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Chagas – DEE/UFCG 1 Universidade Federal de Campina Grande Centro de Engenharia Elétrica e Informática Departamento de Engenharia Elétrica Distúrbios de Tensão em Redes Elétricas Notas de Aula Francisco das Chagas Fernandes Guerra Campina Grande - PB Chagas – DEE/UFCG 2 Capítulo I Sobretensões em Redes Elétricas Define-se sobretensão como toda tensão que excede o valor da tensão nominal em um sistema elétrico. Dependendo de sua amplitude e forma de onda, elas podem produzir severas solicitações nos isolamentos, acarretando em danos a equipamentos e interrupções no fornecimento de energia. Durante o projeto de redes elétricas, devem-se avaliar as diversas formas de solicitações a que os isolamentos poderão estar submetidos, de modo a permitir o estabelecimento de especificações corretas dos equipamentos. 1. Classificação e Causas das Sobretensões As sobretensões são classificadas, basicamente, em três tipos: ▪ sobretensões atmosféricas; ▪ sobretensões de manobra; ▪ sobretensões sustentadas ou temporárias. As sobretensões atmosféricas são causadas por raios que incidem diretamente sobre linhas de transmissão ou subestações, ou em regiões próximas à rede elétrica. Possuem caráter impulsivo, com valores de pico máximos de 6 pu. e duração de alguns microsegundos a até 1 milisegundo. As sobretensões de manobra originam-se de operações de chaveamento, as quais promovem mudanças na configuração do sistema, como a energização ou desenergização em carga de elementos indutivos e/ou capacitivos (linhas de transmissão, transformadores, bancos de capacitores e de reatores, etc.). Essas operações acarretam em transferências abruptas de energia entre campos elétricos e magnéticos, resultando em sobretensões de caráter oscilatório, com altas frequências, forte amortecimento e duração de vários milisegundos a até vários ciclos. Normalmente, apresentam valores de pico máximos em torno de 4 pu. As sobretensões sustentadas ou temporárias são causadas principalmente pelas seguintes ocorrências: ▪ curtos-circuitos fase-terra em sistemas trifásicos com neutro isolado ou aterrado através de impedância; Chagas – DEE/UFCG 3 ▪ abertura de terminal receptor de linha de transmissão que apresentam considerável valor de capacitância distribuída em derivação, como em linhas de transmissão aéreas longas ou em linhas de cabo isolado (efeito Ferranti); ▪ fenômenos não lineares de ferroressonância, causados pela interação de capacitâncias distribuídas do sistema e indutâncias de magnetização de transformadores de potência ou de potencial; ▪ fenômenos não lineares de correntes de inrush que ocorrem durante energização de transformadores localizados em subestações de corrente contínua, os quais produzem ressonância em frequências múltiplas da fundamental, envolvendo a indutância de magnetização do transformador e as capacitâncias dos filtros de supressão de harmônicos; ▪ fenômenos de ressonância linear; ▪ perda súbita de carga em geradores (rejeição de carga). As sobretensões sustentadas apresentam fraco amortecimento, duração de vários ciclos, vários segundos ou mais e valores de pico máximos de 1,5 pu. Ocorrem à frequência industrial, harmônica, sub-harmônica ou interarmônica. A Fig. 1.1 mostra características das três categorias de sobretensão citadas. Fig. 1.1. Representação dos diferentes tipos de sobretensão (D’AJUZ et al., 1987). É importante observar que as intensidades das sobretensões atmosféricas são determinadas por elementos externos ao sistema elétrico, o que não ocorre com os demais tipos de sobretensão. Chagas – DEE/UFCG 4 2. Caracterização das Sobretensões Segundo a ABNT Na Fig. 1.1 são apresentados detalhes sobre as classes e formas das solicitações de tensão, definidas pela norma ABNT - NBR 6939 (2000) - Coordenação do Isolamento – Procedimento. Chagas – DEE/UFCG 5 Sobretensões de Frente Lenta São sobretensões transitórias, usualmente unidirecionais, com tempo até a crista tal que 20 µs < T1 ≤ 5000 µs, e tempo até o meio valor (na cauda) T2 ≤ 20 ms. Podem se originar de faltas, operações de chaveamento ou descargas atmosféricas diretas nos condutores de linhas aéreas. Sobretensões de Frente Rápida Sobretensão transitórias, usualmente unidirecionais, com tempo até a crista tal que 0,1 µs < T1 ≤ 20 µs, e tempo até o meio valor (na cauda) T2 ≤ 300 µs. Podem ser causadas por operações de chaveamento, descargas atmosféricas ou faltas. Sobretensões de Frente Muito Rápida Sobretensão transitórias, usualmente unidirecionais, com tempo até a crista tal que T1 ≤ 0,1 µs, duração total Tt ≤ 3 ms, e com oscilações superimpostas de frequências 30 kHz < f < 100 MHz. Podem ser causadas por faltas ou operações de chaveamento em subestações isoladas a gás (GIS). Há também as sobretensões combinadas (temporária, frente lenta, frente rápida e frente muito rápida), as quais consistem em duas componentes de tensão simultaneamente aplicadas entre cada um dos terminais de fase de uma isolação fase-fase (ou longitudinal) e a terra. É classificada pela componente de maior valor de crista. Chagas – DEE/UFCG 6 Capítulo II Sobretensões Atmosféricas 1. Introdução Este capítulo trata das sobretensões atmosféricas, classificadas como de origem externa, pois são causadas por raios que incidem diretamente sobre edifícios, linhas de transmissão ou subestações. A descarga também pode agir de forma indireta. Neste caso, a interação entre o meio externo e o sistema atingido se dá por indução eletrostática. Assim, há propagação de ondas de tensão em direções opostas, a uma velocidade próxima à da luz, produzindo solicita- ções nos isolamentos da linha e em equipamentos instalados nos terminais. Devido à extensão física e ao nível de exposição, as linhas de transmissão aéreas são os elementos mais atingidos. 2. Causas e Consequências Diferentes teorias explicam o carregamento das nuvens. O consenso é que em cerca de 90% dos casos há grande concentração de cargas negativas na parte inferior da nuvem, induzindo cargas positivas na terra, como é ilustrado na Fig. 2.1. A rigidez dielétrica do ar seco é de 30 kV/cm, reduzindo-se com a umidade. Assim, há uma descarga piloto em degraus de 15 a 50 m, cada um. Os degraus são retos, tomando nova direção a cada avanço. Como é mostrado na Fig. 2.2, quando a descarga piloto atinge a terra, há a descarga de retorno, com grande movimentação de cargas através do canal ionizado, brilho intenso e estrondo. Também pode haver descarga de retorno antes da descarga piloto alcançar a terra. Fig. 2.1. Mecanismo de ocorrência das descargas atmosféricas. Chagas – DEE/UFCG 7 Fig. 2.2. Flagrante de ocorrência de uma descarga atmosférica. Normalmente, essas descargas se repetem. Cerca de 80% dos raios apresentam no mínimo 2 descargas e 20% apresentam 3 a 5. Há registro de até 40 descargas. Felizmente, maior parte das descargas ocorre dentro da nuvem. Em consequência dos raios, verifica-se injeção de correntes de descarga de até 200 kA, com tempos de crescimento de 1 µs a 10 µs, e surgimento de ondas de tensão relacionadas ao surto de corrente através da impedância característica do sistema. O caráter das ondas é impulsivo (não oscilatório) e os valores de pico máximos são de 6 pu, com polaridade negativa em 90% dos casos. Elas se propagam para os dois terminais da linha com velocidade próxima à da luz, com reflexões e refrações nos pontos onde há mudança na impedância característica.Em caso de surto atmosférico, se o nível de suportabilidade de tensão da linha for excedido, há a formação de arco através do ar ou de uma cadeia de isoladores, o que normalmente não produz dano ao sistema por causa da atuação dos relés de proteção e da abertura do disjuntor. Neste caso, o isolamento é autoregenerativo, podendo o religamento ser feito alguns ciclos após, de forma automática e rápida. Nos transformadores, máquinas elétricas e outros equipamentos, a ruptura do isolamento é um dano permanente, pois não há regeneração. 3. Mapa Ceráunico O termo índice ceráunico refere-se ao número de dias de trovoada de um determinado lugar por ano. Curvas isocerúnicas são linhas que ligam pontos (localidades) que têm o mesmo nível ceráunico. O conjunto de curvas isoceráunicas de cada região geográfica denomina-se mapa ceráunico. Abaixo, na Fig. 2.3 e na Fig. 2.4, os mapas ceráunicos do Brasil e mundo. Chagas – DEE/UFCG 8 Fig. 2.3. Mapa ceráunico do Brasil. Fig. 2.4. Mapa ceráunico do mundo. Chagas – DEE/UFCG 9 4. Atenuação das Sobretensões Atmosféricas 4.1. Considerações Gerais A atenuação das sobretensões atmosféricas é feita por sistemas de aterramento associados aos seguintes elementos: ▪ hastes captoras ou para-raios tipo Franklin (prédios); ▪ gaiola de Faraday (prédios, galpões); ▪ cabos-guarda ou cabos para-raios (linhas de transmissão); ▪ descarregadores de surtos ou para-raios (linhas de transmissão, subestações). Tanto a gaiola de Faraday como as hastes captoras recebem a designação de SPDA (Sistemas de Proteção contra Descargas Atmosféricas). 4.2. Sistemas de Aterramento Consistem em eletrodos enterrados no solo, os quais facilitam o escoamento do surto, atenuando o impacto da descarga. São compostos por ▪ hastes verticais (casas, prédios); ▪ hastes verticais interligadas por condutores em malha (prédios, usinas, subestações); ▪ cabos contrapeso (linhas de transmissão). Os cabos contrapeso são cabos de aço galvanizado, enterrados horizontalmente a certa profundidade do solo, próximo a linhas de transmissão, como é mostrado na Fig. 2.5. Fig. 2.5. Vista superior de cabos contrapeso - (a) arranjo paralelo; (b) arranjo radial. A descrição, caracterização e especificações detalhadas dos sistemas de aterramento constituem matéria extensa. Além disso, modelagem matemática apresenta considerável grau de complexidade. Uma boa referência é o livro Aterramento Elétrico (KINDERMANN & AMPAGNOLO, 1995). Chagas – DEE/UFCG 10 4.3. Hastes Captoras Esse tipo de proteção é mostrado na Fig. 2.6. O princípio de operação das hastes captoras é baseado no poder das pontas. Por interação eletrostática entre a nuvem e o captor (conjunto de pontas metálicas) existente na extremidade superior de uma haste instalada no alto do prédio, há concentração de cargas no captor, de modo a ocasionar uma descarga elétrica que é escoada para a terra mediante um cabo de descida e uma haste de aterramento ou malha. Fig. 2.6. Configuração usual de um sistema de proteção de edifícios baseado em haste captora. O cabo de descida é geralmente de cobre (seção ≥ 35 mm2) com o mínimo de curvas com raio de curvatura mínimo de 20 cm, sem emendas, exceto para o conector próximo ao solo. A regulamentação do uso das hastes captoras é feita pela norma ABNT - NBR 5419 (2001) - Proteção de Estruturas contra Descargas Atmosféricas. 4.4. Gaiola de Faraday Esse sistema consiste em uma malha de condutores envolvendo a edificação, ligada a hastes de aterramento, como é mostrado na Fig. 2.7 (o campo elétrico no interior de uma gaiola Chagas – DEE/UFCG 11 condutora é nulo). Apresenta custo relativamente elevado. Regulamentação também é feita pela norma ABNT NBR 5419 (2001) - Proteção de Estruturas contra Descargas Atmosféricas. Fig. 2.7. Configuração usual de um sistema de proteção baseado na gaiola de Faraday. 4.5. Cabos-guarda Cabos-guarda são condutores de aço instalados acima dos condutores de fase das linhas de transmissão, os quais proporcionam uma blindagem contra a queda de raios. Na Fig. 2.8 são mostradas duas linhas de transmissão, uma com um cabo guarda (linhas de 69 kV, usualmente) e com dois cabos-guarda (linhas de tensões nominais superiores). O desempenho desse sistema é descrito pelo modelo eletrogeométrico descrito na Fig. 2.9. Este modelo é baseado no conceito de raio de atração, o qual corresponde à maior distância rs abaixo da qual, considerando uma descarga piloto com corrente I, esta atingirá diretamente os cabos para-raios, os condutores de fase ou o solo. Assim, se uma descarga atmosférica penetrar na região BC, ela incidirá sobre o condutor de fase. Para cada valor de corrente de descarga, novas regiões são definidas. A relação entre rs e I é a seguinte: 65,09 Irs (2.1) I - Corrente do raio (kA). rs - Raio de atração (m). Se uma descarga atinge diretamente uma das fases da linha, há injeção de uma onda de corrente de amplitude I no condutor, de modo que essa onda se divide em duas, de amplitudes I / 2, as quais se propagam em sentidos opostos a uma velocidade próxima à da luz. A essas ondas de corrente estão associadas ondas de tensão proporcionais, as quais são dadas por: Chagas – DEE/UFCG 12 2 I ZU c (2.2) onde Zc é a impedância característica da linha. Fig. 2.8. Linha de transmissão com (a) um cabo guarda e (b) dois cabos-guarda. Fig. 2.9. Modelo eletrogeométrico. Chagas – DEE/UFCG 13 Supondo uma corrente de descarga de 30 kA incidindo sobre um condutor de uma linha com impedância de surto de 400 , tem-se diferenças de potencial fase-terra de 6000 kV. Tais tensões ultrapassam os limites de suportabilidade dos isolamentos das linhas, ocasionando curtos circuitos por formação de descargas através de isoladores ou mesmo a destruição de isolamentos não regenerativos em equipamentos terminais (ARAÚJO & NEVES, 2005). Atualmente têm sido utilizados os cabos OPGW (Optical Ground Wire), mostrados na Fig. 2.10, os quais são cabos para-raios que apresentam estrutura composta por camadas de fios de aço e tubo de alumínio no interior do qual há uma ou mais fibras óticas. As partes metálicas funcionam como blindagem dos condutores de fase contra as descargas atmosféricas. A parte ótica é usada para transmissão de sinais de voz, teleproteção, telemedição e telecomando. Fig. 2.10. Cabos OPGW (Optical Ground Wire). 4.6. Descarregadores de Surtos São dispositivos ligados em paralelo ao equipamento protegido, entre fase e terra, como é mostrado na Fig. 2.11. É desejável que eles apresentam as seguintes características: ▪ apresentar impedância muito alta durante as condições normais de serviço, com correntes de fuga praticamente nulas; ▪ apresentar baixa impedância durante a ocorrência de surtos de tensão, limitando as sobretensões a valores admissíveis; ▪ dissipar a energia associada ao surto de tensão sem sofrer dano; ▪ retornar às condições de circuito aberto após a passagem do surto, interrompendo a corrente subsequente de 60 Hz na sua primeira passagem por zero. Chagas – DEE/UFCG 14 ▪ nunca atuar em caso de sobretensão sustentada (longa duração), pois suas propriedades térmicas não permitem um regime de condução em longa duração. Fig. 2.11. Cabos OPGW (Optical Ground Wire). Os principais tipos de descarregadores de surtosão os seguintes: ▪ para-raios tipo haste; ▪ para-raios de carboneto de silício (SiC); ▪ para-raios de óxido de zinco (ZnO). Para-raios Tipo Haste Como é indicado na Fig. 2,12, apresentam um gap formado por duas hastes entre fase e terra, com distância definida e com valor de tensão de disrupção inferior ao valor mínimo capaz de causar dano ao sistema. Fig. 2.12. Para-raios tipo haste. Chagas – DEE/UFCG 15 Esses dispositivos são simples e baratos, mas têm os seguintes inconvenientes: ▪ Ao atuarem, forma-se um arco que se mantém enquanto o sistema fornecer corrente, o qual só se extingue quando o fusível ou o disjuntor abre, havendo interrupção de serviço. ▪ Fatores ambientais como poluição, umidade causam variações na tensão de disrupção. ▪ Em cada disrupção o arco causa erosão e aumento do gap; assim, ocorre aumento da tensão de disrupção. Para-raios de Carboneto de Silício (SiC) Como mostram a Fig. 2.13 e a Fig. 2.14, são compostos por um resistor não linear (varistor) em série com vários gaps de material isolante com determinada tensão de ignição (múltiplos gaps facilitam a extinção da corrente). Tais elementos são colocados em invólucro de porcelana bem vedado e contendo gás inerte. O funcionamento dos mesmos é descrito a seguir. ▪ Em condição normal, o sistema é isolado da terra pelo gap. A resistência é elevada. ▪ Ocorrendo a sobretensão, há ignição e o contato se estabelece através do resistor, descarregando o surto para a terra (resistência baixa). ▪ Quando a sobretensão cessa, a resistência volta a ser elevada, passando a circular apenas uma corrente subsequente de 60 Hz (≤ 250 A), interrompida na primeira passagem por zero, sem reacendimento do arco. Assim, a normalidade é restabelecida. Fig. 2.13. Para-raios de Carboneto de Silício (SiC). Chagas – DEE/UFCG 16 Fig. 2.14. Para-raios de carboneto de silício (SiC). Esses para-raios são aplicados principalmente em sistemas distribuição e de subtransmissão. Na Fig. 2.15 são mostradas as variações da tensão e da corrente durante a operação de um para-raios de SiC. Fig. 2.15. Variações da tensão e da corrente durante a operação de um para-raios de SiC. uS - Sobretensão sem descarregador. uI - Tensão residual. uR - Tensão da rede. iD - Corrente de descarga do para-raios. iS - Corrente subsequente. tD - Instante da descarga. tR - Instante de restabelecimento do isolamento para a terra. Chagas – DEE/UFCG 17 Para-raios de Óxido de Zinco (ZnO) Desenvolvidos mais recentemente (Matsushita Electrical Co., Japão, 1977). Não possuem gaps, como é mostrado na Fig. 2.16 (tipo usado em média tensão). São compostos por elemento cerâmico (pastilhas de óxido de zinco com adição de pequenas porções de outros óxidos metálicos). Usados em sistemas de baixa até extra-alta tensão. Fig. 2.16. Para-raios de óxido de zinco (ZnO). As propriedades dos para-raios de ZnO são as seguintes: ▪ Simplicidade de construção, o que aumenta a confiabilidade. ▪ Nível de proteção bem definido (redução da margem de segurança para o isolamento). ▪ Valores de corrente subsequente em 60 Hz desprezíveis. ▪ Maior capacidade de absorção de energia e dissipação de calor. ▪ Em condições normais, apresenta resistência extremamente alta, com correntes de fuga da ordem de A e perdas de poucos watts. Na Fig. 2.17 são mostradas as variações da tensão e da corrente durante a operação de um para-raios de ZnO. Na Fig. 2.18 é mostrada a comparação entre os para-raios de ZnO e de SiC. Pode-se observar que o nível de proteção do para-raios de ZnO é mais bem definido que o de SiC, ou seja, a transição da zona de não operação para a zona de operação é bem mais nítida, o que acarreta em redução da margem de segurança para o isolamento. Chagas – DEE/UFCG 18 Fig. 2.17. Para-raios de óxido de zinco (ZnO). Fig. 2.18. Comparação entre as características dos para-raios de ZnO e de SiC. São mostrados na Fig. 2.19 e na Fig. 2.20 para-raios usados em sistemas tensões nominais, desde baixa até extra-alta tensão. Fig. 2.19. Para-raios usados em sistemas de baixa tensão. Chagas – DEE/UFCG 19 Fig. 2.20. Para-raios usados em sistemas de diferentes tensões nominais (média a extra alta tensão). Valores de Tensão de Para-Raios Define-se tensão nominal de um para raios como a máxima tensão na frequência industrial em que ainda é possível evitar a condução para a terra da corrente normal do sistema, imediatamente após a condução para a terra de uma corrente causada por um surto de tensão. É importante observar que, na frequência industrial, o para raios pode ser submetido a um valor de tensão superior a sua tensão nominal sem que haja condução para a terra através dele. O valor máximo para que isso ocorra é denominado tensão disruptiva na frequência industrial. Assim, em um tempo prolongado, o máximo valor de tensão na frequência industrial a qual um para raios é submetido não pode exceder a sua tensão nominal; se isso ocorrer, poderá ocorrer queima por ultrapassagem do limite térmico. Define-se tensão de reseal de um para raios como a máxima tensão de surto para a qual o para raios pode interromper a corrente subsequente. Assim, se o para raios conduzir devido a um surto de tensão, além de interromper a corrente de surto, ele também deve ser capaz de interromper a corrente subsequente. A tensão nominal de um para raio deve ser especificada de acordo com a forma de aterramento do neutro; assim, tem-se: Chagas – DEE/UFCG 20 ▪ Sistemas com neutro isolado – São utilizados para raios com tensão nominal igual a 105% da tensão fase-fase, pois a tensão fase-terra pode alcançar a tensão fase-fase. ▪ Sistemas com neutro solidamente aterrado – São utilizados para raios com tensão nominal igual a 84% da tensão fase-fase, pois a tensão fase-terra não atinge 80% da tensão fase-fase. Normas de Especificação de Para-Raios As normas brasileiras que tratam de especificações de para-raios são citadas a seguir. ▪ ABN - NBR 5287 (1988) - Para-raios de resistor não linear a carboneto de silício (SiC) para circuitos de potência de corrente alternada. ▪ ABNT - NBR 5424 (2011) - Guia de aplicação de para-raios de resistor não linear em sistemas de potência — Procedimento. 