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Chagas – DEE / UFCG 65 UNIDADE III CIRCUITOS COM ACOPLAMENTOS MAGNÉTICOS 1. Introdução Estuda-se neste capítulo elementos de acoplamento magnético e circuitos que contêm esses elementos. Ao contrário dos resistores, capacitores e indutores não acoplados, tais dispositivos não possuem uma característica que possa ser associada a um só elemento físico, pois o acoplamento magnético resulta do compartilhamento das linhas de indução entre dois ou mais indutores fisicamente próximos. O estudo dos circuitos magneticamente acoplados serve de base para a teoria de máquinas elétricas, transformadores e demais equipamentos magnetelétricos. 2. Revisão de Conceitos Fundamentais 2.1 Fluxo de Enlace Fluxo de enlace ou fluxo concatenado em um enrolamento é o produto do número de espiras desse enrolamento, N, pelo fluxo Φ que efetivamente o atravessa, ou seja: Φ=λ N (3.1) No sistema internacional de unidades, λ é medido em Weber - espiras (Wb - t). Nos casos reais, o fluxo Φ sofre dispersão, ou seja, não é enlaçado por todas as espiras do enrolamento. Assim, diferentes fluxos, Φ1, Φ2, ...,Φn, podem ser enlaçados por diferentes espiras, sendo o fluxo de enlace dado por: nnNNN Φ+Φ++Φ=λ 2211 ... (3.2) São mostradas na Fig. 3.1 oito linhas de fluxo que atravessam uma bobina de cinco espiras, onde se supõe que cada linha corresponde a 1 Wb. Fig. 3.1. Linhas de fluxo que atravessam uma bobina. Chagas – DEE / UFCG 66 Duas dessas linhas atravessam apenas uma espira, contribuindo com um fluxo concatenado de 2 Wb-espiras. Outras duas linhas atravessam três espiras, contribuindo com 6 Wb-espiras. As quatro linhas restantes atravessam todas as cinco espiras, contribuindo com 20 Wb-espiras. Assim, o fluxo concatenado total é de 28 Wb-espiras. Se todas as linhas de fluxo atravessassem todas as espiras do enrolamento, o fluxo conca- tenado total seria de 8 Wb x 5 espiras = 40 Wb - espiras. Da equação (3.4), conclui-se que o efeito de dispersão do fluxo tende a reduzir a indutância própria da bobina. Este fato é evitado no projeto de equipamentos através da uniformização e redução do passo dos enrolamentos, dispostos em camadas, e da utilização de núcleos magnéticos constituídos por materiais de alta permeabilidade, de modo a minimizar a dispersão das linhas de fluxo, como mostra a Fig. 3.2. S é a área de seção reta e l é o comprimento médio da trajetória do fluxo magnético no núcleo. Fig. 3.2. Indutor com núcleo de material magnético. 2.2 Indutância Própria A lei de Faraday estabelece que uma variação de λ implica em uma força eletromotriz auto- induzida nos terminais do enrolamento, v, dada por: dt d N dt Nd dt d v Φ = Φ = λ = )( (3.3) A equação (3.3) também pode ser escrita como: dt id di d dt d v λ = λ = (3.4) Se este enrolamento encontra-se em um meio não magnético, dλ / di é constante, ou seja: idi d L λ = λ = (3.5) L é definida como sendo a indutância própria do enrolamento. No sistema internacional de unidades, é medida em Henry (H). Assim, resulta a expressão: dt id Lv= (3.6) A relação entre a densidade de fluxo ou indução magnética, B, e o campo magnético H é definida como sendo a permeabilidade magnética do material, µ: Chagas – DEE / UFCG 67 H B =µ (3.7) Pode-se também escrever: BSNN =Φ=λ (3.8) Pela lei circuital de Ampére, tem-se: H N l iiN =∴=∫ dlH . (3.9) O produto N i é denominado força magnetomotriz, medida em Ampéres - espiras. Assim, de (3.5), (3.7), (3.8) e (3.9), resulta: l SN L 2 µ= (3.10) Vê-se que a indutância própria é um parâmetro que depende apenas das dimensões geométricas da bobina e do núcleo (área de seção reta e comprimento), número de espiras e permeabilidade do material magnético. No projeto de um indutor, quando se quer aumentar L através do aumento da seção reta do núcleo e do número de espiras, encontram-se restrições em relação a tamanho e custo. Outra restrição é relacionada à permeabilidade do material do núcleo. Os materiais magnéticos encontrados na natureza apresentam a propriedade da saturação, a qual se manifesta do modo indicado na Fig. 3.3. Ao magnetizar o material da curva b a partir do estado de desmagnetização total, observa-se que o modo de variação da indução, B, em função do campo magnético aplicado, H, somente pode ser considerado linear até o ponto P1. A partir deste ponto, µ cai bruscamente. Isto ocorre com uma liga ferro-silício ou uma liga amorfa, por exemplo. Na mesma figura também é mostrada a curva de magnetização B - H de um material não magnético (curva a), como o ar. Pelas equações (3.8) e (3.9), deduz-se que a curva de magnetização λ - i de um indutor apresenta-se semelhante à curva B - H. Fig. 3.3. ( a ) Material não-magnético; ( b ) material magnético. Chagas – DEE / UFCG 68 Assim, além de certo valor de campo aplicado (ponto P2), são necessários incrementos cada vez maiores de H (ou de i) para uma mesma variação de B (ou de λ). Isto implica em variações muito acentuadas nos valores da permeabilidade µ e para a indutância L. Este fato leva a definir permeabilidade diferencial e indutância diferencial através das seguintes expressões: dH dB H =µ )( (3.11) di d iL λ =)( (3.12) As expressões (3.11) e (3.12) correspondem, respectivamente, às inclinações das curvas B - H e λ - i, as quais se reduzem significativamente à medida que H e i aumentam. Neste capítulo somente serão considerados os indutores lineares. 