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www.esab.edu.br Análise e Produção Textual CURSO DE PEDAGOGIA Análise e Produção Textual Vila Velha (ES) 2013 Escola Superior Aberta do Brasil Diretor Acadêmico Beatriz Christo Gobbi Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Beatriz Christo Gobbi Coordenadora do Curso de Administração EAD Rosemary Riguetti Coordenador do Curso de Pedagogia EAD Claudio David Cari Coordenador do Curso de Sistemas de Informação EAD David Gomes Barboza Produção do Material Didático-Pedagógico Delinea Tecnologia Educacional / Escola Superior Aberta do Brasil Diretoria Executiva Charlie Anderson Olsen Larissa Kleis Pereira Margarete Lazzaris Kleis Thiago Kleis Pereira Conteudista Eduard Marquardt Coordenação de Projeto Andreza Lopes Patrícia Battisti Supervisão de Design Educacional Barbara da Silveira Vieira Supervisão de Design Gráfico Laura Martins Rodrigues Design Educacional Simone Regina Dias Revisão Gramatical Elaine Monteiro Seidler Érica da Silva Martins Valduga Hellen Melo Pereira Paulo de Tarso Vieira Design Gráfico Neri Gonçalves Ribeiro Diagramação Fernando Andrade Equipe Acadêmica da ESAB Coordenadores dos Cursos Docentes dos Cursos Copyright © Todos os direitos desta obra são da Escola Superior Aberta do Brasil. www.esab.edu.br Av. Santa Leopoldina, nº 840 Coqueiral de Itaparica - Vila Velha, ES CEP 29102-040 Diretor Geral Nildo Ferreira Supervisão de Revisão Gramatic al Andrea Minsky Apresentação Caro estudante, Seja bem vindo à ESAB. A Escola Superior Aberta do Brasil, funda-se no princípio básico de atuar com educação a distância, utilizando como meio, tão somente, a internet. Em 2004,foi especialmente credenciada para ofertar cursos de pós- graduação a distância, via e-learning, utilizando-se de software próprio denominado Campus Online. Em 2009 foi credenciada com Instituição de Ensino Superior – IES, através da portaria MEC nº 1242/2009, de 30 de dezembro de 2009, ocasião em que também foi autorizada a ofertar o curso de pedagogia – licenciatura, na modalidade presencial, conforme portaria MEC nº 14/2010, de 9 de janeiro de 2010. Em outubro de 2012 recebeu o Prêmio Top Educação 2012, da Editora Segmento, sendo reconhecida como a Melhor Instituição de Ensino EAD para Docentes. Em 2013 é aprovada para a oferta dos cursos de: Administração (Bacharelado); Pedagogia (Licenciatura) e Sistemas de Informação (Bacharelado), todos na modalidade EAD, com avaliação máxima das comissões avaliadoras. Sabemos que cada curso tem suas demandas específicas: Administração, Pedagogia ou Sistemas de Informação são cursos bastante particulares, mas em qualquer área são várias as teorias e os teóricos; os vieses e as perspectivas; os tipos de texto e suas finalidades. Entretanto, em qualquer um deles você precisará lidar com leituras, fichamentos, resumos, resenhas e desenvolver interpretações. Disso, portanto, é que trata este material de Análise e Produção Textual. Nele constam indicações, recomendações e exercícios para você aperfeiçoar a sua escrita e a sua percepção de leitura. Este material foi concebido baseado nas referências Fiorin e Savioli (2006), Faraco e Tezza (2008), Medeiros (2008) e Discini (2005). A elaboração desta disciplina foi feita especialmente para você, tendo como base uma compilação de livros de autores renomados, contendo conceitos, teorias, fórum, estudos complementares, entre outros, todos com o intuito de ajudá-lo em sua formação. Você verá que, por vezes, o texto será bastante pontual e objetivo; em outras, no entanto, será necessário um esforço interpretativo e um olhar crítico sobre suas próprias experiências de leitura e escrita para alcançarmos o propósito. Bom estudo! Equipe Acadêmica da ESAB Objetivo O nosso objetivo é auxiliar na análise e produção de textos, por meio do estudo de procedimentos e conceitos. Competências e habilidades • Perceber as diferentes formas da linguagem em sua peculiaridade, necessárias à produção textual. • Reconhecer os diferentes instrumentos e procedimentos para a organização e produção de texto. • Produzir textos com senso crítico e qualidade. • Elaborar o pensamento por escrito, considerando as possíveis leituras interpretativas. Ementa A leitura e a produção textual. A estrutura do texto. Textualidade e argumentação na produção do texto. Linguagem. Gêneros textuais: tipos de textos. Estrutura de texto. Aspectos gramaticais. Sumário 1. Escrever bem: dom ou técnica? .......................................................................................7 2. O que é texto? ...............................................................................................................12 3. A nova ortografia da Língua Portuguesa .......................................................................17 4. O falado e o escrito ........................................................................................................21 5. Polissemia, metalinguagem, intertextualidade e recombinação...................................25 6. O esquema da comunicação e as funções da linguagem ...............................................32 7. O que define um bom texto ..........................................................................................38 8. Os diferentes tipos de texto ...........................................................................................41 9. Texto descritivo .............................................................................................................47 10. Texto de informação......................................................................................................52 11. Texto de opinião ............................................................................................................56 12. Texto crítico ...................................................................................................................61 13. A narrativa ....................................................................................................................68 14. Texto temático e texto figurativo ..................................................................................73 15. Texto argumentativo .....................................................................................................79 16. Texto explicativo ...........................................................................................................86 17. Texto dissertativo ..........................................................................................................92 18. Texto dissertativo-argumentativo .................................................................................97 19. Como definir um título ................................................................................................103 20. Redação institucional/comercial .................................................................................107 21. O curriculum vitae .......................................................................................................111 22. Parágrafos ...................................................................................................................116 23. Pontuação ...................................................................................................................121 24. Frase, oração, período .................................................................................................127 25. Coesão ........................................................................................................................133 26. Coerência ....................................................................................................................138 27. Estilo ...........................................................................................................................14228. Denotação/conotação .................................................................................................146 29. Tropos de linguagem...................................................................................................150 30. O clichê .......................................................................................................................155 31. Usos da crase ...............................................................................................................161 32. Usos dos porquês ........................................................................................................167 33. O dito “cujo” .................................................................................................................170 34. Usos do gerúndio ........................................................................................................174 35. Concordância ..............................................................................................................177 36. Usos do adjetivo ..........................................................................................................184 37. Estrangeirismos ..........................................................................................................191 38. Ênclise, próclise, mesóclise ..........................................................................................195 39. Dúvidas frequentes .....................................................................................................200 40. Tautologias .................................................................................................................205 41. Pressuposto.................................................................................................................210 42. Pesquisa: como proceder .............................................................................................215 43. Paráfrase .....................................................................................................................221 44. Fichamento e resumo ..................................................................................................226 45. Interpretação textual ..................................................................................................235 46. Comunicação e expressão ...........................................................................................241 47. As multimídias e a produção textual ...........................................................................247 48. Afinal, o que é um bom texto? ....................................................................................250 Glossário ............................................................................................................................256 Referências ........................................................................................................................268 www.esab.edu.br 7 1 Escrever bem: dom ou técnica? Objetivo Vislumbrar a escrita como técnica vinculada ao exercício constante da leitura e construção de argumentos. É comum ouvirmos que alguém, um amigo seu, um familiar, enfim, “tem facilidade para escrever”, não? Mas por que será? O que você pensa: algumas pessoas nascem com essa disposição e tudo o que fazem ao longo de sua vida estudantil não é mais que reforçá-la ou escrever bem se trata de algo que qualquer um de nós pode alcançar, com disciplina e dedicação? No estudo da língua portuguesa, é comum o questionamento “Como escrever bem?”. É preciso estudar gramática? Sim, certamente. É preciso ler? Sem dúvida. É preciso ler sites de notícias, jornais impressos? Com certeza. Mas e as revistas de entretenimento servem também? Sim, também servem. E assistir a filmes ou documentários, tem algo a ver com a escrita? Absolutamente. Mas por quê? Porque escrever bem significa, entre tantos fatores, defender bem um argumento, expor um ponto de vista, expressar sentimentos, manifestar- se com propriedade. Escolher a linguagem, montar um cenário, levantar um problema, ponderar as alternativas, os vieses, tudo o que está em jogo, e chegar a uma conclusão, ainda que provisória. Toda a informação que você consome e processa criticamente faz diferença. Vejamos um exemplo, às avessas. Digamos que você não saiba dirigir ou nadar e esteja interessado em aprender ou que esteja a fim de melhorar a sua saúde, manter a sua boa aparência e queira se matricular em uma academia de ginástica. Pois então: você já viu alguém aprender a nadar em teoria, do lado de fora da piscina? Não, não é? E se você quiser desenvolver os seus músculos, certamente terá de encarar os aparelhos da academia e realizar as séries www.esab.edu.br 8 periódicas de 8, 10, 12 repetições. Mas ainda não será o bastante: o nosso organismo se habitua com os exercícios, de modo que, gradualmente, será preciso que você exija mais de si mesmo para chegar a um determinado resultado, adquirindo perfeição naquilo que está fazendo e, ao mesmo tempo, resistência para a tarefa. Mas, por outro lado, é possível, sim, aperfeiçoar o seu nado a partir da teoria: você pode muito bem estudar como deve ser a sua respiração; você pode ler um artigo, uma revista ou um livro que demonstre graficamente como deve ser o movimento da braçada, que você deve esticar os braços completamente, que, enquanto um está realizando a braçada, o outro deve estar posicionado de modo a não oferecer resistência ou que os pés devem reproduzir o movimento de um chute, e não simplesmente um movimento qualquer, para que você possa aproveitar todo o impulso e a sua própria energia. E, se você estiver tomando aulas na autoescola para tirar a carteira de motorista, certamente a teoria irá auxiliá-lo tanto no conhecimento do veículo como nos procedimentos que você deve desempenhar para dirigir com segurança. Assim, para escrever bem, é preciso também se arriscar e “entrar na piscina” ou “assumir o volante”. Não há como você desenvolver uma técnica sem se submeter ao exercício diário e constante, adquirindo consciência daquilo que está fazendo. São detalhes que fazem muita diferença: habitue-se a acessar diariamente um site de notícias de qualidade. Certamente você, pouco a pouco, saberá que uma notícia se pauta, essencialmente, em relatar os fatos sem problematizar a linguagem, ou seja, com objetividade e sem especulação. Pois, se há especulação, já não estamos no terreno da notícia, e sim da análise. Ao assistir a um filme estrangeiro, prefira assisti-lo com as legendas. Você, pouco a pouco, encontrará o ajuste e dará conta de ver os personagens, ouvir e ler, no seu idioma, aquilo que estão dizendo. Mas se ainda você gosta de uma boa revista de entretenimento, sem muita profundidade, será válido, pois você também saberá quando se utilizar de uma linguagem mais leve e atrativa para cativar o seu leitor. www.esab.edu.br 9 Figura 1 – Para aprimorar a sua escrita, você precisa de variedade de leitura. Fonte: <www.shutterstock.com>. Resumindo, você precisa de variedade de leitura. Habitue-se aos livros de ficção, às biografias e autobiografias, aos relatos de história e estudos de geografia, e o que mais for. Você encontrará frases, orações e períodos mais complexamente articulados, de modo a ampliar o seu vocabulário, acostumá-lo a raciocínios mais longos e ampliar a sua experiência com o relato alheio. Você aprenderá gramática sem sequer perceber. E outra coisa: tenha muito cuidado com a linguagem abreviada ou adaptada que utilizamos para a comunicação on-line, quando tudo vale ou é permitido. Nada pior que ler um texto em que se utiliza “mais” no lugar de “mas”… Um dos problemas, no entanto, que todos temos de enfrentar é a ansiedade. Muitas vezes queremos algo prontamente. Queremosperceber o benefício imediatamente. É um pouco a lógica do consumo: compro, uso, quero ver o resultado. Na escrita, como em qualquer outra técnica, as coisas não são bem assim. Digamos que você esteja nadando. Você já desenvolve a modalidade crawl com certa naturalidade e precisão e seu instrutor quer agora que você exercite o nado golfinho. A sua reação imediata é de resistência, pois você sabe da sua dificuldade em concatenar os movimentos de pés, braços e tronco, mas começa a prática do exercício. Você tenta apreender o movimento, mas ainda não consegue desenvolvê-lo corretamente. A aula acaba e você sai da piscina com certo descontentamento e mais cansado www.esab.edu.br 10 que o habitual, pois do crawl você já dava conta. Passam-se dois dias, ou na aula da semana seguinte, você se aquece, entra na água, começa em modo crawl e logo passa à modalidade golfinho. Surpreendentemente, você nota que, embora os movimentos ainda não estejam perfeitos, você já os desenvolve com certa habilidade ou menos esforço. Pois, é assim mesmo. Foi necessário que você se expusesse a algo que ainda desconhecia ou não dominava, que tentasse desenvolver essa tarefa conscientemente, e que também precisasse lidar com a impressão momentânea de fracasso. É parte do processo, e não vale a pena pular a etapa. Não tem como. Mas vamos ao que de fato nos interessa: na sua disciplina de Sociologia das Organizações, Introdução à Computação ou Psicologia da Educação, o professor lhe solicita escrever uma resenha sobre um capítulo específico. Você realizou a leitura, destacou no texto as informações que julgava fundamentais e passou à confecção do seu trabalho. Ao fim, você ainda não se sente satisfeito com o resultado. Pode ser impressão, pode ser a leitura ainda superficial de determinada passagem ou que a sua interpretação ainda esteja apressada, sem ir fundo nos conceitos. Pois bem, dê um tempo para você mesmo. Reserve o texto, faça outra leitura, consulte outro autor ou vá fazer outra coisa. No dia seguinte – o tempo é relativo –, retome aquilo que você escreveu e leia criticamente. Você encontrará períodos que ficaram pouco claros, verá que certa informação não é tão importante assim, que determinada conclusão está apressada; perceberá um ou outro deslize na pontuação, e assim por diante. Em suma, é preciso lidar com a ansiedade da conclusão e dar tempo para que você mesmo mude, para que você se reprograme ou se reorganize; para que você se distancie daquilo que estava tão perto dos seus olhos mas que não conseguia enxergar com precisão. Em um curso superior, também é comum termos contato com textos mais complexos, que exigem muito mais que uma leitura superficial, pois estão longe da nossa experiência cotidiana. São textos que demandam uma ampliação de nossa escopia, isto é, do modo como vemos o mundo e interpretamos as suas implicações. Então aproveite, pois este é justamente o momento para você se expor a leituras e problemas que põem à prova os seus conceitos. www.esab.edu.br 11 Para encerrar esta unidade, acompanhe algumas dicas de Stephen Kanitz, articulista da revista Veja, consultor de empresas e conferencista. Resumidamente, Kanitz (2012) anota: • por mais relativo que isto seja, escreva sempre considerando qual é o seu público-alvo; • deixe a vaidade de lado, escreva para narrar uma experiência ou expor uma ideia; • inicie pelo rascunho, deixe as ideias amadurecerem e revise ou reescreva; • não gaste tempo com ideias intransigentes ou pesadamente ideológicas; • repita de formas diferentes as ideias fundamentais do seu texto; • seja conciso, direto e objetivo. Estudo complementar Vimos nesta unidade que para escrever bem é preciso munir-se de um cardápio variado de informações, dedicação e disciplina. Para complementar o estudo, leia o texto completo de Stephen Kanitz a que fizemos referência, clicando aqui. www.esab.edu.br 12 2 O que é texto? Objetivo Desenvolver e explorar o conceito de texto, analisando suas perspectivas de formação de sentido no processo de criação e organização. Depois de nossas considerações acerca do processo de escrita, vamos abordar o significado do texto. “Redija um texto”, “leia o texto a seguir”, “o texto está ilegível” – com certeza, você já teve contato com esses enunciados e acatou o que estava sendo solicitado ou informado. Todos realizamos a tarefa porque, bem ou mal, entendemos o que significa. Mas e se você tivesse de conceituar, como faria? São várias as possibilidades. 2.1 Compreendendo o conceito de texto Hoje, dispomos de leituras mais abertas quanto ao conceito de texto, mas sua origem remonta ao vocábulo latino textu, que significa tecido, ou seja, a uma peça cuja consistência depende do bom entrelaçamento de vários fios. Medeiros (2008, p. 137) diz que “[...] a imagem de tecido contribui para esclarecer que não se trata de feixe de fios (frases soltas), mas de fios entrelaçados (frases que se inter-relacionam)”. Por consequência dessa definição, entendemos texto como o campo da página escrita – por exemplo – cujos fios (as palavras) estão dispostos em uma ordem coerente, e que independe da sua extensão. Vejamos como isso funciona na prática. Talvez você more em um apartamento, que fica dentro de um condomínio. Todos os dias, ao se aproximar do portão, você vê a placa onde está escrito “não buzine”. Trata-se de um texto? Sim. Por se tratar de um lugar onde residem várias pessoas e que exige certas normas de www.esab.edu.br 13 conduta social, entendemos que a placa solicita bom senso a quem se aproxima, para que produza o menor ruído possível. A unidade de sentido, portanto, está concretizada. Mas e se em vez da frase escrita estivesse apenas a figura de uma buzina com a tarja de proibido sobreposta, seria um texto? Sim, pois o signo na placa, tal como as letras, indica-nos algo cujo sentido é compreensível. Por outro lado, digamos que você esteja caminhando pelo centro da cidade e vê a mesma palavra, buzina, pichada num muro, ou mesmo o desenho de uma buzina. Trata-se de um texto? Pergunte-se: a relação de sentido se mantém? Como não estamos mais no ambiente condomínio, que evoca os cuidados a que nos referimos antes (residência, família, silêncio), e trata- se apenas de um muro, o sentido não se efetiva. Não podemos captar a intenção comunicacional do autor da pichação nem por ela mesma nem pelo contexto que a cerca. Talvez na cabeça do autor aquilo faça muito sentido, mas seria apenas especulação de nossa parte. Não há interação comunicativa específica, que é o segundo movimento a que Medeiros (2008) faz referência. Podemos, a partir desses breves exemplos, concluir que o significado não é autônomo. Para que ele se efetive, é preciso considerar o contexto onde ele se insere. Assim, podemos apreender que o significado das partes que compõem um texto está atrelado às correlações que elas mantêm entre si e, além disso, que o contexto concerne a uma unidade linguística maior, em que se encaixa uma unidade linguística menor, o texto. Outro caso bastante analisado para estudar os conceitos de texto e contexto refere-se a uma crônica de Ricardo Ramos, intitulada “Circuito fechado”, constante no livro de mesmo título, publicado pela primeira vez em 1972. Vejamos: www.esab.edu.br 14 Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios,cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. Xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro. E agora? É apenas uma lista de palavras ou há conexão entre elas? Como você deve ter notado, a sequência de substantivos mostra a rotina de um homem ao longo de um dia, desde o momento em que sai da cama, vai ao banheiro, toma café, começa o seu trabalho, paga contas, vai ao banheiro, lê o jornal, descansa, volta ao trabalho, dirige, olha quadros, janta, volta, assiste à tevê, toma banho e se deita. Temos então um texto cujo contexto desvendamos por interpretação. De certo modo, é parecido com um poema bastante famoso de Augusto de Campos, poeta brasileiro do movimento concretista, em que a palavra lixo, grande, está escrita com a palavra luxo, repetidamente, e em formato menor. www.esab.edu.br 15 Figura 2 – Luxo, poema de Augusto de Campos, 1966. Fonte: <www.cibercultura.org.br>. Também via interpretação, trata-se de um texto que questiona valores, que demanda outro texto – ou seja, quer que estabeleçamos uma relação entre um e outro vocábulo. É um texto que expõe a relação entre ambos os termos e comunica algo como “quanto mais luxo, mais lixo”, e faz com que pensemos criticamente, por exemplo, na sociedade em que vivemos. Assim, escreve-se um texto para participar de um contexto maior, ao qual se faz referência. Texto é uma unidade concreta que percebemos pela visão, pela audição e até mesmo pelo tato (considere o sistema de Libras), e implica uma situação de comunicação de uma mensagem cuja extensão é variável, podendo formar-se por apenas uma palavra ou pela articulação de várias. Em termos genéricos, contexto é uma coisa grande em que cabe uma coisa pequena! Fiorin e Savioli (2006) explicam que, em um texto, o significado de uma parte não é autônomo, no sentido de que depende das outras com que se relaciona. Assim, o significado global não é simplesmente resultado da soma de suas partes, mas de certa combinação geradora de sentidos. E daí percebermos o conceito implícito de contexto. Ou seja, devemos sempre levar em conta o contexto em que está inserida a passagem do texto a ser lida, entendendo-o como uma unidade linguística maior em que se encaixa uma unidade menor. www.esab.edu.br 16 Saiba mais Expusemos aqui de modo bastante sintético os conceitos de texto e contexto e suas implicações. Para saber um pouco mais, clique aqui e assista ao programa Palavra Puxa Palavra, produzido pela Educopédia MultiRio, que tematiza os conceitos de texto, contexto e intertexto. www.esab.edu.br 17 3 A nova ortografia da Língua Portuguesa Objetivo Observar as principais alterações propostas pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 3.1 Reforma ortográfica Em 2008, foi proposta uma reforma ortográfica com o objetivo de uniformizar a grafia nos países que têm o português como língua oficial: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. O benefício da reforma é facilitar a aproximação desses países e fortalecer o idioma, mas fica a critério de cada país como e quando a colocará em vigor. No Brasil, termina em 2012 o período de transição para que as novas regras passem a ser oficiais. Até lá, temos de aprender a usá-las. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, com 381.000 verbetes, é o vocabulário oficial da nossa língua e sua versão mais recente, de 2009, atualizada com a nova ortografia, é a base para dicionários e livros em geral. Já são vários os manuais impressos e online para saber a grafia correta dos termos, mas ainda há muitas dúvidas e discussões. Saiba mais Para conhecer o decreto da Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, clique aqui. www.esab.edu.br 18 Acompanhe a seguir um resumo das principais mudanças, a partir de Silva (2009). 3.1.1 Uso do hífen Usa-se o hífen: • em palavras compostas que ganham um significado diferente, mas com sentido de composição (exemplo: tio-avô); • em espécies botânicas e zoológicas (exemplo: bem-te-vi); • palavras com uso já consagrado (exemplo: cor-de-rosa); • em encadeamentos de vocábulos (exemplo: Rio-Niterói); • em nomes próprios iniciados por grã, grão, verbo ou com termos ligados por artigos (exemplo: Grã-Bretanha); • em ênclise e mesóclise (exemplo: deixá-lo); • com o segundo termo iniciado por h (exceto sub) (exemplo: anti- higiênico); • com os prefixos além, aquém, recém, sem, ex, vice, pós, pré e pró (exemplo: pré-natal); • com o primeiro termo terminado em vogal e o segundo iniciado pela mesma vogal (exceto co) (exemplo: contra-ataque); • em derivados de Tupi-Guarani (exemplo Mogi-Mirim); • com os prefixos circum e pan com o próximo termo iniciado por vogal, m ou n. (exemplo: pan-americano); • com o prefixo mal com o próximo termo iniciado por vogal ou h (exemplo: mal-humor); • em termos repetidos (exemplo: blá-blá-blá); • com o prefixo bem com o próximo termo iniciado por vogal ou consoante (exemplo: bem-estar); Observação O hífen sumiu no caso de aglutinações do prefixo bem com o próximo elemento, mas apenas em duas famílias de palavras. A palavra bem-feito vira benfeito por força de ajustá-la a benfeitor, benfeitoria; o verbo bem- querer vira benquerer por analogia a benquisto, benquerença. O detalhe www.esab.edu.br 19 é que, ao mesmo tempo, a forma consagrada bem-querer permanece ativa. Não há menção no Novo Acordo a quaisquer outros casos. Não se usa o hífen: • em palavras que perdem a noção de composição ganhando novo significado (exemplo: paraquedas); • em locuções substantivas, adjetivas, pronominais ou adverbiais sem o uso do hífen consagrado (exemplo: fim de semana); • com os prefixos co, re, pro, pre (exemplo: cooperação); • com não e quase (as palavras não se unem) (exemplo: não fumante); • com prefixo terminado em consoante e o próximo termo iniciado por consoante diferente ou vogal (exemplo: subsíndico); • com prefixo terminado em vogal e o próximo termo iniciado por vogal diferente ou consoante diferente de r ou s (exemplo: autoestrada); • com prefixo terminado em vogal e o próximo termo iniciado por r ou s (r e s duplicam) (exemplo: ultrassom); • com o prefixo sub com o próximo termo iniciado por letra diferente de r (exemplo: subitem); • com o prefixo mal com o próximo termo iniciado por consoante, em alguns casos (exemplo: malcriado); • nas expressões latinas não aportuguesadas (exemplo: carpe diem). Saiba maisAcesse o site UOL Notícias e assista a um bate- papo com o professor Pasquale Cipro Neto a respeito da reforma ortográfica clicando aqui. www.esab.edu.br 20 3.1.2 Outras mudanças importantes O Novo Acordo Ortográfico, conforme Silva (2009), trouxe mais algumas importantes mudanças. Vejamos: • mudança no alfabeto: as letras k, w e y foram incluídas oficialmente; • abolição do trema. O único caso de uso permitido é nas palavras estrangeiras e suas derivadas (exemplo: Müller, mülleriano); • não se usa mais o acento diferencial (exceto em pôr e nos verbos têm, vêm e derivados na terceira pessoa do plural. Em fôrma é facultativo); • não se usa acento em éi e ói em paroxítonas (exemplo: ideia, paranoia); • não se usa acento em i e u tônicos após ditongo em paroxítonas (exemplo: feiura); • não se usa acento nos hiatos êem e ôo(s) (exemplo: voo); • não se usa acento no u tônico do presente do indicativo dos verbos arguir e redarguir (exemplo: eles arguem); • uso facultativo do acento nos verbos aguar, apaniguar, apaziguar, apropinquar, averiguar, desaguar, enxaguar, obliquar e delinquir, de acordo com a pronúncia (exemplo: enxágua ou enxagua). Espera-se que este breve resumo tenha auxiliado você. Quando surgir uma dúvida, retorne e consulte. Se não for o bastante, consulte o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), no site da Academia Brasileira de Letras. Fórum Dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e participe do nosso primeiro fórum. Esta atividade permite a interação entre você, seu tutor e colegas de curso, contribuindo significativamente para a construção do seu conhecimento. www.esab.edu.br 21 4 O falado e o escrito Objetivo Discutir a linguagem sob o viés de diferentes lugares de enunciação, analisando as mudanças que devem ser levadas em consideração. Utilizamos várias maneiras para nos comunicar, certo? Temos um modo para tratar com nossa família, outra com o pessoal do trabalho, outra em situações mais formais. E você também já deve ter reparado que em diferentes regiões do Brasil existem modificações na maneira de falar e também no vocabulário utilizado. Essas variações são chamadas de variedades linguísticas e fazem parte da diversidade cultural do nosso país. Podem ser variedades geográficas, de gênero, socioeconômicas, entre outras. As variedades geográficas são os regionalismos, que correspondem ao modo de falar do paulista, do baiano, do mineiro, do catarinense etc. Mas qual será a razão de nos jornais da tevê a linguagem utilizada não se parecer com a de nenhuma região? Se você pensou “porque é uma linguagem padrão”, é isso mesmo. A língua padrão é uma tentativa de unificar as características da língua portuguesa. Mas, diante disso, podemos afirmar que exista uma língua “mais correta”? A língua não é uma coisa inerte; pelo contrário, trata-se de algo vivo e dinâmico, usado pelos falantes de uma comunidade para a expressão de necessidades, sentimentos e ideias. Justamente por isso, trata-se de um código sujeito a constantes transformações e adaptações conforme as necessidades comunicativas dos falantes (FARACO; TEZZA, 2008). Mas atenção! Você recorda da letra de “Inútil”, música do Ultraje a Rigor, banda brasileira dos anos 1980? Acompanhe: www.esab.edu.br 22 A gente não sabemos Escolher presidente A gente não sabemos Tomar conta da gente A gente não sabemos Nem escovar os dente Tem gringo pensando Que nóis é indigente... Inútil A gente somos inútil Inútil A gente somos inútil O refrão “A gente somos inútil” da música do compositor brasileiro Roger Moreira está correto apenas na música, pois a linguagem poética (estudaremos este assunto em detalhe na unidade 6) admite determinadas transgressões à norma gramatical. Na letra em questão, houve clara intenção em transgredir essa norma para atingir o efeito desejado. O autor, no caso, tem liberdade de usar a língua do jeito que acha mais adequado para transmitir o sentido que deseja, independentemente do emprego da norma culta. Assim, percebe-se em vários casos, músicas, poesias e mesmo obras de ficção que se valem dessa liberdade para alcançar o efeito desejado na leitura ou na musicalidade da obra. Já conforme a norma culta – que define o que é ou não correto gramaticalmente –, a concordância do verbo e do predicativo em relação a seu sujeito, nesse verso, não está correta. No caso, deveríamos escrever “nós somos inúteis”. Trata-se de um uso muito semelhante ao funcionamento da gíria. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a gíria não constitui um “estrago” da linguagem. Quem, um dia, não usou alguma expressão como “cara”, “beleza”, “parada”, “ninja”, “balada”? www.esab.edu.br 23 O mal da gíria está em adotá-la como forma permanente de comunicação, desencadeando um processo não só de esquecimento, mas de desprezo ao vocabulário oficial. Mas se for usada no momento adequado, a gíria é um elemento de linguagem que denota expressividade, espontaneidade e criatividade, desde que, naturalmente, adequada à mensagem, ao meio e ao receptor (estudaremos esses conceitos mais adiante). Observe, porém, que estamos falando em gíria, e não das expressões conhecidas sob a categoria “baixo calão”. Uma palavra de baixo calão, popularmente conhecida como “palavrão”, é um vocábulo que pertence à categoria “gíria”, mas que, dentro dessa, apresenta-se chulo, impróprio, rude, obsceno, agressivo ou imoral sob determinados ângulos culturais. O problema da gíria é que ela só é admitida na língua falada ou em meios alternativos. Você pode utilizá-la numa conversa eletrônica com pessoas que você conhece, mas deve saber que em um trabalho acadêmico ou em situações mais formais, ela não convém – exceção para casos especiais de documentação de um fato em que descrever a linguagem seja parte essencial para a identificação de um personagem, por exemplo. Em termos gerais, você deve ter a consciência de que na fala você pode usar de certa descontração, no sentido de não aplicar as devidas concordâncias entre os termos, ou de usar gírias, mas somente quando você já pode se manifestar à vontade. Para situações formais, como a apresentação de um seminário, uma entrevista de trabalho, enfim, é preciso que você saiba regular a linguagem – pois o que está em questão nessas ocasiões é justamente manter-se “na linha”, mostrando sua capacidade de expressar ideias de forma clara e polida. Em suma, estudamos a língua para ampliar as relações de sentido. Se você tem um vocabulário curto, esse vocabulário não necessariamente determina suas associações mentais, mas com certeza limitará a expressão das suas ideias. Como vimos na unidade 1, é preciso tratar o domínio do idioma como uma técnica que aprendemos pela prática contínua. www.esab.edu.br 24 Para sua reflexão Vimos que “fala” e “escrita” são diferentes modalidades que apontam para usos distintos da língua. Agora que você já passou pela leitura da unidade, reflita: como se deve conduzir a linguagem para uma apresentação, uma situação formal em que você está sendo analisado por outras pessoas? As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 25 5 Polissemia, metalinguagem, intertextualidade e recombinação Objetivo Vislumbrar a pluralidade de significados das palavras, sua metalinguagem, bem como os conceitos da relação intertextual e da recombinação como procedimentos básicos para a escrita. Prezado acadêmico, agora que já vimos a importância do emprego correto da língua, inclusive percebendo as nuances entre o texto falado e o texto escrito, trataremos a seguir de alguns conceitos bastante frequentes no universo do estudo da Língua Portuguesa no ambienteacadêmico. São conceitos independentes, mas que guardam, como você verá, intensa relação entre si. Será uma exposição bastante breve, porém suficiente para você operacionalizar os termos. 5.1 Polissemia Para começar, observe a raiz grega do termo polissemia: poli, muitos; sema, significado. Refere-se à pluralidade lexical das palavras. Ou seja, além do significado imediato que temos a respeito de uma palavra, ela pode assumir diferentes sentidos conforme o contexto (PERINI, 2009). O texto de humor, por exemplo, vale-se muito da polissemia das palavras. Trata-se de um texto de ampla circulação, principalmente em programas de televisão, charges e histórias em quadrinhos. A publicidade, inclusive, utiliza muito da polissemia, partindo de uma escolha bastante específica dos termos a serem empregados para que causem a devida reação no leitor/ouvinte. Como contraste, um texto de caráter científico partirá do contrário: ele evita a ambiguidade de um termo para justamente anular a possibilidade de um sentido distinto daquele que se deseja; deste “defeito” é que o texto humorístico se vale. O humor diz uma coisa, permitindo que www.esab.edu.br 26 outra – ou mais – seja compreendida. É uma espécie de “negociação” do sentido que o texto estabelece (FARACO; TEZZA, 2008). Veja a figura 3 e comprove a tese. Figura 3 – Capa da revista Cascas, exemplo de polissemia no texto humorístico. Fonte: <www.hortifruti.com.br>. 5.2 Metalinguagem Esse conceito trata da propriedade que a língua tem de voltar-se para si mesma. O termo vem do grego, metá, e significa “depois, além de”. Então, podemos entender a metalinguagem como aquilo que está além da mera comunicação, quando problematizamos a linguagem utilizando dela própria para fazer isso. É a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas, ou seja, de linguagens dedicadas ao estudo da linguagem (PERINI, 2009). Hoje em dia, no entanto, a compreensão do termo é mais ampla, e o mesmo pode ser detectado em vários campos quando se realiza um movimento espiralado de pensamento. Vamos a um exemplo? Tomemos por base a introdução do romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, que assim escreve: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias www.esab.edu.br 27 pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”. Ou seja: o escritor discorre sobre o modo como escreveu o próprio livro. Atualmente, a metalinguagem faz parte de muitas das ficções com que tomamos contato. São frequentes os filmes que se desdobram sobre o próprio processo de representação (do filme que narra a confecção de um filme ou dos documentários a respeito de filmes ou seriados). Para você vislumbrar a ideia, considere que o programa Vídeo Show, da Rede Globo, desdobra uma metalinguagem sobre os programas realizados pela própria emissora. Por outro viés, a função primeira da linguagem é comunicar uma mensagem a um receptor, de forma a alcançar um determinado objetivo. Mas quando utilizamos a linguagem para esclarecer algo já exposto, aí estamos no campo da metalinguagem. 5.3 Intertextualidade Temos aqui, talvez, o mais rico dos conceitos. Suas formas habituais são a paródia e o pastiche (retornaremos a este conceito quando estudarmos a paráfrase, mais adiante). Trata do diálogo entre os vários textos de uma língua (MEDEIROS, 2008). Considere que um bom texto é bom à medida que se mostra capaz de estabelecer relações com o universo de ideias em que ele se situa. Quem não consegue estabelecer relações dificilmente desenvolve o senso crítico, a capacidade de análise; permanece sempre no sentido literal, não capta as entrelinhas, os pressupostos, ou seja, aquilo que está além, e que necessita do nosso conhecimento extra e de nossa interpretação. Daí se conclui a importância da variedade e constância da leitura. À medida que você constrói um repertório amplo de referências, amplia também o raio de associações que consegue estabelecer. Você se torna um construtor hábil de sentidos. Como exemplos rápidos, imagine que o álbum “Admirável chip novo”, da cantora Pitty, faz referência ao clássico romance de Aldous Huxley, www.esab.edu.br 28 “Admirável mundo novo”; ou que a reportagem “Yes, nós temos urânio!”, da Revista Superinteressante, referencia a famosa frase “Yes, nós temos banana!”, da cantora Carmen Miranda. A leitura já começa por aí. A literatura inteira é construída de livros que dialogam uns com os outros. O cinema se alimenta do próprio cinema, e faz referência (ou não!). Uma forma bem didática de visualizar isso é assistir ao filme de Bernardo Bertolucci, “Os sonhadores” (The Dreamers, 2003), em que o diretor retoma uma série de imagens da Nouvelle Vague, mais especificamente de um filme de Jean-Luc Godard, chamado “Bande à part”, um dos principais trabalhos da escola francesa, realizado em 1964. Em “Os sonhadores”, Bertolucci narra a história de Matthew, um garoto americano que, em 1968, vai a Paris estudar. Lá, conhece dois irmãos, Isabelle e Theo, e os três se tornam grandes amigos. São aficionados por cinema, e relacionam tudo às cenas dos filmes a que assistem. A cena mais emblemática é quando Isabelle lança a Matthew um desafio, o de acompanhá-la junto com Theo num passeio pelo Museu do Louvre, tal como na cena do filme “Bande à part”, em que os três personagens, Arthur, Odile e Franz, resolvem quebrar o recorde de um americano que conseguiu visitar o Louvre em 9 minutos e 45 segundos – e que acabam conseguindo, com 2 segundos a menos. A cena seguinte de “Os sonhadores”, portanto, é Matthew, Isabelle e Theo realizando o mesmo passeio de Arthur, Odile e Franz, antes realizado pelo americano, quebrando o recorde original em 17 segundos. E só para você saber mais um pouco sobre “Bande à part”, a cena original, de 1964, era, desde aquela época, a maneira de o diretor criticar e ridicularizar as hordas apressadas de turistas que circulavam pelo museu, preocupando-se apenas em ver os quadros mais conhecidos. Nesse caso, temos, então, uma pluralidade de conceitos. Há a relação intertextual entre os filmes e há também a metalinguagem de um filme que faz referência a outro. Durante a cena, aliás, Bertolucci intercala a filmagem feita por Godard com a sua, originando uma espiral de cinema sobre cinema, de linguagem sobre linguagem, de citações. www.esab.edu.br 29 5.4 Recombinação Por último, temos o conceito de recombinação. Habitualmente, não se trata de um conceito estudado em Língua Portuguesa. Trata-se de um viés mais vanguardista, e refere-se à ideia de que a produção criativa e intelectual nunca é original, está sempre pautando-se pelo já feito, dando novos sentidos àquilo cuja leitura estava estática. Por exemplo, considere que um determinado texto clássico já esteja carregado por uma determinada interpretação. A recombinação é uma forma de revitalizar o sentido, estabelecendo conexões que antes não existiam. Podemos dizer, portanto, que para conseguir decodificar uma série de mensagens, uma vez que a língua é um sistema de códigos, precisamos recombinar os termos, associá-los a outros. Ou seja, temos de construir o sentido! A recombinação é mais facilmente visualizada nas artes, e o maior expoente da recombinação talvez seja Marcel Duchamp, que criou a nomenclatura ready-made. Traduzindo o termo, ready-made significa “feito pronto” – ou seja, os trabalhos não eram mais uma reprodução do real por meio da técnica (como pintar uma paisagem “tal qual”, por exemplo), mas o próprio real. Para ele, o que interessava era o ruído que o objeto artístico gerava no campo das ideias. Nesse caminho, podemos ler por exemplo o seu trabalho intitulado “A fonte”, de 1917, que consiste em um urinol, assinado com o pseudônimo R. Mutt.www.esab.edu.br 30 Figura 4 – A fonte, de Marcel Duchamp (1917). Fonte: <commons.wikimedia.org>. Em outras palavras, não interessava mais o objeto – ele poderia ser qualquer coisa –, mas sim os sentidos que ele passava a produzir na rede discursiva do campo artístico. Mas como eram constituídos esses trabalhos? Pela recombinação de elementos. Os objetos eram retirados de sua condição de uso, e reposicionados como objetos de contemplação, de discurso, de pensamento. Mas de que isso nos serve no estudo dos textos? Isso significa que os sentidos não estão simplesmente dados. Todo sentido é um processo de elaboração, de negociação (FARACO; TEZZA, 2008). Quando lemos, estamos nos colocando no texto. São os nossos conhecimentos e nossa capacidade de interpretação que estão em jogo. Por isso, quanto mais amplas forem as suas referências, maior será a sua compreensão do mundo e de seus discursos. Ter noção desses conceitos ajudará você a aperfeiçoar os seus procedimentos de escrita e refinar o seu senso crítico. Mãos à obra! www.esab.edu.br 31 Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito do termo recombinação, leia o texto “Plágio utópico, hipertextualidade e produção cultural eletrônica” do grupo Critical Art Ensemble. O texto pode ser acessado clicando aqui. www.esab.edu.br 32 6 O esquema da comunicação e as funções da linguagem Objetivo Apresentar os fatores básicos que envolvem a comunicação, estudando as seis funções da linguagem. Após abordar a pluralidade de significados das palavras, sua metalinguagem, entendendo os conceitos da relação intertextual e da recombinação como procedimentos básicos para a escrita, vamos nos deter no processo de comunicação. Emissor, receptor, interlocutor – são termos usados com frequência no estudo da Língua Portuguesa, mas que fazem parte da teoria da comunicação, que estuda as origens, os efeitos e o funcionamento do nosso processo de interação via linguagens. Vamos explicitar alguns desses termos para que você saiba do que se trata. 