Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

1 
 
 
 
 
 
 
 
Memórias compartilhadas: o reflexo do vivido. 
 
 
 
 
 
 
 
+ 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Catalogação 
 
 
 
 
 
 
 
+ 
3 
 
Escola Municipal Professora Zélia Costa da Cunha 
Por Luana Barros de Azevedo (elaboração) 
Coordenação: Mário Fernandes Sobrinho 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
Colaboradores 
VOLUNTÁRIAS: 
 Marianne Shirley Azevedo do Patrocínio; 
 Samara Macedo. 
 
ALUNOS: 
Alexsandra Teixeira dos Santos – 9° ano. 
Felipe Douglas de Souza Araújo - 7° ano. 
Francicleo Baca Silva, - 7° ano. 
 Igo Neves da Silva – 7° ano. 
Isabelle Kalyne Gomes Dantas – 7° ano. 
Jaedson Dantas do Nascimento – 8° ano. 
José Iranyr da Silva Araújo – 8° ano. 
José Patrocínio Torres Júnior – 9° ano. 
Lorena Carla de Sousa Lima – 9° ano. 
Mike Anderson de Sousa Lima - 9° ano. 
Pâmela Sayonara Gomes da Silva – 9° ano. 
Pedro Vitor Silva dos Santos – 9° ano. 
Railson Santos de Azevedo – 9° ano. 
Raisa de Medeiros Cunha da Silva – 9° ano. 
Raquel Andrêssa Azevedo de Souza – 7° ano. 
Stéfany Laiz Costa de Azevedo – 9° ano. 
Vinícius Azevedo dos Santos – 7° ano. 
Xarlene Charles Azevedo do Nascimento - 9° ano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Por muito que deva à memória 
coletiva é o indivíduo que recorda. Ele é o 
memorizador e das camadas do passado a 
que tem acesso pode reter objetos que são, 
para ele, e só para ele, significativos 
dentro de um tesouro comum”. 
Bosi (1983, p. 333) 
 
 
6 
 
LISTA DE IMAGENS 
 
Imagem 1: Jardim do Seridó/RN vista de cima. 
Imagem 2: Localização de Jardim do Seridó/RN no mapa. 
Imagem 3: Seu Raimundo Rezador (Raimundo Rodrigues do Nascimento). 
Imagem 4: Seu Raimundo (Raimundo Rodrigues do Nascimento). 
Imagem 5: Objetos encontrados por Raimundo Rezador. 
Imagem 6: Evaristo Rezador em sua residência cedendo entrevista para os alunos da Escola. 
Imagem 7: Na imagem, D. Marluce, rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os 
alunos. 
Imagem 8: Na imagem, D. Inês rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os 
alunos. 
Imagem 9: Orações escritas de Raimundo Rezador........................................................ 
Imagem 10: Imagem que retrata os cuidados após o trabalho de parto. 
Imagem 11: Posto de Saúde Parteira Regina Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista. 
Imagem 12: Placa que nomeia a Rua Regina Rebeca, Bairro Bela Vista. 
Imagem 13: Fotografia de Regina Rebeca situada na sala de espera do Posto de Saúde 
Parteira Regina Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista, Jardim do Seridó/RN. 
Imagem 14: D. Maria (Maria de Azevedo Medeiros), em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 15: Hozana Macêdo de Oliveira nos cedendo entrevista em sua casa. 
Imagem 16: Maria da Luz Oliveira de Medeiros cedendo-nos entrevista em sua residência. 
Imagem 17: Margarida Silva dos Santos mostrando o quadro de fotos da sua família. 
Imagem 18: Cícera Maria da Silva, filha de Regina Rebeca, cedendo entrevista em sua 
residência. 
Imagem 19: Lavadeiras. 
Imagem 20: Encontro de matronas, Debret. 
Imagem 21: Lavadeiras, Rugendas. 
Imagem 22: À esquerda, Ildete Gomes, cedendo entrevista. 
Imagem 23: À esquerda, D. Inácia, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 24: D. Severina, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 25: D. Anedina, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 26: D. Josefa, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 27: Ciganos. 
Imagem 28: Ciganos em acampamentos. 
Imagem 29: Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista. 
Imagem 30: Maria Aparecida Araújo de Brito, à direita, em sua residência, nos cedendo 
entrevista. 
Imagem 31: D. Severina, em sua residência, cedendo. 
Imagem 32: Débora Liz Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
Sumário 
 
INTRODUÇÃO_______________________________________________________15 
Enfoque metodológico 
 
CAPÍTULO I - HISTÓRIA DE JARDIM DO SERIDÓ/RN E SUA HERANÇA 
CULTURAL__________________________________________________________20 
Lugar e cultura 
CAPÍTULO II - NA FÉ, UMA ORAÇÃO: OS BENZEDEIROS DE JARDIM DO 
SERIDÓ_____________________________________________________________26 
A prática de reza 
Os benzedeiros de jardim do Seridó/RN 
Como tudo começou - a aprendizagem 
A reza milagrosa 
As rezas, os lugares de reza e os objetos que os acompanham entre outros fatores, o 
preconceito. 
 
CAPÍTULO III - A LUZ DA VIDA: PARTEIRAS DE JARDIM DO SERIDÓ/RN E O 
TRABALHO DE PARTO_______________________________________________46 
Histórias contadas: o reconhecimento do trabalho de parteira 
O ritual de parto e as parturientes 
As parteiras 
 
CAPÍTULO IV - COM ÁGUA, ALMA E MÃOS: HISTÓRIA DAS LAVADEIRAS 
DE JARDIM DO SERIDÓ______________________________________________69 
Do trabalho ao lar: a mulher no espaço social 
Dentre tantas, as lavadeiras. 
Como tudo começou 
O lavadouro 
Tempos de seca, tempos de medo. 
Lavar e engomar: como eram praticados esses ofícios e o resultado desses trabalhos. 
 
8 
 
CAPÍTULO V - ENTRE PASSOS E ESPAÇOS: OS CIGANOS QUE HABITARAM 
JARDIM DO SERIDÓ__________________________________________________92 
Ciganos, filhos do vento. 
Os ciganos sob outra ótica: a passagem dos ciganos em Jardim do Seridó. 
A aparência dos povos ciganos e suas características 
 
LISTA COM NOME DOS GRUPOS, ENTREVISTADOS E ALUNOS DO PROJETO 
“MAIS CULTURA” NAS ESCOLAS DA ESCOLA MUNICIPAL PROFESSORA 
ZÉLIA COSTA DA CUNHA___________________________________________ 115 
REFERÊNCIAS______________________________________________________118 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
 
PRA COMEÇO DE CONVERSA 
Hoje, após vivido meio século, sinto uma constante necessidade de revisitar a minha 
infância, sondar o meu vivido, revisar o inventário de feitos e não feitos que eu e os outros 
deixamos por lá. Sinto que essa necessidade advém do medo que tenho, vez por outra, me 
perder entre práticas e representações que me são estranhas. E por esse medo, eu selo um 
pacto comigo mesmo, para estar sempre avaliando a minha posição no tempo, ligando o meu 
passado ao meu presente, revendo as práticas sociais que foram sendo suplantadas para 
entender a minha posição no mundo, no espaço em que habito. 
Nesse processo, sinto que minha capacidade de surpreender-me com o complexo 
mundo dos que vivem e dos que morrem nunca se esgota e que não importa o rumo que 
tomemos, sempre chegaremos a algum lugar. É verdade, também, que tenho percebido que 
aqueles que seguem um norte definido, conseguem chegar a seu rumo com mais segurança. A 
esses, o destino parece reservar mais glórias e menos cansaço. No entanto, tenho percebido, 
ainda, que aqueles que rumam sem norte é porque, na maioria das vezes, não aprenderam 
ainda a caminhar por caminhos que já foram caminhados, a zarpar de portos que já foram 
zarpados. Eles ainda parecem desconhecer a importância à nossa vida, das experiências que 
foram vividas por aqueles que nos precederam e, por ignorância ou negligência, estão sempre 
a dar saltos no escuro, pegar a estrada sem estar preparado para a caminhada, feito um 
soldado que vai para a guerra vestido com trajes para piquenique. 
É verdade que o mundo hoje é fortemente amparado por facilidades trazidas pelo 
avanço tecnológico e as pessoas findamdeixando às tecnologias a função de guardar 
conhecimentos e atribuições que não deveriam ignorar. No entanto, não devemos creditar às 
tecnologias a culpa pelas anomalias do funcionamento da sociedade dos homens, afinal, o 
homem sempre buscou diminuir o peso do seu fardo e a memória parece ser um deles. Por 
que se preocupar em encher a memória com informações que podem muito bem ser 
arquivadas em registros escritos? O historiador Le Goff(1996) reporta a Platão, em o Fedro, a 
acusação ao deus egípcio Thot, inventor dos números e do alfabeto, a possibilidade do homem 
desenvolver o hábito de guardar suas memórias em sinais estranhos, deixando assim de 
exercitar a capacidade de suas lembranças. 
Esse fato não destitui a importância do processo de arquivamento da memória à 
sociedade dos homens, o que muda, é apenas a forma de conservá-la e, o próprio Le Goff não 
esquece essa peculiaridade ao usar uma citação da carta de Guy, conde de Neve, para dizer 
que “Aquilo que queremos reter e aprender de cor fazemos redigir por escrito a fim de que se 
possa reter perpetuamente na sua memória frágil e falível seja conservado por escrito e por 
10 
 
meio de letras que duram sempre”, Le Goff (1996 p. 450). Seguindo essa mesma lógica, Pico 
Della Miràndola em sua obra “A dignidade humana” faz referência ao esforço do sacerdote, 
Esdras, logo após o cativeiro babilônico dos hebreus, por volta de 538 ac. quando o rei persa 
Ciro, autorizou o regresso desse povo a Jerusalém para juntar os mestres da lei divina e 
registrar aquilo que eles detinham na memória, evitando assim que essas informações não 
chegasse às futuras gerações, visto que os hebreus viviam em constantes conflitos com os 
vizinhos que encontraram em suas terras. Esse esforço de Esdras foi decisivo para o 
surgimento dos livros cabalísticos, livros esses, que trazem conhecimentos que eram passados 
oralmente e que não se encontravam nos livros. 
Sabemos que cada um guarda as suas memórias de forma natural e, a menos que seja 
atingido por algum problema de natureza física ou biológica, ele continuará a fazê-lo sem 
muito esforço, uma vez que as memórias são registros de nossas experiências que vão sendo 
arquivadas ordenadamente, de acordo com o significado e relevância que tenha para nós. À 
medida que o conhecimento que faz parte de determinada memória perde relevância no 
contexto social em que habitamos, e a sociedade capitalista é altamente negligente nesse 
aspecto, a tendência é nos descartarmos dela. 
A lógica capitalista parece justificar essa atitude e para isso não faltam argumentos, 
afinal, a sociedade não pode ficar encalhada em práticas que retardem o seu desenvolvimento. 
Esse é um dos pontos, é verdade, mas, há outros tantos contrapontos que devem ser 
enumerados. Sabemos que seguido a lógica de Halbwachs, as memórias individuais dão 
origem às memórias coletivas e, essas, à memória histórica. Dominar na memória o 
conhecimento da memória histórica é um processo complicado e porque não dizer impossível 
dada a larga produção de conhecimentos que marca a sociedade tecnológica, daí a 
necessidade de eternizar as memórias vividas pelos grupos, dai a necessidade de resgatá-las, 
registrá-las e devolvê-las à sociedade em forma de registros, afinal as lembranças do vivido e 
do feito de alguém estará sempre em algum lugar, presa entre o vivido e o lembrado, prontas 
para serem relembradas e resgatadas. 
A memória é, no sentido aqui adotado, a partir de Halbwachs (2003) e Bosi (1983), o 
reserva de nossas lembranças que cresce “a cada instante e que dispõe da totalidade da nossa 
experiência adquirida”, Bosi (1983 p. 10). Cada memória individual é um fragmento da 
memória coletiva e são as memórias individuais que dão solidez a memória do grupo. As 
memórias do grupo formam a sua identidade cultural. Através da memória do grupo podemos 
conhecer a sua cultura. Entendemos aqui a cultura como Chartier, como “um padrão 
transmitido historicamente, de significados corporizados em símbolos, um sistema de 
11 
 
concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens 
comunicam, perpetuam e desenvolvem o seu conhecimento e as atitudes perante a vida” 
Chartier (2002 p. 67). 
Ao resgatarmos a memória de um grupo, tomamos posse de seu legado, 
compreendemos as especificidades que caracterizam o viver e o morrer desse grupo, daí a 
importância de nos apropriarmos do universo simbólico que se esconde na memória dos que 
não foram ouvidos à construção da história oficial. Sabemos que a tradição histórica 
evidenciou em suas narrativas os feitos dos heróis, reservando o lugar de heróis a reis, 
imperadores ou na falta destes, aqueles que detinham o poder. Aos que serviam foi dado como 
herança o esquecimento ou no máximo, uma memória perdida entre números. O general 
Herculano que avançou rumo norte com dez mil soldados e, graças às suas estratégias 
inovadoras, conseguiu vencer o exército inimigo e trazer um grande espólio ao seu país. 
Hoje a história busca novos enfoques, procura novas personagens, sonda novas fontes 
em busca de respostas para questões não ditas. Para que aproximemos a história do real, não 
basta saber o que fez o general. Precisamos saber o que ouviram os soldados de seus generais, 
os súditos de seus reis, os servos de seus vassalos, os vassalos de seus suseranos. Precisamos 
saber que segredos guardavam os subordinados à revelia de suas vontades, verdades que 
certamente podiam salvar ou ceifar vidas e, que muitas vezes, ditas às pessoas certas, podia 
livrá-los da condição de servos. Por que então silenciavam? Certamente porque o ato de calar 
era o passaporte para conservar a vida, a sua e a dos seus. O que poderemos saber de verdades 
com o resgate da memória desses sujeitos? Que contribuições podemos trazer para a história a 
partir do ressuscitar do discurso do morto? Com certeza poderemos compor uma história com 
fragmentos ajuntados por mãos hábeis de historiadores, investidos por técnicas e métodos 
inovadores que podem dar aos fatos narrados o mesmo sabor das aventuras vivenciadas por 
seus atores. 
Podemos através do resgate da memória recriar cenários extintos, ressuscitar 
lembranças mortas e retratar o estilo de vida de pessoas e grupos que nos precederam. 
Certeau ao evidenciar a importância da memória à história, diz que na memória os fatos e os 
lugares vividos são como presenças de ausência “o que se mostra designa aquilo que não é 
mais”, Certeau (2014 p. 175). Na memória dorme um passado, como nos gestos cotidianos de 
caminhar, correr, e deitar-se, que retrata práticas antigas. A lembrança é somente um 
mecanismo de passagem, que desperta a memória, assim fatos que retemos em nossa memória 
como as conversas ouvidas a meias paredes das casas populares, a imagem da casa materna, 
12 
 
os objetos biográficos, aqueles objetos que envelhecem com a pessoa e que no uso, vai se 
amoldando ao possuidor, representam experiências vividas dos que tiveram contato com ele. 
Esses objetos, no contato constante com as mãos dos que o manuseiam, vão perdendo 
as arestas e se abrandando e ao ser tocado novamente por aquelas mãos, eles têm o poder de 
ativar as lembranças compartilhadas em situações compartilhadas por objeto e usuário. Na 
concepção de Bosi, “as pedras da cidade, enquanto permanecem sustentam a memória”, Bosi 
(1983 p. 363). O som dos objetos contra elas, a sua irregularidade sentida no sapato e no 
pisar, o som da vassoura, da lenha crepitando, da colher no tacho, da roupa se debatendo 
contra o vento do varal, do sino da igreja, do roçar dos galhos nas árvores e do buzinar dos 
carros nas ruas, tudo isso desperta a lembranças e, é nesse sentido, um condicionante ao 
resgatedo passado. 
Ao resgatarmos o passado podemos entender como as pessoas viviam em um dado 
tempo e contexto e, dar significado a essas práticas a partir do contexto que vivemos. Na 
análise historiográfica diz Certeau, “o morto ressurge do trabalho que postulava seu 
desaparecimento possibilitando sua análise como objeto de estudo” Certeau (2013 p. 28). O 
ressurgir do morto e de suas representações tem um papel fundante ao futuro das novas 
gerações, pois oferece o inventário de práticas que possibilitarão o entendimento de como eles 
viveram e as lições que elas poderão tirar desse viver. 
O trabalho desenvolvido ao longo deste livro por Luana Barros e seus colaboradores é, 
antes de tudo, um desafio com sabor de tempo e de saudades. A saudade dos que se foram e, 
suas lembranças, rememorados no discurso dos que ficaram, presos entre a saudade e o desejo 
de não esquecê-los. É um trabalho com gosto de tempo passado, onde a vida foi vivida por 
personagens populares que deixaram por seu viver e seu lidar um exemplo de vida, o legado 
cultural de seu trabalho. É um trabalho com sabor de tempo presente onde ela e seus 
colaboradores a exemplo de arqueólogo, vão com suas espátulas escavado o tempo passado, 
peneirando com suas peneiras o confiável do duvidoso, confrontando discursos, para no final 
da jornada, apresentar ao tempo presente as malhas de que ele foi tecido. O esboço real de um 
mundo presente que não pode esquecer o seu passado, porque disto depende o seu futuro. 
Nesse passado que Luana Barros escava, eu me vejo e me espelho em seu esforço, 
preso entre as minhas próprias lembranças, vencido pela minha memória que já precisa se 
amparar em velhas muletas para caminhar ao passado e lá rever as histórias por ela contada. 
Relembro entre benzedores, as velhas rezadeiras de São José do Seridó, hoje já quase extintas, 
que rezavam para encontrar animais e objetos perdidos, para curar bicheira e para tirar mau-
olhado e espinha de peixe da goela. 
13 
 
Lembro de Maria Bode e de Francisca enfermeira que se doaram a trazer esperança 
num mundo de poucos recursos e muita dor, levando esperança às mães que se entregavam à 
natureza na hora do parir, porque as dificuldades eram de ordens diversas e não havia ainda 
hospitais para socorrer as mulheres em trabalho de parto. Com mais saudade, lembro de Maria 
Preta e tantas outras pretas e brancas, que madrugavam no açude público de São José do 
Seridó para tirar de suas mãos cansadas, embranquecidas pelo sabão de pedra, de pedra 
chamado porque feito em casa com soda cáustica e gorduras de porco, tinha a forma de uma 
pedra redonda das que a gente pegava nas ruas para jogar tila. Muitos filhos, muito aperreio 
de vida e muitas dificuldades que elas superavam com muito trabalho e poucas queixas. 
É impossível não lembrar os ciganos, que vindos por entre o juremal preto e seco, com 
suas tropas de jegues cansados, carregados de apetrechos, panelas encardidas pela fumaça da 
lenha que queimava em trempes improvisadas à sombra de oiticicas, juazeiros e pereiros 
frondosos, cabaças e miçangas com água, redes e roupas, arrumados em velhos caçuás presos 
aos cabeçotes das cangalhas, entre os quais as crianças ciganas dormiam profundo sono como 
se estivessem na melhor das camas. Encompridando o cortejo, burras admiráveis, raros 
cavalos, chegavam ao nosso pacato “seridozinho”, trazendo mulheres misteriosas, velhas 
enrugadas, moças bonitas e, muitos ciganos jovens, que se exibiam para as moças não 
ciganas, com seus violões afinados, cabelos compridos, pretos e lisos e pele queimada pelo 
sol da estrada, estrada que para eles parecia nunca ter fim. 
Como esquecer que em cada pedaço do Seridó, em cada cidade perdida nessa toalha 
de chão pobre e mata rala a vida tinha dinâmica similar. Como diz Bosi, “Na maior parte das 
vezes, lembrar não é reviver, mas, refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de 
hoje, as experiências do passado”, Bosi, (1983 p. 17). E é nesse refazer que reside a 
importância do trabalho aqui apresentado por Luana Barros e seus colaboradores, dentre eles, 
os alunos da Escola Municipal Professora Zélia Costa da Cunha. As lembranças resgatadas 
por eles através dos memorizadores que se dispuseram a colaborar com a pesquisa hora 
esboçada nas páginas precedentes traz ao povo jardinense, ao povo seridoense e porque não 
generalizar, ao povo brasileiro, pinceladas de um modo de vida lançadas sobre a tela do 
tempo, em cujo fundo Jardim do Seridó desponta como um espaço para viver, morrer e 
lembrar. 
Relembrar essas personagens e suas práticas em Jardim do Seridó é resgatar um 
acervo de conhecimentos recheado de práticas e crendices populares de valor inestimável aos 
que continuaram a jornada humana, conhecimentos cujo resgate exige o relato de um estilo de 
vida de pessoas comuns, um modus operandi muito peculiar que só os que viveram com os 
14 
 
mortos e que insistem em não enterrar as lembranças com eles compartilhadas conseguem 
ressuscitá-las. Exige o relato de vida de pessoas que vivos e praticantes do mesmo ofício, 
enriquece o discurso com suas memórias e seu fazer, revitalizando a história real de Jardim do 
Seridó, com passagens e cenas que se perderam no tempo à vista do observador 
Dos ciganos, deixa um registro da convivência deles com os moradores do bairro Bela 
Vista no decorrer de períodos curtos e contraditórios, onde a cultura dos ciganos e a dos 
moradores do bairro é permeada por estranhezas, tolerância e intolerância, algo comum 
quando culturas diversas são levadas pelas circunstâncias a se espremerem no mesmo espaço 
físico, compartilhar os mesmos homens e os mesmos deuses. 
Por último é bom não se iludir, fica também, entre o dito e o lembrado, rastros 
indefinidos na areia, pegadas que não foram fotografadas com precisão, ausência de palavras 
que se ditas, não foram ouvidas e, que, portanto, morreram com aqueles que as pronunciaram. 
Mas isso não deve perturbar o sonho do historiador pois como diz Certeau, existe na obra 
escrita “estranhas e vastas regiões de silêncio” [que] “desenham uma geografia do esquecido”, 
Certeau, (2005 p.73). [Grifo nosso]. 
 
 
 
Jardim do Seridó – RN, 20 de fevereiro de 2015 
Mário Fernandes Sobrinho 
______________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
 
INTRODUÇÃO 
 
“A memória de uma sociedade estende-se até aonde pode, quer dizer, até aonde 
atinge a memória dos grupos dos quais ela é composta. Não é por má vontade, antipatia, 
repulsa ou indiferença que ela esquece uma quantidade tão grande de acontecimentos e 
de antigas figuras” (HALBWACHS, 1990, p. 84). Por sermos feitos de lembranças e 
esquecimentos, nossa memória é limitada a guardar o que acha de mais importante, ou o 
que mais marcou na vida. Ao forçarmos uma lembrança, a memória pode voltar à 
mente, mas não por completo. Nesse viés, Halbwachs nos fala de até aonde a memória 
se estende, ou melhor, o que seria importante para nossa memória gravar e o que 
poderia ser descartável, isto é, baseando-se nos fatores sociais que influenciam o ser 
humano. 
A história, por muito tempo, foi transmitida por gerações através da oralidade, 
que se encarregava de gravar um acontecimento e passar de pai para filho. Muitas 
histórias e acontecimentos não foram escritos, mas ainda se mantêm vivas nas memórias 
de pessoas mais velhas que se encarregam de continuar transmitindo por gerações parte 
da composição de um todo. 
As histórias orais, em sua grande maioria, contam acontecimentos que, para 
muitos, não fazem parte da História, pois acreditam que se tratam de lendas folclóricas, 
dessa forma, poucos são aquelesque se encarregam de trabalhar se baseando em 
memórias, ou seja, histórias contadas. Escrever histórias partindo de memórias passadas 
por gerações é de suma importância, pois isso imortaliza acontecimentos que, para 
alguns, não tem valor histórico ou que antes não eram tidos como importantes, uma vez 
que a história só era escrita com base em documentos oficiais. 
No livro Memórias compartilhada, o reflexo do vivido, falamos sobre a história 
de benzedeiros de Jardim do Seridó, assim como parteiras, lavadeiras e pessoas que 
conviveram com os ciganos que habitaram o bairro Bela Vista. Todas nossas histórias 
serão escritas com base em depoimento de entrevistados que falaram sobre suas 
experiências e um pouco de suas heranças culturais. 
Em nosso primeiro capítulo, trataremos um pouco da história de Jardim do 
Seridó, assim como suas transformações que ocorreram durante o tempo. Tratamos das 
modificações espaciais, pois acreditamos que para falar dos personagens de uma região, 
é de fundamental importância conhecer a história daquele local, pois esta reflete 
bastante na construção de uma pessoa. 
16 
 
Neste livro discutiremos também o conhecimento cultural de Jardim do Seridó e 
suas heranças, porque estas também falam e modificam as pessoas, assim como são a 
base da construção de uma personalidade local. 
Em nossos capítulos decorrentes, encarregamo-nos de falar sobre os 
personagens. Dividimos o livro em cinco capítulos, sendo o primeiro, como 
mencionamos, um resumo do conhecimento regional de Jardim do Seridó; o segundo 
falaremos sobre a cultura e religião, apresentando os Benzedeiros suas heranças de 
conhecimento e uma história de fé e cura contadas partindo do olhar daqueles que 
praticam a reza como dom advindo de Deus. 
No terceiro capítulo, resgataremos a memória de parturientes, que puderam falar 
de grandes parteiras de Jardim do Seridó, pois essas parteiras eram grandes mulheres 
que ficaram conhecidas pelos seus atos de bondade para com a população, assim como a 
crença no dom que seguia elas e aquelas que tinham seus partos feitos pelas mãos das 
parteiras. Escutaremos essas histórias vindas de mães que tiveram seus filhos por 
parteiras de Jardim do Seridó. 
O quarto capítulo ficará encarregado de falar das lavadeiras de Jardim do Seridó, 
assim como seus trabalhos e práticas que eram do lavar roupas. Nesse viés, trataremos 
da discussão de gêneros e trabalhos, assim como a visão que a população tinha com 
relação à mulher e seus trabalhos, as práticas de lavagem de roupa, como elas faziam 
para lavar roupa em períodos sofridos decorrentes da seca, onde eram os locais de 
lavagem e como eram ocupado pelas lavadeiras. Essas mulheres nos contaram cada 
passo do seu trabalho, as modificações que ocorreram durante o tempo e como elas 
faziam para acompanhar essas mudanças. 
 A convivência com os ciganos que habitaram o bairro Bela Vista será o nosso 
último capítulo e tratará de falar um pouco sobre a cultura cigana, assim como o 
conhecimento de sua história, partindo de vivências entre esses grupos de ciganos e 
alguns moradores do bairro. Procuramos saber como é formada a visão da população 
jardinense sobre uma cultura diferenciada das demais. Encarregamo-nos de investigar 
cada ponto de vista das poucas pessoas que conviveram com esses ciganos, assim como 
a visão que os demais tinham sobre eles. Os temas abordados foram das mais variadas 
vertentes que nos fizeram colher informações que variavam desde como se deu a 
chegada dos ciganos e sua permanência, como esses se vestiam e tratavam uns aos 
outros, até saber como era composto o olhar dos demais sobre eles. Nesse capítulo 
17 
 
também tentaremos justificar alguns feitos contados pelas pessoas sobre os ciganos, e 
como é composta essa cultura, para explicar esses comportamentos. 
 
ENFOQUE METODOLÓGICO 
 
O presente livro é o resultado de um trabalho de pesquisa realizado por mim no 
período de agosto de 2014 a fevereiro de 2015 com alunos do 7º, 8º e 9º ano da Escola 
Municipal Profª Zélia Costa da Cunha em parceria com o Projeto Mais Cultura nas 
Escolas, que teve como intuito o resgate da memória popular de quatro grupos da 
cultura popular da comunidade jardinense visando colaborar com a historiografia de 
Jardim do Seridó/RN. No livro está presente história e conhecimento de benzedeiros, 
parteiras, lavadeiras e pessoas do bairro Bela Vista que conviveram com os ciganos que 
habitaram Jardim do Seridó. 
A Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha se encontra localizada no Bairro 
Bela Vista, em Jardim do Seridó. Em 2014 a escola fez adesão ao Programa Mais 
Cultura nas Escolas, O Mais Cultura é um programa do Governo Federal que tem como 
objetivo reconhecer e promover a escola como espaço de circulação e produção da 
diversidade cultural brasileira, desenvolver atividades que promovam a interlocução 
entre experiências culturais e artísticas e o projeto pedagógico de escolas públicas de 
Educação Integral, assim como proporcionar encontro entre vivências escolares e 
manifestações artísticas e culturais fora do contexto escolar. 
Por acordo entre a Instituição Cultural Parceira, na pessoa de Luana Barros de 
Azevedo e pela Escola Municipal Zélia Costa da Cunha representada pelo seu diretor o 
professor Mário Fernandes Sobrinho optou-se pela elaboração de uma pesquisa de 
cunho histórico sobre a memória dos grupos anteriormente mencionados. A opção por 
esta abordagem historiográfica deveu-se às facilidades que ela oferece ao possibilitar 
parte de um conhecimento da cultura local, em processo de fossilização na memória de 
personagens anônimos esquecidos pela história oficial seja resgatado e inserido na 
História cultural desses povos. 
Dentro desta perspectiva, procuramos trabalhar com o conhecimento de 
personagens regionais não estudados, como benzedeiros, parteiras, lavadeiras e ciganos. 
Inicialmente foi desenvolvido um trabalho para preparar os 20 alunos que iriam 
participar do projeto. Foram realizadas 05 oficinas buscando mostrar aos alunos que 
18 
 
toda e qualquer região tem a sua construção histórica que não parte apenas de líderes 
políticos ou pessoas de grande porte financeiro. 
Várias aulas foram elaboradas e trabalhadas em sala com os mesmos. Nas aulas 
foram usados recursos didáticos pedagógicos diversificados, como projeção de slides, 
exposição de filmes, uso do celular e da máquina fotográfica para fotos, gravações e 
filmagens, análises de músicas e de textos que visavam fornecer ao aluno o 
conhecimento da pesquisa, seus dilemas e instrumentos. Buscou-se também com as 
atividades desenvolvidas, trabalhar o senso crítico dos alunos, o aguçamento da 
criatividade e a elaboração de perguntas que seriam usadas nas entrevistas, à coleta de 
informações para elaboração do livro. 
Após as oficinas e produção do material de pesquisa partimos para as entrevistas 
com o pessoal que havíamos definido a priori como referencias básicas ao levantamento 
dos informes que a pesquisa exigia para dar conta dos objetivos pleiteados. Apesar de 
inicialmente acharmos que as fontes para o trabalho que tínhamos em mente eram 
abundantes, logo começamos a enfrentar dificuldades com os guardadores de memória, 
pois constatamos que quanto mais longo o período de morte da memória mais difícil é o 
seu processo de ressuscitamento, pois a quase totalidade dos membros que fizeram parte 
daquele grupo vão sendo também sepultadas pelo tempo e os que vão ficando 
encontram muitas dificuldades para rememorar. Além do desgaste físico e biológico, 
certas memórias são trazidas ao tempo presente com emaranhado de sentimentos que 
vão desde a frustração por só lembrá-las parcialmente, um mistode mágoa e saudades e 
a frustação por ter se separado de tanta gente quando não se queria estar longe. E isso se 
refletia nas frases cortadas sem conclusão, falta de respostas para perguntas elementares 
e a perda do entrevistado no tempo passado, entre uma sombra de dúvidas e um tico de 
certezas, talvez querendo reviver lá no tempo passado com os que tentavam trazer ao 
presente as experiências compartilhadas e os desejos que também foram soterrados pelo 
tempo. 
Para contornar as dificuldades tivemos que redefinir alguns questionários e 
selecionar novas pessoas a serem entrevistadas. O resultado do trabalho obtido pela 
mentora e demais da Escola para com os alunos foi muito positivo, pois promoveu o 
conhecimento da cultura regional desses grupos, evidenciou a importância do trabalho 
em grupo para o reconhecimento do valor histórico, possibilitou a elaboração de 
trabalhos feitos pelos alunos, o envolvimento dos alunos com os personagens da história 
local a qual foi tratada, o conhecimento da importância da memória que se mantém viva 
19 
 
com os mais velhos, o reconhecimento do processo educativo como construção cultural 
em constante formação e transformação, a valorização patrimonial e cultural, 
aguçamento da criatividade perante o processo de ensino e aprendizagem para com os 
alunos. O maior testemunho do sucesso desse projeto será dado por sua produção final: 
A editoração do livro que será doado à comunidade e região. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20 
 
CAPÍTULO I 
HISTÓRIA DE JARDIM DO SERIDÓ/RN E SUA HERANÇA CULTURAL 
 
Quando o século dezoito findava 
Dentre a lusa colonização 
Ó, Jardim, tu nasceste tão alva, 
Na fazenda de gado e algodão! 
Embalaram teus sonhos os coqueiros 
Que, no Cobra, se encontram altaneiros, 
Enfeitando os céus do sertão! 
 