2.3 Indutância Própria e Energia Armazenada Considera-se que a bobina da Fig. 3.4 possui resistência R e indutância L. Fechando a chave em t = 0, com i(0) = 0 e λ(0) = 0, pode-se escrever: dt d iRv λ += (3.13) Fig. 3.4. Energização de uma bobina de resistência R e indutância L. O termo e = dλ/dt corresponde à força eletromotriz auto-induzida na bobina (também denominada força contra-eletromotriz), a qual possui uma polaridade determinada pela lei de Lenz. Assim, a força eletromotriz auto-induzida manifesta-se de forma tal a produzir um fluxo magnético que tende a contrariar as variações do fluxo associado à corrente imposta pela fonte. Se i está crescendo, o sentido de e estabelece-se de modo que o terminal superior da bobina da Fig. 3.4 apresenta sinal positivo e o terminal inferior apresenta sinal negativo. Se i está decrescendo, os sinais apresentam-se invertidos. Multiplicando ambos os membros de (3.13) por i dt: λ+= didtiRdtiv 2 (3.14) Considerando o período dt, o termo v i dt é a energia fornecida ao circuito pela fonte, o termo R i 2 dt é a energia dissipada pelo resistor e i dλ é a energia dWm armazenada no campo magnético da bobina isolada, estacionária e não deformável, ou seja: λ= didWm (3.15) Chagas – DEE / UFCG 69 A energia total armazenada é dada por: ∫ λ= m diWm λ 0 (3.16) Se o meio não contém materiais ferromagnéticos, L é constante. Como λ = L i, tem-se: ∫ == I m ILdiiLW 0 2 2 1 (3.17) onde I é a corrente de regime permanente do circuito. 3. Indutância Mútua 3.1 Definição A Fig. 3.5 mostra duas bobinas próximas, 1 e 2, sendo a bobina 1 percorrida por uma corrente variável i1, de modo a se estabelecer um fluxo magnético Φ1, o qual possui duas componentes: Φd1, que atravessa apenas a bobina 1, e Φm1, que atravessa as bobinas 1 e 2. Φd1 e Φm1 são denominados, respectivamente, fluxo de dispersão e fluxo de acoplamento. Supõe-se inicialmente a bobina 2 em aberto. Fig. 3.5. Bobinas magneticamenteacopladas. Sendo Φ1 = Φm1 + Φd1, os fluxos de enlace nas bobinas 1 e 2, produzidos por i1, são: 11111 iLN =Φ=λ (3.18) 112121 iMN mm =Φ=λ (3.19) O coeficiente de proporcionalidade M12 é denominado indutância mútua. Como no caso da indutância própria, ela depende da permeabilidade magnética do meio e das dimensões geométricas das bobinas. Além disso, M12 depende do posicionamento relativo das bobinas. No Sistema Internacional de Unidades, a indutância mútua é expressa em Henrys (H). 3.2 Indutância Mútua e Energia Armazenada Considerando duas bobinas estacionárias e magneticamente acopladas, colocadas num meio de permeabilidade constante, supõe-se o seguinte procedimento: Chagas – DEE / UFCG 70 a ) Liga-se uma fonte à bobina 1, aumentando-se a corrente i1, de 0 a I1, com a bobina 2 em aberto; após isto, com I1 mantida constante, liga-se outra fonte à bobina 2, aumentando- se a corrente i2 de 0 a I2. b ) Liga-se a fonte à bobina 2, aumentando-se a corrente i2, de 0 a I2, com a bobina 1 em aberto; após isto, com I2 mantida constante, liga-se outra fonte à bobina 1, aumentando- se a corrente i2 de 0 a I1. No procedimento ( a ), a energia armazenada na bobina 1 devido ao aumento de i1 é: ∫∫ ==λ λ 1 ' 1 0 2 11111 0 11 2 1 )( I ILiLdidi (3.20) Como a corrente na bobina 2 cresce de 0 a I2, com I1 mantida constante, ambas as bobinas armazenarão energia. A energia armazenada na bobina 2 face ao aumento de i2 é: ∫ λ λ ' 2 0 22 di Caso os fluxos de enlace estejam no mesmo sentido ou em oposição, tem-se: 112222 IMiL ±=λ (3.21) Como I1 é constante, pode-se escrever: 222 diLd =λ (3.22) Logo, a energia armazenada na bobina 2 é: ∫∫ ==λ 2 ' 2 0 2 22222 0 22 2 1 )( I ILiLdidi λ (3.23) Para os fluxos de enlace no mesmo sentido ou em oposição, tem-se para λ1: 221111 iMIL ±=λ (3.24) 2211 diMd ±=λ (3.25) A energia armazenada na bobina 1 devido ao aumento de i2 é: ∫∫ ±=±=λ λ 2 '' 1 0 21212211 0 11 )( I IIMdiMIdI (3.26) A energia total armazenada nas duas bobinas, Wm, após o procedimento ( a ) é dada pela soma de (3.20), (3.23) e (3.26), ou seja: 2121 2 22 2 11 2 1 2 1 IIMILILWm ±+= (3.27) Obviamente, se for realizado o procedimento ( b ), a energia total armazenada resultará em: 2112 2 22 2 11 ' 2 1 2 1 IIMILILWm ±+= (3.28) É fácil entender que Wm ’, pois a quantidade total de energia armazenada no campo magnético do sistema independe da ordem segundo a qual as correntes são incrementadas. Assim, resulta: 2112 MM = (3.29) Chagas – DEE / UFCG 71 4. Coeficiente de Acoplamento No circuito da Fig. 3.6, Φm1 e Φ m2 são os fluxos de acoplamento das bobinas 1 e 2. Φd1 e Φd2 são os fluxos de dispersão. Considerando i2 = 0, a tensão induzida na bobina 2 é dada por: dt d Nv m1 22 Φ = (3.30) Da expressão (3.19), N2 Φm1 = M12 i1; assim: dt id Mv 1 2 = (3.31) Fig. 3.6. Bobinas magneticamente acopladas. Igualando (3.30) e (3.31): 1 1 2 di d NM mΦ = (3.32) Se as bobinas se encontram em um meio onde não ocorre saturação magnética, pode-se considerar que Φm1 varia linearmente com i1; assim: 1 1 2 i NM mΦ = (3.33) Considerando agora i1 = 0 e uma corrente i2 circulando na bobina 2, o fluxo criado por esta bobina que atravessa a bobina 1 está associado à indutância mútua M, dada por: 2 2 1 i NM mΦ = (3.34) Define-se coeficiente de acoplamento entre as bobinas 1 e 2 