6.1 Esquema da comunicação De saída, saiba que todo ato comunicativo (a fala, a escrita, um gesto) tem por premissa a transmissão de uma mensagem, constituída por um número fechado de elementos, como você pode visualizar na figura 5. Contexto Canal Código Emissor ReceptorMensagem Figura 5 – Esquema da comunicação. Fonte: Elaborada pelo autor (2012). www.esab.edu.br 33 Detalhando os elementos, o emissor é quem emite a mensagem. É a fonte da comunicação. Pode ser tanto uma pessoa como um grupo (uma organização, por exemplo). Receptor, ou destinatário, é quem recebe a mensagem transmitida pelo emissor. Pode também ser um indivíduo ou grupo (ou mesmo uma máquina ou um animal). A comunicação só acontece se a mensagem gerar alguma reação no receptor. Continuando, a mensagem é a informação transmitida e/ou recebida. Trata-se do objeto da comunicação, constituído pelo conteúdo. Canal, por sua vez, é a via de circulação das mensagens, seu meio físico, permitindo o contato entre os envolvidos no processo. Conforme o canal, as mensagens podem ser caracterizadas como visuais (imagem, símbolo), sonoras (palavras, músicas, sons de modo geral), táteis (pressões, choques), olfativas (odores em geral), gustativas (um tempero, por exemplo). Um choque elétrico, um sinal com as mãos, um perfume só constituem mensagens se veicularem, por vontade do emissor, uma ou várias informações dirigidas ao receptor. Código é o conjunto de sinais ou signos com os quais, seguindo certas regras, as mensagens são transmitidas. O emissor faz uso do código (codificação); o receptor identifica o sistema e, caso tenha condições, decodifica a mensagem. Por fim, a imagem sinaliza o contexto, constituído pelo ambiente que envolve a situação comunicacional, as circunstâncias de espaço e tempo. 6.2 Funções de linguagem Nas primeiras décadas do século XX, a linguagem passou a ser estudada cientificamente. Roman Jakobson, linguista russo, observou neste processo seis funções essenciais, amplamente utilizadas, as quais correspondem a cada um dos fatores da comunicação que vimos há pouco. www.esab.edu.br 34 Saiba que a primeira é a função emotiva (ou referencial) presente nos textos que privilegiam o emissor da mensagem. Prevalece a primeira pessoa do discurso – eu –, interjeições e exclamações. É a linguagem das biografias, memórias, monólogos, poesias líricas e cartas íntimas. Exprime, portanto, a atitude do emissor em relação ao conteúdo de sua mensagem e situação, sua subjetividade, normalmente moldada por sentimentos e emoções. Observe: Decidi contar o que aconteceu comigo quando resolvi virar punk. Nem sabia direito o que era punk e acho que ainda nem sei e por isso nem sei bem o que vou contar. Talvez seja porque nem sei direito o que me aconteceu. Mas vou contar, sinto que preciso contar, acho que me daria prazer. E vou contar. Também não sei muito bem por que resolvi escrever sobre tudo isso. Se me tivessem perguntado antes acho que teria respondido que gostaria de fazer um filme ou vídeo. Mas de repente a única coisa que pintou mesmo foi um maço de papel que peguei do escritório e é isso que vou usar. (COELHO, 1984, p. 7) A segunda função da linguagem é a conativa (ou apelativa). Está orientada para o receptor (ou destinatário), e caracteriza, por exemplo, os textos publicitários, que usam frequentemente verbos no modo imperativo (“Faz um 21!”, “Experimenta!”). A linguagem publicitária, por enfatizar sempre o receptor, emprega expressões próximas ou similares às do público-alvo, justificando o coloquialismo habitualmente adotado nesse tipo de discurso. A terceira função é a referencial (ou denotativa). Centrada no contexto, é aquela que privilegia a informação, fazendo-se presente nos textos científicos ou notícias. Em outros termos, é quando o emissor procura oferecer informações da realidade, prevalecendo a terceira pessoa do singular. Exemplo: “Marco Carola sai em nova tour e fará três apresentações no Brasil”, ou “o som é a propagação de uma frente de compressão mecânica ou onda mecânica; essa onda propaga-se de forma circuncêntrica, apenas em meios materiais – que têm massa e elasticidade, como os sólidos, líquidos ou gasosos”. A quarta função da linguagem proposta por Jakobson é a função fática. Está centrada no canal de comunicação. Nela interessa manter a situação comunicacional, e não o conteúdo a ser transmitido. É a linguagem das www.esab.edu.br 35 falas telefônicas, saudações e similares (“alô”, “você está me ouvindo?”, “um momento, por favor”, “vou desligar”). Há uma canção de Paulinho da Viola, “Sinal fechado”, gravada por Chico Buarque, que emprega a função fática: – Olá! Como vai? – Eu vou indo. E você, tudo bem? – Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você? – Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe? – Quanto tempo! – Pois é, quanto tempo! – Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios! – Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem! – Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí! – Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe? – Quanto tempo! – Pois é… Quanto tempo! Continuando, temos a função metalinguística, que, como já foi dito, é a função de usar a língua para explicar a si mesma, por exemplo. Vendo por outro viés, é também tudo o que, na mensagem, serve para dar explicações ou explicitar o código utilizado pelo emissor. Pode, assim, referir-se tanto a um verbete de dicionário ou enciclopédia quanto a um diálogo: – Levei bomba! – Como assim, “levei bomba”? – Fui mal na prova. No caso, há a necessidade de esclarecimento por parte do emissor daquilo que ele quer dizer. Por último, a função poética, centrada na própria mensagem, coloca em evidênciao próprio signo. Está presente nos textos em que se organiza de maneira especial a mensagem, com recursos de estilo. É comum na www.esab.edu.br 36 linguagem poética o jogo linguístico, a escolha de tons, a musicalidade. Acompanhe o poema a seguir, de W. B. Yeats, e atente para o modo como cada palavra é cuidadosamente escolhida: se eu me vestisse como os anjos do sol e azuis da noite os tons das estrelas do céu os arranjos eu colocaria o mundo a seus pés mas sou pobre e tendo só meus sonhos quero colocá-los a seus pés pise com cuidado, são meus sonhos (YEATS, 1995, p. 25) Observe a ausência de pontuação, o uso proposital das minúsculas, o cavalgamento dos versos, um mesmo fonema que se repete. Em qualquer outra situação de linguagem, soaria bastante estranho, não? Para encerrar, saiba que as seis funções da linguagem não se excluem; pelo contrário, é raro encontrar numa mensagem apenas uma dessas seis funções. Elas se sobrepõem umas às outras. Mas podemos, sim, dizer que uma dada mensagem tem uma função dominante. Assim, terminamos essa breve noção do estudo das funções da linguagem e do esquema comunicacional. www.esab.edu.br 37 Resumo Já fizemos um bom trabalho até aqui. Como você pôde perceber, escrever bem é algo que se pode alcançar com dedicação, disciplina e muito senso crítico. É um processo longo, mas quanto antes você começar, mais rápido será o retorno. Vimos também como é amplo o conceito de texto e suas implicações com o contexto. Tivemos uma breve noção das alterações fundamentais do Novo Acordo Ortográfico, ponderamos as diferenças entre a língua falada e a escrita, mostrando que você precisa saber utilizar diferentes linguagens conforme a situação (mais ou menos formal). Estudamos, ainda, conceitos importantes da produção textual (polissemia, metalinguagem, intertextualidade e recombinação) e, por fim, vimos os fatores básicos da comunicação, relacionados às seis funções básicas da linguagem propostas pelo linguista Roman Jakobson. Vamos em frente! www.esab.edu.br 38 7 O que define um bom texto Objetivo Estabelecer aspectos que permeiam a construção de texto com qualidade. Vamos começar com uma digressão. Na unidade 1, tratamos de como escrever pode se converter em uma técnica. Quando nos referimos à técnica, no entanto, entendemos por isso o resultado de, a princípio, uma dedicação à leitura e ao exercício cotidiano de apresentar argumentos bem formulados – ou seja, bem elaborados textualmente e estrategicamente armados. Se você está tentando aprimorar a sua escrita e o seu pensamento, o processo pode ser, no começo, algo que mereça certo esforço e, por isso, dedicação. Com tempo, isso se tornará (se você se dispuser) um hábito, de modo que o esforço empreendido se dilui. Retomamos esse assunto porque há um certo olhar pejorativo sobre a denominação da escrita como técnica, pois, de saída, o termo remete apenas a dominar um sistema de sinais. E saber ler e escrever não é só isso. Trata-se de “[...] agir sobre o mundo e defender-se dele, sempre em situações específicas e concretas, intencionalmente construídas e com objetivos claros” (FARACO; TEZZA, 2005, p. 128). Essa conotação negativa de técnica a que nos referimos está atrelada à modalidade de texto que você provavelmente desenvolveu na escola, denominado “redação escolar”, e que acabou se transformando em uma reunião de macetes a serem executados para se atingir uma boa nota. O primeiro desafio para quem pretende dominar a língua padrão escrita consiste em sair do universo viciado da redação escolar, universo sem referências concretas, “[...] em que um eu abstrato repete opiniões fragmentadas, edificantes e moralizantes sobre um Homem e um Mundo igualmente abstratos, para um universo concreto no qual a linguagem escrita age sobre o mundo” (FARACO; TEZZA, 2005, p. 128). www.esab.edu.br 39 Essa ação da linguagem sobre o mundo – porque, afinal de contas, é para isso que se escreve, destacam os autores (2005) – está presente tanto no bilhete mais simples de alguém semialfabetizado quanto no mais sofisticado texto científico. Mas, dando uma volta de parafuso a mais, o que seria o mundo, afinal, além de linguagem, quando mesmo para expressar o que sentimos (não só que pensamos) é preciso falar ou escrever? Dizemos comumente que um gesto substitui mil palavras. Mas tenha em vista que o gesto só funciona se, na linguagem, ele remeter a um sentido que encontra um referente na experiência alheia, produzindo-se assim o entendimento da mensagem. Ou seja: assim como as palavras, os gestos indicam para determinadas imagens mentais, sejam elas visuais ou acústicas (trata-se da composição do signo linguístico, para Saussure). Fim de digressão. Mas qual o bom texto, afinal? O bom texto é aquele que responde à proposta, considerando a solicitação e a intenção. É o resultado de habilidades construídas ao longo do tempo, por várias experiências, tais como aperfeiçoar o vocabulário, usar conscientemente a gramática de modo amplo, ter vasto referencial linguístico e extratextual. Como isso é bastante subjetivo, e pode implicar uma longa discussão, vamos identificar alguns elementos a seguir que na verdade atrapalham o bom desenvolvimento da escrita. 7.1 Pedantismo Comunicar bem por escrito, muitas vezes, pode ser confundido com certo apego à linguagem prolixa, à vigilância gramatical extrema ou ao emprego de um vocabulário requintado. E não é bem assim. Por alguma finalidade prática (a seleção do vestibular, por exemplo), a produção textual nas escolas passou a ser estudada por fórmulas (ou receitas) e macetes. Isso dava a ilusão de que o bom texto poderia ser www.esab.edu.br 40 metrificado justamente pelos fatores que listamos no parágrafo anterior. Conhecer um vocabulário amplo e saber gramática são fatores que auxiliam, sem dúvida, mas não substituem o que é de fato essencial: organizar bem as ideias, de forma clara e coerente, e defender bons argumentos. 7.2 Juridiquês Trata-se de um neologismo relativamente recente, bastante em voga, que indica o uso desnecessário e excessivo do jargão jurídico e de termos técnicos de Direito. Embora estejamos focalizando o Direito, vale dizer que qualquer área do conhecimento possui uma linguagem técnica, um vocabulário que lhe é peculiar. A questão é que, se utilizada com exagero, essa linguagem prejudica o alcance da leitura do texto, limitando-se apenas a profissionais da área. O “juridiquês”, entretanto, vai mais além. O termo surgiu em função do excesso de formalismo na área jurídica, caracterizada até hoje pelos pronomes de tratamento. Para aproveitar pedagogicamente este fenômeno, mantenha o olho bem aberto (e o senso crítico aguçado) para as frases muito longas, que podem perder o referente; para o floreio excessivo da língua com vocabulário complicado; para as metáforas jocosas, que podem conotar sentidos que você, a princípio, não se deu conta. 7.3 Lugar comum Conhecido também como clichê, trata do uso de frases feitas da sabedoria popular e universal no texto. Expressões que você já deve ter ouvido, como “Devagar se vai ao longe”, “A pressa é inimiga da perfeição”, “A esperança é a última que morre”, ou frases como “O que estraga o Brasil são os políticos”, “Hoje em dia, as mulheres estão entrando no mercado de trabalho”, “Segundo pesquisadores americanos”, “Os jovens de hoje em dia”, todas estão esgotadas, referem-se apenas a generalidades e atuam como formas de não pensar. Além disso, normalmente estão carregadas de cunho ideológico. Cuidado! www.esab.edu.br 41 8 Os diferentes tipos de texto Objetivo Apresentar noções básicas que permitam reconhecer os diferentes tipos de texto no contexto acadêmico. Delimitar a tipologia textual é matéria polêmica, pois isso implicaum certo olhar, um viés, que pode variar conforme o autor consultado. Correremos o risco e, para uma amostragem simples, explicitaremos aqui aqueles que você encontra no contexto acadêmico. Será uma demonstração rápida, a fim de ressaltar as diferenças fundamentais. Mesmo porque, nas unidades subsequentes, teremos a oportunidade de aprofundar alguns desses casos. Basicamente, existem seis tipos de texto: narração, descrição, dissertação, exposição, informação e injunção. Outros textos, tais como relato, entrevista, diálogo são considerados gêneros textuais, e não tipos. Do mesmo modo, poesia e prosa são formas literárias, e texto épico, dramático e lírico correspondem a gêneros literários. É possível divergir dessa conceituação, mas, para fins demonstrativos, é a que utilizaremos aqui, baseados em Fiorin e Savioli (2006), Faraco e Tezza (2005) e Medeiros (2008). 8.1 Narração A narração é um tipo de texto cuja peculiaridade reside em contar um fato, ficcional ou não, que aconteceu (ou acontece) em tempo e lugar específico, envolvendo personagens que desempenham ações. Assim, “[...] o que define o componente narrativo é a mudança de situação, a transformação” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 227). Dentro do conceito de narração – é importante que você saiba – fala-se em foco narrativo, que pode ser em primeira pessoa, constituindo um www.esab.edu.br 42 narrador-personagem, e em terceira, que indica um narrador-observador. Observe o texto a seguir: Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira. Certa manhã, ao deixar o metrô por engano numa estação azul igual a dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase. Desconfiei na mesma hora que tinha falado besteira, porque a professora me pediu para repetir a sentença. Aí estou chegando quase… havia provavelmente algum problema com a palavra quase. Só que, em vez de apontar o erro, ela me fez repeti-lo, repeti-lo, repeti-lo, depois caiu numa gargalhada que me levou a bater o fone. Ao me ver à sua porta teve novo acesso, e quanto mais prendia o riso na boca, mais se sacudia de rir com o corpo inteiro. Disse enfim ter entendido que eu chegaria pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha, depois um joelho, e a piada nem tinha essa graça toda. Tanto é verdade que em seguida Kriska ficou meio triste e, sem saber pedir desculpas, roçou com a ponta dos dedos meus lábios trêmulos. Hoje porém posso dizer que falo o húngaro com perfeição, ou quase. Note que a narração parte da primeira pessoa do discurso. Trata-se do início do romance “Budapeste”, de Chico Buarque (2003 p. 5), em que o protagonista da história, José Costa, é quem narra os fatos, mostrando o seu ponto de vista e como neles se envolve. Observe agora este fragmento o livro “O senhor embaixador”, de Érico Veríssimo, utilizado por Fiorin e Savioli (2006, p. 225): Foi na terceira semana de abril que o Embaixador de Sacramento tomou posse de sua cadeira no Conselho da Organização dos Estados Americanos. Ao entrar no edifício da União Pan-Americana foi logo atraído por vozes estrídulas que despertaram o menino que dormia dentro dele. Afastou-se dos assessores que o acompanhavam e precipitou- se para o Pátio Tropical, onde duas araras de cores tão rútilas que pareciam recender ainda a tinta – escarlate, verde, azul, amarelo – gingavam e gritavam, assanhadas nos seus poleiros [...]. Percebeu a diferença? Agora há alguém narrando os fatos de fora da história, observando tudo, sem dela participar. www.esab.edu.br 43 8.2 Descrição A descrição, por sua vez, é um texto que utilizamos frequentemente em nosso dia a dia. Sua característica é a de caracterizar pessoas, objetos e/ou lugares, com ênfase naquilo que se quer fazer ver em detalhe. É como se fosse uma imagem verbal. Pode ser denotativa, caracterizada pela objetividade, ou conotativa, de abordagem subjetiva. Acompanhe esta descrição elaborada por Bernardo Guimarães, utilizada por Fiorin e Savioli (2006, p. 239): Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham-se distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairava-lhe pelo espaço. Guarde as suas impressões, pois na unidade 9 estudaremos o texto descritivo detalhadamente. 8.3 Dissertação Já a dissertação “[...] é o tipo de texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 252). Trata-se de um texto de caráter científico. Não há a preocupação de convencer o leitor sobre o ponto de vista em questão; ele é simplesmente www.esab.edu.br 44 transmitido. Observe este caso retirado de “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, utilizado por Fiorin e Savioli (2006, p. 251): Há três métodos pelos quais pode um homem chegar a ser primeiro-ministro. O primeiro é saber, com prudência, como servir-se de uma pessoa, de uma filha ou de uma irmã; o segundo, como trair ou solapar os predecessores; e o terceiro, como clamar, com zelo furioso, contra a corrupção na corte. Mas um príncipe discreto prefere nomear os que se valem do último desses métodos, pois os tais fanáticos sempre se revelam os mais obsequiosos e subservientes à vontade e às paixões do amo. Por outro lado, há também o texto dissertativo-argumentativo, cuja intenção é convencer o interlocutor a mudar o seu comportamento. Mas veremos esta nuance do texto dissertativo detalhadamente em uma unidade posterior. 8.4 Exposição A exposição consiste em apresentar informações a respeito de um assunto, explicando, avaliando e analisando. Pode conter instruções, descrições, definições, enumerações, comparações e contrastes. Para fazer uma Análise SWOT, é necessário fazer previamente uma análise do mercado e da empresa. O termo SWOT é uma sigla oriunda do inglês, traduzindo: Forças (Strengths), Fraquezas (Weaknesses), Oportunidades (Opportunities) e Ameaças (Threats). Esta análise divide-se em 4 quadrantes: ameaças, oportunidades, pontos fracos (fraquezas) e pontos fortes (forças). As ameaças e as oportunidades estão ligadas ao mercado enquanto os pontos fracos e pontos fortes estão ligados à empresa. (COMO FAZER, 2012, p. 1) Guarde as suas impressões, pois na unidade 16 estudaremos o texto explicativo, como também é conhecido, detalhadamente. www.esab.edu.br 45 8.5 Informação Dando continuidade, a informação se limita a deixar o leitor a par de um fato, sem expor ideias ou defender argumentos. Predomina a linguagem clara e objetiva, a partir da terceira pessoa do discurso. É o caso da notícia, como mostraremos no exemplo a seguir. Depois de 11 dias de proibição, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou hoje a liberação da venda de novas linhas de celulares e internet das operadoras TIM, Claro e Oi a partir de amanhã. As vendas foram proibidas pela Anatel no dia 23 de julho, como forma de punição pela má qualidade dos serviços prestados. Como exigência para aliberação, as operadoras tiveram que apresentar planos de investimentos na qualidade da rede e no atendimento aos clientes. (CRAIDE, 2012, p. 1) Guarde as suas impressões, pois na unidade 10 estudaremos o texto informativo detalhadamente. 8.6 Injunção Por fim, saiba que a injunção corresponde ao texto que indica o modo como uma ação deve ser realizada. Em sua confecção, prevalecem os termos no imperativo, com uso eventual do infinitivo e futuro do presente do modo indicativo. Receitas, previsões do tempo, manuais, leis, questões de prova, instruções de jogos são exemplos do texto injuntivo. Observe: Instruções para uso de lentes de contato Lavar e enxugar as mãos sempre antes de manusear as lentes. Não usar as lentes se a embalagem não estiver vedada. Não se deve compartilhar lentes de contato. Colocação das lentes: 1. Para cada olho, certifique-se de que a lente não está invertida. Coloque-a sobre o dedo indicador para verificar a forma. 2. Usando o dedo indicador e o médio da outra mão, puxe a pálpebra superior para cima e a inferior para baixo. Coloque a lente no olho. Repita o procedimento para o outro olho. Fonte: <http://www.coopervision.com.br/cuidado_instrucoes.php> www.esab.edu.br 46 Nas unidades seguintes, teremos uma exposição mais longa sobre alguns dos tipos de texto que apresentamos aqui. Contudo, o que você viu até agora é o bastante para saber diferenciar e fazer uso de cada um deles. Estudo complementar Para aprofundar o que estudamos rapidamente nesta unidade, clique aqui e acesse o site Brasil Escola, do Ministério da Educação, e no campo de busca digita os termos ‘narração’, ‘descrição’ e ‘dissertação’. Confronte as informações que você encontrar com as que você leu aqui. www.esab.edu.br 47 9 Texto descritivo Objetivo Apresentar os aspectos que caracterizam o texto descritivo. Na unidade anterior, abordamos rapidamente a descrição como sendo um dos tipos de texto. Trata-se de uma modalidade bastante usual no dia a dia, pois estamos, a todo momento, em nossas conversações, dizendo como as pessoas e as coisas são, do que se constituem, qual a sua condição, com que ou com quem se parecem etc. E, assim, também quando escrevemos, quer se trate de textos formais ou informais, de modo objetivo ou subjetivo. Vamos agora ver em detalhe esse tipo de texto, partindo de um esquema baseado nos autores Fiorin e Savioli (2006). Acompanhe. 9.1 Conceito de texto descritivo Descrição é o tipo de texto em que se expõem características dos seres concretos, consideradas fora da relação de anterioridade e posterioridade. O que isso quer dizer? Veja o exemplo. Eis São Paulo às sete da noite. O trânsito caminha lento e nervoso. Nas ruas, pedestres apressados se atropelam. Nos bares, bocas cansadas conversam, mastigam e bebem em volta das mesas. Luzes de tons pálidos incidem sobre o cinza dos prédios. (FIORIN; SAVIOLI, 2007, p. 297) Significa que o texto descritivo mostra uma cena, coisas ou pessoas em um momento específico do tempo. É como a coisa é ou como a pessoa está. Daí que o texto desconsidere o antes (anterioridade) e o depois (posteridade). www.esab.edu.br 48 Figura 5 – São Paulo, 19h. Fonte: <www.sxc.hu>. 9.2 Detalhando os aspectos do texto descritivo A seguir, fazemos a exposição de alguns detalhes relativos ao texto descritivo. A descrição pauta-se pela figuratividade do texto. Fornece-se uma imagem clara, como se fosse uma figura. Você pode perceber na leitura que os adjetivos desempenham um papel fundamental para que a figuratividade se concretize. Veja este exemplo, retirado da peça teatral “O jardim das cerejeiras”, de Tchecov. Trata-se do início do segundo ato da peça, em que o autor descreve o cenário no qual toda a ação transcorrerá, incluindo os personagens que dela participam. www.esab.edu.br 49 Campo. Um velho santuário abandonado há muito tempo, tombado pra direita. Perto de um poço, enormes pedras que devem ter sido lápides tumulares. Um velho banco. Vê-se o caminho que leva à casa de Gaiév. De um lado muitos álamos, árvores escuras; é nesse ponto que começa o cerejal. À distância vê-se uma enfiada de postes telegráficos e longe, bem longe no horizonte, a silhueta esfumada de uma grande cidade que só será visível em dias bem claros. É quase pôr do sol. Carlota, Iacha e Damiacha estão sentados no banco. Epikodov está em pé, perto, tocando alguma coisa sombria numa guitarra. Todos em atitude pensativa. Carlota usa um boné velho; tira uma espingarda do ombro e aperta a fivela da correia. (TCHECOV, 1983, p. 31) Não relata propriamente mudanças de situação, mas propriedades dos aspectos simultâneos dos elementos descritos, considerados em uma única situação. Retome o exemplo que citamos na seção 9.1, a descrição da cidade São Paulo às sete da noite. Veja que todos os elementos estão dispostos de uma vez, e que não há nenhuma transformação de estado. Há movimento na cena, por certo, mas teríamos aqui de desvencilhar o conceito de movimento do de tempo. Não há tempo na descrição, pelo contrário, trata-se de uma imagem estática – “às sete da noite” – em que o movimento é um detalhe da condição presente, em sua simultaneidade. O que se descreve é um todo simultâneo, não existe relação de anterioridade e posterioridade inclusive entre os enunciados. Perceba, ainda na descrição da cidade de São Paulo às sete da noite, que podemos trocar a ordem dos enunciados sem prejuízo semântico. Veja: Luzes de tons pálidos incidem sobre o cinza dos prédios. Nos bares, bocas cansadas conversam, mastigam e bebem em volta das mesas. O trânsito caminha lento e nervoso. Nas ruas, pedestres apressados se atropelam. Eis São Paulo às sete da noite. Os tempos verbais utilizados são o presente ou o pretérito imperfeito (ou ambos), pois o primeiro expressa concomitância em relação ao www.esab.edu.br 50 momento da fala, e o segundo, em relação ao momento temporal pretérito instalado no enunciado. Observe os verbos utilizados: incidem; conversam; mastigam; caminha; atropelam. Caso a situação já tivesse acontecido, via passado imperfeito, seria: São Paulo às sete da noite. O trânsito caminhava lento e nervoso. Nas ruas, pedestres apressados se atropelavam. Nos bares, bocas cansadas conversavam, mastigavam e bebiam em volta das mesas. Luzes de tons pálidos incidiam sobre o cinza dos prédios. Essas são as condições básicas de organização do texto descritivo. Podemos, entretanto, ainda considerar que em função de a descrição não se pautar por progressão temporal – tal como na narrativa –, sua organização é espacial. Para converter uma descrição em narração, basta introduzir um enunciado que indique a passagem de um estado anterior ao posterior. São Paulo às sete da noite. O trânsito caminha lento e nervoso. Nas ruas, pedestres apressados se atropelam. Às nove, nos bares, bocas cansadas conversam, mastigam e bebem em volta das mesas. Luzes de tons pálidos incidem sobre o cinza dos prédios. Como você pôde notar, a simples inserção de “às nove” interfere no resultado: dividimos o que antes era uma cena estática em duas, e pode- se presumir que as “bocas cansadas que conversam no bar” são, de certo modo, produto do cenário caótico anterior. Há um processo de transformação e já não podemos inverter a ordem dos enunciados sem prejuízo semântico. www.esab.edu.br 51 Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. Concluímos esta unidade destacando que a descrição é, portanto, um recurso da narração. Ela, a descrição, apresenta personagens, lugares, estados, cuja mudança será tarefa da narração. Aprendemos que a descrição é o tipo de texto em que se expõem características dos seres concretos, consideradas fora da relaçãode anterioridade e posterioridade. Isso significa, em síntese, que o texto descritivo mostra uma cena, coisas ou pessoas em um momento específico do tempo. Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidade 1 a 9. Para isso, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 52 10 Texto de informação Objetivo Apresentar os aspectos que caracterizam o texto informativo. Depois de verificarmos as peculiaridades da descrição, vamos estudar o texto informativo. O mundo é linguagem e precisa organizar-se cientificamente – a prova, o fato, a objetividade – para alcançar credibilidade. Essa é a função do texto informativo. É o tipo de texto mais frequente no cotidiano da vida urbana em seus vários meios de comunicação: a internet, a tevê, os jornais, as revistas, os folhetos que recebemos no semáforo, os outdoors, os livros, as aulas, entre outros. 10.1 Conceito de texto de informação Informação não se restringe à escrita. Em nossa conversação diária, somos todos consumidores e transmissores de informações sobre tudo o que nos cerca ou nos interessa. Por essa distribuição massiva em nossa vida, pode-se afirmar que o texto de informação se tornou o referente mais adequado à sistematização normativa da linguagem escrita. Isso parece óbvio, mas se pensarmos que durante a maior parte do século XX os gramáticos tomaram por referência a linguagem dos escritores de literatura não parece tão lógico assim. Perceba que o objetivo do texto de informação é bastante simples: fornecer dados legítimos a respeito de algo para alguém. www.esab.edu.br 53 10.2 Analisando Vamos analisar um caso, baseando-nos no conteúdo do site <gripe.org.br>. Como o próprio nome do site explicita, o foco é o vírus Influenza, comumente conhecido por gripe. A apresentação do site é bastante simples: nele consta um menu subdividido em abas (A gripe; Transmissão; Sintomas; Prevenção; Perguntas). Vejamos em detalhe o conteúdo da primeira aba. Acompanhe. O que é gripe A gripe (influenza) é uma das doenças respiratórias que mais acometem o homem. Trata-se de uma infecção do sistema respiratório cuja principal complicação são as pneumonias, que são responsáveis por um grande número de internações hospitalares no país. Apesar de frequentemente apresentar a imagem de uma doença benigna, a gripe é uma doença potencialmente grave, que mata milhares de pessoas todos os anos. A gripe é causada por um vírus específico, chamado vírus influenza: Myxovirus influenzae. Este vírus possui a capacidade de mudar constantemente suas características, o que possibilita que um mesmo indivíduo tenha vários episódios de gripe durante a vida. Por causa das mutações e da rápida disseminação da doença, as epidemias e pandemias são uma característica importante da gripe. www.esab.edu.br 54 Saiba mais: O vírus influenza Desconhece-se a data do aparecimento do vírus influenza, embora a gripe seja considerada uma das mais antigas doenças da humanidade. Em 412 a.C. foi descrita uma epidemia de tosse seguida por pneumonia na Grécia – podendo ser o influenza um dos prováveis causadores. Duzentos anos depois, houve uma doença infecciosa que atingiu o exército romano. Desde então, várias epidemias envolvendo o aparelho respiratório foram registradas, mas somente a partir do século XVIII é que o número de infectados passou a ser contabilizado. Vamos por partes. Quanto à linguagem, você ficou em dúvida quanto a algum termo em específico? Provavelmente não, pois o texto informativo, mesmo que utilize de termos incomuns, em algum momento ele esclarece o conceito (“O vírus da gripe aviária, por exemplo, é do tipo A, subtipo H5N1, sendo que o ‘H’ significa hemaglutinina e o ‘N’, neuraminidase. Trata-se de duas proteínas existentes na superfície do vírus. A primeira se liga às células humanas, permitindo a entrada do vírus para multiplicação, e a segunda permite a liberação dos novos vírus para infectar outras células”). A linguagem é clara e objetiva, para que qualquer cidadão alfabetizado bem disposto apreenda o seu conteúdo. Todas as afirmações estão baseadas em dados pesquisados e experimentados. Apresentam-se os dados e deles são tecidas considerações, muitas vezes recorrendo-se a autoridades que deem legitimação ao que se está dizendo (“Conforme a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical…”). Perceba, ainda, que não há emissão de opinião direta. www.esab.edu.br 55 Para sua reflexão A partir do que vimos até aqui sobre o texto informativo, reflita: você concorda com a ideia de que o texto de informação não expõe um ponto de vista, ou seja, que ele é “neutro”? Ou, por outra: as informações são repassadas de modo imparcial? As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. Por último, o texto de informação guarda, na maior parte das vezes, um forte vínculo com a atualidade. A gripe é uma questão de saúde coletiva, daí a importância de se saber como lidar com esse mal. É um exemplo menos ordinário, uma vez que a gripe ultrapassa as gerações e continua gerando discussão. Mas imagine uma revista de entretenimento: a informação que nela consta está sempre pautada pelo que está acontecendo: a novela, o futebol, a bolsa de valores, o cenário político. Faraco e Tezza (2005) observam que toda e qualquer palavra está carregada de opinião, de um viés conceitual. A escolha de uma palavra em específico e não de outra já implica em uma ideia a respeito do que se está informando. Pense, por exemplo, no telejornal: por mais que se afirme que o jornalismo se quer neutro, a simples escolha de quais notícias irão ao ar já implica num olhar sobre o que acontece no país. Mas ainda assim podemos destacar: uma coisa é expor quais são os personagens da novela e mostrar suas relações ou dizer qual foi o resultado do jogo da última quarta-feira e relatar os gols, as faltas etc.; outra coisa é dizer “esta novela é muito interessante” ou “o time X não está jogando nada”, pois aí já temos uma opinião direta e um juízo de valor. Trata-se, no caso, do texto de opinião, como veremos na próxima unidade. www.esab.edu.br 56 11 Texto de opinião Objetivo Apresentar os aspectos que caracterizam o texto opinativo. Agora que já entendemos as peculiaridades de um texto informativo, vamos nos deter nas características do texto de opinião. O texto de opinião pode ser entendido em duas palavras: informar e influenciar. Assim como o texto de informação, deve ser claro e breve na interpretação dos fatos, que deve estar devidamente fundamentada, pois do contrário o texto resvala na ética. 11.1 Conceito de texto de opinião O “desejo” do texto opinativo é fazer com que o leitor, ao fim, partilhe do ponto de vista exposto. Sua particularidade reside, além de apresentar os fatos dentro de um determinado contexto, em lê-los sob um determinado viés, emitindo juízos de valor (vimos isso rapidamente no final da unidade 10). Portanto, o autor do texto opinativo não se preocupa em se manter neutro ou distante da matéria analisada. Pelo contrário, é essa insinuação do autor sobre a matéria que dá o caráter desse tipo de texto. No texto de opinião, existe um sujeito que se revela deliberadamente. 11.2 Analisando Vamos começar com um exemplo? www.esab.edu.br 57 A voz de Getúlio Vargas O Brasil carrega em seu DNA institucional várias pequenas heranças de origem fascista. Elas incluem a força despropositada das corporações profissionais, a estrutura sindical baseada em contratos coletivos de trabalho e contribuições compulsórias. Nenhuma, porém,se iguala ao programa radiofônico A Voz do Brasil, que todas as emissoras do país estão obrigadas a transmitir, de segunda a sexta-feira, sempre às 19h, ritual decrépito que se repete com poucas interrupções desde 22 de julho de 1935. A iniciativa se inspira em ideologia das mais totalitárias. O indivíduo não existiria fora do Estado, única instituição capaz de oferecer-lhe os valores de que necessita. O núcleo do poder político se encarregaria de produzir diariamente noticiário de uma hora, com difusão obrigatória. O cidadão até poderia desligar o rádio, mas, se quisesse ouvir algo, não poderia fugir do oficialismo edificante. A cartilha fascista se reproduz até na divisão do programa, que é meticulosamente repartido entre os Poderes da República: o Executivo tem 25 minutos; o Judiciário, cinco; senadores dispõem de dez minutos; deputados federais contam com 20. Num detalhe que resume a essência do corporativismo mussoliniano – o Estado pode resolver todos os conflitos integrando diferentes grupos num modelo colaborativo –, às quartas-feiras o Tribunal de Contas da União ganha o seu minuto, cedido às vezes pelo Executivo, às vezes pela Câmara. É incrível que um arcaísmo dessa magnitude sobreviva em pleno século XXI. Além de negar a liberdade de escolha a milhões de cidadãos brasileiros, A Voz do Brasil presta um desserviço público, ao monopolizar as ondas de rádio no exato momento em que elas são uma valiosa fonte de informações para o cidadão – por exemplo, sobre o trânsito que assola tantas cidades do país. É, portanto, uma boa notícia a de que a Câmara deverá colocar em votação um projeto de lei que flexibiliza os horários de exibição de A Voz do Brasil. Melhor ainda seria se o Congresso acabasse de vez com a obrigatoriedade e, por que não, com o próprio programa, que custa caro aos cofres públicos. Mas isso talvez seja pedir demais dos parlamentares, que se contam entre as pouquíssimas pessoas beneficiadas por esse resquício dos tempos de Getúlio Vargas. (FOLHA DE S. PAULO, 2012) www.esab.edu.br 58 Pergunte-se agora: o texto se limita a informar que A Voz do Brasil é um programa radiofônico transmitido por todas as emissoras de rádio do país, sempre às 19h ou ele faz algo além disso? Se ele se limitasse a informar, seria um texto informativo. Mas, pelo contrário, o texto está crivado de termos carregados de juízos de valor. De início, já temos a afirmação de que “O Brasil carrega em seu DNA institucional várias pequenas heranças de origem fascista”. Seguindo, fala-se da obrigatoridade de transmissão do programa radiofônico A Voz do Brasil, um “ritual decrépito que se repete com poucas interrupções desde 22 de julho de 1935”. Na sequência, o programa é visto como um indício da disposição estatal que entende o próprio Estado como única instituição capaz de oferecer os valores de que o indivíduo necessita para a sua formação cidadã um oficialismo edificante. E como se não bastasse, o texto ainda mostra que “A cartilha fascista se reproduz até na divisão do programa”, meticulosamente dividido entre os poderes da República. Percebeu que não há um momento de alívio sequer? A interpretação fundamenta-se nos regimes fascistas de Getúlio Vargas e Mussolini, para, ao final, comemorar a disposição da Câmara em votar um projeto de lei que flexibiliza os horários de exibição do programa. “Melhor ainda seria se o Congresso acabasse de vez com a obrigatoriedade e, por que não, com o próprio programa, que custa caro aos cofres públicos.” Esse texto que vimos é um editorial da Folha de S. Paulo. Não é assinado por um autor, mas responde pela organização como um todo. É o ponto de vista do jornal a respeito de um acontecimento marcante da atualidade. E esse aspecto, a atualidade, também é fundamental para o texto de opinião, pois, para que se produza a polêmica, o texto terá sempre de estar atrelado a algo que faz parte da preocupação coletiva naquele momento específico. Mas sob o rótulo “texto de opinião” também podemos entender o comentário do leitor, por exemplo, estando muitas vezes redigido na primeira pessoa. O que prevalecerá, sempre, é a tentativa de convencimento do emissor sobre o destinatário por meio de descrições www.esab.edu.br 59 detalhadas, apelo emotivo, acusações, sátira, ironia e fontes de informações precisas. Sobre o mesmo tema do texto anterior, acompanhe esta exposição do leitor Paulo Renato Pulz, de Porto Alegre, para a revista Época: A Voz do Brasil é um programa de grande valia para sociedade brasileira, e deve permanecer no ar nos horários das 19h, consagrado nestes 75 anos de audiência. Eu sou ouvinte desde 1969 [...] Não vejo nenhuma razão para flexibilizar o horário, a pressão vem das empresas de comunicações, pelas transmissões do futebol. Isto é problema do futebol, que inventou diversos campeonatos, cujo único objetivo é arrecadar dinheiro, dinheiro... Não estão nem aí para os interesses dos cidadãos, quanto menos letrado melhor, assim não há questionamentos. O interessante é que todas matérias editadas por A Voz do Brasil no dia seguinte estão estampadas nos jornais diários de grande tiragem e matérias de rádios. O lobby no congresso é grande pelo fim do horário. A Presidenta Dilma deve resistir a esta intervenção dos empresários de comunicações. [...] Falta coragem, ou medo de responder à legislação das concessões? (ÉPOCA, 2012) Perceba, então, o uso da primeira pessoa (“Eu sou ouvinte desde 1969, acompanhava meu pai na audiência, sentado no sofá de três lugares, observando seus gestos de indignação diante de certas restrições de liberdades”) e os motivos que justificam o ponto de vista (“a pressão vem das empresas de comunicações, pelas transmissões do futebol. [...] Não estão nem aí para os interesses dos cidadãos, quanto menos letrado melhor, assim não há questionamentos. O interessante é que todas as matérias editadas por A Voz do Brasil no dia seguinte estão estampadas nos jornais diários de grande tiragem e matérias de rádios”). www.esab.edu.br 60 Para sua reflexão A partir da leitura feita até aqui, reflita: você é uma pessoa que manifesta abertamente os seus pontos de vista ou que evita a discussão? Quando você emite uma opinião, ela está embasada em impressões ou você se ampara em informações com que tomou contato previamente? Pense! As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 61 12 Texto crítico Objetivo Apresentar os aspectos que caracterizam o texto crítico. Há uma certa confusão em torno da palavra crítica. É comum ouvirmos, por exemplo, “X criticou Y”, no sentido de que X teria “falado mal” de Y. Mas não é isso. Não há no termo crítica uma relação direta com o “falar mal a respeito de”. Essa confusão advém do emprego do vocábulo em sentido figurado misturado ao sentido filosófico. O sentido figurado da palavra crítica estaria relacionado ao significado de um juízo desfavorável, desabonador ou negativo, como dissemos antes. 