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DOCÊNCIA EM
SAÚDE
PSICODIAGNÓSTICO
1
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Portal Educação
P842p Psicodiagnóstico / Portal Educação. - Campo Grande: Portal Educação,
2012.
243p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-66104-37-0
1. Psicologia. 2. Psicodiagnóstico. I. Portal Educação. II. Título.
CDD 616.89075
2
SUMÁRIO
1 O PSICODIAGNÓSTICO ........................................................................................................... 6
1.1 ORIGEM E HISTÓRICO DO PSICODIAGNÓSTICO ................................................................. 6
1.2 DEFINIÇÕES ............................................................................................................................. 14
1.3 SINTETIZANDO ........................................................................................................................ 19
1.3.1 Pontos fundamentais do Psicodiagnóstico ................................................................................ 19
1.3.2 Momentos da avaliação ............................................................................................................. 20
1.3.3 Prática do Psicodiagnóstico ....................................................................................................... 20
1.4 OBJETIVOS .............................................................................................................................. 21
2 QUESTÕES IMPORTANTES NO PSICODIAGNÓSTICO ........................................................ 32
2.1 O PROBLEMA ........................................................................................................................... 32
2.2 SINAIS E SINTOMAS ................................................................................................................ 35
2.3 MOTIVO DA CONSULTA .......................................................................................................... 38
2.4 SINTETIZANDO ........................................................................................................................ 38
2.5 AVALIAÇÃO DA PSICOPATOLOGIA ........................................................................................ 41
3 PASSOS DO PROCESSO DIAGNÓSTICO/OPERACIONALIZAÇÃO DO PROCESSO ......... 42
3.1 FORMULAÇÃO DE PERGUNTAS ............................................................................................ 43
3.2 CONTRATO DE TRABALHO .................................................................................................... 45
3.3 ESTABELECIMENTO DE UM PLANO DE AVALIAÇÃO ........................................................... 47
3.4 BATERIA DE TESTES .............................................................................................................. 49
3.5 ADMINISTRAÇÃO DE TESTES E TÉCNICAS .......................................................................... 53
3.6 LEVANTAMENTO, ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DE DADOS .................... 55
3
3.7 DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO .......................................................................................... 59
3.8 COMUNICAÇÃO DOS RESULTADOS NA ENTREVISTA DE DEVOLUÇÃO ........................... 61
3.9 ENTREVISTA DE DEVOLUÇÃO ............................................................................................... 67
3.9.1 Recomendações ........................................................................................................................ 67
3.9.2 Pontos importantes a frisar ........................................................................................................ 70
4 ENTREVISTA DIAGNÓSTICA INICIAL .................................................................................... 73
4.1 DEFINIÇÕES ............................................................................................................................. 73
4.2 PRIMEIRO CONTATO COM O PACIENTE .............................................................................. 74
4.3 OBJETIVOS .............................................................................................................................. 79
4.4 PRINCIPAIS REGISTROS ........................................................................................................ 83
5 ENQUADRE NO PROCESSO PSICODIAGNÓSTICO ............................................................. 84
6 O PROCESSO DIAGNÓSTICO NA INFÂNCIA, ADOLESCÊNCIA E IDADE ADULTA .......... 88
6.1 HISTÓRIA DO EXAMINANDO .................................................................................................. 88
6.2 ENTREVISTA INICIAL NO PSICODIAGNÓSTICO INFANTIL ................................................. 108
6.3 TESTES QUE PODEM SER UTILIZADOS NO PSICODIAGNÓSTICO INFANTIL .................. 114
6.4 FANTASIAS SOBRE A DOENÇA............................................................................................. 115
6.5 ESCOLHA DA ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA ADEQUADA ................................................... 116
7 ENTREVISTAS, TESTES E EXAME DO ESTADO MENTAL .................................................. 118
7.1 ENTREVISTA ........................................................................................................................... 120
7.1.1 Tipos de entrevistas.................................................................................................................. 129
7.1.2 Outros tipos de entrevistas ....................................................................................................... 132
7.2 EXAME DO ESTADO MENTAL................................................................................................ 133
7.2.1 Descrição geral ......................................................................................................................... 133
7.2.2 Humor e afeto ........................................................................................................................... 134
4
