitimidade e permitiram-lhe estabelecer uma espécie de influência cultural sobre todo o terri- tório dominado. Além disso, as imagens dos deuses locais de cada etnia anexada eram levadas para Cuzco e colocadas no Qorican- cha. Outra modificação importante feita por Pachacútec foi a im- posição do quéchua (ou quíchua) como língua geral para o Estado. Assim, além da língua local, povos de fala aymará e pukina, entre tantas outras, viram-se obrigados a aprender a se comunicar em quéchua. A Microsoft desenvolveu, para o povo peruano, uma versão do sistema operacional Windows em quéchua. Para controlar a produção do império, apareceram os qui- ppucamayos. Além de controlarem os estoques, regulavam a re- distribuição e a formação dos arquipélagos verticais, que eram a base da distribuição alimentar do império inca. Sobre eles, falare- mos mais adiante. Entre todas as reformas empreendidas por Pachacútec, a mais importante se deu no sistema de trabalho. Para executar re- formas e construções públicas, bem como plantio e colheita em © História da América I Centro Universitário Claretiano 190 terras estatais, foram necessárias a introdução de impostos sobre tempo de trabalho (a mita) e a incorporação de novos contingentes de trabalhadores (os mitimacs). Entretanto, para entender como se deram essas alterações, temos de compreender a fundo como funcionava a organização econômica e social mais elementar de todo império inca: o ayllu. Os ayllus: sociabilidade e desenvolvimento econômico Como vimos no início desta unidade, as condições de vida para os primeiros habitantes dos Andes não eram nada fáceis. A convivência com frequentes terremotos, erupções vulcânicas, as baixas temperaturas da altitude e o clima árido das estepes, bem como a ausência de água ou reservatórios em abundância, obriga- ram o desenvolvimento de técnicas de cultivo e o estabelecimento de ciclos agrários engenhosos. Da mesma forma, essas condições exigiram uma vida de co- operação e reciprocidade entre os grupos de uma mesma socie- dade. Dividindo o trabalho, era mais fácil superar as dificuldades geográficas de plantio e, também, uma forma de se proteger dos constantes conflitos com os povos vizinhos. Ataques como aque- les planejados pelos chancas aos incas para o domínio das terras férteis do vale de Cuzco eram extremamente comuns nos Andes pré-colombianos. Por conta disso, muitas vezes, grupos inteiros construíam suas aldeias e tribos em beiras de penhascos ou na base de uma montanha, cercando o restante de suas fronteiras expostas com muros altos de pedra maciça. A busca pela defesa e extração e o cultivo de alimentos e recursos naturais levaram ao estabele- cimento de práticas de reciprocidade entre os membros de uma sociedade,estas baseadas, essencialmente, na troca de trabalho. Como funcionava a troca de trabalho? 191© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Cada sociedade andina, uma aldeia de tribos ou chefias, era formada "por um conjunto de famílias unidas por laços de paren- tesco ou aliança, que representavam um ayllu” (FAVRE, 1990, p. 31). Tratava-se de um grupo grande de várias famílias, compos- tas pelo casal e seus filhos celibatários. Quando atingiam a idade determinada, os filhos casavam-se e, consolidando o matrimônio, tornavam-se membros completos do ayllu, não devendo mais obe- diência aos pais e se integrando à lógica familiar maior que regia o ayllu. Os casamentos ocorriam entre pessoas de um mesmo ayllu; por isso, eram endogâmicos. Todas as famílias que compunham um ayllu tinham algum tipo de parentesco (direto, próximo ou distante) regulado pela existência de um antepassado comum. Uma característica interes- sante dos ayllus é que a filiação não se remetia, conjuntamente, ao pai e à mãe, como ocorre na sociedade ocidental. Como esclarece Favre (1990, p. 31): [...] a filiação se traçava em linha masculina direta entre os homens e em linha feminina direta para as mulheres, de tal modo que os homens descendiam de seus pais e as mulheres de sua mãe. Justamente por isso, dentro de um ayllu, seguindo as con- venções ocidentais, era muito difícil delimitar quem era irmão, pri- mo, tio, pai ou mãe entre si. Quando os espanhóis chegaram aos Andes, não compreen- deram como se estabeleciam os matrimônios entre os incas, uma vez que, para eles, ocorriam entre "irmãos" que casavam entre si. Muitos indígenas responderam a processos por incesto. Atahual- pa, último imperador inca, por exemplo, entre as acusações que o levaram à sua execução, constava o incesto, já que era casado com sua irmã. Um ayllu compunha uma faixa de terra localizada e delimi- tada, dividida