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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS CAMPUS GOIÂNIA - ESEFFEGO LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA DÉRYK ARAÚJO FARIA CAMINHOS DA ADORAÇÃO: UMA ANÁLISE FENOMENOLÓGICA NA RELAÇÃO DA DANÇA COM DEUS NO CRISTIANISMO PROTESTANTE NA CONTEMPORANEIDADE Goiânia 2016 1 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS CAMPUS GOIÂNIA - ESEFFEGO LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA DÉRYK ARAÚJO FARIA CAMINHOS DA ADORAÇÃO: UMA ANÁLISE FENOMENOLÓGICA NA RELAÇÃO DA DANÇA COM DEUS NO CRISTIANISMO PROTESTANTE NA CONTEMPORANEIDADE Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual de Goiás, Campus Goiânia/ESEFFEGO como requisito parcial a obtenção do título graduado sob orientação da Profª. Dra. Maria Cristina de Freitas Bonetti. Goiânia 2016 2 DÉRYK ARAÚJO FARIA CAMINHOS DA ADORAÇÃO: UMA ANÁLISE FENOMENOLÓGICA NA RELAÇÃO DA DANÇA COM DEUS NO CRISTIANISMO PROTESTANTE NA CONTEMPORANEIDADE Trabalho Final de Curso apresentado em______ de janeiro de 2017, aprovado pela Banca Examinadora constituída pelos membros: Prof. Drª. Maria Cristina de Freitas Bonetti - Orientadora Prof. Esp. Lariza Zanini – Parecerista 1 Profº Dr. Leandro Duclos – Parecerista 2 3 Num mundo dominado pela tecnologia e pela ciência, as linguagens simbólicas da arte e da religião falam do que não é percebido pelo olhar distraído e apressado do homem moderno: falam ao coração, à alma, aos sentimentos, à fé. Convidam para a dimensão interior, profunda, para a contemplação, levam a pessoa a se transcender de sua realidade e a perceber o que é oculto. São revelativas, pois trazem à tona o que estava escondido atrás das aparências (Luigi Schiavo). 4 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus pelas bênçãos concedidas a mais uma etapa de minha vida, o que possibilitou a concretização deste trabalho e pela força espiritual nos momentos de dificuldades causadas pelo desânimo e pelo cansaço durante o processo. Pela dádiva que me foi dada ao entrar nesta universidade e me acompanha até que eu saia. Agradeço de forma especial aos meus pais, meus irmãos, cunhados e todos os “agregados” dessa minha Grande Família, minha gratidão e homenagens. Agradeço também a minha orientadora, Prof. Dra. Maria Cristina de Freitas Bonetti pela amizade, companheirismo, compreensão, paciência e compromisso profissional na orientação deste trabalho, a ela minha admiração. Agradeço a todos os colegas do curso e aos professores que, de alguma forma, direta ou indiretamente, deram suas contribuições para a realização desta monografia, por meio de discussões, aulas, conversas informais e outros meios. Agradeço às pessoas que se prestaram a serem os atores desta pesquisa, anônimos que constituem a concretude deste trabalho, sem os quais nada do aqui sistematizado teria sido possível; a todos, meu respeito e minha gratidão. Agradeço finalmente e de forma carinhosa à minha esposa Brenda Marques que me acompanhou nos momentos difíceis, me incentivando a prosseguir na busca desta conquista; com muito amor, paciência e apoio. 5 RESUMO: A Dança continua bastante explorada dentro do contexto religioso na busca do Sagrado. Isto não tem sido diferente no meio Cristão. Desse modo, a forma de entender e lidar com o ‘Corpo Dançante’ vem apresentando influência dessas inúmeras variações e interpretações da relação do humano com o Divino. Este estudo trata-se de uma pesquisa fenomenológica com o objetivo compreender o papel da dança no cristianismo protestante atual no que tange sua relação com o Divino. Concluímos que diversas mudanças no entendimento de corpo e da liturgia do culto cristão influenciaram no entendimento do lugar da dança no relacionamento pessoal, intrínseco à adoração e relacionamento com Deus. E que a dança pode ser vista como instrumento de adoração e devoção a Deus no momento que não se sustenta somente no ato de dançar, mas em uma vida voltada para os princípios bíblicos de santidade e purificação diários. Palavras-chave: Dança e Deus; Dança e Sagrado; Dança Adoração; Dança e Cristianismo Protestante; 6 ABSTRACT: The Dance still is very explored inside the religious context in the search of Sacred. In the christian environment this is not different. Thereby, the way for understand and deal with the Dancing Body has been showing influence of these innumerable variations and interpretations of relationship between human and Divine. This study is a phenomenological research which objective is comprehend the dance’s paper in the current Protestant Christianity in reference of the relationship with the Divine. We conclude that diverse changes about the understanding of the body and the liturgy of Christian Cult had influence in the comprehension of dance’s place in the personal relationship, intrinsic to worship and relationship with God. Also that the dance can be seen like a instrument for worship and devotion to God, in a moment that does not only support itself in the act of dancing, but also in a life destinated to biblical principles of daily holiness and purification. Keywords: Dance and God; Dance and Sacred; Worship Dance; Dance and Protestant Christianity. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...............................................................................................................8 CAPÍTULO I - A RELIGIÃO, O CORPO E A HISTÓRIA...................................13 1 CORPO E RELIGIÃO............................................................................................13 1.1 Corpo: uma conceituação histórica.........................................................................14 1.1.1 O corpo e o sagrado.............................................................................................19 1.2 Religião...................................................................................................................20 1.2.1 A experiência religiosa........................................................................................21 1.2.2 Linguagens da religião.........................................................................................23 1.2.3 A dança no pluralismo religioso...........................................................................26 CAPÍTULO II – CRISTIANISMO PROTESTANTE E A DANÇA CRISTÃ........34 2 O CRISTIANISMO E A DANÇA..........................................................................34 2.1 Cristianismo Protestante.........................................................................................35 2.1.1 Movimentos Protestantes.....................................................................................37 2.1.2 Pentecostalismo...................................................................................................40 2.2 A Dança na Igreja .................................................................................................442.2.1 Dança na história judaico-cristã..........................................................................45 2.2.2 Dança na igreja de hoje.......................................................................................50 CAPÍTULO III – CAMINHOS DA ADORAÇÃO...................................................54 3 METODOLOGIA...................................................................................................54 3.1 Caracterizando os sujeitos da pesquisa.................................................................56 3.2 Análise e apresentação dos dados..........................................................................57 3.2.1 A Dança Adoração..............................................................................................57 3.2.2 Os tipos de Dança................................................................................................61 3.2.3 Dança na Igreja Cristã Protestante na Contemporaneidade..................................63 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................67 REFERÊNCIAS.........................................................................................................69 ANEXOS....................................................................................................................72 APÊNDICES................................................................................................................74 8 INTRODUÇÃO O movimento é a base das relações, sejam pessoais ou interpessoais. Vivemos em mutações. O mundo é mudança. A vida é um fluxo. Esta mobilidade proporciona ao organismo mutável à garantia de sobrevivência, numa relação de verdade e de existência no insólito e inseguro universo da essência da vida. Vivemos em um mundo onde a vida é manifesta no movimento. Quando nos é gerado a vida nos é gerado o dom de movimentarmos, seja em nossos pensamentos que nos instigam e nos levam em impulsos ao mais elevado e distante das concepções físicas e concretas, seja no poder de sermos conduzidos por uma força pessoal, física, divina (ou até Santa), de nos permitirmos experimentar os movimentos que podemos realizar com o componente mais intrínseco e complexo de nós mesmo, nosso corpo. O movimento humano tem uma relação muito próxima com questões que transcendem a vontade e o desejo humano, sobre o assunto Laban (1978) coloca que o homem se movimenta para satisfazer uma necessidade, e que lhe é fácil perceber que o objetivo de sua movimentação é sempre atingir algo valioso. Para além do movimento, Laban (1978) apresenta ainda a analogia entre a sua relação e significação se é expressa no momento do feito, como a Dança que se lança ao espectador e por vezes não pode ser descrita, exceto em seu movimento. Neste sentido, Laban (1978, p. 43) explica: “O desejo que o homem acalenta de orientar-se no labirinto de seus impulsos resulta em ritmos de esforço definidos, tais como os praticados na dança”. Essas manifestações são uma relação entre a realidade colocada na expressão de quem a faz e ao sentimento e interpretações a quem recebe. O conjunto de fatores que estimulou esta investigação foi a possibilidade de compreender mais uma forma de relacionamento com o Sagrado que vai além das orações e percepções no campo do pensamento, mas perpassa pela experiência objetiva do corpo físico. Este é o motivo que nos leva a realizar esta pesquisa, buscar legitimar mais uma forma de relacionamento com o Sagrado dentro do Cristianismo Protestante. Outro fator que levou a esta pesquisa foi o contato com a Dança de Adoração dentro da Igreja Evangélica que congreguei desde os 7 anos de idade. Cresci em um lugar (tanto na família quanto na igreja) onde era comum a adoração a Deus por meio da 9 Dança e nos cultos. Portanto me interessei a buscar maiores informações e aprofundar meus conhecimentos neste campo. Ao passo que as diversas ramificações e divisões dentro dessa religião, dividem opiniões entre a sacralidade e profanidade da Dança Adoração na liturgia do culto buscamos aprofundar a análise para melhor entender e desvelar este processo de relacionamento com Divino. O objeto deste TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) são, portanto, os nexos entre o Cristianismo Protestante, o corpo e a Dança de Adoração. No que tange o sentido da dança como uma forma do relacionamento com o Sagrado. O principal questionamento é se a dança pode ser considerada temática de adoração e relacionamento com o Divino, tendo no corpo a concretização das experiências, proporcionadas pela mesma, na relação com Deus. Outro ponto que o TCC leva a refletir é sobre a influência, na atualidade, de outras interpretações da dança e da adoração, bem como o desenvolvimento dessas representações para e os dias atuais. O propósito deste TCC é, portanto, demonstrar as relações com o Sagrado nas formas e conteúdos da Dança de Adoração na contemporaneidade, compreendendo seus diálogos com Divino. Pretende-se, ainda, identificar, demonstrar as relações da Dança Adoração como manifestação do relacionamento com o Sagrado. Para a viabilização da proposta de pensar a relação entre as esferas do Sagrado (ou religião), do Corpo e da Dança de Adoração, propõe-se uma revisão das concepções a serem analisadas, em diálogo com o corpo reinscrito na história da religião como espaço sagrado; a expressão simbólica de sua materialidade estética e física e sua relação com alguns movimentos que buscam reviver a força da fé, do sobrenatural, do ‘Santo’. A Dança Adoração é uma questão atual, está sendo revisitada por estudiosos e pesquisadores dos campos da religião e de áreas que buscam entender o corpo como um local de adoração, abrangendo o contexto que vai além da caracterização da dança como instrumentos de relacionamento com o Sagrado. Por sua vez, Torres (2009) vai ao ponto de identificar diversos tipos de dança dentro da congregação e, Teles (2015) que caracteriza o lugar da Dança dentro da adoração individual no relacionamento do fiel 10 com Deus. Outros estudos também são apresentados a fim de estudar o lugar e desenvolvimento do corpo na religião cristã como Rigoni (2013) ou Pereira (2003). Nesta proposta, busca-se conectar A ‘Dança de Adoração’ de uma maneira próxima às obras mais relevantes no que tange ao Sagrado, a Religião e ao Corpo, como no Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PPGCR-PUC.GO), no qual contatamos com estudos de teologia, artigos e orentações de Dissertações e Teses da Professora Dra. Ivoni Richter Reimer, bem como com a Dissertação de Keila Márcia F. Carvalho (2006 e da tese de Maria Cristina Bonetti (2013). Entre outras fontes, tais como Revista da Universidade de São Paulo, e em Sites de Faculdades de Teologia. A respeito da linha metodológica aplicada, como matriz do conhecimento, optou-se neste TCC por trabalhar com a concepção Fenomenológica de análise, acreditando que esta se aproxima de modo sistemático do processo de interpretação da trajetória. Ampliando o conceito, Triviños (1987) afirma, nesse sentido, que este método é que a ideia do comportamento humano tem muito mais significado do que efetivamente o ato pelo qual se manifesta. Logo, julgamos ser a mais completa para alcançarmos os parâmetros propostos neste trabalho. Objetiva-se, neste método, manter um diálogo entre a dança, o corpo e a religião, envolvendo as dimensões históricas e simbólicas dos elementos, que possibilita outra forma de se compreender a realidade e a relação destes com o Divino. Procuraremosexplorar e entender, por meio do entendimento histórico social, os desdobramentos que proporcionaram o que conhecemos como a religião Cristã Protestante na contemporaneidade assim como o papel da dança e do corpo no relacionamento com Deus dentro dessa concepção religiosa. Neste Trabalho de Conclusão de Curso, a reflexão sobre a religião nos atos das Danças de Adoração aconteceu a partir de referências teóricas e dados empíricos, obtidos em observações e entrevistas da realização desta dança na contemporaneidade, registrados em anotações de observações, entrevistas e na literatura especializada que se propõe a discutir esse tema. 11 Acredita-se, portanto, na originalidade da proposta quando se discute os aspectos da religião Pentecostal, no qual o Corpo é vivificado pela ‘Dança de Adoração’, tornando-se mais um espaço de relacionamento com o ‘Sagrado’. A relevância desta proposta é, pois, a sua contribuição tanto em nível social como no campo das práticas corporais, visto que, ao se reportar aos principais autores do campo das Ciências da Religião e da dança, vincula o Corpo e a Religião de uma maneira próxima às obras mais proeminentes no que tange à Educação Física nas Danças de Adoração, as quais foram vivificadas nos Cultos das Igrejas Pentecostais que discutem o tema na atualidade. No primeiro capítulo, apresentam-se os aspectos principais para conceituação e entendimento das concepções de corpo, o relacionamento do corpo com o Sagrado, assim como aspectos constituintes da Religião e da experiência religiosa. No segundo capítulo, investiga-se o desenvolvimento do cristianismo protestante, assim como os movimentos que surgiram a partir de seu desenvolvimento histórico. Também neste capítulo, busca-se identificar o desenvolvimento histórico da dança no meio Judaico-Cristão e as características da dança dentro da Igreja Protestante Pentecostal na Contemporaneidade. O terceiro capítulo demonstra, num primeiro momento, a metodologia utilizada assim como os parâmetros norteadores da pesquisa. Posteriormente, apresenta as entrevistas e observações realizadas assim como a análise dos dados. Seguido por considerações finais. Concluímos, portanto, que o Cristianismo Contemporâneo é resultado do desenvolvimento e reformas doutrinárias e litúrgicas que ocorreram do decorrer dos tempos. O que influenciou diretamente no entendimento de corpo dentro de cada época e, que resultou em diversas interpretações, inclusive a consideração da Dança como mais um lugar de adoração e manifestação divina ao fiel. Por outro lado, verificamos que a Dança sempre esteve presente na realidade judaico-cristã e que foi deixada de lado com o passar do tempo, devido a diversos entendimentos sobre o lugar (ou não lugar) dessa manifestação no culto. Sabemos que hoje a dança cristã pode ser caracterizada segundo sua objetivação e características específicas dos movimentos. 