7.2.3 Características do discurso ...................................................................................................... 136
7.2.4 Percepção ................................................................................................................................ 136
7.2.5 Sensório e cognição ................................................................................................................. 139
7.2.6 Impulsividade ............................................................................................................................ 143
7.2.7 Discernimento e insight ............................................................................................................ 144
7.2.8 Confiabilidade ........................................................................................................................... 144
8 ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOSDECORRENTES DE AVALIAÇÕES
PSICOLÓGICAS ................................................................................................................................ 187
8.1 PRINCÍPIOS NORTEADORES NA ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS ................................ 188
8.2 PRINCÍPIOS TÉCNICOS DA LINGUAGEM ESCRITA ............................................................ 188
8.3 PRINCÍPIOS ÉTICOS E TÉCNICOS ........................................................................................ 189
8.3.1 Princípios éticos ....................................................................................................................... 189
8.3.2 Princípios técnicos .................................................................................................................... 189
8.4 MODALIDADES DE DOCUMENTOS ....................................................................................... 190
8.5 LAUDO PSICOLÓGICO OU PERICIAL .................................................................................... 190
8.5.1 Conceito e finalidade do Laudo Psicológico ou Pericial ............................................................ 190
8.5.2 Estrutura ................................................................................................................................... 191
8.6 RELATÓRIO PSICOLÓGICO ................................................................................................... 192
8.6.1 Conceito e finalidade do Relatório Psicológico ......................................................................... 192
8.6.2 Estrutura ................................................................................................................................... 192
8.7 PARECER ................................................................................................................................ 195
8.7.1 Conceito e finalidade do Parecer .............................................................................................. 195
8.7.2 Estrutura ................................................................................................................................... 195
8.8 DECLARAÇÃO ......................................................................................................................... 197
5
8.8.1 Conceito e finalidade da Declaração ....................................................................................... 197
8.8.2 Estrutura .................................................................................................................................. 197
8.9 ATESTADO PSICOLÓGICO .................................................................................................... 198
8.9.1 Conceito e finalidade do Atestado Psicológico ......................................................................... 198
8.9.2 Estrutura ................................................................................................................................... 198
8.10 VALIDADE DOS DOCUMENTOS ............................................................................................ 199
8.11 GUARDA DOS DOCUMENTOS E CONDIÇÕES DE GUARDA ............................................... 200
9 ASPECTOS ÉTICOS IMPLICADOS NO PSICODIAGNÓSTICO ............................................. 201
9.1 COMPORTAMENTOS ESPECÍFICOS DO PSICÓLOGO EM UM PSICODIAGNÓSTICO ...... 201
9.2 COMPETÊNCIAS QUE O AVALIADOR DEVE TER ................................................................ 202
9.3 GUIA DE RESPONSABILIDADE ÉTICA E PROFISSIONAL.................................................... 206
9.4 RESOLUÇÕES DO CRP REFERENTES À AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA ............................... 208
9.5 DISPOSITIVOS QUE DEVEM SER OBSERVADOS PELO PSICÓLOGO NA AVALIAÇÃO
PSICOLÓGICA ................................................................................................................................... 209
9.6 RESPONSABILIDADE DO DIAGNÓSTICO PSICOLÓGICO ................................................... 210
10 RESOLUÇÕES NA ÍNTEGRA ................................................................................................. 212
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 240
6
1 O PSICODIAGNÓSTICO
1.1 ORIGEM E HISTÓRICO DO PSICODIAGNÓSTICO
Para que entendamos melhor o que significa o Psicodiagnóstico precisamos saber um
pouco sobre o diagnóstico e avaliação diagnóstica. A palavra diagnóstico origina-se do grego
diagõstikós e significa conhecimento (efetivo ou em confirmação) sobre algo, ao momento do
seu exame; ou descrição minuciosa de algo, feita pelo examinador, classificador ou pesquisador;
ou ainda juízo declarado ou proferido sobre a característica, a composição, o comportamento, a
natureza etc. de algo, com base nos dados e/ou informações deste obtidos por meio de exame,
ou seja, discernimento, faculdade de conhecer. Utiliza-se este termo para referir-se à
possibilidade de conhecimento que vai além daquela que o senso comum pode dar, ou seja, a
possibilidade de significar a realidade fazendo uso de conceitos, noções e teorias científicas.