Conceição do Azevedo, 
Terra do amor! 
Teu passado fulgente 
Assegura o teu valor! 
O teu solo e tua gente 
Bem refletem sob o sol; 
Vida e grandeza! 
Salve Jardim do Seridó. 
 
Tu surgiste entre rios e lajedo 
E com fé, muito amor e emoção, 
O segundo Antônio de Azevedo 
Te sonhou: Vila da Conceição! 
Hoje, alegres, teus filhos decantam 
O progresso, a vida em flor! 
Berço amigo de paz e de amor! 
(Hino do município de Jardim do Seridó/ Música: Jaime de Medeiros Brito/ Letra: 
Eurico Guilherme de Amorim Caldas)
1
 
 
 
Imagem 1: Jardim do Seridó/RN vista de cima2. 
 
 
1 Disponível em: http://www.jardimdoserido.rn.gov.br/post.php?codigo=281. Acesso em: 29/12/2014. 
2 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jardim_do_Serid%C3%B3. Acesso em: 29/12/2014. 
21 
 
 O Município de Jardim do Seridó/RN, atualmente, tem mais ou menos 12.540 
habitantes. Ele está localizado na região Seridó do Rio Grande do Norte. Possui uma 
área de 368,647 km² e uma densidade demográfica de 32, 86 hab/km². A cidade tem 
clima quente e semiárido, fazendo parte da caatinga. Seus habitantes, religiosamente, se 
dividem em: católicos apostólicos romanos (11.108 pessoas), religião evangélica (715 
pessoas) e religião espírita (10 pessoas)3. Essa divisão religiosa nos mostra o quanto os 
jardinenses são cristãos e nos ajuda a compreender um pouco seus costumes culturais e 
pontos de vistas. 
 
 
Imagem 2: Localização de Jardim do Seridó/RN no mapa4. 
 
Jardim começou a ser habitada por portugueses por volta do século XVIII. No 
início do século XVI até o século XVIII, os portugueses vinham em grandes levas para 
povoar o Brasil à procura de terra para a plantação da cana-de-açúcar, produto de alto 
valor econômico no período. O plantio da cana-de-açúcar se dava principalmente no 
litoral brasileiro, lugar úmido propício para as plantações. Os únicos engenhos 
instalados no interior do Rio Grande do Norte ficavam em Cunhaú e Uruaçu. Com a 
colonização, também ocorreu o povoamento do interior. O Seridó, lugar não tão 
favorável para a plantação da cana, uma vez que este tinha solos pouco desenvolvidos 
 
3 Todos os dados desse primeiro parágrafo foram retirados do Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística (IBGE). Disponível em: 
http://www.cidades.ibge.gov.br/painel/painel.php?lang=&codmun=240570&search=%7C%7Cinfogr%E1
ficos:-dados-gerais-do-munic%EDpio. Acesso em: 17 de novembro de 2014, 14:05:30. 
4 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jardim_do_Serid%C3%B3. Acesso em: 29/12/2014. 
22 
 
para o tipo de plantação, a forma de sobrevivência se dava através da criação de gado e 
plantio de algodão, essas duas formas ajudavam no sustento do homem sertanejo. 
No período da colonização, conta-nos José Nilton de Azevêdo, que José Antônio 
de Azevêdo Maia e Izabel Pereira Alves Maia, portugueses, apesar de não terem 
migrado para o Brasil, deixaram vir os filhos: Antônio de Azevêdo Maia Júnior e Maria 
de Azevêdo Alves Maia. Ambos vieram por incentivo do tio Capitão Pedro da Costa 
Azevêdo, que lhes arranjou casamentos entre as melhores famílias da terra, e condições 
sociais e políticas. Com o arranjo de casamentos, os Azevêdos migraram para o Seridó, 
onde compraram terras e construíram prole (1988, p. 17). 
Antônio de Azevêdo Maia Júnior, fundador da atual cidade Jardim do Seridó, 
era filho de Antônio de Azevêdo Maia e Josefa Maria Valcácer de Almeida Azevêdo, e 
casou-se por volta de 1767 com Micaela Dantas Pereira. Na década de 1760 e 1770, 
adquiriu, através de compra ao Sargento-Mor Alexandre Nunes Maltez, de Igarassu, 
Pernambuco, a fazenda “Conceição”, onde a nomeou de fazenda “Conceição do 
Azevedo”, fazenda que posteriormente seria Jardim do Seridó. 
Como a Fazenda Conceição do Azevêdo ficava entre dois rios (atualmente Rio 
Seridó e o Rio Cobra), a localização era propícia para algumas plantações e criação de 
gado, sendo por esse motivo, um lugar favorável para se morar. Foi na Fazenda 
Conceição do Azevêdo que Antônio de Azevêdo Maia Júnior constituiu numerosa 
família, e os que por ali passaram foram se alojando às redondezas da vasta terra, com 
isso aumentando a população da região 
A Fazenda Conceição do Azevedo teve seu início onde atualmente se encontra o 
Telecentro da Câmara Municipal. O espaço apesar de ter sido modificado conservou a 
fachada em estilo antigo, remetendo ao tempo que era a primeira casa de Jardim do 
Seridó. Sobre as casas no período da Colonização, Arno Webling e Maria José Webling, 
nos conta que eram casas feitas com segurança para se defender dos ataques indígenas, 
pois eram “rudimentares torres em pedra e cal ou barro sopapado, cercadas pelas 
paliçadas para garantir a defesa” (1999, p. 258). Ainda assim, Webling e Maria José 
Webling nos contam que as primeiras fazendas do período Colonial, de menor porte 
financeiro, eram compostas pela casa principal, do fazendeiro, “os alojamentos de 
vaqueiros e escravos, as oficinas, locais para lavoura de subsistência, currais e 
estábulos” (1999, p. 259). 
A primeira casa da Fazenda Conceição foi construída por volta de 1760 a 1770, 
e era constituída, como nos conta José Nilton Azevedo, com base nos escritos de Olavo 
23 
 
de Medeiros Filho, como sendo “uma casa de taipa ladeada de tijolos com nove portas 
com dobradiças de ferro e, dessas, quatro eram partidas e sete janelas apresentavam 
dobradiças” (1988, p.24). Nesta casa, o patriarca constituiu prole e desenvolveu a 
fazenda. Mesmo sendo uma casa de taipa, a priori, acredita-se que havia outros espaços 
na fazenda para dar suporte à realização das tarefas laborais a exemplode armazéns e 
depósitos e morada para os escravos, pois no inventário da morte de Micaela Dantas 
Pereira, ela deixa alguns escravos como herança à sua prole. Com isso, o inventário de 
Micaela Dantas Pereira nos leva a acreditar que a Fazenda Conceição tinha pelo menos 
a casa central, como já foi descrita acima, uma plantação próxima à fazenda para extrair 
o sustento dos moradores e alimentar o gado, o alojamento para abrigar os escravos e 
possíveis vaqueiros que viessem trabalhar para o fazendeiro Antônio de Azevedo Maia 
Júnior. 
 
LUGAR E CULTURA 
 
Com o povoamento dos municípios pelos portugueses, houve também a 
proliferação da religião católica pelo Brasil, assim como novos costumes, crenças e 
valores foram sendo adaptados e misturados no cotidiano dos nativos que ali habitavam. 
Unzer Emiliano Macedo nos conta que “parte integrante do quadro religioso brasileiro, 
os indígenas tinham suas culturas e crenças antes do advento dos portugueses e do 
catolicismo nas terras brasileiras” (2008, p. 6). Com a vinda dos portugueses, deu-se 
início à construção de capelas, que serviam para suas orações e para o enterramento da 
população, sendo essa uma forma de implantar cada vez mais a religião católica nos 
nativos, catequizando-os. Essas formas eram possíveis porque os líderes católicos que 
vinham para o Brasil, tinham como intuito expandir sua religião além dos horizontes, 
mas isso só era possível quando eles primeiramente se socializavam com os habitantes 
da região. 
Inicialmente, os portugueses se fixavam nas regiões que iriam colonizar, 
posteriormente, construíam suas capelas. Em Jardim do Seridó, não foi diferente. A 
construção da primeira capela se deu pelo referido fundador da cidade, Antônio de 
Azevêdo Maia Júnior, por volta de 1790. É notória a importância da religião cristã, no 
imaginário brasileiro desde o período da colonização. Desde a chegada dos 
colonizadores europeus, aqueles que ocupavam suas terras, logo construíram capelas. 
Com seu altar e santos ia definido o símbolo da religião católica, religião que aliás faz 
24 
 
parte do imaginário jardinense desde o início da colonização, assim como suas práticas 
e formas de rezar, que foram sendo adquiridas desde o começo, sendo considerado um 
aspecto de integração entre as pessoas da região. 
A Fazenda Conceição, com o passar do tempo, foi aumentando sua população e, 
consequentemente, crescendo e se formando vila. Conta-nos Nilton de Azevedo, que foi 
criado na Câmara Municipal, na sessão do dia 25 de abril de 1863, uma postura que 
regulamentava a construção de casas e ruas, em Jardim. Com o crescimento da Vila 
Jardim, tiveram que ser criadas normas para que houvesse organização em sua estrutura. 
Desde o início as casas foram sendo construídas no entorno da Igreja Matriz “que foi o 
chamamento para os fazendeiros fazerem suas casas perto da mesma que oferecia 
alguns atos litúrgicos” (AZEVEDO, 1988, p. 147). 
Dá-se dessa forma, ao que indicam as fontes, o surgimento da urbanização em 
Jardim do Seridó, advindo de ideias das principais capitais do Brasil. A urbanização e a 
instalação de centros comerciais e melhorias sanitaristas eram as formas principais para 
dar início ao desenvolvimento de uma cidade. No início do século XX5, houve o 
desenvolvimento urbano de Jardim do Seridó de acordo com o novo regime político e 
social, tendo assim a construção de novos centros, prédios e casas ao redor da igreja 
Matriz Nossa Senhora da Conceição. Para Gois, 
 
O contexto de destruição do passado colonial e da construção de espaços 
modernos em Recife ocorria na época em que Heráclio Pires freqüentava os 
bancos da Faculdade de Farmácia daquela cidade, sendo a experiência da 
modernidade também vivenciada por aquele jovem estudante jardinense. 
Passados os anos de formação acadêmica, Heráclio Pires retorna à sua cidade 
natal, trazendo na bagagem uma multiplicidade de influências por ele 
vivenciadas, nos planos artísticos, políticos, ideológicos e arquitetônicos que 
atingiram, em cheio, a cidade de Recife, no limiar do século XX (MELO 
apud GOIS, 2012, p. 18). 
 
Com isso a cidade foi se organizando e crescendo. No entanto, mesmo nesse 
período de desenvolvimento, ainda havia ausência de atendimento médico e muitas 
pessoas moravam nos sítios ou bairros um pouco distantes do centro. Quando era 
necessária a ajuda de alguém para a cura de uma doença, as pessoas recorriam aos 
rezadores ou rezadoras que faziam uma oração e benziam o enfermo para que houvesse 
 
5 Durante o período em que Heráclio Pires governou Jardim do Seridó, 1917 a 1930, a cidade teve seu 
desenvolvimento urbano, social e sanitarista, pois o mesmo trazia de Recife ideias de urbanização e 
desenvolvimento (GOIS, 2012, p. 76). 
25 
 
a cura daquele mal. A confiança nesses rezadores se dava desde muito tempo, por 
costumes, crenças, na qual foram passadas por gerações. 
Mesmo se tratando de uma cidade pequena, Jardim do Seridó teve sua ausência 
de atendimento médico, uma vez que a demanda por esses atendimentos eram maiores e 
se davam, primeiramente, em uma casa de caridade como nos conta Nilton de Azevedo 
 
Esta casa foi construída pelo Pe. Francisco Justino Pereira de Brito, primeiro 
Vigário da Paróquia, para funcionar como um hospital, conforme consta em 
seu testamento. Com o passar dos tempos, esta Casa serviu de abrigo aos 
doentes e pobres da comunidade, como também aos peregrinos que por ali 
passassem. Para estes fazia-se coletas de alimentos na comunidade 
(AZEVEDO, 1988, p. 148). 
 
A construção da casa de atendimento médico se deu em 2 de março de 1903 e 
posterior a ela teve também a Casa dos Vicentinos, uma associação de São Vicente de 
Paula, que foi doada por Pedro Isidro de Medeiros (1988, p. 148). Ambas tinham como 
intuito cuidar de enfermos e alguns peregrinos. O atual hospital de Jardim do Seridó foi 
criado apenas na década de 1960. 
 Entender esse desenvolvimento da cidade seus conjuntos urbanos e históricos é 
importante para ressaltar o estético social em que habitam desde muito tempo os 
rezadores (assim como os demais personagens que trataremos nesse livro) de Jardim do 
Seridó. Rever como era formada a atual cidade que estamos tratando é entender como 
se deu a criação das pessoas que aqui trataremos. Compreender o ambiente é também 
notar como se deu a construção do imaginário dessas pessoas, assim como sua cultura, 
costumes, crenças e valores religiosos, uma vez que a igreja desde sempre se encontrou 
entrelaçada com a região. Evaneide Maria de Mélo, que faz um estudo visual das 
paisagens urbanas de Jardim do Seridó, nos diz que 
 
A paisagem é elemento de reflexão espacial, e como tal deve ser considerada 
em referência ao quadro cultura, inter-relacionada às dinâmicas culturais que 
a dimensiona. Na paisagem, integram-se orientações simbólicas ligadas ao 
universo religioso, às tradições e as heranças culturais. 
(...) A paisagem é uma construção social coletiva. Com forma, aparência e 
sentido” (MELO, 2009, p. 41). 
 
 
 
 
26 
 
CAPÍTULO II 
NA FÉ, UMA ORAÇÃO: OS BENZEDEIROS DE JARDIM DO 
SERIDÓ 
 
Já é costume da gente, quando alguém está doente, chama logo o rezador. 
Se o cara tá moribundo, manda chamar Zé Raimundo 
Que é rezador diligente, a todo mundo socorre 
Quando reza o cara morre ou fica bom de repente. 
(Música: Rezador
6
; Composição: Braguinha Barroso) 
 
 
 
 
Imagem 3: Seu Raimundo Rezador (Raimundo Rodrigues do Nascimento)- Rezador de Jardim do 
Seridó/RN, 
Fonte: Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 01 de set. de 2014. 
 
 A prática de reza está presenteno Brasil desde os períodos nativos. Quem 
praticava as orações de cura, eram os indígenas, assim como os africanos vindos no 
período colonial. Era frequente, entre eles, fazer orações a deuses e seus ancestrais para 
que tivessem em troca a realização de algo ou a cura para algum mal. O dom da reza e o 
pedido de ajuda aos superiores espirituais, assim como a utilização de ervas naturais 
 
6 A letra da música supracitada não tem nenhuma associação originária com o rezador Raimundo, na qual 
entrevistamos, de Jardim do Seridó, sendo apenas uma escolha nossa para expor a letra e uma feliz 
coincidência por se tratar de dois Raimundos (o da letra da música e o benzedor que nos cedeu entrevista 
para o presente livro). 
27 
 
(plantas medicinais), são heranças da aprendizagem passada oralmente para os demais 
rezadores. 
 Dividiremos o capítulo em duas partes: a priori, falaremos sobre os rezadores7 e como 
se dá essa prática e esse poder de oração, sua herança cultural e religiosa. Faremos isso com 
base em artigos que falam sobre oradores de outras regiões do Brasil. Posteriormente, 
daremos início ao discurso dos rezadores de Jardim do Seridó/RN, e uma análise nas falas 
desses cinco rezadores que foram entrevistados por mim e pelos alunos da Escola Municipal 
Professora Zélia Costa da Cunha. 
O intuito principal é resgatar esses conhecimentos de nossa região que estão se 
extinguindo, visto que eles ainda estão presentes, mesmo num tempo em que 
recorremos cada vez mais às tecnologias. Diferenciaremos também cada prática e em 
que consiste as mesmas. 
 
A PRÁTICA DE REZA 
 
Desde o período colonial, portugueses, indígenas e africanos acreditavam que a 
doença era algo de magia má, que deveria ser curada através de orações ou pedidos a 
forças superiores. Sendo assim, o que seria rezado em uma doença, poderia ser aplicado 
em várias outras, no entanto, com o auxílio de ervas, cada doença tinha sua 
especificidade e oração. Com isso, acredita-se que os benzedeiros herdaram de um 
misto africano, indígena e europeu a habilidade de curar através da reza, já que não 
havia hospitais. 
Nesse cenário, as casas de caridade, fundadas através de irmandades e pessoas 
que tinham por livre e espontânea vontade, ajudar ao próximo era o socorro imediato 
aos que precisavam de ajuda. Segundo ArnoWehling e Maria José Wehling, “a 
assistência hospitalar na Colônia limita-se a algumas poucas unidades. Eram quase 
sempre hospitais militares, ou ligados às Santas Casas de Misericórdia” (1999, p. 272). 
Para o autor, não havia o consenso de que a saúde fosse obrigação do estado dai a 
inexistência de serviços dessa natureza. 
Como foi mencionado acima, havia casas de caridade em Jardim do Seridó, e 
posteriormente a isso, um hospital para tratar de doentes. No entanto, era comum as 
 
7 “Rezadores”, “benzedeiros”, “benzedores” ou “curandeiro” vai ser a variação de termos que adquirimos 
para falar das pessoas que curam através da oração. Trataremos assim ambos os gêneros: homens e 
mulheres que praticam esse ato. 
28 
 
pessoas recorrerem a rezadores e rezadoras para a cura de um mal ou de um enfermo, 
uma vez que atendimentos médicos eram mais difíceis e as pessoas acreditavam muito 
mais no poder da oração e na cura através de ervas e chás medicinais. Não se questiona 
a formação dos médicos que habitavam Jardim do Seridó, e mesmo eles já estando em 
atividade no meio do povo esses rezadeiros ainda eram o referencial para aqueles que 
estavam doentes ou que tinham familiares doentes. A aprendizagem dos médicos se 
dava por meio científico/acadêmico, já os rezadores aprendiam com vizinhos, 
familiares, conhecidos ou até mesmo com um desconhecido que queria “passar a reza8” 
para eles. 
A religião cristã está presente no imaginário dos jardinenses desde o começo da 
colonização, assim como os saberes nativos e africanos que foram passados por 
gerações. Isso se dá porque a religião popular brasileira é sincrética9 desde o princípio, a 
crença popular que aqui se desenvolveu unia santos católicos, deuses indígenas e orixás 
africanos. Nesse aspecto em particular ArnoWehling e Maria José Wehling (1999 p. 
249), enfatiza que apesar dos esforços empreendidos pela igreja, a população europeia 
trouxe para o Brasil práticas religiosas da igreja medieval com um forte teor místico que 
possibilitou a fusão de suas devoções e superstições a praticas assemelhadas das 
comunidades indígenas e negras e a formação de uma “catolicidade popular” mística, 
devota e supersticiosa. 
Os rezadores que nós entrevistamos se dizem católicos, muitas vezes não 
praticantes, por questões ligadas à saúde e à idade, que os impedem de frequentar a 
igreja e assistir às missas. Eles nos disseram que por essas questões ficam em casa e não 
podem ir à missa. Mesmo assim, eles têm fé em Deus e usam o nome de Jesus Cristo e a 
Virgem Maria em suas orações. Nesse sentido, podemos notar que a religião católica é a 
que se faz mais forte em seus hábitos de reza. 
O hábito de curar através de orações e rituais são bem mais antigos que se 
imagina. Um ritual de cura bem conhecido se chama “pajelança”, o qual consiste em 
 
Uma prática religiosa que reúne aspectos e elementos do catolicismo popular, 
das culturas indígenas e africanas e da chamada ‘medicina popular’. Um de 
seus princípios é a cura de doenças físicas e espirituais, baseada no 
tratamento do corpo com a utilização de ervas terapêuticas. O manejo dessas 
plantas transcende o valor de uso, posto que tais recursos possuem valor 
simbólicos e espiritual (MOTA; BASÍLIO, 2008, p. 1). 
 
8 “Passar a reza” é o hábito de passar o seu conhecimento sobre orações as práticas de como rezar para 
uma outra pessoa. Segundo os entrevistados, isso só é possível quando a pessoa já se encontra muito 
velha, sem ter mais capacidade de rezar. 
9 Várias doutrinas diferentes fundidas em uma só. 
29 
 
Essas formas de benzimento10 são práticas antigas utilizadas por várias culturas 
de diversas formas e crenças, e sempre contam com o auxilio de alguma forma da 
natureza, como ramos de plantas. O intuito é sempre trazer energias positivas, curar e 
proteger espiritualmente os seres de um possível mal. Essas práticas fazem parte de um 
sincretismo religioso, no qual, como já foi exposto, é o que compõe a religiosidade 
popular. A fé advinda de tempos, e a crença na cura através da oração, fazem parte do 
imaginário brasileiro desde os períodos nativos. A pajelança consiste em práticas 
religiosas de cura tanto espiritual quanto física na qual podemos identificar algumas 
semelhanças com a de nossos benzedores de Jardim do Seridó. O hábito de rezar com 
um galho de planta, as orações algumas vezes ditas em baixo tom e a recomendação de 
chás medicinais fazem parte do cotidiano do rezador. Mesmo depois de tanto tempo, 
notar essas utilizações é importante para compreender em que consiste a formações de 
nossos benzedores. 
Não se estar aqui dizendo que os rezadores de Jardim do Seridó praticam a 
pajelança, até porque no discurso eles são católicos e se reconhecem assim. O que 
pretendemos mostrar é o quanto essas práticas populares de benzeduras se assemelham 
à pajelança, no entanto, é importante destacar que a pajelança também contém, em seus 
rituais, transes e batuques, o que se diferencia das rezas aplicadas pelos benzedores de 
Jardim do Seridó, pois esses só utilizam ramos de plantas, agulhas, linhas e orações para 
a cura de um mal. O que pretendemos mostrar é a semelhança entre práticas religiosas 
para poderentender os benzedores. 
A aprendizagem desses benzedeiros e benzedeiras é possível através da 
oralidade, ou seja, seus domínios e orações são ensinados às pessoas por meio da fala. 
Os entrevistados chamam de “passar a reza” esse conhecimento do curar. Eles também 
nos dizem que só é possível passar a reza para o sexo oposto, mulher só pode passar 
para homem e vice-versa, caso contrário, quebra a corrente ou perde a força da reza. Há 
aqueles que acreditam que para rezar deve-se nascer com o dom da cura. 
A prática de reza entre nossos entrevistados começou através de uma 
necessidade do benzedeiro que passou a reza, ou daquele que aprendeu. Alguns que 
passaram a reza fizeram isso por motivo de idade avançada, que o impedia de continuar 
rezando; e os que aprenderam sozinhos fizeram isso por necessidade de cura entre as 
pessoas da família e afins, ou se via com o dom para isso. Essas práticas, como 
 
10 Ato de curar através da reza. 
30 
 
observamos, não foram necessariamente passadas por familiares, mas, em sua maioria, 
por desconhecidos. Essas formas de propagação do conhecimento da reza são 
transmitidas através da fala, por ser assim a melhor maneira de ensinar as práticas de se 
rezar e, ocasionalmente, por se tratar de pessoas iletradas11. 
Essas práticas como citamos acima, foram passadas por conhecidos ou 
desconhecidos, não sendo, necessariamente, da família do rezador, no entanto, vale 
ressaltar que nem todos precisaram conviver com outros benzedeiros para adquirirem 
esse conhecimento. Como já foi dito, eles acreditam que para rezar e curar, é necessário 
ter um dom, nascer com ele, por esse motivo, para ser rezador não é necessário conviver 
com outros rezadores. 
Por acreditar nesse poder, ou dom de cura, os benzedeiros e benzedeiras 
entrevistados afirmam que não fazem cobrança alguma por seus trabalhos. Dizem que 
as curas vêm através da reza, da oração, e da fé. Declararam que quem cura é Deus 
através deles. Quando as pessoas insistem em pagar de alguma forma pela benzedura, os 
mesmos dizem que aceitam ajuda ofertada através de alimentos ou algo parecido. Não 
aceitam dinheiro, pois esta seria uma forma de usar o poder de Deus para adquirir 
proveito, o que não seria certo. 
Suas orações são ditas em voz baixa e só valem para aqueles que acreditam no 
poder delas. Desde o começo os mesmos afirmaram que o que cura é a fé em Deus, 
primeiramente, e a crença naquelas orações. O ato de rezar em baixo tom não foi 
explicado por eles, mas a maioria acredita que a oração, para valer, não precisa ser 
contada em voz alta, em contra partida a isso, alguns rezadores dizem que a oração deve 
sim ser ouvida por aqueles que são bentos, caso contrário, não teria efeito, soma-se a 
isso, a crendice de que o domínio da reza de um rezador por alguém do sexo oposto 
neutralizaria o poder dessa oração. 
Os rezadores de Jardim do Seridó, que entrevistamos, utilizam galhinhos de 
plantas para passar por cima da pessoa enquanto fazem a oração. As plantas variam para 
cada rezador. Uns dizem que pode ser qualquer galhinho que abençoa do mesmo jeito, 
outros disseram que tem que ser um específico, mas trataremos melhor desse assunto 
posteriormente. A respeito do motivo de utilizar as plantas para o acompanhamento das 
orações, os mesmos não nos informaram, no entanto, disseram que a planta ajuda na 
transmissão do poder da oração, trataremos posteriormente sobre esse assunto. 
 
11 Iletrados são aqueles que não sabem ler e escrever, por isso transmitem seus conhecimentos através da 
fala. 
31 
 
OS BENZEDEIROS DE JARDIM DO SERIDÓ/RN 
 
Os benzedeiros de Jardim do Seridó/RN que entrevistamos, juntamente com os 
alunos da escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha, encontram-se no bairro Bela 
Vista, com exceção de Seu Raimundo Rezador (Raimundo Rodriguez do Nascimento), 
que mora no bairro Baixa da Beleza. 
 
COMO TUDO COMEÇOU - A APRENDIZAGEM 
 
 Os rezadores contam que suas aprendizagens, de orações, se deram através de 
histórias bonitas. Seu Raimundo Rezador (Raimundo Rodrigues do Nascimento) nos diz 
que aprendeu a rezar com uma mulher, sua avó, diz também que quem o botava para 
rezar era sua mãe12, fazendo-o rezar toda noite, antes de dormir. “E eu aprendi a rezar 
tinha meus 15 anos”, conta-nos seu Raimundo, e continua dizendo 
 
Mas aí só comecei a rezar direito em 1984, porque apareceu uma senhora 
com uns 75 ano, disse que eu tinha que rezar e eu ia morrer num primeiro do 
mês13, rezando. Não. Aí disse que com três dia eu achava uma cruzinha e 
outro objeto e “gostado” aí começasse a rezar. Com três “dia” eu ia pra casa 
de “Pedrim”. Nesse tempo num tinha aquela padaria não, achei a cruz e o 
outro objeto. Aí cheguei na casa de uma senhora, aí uma mulher disse: 
Rapaz, minha bichinha14 tá muito doentinha, vamos rezar nela? No outro dia 
amanheceu boazinha. Aí continuei a rezar. Até hoje (Raimundo Rezador. 1 
de set. de 2014). 
 
Seu Raimundo reside em Jardim do Seridó, como já foi dito, no bairro Baixa da 
Beleza, onde é frequentemente procurado pelos moradores da cidade e da região. 
Natural do Sítio Catururé, situado no mesmo município, se diz católico não praticante, 
“eu ia muito, mas aí diminui mais porque depois que a gente fica velho, fica cansado 
né?!” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Seus santos de devoção são: Nossa 
Senhora do Desterro e Nossa Senhora Aparecida. 
 
 
 
12 Aqui entendemos sua fala como: rezar para si e não para curar ou benzer os outros. 
13 Coincidentemente, foi dia 1º de setembro de 2014 que nossa entrevista foi realizada com o mesmo. 
14 “Minha bichinha”, nesse caso, é uma forma carinhosa de chamar uma menina ou mulher. 
32 
 
 
Imagem 4: Seu Raimundo (Raimundo Rodrigues do Nascimento)- Rezador de Jardim do Seridó/RN, 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 01 de set. de 2014 
 
Pelo que entendemos, Seu Raimundo aprendeu a rezar em pessoas, sozinho, 
após uma “visão” de uma senhora desconhecida15 na qual ela o dizia que o mesmo iria 
começar a rezar após encontrar dois objetos, sendo esses: uma cruz e uma medalhinha 
com a imagem de uma santa ou um santo muito desgastada. 
 
Imagem 5: Objetos encontrados por Raimundo Rezador 
Fonte: Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 01 de set. de 2014 
 
 
15 Quando perguntamos quem seria essa mulher, ele nos respondeu: “conhecia não, mas era uma pessoa, 
assim, de uns 75 ano. Num vou dizer que era coisa (ele quis dizer alma ou espírito), que eu não vi direito 
né?! Aí quando foi no derradeiro de outubro do ano passado pra entrar o mês de novembro ela tornou a 
vim. Eu perguntei o que era que ela queria três vez, ela calada, aí eu: quem pode mais do que Deus? Ela 
disse: ‘Ninguém’. Aí eu disse: Apois diga o que é. Ela disse: ‘Vim dizer que você vai morrer num 
primeiro do mês’. Eu disse: Pronto, é amanhã, que já é primeiro do mês” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 
2014). 
33 
 
 Sobre esses objetos, perguntamos se ele sempre andava com eles, e este nos 
respondeu: “direto; só quando eu morrer sai do meu bolso e vai comigo lá pro 
cemitério. Se eu perder, endoideço. Quando eu tiro isso aí do bolso, já tô vendo a 
melhora, graças a Deus!” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). A primeira reza se 
deu através da necessidade de uma pessoa doente. O mesmo nos disse que sua prática de 
curar através das orações “é de família16”. Quando perguntamos se ele conviveu com 
rezadores, ele nos responde: “só o povo da minha família mesmo. Era bisavó, minhaavó, minha mãe, oito tia, oito tio... tudo rezava” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). 
Dentre mais sete irmãos, tendo morrido seis e restado apenas ele e uma irmã, só Seu 
Raimundo é quem exerce, atualmente, a prática de rezar nas pessoas. 
Seu Evaristo Rezador (Evaristo Euzébio de Araújo, 72 anos), como é muito 
conhecido pela população, reside no bairro Bela Vista, é devoto de São Francisco e se 
diz católico fervoroso, por acreditar muito em Deus. 
 
 
Imagem 6: Evaristo Rezador em sua residência cedendo entrevista para os alunos da Escola Municipal 
Profª Zélia Costa da Cunha. Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 21 de ago. de 2014 
 
Ao perguntarmos ao Seu Evaristo se ele já conviveu ou conhecia outros 
rezadores, quando novo, o mesmo nos responde: 
Conhecia. Quando mãe era do tamanho desses meninos, você mesmo (aponta 
para as crianças que estão a sua frente, e para o que está ao seu lado, como 
mostra a imagem acima), uma vez ela mandava a gente pra uma rezadeira, 
 
16 O que quer dizer que outras pessoas de sua família também rezam. 
34 
 
rezar, lá no sítio, aí quando ela começava a rezar, pelo menos eu, prestava 
atenção porque tinha vontade de ser rezador, de ser curador, prestava atenção 
e ia sempre aprendendo aquelas reza que ela tava rezando. E com isso 
aprendi (risos) (Evaristo Rezador. 21 de ago. de 2014). 
 
Seu Evaristo diz que aprendeu a rezar olhando a sua mãe, desde muito novo, no 
entanto, só começou a rezar em pessoas somente aos 60 anos. Sua convivência 
atualmente com outros rezadores também é frequente. Como no dia em que fomos 
entrevistá-lo, ele estava doente do braço, o mesmo nos disse que tinha ido à casa de Seu 
Raimundo Rezador para que este o rezasse: “sim, eu ontem tive lá em Seu Raimundo 
que ele foi rezar nesse meu braço da queda. Aí, eu fui pra ele me rezar, sabe?! Pra ele 
coser porque eu não podia coser, e ele coseu muito bem e hoje eu tô bem melhor, graças 
a Deus!” (Evaristo Rezador. 21 de ago. de 2014). 
D. Marluce (Maria de Azevedo Dias, 68 anos), rezadora que reside no bairro 
Bela Vista, se diz católica fervorosa: “eu não perco nada na Igreja. É quinta, segunda, 
domingo... Isso aí é indispensável. Se eu pudesse morar lá, eu ficava lá, num saía... 
(risos)” (D. Marluce. 28 de ago. de 2014). 
 