12 A partir dos relatos, compreendemos que a dança pode ser vista como uma forma de adoração a Deus e que no momento em que ela se realiza há uma forte presença do Espírito de Deus. Desta forma, percebe-se que a dança não é somente um momento litúrgico pontual, mas um reflexo de uma vida voltada diariamente para os princípios bíblicos de santidade e purificação. Neste sentido, observamos que existem diferentes tipos de dança como, a ‘Apresentação Coreográfica’, a ‘Dança Adoração’, a ‘Dança Evangelística’ etc. e que a principal diferença entre elas está na intenção e motivação pelo qual ela está sendo realizada. Por fim, observa-se que o cenário que a Dança se encontra dentro no Protestantismo contemporâneo é, segundo os entrevistados, preocupante, pois, apesar de ser uma prática legitimadamente conhecida como mais uma forma de adoração a Deus existe nesse meio uma prática deste tipo de adoração sem o conhecimento e entendimento necessário para que ela se realize. 13 CAPÍTULO I - A RELIGIÃO, O CORPO E A HISTÓRIA Neste capítulo buscamos analisar a visão do corpo, partindo de uma conceituação histórica, desde análises das filosofias primeiras como seu desenvolvimento com o passar do tempo. A influência da religião Cristã nos períodos medievais e a mudança do entendimento desse corpo com uma nova orientação social, tanto com o renascentismo e iluminismo como, no capitalismo na contemporaneidade. Abrangemos as relações que sustém o corpo físico ao encontro com o Sagrado. Expusemos delimitações que são encontradas neste relacionamento e a necessidade do corpo para o encontro com a subjetiva condição do relacionamento com o Sagrado. Apresentamos ainda uma relação dos aspectos constituintes principais que sustentam uma religião, como o mito, o rito, a liturgia, o símbolo, a doutrina e etc. Tratamos da linguagem da religião, considerando os aspectos que dialogam com a realidade dos fiéis. Trouxemos também a questão da experiência religiosa, assim como os aspectos que permeiam essa relação; a subjetividade apresentada e a necessidade da entrega do indivíduo ao relacionamento com o sobrenatural. Neste capítulo, portanto, vamos delimitar parâmetros gerais para análise do corpo enquanto elemento físico/material como elemento indispensável na relação com o Sagrado. Iremos relacionar a experiência religiosa com seus aspectos constituintes e identificar as linguagens religiosas. 1 CORPO E RELIGIÃO No meio religioso, temos várias manifestações corporais, que se relacionam com uma insólita verdade que se configura na “arte” da Fé. Crer no Sobrenatural seja em Deus, no Cosmos, ou até numa Força Superior, é mais uma forma de reafirmação entre o que nós vemos o que chamamos de material ou físico, e o que nos é (ao menos, 14 concretamente falando) invisível, o que não nos permite menosprezar ou subjugar sua existência efetiva. O ponto é que as manifestações corporais, e até a maneira de enxergar e entender próprio corpo influencia na relação com aquilo que entendemos por ser nosso “eu”, em sua totalidade (humana, física e mental) e o Sobrenatural (Santo, Divino, Sagrado). A maneira que se dá essa relação no nosso corpo é expressa também pelo nosso corpo. A modo que nos vemos e a forma que podemos nos relacionar com o chamado Deus através do nosso corpo, é expresso naquilo que fazemos corporalmente para nos aproximar dele. Neste momento iremos apresentar o entendimento de corpo que tínhamos e que temos e como isso se relaciona com o Sagrado. Iremos buscar o estado do corpo na religião suas relações com o sagrado. Caracterizaremos a experiência religiosa e as linguagens da religião. 1.1 Corpo: uma conceituação histórica Na atualidade temos inúmeras análises que definem o corpo segundo várias correntes filosóficas, epistemológicas e históricas. O corpo religioso é um vasto domínio de estudo, um campo ainda inculto que antropólogos, historiadores das representações e historiadores da arte começaram a explorar. Suas contribuições esclarecem as mudanças que se operaram no curso dos séculos medievais e modernos; mas o corpo não está realmente no centro de suas concepções e, portanto, elas só o atingiram de maneira ocasional. A história das representações do corpo no universo religioso é hoje um canteiro aberto (GELIS, 2008, p. 22). Para tanto, trouxemos somente o que consideramos suficiente para dialogarmos com este conceito de maneira a sustentar nossa discussão no desvelar deste trabalho. Num primeiro momento temos uma visão de corpo colocado pelos filósofos Pré- Socráticos,que se fundamentava na intensa dicotomia colocada como: corpo e alma. Porém apesar de este esboço já ser mencionado na fase mítica do desenvolvimento dos primitivos contos de justificação e explicação de tudo, neste momento passa a ser elencado uma verdadeira oposição entre espírito e matéria (MEDEIROS, 1998). 15 Já na visão de Sócrates, temos uma manutenção do conceito dicotômico entre o corpo e a alma, porém numa perspectiva de aproximação do corpo a supérfluos bens materiais (MEDEIROS, 1998). Talvez pela forma de tratamento do corpo na sociedade naqueles tempos, como colocado por Medeiros (1998, p. 38): O corpo “coisificado”, como fazendo parte da mesma categoria, dos bens materiais, talvez refletisse a sociedade escravista da época, uma vez que o homem de posses possuía os corpos dos escravos que, por sua vez, nada possuíam. Portanto, o primeiro vislumbre de conhecimento e entendimento do corpo já o relaciona com uma característica para além do físico, ou do próprio corpo que, por sinal, não era próprio de seu dono (o seu eu) mas daquele a quem o corpo pertencia. Hipócrates houve também um novo desenvolvimento em relação ao que era colocado com as crenças do povo e as doenças causadas. Ele não acreditava que o sobrenatural poderia intervir a lançar doenças no corpo humano físico (SOARES, 2006). Ao considerarmos a visão de Platão, temos uma análise um pouco diferente ao perceber e colocar o “Mundo das ideias”. Onde aquilo que nós temos acesso de forma concreta é um relapso imperfeito do que um dia podemos encontrar neste “Mundo das ideias”, colocando o corpo como uma cópia imperfeita e a alma como sua forma ideal (MEDEIROS, 1998). Tratando-se do período medieval, temos o surgimento de uma nova concepção de corpo. Justamente pelo fato da expansão do Cristianismo e das filosofias que ela disseminava. Para tanto, nos é necessário esclarecer, por exemplo algumas de suas afirmações de discussão, subjugando o corpo e, trazendo à evidência um diálogo de uma filosofia dicotômica que foi privilegiada neste período medieval, a fé e a razão, a alma. Sobre isto Mara Medeiros (1998, p. 43) coloca: Durante a Idade Média, a investigação filosófica encontrou entraves, muitas vezes intransponíveis, na Cultura Religiosa, segundo o qual todo conhecimento encontra-se nas Sagradas Escrituras onde estão contidas todas as verdades. Entretanto o binômio fé e razão oculta um importante ponto em comum que é a negação do corpo, na medida em que são privilegiadas a razão e a alma. 16 Portanto, o corpo é subjugado sem possibilidade de discussão, pois a verdade estava na Bíblia, e a não crença, ou não aceitação, da interpretação dessas palavras, apresentada pela igreja, à sociedade acarretava inclusive risco de morte. Mas, com o Cristianismo ocorre uma ruptura entre o mundo terrestre e a cidade celeste e vários entendimentos e conceitos engenhados na sociedade passam a ser mudados perante essas novas concepções, como em relação a vida social: O poder espiritual deixa de confundir-se com o poder temporal. O homem percebe-se como tendo uma alma cujo destino transcende a cidade terrena e o importante passa a ser a salvação dessa alma. O Cristão passa a encarar a sua existência como uma peregrinação cuja razão de ser é encontrar a felicidade na outra cidade à qual poderá ter acesso após a morte (MEDEIROS, 1998, p. 43). . O Cristianismo influencia de forma efetiva no entendimento geral do conceito de corpo na sociedade, agora o homem não tinha apenas essa vida para se preocupar e sim outra vida, após a morte, uma vida eterna. Nesse sentido Gélis (2008, p. 54) apresenta: Para todos aqueles que procuravam audaciosamente assemelhar-se ao Cristo das dores para partilhar seus tormentos, o corpo é ao mesmo tempo o maior obstáculo, “o maior inimigo”, e o meio de acompanhar o Redentor: o corpo que é preciso vencer, o corpo vetor de um procedimento sacrificial. Todas as formas de humilhação foram exploradas por essas almas exigentes e dilaceradas, governadas pelo princípio de desvalorização, da perda absoluta de si mesmo. O homem então passa a enxergar o corpo de maneira diferente, a entender que é necessário a negação do corpo e valorização da alma, daquilo que nos aproxima de Deus. Com essa mudança de pensamento então, a partir do triunfo do Cristianismo deixa de estar no cotidiano da vida do homem o teatro, o circo, o estádio e os espaços de socialização e de cultura que, de alguma forma, utilizava o corpo (MEDEIROS, 1998). Proveniente deste pensamento colocado acima, o corpo foi visto como fonte e habitação do pecado na terra, pois, como colocado pela Igreja, Satanás mantinha o controle sobre as pessoas por quatro atribuições carne, guerra, ouro e mulher (MEDEIROS, 1998). Portanto temos contemplado neste momento que o corpo ou a “carne” era uma forma de controle que o “demônio” mantinha sobre os homens, ou seja, 17 quase a encarnação ou materialização do próprio pecado. Do mesmo modo a mulher. Isto posto é evidente a negação do corpo como forma de purificação. Com o enfraquecimento da república cristã, temos novamente uma mudança de entendimento a respeito do corpo, acarretado por uma transformação dentro da própria religião Cristã, a Reforma Protestante. Que influenciou modificações em várias áreas sociais que permeia até hoje, como colocado ainda por Medeiros (1998, p. 49): Outra causa de transformações na visão religiosa, política, social e ideológica, foi a Reforma Protestante. Também no desenvolvimento da filosofia a sua influência foi grande: contribuiu para redimensionar as pretensões metafísicas da razão. Pode-se dizer que a Reforma exerceu influência decisiva no pensamento moderno. Sobre a influência que o corpo sofreu do Cristianismo, também temos o que o próprio Cristo (homem-Deus) trouxe ao considerarmos que Deus se fez em homem, em matéria, em corpo. Através da perfeição do corpo do homem-Deus, a tradição cristã dá também todo seu peso à dualidade do sentido ligado ao termo “corpo”: corpus, parte material da alma animada, mas também, depois da morte, o que resta do vivente, seu corpo, seu cadáver – e, por conseguinte, em vida, o corpo, lugar desta morte prometida que o pecado introduziu na Criação (ARASSE, 2008, p. 535). Após este período temos um enfoque centrado no conhecimento científico, aqui, na Idade Moderna, temos uma tentativa de descoberta de caminhos que se constituíssem como verdade permanente. Desta maneira temos grandes orientações metodológicas que influenciaram este pensamento, como Empirismo e o Racionalismo Moderno. Neste período temos marcado uma veneração à ciência, criando assim um estado de formulação da história, ou o também conhecido como paradigma, que resultava diretamente em uma maneira de entender e compreender questões antes de maneira não tão científica. “Essa linha de pensamento traz a ideia do corpo como máquina capaz de produzir trabalho, e também tem grande influência nas abordagens atuais a respeito da corporeidade” (MEDEIROS, 1998, p. 59). Na Contemporaneidade fica evidenciada uma nova postura em relação ao corpo, um novo entendimento, mostrando um novo resgate do corpo. Porém, 18 É importante ressaltar que argumentar sobre o resgate do corpo na filosofia contemporânea não significa forçosamente que este tenha sido resgatado em níveis de valores culturais vigentes. É importante se ter claro que o dualismo cartesiano e os valores religiosos tradicionais estão largamente impregnados na nossa cultura e que, mesmo as áreas de estudo que lidamdiretamente com o corpo não assimilaram, de maneira satisfatória, a ideia do homem indiviso e concreto e muitas vezes, talvez pela falta de aprofundamento nas doutrinas contemporâneas, contam com uma série de dificuldades para admitirem que o homem não tem um corpo, mas que o homem é um corpo (MEDEIROS, 1998, p.61). Quando a Reforma protestante aboliu o celibato e proclamou o sacerdócio a todos os fiéis ela rompeu também com os tabus de pureza impostos ao corpo. A concepção de um corpo, outrora pecaminoso e destituído de presença divina, cedeu lugar a um corpo que também era “morada do Espírito de Deus” (TORRES, 2009). Para além destas análises temos também concepções de corpo que perpassam pela percepção e análise subjetivas dos autores, entendendo não só o corpo como algo a ser analisado de maneira extrínseca, mas também como fonte de sensações, desejos, emoções etc., como a abordagem Fenomenológica. Da Nobrega (2008) ao tratar as concepções de corpo, percepção e conhecimento segundo Merleau-Ponty apresenta que a percepção está relacionada a atitude corpórea, o que significa dizer que nossa relação com algo está condicionado a maneira que nosso corpo entende e se comunica com isso, o que não diz a respeito somente com uma análise objetiva dos limites do corpo, mas compreende toda uma discussão sobre a subjetividade do corpo e suas percepções. Ainda segundo Da Nobrega (2008, p. 142) Merleau-Ponty aponta que: “a abordagem fenomenológica da percepção identifica-se com os movimentos do corpo e redimensiona a compreensão de sujeito no processo de conhecimento”. Portanto, o processo de conhecimento a partir da compreensão do sujeito está relacionado a percepção da análise que, deste modo, está condicionado aos movimentos do corpo. O próprio Merleau-Ponty (2006, p. 133) aponta que: Quando descrevia o corpo próprio, a psicologia clássica à lhe atribuía “caracteres” incompatíveis com estatuto de objeto. Ela dizia, em primeiro lugar, que meu corpo se distingue da mesa ou da lâmpada porque ele é percebido constantemente, enquanto posso me afastar daqueles. Portanto, ele é um objeto que não me deixa. Mas então ele ainda seria um objeto? Se o 19 objeto é uma estrutura invariável ele não é a despeito da mudança das perspectivas, mas nesta mudança ou através dela. Deste modo, ele aponta que o corpo não é mais um objeto que me pertence, como na psicologia clássica, logo o autor coloca em cheque se o corpo seria um realmente apenas um objeto. Percebemos então que o corpo como entendemos hoje, repleto de interpretações e mais uma parte do que “eu sou”, é resultado do desenvolvimento histórico social, e, que sofreu pesada influência das filosofias que eram de grande disseminação no decorrer dos séculos tanto cosmovisões como Iluminismo e Renascentismo, como a própria religião Cristã. 