Segundo Ancona-Lopez (2002), Psicodiagnóstico pode ser conceituado como:
Um processo de intervenção;
Intervir é meter-se de permeio, estar presente, assistir, interpor os seus bons
ofícios;
Meter-se de permeio indica a atuação, posição ativa de alguém que interfere, que
se coloca entre pessoas, que de algum modo estabelece um elo, uma ligação;
Estar presente parece indicar uma posição, alguém a quem se pode recorrer e que
está inteiro na situação;
Assistir indica ajudar, cuidar, apoiar;
Interpolar os seus bons ofícios indica ação de quem tem algum preparo em
determinada área e põe seus conhecimentos à disposição de quem dele necessita ou ação de
quem acredita no que faz.
7
Quanto à avaliação diagnóstica, podemos dizer que ela é mais ampla que o
psicodiagnóstico, e seus objetos de estudo podem ser um sujeito, um grupo, uma instituição,
uma comunidade; daí a importância dos trabalhos interdisciplinares já que o objeto a avaliar é
sempre um sistema complexo, integrado por subsistemas diversos:
como o biológico, psicológico, social, cultural, em interação
permanente. Percebemos que o Psicodiagnóstico é apenas uma
parte da avaliação diagnóstica.
O Psicodiagnóstico derivou da Psicologia Clínica, introduzida, segundo Cunha (2003)
por Lighter Witmer em 1896, e criada sobre a tradição da psicologia acadêmica e da tradição
médica. Mas de acordo com Fernández-Ballesteros (1986), a paternidade do psicodiagnóstico
também é atribuída a três autores, que deram os primeiros passos nos estudos sobre
Psicodiagnóstico lançados no final do século XIX e no início do século XX:
Galton, que introduziu os estudos da diferenças individuais;
Cattell, a quem se devem as primeiras provas chamadas de testes mentais;
Binet, que propôs a utilização dos exames psicológicos por meio de medidas
intelectuais.
O Psicodiagnóstico surgiu como consequência do advento da psicanálise, que
ofereceu novo enfoque para o entendimento e a classificação dos transtornos mentais;
anteriormente, o modelo para o estudo das doenças mentais remontava ao trabalho de Kraepelin
VOCÊ SABIA?
Enquanto os psicólogos em geral realizam
avaliações, os psicólogos clínicos entre
outras tarefas realizam psicodiagnósticos.
Pode-se dizer que a avaliação psicológica é
um conceito muito amplo. Psicodiagnósticoé uma avaliação diagnóstica, feita com
propósito clínico e, portanto, não abrange
todos os modelos de avaliação psicológica
de diferenças individuais (CUNHA, 2004).
8
e outros, e as suas tentativas para estabelecer critérios de diagnóstico diferencial para a
esquizofrenia.
Como discutiremos logo adiante, no período anterior a Freud, o enfoque do transtorno mental era
nitidamente médico, onde os pacientes de interesse para ciência médica apresentavam quadros
graves, estavam hospitalizados, e eram identificados apenas sinais e sintomas que compunham
as síndromes. Mas já no período Freudiano, os pacientes atendidos não apresentavam quadros
tão severos, não estavam internados, e embora fossem levados em conta os seus sintomas,
estes eram percebidos de maneira compreensiva e dinâmica.
Ocampo (1981) faz um panorama sobre alguns modelos que seguiu o processo de
psicodiagnóstico ao longo do tempo:
Modelo Médico: aqui é sintetizada a distância do paciente, a falta de identidade do
psicólogo, onde o mais importante seria aplicar testes e mandar relato a outro profissional.
Modelo da Psicanálise: marco de referência, influência no estudo da personalidade,
mas é diferente pela sua metodologia própria.
Diagnóstico de tipo compreensivo: o importante aqui seria encontrar sentido,
relevância e significativo e entrar em contato.
(...) tomar aquilo que é relevante e significativo na personalidade,
entrar empaticamente em contato emocional e, também conhecer os
motivos profundos da vida emocional de alguém (...) (TRINCA, 1984).
Diagnóstico interventivo: aqui, segundo Ancona-Lopes (1984), seria enfatizada a
impossibilidade de separação entre as fases de avaliação e intervenção.