como sendo a relação entre o fluxo compartilhado pelas duas bobinas e o fluxo produzido por cada uma delas, ou seja: 2 2 1 1 Φ Φ = Φ Φ = mmk (3.35) Por outro lado: 111 dm Φ+Φ=Φ (3.36) 222 dm Φ+Φ=Φ (3.37) Chagas – DEE / UFCG 72 Como Φm1 ≤ Φ1 e Φm2 ≤ Φ2, conclui-se que 0 ≤ k ≤ 1. Multiplicando membro a membro (3.33) e (3.34), obtém-se: 11 2 2 2 2 1 1 1 2 2 2 1 1 1 2 2 2 1 1 1 2 2 LLk i N i Nk i k N i k N i N i NM mm = Φ Φ = Φ Φ = Φ Φ = (3.38) 21 LLkM = (3.39) 5. Polaridades dos Enrolamentos 5.1 Corrente Induzida Na análise de circuitos contendo indutores acoplados magneticamente, é indispensável que se tenha informação acerca dos sentidos dos enrolamentos dos indutores, uma vez que isto influi diretamente nas polaridades das tensões associadas ao fenômeno da indução mútua. A Fig. 3.7(a) mostra o enrolamento 1 ligado a uma fonte e o enrolamento 2 ligado a uma carga passiva. A corrente i1 é suposta crescente no sentido indicado. O efeito produzido na bobina 1 consiste no surgimento de uma tensão v1 associada à indutância própria. Conforme foi visto anteriormente, esta tensão, denominada força eletromotriz auto-induzida, apresenta um sentido determinado pela lei de Lenz, estabelecendo-se de forma a se opor ao aumento de i1. ( a ) ( b ) Fig. 3.7. Influência dos sentidos dos enrolamentos nos sinais das tensões induzidas. O fluxo crescente Φ1, associado a i1, também atravessa a bobina 2, produzindo, pela lei de Lenz, um fluxo Φ2 cujo sentido é tal que se opõe ao crescimento de Φ1. Se os terminais da bobina 2 não se acham em aberto, surgirá na mesma uma corrente i2 cujo sentido é determinado pela conhecida regra da mão direita. Esta corrente acha-se associada a uma tensão induzida v2, com o sentido indicado em (a). A tensão v2 é chamada força eletromotriz induzida, sendo causada pela indutância mútua entre as duas bobinas. Na Fig. 3.7(b), o sentido do enrolamento 2 é oposto ao enrolamento 2 da Fig. 3.7(a). Supondo i1 crescendo no sentido indicado e usando o raciocínio descrito anteriormente, conclui-se que o sentido da força eletromotriz induzida v2 é oposto ao mostrado na Fig. 3.7(a). Entretanto, não é prático representar os circuitos mostrando os sentidos dos enrolamentos, uma vez que isto implica em detalhes que sobrecarregam os diagramas. Para contornar o problema, as são utilizadas as representações simplificadas da Fig. 3.8, mostradas a seguir. Chagas – DEE / UFCG 73 Tais simplificações consistem no seguinte: dois terminais de um par de bobinas magneticamente acopladas que apresentam mesma polaridade devem ser marcados com um ponto. Esses terminais de mesma polaridade são ditos correspondentes. ( a ) ( b ) Fig. 3.8. Representação simplificada das polaridades relativas dos enrolamentos. 5.2 Correntes Impostas por Fontes em Ambos os Enrolamentos Em relação à Fig. 3.7, considerando os terminais de mesma polaridade já identificados com pontos, supõe-se que ambos os enrolamentos são agora percorridos com correntes impostas por fontes externas, com os sentidos indicados na Fig. 3.9. Fig. 3.9. Determinação dos sentidos dos fluxos produzidos por correntes de diferentes sentidos. Neste caso, os sentidos das correntes no enrolamento 2 já não dependem do fenômeno de indução mútua, mas das polaridades das fontes. Para os sentidos das correntes nos enrolamentos, os sentidos dos fluxos por elas produzidos são determinados através da regra da mão direita. Assim, constata-se o seguinte fato: • Quando ambas as correntes entram ou saem nos terminais de mesma polaridade, elas criam fluxos no mesmo sentido. • Quando uma corrente entra num terminal com ponto e a outra sai, os fluxos são opostos. Chagas – DEE / UFCG 74 5.3 Teste de Polaridade – Método do Golpe Indutivo Uma formasimples de determinar em laboratório as polaridades dos enrolamentos consiste na utilização da montagem da Fig. 3.10, seguindo-se o procedimento descrito a seguir. • Marca-se um ponto no lado superior do enrolamento primário. No enrolamento secun- dário, liga-se um voltímetro CC (preferencialmente, do tipo com escala de zero central). • Fecha-se a chave e observa-se o sentido de deslocamento do ponteiro. Se o sentido for horário, o ponto no enrolamento secundário é marcado no terminal ligado ao borne positivo do voltímetro; caso contrário, o ponto é marcado no terminal ligado ao borne negativo. Fig. 3.10. Montagem para determinação de polaridades (método do golpe indutivo). 6. Circuitos com Acoplamento Elétrico e Magnético 6.1 Considerações Gerais Até aqui, somente foram considerados indutores com acoplamento puramente magnético. A partir de agora serão também considerados indutores eletricamente acoplados. Inicialmente, são consideradas ligações de dois indutores em série e em paralelo. Posteriormente, serão analisadas configurações mais gerais, as quais incluem resistores e capacitores. O funcionamento em regime permanente senoidal permite o emprego da análise fasorial. Assim, as expressões v = L di / dt e v = M di / dt serão substituídas por V = j ω L I e V = j ω M I, sendo j ω L e j ω M as reatâncias própria e mútua, respectivamente. 