1.1.1 O corpo e o sagrado Pensemos agora em um corpo que já é considerado algo onde se concentra a experiência do sagrado, não apenas pela mudança de entendimento da igreja católica mas, parte de uma mudança de visão, que se apresenta na sociedade contemporânea. O corpo começa a assumir uma posição de manifestação do sagrado, onde o material/físico se configura em mais um instrumento de manifestações sobrenaturais se tornando digno de receber a presença Divina. Então, o corpo passa a ser “mais um espaço ritualmente construído onde o sagrado se manifestar” (PEREIRA, 2003, p. 89). Na própria religião cristã temos um exemplo de manifestação Divina em um corpo humano. Segundo as Escrituras Sagradas o próprio Deus se manifestou na terra através de seu Filho, que apareceu encarnado como homem, Jesus Cristo de Nazaré. O que nos mostra que o corpo não era considerado apenas uma criação Divina mas, uma espaço para manifestação de sua glória (PEREIRA, 2003). Temos ainda que levar em consideração as palavras que ponderam o corpo, outrora considerado pela sociedade eclesiástica medieval fonte de todo pecado, como morada do Espírito Santo. Que configura não só uma simples mudança no entendimento de corpo, mas no relacionamento deste corpo com o Sagrado (PEREIRA, 2003). O corpo, portanto, é considerado um lugar sagrado que por sua vez é exemplificado como uma porta, um lugar de passagem, onde não é de forma efetiva o sagrado, mas leva ao encontro do sobrenatural consagrando-o como Santo no momento 20 da manifestação Divina. O que o configura como santo é a crença dos fiéis de que naquele momento há uma manifestação divina, no corpo físico (REIMER; SOUZA, 2009). Essa nova perspectiva de análise considera o corpo como mais um elemento de adoração a Deus e mais uma possibilidade de relacionamento com Ele. A Dança surge como um resgate da cultura cristã esquecida conquistando seu lugar na liturgia do culto e na vida dos fiéis. “A presença da dança nas igrejas protestantes da atualidade, especialmente nas neo-pentecostais, pode significar uma redescoberta do copo como possibilidade do encontro deste com Deus” (TORRES, 2009, p.38). Os pontos cruciais para este acontecimento possivelmente estão relacionados com a valorização que as Escrituras Sagradas, mais especificamente o Novo Testamento, oferece ao corpo humano e com a valorização do corpo na nossa sociedade contemporânea. Por tanto, o corpo que por sua vez, foi subjugado em uma depredação total, fonte de todo o mal e prisão do homem, hoje pode ser mais um instrumento de relação entre o Criador e a criação, onde o Deus vivo, o Divino mora. 1.2 Religião Religião é algo de divide opiniões. A fé1 no que não podemos comprovar cientificamente em algo que supostamente não existe é, por vezes, assustador. O insólito solo onde a experiência religiosa se pauta; as percepções subjetivas se mostram em uma análise difícil de realizar. O efervescente desenvolvimento das religiões mostra que cada vez mais, as pessoas tendem a confiar nesses seguimentos que prometem, em sua doutrina e crença, uma experiência que vai além do natural e uma esperança que abrange uma vida futura, após a morte. Uma relação para além dos parâmetros científicos ou físicos, mas algo invisível e real, por vezes, um Deus eterno e imortal. 1 Fé é uma palavra que significa "confiança", "crença", "credibilidade". A fé é um sentimento de total de crença em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência que comprove a veracidade da proposição em causa. Fonte: Disponível em: <http://www.significados.com.br/fe/> Acesso em: 04 de agosto de 2016. 21 Neri e Melo (2011) mostra que, de maneira geral, as pessoas têm se creditado mais em uma fé religiosa2. Isso pode ser resultado do desenvolvimento tecnológico e globalização, assim como a intensa exposição que todos estamos submetidos na era da internet. No sentido de que com isso torna-se possível um maior acesso a conteúdos doutrinários, à textos religiosos, às Escrituras Sagradas, dentro de cada religião, disseminando assim cada vez mais o “Universo Religioso”. Mas o que chamamos de Religião? Quais são os parâmetros que nos levam a considerar uma determinada prática de um grupo como uma experiência religiosa? Quais são os aspectos que delimitam para caracterização da linguagem da religião? O mito, o rito, o símbolo, a doutrina, a liturgia faz parte da experiência religiosa, que se sustenta nas percepções de um indivíduo ou grupo. Pensar essas características é essencial para a garantia do entendimento das relações com o Sagrado que se apresenta dentro de uma determinada religião. Vamos então experimentar um pouco mais dosconhecimentos produzidos sobre a religião. A partir dos tópicos a seguir, iniciando com uma exposição sobre o que é a experiência religiosa e sobre as linguagens da religião. 1.2.1 A experiência religiosa Grande parte do mérito da disseminação religiosa popular é aquilo que a religião oferece. Além de um conjunto de normas e ideais, ela muitas vezes, proporciona uma esperança para além do que é físico e imediato. Isso se dá de inúmeras formas, seja por textos sagrados, mantras, hinos, ou até por práticas corporais. O fato é que isso se resume no que chamamos de experiência religiosa. Falemos, pois, um pouco mais sobre o assunto. “A experiência religiosa é fundamental para a vida das pessoas em todas as culturas e em todos os tempos. Ela faz parte da existência humana na medida em que se pergunta pelo sentido das coisas, da vida, do mundo” (REIMER; SOUZA, 2009, p. 15). 2 No âmbito religioso, a fé é um dom daqueles que cumprem genuinamente os conceitos apregoados por sua religião ou crença. Ter fé também se aproxima de possuir uma religião ou um culto. Exemplo disso é a já conhecida expressão “fé cristã”, “fé islâmica” ou “fé judaica”. Fonte: Disponível em: <http://www.significados.com.br/fe/> Acesso em: 04 de agosto de 2016. 22 A busca por resposta sempre esteve no ideal humano. Essa busca pelo saber motivou incansavelmente o homem a acreditar em diversas explicações sobre a origem das coisas, primeiramente chamados de mitos, crendices, lendas... Mas, com o tempo e desenvolvimento dessas é que surgiu a religião. A questão religiosa é algo complexo e que divide opiniões. Existem aqueles que não acreditam nela e que enxergam como algo sem sentido, ou até como comercialização da fé, show e exploração daqueles que acreditam, por meio dos seus líderes, mas também existem pessoas que acreditam veementemente nela. Basta olhar a efervescência religiosa atual: a cada dia surgem novas igrejas, e elas são lotadas em peregrinação, há um crescimento no turismo religioso e etc (REIMER; SOUZA, 2009). Existem várias formas de se vivenciar o sagrado: mais espontâneas ou organizadas; podem ocorrer em lugares específicos ou em casas, até mesmo ao ar livre. Mas o que podemos afirmar é que essa experiência religiosa é algo particular, mas também universal, como colocado por Reimer e Souza (2009, p. 15): “Há traços e características comuns nas diversas religiões, em várias culturas e em todas as épocas. [...] Dentro deste conjunto, as teologias são formuladas vividas e transformadas”. Em relação ao Sagrado e a experiência religiosa Reimer e Souza (2009, p. 17) afirmam que: O sagrado se apresenta na vida e na história como o “totalmente outro”, aquele que está além da esfera do cotidiano, do compreensível, do familiar. É algo pleno de valor, que ultrapassa toda a capacidade de compreensão; possui um valor objetivo que se impõe por si mesmo. O sagrado é algo que transcende o mundo natural, mas perpassa pela sensação e experiência de um indivíduo, grupo ou sociedade. Não se subsidia no visível, mas naquilo que lhe é manifesto em seus sentidos e emoções, o que se constitui a experiência religiosa. Ao pensarmos em uma definição para o que seria o Sagrado pensamos logo naquilo que se opõe ao profano. E realmente, o sagrado é algo ambíguo que podemos analisar sempre de dois polos, pois são físicas e morais, humanas e cósmicas, positivas e negativas, propícias e não propícias, atraentes e repugnantes, favoráveis e perigosas para as pessoas (REIMER; SOUZA, 2009). 23 Reimer e Souza (2009) coloca ainda a Hierofania, isto é, a “manifestação do sagrado”, que pode ser dividida em: Hierofania em objetos: quando o objeto se transforma em outra coisa, porém sem deixar de ser ele mesmo, onde a qualidade do sagrado não é intrínseca ao objeto mas é conferida a ele; Hierofania em espaços físicos: para pessoa religiosa há espaços qualitativamente diferentes das outras, como um altar por exemplo; Hierofania em espaços temporais: há um espaço temporal que são sagrados como uma festa ou evento religioso. O sagrado é a base da experiência religiosa, a partir desta relação surge uma experiência transcendente e subjetiva. É neste momento que o indivíduo se sente diante da presença de um “mistério tremendo” que leva a força da absoluta magnanimidade do divino em seu corpo de criatura (REIMER; SOUZA, 2009). 1.2.2 Linguagens da religião Sabemos que dentro de cada religião, e ainda dos movimentos de cada uma delas, existe um entendimento específico ao que se refere no trato com o corpo e com o Divino. E este entendimento está além das “competências” (ou capacidades) físicas, mas, sobre tudo de uma experiência pessoal ou grupal. É importante tratar também a questão da liturgia no culto que, em sua origem grega, quer dizer “obra pública”. Dentro da religião, o termo além de se referir às práticas do grupo religioso para adoração/contato com Deus, também se refere a forma que o ser humano responde a este encontro. A liturgia tem sido considerada tarefa de especialistas, pelo menos é o que se tem ensinado nas faculdades teológicas que, por sua vez, se esmeram em proporcionar aos acadêmicos um ensino de qualidade, onde se aprende a celebrá-la corretamente segundo cânones e normas estabelecidas. Normalmente, é o bispo ou o pastor (dependendo da confissão religiosa) que possui o jus liturgicum, e é ele, em última análise, o árbitro da excelência litúrgica (SCHALLENBERGER, s/d, p.5). A linguagem que é utilizada na religião está subsidiada em uma infinidade de símbolos e signos, que expressam tanto uma comunicação específica à aqueles que entendem, quanto a uma característica peculiar de alguma questão dogmática, 24 doutrinária ou de fé. Ao nos referirmos a linguagem considero na palavra não só o sentido da fala ou comunicação verbal, mas também gestual, escrita e outras. Segundo Duarte (2008, p.89) “O símbolo é a chave da linguagem inteira da expressão religiosa”. Por vezes, no caso dos símbolos permanecemos na esfera sensorial, sendo possível outorgar nas coisas materiais. Num segundo sentido é manifestado no material suas experiências, por isso: “Dois fatos são importantes: a segunda realidade não está diretamente nas coisas, mas é particular para cada pessoa. E as coisas não são simbólicas por elas mesmas, mas se tornam simbólicas em virtude da experiência humana” (DUARTE, 2008, p.89). Assim, os símbolos são coisas concretas que conhecemos que são (re)significadas e pode-se remeter a outros tipos de relações. Os símbolos são parte da linguagem primária da religião, pois, possibilita a visão (com outras lentes) daquilo que normalmente não se vê. E está diretamente relacionada com a experiência do indivíduo e por isso pode ser polissêmico e universal ao mesmo tempo (REIMER; SOUZA, 2009). Podemos notar então um começo de relação entre aquilo que é físico e se vê, e o que não se vê. O que está relacionado às questões metafísicas e até às experiências dos que acreditam e participam dos ritos religiosos. Ao tratar de rito religioso temos que ter cuidado para não atribuir um significado que não lhe traduz, como o de mito, ou o símbolo, por exemplo. Para melhor entendimento podemos considerar algumas diferenças: o símbolo manifesta, o rito faz. O rito enfatiza a potência sacramental que o mito já tem, e o mito especializa o significado do rito e os dois atuam como modelos da ação humana. E rito é coletivo, uma vez que atos religiosos são sociais (DUARTE, 2008). O rito produz um efeito, pois é uma ação dos Deusespara o homem religioso. O que foi criado pelos Deuses é recriado na repetição do culto. Desta maneira, os ritos são repetições sem modificações e perduram por gerações. Mas essa fixação sem mudanças pode gerar o ritualismo, que significa sacralizar o próprio rito ao invés de expressar o sagrado de toda a sua ação (DUARTE, 2008, p. 93). O rito se constitui no gesto da expressão religiosa, não sendo involuntário, ao contrário, reafirma o mito. O rito atualiza o mito, buscando contato com o sagrado (REIMER; SOUZA, 2009). 25 O mito é uma forma de se comunicar um pensamento que reflete a verdade. Ao contrário do senso comum que liga o termo a uma ilusão e mentira, dentro da linguagem religiosa tem uma lógica própria de dizer o mundo. O mito expressa também uma narrativa de algo da origem, ou até a cosmovisão de um determinado grupo (REIMER; SOUZA, 2009). Dentro das linguagens da religião temos também as doutrinas que segundo Reimer e Souza (2009, p. 29): É um conjunto de ensinamentos que, em geral, tem origens em textos sagrados de determinada religião. Ela pode expressar-se por meio de credos (elaboração resumida de elementos centrais para a fé, por exemplo, o Credo Apostólico) ou de dogmas (sistematizações consistentes de conteúdos de fé, feita por autoridades competentes, por exemplo, o dogma da Imaculada Conceição de Maria). As orientações e guias de um grupo religioso são conferidos pelos líderes que atuam como um mediador entre o Divino e o humano, atribuindo assim uma sacralidade à pessoa que é representante desta posição, no caso do Cristianismo Protestante, num primeiro momento, o Pastor. O estabelecimento dessa figura é muito importante pois, traz do céu a revelação da vontade divina e ainda depois de registrada “se constitui uma doutrina normativa das ideias, dos ritos e da práxis, segundo o modelo da religião” (DUARTE, 2008, p. 93). Estas figuras se mostram fundamentais na conceituação e caracterização de doutrinas e dogmas dentro de uma religião. Portanto é “A partir da revelação, da composição literária dessa revelação, da sua canonização e constituição como doutrina, que instaura-se o reflexo de tudo isso na vida social através de comportamentos éticos definidos por essas crenças do grupo” (DUARTE, 2008 p. 94). Nisto que podemos perceber o enfoque na visão de dança (dentre outras práticas) dentro de cada seguimento religioso. Ao se tratar especificamente da relação da religião com o corpo sabemos que: Cada religião possui crenças e costumes diversos que, no decorrer do tempo, “marcam” os corpos dos fiéis, tornando visíveis gestos e comportamentos tipicamente religiosos. Dentre as inúmeras religiões existentes, algumas direcionam de forma mais direta seus ensinamentos com relação aos “usos do corpo” (RIGONI, 2013, p. 228). 26 Deste modo, cada religião instrui seus membros quais maneiras são as mais adequadas de utilizar o corpo sem que ele “caia em tentação” e não “cometa pecados”. As denominações pentecostais tradicionais se destacam no que diz respeito à educação do ser humano em seus aspectos corporais (RIGONI, 2013), fato a ser tratado no próximo tópico. A relação de um povo com Deus em um determinado lugar e hora, o chamado culto, está em constantes mudanças em seu caráter litúrgico. Mudanças que são influenciadas pelas interpretações dos líderes e pelo contexto histórico em que está relacionado, mas de todo modo é caracterizado pela relação daquele povo com Deus: Ao longo dos séculos, o comportamento do ser humano no culto tem se alterado. Este fato pode ser fruto das próprias conotações do que seja “culto”. Veja por exemplo, Paul J. Hoon que, em sua definição de culto cristão, afirma que “o culto é a auto revelação de Deus em Jesus Cristo e a resposta do ser humano”. Esta resposta a que Hoon se refere pode ser qualquer ato que se segue a um estímulo exterior e a ele está imediatamente ligado, podendo ser ou não de ordem ativa. O teólogo luterano Peter Brunner endossa esta teoria, ao afirmar que culto é “a conotação do serviço de Deus aos seres humanos e da mesma forma o serviço dos seres humanos a Deus” (SCHALLENBERGER, s/d, p.4). Portanto, percebemos que o culto religioso é considerado um rito repleto de símbolos que, expressam uma relação direta com o Divino a partir de uma liturgia que prediz o comportamento e ações realizadas pelos homens que são aceitas ou não em adoração/reverência/relação com Deus. 1.2.3 A Dança no Pluralismo religioso A dança como caráter religioso está e esteve presente em grande parte das sociedades no decorrer dos séculos. Dançar para adorar deuses em festas, em agradecimentos, fazia parte da realidade de vários povos, veremos alguns. No Egito antigo a dança estava presente inicialmente com características sagrada, em adoração/louvor a deuses, com o passar dos anos passou a comportar também características de diversão. Já na Mesopotâmia a dança era extremamente religiosa, e também com características alegóricas, realiza em rituais litúrgicos principalmente para deuses como Mabo, Maloch, Baal. Para os gregos a dança era algo incorporado em sua cultura de maneira a relatarem que era algo dado diretamente pelos 27 deuses ao ser humano, uma das danças gregas mais antigas é apresentada em adoração ao deus Dionísio, que se realizava durante o ato de se pisar nas uvas. Os romanos já apresentavam características diferentes, uma vez que seus valores estavam mais relacionados a conquista de guerras (TORRES, 2009). Outro povo que também tinha a dança fortemente disseminada em sua cultura era o povo hebreu, onde suas danças apesar de terem peso social muito forte estava sempre atrelada a alguma questão religiosa. Este povo se caracterizava por um grande número de festas, com algumas que duravam semanas. Sua dança era estritamente de caráter religioso e com características ritualísticas, com um certo limite de esquematização com rodas, danças em filas, danças giratórias (TORRES, 2009). Movimentos que hoje são usados na Dança Adoração podem ser identificados em obras de diversos períodos da história, como: 28 Esta estátua data do período pré-dinástico egípcio e trata-se da representação de gestos de adoração que podem ser encontrados até hoje dentro das danças em adoração a deuses em diversas religiões (BONETTI, 2013). Figura 1 "Estatueta com braços erguidos em atitude reverencial. (BONETTI, 2013, p. 89) 29 Figura 2 Dança de Apolo (BONETTI, 2013, p. 140) Dança em roda que apresenta uma inspiração livre e invoca o espírito da arte (BONETTI, 2013). Figura 3 Adoradoras de Dionísio (BONETTI, 2013, p. 162) Esta figura apresenta um ritual de adoração a Dionísio, que era caracterizado por um estado de transe que suas adoradoras se encontravam durante o culto (BONETTI, 2013). 