entre as famílias que cultivavam esse solo. Dentro desse território, as zonas de pastagem eram coletivas, e todos po- diam desfrutar livremente de suas dependências. Essas terras, ge- ralmente estepes, eram chamadas de marka. © História da América I Centro Universitário Claretiano 192 Contudo, o mesmo não ocorria com as terras de cultivo. Dentro de cada ayllu, havia uma nova divisão da terra entre as fa- mílias nucleares destinada à plantação. Esse pedaço de terra era chamado tupu, e seu tamanho era determinado pela qualidade da terra. Assim, quanto mais fértil era a terra, menor era o tupu. Cada tupu era cultivado pelos pais e filhos, seguindo uma divisão de tra- balho. Os homens cuidavam das lavouras e de alguns tipos de arte- sanatos, enquanto as mulheres cuidavam das tarefas relacionadas à manutenção da habitação. Há outros pontos importantes sobre o tupu que merecem se- rem destacados. O tupu era a quantidade de terra necessária para o sustento de um casal sem filhos. Quando nascia um menino, o curaca cedia ao casal mais um tupu de terra para o sustento desse garoto. No entanto, quando nascia uma menina, o curaca cedia ao casal apenas meio tupu. Quando o menino se tornava adulto e se casava, ele levava para a relação o tupu que seu pai recebera para sustentá-lo. O meio tupu cedido para o sustento da filha era devol- vido ao ayllu quando do casamento desta, já que, para seu próprio sustento, iria usufruir do tupu de seu marido. Os tupus não eram estáticos dentro dos ayllus. Ao invés dis- so, havia intensa interação entre os diversos tupus de um ayllu. Por exemplo, na relação entre os tupus, poderia ocorrer de uma família nuclear contribuir para a realização de uma tarefa dentro de outro tupu. Realizando isso, a família beneficiada ficava em "dí- vida" com seus colaboradores, vendo-se obrigada a devolver tal trabalho, agindo, assim, reciprocamente. O pagamento da dívida não poderia acontecer de outra maneira que não pela realização de um trabalho proporcional àquele prestado por seus colabora- dores. Esse trabalho era chamado ayni. Todo trabalho prestado ao alheio era feito na expectativa do retorno – a base da reciprocida- de andina. Já os trabalhos coletivos dos grupos familiares feitos para o benefício do ayllu como um todo, tais como a construção de pon- tes e canais de irrigação, eram chamados de minga. 193© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Quem determinava a realização de construções nos ayllus e organizava a vida social entre as famílias era o curaca. Ele era, geralmente, o membro fundador do grupo familiar e o grande res- ponsável pela distribuição de terra e por resolver contendas em torno de fronteiras. Além desse poder "político" perante o ayllu, o curaca desempenhava uma função religiosa, sempre estabelecida por seu vínculo com uma huaca, um "lugar santo" ou santuário regional, localizado no ayllu, que fazia referência à divindade da qual a família era tributária. Cabe aqui lembrar a definição do que se caracterizava como tributo: a mita (ou minga) levanta muita discussão, uma vez que as fontes escritas sobre essa modalidade de tributo/trabalho são do período colonial, no qual houve a incorporação do sistema de trabalho espanhol, o chamado repartimiento. Justamente por isso, não podemos afirmar com certeza se o que os autores descrevem como mita inca não foi, na realidade, uma interpretação colonial sobre ela. Para muitos autores, a mita somente se caracteriza quando feita em benefício do Estado, nas terras dos curacas ou em tem- plos. Alguns a caracterizam como todo tributo cumprido em forma de tempo de trabalho em obras e na construção de prédios pú- blicos; já outros defendem que todo tributo é mita. Finalmente, há aqueles que diferenciam o tributo de trabalho na lavoura da mita, somente aplicável a obras públicas. Por conta disso, atente- se! Você pode encontrar em outros autores a supressão do termo “minga” e a utilização do termo “mita” para todo trabalho coletivo com tempo determinado. O curaca também possuía uma faixa de terra somente para usufruto de sua família. No entanto, os responsáveis pelo cultivo dessa terra eram os próprios membros do ayllu, como forma de pagamento de tributo ao curaca. Assim, em vez de ser em espécie, tal retribuição ocorria em forma de trabalho. Como explica Favre (1990, p. 37): © História da América I Centro Universitário Claretiano 194 Todos os homens adultos do ayllu eram obrigados rotativamente a esse serviço, conhecido como mita, que lhes cabia a intervalos regulares e cuja duração oscilava freqüentemente de três meses a um ano. Durante o tempo de permanência dos