5. Coordenação de Isolamento 5.1. Coordenação de Isolamento O termo coordenação de isolamento refere-se ao processo de correlação entre as possíveis solicitações causadas por sobretensões nos isolamentos dos componentes de um sistema elétrico e as características dos dispositivos de proteção utilizados (cabos-guarda, descarrega- dores de surto, etc.). Os procedimentos devem ser tomados de modo a preservar ao máximo a integridade do sistema e a continuidade de serviço, observando-se as limitações de custo. Na Fig. 2.21 é indicado que deve haver uma margem de segurança entre a tensão de operação do para-raios e a máxima tensão de impulso suportável pela isolação do elemento protegido. Fig. 2.21. Curvas tensão-tempo do elemento protetor e do elemento protegido. Chagas – DEE/UFCG 21 Deve ser observado que seria economicamente muito dispendioso construir um sistema elétrico que suportasse todas as sobretensões possíveis. Deste modo, a escolha dos isolamentos deve ser realizada de forma que os custos sejam minimizados, assumindo-se determinada probabilidade de desligamento da linha para cada evento transitório, expressa como um risco de falha aceitável. Na Fig. 2.22 é mostrada de forma simplificada a coordenação de isolamento dos componentes em uma subestação de alta tensão. Fig. 2.22. Coordenação de isolamentodos componentes em uma subestação de alta tensão. Assim, fica evidente que o desenvolvimento e a aplicação adequada de para-raios na limitação de sobretensões proporciona projetos mais econômicos de coordenação de isola- mento. Observa-se que a máxima tensão suportável pelo transformador é inferior à máxima tensão de impulso a qual o mesmo pode ser solicitado, de modo que o para raios constitui uma proteção efetiva contra os possíveis danos ocasionados por uma descarga atmosférica. Até 345 kV, o nível de isolação dos elementos do sistema elétrico é determinado pelas sobretensões atmosféricas. Além desse valor, as sobretensões de manobra passam a ser determinantes. 5.2. Ensaios de Impulso A norma ABNT- NBR 6936 (1992) - Técnicas de Ensaios Elétricos de Alta Tensão - estabelece uma onda de tensão padrão para reproduzir em laboratório as tensões impostas pelos raios, a qual é mostrada na Fig. 2.23. Chagas – DEE/UFCG 22 Fig. 2.23. Onda de tensão padrão para ensaio de laboratório em isolamentos. S – Parte crescente, denominada frente. R – Parte decrescente, denominada cauda. M – Ponto de máximo, denominado crista. Up – Tensão máxima, denominada tensão de crista. Tn – Início convencional para contagem dos tempos. Ts’ – Tempo entre os instantes em que a onda alcança 30% e 90% de Up. Ts – Duração convencional da frente de onda, tomada como 1,67 x Ts’. Td – Tempo para a cauda alcançar 50 % de Up, ou tempo de descida. Os tempos Ts e Td são respectivamente iguais a 1,2 s e 50 s. As solicitações sobre os isolamentos aumentam com a amplitude do surto e com a inclinação da frente de onda (du/dt). A norma ABNT NBR 6939 (2000) - Coordenação do Isolamento – Procedimento - fornece valores de tensão suportáveis de impulso atmosférico (crista) para valores RMS de tensão máxima de equipamentos. 5.3. Nível Básico de Isolamento (NBI) NBI ou BIL (do inglês Basic Insulation Level) é o máximo valor de crista da onda padronizada de impulso atmosférico (1,2 x 50 s ) que pode ser suportado sem que haja falha na isolação. A Tabela 2.1 fornece valores de NBI adotados pelo IEEEE. Os valores reduzidos referem-se a sistemas com neutro solidamente aterrado, onde os surtos são mais facilmente dissipados. Chagas – DEE/UFCG 23 Tabela 2.1. Valores de NBI adotados pelo IEEE. TENSÃO NOMINAL DO SISTEMA (kV, RMS) NBI PADRÃO (kV, PICO) NBI REDUZIDO (kV, PICO) 15 110 34,5 200 69 350 138 650 550 230 1050 825-900 345 1550 1175-1300 500 1300-1800 Chagas – DEE/UFCG 24 Capítulo III Sobretensões de Manobra 1. Introdução As sobretensões de manobra ocorrem quando são inseridos ou removidos elementos da rede de energia, de modo a provocar mudanças súbitas no estado elétrico e magnético do circuito. Isso ocasiona transferência de energia armazenada nos campos elétricos e magnéticos associados aos diversos elementos capacitivos e indutivos que compõem a rede (linhas de transmissão, transformadores, bancos de capacitores e de reatores, etc.). A consequência é o surgimento de surtos de tensão em forma de oscilação amortecida de alguns kHz, com duração de vários milisegundos a até vários ciclos e valores de pico máximos de 4 pu. Para tensões superiores a 400 kV, são as sobretensões de manobra que determinam os níveis de isolamento. À medida que cresce a tensão de operação dos sistemas, os surtos de manobra também tendem a aumentar de intensidade. As principais causas que dão origem aos mesmos são: ▪ interrupção de correntes de defeito; ▪ interrupção de correntes capacitivas; ▪ interrupção de pequenas correntes indutivas; ▪ energização ou religamento rápido de linhas de transmissão de tensão nominal elevada; ▪ chaveamento em condições assíncronas. Esses transitórios são usualmente analisados através dos seguintes métodos: ▪ testes de campo; ▪ simulações em TNA (Transient Network Analyser); ▪ simulações em computadores digitais. Nos testes de campo são obtidos oscilogramas de tensão e de corrente relativos ao fenômeno de interesse, apresentando resultados mais confiáveis que os demais métodos. Eles são indispensáveis para a validação dos resultados obtidos pelos demais métodos. O TNA consiste em um modelo reduzido de sistema elétrico de potência no qual elementos de parâmetros concentrados (resistores, capacitores, indutores, etc) são ligados de modo a representar os vários componentes do sistema considerado. Os fatores que determinam a Chagas – DEE/UFCG 25 aplicabilidade do TNA na simulação de transitórios eletromagnéticos dependem essencialmente do número de componentes envolvidos bem como da habilidade do operador. Assim, o uso do TNA sofre limitações quanto ao tamanho do sistema a ser simulado, sendo aplicável aos casos onde não se conhece com exatidão o mecanismo do fenômeno a ser estudado. Deste modo, o TNA é usado para identificar o fenômeno. O computador digital é a ferramenta mais aplicada no cálculo de transitórios em sistemas de potência. O comportamento desses transitórios é descrito através de modelos matemáticos que são resolvidos através de métodos de integração numérica em passos de integração da ordem de microssegundos. Com o desenvolvimento de computadores e de técnicas computacionais cada vez mais eficientes, grandes quantidades de dados passaram a ser processados em tempos cada vez menores. No momento, existem diversos programas destinados ao cálculo de transitórios. Os mais conhecidos são: ATP (uso aberto) bem como MICROTRAN, EMTP-RV, PSCAD/EMTDC e NETOMAC (comerciais). Neste estudo é feita uma análise simplificada das sobretensões de manobra com objetivo de proporcionar entendimento dos fundamentos do fenômeno, sem maior preocupação com a precisão dos resultados obtidos. Na maioria dos casos são considerados circuitos monofásicos equivalentes, sendo as equações diferenciais a eles associadas resolvidas pelo método convencional ou por transformada de Laplace. 2. Sobretensões Causadas por Interrupção de Correntes de Defeito 2.1. Defeito nos Terminais do Disjuntor Na Fig. 3.1 é mostrado um gerador alimentando um sistema elétrico. Em relação à Fig. 3.2, são considerados os seguintes eventos: a. Em t = 0 ocorre um defeito fase-terra no ponto P próximo ao disjuntor e a corrente i assume elevado valor. A tensão u entre os terminais do disjuntor permanece nula até t = t1. b. Em t = t1 o disjuntor atua. Há a formação de um arco de temperatura da ordem de alguns milhares de graus Celsius, assegurando a continuidade de corrente até t = t2. Entre t1 e t2, u é igual à queda de tensão no arco, o qual possui característica puramente resistiva; assim, u e a corrente i se acham em fase. c. Em t = t2, quando a corrente passa por zero, o arco se extingue. A partir desse instante surge uma tensão transitória amortecida de alta frequência entre os contatos do disjuntor, a qual impõe severa solicitação ao meio extintor. Essa tensão é denominada tensão de Chagas – DEE/UFCG 26 restabelecimento transitória (TRT). Caso o meio extintor não se recomponha rapidamente e a TRT apresente uma taxa de crescimento elevada, poderá haver reignição do arco (não considerada neste caso). d. Em t = t3, devido às perdas resistivas, cessa a oscilação de alta frequência e o processo de interrupção da corrente é bem sucedido. Fig. 3.1. Defeito fase-terra próximo aos terminais do disjuntor. Fig. 3.2. Interrupção de uma corrente no caso de falta em ponto próximo aos terminais de um disjuntor. Assim, verificam-se duas etapas nesse processo: a etapa térmica e a etapa dielétrica, descritas a seguir. Etapa Térmica Entre t1 e t2 oscontatos do disjuntor se afastam, o arco se alonga e a tensão u aumenta. Contudo, u é sempre desprezível em relação ao valor nominal da tensão nominal da rede, exceto nos sistemas de baixa tensão. Nesse intervalo, os mecanismos de extinção do arco procuram retirar o calor gerado pelo arco através de vários meios, dependendo do tipo de Chagas – DEE/UFCG 27 disjuntor (alongamento e/ou divisão do arco, sopro magnético, sopro de ar, etc). Assim, a condutividade do arco é reduzida e o mesmo é extinto no primeiro instante de passagem da corrente por zero. Entretanto, devido à condutividade residual associada à inércia térmica do meio extintor, a corrente não é completamente extinta, persistindo uma pequena corrente residual entre os contatos do disjuntor, como é mostrado na Fig. 3.3. Se o mecanismo de extinção do disjuntor conseguir retirar calor a uma taxa maior que o processo de geração de calor acima descrito, a condutância do meio irá totalmente a zero e a corrente será definitivamente interrompida. Caso contrário, ocorre reignição do arco causada por efeito térmico, configurando um processo malsucedido de interrupção de corrente. Fig. 3.3. Corrente de defeito e corrente subsequente entre os contatos de um disjuntor. Este fenômeno é representado com razoável precisão pelo modelo de Mayr (SINDER, 2007), cuja formulação é: 1 . 0P iug dt dg (3.1) g - Condutância instantânea ou dinâmica do arco. - Constante de tempo térmica do arco. u.i - representa a potência dissipada através do arco. P0 é a potência retirada do arco pelo meio extintor. Etapa Dielétrica Esta etapa é a mais difícil de todo o processo, pois o meio extintor do arco ainda não está totalmente recomposto e surgem severas solicitações dielétricas impostas pela TRT, como é mostrado na Fig. 3.1. Assim, a taxa de crescimento da tensão de restabelecimento transitória (TCTRT), dada por du/dt, passa a determinar o sucesso ou o fracasso do processo de interrupção da corrente de defeito. Se du/dt for menor que a recomposição da rigidez dielétrica entre os Chagas – DEE/UFCG 28 contatos do disjuntor, a corrente estará definitivamente interrompida. Caso contrário, ocorre reignição do arco causada por efeito dielétrico, com restabelecimento da corrente de curto- circuito. O mecanismo de formação da TRT é descrito a partir do circuito da Fig. 3.4, em que R e L e são, respectivamente, a resistência e a indutância em série equivalente entre fonte e disjuntor e C é a capacitância para a terra (buchas, TCs, transformador e capacitores de equalização do disjuntor). Fig. 3.4. Curto-circuito nos terminais de um disjuntor. Em condições normais de funcionamento (60 Hz) a corrente em C é desprezível. Porém, com o início da abertura do disjuntor, a energia armazenada no campo magnético de L irá ser transferida para o campo elétrico do capacitor, ocorrendo uma oscilação de energia em frequência elevada. As equações desse circuito são: tcosUutiR dt tdi L mC )( )( (3.2) dt tdu Cti C )( )( (3.3) Substituindo (3.3) em (3.2) e fazendo 0 = LC: tcosUtu dt tdu L R dt tud mC CC 20 2 02 2 )( )()( (3.4) Para facilitar a análise, a resistência R é desprezada; aplicando transformada de Laplace: 22 0 2 2 02 0 2 ' 2 0 2 )(( )0()0( 1 )( ss s Uu s s u s su mCCC (3.5) No domínio do tempo: tcostcosUtcosutsenutu mCCC 02 0 2 0 00 0 ' )0( )0( )( (3.6) Para o estabelecimento das condições iniciais, deve-se considerar que a corrente é limitada apenas pela impedância da fonte. Como a resistência foi desprezada, a passagem da corrente por zero (instante inicial da extinção do arco) ocorre quando a tensão da fonte alcança Chagas – DEE/UFCG 29 praticamente o valor de pico, Um. A tensão inicial no capacitor é igual à tensão no arco formado entre os contatos do disjuntor, que é desprezível no caso de disjuntores de tensão nominal elevada. Assim, as condições iniciais são as seguintes: uC(0) 0 e uC’(0) iC(0)/C = 0. tcostcosUtu mC 02 0 2 0)( (3.7) A frequência de oscilação 0 depende dos parâmetros L e C do circuito, possuindo valores muito superiores à frequência da fonte. Assim, como 0 >> , tem-se: tcostcosUtu mC 0)( (3.8) Como a oscilação de alta frequência é amortecida pela resistência R (inicialmente despre- zada), sua duração ocorre quando a tensão da fonte acha-se assumindo o valor máximo, Um. Assim, pode-se assumir em (3.8) que o termo cos t 1, resultando: tcosUtu mC 01)( (3.9) A Fig. 3.5 mostra as variações de tensão e de corrente nos terminais do disjuntor. Fig. 3.5. Curto-circuito nos terminais de um disjuntor. Valor máximo da TRT é: mmaxCC Uuu 2,0 (3.10) Se 0 é alta, a tensão nos contatos aumenta rapidamente, podendo exceder a rigidez dielétrica do meio extintor, havendo reignição do arco. 2.2. Defeito a Curta Distância do Disjuntor Este tipo de defeito, também denominado defeito quilométrico, impõe solicitações térmicas e eletromecânicas menos intensas que um defeito próximo, uma vez que a corrente é menor. Entretanto, o mesmo não ocorre em relação às solicitações dielétricas provenientes da TRT que surge entre os contatos do disjuntor, após a interrupção da corrente de defeito. Através de Chagas – DEE/UFCG 30 medições feitas em testes de campo, foi constatado que um defeito ocorrido a alguns quilô- metros de um disjuntor pode causar maiores solicitações no seu meio extintor que um defeito mais próximo aos seus terminais. Isto pode ser entendido a partir do circuito da Fig. 3.6. Fig. 3.6. Curto-circuito a curta distância de um disjuntor (defeito quilométrico). De (3.6), para 01 = (L1C1), tem-se para a parte 1 do circuito: tcostcosUtcosutsenutu mCCC 012 01 2 01 01101 01 ' 1 1 )0( )0( )( (3.11) Para a parte 2 do circuito, a expressão é a mesma, com a simplificação de que o termo relacionado à excitação é nulo; assim, para 02 = (L2C2) (D’AJUZ et al., 1987): tcosutsen u tu C C C 02202 02 ' 2 2 )0( )0( )( (3.12) Como as correntes em C1 e C2 são desprezíveis em t = 0, tem-se: mCC U LL L uu 21 2 21 )0()0( (3.13) Também pode-se escrever: 0)0()0( 2 ' 1 ' CC uu(3.14) tcosUtcosU LL L tu mmC 0101 21 2 1 1)( (3.15) tcosU LL L tu mC 02 21 2 2 )( (3.16) A tensão entre os contatos do disjuntor é dada por: tcostcos LL L tcosUtututu mCC 0201 21 2 0121 1)()()( (3.17) Considerando 01 < 02, são mostradas na Fig. 3.7 as variações de uC1, uC2 e u, sendo considerados os amortecimentos causados pelos elementos resistivos. Chagas – DEE/UFCG 31 Fig. 3.7. Variações de uC1, uC2 e u para um defeito quilométrico. A severidade dessas sobretensões devem-se às maiores taxas de crescimento da tensão de restabelecimento transitória (TCTRT) nos instantes iniciais, dada por du/dt. Na Fig. 3.8 acha-se indicada a curva que indica a recomposição da rigidez dielétrica do meio extintor, bem como diferentes formas de variação da TRT no caso de defeitos quilométricos, as quais determinam o sucesso ou o fracasso da interrupção de corrente. Observa-se que no tempo t0 poderá haver reacendimento do arco, mesmo para valores mais baixos da TRT. Fig. 3.8. Variações da TRT e da rigidez dielétrica um defeito quilométrico. Chagas – DEE/UFCG 32 2.3. Efeito de Abertura Não Simultânea das Fases em um Circuito Trifásico Até agora, somente foram considerados circuitos monofásicos equivalentes. Nos circuitos trifásicos, em regime normal, as correntes se acham defasadas de 120o. Considerando a Fig. 3.9, a interrupção da corrente Ia ocorre na sua passagem por zero. Nesse instante, as correntes Ib e Ic apresentam valores não nulos, as quais se mantêm através de arcos durante algum tempo, o que provoca desequilíbrio momentâneo no circuito. Isto faz com que a TRT no disjuntor da fase a e a tensão de 60 Hz pós-falta apresentem valores superiores às tensões fase- neutro nas fases b e c. Fig. 3.9. Circuito equivalente relativo à interrupção de corrente em circuito trifásico. Inicialmente, não será considerado o transitório de alta frequência. A tensão pós-falta de 60 Hz entre os contatos do disjuntor da fase a vale: IZUUU ba (3.18) Além disso: Z UU I 2 cb (3.19) Substituindo (3.19) em (3.18), resulta: 2 cb a UU UU (3.20) Ainda mais: 0 cba UUU (3.21) 22 acb UUU (3.22) Substituindo (3.22) em (3.20), resulta: aUU 1,5 (3.23) Chagas – DEE/UFCG 33 Assim, tanto a componente de tensão de 60 Hz como a componente de alta frequência da tensão entre os contatos do disjuntor da fase a sofrerão acréscimos de 50% em relação às tensões das outras fases, até que a corrente seja interrompida nas mesmas. 