30 Figura 4 Dança de vindima, época romana (BONETTI, 2013, p. 219) Dança de celebração a Dionísio, onde eram cantadas e dançadas canções fálicas3 em sua honra (BONETTI, 2013). 3 Também conhecidas como dança de fecundidade, as danças Fálicas são ligadas à agricultura, com imitações de raios, ventos, relâmpago, estiveram inicialmente relacionadas às mulheres. Só se desenvolveram na agricultura quando o homem assumiu o trabalho no campo. 31 Figura 5 Dança circular (BONETTI, 2013, p. 262) Dança circular aberta com tocador de lira. Finais do III período minoico (1400- 1100 a.C.) (BONETTI, 2013). Distintos significados são atribuídos às danças antigase ritualísticas e estas são lidas de acordo com a presença de elementos e percepções estéticas que se relacionam com a linguagem, guardando, pois, suas propriedades nas formas simbólicas que revelam seus arquétipos expressos na metáfora mítica dançada (BONETTI, 2013, p. 262). Portanto, quando analisamos a dança nessas civilizações percebemos que estava presente nos rituais e na vida religiosa do povo, mas não só com um caráter contemplativo, e nem como uma técnica ou padrão no ato de dançar, mas de modo geral, era natural e instintivo. Entendemos em relação aos gestos e a dança dentro das religiões a partir do que apontou Bonetti (2013, p. 89), ao dizer que: O gesto sagrado, ao satisfazer as necessidades simbólicas, fica circunscrito ao espaço sagrado; no entanto, o gesto profano é considerado como o que não tem finalidade e pode desorganizar o espaço simbólico, cujo resultado é o espaço profano, ou seja, prosaico. Este é um cansativo e cria um espaço que não é referenciado ao sagrado, é um gesto repetitivo, mas sem significado simbólico de comunicação com o imaterial ou sobrenatural, não tem código sagrado. 32 Portanto, a dança em adoração ao sagrado está relacionada com o código que ela representa, e só faz sentido quando é realizada dentro de uma intenção simbólica ao imaterial, caso contrário é apenas uma expressão corporal sem finalidade de conexão com o Sagrado. Algumas práticas corporais que foram herdadas de ritos, costumes, festas antigas ainda podem ser encontradas hoje de maneiras diferentes. Como é o caso das festas de tradições populares, ou folclóricas, por exemplo. Moraes Filho (1979) nos apresenta algumas festas que podemos encontrar até hoje em nossa sociedade, como o Carnaval, Os Cucumbis (Rio de Janeiro) e, A Festa da Penha (Rio de Janeiro). Estas festas contêm práticas corporais características que se sustentam até hoje, ora sendo reinventadas às novas práticas contemporâneas, ora sendo preservados como patrimônio histórico cultural. Temos também práticas corporais que na sua origem pode ter servido para explicar algum mito, ou rito, ou até uma liturgia de um povo e hoje são mantidos com todo respeito às tradições deixadas em sua comunidade. Como é o caso da dança presente nos bailes e festas das comunidades quilombolas de Goiás, como mostra Silva e Falcão (2011, p. 119): A festa se configura como um momento onde a comunidade celebra suas tradições, ritos, costumes, crenças e, também, é o espaço de festejar os encontros, rever pessoas, cantar, prosear, dançar, beber e comer. Sendo possível notar que nessas ocasiões sagrado e profano se fazem presentes e caminham juntos. [...] as festas são encontros dançantes que celebram com muita alegria a confraternização dos corpos, que congregam diferentes motivações, sejam elas de cultos religiosos, datas comemorativas do calendário da Igreja Católica, pagar promessa a santos, como também para celebrar o fim da rotina de trabalho. É interessante retratarmos especificamente o papel que a dança exerce nesta comunidade: O diálogo dançante promove a integração entre o sagrado e o profano, que respectivamente trazem para o baile a diversão e o prazer estético. Assim como a espiritualidade (êxtase místico), a presença dos corpos que representam em sua corporalidade diferentes gerações daquela comunidade, contribuindo para a diversidade de histórias, gestos e significados nesse ritual (SILVA; FALCÃO, 2011, p. 123). 33 Outro exemplo da dança em seu caráter de relacionamento com o sagrado na atualidade é as Danças Circulares Sagradas, ou Dança Sagrada, que faz uma relação com que transcende uma questão meramente física, mas nela “o indivíduo coloca-se em contato com o seu corpo em movimento, com o seu ser em expressão e com o grupo, estabelecendo e transformando suas relações sociais” (COSTA, 1998, p. 22). A Dança Sagrada, ainda se manifesta de uma maneira mais abrangente, como uma forma de integração holística, uma celebração à vida, e até como uma forma de cura (COSTA, 1998). Portanto, percebemos que ainda hoje temos várias manifestações corporais que transcendem a capacidade meramente física de dançar, mas reflete uma necessidade de se manifestar corporalmente a uma condição metafísica que está ligada com as questões histórico-culturais, como também, de crença e fé de um povo. 34 CAPÍTULO II - CRISTIANISMO PROTESTANTE E A DANÇA CRISTÃ Neste capítulo busca-se relacionar a dança dentro de sua história, desde os primórdios da dança judaico-cristã até as divisões que são apresentadas hoje. Para tanto traremos as divisões do Cristianismo protestante até chegarmos em seu último movimento, o Pentecostalismo. Num primeiro momento buscamos apresentar o Cristianismo de maneira histórica, compreendendo os movimentos que surgiram após a Reforma Protestante e com desenvolvimentos de diversas doutrinas e interpretações das Sagradas Escrituras. Passamos por movimentos como, Luteranismo, Anabatismo, Metodismo até chegar no Pentecostalismo. No Pentecostalismo, aprofundamos de maneira a entender melhor suas nuanças, assim como suas principais doutrinas, para que pudéssemos encontrar o lugar do corpo na adoração a Deus, uma vez que este movimento é o mais recente dentro do Cristianismo Protestante, portanto, o mais atual. Posteriormente buscamos analisar a questão da dança na história judaico-cristã, perpassando pela identificação de suas principais festas e comemoração, entenderemos que suas festividades eram sinônimos de grandes manifestações corporais com intuito de agradecer, louvar e relacionar-se com Deus. Apresentaremos também a visão da dança no Cristianismo Protestante Contemporâneo, assim como diversas divisões entre os tipos de danças, que estão relacionadas com a finalidade (celebração, adoração, interseção) e os tipos de movimentos realizados. Exporemos também o entendimento da dança enquanto espaço de adoração e relacionamento com Deus. 2 O CRISTIANISMO E A DANÇA A dança como expressividade religiosa se deu com o desenvolvimento de diversas nuanças sociais, sejam questões ligadas à explicação da origem da vida, seja na relação de encontro com o Sagrado ou até como oferta ao Divino. Além de estar 35 relacionada o ensino dos mais jovens às relações que os circundavam, como colocado ainda por Laban (1978, p. 43): “Em tempos bem antigos, [as] danças eram um dos meios principais de ensinar ao jovem como adaptar-se aos hábitos e costumes de seu antepassado. Neste sentido estão em íntima conexão tanto com a educação quanto com o culto e religião”. A partir deste pensamento então temos exposto a nós uma nova maneira de pensar e lidar com o Sagrado: Dançando. Uma análise desta visão de Corpo e Dança, do rito, dentro das religiões se mostram cada vez mais necessária para o entendimento da relação do fiel com seu Deus. “Como expressão do fenômeno religioso, as formas rituais aproximam o profano do Sagrado, proporcionando uma experiência subjetiva – misterium – e uma experiência objetiva compartilhada pelo grupo” (BONETTI, 2004, p. 155). Para pensar essa relação com o homem enquanto ser dançante para se relacionar com o Santo e Sagrado consideremos Wosien (2000) em seu livro Dança: Caminho para a totalidade, que coloca como também citado por Bonetti (2013, p.23): “O homem vivencia na dança a transfiguração de sua existência [...]”. Vamos, portanto apresentar uma relação específica da dança, dentro da IgrejaCristã protestante, no que tange ao relacionamento desta com Deus. 2.1 Cristianismo Protestante O Cristianismo tem suas raízes no universo religioso judaico. Reimer e Souza (2009, p. 67) trazem a relação entre a fé judaico-cristã expondo suas diferenças: O ponto de ruptura com a proposta religiosa dos hebreus é representado pelo acontecimento Jesus Cristo, isto é, pela pessoa, vida e obras. Para o judaísmo Jesus é apenas um profeta. Para os cristãos, Ele é o Messias, o enviado de Deus. Ele o Emanuel, Deus feito homem para salvar toda a humanidade. Nascido na cidade de Belém, região da Galiléia, na Palestina, Jesus viveu sua infância e juventude em Nazaré. Ao 30 anos iniciou sua pregação, marcadas por sinais extraordinários, milagres, feitos principalmente para aliviar o sofrimento dos pobres e dos pequenos. Poucos anos depois da morte de Jesus Cristo, seu seguidores oram além das fronteiras da Palestina da época, para pregar a mensagem nos países mais distantes. 36 A religião Cristã se baseia na fé em Jesus Cristo e com o passar dos anos houve várias modificações e mudanças que constituíram na religião que conhecemos hoje. Entendamos agora, um pouco mais sobre o nascimento do Cristianismo Protestante (ou Protestantismo). A Idade Média foi conhecida por uma intensa relação entre a Igreja Católica e o Estado. A história nos mostra que a Igreja também governava e sob o pretexto de conhecer e fazer valer a vontade de Deus na Terra. Esse período ficou conhecido também como Idade das Trevas. O colapso da irmandade universal – católica era iminente e daria origem a uma “nova” fé, a qual se atribuiria o valor de reformada. À frente dessa Reforma estava um monge agostiniano, Martinho Lutero, profundamente angustiado e afligido pela consciência de seus pecados, para os quais não via a possibilidade de perdão. A tensão espiritual interior de Lutero era, na verdade, um sentimento evidente em muitas pessoas. A prática comum, todavia, estabelecida pela Igreja para lidar com a questão do pecado e do perdão era a venda das indulgências. Quaisquer pessoas poderiam diminuir seu tempo de sofrimento no purgatório e encher-se de méritos que contrabalanceassem com suas faltas, a ponto de garantir-lhes, por fim, um bom lugar nas moradas celestiais (LEMOS; ALVES, 2013, p. 137). É sabido que a Igreja Católica impunha inúmeros dogmas e pressões que regiam e ditavam condutas e normas sociais, que iam desde acordos com reinos e nobreza até a venda de indulgências, por exemplo. Martinho Lutero (1483-1546), estudioso da doutrina cristã, tornou-se padre, mas, por não aceitar a maneira que o catolicismo era praticado, não exercia. Em 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg95 teses em protesto as diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana (DE MATOS, 2011). O Protestantismo emerge dando ênfase a três doutrinas principais: a justificação pela fé, o sacerdócio universal, a infalibilidade apenas das Sagradas Escrituras; a Bíblia. As repercussões dessas pregações seriam tão contundentes, que dividiria a Europa entre Protestantes e Católicos (LEMOS; ALVES, 2013, p. 138). Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus iniciando uma revolução religiosa. A Igreja Católica Romana respondeu com o que ficou conhecido como a Contrarreforma ou Reforma Católica, a partir do Concílio de Trento. Como resultado da Reforma Protestante iniciada por Lutero, houve uma divisão entre os 37 Católicos Romanos e os reformados ou os protestantes, originando o Protestantismo (DE MATOS, 2011). A partir de então houve um grande desenvolvimento das ideias de pregadas pelo Protestantismo, com isso, surgiu também várias interpretações e entendimentos doutrinários sobre a verdadeira revelação do cristianismo. Neste momento aparece alguns movimentos, doutrinariamente divergentes umas das outras, nascendo ramos, também conhecido como denominações, dentro do Cristianismo Protestante que encontramos até hoje (DE MATOS, 2011). 2.1.1 Movimentos Protestantes As mudanças doutrinárias dentro do Cristianismo provocaram reações que impactaram diretamente os pilares sociais da época, deste modo: a sociedade europeia do século XVI fora, forçosamente, retiradas de seu universo interior de acomodação cultural e intelectual, e expostas a novos valores que iriam produzir efeitos tão profundos que findariam em dividir uma Europa que antes estivera, ao menos no aspecto religioso, unida pelos laços comuns do cristianismo romano. A dissolução não era o objetivo de todos os reformadores, mesmo assim, tornou-se caminho inevitável ante o recrudescimento das práticas pouco ou nada espirituais da Igreja Católica Romana, evidenciadas nas atitudes de seus clérigos (LEMOS; ALVES, 2013, p. 136). A partir da Reforma Protestante algumas denominações surgiram a fim de suprir as necessidades encontradas nas falhas da Igreja Católica Romana. Houve, portanto, uma grande variação de doutrinas e interpretações que fundaram novas correntes religiosas ou denominações dentro do protestantismo. Segue um quadro para maior compreensão dessas correntes: 38 Imagem 1: Principais ramos dentro do Protestantismo. Fonte: Disponível em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/97/Protestantbranches_pt.svg/2000px- Protestantbranches_pt.svg.png. Essas ramificações surgiram em momentos históricos diferentes, porém algumas delas têm congregações remanescentes de suas doutrinas até hoje. Alguns autores apresentam essas divisões de forma mais sistemática (LEMOS; ALVES, 2013), outros nem tanto (DE MATOS, 2011). Vamos apresentar alguns desses movimentos com algumas características específicas. ● Anabatista: não se trata de um grupo ou igreja específica e sim na crença de que o Batismo deveria ser feito quando adulto, portanto, as pessoas eram batizadas quando adultos, mesmo se já tivesse sido batizada quando criança (SCOTT, 1995). ● Calvinismo: Conjunto de ideias e doutrinas de João Calvino. Podem ser classificados de Reformados ou Presbiterianos. Sua tese se fundamenta em cinco pontos principais, entre eles Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível, entre outros (VIEIRA; TOLEDO, 2006). 39 ● Luteranismo: Conjunto de ideias e períodos de Martinho Lutero, dentre suas principais características está a não crença na Doutrina da Predestinação, que prega que cada pessoa já tem um caminho predestinado por Deus (WIRTH, 2005). ● Anglicanismo: Se assemelha ao catolicismo no que concerne a crença na Escritura Sagrada, e ao sacramento do Batismo e da Eucaristia. Nas diferenças caracteriza-se a questão das imagens, não aceitos pelos anglicanos, e o não reconhecimento da autoridade papal (LEMOS; ALVES, 2013). ● Congregacionalismo: Trata-se de um regime onde cada igreja local exerce controle sobre suas próprias doutrinas teológicas, a questão sobre o avanço missionário e o relacionamento com outras congregações, ou seja, cada igreja local era individual autônoma e independente (LEMOS; ALVES, 2013). ● Movimento Metodista: Criado por John Wesley surgiu no começo do séc. XVIII quando um grupo de irmão passou a se encontrar para manutenção da é cristã através da leitura da Bíblia, prática da oração e do jejum e visitas aos presos e enfermos. Começaram inicialmente com nome de “Clube Santo”, mas devido ao método de ortodoxia religiosa foram apelidados de metodistas, nome que permanece até hoje. Apoiaram-se fundamentalmente no anglicanismo (DE MATOS, 2011). ● Adventismo: doutrinaprotestante que surge no séc. XIX. Um dos principais nomes deste movimento é a Igreja Adventista do Sétimo Dia que se baseia em 28 doutrinas principais, entre elas: a vinda do milênio para o reinado de Jesus Cristo e a necessidade de se guardar o sábado para adoração a Deus (LEMOS; ALVES, 2013). ● Movimento de Santidade: O Holiness Movement foi um movimento no qual se baseia que a natureza caída/carnal, a humanidade podia ser purificada através da fé em Cristo Jesus (DE MATOS, 2006). Vimos então, que inúmeros movimentos surgiram no decorrer dos anos. Movimentos que se baseavam no cerne da Reforma Protestante, mas que diferenciavam- se em termos de doutrinas, crenças e organizações. 