 
Imagem 7: Na imagem, D. Marluce, rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os 
alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 28 de ago. de 2014 
 
Devota de Nossa Senhora Aparecida, D. Marluce nos diz que conviveu com 
outros rezadores quando jovem 
 
Quando eu tinha uns 25 anos, em Minas Gerais. Um senhor de 80 anos. Ele 
era rezador profissional. Eu vim embora aqui pra o Norte aí eu disse: 
Sebastião Faria, o senhor faz questão de me ensinar essas reza? Ele disse: 
35 
 
“Não. Vou ensinar umas reza pra olhado, pra vento caído, de engasgo e rezar, 
assim, em animais” (D. Marluce. 28 de ago. de 2014). 
 
D. Marluce nos conta que a princípio não teve muita fé no que foi ensinado, 
mesmo partindo da mesma a vontade de aprender as orações, até que um dia foi 
necessário pôr em prática seus conhecimentos e sua fé, rezando em alguém que 
necessitasse: “aí eu não dei crença (ela diz isso referente à crença no que foi ensinado 
para curar). Eu queria... Eu ensinei (quis dizer “aprendi”), mas não dei crença. Aí 
Boneca, uma vez, ficou muito doente, nós morava num sítio deserto, aí eu fui, criei 
aquela fé e rezei. No outro dia ela amanheceu boazinha, aí pronto” (D. Marluce. 28 de 
ago. de 2014). Desde então, D. Marluce não deixa mais o ofício de rezadora. 
Ao contrário de D. Marluce, que teve vontade de aprender a rezar em pessoas, 
D. Inês (Inês Azevedo dos Santos, 65 anos), rezadora residente no bairro Bela Vista, 
contou-nos que sua aprendizagem para ser rezadora se deu de certa forma, inesperada. 
 
 
Imagem 8: Na imagem, D. Inês rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os alunos 
da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 27 de ago. de 2014 
 
Católica e muito crente em Deus, D. Inês é devota de Nossa Senhora da 
Conceição. A mesma nos conta como se deu sua primeira experiência com a reza e 
quem ensinou as práticas: 
 
Um ceguinho foi quem me ensinou, foi um ceguinho. Tinha 19 anos quando 
ele me ensinou, era bem novinho ele, tinha uns 21 anos. Eu não sei de onde 
era não, ele tava lá no hotel, naquele hotel que era antigamente sabe? Aí, eu e 
as meninas fomos lá... era muita gente lá, aí eu cheguei lá, era ele (o ceguinho 
36 
 
rezando). Aí ele foi me chamou (inesperadamente) e me ensinou a rezar. Ele 
tava lá pedindo auxílio (ajuda) sabe? Eu fui, dei uma pratinha a ele, aí ele foi 
me chamou lá dentro. Ele me chamou dentro de um quarto, eu tava até com 
medo porque era uma pessoa desconhecida chamar a pessoa dentro de um 
quarto né? Aí lá ele disse: “minha filha vou lhe ensinar essas orações, você 
vai aprender para sempre essas orações”. Eu disse :“nam, nam, num aprendo 
não que eu num sei, eu sou muito atrasada. Ele disse: “aprende”, aí ele me 
ensinou três vezes, me deu a oração, me ensinou três vezes eu aprendi, até 
hoje... ele me chamava minha filha, me chamou minha filha. Ele era cego que 
os olhos dele era estufado, eu acho que ele tinha uma luz muito grande, 
n’era? Eu acho que ele foi mandado por Deus aquele ceguim, eu acho. É, 
porque um milagre daquele né? Aí até hoje quando eu morrer ainda quero 
ficar rezando lá onde eu tiver, se Deus quiser (D. Inês. 27 de ago. de 2014 ). 
 
Como já foi citado, os rezadores praticam esse ato até verem que não podem 
mais, seja por motivos de doença ou velhice. Seu Raimundo nos diz que só para de 
rezar quando morrer, pois o mesmo acredita que o que o faz rezar e curar as pessoas é 
um dom que nasceu com o mesmo, e explica que a importância de ser rezador é “ter 
muita fé em Deus e... rezar com fé em Deus. Porque rezando sem ter fé... É mesmo que 
não rezar em nada” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014), e ressalta que não cobra por 
reza, mas que aceita ajuda às vezes, sendo essas através de alimentos ou algo parecido. 
Não aceita dinheiro. Diz também que vez por outra nem gosta de aceitar essas ajudas, 
pois rezar é um dom e não deve ser cobrado: “porque eu num tenho fé, a pessoa rezar 
cobrando ou pedindo as coisa não” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Ele diz que 
é uma felicidade rezar e ver que alcançou a graça, assim como também nos disse que 
muita coisa mudou em sua vida, hoje ele é mais feliz. 
 Assim como Seu Raimundo, Seu Evaristo nos diz que rezar, para ele, é um dom 
e que fica feliz por ver o paciente feliz e curado. Para ele, o pagamento se dá através do 
agradecimento. Não aceita dinheiro. Para D. Marluce, rezar é “pra quem tem fé. Se tiver 
fé, cura; mas se não tiver, é perdido”, e ressalta falando sobre a reza que é cobrada: “por 
dinheiro não tem valor. Reza que disser: ‘É tanto!’ Aí você já sabe que não serviu de 
nada a reza. Reza é aquela que Deus deu que não precisa de pagamento. Pagamento já 
não serve, não valeu nada” (D. Marluce. 28 de ago. de 2014). Assim como D. Marluce, 
D. Inês nos deixou bem claro que muitos rezadores fazem isso por dinheiro, no entanto, 
a mesma reza de graça: “reza por dinheiro (falou de rezadores que a mesma conheceu). 
Só eu que rezo de graça” (D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
Os rezadores que entrevistamos, acreditam que a reza deve ser feita por vontade, 
fé e não por cobrança. Os mesmos creem que para rezar deve ter um dom vindo deles, 
um dom espiritual, e, não deve se tirar proveito financeiro disto. Ao fazer uma cobrança 
37de dinheiro a um cliente, o rezador estaria fazendo mau proveito de seu dom, que seria 
errado, pois este dom foi presenteado por Deus para ajudar ao próximo. Quando 
perguntamos mais uma vez se D. Inês rezava por dinheiro, ela nos respondeu: 
 
Rezo não, agora a maioria das pessoas me dar alguma coisinha, porque por certo tem 
consciência, né?! Que ficou boa, tem o prazer e sempre me dar, porque o rezador 
que me ensinou disse a mim que eu num cobrasse nada de ninguém, nem rezasse em 
gente tando bebendo, sabe?! Agora se quem tiver a consciência e quiser me dar e eu 
receber... se eu recebesse algum dinheiro, era pra comprar alguma coisa de comer 
(D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
 
 Sobre esse dom e o trabalho gratuito atribuído pelos rezadores, Francimário 
Vito dos Santos, que trabalhou os rezadores de Cruzeta, baseado nos escritos de 
Quintana, nos diz, que: 
 
Uma cobrança por parte da benzedeira viria a manchar, a sujar tanto o 
trabalho realizado como a imagem de quem o realiza. Ao colocar um preço e 
vender os seus serviços, ela estaria deixando de ter as qualidades de bondade 
e pureza, as quais lhe possibilita sustentar um lugar especial em manter o 
dom (QUINTANA apud SANTOS, 2007, p. 110). 
 
Os clientes que levam presentes para seus rezadores fazem isso porque 
acreditam que ficam em dívida, de alguma forma, por aqueles que os tratam tão bem e 
ainda, assim, curam. É a política de trocas: faz por mim, que eu faço por ti. Sobre essa 
troca de favores, Francimário Vito dos Santos nos diz que “a obrigação de dar e retribuir 
elementos cruciais da dádiva estão nitidamente presentes no processo da benzeção, tanto 
por parte da rezadeira, quanto por parte da clientela” (2007, p. 111). Dessa forma, 
pudemos notar que os pagamentos oferecidos para os rezadores, que entrevistamos, 
sempre aparecem em forma de um presente, ou de uma caridade ofertada humildemente 
por aquele que foi curado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
A REZA MILAGROSA 
 
Como foi exposto, os rezadores não cobram pelo trabalho, porque acreditam que 
o que fazem é por meio de um dom cedido por Deus. Ainda assim, para que a reza seja 
conhecida, devem haver os “milagres populares”, males que foram curados através de 
rezas. Pessoas doentes que acreditam ficar boas apenas com rezas são as que mais 
procuram esses rezadores. Além disso, há aqueles que os julgam mal, pois não 
acreditam nesse dom ou na sua religião, os vê-los de forma pecaminosa (pecadora). 
Sobre a reza milagrosa, perguntamos à D. Inês se alguém já falou que a reza dela 
era milagrosa e ela nos diz: “já acham que eu rezo muito bem” (D. Inês. 27 de ago. de 
2014). Esta nos contou que para rezar, deve ter o dom da bondade e também ser muito 
forte (força espiritual). Ela nos conta: “rezar num é todo mundo, pra todo mundo não. 
Rezar tem que precisar saber rezar, né?! Precisa ter muita fé em Deus e muita coragem 
pra rezar porque tem muita gente perigosa (no sentido de ser carregada com energias 
negativas) que a pessoa reza viu. Tem gente que se manifesta, desmaia, tudo tem” (D. 
Inês. 27 de ago. de 2014). Ao perguntarmos se já houve casos de manifesto por parte da 
pessoa que D. Inês estava rezando, ela nos conta: “já passei por duas, que as minhas 
orações é muito forte, eu acho que elas (a respeito do poder bom das orações) tão 
carregada de alguma coisa, sabe? Aí por certo encosta alguma coisa, aí elas (as pessoas 
que possivelmente estejam carregadas de algum mal) cai, quer se manifestar, quer bater 
na pessoa, mas num bate não porque Deus num quer” (D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
 Em conversa com seu Raimundo, quando perguntamos a ele se alguém já 
havia chamado sua reza de milagrosa, o mesmo nos responde: “muitas, num foi só uma 
não, foi muitas já” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Mesmo sendo tida como 
milagrosa a sua reza, seu Raimundo nos diz que sempre recomenda a ida ao médico 
para que seja feita uma revisão do que possa ser a doença. Ele nos fala sobre um caso 
com uma criança que foi levada pelo pai, em sua residência, para que fosse curada 
através da reza: 
 
Pronto aquele fi de Seu Agripino, chegou aqui era doze e meia da noite com a 
menina escangotada17 aqui. Aí pediu desculpa, disse: “desculpa eu vim aqui 
numa hora dessa”; Eu digo: Pode entrar! Ele entrou, eu rezei na menina, e 
disse: Agora vá daqui pro hospital que essa menina tá muito doente. Era com 
um olhado, escangotada e roncando. Ele disse: “Ela num tinha olhado?”; Eu 
 
17 Com má expressão, acabado. 
39 
 
disse: Tem! (O pai da menina disse:) “Apois eu num vou não”. (Seu 
Raimundo disse:) Rapaz, vá que é mió! (O pai da menina disse:) “Vou não!”. 
No outro dia quando chegou, a menina foi quem desceu primeiro do carro e 
entrou correndo aqui pra dentro de casa, boazinha, graças a Deus (Raimundo 
Rezador. 1 de set. de 2014). 
 
Em entrevista, perguntamos o mesmo para D. Marluce, se já comentaram que a 
reza dela era milagrosa, esta nos respondeu: “milagrosa (balança a cabeça 
afirmativamente)! Pergunte a Maurílio (seu marido), pergunte a muitas pessoas. Têm 
tanta fé que às vezes manda rezar, eu nem rezo, chega aqui e diz que ficou boa” (D. 
Marluce. 28 de ago. de 2014). Além disso, D. Marluce sempre reza para seus familiares, 
como nos conta: “Jubiam (seu filho) nunca desemprega, ele não fica desempregado... Se 
ele passar um dia desempregado, eu rezo tanto que ele desemprega hoje, amanhã já tem 
quatro, cinco trabalho. Tá vendo como eu tenho fé?!” (D. Marluce. 28 de ago. de 2014). 
 O que podemos notar é a fé que parte dos rezadores e de quem os procura. Seu 
Evaristo diz que a melhor forma de pagamento é quando a pessoa que estava doente, 
passa em sua casa e deixa a notícia que ficou boa. Os resultados são mostrados pelas 
pessoas que ficaram curadas e não apenas pelos rezadores. Isso é o que faz deles, 
pessoas conhecidas e abençoadas. 
 Seu Evaristo nos disse que descobre quem está com encosto, quebrante, mau-
olhado e até catimbó ou bruxaria. Ao perguntarmos se apareceu alguém com encosto, e 
se ele sente isso, o mesmo nos respondeu: 
 
Ah, já chegou duas aqui... (risos). Já chegou duas pessoa aqui braba. Sinto, 
porque vem em cima da gente. Porque quando as pessoa chega... que nem 
veio uma mocinha como você (aponta para uma aluna), uma jovem assim, 
chegou com um encosto de um padre, braba, virada num cisco, num queria 
nem entrar dentro de casa. Aí eu disse: entre com os poder de Deus que Deus 
vai lhe curar. Aí, ela, a madrinha dela e a mãe dela entrou com ela e sentou 
mesmo aí (aponta para o sofá que está a sua frente). Aí, ela braba, virada num 
cisco. Quando eu rezei ela muitas vezes, eu perguntei: quem que pode mais 
do que Deus? Aí elas disseram: ‘ninguém!’. Até ela mesma respondeu. Aí eu 
perguntei mais duas vez. (Ela respondeu:) ‘Ninguém!’. Pronto, ela ficou 
boazinha. Eu mandei o espírito ir pros Reino dos Céus, conversar com Deus 
(Risos) (Evaristo Rezador. 21 de ago. de 2014). 
 
Podemos observar que Seu Evaristo, ao me rezar18, começou a suar e respirar 
fundo. Ao final da reza, perguntei o que se passava com ele e este respondeu que tudo 
de ruim que está na pessoa, vai para o rezador. Mesmo assim, para eles é uma graça de 
Deus ser rezador e praticar este ato. 
 
18 Não podemos gravar o momento da reza, pois este não nos autorizou. 
40 
 
AS REZAS, OS LUGARES DE REZA E OS OBJETOS QUE OS ACOMPANHAM 
 
A fé cura muitas coisas. Seu Raimundo nos falou que reza por telefone, reza em 
foto e em objetos da pessoa que pediu a reza: “rezo, rezo em tudo” (Raimundo Rezador. 
1 de set. de2014). Para completar, contou-nos uma história de uma pessoa que pediu 
para ser rezada por telefone: “aqui mesmo tem um nome de uma pessoa que mandou da 
Bahia. Mandou o endereço pra eu rezar nela, por telefone pelo pai dela e ele veio me 
trazer... pra eu rezar nela daqui pra Bahia. E outra é no Pará” (Raimundo Rezador. 1 de 
set. de 2014). O importante é que seja feita a reza, que seja feita com fé para que esta 
graça possa ser alcançada. 
As pessoas procuram os rezadores por diversos motivos, sejam eles: 
olhado/quebranto19, engasgo, dor, moleza corporal, fadiga, sono frequente, encosto, 
membro desmentido20, objeto ou dinheiro perdido. A respeito desse ultimo componente, 
seu Evaristo nos diz: “se for celular ou dinheiro perdido, num aparece mais não (risos)” 
(Evaristo Rezador. 21 de ago. de 2014). Perguntamos: “e corrente (no caso, corrente de 
ouro, que quando desaparece, as pessoas tem mania de ir a rezador para que o objeto 
seja encontrado)?”, Seu Evaristo foi sincero a nos dizer: “também num entregam não! 
(risos) Eu digo logo: num adianta nem rezar que num entregam não (risos)” (Evaristo 
Rezador. 21 de ago. de 2014). Ao contrário de Seu Evaristo, Seu Raimundo nos diz que 
reza para objetos perdidos: “Ave Maria” quando a pessoa, às vezes pede pra rezar pra 
um troço (objeto) que tá perdido, alguma coisa, eu rezo. Quando dá fé21 chega aqui 
(dizendo) que achou” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). 
Na casa dos rezadeiros sempre tem uma árvore na frente, ou alguma planta de 
pequeno porte. Todos que entrevistamos tinham uma espécie diferente planta em frente 
à residência, para arrancar um galhinho e rezar com ele em mãos, passando por cima do 
cliente. Além da planta, também pode ser usado outros objetos. 
Para o auxílio de suas orações, Seu Raimundo utiliza a agulha, o ramo de planta 
ou um cordão. Depende para que é a oração. Seu Raimundo nos conta a respeito da 
planta utilizada: “todo ramo é bom, mas o que eu acho mió é o manjericão e o pinhão 
roxo” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Seu Evaristo utiliza matinho verde aqui 
 
19 “S.m. Feitiço, quebranto, doença oriunda do olhar de algumas pessoas e que consiste na perda da saúde 
ou que leva à morte de alguém ou algum animal; o mesmo que mau-olhado” (dicionário online de 
português. Disponível em: http://www.dicio.com.br/olhado/. Acessado em 24 nov. 2014. 
20 Termo popular que significa nervo torcido. 
21 “Dá fé” significa “quando menos se espera” ou “de repente”. 
41 
 
do ninho (árvore que se encontra em frente a sua casa). Ele diz “quando tinha 
manjericão, era manjericão. Pinhão roxo é bom também” (Evaristo Rezador. 21 de ago. 
de 2014). D. Marluce nos diz: uso “Pinhão Manso, né?! (Risos). O povo dá valor, né?!” 
(D. Marluce. 28 de ago. de 2014). Perguntamos o porquê de ela utilizar essa planta, a 
mesma nos respondeu: “num sei por quê. Num sei por quê é, mas o Pinhão Manso se 
tiver alguma coisa ele murcha, se não tiver fica normal” (D. Marluce. 28 de ago. de 
2014). Já D. Inês diz que usa porque sem o auxílio da planta, a reza não serve: “de que 
serve a gente rezar com os dedos se não tiver a planta?! Deus só deixou pra pessoa rezar 
com o raminho verde né?! Com o raminho, com a galhinha...” (D. Inês. 27 de ago. de 
2014). Sobre ver a doença da pessoa através da planta, D. Inês completa dizendo: “a 
planta murcha, ela cai um lado da planta, tem vez que é duas, tem vez que é uma. Só sei 
se foi homem ou mulher (a pessoa que botou o olhado), agora só não sei dizer o nome 
da pessoa, porque é muita gente, né?! É muita gente que entra dentro da sua casa, né?!” 
(D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
Esse uso de plantas em rezas e benzeduras é explicado por Albuquerque (apud 
OLIVEIRA; TROVÃO, 2009, p. 246) de forma que a planta seria entendida como um 
vegetal no qual auxilia na ação terapêutica e nos processos ritualísticos da reza desde 
muito tempo, através de tradições nativas. Acredita-se que o ritual de benzedura só 
começa após o contato com o galho de planta. 
Sobre objetos usados no auxílio para as orações, perguntamos a Seu Raimundo 
se ele fazia uso da agulha e para que ela servia, e o mesmo nos respondeu que sim e sua 
utilidade servia “pra coser o pé tando dermitido ou o braço... Coser...”. Perguntamos o 
porquê da escolha da agulha e ele só respondeu: “já vem do princípio do mundo coser 
com a linha e a aguia” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Ou seja, é uma tradição 
entre os rezadores que se mantêm desde muito tempo, não sabendo o tempo exato e nem 
o porquê dessa escolha. Assim como a agulha servia para coser o pé, perguntamos se ele 
utilizava o cordão para medir arca caída22 e o mesmo respondeu que sim, mas também 
não nos explicou o motivo dessa escolha e nem quando surgiu essa tradição. D. Marluce 
e Seu Evaristo também não souberam nos informar o porquê de utilizar a agulha para 
rezar em membro desmentido, no entanto eles afirmaram que a agulha só é usada para 
este fim (coser pé desmentido). 
 
22 Popularmente conhecido como “arca caída”, “espinhela caída” ou “peito aberto”, é o mesmo que dor 
nas costas, no estômago ou no tórax. 
42 
 
Segundo D. Inês, a agulha é utilizada “porque ali, no que tá cosendo aquela 
linha, tá cosendo as carnes que tão aberta, que tão estragada, sabe?! Ali vai cosendo e 
ali vai cicatrizando” (D. Inês. 27 de ago. de 2014). No entanto, essa prática de usar 
agulha em reza só serve para curar pé desmentido. 
Sobre o local de reza, Seu Raimundo atua na calçada de sua casa. Antes ele fazia 
suas orações na sala de estar de sua residência, mas, os clientes foram aumentando e o 
mesmo passou a fazer suas orações na calçada. Ele faz as orações e prefere não 
recomendar mais nada além de uma revisão médica, quando o caso se mostra um pouco 
mais grave, pois acredita que a reza é suficiente. Diz Seu Raimundo: “não, num passo 
nada não que eu tem medo” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Por rezar de tudo 
um pouco, Seu Raimundo é muito conhecido na cidade e além dela, na região. Hoje em 
dia, sua clientela aumenta porque essa prática de curandeiros, rezadeiros está se 
extinguindo. O mesmo nos diz que atualmente são poucos aqueles que ainda rezam para 
a cura, pois “hoje ninguém quer aprender mais não” continua dizendo que o motivo se 
dá “porque muita gente vai se afastando das igreja” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 
2014) assim como perdendo a fé em Deus. Seu Raimundo nos contou que há pessoas 
que foram em sua residência atrás de reza, porém estas não tinham fé, sendo assim, não 
servia. 
Quando podem, os rezadores vão à casa da pessoa enferma para fazer o ritual de 
reza. O local de reza, na maioria das vezes, acontece na casa do rezador, que é 
acompanhado por imagens de santos. Com exceção de Seu Raimundo, esse local de reza 
dos demais entrevistados se dá na sala de estar de suas casas. Ao que pudemos observar, 
suas casas têm, pelo menos, a imagem de um santo. Seu Evaristo nos fala a respeito do 
seu local de reza: “é aqui na sala mesmo. Se você tivesse um lugar fora de casa, era 
muito bom pra gente rezar, assim afasta porque num vinha tanto dentro de casa, né?! 
Porque a gente quando tá rezando, aquilo (a respeito do mal que está na pessoa rezada) 
sai pra fora, num fica aqui dentro de casa, nem na pessoa, nem na gente (Evaristo 
Rezador. 21 de ago. de 2014). D. Marluce nos diz: “às vezes as pessoas chamam, que 
num podia vir aqui, aí eu vou lá” (D. Marluce. 28 de ago. de 2014). D. Inês respondeu o 
mesmo quando perguntamos se o local de reza se dava apenas em sua casa: “não, eu 
vou.., eu rezo aqui, rezo nas casas, quando o povo não pode vim, ai eu voulá. Pode ser 
em qualquer canto, no meio da rua, na igreja, todo canto se a pessoa precisar eu saio e 
rezo” (D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
 
43 
 
ENTRE OUTROS FATORES, O PRECONCEITO. 
 
Sobre outros fatores, Seu Raimundo nos conta que além de curar através da 
oração, também descobre o guia23 espiritual das pessoas: “nossa Senhora da Guia é meu 
guia. E a muita gente eu digo: seu guia é Santo fulano, e é mesmo na certa! Na hora que 
eu tô rezando, eu sei” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). Sendo assim, podemos 
notar o fator espiritual que se faz presente em suas práticas: a crença no guia espiritual 
de cada um que por ali passa, como a descoberta deste. Seu Evaristo, em uma conversa 
informal24, disse-nos que consegue descobrir se a pessoa que está sendo rezada tem 
catimbó, macumba ou qualquer tipo de trabalho que se possa ser considerado maligno, 
ou que de alguma forma prejudique aquela pessoa. 
A respeito desses dons e acontecimentos que vão acompanhados das rezas, 
nossos entrevistados têm história para nos contar. Perguntamos a eles se já sofreram 
algum preconceito, ou se ainda sofriam. O que podemos notar é que esses preconceitos 
partem na maioria das vezes de pessoas evangélicas, na qual acreditam que essas 
práticas de reza são profanas25, e não sagradas. Partindo disto, Seu Raimundo nos 
respondeu que sofria preconceito por parte do vizinho, evangélico: “por esse daí (aponta 
para a casa do vizinho, ao lado). Porque tem hora que ele diz que Nossa Senhora é feita 
de barro, é feita de pedra. Quem reza é mentindo, levantando falso do povo, num sabe 
de nada, quem cura é eles” (Raimundo Rezador. 1 de set. de 2014). 
Seu Evaristo nos explica que essa discriminação se dá porque algumas pessoas 
entendem mal a prática de reza: “porque tem muitas outras religiões que às vezes faz 
crítica da gente que reza. Quando vê um rezador, chama a gente de catimbozeiro, a 
gente não é catimbozeiro, a gente é curandeiro, pra curar as pessoa que tá doente. Num 
é?! Já tive debate com os pastor, pastor evangélico, lá na Rajada” (Evaristo Rezador. 21 
de ago. de 2014). D. Marluce também fala sobre como ela entende o ponto de vista das 
outras religiões que entendem mal a prática de reza: “eu acho que é porque eles acham 
que existe dois deus, mas só existe um deus. E Deus é tudo!” (D. Marluce. 28 de ago. de 
2014). 
 
23 Protetor espiritual, na qual pode ser um santo, um anjo ou arcanjo. 
24 Isso se deu após a entrevista que fizemos com o mesmo para o Projeto Mais Cultura nas Escolas. 
Notamos que os entrevistados se sentem mais a vontade para conversar sem saber que suas palavras estão 
sendo gravadas. Apesar de não ter gravado essa passagem da nossa conversa, ele nos deu a permissão 
para que se possa botar no livro essa informação. 
25 Segundo o dicionário Aurélio, significa “oposto ao respeito devido ao que é sagrado”. 
44 
 
Além de haver preconceito por parte de outras religiões, também notamos que há 
discórdia entre alguns rezadores (não foi o caso dos que citamos nesse livro). Os 
rezadores que entrevistamos falaram de forma ofensiva sobre uma rezadora de Jardim 
do Seridó, mas não achamos adequado citar o nome da mesma. D. Inês nos conta que já 
sofreu preconceito e discriminação por parte de alguns rezadores: 
 
Os rezadores gostam muito de me rezar não (risos). Porque acho que as 
minhas orações é muito forte, aí a deles num é, ai eles ... Aquela Alice num é 
rezadora? Alice disse a uma mulher acolá que eu não sabia rezar, não sabia 
nem fazer o Pelo Sinal26. Aí eu disse: “pois eu vou fazer um negocio com 
ela”. Deus me perdoe, por caridade, que eu sou rezadora. Eu vou dizer que to 
com dor de cabeça e vou pra ela me curar; quando cheguei lá, eu disse: 
“Alice, eu quero que você me reze, que eu to com uma dor de cabeça, mas 
vamos fazer um negócio: eu rezo primeiramente em você, depois você reza 
em mim.” Quando eu comecei a rezar a oração da Beata Mocinha, ela “poff!” 
no chão. Aí ela num rezou em mim, nem rezou nada, porque ela fez pouco de 
mim, disse que eu não sabia nem o Pelo Sinal (D. Inês. 27 de ago. de 2014). 
 
Sobre transmitir os conhecimentos de rezador, os nossos entrevistados disseram 
que só farão isso quando estiverem próximo a morrer, e ressaltam que só poderá ensinar 
para uma pessoa do sexo oposto, caso contrário, a força se perde. A respeito disso, Seu 
Raimundo nos falou: “muita gente pediu pra ensinar, mas num é todo mundo que tem 
dom não. Quando eu ver que tô bem pertim de viajar (morrer) eu ensino. Ensino. Eu 
mando copiar as oração que eu sei todinha aí faço a pessoa aprender” (Raimundo 
Rezador. 1 de set. de 2014). Nessa hora ele nos mostra as orações que tem por escrito. 
 
 
 
Imagem 9: Orações escritas de Raimundo Rezador. 
 
26 Pelo Sinal da Santa Cruz (oração). 
45 
 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 01 de set. de 2014 
 
Ao contrário de Seu Raimundo, D. Inês nos diz que seus conhecimentos de reza 
não podem ser passados para outra pessoa: “a minha reza num pode passar pra ninguém, 
ele (o ceguinho que ensinou D. Inês rezar) pediu pra mim que não podia passar pra 
ninguém, que eu não passasse ela pra ninguém, porque quebrava as forças da reza” (D. 
Inês. 27 de ago. de 2014). Com isso, perguntamos se a sua reza ia ser perdida e ela nos 
respondeu que não, a reza ia ser levada com ela para o reino dos céus, porque suas 
orações eram muito fortes: “fica vogando lá onde eu tiver, se Deus quiser. Minhas 
orações são orações muito fortes, é uma oração muito diferente da deles, de todos” (D. 
Inês. 27 de ago. de 2014). 
Seu Evaristo também nos diz que passará a reza para alguém, mas que esse 
alguém seja do sexo feminino e ele tem que sentir que essa pessoa tem o dom da reza. 
Seu Evaristo nos diz: “a pessoa que quiser, que trouxer o dom de aprender a rezar... 
Sendo mulher, homem não. Homem não pode ensinar pra homem não, porque se um 
homem ensinar pra outro homem, perde o efeito” (Evaristo Rezador. 21 de ago. de 
2014). Assim como Seu Evaristo, D. Marluce nos diz que só pode passar sua reza para o 
sexo oposto (um homem) e isso fará quando estiver com mais idade e não puder rezar. 
Em meio a tudo isso, podemos notar a presença de superstições, crendices e fé 
que fazem parte desse profano que se permanece no popular sagrado, assim como toda 
essa mistura, na qual já citamos sobre o sincrético sempre atual em práticas religiosas 
populares. Por fim, conhecer a prática de reza que ainda se mantém viva entre os 
rezadores de Jardim do Seridó, é compreender um pouco sobre a religiosidade popular, 
suas práticas e a fé que gira em torno dessas pessoas e quem as procura. Partindo dessa 
ótica, entendemos que o raminho da planta que dá início ao ritual, a oração que cura, a 
calçada, a sala de estar, o beco, a cozinha, enfim, as partes da casa desses benzedeiros 
são palcos de bênçãos e curas para aqueles que acreditam e têm fé. 
 
 
 
 
 
 
 
46 
 
CAPÍTULO III 
A LUZ DA VIDA: PARTEIRAS DE JARDIM DO SERIDÓ/RN E O 
TRABALHO DE PARTO 
 
Monte na bestinha melada e risque. 
Vá ligeiro buscar Samarica parteira que Juvita já tá com dô de menino 
(Música: Samarica Parteira/ Composição: Luiz Gonzaga) 
 
 
Imagem 10: Imagem27 que retrata os cuidados após o trabalho de parto. 
 
 Como citamos no capítulo anterior, Jardim do Seridó/RN sempre foi uma cidade 
pequena com suas povoações e seus sítios distintos. A prática da reza é muito antiga, e 
servia para ajudar no tratamento de doenças tanto espirituais, quanto físicas. Assim 
como a prática de benzedura, os trabalhos de partos naturaistambém são antigos. Não 
se sabe ao certo onde e quando começou essa prática, pois de certa forma, é um ato 
antigo que acompanha a humanidade. O trabalho de partejar28 é tão antigo quanto os 
primeiros partos que se deram. 
 Como podemos observar no trecho da música de Luiz Gonzaga, as parteiras iam 
atender na casa das mulheres, e, quem mandava buscar era o próprio marido, assim que 
dava início às contrações do parto. Devido às distâncias, as pessoas buscavam as 
 
27 Imagem tirada no link disponível em: 
http://www.revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=139 , Acessado em: 02/12/2014. 
28 Servir de parteiro ou parteira. 
47 
 
parteiras em animal de montar ou até mesmo a pé. O horário pouco importava, ou o que 
essas parteiras estavam fazendo. O importante mesmo é que elas largassem o que 
estavam fazendo e atendessem ao chamado das mulheres que estavam em trabalho de 
parto. 
 Os trabalhos de parto, assim como a cura através da benzedura (como 
mostramos no primeiro capítulo deste livro), eram espécies de rituais seguidos por 
pessoas nas quais tinham fé e acreditavam ter nascido para este dever. Todas as pessoas 
entrevistadas, para produzir este capítulo, falam das parteiras de Jardim do Seridó como 
pessoas bondosas, caprichosas em seus atos e, acima de tudo, caridosas para lidar com 
isso. 
 Achamos importante resgatar a memória dessas parteiras, pois as mesmas eram 
grandes mulheres que ficaram conhecidas pelos seus atos de bondade para com a 
população. Mulheres de grande importância que devem ser eternizadas neste livro, pelos 
inúmeros recém-nascidos que foram postos no mundo pelas mãos delas e para que as 
demais gerações saibam a importância que essas mulheres tiveram para Jardim do 
Seridó e sua população numa época em que a saúde era uma preocupação do próprio 
doente e sua família. É certo que o poder público em jardim já começava a assumir 
alguns aspectos desse serviço, mas parte da população ainda recorria às renomadas 
parteiras. 
 O tempo muda em suas diversas formas, assim como as pessoas que as segue. 
Em uma sociedade atual, que é visível a modernidade acelerada e tecnologias de ponta 
com tamanha acessibilidade para todos, trabalhar com a memória de mulheres que 
tiveram trabalho de parto com essas parteiras, é de suma importância para o 
conhecimento da cultura e das transformações que se dão ao longo do tempo, assim 
como o reconhecimento dessas práticas e seus rituais. 
Em Jardim do Seridó, os trabalhos de partos naturais ainda são feitos por 
algumas mulheres, no entanto se dão em casas de saúde da cidade ou de outro município 
vizinho com acompanhamento médico. Com o tempo, as técnicas foram sendo 
mudadas, os locais, a cidade, as pessoas, a área da saúde, assim como os 
acompanhamentos da gestação e as práticas na hora do parto, o que veremos a seguir. 
 