12.1 Você sabe o que é crítica? De certo modo, como vimos na unidade anterior, a opinião seria uma espécie de crítica, “o seu veículo”, por assim dizer. Quando alguém esboça a sua opinião, seja ela desfavorável ou não, está também formulando uma crítica. Mas o primeiro “porém” reside em que, nas linguagens filosófica e científica, que lidam com lógica e a comprovação, a opinião reflete uma avaliação não especializada. No ambiente científico, por exemplo, a opinião não tem valor de verdade, pois nele a regra que vale é a da comprovação, enquanto na filosofia são aceitas teorias sobre o funcionamento das coisas, muitas vezes de forma dedutiva. A verdade pode ser relativa no campo filosófico, porém na ciência é a comprovação por meio de experimentosque transforma uma teoria em verdade. www.esab.edu.br 62 O segundo “porém” é que o texto crítico vai além do texto opinativo. Para o texto crítico, são necessários conhecimentos mais aprofundados sobre o objeto de análise e sobre área onde esse objeto se contextualiza. Digamos que você leu um livro da área de Administração e deseja escrever uma crítica a respeito. Você necessita, além da leitura do livro, saber mais informações sobre o autor, qual a sua formação, se ele escreveu outros livros além desse que você leu e qual o lugar teórico de onde esse autor se pronuncia. Mais que isso, você precisa conhecer a área, dentro do estudo da Administração, em que esse livro se insere, e quais os autores que corroboram ou discordam do modo como o autor do livro que você está analisando arma os argumentos. Em outras palavras, o texto crítico implica pesquisa e método, sem subjetivismo. A crítica, portanto, está além do “bom” ou “ruim”; e analisar criticamente significa, assim, colocar em tensão, produzir atrito com o objeto, e persuadir (FIORIN; SAVIOLI, 2006). 12.2 Atributos Assim como para qualquer outro texto de qualidade, o texto crítico não pode prescindir de alguns atributos. Vamos estipulá-los: • clareza e precisão: ser transparente, fazer uma boa exposição de ideias, o que implica em usar bem a gramática; • coerência: amarrar bem as ideias, com uma ordem crescente entre os argumentos; • objetividade: não se deixar influenciar pelos sentimentos ou preferências; manter-se racional. Estes, porém, são fatores genéricos que devem nortear o texto em geral, porque o leitor crítico é aquele capaz de atravessar os limites do texto em si para o universo concreto dos outros textos, das outras linguagens, capazes de criar quadros mais complexos de referência. E esta www.esab.edu.br 63 multiplicidade de pontos de vista está presente em qualquer gênero da linguagem (FARACO; TEZZA, 2005). A identidade do texto crítico reside no fato de que ele analisa alguma coisa em específico (um livro, como vimos antes, um filme, uma teoria). Enfim: o texto crítico analisa algum produto da cultura. Mas onde e como esta modalidade textual se vincula? A palavra crítica popularizou-se com o surgimento dos jornais, no início do século XX. Saiu, assim, do contexto acadêmico e passou a habitar as colunas que analisavam espetáculos artísticos, filmes e livros. Isso fez com que muitos críticos se tornassem famosos por seu modo de analisar ou escrever, sendo capazes de arruinar ou consagrar trabalhos com apenas algumas linhas. Hoje em dia, encontramos o texto crítico em jornais e na internet, fundamentalmente. Sua forma habitual é a resenha. 12.3 A resenha A resenha é um texto crítico, como vimos, muito comum em jornais, revistas e sites. Caracteriza-se por “[...] um relato minucioso das propriedades de um objeto, ou de suas partes constitutivas” (MEDEIROS, 2008, p. 158). Trata-se de uma avaliação de determinado produto cultural, tal como um livro, um disco, um filme. Seu autor fornece os dados do objeto ou produto (se um livro, por exemplo, constam autor, título, local de publicação, editora, preço), comenta o conteúdo, avalia, mas deve deixar o leitor curioso! Faraco e Tezza (2005) observam que hoje em dia a resenha constitui um gênero bastante variável, que pode ser tanto um parágrafo informando sobre o que é o filme que a emissora X exibe no horário das 22h, como um bonequinho sorrindo ou um sinal de positivo sinalizando que o resenhista aprova e indica o objeto (lembre-se, aqui, da abrangência do www.esab.edu.br 64 conceito de texto que estudamos na unidade 2). Mas também pode ser um longo texto, apresentando e criticando o conteúdo em uma revista, jornal ou site. Ao fim das contas, a resenha possui dois elementos fundamentais: 1) a informação, que são os dados que enumeramos há pouco, e 2) o princípio de que o leitor não conhece o objeto em questão. Se for um livro, a resenha indica o assunto, a editora, o número de páginas, preço; se um filme, diz quem é o diretor, o elenco, a produtora, a síntese da história; se um disco, quais são as faixas, os compositores, os instrumentistas, as condições de gravação (ao vivo, em estúdio). Mas, além da informação, a resenha também inclui a opinião (perceba como não conseguimos, ao falar de crítica, prescindir da opinião, por mais controverso que isso seja, como vimos no início). Trata-se de um parecer direto sobre o objeto/produto. O leitor quer saber se o livro (filme, peça, disco etc.) é bom e por quê (FARACO; TEZZA, 2005). Acompanhe este exemplo: www.esab.edu.br 65 O livro de ouro da liderança segundo o Instituto Empreender Endeavor O Livro de ouro da liderança é o mais recente lançamento do americano John C. Maxwell, profissional apontado pela Leadership Gurus International como o mais influente especialista sobre o tema do mundo. Autor de mais de 50 títulos sobre o assunto e com 12 milhões de livros vendidos, Maxwell é fundador das organizações de sociedade civil Injoy Stewardship e EQUIP, que têm como meta treinar mais de 1 milhão de líderes em todo o mundo. Editado pela Thomas Nelson Brasil, o lançamento traz no audiolivro as 21 irrefutáveis leis da liderança, com toques exclusivos do guru. Nas 269 páginas da publicação, Maxwell defende a ideia de que a liderança não se constrói de uma hora para outra e, sim, durante a vida toda. Ao final de cada capítulo, os leitores encontram uma seção com sugestões para colocar seus ensinamentos em prática, além de dicas que podem ajudar no desenvolvimento da liderança em sua carreira. O autor ainda desmistifica a tese de que o líder não pode se envolver pessoalmente com a sua equipe. ‘Nenhum líder é bem-sucedido se não contar com a ajuda de alguém’, diz. ‘Se a motivação for limitada a avançar na profissão, corre-se o risco de se tornar aquele tipo de líder carreirista, que finge ser o rei da cocada preta diante dos colegas e funcionários’, explica. (PASSOS, 2008) Note como o texto cumpre os requisitos propostos pelo formato. Porém, dado o espaço restrito fornecido pela revista ou pela necessidade de um texto que seja lido rapidamente, ainda é raso no quesito crítica. Porque para tensionar sentidos possíveis, o texto precisa, necessariamente, de tempo e espaço. Finalizamos esta unidade destacando que, de modo geral, estudar nos transforma em pessoas mais críticas. Ao longo da vida, o estudo faz de pessoas comuns, pessoas mais conscientes sobre o seu papel no mundo. Adquirir consciência crítica é o motor principal da educação. Ao conquistar este nível de conscientização, você se compara a um filósofo ou cientista, pois o trabalho diário deste grupo de pessoas é o de analisar e criticar o seu meio. Neste aspecto, a crítica é a base para a busca de conhecimentos. www.esab.edu.br 66 Saiba mais Para verificar as considerações desta unidade, faça uma pesquisa em jornais, revistas ou na internet e busque por resenhas. Pesquise, por exemplo, o site Resenha Brasil, disponível clicando aqui. Mãos à obra! www.esab.edu.br 67 Resumo Aprofundamos um pouco mais o nosso estudo. Vimos agora que saber ler e escrever é agir sobre o mundo e defender-se dele, sempre em situações específicas e concretas, intencionalmente construídas e com objetivos claros. Nesse sentido, o bom texto é aquele que responde à proposta, considerando a solicitação e a intenção, e que foge do pedantismo gramatical, da linguagem prolixa e dos lugares comuns. Além disso, vimos quais são os diferentes tipos de texto (narração, descrição, dissertação, exposição, informação e injunção), estudando alguns deles detidamente. Por fim, salientamos certa confusão que reina em torno do conceito de crítica, explicitando sua forma mais habitual nos meios de comunicaçãoatuais: a resenha. Atributos como clareza, precisão, coerência e objetividade são qualidades pelas quais todo texto deve primar. E lembre- se: estudar nos transforma em pessoas mais críticas! www.esab.edu.br 68 13 A narrativa Objetivo Apresentar os aspectos que caracterizam o texto de ficção dentro da produção textual e problematizar esse conceito. Na unidade 8, vimos que narração é um tipo de texto cuja peculiaridade reside em contar um fato, ficcional ou não, que aconteceu (ou acontece) em tempo e lugar específico, envolvendo personagens que desempenham ações (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Vamos descobrir mais sobre sua caracterização? 13.1 Conceito de narrativa A narrativa é um tipo de texto que, como observam os autores Fiorin e Savioli (2006), contém: a. transformação de situações concretas (fatos se desdobram e demandam outros); b. figuratividade (apresentação e descrição de cenários); c. relações de posteridade, concomitância e anterioridade entre os episódios relatados (ou seja, um antes, um durante e um depois); e d. utilização preferencial do subsistema temporal do passado (de modo geral, as narrativas são caracterizadas por fatos que ocorreram no passado). Acompanhe um trecho desta famosa letra de música – “Eduardo e Mônica”, do grupo Legião Urbana: www.esab.edu.br 69 Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar Ficou deitado e viu que horas eram... Enquanto Mônica tomava um conhaque, noutro canto da cidade, como eles disseram. Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer, e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer. Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse: – Tem uma festa legal e a gente quer se divertir. Perceba que este breve texto contém todos os elementos da nossa definição: conta-se uma sequência de fatos, em distintos lugares, até que ambos os personagens, Eduardo e Mônica, encontram-se por acaso. Dica Sugerimos que você pesquise e leia a letra toda. Veja aqui. Observe: não temos a data do acontecimento, mas sabemos que foi no passado – sabemos, aliás, que esse passado tem vários níveis, em função dos verbos utilizados. E como a narração implica anterioridade e posteridade, perceba que há uma ordem cronológica dos fatos, o início, o meio e o fim. 13.2 Conceitos atrelados Vimos também, na unidade 8, que dentro do conceito de narração se fala em foco narrativo, que pode ser em primeira pessoa, constituindo um narrador-personagem, e em terceira, que indica um narrador-observador. Comprovamos isso analisando o primeiro parágrafo de um romance de Chico Buarque, Budapeste, em primeira pessoa, e O Senhor Embaixador, de Érico Veríssimo, em terceira. No entanto, essa divisão pode ser ainda mais pormenorizada. www.esab.edu.br 70 Antes disso, porém, saiba que ao conjunto de ações, descrições e diálogos, que constituem a narrativa, chamamos diegese. É um conceito importante porque ele é a base de uma série de outros: trata-se da realidade própria da narrativa, à parte da realidade externa de quem lê. Vamos lá. No que tange à participação do narrador na história, ele pode ser: • heterodiegético: não pertence nem participa da história narrada. Retome a letra da canção que lemos antes: • Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar Ficou deitado e viu que horas eram... Enquanto Mônica tomava um conhaque, noutro canto da cidade, como eles disseram. Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer, e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer. Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse: – Tem uma festa legal e a gente quer se divertir. homodiegético: participa como personagem secundário ou mero figurante. É o caso das famosas narrativas do detetive Sherlock Holmes, realizadas por seu colega, o médico Watson: • Passando os olhos na série um tanto incoerente de casos com que procurei ilustrar algumas das peculiaridades mentais de meu amigo Sherlock Holmes, impressionou-me a dificuldade que tive em escolher exemplos que atendessem a meu propósito sob todos os aspectos. Pois naqueles casos em que Holmes realizou algum raciocínio analítico e demonstrou o valor de seus métodos peculiares de investigação, os próprios fatos foram muitas vezes tão insignificantes ou banais que não pude me sentir justificado em expô- los perante o público. (DOYLE, 2003, p. 252) autodiegético: é ao mesmo tempo personagem e narrador da história. Trata-se do protagonista, ou seja, o personagem principal. www.esab.edu.br 71 Recebi esta tarde a notícia do teu nascimento. Quis tanto ver-te. Fui até o aroporto mas não tive coragem. Vais crescer sem saber quem sou. Talvez um dia venhas a ler isto [...]. (CARVALHO, 1995, p. 69) Um nível acima dessa divisão que acabamos de ver, podemos ainda colocar outra referente a níveis: quando o narrador integra a história, fala-se em intradiegético. Quando o narrador não participa, fala-se em extradiegético. Não se trata de casos à parte, apenas de variação de nomenclatura. Há ainda muitos outros conceitos integrantes da narrativa. Por exemplo, podemos falar em narrativa aberta e narrativa fechada. A narrativa fechada se dá quando todos os conflitos da diegese foram solucionados. Por conseguinte, denomina-se narrativa aberta aquela cujos conflitos permanecem sem solução. Com relação à sequência narrativa e sua articulação, fala-se em encadeamento quando tudo acontece em ordem linear e cronológica; por encaixe denominam-se sequências que são englobadas por uma sequência maior, e alternância se refere a quando duas ou mais histórias são contadas de forma intercalada. É o caso da narrativa não linear, como neste trecho do romance Acqua Toffana, da premiada escritora brasileira Patrícia Melo: Não tem ninguém em casa, preciso parar com isso. Medo do quê? Quem pode estar aqui? Não tem ninguém em casa, bobagem, está tudo trancado. Abro a porta do quarto. Tudo em ordem. Vou andando pelo corredor, pés descalços. Tudo em ordem. Não há ninguém pela casa. Dou meia-volta, o banheiro, tudo em ordem. Entro no quarto, tranco a porta. Islands in the stream, 0h45. Deve acabar às 3h00. 1977, 110 minutos. Direção: Franklin Schaffer. Claire Bloom, David Hemmings etcétera. O pesadelo aconteceu em dez minutos, no intervalo, eu estava vendo a chamada de um filme policial, Charles Bronson com o pé na garganta de um infeliz: “Diga adeus”. (MELO, 1995, p. 5) www.esab.edu.br 72 Perceba como a narrativa funde duas camadas, sonho e realidade. Esta vem à tona pela informação do filme a que a personagem estava assistindo. Saiba, por fim, que estes e outros conceitos são parte de um estudo mais aprofundado da narrativa, para quem se especializa no assunto. O interessante para você – e que você precisa saber – é que diferentemente dos outros tipos de texto, a narração se sustenta pela sucessão de acontecimentos, e que esse tipo de texto se vale de outros como se fossem recursos seus, tais como a descrição e a dissertação. Para sua reflexão Para finalizar, observe que no objetivo desta unidade nos restringimos aos “aspectos que caracterizam o texto de ficção dentro da produção textual”. Devemos, por isso, entender que toda narrativa é ficcional? Você já deve ter notado que há uma série de narrativas cuja peculiaridade apresenta o rótulo “esta história é baseada em fatos reais”. Será que há alguma diferença? Como identificar? Pense a respeito disso, considerando o termo ficção como um componente de toda e qualquer narrativa, porque todas elas são articulações de linguagem e produto do pensamento. As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 73 14 Texto temático e texto figurativo Objetivo Analisar a produção textual sob os vieses concretoe abstrato. Podemos afirmar que todo texto possui dois planos: o plano da expressão (o idioma, as palavras, as frases, por exemplo) e o plano do conteúdo (o sentido). Utilizando dos conceitos que já estudamos até aqui, podemos dizer que o conteúdo constitui a mensagem, e que a expressão implica no modo como a mensagem é elaborada. E dando uma volta a mais, podemos dizer que para um mesmo conteúdo, o plano de expressão pode variar. Quando um texto apresenta aspectos do mundo concreto, dizemos que o texto é figurativo. Quando apresenta conceitos abstratos, dizemos que o texto é temático. Reconhecer essas diferenças é bastante importante, pois saber a natureza do texto que se quer produzir dá maior controle daquilo que se afirma, bem como do modo como se elabora o argumento (DISCINI, 2005). 14.1 Definições Concreto é todo termo que remete a algo presente no mundo natural. Abstrato concerne a toda palavra que não indica algo presente no mundo natural, mas uma categoria que ordena o que está nele manifesto (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Fiorin e Savioli (2006), entretanto, estabelecem algumas ressalvas sobre essas definições. Dizem eles que a primeira advertência a respeito dessa definição é que concreto e abstrato não são categorias da realidade, mas da linguagem. Assim, a expressão “mundo natural” não é somente a www.esab.edu.br 74 realidade exterior, visível, sensível, mas as realidades criadas pelo discurso. Nesse sentido, não há o menor propósito em perguntar se Deus, fada ou saci são concretos ou não, e em responder que isso depende da crença que se tenha neles. São concretos, sim, porque Deus é um ser efetivamente presente no universo criado pelo discurso religioso, fada existe na realidade gerada pelo conto maravilhoso, saci recebe o estatuto de ser nas narrativas folclóricas (FIORIN; SAVIOLI, 2006). A consequência dessa definição de termo concreto e abstrato é que não só os substantivos se dividem de acordo com essa categoria, mas todas as palavras. Assim, temos substantivos, adjetivos e verbos concretos e abstratos: sol remete a algo efetivamente existente num dos mundos naturais, enquanto raiva não (o que é concreto e ordenado por esse substantivo abstrato é, por exemplo, gritar, ficar vermelho etc.; esses atos concretos são englobados na categoria raiva); branco é um adjetivo concreto, pois expressa uma qualidade imediatamente perceptível do mundo natural, enquanto inteligente é abstrato, pois é o termo que designa uma série de elementos concretos (aprender rapidamente, compreender tudo o que é explicado etc.); plantar é um verbo concreto, enquanto envergonhar-se é abstrato, pois o que é concreto são as manifestações da vergonha, como, por exemplo, corar. Na verdade, em vez de pensar que concreto e abstrato são dois polos, deveríamos refletir sobre a relação entre concreto e abstrato como um contínuo que vai do mais abstrato ao mais concreto, passando pelo mais ou menos abstrato, um pouco mais concreto, e assim por diante (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Diante disso, e retomando o conceito apresentado na introdução da unidade, há duas formas básicas de discursos: aqueles que são predominantemente concretos (e que, portanto, são figurativos, ou seja, que constituem figuras) e os preponderantemente abstratos, considerados temáticos, uma vez que, construídos com termos abstratos, pautam-se por palavras abstratas. Ou seja, dos discursos temáticos não conseguimos extrair coisas, objetos do mundo; mas extraímos assuntos. Mas tenha em vista que um texto dificilmente será completamente figurativo ou completamente temático. O que podemos definir, www.esab.edu.br 75 conforme a linha de raciocínio anterior, é que há textos (ou discursos) predominantemente figurativos ou preponderantemente abstratos. Os textos figurativos geram um efeito de realidade, têm a função de representar o mundo, mimetizando-o a partir do que nele há de concreto. Já os textos temáticos têm por função explicar o mundo e suas relações, classificações, ordenações, e fazem isso porque trabalham a partir de conceitos. 14.2 Casos Vejamos dois exemplos de textos figurativos. O primeiro é uma clássica fábula de La Fontaine. O segundo é um conto chinês do Soushenchi, datado do século IV. Acompanhe. A raposa e as uvas Uma raposa faminta entrou num terreno onde havia uma parreira, cheia de uvas maduras, cujos cachos se penduravam, muito alto, em cima de sua cabeça. A raposa não podia resistir à tentação de chupar aquelas uvas mas, por mais que pulasse, não conseguia abocanhá-las. Cansada de pular, olhou mais uma vez os apetitosos cachos e disse: – Estão verdes… É fácil desdenhar daquilo que não se alcança. www.esab.edu.br 76 O homem que vendia fantasmas Quando Sung Tingpo, de Nanyang, era ainda rapaz, estava passeando certa noite quando se encontrou com um fantasma. Perguntou à aparição quem era e ela respondeu que era um fantasma. – ‘Quem é você?’ perguntou por sua vez o fantasma. Tingpo mentiu e respondeu – ‘Eu também sou um fantasma.’ O fantasma então quis saber para onde ele ia e Tingpo informou – ‘Estou a caminho para a cidade de Wanshih.’ – ‘Também vou para lá’, afirmou a aparição. Assim puseram-se a caminhar juntos. Após uma milha, se tanto, o fantasma disse que era estupidez estarem andando ambos quando um podia carregar o outro, por turnos. – ‘ótima ideia’, achou Tingpo. O fantasma pôs Tingpo às costas e depois de ter andado uma milha disse – ‘Você é pesado demais para um fantasma. Tem certeza de que é um fantasma mesmo? ’ Tingpo explicou que ainda era um fantasma novo e que, por conseguinte, ainda pesava um pouco. Tingpo, por sua vez, pôs-se a carregar o fantasma, mas esse era tão leve que tinha a impressão de não estar carregando nada. Assim foram caminhando, revezando-se, até que Tingpo perguntou ao companheiro qual era a coisa que metia mais medo aos fantasmas. – ‘Os fantasmas têm um medo horrível da saliva humana’, afirmou o fantasma. Assim foram andando, andando até que chegaram a um rio. Tingpo deixou que o fantasma fosse adiante e observou que ele não fazia barulho algum ao nadar, mas quando ele entrou n’água, o fantasma ouviu o estalar na água e pediu-lhe uma explicação. Tingpo explicou novamente – ‘Não se surpreenda, pois ainda sou muito novo e não estou ainda acostumado a atravessar a correnteza.’ No momento em que se aproximavam da cidade, Tingpo começou a carregar o fantasma nas costas apertando-o fortemente. O fantasma pôs-se a gritar e a chorar lutando para apear-se, porém Tingpo o apertou com mais força ainda. Ao chegar às ruas da cidade, soltou-o e o fantasma se transformou num bode. Tingpo cuspiu no animal a fim de que não pudesse transformar-se outra vez, vendeu-o por mil e quinhentos dinheiros e foi para casa. Eis a razão do ditado de Shih Tsung: ‘Tingpo vendeu um fantasma por mil e quinhentos dinheiros’. Perceba que, embora ambos contenham uma base moral que fica implícita na história (declarada, no caso de La Fontaine; subjacente no caso do conto chinês), os dois textos são construídos com termos concretos. O termo ‘fantasma’ utilizado no conto chinês pode nos pegar desprevenidos e, em um primeiro momento, ser julgado como abstrato. Mas como vimos há pouco, assim como ‘Deus’ ou ‘saci’, o fantasma é um ser efetivamente presente na esfera das histórias fantásticas. www.esab.edu.br 77 É completamente diferente do texto a seguir, uma resposta do filósofo Emmanuel Kant à pergunta “O que é o esclarecimento?”. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. Étão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico e preservado cuidadosamente essas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhes, em seguida, o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, esse perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas. Basta um exemplo deste tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo em geral para não fazer outras tentativas no futuro. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. (KANT, 2012, p. 1) Finalizamos esta unidade destacando a importância dos termos preguiça e covardia, por serem abstratos e fundamentais para argumentação, pois constituem a temática do texto, embora se perceba também o uso de termos concretos (homem, por exemplo), o que predomina na argumentação é uma temática, não uma figuratividade. www.esab.edu.br 78 Estudo complementar Para ampliar as noções a respeito de abstrato e concreto, faça uma pesquisa online com os termos ‘arte abstrata’ e ‘arte figurativa’ e confronte os resultados com o que estudamos nesta unidade. Sugestão: acesse a Enciclopédia de Artes Visuais clicando aqui. www.esab.edu.br 79 15 Texto argumentativo Objetivo Analisar casos de textos argumentativos. Sempre se escreve com alguma intenção. Uma coisa é saber/entender daquilo sobre o que se escreve; outra é saber como fazer isso. Conforme a intenção, a estrutura do texto deve variar, desde o vocabulário, da organização dos parágrafos, até a complexidade de construção das frases, orações e períodos. Diante disso, questionamos: qual a intenção do texto argumentativo? Convencer o leitor do ponto de vista em questão. Persuadi-lo. Fiorin e Savioli (2006) mostram que a origem do termo vem do latim argumentum, cujo sentido é “fazer brilhar”, “iluminar”. Pela origem desse termo, podemos dizer que argumento é tudo aquilo que faz brilhar, cintilar uma ideia. Desse modo, consideramos argumento todo procedimento linguístico que visa a persuadir, a fazer o receptor aceitar o que lhe foi comunicado, a levá-lo a acreditar no que foi dito e a fazer o que foi proposto. E para isso, saiba que há alguns procedimentos a serem levados em conta. www.esab.edu.br 80 15.1 Tipos de argumento Argumento de autoridade Comprovar os argumentos que você elabora é fundamental. Tal qual uma casa, a ideia que você defende deve estar amparada por uma estrutura bem feita. No caso de um texto, essa estrutura concerne à amostragem de argumentos de outros autores autorizados no assunto. O uso de citações, por um lado, cria a imagem de que o falante conhece bem o assunto que está discutindo, haja vista as leituras feitas sobre o eles pensaram de outros autores; e por outro lado, torna os autores citados fiadores da veracidade de determinado ponto de vista (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Portanto, a recomendação é: cite. O seu texto ganha respaldo ao fazer referência a outros. Experimente: construa a introdução, problematize, e elabore parágrafos que estejam pautados por conectivos tais como “Conforme X, …”; “Já segundo Y, …”; “De um lado, W afirma que…”; “Por outro, Y pondera dizendo…”. Citar, em última análise, é reconhecer o trabalho de outro. Argumento baseado no consenso Apesar de a comprovação ser um aspecto fundamental da boa argumentação, nem toda afirmação carece dela. Isso porque há certas proposições cujo caráter é evidente, sendo universalmente aceitas. Fiorin e Savioli (2006, p. 286) exemplificam: “A educação é a base do desenvolvimento”. Ora, todos concordamos que esta afirmação é verdadeira e que não é preciso citar alguém para comprová-la. Por isso, trata-se de algo consensual. Os mesmos autores, no entanto, chamam a atenção para que não se confunda consenso com lugar comum. Afirmar que “o brasileiro é preguiçoso”, “a AIDS é um castigo de Deus”, “só o amor constrói” será sempre discutível. www.esab.edu.br 81 Argumentos baseados em provas concretas A opinião que você emite expressa uma apreciação ou um julgamento, que indicam aprovação ou desaprovação. Para que o seu ponto de vista ganhe respaldo, ele precisa estar baseado em fatos. Se afirmarmos que a polícia é corrupta, isso é apenas uma generalidade. Mas se essa afirmação estiver acompanhada do fato de que vários policiais do Distrito X foram surpreendidos facilitando o tráfico de drogas, por exemplo, no local Y, para os indivíduos W e Z, conforme notícia do jornal XX, a afirmação fica respaldada. Por outro viés, as afirmações que você realiza devem vir acompanhadas de uma justificativa amparada em fatos apontados por fontes seguras (livros de especialistas, jornais reconhecidos, sites de respaldo). Argumentos baseados no raciocínio lógico Você deve apontar causas e efeitos das afirmações que faz. Isso implica em coerência: para chegarmos a determinada conclusão, é preciso, antes, apresentarmos os dados, lê-los (interpretá-los), para que a conclusão seja, assim, uma consequência. Por isso, não tenha pressa! Da sua habilidade de escolher e apresentar os dados que deseja depende do arremate do seu pensamento e, portanto, do seu texto. www.esab.edu.br 82 Além de ser mais chique, do ponto de vista ideológico, o seminário é mais cômodo para ambos os lados: nem o professor prepara a aula, nem o aluno estuda, e ambos entram com sua cota de ‘participação crítica’. O mais grave é que onde esse processo se instalou não há como revertê-lo, pois as facilidades se transformam em direito adquirido. (...) Já que o mundo passa por uma histeria de volta ao passado, ao menos em relação ao que parecia “futuro” nos anos 1960, talvez fizéssemos bem em rever grande parte das mudanças do ensino neste 30 anos. Porque os resultados, mesmo nas boas escolas, não parecem encorajadores. A ideologia do ensino crítico está produzindo gerações de tontos. A lassidão, o vale-tudo, a falta de autoridade professoral desestimula a própria rebeldia do estudante. (FIORIN; SAVOLI, 2006, p. 290) Uma forma de apresentação lógica de argumentos seria esta: • proposição: não deve conter nenhum argumento, trata-se apenas de uma afirmação; • análise: defesa da proposição, esclarecendo-se o seu sentido ou ponto de vista adotado para evitar mal-entendidos; • formulação de argumentos: fatos, exemplos, dados estatísticos, testemunhos etc. • conclusão. Lembre-se de que na conclusão é interessante que você retome o que havia proposto na introdução. “Nada é pior para convencer do que um texto sem coerência lógica, que diz e desdiz-se, que apresenta afirmações que não se implicam umas às outras, que está eivado de contradições.” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 291). www.esab.edu.br 83 15.2 Aspectos para elaborar textos argumentativos O texto que você escreve deve ter um só objeto, uma só matéria. Isso é importante para evitar que o texto se perca em si mesmo. Pergunte-se: como você faz para começar a escrever um texto? Se apenas tentamos escrever ao léu, sem uma ideia definida, corremos o risco de escrever para descobrir o que pensamos. Embora esse processo possa ser interessantee bastante revelador, pode também tornar o texto dispersivo. O que você precisa é estar no comando da situação. Assim, para produzir um texto argumentativo, é importante, como primeiro passo, elaborar uma espécie de mapa da sua ideia, levantar os pontos atrelados, os autores e/ou depoimentos/dados que você pode utilizar para a fundamentação. Você não deve perder de vista o objetivo central do seu texto. E não confunda unidade com repetição ou redundância. Embora o texto deva conter variedade, essa variedade deve estar formada da mesma matéria. Deve-se começar, continuar e acabar dentro do mesmo tema. Outro aspecto importante é que não devemos fazer de conta que não existem pontos de vista divergentes dos nossos. Pelo contrário, devemos mencioná-los estrategicamente, usando-os a nosso favor. Por fim, deve-se utilizar a norma padrão, culta, da língua. O ideal é que você mantenha a impessoalidade. Deixe que seu texto seja questionado pelas ideias e não pelo modo como você as desenvolve. O texto a seguir é um exemplo de texto argumentativo, em que se questiona o documentário “Quebrando o tabu”, a respeito da descriminalização do uso da maconha no Brasil. www.esab.edu.br 84 FHC, o âncora do longa-metragem, viaja pelo mundo (leia-se Europa e Estados Unidos) para conversar com usuários, médicos e ex-presidentes a respeito de diferentes experiências na legislação de drogas. Ora o próprio FHC dá entrevistas enquanto sociólogo, ora aparece como entrevistador, coletando depoimentos. De 2008 para cá o ex-presidente brasileiro vem pautando a questão e posicionando-se publicamente favorável à descriminalização da maconha e a políticas de redução de danos para usuários. Durante seus anos de presidência (1994-2001), no entanto, não só não tocou no tema como esteve alinhadíssimo com o modelo estadunidense de guerra às drogas, com forte repressão aos usuários e vendedores e crescente encarceramento. “Eu não sabia muita coisa”, se defende, “minha experiência pessoal sobre a questão de drogas é nula. Eu aprendi ao fazer o filme, não sabia. Quando eu era presidente, menos ainda. E também o Brasil vivia outro momento, não era um tema tão candente”. Apesar de presidir a Comissão Global de Política Sobre Drogas, FHC afirma que se fosse presidente da República hoje não garante que descriminalizaria a maconha: “Não sei qual seria minha relação no congresso, não sei quais seriam os outros temas candentes, não posso afirmar nada”. Em “Quebrando o tabu”, não é só FHC que admite o fracasso da guerra às drogas: Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos de 1993 a 2001, também assume o “erro” da política de drogas baseada na repressão. “Obviamente é mais fácil, uma pessoa que é ex-presidente se sente mais a vontade para falar sobre uma série de temas”, comentou Fernando Henrique. (MONCAU, 2011) www.esab.edu.br 85 Estudo complementar Complemente a leitura do texto “Quebrando o tabu ou apenas deslocando-o de lugar?”, de Gabriela Moncau, disponível aqui. Focalize no modo de apresentação dos dados, que são paulatinamente questionados pela autora. Veja também que a discussão se mantém em torno do mesmo assunto, do início ao fim do texto, utilizando exemplos reais como comprovação da ideia. Note como cada ponto conduz à conclusão, que volta, indiretamente, a remeter ao título. www.esab.edu.br 86 16 Texto explicativo Objetivo Analisar casos de textos explicativos. Após estudarmos as peculiaridades do texto argumentativo, vamos agora nos debruçar sobre o texto explicativo. Ele transmite dados hierarquizados, com a finalidade de fazer compreender fenômenos específicos. Vamos saber mais sobre o assunto? 16.1 Conceito Talvez você não tenha se dado conta, mas é exatamente o que fizemos até aqui: cada unidade parte de uma proposição ampla (“Os diferentes tipos de texto?”, por exemplo) e a ela atrelamos dados secundários (narração, descrição, dissertação, exposição, informação e injunção), tentando esclarecê-los um a um. Na unidade 8, estudamos o texto explicativo como exposição, que consiste em apresentar informações a respeito de um assunto, explicando, avaliando e analisando. Pode conter instruções, descrições, definições, enumerações, comparações e contrastes. Como exemplo, vimos naquela unidade o fragmento de uma exposição a respeito de como fazer uma Análise SWOT, tema recorrente para os estudos de Administração. www.esab.edu.br 87 Para fazer uma Análise SWOT, é necessário fazer previamente uma análise do mercado e da empresa. O termo SWOT é uma sigla oriunda do inglês, traduzindo: Forças (Strengths), Fraquezas (Weaknesses), Oportunidades (Opportunities) e Ameaças (Threats). Esta análise divide-se em 4 quadrantes: Ameaças, oportunidades, pontos fracos (fraquezas) e pontos fortes (forças). As ameaças e as oportunidades estão ligadas ao mercado enquanto os pontos fracos e pontos fortes estão ligados à empresa. [...] A análise SWOT é de extrema importância, pois temos de conhecer mais aprofundadamente os vários aspectos internos e externos da empresa para dar resposta a eventuais problemas detectados ou atacar os concorrentes nas fragilidades encontradas. Depois de analisados, todos esses fatores têm a sua análise concluída e depois é só tirar as suas conclusões. Não se esqueça que as ameaças dos outros podem ser oportunidades para si e as suas ameaças são oportunidades para os concorrentes. (Como fazer uma análise SWOT, 2012, p. 1) Podemos perceber que tudo parte de uma afirmação categórica, “Para fazer uma Análise SWOT, é necessário fazer previamente uma análise do mercado e da empresa”. O que vem em seguida são desdobramentos dessa afirmação, buscando desenvolvê-la e justificá-la, incluindo um detalhamento sobre cada um dos pontos, discernindo o que se refere a quem. Ao final, reitera-se a importância do procedimento, desdobrando- se a sua utilidade e benefícios. Note que o texto explicativo, portanto, implica explanar em detalhe um assunto, teoria, coisa, situação ou acontecimento. Esse detalhamento, por sua vez, constitui-se pela explicitação do tempo, espaço, da importância ou das circunstâncias daquilo que está em questão. O objetivo do texto explicativo pode, assim, ser definido por verbos como informar, definir, aclarar, provar, recomendar. www.esab.edu.br 88 16.2 Organização Para que você alcance sucesso na montagem do texto explicativo, deve organizá-lo coerentemente. Nesse sentido, é imprescindível: • escolher o tema: a escolha do tema estará pautada por uma demanda anterior (o professor solicitou a você o desenvolvimento de um seminário, por exemplo). Devemos ser simples, objetivos e breves; • definir o propósito: pensemos em áreas, digamos que você deseja explicar como se dá a aquisição de linguagem pela criança, ou como funciona a Análise SWOT, ou ainda como funciona o software Excel. Como você já tem o tema definido, exponha seus objetivos gerais e específicos. A formatação desses objetivos implica no uso de verbos no infinitivo, porque você ainda irá desenvolver a tarefa; • conhecer a recepção: qual o seu público? Ele conhece o assunto ou nunca ouviu falar dele? São seus colegas de classe? Trata-se de uma banca de análise formada por especialistas no assunto a quem você deve mostrar profundidade de conhecimento? Perceba que, conforme a recepção, o tom e a profundidade da sua explicação variam, cabendo a você definir se deve apenas limitar-se ao óbvio ou se deve, ao mesmo tempo, discutir o processo; • pesquisar: a pesquisa é parte da elaboração de qualquer texto. Implica em estudo on-line (sites, tutoriais, por exemplo) e off-line (livros, mapas, documentos etc.). É importante que a pesquisa seja vasta e não se limite ao que você irá utilizar. Informações secundárias podem auxiliá-lo a esclarecer um ponto devista ou elaborar uma didática; • selecionar: como a pesquisa é ampla e nela surgem dados de natureza diversa, você deve saber selecionar aquilo que interessa. Não perca o foco nem sobrecarregue determinado aspecto da sua explicação; www.esab.edu.br 89 • roteirizar: elabore um roteiro, qual o ponto de partida e de chegada; • fornecer suporte: ao final, você pode elencar outras referências sobre o tema, caso o público deseje aprofundar o assunto em outras fontes. 16.3 Tipologia Quanto a sua natureza, o texto explicativo pode ser: • explicativo-informativo: tem por função transmitir informação referente a dados concretos (relembre a definição de concreto que estudamos na unidade 14). Como exemplo, retome o texto do início desta unidade, “Como fazer uma Análise SWOT”; Para fazer uma Análise SWOT, é necessário fazer previamente uma análise do mercado e da empresa. O termo SWOT é uma sigla oriunda do inglês, traduzindo: Forças (Strengths), Fraquezas (Weaknesses), Oportunidades (Opportunities) e Ameaças (Threats). Esta análise divide-se em 4 quadrantes: Ameaças, oportunidades, pontos fracos (fraquezas) e pontos fortes (forças). As ameaças e as oportunidades estão ligadas ao mercado enquanto os pontos fracos e pontos fortes estão ligados à empresa. [...] A análise SWOT é de extrema importância, pois temos de conhecer mais aprofundadamente os vários aspectos internos e externos da empresa para dar resposta a eventuais problemas detectados ou atacar os concorrentes nas fragilidades encontradas. Depois de analisados, todos esses fatores têm a sua análise concluída e depois é só tirar as suas conclusões. Não se esqueça que as ameaças dos outros podem ser oportunidades para si e as suas ameaças são oportunidades para os concorrentes. (Como fazer uma análise SWOT, 2012, p. 1) Note como não há nenhum tipo de informação subjetiva ou análise baseada em julgamento de valor. • explicativo-argumentativo: busca defender uma tese, a partir de dados e observações verificáveis. Acompanhe: www.esab.edu.br 90 Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder. O bullying se divide em [...]. O bullying é um problema mundial [...] No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 [...] Os atos de bullying ferem princípios constitucionais – respeito à dignidade da pessoa humana – e ferem o Código Civil, que determina que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o dever de indenizar. O responsável pelo ato de bullying pode também ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de bullying que ocorram dentro do estabelecimento de ensino/trabalho. (O que é bullying, 2012) O parágrafo final (“Os atos de bullying...”), no caso do nosso exemplo, é decisivo para o texto explicativo-argumentativo, pois nele consta, além da explicação, a explicitação de argumentos que buscam o convencimento do leitor por motivos específicos (também, no caso, pela prática, ferir princípios constitucionais, entre outros aspectos). 16.4 Características linguísticas Quanto à formatação da linguagem do texto explicativo, devemos observar: • uso dos verbos no presente do indicativo. Trata-se de explanar sobre fatos cuja veracidade independe do tempo em que são enunciados (“Bullying é...”); • impessoalidade (ou seja, não flexionar os verbos na primeira pessoa do discurso); www.esab.edu.br 91 • vocabulário técnico específico. Utilizamos as nomenclaturas cabíveis, que condensam as afirmações e garantem a progressão do texto; • não utilizar adjetivos nem emitir julgamentos de valor. Em suma, o segredo do texto explicativo está na armação lógica, baseada em pesquisa ampla, seleção astuta do material e linguagem objetiva. Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 92 17 Texto dissertativo Objetivo Analisar casos de textos dissertativos. Na unidade 8, também fizemos uma rápida abordagem do conceito de texto dissertativo: trata-se do tipo de texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Aproveitando também o que estudamos na unidade 14, esse tipo de texto analisa e interpreta dados da realidade por meio de conceitos abstratos. Você se lembra a que isso se refere? Na dissertação, referimo-nos ao mundo por meio de conceitos amplos, de modelos genéricos, muitas vezes desvinculados de tempo e espaço específicos. Nesse sentido, os discursos dissertativos mais comuns são os discursos da ciência e da filosofia, cujas referências ao mundo concreto se dão para ilustrar leis e teorias genéricas. Vejamos como isso funciona na prática. 17.1 Caso Acompanhe o texto a seguir, uma típica dissertação produzida para o vestibular. www.esab.edu.br 93 Livros desprezados Grave problema presente no Brasil é o baixo nível cultural da população devido à falta de leitura de boa qualidade. Segundo o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que verifica a capacidade de leitura do jovem, dentre os 32 países envolvidos na pesquisa de 2001, o nosso ficou com a última colocação. Um dos fatores que provocam a falta de domínio da leitura na avaliação brasileira é a escassez de livrarias: apenas uma para cada 84,4 mil habitantes. Porém, essa não é a única razão: o brasileiro prefere ler futilidades que pouco ou nada acrescentam ao seu intelecto a se dedicar aos grandes nomes da literatura. Os políticos tentam suavizar a situação do semianalfabetismo gerada pela falta de leitura com o discurso de que é perfeitamente normal que algumas pessoas alcancem o final do ensino médio sem saber expressar suas ideias por meio da escrita. Obviamente, é ‘perfeitamente normal’, visto que o sistema de repetência foi indevidamente abolido nas escolas públicas. É imprescindível que a leitura no Brasil seja estimulada desde a infância e que o sistema de ensino sofra uma revisão. Nossa nação não pode aspirar ao desenvolvimento tendo tão deficiente capital humano. Desconsidere o tema, poderia ser qualquer outro. Você pôde perceber, no entanto, que o texto contém: a) explanação de ideias; b) interpretação dos dados da realidade por conceitos abstratos, genéricos. Seu defeito, entretanto, reside no uso de lugares comuns: “o brasileiro prefere”, “os políticos tentam”. A rigor, o texto dissertativo-objetivo deve debater sem solicitar ao leitor que partilhe da ideia. Deve apenas discutir, de modo neutro. Quando essa solicitação de mudança de comportamento existe, adentramos a área do texto dissertativo-expositivo (em que se expressa o que se pensa, como no exemplo anterior) ou dissertativo-argumentativo (que prova, via terceiros, o que se está a afirmar). Há, ainda, o tipo dissertativo-subjetivo, que é quando, além da inteligência, se solicitam os sentimentos do leitor (complacência, raiva etc.). www.esab.edu.br 94 No entanto, como já vimos em momentos anteriores, não há texto puro. As modalidades se misturam, porque o que interessa é a comunicação. Mas conforme a solicitação quando da produção de texto (em um concurso vestibular, por exemplo), a não observância de critérios pode levar a uma desvalorização do seu texto. 17.2 Estrutura da dissertação A estrutura clássica do texto dissertativo é simples e você certamente conhece. Vejamos. IntroduçãoDeve ser breve. Serve para anunciar ao leitor o tema a ser discutido no texto. Pode ser uma afirmação genérica que será desdobrada no texto, como se pode partir de uma citação: “’Precisamos ser persistentes.’ Essas foram as palavras…”. Tudo depende da sua ideia e habilidade em armar a argumentação para o efeito que deseja alcançar. Visualize a introdução do texto citado anteriormente: Grave problema presente no Brasil é o baixo nível cultural da população devido à falta de leitura de boa qualidade. Segundo o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que verifica a capacidade de leitura do jovem, dentre os 32 países envolvidos na pesquisa de 2001, o nosso ficou com a última colocação. Desenvolvimento É o que sustenta o texto. Como o nome explicita, trata-se de desenvolver a ideia proposta na introdução. Você deve explicar, ponderar, criticar, fundamentar – conforme a proposta. São os argumentos em si que poderão ser desdobrados em um ou mais parágrafos. Normalmente, é necessário mais de um parágrafo para elaborar um bom desenvolvimento. Para fins esquemáticos, vamos adotar esta “fórmula”: www.esab.edu.br 95 A = I + F em que: • A = argumento • I = ideia • F = fundamentação. Portanto, um argumento é uma ideia fundamentada. Para visualizar, retorne ao dois parágrafos centrais do texto citado anteriormente, “Livros desprezados”. Um dos fatores que provocam a falta de domínio da leitura na avaliação brasileira é a escassez de livrarias: apenas uma para cada 84,4 mil habitantes. Porém, essa não é a única razão: o brasileiro prefere ler futilidades que pouco ou nada acrescentam ao seu intelecto a se dedicar aos grandes nomes da literatura. Os políticos tentam suavizar a situação do semianalfabetismo gerada pela falta de leitura com o discurso de que é perfeitamente normal que algumas pessoas alcancem o final do ensino médio sem saber expressar suas ideias por meio da escrita. Obviamente, é ‘perfeitamente normal’, visto que o sistema de repetência foi indevidamente abolido nas escolas públicas. Conclusão É a finalização. Agora não é mais o momento para ideias novas ou exemplos. Arremate o que você armou no desenvolvimento; dê a sua cartada. Você pode realizar uma síntese do que expôs, como também pode propor uma solução para o problema, caso caiba. Evite – isso é importante – o recurso fácil de começar com “Para concluir…”. Retome a conclusão do texto que vimos antes: www.esab.edu.br 96 É imprescindível que a leitura no Brasil seja estimulada desde a infância e que o sistema de ensino sofra uma revisão. Nossa nação não pode aspirar ao desenvolvimento tendo tão deficiente capital humano. Quando lhe for solicitada esta modalidade de texto, mantenha esta estrutura clássica: introdução, desenvolvimento e conclusão. Não se trata de um texto para inovações! Estudo complementar Clique aqui e realize as atividades relacionadas à produção de texto dissertativo. www.esab.edu.br 97 18 Texto dissertativo-argumentativo Objetivo Analisar casos de textos dissertativos-argumentativos. Vimos na unidade anterior que o texto dissertativo contém: a. explanação de ideias; b. interpretação dos dados da realidade por conceitos abstratos e genéricos. No entanto, quando essas ideias representam um ponto de vista particular a respeito de um tema, passível de ser provado, o texto é opinativo e, portanto, argumentativo. Caberá ao redator, nesse caso, organizar as ideias secundárias de tal modo que validem a ideia central. Atente para estes aspectos: se o texto for apenas expositivo, na introdução será feita a apresentação do assunto em linhas gerais. Na sequência, o desenvolvimento dará conta das ideias secundárias, bem como das subdivisões do assunto e suas minúcias. Por fim, a conclusão fechará a apresentação, mostrando que foram pontuados todos os aspectos lançados. Mas se o texto for argumentativo, a introdução, além de apresentar o tema, mostrará também o ponto de vista pelo qual este será discutido. O desenvolvimento, por sua vez, organizará os argumentos. A conclusão, por fim, retomará a introdução e comprovará a afirmação antes feita, a partir dos argumentos que você construiu no desenvolvimento. Em outras palavras, o texto dissertativo-argumentativo apresenta, já na introdução, uma tese, que você terá de defender. Tese, para que você saiba, é uma proposição (no caso, é a afirmação que você fez mais o ponto de vista). Para que essa tese seja sólida, os parágrafos de www.esab.edu.br 98 desenvolvimento deverão argumentá-la. Trata-se, como você pôde notar, de um texto que busca a persuasão do leitor. Saiba mais Sugerimos que você assista ao programa Plantão ENEM, produzido pela TV Minas, disponível clicando aqui. O vídeo tematiza especificamente o texto dissertativo-argumentativo. 18.1 Caso O texto a seguir nos auxiliará a perceber as peculiaridades dessa tipologia. Como dirimir o trabalho infanto-juvenil no Brasil O Brasil encontra-se no século XXI, com mais da metade da população localizada abaixo da linha de pobreza. Em consequência a tal fato, crianças e adolescentes entram prematuramente no mercado de trabalho para complementarem a renda familiar. A constituição brasileira determina claramente que é inconstitucional o trabalho infantil de menores de 16 anos de idade. Mas não serão somente palavras que irão salvar as crianças de levarem uma vida severa no labor das casas de farinha, nas lavouras, no corte de cana. Muitas são expostas ao manejo de ferramentas cortantes e a longas jornadas de trabalho que as tiram toda a força, deixando-as sem tempo para estudar. A inserção prematura de crianças e adolescentes no mercado de trabalho violenta suas possibilidades de desenvolvimento. Uma vez que seja esse desenvolvimento impróprio, isso lhes prejudicará a saúde e a formação física e mental. É importante assegurar aos menores o direito à liberdade e o respeito aos seus direitos. Assim, o trabalho infanto-juvenil deve ser combatido, pois com o tempo, haverá um imenso contingente de adultos sem uma formação profissional qualificada. E isso acarretará um montante de trabalhadores desempregados futuramente. É preciso prevenir esse problema com a criação de programas que combatam mais severamente esse mal que assola nossos jovens e crianças. Fonte: Silva (2010). www.esab.edu.br 99 Vamos analisar o texto. Qual a ideia principal? O texto trata do trabalho infantil. A ideia principal versa que, mesmo no século XXI, mais da metade da população brasileira está abaixo da linha da pobreza e que isso obriga crianças e adolescentes a adentrarem o mercado de trabalho como forma de complementação da renda familiar. Feita essa afirmação, é necessário comprová-la. No início do desenvolvimento, portanto, parte-se do princípio que a Constituição veta o trabalho para menores de 16 anos. Mas também se estabelece um porém: não basta a lei, é preciso ação. O próximo parágrafo ainda mostra que o trabalho na infância prejudica o desenvolvimento físico e mental, e que é preciso preservar a liberdade e a manutenção de seus direitos. Por fim, apresenta-se como solução para dirimir o trabalho infantil a criação de programas sociais que ajam mais pontualmente sobre este mal. É um texto de afirmações genéricas. Nada há de muito específico, porém a sua estrutura está moldada pelo viés dissertativo argumentativo. Portanto, ao ser solicitada a produção de um texto dissertativo- argumentativo, lembre que a estrutura é a mesma da dissertação, com a diferença de que, nessa modalidade, você deve apresentar uma tese. Em seguida, o seu ponto de vista e comprovação, para assim mostrar que a tese funciona. 18.2 Revisando: argumentação Fiorin e Savioli (2006, p. 294-295) discutem a armação de argumentos a partir do exemplo deum dos sermões do Pe. Antônio Vieira. Leia este fragmento, utilizado pelos autores, e veja como ele é sugestivo (veja, inclusive, como ele retoma pontos que estudamos na unidade 16): www.esab.edu.br 100 Sermão da Sexagésima O sermão há de ser duma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria. Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la, para que se conheça, há de dividi-la, para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar, há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar de mais alto. Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria, e continuar e acabar nela. Vamos lá. Deixemos de lado o teor religioso do texto. Atente para os aspectos que se referem à construção da argumentação e perceba que: • para um ponto de vista ser bem armado, ele não deve se perder em possibilidades. Mantenha o foco em uma única linha de raciocínio; • para ganhar respaldo, prove a sua afirmação com outros autores que pensaram a respeito do assunto e com dados respaldados (pesquisas de instituições de confiança, por exemplo); • na sequência, analise esses dados logicamente. Mostre quais são as suas causas, relações e consequências; • só a partir dos dados é que armamos a conclusão. Se você concluir sem estar amparado em dados, não é conclusão. É uma nova tese que, por sua vez, demandará nova comprovação; • e como já vimos na unidade 15, não tenha receio de mostrar pontos de vista contrários ao seu. Utilize-os a seu favor, como contraponto. www.esab.edu.br 101 Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidade 10 a 18. Para isso, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 102 Resumo Este bloco de seis unidades detalhou alguns tipos de texto que vislumbramos brevemente no anterior. Vimos aqui que a narrativa é o tipo de texto em que se conta uma história, com personagens e cenários, e cuja particularidade é a temporalidade: antes, durante, depois. Na continuação, desvencilhamos os textos temáticos dos textos figurativos, atribuindo a estes relações concretas de sentido e, àqueles, relações abstratas. Por conseguinte, exploramos o conceito de texto argumentativo como aquele em que se deseja convencer o receptor de um determinado ponto de vista. Já o texto explicativo procura apresentar dados hierarquizados, a fim de tornar compreensível um fenômeno específico. Por fim, exploramos o conceito de texto dissertativo como aquele em que se explanam ideias a partir de uma abordagem essencialmente abstrata, porém de forma neutra, o que não acontece no texto dissertativo- argumentativo, em que se mostra a ideia central de um ponto de vista que se quer convencer o interlocutor a respeito da abordagem. www.esab.edu.br 103 19 Como definir um título Objetivo Definir estratégias para aperfeiçoar a elaboração de títulos que encaminham adequadamente a leitura do texto produzido. Até agora, vimos uma série de especificidades a respeito da produção de textos conforme a sua natureza (texto narrativo, texto descritivo, texto dissertativo, texto explicativo etc.). Assim, aprendemos que cada uma dessas tipologias textuais implica em procedimentos que singularizam a sua confecção, a fim de conduzir a leitura e alcançar o efeito desejado no receptor ou leitor. Pensando dessa forma, podemos perguntar: por onde começa a leitura? Você tem uma resposta? 19.1 Por onde começa a leitura? Para ler um texto, seja qual for a área do conhecimento em que ele esteja inserido, é preciso ter um repertório de referências que permita interpretar as informações apresentadas no texto. No processo de interpretação, no entanto, não é apenas o leitor que aciona o seu conhecimento. Quando o produtor do texto é astuto, ele consegue conduzir o leitor para um determinado ponto de vista ou conclusão, e o início desse processo está na redação do título, seja em uma notícia de jornal, em uma reportagem, em um artigo científico, uma dissertação ou um livro. O título é um portal de entrada para a leitura, e conforme ele for redigido, a perspectiva do texto também muda. Em se tratando do primeiro dado de leitura, é pelo título que você terá a oportunidade de fisgar o leitor e fazer com que ele leia o seu texto, quem sabe, até o final. Assim, vejamos alguns aspectos da construção de um título. www.esab.edu.br 104 19.2 Escrevendo on-line Apenas para você saber a diferença, quando escrevemos para a internet (em um blog, por exemplo), podemos nos comunicar mais naturalmente, sem muita formalidade. E como a internet é um território vasto, a demanda por “fisgar o leitor” é muito maior. Assim, um título deve ser redigido com verbos que sugiram ações e indiquem imagens impactantes (por exemplo, “12 passos para você conquistar o seu amor” – é apelativo e constitui uma promessa que deverá ser cumprida. Se você não souber como fazer isso, não prometa). No texto on-line, você também deve usar da pontuação a seu favor, considerando o aspecto gráfico do título. Seja ousado: “Eu. Você. E uma pizza”. Saiba que, nesse tipo de texto, mais informal, pode-se abusar do “você”, que abre um canal direto com o leitor. O título também pode lançar um desafio, o que chama bastante a atenção: “Desista! Ler este livro é impossível”. E, por fim, elabore títulos que saiam do senso comum, do óbvio. 19.3 Escrevendo no ambiente acadêmico Um defeito recorrente de quem escreve sem elaborar uma estratégia é redigir títulos muito amplos ou genéricos. Esses títulos, normalmente, beiram algo como “A educação”, “Os jovens de hoje”, “A pedagogia”, “A administração de empresas”, “Os sistemas de informação” etc. O defeito desses títulos, pontualmente falando, está no fato de que eles prometem falar tudo a respeito do assunto, e é bem pouco provável que isso aconteça! É muito raro que alguém, hoje em dia, consiga produzir um estudo relevante intitulado “A fotografia”, “A matemática” etc., a não ser que se trate de algo absolutamente inédito – o que é bem difícil! www.esab.edu.br 105 Assim, uma boa dica para facilitar o seu trabalho, sem cair na armadilha do “falar tudo”, é pensar o tema paralelamente a outro, a partir de uma combinação do tipo “A e B”. Como funciona? Vejamos. Em vez de propor um título como “A educação”, proponha “A educação e o computador”. Pensando assim você já tem um campo de ação delimitado. Não se trata de toda a educação, mas da educação relacionada ao uso do computador. Outro exemplo: “A administração e os novos sistemas de informação”, “A pedagogia e as gerações X, Y, Z” – todos eles, como você vê, delimitam o campo específico de discussão. Pense que é necessário contextualizar, que é preciso “gerar atrito”, e que para isso ocorrer são sempre necessários dois corpos, dois termos, duas ideias. Em vez de, por exemplo, escrever sobre “A cultura digital”, escreva sobre “Cultura digital e educação” (já é muita coisa, não?). Agora, dando um passo a mais no processo, acrescente, se possível, um subtítulo ao seu trabalho: “Cultura digital e educação: o notebook substituindo o caderno na sala de aula” ou “Cultura digital e educação: como aproveitar melhor a tecnologia nasala de aula”, e assim por diante. Usando dessa técnica, você fará associações de ideias mais consistentes, produzirá interpretações e construirá significados a partir de combinações. Por último, imagine que você está produzindo uma resenha ou artigo para uma das disciplinas do curso que você está realizando. O artigo trata sobre a recreação na escola e a base teórica são os estudos de Lev Vygotsky. Seu título pode ser “Recreação na escola: a prática de brincadeiras e jogos no ensino fundamental sob a ótica de Vygotsky”. • Qual o ponto geral do texto? Recreação na escola. • Qual o objeto? A prática de brincadeiras e jogos no Ensino Fundamental. • Qual a abordagem teórica? Os estudos desenvolvidos por Vygotsky. www.esab.edu.br 106 É isso! Pratique a escrita tendo em mente títulos que parte de combinações do tipo “A e B” ou “A em B” e comprove como você produzirá com maior facilidade. Fórum Dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e participe do nosso fórum. Essa atividade permite a interação entre você, seu tutor e colegas de curso, contribuindo significativamente para a construção do seu conhecimento. www.esab.edu.br 107 20 Redação institucional/comercial Objetivo Apresentar os cuidados essenciais que envolvem a redação de textos institucionais. Ao final da primeira unidade, afirmamos que sempre haverá lugar no mercado para quem sabe ouvir e defender bem um argumento, você lembra? Pois então, para alcançar e manter um posto de trabalho, certamente você precisará se manifestar, defender posições e escrever. Vimos também que, conforme o local em que nos encontramos, conforme o grupo social em que nos inserimos ou conforme a ocasião, é preciso saber modular a linguagem de acordo com a necessidade. Nesse sentido, o ambiente institucional é um desses lugares que exigem certa formalidade e muita clareza e objetividade. Para comentar a especificidade dessa linguagem, portanto, partiremos essencialmente dos pressupostos de Luizari (2010). A autora destaca que, no mundo corporativo, a produção escrita desempenha uma função básica: obter a resposta certa. Essa relação entre produtor e receptor (ou destinatário) tem, por sua vez, um objetivo bem delineado, que não passa pelo viés de produção de conhecimento. Trata-se de fazer negócios. E para que os negócios tenham sucesso o processo comunicativo se dá por alguns passos essenciais. Vejamos. 20.1 Objetivo Como vimos, de modo amplo, em unidades anteriores, ser conciso e utilizar linguagem simples (não coloquial) é uma virtude. O sucesso da comunicação corporativa passa por desenvolver a mensagem com definição, sem desvios (ou digressões) e exageros. www.esab.edu.br 108 20.2 Vocabulário É importante saber usar as palavras certas para desenvolver uma boa argumentação, sem repetição de ideias e termos. 20.3 Gramática Deve-se usar a norma culta da língua e evitar as gírias e estrangeirismos, pleonasmos e expressões antiquadas. Deve-se tomar cuidado com a ambiguidade que pode surgir em alguns momentos. Lembre-se de que, muitas vezes, estamos dizendo muito mais do que imaginamos. Tente se colocar no lugar do outro. 20.4 Canal O que você está escrevendo é uma carta, um e-mail, uma circular, um memorando? Atente para isso, pois há diferenças. Uma coisa é escrever para alguém específico. Quando escrevemos para um grupo, o cuidado deve ser redobrado. Perceba, no entanto, que esses cuidados não invalidam a sua criatividade. Seja espontâneo, mas com cautela. 20.5 Paragrafação Um dos aspectos que também devem ser observados é a paragrafação (estudaremos esse tema, detalhadamente, na unidade 22). Luizari (2010) destaca que os parágrafos garantem coesão sequencial. É necessário que o texto seja contínuo e lógico, e isso implica em ser coerente. Nesse quesito, a paragrafação desempenha um papel fundamental, já que por meio dela organizamos o nosso pensamento em blocos de sentido. Luizari (2010) salienta que não há um “parágrafo-padrão”, mas sim relações lógicas que realizam a interligação. Não se trata, portanto, de extensão, mas de pensar bem, separar ideias e parágrafos conforme os tópicos em questão. Na dúvida, utilize a forma clássica: www.esab.edu.br 109 • tópico frasal: é a frase principal, que resume o pensamento desenvolvido no parágrafo; • desenvolvimento: é o momento em que você esclarece a afirmação contida na introdução; • conclusão: retome a ideia central e conclua o seu pensamento. Observe o exemplo a seguir: Modelo de carta institucional São Paulo, ___ de ___ de 2012. À Coordenação do Curso de Especialização Administração em Empresas Assunto: Carta de Compromisso Institucional Venho cordialmente apresentar-lhe o (a) profissional ______________________, RG. nº____________, integrante da equipe de gestão desta instituição, com o objetivo de reforçar a indicação às exigências do processo de seleção para o Curso de Especialização em Administração de Empresas. O referido colaborador desempenha atividades relacionadas com o desenvolvimento de ações voltadas para a área de gestão com ênfase em empreendimentos imobiliários. Ciente de seu perfil profissional, apoiamos a recomendação de sua integração ao referido Curso de Especialização e comprometemo-nos, como equipe de trabalho, a colaborar com diárias, passagens e liberação para a realização do referido Curso em Fortaleza, como também realização de atividades não presenciais que serão exigidas no decorrer do processo, certos de que a temática abordada pelo curso será relevante também para as atividades desta instituição. Colocamo-nos à disposição para futuros esclarecimentos, declarando que as informações aqui apresentadas são verdadeiras e aptas à comprovação, se necessário. Atenciosamente, (Assinatura do responsável) www.esab.edu.br 110 Perceba como cada parágrafo está elaborado conforme a estrutura tópico frasal – desenvolvimento – conclusão. Utilizando essa metodologia, você certamente deixará o seu texto coeso e bem redigido. Perceba ainda que o vocabulário, apesar de polido, não apresenta nenhum termo de difícil compreensão. Trata-se de comunicar e ser claro e objetivo nessa tarefa. Vejamos agora alguns tipos de redação institucional. 20.6 Tipos Entre os tipos de correspondências mais frequentes na redação institucional, atente para as seguintes: • circular: tem por objetivo informar a respeito de um assunto de interesse geral, que pode ser de caráter interno da empresa (funcionários) ou externo (clientes). A confecção do texto é leve e sua finalidade, como vimos, é imediata. Luizari (2010) destaca que, no caso de uma circular externa, o texto deve ser redigido para que o receptor tenha a impressão de que a mensagem é diretamente para ele; • memorando: trata-se de um comunicado interno (CI). Devem constar: de/para, assunto, data, mensagem, fechamento, assinatura. A linguagem empregada pode ser informal, pois o assunto em questão é de rotina da empresa; • ordem de serviço: como o próprio nome explicita, trata-se de uma comunicação que determina a execução de uma (ou várias) tarefa(s). Usa-se linguagem direta e clara. Saiba mais Para complementar o que você estudou nesta unidade, sugerimos que você clique aqui e leia as dicas relacionadas à redação empresarial. www.esab.edu.br 111 21 O curriculum vitae Objetivo Fornecer dicas para a elaboração de um bom currículo pessoal. O currículo é um documento muito utilizado no ambiente das organizações. Mas você sabe o que exatamente este termo – curriculum vitae – significa? E, mais que isso, sabe como elaborá-lo? O termo advém de uma expressão latina, cujo significado é “curso de vida”. Nesse sentido, trata-se de um documento que detalha informações relacionadas às atividades escolarese profissionais, essencialmente, desenvolvidas por uma pessoa ao longo de sua trajetória. Mesmo quando lemos um livro, nossa leitura já se pauta pelo currículo do autor, que normalmente figura na quarta capa ou orelha. A partir dessas informações, sabemos se estamos diante de um novato ou de alguém muito experiente, e nosso olhar já é influenciado por isso (MEDEIROS, 2008, p. 53). O currículo (utilizaremos essa grafia daqui em diante) constitui o principal documento quando almejamos um emprego ou quando nos matriculamos em processos seletivos. Dada essa importância, precisamos ter uma série de cuidados ao elaborá-lo. Desde já, tenha em vista que a finalidade do currículo pode variar. Por isso, é interessante construir um documento que reúna todas as informações que você deseja, e, conforme a ocasião, editá-lo para dar foco àquilo que você deseja. www.esab.edu.br 112 21.1 O que não pode faltar Dados pessoais: figuram na página principal ou primeira página. Deve constar: nome completo (com destaque), endereço completo, telefone, e-mail, nacionalidade, idade e estado civil. Caso você inclua um telefone para recados, indique qual a pessoa responsável para recebê-los. Objetivo: escreva uma frase que ilustre as atividades que você deseja desenvolver na empresa, ou a que cargo está se candidatando. Por exemplo: Atuar na área de editoração. (Observe que o verbo deve aparecer no infinitivo.) Formação acadêmica: aqui você deve descrever sua trajetória de estudos. Privilegie o seu último grau de instrução (ensino superior, caso você já tenha concluído ou esteja em curso), os cursos de formação profissional e ensino médio. Coloque o nome do curso e da instituição, ano de início e conclusão, se está cursando ou se está incompleto, caso tenha parado. Não precisa constar o ensino fundamental. Lembre-se: ordem cronológica inversa, ou seja, do mais atual ao mais antigo. Experiência profissional: descreva as atividades que você já desenvolveu. Caso possuir experiência, mencione até os três últimos locais em que trabalhou, quais as funções e os cargos ocupados, além do período em que desempenhou tais atividades. Igual ao item anterior, comece pela experiência mais recente. Mantenha a objetividade. Cursos complementares: caso tenha realizado curso(s) complementar(es), indique o nome do curso, a data e a instituição onde foi realizado. Não exagere; privilegie aqueles que interessam para a função a que está se candidatando. Idiomas: caso conheça algum idioma estrangeiro, indique o seu grau de domínio (leitura, conversação e escrita). Se você desconhece outro idioma, não coloque esse item no currículo. www.esab.edu.br 113 Informática: relacione todos os aplicativos e softwares que você domina. Exemplo: domínio dos sistemas Windows, Mac, Linux, e dos programas e aplicativos Microsoft Office, Plataforma Moodle, entre outros. 21.2 Recomendações O fator preponderante ao elaborar o currículo é que os dados nele expressos devem ser objetivos, ou seja, sem comentários ou demonstrações intelectuais, julgamentos de valor e assim por diante. Não se trata de um espaço para dissertar. É simples amostragem de dados. O modo como você dispõe os dados já fornece informações a seu respeito: quem realiza o processo seletivo verá se você é organizado e detalhista ou displicente e desajeitado. Um primeiro passo é organizar o currículo cronologicamente, do mais para o menos atual, mas com uma certa hierarquia. Separe, por exemplo, a sua formação principal dos cursos complementares. O que vem primeiro, sem dúvida, é a sua formação. Assim, tudo deve ser conciso. Além da formação superior (doutorado, mestrado, graduação, caso você possua), mencione a formação escolar média (geralmente, apenas a sua formação superior já é suficiente). Além dos cursos complementares, anote possíveis prêmios que você tenha recebido. Na sequência, anote os eventos a que você esteve presente e que dispõem de comprovação documentada (um certificado, por exemplo). Aqui, já é necessário que você atente para não abreviar o nome das instituições. Escreva por extenso e, caso queira, coloque a sigla entre parênteses, no final. Além disso, seja cuidadoso na formatação do documento: margens, espacejamento duplo para uma fácil leitura, tratamento padronizado para título e subtítulos e norma culta da língua. Um ponto essencial dessa parte do processo é a utilização de um tipo de letra (fonte) comum. Nada de formas muito modernas… use fonte Arial ou Times New Roman. O documento deve chamar a atenção pelos dados, e não pela forma. www.esab.edu.br 114 Em um patamar mais avançado, apresentar o currículo em outros idiomas (inglês, espanhol) é interessante, mas somente em casos especiais, conforme a exigência. Pode anteceder aos dados uma carta de apresentação, em que você explicita qual o seu objetivo, suas competências e habilidades, incluindo também o motivo do envio do currículo. Dica Você sabia que o governo brasileiro desenvolveu um banco de dados denominado Plataforma Lattes, que se tornou um padrão nacional no registro da vida pregressa e atual dos estudantes e pesquisadores do país, e é hoje adotado pela maioria das instituições de fomento, universidades e institutos de pesquisa do país? Por sua riqueza de informações e sua crescente confiabilidade e abrangência, se tornou elemento indispensável e compulsório à análise de mérito e competência dos pleitos de financiamentos na área de ciência e tecnologia. Confira clicando aqui. Outro ponto muito importante: não invente para impressionar. Seja honesto. É mais interessante a sua disponibilidade em aprender do que a arrogância vazia. Muitas vezes, pode ser solicitada a comprovação das informações e, caso alguma delas não possa ser atestada, você acaba se colocando em uma situação desagradável, perdendo crédito. 21.3 Revisando, reforçando e mais alguns detalhes • Não coloque filiação, números ou cópias de documentos. • Não abuse de recursos gráficos nem de colorações. Folha branca, caso se trate de um documento impresso. • Linguagem clara. Nada de descrições longas. www.esab.edu.br 115 • Não coloque fotografia, salvo se solicitado. • Não assine. • Não coloque pretensão salarial, salvo se solicitado. • Não faça uso de termos técnicos. Antes de alguém da área em que você deseja atuar, os currículos normalmente passam por alguém do setor de Recursos Humanos (RH). • Não coloque quais são os seus hobbies. É desnecessário e pode atrapalhar mais do que ajudar. • Quanto ao histórico escolar, não é necessário mencionar Ensino Fundamental. Prefira o seu último grau de instrução. • Caso você tenha referências pessoais, não as coloque. Informe que, caso necessário, estarão à disposição. • Ao final, solicite a alguém mais experiente que leia e teça comentários sobre o seu currículo. • Observação: não faça fotocópias do seu currículo. Envie sempre uma impressão única, fazendo entender que aquela empresa ou instituição se trata de um caso especial. Não atire para todos os lados, a esmo! • Hoje em dia, como a comunicação se dá de forma digital, fundamentalmente, e até por uma questão ecológica, o mais habitual é enviar o currículo por e-mail. • Por último, saiba que os currículos que vão direto ao ponto têm maior índice de leitura. Saiba mais Assista a esta reportagem do jornal Hoje (2009), em que um consultor de Recursos Humanos dá dicas de como elaborar um bom currículo. Disponível aqui. www.esab.edu.br 116 22 Parágrafos Objetivo Perceber como se dá a construção dos parágrafos dentro da produção textual. Certamente, você já sabe o que são parágrafos. Mas sabe também utilizá- los estrategicamente? Os parágrafos são as quebras que estabelecemos ao longo do texto, sinalizadaspor um recuo à margem esquerda, à primeira linha de cada período (em tempos de internet, vale dizer, desde já, que esse recuo à esquerda tem sido abolido, mas para textos de caráter acadêmico, ele prevalece). Os parágrafos se dão por três razões básicas: • estética: imagine um bloco de palavras, tal qual um muro, sem frestas. Contrários a essa imagem, os parágrafos servem para suavizar, para dar movimento à aparência do texto em sua disposição gráfica; • separação: os parágrafos habitualmente marcam momentos distintos do pensamento estampado na página, quando as ideias se desdobram, quando estabelecemos um “a mais” ou uma ressalva àquilo que estávamos desenvolvendo; • ênfase: os parágrafos servem para dar destaque a determinadas informações. www.esab.edu.br 117 PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPP PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP Figura 6 – O texto em bloco e o texto “arejado” pela paragrafação. Fonte: Adaptado de Faraco e Tezza (2008). De modo mais conceitual, Medeiros (2008, p. 271) define parágrafo como: [...] uma unidade do discurso que tem em vista atingir um objetivo. Essa unidade apresenta inicialmente uma frase genérica, básica, denominada tópico frasal. A ela são associadas, pelo sentido, outras secundárias. Portanto, um parágrafo não comporta uma ideia-núcleo somente. Ideias diferentes, no entanto, cabem em parágrafos diferentes. Em outros termos, entenda discurso como o texto em sua totalidade, de modo que cada parágrafo representa uma parte disso. Cada uma das partes contém uma afirmação-chave e outras a ela relacionadas. O que não estiver relacionado (a “ideia diferente”) deve figurar em um novo parágrafo, pois se trata de um novo viés ou de um novo tópico do discurso. Faraco e Tezza (2008), entretanto, destacam que não há uma padronização para a construção dos parágrafos, no sentido de uma fórmula que possa ser aplicada a qualquer tipo de texto. A paragrafação varia conforme a intenção e o efeito que se quer alcançar. Podemos entendê-la como uma técnica, desde que nessa técnica esteja implicada uma boa percepção hierárquica entre ideias e fatos do produtor para com o receptor. www.esab.edu.br 118 Os mesmos autores destacam, ainda, que boa parte dos manuais escolares define parágrafo como um conjunto de orações, constituindo um “pensamento completo”. Porém, a definição não é precisa, pois não há problema algum em abrir um parágrafo para nele colocar apenas uma palavra ou uma frase, como acontece muitas vezes no texto publicitário: A JOLI é uma das maiores empresas químicas do mundo. Possuindo propução própria em quase 40 países e mais de 100 empresas espalhadas pelos cinco continentes. Desde 1911, está no Brasil. Crescendo, abrindo mercados e valorizando a qualidade de vida de todos nós. [...] E o que representa tudo isso? Melhores condições de trabalho, otimização de recursos e espaço, comunicação mais eficiente, agilidade nas decisões, e, principalmente, maior concentração de esforços para melhor atendimento ao cliente. (FARACO, TEZZA, 2008, p. 213) Faraco e Tezza (2008) afirmam, nesse sentido, que se trata muito mais de um ajuste às reações previstas do ouvinte ou do leitor. Quanto mais frágil for esse ajuste, menos organizado será o discurso no que diz respeito à construção dos parágrafos. Entre os demais problemas, Faraco e Tezza (2008) apontam que na redação escolar verifica-se, por um lado, a ausência completa de paragrafação, que, como vimos na figura anterior, converte o texto em um bloco maciço de informações que não permite descanso aos olhos do leitor, nem pausas à sua respiração. Por outro, tem-se também a presença total, em que cada oração constitui um parágrafo, sem que essa subdivisão seja estrategicamente armada. Seria, nesse caso, muito mais uma urgência por preencher espaço do que armar um bom texto. Por isso, saiba que conforme o tipo de texto, o modo de estabelecer os parágrafos irá variar. Vejamos. www.esab.edu.br 119 22.1 Caso Vejamos um exemplo trabalhado por Faraco e Tezza (2008, p. 170): Pouco maior do que um par de ameixas secas, com formato semelhante ao de uma gravata-borboleta e pesando entre 15 g e 25 g, ela comanda algumas das mais importantes funções do corpo humano. Exemplos? A capacidade de respirar, de mover as pernas, regular a temperatura corporal, manter o coração batendo no ritmo certo, o raciocínio pronto para qualquer desafio... É preciso mais? Claro que não. Está comprovadíssima a nobreza da pecinha de que estamos falando. E para não espichar o assunto, vamos logo à ficha da moça. Trata-se da glândula tiroide (ou tireoide), domiciliada à frente da traqueia, bem abaixo do pomo de adão, ou gogó, para os íntimos. O primeiro médico a descrevê-la foi o belga Vesalius, pai da anatomia moderna, em 1543. Ele observou que a pequena estrutura se movimenta para cima e para baixo durante o ato de engolir, mas não chegou a descobrir as tarefas desempenhadas por ela no organismo. Séculos depois, os cientistas perceberiam que, além de dançar no pescoço, a glândula fabrica dois hormônios fundamentais: o T3 (triiodotironina) e o T4 (tiroxina). Lançadas na corrente sanguínea, essas substâncias atingem, uma por uma, todas as células do corpo, estimulando-as a produzir energia. Isso mesmo. O T3 e o T4 atuam como a gotinha mágica que induz o metabolismo celular a transformar nutrientes em combustível vital. Assim, o organismo encontra forças para desempenhar todas as suas funções – de piscar o olho a correr a mais disputada das maratonas. O fragmento que você acabou de ler é uma reportagem da revista Época. Perceba que há uma hierarquia bem definida entre as informações. Nos dois parágrafos que compõem o fragmento, temos: a. uma descrição sobre a glândula cujo nome só saberemos depois (até para manter o mistério e despertar o interesse no leitor); b. após revelado o objeto, outras informações se desdobram (quem descobriu a glândula, quais as suas funções, o que ela produz e qual a sua importância no corpo humano). www.esab.edu.br 120 Todavia, tenha em vista que a disposição dos parágrafos pode mudar conforme o tipo de texto. Em um texto publicitário, por exemplo, nada impede que se faça um parágrafo de uma única palavra. Trata-se de dar ênfase. Já nos textos literários, pode ocorrer o oposto. José Saramago, escritor português, faz uso em vários de seus romances de longos períodos, que atravessam páginas e mais páginas. No entanto, aí se trata claramente de um recurso de estilo, cuja intenção pode ser manter a intensidade da descrição, da complexidade do pensamento ou de ilustrar graficamente o peso da ação em si. Porém, como dissemos, aí se trata de linguagem literária, poética, em que as licenças são bem-vindas e também constituem uma estratégia. No texto acadêmico – não esqueça disso – você deve sempre ter em vista a objetividade e a clareza, considerando o conforto do seu interlocutor. Dominar a prática dos parágrafos implica ter uma boa noção do efeito que você deseja incutir ao texto. E, para refinar o uso, passe a observar com bastante atenção os textos que você lê. Olhe para a estrutura, veja qual a informação em destaque em cada um dos blocos. Você notará que um texto confuso certamente o é também em função de uma subdivisão inadequada dos parágrafos. Estudo complementar Sugerimos que você acesse o site Mundo Vestibular clicando aqui. Você terá mais detalhes sobre a elaboração do parágrafo. www.esab.edu.br 121 23 Pontuação Objetivo Revisar questões básicasrelacionadas ao uso adequado da pontuação. Os sinais de pontuação [ . , : ; ? ! – … ( ) ] constituem recursos gráficos cuja função é representar na escrita as entonações da linguagem oral. Uma simples mudança de entonação indica se a frase é uma pergunta (Você vai?), uma afirmação (Você vai.), uma ordem (Você vai!), uma dúvida (Você vai…) ou demonstra, por exemplo, espanto (Você vai?!). Para estudarmos alguns casos específicos, teremos por base as considerações de Faraco e Tezza (2008). Acompanhe. 23.1 Vírgula: sujeito e predicado Uma regra fundamental de pontuação é que não se usa vírgula entre sujeito e predicado, independentemente da extensão do sujeito (FARACO; TEZZA, 2008). Para entender, pense que, em uma oração, sujeito e predicado são termos relacionados a um verbo (que pode ser um verbo de ação ou um verbo de ligação). Procure visualizar isto: • sujeito: indica quem pratica a ação ou de quem se informa um determinado estado ou condição. Cuidado: o sujeito pode vir oculto; • verbo: indica a ação em si, realizada pelo sujeito ou estado/condição deste; www.esab.edu.br 122 • predicado: articula-se ao sujeito por um verbo. Tradicionalmente, entende-se como aquilo que se diz do sujeito. Modernamente, entretanto, entende-se predicado apenas como uma instância sintática com que se estabelece a concordância entre os termos. É um termo essencial da oração, pois, sem o predicado, a oração não existe. Outro aspecto importante é que predicado é apenas uma nomenclatura genérica. Para explicitá-lo, é preciso definir o tipo (se predicado nominal, verbal ou verbo-nominal). Veja o exemplo: As taxas de juros (sujeito) permanecem baixas (predicado nominal). Como você pode notar, essas instâncias sintáticas não necessitam de pausa, e por isso não há necessidade de marcar com a vírgula. Durante a fala, podemos eventualmente marcar essa pausa, pois a linguagem oral é flexível; mas na escrita, não. 23.2 Vírgula: orações restritivas e explicativas Faraco e Tezza (2008, p. 209) ponderam, entretanto, que há casos em que a pontuação padrão aceita separar o sujeito do predicado caso o sujeito possua oração restritiva. Acompanhe o exemplo utilizado pelos autores: Cada uma das orações que compõem esse trecho traduz segmentos congelados da linguagem. Cada uma das orações que compõem esse trecho, traduz segmentos congelados da linguagem. A pontuação padrão aceita os dois casos porque nos exemplos o sujeito não é apenas cada uma das orações, mas cada uma das orações que compõem esse trecho. A parte final – que compõem esse trecho – é oração restritiva, e nesse caso a exceção se aplica. Mas atente: não é necessário colocar a vírgula ali! www.esab.edu.br 123 Já quando se trata de oração explicativa não há dificuldade. Veja: O maior estilista do país, que vinha exercendo seu talento para um rol reduzido e milionário de clientes fiéis, resolveu mostrar-se ao vivo. Como explicitam Faraco e Tezza (2008), no exemplo anterior o sujeito é o maior estilista do país, e o predicado, resolveu mostrar-se ao vivo. A oração entre vírgulas (que poderia também estar entre travessões), que vinha exercendo seu talento para um rol reduzido e milionário de clientes fiéis, é apenas explicativa, podendo ser suprimida sem prejuízo sintático. Vejamos um desdobramento desse tipo de oração no tópico seguinte. 