2.4. Caracterização de TRTs Dependendo do tipo de circuito, a tensão de restabelecimento transitória apresenta grande variedade de formas de onda. Para aquelas que apresentam forma semelhante à mostrada na Fig. 3.10, são considerados como de maior relevância o primeiro pico e o pico máximo. Fig. 3.10. Forma de onda típica da TRT e diferentes taxas de crescimento da tensão (TCTR). Em relação à TCTRT, são adotadas quatro definições, de acordo com as retas tracejadas da Fig. 3.10, como é explicado a seguir. a. Taxa média de crescimento de zero ao pico máximo da TRT. b. Taxa média de crescimento de zero ao primeiro pico da TRT. c. Máxima taxa média de crescimento, correspondente à tangente à curva da TRT que passa pela origem. d. Máximo valor da TCTRT. Para disjuntores a óleo, as definições a e b são as mais apropriadas. Para disjuntores a ar comprimido e a SF6, recomenda-se usar as definições c e d (ALVES, 2006). Chagas – DEE/UFCG 34 3. Sobretensões Causadas por Interrupção de Pequenas Correntes Indutivas Essas sobretensões são causadas por interrupção de corrente em transformadores em vazio ou reatores em derivação. Se o disjuntor possui mecanismo de extinção de arco muito eficiente, as pequenas correntes indutivas são interrompidas antes de sua passagem natural por zero, de modo a contrariar a propriedade fundamental dos indutores, que consiste em se opor a variações abruptas de corrente. Isto é ilustrado através do circuito da Fig. 3.11, onde Lm é a indutância de magnetização do transformador ou reator e C é a capacitância em derivação equivalente do sistema (cabos, buchas, enrolamentos, etc). Fig. 3.11. Circuito associado à interrupção de pequena corrente indutiva (chopping current). Com a interrupção, a energia armazenada no campo magnético do indutor é transferida para o campo elétrico do capacitor e vice-versa, com frequência de oscilação 0 = (LmC). Porém, surge um problema: como a corrente é pequena, o disjuntor poderá interrompê-la prematura- mente, logo que os contatos começam a se separar. Com uma pequena separação, o dielétrico não suporta a solicitação. Assim, o corte forçado da corrente pode causar múltiplas reignições do arco. Isso ocasiona o surgimento de uma tensão com formato aproximado de dente de serra nos terminais do disjuntor, como é mostrado na Fig. 3.12. Essa sequência corte-condução sugere a denominação de chopping (fatiamento, picotamento). Desprezando os efeitos dissipativos das resistências, do arco e da histerese do núcleo magnético, a energia armazenada total no instante do chopping é dada por: 2 0 2 0 ILUCW mT (3.24) O máximo valor de uC ocorre quando toda a energia é armazenada no campo elétrico de C, a qual, neste instante, é dada por: 2 0 2 0 2 ILUCUCW mCmCm 20 2 0 I C L UU mCm (3.25) Chagas – DEE/UFCG 35 Fig. 3.12. Formas de ondas relacionadas à interrupção de pequena corrente indutiva. As sobretensões são menores que no caso de não haver reignição, pois estas permitem retorno de parte da energia para o resto do circuito, amortecendo as oscilações. Exemplo: Para um transformador de 1 MVA, 13,8 kV, a corrente de magnetização típica é 3,5%; assim, tem-se: )(A5,1 8,133 1000 100 5,3 RMS x xIm H xI U Lm 14 5,1377 3/138000 ω Assumindo um fator de forma de 1,7 para a corrente, tem-se o seguinte valor de pico: A5,25,17,10 xI Transformadores desse porte apresentam capacitância shunt equivalente com valores típicos de 1 a 7 nF; assumindo C = 5 nF, resulta: Se o chopping ocorre no pico da corrente de magnetização: 6,1322875,2 105 14 0 2 9 22 0 2 0 xx I C L UU mCm Na prática, esse valor não é alcançado, devido às perdas ôhmicas. Além disso, apenas uma fração da energia armazenada no núcleo magnéticoé liberada, devido às perdas causadas pelo efeito de histerese. Chagas – DEE/UFCG 36 4. Sobretensões Causadas por Interrupção de Correntes Capacitivas Essas sobretensões são causadas por desligamento de bancos de capacitores ou linhas de transmissão aéreas longas em vazio ou linhas a cabo. No circuito da Fig. 3.13 considera-se que o disjuntor interrompe uma corrente fornecida a um elemento de capacitância equivalente C. O sistema alimentador é representado por uma fonte de tensão em série com uma indutância L. Fig. 3.13. Circuito associado à interrupção de corrente capacitiva. É mostrado na Fig. 3.14 que, antes da abertura do disjuntor, i acha-se adiantada de 900 em relação a u, pois predomina o efeito capacitivo. Como a interrupção ocorre no instante em que i = 0, a tensão nos terminais de C se mantém constante e igual ao valor de pico de da tensão da fonte, Um. Assim, a tensão nos contatos do disjuntor, uD = u – uC, pode alcançar 2 Um. Fig. 3.14. Formas de ondas relacionadas à interrupção de corrente capacitiva. Chagas – DEE/UFCG 37 Após a extinção do arco, se a velocidade de afastamento dos contatos não for suficiente- mente elevada, poderá haver reignição para uD = 2 Um, ocorrendo um transitório de alta frequência quando a tensão da fonte acha-se no valor de pico, como é mostrado na Fig. 3.15. Fig. 3.15. Formas de ondas relacionadas à interrupção de correntes capacitivas, com reignição do arco. Isto pode ser explicado pelo seguinte equacionamento do circuito da Fig. 3.12: tcosUu dt di L mC (3.26) dt du Ci C (3.27) Combinando (3.26) e (3.27), obtém-se: tcosUu dt ud mC C 2 2 (3.28) A fonte oscila em 60 Hz e a oscilação relacionada ao processo transitório é da ordem de kHz, com forte amortecimento; assim, é permitido fazer a seguinte aproximação: mC C Uu dt ud 2 2 (3.29) As condições iniciais são: mC Uu )0( , 0/)0()0( ' CiuC . Aplicando transformada de Laplace, obtém-se a seguinte solução: tcosUtu mC 21)( (3.30) O processo de reignição pode se repetir a cada pico de tensão da fonte, ocasionando tensões elevadas nos terminais do capacitor e do disjuntor. Chagas – DEE/UFCG 38 5. Atenuação das Sobretensões de Manobra Para esta finalidade, são utilizados descarregadores de surtos (para-raios de ZnO), estudados no capítulo anterior. Porém, outras técnicas são empregadas, as quais fazem uso dos seguintes procedimentos ou dispositivos: seccionamento da linha, chaveamento controlado, resistores de pré-inserção, circuitos ressonantes e outras. Seccionamento da linha Consiste na instalação de disjuntores intermediários. Assim, a sobretensão produzida no trecho de linha de menor comprimento é reduzida. Chaveamento controlado A técnica de chaveamento controlado consiste em promover o comando para fechamento do disjuntor em um instante tal que a tensão entre seus contatos seja nula (CARDOSO, 2009). Essa sincronização é feita por meio de um controlador que toma como sinal de referência a referida tensão. Na energização de uma linha de transmissão inicialmente descarregada, o instante ótimo para fechamento dos disjuntores é a passagem pelo zero do sinal de tensão da fonte. Como a tensão da linha é zero, considera-se que a tensão entre os contatos do disjuntor é a própria tensão da fonte, a qual é o sinal de referência para o dispositivo de controle. Os possíveis instantes ótimos estão em destaque na Fig. 3.16. Fig. 3.16. Instantes ótimos para energização de linhas de transmissão (CARDOSO, 2009). Chagas – DEE/UFCG 39 Resistores de pré-inserção O resistor de pré-inserção é instalado na câmara do disjuntor para reduzir a sobretensão durante o fechamento, como é mostrado na Fig. 3.17. Durante o deslocamento do contato móvel, ele é inserido durante 6 a 10 ms, sendo posteriormente posto em curto-circuito quando os contatos se fecham. Em geral, esses resistores possuem resistências da ordem do valor da impedância característica da linha (250 a 450 ). Fig. 3.17. Resistor de pré-inserção usado no amortecimento de sobretensões de manobra. Circuitos Ressonantes Este método consiste na utilização de circuitos como o mostrado na Fig. 3.18, no qual a frequência de ressonância da associação LC é sintonizada em 60 Hz, de modo que o resistor R não seja percorrido por corrente em condições normais de funcionamento. Entretanto, durante a ocorrência de uma falta, as oscilações transitórias decorrentes são amortecidas pelo resistor. Este método tem como desvantagem o fato de requerer emprego de indutores e capacitores de grande porte. Fig. 3.18. Circuito ressonante usado no amortecimento de sobretensões de manobra. Chagas – DEE/UFCG 40 6. Sobretensões de Manobra em Subestações a SF6 As sobretensões de manobra em subestações aéreas são de alguns kHz. Em subestações abrigadas e isoladas a SF6, a frequência situa-se na faixa de 0,2 a 2 MHz (solicitações mais severas). Isso se deve ao fato de que os parâmetros L e C da subestação a SF6 são bastante diferentes, pois eles dependem da geometria dos elementos e do meio isolante. À pressão atmosférica normal, o SF6 tem rigidez dielétrica 2,5 vezes maior que a do ar. De 3 a 5 vezes a pressão atmosférica (condição usual), a rigidez dielétrica é 10 vezes a do ar. Isto permite a construção de componentes muito mais compactos (barramentos, disjuntores, TCs, TPs, chaves seccionadoras, etc). Apesar de serem mais caras, as GIS (Gas Insulated Substations) constituem uma solução para os grandes centros urbanos, onde há falta de espaço físico e necessidade de preservação do aspecto paisagístico. As subestações isoladas a SF6 possuem um aspecto típico mostrado na Fig. 3.19. Fig. 3.19. Aspecto típico de uma subestação isolada a SF6. Chagas – DEE/UFCG 41 Capítulo IV Sobretensões Sustentadas 1. Introdução As sobretensões sustentadas ou temporárias apresentam fraco amortecimento, duração de vários ciclos, vários segundos ou mais e valores de pico máximos de 1,5 pu. Ocorrem à frequência industrial e harmônica; em alguns casos raros, podem estar presentes componentes sub-harmônicas. Os para-raios não devem operar, pois a capacidade térmica será excedida em períodos longos de condução. As causas mais frequentes dessas sobretensões são: ▪ curtos-circuitos fase-terra em sistemas trifásicos; ▪ perda súbita de carga em geradores; ▪ efeito Ferranti; ▪ ressonância linear; ▪ ferroressonância. Cada um desses fatores é descrito a seguir. 2. Curtos-circuitos Fase-Terra em Sistemas Trifásicos Para entender o problema das sobretensões sustentadas, três casos são inicialmente analisados em um sistema elétrico: neutro isolado da terra, neutro solidamente aterrado e neutro aterrado através de impedância. Neutro Isolado da Terra Para o sistema da Fig. 4.1 é mostrado o diagrama fasorial correspondente ao regime normal de funcionamento: As correntes de defeito fase-terra apresentam valores desprezíveis e são limitadas pelas capacitâncias fase-terra.O neutro se acha no mesmo potencial da terra. Na Fig. 4.2 é ilustrado um caso de defeito fase-terra. Observa-se o deslocamento dos potenciais das fases sãs em relação à terra, sendo estes aumentados pelo fator √3. Nesses sistemas é difícil a detecção e localização do defeito, não sendo aplicáveis os relés de terra. Para esses sistemas, os para-raios são especificados com 105% da tensão nominal da linha. Chagas – DEE/UFCG 42 Fig. 4.1. Sistema com neutro isolado e diagrama fasorial de tensões e correntes fase-neutro. Fig. 4.2. Deslocamento dos potenciais do neutro e das fases sãs em um sistema com neutro isolado durante a ocorrência de um defeito fase-terra. Nos sistemas com neutro isolado há um fenômeno denominado falta intermitente (em inglês, arcing fault ou arcing ground), qual pode ser explicado de modo simplificado através dos diagramas fasoriais da Fig. 4.3, relacionados à sequência de eventos a seguir. a. O sistema opera em condições normais. Em seguida, há um defeito fase a – terra, causado por contato momentâneo com um galho de árvore, descarga através de isolador poluído ou disrupção de atmosfera com vapor metálico. b. O neutro é deslocado de um valor igual a Uan em relação à terra. Assim, o arco é extinto quando a corrente If = 0. A carga armazenada na capacitância faz com que o triângulo fique deslocado, na mesma posição. Chagas – DEE/UFCG 43 c. Após meio ciclo de tensão, as tensões se apresentam defasadas de 180°. O potencial da fase a aumenta de 0 até cerca de 2 Uan, fazendo com que o arco restabeleça a conexão fase a – terra. O potencial desta fase tende a cair subitamente para o potencial da terra. Devido à indutância em série do circuito, há uma oscilação entre + 2 Uan e -2 Uan, com frequência de 20 a 100 vezes 60 Hz. Ocorre uma série de oscilações transitórias devido às múltiplas reignições do arco, com tensões de elevados valores de pico e possíveis danos ao sistema. Fig. 4.3. Ocorrência de terra intermitente em sistema com neutro isolado. Neutro Solidamente Aterrado Nesse tipo de sistema o neutro é aterrado mediante condutor de impedância desprezível. Caso haja um defeito envolvendo uma fase e a terra, as tensões fase-terra das outras fases não crescem além da tensão nominal fase-terra. Um sistema com neutro solidamente aterrado e os respectivos diagramas fasoriais são mostrados na Fig. 4.4. Nesses sistemas as correntes de defeito fase-terra são altas e os defeitos são facilmente detectados, sendo a proteção de terra sensível seletiva e facilmente ajustável. Praticamente não há deslocamento dos potenciais das fases sãs e o deslocamento do neutro é pequeno. Porém, os esforços eletromecânicos são elevados e arcos são intensos. Chagas – DEE/UFCG 44 Também não ocorrem as faltas intermitentes. Assim, os sistemas sejam projetados com isolamentos mais econômicos. Ao contrário dos sistemas com neutro isolado, não ocorrem sobretensões sustentadas em caso de defeito fase-terra. Para esses sistemas, os para-raios são especificados com tensão nominal de 84% da tensão nominal da linha. Fig. 4.4. Defeito fase-terra em um sistema com neutro solidamente aterrado. Neutro Aterrado por Impedância Será considerado um defeito fase-terra em um sistema cujos circuitos de Thévenin de sequência positiva, negativa e zero são mostrados na Fig. 4.5. Uma observação importante é que as impedâncias indicadas incorporam não apenas as resistências e indutâncias em série do sistema como também as capacitâncias em derivação. Fig. 4.5. Circuitos de Thévenin de sequência positiva, negativa e zero de um sistema com neutro aterrado através de impedância. Assim, pode-se escrever: 021 ZZZZ (4.1) Z U I 0a (4.2) U Z ZZ U 021a (4.3) Chagas – DEE/UFCG 45 U Z Z IZU 2022 aa (4.4) U Z Z IZU 2000 aa (4.5) Considerando o operador de Fortescue, a = 1 e j 120° = 1 120°, tem-se pela teoria das componentes simétricas (STEVENSON, 1974): 021 aaab UUaUaU 2 (4.6) 021 aaac UUaUaU 2 (4.7) Considerando Z1 Z2 e combinando as equações acima, obtém-se: 10 10 /2 /1 ZZ ZZ a U U 2b (4.8) 10 10 /2 /1 ZZ ZZ a U U c (4.9) Ademais, são feitas as seguintes simplificações: R0 = R1 = R2 = 0; assim: 221100 XjXjXj Z,Z,Z (4.10) Os módulos de Ub e Uc, em pu de U, são, respectivamente: 10 10 /2 /1 XX XX U pub, 2a (4.11) 10 10 /2 /1 XX XX U puc, a (4.12) Analisando (4.11) e (4.12), constata-se que se X0 / X1 = 1, então Ub,pu = Uc,pu = 1. Isto implica que não há sobretensões nas fases sãs. Entretanto, se o neutro for isolado ou aterrado por alta impedância, tem-se X0 / X1 >> 2 e, então, Ub,pu = Uc,pu √3. Isso corresponde ao máximo valor de sobretensão sustentada decorrente de um defeito fase-terra. É mostrado na Fig. 4.6 o modo de variação das tensões nas fases sãs, Ub,pu e Uc,pu, em função de X0 / X1, para R1 = R2 = 0. Coeficiente de Aterramento Define-se coeficiente de aterramento como a relação, em percentagem, entre a maior tensão fase-terra em uma fase sã e a tensão fase-fase nominal do sistema, durante uma falta para a terra em uma ou mais fases. Assim, esse coeficiente acha-se situado entre 0 e 100%. Chagas – DEE/UFCG 46 Curvas de Coeficientes de Aterramento Com base em (4.11) e (4.12), há curvas que fornecem os coeficientes de aterramento para sistemas com neutro aterrado por impedância, como as mostradas na Fig. 4.7, em que é suposto R1 = R2 = 0. Há gráficos semelhantes para R1 = R2 = 0,1 X1, R1 = R2 = 0,2 X1,, etc. Essas curvas são usadas na seleção de para-raios. Fig. 4.6. Modo de variação das tensões Ub e Uc em função de X0/X1 para R1 = R2 = 0. Fig. 4.7. Curvas de coeficientes de aterramento para R1 = R2 = 0. Sistema Efetivamente Aterrado Num sistema efetivamente aterrado o neutro é ligado à terra por uma impedância de valor tal que o coeficiente de aterramento não exceda 80%; assim: Chagas – DEE/UFCG 47 0,8 NOMINALFASEFASETENSÃO SÃSFASESNASTERRAFASETENSÃO Tomando como base a tensão fase-neutro nominal do sistema: pux 4,138,0 SÃSFASESNASTERRAFASETENSÃO As sobretensões nas fases sãs nãoultrapassa 40%. Nesses sistemas, tem-se aproximadamente: R0/X1 ≤ 1 e X0/X1 ≤ 3; assim, são feitas as observações a seguir. ▪ Nessa categoria também podem estar incluídos sistemas onde há resistências ou reatâncias ligadas entre neutro e terra. ▪ Os para-raios podem ser especificados para 84% da tensão fase-fase. ▪ As correntes de defeito fase-terra têm valores apreciáveis, sensibilizando a proteção de sobrecorrente (fusíveis ou relés). ▪ As correntes de defeito fase-terra próximos aos pontos de aterramento podem atingir valores superiores às correntes de defeito trifásico. Sistema Não Efetivamente Aterrado Esses sistemas apresentam R0/X1 > 1 e X0/X1 > 3, de modo que o coeficiente de aterramento é maior que 80%; neles, pode-se afirmar que: ▪ As correntes de defeito fase-terra são menores que as de defeito trifásico. ▪ À medida que R0/X1 e X0/X1 aumentam, crescem os problemas de detecção de defeitos fase- terra. Assim, é cada vez mais difícil o ajuste dos dispositivos de proteção contra sobrecorrente e a obtenção de boa seletividade. ▪ Os coeficientes de aterramento se aproximam do valor 100%. ▪ Os para-raios são especificados para 105% da tensão fase-fase nominal do sistema, pois não devem conduzir em caso de sobretensão sustentada. Formas de Operação do Neutro de Equipamentos Os geradores nunca operam com neutro solidamente aterrado. O neutro é aterrado por resistor, reator, transformador de distribuição com resistor no secundário ou bobina de Petersen. Nos sistemas de transmissão e de distribuição aéreos, os transformadores operam com o neutro solidamente aterrado. Em subestações industriais, o neutro é solidamente aterrado quando a tensão nominal do secundário é baixa. Em sistemas com tensão nominal entre 2,4 a 15 kV, o neutro é aterrado através de resistor. Chagas – DEE/UFCG 48 3. Perda Súbita de Carga em Geradores Considera-se na Fig. 4.8 um caso de perda súbita de carga num gerador (rejeição de carga). Para o sistema, pode-se escrever: IIEU jXR- (4.13) Fig. 4.8. Caso de perda súbita de carga num gerador (rejeição de carga). Os diagramas fasoriais correspondentes a antes e a depois da rejeição de carga são mostrados na Fig. 4.9. Fig. 4.9. Diagramas fasoriais correspondentes a antes e a depois da rejeição de carga (E’ > E, I’ < I). Com rejeição de carga, haverá sobretensão temporária no sistema. Isso se explica da seguinte forma: ▪ Antes da rejeição, o gerador recebe potência mecânica da turbina e fornece potência elétrica à rede. O torque mecânico é igual ao torque de reação de armadura, que se anula após a rejeição. Assim, há aceleração e aumento da tensão gerada E, pois ela é proporcional à velocidade do rotor. Em turbogeradores, a sobrevelocidade chega até 10%, em menos de 1s. Em hidrogeradores, a sobrevelocidade pode chegar a 40%, em 3 a 4 s. Isto permanece Chagas – DEE/UFCG 49 até que os reguladores de velocidade e de tensão atuem. Assim, de acordo com (4.13) e com a Fig. 4.9, como a tensão E aumenta, haverá aumento de U. ▪ Com a saída da carga, a corrente diminui. Assim, a queda de tensão através das impedâncias se reduzirá, contribuindo também para o aumento de U, como pode ser visto na Fig. 4.9. 