 
 
 
 
 
48 
 
HISTÓRIAS CONTADAS: O RECONHECIMENTO DO TRABALHO DE 
PARTEIRA 
 
O trabalho de parto natural é como já foi citado, o mais antigo dos trabalhos, 
pois este vem acompanhado com o homem e suas práticas desde sempre. O trabalho de 
parteira exige desta um domínio apurado do saber quanto ao assunto, e a crença que 
aquele trabalho não seja apenas uma vocação, mas um dom vindo de Deus. 
As parteiras de Jardim do Seridó não atendiam apenas às pessoas da cidade, mas 
eram chamadas nas áreas rurais e iam com muito gosto atender àquelas mulheres 
necessitadas. Pois, apesar dos serviços médicos no século XX29, já estarem se 
popularizando, ainda eram precários em Jardim do Seridó. O trabalho de parto, de certa 
forma era algo caro para as condições financeiras das pessoas, se fosse realizado por um 
médico, já que esses, em grande parte, trabalhava por conta própria. As parteiras que 
trabalhavam na cidade não chegavam a cobrar pelo seu trabalho, segundo depoimentos 
das mulheres entrevistadas, elas faziam isso por caridade. Essas mulheres se 
encontravam disponíveis a todo o tempo para os partos, uma vez que a qualquer hora 
(seja manhã, tarde ou noite) poderiam ser chamadas. 
O que se valeu de atenção para observarmos, foi o ato de partejar que era feito 
somente30 por pessoas do sexo feminino. Entendemos que isso era possível porque a 
intimidade da mulher, que ia parir, estava envolvida. Mulheres casadas, em geral, não 
deveriam ser vistas despidas por outros homens, mesmo na hora do parto. As parteiras, 
acima de tudo, deixavam as mulheres à vontade, e seus maridos também. A confiança e 
intimidade para com as parteiras eram tamanhas que essas gestantes e seus maridos têm 
até os dias de hoje as parteiras como “comadres31”, apelido carinhoso. 
O ritual de partejar começava a partir das primeiras contrações. Assim que a 
mulher sentia as primeiras dores, era hora de mandar chamar a parteira mais próxima 
para que se desse início à chegada do novo membro da família. Fosse qualquer hora, a 
parteira deveria se preparar rapidamente e partir para a casa da gestante. Acompanhada 
 
29 Época decorrente de 1901 à 2000. Não falamos especificamente dessa época, mas o recorte temporal a 
qual se enquadra os depoimentos de nossas entrevistadas vai do meio do século até os anos mais recentes, 
por isso que escolhemos arredondar a data para o século XX. 
30 Vale ressaltar que observamos isso partindo da fala de nossas entrevistadas. Não temos conhecimento 
de homens fazendo o trabalho de parto em mulheres. 
31 Segundo o dicionário Aurélio, “comadre” é o mesmo que parteira, assim como “diz-se tanto da 
madrinha com relação aos pais do afilhado, como da mãe deste com relação aos seus padrinhos”. 
 
49 
 
pelo marido da gestante ou por alguma pessoa a mando dele, a parteira iria rumo à casa 
da mulher, preparar as coisas para dar início a um novo parto. 
Contam-nos as mulheres que entrevistamos, que Jardim do Seridó era muito 
pequeno e o hospital se encontrava onde atualmente é a Escola Municipal Calpúrnia 
Caldas de Amorim. Contaram-nos também que algumas das parteiras trabalhavam lá, 
mas, mesmo assim, faziam os partos em domicílio, como o caso da conhecida Regina 
Rebeca, parteira popular entre as mulheres de Jardim do Seridó, que começou a 
trabalhar como jardineira do Hospital, mas ainda assim atendia, em domicílio, as 
mulheres que entravam em trabalho de parto. 
Jardim do Seridó é uma cidade que valoriza suas histórias e memórias, como o 
reconhecimento do patrimônio material (seja a praça publica e seu coreto, como a 
primeira igreja da cidade, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, a Ponte de Zé 
de Basto, entre outros), as festas religiosas, a irmandade dos Negros do Rosário, as 
tradições contadas pelos mais velhos e, quando a saudade bate, as pessoas fazem 
questão de sentar em suas calçadas e de lembrar-se do “tempo que era novo”. 
Não diferente desses reconhecimentos históricos entre os jardinenses, também 
temos o costume de nomear praças, avenidas, instituições públicas e ruas com nome de 
pessoas que fizeram parte de nossa história, e foram de suma importância para a 
sociedade. As praças, avenidas, bairros, monumentos, instituições públicas e ruas de 
uma cidade são colocados com nomes de grandes acontecimentos históricos, datas que 
também marcaram a história de uma região, ou com nomes de pessoas que, de certa 
forma, foram importantes para a sociedade. Nomear lugares públicos é uma forma de 
eternizar no imaginário das pessoas dessa região acontecimentos, datas e personagens 
históricos. Para Reginaldo Benedito Dias a importância de nomear lugares com nomes 
de pessoas, datas ou fatos históricos se dá por que: 
 
A perpetuaçãoda história oficial pode ser verificada na denominação das vias 
públicas de todo o Brasil, mas as cidades, onde o batismo efetivamente 
ocorre, costumam imprimir, por conta de sua própria história, contornos 
específicos a esse processo. Analisar a organização dos nomes de rua de uma 
cidade é aferir dimensões significativas de sua relação com a história (DIAS, 
2012, p. 105). 
 
Por esse motivo, nomeiam as ruas e, diz Dias ainda que: 
 
Para que não se perca o sentido que moveu a nomeação, é imprescindível o 
acompanhamento permanente de outros processos de informação e educação, 
50 
 
como o ensino de história e as festas cívicas (PINSKY, 1988; 
BITTENCOURT, 1988). Se o conteúdo histórico do nome da rua não é 
conhecido pelo transeunte, é porque esses outros mecanismos não estão 
sendo eficientes (2012, p. 103-104). 
 
É pertinente a análise de Reginaldo Benedito Dias, pois nos mostra o quanto é 
importante conhecer esses personagens que nomeiam parte de nossas cidades. Usar 
deles para nomear lugares e monumentos é uma forma de eternizar aquela pessoa ou 
aquele fato histórico, mas, mesmo assim, ter o conhecimento do que levou a nomeação 
ou até mesmo o porquê daquela nomeação é de suma importância, pois, caso contrário, 
o real sentido será perdido. Para isso, deve-se trabalhar com as pessoas a importância 
dos bens materiais e o reconhecimento desses como patrimônio público, assim como os 
bens culturais e, consequentemente, o reconhecimento de sua história/identidade. 
A respeito de patrimônio público, Cristiane Figueira e Lílian Miranda nos 
explicam que o patrimônio cultural de uma cidade, assim como seus bens culturais, 
 
Dizem respeito a tudo aquilo que possibilita os homens e mulheres 
conhecerem a si mesmos e tomarem consciência de seu lugar no mundo: os 
saberes, os fazeres, as tradições, em formas que variam conforme o modo de 
pensar e os valores que orientam suas práticas de sociabilidade. (....) O 
patrimônio cultural faz de um povo o que ele é . Seu tecido forma a 
identidade coletiva. Os bens culturais constituem marcas que podem ser 
convertidas em fonte e em objeto do conhecimento (2012, p. 11). 
 
Com base no que foi dito, um encaixe perfeito de pessoa que foi muito 
importante no trabalho para sociedade, está Regina Rebeca (Regina Maria da 
Conceição32), que é reconhecida como parteira e muito boa pessoa entre a maioria dos 
habitantes de Jardim do Seridó. A mesma tem seu nome em rua e posto de saúde, em 
Jardim do Seridó. Sendo bem reconhecida, Regina Rebeca é uma personagem que 
marcou a história de Jardim do Seridó com seus feitos de caridade e seu trabalho de 
parteira. 
 
 
32 Quem nos falou o nome completo de Regina Rebeca foi Margarida Silva dos Santos, em depoimento 
oral no dia 9 de set. de 2014, em sua residência. 
51 
 
 
Imagem 11: Posto de Saúde Parteira Regina Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista, Jardim do Seridó/RN. 
Fonte: Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 9 de set. 2014. 
 
 
 
 
Imagem 12: Placa que nomeia a Rua Regina Rebeca, Bairro Bela Vista, Jardim do Seridó/RN. 
Fonte: Luana Barros de Azevedo, 9 de set. 2014. 
 
52 
 
 
Imagem 13: Fotografia de Regina Rebeca situada na sala de espera do Posto de Saúde Parteira Regina 
Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista, Jardim do Seridó/RN. 
Fonte: Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 9 de set. 2014. 
 
 
A imagem, e os nomes ajudam a imortalizar as pessoas. Não sendo o bastante ter 
o nome de Regina Rebeca no Posto de Saúde de Jardim do Seridó, ainda se encontra, na 
sala de espera, a foto da mesma, que nos remete ao reconhecimento da pessoa que 
nomeia o local. Sendo esta, mais uma forma de condecoração e respeito à Regina 
Rebeca, assim também como algo que nos faz reconhecer sua importância que é visível 
para Jardim do Seridó. Isso é possível porque os jardinenses reconhecem o valor 
histórico que a figura de Regina Rebeca tem para com a população, já que muitos 
nasceram por suas mãos. O patrimônio faz parte da vida cotidiana das pessoas, assim 
como seu reconhecimento histórico, sua cultura, identidade e memória. Conhecer e 
saber sobre os nomes das pessoas que se encontram por trás desses monumentos é de 
grande importância para uma região, sobretudo reconhecer nessa pessoa a sua 
importância. 
 Em suma, deve haver um reconhecimento histórico local para as pessoas de uma 
região, pois estas se conhecem e se veem naquele local. A história de um povo não se 
baseia apenas em fatos políticos e acontecimentos de grande poder, pois escrever isto é 
desfavorecer os demais personagens que participaram da história, que fazem parte de 
53 
 
nosso passado, pessoas que também foram de suma importância para a construção do 
que somos hoje. Nosso passado não é feito apenas de políticos, líderes e heróis, mas, 
sim, de pessoas populares, humildes, personagem que, como um todo, constitui nossa 
corrente histórica. O que somos hoje se dá através desses personagens populares e, não 
os reconhecer, é desfavorecer áqueles que tanto fizeram parte da construção do alicerce 
que levantou uma torre a qual podemos chamar de sociedade. Sobre essa construção 
histórica, Santos e Araújo nos diz que “a história local não pode ser vista apenas como 
um ‘espaço reservado ao estudo dos chamados aspectos políticos’ e econômicos que 
geralmente se utiliza dos vultos ilustres locais para se dar conta da origem, evolução e 
progresso do município ou região” (2012, p. 2). 
Quando escrevemos nossa história, mesmo que esta seja apenas a história local, 
não partimos somente do que vamos escrever, mas também do que se encontra em 
volta: 
 
Visto de outro modo, a história local deve vir sempre vinculada “à história do 
cotidiano ao fazer das pessoas comuns participantes de uma história 
aparentemente desprovida de importância e estabelecer relações entre os 
grupos sociais de condições diversas que participaram de entrecruzamentos 
de histórias, tanto no presente como no passado” (BITTENCUORT, 2009. p. 
168). 
 
Neste capítulo, trataremos de resgatar na memória a prática das parteiras de 
Jardim do Seridó. Faremos isso com base em depoimentos orais de pessoas que 
conviveram com as mesmas. Falar dessas parteiras é também comparar essa prática 
local com a prática de partejar que se encontrava em outras regiões, uma vez que se 
trata de algo milenar e que não era praticado somente pelas parteiras de Jardim, mas 
também nas demais regiões. O que tratamos inteiramente sobre essas parteiras 
jardinenses, diferenciavam-se das outras, nesse caso, encontramos nossa peculiaridade, 
ou seja, nossa identidade. 
 
 
 
 
 
 
 
54 
 
O RITUAL DE PARTO E AS PARTURIENSES 
 
Se hoje em dia a mulher tem medo da hora do parto, mesmo tendo a escolha de 
optar por parto natural ou cesariano, em tempos remotos isto não era possível. 
Atualmente, os riscos na hora do parto são menores e a cada dia cresce o 
desenvolvimento tecnológico e o conhecimento das práticas para lidar com a hora do 
nascimento. Ao longo da história, a mulher foi tida como uma ferramenta de produção 
humana: com o auxílio do seu parceiro, a mulher reproduzia o ser, desenvolvia-o em seu 
corpo e paria. O ato de parir anda de mãos dadas com o surgimento da espécie 
mamífera, assim como as práticas de partejar. Com o tempo, essas práticas e rituais de 
parto foram sendo modificadas de acordo com a região e cultura. 
A priori, o lugar de parto se dava em casa, no seio da família. As mulheres, 
quando notavam que iam parir, mandavam seus maridos chamar rapidamente a parteira 
mais próxima, ou mais conhecida. O ritual de partejar davainício. O que a parteira 
estivesse fazendo, deveria largar e seguir o que foi destinada a fazer. A parteira seguia 
seu destino e ia direto à casa da que seria a próxima mãe. Em seguida, preparava o local, 
os paninhos (para enxugar o sangue), acendiam as velas, lamparinas ou candeeiros e 
aguardava o começo do processo. Tendo início ao aceleramento das contrações, a 
criança estava para vir ao mundo, com isso, a parteira se ajeitava e começava seu ritual 
de sempre. 
A partir do século XX, com o ápice do período industrial e o advento dos ideais 
urbanistas, como foi dito no primeiro capítulo, o cenário urbano das cidades começou a 
se modificar, isso ocorreu em todas as capitais do país, e, consequentemente, em Jardim 
do Seridó também. Com esses ideais, foi tendo início a construção de novos centros e 
instituições na cidade, a partir dessa época, começaram a surgir os hospitais e 
maternidades e os partos seriam destinados a esses locais. Susana Cecagno e Francisca 
Dias de Oliveira de Almeida, que estudaram o parto domiciliar por parteiras, em 
meados do século XX, nos explica como era considerado esse processo de modificação 
do espaço para o parto, onde passava do lar à maternidade: 
 
Acredita-se que, apesar dos benefícios da institucionalização o parto tornou-
se de caráter técnico, impessoal, com pouca ou nenhuma afetividade, 
excluindo a participação da família e tornando esse momento singular uma 
experiência sofrida e fria, no qual a mulher é considerada um objeto 
(CECAGNO, ALMEIDA, 2004, p. 410). 
 
55 
 
Acreditava-se que as maternidades eram um lugar de menor risco para ocorrer o 
parto, no entanto, a confiança nessas parteiras ainda era tamanha que o costume de parir 
em casa continuava mantido, principalmente se essas mulheres que estavam prestes a 
parir morassem em zonas rurais. Com o surgimento desses centros de atendimentos, os 
partos passaram a ser feitos por médicos (em sua maioria, homens), sendo esse mais um 
fator decisivo à escolha da parteira e o parto em casa, uma vez que a hora do parto 
envolvia a nudez e intimidade da mulher, fazer parto com médico era fora de cogitação. 
Os acontecimentos que envolvem o processo de parto passaram a acontecer no hospital, 
mas, em Jardim do Seridó, isso foi possível somente após a segunda metade do século 
XX, quando se instalou na cidade a maternidade33 que até hoje existe, no entanto o 
costume de parir no hospital foi ocorrendo aos poucos visto que as pessoas ainda 
conservavam a tradição de parir em casa. 
 As nossas entrevistadas fizeram seus partos em casa, com parteiras, mesmo 
existindo a maternidade na cidade, elas optavam pelo parto em suas residências. 
Ouvimos mulheres de Jardim do Seridó-RN que tiveram filhos tanto com parteira da 
cidade, como de outras cidades, que as mesmas conheciam. As memórias que compõem 
a construção da história dessas parteiras e os rituais de parto foram contados por 
mulheres que deram à luz a seus filhos por mãos de grandes parteiras. As mães que nos 
cederam entrevista e contaram essas histórias, foram: D. Hozana34, D. Maria35, D. Maria 
da Luz36 e D. Inês37. 
Iniciaremos com a história de D. Maria (Maria de Azevedo Medeiros, 90 anos) 
residente no Sítio Mingote (município de Jardim do Seridó-RN). Mãe de dez filhos, 
todos dez foram tidos em sua antiga residência (na zona rural, município de Jardim), 
“foi numa casa acolá de taipo, era feia que parecia uma casa de nagaia” (Maria de 
Azevedo Medeiros, 3 de out. de 2014). 
 
33 Atualmente, Escola Calpúrnia Caldas de Amorim. 
34 Hozana Macêdo de Oliveira. 
35 Maria de Azevedo Medeiros. 
36 Maria da Luz Oliveira de Medeiros. 
37 Inês Azevedo dos Santos. 
56 
 
 
Imagem 14: D. Maria (Maria de Azevedo Medeiros), em sua residência, nos cedendo entrevista e 
mostrando, orgulhosamente, a fotografia de seu esposo. Sítio Mingote (município de Jardim do Seridó-
RN) 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 3 de out. de 2014. 
 
D. Maria nos conta que se casou aos 20 anos e teve o primeiro filho com 22, em 
sua casa. Segundo a mesma, quem fez o parto de seus dez filhos foram as parteiras 
Juraci de Manoel e Rita de Aderaldo. D. Maria lembra com muita precisão como se 
dava a chegada da parteira em sua casa, assim ela nos conta como se deu o seu primeiro 
parto: 
 
Brás ia buscar tia Rita, foi buscar, nós não tinha condições, a pobre veio... 
veio andando naqueles... É por que ali, naquele... (ela quis dizer por um 
caminho mais difícil). Por dentro. Aqueles serrotão, aí ela veio... veio de 
noite. Coitada! Aí nós morava na casa que Socorro (uma de suas filhas) 
morava, aí de noite se juntou (ela falou referente aos familiares se juntarem 
para aguardar o nascimento da criança). 
Aí Dr. Brandão... Quando tia Rita saia para fazer um parto do sítio, ele 
preparava tudim. A... como é (tentando lembrar o nome da cesta)?! A cesta, a 
bolsinha... a bolsinha dos remédios... Ele preparava, ela trazia. Levava pra 
casa da mulher (parturiente38). Aí trazia. Aí, ela... Quando a mulher 
descansava, ela (a parteira) ia pra rua (Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. 
de 2014). 
 
 Segundo D. Maria, quem ia chamar as parteiras era seu esposo (hoje falecido). 
No tempo, as parteiras moravam em Jardim do Seridó, e ela no sítio. Mesmo assim, iam 
até o seu encontro com a bolsa cheia de medicamentos recomendados pelo médico da 
maternidade (segundo D. Maria, o médico era Dr. Brandão), e até chegavam a passar a 
noite inteira esperando o parto acontecer. O cenário de dar à luz acontecia em um quarto 
 
38 Segundo o dicionário Aurélio, a palavra “parturiente” significa: “que está em trabalho de parto ou que 
acaba de dar à luz”. 
57 
 
da casa. Quem permanecia neste local era apenas a parteira, gestante e, algumas vezes, o 
marido. O primeiro procedimento que a parteira fazia com a parturiente era o exame do 
toque39 sem o auxílio de nenhum objeto cirúrgico, ou higiênico, segundo a depoente, era 
feito com as próprias mãos. 
D. Maria ainda nos conta como foi sofrido seu primeiro parto: “abom, passava 
era dia (D. Maria falando do tempo que a parteira passava em sua casa). Eu num tô 
dizendo que meu parto de Francisco (seu primeiro filho) eu quase morria! Ela (a 
parteira) mandou uma injeção em mim” (Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 
2014). Como o parto muitas vezes era difícil e demorava a acontecer, a parteira chegava 
a virar noite na casa das gestantes. Com intimidade o bastante, a parteira se fazia de casa 
e ajudava até nos deveres domésticos. D. Maria nos conta que na noite que Rita passou 
em sua casa, no outro dia auxiliou no trabalho de tirar milho para fazer o mungunzá. 
Como o parto estava demorando a acontecer, a parteira teve que aplicar uma 
injeção que acelerasse as dores: “Ar Maria! Foi mesmo que dar a dor da morte” (Maria 
de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 2014). Um momento de prece, para que o Senhor 
Deus os escute, acendia uma vela, ou até mesmo, a luz de lampião, e a parteira se 
botava a rezar, e D. Maria dizia: “só era rezando, aí eu descansei um pedacinho, eu 
descansei (neste momento ela fala de dar à luz) só viva, já de noite, com vinte e quatro 
horas” (Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 2014). Mesmo com muito sofrimento 
e um parto extremamente difícil (segundo a mesma, Francisco nasceu quase morto), D. 
Maria deu à luz ao seu primeiro filho, com a ajuda da parteira Rita de Aderaldo. 
 Depois de fazer o parto, ia lavar a criança e enxugar o sangue da mãe. Os 
paninhos e a água morna eram as formas de higienização que havia naquele tempo. O 
resguardo recomendado pela parteira era ficar emcama e só lavar a cabeça com quinze 
dias, nos conta D. Maria. Para cuidar do umbigo da criança, as recomendações vinham 
da parteira; segundo D. Maria, isso era feito: “com azeite de carrapato, mas era 
fedorento. A gente botava assim, com um anelzinho de pano. Molhava naquele azeite e 
arrodilhava o umbigo” (Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 2014). 
Segundo D. Maria, a respeito do preço a ser pago às parteiras, a mesma nos disse 
que não pagava com dinheiro, porque naquele tempo era tudo mais difícil e as parteiras 
que fizeram seu parto não cobraram (em especial, Rita, que era sua tia). O pagamento se 
dava em forma de ajuda, seja ela alimentícia ou com qualquer objeto. 
 
39 Exame realizado por parteira ou médico que tem como intuito saber há dilatação no canal que passa a 
criança. 
58 
 
 Nos partos dos outros filhos o ritual não era diferente. Além de Rita, quem fez os 
outros partos foi Juraci. A mesma procedência. O mesmo ritual. As mesmas 
recomendações. Sempre vinha atender em sua casa, esperava a hora do parto, ajudava 
nos fazeres de casa (Juraci, segundo D. Maria, ajudou a costurar os panos de casa e 
cuidou dos filhos mais velhos, que nesse tempo eram ainda novos). Juraci deu 
procedência aos trabalhos de parto de D. Maria porque Rita estava mais velha: “ela tava 
ficando velha, num fazia mais nada não” (Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 
2014). 
 A segunda depoente é D. Hozana (Hozana Macedo de Oliveira, 86 anos), 
residente em Jardim do Seridó-RN. Mãe de nove filhos, casou-se com vinte e dois anos, 
e com vinte e três teve o primeiro filho. De nove, criou sete, e teve um aborto de 
gêmeos. A mesma nos conta que “sete foram Maria Lins, aí outro foi comadre40 Regina. 
Foi um (com Regina), e dois gêmeos eu tive no hospital, na maternidade” (Hozana 
Macedo de Oliveira, 3 de nov. de 2014). 
 
 
Imagem 15: Hozana Macêdo de Oliveira nos cedendo entrevista em sua casa. Jardim do Seridó-RN. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 3 de nov. de 2014. 
 
D. Hozana nos conta que seu parto em casa só dava início quando as contrações 
não eram mais possíveis de aguentar. Nesse momento, pedia ao marido para chamar a 
parteira. A mesma também nos falou que seu primeiro parto foi o mais sofrido. 
 
40 Forma carinhosa de chamar a parteira. 
59 
 
 O momento de dar à luz foi em um quarto escolhido pela gestante, um quanto 
separado da casa, destinado para isso. É comum nos partos caseiros a discrição do fato 
em si, o sigilo do feito já que os mais velhos tratavam as questões ligadas ao sexo com 
muito pudor. O próprio renascido era obra da cegonha. Os rituais não se diferenciavam 
dos que D. Maria nos contou. Era a mesma procedência, mesmo sendo parteiras 
distintas. D. Hozana nos disse que os procedimentos que ocorreram na maternidade 
eram bem parecidos aos que as parteiras faziam. O parto era normal, os cuidados e 
recomendações para o resguardo eram os mesmos. Medicamentos só eram passados 
para acelerar as contrações, e o parto caso fosse de grande dificuldade. 
Ela nos disse que só foi fazer o parto na maternidade, porque este era de risco. O 
médico no tempo era Dr. Antônio Bento, que fazia os mesmos procedimentos que a 
parteira, não utilizava objetos, a diferença era, disse ela: “porque ele foi quem... o 
menino num nascia, num era?! (nesse caso) foi ele que tirou” (Hozana Macedo de 
Oliveira, 3 de nov. de 2014). Por se tratar de um parto prematuro (três meses), o médico 
teve que acelerar o processo e puxar as crianças (os gêmeos), uma vez que D. Hozana 
estava tendo dificuldades para dar à luz. 
O depoimento de D. Inês- 65 anos, residente em Jardim do Seridó-RN, mãe de 
uma filha, que nasceu na maternidade da referida cidade, se aproxima muito do que D. 
Hozana. Segundo D. Inês, seu parto foi “normal mesmo, que nem todos os partos” (Inês 
Azevedo dos Santos, 3 de nov. de 2014). Por seu parto ter sido o mais recente dos 
demais (em 1973), perguntamos se foi feito por parteira na maternidade, ela nos disse: 
“era aquelas enfermeiras que era antiga, que foram embora, aquelas primeiras 
enfermeiras” (Inês Azevedo dos Santos, 3 de nov. de 2014). Ao saber dos 
procedimentos que se tinha na maternidade de Jardim do Seridó, entendemos que estes 
não se diferenciavam das parteiras locais, pois as mesmas aprenderam entre elas, 
trabalhando na maternidade. 
Ao saber da aproximação que poderia ter do conhecimento de parteiras da 
região, D. Maria da Luz (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 75 anos), residente em 
Jardim do Seridó-RN, mãe de seis filhos, sendo quatro filhos tidos com a sogra, Ana 
Bezerra, e dois com Regina Rebeca, contou-nos que Ana Bezerra era parteira de 
Santana do Seridó, tão conhecida quanto Regina Rebeca era em Jardim do Seridó, e 
disse: “ela era conhecida mesmo lá por todo mundo, porque era ela quem fazia os partos 
lá, porque lá na época não tinha maternidade, sabe?!” (Maria da Luz Oliveira de 
Medeiros, 7 de out. 2014). 
60 
 
 
 
Imagem 16: Maria da Luz Oliveira de Medeiros nos cedendo entrevista em sua residência. Jardim do 
Seridó-RN. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa 7 de out. 2014 
 
A mesma nos falou que seus três primeiros filhos nasceram em Santana do 
Seridó, onde residia. Assim como as parteiras de Jardim do Seridó, D. Maria da Luz nos 
disse que Ana Bezerra atendia às gestantes em domicílio, chegava a passar até tempos 
na casa dessas gestantes. Como nos conta: “ela passava dias nas casas das pessoas que 
estavam esperando neném, até quinze dias ela dormia numa casa, assim, nos sítios, na 
zona rural, quando... pessoas conhecidas dela, sabe?! Que ela já era acostumada a fazer 
parto” (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. 2014). 
 O ritual de parto era muito semelhante, mas D. Maria da Luz nos contou como 
era o atendimento que Regina Rebeca deu a ela: 
 
Ela fazia um exame de toque né?! Primeiro fazia um exame de toque pra ver 
se a criança estava perto de nascer, aí quando ainda estava longe, que elas 
achavam que estava longe pra nascer, elas iam embora, principalmente 
comadre Regina, depois quando a gente se aproximava mais aí mandava 
chamar novamente (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. 2014). 
 
 O atendimento se dava em domicílio, ela ia ver como estavam as contrações para 
poder saber se era necessária a sua presença até a hora do parto ou se poderia esperar 
mais um pouco. Só permaneciam na casa se visse que a gestante, realmente, estava para 
dar à luz. Caso ficasse, era necessário um quarto apenas para o casal e a gestante, por 
escolha da privacidade. O processo de higiene era o mesmo: apenas lavavam as mãos e 
não utilizavam luvas ou quaisquer produtos higiênicos para a limpeza (salvo exceções, 
algumas faziam uso do álcool). Os panos de algodão eram muito utilizados pelas 
61 
 
parteiras: “era, era pano, naquela época tudo era pano. Elas usavam uma aparadeira41 e 
lavavam as mãos bem lavadas com água e álcool, mas eu não lembro se elas usavam 
luva não, não lembro” (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. 2014). 
O que valia na hora do parto, muitas vezes, era o “valha-me Deus!”, pra ajudar. 
Orações eram bem vindas antes de dar início aos procedimentos. Mulheres de fé, 
destinadas a isso, essas parteiras iam com sua grande crença em Deus e gosto por seus 
trabalhos para realizar os partos. O que ocorria quando o parto complicava era chamar o 
médico: “quando elas não podiam resolver, eu sei bem da minha sogra, Ana Bezerra, 
quando ela não podia resolver, mandava chamar o médico. Mas ela ficava ali, muitas 
vezes, até...” (Maria da Luz Oliveira de Medeiros,7 de out. 2014). Se tivessem a sorte 
de encontrar um médico, este ia atender em casa, caso fosse requisitado. Segundo D. 
Maria da Luz, quando não se resolvia em Jardim, o jeito era levar a gestante para 
Parelhas: “naquela época levavam pra Parelhas. Quando era um caso de cirurgia levava 
pra Parelhas” (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. 2014). 
D. Maria da Luz lembra muito bem como foi seu primeiro parto, o mais sofrido. 
Segundo ela, foi na maternidade, e com uma aprendiz. Sendo as dificuldades maiores: 
 
Já, o primeiro que eu tive foi na maternidade, esse eu não morri porque Deus 
não quis que eu morresse. Porque o menino nasceu sentado e num fizeram 
nada pra esse menino mudar de posição. Do jeito que ele nasceu sentado, 
nasceu. Ia morrendo eu, ele e tudo, eu desmaiei. Com uma mulher que tava 
aprendendo, Maria Lins, que era a Diretora da Maternidade, era a parteira. 
Era num dia de sábado, eu cheguei lá doente e ela disse à menina que ficasse 
comigo porque ela ia na feira fazer a feira de verdura, só que ela nem me 
examinou, nem coisa nenhuma, me deixou com uma aprendiz, com uma 
pessoa que estava estagiando, nera?! Mas, graças a Deus, na hora tava Dona 
Maria de Antônio Biá, que ela era lavadeira da maternidade e na hora de 
parto ela também ajudava, e ela ficou comigo até o menino nascer, só saiu de 
perto de mim quando o menino nasceu (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 
7 de out. 2014). 
 
 Não aplicaram medicamento em D. Maria da Luz. Segundo a mesma, ela só 
tomava chá de erva-doce para ficar calma. Assim nos conta o que era recomendado para 
o resguardo: 
 
Mulher, a gente... Naquela época num davam ponto nem nada, a gente só 
tinha mesmo cuidado, assim, muito repouso e pronto. Num tomava nada... 
Tinha uma história de tomar uma “água inglesa” que era pra, às vezes, num 
aperreio, não ter aperreio. Pra tomar, assim, era um remedinho bom quando a 
gente tinha aperreio... Eu tomava banho. Eu só não lavava a cabeça. Elas 
 
41 Em algumas regiões do Brasil esse nome pode significar parteira, no entanto, a “aparadeira” que nossas 
entrevistadas falam é um objeto designado para ajudar às parteiras com os cuidados na hora do parto. 
62 
 
diziam que não lavasse a cabeça (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de 
out. 2014). 
 