Até algum tempo o processo Psicodiagnóstico era considerado, como uma situação em
que o psicólogo apenas aplicava testes em alguém. De acordo com Ocampo (1981), ele então
cumpria uma solicitação seguindo os passos e utilizando os instrumentos indicados por outros
profissionais, quase sempre da área médica (psiquiatra, pediatra, neurologista). Assim, o
psicólogo atuava como alguém que aprendeu a aplicar testes e esperava que o paciente
colaborasse.
9
Percebe-se que as origens da avaliação psicológica e do Psicodiagnóstico se deram
sob uma tradição da medicina e da psicologia acadêmica, de orientações tanto
comportamentalistas ou psicanalistas, predominantemente, que seguiam estratégias de
avaliação comportamental, ou seja, identificação de comportamentos-alvo, ou por uma
orientação conceitual buscando uma visão de homem específica, segundo as diretrizes de uma
comunidade acadêmica. Assim, percebemos a ênfase dada ao aspecto do sujeito em sofrimento,
disfuncional ou em desajuste com um ideal de saúde e normalidade.
Além do que citamos anteriormente, a avaliação psicológica perpassaria também a
psicometria, que tinha como métodos principais a aplicação de testes psicológicos estruturados
ou de testes projetivos. Não esquecendo também no percurso dessas origens o uso de
entrevistas psicológicas, herdada pela psiquiatria.
Cunha (2003) deixa claro que tanto o uso de testes quanto o de entrevistas dirigidas
para a identificação de sinais e sintomas seriam enfatizados, voltados para uma perspectiva de
saúde dissociada da doença ou do psicopatológico.
Psicodiagnóstico do francês psychodiagnostic e do inglês psychodiagnosis significa um
diagnóstico fundamentado no estudo dos sintomas puramente psíquicos de um doente mental.
Esse diagnóstico psicológico busca uma forma de compreensão situada no âmbito da Psicologia,
sendo uma das funções exclusivas do psicólogo garantidas pela Lei nº 4119 de 27/08/62, que
dispõe sobre a formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo.
A seguir, apresentaremos um breve histórico pra que se entenda melhor como se
deram os principais acontecimentos que originaram a Avaliação Diagnóstica ou mais
especificamente o Psicodiagnóstico, de acordo com Alchieri e Cruz (2004):
1836 –1930: período em que houve muitas produções médico-científicas e
acadêmicas;
1905: Binet apresentou o teste de inteligência;
1906: Jung com o teste de associação de palavras;
1921: Hermann Rorschach publicou seu teste de manchas de tinta;
1930-1962: estabelecimento e difusão da psicologia no ensino das universidades;
1960: a Psicologia se caracteriza pela regulamentação dos cursos de formação
(graduação) e a consequente expansão do ensino de psicologia no Brasil.
10
1962-1970: criação dos cursos de graduação em psicologia; mais exatamente em
1962, há a regulamentação da profissão por meio da lei nº4119;
1970-1987: implantação dos cursos de pós-graduação;
1974: criação do Conselho Federal de Psicologia e dos Conselhos Regionais de
Psicologia pela Lei 5.766;
1987: emergência dos laboratórios de pesquisa em avaliação psicológica.
Voltando ao termo Psicodiagnóstico, Cunha (2003) diz que ele foi utilizado pela
primeira vez por Hermann Rorschach quando publicou em 1921 seu teste de manchas de tinta.
O teste de Rorschach seria uma prova psicológica projetiva desenvolvida pelo psiquiatra suíço
Hermann Rorschach, consistindo em dar possíveis interpretações a dez pranchas com manchas
de tinta simétricas. A partir das respostas obtidas pode-se obter um quadro amplo da dinâmica
psicológica do indivíduo. As pranchas do teste,
desenvolvidas por Rorschach, são sempre as
mesmas. No entanto, para a codificação e a
interpretação, diferentes sistemas são utilizados.
Esse teste alcançou grande admiração
e popularidade durante as décadas de 40 e 50
por ser considerado um passo essencial no
psicodiagnóstico e pelo fato de que os dados
gerados pelo método eram compatíveis com os
princípios básicos da teoria psicanalítica.