23.3 Vírgula: informação básica e informação complementar Outra regra de ouro da pontuação é que uma informação complementar da oração será sempre separada por vírgula. Vejamos o exemplo tratado por Faraco e Tezza (2008, p. 236): Sem comércio e sem dinheiro, voltados para a arte e para a natureza, os moradores de Yuba vivem uma vida primitiva, negando as conquistas da civilização, mais ou menos de acordo com os ensinamentos do polêmico filósofo Rousseau. Os autores destacam cinco blocos de informações contidas no caso separadas por vírgulas. A informação básica do período é a que estão sujeito e predicado; portanto, é a parte que possui autonomia sintática. Acompanhe a argumentação dos autores: www.esab.edu.br 124 Os moradores de Yuba vivem uma vida primitiva. Não é uma frase perfeitamente estruturada? Agora compare: Voltados para a arte e para a natureza. Sem comércio e sem dinheiro. Mais ou menos de acordo com os ensinamentos do polêmico filósofo Rousseau. Negando as conquistas da civilização. É fácil perceber que informações desse tipo são complementares, e em geral não aparecem na escrita como orações avulsas. (FARACO; TEZZA, 2008, p. 237) A lógica, aqui, portanto, é que as informações básicas, como dissemos anteriormente, têm autonomia, permanecem com sentido quando isoladas. Já as informações complementares, não; seu sentido fica incompleto quando retirada a informação básica, que contém sujeito e predicado. A palavra de ordem, portanto, é que toda informação complementar virá separada da informação básica por vírgula. 23.4 Ponto-final Via de regra, usa-se o ponto-final para separar sentenças sintaticamente independentes. Geralmente, em um período, o ponto final deve ser usado sempre que um novo sujeito aparecer, seguido de uma informação a seu respeito. O México venceu o Senegal por 4 a 2 neste sábado, em Londres, e garantiu a vaga na semifinal do torneio masculino de futebol da Olimpíada. Enriquez e Aquino marcaram os gols mexicanos no tempo regulamentar. De cabeça, Konate e Balde, após cruzamentos de Suare, conseguiram levar a partida para a prorrogação. A função do ponto-final é dar ao leitor tempo para respirar e continuar a leitura. Um macete para o uso do ponto-final é tentar substituí-lo www.esab.edu.br 125 por uma vírgula. A pausa gerada pelo ponto é maior que a gerada pela vírgula, e, portanto, ela não funciona como um bom substituto. 23.5 Ponto e vírgula O ponto e vírgula é pouco usado, justamente em função de não possuir um emprego imprescindível, e já veremos o motivo. Mas, de qualquer modo, é comum ouvir que esse sinal de pontuação representa uma pausa “menor que a do ponto-final” e “maior que a da vírgula”. Embora não explique, é isso mesmo. Vejamos primeiro o seu uso mais elementar: enumerar. As qualidades da equipe são: a) disposição; b) solidariedade; c) coleguismo; d) astúcia. Não há segredo nesse primeiro exemplo. No entanto, uma enumeração pode também ser contínua: As qualidades da equipe são: disposição; solidariedade; coleguismo e astúcia. Observe apenas que, nesse caso, o último ponto e vírgula deve ser substituído por um e. O que você deve atentar mesmo é para o uso desse recurso gráfico no meio de uma sentença. O problema não é exatamente o creme dental; o problema é a marca. Se substituíssemos o ponto e vírgula por uma vírgula simples, a impressão é de que a pausa não é suficiente. No entanto, perceba que ele pode ser facilmente substituído por um ponto-final. www.esab.edu.br 126 O problema não é exatamente o creme dental. O problema é a marca. Note, assim, como é possível prescindir do seu uso. Quando você já se julgar um produtor de textos experiente, certamente irá usá-lo com mais frequência. Mas, persistindo a dúvida, use este macete: posso substituir por ponto final? Se a resposta for sim, você terá o ponto e vírgula como opção. Para sua reflexão Agora, é hora de refletir: você pretende apenas escrever corretamente ou tem o desejo de aprimorar o texto para armar pensamentos mais sofisticados? As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 127 24 Frase, oração, período Objetivo Revisar as diferenças básicas entre os conceitos de frase, oração e período. Depois de verificarmos as questões básicas relacionadas ao uso adequado dapontuação, passamos a outro tópico também importante: a construção das frases, das orações e dos períodos. Você já sabe diferenciá-los? Os conceitos que estudaremos nesta unidade têm por base a visão de Perini (2009) em sua obra “Gramática descritiva”. 24.1 Frase De modo sucinto, frase é um enunciado linguístico que transmite uma ideia completa. É, portanto, uma palavra ou um conjunto de palavras com sentido completo. Perini (2009) acrescenta que, na escrita, a frase é delimitada pelo uso de uma letra maiúscula no início e também por certos sinais de pontuação (. ! ? …) no final. Desse modo, podemos reconhecer como frases os seguintes enunciados: Meu notebook tem 8 Gb de memória RAM. Quantos membros estão na sua equipe? Vá até a faculdade e solicite o seu histórico. Você pode ir até a faculdade? Que frio! Quanto espaço você precisa? Mas que sala grande! www.esab.edu.br 128 É importante salientar que uma frase não depende de termos sintáticos específicos (como veremos a seguir, no caso da oração). Ou seja, para que uma frase caracterize-se como tal, ela não depende da existência de sujeito, verbo, predicado. Para entender isso, imagine uma placa de sinalização que diz “Perigo!”. É uma frase! Basta olhar a placa e já temos noção de que no lugar onde ela se encontra devemos manter cautela, de modo que o contexto espacial nos explicitará com o que teremos de cuidar. Imagine uma cerca elétrica e essa placa que mencionamos. No caso, trata-se de uma placa sinalizando alta voltagem. Figura 7 – Uma única palavra pode constituir uma frase. Fonte: <www.sxc.hu>. Quanto à classificação, a gramática tradicional tipifica as frases em quatro tipos. www.esab.edu.br 129 • Frases interrogativas: o emissor da mensagem elabora uma pergunta: Vamos sair hoje? • Frases imperativas: o emissor da mensagem dá uma ordem ou faz um pedido: Ajude-me aqui. Vá embora! • Frases exclamativas: o emissor esboça um estado afetivo: Que dureza! • Frases declarativas: o emissor constata um fato: O diretor acabou de chegar. Além dessa tipificação, as frases também podem ser classificadas em outros dois tipos. • Nominais: Que dia fantástico! • Verbais: Ajeitou o sapato. A frase construída com verbo ou locução verbal é frase verbal (ou oração, como veremos a seguir). Quando não apresenta verbo, denomina-se frase nominal. 24.2 Oração Perini (2009, p. 61) define oração como “[...] uma frase que apresenta determinado tipo de estrutura interna, incluindo sempre um predicado e frequentemente um sujeito”. Seria melhor, no entanto, estabelecermos oração como um conjunto linguístico estruturado em função de um verbo, que por sua vez demanda os outros termos sintáticos (sujeito e predicado – ou complemento). Veja o exemplo: Aline sujou o vestido. Como você pode notar, temos: Aline (sujeito) sujou (verbo) o vestido (e o complemento). www.esab.edu.br 130 Saiba mais Há vários tipos de orações (imperativas, interrogativas, exclamativas, declarativas e optativas). Clique aqui e veja mais exemplos de cada uma delas. 24.3 Período Quanto ao período, Perini (2009, p. 62) observa que a definição se refere às “[...] orações que constituem uma frase”. Trata-se, portanto, de um todo, com sentido completo. Pode ser classificado em período simples e período composto. O período simples é constituído por uma única oração (ou oração absoluta): O helicóptero sobrevoou a cidade. O período composto, por sua vez, é formado por mais de uma oração: Parece que a colheita vai ser ruim nesta temporada! Observações: • um detalhe importante é que se houver na frase apenas um verbo, tratar-se-á de uma oração e constituirá um período simples. Por consequência, havendo mais de uma oração (mais de um verbo), tratar-se-á de um período composto (Preciso que você me empreste o seu carro); • no período composto, caso as orações tenham sentido sintático e semanticamente completos, formarão orações coordenadas (Olharam-se nos olhos e saíram do recinto); • se num período composto de, pelo menos, duas orações, uma delas for sintática e semanticamente completa, será denominada oração principal (Ele pretendia sair, assim que acabasse o serviço); www.esab.edu.br 131 • se num período composto de duas orações existir uma oração principal (sintática e semanticamente completa, contendo sujeito, verbo e complemento), a segunda será definida como uma oração subordinada (Ele pretendia sair, assim que acabasse o serviço). Você notou a diferença entre os elementos expostos pelo autor? Caso tenha dúvidas, retorne às unidades anteriores e releia. Vamos continuar aprofundando nossos estudos nos capítulos seguintes. Até lá! www.esab.edu.br 132 Resumo Nestas últimas seis unidades, seguimos estudando a escrita no contexto acadêmico. Esboçamos alguns parâmetros para a redação de títulos que conduzam melhor (e seduzam mais) o leitor. Mais que isso, um título bem pensado orienta a escrita e a definição do tema. Vimos ainda como são estruturados bons parágrafos (resumidamente, para cada nova ideia, um novo parágrafo). Estudamos alguns casos de pontuação fundamentais, revisamos os conceitos de frase, oração e período, e também mudamos um pouco de ambiente: estudamos brevemente a comunicação escrita no contexto empresarial e vimos aspectos que estruturam a montagem de um bom currículo pessoal. Vamos em frente! www.esab.edu.br 133 25 Coesão Objetivo Estudar a coesão como princípio fundamental para a construção de um bom texto. Quando estudamos o conceito de texto na unidade 2, trabalhamos com a ideia de que este se caracteriza não por um amontoado de frases, mas pelas relações de sentido estabelecidas. Um texto – uma dissertação, por exemplo – trabalha um assunto, porém com desdobramentos ao longo da argumentação. Temos um pressuposto, e a partir dele fazemos inferências. Ou seja, fazemos uma afirmação, e a partir dela produzimos relações, ponderamos a ideia, seus prós e seus contras, por exemplo. No entanto, para que o texto fique bem escrito, sem repetição de termos, usamos outros que os substituam. E, para este processo, há um nome. Veja: “[...] a ligação, a relação, a conexão entre as palavras, expressões ou frases do texto chama- se coesão textual. Ela é manifestada por elementos formais, que assinalam o vínculo entre os componentes do texto” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 370). Como você pode visualizar no conceito esboçado pelos autores, a coesão textual refere-se a certos elementos formais utilizados para interligar as ideias com que construímos a nossa argumentação. Tais termos são chamados conectores (ou conectivos). Para iniciar o seu estudo, vamos acompanhar o raciocínio dos autores Fiorin e Savioli (2006). Segundo eles, há dois tipos fundamentais de coesão. Vejamos. www.esab.edu.br 134 25.1 Coesão por retomada ou por antecipação O estudo desta modalidade de coesão textual se dá por dois tipos de conectivos: os anafóricos (termos que servem para retomar outros termos esboçados no texto) e os catafóricos (termos que antecipam outros que serão mencionados na sequência textual). São exemplos de anafóricos/catafóricos os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele), os pronomes relativos (que, o qual, cujo, onde), certos advérbios e locuções adverbiais (nesse momento, então, lá etc.) e os verbos ser e fazer, o artigo definido, o pronome pessoal de 3a pessoa (ele/ela; o/a/; lhe). (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 371) Acompanhe o exemplo utilizado pelos autores (2006, p. 371): Qualquer que tivesse sido seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele. O professor era grande, gordo e silencioso, de ombros contraídos. No caso, o pronome possessivoseu e o pronome de 3a pessoa ele antecipam a expressão o professor. A essas funções de antecipação, são chamados catafóricos. Já o pronome pessoal oblíquo o retoma a expressão seu trabalho anterior, e por isso chamamos anafórico. Saiba que, nessas categorias, estão as famosas duplas este/esse, isto/isso. Vejamos mais alguns exemplos: Ele disse isto: “Sumam daqui!”. O termo isto antecipa a expressão sumam daqui. É um catafórico. Outro exemplo: Alfredo e Cíntia gostam de assistir às Olimpíadas pela televisão. Esta prefere o atletismo; aquele, a natação. Esta, no caso, refere-se a Cíntia; aquele, refere-se a Alfredo. Ambos retomam os termos e por isso são anafóricos. www.esab.edu.br 135 Saiba mais Também é possível fazer a retomada de termos do texto por meio de outros substantivos, verbos ou adjetivos. É o caso quando utilizamos um sinônimo, um hiperônimo ou um hipônimo. Para aprofundar o estudo da coesão, sugerimos a leitura do artigo disponível clicando aqui. Confira! Vejamos agora a segunda modalidade de coesão textual estipulada por Fiorin e Savioli (2006). 25.2 Coesão por encadeamento de segmentos textuais Aqui, há duas possibilidades: conexão e justaposição. Na primeira, conexão, a coesão se dá pelo uso dos conectores, também chamados operadores discursivos. Podemos dizer que se trata do processo de coesão mais fácil de visualizar, pois se refere a palavras cuja finalidade é justamente a concatenação de ideais e criação de relações. São exemplos: então, portanto, já que, com efeito, porque, ora, mas assim, daí, dessa forma, isto é. Cada um desses termos carrega consigo uma relação semântica, ou seja, de sentido, indicando causa, finalidade, conclusão, contradição, entre outros, e por isso, ao escrever, é necessário utilizar o conector adequado conforme a relação desejada. Acompanhe o exemplo: Os times não jogaram bem, mas a condição do gramado não era ruim. O período está correto, pois o conectivo mas tem o valor de estabelecer uma ressalva. Ou seja, se os times não jogaram bem, foi por algum outro motivo que não a condição do gramado. No caso, o mas faz parte dos conectores que contrapõem enunciados de orientação argumentativa contrária. Perceba, inclusive, que ele poderia www.esab.edu.br 136 ser substituído por outros de mesmo valor, sem prejuízo de sentido: porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, embora, ainda que, mesmo que, apesar de que. A partir deste ponto, faremos um resumo dos tipos de conectores e suas respectivas relações de sentido. a. Gradação: até, mesmo, até mesmo, inclusive, ao menos, pelo menos, no mínimo, no máximo, quando muito. Exemplo: Adélia é proibida de cantar e, até mesmo, de falar. b. Ligação de argumentos em favor de uma mesma conclusão: e, também, ainda, nem, não só... mas também, tanto... como, além de, além disso, a par de. Exemplo: Medalhistas brasileiros não pagam impostos, mas também não ganham prêmios do governo. c. Introdução de argumentos que levam a conclusões opostas: ou, ou então, quer... quer, seja... seja, caso contrário. Exemplo: Eu levei na brincadeira, caso contrário teria me levantado e saído. d. Conclusão: portanto, logo, por conseguinte, pois. Exemplo: Não se aplica, portanto, aos fatos ocorridos antes da sua vigência. e. Comparação de superioridade, inferioridade ou igualdade: tanto... quanto, tão... quanto, mais... (do) que, menos... (do) que. Exemplo: Sedentarismo mata tanto quanto cigarro, diz estudo. f. Explicação ou justificativa com relação ao enunciado anterior: porque, já que, pois. Exemplo: A alegria de posse do presidente já acabou, porque os problemas já começaram a aparecer. g. Argumentação decisiva, com acréscimo: aliás, além de tudo, além disso, ademais. Exemplo: Este governo está mesmo ajudando os descamisados: permitiu a elevação abusiva dos preços, diminuiu investimentos na área social. Além do mais, achatou os salários. www.esab.edu.br 137 h. Generalização ou amplificação do que foi dito: de fato, realmente, aliás, também, é verdade que. Exemplo: Mal tomou posse, o presidente já tem problemas para resolver. Aliás, todos já sabíamos que seria assim. i. Especificação ou exemplificação: por exemplo, como. Exemplo: O Natal, por exemplo, é um dos melhores feriados do ano. j. Correção, esclarecimento, desenvolvimento ou redefinição do primeiro enunciado: ou melhor, de fato, pelo contrário, ao contrário, isto é, quer dizer, ou seja, em outras palavras. Exemplo: Este governo está contradizendo o programa apresentado na campanha, isto é, não está cumprindo as promessas feitas. k. Explicitação, confirmação ou ilustração do que foi dito: assim, desse modo, dessa maneira. Exemplo: A palavra drama vem do grego e significa ação. Desse modo, o texto dramatúrgico é aquele escrito especificamente para representar a ação. l. Sequenciação: pode-se dividir este item em três: • sequência temporal: depois, meses depois, uma semana antes, um pouco mais cedo; • ordenação: primeiramente, em seguida, a seguir, finalmente; • introdução de novo tema ou assunto: a propósito, por falar nisso, mas voltando ao assunto, fazendo um parêntese. Perceba que fizemos aqui apenas um esquema para que você pudesse visualizar a abrangência do uso dos conectores. Ao escrever um texto, pense na relação de sentido que você está construindo e utilize o termo adequado. Tenha muito cuidado nessa tarefa, pois o uso equivocado do conector pode sinalizar uma contradição na formulação do argumento. E agora vamos estudar outro assunto importante quando se trata da escrita de um texto: a coerência. www.esab.edu.br 138 26 Coerência Objetivo Analisar os fatores que interferem no bom encadeamento argumentativo da produção textual. Na unidade anterior, estudamos a coesão textual como um fator de encadeamento das unidades linguísticas presentes no texto. Em outras palavras, a coesão se dá pelo viés sintático do texto, no modo como construímos e entrelaçamos as frases e orações, e, portanto, no modo como construímos os períodos que estruturam os parágrafos. Perceba que estamos utilizando boa parte dos conceitos já trabalhados até agora: frase, oração, período, parágrafo. É bem importante que você operacionalize esses conceitos. Partindo dessa noção a respeito da coesão textual, podemos afirmar que a coerência, por sua vez, opera no viés semântico do texto, ou seja, concerne às relações de sentido. Deste modo, quando se fala em coerência, referimo-nos a um sentido unitário que deve percorrer o texto como um todo, de modo que os sentidos construídos não se contradigam. Está relacionada, portanto, à organização subjacente do texto, como anotam Fiorin e Savioli (2006). Mas o que seria isso? Em um texto, uma ideia ajuda a compreender outra, criando um sentido global. Cada uma das partes do texto deve estar relacionada a essa unidade semântica. www.esab.edu.br 139 Lembre-se: semântico = sentido; sintático = disposição das palavras nas frases, e das frases dentro do discurso. Portanto, o texto deve ser um todo harmônico, no qual tudo se encaixa de modo complementar, sem que nada destoe, seja ilógico, contradiga ou fique solto. A partir dessas considerações, a incoerência seria “[...] a violação das articulações de conteúdo de cada um dos níveis de organização do texto” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 396). Vejamos alguns tipos de coerência. 26.1 Coerência narrativa Como você já estudou na unidade 13, o conceito de narrativa implica em uma disposição temporal dos fatos, ou seja, o que é posterior depende do que é anterior. Para entender isso, imagine um personagem que executa uma ação. Para que ele consiga desempenhá-la com sucesso – para que ele desempenhe uma performance –, é preciso que ele tenha capacidade para tanto – que ele tenha competênciapara isso. Veja o exemplo trabalhado por Fiorin e Savioli (2006, p. 397): Lá dentro havia uma fumaça espessa que não deixava que víssemos ninguém. Meu colega foi à cozinha, deixando-me sozinho. Fiquei encostado na parede da sala, observando as pessoas que lá estavam. Na festa, havia pessoas de todos os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas, baixas etc. Há uma incoerência nesse relato, não? Se havia tanta fumaça no ambiente, a ponto de não se enxergar nada, como o personagem pôde em seguida discernir pessoas de todos os tipos? Ou seja, a narrativa não deu ao personagem competência para realizar a performance. Do mesmo modo, comentam os autores, é incoerente informar que certo personagem foi a um jogo de futebol já completamente desmotivado www.esab.edu.br 140 com o time, e saiu decepcionado. Pois a decepção implica na expectativa de que algo aconteça e na frustração dessa expectativa. Se o personagem já sabia que o jogo seria ruim, não faz sentido mostrar a sua decepção. 26.2 Coerência argumentativa Possivelmente, este seja o caso ao qual você deve dar atenção especial, pois trata principalmente do texto dissertativo, que é o tipo de texto mais praticado nesta etapa da sua formação educacional. Como vimos no início da unidade anterior, sobre coesão, um texto – uma dissertação, por exemplo – trabalha um assunto, porém com desdobramentos ao longo da argumentação. Temos um pressuposto, e a partir dele fazemos inferências (já estudamos esses conceitos também!). Ou seja, fazemos uma afirmação, e a partir desta produzimos relações, ponderamos a ideia, seus prós, seus contras, por exemplo, e concluímos. Se no texto as conclusões não estão amparadas por dados lançados previamente, comete-se a incoerência de nível argumentativo. Por exemplo: o texto parte do pressuposto de que o descontrole orçamentário é a causa da inflação e que essa inflação é o problema mais grave do país; é incoerente afirmar em seguida ou concluir que o governo deve aumentar os gastos públicos para reaquecer a economia. A primeira afirmação não suporta a segunda, que fica solta. 26.3 Coerência figurativa Este tipo de coerência se refere a como montamos um cenário no texto. Fiorin e Savioli (2006, p. 398) exemplificam: suponhamos que a ideia seja figurativizar o tema do requinte e da sofisticação para caracterizar determinado personagem. Para ser coerente, é preciso que todas as figuras encaminhem para o tema do requinte. Pode-se citar, ao descrever sua casa, a lareira, o tapete persa, os cristais da Boêmia, a porcelana de Sévres, o dobermann (raça de cão oriunda da Alemanha) ressonando no tapete, www.esab.edu.br 141 um quadro de Portinari e outras figuras do mesmo campo de significado. Nesse cenário, constitui incoerência figurativa Agnaldo Timóteo cantando na vitrola um bolero sentimental. Essa ruptura só se justifica se a intenção é humorística, mostrando que o requinte é apenas superficial. Será preciso desenvolver o texto até chegar a este ponto. Imagine também que você está narrando fatos que se desenvolvem em uma ilha perdida, com pessoas. Nesse ambiente, é coerente falar a respeito do mar, da solidão, do abandono; de caça, de cabanas feitas com vime. Mas é incoerente colocarmos um personagem lendo uma revista de fofocas. Para que essa ação se justifique, assim como no exemplo anterior, é necessário desenvolver o texto até chegar a este ponto: é preciso falar que as pessoas que ali estão são, por exemplo, sobreviventes de um acidente aéreo, e que muitos dos vestígios da vida urbana que ali se encontram também vieram com o desastre. São partes dos destroços. Essas são as variáveis fundamentais da coerência textual. Diferente do processo de coesão – que se refere à sintaxe do texto –, a coerência se refere à semântica, ou seja, ao modo como construímos o sentido de nosso discurso. Como destacamos antes, mantenha atenção redobrada quando estiver produzindo o texto dissertativo, pois é esse tipo de texto que você mais desempenhará nesta etapa da vida estudantil. Estudo complementar As três modalidades fundamentais da coerência textual que vimos aqui (narrativa, figurativa, argumentativa) podem ser desdobradas em mais três variações, a elas relacionadas: coerência temporal, coerência espacial e coerência no nível de linguagem. Como estudo complementar, sugerimos a leitura da seguinte resenha que aborda o assunto clicando aqui. www.esab.edu.br 142 27 Estilo Objetivo Refletir a respeito dos elementos que conformam e auxiliam no desenvolvimento de uma escrita própria. Após trabalharmos os aspectos relativos à coesão e coerência, pergunto a você: o que é um estilo? O termo é empregado nas mais diversas áreas. Na escrita, trata-se uma maneira particular de escrever, de exprimir o pensamento. Em várias das unidades anteriores, reforçamos uma série de procedimentos que orientam formas de escrever e que caracterizam tipos distintos de texto. Mas será que isso constitui fórmulas que devemos seguir? Sim e não. Sim, mas não sem arriscar. Vamos pensar sobre isso. É necessário que você saiba utilizar o tipo de texto adequado conforme a solicitação. Se for solicitada a você uma dissertação, é fundamental saber distinguir que, diferente do texto narrativo, na dissertação não cabem personagens, por exemplo. Ou que, ao lhe pedirem uma descrição, você também saiba que esse tipo de texto não comporta mudanças de situação; trata-se da caracterização de uma pessoa, lugar ou objeto em um momento específico de tempo. Esses são procedimentos básicos, mas que não colocam a escrita em uma camisa de força, sem que você possa arriscar ser criativo. Por exemplo: você leu, ao longo do nosso estudo, que a introdução deve conter uma afirmação genérica, mostrando o seu ponto de vista sobre determinado tema. Corroborando isso, viu também que um bom parágrafo inicia por um tópico frasal que, por sua vez, constitui essa afirmação genérica, à qual todas as demais, naquele parágrafo, estarão relacionadas. www.esab.edu.br 143 Pois bem, isso não impede que você inicie o texto citando as palavras de alguém. Para visualizar isso, acompanhe a forma deste parágrafo extraído de Faraco e Tezza (2005, p. 239): Sobre o perigo de entender a leitura crítica como um privilégio de uma ou de outra linguagem – da literária, por exemplo – veja-se a citação seguinte: “A leitura encarada dessa forma nos faz pressupor que as nossas cabeças são blocos compartimentados, isto é, como se nelas existissem gavetas específicas para cada tipo de manifestação discursiva […].” (CASTRO, 1989, s/p) Perceba que há uma ordem linear de exposição: a. tópico frasal: “Sobre o perigo de entender a leitura crítica como um privilégio de uma ou de outra linguagem […]”; b. as demais afirmações relacionadas – “[…] da literária, por exemplo”, “veja-se a seguinte citação” e, em seguida, a própria citação como confirmação do tópico frasal. Isso não precisa ser assim, necessariamente. Você pode fazer de outras formas: Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Hos, nem tus, cus consull abent. Apeciachil ublin te hus consci pondeni. Castro (1989) destaca que entender a leitura crítica como um privilégio de uma ou de outra linguagem – da literária, por exemplo – pode representar um perigo. Isso, segundo o autor, pressupõe nossas cabeças comoblocos compartimentados, e que neles existissem gavetas específicas para cada manifestação discursiva. Pressupor que as nossas cabeças são blocos compartimentados, isto é, como se nelas existissem gavetas específicas para cada tipo de manifestação discursiva é uma forma perigosa de se entender a leitura crítica, afirma Castro (1989). Note que, embora diferentes da primeira, as duas variações também possuem tópicos frasais (“Castro (1989) destaca que entender” ou “Pressupor que as nossas cabeças são blocos compartimentados”), que constituem a informação principal a que as demais se vinculam. www.esab.edu.br 144 O que muda é a informação – ou ação – que se quer destacar, e isso é uma questão pessoal. Você, com habilidade, é quem irá decidir. É uma questão de estilo. 27.1 No ambiente acadêmico No ambiente acadêmico, convém observarmos com especial atenção o tipo de texto que lhe for solicitado. Além disso, esse ambiente estipula uma série de cuidados, tais como linguagem objetiva, mas que esteja devidamente fundamentada. Não é a ocasião para se fazer uso da primeira pessoa, uma vez que não se trata de declarar a sua opinião em primeiro plano. Faça o seguinte: posicione-se como um mediador das leituras que você fez. Mostre os pontos de vista e confronte-os. Adquirindo habilidade, será possível encontrar a forma e uma posição no discurso que mostre o modo como você pensa. Lembre-se: para a academia, existem regras e procedimentos, e que parte da sua aprovação depende de você mostrar que as conhece e sabe utilizá-los. 27.2 De modo informal Agora, se você tem um site ou blog, ou utiliza as redes sociais para divulgar os textos que produz, aí de fato convém que se utilize de uma linguagem mais dialógica, que abra um canal direto com o leitor. Não há problema em se utilizar a primeira pessoa. Na maior parte dos casos, aliás, você deve fazer isso, pois se trata de seduzir o leitor com seu discurso desde as primeiras linhas. Em suma: o modo como se escolhem as palavras (se mais comuns ou mais sofisticadas), o modo como se constroem as frases, as orações e os períodos (períodos simples, de uma única oração, ou períodos compostos por várias orações), a sequência que estipula para narrar os www.esab.edu.br 145 fatos ou elencar os argumentos são aspectos que, quando dominados, caracterizam o seu estilo. Observando bem o ambiente em que se encontra, você saberá se pode se manifestar mais à vontade ou se há códigos específicos que deve observar. Saiba que seguir os códigos, na maior parte das vezes, mostra um raciocínio amadurecido, e não necessita de um jargão específico de linguagem para se manifestar. Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidades 19 a 27. Para isso, dirija- se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 146 28 Denotação/conotação Objetivo Estudar a linguagem discernindo os fatores denotativos e conotativos na produção textual. Outro assunto igualmente relevante quando tratamos da produção textual é a linguagem denotativa e conotativa. Mas o que isso quer dizer? Quando usamos um termo em seu sentido comum, aquele que aparece no dicionário, trata-se de um uso denotativo. Quando um termo é utilizado no sentido figurado, trata-se de um uso conotativo (muito comum na literatura ou na publicidade, por exemplo). Vamos a um exemplo bem básico? Considere um grupo de meninos no colégio. De repente, surgem duas meninas, e um dos meninos diz: “Que gatas!”. Ora, ninguém tem dúvida de que o sentido aqui é de que as meninas são, de fato, muito bonitas, não? Pois então, o termo “gatas” pega emprestado o sentido do termo “bonitas”. Isso é conotação. São termos, muitas vezes, cujos sentidos laterais já estão naturalizados na língua. Porém, conceitualmente, a relação de conotação permanece. Vejamos como isso funciona. 28.1 Particularidades Devemos, no entanto, atentar para algumas particularidades. Há palavras que possuem um lastro conceitual mais abrangente que outras. Por exemplo, a palavra linha pode ser entendida de diversas formas: www.esab.edu.br 147 • material para costurar; • trilho do trem ou itinerário de um ônibus; • conduta, postura. O detalhe reside em que nos três casos anteriores não há conotação. Trata-se de polissemia, como vimos na unidade 5. Ou seja, um significante que possui mais de um plano de conteúdo. Talvez você agora esteja se perguntando: mas o que é um significante e o que significa plano de conteúdo? Saiba que todo signo linguístico se divide em duas partes: o significante, que é a parte perceptível, constituída pelos sons, representados por letras; e o significado, que é a parte inteligível, e forma um conceito. Usando outros termos, ainda podemos afirmar que o significante relaciona-se ao plano da expressão, e que o significado remete ao plano do conteúdo. Para tratar dessas nomenclaturas, voltemos ao caso da palavra linha. Podemos dizer que essa palavra possui, para um mesmo plano de expressão, vários planos de conteúdo. Ou seja, um mesmo significante (linha) relaciona-se a vários significados (material de costura, linha de trem, conduta de caráter ou postura e outros mais). Mas como saber, no caso da palavra linha, qual dos planos de conteúdo está em questão? Ora, o contexto sempre esclarecerá qual o uso. Exemplos: • Clodoaldo, de tão nervoso, não conseguia acertar a linha na agulha (= material de costura). • Clodoaldo tomou a linha sentido Centro (= itinerário). • Clodoaldo, embora nervoso, não perdeu a linha enquanto lecionava (= postura). www.esab.edu.br 148 28.2 Como funciona a conotação Agora que você já conhece a polissemia e a significação contextual, podemos partir para a conotação. Embora não pareça, entender como funciona o mecanismo da conotação é bastante simples. Observe estas duas palavras: magro adj (lat macru) 1 Que tem falta de tecido adiposo, que tem poucas carnes, em que há pouca ou nenhuma gordura ou sebo. palito sm (cast palito) 1 Hastezinha pontiaguda, em geral de madeira, para esgaravatar os dentes. Quadro 1 – Consultando o dicionário. Fonte: Dicionário Michaelis Online (2012). Cada uma das palavras (magro, palito) tem a sua significação própria, distinta uma da outra. • Paulo é muito magro. • Paulo pediu palitos de dente ao garçom. Nesse sentido, as sentenças acima são perfeitamente normais. Mas observe o exemplo a seguir: • Paulo é um palito! O que está em questão? A relação denotativa com o significado da palavra ‘palito’ não funciona, pois não se quer dizer que Paulo seja uma “hastezinha pontiaguda, em geral de madeira, para esgaravatar os dentes”. A intenção é indicar a magreza de Paulo, só que para isso usou-se de uma comparação implícita com a palavra palito, em setido figurado. www.esab.edu.br 149 No caso do nosso exemplo, o signo ‘palito’ utiliza não o seu significado, mas o de outro significante: ‘magro’. Em outros termos, conotar consiste em retirar uma palavra de seu contexto convencional e transportá-la para um novo campo de significação por meio de uma comparação implícita, de uma similaridade existente entre as duas. Saiba, por fim, que as relações conotativas de uma palavra podem variar de uma cultura para outra, e que essas relações estão sempre se renovando. Um exemplo? Pense quando dizemos “É bom, mas não é uma Brastemp”. Brastemp, a marca de eletrodomésticos, valeu-se de uma conotação que remete a ótimo, superior. O produto é bom, mas não é tão bom quanto um da Brastemp… E assim vai. Para finalizarmos, observe este esquema: DENOTAÇÃO CONOTAÇÃO Palavra com significação restrita Palavra com significaçãoampla Palavra com sentido dicionarizado Palavra com sentido figurado, fora do comum Palavra de uso automático Palavra com uso criativo Quadro 2 – Denotação e conotação. Fonte: Elaborado pelo autor (2012). Vimos, então, que a denotação indica as palavras com sentido dicionarizado, enquanto a conotação remete à linguagem figurada, muito comum na esfera literária. Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 150 29 Tropos de linguagem Objetivo Abordar brevemente as figuras de linguagem mais comuns utilizadas na produção textual. Como vimos na unidade anterior, todos somos capazes de reconhecer um uso dito “normal”, e um uso “criativo”, ou “alterado”, das palavras e frases que elaboramos e ouvimos em nosso dia a dia – ou, para usar os termos técnicos, um uso denotativo (regular) e um uso conotativo (criativo). Por vezes, esse uso “criativo” é bastante evidente; em outras, só percebemos sua “anormalidade” se paramos para pensar. Então, saiba que o que chamamos figuras de linguagem diz respeito a esse uso criativo de nossa língua. São mecanismos que temos à disposição para alterar o significado das palavras e dar um toque especial ao texto. O nome tropos vem do verbo grego trépos, que significa ‘desviar’. Daí a ideia de que, mediante o uso das figuras de linguagem, desviamos o sentido para um uso fora do comum. São várias as figuras de linguagem, e, dada a sua variedade, vamos estudar aqui as mais comuns. Vamos lá! 29.1 Metáfora De modo sucinto, a metáfora é uma figura de linguagem que estabelece uma analogia dos significados entre duas palavras, ou expressões, empregando uma no lugar da outra. Segundo Fiorin e Savioli (2006), a alteração no sentido se dá quando, entre o sentido de base e o acrescentado, há uma relação de semelhança, de intersecção, ou seja, quando apresentam traços semânticos comuns. www.esab.edu.br 151 Vejamos a seguinte frase: “A urbanização está acontecendo de modo inconsequente, pois está destruindo todos os pulmões da cidade.” O que quer dizer o termo “pulmões” do modo como está empregado? Sabemos que os pulmões são o órgão do corpo humano responsável pela respiração e oxigenação. Se entendermos a cidade também como um organismo, o termo “pulmões” conota as árvores que são progressivamente cortadas para ceder espaço para as construções. Assim, entre pulmões e árvores há uma relação de semelhança, dada a função que estas desempenham na produção de oxigênio. O mesmo acontece quando dizemos: “Amazônia, pulmão do mundo”. Acompanhe outros exemplos de metáforas: • Este rapaz é forte como um leão. • Mariana é esperta como uma raposa. Temos aqui comparações, que são formas de metáfora. “Leão” é um exemplo de força; “raposa” é um exemplo de esperteza. Poderíamos, no entanto, apenas dizer que: • Este rapaz é um leão. • Mariana é uma raposa. Nestes últimos casos, perceba que fica a cargo do leitor atribuir o sentido à associação, e que essa atribuição dependerá da sensibilidade de cada um, podendo ser compreendida de modo distinto, mas em um mesmo campo de significação. Cabe ressaltar que as gírias são formadas basicamente por relações metafóricas, e variam conforme a cultura e o momento. Veja: • Que irado este seu corte de cabelo! No exemplo bastante contemporâneo, o termo “irado” é utilizado no lugar de legal, surpreendente e até de moderno. www.esab.edu.br 152 Saiba, entretanto, que a metáfora pode caracterizar a leitura de um texto como um todo. Em um episódio do seriado de televisão “Lost”, intitulado “A metáfora da mariposa”, vemos dois personagens fundamentais da trama logo na primeira temporada da série. São John Locke e Charlie. Charlie tem um sério problema com consumo de drogas, cometendo vários impropérios em função disso. Locke, por sua vez, percebe o consumo de Charlie e esconde a droga. Charlie tem crises de abstinência e pede de volta o pacote, pois ele “precisa” daquilo. Locke então conta uma história, construindo uma alegoria: é a história da mariposa, que, até nascer, fica dentro de um casulo, aguardando o momento certo para tornar-se forte o bastante e conquistar o mundo. Sem explicar o que isso significa, Locke está dizendo a Charlie, por meio da história, que ele precisa se tornar forte o bastante para encarar o mundo sozinho, sem depender do uso da droga. 29.2 Metonímia A metonímia é uma figura de linguagem baseada no uso de um nome no lugar de outro, pelo emprego da parte pelo todo, do efeito pela causa, do autor pela obra, do continente pelo conteúdo, entre outras possibilidades. Conforme a definição de Fiorin e Savioli (2006, p. 160), trata-se da “[...] alteração do sentido de uma palavra ou de uma expressão pelo acréscimo de um significado primeiro, quando entre ambos existe uma relação de contiguidade, de inclusão, de implicação, de interdependência, de coexistência”. Vejamos: • As chaminés deveriam ir para fora da cidade. Neste caso, há uma relação de contiguidade entre chaminés e fábricas. • Comerás o pão com o suor do teu rosto. www.esab.edu.br 153 Temos aqui o pão como alimento, e suor como trabalho. Vejamos outros casos mais pontuais: • marca pelo produto: João usa Sorriso. (= João usa o creme dental da marca Sorriso.); • autor pela obra: Rodrigo gosta de ler Rubem Fonseca. (= Gosta de ler a obra literária de Rubem Fonseca.); • continente pelo conteúdo: Bebeu o copo todo. (= Bebeu todo o líquido que estava no copo.); • instrumento pela pessoa que utiliza: Os microfones foram atrás das celebridades. (= Os repórteres foram atrás das celebridades.); • gênero pela espécie: Os mortais habitam este mundo. (= Os homens habitam este mundo.); • inventor pelo invento: Edson ilumina a cidade. (= As lâmpadas iluminam a cidade.); • símbolo pelo objeto simbolizado: Não te distancies da cruz. (= Não te distancies da religião.); • causa pelo efeito: Moro na fazenda e como do meu trabalho. (= Moro na fazenda e como o alimento que produzo.); • efeito pela causa: Sócrates bebeu a morte. (= Sócrates tomou cicuta.); • parte pelo todo: Várias pernas passavam correndo. (= Várias pessoas passavam correndo.); • singular pelo plural: O trabalhador foi convocado para ir às ruas na luta por seus direitos. (= Os trabalhadores foram convocados, não só um.); • espécie pelo indivíduo: O homem tenta ir a Marte. (= Alguns astronautas tentam ir a Marte.). www.esab.edu.br 154 29.3 Ironia A ironia é outra figura de linguagem bastante utilizada e que consiste em dizer o contrário daquilo que se está afirmando. • Parabéns pela sua grande ideia: conseguiu arruinar todo o meu trabalho! • Quem foi o esperto que utilizou o computador e apagou tudo o que estava gravado? • Moça linda, bem tratada, burra como uma porta: um amor! Todavia, tome cuidado, pois o uso da ironia em excesso pode mostrar muito do seu mau humor ou do seu gênio ruim! Estudo complementar Para aprofundar o que vimos brevemente nesta unidade, você pode assistir ao episódio “Decifra- me ou te devoro” da série Palavra Puxa Palavra, produzida pela MultiRio (Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro), disponível clicando aqui. www.esab.edu.br 155 30 O clichê Objetivo Estudar a presença de lugares comuns na produção textual para saber como evitá-los. Um dos problemas da produção textual é o de que não podemos intervir para solicitar esclarecimentos imediatos ao autor. Por isso é que se faz necessário montar a argumentação com muita clareza e a partir de dados precisos. Isso define a credibilidade que o leitor atribuirá àquilo que se está afirmando ou ao modo como se está apresentando determinado tema. Nesse sentido,vimos rapidamente, na unidade 7, que o uso de frases feitas, pertencentes à sabedoria popular e universal, na maior parte das vezes atrapalha o desenvolvimento da argumentação. Expressões como “Devagar se vai ao longe”, “A pressa é inimiga da perfeição”, “A esperança é a última que morre”, ou frases como “O que estraga o Brasil são os políticos”, “Hoje em dia, as mulheres estão entrando no mercado de trabalho”, “Segundo pesquisadores americanos”, “Os jovens de hoje em dia”, todas estão esgotadas, referem-se apenas a generalidades e atuam como formas de ‘não pensar’. Além disso, normalmente estão carregadas de cunho ideológico. Por isso, cuidado! Veja como essas expressões podem preencher um texto e, ao mesmo tempo, não dizerem nada: Devagar se vai ao longe, porque a pressa é inimiga da perfeição e a esperança é a última que morre. É fato que o brasileiro é preguiçoso por natureza, mas graças a Deus aqui não há preconceito racial – somos um povo que tem horror à violência; nossa índole pacífica é proverbial no mundo inteiro. Se o homem tomasse consciência do valor da paz, não haveria mais guerras no mundo – bastava que cada um parasse para pensar na beleza do sorriso de uma criança e descobrisse que mais vale um pássaro na mão do que dois voando. A paciência é a mãe das virtudes, mas só com www.esab.edu.br 156 determinação e coragem haveremos de resolver nossos problemas. O que estraga o Brasil são os políticos; sem eles estaríamos bem melhor, cada um fazendo a sua parte. Hoje em dia, felizmente, as mulheres estão entrando no mercado de trabalho porque, segundo pesquisadores americanos, elas são muito mais caprichosas que os homens. Já os homens, conforme uma conclusão do conceituado Instituto de Psicologia de Filadélfia, são muito mais desconfiados e estão sempre querendo mais. As pesquisas eleitorais nunca acertam porque são todas compradas. Mas a verdade é que o amor, quando autêntico, resolve tudo. O que não se pode esquecer jamais é que a esperança existe – e sempre existirá! (FARACO; TEZZA, 2005, p. 211) Percebeu o problema? Segundo os autores, o lugar-comum – ou chavão, e, como chamamos aqui, clichê – consiste na pior praga dos textos argumentativos: pela sua natureza indiscutível, todo o conhecimento permanece acomodado em uma sabedoria que não nos pertence, que já está pronta, passando de geração em geração e evitando o questionamento. Trata-se de uma afirmação tão batida e repetida que não se pode fazer mais nada com ela além de repeti-la. No âmbito da redação escolar ela funcionava: era possível encerrar o texto afirmando que “não há nada mais belo que o sorriso de uma criança” ou “as guerras acabarão quando todos perceberem que só o amor constrói” e alcançar uma boa nota (pois era para isso que as redações eram construídas, não para um leitor!). Mas agora, em outro patamar da vida estudantil, não se pode mais encerrar os argumentos dessa forma (FARACO; TEZZA, 2005). O lugar-comum encerra uma espécie de ordem ao leitor, pois em vez de chamar a atenção deste e convidá-lo a refletir, o clichê apenas comunica uma verdade incontestável e encerra uma possível discussão. Não raro, o lugar-comum pauta-se pelo imperativo: faça isso, desse modo; devemos fazer isso, devemos fazer aquilo, sem que haja uma justificativa para tal mandato (FARACO; TEZZA, 2005). Assim, para saber como lidar com o pensamento clichê, é bom que você saiba como evitá-lo. www.esab.edu.br 157 1) Evite as noções de totalidade indeterminada O jovem... O homem... O mundo... Os políticos... As mulheres... Por trás dessas denominações está uma noção genérica, sem fundamentos, que entende a sociedade como se ela estivesse constituída por blocos absolutamente homogêneos, que pensam e se comportam da mesma maneira. São afrontas analíticas a uma reflexão mais bem cuidada. Veja agora algumas frases: Nada pode destruir o bem. O homem bom é mais feliz. O Homem é um ser egoísta por natureza. O brasileiro não gosta de trabalhar. A sociedade é uma máquina que não pode parar. O amor só é amor quando é autêntico. Faraco e Tezza (2005) destacam que frases dessa natureza vêm desacompanhadas de qualquer explicação a respeito do que seja ‘o bem’, ‘o Homem’, ‘o brasileiro’, ‘a sociedade’, ‘os políticos’. Ora, para definir cada um destes termos ou destas porções da sociedade, é preciso um ponto de vista sociológico, analisando geração, faixas etária, classe social, circunstância histórica. Do contrário, o que temos não é mais que provérbio de calendário ou frase de parachoque de caminhão! www.esab.edu.br 158 Figura 8 – A sabedoria incontestável do lugar-comum. Fonte: <parachoquedecaminhao.com.br>. 