 A respeito da dificuldade que se tinha na época, D. Maria da Luz nos fala como 
ocorreu seus partos seguintes: “eu tive dez (filhos), mas um foi cesárea em Caicó, que 
foi pra fazer ligação. Mas tive seis em casa e três na maternidade. Quatro com a que 
eu... Mas num vejo diferença. Tudo a gente sofre demais, tanto faz lá (na maternidade) 
como cá (na residência) sofre” (Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. 2014) . 
 Como notamos nos depoimentos prestados, os partos feitos em casa eram por 
parteiras conhecidas e carinhosamente tratadas como “comadre”. Médicos na 
maternidade eram poucos, sendo feito o trabalho de parto por parteiras também. Como o 
atendimento médico era muito difícil de encontrar, a saída era passar os conhecimentos 
para as mulheres que trabalhavam na maternidade. Elas aprendiam por vontade própria, 
necessidade ou até mesmo por conviver na instituição daí ser comum se ver a lavadeira 
de roupa ou a jardineira do hospital ajudando num parto ou virando parteira. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
63 
 
AS PARTEIRAS 
 
 Considera-se atualmente essa prática de parir, em casa e com parteira, um alto 
risco, porque antigamente, parir em casa era a melhor forma de se dar à luz, pois no 
hospital era algo tido como de risco, frustrante e violento, dificultando à mulher e à sua 
família a oportunidade de vivenciar uma experiência gratificante, prazerosa e saudável 
que era a chegada do filho. 
 Assim como vimos no primeiro capítulo, que a pratica de benzedura é ritual 
milenar que partiu do homem, o trabalho de parteira também pode ser considerado 
assim, uma prática antiga que consistia no ato de conter ritual de orações e calma para 
liderar esse momento. Da mesma forma que os benzedeiros acreditavam que rezar e 
curar eram dons advindos de Deus, as parteiras e suas gestantes também eram as 
consideradas mulheres de grande dom e coragem. Para entendermos a história dessas 
grandes mulheres, que praticavam esse ato, partimos de depoimentos orais de pessoas 
que conviveram com essas mulheres que deram a luz por mãos de parteiras ilustres que 
compõem nossa história. 
 Ao longo da história, as parteiras são tidas como mulheres tradicionais, em sua 
grande maioria, mães de família, que atendiam em domicílio à gestante que precisasse 
de sua ajuda na hora do parto. Assim, as parteiras iam exercer a função que lhe foi 
destinada: partejar. Seja na cidade ou mesmo na zona rural, essas grandes mulheres 
faziam questão de atender e ajudar suas pacientes, por esse motivo eram tidas com 
grande carinho e respeito pela população. Por muito tempo na história, esses partos 
normais foram feitos por parteiras humildes, dedicadas ao seu trabalho, que não 
cobravam por esse ato, as mesmas, em grande parte, tinham que trabalhar em outros 
setores para poder tirar seu sustento, pois não cobravam pela caridade exercida, uma vez 
que consideravam isso um dom (a mesma lógica42 de benzedeiros, referente à cobrança, 
se aplica às parteiras). 
A respeito das parteiras de Jardim do Seridó, comecamos a história delas por 
Regina Rebeca (Regina Maria da Conceição), a mais conhecida das parteiras, por ter 
sido eternizada como “vulto popular” no livro de Nilton Azevedo e, como já foi dito, 
por ter seu nome no posto de saúde, em Jardim do Seridó, e uma rua no bairro Bela 
 
42 Vimos no primeiro capítulo que os benzedeiros não cobram por suas orações e rezas feitas para a 
população, pois acreditam que esse ato é uma obrigação, uma vez que estes foram destinados para isso 
por acreditarem que a cura através da oração se dá porque eles têm um dom vindo de Deus. 
64 
 
Vista. Regina Rebeca, nos conta Nilton Azevedo, era natural de Acarí-RN e nasceu no 
dia 13 de dezembro de 1908. Filha de José Porfírio dos Santos e de D. Mariana da 
Conceição veio residir em Jardim do Seridó e logo após casou-se aos 24 anos (em 1932) 
com Pedro Cícero da Silva. 
Margarida Silva dos Santos (74 anos, filha de Regina Rebeca), popularmente 
conhecida como Gaída, e por esse apelido a trataremos neste livro, em entrevista cedida, 
nos disse que Regina Rebeca começou a fazer parto muito cedo, ela (Gaída) ainda nem 
era nascida. Quando perguntamos com que idade e com quem D. Regina começou a 
fazer parto, Gaída nos responde “ela começou a fazer parto, eu acho que eu ainda num 
era nascida e eu nasci em 1940. Não... Assim... Vinham chamar ela e ela ia. Ela num 
tinha curso, num tinha nada. Aí fazia os partos” (Margarida Silva dos Santos, 9 de set. 
de 2014). 
 
Imagem 17: Margarida Silva dos Santos, na imagem, nos mostra orgulhosamente o quadro de fotos da 
sua família onde a foto de Regina Rebeca se encontra próxima do centro. Jardim do Seridó/RN- Bairro 
Bela Vista. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 9 de set. 2014. 
 
 Nilton Azevedo conta que ao chegar em Jardim do Seridó, D. Regina logo 
conseguiu emprego no cargo de jardineira na maternidade da cidade e, com o tempo, 
começou a trabalhar como auxiliar de parteira, tornando-se posteriormente parteira e se 
popularizando assim (1988, p. 68-69). Segundo Gaída, D. Regina “primeiramente 
trabalhou muitos anos ali, onde é o Calpúrnia (maternidade). Mas de jardineira. E daí 
quando vinham chamar ela, pra fazer um parto,ela ia. Nesse tempo era D. Regina, às 
vezes ela fazia parto mais D. Maria Lins” (Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 
2014). Na maternidade, o médico que trabalhava era Dr. Paulo e quem auxiliava era 
Maria Lins; possivelmente, D. Regina Rebeca tenha aprendido com Maria Lins a fazer 
65 
 
partos, como nos conta Cícera Maria da Silva (78 anos, filha de Regina Rebeca), 
popularmente conhecida como Ciça, ela diz: “foi ela vendo Maria Lins com Doutor 
Paulo” (Cícera Maria da Silva, 9 de set. de 2014). 
 Quando começava as contrações, logo mandava chamar a parteira e, D. Regina 
Rebeca estava preparada para ir a qualquer hora que a chamassem. Gaída nos conta uma 
história inusitada que aconteceu com D. Regina, quando a mesma foi chamada para 
fazer um parto na zona rural: 
 
Não, era só nos sítios. (Ela fazia os partos) aqui dentro da rua e nos sítios. Ela 
ia até morrendo afogada uma vez naquele rio Acauã. Não morreu porque... 
Ela ia a cavalo. A cavalo, acredita? Aí quando chegou no rio, tava cheio.. Aí 
ela foi passar... O rapaz que veio buscar ela, do lado de cá quando foi 
atravessar pra lá desequilibrou, soltou ela. Aí ela pra escapar agarrou num pé 
de capim. Mas quase que desce. Ainda assim passaram ela, e ela ainda foi 
(fazer o parto) (Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 2014). 
 
O atendimento que as parteiras de Jardim do Seridó prestavam se dava tanto na 
zona urbana quanto na zona rural. Fica evidente, pela história contada por Gaída, o 
quanto D. Regina fazia por gosto os partos. No entanto, Gaída e Ciça nos contaram que 
D. Regina se recusava a fazer parto das filhas e das noras. Em depoimento, Gaida nos 
contou que “ela (D. Regina) dizia: ‘olhe quem casar e arrumar filho, pode procurar a 
maternidade que eu nem faço parto de nora nem de filha!’” (Margarida Silva dos 
Santos, 9 de set. de 2014). Ciça nos disse que ela não fazia parto das filhas e noras, pois 
“certamente porque não queria ver sofrer né?!” (Cícera Maria da Silva, 9 de set. de 
2014). 
 
66 
 
 
Imagem 18: Cícera Maria da Silva, filha de Regina Rebeca, nos cedendo entrevista em sua residência. 
Jardim do Seridó/RN- Bairro Bela Vista. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 9 de set. de 2014 
 
A respeito dos acompanhamentos que se podia ter durante o período de gestação, 
não eram feitos nenhum. Isso só ocorreria caso a gestante fosse pedir alguma ajuda à 
parteira. Antes do parto, era aplicados medicamentos para acelerar o processo das 
contrações. Segundo Gaída e Ciça, D. Regina Rebeca fazia uso de injeções nas 
gestantes, a mesma tinha conhecimento desses medicamentos, mesmo sendo analfabeta, 
como diz Gaída: 
 
Quando as mulheres ‘demoravam a descansar’, como chama o povo, aí ela 
(D. Regina)... Ela não sabia ler de jeito nenhum e ela sabia as injeção 
apropriada pras mulheres sentir dor, pra não dar hemorragia, tudo isso ela 
sabia. O povo se admirava muito, porque ela era analfabeta, ela não sabia ler 
(Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 2014). 
 
E o mesmo nos disse Ciça: “usava (medicamentos)... Dava injeção, tinha 
seringa. Tinha todos os preparativos pro parto e medicamentos também” (Cícera Maria 
da Silva, 9 de set. de 2014). Segundo Gaída e Ciça, D. Regina não sabia ler, mas pela 
convivência na maternidade, aprendeu a aplicar injeção e o conhecimento dos demais 
medicamentos. 
67 
 
 Em prática, não se usava instrumento nenhum na hora do parto normal. 
Puxavam a criança com as próprias mãos. Nenhuma das duas filhas nos falou muito 
sobre essa prática de parto, pois as mesmas disseram que D. Regina era mulher muito 
reservada a respeito de sua profissão e se recomendava alguma coisa era sempre à 
paciente. Mantinha o sigilo do ritual de parto. 
 Além de D. Regina Rebeca, havia, em Jardim do Seridó outras parteiras, no 
entanto, as mais conhecidas era ela, Maria Lins, Juraci e Rita de Aderaldo. Sobre Maria 
Lins, pouco temos informações, pois as pessoas que entrevistamos tinham mais 
conhecimento de D. Regina. Mesmo esta fazendo trabalhos de parto nas zonas rurais, 
também havia outras parteiras, como Gaída nos disse, sua sogra também fazia partos: “a 
minha sogra, Maria Joaquina de Jesus. Ela morava no Rio Acauã, Município do Acari” 
(Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 2014). Como D. Regina não fazia o parto das 
filhas, as mesmas teriam que recorrer à maternidade para fazer os partos ou até mesmo a 
outras parteiras. 
 Sendo conhecida na cidade e região, por atender a todos com muita caridade e 
humildade, sem distinção de cor ou classe social, D. Regina presenciou muito 
sofrimento e dava força e coragem. Segundo Nilton Azevedo, nunca houve relatos de 
falecimento na hora do parto, que a mesma dava assistência (AZEVEDO, 1998, p. 68). 
No entanto, vale ressaltar que Gaída nos disse, quando perguntamos se alguma mulher 
havia morrido na hora do parto, “não, nunca morreu não. Uma que foi a mulher do 
finado Luca, Maria. Ela morava no sítio, eu já morava lá. Me lembrei agora. Ela foi... 
Vieram chamar ela (D. Regina), mas ela (Maria) já tava sem jeito. Chegou lá, ela já tava 
morta. Foi nesse época de... de (1960)” (Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 2014). 
Fica evidente no discurso das filhas de Regina Rebeca que esta mantinha o sigilo 
absoluto do serviço que prestava. Ela, por pudor ou por ética profissional, não 
comentava em casa nem mesmo com as próprias filhas. Ciça não consegue atribuir esse 
comportamento da mãe às crenças e à cultura de nossos predecessores, pois viam no ato 
da parição as consequências da atividade sexual, atividade que não se podia dar a 
conhecer aos jovens antes do casamento e mesmo assim, quando necessário, ocorria de 
forma seca, sem revelar as intimidades que a prática requeria. 
Nesse sentido, as parteiras, pelo hábito de não falar muito sobre a prática que 
realizavam, deixavam os que não eram atendidos por elas alheios às intervenções que 
faziam no decorrer do parto. Era ao que parece, o ofício do sigilo e como tal devia 
resguardar a palavra antes de ser pronunciada. 
68 
 
Aliás num sertão de homens sedimentados por uma cultura patriarcal, onde a 
moralidade e a honra eram formadoras das condutas aceitáveis e a moral religiosa, dava 
por imoral as coisas ligadas ao sexo, falar sobre ele era sinônimo de imoralidade. Falar 
sobre o parto, sobre o trabalho do parto, a nudez que envolvia a mulher e sua intimidade 
na hora do parto, as dores e sangue era o mesmo que confessar para as crianças que os 
bebês não eram trazidos pela cegonha, como rezava a lenda. 
É notório o pudor que alimentava a conduta das parteiras presentes nos 
depoimentos de Gaída e Cíça. Elas ao serem questionadas sobre o ritual de parto/pós-
parto e o tratamento indicado para as parturientes, por parte da mãe, confessam que não 
têm conhecimento algum, o que ela fazia não falava. Seja por pudor, questões éticas ou 
até mesmo por ser reservada, D. Regina Rebeca se fazia discreta para os demais, frente 
ao seu trabalho. Como diz Gaída: “(ela) num falava não. Nunca dizia nada, não 
indicava. Eu acho que se ela dizia era por lá. Mãe (D. Regina Rebeca) era muito 
esquisita, ela num contava essas coisas pra gente” (Margarida Silva dos Santos, 9 de set. 
de 2014). O mesmo nos diz Ciça a respeito dos procedimentos e tratamentos pós-parto: 
“se fazia num falava aqui não” (Cícera Maria da Silva, 9 de set. de 2014). 
Com base no que foi dito, podemos concluir que elas não faziam nenhum 
atendimento no decorrer da gravidez da gestante e que só eram chamadas para fazer o 
parto quando o nascimento era fato incontestável. Por um motivo, ou outro, geralmente 
a parteira só era chamada para ajudar a mulher a parir.69 
 
CAPÍTULO IV 
COM ÁGUA, ALMA E MÃOS: HISTÓRIA DAS LAVADEIRAS DE 
JARDIM DO SERIDÓ 
 
Lava roupa todo dia, que agonia 
Na quebrada da soleira, que chovia 
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada 
Uma mulher não deve vacilar 
(Música: Juventude Transviada/ Composição: Luiz Melodia) 
 
 
Imagem 19: Lavadeiras43. 
 
Nos primeiros capítulos falamos sobre a construção do espaço de Jardim do 
Seridó no sentido mais moderno, suas transformações na estética da cidade, como era 
Jardim por volta do século XX, assim como sua população. Tratamos do século anterior 
para entendermos quais influências sofreram aquelas pessoas que fazem parte das 
nossas histórias mais atuais, como foram compostos os personagens que tratamos ao 
longo deste livro. 
 Os dois capítulos anteriores trataram de um assunto voltado para o trabalho de 
caridade, feito por pessoas (benzedeiros e parteiras), muitas vezes humildes, que 
 
43Imagem tirada no link disponível em: http://www.geocaching.com/geocache/GC1QDA1_ptcra1-
lavadeiras?guid=c04f2c8f-a2da-46c1-8743-91860fb7b7fd, Acessado em: 15/12/2014. 
70 
 
acreditavam nascer com o dom para o trabalho que era destinado, por esse motivo, não 
cobravam por seus serviços, apenas os faziam para ajudar a população de sua cidade. 
Sendo assim, tiravam seus sustentos por fora, fazendo outros trabalhos. 
Muito diferente dos dois trabalhos (benzedura e partejo) citados anteriormente, 
está o de lavadeira, que consiste no serviço pesado de mulheres que praticavam esse ato 
para tirar seu sustento. As lavadeiras de Jardim do Seridó eram mulheres muito 
humildes que encontravam nesse ato a forma de sustentar sua família. O Bairro Bela 
Vista e seu açude foram palcos para as lavadeiras que, com água e sabão, serviam às 
classes mais favorecidas de Jardim do Seridó em troca de dinheiro para sustentar a 
família ou ajudar seus maridos. 
 Em fins do século XIX44, mulheres que trabalhavam para fora, ou seja, para 
ganhar dinheiro e ajudar seus maridos a sustentar o grande número de filhos não eram 
bem vistas pela população. Por fazermos parte de uma sociedade patriarcal, acreditava-
se que o serviço de casa era destinado às mulheres e os trabalhos para o sustento da 
família eram destinados aos homens. Poucos eram aqueles que aceitavam suas esposas 
nas ruas trabalhando para ajudá-los. Essa realidade só mudaria com a Segunda Guerra 
Mundial quando as mulheres tiveram que assumir os trabalhos dos homens que estavam 
envolvidos com os serviços militares. 
 Neste capítulo, discutiremos as relações de gênero na sociedade e falaremos 
como era a história das lavadeiras, em que consistia este trabalho, como as mulheres 
trabalhavam para a sociedade, como era a vida da casa para o tanque, e, por fim, 
entenderemos a importância que elas têm para a formação de nossa história e cultura. 
 
DO TRABALHO AO LAR: A MULHER NO ESPAÇO SOCIAL 
 
Sobre o papel da mulher na historiografia ainda é escasso, se comparado ao que 
muito se escreveu sobre os fatos históricos que envolvem o homem. Em uma cultura e 
sociedade patriarcal, as mulheres ainda lutam por seus lugares de direito e igualdades. 
Com muitas dificuldades, a mulher consegue se sobressair aos poucos. Desde muito 
tempo na história, vemos a grande e importante participação que o homem tem, mas 
poucos veem as histórias de mulheres guerreiras que ajudaram e fizeram parte das 
conquistas desses homens. 
 
44 Período que vai de 1801 à 1900. 
71 
 
 
 
Imagem 20: Encontro de matronas45, Debret. 
 
As formas que se tinham para falar das classes inferiores (escravos, nativos) 
eram através da pintura. Na imagem vemos as sinhás e seus escravos em ambiente no 
qual foram destinadas: o lar. O pintor do quadro era Jean-Baptiste Debret, artista francês 
que veio para o Brasil no século XIX, e se instalou no Rio de Janeiro. Debret, assim 
como outros artistas europeus, veio para o Brasil e passou a retratar a paisagem 
brasileira e seus personagens que completavam o cenário: a elite, escravos, forros, 
nativos e as paisagens que compunham os espaços desses personagens. 
Os discursos do século XX herdaram do século XIX as ideias que destinavam à 
mulher ao lar, assim como à procriação, o cuidado do marido e filhos. Quando nova, a 
mulher deveria ser resguardada para que o melhor esposo a escolhesse. Apesar dos 
ideais anarquistas e revolucionários, da época46, que proclamavam uma sociedade mais 
livre, a mulher ainda era limitada a viver no ceio da família e considerada como um ser 
frágil e delicado. A mulher era destinada a ter filhos e constituir família. O dom de ser 
mãe, e as funções que a levavam a isso, era da natureza da mulher. As leis naturais e 
morais obrigavam-na a manter esse ciclo que era o tornar-se/ser mãe. Aquela que não 
 
45 Disponível em: http://historiacepae.blogspot.com.br/2012/04/analise-da-imagem-encontro-de-
matronas.html. Acesso em: 17/12/2014. 
46 Sobre idéias e filosofias desse período, ver MACEDO, Ubiratan Borges de. A Liberdade no Brasil 
durante o Século XIX. In___ MACEDO, Ubiratan Borges de. A IDÉIA DE LIBERDADE NO 
SÉCULO XIX: O CASO BRASILEIRO. Editora Expressão e Cultura, 1997. 
72 
 
obedecesse ao padrão imposto pela sociedade, a que se recusasse a ter filhos e constituir 
família, seria conceituada como um ser sombrio e anormal, tida por pecado e crime, 
pois estaria se recusando ao dom natural da mulher: a maternidade. 
Com o tempo, essa mulher começa a se sobressair sobre as normas de condutas e 
bons comportamentos, ela procura quebrar os paradigmas que as fazem esse ser 
inofensivo e volátil para a sociedade. A mulher começa a encontrar o seu lugar na 
sociedade, e lutar por seus valores. Margareth Rago nos fala sobre o comportamento da 
mulher e suas mudanças: 
 
Ao lado da tradicional representação da mulher-submissão, emerge uma outra 
figura feminina simbolizada pela combatividade, independência, força, figura 
que luta pela transformação de sua realidade cotidiana, tanto a partir da 
própria presença destas ativistas, quanto pelas suas projeções (1985, p. 97). 
 
Como vimos, à mulher eram impostas condutas a serem seguidas, não 
importando sua classe social. Se fossem ricas, deveriam se portar bem, serem senhoras, 
damas recatadas. Se fossem pobres, deveriam ser discretas. As mulheres que mais 
sofriam eram as humildes, pois estas deveriam conciliar o trabalho do lar com o de fora 
e, ainda assim, sofrer preconceito, por ser tida como a pessoa que sustentaria a casa, 
uma vez que este era o dever do marido. 
 O espaço que era destinado à mulher, como vimos, era a casa. No máximo, as 
mulheres poderiam ir à igreja, mas, para não serem “mal vistas” deveriam ir 
acompanhadas de seus maridos ou de suas mães. As mulheres que mais ocupavam as 
ruas eram as ligadas ao pequeno comércio; as de prestação de serviço, como as 
lavadeiras, engomadeiras, costureiras, tecelãs, bordadeiras. Essas eram mulheres que 
tinham quem dependesse delas. Muitas vezes, eram mulheres chefes de família que 
tinham que sustentar filhos, avós, comadres, entre outros dependentes. 
 O trabalho de lavadeira no Brasil era tido, primeiramente, pelas mulheres negras 
ou mulatas forras, que faziam o trabalho braçal, aquele que exigia força e maior 
disposição, pois acreditavam que essas tinham essa força e capacidade suficiente para 
este trabalho. 
 
73 
 
 
Imagem 21: Lavadeiras47, Rugendas. 
 
As mulheres pobres e brancas se encarregavam dos trabalhos domésticos, eram 
costureiras,doceiras e/ou trabalhavam na roça em pequenas plantações. Mesmo se 
tratando de diferenças entre trabalho mais esforçado e o que exigia menos força, essas 
mulheres eram muito guerreiras por isso, pois além de trabalhar para fora e trabalhar 
para sua própria casa, essas ainda sofriam por serem tidas como seres frágeis, incapazes 
de seus trabalhos serem reconhecidos por iguais com os trabalhos dos homens. 
 Mesmo sendo ameaçada pelo mundo do trabalho, a mulher quebrou barreiras e 
preconceito, partindo para sua rotina diária dos serviços, seguindo sem medo do que 
iam falar ou agir com relação a ela, tendo em vista a importância do sustento de sua 
família e o bem-estar de todos. 
Dentre as mulheres guerreiras que serviam de pilares para o sustento familiar, 
encontra-se a lavadeira, que tinha como lugar de trabalho, o tanque ou a pedra, que se 
encontrava próximo ao rio, riacho ou açude. Lá, elas se encontravam para bater roupa e 
conversar. Sandra Maria de Assis, no seu trabalho que fala sobre as mulheres da Vila do 
Príncipe48 nos anos de 1850 a 1990, fala sobre o ambiente de trabalho das lavadeiras: 
 
As margens dos rios, onde as mulheres lavavam as roupas, eram mais do que 
isso para elas. Eram um centro de encontros onde se podia saber das 
novidades, obter receitas de remédios caseiros, exercitar a assistência mútua 
(consolar aquelas que “perderam” o homem, dividir os alimentos, 
solidarizar-se com a perda de parentes etc.). Ali as mulheres se encontravam 
várias vezes por semana e fortaleciam os laços de amizade e 
companheirismo, unidas pela mesma pobreza e desesperança. 
 
47 Disponível em: http://museuvirtualpintoresdorio.arteblog.com.br/17726/JOHANN-MORITZ-
RUGENDAS-LAVADEIRAS-DO-RIO-DE-JANEIRO/ Acesso em: 17/12/2014. 
48 Como era chamada a cidade de Caicó-RN, no período. 
74 
 
Esses lavadouros também eram palco de atritos que podiam ter as mais 
diferentes motivações (desde a posse de um lugar privilegiado para acomodar 
as roupas até disputas pelo mesmo homem). Esses atritos revelavam as 
tensões que permeavam as relações entre essas mulheres (2002, p. 141). 
 
Os atritos ocorriam quando seu lugar privilegiado para lavar roupa era ocupado 
por outra lavadeira. Isso acontecia quando uma novata chegava ao local e ficava na 
pedra49 ou no tanque daquela lavadeira que tinha por costume lavar ali, há mais tempo. 
 Esse sustento era muito difícil, porque, além do trabalho ser, de certa forma, 
árduo, e elas tendo que dar conta dele e dos serviços domésticos, essas mulheres sofriam 
preconceito, pois os trabalhos de (lavadeiras, engomadeiras, cozinheiras, arrumadeiras), 
eram tidos como trabalhos fáceis, uma vez que eram considerados como trabalhos 
femininos, não sendo reconhecidos pelas classes trabalhistas, assim, esses eram 
trabalhos de pouco valor. Além de ser um trabalho que requer força e determinação, as 
mulheres, que trabalhavam com ofícios braçais para sustentar a família, não eram 
reconhecidas como chefes de família, pois esse papel era destinado somente para o 
homem da casa. Sobre esses fatores, Margareth Rago nos diz: 
 
Não é demais reafirmar que os principais pontos da crítica feminista à ciência 
incidem na denúncia de seu caráter particularista, ideológico, racista e 
sexista: o saber ocidental opera no interior da lógica da identidade, valendo-
se de categoria reflexivas incapazes de pensar a diferença. Em outras palavras 
atacam as feministas, os conceitos com que trabalham as Ciências Humanas 
são identitários e, portanto excludentes. Pensa- se a partir de um conceito 
universal de homem que remete ao branco-heterossexual-civilizado-do-
Primeiro-Mundo, deixando-se de lado todo aqueles que escapam deste 
modelo de referencia. Da mesma forma as práticas masculinas são mais 
valorizadas e hierarquizadas em relação às femininas, o mundo privado sendo 
considerado de menor importância frente à esfera pública, no imaginário 
ocidental (apud MORAES, 2005, p. 20). 
 
Normas sociais servem para impor na mentalidade das pessoas, condutas que 
sejam seguidas por muito tempo. Dentre essas lavadeiras, além do preconceito de 
caráter trabalhista e a consciência da inferioridade de sexo, elas se encontravam aptas e 
determinadas para lutar contra tudo isso. 
 Não tendo um lugar fixo, voltado apenas para as lavadeiras, essas mulheres 
compunham vários espaços, sendo eles próximos às suas casas, em seus quintais, jardins 
ou muros; ou aos redores das cidades, como: poços, riachos, açudes, cacimba, lagoas ou 
praia (para aquelas que moravam no litoral). Assim elas seguiam, com uma trouxa de 
 
49 Pedra grande que servia para bater/lavar roupa, onde se encontrava mais próxima ao açude, poço, 
riacho, etc. 
75 
 
roupas na cabeça, percorrendo a cidade com seus passos para entregar as roupas limpas, 
passadas e bem cuidadas para seus patrões e patroas. Ao passo que entregavam as 
roupas já cuidadas, recolhiam as novas remessas de roupas sujas de seus senhores para 
retornar ao trabalho no dia seguinte. 
 Por essa importância que as lavadeiras têm no contexto histórico de um lugar, 
trataremos das lavadeiras de Jardim do Seridó que, desde muito, se fazem mulheres 
guerreiras, firmes alicerces da família, assim consideradas por tirar o sustento diário de 
seu trabalho braçal, pouco reconhecido por muitos. 
 
DENTRE TANTAS, AS LAVADEIRAS. 
 
 Nesse capítulo, trataremos das histórias de nossas lavadeiras, as de Jardim do 
Seridó, aquelas que nos mostram como se davam suas rotinas e suas vidas no lar, as 
lavanderias. Entrevistamos, ao todo, quatro lavadeiras que nos mostraram como era sua 
profissão, em que consistia a conciliação do trabalho de lavadeira e os cuidados de casa, 
falaram de suas clientelas e como eram lavadas as roupas. Nossas entrevistadas foram: 
D. Inácia50, D. Severina51, D. Anedina52, D. Josefa53 e, no universo das lavadeiras, 
entrevistamos Ildete Gomes, hoje vice-diretora da Escola Municipal Professora Zélia 
Costa da Cunha, filha de D. Maria de Genésio54, lavadeira já falecida e um referencial 
imprescindível entre as lavadeiras da época. Atualmente, essas lavadeiras se encontram 
aposentadas, com exceção de D. Josefa, mas ainda lembram como eram suas rotinas. 
 
COMO TUDO COMEÇOU 
 
O ato de lavar roupa começa desde cedo, na maioria das vezes, com a mãe ou 
alguma mulher da família, que ensina como fazer os trabalhos domésticos e, dentre eles, 
a lavagem de roupa assim como suas melhores técnicas. Comecamos, a falar sobre as 
lavadeiras, pela história de D. Maria, (Maria das Dores Gomes55), popularmente 
conhecida como Maria de Genésio. Quem nos relata suas histórias é a filha D. Ildete 
(Ildete Gomes, 64 anos), residente em Jardim do Seridó. 
 
50 Inacia de Oliveira Gonzaga. 
51 Severina Maria de Oliveira. 
52 Anedina Meira De Medeiros Azevedo. 
53 Josefa Maria de Oliveira. 
54 Maria das Dores Gomes. 
55 D. Maria faleceu no dia 27 de março de 1979, segundo Ildete Gomes. 
76 
 
 
 
Imagem 22: À esquerda, Ildete Gomes, cedendo entrevista na Escola Municipal Profª Zélia 
Costa da Cunha. Jardim do Seridó-RN. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 29 de set. de 2014. 
 
D. Ildete nos conta como sua mãe, D. Maria, fazia para sustentar a família e 
filhos com seu trabalho de lavadeira. Damos início nossa entrevista perguntando com 
quantos anos D. Maria começou a lavar roupa. D. Ildete nos diz: “é, na realidade, minha 
mãe começou a lavar roupa muito cedo, mas, a idade mesmo, eu nunca procurei saber 
não. Sei que quando ela deixou de lavar roupa,ela tinha lavado (roupa, fazia) trinta e 
dois anos, (depois desse tempo, parou de lavar) roupa pra população de Jardim do 
Seridó” (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). D. Ildete nos falou que sua mãe começou a 
lavar roupa desde nova, e aprendeu sozinha, devido às necessidades financeiras que 
estava inserida sua família: “aprendeu sozinha, vivendo na pobreza que existia, ela foi 
aprendendo. Minha mãe lavou roupa, teve cinco filhos, sem ter absolutamente nada. Ela 
lavava e engomava” (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
Assim como D. Maria, D. Inácia e as outras lavadeiras entrevistadas aprenderam 
a lavar roupa desde cedo, D. Inácia (Inacia de Oliveira Gonzaga, 50 anos), que até a 
presente data, lava e engoma como profissão, contou-nos que sua mãe e sua tia 
trabalhavam como lavadeiras e quem a ensinou lavar roupa, foi a tia. 
 
77 
 
 
Imagem 23: À esquerda, D. Inácia, em sua residência, cedendo entrevista para os alunos da 
Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha, e engomando a roupa que já havia lavado. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 11 de nov. de 2014. 
 
D. Inácia começou a lavar roupa aos doze anos de idade, ajudando à irmã com as 
roupas de casa. Posteriormente, começou a lavar roupa para ganho um pouco mais 
velha. Atualmente, com seus cinquenta anos, lava roupa há trinta e oito anos. D. Inácia 
lava roupa para fora até os dias de hoje, e considera esse ato como sua profissão, uma 
vez que trabalha como lavadeira para ajudar no sustento de casa. Seus atuais fregueses 
são vários. 
D. Severina (Severina Maria de Oliveira, 76 anos) é aposentada e reside no 
Bairro Bela Vista, em Jardim do Seridó, por muito tempo foi lavadeira na cidade. D. 
Severina nos contou que aprendeu a lavar roupa antes dos doze anos, tendo começado a 
lavar como profissão, aos doze anos para ajudar no sustento da família, isso aconteceu 
partindo dos ensinamentos de sua mãe. Apesar de não ser lavadeira, a mãe de D. 
Severina a ensinou como deveria lavar, cuidar das roupas e dos afazeres domésticos: 
“ela só fez ensinar, tudo o que a minha mãe sabia, ensinou a gente. Como eu, tudo o que 
eu sei fazer, ensinei as meus filhos” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). D. 
Severina aprendeu com a mãe a lavar e engomar para tirar sua renda, pois aos treze 
anos, com o nascimento do seu primeiro filho, D. Severina já começava a constituir 
família. D. Severina não herdou esse costume, de ser lavadeira, da sua mãe, assim como 
nenhuma de suas filhas herdaram dela, pois todas trabalhavam como domésticas. 
 