Cunha (2003) deixa bem claro que a
contribuição da psicometria foi essencialmente
importante para garantir a cientificidade dos
instrumentos psicológicos, e assim essa tradição
psicométrica foi fundada e sedimentada pela
difusão das escalas de Binet. Essa escala apresentou em 1905 o teste de inteligência para
separar crianças com retardo mental, seguidas pela criação dos testes do exército americano,
alfa e beta; em 1906 ocorreu o primeiro teste coletivo para selecionar recrutas.
Assim, de acordo com Groth-Marnat (1999), percebe-se a necessidade de diferenciar o
psicometrista do psicólogo clínico, estabelecendo a seguinte diferença: o primeiro tende a
11
valorizar os aspectos técnicos da testagem; ele utiliza testes para obter dados e em sua
abordagem o produto final é muitas vezes uma série de traços ou descrições de capacidades;
enquanto o segundo utiliza testes e outras estratégias, para avaliar o sujeito de forma
sistemática, científica, orientada para resolução de problemas.
Essa época foi marcada por descobertas na biologia como a tentativa da correlação de
síndromes clínicas com modificações morfológicas observadas na autopsia. Com isso, a biologia
forneceu muitos dados à medicina, o que levou a psiquiatria a buscar as causas da doença
mental no organismo e em especial no sistema nervoso central. A consequência disso foi que os
pacientes ao invés de lunáticos – assim como eram chamados, passaram a ser considerados
neuróticos. Nessa época acontece a divisão dicotômica dos transtornos psiquiátricos, em
orgânicos e funcionais. Foi nessa escala pré-dinâmica da psiquiatria que surgiu Kraepelin, que
se notabilizou por seu sistema de classificação dos transtornos mentais e, especialmente, por
seus estudos diferenciais entre esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva. Em consequência,as classificações nosológicas e o diagnóstico diferencial ganharam ênfase.
Desse período em diante temos Freud com suas obras que representaram o primeiro
elo de uma corrente de conteúdo dinâmico, seguida por Jung em 1906 com o teste de
associação de palavras. E como já citamos anteriormente segue-se com Rorschach, em 1921,
com seu teste com tintas.
Nessa época começam a se multiplicar as técnicas projetivas, os testes de
personalidade, como o teste da figura humana (HTP), o Szondi, o MPAs e outros; além do
Rorschach e o Teste de Apercepção Temática (TAT), que eram os mais usados na época.
E como tudo se modifica no decorrer do tempo, nessa mesma época algumas técnicas
projetivas começaram a apresentar certo declínio em seu uso, passaram a apresentar problemas
metodológicos, pelo incremento de pesquisas com instrumentos alternativos, também por
estarem associadas a determinadas correntes como a psicanalítica e por interpretações
intuitivas, apesar do esforço para a criação do escores.
De acordo com Cunha (2003), atualmente, há indiscutível ênfase no uso de
instrumentos mais objetivos e entrevistas diagnósticas mais estruturadas, notadamente com o
incremento no desenvolvimento de avaliações computadorizadas de personalidade que vêm
oferecendo novas estratégias neste campo. Também, as necessidades de manter um
embasamento científico para o psicodiagnóstico, compatível com os progressos em outros
ramos da ciência, têm levado ao desenvolvimento de novos instrumentos mais precisos,
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especialmente após o advento do DSM-IV e de baterias padronizadas, que permitem nova
abordagem na área diagnóstica da neuropsicologia, constituída pela confluência da psicologia
clínica e da neurologia comportamental.
Apesar de todas essas oscilações, podemos concluir que o campo da avaliação
psicológica tem feito contribuições de suma importância para a teoria, prática e pesquisa clínica.
Não deixando de focar a questão que algumas etapas que têm que ser revistas e analisadas
para que ele continue alcançando seus objetivos. Uma delas é considerar que o reconhecimento
da qualidade do Psicodiagnóstico tem que ter, em primeiro lugar, um refinamento dos
instrumentos e, em segundo lugar, o psicólogo deve lançar mão de estratégias de marketing
para aumentar a utilização dos serviços de avaliação pelos receptores de laudos. Outra questão
é que muitas vezes, os psicólogos competentes acabam por fornecer uma grande quantidade de
informações inúteis para as fontes de encaminhamento, por falta de uma compreensão
adequada das verdadeiras razões que motivaram o encaminhamento ou, em outras palavras,
por desconhecimento das decisões que devem ser tomadas com base nos resultados do
Psicodiagnóstico.