4. Efeito Ferranti Este efeito deve-se à capacitância em derivação distribuída das linhas de transmissão. A operação da linha em vazio (ausência de carga) causa elevação de tensão, principalmente no extremo receptor, com solicitações excessivas nos isolamentos. Isto se agrava quando o comprimento da linha aumenta. Nas linhas com cabo isolado (subterrâneas, submarinas) este efeito é mais intenso que nas linhas aéreas, considerando um mesmo comprimento e tensão nominal, devido à maior capacitância shunt. Análise por Diagramas Fasoriais A seguir, é mostrada na Fig. 4.10 e nos diagramas fasoriais da Fig. 4.11, Fig. 4.12 e Fig. 4.13 a influência da capacitância em derivação e do carregamento da linha na queda de tensão através da mesma. Considera-se a tensão no receptor (UR) fixa. Fig. 4.10. Linha de transmissão e carga no extremo receptor. Fig. 4.11. Diagrama fasorial com S fechada – Linha muito carregada - UR << US. Chagas – DEE/UFCG 50 Fig. 4.12. Diagrama fasorial com S fechada – Linha pouco carregada - UR > US. Fig. 4.13. Diagrama fasorial com S aberta – Receptor em vazio - UR >> US. Observando os diagramas fasoriais, verifica-se que quanto menos carregada estiver a linha, maior será o aumento de tensão no sentido fonte-carga. Análise por Equações de Onda Outra análise do efeito Ferranti é feita a partir das equações de onda, considerando a linha de transmissão mostrada na Fig. 4.14, cujos parâmetros por unidade de comprimento são: ▪ r - Resistência em série, em /km; ▪ l - Indutância em série, em H/km; ▪ g - Condutância em derivação, em S/km; ▪ c - Capacitância em derivação, em F/km. Fig. 4.14. Linha de transmissão com parâmetros distribuídos. Assim, tem-se: ljr z (4.14) cjg y (4.15) As equações que descrevem a propagação das ondas de tensão e de corrente na linha são as seguintes (STEVENSON, 1974): Chagas – DEE/UFCG 51 Uzy U 2 2 dx d (4.16) Izy I 2 2 dx d (4.17) As soluções dessas equações correspondem às expressões a seguir: xsenhxcosh Rc IZUU R (4.18) xsenhxcosh c R Z U II R (4.19) cjg ljr c y z Z (4.20) j yz (4.21) As constantes complexas Zc e chamam-se impedância característica e constante de propagação, respectivamente. O parâmetro é a constante de atenuação, expresso em nepers/m; é a constante de fase, em rad/m. Na linha sem perdas, r = g = = 0; assim, fica: xsenIZxcosUU Rc R (4.22) xsen Z U xcosII c R R (4.23) clc Z (4.24) cljj (4.25) Com o terminal receptor em aberto, tem-se: xcosUU R (4.26) Neste caso, parax = a (tensão no extremo emissor): acosUUS R (4.27) Combinando (4.26) e (4.27): SU acos xcos U (4.28) Medindo as distâncias a partir do terminal emissor, tem-se: SU acos yacos U )( (4.29) A constante produz uma defasagem na tensão ao longo da linha ( = x). Um ciclo de tensão corresponde a 2 radianos de defasagem, ou seja, = 2 ; assim: Chagas – DEE/UFCG 52 f/c 22 (4.30) A constante c é a velocidade de propagação da onda (c 300000 km /s). Para f = 60 Hz: kmrad /x /00126,0 60103 2 5 Em linhas de 230 kV a 1100 kV, varia pouco (0,00127 a 0,00130 rad/km); assim: acos yacos U U 0,00126 )(0,00126 S O perfil de tensões ao longo de uma linha de 600 km com receptor em aberto é mostrado na Fig. 4.15, no qual a tensão alcança 1,37 pu (valor muito alto). Linhas com esse comprimento só podem operar com compensação (reatores shunt e/ou capacitores série). Fig. 4.15. Perfil de tensão ao longo de uma linha sem perdas de 600 km de comprimento. O comprimento de onda em 60 Hz é: km500060/300000/ fc Uma linha de comprimento a = /4 = 1250 km com o receptor aberto apresentaria sobretensões tendendo a infinito. Exemplo: para a = 1246 km: )!(7,1195 12460,00126 )12461246(0,00126 pu xcos cos U U S R Chagas – DEE/UFCG 53 5. Ferroressonância 5.1. Definição de Ferroressonância O termo ferroressonância nomeia um fenômeno de caráter oscilatório que resulta da transferência de energia entre capacitores, indutores com núcleos magnéticos saturáveis e fontes de alimentação. O exemplo mais simples consiste em uma associação em série de um transformador com secundário em aberto, um capacitor e uma fonte de tensão senoidal. Durante a ocorrência da ferroressonância, ao ser atingido o regime de saturação, há uma variação rápida e descontínua nas amplitudes e fases da corrente e das tensões, surgindo ondas com formas acentuadamente não senoidais, as quais apresentam altos valores de pico, de modo a haver risco à integridade dos equipamentos. Nas redes elétricas, os valores máximos de tensão alcançados situam-se na faixa de 2 a 3 pu. As ondas podem conter componentes de frequências múltiplas ou submúltiplas da frequência de excitação (harmônicas e sub- harmônicas). Também ocorre sobrefluxo no núcleo do transformador, fato este que causa aquecimento em decorrência do aumento das perdas magnéticas. Inicialmente, é assumido que as correntes e tensões não-senoidais podem ser substituídas por equivalentes senoidais de mesmo valor RMS (RUDENBERG, 1950; BESSONOV, 1973). É importante ressaltar que esse método, denominado método RMS, serve apenas para facilitar o entendimento do fenômeno, uma vez que a aproximação das grandezas por equivalentes fasoriais acarreta em um erro cada vez maior à medida que aumenta o grau de saturação do indutor não linear. O circuito considerado e o diagrama fasorial correspondente são mostrados na Fig. 4.16 e na Fig. 4.17, respectivamente. Neste caso, pode-se escrever para os módulos das tensões: I C UUUU CL 1 (4.31) Fig. 4.16. Circuito com indutor saturável Fig. 4.17. Diagrama fasorial do circuito da Fig. 4.17. Chagas – DEE/UFCG 54 Com base nesta equação, pode-se construir o gráfico da Fig. 4.18, onde é mostrado o ponto de operação inicial, P1. Este ponto corresponde à intersecção da reta descrita por (4.31),com a curva de magnetização do indutor, para uma tensão da fonte U = U 1. Neste ponto de operação estável, o circuito assume um comportamento indutivo (UL > UC). Se houver aumento de U ou redução da frequência ou da capacitância C, o ponto de trabalho tende a se deslocar para cima. Porém, como P1 acha-se próximo ao joelho da característica do indutor, pode ocorrer que as duas curvas não se interceptem no primeiro quadrante. De acordo com a Fig. 4.19 e com a Fig. 4.20, o novo ponto de operação passa a ser P3, situado no terceiro quadrante. Pode-se observar que ocorre grande aumento nos valores das tensões, corrente e fluxo. Como o ponto P3 se situa numa região de intenso grau de saturação, as grandezas apresentam caráter acentuadamente não senoidal. Fig. 4.18. Condição de operação estável de um circuito RLC em série não linear. Fig. 4.19. Comportamento de um circuito LC série não linear com aumento de U. Chagas – DEE/UFCG 55 Fig. 4.20. Comportamento de um circuito LC não linear com redução de C ou de . É considerado agora o circuito da Fig. 4.21. As características tensão-corrente do resistor, capacitor e indutor são dadas, respectivamente, por UR = R I, UC = (1/C) I e UL = f ( I ). As curvas correspondentes a essas expressões são mostradas na Fig. 4.22, com traço pontilhado. Para cada valor de I, a tensão resultante da associação capacitor–indutor é dada pela diferença entre UL e UC. A curva correspondente à característica resultante da associação, U = f (I ) é mostrada com traço cheio. Fig. 4.21. Circuito RLC não linear. Fig. 4.22. Curvas tensão-corrente do circuito da Fig. 4.22. A curva U= f (I ) da Fig. 4.22 é mostrada separadamente na Fig. 4.23. Se a tensão U for aumentada gradualmente a partir de zero, o trecho 0-1-2 da curva é percorrido até o ponto 2. Nesse ponto, qualquer acréscimo em U resultará em um salto para o ponto 4, percorrendo-se o trecho 4-5. Se U sofrer uma redução, ao se atingir o ponto 3, qualquer redução adicional causará um salto para o ponto 1, e daí para 0. Assim, a ferroressonância se estabelece de modo que uma pequena variação da tensão de entrada ocasiona uma mudança súbita denominada salto ressonante entre dois diferentes estados de operação estável do sistema. Chagas – DEE/UFCG 56 Fig. 4.23. Curva tensão-corrente resultante para o circuito da Fig. 4.21. Nos sistemas elétricos, a ocorrência da ferroressonância é determinada não apenas pela variação no valor de uma grandeza associada à fonte de alimentação (tensão ou frequência), mas principalmente pela mudança de um parâmetro ou configuração do sistema. 5.2. Modos de Ferroressonância Em condição de estado estacionário, a ferroressonância pode ser classificada em três diferentes categorias, descritas a seguir (FERRACCI, 1998). ▪ Modo fundamental. As tensões e correntes apresentam forma de onda acentuadamente não senoidal e com período igual ao da fonte de excitação. O espectro de linhas dos sinais é discreto e contém a frequência de operação do sistema, f0, além de harmônicas de frequências k f0, k = 1, 3, 5, .... Isto é mostrado na Fig. 4.24. Fig. 4.24. Ferroressonância de modo fundamental. ▪ Modo sub-harmônico. As tensões e correntes apresentam forma de onda acentuadamente não senoidal e com período igual a nT, onde n é um múltiplo inteiro e T é o período da fonte de excitação. O espectro de linhas dos sinais é discreto e contém uma componente Chagas – DEE/UFCG57 fundamental de frequência f0 / n, além de suas harmônicas (a componente de frequência f0 também faz parte do espectro), conforme é ilustrado na Fig. 4.25. Fig. 4.25. Ferroressonância de modo sub-harmônico. ▪ Modo quase periódico. Esse modo de oscilação não tem periodicidade, como é mostrado na Fig. 4.26. O espectro é descontínuo e apresenta frequências que podem ser expressas segundo a forma n f1+ m f2, sendo n e m inteiros e f1 / f2 um número irracional. Fig. 4.26. Ferroressonância de modo quase periódico. ▪ Modo caótico. Neste caso, o comportamento do sinal não é periódico, mas irregular e imprevisível. O espectro de frequências é contínuo, como é mostrado na Fig. 4.27. Fig. 4.27. Ferroressonância caótica. Chagas – DEE/UFCG 58 5.3. Casos Notáveis de Ferroressonância A ocorrência da ferroressonância nas redes elétricas depende de certas configurações e modos de operação dos circuitos. Existem situações bem características que aumentam o grau de susceptibilidade do fenômeno, as quais são ocasionadas pelos elementos não lineares descritos a seguir (FERRACCI, 1998). Transformadores de Distribuição Um possível caso de ferroressonância em sistemas de distribuição é descrito na Fig. 4.28. Considera-se a abertura de uma fase de uma linha ligada a um transformador operando com secundário em vazio, com o primário ligado em estrela com neutro aterrado. Fig. 4.28. Situação de ferro-ressonância causada por abertura monopolar. As capacitâncias indicadas representam as capacitâncias distribuídas dos condutores da linha e demais elementos da rede. Após a abertura de um disjuntor ou fusível, ocorre uma mudança na configuração do circuito equivalente do sistema, de modo que uma capacitância em série é introduzida, propiciando o surgimento do fenômeno de ferroressonância. Para isto, duas condições são necessárias: haver um cabo com comprimento e capacitância suficiente, bem como perdas resistivas pequenas (DE JESUS et al., 2003). Outro exemplo é mostrado no circuito da Fig. 4.29, onde ocorre uma abertura de duas fases do circuito. Fig. 4.29. Situação de ferro-ressonância causada por abertura bipolar. Chagas – DEE/UFCG 59 Transformadores de Potencial A ferroressonância pode ocorrer em redes elétricas que contêm transformadores de potencial indutivos (TPIs). Uma situação propensa à ocorrência desse fenômeno é ilustrada na Fig. 4.30. Fig. 4.30. Ferroressonância causada por capacitância entre duas linhas e indutância de TPI. A linha A possui maior tensão nominal que a linha B. Esta última acha-se desligada e tem conectado no seu início um TPI. Pode ocorrer uma interação entre a capacitância distribuída entre as duas linhas e a indutância saturável do TPI, ocorrendo ferroressonância. Pode também ocorrer ferroressonância em circuitos de média e alta tensão sem conexão do neutro para a terra, como é mostrado na Fig. 4.31. Quando ocorre um defeito no lado de alta tensão, o potencial do neutro se eleva. Assim, o efeito capacitivo entre os enrolamentos causa uma sobretensão no lado de média tensão, a qual ocasiona a ferroressonância. Fig. 4.31. Ferroressonância causada por acoplamento capacitivo entre circuitos de alta e média tensão. Outra situação em que se pode observar ferroressonância é mostrada na Fig. 4.32. Os disjuntores de alta tensão possuem mais de uma câmara de extinção, ligadas em série. A fim de distribuir de maneira uniforme a tensão nas mesmas, são colocados capacitores em paralelo com os contatos (capacitores de equalização). Isto é feito para que, quando o disjuntor estiver aberto, as solicitações nos meios extintores das câmaras sejam iguais. Assim, poderá ocorrer ferroressonância em caso de abertura do disjuntor, pois os capacitores estarão agora ligados em série com o TPI. Chagas – DEE/UFCG 60 Fig. 4.32. Ferroressonância causada por abertura de disjuntor próximo a um TPI. 5.4. Consequências da Ferroressonância Como consequências da ferroressonância, pode-se citar (FERRACCI, 1998; DE JESUS, 2003): ▪ Danos a equipamentos em geral por elevação excessiva dos níveis de tensão e de corrente. ▪ Elevado sobreaquecimento e ruído no transformador em face do aumento de fluxo magnético no núcleo e circulação excessiva de correntes parasitas. ▪ Deterioração da qualidade de energia ocasionada pela distorção das formas de onda de tensão e de corrente, com surgimento de harmônicos e de sub-harmônicos. ▪ Destruição de descarregadores de surto (para-raios) em face da ultrapassagem de seus limites de suportabilidade às solicitações térmicas. ▪ Perda de coodenação e atuação indevida de dispositivos de proteção, em alguns casos. ▪ Flutuação de tensão nas unidades consumidoras, causando cintilação em pontos de iluminação (flicker). 