40 O movimento Pentecostal surge como mais um destes movimentos. Com diferentes interpretações e análises e, altamente influenciado por diversos outros ramos advindos com o surgimento do Protestantismo. O pentecostalismo aparece com uma nova roupagem à fé cristã e da relação do homem com Deus. Vamos entender um pouco mais sobre suas origens e peculiaridades. 2.1.2 Pentecostalismo Na história do cristianismo protestante temos algumas considerações a começar pela ocorrência do que chamamos de Primeiro Grande Despertamento, por volta de 1730 e 1740. Este fenômeno trouxe uma revitalização das igrejas protestantes, e concomitantemente trouxe um tipo diferente de cristianismo, com um peso ao emocional maior, mais independente das estruturas e tradições antigas e, além disso, o desejo de mais formas de se experimentar o Sagrado (DE MATOS, 2006). Decorrente disto, o avivalismo, ou seja, atividades direcionadas à promoção de uma vida espiritual mais intensa e fervorosa se tornou uma característica no cenário religioso cristão protestante norte americano. Esse poderoso fervor espiritual também se culminou em inúmeros novos movimentos religiosos, alguns mais relacionados com o protestantismo histórico e outros nem tanto, como mórmons e testemunhas de Jeová, por exemplo (DE MATOS, 2006). Tratando especificamente do pentecostalismo, entende-se que é resultado de alguns desdobramentos doutrinários, durante quase um século, dentro do cenário do Cristianismo Protestante. E, apesar de esta nova doutrina religiosa ter sofrido várias influências de correntes como o puritanismo4 e o pietismo5, alguns estudiosos apontam que as origens básicas do pentecostalismo têm seus pés nas doutrinas de João Wesley (1703-1791). Com algumas características como “inteira santificação” ou “perfeição cristã” ou ainda em termos como “a mente de Cristo”, “plena devoção a Deus” ou “o 4O puritanismo designa uma concepção da fé cristã desenvolvida na Inglaterra por uma comunidade de protestantes radicais depois da Reforma. 5Movimento de renovação da fé cristã que surgiu na Igreja luterana alemã em fins do sec XVII, defendendo a primazia do sentimento e do misticismo na experiência religiosa, em detrimento da teologia racionalista. 41 amor a Deus e ao próximo”, Wesley pregava que esse tipo de experiência era alvo a ser alcançado ao longo da vida Cristã (DE MATOS, 2006). Durante o Segundo Grande Despertamento, que ocorreu nas primeiras décadas do século 19, o metodismo também experimentou um aumento expressivo de membros, alcançando uma grande expressão numérica. Fato que fez que as doutrinas metodistas se permeassem por outras denominações. Entre suas ideias e práticas podemos citar a pregação com forte conteúdo emocional, os apelos insistentes seguidos de assistência espiritual aos convertidos, ou até a participação das mulheres falando e orando em reunião para ambos os sexos (DE MATOS, 2006). Os pastores mais determinantes para o surgimento do pentecostalismo, essa nova corrente teológica dentro do cristianismo protestante, foi o pastor metodista Charles Fox Parham (1873-1929) que fundou um instituto bíblico no Estado do Kansas, Estados Unidos. O que torna Parham tão importante nesta história é que, este pastor foi o primeiro a considerar o “falar em línguas” uma a evidência inicial do batismo no Espírito Santo. O segundo pastor foi aluno de Parham em sua outra escola bíblica fundada em Houston, seu nome era William Joseph Seymour (1870-122). Seymour era negro, filho de escravos, tinha pouca cultura considerado com limitados dotes de oratória e era cego de um olho. Um avivamento começou no dia 9 de abril de 1906, e ficou conhecido como “O Avivamento da Rua Azusa”. A descrição dos cultos era – as reuniões eram eletrizantes e barulhentas. Começavam ás 10horas da manhã e iam até 2 ou 3 horas da madrugada seguinte. Não havia hinários, liturgia ou ordem de culto. Os homens gritavam e saltavam através do salão; as mulheres dançavam e cantavam. Algumas pessoas entravam em transe e caiam prostradas (DE MATOS, 2006). Portanto, o movimento pentecostal tem dois fundadores: Charles Parham e William Seymour. Parham foi o primeiro a fazer a afirmação fundamental de que o falar em línguas era a evidência visível e bíblica do batismo com o Espírito Santo. A importância de Seymour, o discípulo de Parham, reside no fato de que sob sua liderança, através do Avivamento da Rua Azusa, o pentecostalismo se tornou um fenômeno internacional e mundial a partir de 1906 (DE MATOS, 2006, p.33). No decorrer dos anos o Cristianismo Protestante teve grande disseminação em todo mundo e, inevitavelmente, teve também algumas variações de acordo com interpretações bíblicas e doutrinárias dentro desta mesma corrente religiosa. O 42 movimento Pentecostal é uma dessas vertentes que se surgiu nos desdobramentos religiosos no decorrer do tempo. O moderno movimento pentecostal é considerado por muitos estudiosos o fenômeno mais revolucionário da história do cristianismo no século 20, e talvez um dos mais marcantes de toda a história da igreja. Em relativamente poucas décadas, as igrejas pentecostais reuniram uma imensa quantidade de pessoas em praticamente todos os continentes, totalizando hoje, segundo cálculos de especialistas, cerca de meio bilhão de adeptos ao redor do mundo. Mais do que isso, o pentecostalismo acarretou mudanças profundas no panorama cristão, rompendo com uma série de padrões que caracterizavam as igrejas protestantes há alguns séculos e propondo reinterpretações muitas vezes bastante radicais da teologia, do culto e da experiência religiosa. [...] Rigorosamente falando, o pentecostalismo como um fenômeno distinto surgiu nos últimos anos do século 19 ou nos primeiros do século 20 (DE MATOS, 2006, p. 24). O movimento pentecostal foi muito diversificado desde o início, proporcionando uma grande variedade de manifestações e ênfases. Isto não é de se admirar, pois o pentecostalismo podia a partir de umas doutrinas básicas, assumir grande número de configurações, motivadas principalmente pelos muitos líderes independentes que iam surgindo (DE MATOS, 2006). O pentecostalismo pode ser analisado em três ramificações principais: “Pentecostalismo Clássico (tradicional)”, estabelecido no país com a Congregação Cristã no Brasil (1910) e com a Assembleia de Deus (1911); o “Deuteropentecostalismo”, surgido entre 1950 e 1960 no Brasil, e o “Neopentecostalismo”, que inicia nos anos de 1970 e tem como seu maior exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus (RIGONI, 2013, p. 229). Podemos citar a Igreja do Evangelho Quadrangular como um exemplo “pioneiro” do Deuteropentecostalismo (ou Deutero-pestecostalismo) no Brasil, que representa a segunda onda do pentecostal, sendo o pentecostalismo tradicional a primeira e o Neopentecostalismo a segunda.O Tradicionalismo ou Pentecostalismo Clássico, são os que mais se destacam em relação à educação do ser humano em seus aspectos corporais, e estão mais ligados às Igrejas Reformadas ou Presbiterianas, ou seja, às raízes mais antigas do Protestantismo, mais próxima à Reforma Luterana. Fato que pode explicar 43 (historicamente) o trato que se têm em relação ao corpo nesta ramificação. Uma vez que nos séculos XVII, XVIII e XIX ainda se mantinha uma análise mais rigorosa (no que se refere às doutrinas) da Bíblia e das tradições que ela apontava. Com influência determinante da Igreja Católica Apostólica Romana com os Decretos Papais e interpretações que eram impostos como inquestionáveis aos fiéis. Por tanto, apresentaram uma visão mais rigorosa e tradicional no que se refere ao trato com o corpo, ou até na própria liturgia do culto. Os Deuteropentecostais já se referem às congregações que tinham uma outra análise Bíblica e entendimentos sobre essas questões mais rigorosas do corpo dos fiéis e até no culto a Deus propriamente dito. Não tão rígidas como os tradicionais, apesar de mesmo dentro dessa corrente existir algumas denominações um pouco divergentes, mais próximas aos tradicionais (como a Igreja Deus é Amor), ou mais distantes (como Igreja do Evangelho Quadrangular) (RIGONI, 2013). Tratando do Neopentecostalismo (ou Neo-pentecostalismo) podemos analisar uma diferenciação um pouco mais evidenciada não apenas na maneira do trato com o corpo, mas, até com questões mais específicas, no que se refere à doutrina e crenças. Um dos maiores exemplos deste movimento é a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Segundo Campos (2005, p. 113): Trata-se [...] de um dos ramos pentecostais mais novos, sincréticos, dinâmicos e visíveis no espaço social (mídia e política). [...] a Iurd é um tipo de religião que mais se adapta a um contexto de globalização e internacionalização da cultura e da economia. De Matos (2006, p.49) nos traz uma conclusão em relação aos movimentos pentecostais apontando alguns pontos positivos, outros nem tanto, em relação ao que ele chama de Igrejas herdeiras da Reforma Protestante, ou seja, igrejas tradicionais: Os especialistas têm feito uma série de conjecturas sobre o futuro do movimento pentecostal. Embora haja diferentes perspectivas, em uma coisa todos concordam: o pentecostalismo veio para ficar. As igrejas herdeiras da Reforma, como a presbiteriana, podem adotar diferentes atitudes: tentar ignorar o movimento pentecostal, como se não fosse relevante; hostilizá-lo, apontando somente para as distorções teológicas e éticas; ou, preferivelmente, interagir com ele, aprendendo lições úteis com essa tradição e ao mesmo tempo procurando influenciá-la, para que se torne mais íntegra e bíblica. Entre as áreas a serem reconsideradas, podem ser apontadas as seguintes: (a) na esfera do culto: liturgia mais alegre, edificante e 44 participativa; hinódia contemporânea com sólido conteúdo bíblico e doutrinário; (b) na esfera das missões: maior ênfase na evangelização, envolvendo todos os membros; reexame das estratégias missionárias (por exemplo, em certas igrejas pentecostais o obreiro deve primeiro plantar uma igreja para então ser consagrado pastor, ao passo que na IPB o grande número de formandos dos seminários não está se traduzindo em crescimento para a igreja); (c) no âmbito social: transformação das igrejas em espaços acolhedores para pessoas de todas as classes e condições; atuação deliberada e sistemática junto às camadas mais pobres da população, levando-lhes o evangelho integral. Também existem algumas contribuições que as igrejas tradicionais podem oferecer aos pentecostais e renovados: seriedade no estudo e interpretação das Escrituras; valorização da boa teologia e das doutrinas bíblicas; compromisso com a ética cristã, especialmente quanto à liderança e finanças; ênfase à santidade tanto quanto ao poder; equilíbrio entre experiência e Escritura, emoções e intelecto, fervor e reverência; valorização da herança cristã. Devo destacar o aspecto primeiro, onde o autor (MATOS, 2006, p. 49) coloca que há uma liturgia mais alegre, edificante e participativa e outras variações doutrinárias, e, é exatamente neste ponto que podemos destacar a efetividade da mudança na questão da valorização da Dança no culto religioso. 2.2 A Dança Na Igreja Dança vai além de uma característica específica, de movimentos ritmados ou de uma prática corporal qualquer. A dança na igreja é uma relação de contato e devoção a um ser Divino ou sobrenatural. Uma experiência de adoração ao santo. Ao se tratar da dança na igreja, veremos que ela está cada vez mais presente na realidade litúrgica do culto religioso. A dança no Cristianismo nem sempre foi aceita como uma prática de relacionamento e devoção a Deus, já foi considerada profana, o que estava diretamente relacionado com o entendimento de corpo do período histórico que se encontrava, o que já vimos no capítulo anterior. Na contemporaneidade, com as várias influências das doutrinas, ritos e interpretações, dos movimentos surgidos após a Reforma Protestante, houve uma nova forma de pensa entender a dança no culto religioso no Cristianismo Protestante. Veremos agora um resgate histórico do lugar da dança nas raízes judaico-cristã. Onde veremos suas principais festas sempre regada a muita música e danças. E trataremos também da dança na liturgia do culto Cristão protestante contemporâneo, 45 onde identificaremos alguns tipos de danças que podem ser encontrados dentro da dança na igreja. 2.2.1 Dança na história judaico-cristã Para analisarmos a dança num contexto cristão temos que começar pela cultura hebraica, pois esta é o berço do cristianismo, acarretando muito possivelmente em valores que influenciam na dança cristã no meio evangélico hoje (TORRES, 2009). O povo hebreu tem uma história rica em festas que marcavam, com comemorações, momentos históricos ou habituais como forma de celebração e agradecimento a Deus. Estas comemorações possuíam caráter religioso, lúdico e ainda educativo, com intuito de formar e preparar os mais novos para aquilo que todos acreditavam. Como afirma Coleman (1991) o caráter religioso se mostrava evidenciado, pois, as danças aconteciam para louvar a Deus. Sempre que havia uma colheita grande, os hebreus celebravam em agradecimento a Deus com danças, orações e meditações. “Sendo um povo por natureza festivo, os israelitas apreciavam música ritmada e não ficavam parados para ouvi-la. Gostavam de expressar livremente suas emoções, tanto as alegrias como as tristezas, através das danças e o faziam em suas festas” (TORRES, 2009, p. 51). Como exemplos das principais festas hebraicas, trazemos a seguir uma sistematização apresentada por Torres (2009, p. 53-55): RoshHodesh – Festa de consagração do início de cada mês. Pesah – Páscoa, celebrada dia 14 de Nisan (abril). Esta festa é de grande importância ao povo hebreu. Está presente em todo Antigo Testamento, tendo-se estendido à era cristã, onde veio a constituir as bases da igreja primitiva. A esta da páscoa recorda que um dia os hebreus oram escravos do Egito, mas foram libertos e protegidos por Deus. Os hebreus oram livres pela décima praga do Egito, que seria a matança dos primogênitos pelo anjo da morte. Orientados por Deus através de Moisés, mataram um cordeiro passando sangue nos umbrais 46 das portas de suas casas. Foram livrados da praga e libertos pelo Faraó. A esta também aponta para a vinda do Messias. Omer – Primícias da Colheita. Nesta ocasião, os hebreusofereciam feixes das primícias da colheita de cevada, do dia seguinte a Pesah até a Shavout. Shavout – Festa de Pentecoste – Celebrado no dia 6 de Sivã (Junho). A festa é realizada cinquenta dias após a época da colheita de cevada que era na páscoa; vinha então a colheita do trigo. Esta festa começou nos tempos de Moisés, celebravam a alegria pela colheita do cereal. Dentro do cristianismo, a referida festa marcou o início de uma nova fase, quando após a ascensão de Jesus, os crentes estavam reunidos para esperar novas instruções e ao se cumprir o dia de pentecostes foram cheios do Espírito Santo. A partir deste momento foram espalhar o cristianismo por todos os povos. Sukkot – Festa dos Tabernáculos, também chamada posteriormente de Festa das Tendas, da colheita e festa do Senhor. Celebrada do dia 15 a 21 de Tishri (outubro). Relembrava que YAHWEH um dia tirou os hebreus do Egito e os fez habitar em tendas. Celebrava também a colheita das uvas e azeitonas. Nesta época, todos os judeus devotos deveriam ir a Jerusalém. Havia grande regozijo e esperava-se que todos trouxessem uma oferta de gratidão ao Senhor. A esta continuava por sete dias, sendo que o primeiro e oitavo dia eram guardados como sábados cerimoniais. Elul – Durante todo o mês de Elul (agosto) os hebreus celebravam o amor de Deus por Israel. Antes do romper da aurora, recitavam pedidos de perdão e súplicas. RoshHashanah–Dos dias 1 a 3 de Tishri (outubro). Celebravam o começo do ano judaico. Yamim Nora in – Dez dias de temor feitos no intervalo entre RoshHashnah e Kippur, declarando que Deus dá ao ser humano a oportunidade de receber perdão em Kippur. Kippur – O dia do perdão era uma esta feita em 10 de Tishri (outubro). Nesta festa, os hebreus buscavam o perdão de Deus, fazendo uma pausa para refletir sobre os pecados cometidos. O significado desta festa para o cristianismo aponta para o dia da 47 expiação quando Jesus assume a função de Sumo Sacerdote. Após dias de profundos sentimento de tristeza, os participantes se entregavam a alegria da festa dos tabernáculos. Hanukkah – Festas das candeias, proclamando as nações que a única lu neste mundo é a luz que Deus az brilhar. Celebra-se a conquista do tempo por Judas Macabeus, após sua profanação pelos gregos em 17 a.C. A festa é celebrada em 25 de Chisley (novembro). A Tradição dia que Judas encontrou um vaso de cerâmica com azeite que deveria durar um dia e que durou sete dias. Na esta acendiam-se luzes, que eram mantidas acesas por sete dias. Tu B Shevat – Ação de graças pelos frutos das árvores, no dia 15 de Shevat (janeiro). Purim – Dia de Mardoqueu, em 15 de Adar (março). É uma festa que se comemora o livramento que Deus deu ao seu povo nos dias de Assuero, através da intervenção da rainha Ester a favor do povo Judeu. Tish – Lamentações pela destruição do primeiro templo por Nabucodonossor, em 9 de Av (julho). YomHatzmaut – Dia da independência e proclamação do Novo Estado Judeu – 5 de Iyar (maio) de 1948. Shabbat – Sábado, dia de santidade e descanso. A festa é realizada em memorial à criação e em sinal do pacto entre Deus e o povo hebreu, porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Ex 20,11). Segundo Reimer (1999, p. 38) a palavra santificar significa “manter algo como separado”, com “algo especialmente dedicado” (1999, p. 43). O sábado se tornou uma marca constitutiva do povo de Israel, respectivamente do povo judeu. Vimos então, que o povo hebreu dançava em suas várias festas com uma notória energia demonstrando sentimentos, intenções alegrias e irrefutavelmente relacionado com o Sagrado ou diretamente à figura de Deus. Segundo Coleman (1991) a dança no contexto do povo hebreu estava estritamente relacionada ao caráter religioso. 