2) Caráter amplo e vago de definição Observe estas frases: • O problema dos sem-terra e sua luta não tem sentido, pois perturba a ordem estabelecida. • Deve-se respeitar o professor, pois na escola ele é uma autoridade. O que essas duas afirmações dizem? No primeiro caso, a afirmação pressupõe que se devam fazer protestos que não perturbem o estado atual das coisas. Isso é possível? Ora, todo protesto se pauta justamente pelo questionamento ou inconformismo. Retirar isso do ato de protestar é torná-lo inócuo, sem sentido! No segundo caso, entende-se que apenas em determinado lugar é preciso conceder respeito a um cidadão. Isso é certo? www.esab.edu.br 159 Uma coisa é o que queremos dizer; outra pode ser o que de fato dizemos, sem perceber. Repare que as afirmações citadas são fruto de noções apressadas, descuidadas, e que possibilitam um contra-argumento imediato. São um defeito grave no texto. A dificuldade em se evitar o lugar-comum está no conforto de se escrever automaticamente, sem um processo de reflexão. Por isso, saiba que precisamos desafiar a nós mesmos o tempo todo. Esteja sempre lendo e analisando os pontos de vista, suas diferenças, o modo como são construídos. Você saberá quando uma argumentação é vazia, preconceituosa, mas também verá como uma argumentação bem elaborada faz com que você reveja coisas que já dava por certas. Por isso, sempre que puder, abandone a sua “zona de conforto”! www.esab.edu.br 160 Resumo Vimos como a coesão e a coerência são fatores essenciais da produção textual. A primeira se trata de um fator de encadeamento das unidades linguísticas presentes no texto. Em outras palavras, a coesão se dá pelo viés sintático do texto, no modo como construímos e entrelaçamos as frases e orações, e, portanto, no modo como construímos os períodos que estruturam os parágrafos. Partindo daí, a coerência opera no viés semântico do texto, ou seja, concerne às relações de sentido. Vimos também que, apesar de muitas vezes ser necessário seguir determinadas regras ou adotar certos procedimentos, você, com tempo, conquistará um estilo próprio de apresentar seus argumentos. Dando um passo a mais, vimos relações denotativas e conotativas. As primeiras se referem ao uso “normal” das palavras; as segundas referem- se ao uso criativo das palavras, muitas vezes pelo uso de figuras de linguagem, como a metáfora e a metonímia. Por fim, aprofundamos nosso estudo sobre o clichê – o lugar-comum ou jargão –, ressaltando o cuidado necessário para montar argumentos sem o uso de “totalidades indeterminadas” e “definições de caráter amplo e vago”. Vamos em frente! www.esab.edu.br 161 31 Usos da crase Objetivo Revisar os principais usos da crase. O uso da crase é um dos principais pontos de dúvida para quem está tentando escrever corretamente. Segundo Faraco e Tezza (2005, p. 142), trata-se de “[...] uma unanimidade nacional: ninguém sabe usá-la!” A expressão “crase” é derivada do vocábulo grego krâsis, que indica a mistura de elementos combinados em um todo, como uma fusão de sons. Na língua portuguesa, o sinal gráfico que indica acrase é o acento grave (`). O detalhe é que não se trata apenas de um sinal como tantos outros que vão sobre a letra A. Conforme a definição da gramática tradicional, a crase é um fenômeno fonético resultante da fusão entre a preposição a com o artigo definido feminino singular ou plural a ou as, podendo, ainda, fundir-se com o a inicial de pronomes demonstrativos, tais como aquele, aquilo, aquela (àquele, àquilo, àquela). Em suma, a crase indica a fusão de vogais idênticas, mas com função sintática distinta. Vamos estudar isso em detalhe. 31.1 Casos de uso da crase A crase aparece somente em frases que contemplem duas situações. Estará sempre ao lado de uma palavra feminina ou quando o verbo, adjetivo ou advérbio solicitar a preposição a. Faraco e Tezza (2005, p. 184) resumem: “[...] o emprego ou não do acento gráfico indicativo da www.esab.edu.br 162 crase é apenas uma questão de regência. Perguntas: o antecedente exige a preposição a? O artigo também está presente?”. Assim, a frase “Daniel dirigiu-se à empresa” replica que Daniel dirigiu-se a (preposição) + a (artigo) empresa. Acompanhe mais alguns exemplos típicos: Jane dedica-se à família todo o tempo. (Jane dedica-se a+a família todo o tempo.) Meu avô era fiel à conduta militar. (Meu avô era fiel a+a conduta militar.) Todos estamos sujeitos às leis. (Todos estamos sujeitos a+as leis.) O rei ficava indiferente às súplicas do povo. (O rei ficava indiferente a+as súplicas do povo.) Você deve obedecer às normas do colégio. (Você deve obedecer a+as normas do colégio.) Pormenorizando, usa-se obrigatoriamente a crase: • em locuções adverbiais: à noite, à tarde, à esquerda, à toa, às pressas, às vezes etc.; • em locuções prepositivas: à vista de, à espera de, à guisa de, à roda de, à semelhança de, à custa de, à frente de, à razão de, à beira de, à cata de etc.; • em locuções conjuntivas: à proporção que, à medida que etc.; • diante de pronomes demonstrativos – aquele(s), aquela(s), aquilo – sempre que forem antecedidos por verbos que regem a preposição a (Como escapar àquele olhar?); www.esab.edu.br 163 • quando estiverem subentendidas as expressões à moda de, à maneira de (arroz à grega, trajes à esportiva); • diante de numerais, apenas quando houver referência a horas (A aula começa às nove e dez); • diante de nomes de lugares que admitem o artigo (Estou pronto para ir à Bahia). Dica Observe o macete: se vou a e volto da, crase há. Se vou a e volto de, crase pra quê? Em outras palavras, se o termo regente for um verbo, substitua-o por uma das formas do verbo voltar – volto, voltarei etc. Ocorrendo a contração da ou das depois do verbo voltar, é necessário colocar a crase no a que antecede a palavra feminina. José viajou a Bahia. > José voltou da Bahia. Logo: José foi à Bahia. (com crase) Otávio viajou a Florianópolis. > Otávio voltou de Florianópolis. Logo: Otávio foi a Florianópolis. (sem crase) Não se usa crase: • diante de verbos (Ex.: Estão todos a errar o procedimento.); • diante de palavras masculinas (Ex.: Ela foi ao cinema.); • diante de artigo indefinido, mesmo que feminino (Ex.: A crise do casal levou a uma situação chata.); • diante de pronomes que não aceitam o artigo (Ex.: A quem se dirigem as instruções? O presidente não se referiu a ninguém.) www.esab.edu.br 164 Detalhe: há pronomes que admitem artigo, ocorrendo a crase: • Exemplo: Eduardo faz companhia à senhora. Júlia fez alusão à mesma professora. diante da palavra casa quando indicar residência própria (Ex.: Matilde volta a casa todos os dias.). Detalhe: quando a palavra casa estiver especificada, ocorrerá a crase (Estavam dormindo quando cheguei à casa da madame); • diante da palavra terra, como antônimo de bordo (Ex.: Estávamos em alto mar e voltamos a terra bastante cansados). Detalhe: como no caso anterior, quando a palavra terra vier especificada, ocorre a crase (Ex.: Elisa voltou à terra dos seus avós); • em locuções formadas por palavras repetidas: frente a frente, gota a gota, dia a dia etc.; • diante de substantivos próprios que não aceitam artigo (Ex.: Carlo foi a Bogotá). A crase é opcional ou facultativa: a. Diante de pronomes possessivos femininos no singular. Exemplos: • Lourival estava à minha procura. • Taíse mentiu a minha mãe. b. Diante de substantivos próprios femininos. Exemplos: • Ex.: À Rosalva deixo meu agradecimento. • Nada do que faço agrada a Isabela. c. Depois da preposição até. Exemplos: • Ex.: Com medo, foi até a portaria. • Aline ficará aqui até à meia-noite. www.esab.edu.br 165 Dica Um macete simples para identificar a necessidade de crase é substituir a palavra feminina por uma masculina. Essa alteração desvendará a fusão a+a: se o resultado da palavra masculina apontar a preposição ao (derivada de a+o). Nesta frase ocorre a crase: Ex.: Pedro dirigiu-se ao clube. Pedro dirigiu-se à praça. Muitas vezes, a crase funciona como um fator de esclarecimento, pois a sua correta leitura facilita a interpretação do leitor. Em muitos casos (não em todos), a ambiguidade de uma frase se dissolve com a aplicação da crase. Um exemplo clássico é o seguinte: Vendo a vista. Vendo à vista. Essa frase pode mostrar que o sujeito está apreciando a paisagem (‘vendo a vista’), mas também pode significar que se está a vender um objeto, porém mediante pagamento à vista (‘vendo à vista’). Veja outros exemplos: www.esab.edu.br 166 A moça cheira a rosa. (aspira) A moça cheira à rosa. (exala) Ricardo correu as cortinas. (percorreu) Ricardo correu às cortinas. (seguiu em direção a) Aderbal pinta a máquina. (usa pincel nela) Aderbal pinta à máquina. (usa uma máquina para pintar) Referia-se a outra mulher. (conversava com ela) Referia-se à outra mulher, (falava dela) Consulte essas observações a respeito do uso da crase sempre que você estiver em dúvida. E sempre que estiver lendo um texto cuja autoria é confiável, observe o modo como a crase é utilizada. É a melhor forma de você aprender. Fórum Dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e participe do nosso fórum. Essa atividade permite a interação entre você, seu tutor e colegas de curso, contribuindo significativamente para a construção do seu conhecimento. www.esab.edu.br 167 32 Usos dos porquês Objetivo Revisar os principais usos dos porquês. Esta unidade será bem esquemática e breve, para que você visualize o uso diferenciado na língua portuguesa destes termos: quê, por quê, por que, porquê e porque. Vamos lá! 32.1 Quê O quê leva acento gráfico circunflexo sempre que for utilizado nas seguintes situações: • Quando referir-se ao nome da letra q: Este quê está ilegível. Corrija, por favor. • Monossílabo tônico, usado como pronome interrogativo ou relativo, em fim de frase: O professor estava se referindo a quê? Eu gostaria de consumir, mas não tinha com quê. • Substantivo ou partícula substantiva: O comportamento de Genivaldo tinha um quê de timidez. • Interjeição de protesto ou espanto: Quê! Assim não dá! Quê! Vamos parar com isso… 32.2 Por quê Utilizamos por quê, separado e com acento gráfico circunflexo, quando for pronome interrogativo ou relativo, em fim de frase ou quando estiver isolado por vírgula, ponto-e-vírgula e ponto final: www.esab.edu.br 168 Não foi à festa, por quê? Orlando foi excluído do grupo sem saber por quê. 32.3 Por que Utilizamos por que, separado e sem acento gráfico, também quando for pronome interrogativo, mas apenas quando não estiver em fim de frase: Por que não foi à festa? Por que Orlando foi excluído do grupo? Orlando não sabe por que foi excluído do grupo. 32.4 Porquê Utilizamos porquê, junto e com acento gráfico circunflexo, quandose trata de substantivo com sentido de causa, motivo ou razão: Carlos não entendeu o porquê daquele valor tão alto. Aos nossos porquês, dá-se uma boa resposta. É um homem cheio de porquês. 32.5. Porque Utilizamos porque, junto e sem acento gráfico, quando se trata de conjunção: www.esab.edu.br 169 Ele não fez a leitura porque estava cansado. (conjunção causal) Ele foi muito bem na prova porque estudou muito. (conjunção explicativa, equivalente a pois) Bem, esses são os usos dos porquês (note que, nessa frase, o porquê é um substantivo!). Assim como no estudo da crase, retorne a esta unidade sempre que estiver em dúvida. Estudo complementar No site do Brasil Escola você encontra exercícios para testar o que aprendeu. Clique aqui e confira! www.esab.edu.br 170 33 O dito “cujo” Objetivo Revisar o uso adequado do pronome relativo cujo. O uso do pronome cujo, igual a tantos outros assuntos ligados à gramática, está submetido a regras específicas. Em se tratando da oralidade, como vimos na unidade 4, há de se convir que ele não é um pronome, assim, tão recorrente; mas quanto à escrita, o seu uso é notório. Veja o exemplo de Faraco e Tezza (2005, p. 285): Madre Paulina, que o nome de batismo era... Madre Paulina, que o nome dela era... Os autores destacam que [...] essas são formas coloquiais cujo emprego praticamente não se encontra no nosso padrão escrito. Além disso, são formas ‘estigmatizadas’, isto é, representam aquela diversidade que ‘pega mal’ na escrita, embora todo mundo fale assim. (FARACO; TEZZA, 2005, p. 285) Por isso, é bom você estar ciente das suas particularidades, e assim exercer sua competência linguística de forma efetiva. Partindo desse princípio, e conscientes de que se trata de um pronome relativo de caráter variável – ou seja, que exige sempre concordância –, analisaremos tais particularidades, estando elas demarcadas por alguns aspectos. Vejamos. www.esab.edu.br 171 33.1 Indicação de posse A base do pronome relativo cujo é indicar posse (algo de alguém). É fundamental observar que os pronomes cujo(s) e cuja(s) concordam em gênero e número com o substantivo que substituem, podendo estar precedidos de preposição. Para visualizar o processo, acompanhe a transformação destas orações: Não gostei do filme. O diretor é seu amigo. Não gostei do filme cujo diretor é seu amigo. Não se usa artigo definido entre o pronome (cujo) e o substantivo que o segue. Portanto, jamais faça isto: Não gostei do filme cujo o diretor é seu amigo. É importante observar que o pronome virá antecedido de preposição sempre que a regência dos termos seguintes exigir. Veja o exemplo: Este é Fernando, diretor de cujo filme todos gostam. Se analisarmos a regência do verbo ‘gostar’, veremos que ele é classificado como transitivo indireto, que é uma classe de verbos que exige preposição (assim como consistir, responder, obedecer, simpatizar, dentre outros, pois quem responde, responde a alguém, quem simpatiza, simpatiza com algo e assim por diante). Veja mais alguns exemplos: Este é o candidato em cuja disposição todos acreditam. Eis o senhor com cujas atitudes não concordo. www.esab.edu.br 172 Pode até soar esquisito, mas gramaticalmente falando, é assim mesmo! Saiba mais Consulte o site clicando aqui e aprimore o seu conhecimento a respeito dos verbos e sua relação com as preposições. Por fim, um bom modo de saber usar o cujo e suas variações é substituir pelos equivalentes de que, do qual, da qual, dos quais, das quais, de quem. O homem, cujo casaco estava sujo, é que pegou o táxi. (de quem o, do qual o) A fábrica, cujas paredes desabaram, foi construída no século passado. (da qual as, de que as) 33.2 Desuso Mas qual será o motivo pelo qual o pronome cujo está em desuso? Desuso, no caso, refere-se a formas do idioma, palavras que ‘caem de moda’ ou que simplesmente não vingam na fala e acabam sendo esquecidas. Pense, por exemplo, em ‘vós’ e ‘doravante’: são quase de uso exclusivamente acadêmico, e mesmo nesse ambiente, elas têm sido evitadas, salvo nos cursos de Direito. O fato é que esse desuso se dá principalmente pelo motivo que apontamos no início desta unidade: ele não é usado na fala. Parte desse sumiço talvez possa ser explicado porque algumas funções que o pronome desempenhou em momentos anteriores da língua se perderam, como a de pronome interrogativo. www.esab.edu.br 173 Imagine uma frase como “Cuja é esta cadeira?”, que equivale, atualmente, a “De quem é esta cadeira?”. Estranhíssimo, não? Em suma: pode-se usar o cujo à vontade. Você não estará sendo elitista nem cafona, basta usar de forma correta e saber dosar. Saiba mais Aprimore o que você estudou nesta unidade. Consulte o site Brasil Escola e amplie os seus conhecimentos sobre os pronomes relativos. Clique aqui. www.esab.edu.br 174 34 Usos do gerúndio Objetivo Revisar o uso adequado do gerúndio para evitar o gerundismo. O gerúndio é uma das formas nominais do verbo, assim como o infinitivo e o particípio. Faz parte da língua desde a sua formação. Conceitualmente, é o tempo verbal preferido nas expressões cuja ideia é mostrar uma ação continuada – ou seja, o gerúndio exprime uma ação em curso, a ação progressiva, tal como ‘lendo’, ‘fazendo’, ‘escrevendo’, ‘ouvindo’, ‘tocando’. Perini (2009) destaca que o gerúndio marca sempre uma oração subordinada. Quando combinado com outro verbo auxiliar, o gerúndio pode marcar uma ação durativa: ‘estou falando com você’ ou ‘os abacates estão amadurecendo’. É importante, nesse caso, notar que, para marcar a ação, o gerúndio é necessariamente acompanhado do verbo estar: ‘estão amadurecendo’. A questão que nos interessa a respeito dessa forma verbal é, na verdade, o seu mau uso: uma espécie de ‘hábito nacional de enrolar’. Ao mau uso do gerúndio, convencionou-se chamar de gerundismo, uma estrutura paralela, malvista, que empobrece a linguagem. Logicamente, trata-se de algo a ser evitado, assim como os demais vícios de linguagem. 34.1 O problema Concebendo então o gerúndio como a forma verbal que exprime uma ação em curso, ou durativa, como identificar a sua distorção, o gerundismo? www.esab.edu.br 175 O gerundismo se constitui de uma estrutura verbal mais longa, só que vazia. Observe essas inadequações: Vou estar comunicando a sua mensagem. Não vou poder estar falando com você agora. Você poderá estar comprando on-line. Vou estar lhe retornando a ligação. Em todos os casos, como você pode notar, há excesso de verbos. É, pois, esse acúmulo desnecessário de verbos que constitui a fórmula do gerundismo. Veja agora as versões adequadas: Comunicarei a sua mensagem. Não posso falar com você agora. Você poderá comprar on-line. Retornarei a sua ligação. O gerúndio é a forma apropriada para as expressões em que se pede o conceito de ação continuada. O gerundismo – adicionar mais verbos à estrutura sem necessidade alguma –, no entanto, pode ocasionar dúvidas, ambiguidades, pouca clareza e enrolação. Saiba, ainda, que o gerúndio é apenas uma das três formas nominais dos verbos da língua portuguesa. As outras são o infinitivo (pessoal e impessoal) e o particípio. No caso do verbo escrever, por exemplo, tem-se: • infinitivo pessoal (escrever, escreveres…); • infinitivo impessoal (escrever); • gerúndio (escrevendo); • particípio (escrito). www.esab.edu.br 176 É bom lembrar que os verbos também podem ser flexionados por modos (indicativo, subjuntivo e imperativo) e por tempos (passado, presente e futuro). Saiba mais Revise o seu conhecimento a respeito do gerundismo. Consulte o endereço clicando aqui e veja como utilizar os verbos no gerúndio corretamente. www.esab.edu.br 177 35 Concordância Objetivo Revisaros princípios básicos da concordância verbal e nominal. Ajustar os termos da oração para que concordem em gênero e número com o substantivo é a função da concordância nominal. Para chegar a uma frase correta, é preciso manter o artigo, o adjetivo, o numeral e o pronome sempre de acordo com o substantivo escolhido. Para isso, é preciso compreender a regra principal e se habituar às exceções. Já a concordância verbal trata das alterações que devemos fazer no verbo, a fim de deixá-lo em perfeita sincronia com o sujeito. Faraco e Tezza (2005) sublinham que a maior parte dos erros de concordância padrão dos estudantes ocorre em frases em que o sujeito aparece depois do verbo. Trata-se de uma estrutura que na linguagem oral não representa problema, mas na escrita se caracteriza como erro grave, chamando muito a atenção. A regra geral solicita que o verbo concorde com o seu sujeito em pessoa e número, mas também existem casos especiais. Acompanhe. 35.1 Concordância nominal Regra geral A concordância nominal é a adaptação entre nomes, com harmonização das flexões entre as palavras. A regra geral é simples: O artigo, o pronome, o adjetivo e o numeral concordam em gênero (masculino ou feminino) e número (singular ou plural) com o substantivo a que se refere. Acompanhe: www.esab.edu.br 178 O denso (adjetivo) mar (substantivo) cobre-se de raios iluminados (adjetivo). A menina (substantivo) que vi era muito elegante (adjetivo) e educada (adjetivo). Múltiplos substantivos, um só adjetivo Conforme a oração, entretanto, a concordância pode ser dificultada pela variedade de elementos ou pela sofisticação da língua, que muitas vezes apresenta uma série de casos que fogem à regra. É o que acontece quando a frase possui mais de um substantivo. Assim, quando os substantivos são do mesmo gênero, há duas concordâncias possíveis: a. assumir o gênero do substantivo e passar para o plural: • Vimos um rapaz e um menino assustados (adjetivo). • Obs.: o adjetivo assumiu o gênero masculino, indo para o plural. b. concordar apenas com o último substantivo em gênero e número: • Francisco tem irmão e filho pequeno (adjetivo). • Obs.: o adjetivo assumiu o gênero masculino, concordando apenas com o último substantivo. Também é possível encontrar substantivos do mesmo gênero. Nesse caso, as duas concordâncias podem ser utilizadas, embora a primeira seja mais adequada por mostrar que a característica é atribuída aos dois substantivos. Mas caso o último substantivo esteja no plural, a concordância pode ficar apenas no plural. Mateus tem apartamento e carro financiado / financiados (adjetivo). Primo e amigos especiais (adjetivo) visitaram nossa casa neste fim de semana. www.esab.edu.br 179 Substantivos de gêneros diferentes Há também duas possibilidades quando os substantivos pertencem a gêneros distintos: a. adotar o masculino plural: • Atenção e zelo mais que fraternos (adjetivo); b. concordar somente com o substantivo mais próximo: perceba que temos dois substantivos e podemos fazer a concordância do adjetivo com o último substantivo, ou seja, o que está mais próximo do adjetivo. No caso a seguir, é com o termo “comunidade” (feminino, singular) que o adjetivo (alerta) está concordando; • A polícia e a comunidade estavam alerta (adjetivo). Obs.: caso o adjetivo tenha a função de predicativo, no caso de substantivos de gêneros distintos, o adjetivo deve permanecer no masculino plural. Confira o exemplo abaixo: A cantora mais bela e o tenor da orquestra foram (verbo de ligação) convocados (predicativo). Um só substantivo, vários adjetivos Para um substantivo com mais de um adjetivo, são duas as concordâncias possíveis: a. quando o substantivo estiver no plural, não se usa o artigo antes dos adjetivos: • Lia os idiomas mandarim (adjetivo) e guarani (adjetivo). b. caso o substantivo esteja no singular, o uso do artigo será obrigatório a partir do segundo adjetivo: • Estudo a língua japonesa, a italiana e a alemã. www.esab.edu.br 180 As exceções Frequentemente, na língua portuguesa, alguns exemplos escapam à regra geral: a. ‘É bom’, ‘é necessário’ e ‘é proibido’ são expressões que concordam obrigatoriamente com o substantivo a que se referem, mas só quando for precedido de artigo. Caso contrário, são invariáveis. • Cenoura é bom para a saúde. • É necessária muita paciência. b. No caso de ‘um e outro’ e ‘num e noutro’, o substantivo fica no singular e o adjetivo vai para o plural. • Num e noutro quesito mais complexos, ele se confundia. c. Os adjetivos ‘anexo’, ‘incluso’, ‘apenso’, ‘próprio’ e ‘obrigado’ concordam sempre com o substantivo a que se referem. • Seguem anexos os documentos. • Os papéis estão inclusos no processo. • Obrigada, disse a moça. • Elas próprias costuraram as camisetas. Obs.: a expressão ‘em anexo’ é invariável. • Em anexo, segue a procuração. • Em anexo, segue o despacho. www.esab.edu.br 181 35.2 Concordância verbal Sujeito composto (dois ou mais) antes do verbo A regra geral solicita que o verbo concorde sempre com o sujeito em pessoa e número. As mulheres (sujeito – 3ª pessoa do plural) beberam (verbo – 3ª pessoa do plural) muito suco de laranja. Quando o sujeito é formado de palavras de mesmo gênero, o verbo pode ir para o plural ou concordar com o núcleo mais próximo. Tristeza (sujeito 1) e solidão (sujeito 2) marcou/marcaram a sua vida. Isso também ocorre quando o sujeito é formado de palavras em gradação ou enumeração (ou seja, o verbo vai para o plural ou concorda com o núcleo mais próximo). Um mês, um ano, uma década de namoro não diminui/diminuíram a paixão. Sujeito composto (dois ou mais) depois do verbo A regra geral diz: verbo no plural ou concordando com o núcleo mais próximo. Pesaram-lhe (verbo) à consciência a mentira (sujeito 1) e o descaramento (sujeito 2). Pesou-lhe (verbo) à consciência a mentira e o descaramento. www.esab.edu.br 182 Sujeitos especiais Quando o sujeito é ligado por meio da palavra ‘com’, no sentido de ‘e’, atribuindo-se a ação verbal a todos os elementos, o verbo deve permanecer no plural. O instrutor com os alunos definiram que aspectos julgar no concurso. Quando o sujeito é ligado pela palavra ‘com’, no sentido de ‘em companhia de’, realçando-se, por meio do verbo, a ação do antecedente, o verbo concorda com o antecedente. Atente-se que o segmento introduzido por ‘com’ deve vir entre vírgulas. O chefe, com todos os empregados, resolveu alterar o cronograma. Quando o sujeito é ligado por ‘nem’, a concordância solicita verbo no plural. Nem Maria nem Francisco apreciam camarão. Em caso de sujeitos ligados por ‘não só… mas também’, ‘tanto… quanto’ e ‘não só… como’, o verbo deve ir para o plural ou concordar com o núcleo mais próximo. Tanto Alfredo como Gabriele reivindicaram / reivindicou férias. Quando os sujeitos estiverem ligados por ‘como’, ‘assim como’ e ‘bem como’, o verbo deve aparecer no plural e o segmento introduzido por ‘como’ fica, em geral, entre vírgulas, como um aposto. www.esab.edu.br 183 A fé, assim como a perspicácia, fizeram dela a candidata ideal. Por fim, saiba que esses foram apenas alguns aspectos relacionados à concordância nominal e verbal. Há muitos outros casos aos quais você deve dar atenção. Para refinar o uso, consulte as gramáticas e também, quando estiver lendo, repare no modo como a concordância é realizada. Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 184 36 Usos do adjetivo Objetivo Revisar o estudo dos adjetivos para usá-los na medida certa ao escrever um texto. Vamos começar com um esclarecimento. Perini (2009, p. 321) destaca que há limites bem pouco precisosentre classes gramaticais como substantivos e adjetivos. A velha foi tropeçando até o mercado. Uma mesa velha. Qual a diferença do termo velha em ambas as frases? Na primeira, velha é empregado como senhora de idade avançada. É um substantivo. Já na segunda, o termo velha é aplicado em relação a um substantivo anterior, mesa, modificando-o. Saiba, portanto, que o adjetivo é um modificador/qualificador do substantivo. É comum também certa confusão entre adjetivo e predicado. Mas por quê? Ambos são qualificadores. Só que enquanto o adjetivo atua como a palavra, variável, que modifica a compreensão do substantivo, expressando uma qualidade, um estado, um modo de ser, um aspecto ou aparência, o predicado expressa aquilo que se diz a respeito do sujeito. A menina falante. (adjetivo) A menina fala muito. (predicado verbal) www.esab.edu.br 185 Dito isso, atente para outro aspecto. Pense em um caso como ‘menino alegre’: sabemos que ‘alegre’ é o termo que modifica o substantivo, atribuindo-lhe uma característica. Porém, se tivéssemos a palavra ‘alegre’ separada do ser, ela se transforma em um substantivo abstrato. 36.1 Classificação dos adjetivos • Primitivo: dá origem a outras palavras, ou seja, é o tipo de adjetivo que dá origem ao adjetivo derivado. Acompanhe: Adjetivo primitivo Adjetivo derivado Substantivo Verbo bom bondoso Bondade - rico enriquecido Riqueza enriquecer • Derivado: formado a partir de outro adjetivo, substantivo ou por um verbo. Adjetivo derivado Palavra primitiva enriquecido rico (adjetivo) barulhento barulho (substantivo) falante falar (verbo) • Simples: formado por um só elemento (esperto, surdo, rápido, grande etc.). • Composto: formado por dois elementos (surdo-mudo, luso- brasileiro, alviverde etc.). • Pátrio: são os adjetivos que indicam nacionalidade, pátria, lugar, procedência dos seres em geral (africano, alemão, brasileiro, acreano, curitibano, paulista, paulistano etc.). www.esab.edu.br 186 36.2 Colocação do adjetivo Há adjetivos cuja significação muda conforme a posição em que aparecem. Acompanhe: velho amigo amigo de muito tempo amigo velho amigo de idade avançada, idoso má aluna aluna que não estuda aluna má aluna que faz maldades Dada essa particularidade, tenha bastante atenção: você pode querer expressar uma coisa e dizer/escrever outra! 36.3 Locuções adjetivas As locuções adjetivas têm o mesmo sentido e valor de um adjetivo, mas são formadas por mais de uma palavra. Locução adjetiva Adjetivo amor de pai amor paterno união de irmão união fraternal reunião de professores reunião docente do inferno infernal sem temor destemido de homem humano, viril www.esab.edu.br 187 36.4 Flexão do adjetivo Os adjetivos podem ser flexionados em gênero, número e grau. Gênero: podem ser uniformes (que apresentam forma única: garoto/ garota inteligente, por exemplo) ou biformes (que apresentam masculino e feminino: garoto esperto/garota esperta). Número: quanto ao número, os adjetivos apresentam as formas singular e plural, de acordo com o substantivo a que se referem. Grau: o adjetivo apresenta dois graus, o comparativo e o superlativo. O grau comparativo serve para estabelecer relações de superioridade (mais que/mais do que), inferioridade (menos que/menos do que) ou igualdade (tão/quanto, tão/como, tanto/quanto, tanto como) entre duas coisas ou seres. Sua calça é mais velha que a minha. (superioridade) Seu livro é menos pesado que o meu. (inferioridade) Sua viagem foi tão interessante quanto a minha. (igualdade) Pode-se reforçar a comparação de superioridade ou inferioridade com os advérbios muito e bem: Sua calça é muito mais velha que a minha. Seu livro é bem menos pesado que o meu. Quanto ao grau superlativo, podemos dividi-lo em absoluto e relativo. www.esab.edu.br 188 No superlativo absoluto, considera-se a característica sem compará-la à de qualquer outro ser: Jacinto é extremamente feliz. Uma mulher belíssima entrou no cinema. Já no superlativo relativo, considera-se a qualidade em relação à de outro ser: Poderemos, enfim, assistir em full hd às mais novas versões de Jornada nas Estrelas. Estes filmes foram os menos interessantes que já vimos. 36.5 O que você não deve fazer Agora que você já revisou os aspectos gramaticais do adjetivo, atente para o seguinte: ao escrever, escolha bem as palavras para alcançar aquilo que você, de fato, deseja comunicar. Evite adjetivos que denotem juízos de valor (bonito/feio, verdadeiro/falso, certo/errado etc.). Utilize adjetivos que tornem mais preciso o sentido dos substantivos (amarelo/preto, redondo/quadrado, tradicional/inovador etc.). Em um texto informativo, ou resenha, por exemplo, em vez de algo como “O livro é muito grosso”, escreva “O livro tem 350 páginas”, procurando especificar a dimensão exata ou aproximada. Em textos mais opinativos, é mais flexível o uso dos adjetivos, mas com cautela e sobriedade. O uso excessivo pode mascarar a pouca fundamentação; sustente a sua opinião em fatos. Em suma: adjetivos? Use com moderação! www.esab.edu.br 189 Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidade 28 a 36. Para isso, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 190 Resumo Caro estudante, fizemos uma boa revisão de aspectos gramaticais. Revisamos os usos da crase, distinguimos os usos dos porquês, aprofundamos o estudo do pronome relativo ‘cujo’ e os cuidados necessários para não cometer nenhuma gafe! Vimos também um erro comum na comunicação oral que é o gerundismo, caracterizado pelo excesso de verbos em uma mesma frase. Dando continuidade, estudamos alguns casos de concordância nominal e verbal e, por fim, estudamos os adjetivos, enfatizando o cuidado de não utilizá-los em excesso na produção textual. www.esab.edu.br 191 37 Estrangeirismos Objetivo Saber lidar com as palavras estrangeiras no texto. Estrangeirismo é o uso de palavra ou expressão em idioma estrangeiro em vez da correspondente em nosso idioma. Na gramática tradicional, os estrangeirismos são tratados dentro dos vícios de linguagem, os quais correspondem a expressões que, embora muitas vezes corretas, deixam o sentido ambíguo ou constituem deselegâncias linguísticas. Dentro dessa categorização, o estrangeirismo corresponde ao emprego no texto de palavras e expressões de outros idiomas, mas que possuem correspondentes na língua portuguesa. Nesse viés da gramática tradicional, saiba que os estrangeirismos recebem a seguinte classificação: • anglicismo: quando a palavra utilizada é de origem inglesa; • galicismo: quando a palavra é de origem francesa; • germanismo: quando a palavra é de origem alemã. Se você estudar a fundo, ficará surpreso com a quantidade de adaptações que temos na língua portuguesa. Termos que julgamos comuns e têm origem estrangeira. Veja alguns casos: • buquê = ramalhete • chance = oportunidade • chofer = motorista • comitê = comissão • enquete = pesquisa • gafe = disparate www.esab.edu.br 192 • marcante = notável • menu = cardápio Percebeu? Embora sejam palavras de uso comum em nosso idioma, elas constituem estrangeirismos, uma vez que dispomos de termos no português que cobrem o significado desejado. O quadro a seguir apresenta uma série de termos, destacando-se a origem, categoria, adaptação e significado. Acompanhe: PALAVRA ORIGEM CATEGORIA ADAPTAÇÃO EQUIVALENTE abat-jour francês abajur quebra-luz Affair inglês caso amoroso Aftershave inglês loção de barbear Airbag inglês automóvel almofada de ar baby-sitter inglês babá back-up inglês informáticacópia de segurança Barbecue inglês churrasco Barman inglês empregado de bar best-seller inglês êxito de vendas Blackout inglês eletricidade; militar blecaute corte de energia Bricolage francês bricolagem trabalhos manuais Browser inglês informática navegador Buffet francês bufê Carnet francês carnê check-in inglês registro de embarque; registro de entrada check-up inglês exame geral Checkout inglês registro de saída cheeseburger inglês hambúrguer de queijo Complot francês complô trama; conspiração Confetti italiano confete Delivery inglês entrega Design inglês desenho industrial Display inglês expositor Drink inglês drinque bebida www.esab.edu.br 193 e-book inglês informática livro eletrônico e-mail inglês informática correio eletrônico Expert inglês especialista Feedback inglês retorno Feeling inglês percepção; sensação Gaffe francês gafe deslize; descuido Input inglês entrada Insight inglês intuição Karate japonês esporte caratê Knockout inglês nocaute Layout inglês leiaute esboço Network inglês rede; cadeia Outdoor inglês cartaz Password inglês senha Ranking inglês classificação Ticket inglês bilhete Underwear inglês roupa de baixo Volley inglês esporte vôlei Quadro 3 – Estrangeirismos. Fonte: <portaldalinguaportuguesa.org>. 37.1 Como proceder Ao escrever um texto, certos estrangeirismos podem tornar difícil a compreensão do assunto ou soar de maneira pedante. É claro que chamar ‘intervalo para o café’ de coffee break é uma bobagem completa; não é apenas uma má escolha de vocabulário, mas sinal de uma atitude que atribui a palavras estrangeiras, em geral de origem inglesa, uma superioridade intrínseca. É exatamente a mesma atitude que leva as empresas a escolher sistematicamente nomes ingleses para seus produtos, de cigarros a chocolates, de carros a brinquedos (embora os donos de motéis preferiram dar nomes franceses para seus estabelecimentos…) – e essa é uma questão universal, não apenas brasileira. (FARACO; TEZZA, 2008, p. 35-36) www.esab.edu.br 194 Por isso, aja com bom senso: prefira as expressões em português, quando houver. Palavras e expressões estrangeiras são usadas quando não existe equivalente em nosso idioma, ou quando o uso corrente consagrou seu uso (tais como blitz, lobby, on-line, pop, rock, show, réveillon, status etc.). Afinal, é muito mais tranquilo referir-se a um ‘abajur’ do que a um ‘quebra-luz’, não? Quando for um termo muito específico, e que não tem tradução, você deve redigi-lo seguido de explicação: spread, taxa de risco nos empréstimos internacionais. Caso o seu texto faça referência ao termo várias vezes, explique apenas na primeira vez. Graficamente, utiliza-se o itálico para a grafia dos nomes estrangeiros. No entanto, nomes de companhias estrangeiras (Levi’s, Boeing, Sears, por exemplo) não necessitam deste recurso; já nomes de órgãos e entidades devem ser traduzidos. Mas caso a tradução não esclareça o que o órgão faz ou desempenha, deve-se mencionar a sigla acompanhada de um equivalente brasileiro: FBI (Birô Federal de Investigações, a polícia federal norte-americana). São esses os procedimentos no que diz respeito aos estrangeirismos na produção textual. Exercite! www.esab.edu.br 195 38 Ênclise, próclise, mesóclise Objetivo Revisar as principais regras de colocação pronominal. A norma padrão da língua portuguesa estabelece que os pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, os, a, as, lhe, lhes, nos e vos) podem aparecer em três posições dentro da oração (FARACO; TEZZA, 2008): • antes do verbo (próclise); • depois do verbo (ênclise); • no meio do verbo (mesóclise). De modo sucinto, utiliza-se a próclise quando a oração apresenta palavras com sentido negativo, advérbios, pronomes relativos, indefinidos e demonstrativos, preposição seguida de gerúndio ou ainda conjunção subordinativa. A ênclise é utilizada nos casos em que o verbo aparece no início da oração, após vírgula, ou flexionado no imperativo afirmativo, no infinitivo impessoal ou ainda no gerúndio. A mesóclise, por fim, acontece quando o verbo está empregado no futuro do presente ou no futuro do pretérito. Vejamos agora isso em detalhe, por meio de exemplos. A base do que veremos são as considerações de Faraco e Tezza (2008, p. 291-294). www.esab.edu.br 196 38.1 Próclise Posição: o pronome oblíquo átono aparece antes do verbo. Emprego a. Oração negativa, sem pausa entre o verbo e as palavras de negação: • Ninguém se pronuncia a respeito do roubo. • Nada me foi dito. Obs.: caso a palavra negativa preceder o verbo em modo infinitivo sem flexão, é possível empregar a ênclise: • Não contei tudo para não entristecê-la. b. Frases exclamativas e optativas (indicando desejo): • Quanta água se desperdiçou! • Que o diabo te carregue! c. Advérbio (não seguido de vírgula): • Lá se vê muita discórdia. Obs.: caso o advérbio esteja seguido de vírgula, usa-se a ênclise: • Lá, vê-se muita discórdia. d. Pronome relativo, indefinido e demonstrativo: • Alguém me diga como se instala isso. • Isso te diz respeito. • Ela que se diz advogada não sabe nem escrever. www.esab.edu.br 197 e. Conjunção subordinativa: • Preciso de que me empreste a mochila. • Quando se tem fé, tudo dá certo. f. Pronome ou palavras interrogativas: • Quem me disse isso? • Gostaria de saber o porquê de te assustares assim. g. O numeral ‘ambos’: • Ambos se libertaram das drogas. Uso facultativo a. Quando o sujeito estiver posicionado logo antes do verbo, a próclise será facultativa: • Alberto se machucou. • Alberto machucou-se. b. Se o verbo estiver no infinitivo pessoal e for regido pela preposição ‘para’, a colocação do pronome oblíquo poderá ser antes ou depois do verbo, mesmo na presença do advérbio ‘não’. • Calei para não irritá-lo. • Calei para não o irritar. www.esab.edu.br 198 38.2 Ênclise Posição: o pronome oblíquo átono aparece depois do verbo. Emprego a. Início da frase ou após sinal de pontuação: • Dê-me um lápis, empreste-me o caderno. b. Orações imperativas: • Busque seus filhos e divirtam-se. c. Quando o verbo permanecer no infinitivo, sem flexão, e for precedido da preposição a, em se tratando dos pronomes o/a, os/as: • Eles correram a escutá-lo com vontade. • Josefina prestou-se a questioná-la. • Espero não tornar a vê-las. d. Infinitivo: • Viver é arriscar-se. e. Gerúndio: • Falando-se em química, é necessário observar a tabela periódica. Obs.: Caso o gerúndio venha precedido da preposição ‘em’ ou de advérbio que o modifique diretamente, sem pausa, a próclise é obrigatória: • Em se tratando de química, é necessário observar a tabela periódica. www.esab.edu.br 199 f. Verbo auxiliar + gerúndio: Os pronomes podem, neste caso, vir em próclise ou ênclise: • Vou-me debatendo. • Vou me debatendo. 