5.5. Prevenção e Mitigação da Ferroressonância Para evitar ou atenuar a ferroressonância, as seguintes práticas são comumente adotadas: ▪ Alteração de procedimentos operacionais ou de proteção para evitar a condição desequilibrada que causa a ferrorressonância. Por exemplo, a abertura monopolar realizada por fusíveis ou disjuntores no primário de transformadores de distribuição trifásicos pode ser evitada utilizando-se disjuntores que promovam abertura tripolar. ▪ Manutenção da capacitância fora da faixa susceptível a ferroressonância, sendo este parâmetro estabelecido por chaveamento em local próximo do terminal do transformador. ▪ Melhoria no projeto do núcleo do transformador. São mostradas na Fig. 4.33 duas possíveis características tensão – corrente para o circuito da Fig. 4.16. Comparando as duas caracte- rísticas, é observado que, quando se utiliza a característica 2, é necessário uma tensão transitória bem mais elevada para forçar um salto para o estado de ferroressonância, uma vez que U2 > U1. Chagas – DEE/UFCG 61 ▪ Escolha adequada de conexões de enrolamentos e geometria do núcleo do transformador, bem como a forma de aterramento do neutro do sistema. A avaliação desses fatores apresenta considerável grau de complexidade, principalmente no caso de transformadores trifásicos com núcleo de três e de cinco colunas, requerendo o emprego de programas computacionais como os do tipo EMTP e outros. Fig. 4.33. Ferroressonância causada por abertura de disjuntor próximo a um TPI. ▪ Estabelecimento de condições para que a energia fornecida pela fonte não seja suficiente para manter o fenômeno, introduzindo perdas para reduzir seus efeitos. Isso pode ser feito pela inserção de resistência de amortecimento no circuito. ▪ No caso dos transformadores de potencial indutivos, uma maneira comum de eliminar a ferrorressonância é inserir resistências de amortecimento da forma indicada na Fig. 4.34. Fig. 4.34. Eliminação da ferroressonância por inserção de resistor de amortecimento. Chagas – DEE/UFCG 62 A resistência R e a potência nominal PR do resistor são dadas pelas expressões a seguir (FERRACCI, 1998), onde U2 é a tensão nominal do secundário do TPI, em volts, e PR é a potência térmica nominal do TPI, em VA. eP U R 2 233 (4.32) R U PR 2 23 (4.33) 5.6. Ferroressonância – Um Estudo de Caso O caso analisado refere-se a um caso de ferroressonância em um transformador de potencial indutivo (TPI) instalado numa subestação de 230 kV cujo diagrama unifilar simplificado é mostrado na Fig. 4.35, no qual são mostrados os seguintescomponentes: ▪ Duas linhas de transmissão operando em 230 kV (LT1, LT2). ▪ Dois disjuntores de linha (DJ1, DJ2). ▪ Um disjuntor de transferência, normalmente desenergizado (DJ3). ▪ Dois barramentos, um principal e outro de transferência (B1, B2). ▪ Duas chaves seccionadoras de by-pass, normalmente desenergizadas (1B, 2B). ▪ Um transformador de potencial ligado à barra B2 (TPI). A condição de operação analisada corresponde a DJ1 fechado, DJ2 e DJ3 abertos e 1B e 2B abertas. Neste caso, tem-se o circuito equivalente mostrado na Fig. 4.36. Fig. 4.35. Diagrama unifilar simplificado de uma subestação de 230 kV. Chagas – DEE/UFCG 63 Fig. 4.36. Circuito equivalente da subestação de 230 kV da Fig. 4.36. Os parâmetros u, R e L se relacionam ao equivalente de Thévenin do sistema alimentador; R1 e L1 representam a resistência e a indutância em série compreendidas entre o disjuntor e o TPI, inclusive a resistência e a reatância de dispersão do enrolamento primário do TPI; C1 é a capacitância de equalização do disjuntor; C2 é a capacitância fase-terra equivalente do barramento e equipamentos a ele ligados; Rp é a resistência linear de perdas no núcleo magnético; Lm é a indutância de magnetização do TPI; R2 e L2 representam os valores de resistência a indutância da carga refletidos para o lado do primário. Considerando u = 2U cos t e aplicando a lei de Kichhoff das malhas no circuito da Fig. 4.36, tem-se: uuuiR dt di L 21 (4.34) 2311 1 1 uuiR dt di L (4.35) 1 2 2 ii dt du C (4.36) p m R u ii 31 (4.37) 3u dt di L mm (4.38) 322 2 2 uiR dt di L (4.39) i dt du C 11 (4.40) mif (4.41) A função f de (4.41) descreve a curva de saturação do TPI ou o modelo de histerese, conforme seja a forma de representação do efeito de magnetização do núcleo do TPI. Chagas – DEE/UFCG 64 Considerando um degrau de tempo h, têm-se as seguintes equações discretizadas: 0,2,1 1 kkkk kk uuuiR h ii L (4.42) 0,3,2,11 1,1,1 1 kkk kk uuiR h ii L (4.43) 0,1 1,2,2 2 kk kk ii h uu C (4.44) 0 , ,3 ,,1 kp k kmk R u ii (4.45) 0,3 1,, k kmkm m u h ii L (4.46) 0,3,22 1,2,2 2 kk kk uiR h ii L (4.47) 01,1,11 k kk i h uu C (4.48) 0, kmk if (4.49) Esse sistema não linear pode ser resolvido pelo método de Newton-Raphson, considerando- se um degrau de tempo h = 1 s. Dados do Sistema Um valor típico de potência de curto-circuito em uma subestação de 230 kV é de 16 GVA (COPEL, 2007), o que corresponde a uma impedância igual a: Ω3,3 1016 230000 9 2 x Z A impedância do sistema alimentador apresenta caráter fortemente reativo, com ângulos de fase típicos no entorno de 88o; assim, tem-se: Ω0,115883,3 o cosxR H10 8,750 π120 883,3 3- o x senx L Os barramentos B1 e B2 possuem condutores de alumínio com alma de aço (ACSR) de bitola 954 MCM, o qual apresenta resistência ôhmica igual a 0,0705 /km a 50 oC. Para um trecho de barramento de 100 m, a resistência é de 7,05 m, valor que pode ser desprezado. O mesmo ocorre com a indutância do barramento e com a reatância de dispersão do TPI. Assim, L1 0 e Chagas – DEE/UFCG 65 o valor de R1 é praticamente igual à resistência do enrolamento primário do TPI. Os TPIs típicos usados em 230 kV apresentam resistência do enrolamento primário muito elevada, pois este é composto por dezenas de milhares de espiras de fio fino, o que implica em um valor de resistência da ordem de algumas dezenas de milhares de ohms. O TPI considerado apresenta os seguintes dados (RIBAS, 2000): ▪ Relação de espiras (primário, secundário): 1200 : 1. ▪ Número de espiras do enrolamento primário: 53897. ▪ Área de seção reta do núcleo: 101 cm2. ▪ Comprimento médio da trajetória magnética: 1,1 m. Supõe-se que o enrolamento primário é constituído de fio de bitola 28 AWG, com resistência ôhmica 0,214 /m e que o comprimento médio de espira igual a 0,60 m; assim, tem-se: 6920,40,2140,60538971 xxR Assume-se que o núcleo magnético é constituído por liga Fe-Si de grãos orientados, com perdas magnéticas específicas de 1,28 W/kg a 60 Hz, com 1,5 T de indução de pico (GUERRA, 2007). Como a densidade do ferro é 7,88 x 103 kg/m3, tem-se para as perdas magnéticas totais: W112,061,28107,881,110101 34 xxxxxP A resistência de perdas no núcleo pode ser estimada fazendo-se: ΩM 157 112,06 3230000/ 2 pp RR A característica de magnetização considerada para o TPI é a curva de saturação mostrada na Fig. 4.37, a qual fornece o fluxo de enlace no enrolamento primário em função da corrente de excitação, em valores de pico. A curva de saturação é aproximada pelo método de linearização por partes, sendo usadas coordenadas (im, ) de uma sequência de pontos levantados experimentalmente, com valores de im crescentes ou decrescentes. Assim, as coordenadas de um ponto situado entre dois pontos consecutivos fornecidos são determinadas através de rotina de busca em tabela ordenada (PRESS et al., 1986), empregando-se também o método de interpolação linear. Os pontos da referida curva são fornecidos na Tabela 4.1. Foi considerada no enrolamento secundário do TPI a carga P75, de 75 VA, padronizada pela ABNT (NBR 6855 – ABNT, 2009). A mesma possui resistência de 163,2 e indutância de 0,268 H. Refletindo-se esses valores para o primário: ΩM235163,21200 2 2 2 RxR kH385,920,2681200 2 2 2 LxL Chagas – DEE/UFCG 66 Fig. 4.37. Curva de saturação do TPI. Tabela 4.1. Pontos da curva de saturação do TPI (valores de pico). CORRENTE ( A ) FLUXO DE ENLACE (V.s) CORRENTE ( A )FLUXO DE ENLACE (V.s) 0,00 0,00 1,00 755 0,01 550 2,00 773 0,03 600 4,00 795 0,08 650 8,00 822 0,20 700 15,0 850 0,50 735 25,0 870 Os valores totais de capacitância dos capacitores de equalização dos disjuntores de uma subestação de 230 kV situam-se na faixa de 325 pF a 7500 pF (JACOBSON, 2000). No caso analisado, é considerado C1 = 1200 pF. A capacitância C2 é igual à capacitância para a terra do trecho do barramento B2 compreendido entre o disjuntor DJ3 e o TPI (CB2) mais a capacitância para a terra do TPI (CT) e demais equipamentos ligados ao barramento (CD), ou seja: DTB CCCC 22 (4.50) A capacitância para a terra do barramento B2 é fornecida pela expressão a seguir, onde D é distância entre os condutores do barramento e r é o raio do condutor (STEVENSON, 1974): km / μF / 024250 2 rDlog CB (4.51) 0.00 4.00 8.00 12.00 16.00 20.00 Corrente ( A ) 0.00 200.00 400.00 600.00 800.00 1000.00 F lu x o d e E n la c e ( V .s ) Chagas – DEE/UFCG 67 Considerando D = 4 m e r = 15,2 mm, tem-se o valor CB2 = 501 pF para um trecho de barramento de 50 m de comprimento. A capacitância para a terra de um transformador de potencial típico de 230 kV varia entre 600 e 810 pF (GREENWOOD, 1971). Neste caso, adota-se o valor CT = 700 pF. Para os demais equipamentos ligados ao barramento, assume-se CD = 2300 pF. Assim, tem-se C2 3500 pF. Simulações Usando o Método de Newton-Raphson O oscilograma da tensão no primário do TPI é mostrado na Fig. 4.38. Em regime transitório, observa-se uma sobretensão máxima de 310,51 kV (1,64 pu). Em regime permanente, ocorrem picos de tensão de 224,62 kV (1,20 pu). Nos terminais do disjuntor (Fig. 4.39), esses valores correspondem a 444,12 kV (2,36 pu) e 375,76 kV (2,00 pu), respectivamente. A corrente no enrolamento primário apresenta forma acentuadamente não senoidal (Fig. 4.40), atingindo o valor de 5,06 A em regime transitório e se estabilizando com valor de pico de 3,06 A. O fluxo de enlace no enrolamento primário do TPI (Fig. 4.41) se estabiliza no valor de 785,7 V.s (1,58 pu). Fig. 4.38. Tensão nos terminais do TPI. 0.00 0.10 0.20 0.30 0.40 Tempo ( s ) -400.00 -200.00 0.00 200.00 400.00 T e n sã o ( k V ) Chagas – DEE/UFCG 68 Fig. 4.39. Tensão nos terminais do disjuntor. Fig. 4.40. Corrente no enrolamento primário do TPI. 0.00 0.10 0.20 0.30 0.40 Tempo ( s ) -800.00 -400.00 0.00 400.00 800.00 T e n s ã o ( k V ) 0.00 0.10 0.20 0.30 0.40 Tempo ( s ) -8.00 -4.00 0.00 4.00 8.00 C o rr e n te ( A ) Chagas – DEE/UFCG 69 Fig. 4.41. Fluxo de enlace no enrolamento primário do TPI. 6. Ressonância Há ressonância quando circuitos que contêm capacitâncias e indutâncias são excitados por tensões de frequência próxima ou igual à sua frequência natural de oscilação, 0 = 1/(LC) (L e C são os parâmetros equivalentes do sistema). Isto não é comum nos circuitos aéreos de distribuição e transmissão, pois 0 >> 377 rad/s (frequência angular da rede). Em sistemas industriais, a presença de cargas não lineares causa o surgimento de harmô- nicos. Fenômenos de ressonância em frequência harmônica podem ocorrer, principalmente devido à presença de capacitâncias de cabos isolados e aplicação indevida de capacitores para correção do fator de potência. A utilização de filtros de harmônicos, além de outras medidas, pode resolver o problema. A ressonância também pode ocorrer entre linhas paralelas de alta e extra-alta tensão compensadas por reatores em derivação, em face do acoplamento capacitivo existente entre as mesmas. Quando uma delas é aberta em ambos os extremos, a tensão nela induzida pode alcançar altos valores. O mesmo fenômeno pode ocorrer em uma fase aberta de linhas onde o religamento monopolar é praticado. 0.00 0.10 0.20 0.30 0.40 Tempo ( s ) -1000.00 -500.00 0.00 500.00 1000.00 F lu x o d e E n la ce ( V .s ) Chagas – DEE/UFCG 70 7. Considerações sobre o PRODIST – Módulo 8 - ANEEL A Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, através do PRODIST - Módulo 8 – Qualidade da Energia Elétrica - Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no Sistema Elétrico Nacional (2014), estabelece os limites adequados, precários e críticos para os níveis de tensão em regime permanente, os indicadores individuais e coletivos de conformidade de tensão elétrica, os critérios de medição, de registro e dos prazos para compensação ao consumidor, caso as medições de tensão excedam os limites dos indicadores. Os valores de tensão medidos devem ser comparados à tensão de referência, a qual deve ser a tensão nominal ou a contratada, de acordo com o nível de tensão do ponto de conexão. As tabelas de 4.2 a 4.6 fornecem as faixas de classificação de tensões em regime permanente, considerando sistemas de diferentes tensões nominais.. Tabela 4.2. Pontos de conexão em tensão nominal igual ou superior a 230 kV. Tabela 4.3. Pontos de conexão em tensão nominal igual ou superior a 69 kV e inferior a 230 kV. Tabela 4.4. Pontos de conexão em tensão nominal superior a 1 kV e inferior a 69 kV. Tabela 4.5. Pontos de conexão em tensão nominal igual ou inferior a 1 kV (220/127). Chagas – DEE/UFCG 71 Tabela 4.6. Pontos de conexão em Tensão Nominal igual ou inferior a 1 kV (380/220). Em relação à frequência, o sistema de distribuição e as instalações de geração conectadas ao mesmo devem, em condições normais de operação e em regime permanente, operar dentro dos limites de frequência situados entre 59,9 Hz e 60,1 Hz. Os geradores ligados ao sistema de distribuição devem garantir que a frequência retorne para a faixa de 59,5 Hz a 60,5 Hz, no prazo de 30 (trinta) segundos após sair desta faixa, em distúrbios no sistema de distribuição, para permitir a recuperação do equilíbrio carga-geração. Havendo necessidade de corte de geração ou de carga para permitir a recuperação do equilíbrio carga-geração, durante os distúrbios no sistema de distribuição, tem-se os seguintes limites estabelecidos para a frequência: ▪ não pode exceder 66 Hz ou ser inferior a 56,5 Hz em condições extremas; ▪ pode permanecer acima de 62 Hz por no máximo 30 (trinta) segundos e acima de 63,5 Hz por no máximo 10 (dez) segundos; ▪ pode permanecer abaixo de 58,5 Hz por no máximo 10 (dez) segundos e abaixo de 57,5 Hz por no máximo 5 (cinco) segundos. Chagas – DEE/UFCG 72 Capítulo V Outros Distúrbios de Tensão 1. Introdução Além do que foi citado nos capítulos anteriores, existem vários outros distúrbios de tensão que afetam o funcionamento das redes elétricas, notadamente as de baixa tensão. Os principais distúrbios são listados a seguir. ▪ Distorções harmônicas, sub-harmônicas e interarmônicas. ▪ Afundamentos momentâneos de tensão (sags). ▪ Elevações momentâneas de tensão (swells). ▪ Desequilíbrios de tensões. ▪ Picos de tensão (spikes). ▪ Recortes de tensão (notches). ▪ Flutuações de tensão. ▪ Ruídos elétricos. As distorções harmônicas, sub-harmônicas e interarmônicas são causadas por componentes não lineares (cargas ou equipamentos) existentes no sistema. Essas distorções não são abordadas neste capítulo, sendo matéria estudada em tópico posterior.2. Afundamentos Momentâneos de Tensão Esses afundamentos de tensão (sags) consistem em reduções no valor nominal da tensão da rede elétrica por determinado tempo. Isto é mostrado na Fig. 5.1. Fig. 5.1. Afundamento momentâneo de tensão (voltage sag). Chagas – DEE/UFCG 73 A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), na Resolução n° 505, de 26/11/2001, artigo segundo, define nos incisos I e IX um afundamento momentâneo de tensão como “um evento em que o valor eficaz da tensão do sistema se reduz, momentaneamente, para valores abaixo de 90% da tensão nominal de operação, durante intervalo inferior a 3 s”. Os sags são causados por raios, vendavais, falhas em equipamentos e contato de animais ou galhos com os condutores da rede. Também podem ser causados por surtos de corrente devido à energização de transformadores, bancos de capacitores e partida de motores potentes, com durações de até 30 ciclos. Sags podem travar programas de computadores e causar perdas de dados armazenados em memórias voláteis, devido à baixa capacidade de armazenamento de energia que os capacitores de algumas fontes de alimentação apresentam, não passando de 3 ciclos de rede. Sags podem ainda provocar abertura indevida de contactores e relés. 3. Elevações Momentâneas de Tensão A ANEEL, através da Resolução 505 (citada no item anterior) define elevações momentâneas de tensão (voltage swells) como eventos em que o valor eficaz da tensão do sistema se eleva momentaneamente para valores acima de 110% da tensão nominal de operação, durante intervalo inferior a 3 s, como é mostrado na Fig. 5.2. Os swells são menos comuns que os sags. Fig. 5.2. Elevação momentânea de tensão (voltage swell). Essas elevações podem ser causadas por perda ou súbita mudanças da referência de terra, interrupções ou queda no consumo de corrente por cargas indutivas e manobra de grandes bancos de capacitores. Os efeitos podem ser mais destrutivos que os produzidos pelos sags, podendo ocorrer degradação ou queima dos componentes de equipamentos eletrônicos, ou também queima de descarregadores de surtos aplicados sem a devida tolerância em relação às sobretensões. Chagas – DEE/UFCG 74 Na redução dos efeitos dos sags e swells, são utilizados estabilizadores de tensão, no-breaks e restauradores de tensão dinâmicos de diversos tipos, alguns baseados no uso de técnicas e de processadores digital de sinais (DSPs). 4. Desequilíbrios de Tensão São variações desiguais em amplitude e/ou fase das tensões trifásicas. Na transmissão, a causa mais importante de desequilíbrios está relacionada com a distribuição das fases ao longo de grandes trechos das linhas com irregularidades na sua transposição. Na distribuição, têm como causa a conexão desbalanceada de cargas monofásicas ou bifásicas em sistemas trifásicos. Cargas trifásicas não lineares de grande porte também podem produzir desequilíbrio, como os fornos a arco elétrico. Tensões desequilibradas podem também ser resultados da queima de fusíveis em uma fase de um banco de capacitores trifásicos, ocasionando injeção de diferentes potências reativas nas fases. A alimentação trifásica desequilibrada se manifesta principalmente no mau aproveitamento da potência disponibilizada nos processos de conversão eletromecânica, bem como na operação inadequada de equipamentos. Desequilíbrios acentuados podem comprometer drasticamente desempenho operacional de muitos equipamentos, podendo ocorrer danos progressivos ou imediatos. Nos motores trifásicos, ocorre o aparecimento de correntes de sequência negativa adicionais circulando no rotor, aumentando as perdas devido ao aumento da temperatura. No caso dos retificadores, quando estes operam em condições equilibradas, correntes harmônicas características (de ordem 5, 7, 11, 13,...). Entretanto, quando o sistema alimentador acha-se desequilibrado, os retificadores também passam a gerar harmônicas triplas (3, 9, 15,...), as quais possibilitam manifestação de ressonâncias não previstas, causando danos a uma série de equipamentos. Segundo a ANEEL - PRODIST - Módulo 8 (2014) que trata dos procedimentos de distribuição de energia elétrica no sistema elétrico nacional, o desequilíbrio de tensão é analisado com base no fator de desequilíbrio, FD%, calculado por: 1 2 % 100 U U xDF (5.1) U1 – Componente de sequência positiva da tensão. U2 – Componente de sequência negativa da tensão. Chagas – DEE/UFCG 75 O PRODIST - Módulo 8 estabelece com limite um índice de desequilíbrio de tensão de 2%, calculado pela expressão (5.1). 5. Picos de Tensão Os spikes são picos de tensão superpostos à onda senoidal da rede, como é mostrado na Fig. 5.3. Estas variações rápidas do sinal elétrico podem ser causadas pela energização de motores elétricos, transformadores, acionamento de interruptores de luz e ferramentas elétricas. Em casos mais graves (maiores valores de pico), elas são provocadas por descargas atmosféricas, chaveamento de grandes cargas e curtos-circuitos na rede. Neste caso, há risco de danos nos equipamentos, principalmente os eletrônicos. Fig. 5.3. Picos de tensão (spikes). Na mitigação dos efeitos desses distúrbios são usados supressores de surto (varistores) e aparelhos diversos para condicionamento de sinais, como circuitos RC. 6. Recortes de Tensão Os recortes de tensão ou notches são deformações na onda de tensão durante a comutação de tiristores (SCRs) em conversores controlados, como é mostrado na Fig. 5.4. 