48 Também Torres (2009) coloca que havia determinado limite de esquematização como a dança em rodas, em filas, danças giratórias, e também improvisação. Além de apontar alguns adereços utilizados na dança que eram repletos de simbologia, como tecidos, que significava água, sangue, vento etc. ou até fitas coloridas, como também instrumentos. A cultura hebraica aponta, então, para um corpo que ao ser considerado puro, poderia ser local de comunhão e manifestação ao sagrado. O movimento corporal e da dança é então aceito na cultura hebraica, a partir do momento em que o corpo que dança se encontra dentro dos padrões de santidade e pureza dos hebreus (TORRES, 2009, p. 63). Segundo Cloud (s/d) existem algumas palavras em hebraico que ao serem traduzidas para o português corresponde ao termo dança, como MACHOWL, que se refere a dança em roda, que aparece em Salmos 30:11 “ Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria”, também em Salmos 149:3 “Louvem eles o seu nome com danças [...]”, ou ainda em Jeremias 31:13 “Então as moças dançarão de alegria, como também os jovens e os velhos [...]” (BÍBLIA, 2007). Na Bíblia ainda podemos encontrar pessoas que dançavam a Deus como uma forma de louvor e adoração, como em II Samuel 6:14 “Davi, vestindo um colete sacerdotal de linho, foi dançando com todas as suas forças perante o Senhor” (BÍBLIA 2007), ou como em Êxodo 15:20 “Então, Miriã, a profetisa, irmã de Arão, pegou um tamborim e todas as mulheres a seguiram, tocando tamborins e dançando” (BÍBLIA 2007). Mas, a dança que até então era exposta de forma tão clara e evidente na época dos hebreus, ou até nas festas judaicas no novo e antigo testamento nas Sagradas Escrituras, se tornou muito menos evidente, ou muito mais discreta ao se tratar no meio da cultura cristã primitiva. Muito possivelmente, como colocado por Torres (2009), isso se deu por uma ruptura entre os cristãos e judeus no ano de 70 d.C., tão logo, a dança que fazia parte da cultura judaica pode ter sido abandonada ou pormenorizada. Com o passar dos anos, a influência de diversos povos e culturas começaram a permear a realidade litúrgica da dança cristã novamente. Como a arte romana que influenciou (juntamente com outras) a representação de anjos em quanto louvavam a Deus, por exemplo. 49 A posição da igreja cristã nos primeiros três séculos é divergente no que diz respeito à dança. João Crisóstemos e Basílio, por volta de 313 d.C., fizeram menções da dança em seu caráter sagrado, com liberdade de culto. Porém, com a queda do império romano, bispo Milão de 340 d.C., a proíbe em todas as dioceses e Agostinho levanta um forte testemunho contra a dança. [...] Segundo Bertoni (1992, p. 47), a dança sofre a partir do século IV a condenação por parte dos imperadores romanos cristãos, chegando a ser banida da liturgia no século XII. Dentro do cristianismo, as danças pagãs foram combatidas por estarem ligadas a ritos e cerimônias de tradição pagã (TORRES, 2009, p. 76). Um dos fatores que influenciaram essa visão da dança foi à questão filosófica da época, onde o conceito de belo, na Idade Média, era direcionado à essência do Sagrado e o corpo não continha a essência do que era belo, pelo contrário, via-se no corpo uma aura pecaminosa e fonte do mal. Já no período de transição entre a Idade Média para o Renascentismo passa de pouca manifestação em lugares sujos e escondidos para a proteção da Corte, com o surgimento do Ballet. Essa expressão dava surgimento ao novo aspecto a arte da dança tratando como apresentação, dando início a um novo tempo na era da dança (TORRES, 2009). Com a Reforma Protestante (1517-1648) e o Concíliode Trento (1545-1563), começa-se então um novo entendimento para a dança no contexto cristão. Passando aos poucos o entendimento da dança enquanto expressão corporal na relação com o Divino. E foi na tentativa de estabelecer uma liturgia “descente” (dentro do parâmetro bíblico) no contexto religioso que a dança ressurge no cenário cristão, agora também cristão protestante. “O texto bíblico, como um importante documento que descreve a cultura hebraica, se refere a dança como forma de culto e também de diversão, sendo considerada aceita à medida que o corpo que dança se encaixe nos seus padrões de pureza e santidade” (TORRES, 2009, p. 82). Pudemos perceber, que no decorrer dos tempos e das mudanças sociais ocorridas, houve também inúmeras alterações do entendimento, liberdade e até abertura para a dança na liturgia do culto cristão. No Cristianismo protestante atual, temos um reflexo dessas concepções tão contraditórias e polêmicas no que se refere a legitimidade doutrinária e até na aprovação ou de não por Deus da prática da Dança nos cultos. 50 Contudo, como nos foi apresentado até aqui, as doutrinas e dogmas religiosos são expressos por aqueles aos quais foram dadas a revelação da vontade de Deus. E dentro do pentecostalismo temos uma diversificação quanto ao lugar, papel ou relação da dança com Deus ou com as experiências sobrenaturais. Mas de maneira a conceituar a visão da dança neste contexto concordamos com Torres (2009, p. 88): Os cristãos evangélicos, que durante muitos anos se abstiveram da dançam e que agora a tem incluído como possibilidade de expressão, integração, comunicação e como forma de culto, realizam uma dança livres das bases de técnicas tradicionais, na busca de novas possibilidades de movimento que permitem ao corpo uma liberdade de criação e de expressão. A dança tem se tornado, no culto, tão importante quanto a música para expressão seus sentimentos, pensamentos e para representar cenas bíblicas, atingindo pessoas de todas as idades e níveis sociais. São representações cheias de significado, utilizando símbolos formados através dos próprios movimentos acrescidos de objetos significativos. Vale ressaltar que este movimento tem atingido os cristãos no sentido de educar, preservar e transmitir valores culturais através da arte do culto. 2.2.2 Dança na igreja de hoje Atualmente, dança na igreja evangélica (dentro das correntes mais recentes do Pentecostalismo) é entendida como forma de orar e adorar a Deus numa relação íntima pessoal, onde o dançarino entrega-se na totalidade do seu ser (corpo, alma e espírito), em um estado de devoção (TORRES, 2009). Como já colocado, a dança na igreja não segue necessariamente um estilo de técnicas tradicionais, é mais uma dança espontânea e livre. Apesar de alguns grupos cristãos especializarem em determinado estilos de dança ou priorizarem algum, como o Ballet, dança moderna, hip hop e etc. Para ministrar a dança em grupos, os bailarinos que ministram em cultos sem técnicas tradicionais se valem de técnicas específicas como, por exemplo, a da dança experimental, onde toda uma movimentação coreográfica pode ser direcionada a partir de uma intenção, palavra ou uma frase. Através de sinais desenvolvidos pelo próprio grupo, de forma dirigida, variando a direção, o nível, o espaço, o tempo, o ritmo, a intensidade e a forma do movimento, um líder previamente estabelecido direciona como irão se expressar no movimento em questão. Os passos realizados são, de forma geral, simples e fáceis, de modo que a congregação possa acompanhar alguns movimentos dos bailarinos, bem como acompanhar cantando a música que está sendo 51 ministrada. [...] a dança não é uma simples apresentação, mas uma ministração direcionada ao Sagrado e ao público, que receberá uma mensagem que o direcionará também ao Sagrado (TORRES, 2009, p. 90). Ainda segundo Torres (2009) a dança cristã é diferenciada pela intenção e pelo momento no qual ela se realiza, no sentido de que: se o momento é de interseção a a mesma é concretizada em movimentos que a refletem, como prostração e súplica. Ou se é realizada no momento de alegria ou festividade a dança é repleta de saltos e rodopios, e etc. A dança no meio evangélico pode ser dividida em algumas categorias que estão relacionado com sua finalidade e designo, Torres (2009) nos expõe essa divisão da seguinte forma: ● Dança de júbilo – São danças alegres, com saltos, palmas, gritos, celebrando aos feitos de Deus. Acontecem normalmente no início das reuniões, utilizando músicas rápidas, regadas por um ambiente festivo. [...] O alvo é, junto a congregação, expressar a Deus louvor e gratidão pelos seus feitos. Com saltos, movimentos mais rápidos e maiores. ● Dança de guerra – A dança de guerra é uma dança realizada contra as forças espirituais malignas. É uma oração impedindo uma ação espiritual considerada maligna, na medida em que exerce uma autoridade espiritual, que segundo o cristianismo evangélico, foi conquistada em Jesus Cristo. É composta por marchas e movimentos que expressam autoridade. Indicam uma cosmologia ou tomada de posse do ambiente, à medida que realizam a marcha sobre um local específico. Esta dança pode ser feita em grupo ou individual, geralmente de forma não programada, sendo direcionada por uma revelação divina. Com passos mais fortes, movimentos que simbolizam guerra ou luta. ● Dança Profética – Baseado nos profetas do antigo testamento, o som profético era um ofício espiritual especial que consiste em revelar verdades, indicando onde existe a necessidade de haver concertos. Os profetas da igreja cristã primitiva eram pessoas que após receberem dons carismáticos, exerciam o ofício de profetas proferindo declarações inspiradas, trazendo direção, exortação ou mesmo consolação da parte de Deus. [...] A profecia não consiste em uma previsão do futuro, mas uma afirmação inspirada pelo Sagrado. É uma maneira de trazer uma 52 comunicação do transcendente para o âmbito natural. A dança profética por sua vez consiste em, através da linguagem do movimento, o ministro profetizar trazendo da parte de Deus uma palavra direcionada à congregação, ou ao mesmo ao momento em questão. Como no protestantismo todo aquele que aceita a fé em Cristo é considerado em sacerdote, um crente compromissado com sua fé, possuindo o dom carismático, pode profetizar através da dança. É uma dança onde o bailarino vestido com as cores de um determinado país executa movimentos que expressem arrependimento; pode ser uma palavra profética que aquele país precisa se arrepender de seus maus caminhos e buscar a Deus se rendendo a ele. ● Dança interseção – Interceder é se colocar no lugar de outra pessoa, para falar a favor dela. Quando um bailarino na mesma situação citada no parágrafo acima executa os mesmos movimentos de arrependimento diante de Deus, ele pode, além de estar profetizando, estar intercedendo, pois se coloca no lugar daquela nação, arrependendo pelos pecados dela. Movimentos mais introspectivos, mais soltos, usa-se muito o solo. ● Dança evangelística – São danças realizadas com intuito de proclamar o evangelho. Possuem o caráter de apresentação onde o alvo é o público que assiste. Podem ser realizadas fora ou dentro do ambiente do culto, em ocasiões onde possíveis novos adeptos estejam presentes. Com movimentos criativos com objetivo de chamar atenção do público. Geralmente há uma relação com a letra da música ou com uma história a ser passada. ● Dança de ensino – São danças que ilustram pregações, tendo o intuito de auxiliar no ensino da doutrina. Tambémpossuem o caráter de apresentação, com alvo no público presente. Com movimentos relacionados a aquilo que se quer ensinar. ● Dança de adoração – São danças onde o alvo é exclusivamente o Sagrado. Cada bailarino procura expressar individualmente sua adoração ao Sagrado, expressando profundo amor e devoção ao proclamar sua grandiosidade. A crença que o acesso de cada indivíduo à presença de Deus foi conquistado em Cristo faz com que esteja um íntimo momento de comunhão da criatura com o criador. Também com movimentos mais introspectivos, mais soltos, usa-se muito o solo. 53 Além de todas essas características que definem os tipos de dança dentro da igreja acima expostas, Torres (2009) também apresenta algumas especificações para o trato com a Dança dentro da igreja. Especificações que vão além de ter habilidade para dança e ter sempre um líder na dança6, mas expressam uma relação para além do ato de dançar; que se ligam ao sentido de fazer dança na igreja. Como ser chamado por Deus para este ministério (o trabalho com a dança dentro da congregação), ser um adorador, ter maturidade na fé, sensibilidade espiritual. Pudemos perceber então, que a dança na igreja hoje além de estar relacionada a questões de tradições históricas encontra-se também, como uma relação íntima com o Sagrado. Teles (2015) também aponta que a dança na igreja está relacionada a adoração e louvor a Deus. De modo que, o ato de dançar no culto é uma relação de exaltação e louvor que nos conecta com o Divino. Outro ponto bastante especulado e já apresentado através de Torres (2009) é a questão da objetivação da dança. O que dará sentido ao direcionamento ao Sagrado é a intenção pela qual se dança. Ora, pois se a técnica não é o determinante para caracterizar a dança na igreja a intenção a qual ela é realizada o é. Para tanto Teles (2015) aponta que o que realmente é fundamental para caracterizar uma dança enquanto louvor e adoração a Deus é a relação que o dançarino já mantém com Deus. A partir deste pensamento podemos entender que a dança se relaciona com o Sagrado a partir da vida que o dançarino leva diante de Deus. Teles (2015) chama esse relacionamento de Intimidade com Deus. Logo, o que determina se uma dança é realmente de louvor e adoração a Deus é a Intimidade que o dançarino estabelece com Deus. Para a autora, o “segredo” é a proximidade que esta pessoa já tem com Divino. 6 Em geral, faz-se necessário ter uma líder, geralmente é alguém de maior experiência, para puxar as coreografias que são “estilo livre” e normalmente não são marcadas anteriormente. 54 CAPÍTULO III – CAMINHOS DA ADORAÇÃO 3 METODOLOGIA A linha metodológica utilizada neste trabalho é a fenomenológica. Que abrange para além de número ou de uma análise basicamente quantitativa, como colocado por Gil (2014, p. 14): Nas pesquisas realizadas sob o enfoque fenomenológico, o pesquisador preocupa-se em mostrar e esclarecer o que é dado. Não procura explicar mediante leis, nem deduzir com bases em princípios, mas considera imediatamente o que está presente na consciência dos sujeitos. O que interessa ao pesquisador não é o mundo que existe, nem o conceito subjetivo, nem uma atividade do sujeito, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, tem lugar, se realiza para cada pessoa. Interessa aquilo que é sabido, posto em dúvida, amado, odiado, etc. O objeto do conhecimento para a Fenomenologia não é o sujeito nem o mundo, mas o mundo enquanto é vivido pelo sujeito. Deste modo, este trabalho centra-se na busca da interpretação sentido do fenômeno da Dança em relação ao Sagrado, baseando-se na análise social de um fenômeno em seus contextos históricos, sociais, simbólicos e as implicações da cultura, através da pesquisa qualitativa. Ainda neste conceito, é necessário analisar o fenômeno a sob a perspectiva de conseguir alcançar a verdade, abrangendo a complexidade recorte em um sentido amplo e geral do que é analisado. Para alcançarmos esse objetivo faz-se necessário entendemos que a subjetividade compõe, efetivamente, a realidade social e não pode ser acolhida metodologicamente como um evento perturbador (DEMO 2014), portanto será retratado na tentativa de compreendermos o mesmo. Assim como Demo (2014), entendemos que a pesquisa em ciência sociais é na verdade uma interpretação da vida cotidiana, e, as questões que a compõe são fundamentalmente essenciais para compreensão, portanto, é preciso uma análise mais ampla a partir da visão da realidade que nos é exposta. 