78 
 
 
Imagem 24: D. Severina, em sua residência, cedendo entrevista sobre o ofício de lavadeira, para 
os alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa, 30 de set. de 2014. 
 
Entre as demais lavadeiras que entrevistamos, se encontram D. Anedina 
(Anedina Meira De Medeiros Azevedo, 53 anos), atualmente residente no Bairro Bela 
Vista, que aprendeu a lavar roupa logo cedo e, aos dezoito anos, começou a lavar roupa 
de ganho. D. Josefa (Josefa Maria de Oliveira, 52 anos) também residente no mesmo 
bairro, contou-nos que começou a lavar roupa aos dezesseis anos, e aprendeu com a 
mãe. 
Como falamos anteriormente, os trabalhos de lavadeiras não eram muito bem 
reconhecidos, pois acreditavam que esse ato era destinado às mulheres, por estas 
ficarem encarregadas de cuidarem da casa e da família, enquanto para os homens, foram 
destinados outros trabalhos, fora do contexto doméstico. Mesmo não sendo bem 
reconhecido, o trabalho de lavadeira, as necessidades do tempo, levavam as mulheres a 
buscarem essa forma de sustento para a casa. Essas necessidades não impediam que 
essas mulheres almejassem o melhor para seus filhos. 
 
 
 
 
 
 
79 
 
O LAVADOURO 
 
Os lugares de se lavar roupa, em Jardim do Seridó, eram os açudes e poços 
próximos. D. Maria das Dores realizava seus trabalhos no Açude da Comissão, o 
contexto do espaço é lembrado por D. Ildete: “alí, no conjunto Luzia Leopoldina, existia 
uma pessoa lá tomando conta de um motor que ligava e a água ia lá pra onde tinham os 
batedores” (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). Conversando depois com D. Ildete, ela 
nos falou que quem tomava conta do motor era seu Chico Anísio, esposo de D. 
Cristiana, ambos já falecidos. Em período de seca, as lavadeiras migravam para o Poço 
Doce, município de Jardim do Serido, lugar onde D. Maria de Genésio e outras 
lavadeiras de sua época lavavam roupa. 
 A rotina diária se dava quando essas mulheres partiam para esses lavadouros. 
Seus almoços eram, em sua maioria, deixados pelos filhos. D. Ildete nos fala como era 
essa rotina: 
 
Ia a pé, eu estudava na Escola Rural que hoje é o centro pastoral, saía às 
10h30, pegava o almoço dela, com outra colega, que a mãe também lavava, e 
a gente deixava esse almoço a pé e nem achava muito longe. Naquela época 
as pessoas [para quem D. Maria trabalhava] davam o almoço, quem ia pegar 
esse almoço era eu (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
Algumas patroas ajudavam suas lavadeiras, dando-lhes o almoço, em outros 
casos, sendo mais frequente, quem tinha que cuidar do almoço eram as próprias 
lavadeiras: acordando cedo para fazer suas refeições e levando-as para o lavadouro ou 
deixando esse serviço para os filhos. 
D. Maria de Genésio tinha sua clientela fiel, segundo sua filha, D. Ildete, a 
mesma lavava roupa para a família de Joaquim Patrício, D. Maria do Céu e Dr. 
Brandão, sendo os dois primeiros, os responsáveis por ajudar à D. Maria de Genésio nos 
papéis da aposentadoria. É notório que só tinha lavadeira, quem vivia bem 
financeiramente, como nos diz D. Ildete: “só pagava quem tinha (boas condições 
financeiras)... quem era professor, que naquela época ganhava dinheiro” (Ildete Gomes, 
29 de set. de 2014). 
Ainda sobre rotina, D. Severina nos conta que seguia sua rotina de trabalho 
diário, ou seja, o dia todo; parando para o almoço quando um de seus filhos ou seus 
irmãos iam deixar a refeição. Já D. Josefa nos contou que seu cotidiano de lavadeira 
começava logo cedo, de madrugada ainda: 
80 
 
Eu já cansei de ir de duas horas da madrugada. Tinha lua nesse dia, eu pensei 
que o dia ia clareando, né? Eu me preocupei, eu disse “ah, já tá de manhã!”. 
Corri pra lá (lavadouro), quando cheguei lá, só tinha eu. [risos] Mas também 
num voltei não, segui lavando minha roupa. Quando foi o outro dia, eu já 
tinha lavado a roupa todinha, o povo foi chegando lá, era tudo assustado. De 
madrugada, eu me acordava, já deixava o almoço pronto, aí eu ia lavar roupa, 
quando chegava, esquentava e dava pra os meninos irem pra escola (Josefa 
Maria de Oliveira, 11 de nov. de 2014). 
 
O açude do Bairro Bela Vista, Açude Dix-Sept Rosado, foi palco por muito 
tempo de lavadeiras do bairro. Elas se dirigiam a ele para lavar suas roupas ou recolher 
água para este ato. Quando perguntamos a D. Inácia onde era seu lavadouro, esta nos 
respondeu “no açude, ali” [apontando para o açude do Bela Vista]. D. Inácia lavava 
roupa no açude do Bairro Bela Vista. Atualmente este açude se encontra seco, devido 
aos maus tempos de estiagem. 
Assim como D. Inácia, D. Severina também lavou roupa no açude do Bairro 
Bela Vista, onde sempre foi residente, e ela nos conta que começou a lavar roupa no 
açude de lá mesmo, local que trabalhou por muito tempo como lavadeira para tirar o 
sustento da família e criar seus filhos. D. Severina volta ao tempo de lavadeira, através 
de lembranças para nos contar como era constituído o espaço do lavadouro, dizendo-nos 
que não eram em lavanderias públicas, mas “era na pedra, sentada, sabe?! [risos] Umas 
eram sentadas, outras eram de coca. (Tinha) latadinhade palha, a gente fazia umas 
latadinhas de palha” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). Notamos na fala 
dela que o ambiente onde trabalhavam, era construído pelas lavadeiras, por esse motivo, 
elas se achavam no direito de marcar aquele local como sendo delas: “cada uma tinha o 
seu canto, assim como nós estamos aqui tudo reunido, sabe? Era uma palestra muito 
boa, que a gente se sentia feliz, sabe?! Porque tinha aquelas amizade, num é verdade?! 
A gente se sentia muito feliz, eu me sentia feliz” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. 
de 2014). 
O local de trabalho também era local de fofocas, conversas soltas e onde elas 
atualizavam suas informações diárias, como bem nos relata D. Severina: 
 
 Meu fi, nesse tempo num existia novela, num é?! Num existia televisão, era 
radio, e era muito difícil uma pessoa possuir um radio, porque a pobreza era 
grande demais, num é verdade?! Aí a gente num tinha rádio, a gente 
conversava só em lavagem de roupa, a gente se sentia umas pessoas muito 
feliz. Era o dia todinho” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). 
 
81 
 
D. Anedina e D. Josefa não eram residentes de Jardim, e aprenderam a lavar 
roupa antes de chegar à cidade, mas quando se fez residente em Jardim, logo 
procuraram os lavadouros mais próximos para continuarem a lavar suas roupas de 
ganho. 
 
 
Imagem 25: D. Anedina, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista sobre o ofício de 
lavadeiras para os alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 11 de nov. de 2014. 
 
D. Anedina começou a lavar roupa no sítio Timbaúba, município de São José do 
Sabugi/Paraíba; vindo residir em Jardim do Seridó, seu lavadouro passou a ser no açude 
do Bela Vista, bairro onde mora até os dias de hoje, assim nos conta: 
 
Comecei na Timbaúba, município de São Jose do Sabugi/Paraíba, depois nós 
viemos pra o finado Patrício, pronto, lá foi que eu comecei mesmo a lavar 
roupa aqui. Pra o povo dele mesmo, da família dele, Dona Cota, Raquel, 
Márcia, Dona Luzia, Gracinha, filha de Patricio (Anedina Meira De Medeiros 
Azevedo, 11 de nov. de 2014). 
 
No lavadouro, D. Anedina se juntava às outras lavadeiras, uma delas levava o 
rádio, e elas ficavam conversando e ouvindo a rádio regional, com seus noticiários. D. 
Josefa morou no sitio São Gonçalo, município de Jardim do Seridó, onde viveu parte de 
sua vida, e começou a lavar roupa. Mudando-se para Jardim, passou a morar no bairro 
Bela Vista, e seu lavadouro passou a ser no açude do bairro, onde trabalhou para tirar o 
82 
 
seu sustento e de sua família. D. Josefa nos disse que tinha muitos fregueses, para quem 
lavava a roupa em Jardim do Seridó, dentre eles, lavou para Geni de Noel, Marcia, 
Veraneide, entre outros. 
 
 
Imagem 26: D. Josefa, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista sobre o ofício de 
lavadeira para os alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: E. M. Profª Zélia Costa. 11 de nov. de 2014. 
 
Para D. Josefa, o convívio entre as lavadeiras era muito bom, pois lá, 
constituíam amizade, uma vez que eram todas do mesmo bairro, e por lá ficavam 
conversando e lavando suas roupas. Na lavanderia pública do bairro não só tinha 
lavadeiras de ganho, como outras mulheres que lavavam apenas para casa. Era para 
todas aquelas que queriam lavar suas roupas. 
Ainda sobre esse convívio, D. Severina nos conta que no seu tempo de lavadeira, 
fez amizade com outras lavadeiras da época, sendo todas de seu bairro: “nesse tempo 
que a gente lavava roupa lá no açude, tinha seis lavandeiras: eu, Severina, Leomiza, que 
é falecida, sabe?! Tereza Martins, Lia, e a outra, eu não lembro quem é” (Severina 
Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). 
Sobre esse convívio, todas as entrevistadas falaram que sempre faziam amizades 
com as outras lavadeiras, o ambiente se tornava mais agradável e isso fazia com que o 
trabalho se tornasse menos cansativo, pois elas iam lavando suas roupas e conversando, 
para se distraírem e o tempo passar mais rápido. Essas lavadeiras, quando podiam, 
83 
 
levavam seus filhos para que pudessem ajudá-las, botando a água, porque segundo as 
entrevistadas, além das lavadeiras, havia alguns jovens que botavam água nas bacias 
para enxaguar a roupa. D. Ildete se lembra muito bem sobre esse convívio entre 
lavadeiras, e nos fala que ela ajudava à sua mãe, D. Maria de Genésio, botando água: 
 
Lembro, inclusive, várias [fala de outras lavadeiras que trabalhavam no 
mesmo local de sua mãe] eram minhas madrinhas. É... acho que todas já 
morreram. Era muita gente que naquela época vivia de lavar roupa. Cada uma 
tinha o seu batedor, cada uma lavava, mas ficava conversando, que era tudo 
perto. Agora, tinha uma pessoa que botava água na bacia, quando não era 
bacia, naquele tempo era mais coisa que chamavam aro de barro (Ildete 
Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
E, sobre o local, D. Ildete nos diz que: 
 
Só tinha as marcas (que delimitavam o local de cada lavadeira), lá cada uma 
tem/tinha o seu batedor, cada uma tinha seu batedor. Cada uma tinha o seu 
lugar. Era assim como se fosse, batizado ali, aquele batedor... Era sua pedra, 
era. Agora era uma pedra quadrada, bem feita, era uma pedra feita de 
alvenaria, como se fosse um... aquela pedra que faz o banco. Tinha um 
tanque, era muito bom em época de inverno, a gente tomava banho demais 
nos tanques. Ainda existe a estrutura lá, quando sangrava a água parecia as 
cachoeiras da foz do Iguaçu (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
No período que D. Inácia trabalhava como lavadeira nos açudes, mesmo sendo 
mais recente que D. Maria de Genésio, ainda assim não havia lavanderias coletivas com 
água encanada, tudo era com lata d’água, e o trabalho se fazia na beira do açude: “era 
uma latada, num batedor, sentada. Aí depois foi que fizeram essa lavanderia aí [falando 
sobre a lavanderia que construíram próximo ao açude do Bairro Bela Vista]” (Inacia de 
Oliveira Gonzaga, 11 de nov. de 2014). D. Inácia ainda fala que as lavadeiras, muitas 
em seu mesmo local de trabalho, eram todas amigas. 
Por ser mães de família e esposas, as lavadeiras ficavam responsáveis pelos 
filhos e os cuidados domésticos, assim como as roupas que tinham que lavar. Enquanto 
essas mulheres partiam para o trabalho, seus filhos ficavam em casa muitas vezes com a 
avó, tia, ou sozinhos cuidando uns dos outros. Elas acordavam cedo, muitas vezes 
deixavam o almoço pronto e iam para o lavadouro. D. Ildete nos disse que sua mãe 
acordava cedo e ia para o lavadouro, deixando os filhos com sua avó, que cuidava dela e 
dos irmãos: “a gente foi criada pelos avós. Minha mãe teve cinco filhos, mas criado, 
quem criou a gente foi a avó. Ela ficava cuidando da gente e ela (a mãe) lavava roupa o 
dia inteiro” (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). Já D. Inácia ia para o lavadouro e 
84 
 
deixava suas filhas cuidando da casa, enquanto lavava as roupas. As filhas, mesmo 
novas, ajudavam nos serviços domésticos, enquanto a mãe saía para conseguir o 
sustento diário. Assim como D. Maria, os filhos de D. Severina ficavam em casa, 
enquanto ela ia trabalhar. D. Severina nos disse que quem cuidava dos seus filhos era a 
mãe, enquanto D. Severina ia para o lavadouro: “ficava (com) a minha mãe, porque meu 
marido era pescador, sabe? Eu via ele de mês em mês, ele vinha em casa, ele pescava, 
só vinha em casa em mês em mês” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). 
Observamos com isso que as lavadeiras sempre davam um jeito para sair cedo 
para o lavadouro, porque assim elas pegavam a água mais limpa e gastava menos sabão, 
mas ainda assim tinham que se preocupar com a refeição dos filhos,que ficavam em 
casa. 
 
TEMPOS DE SECA, TEMPOS DE MEDO. 
 
 Com mãos pesadas de lavar roupa e um sorriso no olhar, por mais um dia 
de sol e sua roupa para enxugar, a lavadeira segue seu caminho diário, pedindo a Deus 
força e saúde para continuar sua jornada e conseguir tirar o seu sustento do trabalho 
duro. Lavadeiras pedem a Deus três coisas: saúde, para continuar seu trabalho; um dia 
de sol, para secar suas roupas; e que nunca falte água, para continuar seu trabalho. O 
medo constante que segue qualquer pessoa, que trabalha em torno de açudes e poços, é 
a seca. Em períodos de estiagem o trabalho da lavadeira passava a ser mais difícil e 
doloroso. Partindo disto, ouvimos dessas mulheres a história de como era os períodos de 
seca e como elas faziam para driblar, mais uma vez, a dificuldade que a vida trazia. 
Jardim do Seridó e o Bairro Bela Vista, em meio às décadas de 1950 e 1980, 
período que está inserido o trabalho das lavadeiras entrevistadas, mudaram bastante até 
os dias de hoje. Ouvimos delas como era constituído o espaço da cidade. D. Severina 
nos conta que Jardim do Seridó era muito pequeno e o bairro onde reside, o atual Bela 
Vista, não era povoado. Em suas falas, ela nos conta que antes de ir morar no Bairro 
Bela Vista, morava, com seus pais, no sítio Riacho do Meio, município de Jardim. Por 
ser um bairro pouco povoado, ela nos disse que foi uma das primeiras a povoá-lo: “o 
bairro aqui era um deserto, sabe? Quem fundou esse bairro aqui, fui eu. Só era mato 
aqui” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). Quando perguntamos se ela 
morava na mesma casa desde sempre, a mesma nos respondeu: 
 
85 
 
Não. Eu tinha alugado uma casinha ali, mas só tinha cinco casas nesse bairro. 
Depois (que) eu me casei e fiquei morando sozinha, só tinha essa casa aqui e 
essa ali [apontando para uma casa próxima], era cinco casas que tinha nesse 
bairro. Agora lá pra baixo, tinha duas. Era muito distante do centro (Severina 
Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). 
 
D. Anedina, D. Inácia e D. Josefa falaram que a cidade era muito menor que 
hoje e, no Bairro Bela Vista, as poucas casas que havia, eram muito pequenas e 
distantes. Atualmente, o bairro Bela Vista é o maior bairro de Jardim do Seridó. 
Sabendo desse assunto, D. Ildete descreve como era Jardim e sua população: 
 
Só era da sociedade quem tinha dinheiro. Naquele tempo, Jardim era uma 
cidade pequena, que Jardim cresceu muito. Aqui, nesse Bela Vista, não 
existia, hoje é uma cidade nova, é Jardim novo, o Bela Vista. Mas, 
antigamente, só tinha bode, chamavam Berra Bode n’era? Olhe o Alto Baixo 
(onde ela morava com sua mãe e irmãos, quando jovem) onde eu nascia, 
tinha umas três casas, hoje tem bem mil (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
Todas nos contaram como ficam impressionadas ao lembrar-se da cidade nos 
tempos que trabalhavam como lavadeiras, e os atuais dias, assim como falam das 
modificações que se deram ao longo do tempo com relação à população e aos avanços 
tecnológicos. Certeau, ao tratar do espaço e suas transformações, mostra que a 
modificação do espaço se dá com o contato humano, pois “os jogos dos passos mudam 
espaços” (1990, p. 176). Essa reflexão nos diz que o espaço pode mudar de acordo com 
dois fatores: as pessoas que o habitam e o tempo que pode levar de acordo com as 
pessoas que compõem esses espaços. Isso pode variar de acordo com práticas culturais. 
Esses locais que tinham circulações de lavadeiras foram mudando de acordo com elas. 
Como podemos notar as lavanderias coletivas só foram criadas, pensando, 
primeiramente, nessas mulheres que tinham dificuldades de lavar suas roupas nas beiras 
dos açudes, em pedras. 
Assim como elas encontravam uma forma para modificar seus locais de 
trabalho, em tempos de seca, essas lavadeiras sempre encontravam um jeito para driblar 
essas dificuldades que apareciam com a falta de água. Como já foi citado, os períodos 
de estiagem eram os mais difíceis, no entanto, elas migravam para o próximo açude 
lavadouro e davam conta de tudo, como nos conta D. Ildete: 
 
Ah, período de seca, quando não tinha, lavava roupa no poço doce, que todo 
mundo sabe. Quando estava seco o pessoal que lava roupa, ia pra lá. Depois, 
quando começava a chover que o rio botava água, minha mãe lavava ali por 
86 
 
trás da Calpúrnia... Era bom demais, uma vida “véa” que ninguém tinha nada 
e ninguém reclamava (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
Apesar das dificuldades que o tempo trazia para essas mulheres, elas 
continuavam suas trajetórias sem muitas reclamações. Algumas se mudavam para 
outros açudes, outras cavavam uma cacimba no rio para trabalhar no Rio Cobra ou no 
Rio Seridó. 
Ainda hoje podemos notar o medo que as lavadeiras têm ao lembrar-se da seca. 
Segundo D. Inácia, quando era em período de seca, a população enchia os seus 
reservatórios de água através de um carro-pipa que passava pelos bairros, isso já na 
década de 1990. D. Inácia nos conta como era isso: “era na pipa né? Onde a pipa tava, a 
gente tava atrás da pipa pra pegar água. Que eu não quero nem me lembrar, meu Deus 
do céu, tomara que chova” (Inacia de Oliveira Gonzaga, 11 de nov. de 2014). Já D. 
Severina e as demais lavadeiras do seu tempo (por volta dos anos de 1950) migravam, 
com suas trouxas de roupas, para lavar no rio Seridó, próximo a Jardim do Seridó, e a 
água era retirada de cacimbas. 
D. Anedina nos contou que recolhia as roupas que tinha para lavar, e fazia isso 
em sua casa: “tinha que ir pra o açude, quando num tinha (água), tempo de seca, era no 
poço. Lá no finado Patrício, ele fez um tanque bem grandão, aí ia muita gente lavar lá” 
(Anedina Meira De Medeiros Azevedo, 11 de nov. de 2014). 
Geralmente, o lavadouro que D. Josefa frequentava, era próximo ao açude, mas 
ela nos conta, com mais detalhes, o que acontecia em período de seca: 
 
Lavava na cacimba quando era tempo de seca, aí a gente lavava cacimba. Aí, 
quando era tempo de chuva, n’era?! Lavava nos riacho, no açude. Tempo de 
seca a gente tem que chegar lá de três e meia da madrugada, três horas, pra 
conseguir, conseguir lavar umas roupinhas mais... porque é pouca água, com 
muita gente. A gente puxava a água do açude pra caixa d’água. Quem 
chegasse primeiro... Era porque quando aquela caixa d’agua se acabava, aí a 
gente tinha que esperar a bomba encher, puxar do assunto (e) encher pra 
poder lavar roupa, né? (Josefa Maria de Oliveira, 11 de nov. de 2014). 
 
Ainda sobre as dificuldades que o período de seca trazia para a população 
jardinense e, principalmente, para aquelas mulheres que precisavam da água para lavar 
suas roupas e ganhar com isso, D. Josefa nos conta histórias de dificuldade que ela 
passou para criar seus filhos e a neta, Pâmela. Dentre várias histórias, D. Josefa nos 
disse que além de lavadeira, era doméstica, e tinha que conciliar esses dois trabalhos 
com a criação de sua neta. Em tempos de seca, com a neta criança, ia para a casa de seus 
87 
 
patrões cuidar dos serviços domésticos, e deixava para lavar uma vez por semana. 
Recolhia as roupas na quarta e, na quinta, ia lavar as roupas no sítio do tio, Zé do Ouro, 
que tinha um reservatório de água: 
 
Aí chegou um tempo, uma época de uma seca, era bem novinha ela [fala da 
neta, Pâmela, que ela criou], eu trabalhava lá em Nino Ferreirinha e lavava 
roupa na casa de Maria. O que acontece? Na quarta-feira eles trazia a roupa, 
aí quando era na quinta eu ia pra o sítio lavar, lá na casa do meu tio, aí era 
numa seca, num tinha água, só tinha somente, porque meu tio Zé do Ouro, ele 
gostava muito de ter cuidado nas águas né? Aí tem aqueles barreiros, aí tinha 
aquele açude, aí só pegava o pessoáda “família mesmo, aí eu ia, eu saia de 
quatro horas da madrugada nesse mundo do sítio (Josefa Maria de Oliveira, 
11 de nov. de 2014). 
 
Além da dificuldade que as pessoas desse tempo sofriam com a ausência de água 
encanada, outros problemas sérios com relação à água dos poços e açudes, que eram 
mais sujos, devido à escassez que os tempos de seca traziam, com isso, essas mulheres 
teriam que ir colher a água ou lavar suas roupas bem mais cedo, para não pegar a água 
suja de lodo ou de barro, a água baldeada como diziam. 
 
LAVA E ENGOMA: COMO ERAM PRATICADOS ESSES OFÍCIOS E O 
RESULTADO DESSES TRABALHOS 
 
A lavadeira também se fazia engomadeira, onde um trabalho completava o 
outro. As mulheres achavam mais adequado entregar as roupas lavadas e passadas, uma 
vez que com isso poderiam cobrar um pouco mais, e sua clientela se via mais satisfeita. 
No entanto, entre as lavadeiras que entrevistamos, tinham aquelas que não engomavam, 
só faziam isso para a clientela mais próxima, e que trabalhavam há mais tempo, como 
era o caso de D. Maria de Genésio, que nos conta D. Ildete: “minha mãe não era assim, 
engomadeira não, ela engomava alguma coisa e as de casa” (Ildete Gomes, 29 de set. de 
2014). 
Nos tempos em que sabão em pó, o mais adequado para a lavagem de roupa, não 
existia, ou era muito difícil, elas lavavam apenas com sabão em barra. A água sanitária, 
produto que auxilia no clareamento das roupas brancas, não era popularmente utilizada, 
o que valia era esfregar bem, com as próprias mãos. O trabalho de lavar a roupa se 
88 
 
encontrava entre as mãos para esfregar, a pedra, para bater, e o fogo, para “cozinhar56” 
as roupas. 
Mesmo não tendo tantos produtos para a lavagem, como atualmente são 
popularmente conhecidos, essas lavadeiras sempre davam um jeito para encontrar 
melhores formas de deixar as roupas alvas e cheirosas, como nos conta D. Ildete, sua 
mãe tinha as técnicas adequadas, como as outras lavadeiras, para cuidar das roupas: 
 
Lavava com sabão preto, botava limão debaixo da sovaqueira dos homens, 
que às vezes ficava encardido. Mãe metia limão no sovaco, fervia roupa, que 
hoje ninguém faz mais isso, né? Usava (referente ao produto anil), pra ficar 
azulzinho. Essas roupinhas assim, branca, botava assim... (Ildete Gomes, 29 
de set. de 2014). 
 
Segundo D. Inácia, os rituais de lavar roupa não se diferenciavam muito dos dias 
atuais, ela lavava com água sanitária, sabão e anil, e, para obter melhores resultados 
com a roupa, botava sempre para quarar. O lavar a roupa de D. Severina seguia o ritual 
das demais: esfregava a roupa nas mãos com sabão comum, usava anil, deixava no 
quarador que, segundo D. Severina, “era um quarador muito bonito” (Severina Maria de 
Oliveira, 30 de set. de 2014), e não botava a roupa para ferver, só se a pessoa estivesse 
doente. O lugar de estender a roupa era por lá mesmo, próximo ao lavadouro, onde 
lavava, tinha que estender. Só levava a roupa para casa quando estivesse bem seca. 
 Sobre o ato de botar a roupa no quarador, D. Josefa nos conta como isso 
acontecia, com mais detalhes, e como ela lavava suas roupas: 
 
Naquela época, ensaboava a roupa, aí o povo gostava muito de ensaboar no 
sabão só em barra, aí botava no quarador pra quarar, ficava muito cheirosa. 
Botava um pouquinho de água sanitária, muito pouco, o povo num gostava 
muito não, também não. O povo gostava era de quarador. Ficava legal, bem 
alvinha a roupa e muito limpa. A gente estendia numa cerca. Assim, que eu 
não podia trazer toda, né? Aí, eu estendia um bocado na cerca, aí o outro 
trazia pra casa. Quando eu deixava as outras em casa, eu ia lá buscar as que 
tavam lá na cerca já (Josefa Maria de Oliveira, 11 de nov. de 2014). 
 
Como pudemos observar, os rituais de lavagens não se distanciam muito da 
atualidade, só com algumas ressalvas, que eram seguidos com os produtos disponíveis 
no tempo que elas lavavam. Bem como as lavagens, o engomar era diferente, pois estas 
utilizavam o ferro à brasa, o ferro elétrico não era frequente entre as pessoas. Em meio a 
 
56 Esse é o termo utilizado por nossas entrevistadas para dizer que as roupas deveriam ferver em água 
quente para tirar as manchas mais escuras das roupas e o trabalho se tornar mais fácil. 
89 
 
isso, ouvimos como elas engomavam as roupas, assim nos conta D. Ildete, as práticas de 
D. Maria de Genésio para engomar as roupas: 
 
Com ferro de brasa, e o lugar onde ela engomava era uma... hoje a gente 
compra aquelas tábuas nas lojas, né?! Mas na época, eu me lembro que minha 
mãe botava uma tábua dessas de botar pra o pedreiro subir né? Enrolava num 
pano e botava uma pedra em cima pra engomar aquelas roupas (Ildete 
Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
Do mesmo modo, D. Severina engomava a roupa em casa com ferro à brasa. 
Entregava a roupa lavada e engomada. D. Severina nos disse que ganhava por volta de 
quinze mil réis, dez mil réis por mês. Não lembra ao certo, pois faz muito tempo, e ela 
nos disse que lavou roupa durante vinte anos de sua vida. Apesar de ganhar pouco, D. 
Severina nos disse que gostava de lavar roupa, “tudo no mundo que eu faço, eu faço 
com gosto” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). Além de lavar roupa, ela 
também fazia outros bicos, como fazer chouriço e linguiça. Ela só parou de lavar e 
engomar roupa por recomendação médica, como nos conta: “porque eu fui proibida do 
médico, porque tava me ofendendo, sabe?! Num foi só da lavagem, foi da engomada, 
porque quando eu engomava, eu tomava muita água, sem me alimentar. Aí o médico me 
proibiu” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014). 
Entre outros fatores, como já foi citado, havia aquelas lavadeiras que não 
engomavam e só passaram a fazer isso com o tempo, como D. Inácia, que a priori, não 
engomava as roupas, apenas lavava e as entregava. D. Inácia começou a engomar as 
roupas só depois dos dezoito anos, ela não nos falou o porquê, mas entendemos que, 
analisando o depoimento das outras lavadeiras, isso poderia ocorrer a partir do pedido 
de seus clientes. Os clientes que pediam para engomar as roupas, elas faziam para obter 
uma renda melhor. 
Diferente das lavadeiras citadas anteriormente, D. Josefa e D. Anedina lavavam 
e engomavam as roupas desde sempre. D. Anedina lava e engoma até os dias de hoje. D. 
Josefa nos conta que engomou com ferro à brasa enquanto morava no sítio: “elétrico no 
sítio não, no sítio era ferro de brasa, agora quando eu vim morar na rua, já era ferro 
elétrico” (Josefa Maria de Oliveira, 11 de nov. de 2014). 
Com isso, notamos que podemos aprender um pouco com essas mulheres e a 
história de vida delas. Para a conclusão dessas histórias, procuramos saber, por elas, o 
que esse trabalho proporcionou para suas vidas, e aqui segue um pouco de cada uma: 
atualmente, D. Inácia ainda lava roupas, diariamente, e as engoma como profissão. 
90 
 
Inclusive, no dia que a entrevistamos, D. Inácia estava em sua luta diária: engomando 
uma “trouxa” de roupa para entregar ao seu freguês. A mesma nos falou que as roupas 
são lavadas em um tanquinho, muito diferente dos tempos em que ela as lavava nas 
mãos, em pedras à beira de riachos, de poços e de açudes. 
D. Severina trabalhou por muito tempo como lavadeira, e, com sua renda, 
juntando por um tempo, conseguiu comprar sua atual casa, ela nos conta, com orgulho, 
esse ato: “comprei essa casa [se referindo a casa onde mora] com lavagem de roupa, 
compraram pra mim ir pagando, sabe?” (Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 
2014). Inclusive, D. Severina nos falou que quem comprou sua casa foi um cliente, que 
ela lavava roupa. Ele a ajudou a comprarsua atual casa, na qual D. Severina foi 
pagando com seu trabalho de lavagem de roupa e suas economias 
Sobre o resultado do esforço de D. Maria de Genésio, D. Ildete nos conta que 
sua mãe, desde muito tempo, procurou as melhores formas de sustentar a casa e guiar 
seus filhos para o estudo e um futuro promissor. O resultado desse futuro pode ser visto 
hoje, através de D. Ildete e seus irmãos, que são resultado de um alicerce firme da 
família. D. Maria de Genésio, lavadeira, conhecida entre a população jardinense sempre 
se fez presente no trabalho e dedicação, incentivou da melhor forma seus filhos, 
encaminhando-os na vida. Do filho mais velho para refletir no filho mais novo, D. 
Maria criou seus filhos com dedicação, como nos conta D. Ildete: 
 
A gente tem alguma coisa através de estudo, meu irmão mais velho estudou 
muito, eu sou a mais nova, fui a que menos sofri, porque [eles] já 
empregados, ia me dando as coisas e eu também toda vida quis estudar e 
minha mãe morreu muito feliz, porque morreu já numa vida muito boa, tendo 
tudo (Ildete Gomes, 29 de set. de 2014). 
 