Diante dessas questões devem-se conhecer as necessidades do mercado e de
desenvolver estratégias de conquistas desse mercado. E onde está esse mercado?
Primeiramente, o psicólogo que lida com psicodiagnósticos exerce suas funções numa instituição
que presta serviços psiquiátricos ou de medicina geral, num contexto educacional ou legal; ou
numa clínica ou consultório psicológico, em que o psicólogo recebe encaminhamento
principalmente de psiquiatras, de outros médicos (pediatras, neurologistas, etc.), da comunidade
escolar (de orientadores, professores, etc.), de juízes, de advogados; ou atende casos que
procuram espontaneamente um exame; ou são recomendados por algum familiar ou amigo.
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É, pois, responsabilidade do clínico manter canais de comunicação com os diferentes
tipos de contextos profissionais para os quais trabalha, familiarizando-se com a
variabilidade de problemas com que se defrontam e conhecendo as diversas
decisões que os mesmos pressupõem. Mais do que isto: deve determinar e
esclarecer o que dele se espera, no caso individual. Esta é uma estratégia de
aproximação, que lhe permitirá adequar seus dados às necessidades das fontes de
encaminhamento, de forma que seus resultados tenham o impacto que merecem e o
Psicodiagnóstico receba o crédito a que faz jus. (CUNHA, 2003).
Arzeno (1995) afirma que o Psicodiagnóstico atualmente está se recuperando de uma
época em que praticamente caiu no descrédito da maioria dos profissionais da saúde mental.
Hoje, talvez, percebamos o verdadeiro sentindo do Psicodiagnóstico e percebamos a
importância do profissional que realiza essa avaliação.
CONCLUINDO!
Agora que já nos situamos um pouco mais sobre onde o psicólogo
clínico trabalha e qual é a clientela dele, podemos perceber que
a principal dificuldade desse profissional é quando se defronta
com questões como um encaminhamento, pois embora um
encaminhamento seja feito porque a pessoa necessita de
subsídios para basear uma decisão para resolver um problema,
muitas vezes ela não sabe claramente que perguntas levantar
ou, por razões de sigilo profissional, faz um encaminhamento
vago para uma avaliação psicológica. E isso acarreta algumas
consequências a quem encaminhou, pois o psicólogo aceita
silenciosamente tal encaminhamento, e realiza um
psicodiagnóstico, cujos resultados não são pertinentes às
necessidades da fonte de solicitação.
14
Como vamos ver nos objetivos, um bom diagnóstico clínico está na base da orientação
vocacional e profissional, do trabalho com peritos forenses ou trabalhistas, etc., e se o psicólogo
é consultado é porque existe um problema, alguém sofre ou está incomodado e deve indagar a
verdadeira causa disso.
Outra questão que ainda persiste atualmente, segundo alguns autores, é a tendência
das duas grandes categorias, ou seja, os pacientes são agrupados em duas grandes categorias
de transtornos. Pacientes que apresentam transtornos mais graves e que podem precisar de
hospitalização tendem a ser encaminhados para psiquiatras, enquanto os casos menos graves
costumam ser encaminhados para psicólogos ou psiquiatras, de acordo com o conceito de
transtorno mental e da avaliação da gravidade dos sintomas pela pessoa que identifica o
problema e faz o encaminhamento.
1.2 DEFINIÇÕES
O Psicodiagnóstico, segundo alguns autores, é uma área da Psicologia que tem por
finalidade básica o desenvolvimento e a aplicação das técnicas de diagnóstico psicoterapêuticas
(entrevistas, testes, técnicas projetivas e a observação diagnóstica) para a identificação e
tratamento de distúrbios do comportamento.
De acordo com Ancona-Lopez (1995), o Psicodiagnóstico é
realizado com tempo limitado, buscando descrever e compreender a
personalidade total do paciente, abrangendo, assim, aspectos
atemporais; desta forma, pode-se dizer que, um de seus objetivos é
direcionar o trabalho terapêutico.