55 Em uma perspectiva fenomenológica- qualitativa há o pressuposto de que o comportamento humano tem muito mais significado do que efetivamente o ato pelo qual se manifesta (TRIVIÑOS, 1987). Triviños (1987) aponta algumas características da pesquisa qualitativa, com seus rigores, pressupostos, e metodologias. Abaixo segue algumas considerações que Triviños (1987, p. 128-130) apresenta e serão adotadas na austeridade deste trabalho: ● A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento-chave; ● A pesquisa qualitativa é descritiva: a interpretação dos resultados surge como a totalidade de uma especulação que tem como base a percepção de um fenômeno num contexto. ● Os pesquisadores qualitativos estão preocupados com o processo e não simplesmente com os resultados e o produto: esse tipo de análise penetra em sua estrutura íntima, latente, inclusive não visível ou observável à simples observação ou reflexão para descobrir suas relações e avançar no conhecimento de seus aspectos evolutivos, tratando de identificar as forças decisivas responsáveis por seu desenrolar característico. ● Os pesquisadores qualitativos tentem a alisar seus dados indutivamente: os significados, a interpretação, surgem da percepção do fenômeno visto num contexto. Desta maneira, visando seguir os rigores citados acima realizaremos “um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro do seu contexto de realidade” (GIL, 2014, p. 57). Foi utilizado como instrumento de pesquisa, entrevista semiestruturada, realizada em dias de pré-programados em lugares da preferência dos entrevistados. A entrevista foi construída buscando apresentar questões que nos levassem a compreender os fatores que permeiam a dança como forma de Adoração e relacionamento com Deus, como também buscando identificar as nuanças que norteiam essa prática, totalizando 19 perguntas sobre o tema. A análise qualitativa segundo Gil (2014) é efetuada em três partes, (a) redução, consiste no processo de seleção e simplificação dos dados; (b) apresentação, organização dos dados em categorias para análise sistemática; (c) 56 conclusão/verificação, refere-se a uma revisão para considerar o significado dos dados, suas regularidades, padrões e explicações. Portanto, na análise descreveremos os dados com uma preocupação maior com o processo do que com o resultado, atribuindo uma atenção maior aos significados que as pessoas atribuem no processo. Serão analisadas as respostas apresentadas buscando entender e explicitar as relações da prática da dança com Deus e com as experiências sobrenaturais. Nas entrevistas, as respostas serão trazidas na medida em que abordaremos os temas. Foram realizadas questões que perpassam pela Dança Adoração, diferenças entre os tipos de dança dentro da igreja, visão do entrevistado sobre a dança no Protestantismo Contemporâneo, também questões que perpassam à experiência nos sujeitos no momentoda realização da dança, entre outras. 3.1 Caracterizando os sujeitos da pesquisa Foram realizadas entrevistas com 4 mulheres diferentes envolvidas com dança na igreja há vários anos. No decorrer da discussão serão identificadas com Entrevistada1, Entrevistada2, Entrevistada3, Entrevistada4. Entrevistada1: Com 46 anos de idade, ela dança a mais de 28 anos na igreja teve experiências com grupos de danças fora da igreja desde aos 11 anos com Balé e Jazz; e aos 17 anos ela fundou, com suas irmãs, uma Companhia de dança muito conhecida no meio Cristão Protestante em Goiânia. Com esta companhia já viajou quase todo o Brasil realizando apresentações em igrejas evangélicas e em eventos cristãos e seculares. Também viajaram para a Europa quatro vezes, África, Estados Unidos, Indonésia com a missão de “Proclamar o Evangelho através da Dança” (ENTREVISTADA1) apresentando em igrejas, ruas teatros, presídios, campos de refugiados, etc. Realizou mais de 20 espetáculos de dança. Há 19 anos realiza um Festival de Dança, Teatro e Música durante 9 dias onde é oferecido mais de 30 oficinas e alcança grupos de todo o país. Atualmente trabalha com uma Escola de Ministérios direcionada a capacitação de dançarinos segundo os princípios bíblicos, oferecendo 57 aulas de dança e estudos sobre o lugar da dança na Bíblia. Também escreveu um livro sobre o lugar da dança destro do culto da Igreja Cristã Protestante. Entrevistada2: Com 28 anos de idade, começou a dançar com 15, balé clássico. É formada em Educação Física pela Faculdade Universo e participou de diversos espetáculos e viagens com um grupo de dança ao qual pertencia. Líder de um grupo local de dança há cinco anos. Entrevistada3: Com 45 anos de idade, dança na igreja desde 1998, desde então trabalhou com danças com intuito de evangelização e adoração. Trabalha com missões transculturais, foi a África do Sul e Moçanbique em 2008 onde ministrou oficinas e minicursos a respeito da dança na igreja. Tembém viajou para várias partes do Estado de Góias e do Brasil. Entrevistada4: Com 50 anos de idade, começou a dançar aos 33 anos, devido ao início de um trabalho num colégio evangélico, onde ministrou aulas para turmas desde o ensino infantil até o ensino fundamental. Logo após iniciou um grupo de dança ministrando em Goiânia, em Goiás e em outros estados, e também fora do país, participando do Congresso realizado em Nampula localizada em Moçambique. Produziu 19 Espetáculos Cristãos e Escrevi um livro sobre dança e adoração. 3.2 Analise E Apresentação Dos Dados Para análise dos dados, a discussão será direcionada por áreas temáticas, buscando responder aos objetivos desta pesquisa. Logo, iremos dividir a análise em 3 categorias, onde serão apresentadas as posições dos entrevistados e nossa tentativa de interpretação das respostas, buscando uma discussão coerente e fundamentada a partir da realidade, as áreas são: A Dança Adoração, Os tipos de Dança, A dança na Igreja Protestante Contemporânea. 3.2.1 A Dança Adoração Inicialmente perguntamos as entrevistadas se a dança poderia ser vista como uma forma de adoração a Deus. Todas concordaram que sim, em uma ligação muito sensível da adoração ao movimento do corpo, “por que adorar é você entregar sua vida a 58 alguém, e pra mim a dança é a maneira mais autêntica e pura de orar. Porque os movimentos falam o que palavras não sabem dizer” (ENTREVISTADA1). Vemos através desta resposta que o corpo estaria associado a uma expressão explicita de sinceridade com Deus, de relacionamento, diálogo e referência realmente à aquela a quem se adora. Quando questionados sobre o que é a Dança Adoração, a Entrevistada4 respondeu “entregar-se a Deus completamente usando o corpo como instrumento para isso. Eu entendo que quando eu levanto minhas mãos (...) eu estou falando com Ele”, podemos então, ver que a gestualidade não está somente relacionados aos movimentos físicos de significados coletivos, mas também há um sentido mais subjetivo que perpassa pelo lugar onde minha crença, ou fé, se materializa na adoração que é realizada corporalmente. Para Entrevistada1 a “Dança Adoração é você conseguir expressar com seu corpo todo esse amor e essa devoção ao seu Deus. Então você dançar diante de uma igreja, ou com uma congregação é como se fosse sua oração, é como se fosse o seu louvor, é como se fosse a sua maneira de se expressar pra Deus. Então, a dança é uma linguagem não verbal, é uma linguagem instintiva e muito expressiva. Pra mim ela é como se fosse uma pregação, porque ela está falando ao mundo espiritual. Por exemplo, nós temos exemplos na Bíblia de eventos que aconteceram a partir de movimentos, por exemplo: Moisés, quando ele levanta a mão o mar abre. Ele não orou a Deus para que o mar abrisse, ele obedeceu a Deus que mandou ele fazer o movimento. E aquele movimento liberou algo no mundo espiritual que fez com que aquele milagre acontecesse. Então, da mesma forma os nossos movimentos são uma oração, então o mundo espiritual responde a isso”. Neste ponto a Entrevistada1 apresenta que movimentos são como linguagens que correspondem ao mundo espiritual, que seria uma ligação entre o ser adorado e sua criação, estabelecendo contato não só com um objetivo final no movimento, mas usando do movimento para influenciar e mudar situação, a partir desta relação com o mundo espiritual. Para Torres (2009, p.101) essa afirmação é confirmada: 59 Acreditamos que o Senhor Jesus Cristo nos permite dançar na presença dEle e, vemos a dança como uma ferramenta para exercermos essa liberdade de adoração. Cremos piamente que nossos gestos e expressões, além de serem uma forma de louvor ao nome santo de Jesus, são ainda uma maneira de abençoar as pessoas que estão naquele lugar, oferecendo-lhes cura, paz, restauração espiritual. Para a Entrevistada2 “a Dança é uma forma de culto. Assim, a mesma responsabilidade e encargo que um pastor tem de ministrar uma palavra, nós temos através do nosso corpo”. Neste momento chamamos a atenção para necessidade que existe de considerar não somente a prática da dança, mas a seriedade em que ela deve ser executada. A Entrevistada2 mostrou-nos que os dançarinos devem conscientemente ter clareza de que é a presença de Deus que se está evocando, logo não é simplesmente dançar. A dança para os evangélicos é uma possibilidade de expressão de louvor e adoração ao Sagrado, podendo ser executada de forma espontânea sem técnica específica ou previamente ensaiada e baseada em técnicas tradicionais. A dança é como uma oração, uma linguagem através da qual o ser humano ora , intercede, profetiza, ensina, evangeliza e adora a Divindade. A direção do louvor com danças respeita padrões estabelecidos por cada igreja local, sendo realizada assim com apoio da liderança e em seguida da congregação. A dança no culto é ainda uma manifestação do ser humano para sua Divindade, de criatura para o criador. O simbolismo da dança é expresso não somente nos movimentos, mas nas cores das roupas, formas coreográficas e objetos significativos (TORRES, 2009, 107). “Eu entendo que quando eu levanto minhas mãos, quando eu uso lenços, quando eu me prostro, eu estou dizendo a Ele, e Ele conhece o meu coração.” (Entrevistada4). Sobre a importância da Dança Adoração, a Entrevistada1 colocou: “Creio que é uma profecia bíblica, que a Bíblia fala em Jeremias 31:3 que nos últimos dias a virgem se alegraria na dança (...). Então a igreja de modo geral, em todo o planeta, há 20, 30 anos, começou a se expressar a Deus com danças. Então isso pra mim tem esse significado profético.Em segundo lugar, um presente de Deus pra nós, pra que a gente possa se expressar pra ele”. Também a Entrevistada4 coloca que “[a Dança Adoração] é o ar que eu respiro, não consigo me ver, me imaginar, eu não conseguiria ir a um culto sem estar pronta para adorar ao Senhor. Isso pra mim é impossível”. Vemos um então à crença das entrevistadas que na adoração a Deus, expressada através do seu corpo, é capaz de trazer a presença de Espírito de Deus a ponto de ligar 60 esse momento da dança a uma questão intrínseca ao Culto de Louvor a Deus. Tornando este momento num encontro entre o Sagrado, Deus, o Divido, e o profano, o homem, a criação. Quando questionadas sobre o que ela sente no momento da Dança Adoração, como experiências pessoais, a Entrevistada4 respondeu “São momentos de intensa presença de Deus na minha vida”. Sobre o mesmo assunto a Entrevistada1 disse que “Eu consigo sentir que eu estou me conectando com o Senhor. É como se eu conseguisse tocar o coração d’Ele ao deixar ele tocar o meu coração. Então, eu sinto paz, sinto alegria, sinto gozo, sinto plenitude. As vezes Deus permite a gente sentir coisas que pessoas estão sentindo, isso se chama intercessão. As vezes quando eu danço eu sinto uma dor, uma tristeza no meu coração e isso me leva a oração, esse tristeza ela veio para que eu orasse por alguém”. A Entrevistada2 disse “[Sinto] uma liberdade, quando é guiado pelo Espírito. E ao mesmo tempo quando você sente que não é mais você que dirige o seu corpo... é uma questão de ousadia”. A pessoa começa a ministrar com danças normalmente na medida em que se expressa ela relata sentir mais forte a presença de Deus e alguns se sentem tomados pelo Espírito de Deus, porém se encontram conscientes na situação. É fato que muitas manifestações se assemelham ao transe, pois movimentos espontâneos e livres podem surgir de forma bastante diversificada, levando o bailarino a um sentimento de êxtase, porém a manifestação do Espírito Santo não deixa a pessoa fora de si, mas consciente e tendo controle do momento em questão. A pessoa se deixa conduzir, como em uma dança (TORRES, 2009, p. 95). A Dança Adoração na igreja, portanto não é apenas mais uma atração ou, evento realizado no momento da realização da liturgia, mas “ela está ali como forma de culto mesmo, de adoração, de expressão de amor ao Senhor” (ENTREVISTADA3). Já para Entrevistada4 “é absolutamente pessoal. Se você não tem vida com Deus no seu quarto no culto você não vai apresentar nada à igreja (...). A adoração na verdade é um estilo de vida, ela não é um momento. E quando eu danço, eu estou expressando aquilo que eu já vivo. Se eu não viver isso na intimidade eu vou mentir”. Escolher adorar a Deus com danças, portanto, é uma decisão que vai além de praticar os movimentos no momento certo, no lugar adequado e etc. Perpassa por uma consciência pessoal e uma relação de adoração que é estabelecida fora da dança e é exposta e manifesta através dos movimentos. Desta maneira a adoração não está no fato da dança, puro e simplesmente, mas nos motivos que levam a dançar, e do quão íntima 61 uma pessoa está de Deus e se ela busca praticar os princípios bíblicos fora do momento da dança. Segundo as entrevistadas, não há diferenciação entre homem e mulher na Dança Adoração. Há uma diferença nos movimentos “acho que a diferença ela é técnica, porque a técnica masculina é diferente da técnica feminina. A gente tem esse problema aqui no Brasil que não se ensina essa diferença. Aí a gente vê homens dançando iguais suas professoras. Tanto no Balé quanto em outras modalidades existe a diferença. Se o professor não ensina o homem acaba dançando de forma feminina. E a mesma coisa ao contrário. Isso é um problema do Brasil, aí acaba que os homens dançam de maneira feminina e as pessoas entendem isso de forma errada. Mas diferença... diferença, não creio que exista não” (ENTREVISTADA1). 