D. Josefa nos falou que sua profissão desde sempre foi ser lavadeira, assim ela 
criou seus filhos e sustentou a casa, como nos conta: “Eu sustentava a mãe dela [aponta 
para a neta, a aluna Paloma, filha de uma de suas filhas], a minha filha e o meu filho. O 
estudo deles, roupa, tudo com a lavagem de roupa” (Josefa Maria de Oliveira, 11 de 
nov. de 2014). O sustento que tirava da lavagem de roupa deu para criar seus filhos 
muito bem, ela mesma assumiu as despesas da casa, pois nos conta que seu ex-marido 
era viciado em bebida alcoólica e, com isso, o dinheiro dele não dava para o sustento. 
É preciso reconhecermos a importância desse trabalho e tudo que deve ser 
mostrado através dele. Reconhecer o valor dessas mulheres, e como o lugar que elas se 
91 
 
inserem em nossa história serve para refletir nos valores futuros que podem ser 
mostrados por meio de trabalhos e valores de gêneros. 
As memórias por elas aqui compartilhadas serviram para entendermos como era 
a cidade e parte da população de Jardim do Seridó, sobretudo o reconhecimento do 
trabalho de lavadeira, que é pouco valorizado, apesar das dificuldades que oferece aos 
seus praticantes. Essas memórias e histórias nos fizeram entrar em um universo paralelo 
ao nosso, onde um ato ainda se faz presente até os dias de hoje, como o de lavadeira, 
que vemos sendo praticados por diversas pessoas, mas que são de diferentes formas, 
advindas de inovações tecnológicas e mudanças de espaço. 
Atualmente, não é visto os lavadouros e a frequente paisagem de rios, açudes e 
poços compostos por mulheres que embelezavam o ambiente com sua alegria e 
dedicação para com o trabalho de lavadeira. Da mesma forma, não sentimos o cheiro 
das roupas lavadas, que eram postas em varais improvisados nesses lavadouros. Desse 
modo, fica uma reflexão: com o advento da tecnologia e a mudança do espaço e do 
tempo, devemos esquecer aquelas que se faziam presentes, com dedicação no seu 
trabalho, assim como a colaboração que prestaram à sociedade? 
Acredito que devemos valorizar essas lavadeiras, do mesmo modo que devemos 
valorizar as engomadeiras, industriais, empregadas domésticas, entre outras, pois essas 
mulheres são guerreiras por serem pouco reconhecidas e, mesmo assim, ainda lutarem 
por seus valores e direitos, cuidando do seu trabalho e do lar. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
92 
 
CAPÍTULO V 
ENTRE PASSOS E ESPAÇOS: OS CIGANOS QUE HABITARAM 
JARDIM DO SERIDÓ 
 
Uma alma cigana é livre! 
Livre no seu pensar e no seu sentir. 
Se tirarem dela a liberdade de ser como é, 
Ela se encolhe, se fecha, envelhece, entristece... 
Tirar a alegria de uma alma cigana é condená-la à infelicidade. 
(Poema: A alma cigana/ Autora: Adriana Rodrigues Torres) 
 
 
Imagem 27: Ciganos57 
 
 Ao associar o poema à imagem, podemos notar que a descrição para ciganos 
seria um povo livre, nômade58 e festeiro, mas os ciganos não são apenas isso. A cultura 
cigana é tão rica quanto às demais, cheias de: cores, sabores, crenças, movimentos e 
danças. 
Quando falamos em ciganos, logo aparecem como sinônimos59: boêmios, 
desregrados, errantes, itinerantes, livres, nômades, andarilhos, vagabundos, 
espertalhões, malandros, sabidos, sagazes, trapaceiros, velhacos, festeiros, entre outros. 
 
57 Disponível em: http://revistadeciframe.com/2009/04/03/o-misticismo-do-povo-cigano/Acesso em: 
23/12/2014. 
58 Que viaja muito e não mora em um lugar fixo. 
59 Dicionário de sinônimos online. Disponível em: http://www.sinonimos.com.br/cigano/. Acesso em: 
23/12/2014. 
93 
 
Isso acontece porque o povo cigano é muito conhecido pela vida nômade que leva, mas 
este é um acontecimento decorrente do reflexo de perseguições que se deu ao longo do 
tempo contra esse povo, com isso, não conseguiam se fixar, por muito tempo, em um 
local, não possuindo profissão e nenhuma ligação com as pessoas que habitam aquela 
região. Por esse motivo, os ciganos começaram a ser mercadores, comerciantes, 
vendedores, entre outros ofícios, e seus modos de viver foram se moldando às 
dificuldades que esse povo leva consigo. 
 Nos capítulos anteriores abordamos assuntos que são voltados para o ofício da 
profissão, especificamente falando de benzedeiros, parteiras e lavadeiras. Tratamos da 
história de Jardim do Seridó e suas transformações no tempo, como também seus 
personagens, cultura e religião. 
Neste capítulo, abordaremos especificamente, a cultura cigana, mas envolvendo 
outro viés: o cigano na visão da população jardinense, residente do Bairro Belo Vista. A 
pesquisa tomará por base os ciganos que habitaram, por um tempo, o bairro em foco. 
Antes de adentrar nas memórias das nossas entrevistadas, faremos uma análise na 
cultura cigana, bem como na história do povo cigano. Nosso intuito não é escrever uma 
história, propriamente dita, desses ciganos que habitaram o Bairro Bela Vista, mas 
entender parte da cultura cigana e ter conhecimento de como a população do bairro os 
via e descrevia, uma vez que se trata de outra cultura, língua e crenças. 
 
CIGANOS, FILHOS DO VENTO. 
 
No livro Ciganos, os filhos do vento, Baçan trabalha o povo cigano por outra 
perspectiva, partindo do estudo sobre Niculescu Kwiek, descendente da antiga e 
conhecida Família Kwiek, que se encarrega de transmitir conhecimento da cultura 
cigana, cultura muitas vezes passada apenas pela oralidade, ou seja, de pai para filho. 
 A origem dos ciganos continua a aguçar a curiosidade de muitos estudiosos. 
Com base nos estudos primeiramente feitos por Stephan Valvi, no século XVIII, e 
posteriormente comprovados August Friedrich Pott, no século XIX, sobre a língua 
cigana – a romani, comprovou-se que os ciganos são povos advindos da Índia (BAÇAN, 
2014, p. 10-11). 
Lendas de tempos diferentes se encarregam de falar sobre a origem cigana, no 
entanto, Baçan diz que essa origem é contada por muitos partindo da crença que este 
povo seria um povo condenado pelos cristãos a viver como nômades, sem ter um lugar 
94 
 
fixo: “observadas friamente, todas essas lendas tem um ponto em comum: o de 
transformar os ciganos em inimigos dos cristãos, canalizando para eles a inimizade e as 
perseguições” (BAÇAN, 2014, p. 15). Sendo este o motivo que torna os ciganos, povos 
perseguidos e, por isso, andantes. 
 Por serem povos nômades, há a grande possibilidade da cultura cigana ser uma 
mescla de várias outras culturas, dificultando a compreensão da história do surgimento 
desse povo. Entre tantas lendas, Baçan ressalta a históriaque diz que o povo cigano é 
descendente de um cigano ladrão. Ele teria roubado o quarto cravo da crucificação de 
Cristo, tendo sido por isso amaldiçoado pelos discípulos e seguidores de Cristo a serem 
banidos da terra, tendo que se espalhar pelo mundo, sem um lugar fixo para permanecer. 
O autor comprova essa versão como sendo verdadeira, pois há registros a respeito dessa 
lenda, Baçan nos conta: 
 
De qualquer forma, há registros a respeito da lenda que atribui a um cigano 
ter forjado os pregos da crucificação. O primeiro deles, inclusive, aparece em 
um artigo do Dr. B. Bogisic, em Os Ciganos Eslavos em Montenegro, 
publicado em maio de 1874, e em O Foclore de Lesbos, de G. Pineau 
Georgeakis e Léon, publicado em Paris, no ano de 1891, no Canto de Sexta-
feira Santa (2014, p. 15). 
 
Por esse motivo, há a crença nessa descendência que Baçan atribui aos ciganos, 
não sendo somente povos condenados a viver sem um lugar fixo, mas crentes que furtar 
está no sangue deles, uma vez que herdaram de seus antecedentes. Baçan nos diz isso 
tendo em vista uma carta de M. Bataillard, do ano de 1880, onde aparece uma cigana da 
Alsácia, pedindo liberdade para dos seus, com o pretexto de que os ciganos têm 
permissão divina para roubar uma vez a cada sete anos. Na carta, Mataillard escreveu o 
que a cigana disse: 
 
(...) 
-É uma história que vós certamente deveis saber. Estavam para crucificar 
Jesus. Uma de nossas mulheres passou e roubou um dos pregos que eles 
usariam. Ela gostaria de roubar todos os quatro cravos, mas não pôde. De 
qualquer forma, foi só um e é por isso que Jesus foi crucificado com apenas 
três pregos, um único para os dois pés. E é por isso que Jesus deu aos 
Ciganos permissão para roubar uma vez a cada sete anos. 
Os ciganos da Lituânia dizem também que roubar foi permitido por Jesus 
crucificado, porque os ciganos, estando presente na Crucificação, roubaram 
um dos quatro pregos. Portanto, quando as mãos tinham sido pregadas, havia 
apenas um prego para os pés e, por isso, Deus lhes permitiu roubar e não é 
contado como pecado para eles (2014, p. 20). 
 
95 
 
Uma das características marcantes dos povos ciganos são as práticas 
divinatórias, dentre elas: a quiromancia, ato de adivinhar o futuro através das linhas ou 
formas das mãos. Por esse motivo, os ciganos foram, durante muito tempo, perseguidos 
pela Inquisição por grande parte da Europa, sendo acusados de praticar feitiçaria, com 
isso, foram presos, torturados e queimados em praça pública. 
 
 
Imagem 28: Ciganos em acampamentos60 
 
Os ciganos foram expulsos da Europa, nos séculos XVI e XVIII, e mandados 
para vários outros países como: África, Brasil, Espanha e América do Norte. Segundo 
Baçan, as perseguições contra os ciganos, que ocorreram durante a Segunda Guerra 
Mundial, resultaram em mais de quinhentos mil ciganos mortos nos campos de 
concentração alemã, e outros milhares presos e deportados (2014, p. 25). 
Por essas perseguições, as lendas ciganas, que contavam como praga rogada a 
esses povos para se tornarem andarilhos e sem destinos certos, passaram a ser uma 
realidade na qual fazia dos ciganos, pessoas nômades por necessidades. 
Segundo Baçan, a presença de povos ciganos no Brasil é contada em um 
documento com que D. Sebastião transformava em pena de degredo a condenação às 
galés do cigano João de Torres (2014, p. 64). “Os ciganos que chegaram ao Brasil 
partiram inicialmente de Portugal, onde pertenciam ao ramo dos gitanos ou Calé, da 
Espanha. A palavra cigano identifica justamente o gitano, ou cigano espanhol 
estabelecido em Portugal” (BAÇAN, 2014, p. 64). Os ciganos são conhecidos como 
Rom que é uma palavra designada de Romani, onde significa homem e, toda e qualquer 
 
60 Disponível em: http://revistadeciframe.com/2009/04/03/o-misticismo-do-povo-cigano/. Acesso em 
23/12/2014. 
96 
 
pessoa que não pertença aos ciganos são conhecidos e tratados como gadjos (ou não 
ciganos). 
 Em meios aos séculos XV e XVI, os ciganos migraram para o Brasil, fugindo 
da Europa e, muitas vezes, sendo expulsos pela coroa. Segundo Arno Wehling e Maria 
José Wehling, os ciganos sempre foram tratados com hostilidade no Brasil, isso desde 
os tempos coloniais “até meados do século XVIII o governo português ora determinava 
sua deportação para o Brasil, ora proibia sua entrada na colônia, mas sempre 
demonstrando em relação a eles uma atitude hostil” (1999, p. 240). 
Rodrigo Corrêa Teixeira fez estudos sobre os ciganos no Brasil, tendo como 
recorte temporal os séculos XVII ao XIX, intitulando seu trabalho como A História dos 
Ciganos no Brasil, tendo em vista uma história geral desses ciganos no país, a inserção 
dos ciganos na economia e a imagem dos ciganos no Brasil. Nesse viés, fazemos uso de 
parte desse trabalho para entendermos como era a aparência física dos ciganos e como 
as pessoas os descreviam. 
 Segundo Teixeira, as feições dos ciganos, em meio ao século XIX remetiam a 
estereótipos e traços físicos da beleza grega, sendo considerada como uma beleza 
admirável e, muitas vezes até exaltada. As pessoas descreviam os ciganos como povos 
de belezas enigmáticas, cabelos escuros e brilhantes, olhos vivos, corpos esbeltos e 
ágeis, de pele morena clara. As mulheres eram tidas como misteriosas, atraentes, e com 
longas madeixas. Os homens faziam uso de barba e cabelos medianos, tendo boa forma 
física, decorrente da vida nômade, constante viagens e contato com a natureza, que os 
faziam compostos de espírito aventureiro (2008, p. 65). 
 Os ciganos eram diferenciados pelo olhar. Quando um cigano ia fazer negócios 
com outras pessoas (ciganas ou não ciganas), fixava o olhar para ter conhecimento de 
quem estava a tratar: “o encontro e a revelação do outro se inicia com o olhar. A 
presença do olhar cigano instaurava uma crise na identidade do não cigano, 
acompanhada de perplexidade e medo” (TEIXEIRA, 2008, p. 67). A ideia do olhar 
cigano é cultivada até os dias atuais como poderoso. Segundo Teixeira, não se sabe 
desde quando, mas se cultivou a ideia desse olhar como sendo “mágico e poderoso, 
capaz de lançar pragas e maldições. Este olhar se caracterizaria não só pelo exotismo 
dos olhos com grandes pupilas, mas também por uma certa magia na forma de fixá-los” 
(2008, p. 67). 
 Dentre várias características, está a de negociante. Os ciganos são, muitas vezes, 
grandes comerciantes, esse fator foi adquirido como forma de sobrevivência, uma vez 
97 
 
que sua renda dependia de negociações por onde passava. Esses ciganos comerciantes 
são tidos como espertos e enganadores pelos não ciganos, por ter facilidade nos 
negócios, vendem com grande habilidade. Conforme nos conta Baçan, 
 
É lendária e folclórica a imagem da esperteza dos ciganos, povo nômade que, 
por tradição e necessidade, fez dos negócios sua principal fonte de rendas. 
Nas vendas e nas trocas apregoa-se que é impossível enganar um cigano. Em 
nossa literatura, há inúmeros contos que retratam essa inteligência aguçada 
para o lucro e a agilidade com que parecem trapacear, mas que, na verdade, 
apenas exploram a pretensa esperteza de seus clientes, ou oponentes, em 
benefício próprio. Quando imaginam estar ludibriando um cigano, na 
realidade está apenas sendo ludibriado pela própria esperteza (2014, p. 44). 
 
 Por serem bons negociadores, esses homens eram tidos como enganadores e 
preguiçosos, por não terem trabalho e renda fixa, o que causava mais repugnância entre 
as pessoas que os observavam. Esses ciganos sempre têm esperteza quando o assunto é 
negócios, e, principalmente, quando o negócio for tratado com um gadjo, ou seja,um 
não cigano, pois este não pertence à sua raça. É inadmissível a mentira entre os povos 
ciganos, com exceção de causas justas ou quando a mentira for para um gadjo, nesse 
caso, pode ocorrer em demasiado, pois o cigano se sente bem ao passar um não cigano 
para trás. Sendo conhecidos como astutos, os ciganos muitas vezes, não se vestiam 
diferente dos demais homens, pois isso o desvendava perante os demais, impedindo de 
fazer negócios. 
 Ao debruçar-se sobre o que tem escrito do imaginário das pessoas com relação 
aos povos ciganos, podemos notar que por muito tempo na história esse povo foi visto 
de forma perversa, sendo descritos como charlatões, preguiçosos, ladrões e marginais. 
Isso se dá decorrente de fatores que fazem do povo cigano pessoas inteligentes ao lidar 
com os outros. Além de misteriosos, são vistos de forma negativa, preconceituosa e 
enigmática, causando inquietude e curiosidade àqueles que tentam entender a história 
cigana. 
 “ A estigmatização dos ciganos se estende de uma perspectiva 
física (sujos e fedorentos) a uma perspectiva mental 
(preguiçosos, pidões), por meio de um sistema de controle e de 
subordinação hierárquica, justificada pela ausência de 
disciplina do corpo. [...] os ciganos são descritos pela 
incapacidade de disciplinar seus corpos, isto é limpar, lavar, 
arrumar, moldar, cheirar, conter, purificar. Por apresentar 
sistemática e publicamente um corpo distinto dos modelos 
oficiais de limpeza e de beleza são vistos como indivíduos 
98 
 
indisciplinados, insolentes, que ofendem e causam „nojo‟. Este 
corpo cria tensões pela ausência de educação, de beleza, de 
limpeza, por isso é usado para reiterar uma pretensa 
inferioridade. (GOLDFABER. 2004, p. 86) 
 
 Adentrar na história dos povos ciganos é o mesmo que pisar em um terreno 
escorregadio, pois pouco se tem escrito e estudado com base em fontes que não sejam 
do olhar de fora, ou seja, daqueles que não são ciganos. Por esse motivo, não arriscamos 
escrever a história dos ciganos que passaram e acamparam no bairro Bela Vista, mas, 
sim, buscaremos entender como as pessoas viam esses ciganos para compreender um 
pouco dessa cultura e ter conhecimento das ferramentas que formam o olhar da 
população jardinense perante uma cultura tida como diferente. 
 
OS CIGANOS SOB OUTRA ÓTICA: A PASSAGEM DOS CIGANOS EM 
JARDIM DO SERIDÓ 
 
 Os ciganos que habitaram o Bairro Bela Vista, fizeram-no em tempos distintos e 
eram provenientes de várias partes da região, por isso nossas entrevistadas não 
souberam informar a procedência desses. Normalmente, os ciganos não falam de onde 
vêm ou para onde vão, pois estes preferem manter sigilo sobre seu paradeiro. Porém, em 
pesquisa realizada por estudiosos do Centro de Ciências Sociais da UFRN – 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, constatou-se que no Brasil, vivem cerca 
de 1 milhão de pessoas ciganas, distribuídas em três grupos: Calon, Rom e Sinti 
espalhados em quase todos os estados. De acordo com pesquisas realizadas pelos 
pesquisadores da UFRN , o estado do RN (Rio Grande do Norte) possui doze cidades 
com presença cigana. São elas: Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Serra 
Caiada, Tangará, Currais Novos, Cruzeta, Florânia, São Vicente, Caicó, São Rafael e 
Apodi, e que, esses ciganos pertencem ao grupo denominado Praça Calon. 
O grupo cigano, que habitou em Jardim do Seridó, era composto por mulheres, 
homens, alguns idosos e crianças. Para saber mais informações sobre esse grupo, 
entrevistamos cinco moradoras do bairro Bela Vista que têm conhecimento da passagem 
desses ciganos no bairro. Umas tiveram contatos íntimos, chegando a aceitar visitas de 
pessoas do bando cigano em suas casas; outras, apenas observaram, por fora, o 
comportamento desse grupo e, como outros habitantes do bairro, preferiram não manter 
contato íntimo com eles. 
99 
 
 As entrevistadas nos contaram que o bairro era pouco povoado nos tempos 
decorrentes à chegada desses ciganos e as casas eram bastante isoladas umas das outras, 
sobretudo na região do bairro onde eles se fixaram. Isso já sinaliza as dificuldades que 
tivemos para encontrar depoentes que pudessem nos contar sobre a passagem desses 
ciganos na comunidade, uma vez que o contato pessoal entre eles e os não ciganos era 
quase inexistente. 
 Sobre registros que tratassem de passagens dos ciganos em Jardim do Seridó, 
temos poucos, dentre eles, o trabalho de Rosenilson da Silva Santos, que tem como 
título Intercessões entre a fotografia e a história oral: representações de mendigos, 
loucos e ciganos na obra de José Modesto (Jardim do Seridó/RN, 1960 – 1980), onde o 
autor mostra a importância da fotografia para a descrição histórica de uma região, assim 
como a capacidade que a imagem tem para falar sobre um acontecimento ou 
personagem. A importância do estudo de Santos pode ser mostrado no valor que as 
lentes de José Modesto atribuíram aos personagens dos mendigos, loucos e ciganos, 
tornando-os figuras imortais, congeladas nas fotografias. 
 No seu trabalho, Santos fala de dois personagens de Jardim do Seridó que os 
jardinenses não sabiam de onde eram, mas que apareceram na cidade e se tornaram 
pessoas queridas entre os que habitavam em Jardim, sendo esses fotografados por José 
Modesto: 
 
Conrradinha é exemplo disso, não sabia de onde vinha, onde nascera e nem 
para onde ia, também o cigano que por vezes aparecia pela cidade, sem que 
ninguém soubesse nada de sua vida. (...) Segundo os depoimentos, tanto o 
cigano como Conrradinha eram muito queridos por todos” (2010, p. 11- 12). 
 
Santos mostra, em seu trabalho, a importância que se deve dar aos personagens 
que fazem parte da história de uma região, mas que, muitas vezes, são renegados por 
viverem à margem da sociedade. 
Tratar da história de personagens que fazem parte da construção historiográfica 
de Jardim do Seridó, dentre eles, os ciganos, pessoas que mesmo estando de passagem, 
puderam mudar o cenário histórico de uma região é importante e, ao mesmo tempo, 
perigoso, pois não temos fontes que partam deles para falarmos sobre essa passagem. 
Para falarmos desses grupos ciganos que habitaram o Bairro Bela Vista, 
entrevistamos Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, Maria Aparecida Araújo de Brito, 
Inês Azevedo dos Santos, Severina Maria de Oliveira e Débora Liz Silva de Azevedo. 
100 
 
Todas de idades diferentes, e de convivência com os ciganos em épocas diferentes. D. 
Dilma e D. Maria Aparecida falam da vinda de ciganos para o bairro no período de 
1980 a 2000. Nesse período, esses grupos se instalaram e passaram maiores temporadas, 
chegando a residir em casas com piso de barro. D. Severina, D. Inês e Débora 
identificam outras permanências de ciganos no bairro por volta de 2005 a 2007 quando 
eles se instalaram no terreno que atualmente é a Capela São José. 
 Comecemos a falar sobre os ciganos com base nos depoimentos de D. Dilma 
(Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 48) residente do bairro Bela Vista que nos falou 
sobre o ano que eles se alocaram no bairro: “de (mil novecentos e) oitenta e três até 
noventa e nove/dois mil. Que eles moravam aqui mesmo. Eles iam, voltavam. Eles 
tinham uma temporada (que) ficavam aqui por alguns meses, mas foi até dois mil” 
(Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). 
 
 
Imagem 29: Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista na Escola Municipal Profª 
Zélia Costa da Cunha. Jardim do Seridó-RN. 
Fonte: Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha 29 de out. de 2014. 
 
 D. Dilma nos falou que não sabia de onde exatamente os ciganos vieram, mas 
sempre ficavam de Cruzeta a Jardim do Seridó e, vice-versa. O destinodos ciganos não 
era certo, pois esses sempre procuravam omitir de onde vieram ou para onde iam, fato 
muito improvável de contar para um gadjo (pessoa que não é cigana). D. Dilma também 
nos falou que os ciganos vieram montados em cavalos e eram pobres, a princípio: “no 
início de mil novecentos e oitenta e três, num foi?! Eles chegaram aqui a cavalo, em 
101 
 
burro, no lombo dos burros. De cangaia, outros de sela, cavalo... mas na época eles não 
tinham carro, eram pobres ainda. Eram menos civilizados do que os ciganos de hoje” 
(Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). 
 D. Maria Aparecida (Maria Aparecida Araújo de Brito, 54 anos) residente no 
bairro Bela Vista, teve contato próximo com esses ciganos que habitaram nos anos de 
mil novecentos e oitenta. Ela nos falou que os ciganos acamparam próximo à quadra do 
bairro. Segundo D. Maria Aparecida, os ciganos vieram em mil novecentos e oitenta e 
dois e ficaram por muito tempo, chegando a morar no bairro e, sempre viajavam para 
outras cidades, mas estavam sempre de volta a Jardim do Seridó: 
 
(Vieram em) mil novecentos e oitenta e dois. Eles ficaram mais ou menos até 
mil novecentos e oitenta e sete, por aí, oitenta e sete. Hoje eles residem em 
Cruzeta. Eles passaram, eles sempre passavam aqui, sempre... todos os anos 
eles passavam aqui, sempre eles vinham. Vinha passava uns dias e voltava. 
Passavam uma semana, quinze dias, um mês (Maria Aparecida Araújo de 
Brito, 01 de Nov. de 2014). 
 
 
Imagem 30: Maria Aparecida Araújo de Brito, à direita, em sua residência, nos cedendo entrevista. 
Fonte: Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha, 01 de Nov. de 2014. 
 
D. Maria Aparecida nos falou que os ciganos tiveram de voltar tantas outras 
vezes ao bairro, que chegaram a ser os construtores e donos de várias casas no bairro 
Bela Vista, inclusive a casa que a mesma reside, atualmente, foi de um dos ciganos. 
Sobre o bairro, antes deles chegarem, D. Maria Aparecida nos falou: “pouca casa, tinha 
102 
 
pouca casa. Essas casas, aqui, foram eles que construíram. Eles construíram uma... três 
casas, essa... O nome da dona dessa casa aqui era Burrega.” (Maria Aparecida Araújo de 
Brito, 01 de Nov. de 2014). 
 Sobre o destino do grupo de ciganos, D. Dilma nos disse que os ciganos 
migraram para a cidade de Cruzeta, cidade próxima a São José do Seridó, e sempre 
voltavam para Jardim do Seridó, porque tinham residência no bairro Bela Vista: 
 
Eram os mesmos ciganos, eles tinham casa e tudo aqui no Bela Vista. Dois 
meses, três. Viajavam e voltavam, porque era pra perto que eles viajavam. Ai, 
pra onde eles foram daqui eu não sei. Porque eu tive de ver eles em Cruzeta, 
parece que o ponto deles mesmo, referencial era Cruzeta, ai de Cruzeta eu 
não sei pra onde eles se destinaram. Mas, quase toda semana tinha cigana 
aqui ainda, que elas vêm pedir na feira (Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 
29 de out. de 2014). 
 
 Sobre a ida e vinda dos ciganos, D. Maria Aparecida disse o mesmo que D. 
Dilma, sobre eles irem para Cruzeta e sempre voltar para Jardim do Seridó. É comum a 
chegada dos ciganos a essas paragens seridoenses por via da cidade de Cruzeta. De 
Cruzeta eles chegavam a São José do Seridó e a jardim do Seridó. Não era incomum, até 
a década de 1970, ver chegar por entre a caatinga seca, com suas mulas, jegues, cavalos 
e éguas carregadas de apetrechos, grandes grupos de ciganos vindo não sei de onde para 
canto nenhum e para todo canto. 
Eles passavam calados pelos transeuntes, pensativos e misteriosos, dando ao 
lugar por onde iam passando os tons de um cenário que entrava no cenário já existente, 
tomava suas cores e seus elementos e, à medida que iam passando, abriam passagem 
para a velha paisagem sertanista voltar a dominar. Eles com certeza não pareciam ser 
sertanejos. Havia algo peculiar em suas vestes, em seu andar, no seu falar e, também, 
em seu calar. Um calar misterioso que espalhava mistério e magia entre os que o viam 
passar nas estradas desertas do Seridó. 
Mas afinal de onde vinham e para onde iam? Hoje, analisando a configuração 
física do espaço regional, os vestígios orais de seus deslocamentos e a presença deles 
ainda em nosso meio, pode-se ariscar o palpite que eles viessem de Florânia ou da 
Serra de Tenente Laurentino. Existe até hoje uma estrada vicinal, ainda no barro, que 
liga Florânia a Cruzeta e que possivelmente foi rota de nomadismo para os ciganos que 
perambulavam Sertão adentro. Ademais, aquela sempre foi uma área onde os ciganos 
mantiveram seus ranchos e onde hoje ainda se encontram muitos ciganos vivendo um 
processo de aculturação com os não ciganos. Ali, muitos jovens ciganos estão se 
103 
 
integrando à cultura do não cigano, frequentando as mesmas escolas, as mesmas festas, 
assumindo os mesmos costumes. Esses jovens findarão por serem integrados ao cenário 
do não cigano, virar um não cigano com sangue de cigano. 
D. Severina (Severina Maria de Oliveira, 75 anos) nos conta que os ciganos, 
com a qual teve contato e convívio, habitaram o bairro Bela Vista por volta do ano de 
dois mil e sete. Disse-nos que não sabia de onde esses ciganos vinham, pois os mesmos 
não a contaram qual foi a cidade habitada anteriormente a Jardim do Seridó. Passando 
mais de mês alocados no Bairro Bela Vista, esses ciganos conviveram bem com D. 
Severina, chegando a se fazer presente na casa da mesma, como nos conta: “eles 
passavam assim, mês, mais de mês e habitavam muito aqui em casa. Eu dava muita 
assistência a eles, dava dormida, dava comida, dava tudo” (Severina Maria de Oliveira, 
28 de out. de 2014). 
 
Imagem 31: D. Severina, em sua residência, cedendo entrevista sobre o convívio que teve com 
os ciganos para os alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha, 28 de out. de 2014. 
 
Os ciganos, que conviveram com D. Severina, acamparam por um bom tempo 
no terreno que atualmente se encontra a Capela São José, no Bairro Bela Vista: “aqui na 
capela [apontando para a capela que fica em frente a sua residência], era aberta, era... 
Num era feita não, só era coberta sabe? Aí era... num tinha parede não” (Severina Maria 
de Oliveira, 28 de out. de 2014). D. Severina nos disse que esses ciganos acamparam no 
104 
 
terreno onde atualmente é o Posto de Saúde Regina Rebeca, sendo expulsos, migraram 
para o terreno, já citado, da Capela São José, onde tiveram que ter a permissão do 
pároco de Jardim do Seridó para ficarem lá. 
A entrevistada Débora (Débora Liz Silva de Azevedo, 14 anos), atualmente 
ainda muito jovem, recorda muito bem como era seu convívio, quando criança, com os 
ciganos que habitaram, por um tempo, o antigo terreno da atual Capela de São José. 
 
Imagem 32: Débora Liz Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista sobre o convívio que teve com 
os ciganos, para os alunos da Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha. 
Fonte: Escola Municipal Profª Zélia Costa da Cunha 29 de out. de 2014. 
 
O ano que os ciganos acamparam, era por volta de dois mil e cinco, como nos 
conta Débora, e o Bairro Bela Vista não era muito povoado, tendo poucas casa: “a igreja 
não era construída, e aquelas casas dali de cima não tinha, foram construídas agora. E 
nessa rua aqui, só tinha esse prédio aí e o da casa da senhora ali” (Débora Liz Silva de 
Azevedo, 29 de out. de 2014). Na fala, como podemos notar, não fica muito claro a 
descrição do espaço, mas como estávamos presentes, observamos que Débora quis dizer 
que, próximo ao terreno, onde se encontravam os ciganos, só havia três casas, sendo 
elas: a casa de D. Severina, a entrevistada que se fez mais presente na vida desses 
ciganos;a casa de um senhor, que também teve contato com eles, mas atualmente não 
reside em Jardim do Seridó; e a casa de Débora. 
Apesar de Débora ser muito nova no período que se deu a chegada e 
permanência dos ciganos no bairro, escolhemos ouvir suas memórias, pois estas de certa 
forma são reflexo de uma possível realidade ou podem ser resultado de um pensamento 
105 
 
coletivo, pois, segundo Maurice Halbwachs em A história vivida a partir da infância, 
no livro Memórias Compartilhadas, 
 
Desde que a criança ultrapasse a etapa da vida puramente sensitiva, desde que 
ela se interessa pela significação das imagens e dos quadros que percebe, 
podemos dizer que ela pensa em comum com os outros, e que seu 
pensamento se divide entre o conjunto das impressões todas pessoais e 
diversas correntes de pensamento coletivo (1990, p. 62). 
 
 D. Inês (Inês Azevedo dos Santos, 66 anos) desde sempre reside no bairro Bela 
Vista e pode nos ceder entrevista a respeito desses ciganos, uma vez que esta se fazia 
como observadora da presença deles. Ela nos disse que o grupo passou por volta de oito 
meses no bairro, e o local que ficaram foi no terreno da atual Capela de São José, como 
nos contou Débora e D. Severina. Possivelmente, as três estivessem falando do mesmo 
grupo de ciganos. 
 D. Dilma nos falou sobre a localização dos ciganos e a permissão que eles 
precisavam para se manter no terreno: 
 
É, a rua, o nome da rua, eu não sei. Mas era ali próximo a Alcides, a chácara. 
Que, uma daquelas casas ali, pronto a casa que o tio de Apoliana mora, a 
casa, uma delas, foi deles. Logo de início, de 83, quando começaram a vim 
“praqui” eles ficavam em cabanas, aquelas barracas de lona, de palha. Mas 
teve uma certa temporada que eles compraram casa, eles atuavam aqui em 
casa residencial mesmo. Era deles mesmo. Eram duas casas, eles vinham e 
ficavam nas casas. (Precisavam da) permissão da prefeitura, porque esses 
terrenos ali da prefeitura. Se eu não me engano, era da prefeitura, ali próximo 
à represa do açude (Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). 
 