homens na terra do curaca, este deveria prover o alimento e a moradia daqueles. Havia uma ordem predefinida pelos incas para o plantio e a co- lheita. Inicialmente, os indígenas deveriam cultivar as terras do templo em honra aos deuses. Depois, deveriam cultivar as terras dos “incapacitados”, isto é, órfãos, viúvas, velhos e soldados que não tinham condições de cultivar seu próprio sustento e o de sua família. Em seguida, eram cultivadas as próprias terras. Em quar- to lugar, cultivavam as terras do curaca, para, finalmente, serem cultivadas as terras dos incas. Nessa última etapa, os indígenas compareciam à colheita ou plantação com suas melhores roupas, e aconteciam enormes festejos. Se essa ordem fosse desrespeita- da, o curaca, responsável final pela obediência a essa norma, era severamente punido. Quando ele, por exemplo, exigia que suas terras fossem cultivadas antes que as terras dos próprios indíge- nas, tal violação poderia significar a sua própria morte. Para o pagamento desse tributo, o curaca tinha de apresentar, formalmente, a finalidade e a justificativa de cada atividade propos- ta. Todavia, a abundância de mão de obra em seu favor permitia que um curaca possuísse, em suas terras, um número muito grande de alimentos estocados ede animais de pastoreio, como as lhamas e as alpacas. Em momentos de escassez de alimento, o curaca revertia parte desses alimentos para as famílias mais necessitadas, as viúvas e os velhos, demonstrando sua benevolência, ponto importante de sua legitimidade. Tal postura do curaca serviu como uma das bases para a tese marxista do socialismo primitivo incaico, defendido por alguns teóricos do marxismo. A Figura 18 ilustra a formação de um ayllu. 195© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Figura 18 Formação ilustrativa de um ayllu. O interessante é que, de uma forma ou de outra, dentro de uma confederação maior, essa estrutura se repetia, e um ayllu de- pendente de outro se submetia, também, ao seu curaca, sendo ele uma espécie de curaca de todos os ayllus, chamados jatuncu- racas. A organização social do ayllu, bem como os tipos de traba- lhos exercidos dentro de cada organização, era algo muito comum entre os povos andinos de várias etnias, não somente entre os in- cas. Ocorreu que, com a expansão do império inca, como na ex- pansão do império huari, esse modelo de sociedade também se replicou em tamanhos muito mais vultosos. Assim, o mesmo tipo de tributo “pago” ao curaca passou a ser feito ao imperador inca, como a realização da mita em terras do Es- tado para o plantio ou, então, para a construção de obras públicas. Homens de vários cantos do império largavam sua família, localiza- da há dias ou meses de caminhada, para cultivar o milho nas terra- zas do império. O milho era um alimento fundamental na dieta do trabalhador, mas seu cultivo, devido às diferenças de temperaturas nos Andes, não era algo possível de ser feito em qualquer lugar. © História da América I Centro Universitário Claretiano 196 Desse modo, os locais de plantio de alimentos próprios para a redistribuição de alimentos organizavam-se em forma de arqui- pélagos, uma vez que se apresentavam como ilhas de produção es- palhadas em vários pontos do império, garantindo a redistribuição de alimentos ricos em sais minerais, proteína e vitaminas (como os tubérculos e o milho) para os trabalhadores ou as zonas im- possibilitadas de cultivá-los. Conforme delimitou Murra, "[a] esse modo de complementar e ter acesso a muitos pisos ecológicos es- palhados deu-se o nome padrão de ‘arquipélagos’ de colonização andina" (2004, p. 70). Perceba que, da mesma forma que os incas impuseram no- vos costumes, língua e hábitos às populações conquistadas, eles também incorporaram várias técnicas e tradições de outros povos andinos à sua cultura (como as terrazas), como também contri- buíram para a expansão de práticas econômicas e sociais que se constituíram ao longo dos séculos nos Andes, tais como a recipro- cidade, o ayllu e os arquipélagos verticais. Entretanto, à medida que o império inca foi avançando para as proporções adquiridas após a vitória sobre os chancas, o siste- ma de trabalho, redistribuição e reciprocidade precisou de altera- ções, as quais foram feitas por Pachacútec e permaneceram em funcionamento até a chegada dos espanhóis. Afinal, administrar um império de um milhão de km2 requeria estratégias maiores do que as de organizações familiares de até 25 mil famílias. Organização política imperial Na Figura 19, podemos visualizar a divisão política regional do império inca. Ao Leste, temos Antisuyo; ao Oeste, Contisuyo; ao Sul, Collasuyo; e, ao Norte, Chinchasuyo. 197© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Fonte: Kláren (2005, p. 29). Figura 19 Divisão política regional do império inca. O tahuantinsuyo (os quatro cantos), como era chamado o império inca, era dividido em quatro regiões, as quais faziam re- ferência às etnias importantes presentes em cada uma delas. O Collasuyo (em referência aos collas, que habitavam a região do Titicaca) era a porção mais populosa; o Antisuyo (referência aos antis, como eram chamados, pejorativamente, os povos da flo- resta) foi a de mais difícil domínio; o Chinchasuyo (referência ao reino ica-chincha) foi uma das primeiras áreas conquistadas após © História da América I Centro Universitário Claretiano 198 a guerra com os chancas e foi expandida por Tupac Yupanqui. Por fim, o Contisuyo era a região de menor extensão territorial entre as quatro. A divisão do império em quatro, feita por Pachacútec, visava sua melhor administração. Como vimos anteriormente, no princí- pio do império, algumas estruturas do mundo andino foram repli- cadas na organização do Estado. No entanto, sua grande expansão, a partir do ano 1438, aproximadamente, exigiu que seu governan- te maior revirasse a ordem andina, criando novas fórmulas de tra- balho e tributos. Para Murra (2004, p. 73): Inicialmente, o Estado seguiu as normas andinas correntes: suas rendas eram cobradas sobre as terras cultivadas que tinham sido alienadas das comunidades políticas locais no modelo do "arquipé- lago". Essas terras do Estado eram cultivadas pela população local num sistema rotativo em que as linhagens se alternavam, da mes- ma forma que haviam trabalhado os campos dos seus senhores ét- nicos ou do santuário regional. Vez por outra os mitmacs do Estado eram transplantados para novos territórios a fim de assegurar ao inca o governo e as rendas. Mas, esse governo ainda era "indireto", era exercido através dos senhores "naturais" anteriores aos incas. Assim, para dispor de uma mão de obra mais presente e capaz de ajudar na colonização dos novos territórios, Pachacútec criou a figura dos mitimacs, grupo de trabalhadores oriundos de etnias anteriormente conquistadas ou anexadas pelos incas. No entanto, por seu longo convívio com o império, gozavam da con- fiança da elite cusquenha. Por conta disso, os mitimacs eram transplantados em gran- des contingentes para outras partes do império, para viver e tra- balhar como espécies de "colonos". Dessa maneira, "substituíam grupos rebeldes, e outros, de cuja lealdade suspeitava-se, e que haviam sido deportados a outras regiões para serem reeducados e integrados ao império" (KLÁREN, 2005, p. 43). As terras ocupadas pelos mitimacs podiam ser destinadas à construção de obras públicas, como estradas, aquedutos e pon- tes, para a produção de alimentos e artesanatos ou, então, para o 199© América Pré-colombiana: Zona Andina Central estabelecimento de edificações permanentes para a proteção e o controle das fronteiras incaicas, como aduanas ou observatórios. Esses tipos de trabalhos eram alvos da mita. Murra (2004) ainda sugere que os mitimacs podem ter sido utilizados para fins milita- res. Já os povos desocupados pela desconfiança eram geralmen- te alocados em outros territórios ou se convertiam em yanas. Os yanas eram usualmente enviados para Cuzco para trabalhar como serventes da elite cusquenha ou na extração de recursos minerais. Muitos yanas trabalhavam no cultivo das terras das panacas. Mas o que eram as panacas? Independentemente do que você esteja imaginando, as pa- nacas eram as famílias reais do Sapa Inca (nome dado ao impe- rador dos incas). Mesmo após a morte do imperador, sua família continuava sendo considerada real, gozando de todos os privilégios cabíveis. Diferentemente dos ayllus, as panacas não eram patriar- cais; geralmente levavam o nome da esposa do imperador (Coya) e eram regidas por uma ordem matriarcal. Aliás, sobre a diferença entre os gêneros, é importante lem- brar que, antes da expansão militar do Tahuantinsuyo, não havia uma supremacia masculina nos ayllus. Apesar da divisão do traba- lho, tanto homens quanto mulheres gozavam dos mesmos "direi- tos". No entanto, a expansão militar e bélica ressaltou a virilidade masculina, atribuindo ao homem um papel de destaque, ainda que não muito ressaltado, nos ayllus. A própria lenda de formação dos incas dá-nos ótimos indícios da importância das mulheresno processo de construção do império. Voltando ao assunto principal, as panacas eram responsáveis por cuidar dos bens do imperador, bem como por preservar os res- tos mortais do líder falecido. Para isso, utilizavam-se