3.2.2 Os tipos de dança A dança foi utilizada como meio de adoração e relacionamento com o Divino desde a antiguidade, como vimos no primeiro capítulo. Logo, verificando a literatura referendada que apresentam diversos tipos de danças (TORRES, 2009; TELES, 2015) indagamos as entrevistadas se existe diferença entre a dança coreográfica e a Dança Adoração. Logo de início a Entrevistada4, ao ser perguntada sobre motivo da dança coreográfica na igreja respondeu que “se ela não alcançar vidas, não tem motivo nenhum. Então, a dança tem alguns pilares. Você pode ensinar, você pode restaurar e outras coisas, e a coreografia pode ser usada assim. Eu creio que tudo começa na adoração. Eu creio que a coreografia é importante. É importante, desde que você tenha conhecimento e saiba o que você está fazendo. Você não pode coreografar algo porque uma música é legal, ou você viu alguma coisa. Você não pode simplesmente copiar de alguém. O Espírito que entregou aquela coreografia pra outro mora em você, então você não precisa do outro, você precisa dEle”. Percebemos aqui que ainda na coreografia é adotado o conceito de que não é apenas a junção de alguns passos, ou simplesmente uma frase coreográfica. É apresentado aqui que é necessário uma relação com o Espírito Santo, ou o Espírito de Deus, para que se estabeleça uma relação de adoração e até construção de uma coreografia que falará d’Ele, a Ele, e por Ele. 62 De maneira sucinta a Entrevistada1 disse que o objetivo da apresentação coreográfica na igreja é “mostrar uma mensagem. Porque existem dois tipos de ministrações: uma que você faz em adoração, nesta o foco não são as pessoas, é Deus. Querendo ou não as pessoas são atingidas, por que se u ligo hoje um vídeo com alguém adorando só com música eu tenho vontade de adorar também. E a mesma coisa com a dança (...). Mas quando é uma coreografia, algo marcado, eu estou fazendo com objetivo de atingir a congregação, de passar uma mensagem. Eu acho que a coreografia é extremamente válida no sentido de ser uma mensagem, pode ser uma mensagem clara, pode ser uma mensagem subjetiva, mas sempre é uma mensagem”. Desta maneira observamos que é considerada a questão da expressão corporal dentro da apresentação coreográfica com o objetivo de transmitir uma mensagem às pessoas que assistem. Para além das questões já apresentadas a Entrevistada3 trouxe que as apresentações coreográficas servem também para “levar alegria! A alegria do Senhor através da coreográfica. Porque a coreografia também expressa alegria ao dançar e expressar vida, e salvação”. Desta maneira observamos que também tem como objetivo despertar sentimentos naqueles que assistem. Quando interrogados sobre a diferença entre apresentação coreográfica e a Dança Adoração a Entrevistada3 respondeu que “a Dança Adoração é uma dança mais espontânea que o Senhor te dirige a fazer. Já a Coreografia há uma marcação, há uma posição, há um sincronismo”. Para a Entrevistada2 as diferenciações estão relacionadas “a motivação, ao intuito. Eu preciso saber o que eu estou fazendo. Vamos tratar da igreja: eu já assisti coreografias que são somente um monte de passos e não trouxe nenhuma mensagem. Então vai muito do coreógrafo, do que ele quer passar com aquilo, com aquela música”. Já para a Entrevistada4 “todos os momentos podem ser um momento de adoração, mas são objetivos diferentes. A Dança Adoração ela pode, e até deve, ser espontânea. Eu gosto da ideia da extravagância e da espontaneidade da Dança Adoração. E isso não impede que se faça diante de Deus uma adoração coreografada. E isso acontece. Às vezes deus te da uma música e diz ‘Eu quero assim, assim, assim’ (...). Então elas são diferentes,mas elas podem se fundir. Então, eu posso trabalhar adoração Espontânea e extravagante e, inclusive, eu preciso ter esse conhecimento, esse entendimento”. Sobre 63 esse assunto Torres (2009, p. 47) apresenta que: “a intenção do bailarino ao dançar é que vai indicar se a dança é estritamente de apresentação ou se é direcionada ao sagrado”. Podemos assim perceber deve-se, acima de tudo, haver uma consciência e intencionalidade do dançarino, seja em qual for o tipo de dança a ser realizada, porém todas estão relacionadas com anunciar e fazer com que a presença de Deus seja manifestada, seja em nível individual e pessoal, seja em nível de congregação, do grupo presente. A Entrevista2 ao ser interrogada sobre os tipos de dança dentro da igreja colocou: “a gente crê nos cinco ministérios, mestre, pastor, profético etc. então a gente crê que a dança também pode ter essas variações, tem danças voltadas para o profético, tem dança mais voltada pra adoração”. A Entrevistada3 apresentou que a “Dança Adoração é mais pessoal e espontânea, a apresentação coreográfica é mais marcada, geralmente na igreja, a dança evangelística é em massa, você vai pra rua, as vezes não tem um palco preparado pra isso, as vezes precisa de um improviso e a direção é proclamar. Então as ações são diferentes, as danças são diferentes, e a um preparo espiritual também diferente pra isso”. Para a Entrevistada4 existem tipos de danças diferentes que seguem alguns princípios, apresentado por ela como Pilares: “adoração evangelismo, ensino, restauração. São quatro Pilares, só que eu começo na adoração e adoração gera os outros e ainda acredito em outro ‘Arma de Guerra’. E ainda acredito na ligação destes cinco Pilares com os cinco ministério de Efésios 4, apóstolo, evangelista, mestre, pastor e profeta”. Vemos nestas falas que existem diferentes tipos de danças que são confirmadas a partir dos princípios bíblicos e caracterizados pela intenção, momento, e movimentos que se realizam. Como é explicitado no tópico Dança na igreja hoje, no capítulo anterior. 3.2.3 Dança na Igreja Cristã Protestante na Contemporaneidade Com o intuito de compreendermos a visão da dança na Igreja Evangélica Contemporânea trouxemos as entrevistadas a perguntas sobre como se estabelecem as 64 relações da dança na igreja atualmente, de maneira a primeiramente apresentar as falas das entrevistadas para percebermos o quadro que se encontra essa realidade. Para a Entrevistada1 há um problema na questão da maturidade e identidade do real motivo da dança na igreja: “Eu ainda enxergo a dança na igreja como uma adolescente, que ainda está precisando achar o seu caminho (...). Assim, todo mundo descobriu que podia dançar aí, a gente se esbaldou! A criança. Só que essa criança precisa amadurecer. Então, eu acho que agora a gente está nessa fase de adolescente... Sabe como um cantor novo começa a carreira imitando os outros até ele achar a identidade dele? Então, eu acho que a dança na igreja está nessa fase. Os grupos copiaram os outros porque viu os outros fazerem. Experimentaram. Provaram. Maravilhoso! Mas, ainda falta maturidade em muita coisa. Ainda existe muita imaturidade. Por isso algumas igrejas ainda fecham o coração. Que tipo de maturidade? Pra mim a dança tem que ser feita como sacerdócio. Se ela é sacerdócio7, pessoas maduras é que a executam. Como dançar é muito bom, pessoas que não tinham essa maturidade começaram a dançar na igreja. Só que em volta de cada sacerdote existe algo que a gente chama de um ambiente espiritual, se a pessoa não está preparada ela sofre ataques do inimigo. E talvez ela não caia na fé que ela tem, mas caia no propósito da dança. Por exemplo: se antes ela estava indo para adorar, ela corre o risco de ir pra aparecer, pra ser aceito, ela corre o risco de querer estar ali pra se satisfazer somente e não pra servir. E todo sacerdote ele está ali para servir o outro, não para ser servido. Então eu vejo a dança neste momento de adolescência. Em alguns lugares a adolescente está mais maduro, em outro está bem imatura ainda. E isso só me preocupa no sentido de que a liderança que está ali cobrindo tudo conseguir manter o trabalho mesmo com a imaturidade dos grupos”. Já a Entrevistada2 Colocou que “houve um tempo que todas as igrejas começaram a abrir pra isso [dança na igreja]. Só que agora, por onde a gente tem passado estamos vendo que Deus tem levantado novamente. Porque muitos líderes começaram a usar disso pra se promoverem. Começaram a tirar o Senhor do foco, a querer se engrandecer e quebrar alguns princípios que tem que haver dentro da equipe”. 7 Relativo ao Sacerdote: aquele que recebeu as ordens sacerdotais e que ministra os sacramentos da Igreja; 65 A Entrevistada3 Colocou “penso que hoje a essência não é a mesma, como era antigamente. Tem se perdido um pouco no meio do caminho. Isso é preocupante! Porque a juventude tem se perdido! Aquela essência, aquele amor, aquela entrega Tem ficado pra trás”. Já a Entrevistada4 respondeu que “tem dois lados. O primeiro é que eu vejo um povo de intensa sede por Deus querendo verdadeiramente conhecer o Senhor da Dança. Mas eu vejo também em outros lugares que as pessoas têm perdido o foco e tem adorado mais a dança do que o Senhor da Dança. Então eu não consigo acreditar nem concordar com festivais de dança onde se percebe intensa competição apesar de dizer que não é competitivo. Então eu me preocupo muito com segundo que eu falei e me alegro no primeiro que eu tenho vivido e também tenho percebido (...). E também tem lugares que eu chego para ministrar, em que as pessoas dançam porque foram bailarinos no mundo e estão ali sobre a equipe. Deus não procura bailarinos ele procura adoradores. Se você é um bailarino ‘gloria a Deus’ por isso! Mas eu tenho muita preocupação com isso. Eu acho que os pastores tem que entender o que é a dança. Os pastores têm que estar totalmente ligados e orientando o trabalho e eles têm que serem orientados por Deus mesmo, para buscar quem é que vai cuidar da equipe de dança. Porque se ele tiver uma visão de bailarino, eu prefiro que não tenha equipe. Tem muitas pessoas hoje que tem resistência a dança porque tiveram péssimas experiências, porque chamaram bailarinos, ou pessoas olharam outras equipes e começaram a quererem que acontecessem na igreja deles, mas não tinha nem o chamado nem o entendimento. E isso deu coisas terríveis. Então tem pastores hoje que não aceitam a dança porque abriram e as pessoas não souberam trabalhar, e houve pecado que é outra coisa que se não houver uma santidade extrema vai trazer pecado na igreja. Então eu tenho realmente um preocupação’. Podemos observar um consenso entre as entrevistada no que tange o cenário da Dança no meio cristão protestante contemporâneo. Segundo os relatos tem se visto muita dança em várias igrejas evangélicas, mas que muitas vezes fogem do propósito primeiro da dança, que é a adoração. 66 Vemos que não se trata de uma questão de capacitação técnica, mas de uma postura do indivíduo a preparação espiritual e ministerial para o trabalho com a dança na igreja. Buscar realizar e praticar a dança na igreja sem considerar a maturidade espiritual, ou o envolvimento e intimidade que a pessoa já tem e estabelece diariamente com Deus, não se caracteriza com uma Dança Adoração que é oferecida ao Sagrado. E o cenário que se encontra a dança na igreja protestante hoje tem colocado em cheque as relações mantém a dança como prática individual de relacionamento com Deus. Não por uma questão de que a dança não sejacapaz de fazê-lo, mas pelos fatores que transcendem essa relação e estão sendo desprezados no momento da prática da Dança Adoração. 67 CONSIDERAÇÕES FINAIS No decorrer deste trabalho pudemos perceber que o Cristianismo Contemporâneo é resultado do desenvolvimento e reformas doutrinárias e litúrgicas que ocorreram do decorrer dos tempos com as reformas e Concílios que ocorreram, e até com a percepção e envolvimento dos fiéis na leitura das Escrituras Sagradas. O que influenciou diretamente no entendimento de corpo dentro de cada época. Como consequência então, isso resultou em diversas interpretações, inclusive a consideração da Dança como mais um lugar de adoração e manifestação divina ao fiel. Por outro lado, verificamos que a Dança sempre esteve presente na realidade judaico-cristã e que foi deixada de lado com o passar dos anos, devido a diversos entendimentos sobre o lugar (ou o não lugar) dessa manifestação na liturgia do culto. Sabemos que hoje a dança cristã pode ser caracterizada segundo sua objetivação e características específicas dos movimentos. A partir dos relatos, compreendemos que a dança pode ser vista como uma forma de adoração a Deus e que no momento em que ela se realiza há uma forte presença do Espírito de Deus. Desta forma percebe-se que a dança não é somente um momento litúrgico pontual, mas um reflexo de uma vida voltada diariamente para os princípios bíblicos de santidade e purificação. Compreendemos que as pessoas se utilizam do seu corpo para manifestar sua adoração a Deus e concomitantemente a Divindade se revela na pratica de sua dança no momento em que ela se realiza. Neste sentido, observamos que existem diferentes tipos de dança como, a Apresentação Coreográfica, a Dança Adoração, a Dança evangelística e etc. e que a principal diferença entre elas está na intenção e motivação pelo qual ela está sendo realizada. Que ela pode ser usada para atrair pessoas, chamar atenção e ao mesmo tempo passar uma mensagem cristã, como acontece na Dança Evangelística. Que pode ser utilizada para passar uma mensagem para a congregação como a Apresentação Coreográfica, mas que todas elas se baseiam num princípio de adoração e relacionamento estabelecido cotidianamente com Deus. 68 Por fim, observa-se que o cenário que a Dança se encontra dentro no Protestantismo Contemporâneo é, segundo os entrevistados, “preocupante”, pois, apesar de ser uma prática legitimadamente conhecida como mais uma forma de adoração a Deus existe nesse meio a realização dessa adoração sem o conhecimento e entendimento necessário para que ela se realize. Não basta dançar puro e simplesmente, pois a Dança Adoração e a dança na perspectiva de adoração e relação com o sagrado não está submetido ao ato de dançar, mas na adoração pessoal e intrínseca que o fiel já pratica que é exposta a Deus em forma de Dança. 69 REFERÊNCIAS ARASSE, Daniel. A carne, a graça, o sublime. In: Histórias do corpo. Dir.: Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Geoges Vigarello. Tradução: Lúcia M. E. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2008 BÍBLIA Sagrada: nova versão internacional - São Paulo, SP: Editora Vida, 2007. BONETTI, M. C. Contra – Dança: Ritual e festa de um povo. 2004. 194 f. (Dissertação – Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Católica de Goiás, Goiás, 2004. BONETTI, M. C. O Sagrado feminino e a serpente: performance mítica na simbologia das danças circulares Sagradas. 2013. 381 f. (Tese – Doutorado em Ciências da Religião). Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiás, 2013. CARVALHO, Keila Márcia F. de Macêdo. 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Triom, 2000. 72 ANEXOS ENTREVISTA DESTINADAAOS DANÇARINOS • Por favor, diga seu nome, idade e a qual igreja você pertence. 01) Fale um pouco sobre o tempo que você dança e os caminhos que você já percorreu (apresentações, viagens, espetáculos, grupos, etc.). 02) Quanto tempo você dança? 03) O que te levou a dançar na igreja? 04) Hoje, por que você dança na igreja? 05) Para você, a Dança pode ser uma forma de adoração a Deus? 06) O que é Dança Adoração (Adoração com Dança)? 07) Os pastores da igreja reconhecem o motivo da realização da Dança Adoração? 08) Qual a intenção da apresentação coreográfica na igreja? 09) Há diferença entre Dança Adoração (Adoração com Dança) e a apresentação coreográfica? Se sim, quais? 10) Como são orientados a Dança Adoração (Ensaiada antes, espontâneo, seguindo alguém, marcada...)? 11) Qual é a importância da Dança Adoração para você? 12) Qual é sua sensação ao realizar os movimentos na Dança Adoração? O que você sente? 13) Como você enxerga a Dança Adoração na Igreja Cristã Protestante hoje? 14) Há necessidade de ter sempre um líder na dança, ou no grupo? Por que? 15) A Dança Adoração está sempre relacionada ao Culto e à Igreja, ou a questão individual/pessoal? Por quê? 16) Na Dança Adoração existe diferenciação entre homem e mulher? 17) Para você, existe diferenciação entre a Dança Adoração, Apresentação Coreográfica, dança evangelística? Se sim quais? Existem outros tipos de dança? 18) Com o Pentecostalismo e o Neo-pentecostalismo você vê um crescimento da dança dentro da igreja? Isso é bom? 19) Qual é a importância da apresentação da dança (Coreografia) para as pessoas que assistem? 73 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Prezado (a) participante: _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ Sou estudante do curso de graduação de Educação Física da ESEFFEGO da Universidade Estadual de Goiás. Estou realizando uma pesquisa sob a supervisão da professora Drª. Maria Cristina de Freitas Bonetti, cujo objetivo é escrever meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com o Título: CAMINHOS DA ADORAÇÃO: UMA ANÁLISE FENOMENOLÓGICA NA RELAÇÃO DA DANÇA COM DEUS NO CRISTIANISMO PROTESTANTE NA CONTEMPORANEIDADE. Sua participação envolve uma entrevista, que será gravada se assim você permitir, e que tem a duração aproximada de 15 minutos. A participação nesse estudo é voluntária e se você decidir não participar ou quiser desistir de continuar em qualquer momento, tem absoluta liberdade de fazê-lo. Sua identidade será revelada somente através de fotos imagens sua, se assim for permitido. Mesmo não tendo benefícios diretos em participar, indiretamente você estará contribuindo para a compreensão do fenômeno estudado e para a produção de conhecimento científico. Quaisquer dúvidas relativas à pesquisa poderão ser esclarecidas pelo pesquisador: Déryk Araújo (62) 9 8516-1658, pela Orientadora Prof. Drª M. Cristina F. Bonetti (62) 9 8168-0052, ou pela entidade responsável: Escola Superior de Educação Física de Goiás-UEG – (62) 3522-3502. Atenciosamente _____________________________________________________________ Déryk Araújo Faria – Acadêmico Matrícula: 12013000459 Eu permito a veiculação de fotos e imagens minhas no trabalho científico? ( ) Sim ( ) Não Consinto em participar deste estudo e declaro ter recebido uma cópia deste termo de consentimento. ___________________________________________________________ Nome e assinatura do participante Goiânia, de de 2016. 74 APÊNDICES Figura 6 Dança Adoração. Arquivo pessoal da Entrevistada1 Figura 7Dança Evangelística. Arquivo pessoal da Entrevistada1 75 Figura 8 Dança Adoração. Arquivo pessoal da Entrevistada1. Figura 9 Dança Evangelística. Arquivo pessoal da Entrevistada3 76 Figura 10 Dança Adoração. Arquivo pessoal da Entrevistada4. Figura 11 Dança Adoração. Arquivo pessoal da Entrevistada4.