 As entrevistadas não deram um número exato de quantos ciganos havia no 
bando, mas o número estipulado pelas entrevistadas variava de vinte a cinquenta 
pessoas, e o chefe do grupo possivelmente seria Seu João, um cigano idoso, de quem 
falou as entrevistadas, pois os ciganos sempre valorizam os mais velhos, por terem mais 
idade, acreditando que esses têm mais experiência com a vida. 
D. Severina nos contou que tinha por volta de vinte ciganos, mas ela só teve 
contato próximo com dez, tendo sido esses que ficaram em sua residência. Sobre esse 
convívio, ela nos fala: 
 
Eu acho que eles fizeram amizade assim comigo, porque eu dava muita 
assistência a eles, sabe?! De tudo, o que eles queriam, vinham buscar aqui. 
Eu acho que Júnior61 até teve de ver, eles aqui, porque casou uma filha 
 
61 Aluno da Escola Municipal Zélia Costa da Cunha, participante do projeto, que se fazia presente na entrevista. 
106 
 
minha, eles vieram pra o casamento da minha filha. Fiz uma amizade, e eles 
num ofende... era uma pessoa que não ofendia a ninguém, num mexia em 
nada de ninguém. Eles só levavam alguma coisa aqui de casa, se eu desse, 
acredita que era? Eu gostava deles. Acredita que eu sinto saudade deles? 
(Severina Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014). 
 
Entre o grupo cigano havia idosos, crianças, adolescentes e adultos, no entanto, 
as mulheres eram as que se faziam mais presentes na residência de D. Severina, com 
exceção de Seu João, um cigano idoso, a quem D. Severina cedeu abrigo: “assim, ficava 
os dez aqui, com Seu João... nove mulheres, e dez com Seu João” (Severina Maria de 
Oliveira, 28 de out. de 2014). No acampamento ficavam os homens, esses não 
frequentavam a casa de D. Severina. Entendemos que essa divisão de gêneros, sobre 
quem podia ou não ficar na casa de D. Severina, se dava por motivos morais, ligados ao 
respeito e ao convívio entre homens e mulheres, uma vez que D. Severina morava 
sozinha em sua residência. 
Segundo Débora, os ciganos chegaram ao bairro em um caminhão, que levavam 
os objetos e as pessoas. O acampamento dos ciganos foi feito no terreno que, no 
período, era aparentemente abandonado. Débora nos disse que eles não tinham 
permissão para ficar ali, e, mesmo assim, construíram o acampamento com lonas, tecido 
e pau: 
 
Eles se acampavam, é, pegavam os pedaços de tecidos das coisas aí faziam a 
cobertura ali, que era antigamente era areia, ainda num era (a capela) ainda e 
tinha os compartimentos aí eles acampavam. O teto era de lona e pau, ele 
botavam os paus e a lona só por cima” (Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de 
out. de 2014). 
 
Débora ainda nos contou que os ciganos eram por volta de cinquenta, dentre 
eles: idosos, adultos, jovens e crianças. Tendo mais mulheres que homens. D. Inês nos 
falou achar “que tinha bem uns quinze (pessoas no grupo), mais homens do que 
mulheres. Crianças tinham bem umas seis” (Inês Azevedo dos Santos, 05 de nov. de 
2014). 
 
 
 
 
 
 
107 
 
A APARÊNCIA DOS POVOS CIGANOS E SUAS CARACTERÍSTICAS 
 
Como falamos, os ciganos são pessoas de espírito livre e suas roupas falam 
muito sobre eles, pois são portados de vestimentas distintas e muitas vezes diferentes 
das demais. Baçan nos diz que “alguns ciganos não se importam de se vestir com 
andrajos62, sem, no entanto, dispensar os enfeites comuns e vistosos, próprios de sua 
tradição. Sentem-se à vontade dessa forma e pouca importância dão a uma roupa nova 
(2014, p. 32). Entretanto, isso não quer dizer que eles dispensam o requinte quando em 
festas ou cerimônias. As mulheres sempre fazem uso dos melhores trajes, cores e 
arranjos, assim como os homens, que usam suas melhores roupas e calçados para 
causarem sempre boa impressão. 
Perguntamos às nossas entrevistadas sobre a vestimenta de homens, de 
mulheres, dos idosos e das crianças ciganos. Segundo D. Dilma, 
 
Havia casais. Inclusive tinha uns ciganos novos, muito bonitos. Num parecia 
nem que era cigano. As ciganas jovens e os ciganos mais jovens eram muito 
bonitos e arrumados. Criança? Tinha também. Elas se vestiam assim, aqueles 
trajes ciganos mesmo. Roupas muito coloridas, a saia um babado de um 
tecido, outro babado de outro, as ciganas mais velhas. As mais jovens já 
usavam short, já eram mais civilizada, n’era? (Dilma Gertrudes Silva de 
Azevedo, 29 de out. de 2014) 
 
As vestimentas das mulheres mais velhas pouco se diferenciavam das mais 
novas, só no quesito de se vestirem com roupas mais compostas, no entanto, mesmo 
sendo solteiras, as ciganos se revestiam de roupas discretas não deixando partes do 
corpo aparente para os demais, pois a cultura cigana tem como prioridade manter as 
mulheres como recatadas e pudicas. 
Nossas entrevistadas fizeram questão de mostrar a diferença entre as mulheres 
mais velhas e as mais novas, que se encontrava na roupa longa usada pelas ciganas mais 
velhas. Já os homens e as crianças não se diferenciavam muito dos demais moradores 
do bairro. Perguntamos à Débora como se vestiam os ciganos que habitaram próximo à 
sua residência, e ela pôde descrever como eram essas roupas: 
 
Eram roupas todas rasgadas, sem chinelo, principalmente. Sem chinelo, 
rasgada, toda suja, assanhadas. As mulheres, geralmente, era com aquelas 
blusinhas mais curtas, mini-saia, os com os cabelos amarrados e com uma 
sacola do lado. (As cores das roupas) era sempre marrom, creme... As 
 
62 Roupa velha ou usada demais. 
108 
 
senhoras que gostavammais de roupa composta, mas num era muito longa 
não, era com aquelas camisetas compridas, com aquelas saias, é, tipo balone, 
no joelho (Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). 
 
Sobre os homens, Débora nos disse que eles “também, eram desarrumados: de 
barba, boné... aí eles já usavam chinelas, camiseta, bermudas...” (Débora Liz Silva de 
Azevedo, 29 de out. de 2014), e o que diferenciava os mais velhos dos mais novos era a 
forma mais composta das roupas, acreditando que esse modo de se vestir, era o modo 
cigano. Quando perguntamos o que os diferenciava dos demais habitantes do bairro, ela 
nos respondeu: “eu acho que o modo de ser, o modo de se vestir, né? A aparência 
demonstra tudo” (Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). Na fala de Débora, 
notamos que a impressão desta sobre os ciganos era que eles se vestiam mal, não tendo 
condições financeiras suficientes para ter uma roupa limpa e adequada. 
No período em que os ciganos habitaram o bairro Bela Vista, Débora era 
criança, tendo por volta de cinco anos, mas se lembra muito bem como eram as crianças 
ciganas, pois estas chamaram a atenção. Ela nos disse que eram, mais ou menos, dez 
crianças e também andavam desarrumadas, como os demais, e muito parecidas, 
chegando a haver dificuldade em distinguir meninas de meninos. 
Para D. Severina, os ciganos se vestiam de acordo com a cultura: as mulheres 
com vestimentas longas e compostas, como nos conta: 
 
Se vestia bem, era um vestidão comprido [risos]. Vestido longo, saia longa e 
blusa. Mostravam não (a barriga). Mostrava não (os braços), era muito difícil 
ter uma que mostrasse o braço. Era muito composta a roupa delas. Os cabelos 
delas era grande, era escuro. Tinha uma que tinha o cabelo meio prateada 
porque já tava velha, né?! (Severina Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014). 
 
Os homens, aparentemente, sempre bem arrumados, 
 
Tinha cabelo grande, tinha barba, andavam perfumados, de óculos, eram 
muito decentes eles. Os homens se vestiam bem, bem vestido. Direto. Tudo 
limpo. Era tudo, de bota, eram muito decentes eles, era como qualquer um 
homem comum né?! Porque, os cigano é cigano [risos]. Era roupa chique 
eles. Que eles tinham esses, essas roupas que o povo usa pra negócio de frio 
né? Eles possuíam, moto, tudo eles possuíam (Severina Maria de Oliveira, 28 
de out. de 2014). 
 
D. Maria Aparecida nos falou que tanto os homens quanto as mulheres se 
vestiam normalmente como os demais moradores do bairro; a diferença eram as roupas 
109 
 
mais compostas dos mais velhos. As crianças ciganas, conta-nos D. Maria Aparecida, 
eram todas nuas e sujas, desarrumadas. 
Pudemos notar na fala de nossas entrevistadas o quanto elas ressaltam que os 
ciganos se encontravam mal vestidos, algumas vezes, e até sujos. A respeito disso, 
Baçan nos fala: 
 
Quanto à falta de higiene de quem são acusados os ciganos, trata-se também 
de outra falsidade ou má interpretação. Nas estradas, quando há água, o 
cigano mantém-se limpo. Sua falta, no entanto, não o impede de seguir em 
frente. Ele apenas convive com o problema passageiro (2014, p. 33). 
 
 Além das vestimentas, perguntamos às entrevistadas como essas pessoas faziam 
para se manter no bairro e, segundo D. Dilma, “eles negociavam com cavalo, moto, 
rádio, televisão. O que eles encontravam, o que eles compravam, eles trocavam, eles 
viviam mais da troca, sabe? O negócio deles era mais troca. E elas, eram pedindo” 
(Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). O negócio dos ciganos é 
sempre a venda ou os negócios, ficando as mulheres ciganas encarregadas de pedir nas 
casas ou arrecadar dinheiro com práticas divinatórias, como ler mãos ou qualquer ato de 
adivinhar o futuro. 
 Segundo nossas entrevistadas, as mulheres se encarregavam de pedir nas casas, 
elas não chegaram a pedir para ler as mãos das nossas entrevistadas, que moravam 
próximo, mas, sim, de algumas pessoas da cidade. 
 As lendas, que falam sobre os ciganos, mostram os mesmos como pessoas que 
vivem de pedir, e isso aborrece os moradores da cidade onde eles acampam, pois os têm 
como vagabundos, viventes sustentados pela população que tem seu trabalho diário. Por 
serem conhecidos por pedir esmolas e acusados por muitos de se apossarem do que vão 
encontrando pelo caminho, os ciganos levam a fama de ladrões por onde passam. 
Segundo Débora, as ciganas eram vistas como prostitutas pelas mulheres do 
bairro, pois essas ciganas tinham aproximações com um senhor que morava perto da 
tenda e, elas chegavam à casa dele para se oferecer, em troca, roubavam objetos, comida 
e dinheiro. Apesar da visão das mulheres do bairro sobre as ciganas manifestada por 
Débora, há uma probabilidade muito pequena de haver prostitutas naqueles grupos 
ciganos, pois não é da índole nem da cultura cigana manter meretrizes em seus grupos, 
como nos conta Baçan a respeito da cigana: 
A mulher é extremamente pudica e tradicional. Para exemplificar melhor 
ainda, basta verificar que a prostituição é praticamente inexistente entre os 
110 
 
ciganos. O adultério é condenado e execrado e a virtude é sempre exaltada. 
Os valores morais mantêm-se rígidos e cultivados como um aspecto cultural 
próprio desse povo (2014, p. 31). 
 
Não é impossível também que alguma cigana tenha feito charme para um não 
cigano na intenção de conseguir vantagens de alguma natureza, isso era comum também 
entre os índios, o que necessariamente não findava em sexo. Assim elas se 
aproveitavam da ocasião e dele, furtava alguns objetos, pois os ciganos não se 
consideram ladrões, nem roubam, a não ser que isso pudesse trazer recursos para 
garantir a subsistência deles. Outra explicação lógica para esse fato é que os ciganos são 
pessoas nômades que vivem em conjunto, não tendo como consciência a autoridade 
sobre algum objeto, compartilhando entre si suas coisas, por esse motivo, aplica-se esse 
compartilhamento entre os demais, “segue-se uma praxe dos ciganos, de viverem o 
presente do modo mais prático possível, assimilando com naturalidade as características 
de seu tempo e das culturas dos povos por onde passam” (2014, p. 36). 
É perceptível que havia entre os ciganos uma divisão de trabalho. As ciganas 
ficavam encarregadas de pedir esmolas à população do bairro e da cidade, sem fazer 
atendimentos em suas barracas, como previsão do futuro e leitura de mãos, sendo esses 
últimos um costume cigano. Segundo Débora, esses ciganos não conservavam hábitos 
religiosos e, quando tinha festa no bairro, eles procuravam participar: “as festas que eles 
faz é que eles comemoravam, era quando tinha mais ai no bairro, eles iam aí 
comemoravam junto com o povo. Mas eles fazendo, nunca vi eles fazendo não” 
(Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). A participação dos ciganos nas 
festas do bairro era uma forma de se aproximar à população para que fossem mais 
aceitos, no entanto, conta-nos Débora, as pessoas não gostavam de manter contato com 
eles: “num gostavam deles, queriam que eles fossem embora pra casa porque aqui não 
dava certo pra eles ficar. Num gostavam deles não, falavam muito mal deles” (Débora 
Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014). 
O convívio entre os ciganos era de muito respeito para com os demais e, 
principalmente, com os idosos. Ao contrário do que nos disse Débora. D. Severina nos 
contou que entre eles não existia falta de entendimento em conjunto, nem discussões ou 
conflitos: “tinha briga não, entre eles não. Num tinha intriga, num tinha nada” (Severina 
Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014). Inclusive, D. Severina fez questão de nos dizer 
que o grupo a tratava muito bem, com respeito e gratidão, sendo esse, o reflexo do afetoque cultivaram frente à pessoa de D. Severina: “era com muito respeito. Aqui mesmo 
111 
 
eles tinha muito respeito, por mim, pela minha família” (Severina Maria de Oliveira, 28 
de out. de 2014). Ademais, a união entre os ciganos que compõem um grupo específico 
sempre foi um referencial entre eles e eles se mantêm unidos na medida em que seus 
costumes sejam seguidos e respeitados por todos. É certo também que a desunião entre 
eles logo se faz notar pelos não ciganos, pois as rixas entre eles são resolvidas a ferro e 
fojo e os confrontos viram lutas armadas que só terminam com a morte dos enreixados. 
 A dificuldade que D. Severina tinha, por muitas vezes, era entender a fala dos 
ciganos, pois estes conversavam em outra língua: “é o jeito que eles falavam, tinha hora 
que eles falavam que eu não entedia o que eles tavam dizendo. Eu só conhecia eles pelo 
nome normal, porque fala de cigano é difícil a gente entender, né?!” (Severina Maria de 
Oliveira, 28 de out. de 2014). Não sendo apenas D. Severina, as demais nos falaram da 
dificuldade que tinham, muitas vezes, de entender a linguagem desses ciganos, pois 
acontecia de eles falarem entre eles usando a língua dos mesmos. 
Todos os ciganos têm uma lingua própria, chamada romani, variando entre gírias 
e sotaques de acordo com os países que esses ciganos habitam. No entanto, mesmo 
convivendo com outras línguas, o romani não perde sua composição, como nos fala 
Baçan: 
Até hoje, os ciganos falam o romani, uma língua própria, inclusive com 
alguns dialetos específicos, como o caló e o sinto. Mesmo esses dialetos, 
apesar de influenciados pelas línguas e culturas dos países por onde os 
ciganos passaram, conservam ainda forte ligação com o romani. 
Essa língua diferente e única, falada pelos ciganos, intrigaram os europeus, 
que a consideravam incompreensível. Em muitas oportunidades e países, ela 
foi proibida de ser utilizada abertamente pelos ciganos. Felizmente, manteve-
se ativa no seio dos grupos, preservando-se para a posteridade (2014, p. 10). 
 
Mesmo tendo, os ciganos, dificuldade de se comunicar com os demais habitantes 
do bairro Bela Vista, D. Severina nos falou que eles tentaram aproximação com ela, por 
meio de pedidos de ajuda: 
 
Eles chegavam, falavam comigo, aí pedia pra ... chegava logo assim, pedindo 
água sabe? Eu dava. Aí pedia pra vim fazer o comer das crianças, eu deixava. 
Pedia pra vim dar um banho, eu deixava. Pedia uma dormida, eu deixava. Aí 
pedia comida, eu dava, né? Eu tinha graças a Deus, né? Aí foram se 
aproximando. Lavava até roupa aqui em casa. Era as mulheres, os homens 
não (Severina Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014). 
 
Os ciganos são pessoas festivas, e qualquer evento é motivo de festa. Entre as 
festas ciganas, as mais populares são os casamentos, batismos de crianças e enterros, 
chegando a durar mais de um dia: 
112 
 
 
Dentre essas festas, uma das mais importantes é a do batismo de uma criança. 
Dependendo do país onde o grupo estiver de passagem, o ritual será aquele 
que a religião do local determinar, não importa se católica, evangélica, 
budista ou muçulmana, apenas para citar algumas (BAÇAN, 2014, p. 39-40). 
 
 D. Severina nos disse que um irmão era padrinho da filha de um cigano: “eles 
gostavam muito da gente, eu tenho um irmão que é padrinho de uma filha deles. Ele 
chegou onde tava o meu irmão, falou com ele, disse assim: ‘eu tô com essa menina pra 
batizar e quero que você seja o padrinho’, aí José, meu irmão, foi. Na igreja, eles 
batizaram na igreja” (Severina Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014). Na fala, notamos 
o quanto D. Severina e parte de sua família se fizeram presentes no convívio com os 
ciganos, uma vez que ciganos não mantêm aproximação com quem não faz parte do 
grupo. 
 Há sempre uma dificuldade de convívio entre ciganos e não ciganos. 
Primeiramente isso ocorre pelo fato dos não ciganos cultivarem todas as formas de 
preconceitos sobre os ciganos, considerando-os pessoas carregadas de maldade, ladrões, 
aproveitadores e mentirosos. Por outro lado, encontram-se ciganos que procuram se 
defender de toda a negatividade que fazem contra eles. 
 D. Dilma nos informou sobre o contato que os ciganos tinham com os demais do 
bairro: 
 
Era, pouca gente, poucas pessoas iam lá. É porque eles não têm muita 
aproximação com o pessoal não. A aproximação deles é ir na casa do povo 
pedir, mas gente lá só se fosse alguém, algum homem que fosse agiota pra 
trocar, vender. Mas a cabana de ciganos nunca é muito frequentado por 
populares não, é só eles mesmo (Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de 
out. de 2014). 
 
Ao que notamos, jogaram contra os povos ciganos todas as formas de 
preconceitos possíveis, isso se deve pelo fato desses povos se acharem com a liberdade 
de possuir aquilo que a natureza pode oferecer a todos, por isso, desde muito tempo, 
“associam-nos ainda a roubos, desastres naturais, como ventanias e tempestades, além 
de toda sorte de trapaças e falsificações” (BAÇAN, 2014, p. 31). Por essa razão, 
achamos conveniente ouvir a opinião das entrevistadas sobre esses povos ciganos. 
Perguntamos à Débora, a entrevistada mais nova, criança na época que no tempo 
da presença dos ciganos, qual a impressão que ela tinha sobre eles, a mesma nos 
respondeu: 
113 
 
Pra mim eles eram uma pessoa normal, que como qualquer outra pessoa tinha 
o direito de trabalhar, mas como tinham preguiça em certas partes, não 
procuravam. Queria tudo mais fácil. Porque, eu pelo menos, acho assim: que 
se você quer, você pode, né?! Se você chegasse ali e pedisse à prefeitura 
alguma coisa, um trabalho, pelo menos pra lavar a rua, mas não. Eles tinham 
preguiça, gostava de pedir (Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 
2014). 
 
 Contudo, é notório entre as falas de Débora que os ciganos eram pessoas que 
causavam um pouco de revolta por serem andantes, sem lugares fixos que fizessem 
deles cidadãos com direitos iguais aos demais, uma vez que não possuíam moradia e 
trabalho, ficando à margem da sociedade. 
D. Inês disse-nos que os ciganos para ela eram pessoas comuns, não sendo 
conservadas formas de preconceito, sendo mais uma entre outros do bairro que apenas 
observava os demais. 
D. Severina, a que se fez mais presente entre os ciganos, nos contou que o bando 
chegou aos poucos se aproximando de sua casa e família, não causando mal algum, 
permaneceu entre os seus. D. Severina ainda nos falou que gostava muito deles, a ponto 
de sentir saudades, pois estes eram pessoas boas, que não causavam mal algum a 
ninguém. 
D. Dilma nos falou que a princípio o grupo cigano chegou ao Bela Vista por 
volta dos anos oitenta, montados em cavalos e com poucas condições financeiras, 
montaram suas barracas de lonas, paus e panos. Posteriormente, sempre indo e vindo de 
outras cidades, os ciganos apareciam em melhores condições, a ponto de construírem 
casas no bairro para residir. A entrevistada também nos falou que não soube de casos de 
furto, mas, mesmo assim, as pessoas do bairro sempre se resguardavam com relação aos 
ciganos, mantendo a ideia que estes eram ladrões. 
As mulheres ciganas sempre bem bonitas causavam uma pitada de inveja nas 
outras mulheres do bairro que sempre ficavam de cochicho quando elas passavam. E, os 
homens bem alinhados e charmosos arrancavam suspiros entre as mocinhas do Bela 
Vista que, segundo D. Dilma, faziam o possível para se aproximarem dos ciganos. Entre 
esmolas, comércio, trocas e adivinhações, mantinham-se os povos do grupo de ciganos 
que, segundo D. Dilma, não faziam mal a ninguém. 
Por fim, podemos notar nas falas das entrevistadas, que os ciganos, a princípio, 
acamparam em várioslugares do bairro Bela Vista, assim como possivelmente fariam 
todos parte do mesmo bando que habitou o bairro em outros anos, tendo em vista, as 
falas de todas que insistiam em mencionar o nome de Seu João, o cigano mais velho 
114 
 
entre os outros. Fazer uma junção entre essas falas é o mesmo que fazer uma ponte que 
ligue períodos e histórias, aonde uma vai completando a outra e construindo um 
conhecimento, aquele da cultura cigana e como outra cultura possa ver esses povos. 
Temos ciência que este trabalho é apenas uma visão, de várias outras. Não 
tomemos como conhecimento absoluto tudo aquilo que foi posto aqui, pois isso seria o 
mesmo que se restringir em apenas um ângulo a possibilidade de haver várias outras 
formas de enxergar um acontecimento. O que fizemos com esse trabalho foi mostrar 
uma parte da cultura cigana para justificar a cultura cigana perante os preconceitos que 
se seguem contra esse povo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
115 
 
LISTA COM NOME DOS GRUPOS, ENTREVISTADOS E ALUNOS DO PROJETO 
“MAIS CULTURA NAS ESCOLAS” DA ESCOLA MUNICIPAL PROFESSORA ZÉLIA 
COSTA DA CUNHA 
 
MENTORA DO PROJETO: Luana Barros de Azevedo 
CO-MENTORAS VOLUNTÁRIAS: Marianne Shirley Azevedo do Patrocínio; 
Samara Macedo. 
 
 BENZEDEIROS: 
Entrevistados: 
Evaristo Euzébio de Araujo, 21 de ago. de 2014. 
Inês Azevedo dos Santos, 27 de ago. de 2014. 
Maria de Azevedo Dias, 28 de ago. de 2014. 
Raimundo Rodrigues do Nascimento, 1 de set. de 2014. 
Alunos: 
Felipe Douglas de Souza Araújo, 
Francicleo Baca Silva, 
Igo Neves da Silva, 
Raquel Andrêssa Azevedo de Souza, 
Vinícius Azevedo dos Santos. 
 
 PARTEIRAS: 
Entrevistadas: 
Cicera Maria de Azevedo, 9 de set. de 2014. 
Margarida Silva dos Santos, 9 de set. de 2014. 
Maria de Azevedo Medeiros, 3 de out. de 2014. 
Inês Azevedo dos Santos, 3 de nov. de 2014. 
Maria da Luz Oliveira de Medeiros, 7 de out. de 2014. 
Hozana Macêdo de Azevedo, 3 de nov. de 2014. 
Alunos: 
Isabelle Kalyne Gomes Dantas, 
Jaedson Dantas do Nascimento, 
Raisa de Medeiros Cunha da Silva, 
Lorena Carla de Sousa Lima. 
116 
 
 LAVADEIRAS: 
Entrevistadas: 
Ildete Gomes, 29 de set. de 2014. 
Severina Maria de Oliveira, 30 de set. de 2014. 
Josefa Maria de Oliveira, 11 de nov. de 2014. 
Anedina Meira de Medeiros Azevedo, 11 de nov. de 2014. 
Inacia Oliveira Gonzaga, 11 de nov. de 2014. 
Alunos: 
Alexsandra Teixeira dos Santos, 
Mike Anderson de Sousa Lima, 
Stéfany Laiz Costa de Azevedo, 
Pedro Vitor Silva dos Santos, 
Xarlene Charles Azevedo do Nascimento. 
 
 CIGANOS 
Entrevistadas: 
Inês Azevedo dos Santos, 05 de nov. de 2014, 
Débora Liz Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014. 
Maria Aparecida Araújo de Brito, 01 de nov. de 2014. 
Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, 29 de out. de 2014. 
Severina Maria de Oliveira, 28 de out. de 2014. 
Alunos: 
José Iranyr da Silva Araújo, 
Pâmela Sayonara Gomes da Silva, 
José Patrocínio Torres Júnior, 
Railson Santos de Azevedo. 
 
LISTA DE IMAGENS 
 
Imagem 1: Jardim do Seridó/RN vista de cima. 
Imagem 2: Localização de Jardim do Seridó/RN no mapa. 
Imagem 3: Seu Raimundo Rezador (Raimundo Rodrigues do Nascimento). 
Imagem 4: Seu Raimundo (Raimundo Rodrigues do Nascimento)- 
Imagem 5: Objetos encontrados por Raimundo Rezador 
Imagem 6: Evaristo Rezador em sua residência cedendo entrevista para os alunos da Escola 
Imagem 7: Na imagem, D. Marluce, rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os alunos. 
Imagem 8: Na imagem, D. Inês rezadora, em sua residência, cedendo entrevista para os alunos. 
Imagem 9: Orações escritas de Raimundo Rezador. 
117 
 
Imagem 10: Imagem que retrata os cuidados após o trabalho de parto. 
Imagem 11: Posto de Saúde Parteira Regina Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista. 
Imagem 12: Placa que nomeia a Rua Regina Rebeca, Bairro Bela Vista. 
Imagem 13: Fotografia de Regina Rebeca situada na sala de espera do Posto de Saúde Parteira Regina 
Rebeca (ESF V), Bairro Bela Vista, Jardim do Seridó/RN. 
Imagem 14: D. Maria (Maria de Azevedo Medeiros), em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 15: Hozana Macêdo de Oliveira nos cedendo entrevista em sua casa. 
Imagem 16: Maria da Luz Oliveira de Medeiros nos cedendo entrevista em sua residência. 
Imagem 17: Margarida Silva dos Santos, mostrando o quadro de fotos da sua família. 
Imagem 18: Cícera Maria da Silva, filha de Regina Rebeca, cedendo entrevista em sua residência. 
Imagem 19: Lavadeiras. 
Imagem 20: Encontro de matronas, Debret. 
Imagem 21: Lavadeiras, Rugendas. 
Imagem 22: À esquerda, Ildete Gomes, cedendo entrevista. 
Imagem 23: À esquerda, D. Inácia, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 24: D. Severina, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 25: D. Anedina, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 26: D. Josefa, ao centro, em sua residência, cedendo entrevista. 
Imagem 27: Ciganos. 
Imagem 28: Ciganos em acampamentos. 
Imagem 29: Dilma Gertrudes Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista. 
Imagem 30: Maria Aparecida Araújo de Brito, à direita, em sua residência, cedendo-nos entrevista. 
Imagem 31: D. Severina, em sua residência, cedendo.. 
Imagem 32: Débora Liz Silva de Azevedo, ao centro, cedendo entrevista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
118 
 
REFERÊNCIAS: 
 
ALMEIDA, Francisca Dias de Oliveira de; CECAGNO, Susana. Parto domiciliar assistido 
por parteiras em meados do século XX numa ótica cultural. Texto & Contexto 
Enfermagem, v. 13, n. 3, p. 409-413, 2004. 
ARAÚJO, F. ; SANTOS, L. A. R. . A Educação Patrimonial como prática de ensino de 
História local: nossa experiência no centro histórico de Cruzeta/RN. 2012. (Apresentação 
de Trabalho/Simpósio). 
 
ASSIS, Sandra Maria de. MULHERES DA VILA, MULHERES DA VIDA-VILA DO 
PRÍNCIPE (1850-1900). Publicação do Departamento de História e Geografia da 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, v. 3, n. 05, 2002. 
AUGUSTO, José. Famílias Seridoenses. Natal: Sebo Vermelho, 2002. 
AZEVEDO, José Nilton de. Um passo a mais na História de Jardim do Seridó. 1. ed. 
Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1988. 203 p. 
AZEVEDO, José Nilton de, Vultos Populares de Jardim do Seridó, 1. ed. 1998. 
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. - São Paulo: T. A. Queiros, 1979, 
reimpressão 1983. 
CERTAU, Michel de. A cultura no plural. Tradução: Enid Abreu Dobránzky. 4ª Ed. – 
Campinas, SP: Papirus, 2005. – (coleção Travessia do Século). 
_________________. A escrita da história. Tradução: Maria de Lourdes Menezes; revisão 
técnica: Arno Vogel. – 3. Ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2013. 
__________________. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephrain 
Ferrreira Alves. 22. Ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 
CHARTIER, Roger. A história cultural, entre práticas e representações. Tradução: Maria 
Manuela Galhardo. 2ª ed. Algés – Portugal. Difel – Difusão Editorial, S. A. 
DANTAS, Dom José Adelino. Homens e fatos do Seridó Antigo. Natal: Sebo Vermelho, 
2008. 
DELLA MIRÀDOLA, Pico. A dignidade do homem. Tradução: Luiz Feracine. São Paulo – 
SP: Editora Escala, (1985?). 
DIAS, Reginaldo Benedito. A história além das placas: os nomes de ruas de Maringá (PR) 
e a memória histórica. História & Ensino, v. 6, p. 103-120, 2012. 
119 
 
FIGUEIRA, Cristiane Reis; MIRANDA, Lílian Lisboa. Educação patrimonial no ensino de 
História nos anos finais do Ensino Fundamental: conceitos e práticas. 1ed. São Paulo: 
Edições SM Ltda, 2012.GOLDFARB, Maria Patrícia Lopes. O tempo de trás: um estudo da construção da 
identidade cigana em Souza/PB. 2004. Tese- Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 
2004. 
HALBWACHS, MAURÍCE. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: 
Centauro, 2003. 
LE GOFF, JAQUES. História e memória. Tradução Bernardo Leitão... [et. al.]. -4 ed. – 
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996. 
MACEDO, Unzer Emiliano. Religiosidade popular brasileira. Revista Ágora. Vitória, n 7, p 
1-20, 2008. 
MÉLO, Evaneide Maria de. Paisagem como categoria, paisagem como invenção. In: 
MÉLO, Evaneide Maria de. A paisagem em foco: leituras fotográficas de Jardim do 
Seridó/RN. Natal, RN: EDUFRN, 2009. 
MOTA, Christiane; BASÍLIO, GOMES Francisco Ernesto. Reza, Doutrina e oração. 
Reunião Brasileira de Antropologia, Porto Seguro, v. 1, p. 1-12, 01 e 04 de jun de 2008. 
OLIVEIRA, Érica Caldas Silva de; TROVÃO, Dilma Maria de Brito Melo. O uso de plantas 
em rituais de rezas e benzeduras: um olhar sobre esta prática no estado da 
Paraíba. Revista Brasileira de Biociências, v. 7, n. 3, 10 de julho de 2009. 
RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar: A Utopia da Cidade Disciplinar. Rio de Janeiro: Paz 
e Terra, 1985. 
SANTOS, Francimário Vito dos. O ofício das rezadeiras: um estudo antropológico sobre 
as práticas terapêuticas e a comunhão de crenças em Cruzeta/RN. Dissertação (Mestrado 
em Antropologia)- Programa de Pós-graduação em Antropologia, Universidade Federal do 
Rio Grande do Norte, Natal/RN, 2007. 
SANTOS, Rosenilson da Silva. INTERCESSÕES ENTRE A FOTOGRAFIA E A 
HISTÓRIA ORAL: REPRESENTAÇÕES DE MENDIGOS, LOUCOS E CIGANOS 
NA OBRA DE JOSÉ MODESTO (JARDIM DO SERIDÓ/RN, 1960 - 1980). 
Espacialidades, v. 03, p. 01-16, 2010. 
WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José C. M. Formação do Brasil Colonial. 2 ed. Rio de 
Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

Mais conteúdos dessa disciplina