38.3 Mesóclise Posição: o pronome oblíquo átono aparece no meio do verbo. Emprego: deve-se observar as regras da próclise. A ressalva é que quando o verbo estiver nos tempos futuros do indicativo, então a mesóclise é empregada. • Convocar-te-ia à palestra. • Convocar-te-ei à palestra • Dar-te-ia um beliscão. • Dar-te-ei um beliscão. Estudo complementar Complemente o estudo da colocação pronominal do site Brasil Escola, disponível clicando aqui. Finalizamos esta unidade destacando a importância de estar atento a esses casos e empregar corretamente o local em que os pronomes oblíquos átonos aparecem dentro da oração. www.esab.edu.br 200 39 Dúvidas frequentes Objetivo Revisar a aplicação de elementos como onde/aonde, através/por meio de, ao invés de/em vez de, à medida que/na medida em que, este/esse, isto/isso, entre outros.Prezado estudante: é comum fazer confusão na hora de utilizar vários termos da língua portuguesa. “Este” e “esse”, “isto” e “isso”, “através de”, “por meio de”, “ao invés de”, “em vez de”, todas essas expressões são utilizadas com frequência, e muitas vezes de maneira equivocada. Acompanhe os exemplos a seguir e veja como aplicá-las do modo certo. 39.1 Onde/aonde A palavra onde indica permanência, o lugar em que se está ou em que se passa algum fato (FARACO; TEZZA, 2008). Complementa verbos que exprimem estado ou permanência e que normalmente pedem a preposição em. Durante a semana, Marta chegou a telefonar para a presidente do Diretório Zonal do PT em Pirituba, Sônia Maria Barbosa e Silva, onde teria agenda no sábado, e questionou sobre o apoio à sua candidatura. O vocábulo aonde, por sua vez, conta com a preposição a, que indica movimento, destino. Por isso, só pode ser utilizado quando a frase exprimir alguma ideia de destino. A pequena candidata ao posto de miss sabia exatamente aonde queria chegar. Faz três dias que abandonou o cargo no posto de saúde, aonde deverá retornar brevemente para efetivar a exoneração. www.esab.edu.br 201 39.2 Através de/por meio de A diferença entre através de e por meio de é bem simples de entender. Imagine: “O ladrão assalta a casa através da janela ou por meio dela?” Através de possui significado ligado ao movimento físico (da mesma forma que aonde), indicando a ideia de atravessar. Portanto: O ladrão fugiu da casa através da janela. Já por meio de relaciona-se à ideia de instrumento, utilizado na execução de determinada ação. Consegui localizar meu amigo de adolescência por meio do Facebook. 39.3 Ao invés de/em vez de Ao invés de tem o sentido de “ao contrário de”, “em oposição a”, “avesso”, “inverso”. Ao invés de festa, fizeram um velório. Ele disse que comprou a prazo ao invés de à vista. Faça sua parte, ao invés de fazer a minha! Em vez de, diferentemente, apresenta o sentido de “no lugar de” ou “em lugar de”. Mas pode ainda assumir o significado de ao invés de, sem problemas. Em vez de ficar contando histórias, fale o que está pensando! Faça sua parte, em vez de ficar me cobrando que faça a minha! Em vez de dividir, ele acredita que a melhor saída para desenvolver o estado é reivindicar da União maior repasse de recursos. www.esab.edu.br 202 39.4 À medida que/na medida em que As expressões à medida que e na medida em que são locuções conjuntivas, ou seja, possuem valor de conjunção. Sua função é ligar duas orações. Mas há diferenças importantes no uso. À medida que é uma locução conjuntiva proporcional: expressa a ideia de proporção. Em função disso, poderá sempre ser substituída por à proporção que. Uma oração que contenha à medida que é subordinada à principal e mantém uma comparação com a mesma de igualdade, aumento ou diminuição. Já na medida em que é uma locução conjuntiva causal: seu objetivo é oferecer às orações noções de causa/consequência ou efeito. Diferentemente de à medida que, ela pode ser substituída pelas equivalentes uma vez que, porque, visto que, já que e tendo em vista que. Agora, preste bastante atenção: À medida que convivemos com os animais, somos mais felizes e menos estressados. Na medida em que convivemos com os animais, somos mais felizes e menos estressados. Gramaticalmente, as duas orações estão corretas. O sentido de cada uma delas, porém, muda conforme a expressão escolhida. À medida que convivemos com os animais, somos mais felizes e menos estressados. Significado: Tornamo-nos mais felizes e menos estressados à proporção que convivemos com os animais. Na medida em que convivemos com os animais, somos mais felizes e menos estressados. www.esab.edu.br 203 Significado: Tornamo-nos mais felizes e menos estressados porque convivemos com os animais. Lembre-se, em caso de dúvida, basta substituir as locuções por suas formas equivalentes e observar se a oração não perdeu o sentido que você pretendia oferecer a ela. 39.5 Este/esse, isto/isso Na língua portuguesa há três pronomes demonstrativos, cujas formas variam em gênero e número. Esses pronomes assinalam a posição do objeto em relação às pessoas do discurso (falante ou ouvinte) e ao assunto deste discurso (o ser de que se fala). • 1ª pessoa: meu -> este/esta/isto • 2ª pessoa: teu -> esse/essa/isso • 3ª pessoa: seu -> aquele/aquela/aquilo Acompanhe a lógica do emprego correto dos pronomes demonstrativos: Em relação ao lugar a. O lugar onde estou: este/isto b. O lugar onde você está: esse/isso c. E caso o lugar esteja distante do falante e do ouvinte: aquele • Nesta unidade apresentamos a utilização correta de alguns pronomes. • Traga-me essas apostilas que estão com você. • Eu te devo isto. Em relação ao tempo a. Presente: este/isto b. Passado ou futuro próximo: esse/isso www.esab.edu.br 204 c. Passado distante: aquele • Não há ocorrência de acidentes na rodovia nesta data [hoje]. • Mamãe vai estar aqui em casa por esses dias... Em relação ao discurso a. O que será mencionado: este/isto b. O que foi mencionado: esse/isso • É isto que eu digo sempre: ler é fundamental para saber escrever. • É possível aprender à distância? Disso tratam os autores no artigo deste mês [o mês atual]. Em relação ao discurso, entre dois ou três fatos citados a. O primeiro que foi citado: aquele b. O do meio: esse/isso c. O último citado: este/isto • Houve uma guerra no Brasil entre a esquerda e a Ditadura Militar instaurada: estes [os militares] venceram aqueles [os representantes da esquerda política]. Para sua reflexão Fizemos uma boa revisão gramatical até este ponto do nosso estudo. A partir de tudo o que vimos até aqui, reflita: a gramática auxilia a escrever melhor? Por quê? Mas e quanto a um apego muito forte à gramática, pode atrapalhar a escrita? As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 205 40 Tautologias Objetivo Estudar os principais vícios de linguagem para saber como evitá-los. Vimos na unidade 4 que a língua não é uma coisa inerte; pelo contrário, trata-se de algo vivo e dinâmico, usado pelos falantes de uma comunidade para a expressão de necessidades, sentimentos e ideias. Justamente por isso, trata-se de um código sujeito a constantes transformações e adaptações conforme as necessidades comunicativas dos usuários (FARACO; TEZZA, 2008). Evidentemente, ninguém fala do mesmo modo como escreve. Sabemos que a linguagem oral é mais flexível e nos permite estar mais à vontade em nosso modo de expressão (FARACO; TEZZA, 2008). Dada essa diferença, precisamos, ao escrever, estar de olhos bem abertos para alguns detalhes que podem desmerecer o nosso esforço. Entre os aspectos a que devemos dar atenção é saber evitar os ‘vícios de linguagem’. Mas o que vem a ser isso? Chama-se tautologia o vício ou figura retórica que consiste em repetir a mesma ideia com termos diferentes. A origem da palavra vem do grego tautó, que significa ‘o mesmo’, mais logos, ‘assunto’. A tautologia pode ser considerada um vício discreto – sua percepção depende de uma interpretação de texto clara e amadurecida. Nesta unidade, portanto, veremos alguns modos para identificar as tautologias e assim evitá-las, a fim de aprimorar a sua capacidade de expressão escrita e falada. www.esab.edu.br 206 40.1 Casos Observe: • amanhecer o dia • certeza absoluta • detalhes minuciosos • elo de ligação • fato real • há anos atrás • relações bilaterais entre dois países • surpresa inesperada • vereador da cidade • vítima fatal Você consegue identificar um vício comum em todos esses termos? Vamos verificar um a um. • Amanhecero dia: só o dia amanhece. • Certeza absoluta: não pode haver certeza relativa. • Detalhes minuciosos: detalhes e minúcias significam a mesma coisa. • Elo de ligação: um elo é feito para ligar. • Fato real: fatos são reais, o contrário é fantasia. • Há anos atrás: ‘há’, nesse caso, já indica passado. • Relações bilaterais entre dois países: o prefixo ‘bi’ já quer dizer dois. • Surpresa inesperada: se fosse esperada, não seria surpresa. • Vereador da cidade: não existe vereador estadual ou federal; vereador é o cargo atribuído ao integrante de uma câmara legislativa municipal. www.esab.edu.br 207 40.2 Relações Nudez pública é imoral porque é uma ofensa evidente. Este é um caso comum em questões conhecidas como ‘pegadinha’. Analisando essa frase, podemos dizer que a tautologia é “irmã gêmea da redundância e prima da falácia”, uma vez que pode ser usada para provar uma ideia com a mesma declaração, sem adicionar informação nova. Note, no exemplo, que a frase possui duas afirmativas: uma das premissas é dada como verdadeira (‘Nudez pública é imoral’), mas não se explica a sua conclusão (‘porque é uma ofensa evidente’). Ou seja, as duas afirmações dizem a mesma coisa. Para você visualizar melhor, separe as duas orações: Nudez pública é imoral. Nudez pública é uma ofensa evidente. São duas afirmações com mesmo teor significativo, e ambas necessitam de uma justificativa. Uma não pode justificar a outra. 40.3 Pleonasmo Se você buscar em alguma gramática a definição de pleonasmo, encontrará algo muito semelhante ao que chamamos aqui de tautologia: consiste na repetição desnecessária de uma ideia. Mas qual será a diferença? O pleonasmo é subdividido em duas categorias: o pleonasmo de estilo, que se refere à figura de linguagem, cujo uso não deve ser reprimido, por um simples motivo: não se trata de uma deselegância. “Vi com meus próprios olhos”, “A mim me parece” são construções habituais e não www.esab.edu.br 208 constituem uma redundância agressiva. É possível detectar muitos casos de pleonasmo na literatura: ‘E rir meu riso’ (Vinícius de Moraes) ‘Ó mar salgado’ (Fernando Pessoa) Já o que vimos aqui como tautologia se refere ao que comumente se denomina por pleonasmo vicioso. Não se trata, neste caso, de enfeitar a linguagem, mas sim de repetir desnecessariamente uma ideia já suficientemente explicitada (vide todos os exemplos anteriores). 40.4 Evitando tautologias Para finalizarmos, acompanhe a lista a seguir. Você mesmo – note como o pleonasmo de estilo faz parte da linguagem: você é sempre você mesmo! – poderá definir as redundâncias em questão: • a razão é porque • a seu critério pessoal • a última versão definitiva • abertura inaugural • acabamento final • anexo junto à carta • comparecer em pessoa • continua a permanecer • conviver junto • criação nova • demasiadamente excessivo • empréstimo temporário • encarar de frente • escolha opcional • expressamente proibido • gritar bem alto • juntamente com • multidão de pessoas www.esab.edu.br 209 • planejar antecipadamente • possivelmente poderá ocorrer • propriedade característica • retornar de novo • superávit positivo • todos foram unânimes Mas há como evitar as tautologias? Sim. Existe uma fórmula? Não. Como tantos outros aspectos que já estudamos até aqui, a melhor forma de evitar as tautologias é prestar muita atenção e ser um crítico do próprio texto. Saiba mais Para revisar esta unidade e se divertir um pouco, clique aqui e assista à esquete “Tautologias” da dupla Leandro Hassum e Marcius Melhem. www.esab.edu.br 210 41 Pressuposto Objetivo Estudar os níveis de leitura do texto. Comecemos com a leitura deste texto: Festejada por ter sido a segunda mulher a ser nomeada ministra no Brasil, em 1989, Dorothéa Werneck voltará ao cargo, aos 45 anos, no Ministério da Indústria e do Comércio. Ela abriu caminho para cinco sucessoras – na área econômica, por exemplo, ninguém mais se chocou quando Zélia Cardoso de Mello ou Yeda Crusius foram escolhidas. Zélia dividiu opiniões. Yeda foi logo esquecida. Dorothéa manteve-se presente no noticiário, mesmo nos curtos períodos em que ficou sem cargo no governo e partiu para a iniciativa privada. [...] Mesmo com cuidado e seriedade no trato com a ministra, empresários e sindicalistas – dos quais ela se aproximou em busca de um pacto anti- inflacionário – nunca esqueceram que ela era uma mulher. Seu sexo foi lembrado sempre, como defeito ou qualidade. Mário Amato, então presidente da Fiesp, tentou traduzir esse sentimento e foi muito infeliz. Declarou, na frente dos jornalistas: “Ela é muito inteligente apesar de ser mulher”. O empresário, com isso, ganhou a antipatia da população feminina e de um Brasil que se rendia ao carisma de Doró (PINHEIRO apud FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 305). Perceba que destacamos o comentário de Mário Amato a respeito de Dorothéa Werneck, “Ela é muito inteligente apesar de ser mulher”. Vamos por partes. Está explícito nessa frase que a ministra é muito inteligente, não temos dúvida disso. Porém, há algo a mais. www.esab.edu.br 211 Está implícito que, de modo geral, as mulheres não são inteligentes, e que a ministra Dorothéa Werneck é uma exceção. Como o próprio texto destaca, trata-se de um comentário infeliz e preconceituoso. Mas deixando isso de lado, o caráter implícito desse comentário nos mostra que um texto pode dizer coisas além daquilo que está escrito. Além das informações explicitamente ditas, há outras que ficam pressupostas ou subentendidas. Ou seja: para que você seja um leitor eficaz, precisa saber ler nas entrelinhas e captar aquilo que está subjacente no texto. Se você é um leitor distraído, que não percebe as minúcias do discurso, pode acabar concordando com afirmações que, com um pouco mais de atenção, certamente rejeitaria. Como autor, você pode fazer uso desta ‘camada secundária’ do texto de forma astuta. Vejamos isso em detalhe. 41.1 Pressupostos “Pressupostos são ideias não expressas de maneira explícita, que decorrem logicamente do sentido de certas palavras ou expressões contidas na frase” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 307). A partir dessa definição, observe a seguinte frase: O céu continua nublado. A informação explícita é de que o céu, no momento da afirmação, está nublado. Mas, além disso, o verbo continuar veicula a informação implícita de que antes ele já estava nublado. O mesmo pode ser verificado nesta outra frase: Maria tornou-se uma estudante relapsa. www.esab.edu.br 212 A informação explícita é a de que Maria é uma estudante relapsa, desatenta. Porém, do verbo tornar-se se extrai a ideia de que em algum momento antes ela não era assim. Pois se ela já fosse relapsa antes, não caberia o verbo que foi utilizado. É muito importante prestar atenção nos pressupostos porque, ao utilizá- los, o autor solicita ao leitor cumplicidade nos argumentos, pois a informação implícita não é colocada em discussão, e sim apresentada como fato – ‘líquido e certo’, como diz o ditado. Vejamos mais um exemplo tratado por Fiorin e Savioli (2006, p. 307-308): Para que o Brasil se torne um país do primeiro mundo será preciso privatizar as empresas estatais, abrir a economia ao ingresso de produtos estrangeiros e terminar com os direitos trabalhistas que oneram a folha de pagamento e a previdência Social. Segundo os autores, o conteúdo explícito dessa frase é: • o ingresso do Brasil no primeiro mundo exigirá a privatização das empresas estatais; • o ingresso do Brasil no primeiro mundo exigirá a abertura da economia aos produtos estrangeiros; • o ingresso do Brasil no primeiro mundo exigirá o término dos direitos trabalhistas. Já quanto aos conteúdos implícitos: • o Brasil ingressaráno grupo de países do primeiro mundo, se preencher essas condições; • no Brasil as empresas e o Estado são onerados pelos direitos trabalhistas. Os pressupostos se confirmam se desenvolvermos os seguintes argumentos: www.esab.edu.br 213 • existem países do primeiro mundo que se desenvolvem com base num setor estatal muito forte, que ainda é mantido; • há países do primeiro mundo, como o Japão, que mantêm uma economia muito protegida da concorrência externa; • na maioria dos países do primeiro mundo, os trabalhadores têm mais direitos que no Brasil, e as empresas e o Estado, mais encargos com os trabalhadores. Como contraponto, estaremos destruindo tais ideias, dadas como verdadeiras, se dissermos: • Brasil não ingressará no primeiro mundo, mesmo que privatize o setor estatal, abra a economia e acabe com os direitos trabalhistas, porque isso depende de outros fatores; • encargos trabalhistas não são ônus, mas meio de manter a mão de obra viva. Fiorin e Savioli (2006) destacam ainda que a aceitação do pressuposto estabelecido faz com que o debate siga adiante; já a recusa do que está pressuposto no discurso compromete o diálogo, pois a base argumentativa fica comprometida, de modo que nenhuma proposição tem mais importância ou razão de ser. Por exemplo: no texto que vimos, a base da argumentação de que é preciso privatizar, abrir a economia, encerrar os direitos trabalhistas, está no pressuposto de que o Brasil irá se tornar um país de primeiro mundo. Negando isso, tudo perde o sentido. www.esab.edu.br 214 41.2 Principais marcadores de pressuposição Há uma série de termos que funcionam para marcar um pressuposto. Vejamos. a. Determinados advérbios • O professor ainda não divulgou as notas. • Pressuposto: O professor já deveria ter divulgado as notas ou O professor divulgará as notas mais tarde. b. Determinados verbos • O desvio de dinheiro tornou-se público. • Pressuposto: O desvio de dinheiro não era público antes. c. Orações adjetivas • Os vendedores, que só pensam no lucro, não se preocupam com os consumidores. • Pressuposto: Todos os vendedores só pensam no lucro e não se preocupam com os consumidores. Trata-se de uma oração adjetiva explicativa. Mas se suprimirmos as vírgulas, o sentido muda: • Os vendedores que só pensam no lucro não se preocupam com os consumidores. Temos agora uma oração adjetiva restritiva: não se trata mais de todos os vendedores, mas só daqueles que só pensam no lucro. d. Os adjetivos • Os políticos mal-intencionados são a praga do Brasil. • Pressuposto: Existem políticos mal-intencionados no Brasil. Assim encerramos esta unidade. Preste muita atenção naquilo que você lê e analise tudo o que pode estar sendo dito, sem ser escrito. Olho! www.esab.edu.br 215 42 Pesquisa: como proceder Objetivo Estudar os principais passos que envolvem a pesquisa bibliográfica e eletrônica para a elaboração de texto. Saiba que pesquisar, basicamente, é buscar informações a respeito de algo, investigar. Seria ótimo se, em uma pesquisa, bastasse informar o termo/assunto que precisamos e tudo aparecesse pronto, bastando apenas escolher, isso sim, isso não... Mas não é bem assim. Por quê? Porque ao iniciar uma pesquisa temos uma ideia ainda vaga ou pouco fundamentada sobre aquilo do que queremos aprofundar nosso conhecimento. Conforme vamos estudando, o assunto se desdobra, e aquilo que antes parecia simples e certo se amplia e se complica. Além do mais, nós próprios estamos envolvidos na matéria que estudamos, pois a todo o momento estamos acionando aquilo que sabemos de antemão naquilo que ainda estamos tentando entender. A informação nos transforma, e se não tomarmos alguns cuidados, podemos perder o foco, perder o interesse e tornar a pesquisa um quebra- cabeça de difícil resolução. Para lidar com isso é que existe algo chamado metodologia de pesquisa (e você já sabe dessa importância porque está estudando seu significado em Metodologia do Trabalho Científico). Ela nos mantém atentos ao que estamos buscando, de forma a selecionar e ordenar adequadamente os dados que surgem. www.esab.edu.br 216 42.1 Pesquisa bibliográfica A pesquisa bibliográfica é a forma mais tradicional e convencional de pesquisa. Quando desenvolvemos uma pesquisa bibliográfica, trabalhamos a partir de fontes escritas. Medeiros (2008, p. 48) destaca quatro etapas para esta modalidade de pesquisa: • identificação: levantamento sobre o que existe já publicado a respeito do assunto em questão; • localização: é o passo seguinte, saber onde estão as obras específicas e fundamentais ao trabalho; • compilação: é a fase de obtenção e reunião do material desejado; • fichamento: transcrição dos dados em fichas, eletrônicas ou não, para posterior consulta dos elementos essenciais ao trabalho. De certo modo, todas as demais modalidades de pesquisa, em algum momento, tornam-se pesquisas bibliográficas e se servem da biblioteca (o espaço consagrado à pesquisa bibliográfica), em busca de livros, enciclopédias, dicionários, artigos, revistas, teses, dissertações, monografias, documentos e iconografias que fundamentem ou auxiliem aquilo que estamos afirmando. Hoje, no entanto, a pesquisa bibliográfica não se limita ao material impresso. Nela podemos incluir as fontes digitais, de modo que toda e qualquer pesquisa on-line, via internet, também se converte em pesquisa bibliográfica. Uma das melhores fontes de pesquisa bibliográfica são os artigos de periódicos especializados, tais como revistas e jornais. A maior parte dos programas de pós-graduação das universidades e faculdades tem a sua própria revista, a fim de dar vazão à produção de seus alunos e professores. A princípio, essas publicações eram impressas, mas também em função da expansão da internet, do alto custo de impressão e das www.esab.edu.br 217 dificuldades de distribuição, a maior parte hoje existe principalmente – senão apenas – em versão eletrônica. O problema dos artigos, contudo, sempre esteve na catalogação. As bibliotecas catalogavam, quando muito, apenas o jornal ou revista em si. Hoje, em contrapartida, são vários os bancos de dados on-line que registram a maior parte dos artigos publicados, nas mais diversas áreas. Há muitíssimo material para a sua pesquisa bibliográfica. Como dissemos antes, basta saber procurar, fazer combinações de pesquisa e selecionar os resultados. Saiba mais Clique aqui e conheça um dos principais banco de dados acadêmico para pesquisa bibliográfica. 42.2 Cuidados Um trabalho de pesquisa nunca deve ser absoluto, ou seja, não se deve estudar um assunto de modo a querer esgotar a discussão, pois ninguém é capaz disso. A linguagem é mutante, as ideias trabalham, e tudo o que fazemos é fruto da interpretação. Uma leitura é sempre parcial, e isso é bom, pois assim sempre poderemos aprender mais sobre algo e modificar as ideias que talvez julgássemos finalizadas. É uma espécie de ética para com o saber e com a verdade: a verdade nunca é definitiva. E a história mostra que sempre que se julgou ser dono de uma verdade, muitas injustiças foram cometidas (basta pensar na série de guerras protagonizadas no século XX). Portanto, tome cuidado com aquilo que você julga líquido e certo! Certamente, se você pensar um pouco mais, pesquisar um pouco mais, verá que há mais pontos de vista a considerar. Uma dica para facilitar o seu trabalho, sem cair na armadilha do “falar tudo” sobre um assunto, é pensá-lo paralelamente a outro assunto, www.esab.edu.br 218 numa combinação do tipo “A e B”. Vimos isso na unidade 19. Vamos recapitular. É muito raro hoje alguém fazer um estudo relevante intitulado “A psicologia”, “A fotografia”, “A matemática”, “O homem”, “A arte” etc., a não ser quese trate de algo absolutamente inédito – o que é bem difícil! É preciso contextualizar, é preciso “gerar atrito”, e para isso são sempre necessários dois corpos, dois termos, duas ideias. Em vez, por exemplo, de escrever sobre “A cultura digital”, escreva sobre “Cultura digital e educação” (já é muita coisa, não?), e se possível acrescente um subtítulo ao seu trabalho: “Cultura digital e educação: o laptop substituindo o caderno na sala de aula”, ou “Cultura digital e educação: como tirar o melhor proveito da tecnologia na sala de aula”, e assim por diante. Você com certeza terá mais facilidade para associar as ideias, fazer interpretações e construir significados utilizando combinações. Estudo complementar Você sabe pesquisar on-line com eficiência? Qual o seu procedimento padrão? Será que ele pode ser aperfeiçoado? Clique aqui e leia o artigo “Aprenda o básico sobre o Google”. Nesse documento, você encontra uma série de combinações e macetes que ajudarão a refinar a sua pesquisa e fazer com que você chegue nos sites certos. 42.3 Colocando a pesquisa em ação Digamos que você queira realizar uma pesquisa sobre um assunto específico e já encontrou os dados com os quais quer começar a escrever. Como fazer isso? Bem, para começar a escrever, primeiro você precisa conhecer o material que você reuniu. Faça fichamentos, destaque o que você julga fundamental, grife com caneta marca texto. Faça um mapa conceitual, do www.esab.edu.br 219 tipo “quero partir deste ponto, que se divide em tais e tais aspectos, que por sua vez estão implicados nos fatores X e Y, para enfim chegar aqui”. Medeiros (2008, p. 52) destaca que “[...] após o estabelecimento do tema, que é o assunto devidamente delimitado, passa-se à fase de leitura e fichamento”. Em seguida, o autor menciona algo muito interessante: “[...] com o transcorrer da pesquisa, o tema pode ser alterado”. Ou seja: podemos começar o trabalho com um certo olhar e não necessariamente terminaremos o trabalho com esse mesmo ponto de vista. E isso é bom: a pesquisa fez com que ajustássemos o foco para aquilo que realmente valia a pena. Mas tenha em vista também que, para concluir algo, é preciso antes apresentar os dados e problematizá-los. Caso contrário, qualquer um pode perguntar: “Como você pôde afirmar isso? Não está fundamentado!” Não esqueça também que, como todo e qualquer texto, a pesquisa é uma narrativa, com começo, meio e fim. Tente ter claros esses momentos da produção. Algumas coisas só podem ser ditas se antes tomarmos a precaução de explicar outras. E não esqueça: cite sempre as fontes! É um compromisso ético para com o trabalho dos outros, e isso só dá respaldo à sua pesquisa. www.esab.edu.br 220 Resumo Nestas últimas seis unidades, ampliamos a revisão de aspectos gramaticais. Estudamos alguns estrangeirismos, bem como o tratamento que devemos dar a estes termos no texto. Vimos os principais empregos dos pronomes oblíquos átonos e seu posicionamento (antes, no meio e depois do verbo). Buscamos esclarecer dúvidas recorrentes quanto a termos como em vez de/ao invés de, isso/isto, onde/aonde. Entendemos, ainda, as tautologias como vícios de linguagem que devem ser evitados: constituem um pedantismo ou deselegância linguística. Estudamos os pressupostos, que mostram significados não explícitos no texto, mostrando-nos camadas de leitura que dependem de nossa astúcia para serem interpretadas. Por fim, estipulamos algumas dicas sobre como conduzir um processo de pesquisa. Vamos adiante, estamos quase lá! www.esab.edu.br 221 43 Paráfrase Objetivo Estudar a constituição da paráfrase para saber como fazê-la adequadamente. Na unidade 5, estudamos um conceito bastante rico, o de intertextualidade. Vimos, naquele momento, que esse conceito trata do diálogo entre os vários textos de uma língua (MEDEIROS, 2008), que suas formas habituais são a paródia e o pastiche, e prometemos retornar a esses conceitos quando estudássemos a paráfrase. Pois bem, chegou a hora! Considere que um texto é bom à medida que se mostra capaz de estabelecer relações com o universo de ideias no qual ele se situa. Quem não consegue estabelecer relações dificilmente desenvolve o senso crítico, a capacidade de análise; permanece sempre no sentido literal, não capta as entrelinhas, os pressupostos, ou seja, aquilo que está além do escrito, e que necessita do nosso conhecimento extra e de nossa interpretação. Frisamos, assim, a importância da variedade e constância da leitura. À medida que você constrói um repertório amplo de referências, amplia também o raio de associações que consegue estabelecer. Você se torna um construtor hábil de sentidos. 43.1 Paráfrase Em termos objetivos, parafrasear é reafirmar, em palavras distintas, o sentido de um texto. Daí o seu vínculo com o conceito de intertextualidade. Medeiros (2008) define que a paráfrase pode ser ideológica ou estrutural. Vejamos. www.esab.edu.br 222 No caso de paráfrase ideológica, as ideias permanecem as mesmas, o que varia é a sintaxe. Em se tratando desse viés, o que interessa é manter o modo como determinado autor, em um texto específico, pensa a respeito de algo, registrando-se “[...] o menor desvio possível em relação ao texto original.” (MEDEIROS, 2008, p. 139). Para visualizar isso, vamos analisar uma passagem do mesmo autor que estamos utilizando, Medeiros (2008), em outro capítulo de seu livro: Antes de tudo, é preciso ter motivação para o estudo. Indivíduos desmotivados para aprender, por exemplo, uma língua qualquer, dificilmente chegarão a falar e escrever nessa língua. E a motivação parece estar ligada a interesses internos ao indivíduo, independendo de estímulos externos. (MEDEIROS, 2008, p. 18, grifo do autor) Essa é a citação literal que fizemos do autor. Por isso mesmo, estabelecemos um recuo e demos um tratamento diferenciado à disposição do texto, indicando inclusive a obra e a página onde a citação se encontra. No entanto, poderíamos “diluir” o conteúdo dentro do nosso texto, mantendo as ideias fundamentais: Medeiros (2008) afirma que a motivação é fundamental para o estudo. Quem não dispõe de motivação para aprender um novo idioma, por exemplo, dificilmente conseguirá uma boa performance na fala ou na escrita. E como alcançar a motivação? Trata-se de um processo interno e particular, que depende do interesse e esforço de cada um. Já no caso da paráfrase estrutural, segundo Medeiros (2008), ocorre uma recriação do texto e do contexto. Mesmo sem saber de modo formal, estamos bastante habituados a essa forma de paráfrase, pois a ela dizem respeito o comentário crítico, avaliativo, apreciativo, o resumo e a resenha, que são formas parafrásticas estruturais de um texto. Para visualizar isso, vamos visitar o site de uma livraria on-line e procurar pelo comentário ao livro de Medeiros, “Redação científica”, que estamos utilizando para conceituar esta unidade. Vejamos. www.esab.edu.br 223 Todo profissional ou estudante precisa, nos dias atuais, saber comunicar-se com clareza. A capacidade para redigir textos de qualquer extensão é característica distintiva quer na faculdade, quer no ambiente de trabalho. Este livro ocupa-se de pré-requisitos para a redação científica. Apresenta técnicas para tornar o estudo e a aprendizagem mais eficazes, orienta a pesquisa científica, detendo-se em suas etapas, esclarece sobre as qualidades das fontes de pesquisa, bem como informa sobre estratégias de leitura. Ao ingressar em um curso superior, frequentemente o aluno revela desconhecimento de algumas normas de elaboração de trabalhos de grau, bem como despreparo para a leitura de texto de várias modalidades. Professores de todas as disciplinas salientam as dificuldades do alunado na elaboração de fichamentos, resumos, resenhas. Todosesses tipos de trabalho são examinados neste livro, que objetiva levar ao conhecimento do leitor informações que vão favorecê-lo no estudo, tornar sua leitura eficaz, indicar-lhe caminhos para a pesquisa e a redação de trabalhos com embasamento científico, elaborados segundo técnicas de pesquisa bibliográfica. A obra preocupa-se com os primeiros passos do estudante em uma faculdade. Ensina a fazer fichamentos de textos; apresenta estratégias para o aprimoramento do estudo e da prática da leitura; mostra os procedimentos adequados para a realização de resumos e resenhas e discorre sobre a pesquisa bibliográfica, que constitui a base de todos os trabalhos científicos. (SARAIVA, 2012, p. 1) Perceba agora que o comentário da loja on-line apresenta uma visão geral da obra, utilizando as ideias do próprio autor. Pontua-se a necessidade, para qualquer profissional, de se redigir textos com clareza, e como este livro desenvolve tais habilidades. Trata-se de um comentário apreciativo, cujo objetivo é convencer o leitor a comprar a obra, e que para isso parafraseia alguns de seus trechos. Assim, Parafrasear é, pois, traduzir as palavras de um texto por outras de sentido equivalente, mantendo, porém, as ideias originais. A paráfrase inclui o desenvolvimento de um texto, o comentário, a explicitação [...]. (MEDEIROS, 2008, p. 182) www.esab.edu.br 224 43.2 Outros procedimentos intertextuais Diferente da paráfrase, portanto, que retoma um texto utilizando suas palavras ou ideias, a paródia e o pastiche têm outras funções. A paródia faz referência a um texto anterior, mas com uma intenção ridicularizadora (MEDEIROS, 2008). Um bom exemplo seria a famosa “Canção do exílio”, do poeta romântico Gonçalves Dias, que foi insistentemente parodiada por diversos autores, entre eles, o modernista Oswald de Andrade. Canção do exílio (texto original) Gonçalves Dias Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá, As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá. Canto de regresso à pátria (paródia) Oswald de Andrade Minha terra tem palmares onde gorjeia o mar os passarinhos daqui não cantam como os de lá. Já o pastiche se caracteriza como uma “imitação de estilo”. Medeiros (2008, p. 184) comenta negativamente o seu uso, pois, a seu ver, esse procedimento contribui muito pouco para o esclarecimento das ideias apresentadas. Trata-se apenas de reiterar o que o autor disse, com palavras diferentes, sem acrescentar nenhum tipo de raciocínio a respeito. Mera reprodução. Se posso prever tudo o que uma pessoa vai me dizer, a mensagem é totalmente redundante e eu posso abster-me de a ouvir ou ela de o dizer; ao contrário, se nada posso prever do que ela vai me dizer – caso alguém que se dirigisse a mim numa língua que desconheço completamente – a comunicação também é impossível. Em ambos os casos não há possibilidade de intercâmbio de informação. (PIGNATARI apud MEDEIROS, 2008, p. 183-184) Quando se pode prever tudo aquilo que uma pessoa vai falar, o conteúdo de sua exposição é inteiramente redundante e eu posso deixar de prestar-lhe atenção ou ela de o dizer; diferentemente, se não posso conjecturar nada do que ela vai falar-me – caso alguma pessoa se dirigisse a mim num idioma que não conheço totalmente – a comunicação também não é possível. Nos dois casos, é impossível o intercâmbio de informação. (MEDEIROS, 2008, p. 184) www.esab.edu.br 225 É muito importante que você conheça esses conceitos e saiba utilizar bem os procedimentos, pois saber usar a paráfrase adequadamente, mantendo a referência às fontes, evita que você cometa o plágio, que é a apropriação indevida do texto de outra pessoa, e constitui crime. No Brasil, a principal referência ao plágio é a Lei n° 9.610, voltada para a proteção de obras de caráter comercial. Por isso, tenha este cuidado: utilize os autores de que você necessitar, mas cite a fonte! Para sua reflexão O conceito de intertextualidade indica que todo texto estabelece relações com outros textos. A propósito dessa ideia, podemos afirmar que a paráfrase também se constitui como um procedimento intertextual? A resposta a essa reflexão forma parte de sua aprendizagem e é individual, não precisando ser comunicada ou enviada aos tutores. www.esab.edu.br 226 44 Fichamento e resumo Objetivo Estudar as características do fichamento e resumo de texto. Na unidade 42, estudamos procedimentos genéricos a respeito do processo de pesquisa. Para aprimorar esses procedimentos, vamos agora ver em detalhe a confecção de dois mecanismos de pesquisa: o fichamento e o resumo. Quando se realiza uma pesquisa de maior fôlego, em que há farta bibliografia a respeito do tema, o primeiro quesito é a organização. Em se tratando de um assunto a que vários autores já se dedicaram, é imprescindível distinguir o ponto de vista de cada um. 44.1 Fichamento A função do fichamento varia conforme a intenção do pesquisador. Sua premissa é destacar informações básicas que serão utilizadas no desenvolvimento do trabalho. Trata-se, assim, de uma fase anterior à escrita do trabalho, pois caso você deseje iniciar a escrita sem um fichamento, seu trabalho já começará errante, pois você realizará a empreitada sem saber aonde irá chegar. Medeiros (2008) destaca: Todo o trabalho de fichamento é precedido por uma leitura atenta do texto. Leitura que se afasta da categoria emocional (subjetiva) e alcança o nível da racionalidade, e compreende: capacidade de analisar o texto, separar suas partes e examinar como se inter-relacionam e como o texto se relaciona com outros, e competência para resumir as ideias do texto. (MEDEIROS, 2008, p. 115) www.esab.edu.br 227 O autor ainda anota que o primeiro nível dessa leitura é o denotativo, parafrástico. Já estudamos ambos os conceitos em unidades anteriores: denotativo se refere ao sentido literal; parafrástico vem de paráfrase, ou seja, diz respeito ao pensamento do autor em questão. Esse nível de leitura também implica em vocabulário atento, apurado, informações a respeito do autor e seu objetivo. No segundo nível, deve-se anotar o modo como o autor trabalha os “significados não transparentes” (MEDEIROS, 2008, p. 116), ou seja, a pergunta é “O que o autor quer demonstrar?”. No nível seguinte, deve-se apresentar a sua crítica a respeito do texto lido. Crítica, como vimos na unidade 12, não se trata de algo subjetivo, do tipo “gosto/não gosto”. É levantar pontos como “O autor atingiu os objetivos a que se propôs?”; “É coerente?”; “O texto apresenta alguma contribuição significativa para a área? Qual?”. O passo final diz respeito à problematização, “[...] em que se indaga sobre as possibilidades de aplicação do texto a outras situações, sobre sua contribuição para nova leitura do mundo.” (MEDEIROS, 2008, p. 116). Em função desses aspectos, portanto, o fichamento é o início da pesquisa. Vamos a alguns dados básicos. www.esab.edu.br 228 44.2 Dados básicos Ao realizar um trabalho de pesquisa, não deixe para reunir os dados bibliográficos no final, pois isso dá muito mais trabalho! Escrito manualmente ou digitado no computador, o seu fichamento deve primeiro conter a referência bibliográfica da obra ou artigo a que faz referência. Em se tratando de um fichamento da obra toda, no cabeçalho do seu fichamento deve constar: MEDEIROS, J. B. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008. Em se tratando de um capítulo específico: MEDEIROS, J. B. Fichamento. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008, p. 114-136. Conforme a necessidade e abrangência da pesquisa, após as notas indicadas no item anterior (leitura denotativa, leitura crítica, problematização), anote também o local ondea obra se encontra (se numa biblioteca, anote “Biblioteca Municipal”, por exemplo); caso se trate de um documento on-line, já estará especificado o endereço na referência, ficando a seu critério destacar novamente essa informação. Veja um modelo de fichamento: www.esab.edu.br 229 MEDEIROS, J. B. Capítulo 7 – Prática da leitura. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008, p. 67-74. Notas: – O autor é Licenciado em Filosofia, Mestre em Letras pela USP e Pós-graduado em Literatura Brasileira pela USP. – A linguagem não pode ser estudada separadamente da sociedade que a produz. Não pode ser considerada um produto (p. 67). – Todo texto tem um caráter de incompletude, dada a sua relação com outros textos e sua capacidade de produzir novos sentidos (p. 68). – A leitura é seletiva e há vários modos de realizá-la: a) o ponto de vista do autor; b) a relação do texto com outros textos; c) relação do texto com o seu referente; d) relação do texto com o leitor (p. 68). – Para a compreensão de um texto, é fundamental reconhecer a sua ideologia (p. 69). – Há diversos fatores que constituem as condições de produção da leitura (pressupostos, subentendidos) (p. 70). – Pressupostos são... – Subentendidos são... – etc. Crítica: Bom parâmetro para sistematizar estratégias de leitura analítica. Problematização: Pode ser relacionado com o livro de Barthes, Da obra ao texto (2003). Local onde se encontra a obra: Biblioteca ESAB. Quadro 4 – Modelo de fichamento. Fonte: Elaborado pelo autor (2012). www.esab.edu.br 230 Em suma, quem define o que deve conter no seu fichamento é você. Medeiros (2008), entretanto, destaca a necessidade de: • indicações bibliográficas precisas; • informações sobre o autor; • resumo (ou de conteúdo); • citações diretas (transcrições); • comentários apreciativos (ou analítica). Se o seu fichamento contém esses dados, o seu trabalho certamente estará bem encaminhado. O assunto contemplado aqui também foi estudado na unidade 9 de Metodologia do Trabalho Científico, que complementa esta abordagem. 44.3 Resumo Na unidade 2, estudamos o conceito de texto como “[...] um tecido verbal estruturado de tal forma que as ideias formam um todo coeso, uno coerente.” (MEDEIROS, 2008, p. 137). Em outros termos, por mais que um texto trabalhe diferentes ideias, estas devem estar conectadas em função de um mesmo direcionamento. Na mesma unidade, vimos o conceito de contexto, que encerra as condições sócio-históricas referentes à confecção do texto, as quais orientam a sua linguagem e o seu conteúdo. Caberia, portanto, acrescentar a esses conceitos o de intertexto, que entende que “[...] um texto pode ser produto de relações com outros textos.” (MEDEIROS, 2008, p. 139). Como você pode notar, trata-se do que estudamos como intertextualidade. Mas por que estamos retomando esses conceitos? Porque um bom resumo deve conter esses elementos. Resumo, conforme a NBR 6028:1990, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, é a “[...] apresentação concisa dos pontos relevantes de um texto”. Medeiros (2008), referindo-se a essa definição, sublinha www.esab.edu.br 231 que ela pode ser melhorada. Diz, então, que “[...] o resumo é uma apresentação sintética e seletiva das ideias de um texto, ressaltando a progressão e a articulação delas.” (MEDEIROS, 2008, p. 142). Sendo assim, um resumo deve conter: a) assunto do texto; b) objetivo do texto; c) a articulação das ideias; d) as conclusões a que o autor chega. Medeiros (2008) acrescenta que o redator do resumo deve dar atenção para alguns procedimentos: • redigir em linguagem objetiva; • evitar a repetição de frases inteiras do original; • respeitar a ordem em que as ideias ou fatos foram apresentados pelo autor. Deve, ainda: • não apresentar juízo de valor ou apreciação crítica (estes são fatores pertencentes à resenha); • ser compreensível por si mesmo, isto é, dispensar a consulta ao original (MEDEIROS, 2008, p. 143). Mas atenção: dispensar a consulta para se ter noção da completude do trabalho. Porque o resumo é um instrumento confeccionado para o leitor em geral. A partir da leitura do resumo é o que o leitor decidirá se o trabalho será lido na íntegra, em parte, ou se não será lido. Em suma, resumo é: [...] uma apresentação concisa de elementos relevantes de um texto; um procedimento de reduzir um texto sem destruir-lhe o conteúdo. Constitui-se em forma prática de estudo que participa ativamente da aprendizagem, uma vez que favorece a retenção de informações básicas. (MEDEIROS, 2008, p. 145) www.esab.edu.br 232 Finalizamos esta unidade com dois exemplos de resumo. Observe: Resumo indicativo ROCCO, M. T. F. Crise na linguagem: a redação no vestibular. São Paulo: Mestre Jou, 1981. 