do processo de mumificação. Durante as festas na capital do império, levavam os corpos em praça pública para que o imperador pudesse comparti- lhar das festividades. © História da América I Centro Universitário Claretiano 200 Apesar da morte de seu representante, essas panacas não possuíam papel figurativo. Nas constantes desavenças e reviravol- tas sucessórias, elas realizavam os conchavos políticos e aponta- vam para os possíveis novos líderes. Para Rostworowski (1999, p. 43), "é induvidável que esses grupos criaram facções e alianças e deveram exercer suas influên- cias nos diversos episódios da história Inca". Ao contrário dos astecas, que elegiam um nome consensu- al entre os membros do grupo dos tlazo pilpitins, entre os incas, tinha direito ao “trono” o filho mais apto ao cargo. No entanto, esse é um critério muito subjetivo. Por exemplo, Wirakocha Inka achava que seu filho mais apto ao cargo era Uerqu. Opinião com- pletamente oposta à de Pachacútec, que acabou tomando o trono à força. Já que mencionamos Pachacútec, vamos lembrar de outra medida administrativa adotada por ele para governar seu vasto império. Como nos indica o último trecho de John Murra (2004) que citamos, o novo império estabelecia governos indiretos. Mas o que isso quer dizer? Os antigos líderes dos grupos dominados, caso houvessem aceitado pacificamente o governo incaico, continuavam exercendo sua influência regional como representantes do governo central, que ficava em Cuzco. Como garantia de seu contínuo apoio, os in- cas levavam o filho do governante para estudar na capital e, quan- do julgavam pertinente, uma de suas filhas para trabalhar como tecelãs no Templo do Sol. Eram as chamadas acllas, ou “prometi- das”, “escolhidas”. Por serem as escolhidas do Sol, as acllas deveriam manter-se virgens até que seu futuro fosse decidido. Podiam ser dadas em casamento para membros da aristocracia cusquenha ou permane- cer celibatárias nos templos, transformando-se em mamas acllas. Assim, quando eram pegas fugindo do templo ou mantendo rela- ções sexuais, eram sumariamente executadas, tendo sua pele toda 201© América Pré-colombiana: Zona Andina Central retirada ainda em vida e ficando expostas, junto a seus parceiros, em carne viva. Assim, os incas estabeleciam uma relação de subordinação com os administradores regionais, supervisionados de perto pelos tucurucuits (espiões reais). Tal como era o império dividido em qua- tro partes, cada parte era novamente separada em quatro regiões, e assim sucessivamente. Era uma forma de se criar uma “burocra- cia” para manter comando sobre as regiões dominadas. Essas regi- ões orbitavam ao redor do centro maior do império: Cuzco. Com a ascensão de Pachacútec ao poder: [...] Cuzco deixou de ser, no século 15, o núcleo de uma comuni- dade local para tornar-se um importante centro urbano, capital da Tahuantinsuyo descrita pelos europeus. Não era apenas o coração administrativo do reino inca, mas também um centro cerimonial, onde eram sacrificadas centenas de peças de roupas finas e um grande número de sacerdotes jejuava enquanto observavam dos seus observatórios-palácio os movimentos do sol (MURRA, 2004, p. 84). A centralidade de Cuzco trazia um número incontável de pessoas à capital; pessoas de passagem, pagando tributos em tra- balho, cumprindo a serventia aos panacas etc. Era gente de dife- rentes lugares e etnias, com roupas, hábitos e cortes de cabelo diversificados, características essas que chamaram a atenção de cronistas. Um deles, León (apud MEGGERS, 1979, p. 123-124), des- creveu assim o ritmo da vida cusquenha: Como esta era a principal e mais importante cidade do reino, em certas épocas do ano os índios das províncias vinham até ela, al- guns para construir edifícios, outro para limpar as ruas e distrito e qualquer outra coisa que lhes fosse ordenada... E como essa cidade estava cheia de pessoas estranhas e estrangeiros, pois havia índios do Chile, Pasto e Cañari, Chachapoyas, Collas e todas as outras tri- bos que podiam ser achadas pelas províncias..., cada grupo se es- tabelecia num local e distrito determinado pelos governantes da cidade. Observavam os costumes de seu próprio povo e vestiam-se de acordo com a moda de sua própria terra, de modo que, em meio a centenas de homens, cada grupo podia ser facilmente reconheci- do pelas insígnias que usavam sobre a cabeça. © História da América I Centro Universitário Claretiano 202 Para finalizar, não podemos nos esquecer do importante papel desempenhado pelos quippucamayos e pelos chasquis. Os primeiros trabalhavam como contabilistas da produção e da redis- tribuição, operando seus