6.2 Indutores em Série Dois indutores magneticamente acoplados e ligados em série são mostrados na Fig. 3.11. ( a ) ( b ) Fig. 3.11. Indutores magneticamente acoplados ligados em série. Para as configurações ( a ) e ( b ), tem-se, respectivamente: Chagas – DEE / UFCG 75 IV )( 21 MjLjMjLj ωωωω ±+±= (3.40) )2( 21 MLLjI/ ±+== ωVZ (3.41) Isto sugere que, para os casos ( a ) e ( b ), as indutâncias equivalentes são, respectivamente: MLLL 221 ++= (3.42) MLLL 221 −+= (3.43) 6.3 Indutores em Paralelo O problema agora é determinar um indutor equivalente à associação de dois indutores em paralelo. A Fig. 3.12 mostra duas situações possíveis. ( a ) ( b ) Fig. 3.12. Indutores magneticamente acoplados ligados em paralelo. Aplicando a lei de de Kirchhoff das malhas no circuito da Fig. 3.12 (a): 2211 )( IIIV MjLj ωω +−= (3.44) )()(0 12222121 IIIIII −−+−−= MjLjMjLj ωωωω (3.45) Rearranjando os termos e colocando em forma matricial: −++− +− = 2 1 211 11 )2()( )( 0 I IV MLLjMLj MLjLj ωω ωω (3.46) Pela regra de Cramer: −++− +− −+ +− = )2()( )( )2(0 )( 211 11 21 1 1 MLLjMLj MLjLj MLLj MLj ωω ωω ω ωV I (3.47) VI )( )2( 2 21 21 1 MLLj MLL − −+ = ω (3.48) A impedância vista dos terminais da fonte é: )2( )( 21 2 21 1 MLL MLL j −+ − == ω I V Z (3.49) Chagas – DEE / UFCG 76 A indutância equivalente da associação é dada por: )2( )( 21 2 21 MLL MLL L −+ − = (3.50) Uma análise semelhante em relação à Fig. 3.12 ( b ) fornece: )2( )( 21 2 21 MLL MLL L ++ − = (3.51) Exemplo 1 - No circuito da Fig. 3.13, pede-se que se faça a marcação das polaridades dos indutores com pontos, bem como o cálculo da tensão sobre o capacitor. Fig. 3.13. Circuito do Exemplo 1. Solução - Considera-se a corrente penetrando no terminal superior da bobina esquerda e coloca-se aí um ponto. Pela regra da mão direita, o sentido do fluxo correspondente é de baixo para cima. Considera-se agora o fluxo produzido pela corrente da bobina da direita orientado de cima para baixo, no mesmo sentido do fluxo anterior. Para que isso ocorra, a corrente nesta bobina tem de penetrar no terminal superior. Logo, esse terminal deve também ser marcado com um ponto, pois, conforme foi anteriormente afirmado, se as correntes entram ambas em terminais correspondentes, elas produzem fluxos no mesmo sentido. Assim, o circuito é redesenhado como mostra a Fig. 3.14. Fig. 3.14. Circuito redesenhado do Exemplo 1. Chagas – DEE / UFCG 77 Convencionando as correntes de malha como o indicado e aplicando a lei de Kirchhoff das malhas, obtém-se: 1221 102)()55(10 IIII jjj −−++= )(2)55(2)()55(10-10 212221 IIIIII +−++−++= jjjjj Simplificando e colocando em forma de matriz: = ++ +− 10-10 10 61035 3555 2 1 jjj jj I I A primeira matriz desta equação (quadrada e simétrica) é denominada matriz impedância de malha. Aplicando a regra de Cramer e calculando VC: 0114 1 01,1 61035 3555 6101010 3510 je jj jj jj j = ++ +− +− + =I 024114 1 1,1001,11010 0 jj C eexjj =−=−= IV Exemplo 2: No circuito da Fig. 3.15, determinar Z, de modo que haja máxima transferência de potência nos terminais AB. Fig. 3.15. Circuito do Exemplo 2. Solução - Inicialmente, será determinado o circuito equivalente de Thévenin da Fig. 3.16, visto dos terminais AB. Fig. 3.16. Circuito equivalente de Thévenin. A impedância ZT é dada por Chagas – DEE / UFCG 78 N T I V ZT = A tensão VT é a tensão dos terminais AB em aberto, como é mostrado na Fig. 3.17. A corrente IN é a corrente em um curto-circuito nos terminais AB, como ilustra a Fig. 3.18. Fig. 3.17. Circuito com terminais AB em aberto. Fig. 3.18. Circuito com terminais AB em curto-circuito. Para o circuito da Fig. 3.17, são escritas as seguintes equações: IIIIIIIV )265(41010485 jjjjjj +=+++++= ∴ 265 j+ = V I 265 14 14410 j j jjjT + ==+= V IIIV Para o circuito da Fig. 3.18, tem-se: 11111 4)(10)(485 IIIIIII V jjjj NN +−+−++= 11 4)(100 III jj N −−= ∴ 6450 14 j+ = V IN É importante observar nesta última equação que um curto-circuito nos terminais do indutor não implica em sua eliminação. Isto se deve ao fato de que há uma tensão induzida nos terminais do mesmo face ao efeito da indutância mútua. Simplificando e eliminando I1, resulta: 09,62 06,3 )6450(/14 )265(14 j N T e jj jj = + + == V /V I V ZT Chagas – DEE / UFCG 79 De acordo com o teorema da máxima transferência de potência, o valor da impedância Z para que haja máxima transferência de potência ativa para a carga é Z = Z*, ou seja: 0 9,6206,3 j e −=Z Exemplo 3 - No circuito da Fig. 3.19, determinar o valor do coeficiente de acoplamento entre os indutores, sendo V = 20 V e 32 W a potência no resistor de 10 Ω. Fig. 3.19. Circuito do Exemplo 3. Solução - Escrevendo as equações de malha do circuito, obtém-se: 1221 10)(820 IIII ++−= mXjj )(5)(80 122212 IIIIII −−+−−= mm XjjXjj Eliminando I2 , chega-se a θj m m e IX X j 11 2 2020 213 )8( 810 == − − −+ I , θ > 0 Para o módulo da corrente I1, tem-se: 789,110/32/1 === RPI Das duas últimas expressões, pode-se tirar: 055,26 789,1 20 10 =θ∴θ= cos 555,26 789,1 20 213 )8( 8 0 2 == − − − sen X X m m Isto resulta na seguinte equação: Ω=∴=+− 502510 2 mmm XXX O coeficiente de acoplamento k é: 79,058/5 == xk Chagas – DEE / UFCG 80 7. Construção da Matriz Impedância de Malha por Inspeção No exemplo do item anterior, aplicou-se a lei de Kirchhoff para determinação das correntes de malha. A partir das mesmas, construiu-se uma equação matricial do tipo: [ ] [ ] [ ] )xm()xm()mxm( 11 VIZ = (3.52) onde m é o número de malhas consideradas. Na formação dessa equação devem ser considerados os acoplamentos magnéticos em indutores, o que