0.00 0.02 0.04 0.06 TEMPO ( s ) -400.00 -200.00 0.00 200.00 400.00 T E N S Ã O ( V ) Chagas – DEE/UFCG 76 Fig. 5.4. Ponte retificadora trifásica controlada. A comutação ocorre quando um SCR de uma fase entra em condução (ligado) e um SCR em outra fase entra em bloqueio (desligado). Devido à indutância do circuito alimentador, a transferência de corrente de um tiristor em uma fase para o próximo em outra fase não é instantânea. Neste processo, há um período de sobreposição (ou comutação) durante o qual os dois dispositivos estão conduzindo simultaneamente. Durante a comutação, um curto-circuito é criado entre as duas fases, o que causa aumento da corrente e queda da tensão. A redução na tensão é definida como um notch de linha. O curto-circuito é interrompido pela corrente reversa no dispositivo que entra em bloqueio. Os efeitos sobre as tensões fase-neutro e fase- fase são mostrados na Fig. 5.5. Fig. 5.5. Notches de tensão numa ponte retificadora trifásica controlada. Chagas – DEE/UFCG 77 Para eliminar ou reduzir os notches de tensão é necessário que a fonte de comutação seja isolada de outros equipamentos sensíveis que usam o mesmo sistema de distribuição. Isso pode ser feito através do uso de transformadores de isolamento. Os métodos de redução dos notches constituem matéria do curso de Eletrônica de Potência. 7. Flutuações de Tensão Flutuação de tensão é a variação repetitiva, aleatória ou esporádica do valor eficaz da tensão, normalmente compreendidas na faixa de 0,95 pu a 1,05 pu. Isso pode ser causado por: ▪ cargas não lineares em equipamentos a arco, como fornos industriais e máquinas de solda; ▪ cargas intermitentes em eixos de motores de baixa rotação, como os de moedores de rochas, bombas, compressores e máquinas de lavar roupa, que provocam aumentos e diminuições cíclicas e relativamente lentas na corrente da rede; ▪ laminadores usados em indústrias; ▪ equipamentos usados em ferrovias. Na Fig. 5.6 é mostrado um tipode oscilação a qual consiste em uma sub-harmônica de amplitude 5 V, 10 Hz, superposta a uma tensão de 220 V (RMS), 60 Hz. Fig. 5.6. Sub-harmônica de amplitude 5 V, 10 Hz, superposta a uma tensão de 220 V (RMS), 60 Hz. Na Fig. 5.7 são mostradas as variações aleatórias no valor eficaz da tensão causadas pela operação de um forno a arco, as quais denotam a presença de harmônicas, sub-harmônicas e inter-harmônicas. 0.00 0.10 0.20 0.30 0.40 0.50 TEMPO ( s ) -400.00 -200.00 0.00 200.00 400.00 T E N S Ã O ( V ) Chagas – DEE/UFCG 78 Fig. 5.7. Variações aleatórias no valor eficaz da tensão causadas pela operação de um forno a arco. Os principais efeitos das flutuações de tensão são os seguintes: ▪ oscilações de torques em motores; ▪ vibrações e afrouxamento de conexões parafusadas ou rebitadas; ▪ oscilações eletromecânicas; ▪ redução na produtividade de fornos e estufas; ▪ incômodo causado pela cintilação luminosa em lâmpadas incandescentes ou de mercúrio (cintilação ou flicker). Cintilação é um fenômeno que se manifesta mediante variação do fluxo luminoso causado por modulação da tensão na faixa de 0 a 30 Hz, o que ocasiona um tremeluzir contínuo em lâmpadas de mercúrio e, principalmente, em lâmpadas incandescentes. Os monitores de computador e televisores também são afetados. Sua ocorrência prolongada pode provocar dor de cabeça, cansaço, irritabilidade, crises epilépticas, etc. Na frequência de 8,8 Hz o olho humano apresenta sua máxima sensibilidade ao flicker, sendo capaz de identificar variações na tensão de 0,1%. As principais soluções para a redução das flutuações de tensão são as seguintes: ▪ aumento da potência de curto-circuito na barra; ▪ instalação de filtro ativo, compensador estático ou banco de capacitores controlados por tiristores. A ANEEL através do PRODIST - Módulo 8 (2014) estabelece a terminologia, a metodologia de medição, a instrumentação e os valores de referência para a flutuação de tensão. Os procedimentos para medição de flicker são estabelecidos pela norma IEC 61000-4-15 (2010). Chagas – DEE/UFCG 79 8. Ruídos Elétricos O ruído elétrico é um sinal da alta frequência (quando comparado com os 50 ou 60 Hz da rede) que se soma à senóide de tensão normal, alterando suas características. Os ruídos elétricos podem ser motivados por inúmeros fatores como interferências de radares, radiotransmissores e linhas de alta e extra-alta tensão, loops de aterramento, conversores estáticos, motores, lâmpadas fluorescentes, etc. Eles podem causar mau funcionamento de computadores e outros equipamentos eletrônicos. Porém, o risco de dano permanente é pequeno. Na Fig. 5.8 é mostrado um ruído com amplitude de 10 V, 4,5 kHz superposto a uma tensão de 220 V, 60 Hz. Fig. 5.8. Ruído com amplitude de 10 V, 4,5 kHz superposto a uma tensão de 220 V, 60 Hz. Os ruídos podem ser reduzidos ou eliminados mediante utilização de filtros, transformadores de isolamento e equipamentos de condicionamento de sinais, assim como blindagem das estruturas por onde passa o cabeamento e, principalmente, o cuidado com o aterramento. Outros cuidados consistem em não ligar aparelhos sensíveis na mesma fase onde estão ligados aparelhos de maior potência (ar condicionado, geladeiras, fornos elétricos, lâmpadas incandescentes com dimmers, máquinas de lavar, etc). 0.00 0.02 0.04 0.06 TEMPO ( s ) -400.00 -200.00 0.00 200.00 400.00 T E N S Ã O ( V ) Chagas – DEE/UFCG 80 Capítulo VI Controle de Tensão em Redes Elétricas 1. Introdução O problema do controle de tensão nas redes elétricas está diretamente associado ao balanço da potência reativa na rede. Para entender o problema, será considerado o sistema da Fig. 6.1, no qual uma carga de potência ativa P e potência reativa Q é alimentada por um alternador através de uma linha de transmissão de impedância em série Z = R + j X. Por simplicidade, considera-se desprezível a capacitância em derivação, hipótese válida no caso de linhas de transmissão aéreas de comprimento inferior a 80 km e de alimentadores de distribuição. Para o circuito, tem-se: o0 RR UU (6.1) SS UU (6.2) IUU )( jXRRS (6.3) Fig. 6.1. Alimentador monofásico de resistência R e reatância L em série suprindo uma carga. O diagrama fasorial das grandezas do circuito é mostrado na Fig. 6.2. Fig. 6.2. Diagrama fasorial do circuito da Fig. 5.1. Chagas – DEE/UFCG 81 Assim, a partir desse diagrama, pode-se escrever: senIj cosIjXRU RS )((U (6.4) )( senIR cosIXj senIX cosIRU RSU (6.5) Ainda no diagrama fasorial da Fig. 6.2, pode-se desprezar a parte imaginária de US, de modo que U U’; assim: senX cosRIU-UU RS ( (6.6) Pode-se também escrever: R RR RS U senIUX cosIUR U-UU (6.7) RU QXPR U (6.8) Essa expressão mostra que a queda de tensão através da linha não depende apenas da potência ativa absorvida pela carga, mas também da potência reativa transmitida. Linhas com tensões nominais elevadas apresentam X >> R, de modo que termo XQ de (6.8) tende a ser cada vez mais significativo. A conclusão a que se chega é a seguinte: o transporte de potência reativa através da linha exerce drástica influência sobre a queda de tensão através da mesma. Caso a carga requeira potência reativa, o ideal é que ela seja fornecida no local da instalação, e não transportada a partir de um terminal remoto. Regulação de tensão de um alimentador é definida pela seguinte expressão: 100% x U UU R RL RLRO (6.9) URO - Tensão no extremo emissor com o extremo receptor em aberto. URL - Tensão no extremo emissor com o extremo receptor em plena carga, com fator de potência especificado. No caso de cargas distribuídas ao longo do alimentador, os métodos de cálculo são mais elaborados. Tal assunto é matéria dos cursos de Análise de Sistemas Elétricos e de Distribuição de Energia Elétrica. Um bom tratamento dedicado ao tema é proporcionado por SOUZA (1997) e KUNDUR (1993). A matéria subsequente trata dos métodos adotados para se efetivar o controle de tensão nas redes elétricas, no sentido de manter a tensão nos limites especificados pelas agências reguladoras dos serviços de fornecimento de energia. Chagas – DEE/UFCG 82 2. Controle de Tensão em Sistemas de Distribuição 2.1. Subtensões Sustentadas em Alimentadores O controle de tensão em sistema de distribuição é normalmente feito no sentido de mitigar as quedas de tensão temporárias em alimentadores. São classificados como subtensões sustentadas os distúrbios caracterizados por um decréscimo no valor eficaz da tensão alternada correspondentes a valores inferioresa 0,9 pu, na frequência da rede, e com período de duração maior que 1 minuto. As subtensões são causadas, principalmente, pelos seguintes fatores: ▪ Carregamento excessivo de circuitos alimentadores, os quais são submetidos a valores de corrente que dão origem a quedas de tensão elevadas nas impedâncias em série da rede. ▪ Excesso de potência reativa transportado pelos circuitos de distribuição, o que limita a capacidade do sistema no fornecimento de potência ativa e ao mesmo tempo eleva a queda de tensão. A fim de reduzir o problema das subtensões, são utilizados métodos que dizem respeito a mudanças no projeto do sistema elétrico original, os quais são listados a seguir. ▪ Aumento da seção dos condutores da linha. ▪ Aumento do número de fases da linha. ▪ Balanceamento das cargas nos alimentadores primários. ▪ Transferência de carga para novos alimentadores. ▪ Instalação de novas subestações e alimentadores. Entretanto, existem dispositivos que são comumente empregados com o intuito de reduzir as quedas de tensão, os quais são listados a seguir. ▪ Capacitores. ▪ Auto-boosters. ▪ Reguladores de tensão. 2.2. Utilização de Capacitores Considerações Gerais A utilização de capacitores tanto pode ser feita ao longo de alimentadores como em instalações de consumidores. No primeiro caso, essa prática visa essencialmente aumentar os níveis de tensão e reduzir as perdas. No segundo caso, além dos objetivos citados, os Chagas – DEE/UFCG 83 capacitores promovem outros benefícios, como liberação de capacidade de transformadores e não pagamento de multas por excessivo consumo de reativos (baixo fator de potência). A instalação de capacitores junto às instalações de consumidores é uma prática conhecida como correção do fator de potência. Os elementos típicos que compõem as cargas nos sistemas elétricos são lâmpadas, equipamentos de aquecimento e motores de indução domésticos e industriais. Assim, as cargas apresentam características que podem ser atribuídas a uma combinação de resistência e indutância. Logo, a solução mais simples e barata para evitar circulação de potência reativa na rede consiste em instalar bancos de capacitores junto à carga, no sentido de compensar o efeito indutivo da mesma, levando o circuito à ressonância, ou a uma condição próxima dela. Em ressonância não há troca de potência reativa entre a fonte e o resto do circuito, o que torna cos = 1. Na prática, não é necessário fazer cos = 1 (compensação total). O artigo 64 da Resolução 456 de 29/11/2000, da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), estabelece o seguinte: “o fator de potência de referência, indutivo ou capacitivo, terá como limite mínimo permitido para instalações elétricas ou unidades consumidoras, o valor 0,92”. Caso a instalação apresente cos < 0,92, o consumidor terá sua conta de energia acrescida de acordo com o estabelecido no artigo 65 da citada resolução. Causas de Queda no Fator de Potência Considerando tensões e correntes senoidais, os principais fatores que contribuem para a queda do fator de potência são listados a seguir. ▪ Motores funcionando em vazio. O consumo de potência reativa é o mesmo, tanto para operação em vazio quanto com carga. Porém, o consumo de potência ativa é diretamente proporcional à carga no eixo. ▪ Motores superdimensionados. Se um motor é substituído por outro de potência nominal maior, o consumo de potência ativa cresce, permanecendo inalterada a carga no eixo e o consume de potência ativa. ▪ Transformadores operando em vazio ou com carga reduzida. Nesses casos, a corrente de magnetização do transformador está associada a consumo de reativos. ▪ Lâmpadas de descarga convencionais operando com reatores de baixo fator de potência. Nesse caso, recomenda-se a utilização de reatores compensados, os quais contêm capacitores para correção do fator de potência. Chagas – DEE/UFCG 84 Quando a rede opera em regime não senoidal, o conceito do fator de potência é mais abrangente, pois devem ser consideradas a influência das distorções das formas de onda das tensões e corrente. Assim, o fator de potência sofre uma queda tanto maior quanto maior for a taxa de distorção harmônica das grandezas elétricas na rede. Capacitores em Derivação A forma de correção de fator de potência mais utilizada é mostrada na Fig. 6.3, na qual é mostrada uma linha alimentando uma carga, além de um banco de capacitores em derivação. Fig. 6.3. Banco de capacitores instalado em derivação. Os parâmetros R e X são a resistência e a reatância da linha. Com a chave S aberta, tem-se: IIUU jXRRS (6.10) Com S fechada, resulta: ''' IIUIIIIUU jXRjXR RCCRS (6.11) Para esse circuito têm-se os diagramas fasoriais da Fig. 5.4 (antes e após a correção). Fig. 6.4. Diagramas fasoriais do circuito da Fig. 6.3 ( a ) S aberta; ( b ) S fechada. A análise desses diagramas mostra que: ▪ Há melhoria no fator de potência da instalação (cos ’ > cos ). Caso cos < 0,92 e cos ’ ≥ 0,92, o consumidor deixa de ser penalizado por apresentar baixo fator de potência. Chagas – DEE/UFCG 85 ▪ A queda de tensão ao longo da linha torna-se menor (US’ – UR < US – UR). ▪ A corrente requerida pela carga torna-se menor ( I’ < I ), ocorrendo menores perdas na linha ou evitando-se sobredimensionamento dos condutores e equipamentos. ▪ Há possibilidade de instalação de cargas adicionais no sistema (liberação de capacidade instalada), sem necessidade de aumento das potências nominais dos equipamentos existentes no sistema (gerador, linha de transmissão, etc). ▪ Adiamento de dispêndio de capital para melhoria e expansão do sistema. São mostrados na Fig. 6.5 os triângulos de potências correspondentes às situações de antes e de após a correção. Fig. 6.5. Triângulos de potências antes (S, P, Q) e após a correção (S’, P, Q’). A potência ativa P permanece constante. A potência reativa cai de Q para Q’, de modo que a potência reativa e a capacitância do banco de capacitores são dadas por: '' tan- tanPQQQC (6.12) 2 2 N C N C UC X U Q (6.13) 22 N C Uf Q C (6.14) As grandezas f e UN são, respectivamente, a frequência e a tensão nominal do sistema. A principal vantagem do uso de capacitores em derivação são o baixo custo e a flexibilidade de instalação e operação, podendo ser aplicados em diversos pontos do sistema. A principal desvantagem é o fato de que a potência reativa a eles associada, QC, é proporcional ao quadrado da tensão, como é mostrado em (6.13). Assim, em caso de tensão baixa, a potência reativa é reduzida a baixos valores quando deveria ser maior. Chagas – DEE/UFCG 86 Vários fatores determinam a localização dos capacitores, podendo ser citados o tipo e comprimento dos circuitos, tipos de motores, assim como variação e distribuição das cargas. Assim, os bancos de capacitores podem ser instalados da seguinte forma: ▪ no primário do transformador; ▪ no secundário do transformador; ▪ no quadro de distribuição das cargas; ▪ junto às cargas. O ideal é que os capacitores sejam localizados o mais próximo possíveldas cargas, ou nas extremidades dos circuitos, de modo a reduzir as perdas ôhmicas, melhorar os níveis de tensão nas cargas e melhorar o nível de aproveitamento da capacidade dos transformadores. Entretanto, a dispersão das unidades capacitivas requer maior custo de instalação, em face da necessidade de quadros de instalação e equipamentos de proteção e manobra. Essa observação indica a necessidade de observação da relação custo-benefício pretendida. Em circuitos trifásicos, os capacitores podem ser ligados em delta ou em estrela (aterrada ou não). Recomendações e detalhes acerca de formas de ligação, de dimensionamento e de proteção de bancos de capacitores em derivação são fornecidos em MAMEDE FILHO (2005). Capacitores em Série A instalação de capacitores em série com a carga, como ilustra a Fig. 6.6, também causa aumento do fator de potência. Isto se explica pelo fato de que a instalação tem parte de sua reatância indutiva cancelada, aproximando-se de um circuito em condição de ressonância. Fig. 6.6. Banco de capacitores instalado em série com a carga. Os diagramas fasoriais da Fig. 6.7 ilustram as situações correspondentes ao banco de capacitores desligado (S fechada) e ao banco ligado (S aberta). Observa-se que, com S aberta, cos ’ > cos , e também que US’ < US (redução na queda de tensão ao longo da linha). Chagas – DEE/UFCG 87 Na Fig. 6.7(b), como o fasor -jXC I acha-se em oposição a jX I, o capacitor funciona como um regulador de tensão, pois produz uma redução na queda de tensão quando a carga aumenta. Isto fica claro ao lembrar que a potência reativa gerada pelo capacitor é dada por XC I2. Fig. 6.7. Diagramas fasoriais do circuito da Fig. 5.6; ( a ) S fechada; ( b ) S aberta. Entretanto, a instalação de capacitores em série para correção de fator de potência pode trazer problemas devido ao fato de que há propensão para o surgimento de ferroressonância e de oscilações subsíncronas em instalações com motores elétricos. Exemplo: Um transformador trifásico de 250 kVA, 13800 V – 380 / 220 V, delta-estrela aterrada, está funcionando a plena carga com fator de potência igual a 0,85 em atraso. (a) Qual a capacitância necessária para corrigir o fator de potência para 0,98 atrasado? (b) Se o primário do transformador é ligado a uma linha de impedância em série igual a 4 + j 5 , quais os valores das quedas de tensão ao longo da linha antes e após a correção? (c) Quais os valores das perdas ôhmicas ao longo da linha antes e após a correção? (d) Após a correção, é instalada outra carga em paralelo à carga existente, com fator de potência igual a 0,85 em atraso. Qual o máximo valor de potência ativa dessa nova carga, sem que haja sobrecarga no transformador? Solução – ( a ) Considerando o triângulo de potências da Fig. 6.5, tem-se: 53,0,8,31,85,0 sencos o kW5,21285,0250 xcosSP kvar5,13253,0250 xsenSQ 20,0',5,11',98,0' sencos o kvar2,435,11.5,212'' otan tan P.Q kVA8,216 98,0 5,212 ' ' cos P S < 250 kVA Chagas – DEE/UFCG 88 Assim, há liberação de carga no transformador. kvar3,892,435,132' QQQC (Potência total dos capacitores, trifásica). Supondo o banco ligado em estrela, a capacitância equivalente por fase é dada por: mF6,1 220602 89,3/3 2 3/ 22 xxUf Q C N C ( b ) Antes da instalação do banco, a corrente era: A4,10 138003 250000 xU S I S Depois da correção, a corrente passa a ser: A1,9 138003 216800' ' xU S I S Da expressão (6.6), as quedas de tensão antes e depois da correção são, respectivamente: 9,6253,0585,04(4,10 xxxU V 8,442,0598,04(1,9 xxxU' V Em percentagem de UR (13800/3 V), tem-se: %56,0,%79,0 '%% UU ( c ) As perdas antes e depois da correção valem, respectivamente: 6,4324,104 22 xIRPL W , 2,3311,94' 22' xIRPL W Assim, a redução percentual das perdas é: %4,23 6,432 2,3316,432 100,% xPL W ( d ) Com o banco de capacitores e as cargas em paralelo, tem-se os triângulos de potência da Fig. 6.8. Para a carga adicional, tem-se: o AAcos 8,3185,0 Fig. 5.8. Triângulos de potências das cargas. Chagas – DEE/UFCG 89 Neste caso, S’’ = S = 250 kVA, pois o transformador volta a operar a plena carga. Para o triângulo maior, tem-se: 222 )()( SQQ'PP AA 22o2 250)31,8(43,2)(212,5 tanPP AA PA = 29,8 kW É importante observar que, mesmo com a instalação da nova carga, o fator de potência continua maior que 0,92, ou seja: 97,0 250 8,295,212 " S PP cos A 2.3. Utilização de Auto-Boosters O auto-booster consiste em um transformador de distribuição cujo enrolamento secundário é ligado em série com a linha, como é mostrado na Fig. 6.9. Com esse arranjo, a tensão do lado da carga pode ser aumentada ou diminuída, conforme a polaridade do enrolamento em série. A vantagem apresentada por esse equipamento em relação aos demais é o baixo custo. Fig. 6.9. Diagrama esquemático de um auto-booster. 