184 p. Estudo realizado sobre redações de vestibulandos da FUVEST. Examina os textos com base nas novas tendências dos estudos da linguagem, que buscam erigir uma gramática do texto, uma teoria do texto. São objetos de seu estudo a coesão, o clichê, a frase feita, o “não-texto” e o discurso indefinido. Parte de conjecturas e indagações, apresenta os critérios para a análise, o candidato, o texto e farta exemplificação. Quadro 5 – Exemplo de resumo indicativo. Fonte: Elaborado pelo autor (2012). Esse resumo é definido como resumo indicativo, modalidade de resumo que elimina dados qualitativos e quantitativos, mas não abre mão da leitura do original. www.esab.edu.br 233 Resumo informativo ROCCO, M. T. F. Crise na linguagem: a redação no vestibular. São Paulo: Mestre Jou, 1981. 184 p. Examina 1500 redações de candidatos a vestibulares (1978), obtidas da FUVEST. O livro resultou de uma tese de doutoramento apresentada à USP em maio de 1981. Objetiva caracterizar a linguagem escrita dos vestibulandos e a existência de uma crise na linguagem escrita, particularmente desses indivíduos. Escolheu redações de vestibulandos pela oportunidade de obtenção de um corpus homogêneo. Sua hipótese inicial é a da existência de uma possível crise na linguagem e, através do estudo, estabelece relações entre os textos e o nível de estruturação mental de seus produtores. Entre os problemas, ressaltam-se a carência de nexos, de continuidade e quantidade de informações, ausência de originalidade. Também foram objeto de análise condições externas como família, escola, cultura, fatores sociais e econômicos. Um dos critérios utilizados para a análise é a utilização do conceito de coesão. A autora preocupa-se ainda com a progressão discursiva, com o discurso tautológico, as contradições lógicas evidentes, o nonsense, os clichês, as frases feitas. Chegou à conclusão de que 34,85 dos vestibulandos demonstram incapacidade de domínio dos termos relacionais: 16,95 apresentam problemas de contradições lógicas evidentes. A redundância ocorreu em 15,25 dos textos. O uso excessivo de clichês e frases feitas aparece em 69,05 dos textos. Somente em 40 textos verificou-se a presença de linguagem criativa. Às vezes o discurso estrutura-se com frases bombásticas, pretensamente de efeito. Recomenda a autora que uma das formas de combater a crise estaria em se ensinar a refazer o discurso falho e a buscar a originalidade, valorizando o devaneio. Quadro 6 – Exemplo de resumo informativo. Fonte: Elaborado pelo autor (2012). Esse segundo exemplo é definido como resumo informativo. Relata o objetivo da obra, os métodos e técnicas empregados, o resultado e as conclusões. Sendo assim, dispensa a leitura do original. Atente para o que lhe for solicitado, basta usar o modelo que melhor se adapte. www.esab.edu.br 234 Saiba mais Sugerimos que você clique aqui. Trata-se de um objeto educacional proposto pelo MEC, dedicado a estabelecer as diferenças entreresumo, fichamento e resenha. Para complementar o que vimos nesta unidade, abra o objeto educacional e faça os exercícios. www.esab.edu.br 235 45 Interpretação textual Objetivo Destacar procedimentos de leitura interpretativa. Como produzir sentido? Esta unidade sintetiza boa parte dos argumentos que apresentamos em diversas unidades anteriores. Vamos começar com uma reflexão: quando lê, você apenas recebe a mensagem do autor/emissor do texto? O conteúdo dessa mensagem será idêntico para qualquer leitor/receptor? Deixaremos essas questões de lado, momentaneamente. Retornaremos a elas ao fim da unidade. Por ora, saiba que existem alguns passos básicos para a leitura, interpretação e análise de um texto. Vamos defini-los. 45.1 Captando a informação Vocabulário O primeiro passo para interpretar um texto é saber captar a informação. É uma etapa bastante importante, pois se trata do primeiro contato com o conteúdo. Para que isso se dê de modo eficaz, você precisa ter amplo vocabulário. Vocabulário se refere, no caso, ao seu desempenho de compreensão do significado das palavras. Como falantes de um idioma, em geral conseguimos decodificar as mensagens de um texto mesmo sem saber o significado exato de todas as palavras que estão sendo enunciadas, pois nos atemos ao contexto do www.esab.edu.br 236 qual o texto faz parte ou ao qual a mensagem se vincula. Medeiros (2008, p. 91) destaca que esse tipo de leitura se dá por meio das palavras-chaves: “A seleção de palavras-chaves deve ser feita em todos os parágrafos. Elas possibilitam a elaboração de um resumo do texto.” Mas certamente fica a dúvida: o que significa este ou aquele termo? Por isso, saiba que quanto mais amplo for o seu vocabulário, mais eficaz será a sua leitura. Provavelmente, você já tentou estudar algum idioma estrangeiro. Se você mantém esse idioma em atividade, praticando-o, você desenvolve a habilidade em falar ou lê-lo. Mas se você não o pratica, essa habilidade não se desenvolve. Nosso cérebro precisa estar em constante estímulo para aprender algo. Na unidade 1, trabalhamos um exemplo bastante elementar: você quer aprender a nadar. Existe algum modo de fazê-lo do lado de fora da piscina? Por isso, a melhor forma de ampliar o vocabulário é estar sempre lendo, todos os dias, em algum momento. Ao mesmo tempo, é preciso consultar um dicionário para aquelas palavras que você não compreende. Saiba mais Há vários dicionários on-line de acesso gratuito. Experimente acessá-los: Michaelis Priberam Ou simplesmente digite a palavra “dicionário” no seu buscador preferido e escolha o que achar melhor. www.esab.edu.br 237 Tópico frasal Além do vocabulário, você precisa lidar com a sintaxe. A sintaxe, como também já vimos em unidades anteriores, refere-se à estrutura das frases. Por isso, você deve atentar para o que se chama tópico frasal. Tópico frasal é uma frase núcleo, que encabeça todo o pensamento desenvolvido no corpo do parágrafo. Em outras palavras, do tópico frasal dependem todas as demais frases presentes no parágrafo em questão, de modo que para cada parágrafo haverá um novo tópico frasal. Acompanhe este exemplo: Uma das causas da má qualidade de ensino é o despreparo de professores. Como sabemos, os professores também são vítimas dos problemas sociais por que passamos, como, por exemplo, o desestímulo financeiro, que, como consequência, faz com que muitos parem de exercer a sua profissão e procurem por trabalhos mais bem remunerados para que possam sobreviver. Esse fato acaba por refletir na qualidade de ensino, em que pessoas despreparadas tomam o lugar daqueles que não foram reconhecidos pelo Sistema e arriscam-se a dar aulas. Assim sendo, o Governo deveria investir mais no ensino, ou seja, oferecer melhores salários, condições de trabalho, com o objetivo de amenizar essa defasagem de ensino no Brasil. (ALMEIDA apud LUIZARI, 2010, p. 161) Qual seria o tópico frasal? “Uma das causas da má qualidade de ensino é o despreparo de professores.” Perceba que dessa frase dependem todas as demais, que a ela estão direta ou indiretamente relacionadas e que constituem o desenvolvimento da ideia. Assim, portanto, o tópico frasal encabeça e resume o que se quer dizer no parágrafo em questão. E se por acaso você não conseguir localizar no parágrafo este componente, trata-se de um texto mal escrito! Se você compreende as palavras que estão no texto, sabe buscar pelas que não entende de imediato (que muitas vezes se referem a termos técnicos) www.esab.edu.br 238 e, além disso, consegue localizar o tópico frasal de cada parágrafo, você está apto a captar a informação e ir para a etapa seguinte. 45.2 Interpretando Segundo Medeiros (2008, p. 105), interpretação “[...] é processo, num primeiro momento, de dizer o que o autor disse, parafraseando o texto, resumindo-o; é reproduzir as ideias do texto.” Por isso, agora entra em questão lidar com o que vimos na unidade 41, a respeito dos pressupostos. Vamos relembrar: “[...] pressupostos são ideias não expressas de maneira explícita, que decorrem logicamente do sentido de certas palavras ou expressões contidas na frase.” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 307). O que isso quer dizer? Que captar os sentidos de um texto vai além do que está escrito. Reveja o exemplo tratado por Fiorin e Savioli (2006): Para que o Brasil se torne um país do primeiro mundo será preciso privatizar as empresas estatais, abrir a economia ao ingresso de produtos estrangeiros e terminar com os direitos trabalhistas que oneram a folha de pagamento e a Previdência Social. (FIORIN, SAVIOLI, 2006, p. 307-308) Nesse parágrafo está implícito que: • o Brasil ingressará no grupo de países do primeiro mundo se preencher as condições estipuladas; • no Brasil, as empresas e o Estado são onerados pelos direitos trabalhistas. Apreender esses significados implícitos, portanto, é parte fundamental do processo de interpretação textual. Para Medeiros (2008, p. 103), este processo integra a compreensão do texto, que se caracteriza como “[...] capacidade de entendimento literal da mensagem. O leitor preocupa-se em ver o texto segundo a ótica do autor e busca responder às perguntas: que tese o autor do texto defende? De que trata o texto?” www.esab.edu.br 239 45.3 Analisando Vejamos o que nos diz Medeiros (2008): Análise é o fundamento para a elaboração de reflexões que mostrem a organização dos elementos identificados no texto e seu aproveitamento reflexivo e argumentativo. A leitura é um processo de incorporação do texto à vida, de aceitação ou negação dele, estabelecendo um diálogo pelo qual o leitor se constitui em sujeito da leitura, um ato criativo e não reprodutor. (MEDEIROS, 2008, p. 105) Essa concepção nos remete às perguntas que lançamos no início: quando lê, você apenas recebe a mensagem do autor/emissor do texto? O conteúdo dessa mensagem será idêntico para qualquer leitor/receptor? Diferente do processo de captação da informação (em que você lida com o vocabulário e a sintaxe do texto) e de interpretação (em que você lida com a semântica, ou seja, a rede de produção de sentidos), a análise se constitui como o espaço do leitor. Depois da leitura, quem decide se o texto informa e produz significado é o leitor. O autor lança ideias, conceitos, definições, mas sem o leitor nada disso faz sentido. Como falantes de um mesmo idioma, de modo geral todos compartilhamos uma rede comum de significados e interpretantes. Porém, as relações de sentido variam conforme a habilidade e experiência de cada leitor. Quando lemos, estamos colocando a nós próprios no texto, nossas experiências de vida e de leituras anteriores (lembre-se, aqui, dos conceitos de polissemia e intertextualidade que estudamos na unidade 5: as palavrastêm significado conforme o contexto, e todo texto tem relação com outros textos). Retomando, podemos compartilhar pontos de vista, mas o que caracterizará a sua diferença, o que ressaltará você como sujeito pensante produtor de conhecimento é o seu manejo de referências e capacidade de raciocínios lógicos e sofisticados. www.esab.edu.br 240 No processo de análise do texto está o espaço para você se manifestar, ponderar, discutir, avaliar e questionar. É o espaço da crítica (que pode ser positiva ou não). Assim, como você viu, o processo de interpretação textual se constitui de três momentos básicos: captação de informações, interpretação das ideias lançadas pelo autor e análise crítica do conteúdo. Exercite, pois é esse processo que faz de você um sujeito pensante, único e crítico. Tarefa dissertativa Caro estudante, convidamos você a acessar o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realizar a tarefa dissertativa. www.esab.edu.br 241 46 Comunicação e expressão Objetivo Revisar técnicas que conduzem à boa apresentação de trabalhos. Estamos praticamente no fim de nossa disciplina, e enfatizamos até aqui, repetidamente, uma série de cuidados que orientam a confecção do bom texto, entre os quais estão clareza, objetividade, apresentação de dados, mediação de informações, análise crítica e conclusão. Mas em algumas situações, o texto é apenas parte do processo. Por exemplo, a apresentação de trabalhos é uma atividade que faz parte da rotina acadêmica. Mesmo em se tratando de um curso a distância, pode ser solicitada a apresentação de um artigo ou a explanação de um trabalho em equipe durante os encontros presenciais. Porém, mais que a realização de uma tarefa para obtenção de pontos na média final, trata-se de um exercício que conduz nossa postura para a vida profissional. Sabemos que algumas pessoas têm certa espontaneidade que ajuda bastante em uma apresentação; mas espontaneidade não é tudo. Não adianta você ter uma boa exposição e não observar outros fatores que também constituem a apresentação. Para ajudá-lo nesse processo, vamos elencar 10 pontos que você deve levar em conta sempre que necessário. Acompanhe. 46.1 Pontualidade O primeiro item a ser observado é o horário. Se você tem uma apresentação agendada para as 19h, esteja certo de estar no local, à disposição, ao menos meia hora antes. Imprevistos acontecem a todo momento, é normal, mas é muito chato ter de resolver problemas com www.esab.edu.br 242 questões técnicas na frente das pessoas que estão ali para assistir ou avaliar a sua apresentação. Em se tratando de uma apresentação on-line, a regra é a mesma: esteja pronto e à disposição para que tudo comece no horário. Se alguém tiver de esperar, que seja você, não o público ou seus interlocutores. 46.2 Equipamentos Hoje em dia dispomos de uma série de recursos para uma apresentação, desde o quadro com giz até a lousa mágica, o projetor e recursos audiovisuais em geral. Sendo assim, prepare a sua apresentação tendo em vista os recursos que você terá à disposição. Não é necessário utilizar todos; são recursos, e não o objeto do seu trabalho. Para que tudo ocorra conforme o planejado, certifique-se de que o local oferece os equipamentos. Mais que isso, informe-se sobre quais são estes equipamentos e softwares. Coisas simples podem atrapalhar o seu desempenho: um documento que não abre em função de diferentes versões do software; um adaptador para a saída de vídeo do seu notebook; caixas de som, no caso de você necessitar de áudio; rede de acesso à internet etc. 46.3 Conexão Se a sua apresentação depende de rede de acesso à internet, certifique-se de que ela esteja funcionando, de que você detém a senha de acesso e de que o sinal é confiável. Por segurança, tenha todas as mídias que você pretende utilizar em modo off-line. Digamos que há um vídeo do Youtube que é fundamental para a sua exposição. Sabendo disso, você preparou todo o equipamento. No entanto, você havia testado antes do momento de pico do uso da rede e, no momento em que você necessita exibir, o vídeo não carrega ou trava. Isso é muito chato! www.esab.edu.br 243 Daí a importância de você ter tudo o que necessita em modo off-line, gravado no seu computador ou pen drive. 46.4 Linguagem Como já frisado em diversas unidades anteriores, a fala difere da escrita. Na fala, podemos nos colocar mais à vontade; porém, a apresentação de um trabalho é uma ocasião formal. Utilize a linguagem adequada (tendo em vista a clareza e objetividade), e se for necessário utilizar termos técnicos, explique do que se trata, quando necessário. Antes, porém, apresente-se. Diga seu nome, ou o nome dos membros da equipe, a instituição a que você pertence, o título do seu trabalho e deixe claras questões como abordagem, metodologia e técnicas utilizadas. Em certas apresentações admite-se a leitura do artigo ou paper. É uma estratégia arriscada, pois tende-se a perder a atenção do público. Considere o seguinte: você fez o trabalho e, portanto, está a par da matéria. Prefira ter uma folha com os tópicos anotados e fale a respeito deles. Proceda do mesmo modo quando você utilizar o projetor e slides no programa Powerpoint (ou equivalente). Os slides não devem ser lidos por você; eles apenas orientam o espectador sobre aquilo que você está comunicando. Por isso, os slides não devem conter todo o texto, e sim apenas os tópicos da sua exposição. Utilize-os também para imagens, tabelas, quadros e gráficos cuja interpretação você fará verbalmente. Por último, atente para o tom de voz: fale pausadamente, para ser entendido, e um pouco mais alto que o seu tom habitual. Mantenha a dialogicidade: converse com as pessoas que estão ali para lhe ouvir. www.esab.edu.br 244 46.5 Equipe Em se tratando de um trabalho de equipe, todos os pontos anteriores são igualmente válidos. O sucesso de uma equipe se dá pela coesão de seus membros e pelo uso adequado da aptidão de cada pessoa do grupo. Em uma equipe, os componentes têm funções diferentes. Se cada membro fizer bem a sua parte, tudo sairá bem. Um detalhe fundamental: não queira se sobressair sobre os seus colegas. Isso não mostra que você sabe mais; mostra apenas que você tem dificuldade em trabalhar em conjunto e ceder espaço ao outro. Em um trabalho de equipe, o que se avalia é o grupo, e não os membros isoladamente. 46.6 Ansiedade Você sabe de alguma situação em que a ansiedade ajuda? Não, não é mesmo? Portanto, se você realizou o trabalho, conhece a matéria, verificou a infraestrutura, não há motivo para nervosismo. É normal a adrenalina se manifestar nesse tipo de ocasião. Respire fundo, mantenha a calma e pronto. Mas não queira improvisar! Você está iniciando a sua carreira e precisa ter cautela. Na hora você pode até deixar de lado o roteiro da apresentação, mas ele deve estar ali, à disposição, para ser consultado sempre que necessário. Se você dispõe de, digamos, 30 minutos para a exposição, planeje e distribua o tempo. Cinco minutos a mais ou a menos não representam um problema, mas 15 a mais ou a menos, sim! Não invada o espaço das demais apresentações nem acelere o cronograma. Por isso, ensaie a sua apresentação, cronometre o tempo e veja se está ok. www.esab.edu.br 245 46.7 Conclusão Assim como em um texto, conclua tendo em vista os dados pesquisados. Novos dados requerem nova análise. 46.8 Perguntas Defina as regras no início do jogo. Informe que ao final da apresentação haverá espaço para perguntas, ou que o público poderá fazê-las ao longo da exposição. A segunda opção é mais arriscada, pois você pode perder o controle do debate. No caso de alguma pergunta que você não possa responder, agradeça pela colaboração e seja sincero. Diga: “Interessante! Não havia pensado nisso. Considerareieste aspecto na próxima etapa do trabalho.” 46.9 Vestuário Em uma apresentação, você já está em foco. Não queira parecer diferente do seu habitual. Vista-se sobriamente, evite estampas ou tecidos muito chamativos. Não se apresenta um trabalho vestindo bermuda ou minissaia. Não desvie a atenção do público. Não deixe brechas que possam atrapalhar na avaliação do seu trabalho. Não use chapéu ou boné e não abuse no perfume! 46.10 Finalizando Não esqueça de agradecer pela atenção de todos. Levando essas indicações à risca, você certamente apresentará um bom trabalho. Boa sorte! www.esab.edu.br 246 Para sua reflexão Agora, pare e reflita: de que modo a apresentação de trabalhos e o exercício de interpretação e análise textual preparam você para a vida profissional? As respostas a essas reflexões formam parte de sua aprendizagem e são individuais, não precisando ser comunicadas ou enviadas aos tutores. www.esab.edu.br 247 47 As multimídias e a produção textual Objetivo Discutir o modo como elementos – imagens, vídeos, áudios, gráficos e infográficos – influenciam na elaboração dos textos. A sociedade em que vivemos transformou as bases da produção, da circulação e da recepção do conhecimento. Ela tem muitos nomes: “sociedade da informação”, “sociedade em rede”, “época das coletividades inteligentes”, “pós-modernidade” – enfim, nossa época é rica em designações sobre si mesma. O fato é que a internet alterou de maneira significativa a forma como realizamos nosso trabalho diário, afetando, principalmente, o modo como as informações são produzidas e consumidas. A informação tem um papel fundamental na atualidade, pois é ela que pode alterar o modo como o destinatário enxerga algo, exercendo impacto sobre seu julgamento e comportamento. Informação, em suma, gera conhecimento, pois é a unidade básica de qualquer processo de aprendizagem. Produzir informação é “dar forma” àquilo que desejamos repassar. Esse processo implica cumprir uma meta: o emissor (já estudamos esse conceito na unidade 6) lança a mensagem que contém a informação, mas é o receptor quem decide se a mensagem recebida realmente constitui algo do seu interesse. Para gerar o conhecimento, no entanto, o processo é mais complexo, pois o simples fluxo de informações não garante a consolidação do conhecimento. O ciclo de realização do conhecimento exige um período maior de tempo para validar a defesa dos pontos de vista, ou para tabular números que corroborem afirmações textuais. A credibilidade www.esab.edu.br 248 que o conhecimento transmite ou gera vem exatamente das fontes que utilizamos e de nossas pesquisas. Nesse sentido, a cultura digital deixou nossa vida mais rica e complexa, pois há uma infinidade de posições e de propostas que precisam ser revistas ou revisitadas constantemente. Não se deve pensar a cultura digital como um advento meramente tecnológico; ela produz muitas alterações no comportamento do consumidor, principalmente no público jovem, que vive amparado por uma série de ferramentas que auxiliam nas mais diferentes formas de mediação e apreensão de conteúdo. Importa entender, assim, que a cultura digital se dá pela tecnologia e por suas ferramentas, mas são as pessoas que a promovem em seu dia a dia, usando bancos via web, jogando em sua rede favorita, baixando filmes e músicas ou discutindo seus assuntos favoritos nas redes sociais. Nesse cenário, é inegável o uso da rede como fonte de pesquisas. Para um grupo mais acostumado ao trabalho pela rede, seria impossível hoje em dia pesquisar sem usar os sites, blogs, vídeos, imagens, enfim, sem fazer uso dos conteúdos digitais. O fluxo de informações pela rede é quase irresistível para a maior parte das pessoas. Do mesmo modo, qualquer trabalho escolar, hoje, para atrair atenção, necessita de dispositivos eletrônicos que auxiliem no processo de aprendizagem. Trabalhar com o computador se tornou uma questão básica, mas é necessário saber lidar com isso de forma dosada e com método e critérios. Temos à disposição uma série de recursos que podem atuar em nosso favor quando desenvolvemos um trabalho. Podemos usar vídeos de uma plataforma como Youtube ou Vimeo, podemos fazer de nossos telefones celulares gravadores, câmeras fotográficas ou filmadoras para registrar um depoimento, uma entrevista ou um acontecimento. Dispomos de uma série de programas para simular gráficos e animações, de modo a transformar essas captações em objetos de aprendizagem. www.esab.edu.br 249 O detalhe é que, ao utilizarmos algum recurso audiovisual, por exemplo, não se trata de apenas um adereço em nosso texto; ele se torna um componente do nosso discurso. Tanto pode servir para ilustrar uma ideia exposta textualmente, como pode ser o ponto de partida ou parte fundamental de uma argumentação. Notadamente, o texto que melhor se adapta à utilização de recursos multimídia é o texto on-line, que conta com plataformas já preparadas para isso (basta pensar em programas como o Wordpress, o Blogspot ou as plataformas LMS). Como se trata de algo relativamente recente, basta usar a criatividade para estabelecer relações entre imagens, vídeos e produções de áudio. O cuidado que você deve tomar é que nenhum componente eletrônico substitui um texto bem escrito. Por mais recursos tecnológicos que você utilize, é a sua argumentação e o modo como você introduz esses recursos que fazem a diferença. Se você deseja usar uma imagem, por exemplo, você precisa indicar o que se deve ver nessa imagem. Não basta simplesmente colocá-la. Uma imagem precisa de uma “legenda”, de uma explicação para que seja parte integrante do texto armado. O mesmo serve para vídeos, áudios ou animações. Portanto, use e abuse dos recursos, mas não perca de vista a clareza e objetividade. www.esab.edu.br 250 48 Afinal, o que é um bom texto? Objetivo Revisar o conteúdo abordado ao longo do caderno. Bem, chegamos ao final. Você está devidamente instrumentalizado para produzir textos com qualidade e consciência do que está fazendo. No início do nosso estudo, lançamos uma questão: escrever bem se trata de um dom ou de uma técnica? Pode ser ambas as coisas: você pode simplesmente ter facilidade nessa tarefa como outras pessoas têm para o cálculo ou para o desenho, por exemplo. O fato é que todos nós precisamos expressar nossas ideias e pontos de vista com clareza, oralmente ou por escrito, e, como já dissemos, sempre haverá lugar no mercado para quem faz isso adequadamente. Porém, não esqueça de que a sua fluência na tarefa de escrever depende da prática constante. Nosso cérebro precisa ser constantemente estimulado e desafiado, caso contrário, a tarefa torna-se árdua demais! Vamos, agora, rever em tópicos, por ordem de unidades, uma síntese dos principais pontos abordados na disciplina: • o conceito de texto está atrelado à ideia de tecido, no sentido de fios entrelaçados, como frases que se inter-relacionam. Não é, portanto, um simples amontoado de frases ou palavras. O texto expressa sentidos; • em 2013, acaba o período de adaptação para a nova ortografia da língua portuguesa; www.esab.edu.br 251 • fala e escrita constituem diferentes modalidades de uso da linguagem. Na fala, principalmente, manifestam-se os regionalismos, e hoje dispomos de concepção de linguagem que não parte da noção de certo ou errado; • o significado das palavras varia conforme o contexto: trata-se do conceito de polissemia. Todo texto se relaciona com outros textos (intertextualidade). Metalinguagem é a linguagem que estuda a própria linguagem. Recombinação é um procedimento que atualiza o sentido das interpretações; • o esquema da comunicação está pautado por seis elementos: emissor, receptor, mensagem, canal, código e contexto. Esse esquema estáatrelado ao estudo das funções da linguagem (emotiva, conativa, denotativa, fática, metalinguística e poética); • o bom texto evita o pedantismo e o uso de expressões clichês (também conhecidas como “lugares-comuns”); • os diferentes tipos de texto são: narração (trabalha com cenários e personagens e tem por base a passagem de tempo), descrição (mostra um objeto ou pessoa em um momento específico, sem alteração de tempo), dissertação (em que predomina a utilização de termos abstratos, a fim de se expor determinado assunto), exposição (que transmite dados hierarquizados, a fim de fazer compreender fenômenos específicos), informação (que busca fornecer dados legítimos a respeito de algo para alguém) e injunção (que indica o modo como uma ação deve ser realizada); • ao redigir um título, utilize a fórmula A + B (Cultura digital e educação, por exemplo), pois isso facilita a definição do foco; • a redação institucional caracteriza-se pela linguagem simples e objetiva. Ao redigir o seu currículo pessoal, seja honesto no fornecimento de dados a respeito da sua experiência profissional; • parágrafos são subunidades de sentido do texto caracterizadas pelo que chamamos tópico frasal, que constitui a informação básica à qual todas as demais se vinculam; • muita atenção no uso da pontuação correta; www.esab.edu.br 252 • frase é uma unidade de sentido, que pode conter um única palavra; para que uma oração se constitua, é preciso que nela apareça um verbo; quando temos mais de um verbo, trata-se de período composto; • a coesão é um dos principais aspectos do bom texto, e se refere ao uso adequado dos conectivos (ou relatores); • a coerência está atrelada à coesão. Um texto coerente encaminha a uma boa conclusão. Para concluir, é preciso antes apresentar os dados – essa é uma relação de coerência textual; • o estilo caracteriza um modo pessoal de escrever e expor argumentos; • denotação se refere ao sentido imediato de cada palavra; conotação é o sentido figurado, criativo; • figuras de linguagem são recursos de estilo. Entre as mais utilizadas estão a metáfora e a metonímia; • a crase é um dos pontos de maior dúvida entre os estudantes. Saber utilizá-la adequadamente valoriza muito a sua escrita e define a clareza da mensagem que você deseja transmitir; • há diferenças sutis no uso dos porquês. É bastante importante que você saiba fazer as distinções; • evite o gerundismo (nada de “vou estar falando com o senhor”, por exemplo), e saiba que, embora em desuso, o pronome relativo “cujo”, se empregado corretamente, deixa o seu texto mais elegante; • a concordância é outro dos pontos de equívoco entre a maior parte dos estudantes. Ajustar os termos da oração para que concordem em gênero, número e grau com o substantivo é função da concordância nominal; já a concordância verbal trata das alterações no verbo para deixá-lo em perfeita sincronia com o sujeito; • não utilize adjetivos em excesso; • estrangeirismos são palavras de outro idioma que passam a integrar a rotina do nosso e devem ser grafados com destaque; www.esab.edu.br 253 • saiba colocar adequadamente os pronomes átonos: próclise (antes do verbo), ênclise (depois do verbo) e mesóclise (no meio do verbo); • cuidado com as tautologias, os famosos vícios de linguagem; • pressupostos são conteúdos não expressos de forma explícita. Carecem de leitura atenta para serem interpretados; • a pesquisa é a base de todo texto; • parafrasear é um dos recursos disponíveis para relatar as ideias de um autor; • o fichamento constitui uma etapa fundamental da leitura de um texto e atua como uma ótima forma de organização. O resumo deve ser claro e objetivo, podendo prescindir ou não da leitura do original; • a interpretação textual possui etapas (captação de informações, interpretação da mensagem e análise); • comunicar e expressar-se bem na apresentação de trabalhos exige uma série de cuidados, tais como pontualidade, clareza, utilização adequada de recursos, postura; • as multimídias desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da argumentação, não devem ser um adereço, mas parte do discurso. Esses são os principais aspectos que estudamos ao longo desta disciplina. Como já dissemos em vários momentos, o bom texto é aquele que responde à proposta, considerando a solicitação e a intenção. Resulta de um trabalho particular constante de aperfeiçoamento de vocabulário e de construção e expressão do pensamento por meio de linguagem objetiva e clara. Ler e escrever – esse é o exercício que você deve praticar sempre. Boa sorte e sucesso! www.esab.edu.br 254 Atividade Chegou a hora de você testar seus conhecimentos em relação às unidade 37 a 48. Para isso, dirija-se ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e responda às questões. Além de revisar o conteúdo, você estará se preparando para a prova. Bom trabalho! www.esab.edu.br 255 Resumo Chegamos ao fim! Nesta última etapa da disciplina estudamos a paráfrase, que é um modo de se referir às palavras do autor sem fazer uso da citação direta. Trata-se de um recurso que você deve utilizar, tanto como exercício de assimilação do conteúdo, como para evitar que o seu texto se torne um emaranhado de citações. Na sequência, estudamos as funções do fichamento e do resumo para a pesquisa. O fichamento constitui etapa fundamental da leitura; o resumo atua como um indicativo para outros pesquisadores decidirem se devem ou não ler a obra no seu todo. Vimos ainda que a interpretação de texto é pautada por três momentos (captação, interpretação e análise), e que para comunicar e apresentar trabalhos de forma eficaz são necessários diversos cuidados. Ao final, destacamos os recursos audiovisuais multimídia como dispositivos de auxílio à argumentação, podendo funcionar como objetos de aprendizagem, aguçando o interesse do espectador pelo material. Para encerrar, finalmente, fizemos um balanço do que estudamos, e mencionamos em tópicos os principais pontos que conduzem à produção de texto com qualidade. www.esab.edu.br 256 Glossário Academia Brasileira de Letras Instituição fundada no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1897 por escritores como Machado de Assis, Lúcio de Mendonça, Inglês de Souza, Olavo Bilac, Afonso Celso, Graça Aranha, Joaquim Nabuco, Visconde de Taunay e Rui Barbosa. É composta por quarenta membros efetivos e perpétuos e por vinte sócios estrangeiros; tem, por fim, o cultivo do português brasileiro e da literatura brasileira. R Alegoria Expressão de uma ideia através de uma imagem, um quadro, um ser vivo etc. R Ambiguidade (de ambíguo) Que não tem sentido definido, que possibilita dupla interpretação. R Analogia Relação, semelhança de uma coisa com outra: analogia de formas, de gostos. R Anterioridade Prioridade de tempo, de data; precedência: a anterioridade de um pedido, de uma descoberta. R Astuto Esperto, perspicaz. R www.esab.edu.br 257 Blogspot Aplicativo de sistema de gerenciamento de conteúdo para web (http:// www.blogspot.com). R Cavalgamento Recurso de estilo frequente na confecção de poemas, quando um verso tem a sua complementação sintática pela junção com o verso seguinte. R Coloquial Informal, cotidiano. R Competência Ter um poder ou um saber para realizar aquilo que se deve. R Concomitância Coexistência, simultaneidade de dois ou de diversos fatos. R Contemporâneo Que é da época atual; do tempo em que se fala. R Contiguidade (de contíguo) Que toca em uma coisa: quarto contíguo a outro. Próximo, junto. R Corpus Conjunto de documentos que servem de base para a descrição ou o estudo de um fenômeno. R Corroborar Confirmar; apresentar argumento ou informação que acompanha ou dá força a determinadaafirmação ou ideia. R www.esab.edu.br 258 Crônica Relato de um ou mais acontecimentos em um determinado espaço de tempo. A quantidade de personagens é reduzida, podendo inclusive não haver personagens. É a narração de um fato do cotidiano, algo que naturalmente acontece com muitas pessoas. R Cumplicidade Apoiar o outro em suas decisões, sem tentar interferir em suas ideias. R Destoar Sair do tom, da uniformidade. Discordar. R Desuso O que não está mais em uso. R Dialógica Que pretende provocar discussão, debate, diálogo. R Dialogicidade (de dialógico) Relativo a diálogo; dialogado. R Diegese Conjunto de ações, descrições e diálogos, que constituem a narrativa. R Digressão Efeito de romper a continuidade de um discurso com uma mudança de tema intencionada. R Dirimir Anular, extinguir. R www.esab.edu.br 259 Distorção (de distorcer) Mudar o sentido de algo. R Eivado Que tem eiva; manchado. Contaminado, viciado. R Embasamento (de embasar) No caso, refere-se a suporte argumentativo, teórico. R Emmanuel Kant (1724–1804) Filósofo prussiano, considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna. R Escopia Trata-se de um vocábulo da psicanálise, aqui empregado como “o modo como enxergamos o mundo”. R Estado Quando grafado com maiúscula, personifica a entidade de direito público administrativo ou o conceito filosófico de poder. R Estratégia Ação ou caminho mais adequado a ser executado para alcançar um objetivo ou meta. R Explícito Que se deixa transparecer diretamente. R Ferdinand de Saussure (1857-1913) Linguista e filósofo suíço, cujas elaborações teóricas propiciaram o desenvolvimento do estudo da linguagem como ciência autônoma, a linguística. R www.esab.edu.br 260 Figurativizar Refere-se à figurativização, quando se associa outros significados ao sentido próprio (ou literal) da palavra. R Fonema A menor unidade sonora de uma língua. R Gonçalves Dias (1823-1864) Poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. R Hobby Passatempo. Aquilo a que uma pessoa dedica seu tempo sem fins profissionais. R Ideológico (de ideologia) Ciência que trata da formação das ideias. Conjunto de ideias próprias de um grupo, de uma época, e que traduzem uma situação histórica: a ideologia socialista, por exemplo. R Implícito Que está subentendido, ao invés de explicitamente expresso. R Inferência Operação mental pela qual obtemos de uma ou mais proposições outra ou outras que nela(s) estava(m) já implicitamente contida(s). R Infinitivo Refere-se ao modo em que o verbo não aparece conjugado. R www.esab.edu.br 261 Interjeição Palavra invariável que exprime emoções, sensações, estados de espírito, ou que procura agir sobre o interlocutor, levando-o a adotar certo comportamento sem que, para isso, seja necessário fazer uso de estruturas linguísticas mais elaboradas. R Interpretante Aquilo que o próprio signo, ao ser percebido por alguém, cria na mente deste alguém. R Intransigente Intolerante. R Jean de La Fontaine (1621–1795) Poeta e fabulista francês. R Jocosas (de jocoso) Que provoca riso; alegre, gracioso. R José Saramago (1922-1910) escritor português com ampla bibliografia publicada. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998, e ganhou, em 1995, o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da Língua Portuguesa. R Lastro Base, fundamento: lastro cultural. R Lev Vygotsky (1896-1934) pensador russo, pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. R www.esab.edu.br 262 Lexical (de léxico) O acervo de palavras de um determinado idioma; todo o universo de palavras que as pessoas de uma determinada língua têm à disposição para expressar-se, oralmente ou por escrito. R LMS (Learning Management Systems) Em português, Sistema de Gestão da Aprendizagem (SGA); são softwares desenvolvidos sob uma metodologia pedagógica para auxiliar a promoção de ensino e aprendizagem virtual ou semipresencial. R Lobby Atividade de pressão de grupos, ostensiva ou velada, com o objetivo de interferir diretamente nas decisões do Poder Público em favor de interesses privados. R Menoridade Estado da pessoa que ainda não atingiu a idade que a lei considera suficiente para essa pessoa se reger a si própria e administrar os seus bens (18 anos). Tal como está utilizado no texto, o termo, em sentido figurado, refere-se a uma etapa da vida em que o homem ainda não passou a uma etapa mais avançada do desenvolvimento do caráter. R Miméticas (de mimetizar) Adotar gestos e formas físicas do outro. R Movimento concretista Trata-se de uma das mais importantes correntes de vanguarda de nossa literatura que influenciou poetas, artistas plásticos e músicos. O grupo concretista de São Paulo, na década de 1950, era liderado pelos irmãos Augusto de Campos e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e José Lino Grunewaldt. R www.esab.edu.br 263 Mussoliniano (de Mussolini) Referente a Mussolini, político italiano que liderou o Partido Nacional Fascista e é creditado como uma das figuras-chave na criação do Fascismo. R Mutante Que se transforma. R Nouvelle Vague Movimento estético que, além de Jean-Luc Godard, contava com os cineastas François Truffaut, Alain Resnais e Claude Chabrol. Satirizava a própria linguagem cinematográfica, mostrando na psicologia dos personagens suas impressões cotidianas e banais, quase sem moral, em diálogos inesperados. R Oração subordinada Oração que exerce função sintática em relação a outra oração, sendo dela dependente. R Oswald de Andrade (1890-1954) Escritor modernista brasileiro. R Paper Artigo científico. R Paródia Transformação de um texto conhecido pelo público em geral, consagrado, em um novo texto, de cunho humorístico ou contestatário. R Pastiche Trabalho intelectual ou artístico forjado com tal perícia imitativa que pode ser confundido com o original. Trata-se, também, de uma imitação do estilo de determinado artista. R www.esab.edu.br 264 Pe. Antônio Vieira Nascido em Lisboa (1608-1697). Foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. R Performance Quando de fato se realiza uma ação; o desempenho da ação. R Pleonasmo Uso de expressões redundantes com a finalidade de reforçar uma ideia. R Ponderar Estudar, considerar. R Posteridade Referente àquilo que está no futuro; gerações futuras. R Predicativo Termo ou expressão que complementa o objeto direto ou o objeto indireto, conferindo-lhes um atributo. R Preposição Palavra invariável que estabelece uma relação entre dois ou mais termos da oração. Essa relação é do tipo subordinativa, ou seja, entre os elementos ligados pela preposição não há sentido dissociado, separado, individualizado; ao contrário, o sentido da expressão é dependente da união de todos os elementos que a preposição vincula. R Pressuposto Que se pressupõe; que se supõe antecipadamente. Conjetura. R www.esab.edu.br 265 Prolixo Demasiadamente longo, extenso ou demorado; enfadonho, fastidioso, que usa palavras e frases além do necessário. R Pronome relativo Classe de pronomes que substituem um termo da oração anterior e estabelecem relação entre duas orações. R Punk Movimento cultural de atitude agressiva, surgido no fim da década de 1970, e marcado pelo tédio cultural e pelo apontamento da decadência social do século XX. R Referente Que se refere, relativo a, que diz respeito a. R Repertório de referências Utiliza-se a expressão no sentido de que o aluno precisa conhecer diversas fontes de leitura, com pontos de vista diferentes, por exemplo. R Semântico (de semântica)Estudo do sentido das palavras de uma língua. R Signo Resultante da relação entre um conceito e uma imagem sonora. Por exemplo, a palavra “árvore” e sua imagem mental. R Sintático Relativo à sintaxe: regras sintáticas. Sistema de leis que permite estudar uma linguagem puramente sob o seu aspecto formal, sem referência à significação ou ao uso que dela se faz. R www.esab.edu.br 266 Subjacente Que está ou jaz por baixo. R Superlativo Grau de significação do adjetivo, que traduz uma qualidade elevada à sua maior intensidade. R Teoria da comunicação São estudos acadêmicos que pesquisam os efeitos, as origens e o funcionamento do fenômeno da comunicação social em seus aspectos tecnológicos, sociais, econômicos, políticos e cognitivos. R Vanguardista (de vanguarda) No vocabulário militar, trata-se do pelotão que primeiro avança na batalha. O termo tem sido utilizado como sinônimo de inovação para fenômenos estéticos e/ou artísticos. R Verbo de ligação Verbo que não indica ação, geralmente tendo o significado de permanência (como nos verbos ser, estar, continuar, permanecer, ficar, fazer). Realiza a conexão entre dois termos na Língua Portuguesa, o sujeito e o predicativo do sujeito. R Viés Comporta a ideia de obliquidade, indiretamente. É importante perceber que, conforme a perspectiva com que olhamos para algo, o sentido pode variar ou apresentar dados antes não vistos. R Vimeo Site de compartilhamento de vídeos, no qual os usuários podem fazer upload, partilhar e ver vídeos (http://www.vimeo.com). R www.esab.edu.br 267 Wordpress Aplicativo de sistema de gerenciamento de conteúdo para web (http:// www.wordpress.com). R www.esab.edu.br 268 Referências A VOZ DE GETÚLIO VARGAS. Folha de S. Paulo, 25 jun. 2012. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/1109874-editoriais-a-voz-de- getulio-vargas.shtml>. Acesso em: 25 jun. 2012. A VOZ DO BRASIL. Época, 12 mar. 2012. Disponível em: <http://revistaepoca. globo.com/Revista/Epoca/0,,EDI0-15210-1-152378,00.html>. Acesso em: 25 jun. 2012. (Adaptado.) BUARQUE, C. Budapeste. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. CARVALHO, B. Onze. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. COELHO, T. Fliperama sem creme. São Paulo: Brasiliense, 1984. COMO FAZER UMA ANÁLISE SWOT. Disponível em: <http://gestor.pt/ como-fazer-uma-analise-swot/#ixzz22gqf0pmt>. Acesso em: 19 jun. 2012. COOPERVISION. Instruções para uso de lentes de contato. Disponível em: <http://www.coopervision.com.br/cuidado_instrucoes.php>. Acesso em: 19 jun. 2012. CRAIDE, S. 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