quippus com um número incontável de cordas e dobras. Estudos recentes apontam para a possibilidade de que os quippus também servissem como forma de escrita. O indício parte das próprias crônicas. Muitas vezes, os cronistas, quando queriam obter informações sobre o passado dos incas, recorriam aos qui- ppucamayos, que lhes contavam com detalhes a história de seus antepassados. Dessa forma, seriam não apenas contadores, mas também escrivães do império. Já os chasquis eram os mensageiros reais. Por meio das infi- nitas rotas e estradas que ligavam o Tahuantinsuyo em seus quatro cantos e mais de 20 mil km de extensão (do centro do Chile ao norte do Equador), levavam mensagem às províncias e comida ao rei. Corriam oito quilômetros por dia e, ao chegarem a seu des- tino, passavam adiante a mensagem ou o alimento real ao outro chasqui, o qual seguia em frente, sucessivamente assim, até fina- lizarem a missão. A tradição oral e o treinamento de memorização recebido garantiam a preservação do teor das mensagens. QuEstõEs AutOAvALiAtivAs7. Para finalizar as atividades desta unidade, sugerimos que você responda às questões subsequentes, as quais tratam do de- senvolvimento da vida na zona andina central, com especial aten- ção aos incas. Lembre-se de que a autoavaliação é uma interessante ma- neira de testar seu desempenho, pois, caso tenha dificuldade em responder às perguntas propostas, ainda poderá rever os conteú- dos aqui estudados. 203© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Qual é a importância da discussão proposta nesta unidade para a sua for-1) mação? Com base no que vimos nesta unidade, é possível dizer que, muitas vezes, as 2) práticas culturais de uma sociedade permanecem, a despeito do desapareci- mento ou enfraquecimento dos povos que as criaram e as desenvolveram? Qual é a importância que o povo chavín possui para a organização da reli-3) giosidade andina? O que você pensa das "teorias" sobre o contato dos povos pré-colombianos 4) com seres extraterrestres? Que importância teve Pachacútec para a organização da sociedade inca? O 5) que foi mantido e o que ele trouxe de novo para o sistema social incaico? Como era a divisão do trabalho na sociedade inca?6) COnsiDErAçõEs DA uniDADE8. Ao longo desta última unidade, você acompanhou a trajetó- ria histórica da constituição dos principais povos da região andina central, que teve seu apogeu com os incas, entre os séculos 15 e 16. Poderíamos escrever outro livro-texto sobre os incas ou sobre cada um desses povos, pois há muito a ser escrito, bem como a ser pesquisado. Esperamos que estas breves páginas tenham fustiga- do sua curiosidade. De qualquer forma, não poderíamos terminar esta unidade sem tocar em um ponto polêmico e muito importante na compre- ensão dos incas. Durante todo o século 20, houve intentos de taxar o império incaico como um modelo muito próximo do Estado so- cialista. A redistribuiçãoe a reciprocidade soavam, para uma linha marxista de historiografia, como a socialização dos bens e meios de produção. Essa ideia ganhou vulto, especialmente com a obra de Louis Baudin, O Império Socialista dos Incas (1928). Vale salientar que, na década de 1970, parte da historiografia peruana, a chamada nueva historia peruana, aliando abordagens de pesquisa da Antropologia às metodologias da História, tentou comprovar que os ayllus demonstravam uma ideia de socialismo © História da América I Centro Universitário Claretiano 204 primitivo, valorizando a necessidade de compreendê-los para a formação de um socialismo tipicamente peruano. Alguns dos au- tores que tentaram fazer isso foram Fernando Fuenzalida Vollmar, em sua Estructura de la Comunidad de Indigenas Tradicional: Una Hipotesis de Trabajo (1976), e Hildebrando Castro Pozo, em Del Ayllu al Cooperativismo Socialista (1973). Cremos oferecer informações suficientes para você retirar suas conclusões. No entanto, fica sempre o convite para que pro- cure saber outras opiniões para chegar até aquela que represente a sua. E-REFERÊNCIAS9. Lista de figuras Figura 2 - Mapa topográfico do peru: disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Imagem:Peru_Topography.png>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 3 - Estrutura geológica dos Andes: disponível em: <http://formacao.es-loule.edu. pt/biogeo/geo12/temaI/imagens/andes.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 5 – painel em baixo-relevo do Deus sorridente da civilização chavín, em Ancash: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1625706>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 6 – Huaca del sol: disponível em: <http://z.about.com/d/gosouthamerica/1/0/4/ N/18263110sumtemplemoche.