constitui um fato novo. Neste item, a montagem de (3.52) será sistematizada de modo direto, sem a aplicação da lei de Kirchhoff das malhas. Para isto, adota-se o seguinte procedimento: a ) Determina-seo número de equações de malha necessárias e suficientes para a solução do problema, m, correspondente à dimensão da equação matricial, dado por: m = r - n + 1 (3.53) onde r é o número de ramos principais e n é o número de ramos principais do circuito. b ) Escolhe-se as malhas de acordo com os requisitos do problema e estabelece-se os sentidos das correntes Ik ( k = 1, ..., m ). O vetor [ I ] da equação (3.52) será formado por essas correntes. c ) O vetor [ V ] da equação (3.52) é formado pela soma algébrica das forças eletromotrizes do laço considerado, atribuindo-se sinal mais àquelas em que a corrente de malha sai do terminal positivo e sinal menos quando a referida corrente sai do terminal negativo. d ) A matriz quadrada e simétrica [ Z ] é denominada matriz impedância de malha; a mesma é formada do seguinte modo: • os elementos da diagonal principal, Zk j , k = j, são fomados pela soma simples das impedâncias próprias dos elementos existentes no laço mais a soma algébrica do dobro da reatância indutiva mútua de cada par de indutores que pertence a este laço. Nesta soma algébrica, o sinal de cada termo é determinado através da regra do ponto, considerando-se o sentido da corrente de malha. • os elementos não pertencentes à diagonal principal, Zk j , k ≠ j, são formados pela soma das impedâncias próprias dos elementos comuns aos laços j e k , tendo o valor desta soma sinal positivo se as correntes apresentarem mesmo sentido e sinal negativo em caso contrário, mais a soma algébrica das reatâncias indutivas mútuas de cada par de indutores formado por um indutor percorrido pela corrente Ij e um outro percorrido pela corrente Ik. Nesta soma algébrica, o sinal de cada termo é também determinado pela regra do ponto, considerando-se os sentidos de Ij e Ik. Exemplo 4 - No circuito da Fig. 3.14, determinar a equação matricial para o cálculo das correntes de malha, usando o método de montagem de [ Z ] por inspeção. Solução - aplicando o procedimento sugerido, tem-se: a ) Número de equações de malha: da equação (3.53), r = 3, n = 2 e m = 3 – 2 + 1 = 2. Chagas – DEE / UFCG 81 b ) As malhas e os sentidos das correntes são indicados na Fig. 3.14. c ) O vetor coluna V é: [ ] [ ] TT j 101010 −=V d ) A matriz Z é formada do seguinte modo: 35255 610225555 551055 2112 22 11 jjj jjxjj jjj +=−+== +=−+++= −=−+= ZZ Z Z Isto resulta em: = ++ +− 10-10 10 61035 3555 2 1 jjj jj I I Exemplo 5 - No circuito da Fig. 3.20, determinar a equação matricial para o cálculo das correntes de malha, usando: (a) o método de montagem de das matrizes pela lei de Kirchhoff; (b) o método da inspeção. Fig. 3.20. Circuito do Exemplo 5. Solução - (a) Primeiro, emprega-se a lei de Kirchhoff. Para as três malhas, com os sentidos das correntes indicados, tem-se: )(32342)(3)(2410 32213221211 IIIIIIIIIII −+−+−−−+−+= jjjjjjjj 3212332 121322132212 33)(34)(3 )(22)(323)(43)(20 IIIIIII IIIIIIIIIIII jjjjj jjjjjjjj −−−−+−− −+−−−+−−++−= )(34433)(35)(48 - 23213212323 IIIIIIIIIII −++−++−++−= jjjjjjjj Simplificando e colocando em notação matricial: = − − −− 8- 0 10 1537 316 7612 3 2 1 I I I jjj jjj jjj A seguir, aplicando o método de montagem de Z por inspeção, tem-se: Chagas – DEE / UFCG 82 a ) Número de equações de malha: da equação (3.53), r = 3, n = 2 e m = 3 - 2 + 1 = 2. b ) As malhas e os sentidos das correntes são indicados na Fig. 3.20. c ) O vetor coluna V é: [ ] [ ]TT 8010 −=V d ) A matriz [ Z ] é formada segundo o algoritmo anteriormente descrito, ou seja: 7340 334334 632232 153254 1323222432 123224 1331 3223 2112 33 22 11 jjjj jjjjjj jjjjjj jjxjj jjxjxjxjjj jjxjj −=−−== =−+++−== −=+−−−−== =++= =−−+++= =++= ZZ ZZ ZZ Z Z Z Estes resultados coincidem com aqueles anteriormente obtidos. 8. Circuitos Equivalentes sem Acoplamentos Magnéticos Em algumas aplicações, é necessário substituir circuitos magneticamente acoplados por equivalentes em que os componentes apresentem acoplamento puramente elétrico. Para o circuito da Fig. 3.21, pode-se escrever: 12111 )( VII =−+ MjLjR ωω (3.54) 21222 )( VII −=−+ MjLjR ωω (3.55) Em forma de matriz: − = +− −+ 2 1 2 1 22 11 V V I I LjRMj MjLjR ωω ωω (3.56) Fig. 3.21. Indutores com acoplamento puramente magnético. Para o circuito da Fig. 3.22, sem acoplamentos magnéticos, tem-se: 121111 )(])([ VI-II =+−+ MjMLjR ωω (3.57) 212222 )(])([ VI-II −=+−+ MjMLjR ωω (3.58) Chagas – DEE / UFCG 83 Fig. 3.22. Circuito equivalente ao da Fig. 3.21, sem acoplamento magnético. Este par de equações também pode ser reduzido à equação matricial (3.56), indicando a equivalência dos circuitos da Fig. 3.21 e da Fig. 3.22. Obviamente, este segundo circuito só será fisicamente realizável se M 1 (verificar). Assim, tem-se Xm = 4 Ω. ( b ) O circuito elétrico equivalente, com indutores sem acoplamento magnético, é mostrado na Fig. 3.24. É importante observar que, para o mesmo ser fisicamente realizável, é necessário que 0e em função da intensidade de campo (real e simplificada). Neste caso, considera-se que: a ) As resistências dos enrolamentos são muito pequenas, podendo ser consideradas nulas. b ) Os fluxos de dispersão nos enrolamentos são desprezíveis, ou