2.4. Utilização de Reguladores Automáticos de Tensão Os reguladores automáticos de tensão são equipamentos usados em subestações ou linhas de distribuição longas, principalmente as rurais. Consiste em um autotransformador com várias derivações no enrolamento em série, como é mostrado na Fig. 6.10, as quais podem ser comutadas com o equipamento em carga. Uma chave de reversão de polaridade permite somar ou subtrair a tensão no enrolamento em série, de modo a estabelecer variações de até ±10%, em 32 degraus. O comutador de derivações tem por finalidade manter a tensão num valor predeterminado em certo ponto da linha, o qual é denominado ponto de regulação. Na prática, os comutadores apresentam-se mais complexos. Entretanto, para fim de compreensão do princípio básico de funcionamento do equipamento, este modelo é satisfatório. Chagas – DEE/UFCG 90 Fig. 6.10. Diagrama básico de um regulador de tensão. O regulador de tensão da Fig. 5.10 é associado a um circuito de controle automático como o mostrado na Fig. 6.11, qual é alimentado por um transformador de potencial e um transformador de corrente. Fig. 6.11. Diagrama básico de um regulador de tensão. Esse circuito é composto pela associação em série do resistor e indutor indicados, além de um relé regulador automático de tensão (conhecido como relé de regulação de tensão ou relé 90), que monitora a tensão do secundário do transformador e comanda as operações de comutação de tape como é desejado. A tensão aplicada ao relé, U, é igual à tensão no secundário do TP (proporcional é tensão no início do alimentador) mais a queda de tensão na associação em série RX (U´, que é proporcional à queda de tensão na linha), ou seja: CPP KKK PP'P IZ U U U U (6.15) Os valores da impedância Z no relé são ajustados de modo a corresponder diretamente à impedância ZL do sistema. Assim, em caso de queda de tensão causada por aumento de carga, a tensão U varia, o relé 90 compara a tensão de entrada com o valor de ajuste. Caso a diferença de tensão for maior que certa tolerância, é emitido um sinal de saída para comutação automática de tape, a qual é realizada por motores que respondem ao comando do relé para ajustar a tensão dentro de um nível especificado. O sinal na saída do relé é dado por: Chagas – DEE/UFCG 91 referro UUU (6.16) A tensão Uref é a tensão do ponto de regulação do sistema. É conveniente que se estabeleça um retardamento Td entre os instantes de ocorrência da queda de tensão e do envio do sinal do relé para o comutador. Para isso, é usado um relé auxiliar de tempo. Assim, para variações transitórias de tensão com duração inferior a Td o comutador não atua. Outra função desse retardamento consiste em permitir a coordenação de reguladores em série, de modo que o regulador mais próximo da fonte opere mais rápido, poupando o subsequente de operação desnecessária. Valores típicos de Td acham-se situados na faixa de 30 s a 60 s. É mostrado na Fig. 6.12 o diagrama de blocos do circuito de controle do regulador auto- mático de tensão. Fig. 6.12. Diagrama de blocos do circuito de controle do regulador automático de tensão Os reguladores de tensão podem ser monofásicos ou trifásicos. Para prevenir o consumo prematuro dos contatos do comutador em caso de sobrecarga, alguns reguladores apresentam uma função adicional que bloqueia o funcionamento do comutador, caso a corrente da linha esteja acima do de certo valor. 3. Controle de Tensão em Sistemas de Transmissão 3.1. Considerações Gerais O controle de tensão em partes do sistema próximas a unidades geradoras é realizado pelos reguladores automáticos de tensão, que controlam a corrente de excitação nos enrolamentos de campo das máquinas, de modo a manter a tensão dentro dos limites estabelecidos. Nas demais partes da rede, existem maneiras alternativas de controlar a tensão. Os dispositivos mais comumente empregados para essa finalidade podem ser classificados do seguinte modo: Chagas – DEE/UFCG 92 ▪ dispositivos de fornecimento ou consumo de potência reativa (reatores em derivação, capacitores em derivação, compensadores síncronos, compensadores estáticos); ▪ compensadores de reatância da linha, como os capacitores em série; ▪ transformadores com mudança de derivação em carga. Esses métodos são descritos a seguir. 3.2. Dispositivos de Fornecimento ou Consumo de Potência Reativa Reatores em Derivação Reatores em derivação são usados para compensar o efeito da capacitância distribuída das linhas que operam em carga leve (efeito Ferranti), produzindo abaixamento da tensão ao longo da mesma para valores dentro dos limites permissíveis, mediante consumo de reativos. São usados em linhas aéreas com mais de 200 km de comprimento. No caso de linhas a cabo isolado, onde a capacitância distribuída é maior, os reatores são usados para linhas bem mais curtas. Formas de ligação típicas são mostradas na Fig. 6.13. Fig. 6.13. Formas possíveis de compensação de uma linha por reator em derivação. (a) Conexão direta; (b) conexão no terciário de transformador. Linhas de extra-alta tensão com comprimento inferior a 200 km também podem requerer compensação no caso em que o terminal emissor for de fraca alimentação. De acordo com a Fig. 6.14, se o disjuntor da barra receptora é aberto, além de ocorrer elevação de tensão na barra C (efeito Ferranti), também é observado aumento da tensão na barra B. Nesse caso, a compensação é feita em ambos os terminais, como é mostrado na Fig. 6.15. Fig. 6.14. Linha de transmissão ligada a um terminal de fonte fraca. Chagas – DEE/UFCG 93 Fig. 6.15. Reatores ligados a linha de transmissão com terminal de fonte fraca. Esses reatores normalmente apresentam núcleo de ferro imerso em óleo com entreferro não magnético. Podem ser monofásicos ou trifásicos. Alguns possuem enrolamentos providos de tapes, proporcionando diferentes valores de reatância. Capacitores em Derivação Os capacitores em derivação são usados para reduzir as perdas na transmissão e as quedas de tensão em condições de carga pesada, mediante injeção de reativos na rede. Os bancos de capacitores podem ser distribuídos ao longo do sistema, sendo ligados diretamente às barras de alta tensão ou a enrolamentos terciários de transformadores, como é mostrado na Fig. 6.16. Eles podem ser chaveados manualmente ou de modo automático. Fig. 6.16. Formas de ligação de bancos de capacitores a uma linha de transmissão. Compensadores Síncronos Na Fig. 6.17 é mostrada uma máquina síncrona ligada a uma barra infinita. Desprezando as perdas, pode ser escrito para a potência complexa fornecida à barra: QjP *IUS (6.17) Fig. 6.17. Gerador ligado a uma barra infinita. Chagas – DEE/UFCG 94 A variável é o ângulo de torque da máquina e E é a tensão interna da máquina, que depende no nível de excitação imposto pela corrente de campo. Além disso, tem-se: dXj UE I (6.18) Substituindo (6.18) em (6.17), pode-se tirar para as potências ativa e reativa: sen X UE P d (6.19) UcosE X U Q d (6.20) O controle do fluxo da potência ativa P é realizado através de variação no ângulo de torque, , aumentando-se ou diminuindo-se o conjugado mecânico exercido pela turbina sobre o gerador, ou pelo motor sobre a carga mecânica acoplada ao eixo. Assim, de (6.19): ▪ se > 0, então P > 0; assim, a máquina funciona como gerador, fornecendo potência; ▪ se < 0, então P < 0; assim, a máquina funciona como motor, recebendo potência; ▪ se = 0, então P = 0; assim, a máquina funciona com rotor livre. Da expressão (6.20), vê-se que se for pequeno (caso mais comum na prática), a potência reativa é pouco sensível a variações de cos . Assim, a principal forma de controlar Q consiste em variar E, alterando-se a corrente de excitação no enrolamento de campo da máquina. A conclusão a que se chega é que a máquina síncrona pode ser usada para compensação de reativos. Para isto, são empregados motores síncronos girando sem carga mecânica no eixo, de modo a absorverem apenas uma pequena quantidade de potência ativa, necessária para suprir as perdas internas. Mediante controle da corrente de campo, eles podem absorver ou gerar reativos. Através de um regulador de tensão, é possível ajustar automaticamente a potência reativa no sentido de manter a tensão constante no seu ponto de ligação. São geralmente ligados ao sistema através de enrolamentos terciários de transformadores. Uma vez que o compensador opera absorvendo uma potência ativa desprezível, a expressão (6.20) indica que U e E estão aproximadamente em fase e = 0o; assim, pode-se escrever: X UE UQ (6.21) Conclui-se, pois, que se E > U (máquina superexcitada), há injeção de reativos no sistema. Se E < U (máquina sub-excitada), o sistema fornece reativos ao motor. Chagas – DEE/UFCG 95 Uma forma de ligação usual de um compensador síncrono é mostrada na Fig. 6.18. Fig. 6.18. Compensador síncrono ligado a um barramento. Além do fluxo de reativos poder se verificar nos dois sentidos, ele pode ser variada de modo contínuo e suave, ao contrário dos capacitores e indutores em derivação. Outra vantagem é que a potência reativa absorvida ou gerada não depende da tensão do sistema. Porém, os compensadores síncronos apresentam as seguintes desvantagens:▪ são relativamente caros; ▪ têm partes rotativas e sistema de excitação adicional, o que requer manutenção frequente; ▪ contribuem para aumentar o nível de curto-circuito, funcionando como um gerador, pois durante a ocorrência da falta a inércia do rotor faz com que haja um efeito semelhante ao de uma turbina, enquanto que o campo permanece excitado; ▪ podem perder o sincronismo em caso de variação brusca da tensão. Compensadores Estáticos Existem diversos tipos de compensadores estáticos. Aqui serão vistos dois tipos: o de reator saturável e o de reator controlado por tiristor (RCT). O compensador de reator saturável consiste na associação em paralelo de um indutor não linear com um banco de capacitores, como é mostrado na Fig. 6.19 As características tensão-corrente dos elementos individuais e a característica resultante do compensador estático são mostradas na Fig. 6.20. Como os elementos se acham em paralelo, para um mesmo valor de tensão, as correntes que neles circulam se somam. Observa-se que no primeiro quadrante a característica do compensador é predominantemente indutiva; já no segundo quadrante, a característica torna-se capacitiva. Chagas – DEE/UFCG 96 Fig. 6.19. Compensador de reator saturável. Fig. 6.20. A característica tensão-corrente de um compensador estático de núcleo saturável. Considerando um valor de tensão de referência no barramento, Uo, se há uma queda de tensão, o ponto de operação move-se para o segundo quadrante e o compensador passa a funcionar como um capacitor, injetando reativos na barra. Se ocorrer um aumento de tensão, o ponto de operação move-se para o primeiro, e o compensador passa a retirar reativos da rede, funcionando como um indutor. Na Fig. 6.21 é mostrado o esquema básico de um compensador estático com reator controlado a tiristores. Mediante variação do ângulo de disparo dos tiristores, é possível controlar a corrente no reator, cujo valor eficaz varia de zero até um valor máximo. Na Fig. 6.22, verifica-se que: ▪ se o ângulo de disparo for 90o, os tiristores conduzem plenamente uma corrente I90 e o reator controlado tem o comportamento de um reator convencional; assim, predomina o efeito indutivo na associação LC em paralelo da Fig. 6.21; ▪ se o ângulo de disparo for 180o, os tiristores são bloqueados; logo, a associação LC em paralelo assume caráter capacitivo; Chagas – DEE/UFCG 97 ▪ entre 90o e 180o, os tiristores ficam em estado de bloqueio durante parte do ciclo, conduzindo correntes não senoidais em outra parte (por exemplo, I120 e I150). Fig. 6.21. Compensador estático com reator controlado por tiristor (RCT). Fig. 6.22. Princípio de funcionamento de um compensador estático com RCT. A característica tensão-corrente de um compensador com RCT pode ser entendida quando se imagina que o controle por tiristor funciona como a reatância do reator fosse variada, com é mostrado na Fig. 6.23. O desempenho de um RCT é analisado tomando-se o circuito equivalente de Thévenin visto da barra a qual se acha ligado o compensador, o qual é mostrado na Fig. 6.24. Considerando a impedância de Thévenin e a impedância equivalente do compensador, XTH e XSL, têm-se: IXUU TH TH (6.22) IXUU SL o (6.23) Chagas – DEE/UFCG 98 Assim, a forma de operação do compensador é descrita na Fig. 6.25. A tensão de referência do barramento é Uo e o ponto de operação é A (cruzamento das duas características). Fig. 6.23. Composição da característica de um compensador estático com RCT. Fig. 6.24. Circuito de Thévenin de um compensador estático com RCT ligado a uma barra. Fig. 6.25. Descrição da operação de um compensador estático com RCT. Chagas – DEE/UFCG 99 Se ocorrer aumento de tensão, o ponto de operação passa a ser B, no primeiro quadrante; assim o compensador retira reativos da rede e a tensão retorna ao valor Uo. Se ocorrer queda de tensão, o ponto de operação passa a ser C, no segundo quadrante; assim o compensador injeta reativos da rede e a tensão Uo é restabelecida. Os compensadores estáticos têm substituído os compensadores síncronos com diversas vantagens (não possuem partes móveis, não contribuem para aumentar os níveis de curto- circuito, são mais facilmente controláveis, entre outras). A desvantagem é a introdução de harmônicos na rede, requerendo o uso de filtros. 3.3. Capacitores em Série Inicialmente, será considerado UR = UR 00 no sistema mostrado na Fig. 5.26. Em seguida, é traçado o diagrama fasorial da Fig. 6.27. Fig. 6.26. Linha de transmissão ligada a uma barra infinita. A partir desse diagrama, pode-se escrever: cosIXsenU S θ (6.24) senIXUcosU RS θ (6.25) Fig. 6.27. Diagrama fasorial de corrente e tensões do circuito da Fig. 5.26. De (6.24) e (6.25), considerando as definições de potência ativa e reativa em condições senoidais, chega-se a: θsen X UU P SR (6.26) X UcosUU Q RSR 2θ (6.27) Chagas – DEE/UFCG 100 Considerando a expressão (6.26), se UN é a tensão nominal da linha, pode-se escrever para a potência ativa transmitida através da mesma: θθ 2 ensPsen X U P MAX N (6.28) Na Fig. 6.28 é mostrada a variação de P em função do ângulo de abertura da linha, . Observa-se que o controle do fluxo de potência entre as duas barras é controlado mediante variação de , aumentando-se a potência mecânica Pm fornecida ao gerador pela turbina, a qual é convertida na potência elétrica P. Essa potência mecânica corresponde à reta horizontal indicada. Fig. 6.28. Potência ativa transmitida através de uma linha em função do ângulo de carga, . Observa-se que a máxima quantidade de potência ativa que teoricamente pode ser transmitida, PMAX, corresponde ao valor = 90o. Caso a potência mecânica aumentasse além desse valor, resultaria Pm > P, de modo que o gerador tenderia a acelerar, perdendo estabilidade. Assim, teoricamente, a máxima potência ativa que a linha pode transmitir é: X U P NMAX 2 (6.29) Recomenda-se operar com uma margem de segurança, ou seja, com < 90o. Assim, se = 70o, a linha transmite cerca de 94% de sua capacidade máxima de transporte teórica. De (6.29), é possível ver que a máxima capacidade de transporte de uma linha aumenta com o quadrado de sua tensão de operação. Outra constatação é que essa capacidade é inversamente proporcional à sua reatância indutiva em série. Assim, para uma determinada tensão nominal, a forma de aumentar a capacidade de transporte de uma linha é instalar capacitores em série, tal como é mostrado na Fig. 6.29. Chagas – DEE/UFCG 101 Fig. 6.29. Linha compensada por capacitores em série – (a) no meio de linha; (b) nos extremos. O percentualde compensação em uma linha de reatância indutiva em série XS é dado por: S C X X P 100% (6.30) A compensação de 100% (integral, com XC = XS) nunca é empregada, sendo recomendado não se ultrapassar 80%, para evitar problemas de estabilidade no sistema, assim como problemas no desempenho de relés de proteção da rede. Um problema causado pela compensação por capacitores em série é a ressonância sub- síncrona (JUSAN, 2007). Nos geradores o sistema de eixos acoplados do conjunto turbina- gerador pode ser avaliado como um sistema elástico massa-mola equivalente com frequências naturais de torção que variam entre 10 e 40 Hz. O fenômeno da ressonância subsíncrona ocorre quando a diferença entre a frequência de operação da rede e a frequência natural do sistema elétrico é próxima de uma das frequências torcionais do eixo turbina-gerador, resultando em forte acoplamento entre os sistemas elétrico e mecânico. O resultado pode ser a produção de torques de elevada intensidade no eixo turbina-gerador, o que pode causar fadiga mecânica e dano. Tal situação pode ocorrer no caso de geradores ligados a linhas com compensação por capacitores em série, uma vez que estes produzem drástica variação na frequência natural do sistema elétrico. Para entender isto, é considerado o sistema da Fig. 6.30. Fig. 6.30. Linha de transmissão com compensação por capacitor em série ligada a uma barra infinita. Com a compensação em série, a frequência natural de oscilação do sistema é dada por: LC n 1 (6.31) Multiplicando pela frequência da rede, , tem-se: L C n X X CL )() (6.32) Para as frequências em Hz, resulta: Chagas – DEE/UFCG 102 L C n X X ff (6.33) Como XC< XL, a frequência natural de oscilação do sistema é menor que a frequência da rede, também denominada frequência síncrona, (fn < f ), o que explica a expressão oscilações subsíncronas. 