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 7 – baleia: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286319>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 8 – Aranha: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286276>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 9 – Macaco: disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/1286298>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 10 – Linhas de nazca: disponível em: <http://www.panoramio.com/ photo/1286219>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 11 – Entrada da cidade de tiahuanaco: disponível em: <http://www.panoramio. com/photo/4893261>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 13 – Quipu: disponível em: <http://content.answers.com/main/content/wp/en/ thumb/9/90/350px-Inca_Quipu.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 14 – porta de entrada da cidade de Chan Chan (trujillo): disponível em: <http:// www.panoramio.com/photo/265499>. Acesso em: 25 jan. 2009. 205© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Figura 15 – Los comentários reales de los incas, de Garcilaso de la vega: disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/bib_autor/garcilaso/graf/garcper2.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009. Figura 18 – Formação ilustrativa de um ayllu: disponível em: <http://www.luzcom.com. br/inca/livro/images/QdXIV.jpg>. Acesso em: 25 jan. 2009. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS10. FAVRE, H. A civilização inca. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. KLÁREN, P. Nación y sociedad en la historia del Perú. Lima: IEP, 2005. MEGGERS, B. América pré-histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. MURRA, J. As sociedades andinas anteriores a 1532. In: BETHELL, L. (Org.). História da América Latina: a América Latina colonial. São Paulo: Edusp/Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2004. v.1. ROSTWOROWSKI, M. Historia del Tahuantinsuyu. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 1999. COnsiDErAçõEs FinAis11. Conforme informamos na apresentação de nosso livro-texto, esta disciplina tem como enfoque primordial as principais socieda- des que se organizaram nas zonas nucleares da Mesoamérica e da zona andina central. No entanto, muitas outras sociedades daqui mesmo, isto é, no Brasil, nos Estados Unidos, interior da Argentina, Alasca, Caribe e outras regiões, desenvolveram fascinantes histó- rias e deixaram registros de sua existência. Além das áreas nucleares principais, os arqueólogos cos- tumam delimitar os demais tipos de organização de acordo com a seguinte classificação: zonas florestais, zonas desérticas, zonas campestres, zona ártica, zona intermediária e zonas marginais (cf. MEGGERS, 1979). © História da América I Centro Universitário Claretiano 206 Fonte: MEGGERS (1979, p. 63). Figura 20 Zonas de concentração populacional americana. As zonas florestais são formadas por grupos que viveram em regiões de densa vegetação e de florestas contínuas e que se loca- lizam na extensão das florestas temperadas do leste dos Estados Unidos e Canadá e nas florestas tropicais, as quais cobrem mais da metade da América do Sul. Além da semelhança vegetativa, tais regiões guardam outra similaridade: abrigam os dois mais importantes sistemas fluviais da América, que são o Mississipi e o Amazonas. Na porção norte des- 207© América Pré-colombiana: Zona Andina Central sas regiões, encontramos as culturas adena e hopewell e, também, o sítio de Poverty Point. Já em sua porção sul, temos os resquícios da cultura marajoara e suas cerâmicas policrômicas, além de várias outras pequenas tribos localizadas na várzea do rio Amazonas. As zonas desérticas também são encontradas nos dois he- misférios: no sudeste da zona andina central, em partes do Chile, da Bolívia, do Peru, do Paraguai e da Argentina, e no noroeste da região mesoamericana, nos atuais estados norte-americanos de Utah, Novo México, Arizona e Colorado. Embora o clima semiárido provoque grandes dificuldades para o desenvolvimento da vida humana, encontramos vestígios de alguns agrupamentos que constituíram uma vida sedentária, como prova a utilização de cerâmicas. Dentre os vários povos dessas zonas, podemos destacar as culturas mogollon, pueblo III, anasazi e hohokan, no hemisfério norte, e a cultura aguada, no hemisfério sul. Outra área que merece atenção é a zona campestre, a qual também é encontrada nos dois hemisférios. No norte, localiza-se no meio-oeste norte-americano, e, no sul, na Argentina, no Uru- guai e