seja, o coeficiente de acoplamento magnético k é igual a 1. c ) No caso real, as perdas no núcleo são proporcionais à área da curva característica B - H mostrada na Fig. 3.26 (b) (laço de histerese). Em corrente alternada, essas perdas compreendem não apenas as perdas por histerese, como também as perdas por correntes parasitas. No caso analisado, supõe-se nulas essas perdas, o que resulta na curva singular linearizada por partes da Fig. 3.26 (c). d ) A permeabilidade µ do núcleo ( inclinação da curva B - H ) é suposta infinita dentro da faixa de valores assumidos pela indução magnética B. Logo, se a região saturada da curva B - H não for alcançada (BmN2, sabendo que o núcleo é constituído de uma liga ferro-silício de grãos não orientados. Solução - Para o material considerado, pode-se considerar Bm = 1 Tesla; assim, tem-se: 113 0,16010444,4 12 44,4 4 1 1 ≅== − xxxxBfS V N m Se o primário deve ter 113 espiras, o número de espiras do secundário é: espiras.251 45,0 1131 2 ≅== a N N 9.3 Considerações sobre Polaridades Com base nas convenções adotadas na análise de indutores magneticamente acoplados, são mostradas na Fig. 3.29 as regras para os sinais das tensões e das correntes nos transforma- dores ideais. Essas regras são as seguintes: • Se as tensões dos enrolamentos, v1 e v2 , forem ambas positivas ou ambas negativas nos ter- minais marcados com ponto, usa-se o sinal positivo na equação que relaciona as tensões com os números de espiras; caso contrário, usa-se o sinal negativo. • Se as correntes dos enrolamentos, i1 e i2 , entrarem ambas ou saírem ambas nos terminais marcados com ponto, usa-se o sinal negativo na equação que relaciona as correntes com os números de espiras; caso contrário, usa-se o sinal positivo. Fig. 3.29. Convenções para os sinais das tensões e das correntes nos transformadores. Chagas – DEE / UFCG 90 Os casos ( a ) e ( d ) representam o que se chama de polaridade aditiva. Foi visto que, se ambas as correntes entram ou saem dos terminais marcados, os fluxos em ambos os enrolamentos acham-se no mesmo sentido; assim, N1 I1 + N2 I2 = 0. Em ( b ) e ( c ), uma corrente entra e a outra sai dos terminais marcados, indicando que os fluxos são opostos, ou seja, N1 I1 - N2 I2 = 0. Neste caso, tem-se uma polaridade subtrativa. Exemplo 9 - Determinar a potência média associada à fonte de corrente senoidal do circuito da Fig. 3.30. Fig. 3.30. Circuito do Exemplo 9. Solução - Em circuitos que contêm transformadores ideais, é recomendável usar-se análise de malhas. A Fig. 3.31 mostra o circuito equivalente usado na solução do problema. Fig. 3.31. Circuito equivalente ao da Fig. 2.30. Para este circuito, são escritas as seguintes equações: )(2060300 2111 IIVI −++= 22112 40)(200 I++−= VIII As outras duas equações necessárias à solução do problema correspondem às condições impostas pelo transformador ideal, as quais são: V2 = ( N2 / N1 ) V1 = ( 100 / 400 ) V1 = V1 / 4 I2 = - ( N1 / N2 ) I1 = - ( 400 / 100 ) I1 = - 4 I1 Com as quatro equações, determina-se as tensões e correntes: V1 = 260 V, V2 = 65 V, I1 = 0,24 A, I2 = -1,0 A. Chagas – DEE / UFCG 91 A tensão nos terminais da fonte de corrente é: V5A = V1 + 20 ( I1 – I2 ) = 260 + 20 x [ 0,25 – ( - 1 )] = 285 V. A convenção aqui adotada consiste em associar sinal positivo à potência fornecida pela fonte. Assim, a potência associada à fonte de corrente é: P5A = V5A I5A = 285 x 5 = 1425 W. Exemplo 10 - Calcular a relação de espiras do transformador da Fig. 3.32 para que se tenha a máxima potência dissipada no resistor de 400 Ω. Fig. 3.32. Circuito do Exemplo 9. Solução - Tomando o equivalente de Norton para a fonte, tem-se o circuito da Fig. 3.33, onde o transformador e a carga de 400 Ω são vistos como uma impedância Zeq. ( a ) ( b ) Fig. 3.33. Circuito equivalente ao da Fig. 3.32. Para que haja máxima transferência de potência, deve-se ter Zeq = 14,4 kΩ; assim: I1 = 288 / ( 2 x 14,4 x 10 -3 ) = 0,01 A Assim, para o transformador e a carga, tem-se o circuito reduzido da Fig. 3.34. Fig. 3.34. Circuito reduzido do Exemplo 9. Chagas – DEE / UFCG 92 Para a tensão de entrada do circuito e a corrente na carga, pode-se escrever: V1 + V2 = 288 / 2 = 144 V I1 + I2 = V2 / 400 As relações de tensão e de corrente do transformador são: V1 / V2 = N1 / N2 = a ∴ ( V1 + V2 ) / V2= a +1 I1 / I2 = N2 / N1 = 1 / a ∴ ( I1 + I2 ) / I1= a +1 ( V1 + V2 ) = ( a +1 ) V2 = 144 ( I1 + I2 ) = 0.01 ( a + 1 ) = V2 / 400 Assim, são obtidas duas equações com duas variáveis, V2 e a. Eliminando V2, resulta: ( a +1 ) 2 = 144 / ( 400 x 0.01 ) = 36 ∴ a = N1 / N2 = 5 Exemplo 11 - Determinar o valor de RL no circuito da Fig. 2.37 para que a potência dissipada seja máxima. Determinar também o valor dessa potência. Fig. 3.35. Circuito do Exemplo 11. Solução - O resistor variável dissipará potência máxima quando RL = RTN, sendo RTN a impe- dância equivalente do resto do circuito, vista dos terminais a que o resistor acha-se ligado (impedância de Thévenin). A mesma é igual a RTN = VT / IN, sendo VT e IN calculadas nos circuitos da Fig. 3.36. ( a ) ( b ) Fig. 3.36. Circuitos usados nos cálculos de VT e de IN no Exemplo 11. Chagas – DEE / UFCG 93 O circuito da Fig. 3.36 ( a ) pode ainda ser simplificado, obtendo-se o circuito da Fig. 3.37. Fig. 3.37. Simplificação do circuito da Fig. 3.36 ( a ). I1 = 180 / [ 5 + 5 x ( 1 / 2 ) 2 ] = 28,8 A V1 = 180 - 5 x 28,8 = 36 V Do circuito da Fig. 3.36 ( a ): V2 = ( N2 / N1 ) x V1 = ( 200 / 100 ) x 36 = 72 V I2 = ( N1 / N2 ) x I1 = ( 100 / 200 ) x 28,8 = 14,4 A VT = Vab = 1 x 28,8 + 36 – 72 + 2 x 14,4 = 21,6 V Do circuito da Fig. 3.36 ( b ): 180 = 4 I1’ + ( I1’ – IN ) + V1’ V2’ = 2 ( I2’ – IN ) + 3 I2’ -V1’ + (IN – I1’ ) + 2 (IN – I2’) + V2’ = 0 V1’/V2’ = N1 / N2 = 1 / 2 ( I1’ – IN ) / ( I2’ – IN ) = N2 / N1 = 2 Este sistema fornece IN = 10 A; logo: RL = RTN = VT / IN = 21,6 / 10 = 2,16 Ω A potência dissipada no resistor é: PL = ( VT / 2 ) 2 / RL = ( 21,6 / 2 ) 2 / 2,16 = 54 W 10. Transformadores Especiais 10.1 Transformadores com Múltiplos Enrolamentos Esses transformadores são constituídos por um núcleo magnético em torno do qual há três ou mais enrolamentos. Em eletrônica, é comum se utilizar transformadores com um primário ligado a uma fonte e dois secundários alimentando cargas diferentes. Num sistema de distribuição de energia elétrica, um transformador pode ter o enrolamento primário energizado por uma linha de transmissão de alta tensão, enquanto o secundário é ligado a um alimentador de distribuição de média tensão, e um terceiro enrolamento (terciário) alimenta bancos de capacitores para correção do fator de potência ou um sistema de distribuição local. Chagas – DEE / UFCG 94 É mostrada na Fig. 3.38 a forma mais elementar de um transformador de três enrolamentos. Considerando uma permeabilidade igual a infinito no núcleo magnético e aplicando a lei circuital de Ampére, tem-se: 0. 332211 =−−=∫ iNiNiNdlH (3.72) 332211 iNiNiN += (3.73) ( a ) ( b ) Fig. 3.38. ( a ) Transformador de três enrolamentos; ( b ) representação simplificada. Exemplo 12 - Um transformador de três enrolamentos apresenta os seguintes dados: • Primário: 300 kVA, 600 espiras. • Secundário: 150 kVA, 200 espiras. • Terciário: 200 kVA, 100 espiras. O secundário alimenta uma carga resistiva no limite de sua capacidade, com tensão de 12 kV. O terciário alimenta um reator de indutância variável. Calcular a corrente no primário no caso em que o terciário opera em plena carga. Solução - Ajustando o reator até que o terciário esteja em plena carga, obtém-se: I3 = S3 / V3= S3 / [ (N3 / N2 ) V2 ] = 200 / [ (100/200) x 2 ] = 200 A I2 = S2 / V2= 150 / 2 = 75 A Assim, tem-se: 321 100200600 III += 250002000015000)200(10075200600100200600 22 1321 =+=−+==+= jxxII II I1 = 25000 / 600 = 41,7 A A corrente primária nominal é: I1N = S1N / V1N = S1N / [ (N1 / N2 ) V2N ] = 300 / [ (600 / 200) x 2 ] = 50 A Observa-se que, mesmo com o secundário e o terciário funcionam a plena carga, isto não ocorre com o primário. Chagas – DEE / UFCG 95 Uma observação importante: este tipo de transformador não deve ser confundido com o transformador com derivação (ou tape) central no secundário. Este último, mostrado na Fig. 3.39, destina-se principalmente a fontes de alimentaçãousadas em circuitos eletrônicos que requerem tensões de polarização de + 15 V (CC) e -15 V (CC). Neste caso, as duas seções do enrolamento secundário são ligadas a uma ponte retificadora de onda completa. Fig. 3.39. ( a ) Transformador com derivação (ou tape) central no secundário; ( b ) representação simplificada. 10.2 Autotransformadores Considerando o transformador convencional da Fig. 3.40 ( a ), é suposto que o mesmo tenha seus enrolamentos ligados do modo indicado na Fig. 3.40 ( b ). ( a ) ( b ) Fig. 3.40. ( a ) Transformador convencional; ( b ) ligação como autotransformador. Chagas – DEE / UFCG 96 A característica mais notável de um transformador consiste no fato de que ele promove transferência de energia de uma região do espaço para outra sem necessidade de ligação elétrica. Este processo se realiza por meio de um campo magnético associado a linhas de fluxo que são compartilhadas pelos enrolamentos primário e secundário. A ligação da Fig. 3.40 ( b ) caracteriza um autotransformador. O mesmo é constituído por um transformador onde o enrolamento primário é dividido em duas seções, uma com N1 espiras e outra com N2 espiras., e o secundário composto pelo enrolamento de N2 espiras. Observa-se que, além do acoplamento magnético existente entre os enrolamentos, existe uma ligação metálica entre os mesmos. Assim, a diferença fundamental entre o autotransformador e o transformador convencional consiste no fato de que a energia é transferida de um enrolamento para o outro não apenas por um campo magnético, mas também por condução de eletricidade. Para o autotransformador, pode-se escrever: baa vvvv dt d Nv −=−= Φ = 211 (3.74) bv dt d Nv = Φ = 22 (3.75) Colocando (3.74) e (3.75) em termos de fasor e dividindo membro a membro, obtém-se: a N N b ba == − 2 1 V VV (3.76) Assim, para as tensões, a relação de transformação é: a N N b a +=+= 11 2 1 V V (3.77) Aplicando a lei circuital de Ampére no circuito da Fig. 3.40 ( b ): 1 2 2 1 2211 0. N N NN =∴=−=∫ I I IIdlH (3.78) Como I1 = Ia e I2 = Ib - I1 = Ib – Ia , obtém-se: 1 2 N N ab a = − II I (3.79) Assim, a relação de transformação de correntes do autotransformador é: 1 1 1/ 1 2121 2 + = + = + = aNNNN N b a I I (3.80) Como as perdas nos enrolamentos e no núcleo do transformador convencional da Fig. 3.40 (a) são consideradas nulas, pode-se escrever: ** IVIVS 2211 == (3.81) Para o autotransformador da Fig. 3.40 ( b ) pode-se escrever para as potências complexas no primário e no secundário: Chagas – DEE / UFCG 97 ***** a IVSIVIVIVVIVS 121211121 )( +=+=+== aa (3.82) a **** b SIVSIVIVIIVIVS =+=+=+== 121222 * 212 )(bb (3.83) O termo V1 I1 * corresponde à parcela que é transmitida do primário para o secundário pelo efeito de acoplamento magnético (potência transformada). O termo V2 I1 * corresponde à parcela que é transmitida pelo efeito de condução elétrica magnético (potência transmitida). Dividindo (3.82) por S, resulta: 1 1 111 1 2 11 12 >+=+=+= aV V IV IV S S * * a (3.84) Conclui-se que o autotransformador é capaz de transmitir uma potência maior que o transformador convencional. Isto se deve ao fato de que o autotransformador transfere parte da potência de entrada por condução. Tal constatação permite dizer que, sob o ponto de vista de economia, é mais vantajoso usar o autotransformador. Para o mesmo valor de potência transmitida, o uso do autotransformador implica em menos ferro empregado no núcleo, uma vez que apenas parte dessa potência é transmitida por acoplamento magnético. Isto implica em redução de peso, tamanho e custo do núcleo. Consequentemente, as perdas por histerese e por correntes de Foucault são menores. As considerações anteriores suscitam a uma pergunta: apesar dessas vantagens apresentadas pelos autotransformadores, por que os transformadores isolados são mais usados? A resposta pode ser dada pela análise da Fig. 3.41. Se há abertura do circuito no ponto indicado (ação de arcos voltaicos no interior do tanque, por exemplo), ocorre aplicação de 13800/√3 V no secundário, implicando em danos imediatos às cargas ligadas a este lado, bem como risco de vida para os usuários do sistema elétrico. Fig. 3.41 . Autotransformadorabaixador com abertura no enrolamento secundário. Isso faz com que os autotransformadores tenham sua aplicação limitada à interligação de sistemas que não apresentem tensões nominais significativamente diferentes. Nos sistemas elétricos de potência, eles são comumente empregados na interligação de redes de 230 kV e 345 kV, ou de 345 kV e 500 kV, proporcionando mais economia que os transformadores convencionais. Revisor X Lápis Revisor X Lápis Chagas – DEE / UFCG 98 Outra desvantagem é que os surtos de tensão decorrentes de descargas atmosféricas ou operações de chaveamento propagam-se com mais facilidade através dos enrolamentos, face à ligação metálica entre os mesmos. É mostrada na Fig. 3.42 a forma de ligação de um autotransformador destinado a elevar a tensão. O seu equacionamento fica a cargo do leitor. ( a ) ( b ) Fig. 3.42 . ( a ) Autotransformador elevador; ( b ) representação simplificada. Há também autotransformadores onde a tensão secundária pode ser variada de modo contínuo, como é o caso dos variadores de tensão ou variacs. Esses dispositivos apresentam pequenas potências (normalmente, até 10 kVA). São usados em aplicações de laboratório (mais frequentemente, para acionamento de máquinas elétricas). Como é mostrado na Fig. 3.43, eles possuem núcleo de forma toroidal, em torno do qual desliza uma escova de carvão. Fig. 3.43. Autotransformador de saída variável (variac). Assim, o número de espiras pode ser alterado, funcionando como elemento abaixador ou elevador de tensão. Exemplo 13 - ( a ) Mostrar que a impedância vista dos terminais a – b do circuito da Fig. 3.44 é dada por: Lab a ZZ 2)1( += . ( b ) Mostrar que se a polaridade de um dos enrolamentos for invertida, tem-se Lab a ZZ 2)1( −= , onde a = 21 / NN . Chagas – DEE / UFCG 99 Fig. 3.44. Circuito do Exemplo 13. Solução: ( a ) Para a impedância vista do secundário, pode-se escrever: 21 22 II V I V ZL + == L Para a impedância vista do primário, Zab: 1 2 1 22 1 21 )1( I V I VV I VV Zab a a += + = + = Pode-se ainda escrever: LL Z I V I V II V II V Z )1( 1 1 1 2 1 2 11 2 21 2 a aa +=∴ + = + = + = Assim, resulta: Lab ZZ 2 )1( a+= ( b ) Invertendo-se a polaridade do enrolamento 2, tem-se: 21 22 II V I V ZL + == L 1 2 1 22 1 21 )1( I V I VV I VV Zab a a −= +− = + = LL Z I V I V II V II V Z )1( 1 1 1 2 1 2 11 2 21 2 a aa −=∴ − = − = + = Assim, a impedância vista do lado do primário é: Lab ZZ 2 )1( a−= Chagas – DEE / UFCG 100 Exemplo 14 - ( a ) Calcular a relação de espiras do autotransformador do Exemplo 10, utili- zando agora o método de reflexão de impedâncias. Solução - Tomando o equivalente de Norton para a fonte, tem-se o circuito da Fig. 3.33 ( b ), onde o transformador e a carga de 400 Ω são vistos como uma impedância Zeq, dada por: 36400/14400)1()1(400 22 ==+∴+= aaeqZ a = 5 Bibliografia [ 1 ] Bessonov, L. Applied Electricity for Engineers, 2 nd. ed, MIR Publishers, Moscou, 1973. [ 2 ] Desoer, C. A.; Kuh, E. S. Basic Circuit Theory, McGraw-Hill, 1969. [ 3 ] Edminister, J. A. Circuitos Elétricos, Coleção Schaum, Makron - McGraw-Hill, 1991. [ 4 ] Hayt Jr., W. H. ; Kemmerly, J. C. Análise de Circuitos em Engenharia, McGraw-Hill do Brasil, 1975. [5 ] Kinariwala, B.; Kuo, F. F.; Tsao, N. Linear Circuits and Computation, John Wiley, 1973. [ 6 ] M.I.T. Magnetic Circuits and Transformers, The M.I.T. Press, 1943. [ 7 ] Nilsson, J. W.; Riedel, S. Circuitos Elétricos, 5ª ed., Addison-Wesley, 1996. [ 8 ] Slemon, G. R. Equipamentos Magnetelétricos - Transdutores, Transformadores e Máqui- nas – Vol. 1, LTC / EDUSP, Rio de Janeiro, 1974.