3.4. Transformadores com Mudança de Derivação em Carga Praticamente todos os transformadores usados nos sistemas de transmissão - e muitos nos sistemas de distribuição - possuem derivações em um ou mais enrolamentos para mudança na relação de espiras, com o objetivo compensar as variações de tensão do sistema. Em muitos transformadores a comutação de derivações pode ser feita com ele fornecendo energia a uma carga. Essa variação pode ser de 10% ou 15% da tensão nominal do enrolamento considerado. O processo de comutação de derivação em condição de carga é realizado por um circuito de controle automático idêntico ao apresentado pelos reguladores automáticos de tensão usados em circuitos de distribuição, descritos no item 2.4. 4. Estabilidade de Tensão 4.1. Considerações Gerais Define-se estabilidade de tensão como a capacidade de um sistema elétrico em manter valores de tensão aceitáveis e estáveis em todas as barras do sistema, tanto em condições normais de operação como após a ocorrência de um distúrbio, aumento de demanda de carga ou alterações na configuração do sistema (KUNDUR, 1993). Em determinadas situações, tais eventos podem causar progressiva e incontrolável queda de tensão. Normalmente, a causa principal do problema é a queda de tensão provocada pela circulação de potência ativa e reativa nas indutâncias das linhas da rede. Assim, o sistema torna-se incapaz de atender à demanda de potência reativa da carga. Assim, uma rede elétrica funcionando em uma determinada condição de operação e sujeito a uma perturbação é dito estável sob o ponto de vista de tensão se as tensões nos terminais das cargas assumem valores estáveis e dentro dos limites admissíveis após a perturbação. Caso ocorra o contrário, a rede sofre um colapso de tensão. Os fenômenos de instabilidade de tensão são quase sempre aperiódicos (não oscilatórios). Chagas – DEE/UFCG 103 4.2. Formulação Básica Para se ter uma visão introdutória do problema é considerado o sistema da Fig. 6.31, no qual se considera a tensão da fonte fixa e a tensão na carga variável. A variação da potência transmitida é estabelecida através de mudança no valor do módulo da impedância da carga, ZR. Fig. 6.31. Sistema utilizado para ilustrar a instabilidade de tensão. O módulo da corrente é dado por: 22 )φθ()φθ( senZsenZsenZcosZ U I RLRL S (6.34) Dividindo o numerador e o denominador por ZL, após algumas manipulações algébricas, pode-se escrever: L S L R L R Z U Z Z cos Z Z I 2 φ-θ21 1 (6.35) A corrente de curto-circuito nos terminais da carga é: L S CC Z U I (6.36) Assim, tem-se: 2 φ-θ21 1 L R L R CC Z Z cos Z ZI I (6.37) A tensão nos terminais da carga é; S L R L R L R RR U Z Z Z Z cos Z Z IZU 2 φ-θ21 1 (6.38) L R L R L R S R Z Z Z Z cos Z ZU U 2 φ-θ21 1 (6.39) Chagas – DEE/UFCG 104 A potência ativa fornecida à carga é nula para duas condições extremas: ZR = 0 e ZR = (curto-circuito e circuito aberto). Para ZR = ZL, a potência transmitida será máxima; assim, são obtidas as curvas normalizadas de corrente, tensão e potência da Fig. 6.32. Fig. 6.32. Curvas normalizadas de corrente, tensão no receptor e potência transmitida para o sistema da Fig. 6.31. Observa-se que a potência transmitida aumenta rapidamente a partir de zero á medida que ZR diminui, sendo a taxa de aumento reduzida antes de o valor máximo ser atingido (ZR = ZL). A condição de funcionamento crítico correspondente à potência máxima representa o limite de funcionamento satisfatório. Para uma demanda de potência superior, o controle da potência por variação da carga é instável, ou seja, uma diminuição na impedância da carga reduz a potência. A tensão cai progressivamente e o sistema começa a tornar-se instável, dependendo das características da carga. Com uma carga representada por impedância constante, o sistema estabiliza em níveis de potência e tensão mais baixos que o desejado. Por outro lado, com uma carga do tipo potência constante, o sistema torna-se instável através do colapso da tensão nos terminais da carga. Se a carga é alimentada através de transformadores com mudança de derivação em carga, a ação deverá ser no sentido de tentar aumentar a tensão na carga. Isto implica na redução de ZR vista do sistema, o que diminui ainda mais UR, levando a um progressivo abaixamento da tensão. Assim, tem-se uma situação de instabilidade de tensão no sistema. Chagas– DEE/UFCG 105 4.3. Curvas P-U Um dos métodos de análise de estabilidade de tensão mais usados baseia-se na utilização das curvas P-U. Este método determina os limites de carregamento em regime permanente relacionados à estabilidade de tensão, podendo ser usado juntamente com programas de fluxo de potência para realização de estudos de redes elétricas em regime permanente. No sistema da Fig. 6.31 é agora considerado ZL = j X, sendo a tensão US ainda mantida constante. Para a potência complexa na linha, pode-se escrever: IU R * R IUS (6.40) )1()( tanj Pj sencosIU RS (6.41) Eliminando de (6.26) e (6.27) mediante a identidade sen2 + cos2 = 1, obtém-se: 2 222 P X UU X U tanP RSR (6.42) Rearranjando, obtém-se a seguinte equação biquadrada: 012 222224 XPtanUU-PXtan U RSR (6.43) A solução de (6.43) é dada por: 2 42 42 S SS R UtanPXXP U tanXP U U (6.44) Esta expressão fornece duas soluções para um mesmo valor de potência ativa transmitida, como pode ser visto nas curvas da Fig. 6.33, traçadas para diferentes valores de cos . Fig. 6.33. Curvas P – U para diferentes valores de fator de potência. Chagas – DEE/UFCG 106 Em relação às curvas da Fig. 6.33, são feitas as considerações a seguir. ▪ Para certo valor de potência transmitida abaixo do máximo carregamento possível há duas soluções: uma para tensão mais elevada e corrente baixa, e outra para tensão mais baixa e corrente elevada. A primeira solução é a aceitável, pois corresponde a valores de tensão próximos ao valor da tensão nominal do sistema. ▪ Quanto maior for a compensação capacitiva na carga, mais elevada é a capacidade de transporte da linha. Também é observado que as tensões são mantidas em limites mais estreitos, ou seja, elas assumem valores próximos do valor da tensão nominal do sistema. Isso corrobora a afirmação de que é importante suprir a potência reativa no local da carga, ao invés de transportá-la através da linha. Bibliografia ABNT - NBR 5287 (1988). Para-raios de resistor não linear a carboneto de silício (SiC) para circuitos de potência de corrente alternada. ABNT- NBR 6936 (1992). Técnicas de ensaios elétricos de alta tensão ABNT - NBR 6939 (2000) - Coordenação do isolamento – Procedimento ABN - NBR 5419 (2001). Proteção de estruturas contra descargas atmosféricas. ABNT - NBR 5424 (2011). Guia de aplicação de para-raios de resistor não linear em sistemas de potência — Procedimento. 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Chagas – DEE/UFCG 107 DE JESUS, N. C., EIDT, N., COGO, J. R., DOMMEL, H. W. (2003). Investigação e diagnóstico da queima de para-raios em sistemas de distribuição: um caso de ferrorressonância, Seminário Brasileiro sobre Qualidade de Energia Elétrica (V SBQEE), Aracaju – SE, 17-20/08/2003. FERRACCI, P. (1998). Ferroresonance, Cahier Technique no 190, Schneider Electric. GREENWOOD, A. (1971). Electrical Transients in Power Systems, Wiley-Interscience, New York. IEC 61000-4-15 (2010). Electromagnetic compatibility (EMC) - Part 4-15: Testing and measurement techniques - Flickermeter - Functional and design specifications. JACOBSON, D. A. N. (2000). Field testing, modelling and analysis of ferroresonance in a high voltage power system, Doctor Thesis, Department of Electrical and Computer Engineering The University of Manitoba, Winnipeg, Manitoba, Canada. JUSAN, F. C. (2007). 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Cite as causas e características das sobretensões atmosféricas. 2. Em caso de surto atmosférico, explique o que poderá ocorrer nos isolamentos auto-regene- rativos caso a máxima tensão de suportabilidade dos mesmos seja excedida. 3. Diga o que significa índice ceráunico, curvas isoceráunicas e mapa isoceráunico. 4. Descreva de modo sucinto os sistemas de aterramento usados em prédios, usinas, subestações e linhas de transmissão. 5. Cite os principais cuidados que se deve ter em reação ao cabo de descida dos para-raios. 6. Diga o que são e para que servem os cabos OPGW (Optical Ground Wire). 7. Cite as vantagens e desvantagens dos para-raios tipo haste, de SiC e de ZnO. 8. Explique de modo sucinto o que é coordenação de isolamento. 9. O que é nível básico de Isolamento (NBI)? 10. Cite as causas e características das sobretensões de manobra. 11. Explique o que é tensão de restabelecimento transitória e descreva de modo sucinto suas formas de solicitação sobre o meio de extinção do arco de um disjuntor. 12. Explique o que é corrente subsequente, a qual surge durante o processo de interrupção de corrente por um disjuntor. 13. Explique o que é defeito quilométrico. Por que ele pode provocar solicitações dielétricas mais intensas que um defeito próximo ao disjuntor? 14. Explique as consequências da abertura não simultânea das fases em um disjuntor num circuito trifásico. 15. Explique o que é TCTRT e cite as quatro formas de definição dessa grandeza. 16. Explique o que são chopping currents e diga por que elas podem causar grandes estresses no meio dielétrico de um disjuntor. 17. Descreva as principais formas de atenuação das sobretensões de manobra. 18. Como as sobretensões de manobra ocorrem nas subestações isoladas a SF6? 19. Cite as causas e características das sobretensõessustentadas. 20. O que são faltas intermitentes (arcing faults ou arcing grounds)? 21. Na especificação de um para-raios, cite a precaução a ser tomada em relação às sobre- tensões sustentadas. 22. Em relação à forma de aterramento do neutro, como se deve dimensionar os para raios? Chagas – DEE/UFCG 109 23. O que é tensão nominal, tensão disruptiva na frequência industrial e tensão de reseal de um para raios. 24. Em relação à forma de aterramento do neutro, como operam os geradores e os sistemas de distribuição de concessionárias e os sistemas industriais? 25. O que é fator de aterramento num sistema trifásico? 26. Descreva o que ocorre quando um gerador perde carga subitamente. Qual a forma de atenuar os efeitos decorrentes? 27. O que é efeito Ferranti? Em que caso o mesmo ocorre de forma mais pronunciada? O que normalmente é feito para evita-lo? 28. O que é ferroressonância e quais as principais causas e consequências da ferroressonância? 29. Quais as principais formas de prevenção e de mitigação da ferroressonância? 30. Comente acerca da susceptibilidade do fenômeno de ressonância linear nos sistemas de distribuição de concessionárias e de indústrias. Chagas – DEE/UFCG 110 Apêndice 2 - Simulações Computacionais Usando o Simscape/Matlab As simulações a seguir devem ser realizadas através do toolbox Simscape/Matlab. É conveniente que o aluno explore ao máximo as potencialidades do aplicativo mediante análise e comentários dos resultados obtidos, variando as condições de operação do sistema. O osciloscópio do Simscape apresenta algumas limitações para impressão dos resultados. Nas simulações onde o multímetro não é usado, o aluno deverá usar no espaço de trabalho o comando plot(variável), onde variável são as correntes e tensões de saída, Ia, Ib, Ic, Va, Vb ou Vc, a fim de imprimir os gráficos em formato Matlab. 1. Considere o circuito da Fig. 1, o qual representa o equivalente monofásico de um sistema trifásico de 138 kV. O fenômeno analisado é a sobretensão provocada pela interrupção de corrente de um curto-circuito trifásico nos terminais do disjuntor. Os dados são os seguintes: ▪ Um = 112,7 kV, = - 90o (tensão de pico e ângulo de fase da tensão da fonte). ▪ R = 0,8 Ω, L = 12,6 mH (resistência e indutância da fonte). ▪ C = 1 µF (capacitância distribuída total do sistema). ▪ Tempo transcorrido para a abertura do disjuntor: 2 ms. ▪ Tempo total de simulação: 0,16 s. 2. Considere o circuito da Fig. 2, o qual representa o equivalente monofásico de um sistema trifásico de 230 kV. O fenômeno a ser analisado é a sobretensão provocada pela interrupção de corrente de um curto-circuito trifásico que ocorre a curta distância do disjuntor (defeito quilométrico). Uma observação importante nessa simulação se refere à forma serrilhada da onda de tensão nos terminais do disjuntor. Os dados são os seguintes: ▪ Um = 187,8 kV, = - 90o (tensão de pico e ângulo de fase da tensão da fonte). ▪ R1 = 0,28 Ω, L = 19,5 mH (resistência e indutância do sistema alimentador). ▪ C1 = 8 µF (capacitância distribuída da seção 1 do sistema). ▪ R2 = 0, 06 Ω, L2 = 1,59 mH (resistência e indutância do trecho de linha). ▪ C2 = 24 nF (capacitância distribuída do trecho de linha). ▪ Tempo transcorrido para a abertura do disjuntor: 0,02 ms. ▪ Tempo total de simulação: 20 ms. 3. O circuito da Fig. 3 ilustra o processo de energização de uma linha de 230 kV e 100 km de comprimento, a qual é solicitada por uma sobretensão causada por energização realizada mediante chaveamento do disjuntor no lado de baixa tensão do transformador de 100 MVA, Chagas – DEE/UFCG 111 69/230 kV, o qual é do tipo núcleo de três colunas, com o primário ligado em delta e o secundário em estrela com neutro solidamente aterrado, com núcleo magnético linear (representado sem saturação). Os dados são os seguintes: ▪ U = 69 kV, = 0o (tensão RMS fase-fase e ângulo de fase da tensão da fonte). ▪ RT = 0,18 Ω, XT = j 2,64 Ω (resistência e reatância do sistema alimentador). ▪ R1 = 0,098 Ω/km, X1 = 0,510 Ω/km, Y1 = 3,252 µS/km (resistência, reatância e admitância de sequência positiva da linha, por km). ▪ R0 = 0,532 Ω/km, X0 = 1,541 Ω/km, Y0 = 2,293 µS/km (resistência, reatância e admitância de sequência zero da linha, por km). ▪ Rpri = 0,01523 pu, Lp = 0,1977 pu (resistência e indutância do primário do transformador). ▪ Rsec = 0,00508 pu, Ls = 0,0659 pu (resistência e indutância do secundário do transformador). ▪ Rm = 636,7 pu (resistência de perdas no núcleo de ferro do transformador). ▪ Lm = 1,77 pu (indutância de magnetização). ▪ L0 = 0,5 pu (indutância de sequência zero do transformador). ▪ ts = 16,67 ms (tempo de abertura do disjuntor, Ron = 0,01 Ω, Rs = ∞, Cs = 0). ▪ Tempo total de simulação: 0,3 s. 4. Repetir a simulação 3, considerando ainda o transformador linear, e agora, o modelo de linha trifásica em pi, de parâmetros concentrados, existente no Simscape. 5. Repetir a simulação 3, considerando a linha de parâmetros distribuídos e, agora, o transformador não linear, cuja curva de saturação é descrita pelas coordenadas fornecidas a seguir (corrente excitação de pico – fluxo de enlace de pico), em (pu). [ 0, 0; 0.0739, 0.1309; 0.0983, 0.1964; 0.1205, 0.2618; 0.1405, 0.3273; 0.1597, 0.3928; 0.1767, 0.4582; 0.1938, 0.5237; 0.2093, 0.5891; 0.2248, 0.6546; 0.2404, 0.7200; 0,2589, 0.7855; 0.2885, 0.8510; 0.3395, 0.9164; 0.4282, 0.9819; 0.6177, 1.0473; 1.1673, 1.1128; 3.5766, 1.1783; 7.5889, 1.2110 ] 6. Repetir a simulação 5, considerando ainda o transformador não linear e, agora, o modelo de linha trifásica em pi, de parâmetros concentrados, existente no Simscape. 7. No circuito da Fig. 4 é mostrado um trecho de 300 m de comprimento de uma linha de distribuição de 75 kVA, 13,8 kV/220 V, no extremo receptor da qual acha se instalado um transformador trifásico ligado em delta-estrela com neutro aterrado e com secundário em vazio. É suposta a abertura da fase a, o que ocasiona o fenômeno de ferroressonância. O Chagas – DEE/UFCG 112 sistema alimentador de 13,8 kV possui potência de curto-circuito de 800 MVA e relação X/R (reatância/resistência) igual a 7. Os dados são os seguintes: ▪ R1 = 0,6726 Ω/km, X1 = 0,1793 Ω/km, C1 = 0,224e-6 µF/km (resistência, reatância e capacitância de sequência positiva da linha, por km). ▪ R0 = 1,6793 Ω/km, X0 = 0,6332 Ω/km, C0 = 0,124 µF/km (resistência, reatância e capacitância de sequência zero da linha, por km). ▪ Rpri = 59.417 Ω, Lpri = 0,31673 H (resistência e indutância do primário do transformador). ▪ Rsec = 0,005 Ω, Lsec = 2,68 x 10-5 H (resistência e indutância do secundário do transformador). ▪ Rm = 2 x 106 Ω (resistência de perdas no núcleo). ▪ L0 = 10,103 H (indutância de sequência zero do transformador). ▪ Conjunto de ordenadas da curva de magnetização linear, em termos de valores de pico de corrente e fluxo, expressas em A e V.s, respectivamente: [ 0, 0; 0.0038199, 36.29; 0.01515, 41.93; 0.029709, 46.95; 0.0589, 51.918; 0.11395, 56.94; 0.2374, 62.588 ]. ▪ ts = 33,33 ms, (tempo de abertura do disjuntor, Ron = 0,01 Ω, Rs = ∞, Cs = 0). ▪ Tempo total de simulação: 0,3 s. 8. Repetir a simulação do item anterior, considerando agora a abertura das fases a e b. 9. O circuito da Fig. 5 refere-se ao exemplo do item 5.6. O mesmo trata de uma situação de ferroressonância ocasionada pela abertura de um disjuntor próximo a três transformadores de potencial indutivos de 75 VA, 230/√3 kV / 115 V, ligados em estrela/estrela, com neutros aterrados, numa subestação de 230 kV. Neste caso, é possível obter resultados realísticos mediante representação por um circuito monofásico equivalente.Os dados são os seguintes: ▪ Um = 187,8 kV, = - 90o (tensão de pico e ângulo de fase da tensão do sistema alimentador). ▪ R = 0,115 Ω, L = 8,75 mH (resistência e indutância do sistema alimentador). ▪ C1 = 1,2 nF (capacitância de equalização equivalente do disjuntor). ▪ C2 = 3,5 nF (capacitância distribuída total do sistema). ▪ Rpri = 6920,4 Ω, Lp 0 (resistência e indutância do enrolamento primário do TPI). ▪ Rsec = 5,77 Ω, Ls = 0 (resistência e indutância do enrolamento secundário do TPI). ▪ R2 = 163,2 Ω, L2 = 0,268 H (resistência e indutância da carga no secundário do TPI). ▪ Conjunto de ordenadas da curva de saturação do TPI, em termos de valores de pico de corrente e fluxo, expressos em A e V.s, respectivamente: [0, 0; 0.02, 500; 0.05, 590; 0.1, 650; 0.18, 680; 0.3, 700; 0.6, 728; 1, 745; 1.5, 760; 2, 770; 3, 785; 4, 798; 6, 815; 10, 835; 20, 863]. ▪ Resistência de perdas no núcleo Rm = 157 x 106 Ω. Chagas – DEE/UFCG 113 ▪ ts = 33,33 ms, (tempo de abertura do disjuntor, Ron = 0,01 Ω, Rs = ∞, Cs = 0) ▪ Tempo total de simulação: 0,4 s. Figuras relacionadas às simulações Fig. 1 Fig. 2 Fig. 3 Chagas – DEE/UFCG 114 Fig. 4 Fig. 5