no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. A composição geográfica dos campos do norte e do sul é muito semelhante no que diz respeito ao relevo, à vegetação, às florestas e aos rios. No entanto, a diferença climática é bastante acentuada: no norte, há grandes oscilações sazonais (43°C no ve- rão e, no inverno, o frio é rigoroso); já nos campos do sul, a tempe- ratura é amena, por conta da proximidade com o oceano Atlântico, que faz a temperatura chegar a 27°C nas épocas mais quentes. A presença do rio Mississipi e do rio Paraná nessas regiões possibilitou a formação de vida ao redor de suas margens. Por con- ta disso, temos vários tipos de vestígios arqueológicos, como fo- gões, suportes para secadores, vasilhames de cozinha, estacas de sustentação, além de grupos de pontas de pedra. © História da América I Centro Universitário Claretiano 208 As zonas marginais encontram-se em uma grande faixa cen- tral do território brasileiro e em boa parte do atual Canadá. Essas áreas não receberam a atenção especial dos arqueólogos, pois os povos que ali habitavam deixaram poucas características peculia- res que permitissem uma generalização ou categorização de suas culturas específicas. Organizaram-se, primordialmente, em formas de bandos ou tribos nômades. Um dos exemplos de bandos das zonas marginais é mencionado em nossa Unidade 1, quando fala- mos do ciclo de subsistência encontrado na região de Tehuacán. De todas as zonas delimitadas por sua composição geográ- fica e pela existência de baixa densidade populacional que foram apresentadas aqui, a única que não possui correlação entre norte e sul é a zona ártica. Localizada ao norte do continente americano, estende-se por mais de 4.800km, desde o Estreito de Bering até a Groenlândia.Provavelmente, foi ali que as primeiras tribos nôma- des americanas se constituíram, por volta de 10.000 a.C., como você já sabe. No entanto, a principal tribo a se sedentarizar e estabelecer uma relação de subsistência com o oceano Ártico e os mamíferos marinhos foi a cultura esquimó, por volta de 1.000 a.C. Para ga- rantir a sobrevivência, foi necessária a adaptação desses homens às condições adversas de clima e de vegetação. Para tanto, roupas pesadas, máscaras contra o frio, casas feitas de blocos de gelo e sofisticados arpões para a caça marinha foram manufaturados. Por fim, a zona intermediária é aquela onde encontramos as ilhas caribenhas, tais como Santo Domingo, Haiti e Cuba. Jus- tamente por isso, essa zona também recebe o nome de Circum- Caribe. Contudo, além das ilhas, tal região compreende faixas de terra dos atuais Panamá, Venezuela e Colômbia. Essa zona possui uma característica especial: nela ocorreu o primeiro contato entre a expedição de Colombo e os nativos americanos que habitavam as ilhas caribenhas. 209© América Pré-colombiana: Zona Andina Central Além disso, é importante destacarmos alguns pontos. O de- senvolvimento da cerâmica e, por consequência, da vida sedentá- ria ocorreu no mesmo período que nas zonas nucleares principais (ou seja, a mesoamericana e a andina central). É também na região intermediária que encontramos os chibchas (descritos na Unidade 1), a sociedade barrancoide e a cultura coclé, do Panamá. Todas essas informações podem ser encontradas mais bem explicadas e ilustradas na importante obra A América Pré-histórica (1979), da arqueóloga norte-americana Betty Meggers, citada à exaustão no decorrer deste livro-texto. A seguir, indicamos outras obras que versam sobre a cultura e sociedade dos povos indígenas norte-americanos, pouco abor- dados nestas quatro unidades. SOLA, José Antônio. • Os índios norte-americanos: cinco sé- culos de luta e opressão. São Paulo: Moderna, 1995 (Co- leção Polêmica). NEVINS, Allan; COMMAGER, Henry Steele. • Breve história dos Estados Unidos. São Paulo: Alfa-Omega, 1986. Sobre as tribos brasileiras, fica a indicação do artigo escrito por John Hemming e intitulado Os índios do Brasil em 1500, que pode ser encontrado na obra A América Latina colonial, organiza- da por Leslie Bethell e que consta em sua bibliografia básica. Os povos pré-colombianos são diversos, e todos possuem histórias importantes e de grande relevância para os estudos cul- turais e antropológicos sobre o homem e sua capacidade de rela- cionar-se com o meio ambiente. Fica aí a sugestão para que você dê continuidade a esses estudos. Esperamos, sinceramente, que você tenha aproveitado os conteúdos apresentados nesta disciplina. Temos a convicção de que muitos temas não puderam ser abordados aqui, não por des- caso ou descuido, mas por falta de espaço. Centro Universitário Claretiano – Anotações