15
Cunha (2003, p. 26) é bem enfático quando diz que o Psicodiagnóstico
É um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes
psicodiagnósticos (input), em nível individual ou não, seja para atender problemas a
luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja por
classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados (output),
na base dos quais são propostas soluções.
Ele pode também ser conceituado como um processo que visa a identificar forças e
fraquezas no funcionamento psicológico, com um foco na existência ou não da psicopatologia.
Ou um estudo profundo da personalidade, do ponto de vista fundamentalmente clínico, onde
quando o objetivo do estudoé outro como trabalhista, educacional, forense, etc.; o
Psicodiagnóstico clínico é anterior e serve de base para as conclusões necessárias nessas
outras áreas.
Não podemos esquecer que devido ao grande número de teorias existentes, a atuação
do psicólogo varia consideravelmente e com isso o próprio uso do termo Psicodiagnóstico varia
também podendo ser chamado de diagnóstico psicológico, diagnóstico da personalidade, estudo
de caso ou avaliação psicológica.
Trinca (1984) diz que na avaliação psicológica houve uma procura de integração das
diversas abordagens e quando olhamos para a Psicologia Clínica, podemos verificar que houve
grandes variações de conhecimentos e atuações, e, portanto, na prática do Psicodiagnóstico,
temos também várias formas de atuação, muitas das quais não podem ser consideradas
decorrentes de exclusivamente uma ou outra abordagem. Hoje, muitas abordagens em
Psicologia partem de pressupostos e métodos diferentes, mas concordam que para se
compreender o homem é necessário organizar conhecimentos que digam respeito à sua vida
biológica, intrapsíquica e social, não sendo possível excluir nenhum desses horizontes.
Segundo Cunha (1993), Psicodiagnóstico é um processo
científico, limitado no tempo, no qual se realiza uma avaliação psicológica,
por meio de testagem. A realização dos testes possui propósitos clínicos e
são definidos durante a realização do diagnóstico.
16
Que fique claro que o Psicodiagnóstico é um procedimento científico que
necessariamente utiliza testes científicos, diferentes da avaliação psicológica na qual o psicólogo
pode ou não utilizar esses instrumentos.
Ele é caracterizado como um processo científico, por que deve partir de um
levantamento prévio de hipóteses que serão confirmadas ou infirmadas por meio de passos
predeterminados e com objetivos precisos, sendo assim – segundo Cunha (2003) – limitado no
tempo, baseado num contrato de trabalho entre paciente ou responsável e o psicólogo, tão logo
os dados iniciais permitam estabelecer um plano de avaliação e uma estimativa de tempo
necessário, ou seja, o número aproximado de sessões para a realização do exame.
Ocampo e Arzeno (apud SANTIAGO, 2002) caracterizam o Psicodiagnóstico como
uma prática bem delimitada, cujo objetivo é obter uma descrição e compreensão, a mais
profunda e completa possível da personalidade total do paciente ou do grupo familiar, abarcando
aspectos passados, presentes (diagnósticos) e futuros (prognóstico) dessa personalidade. Uma
vez obtido um panorama preciso e completo do caso, incluindo aspectos patológicos e
adaptativos, trataremos de formular recomendações terapêuticas adequadas como terapia breve
e prolongada, individual, de casal, de família, grupal, com qual frequência; se é recomendável
um terapeuta homem ou mulher, se a terapia pode ser analítica ou de orientação analítica ou
então outro tipo de terapia, e se é necessário um tratamento medicamentoso paralelo.
VOCÊ SABIA!
Segundo alguns dicionários,
Psicodiagnóstico (psico+diagnóstico)
pode ser conceituado como
conhecimento de sintomas psíquicos;
determinação de capacidades, aptidões
e tendências psicológicas, por meios
clínicos e experimentais.
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Enfatizando o que dissemos acima, o processo Psicodiagnóstico, segundo Ocampo
(1981) pode ser visto como uma situação com papéis bem definidos e com um contrato no qual o
cliente pede uma ajuda, e o psicólogo aceita o pedido e se compromete a satisfazê-lo na medida
de suas possibilidades. Ela ainda caracteriza o processo como uma situação bipessoal, de
duração limitada, cujo objetivo é conseguir uma descrição e compreensão profunda, e a mais
completa possível, da personalidade total do paciente ou do grupo familiar, enfatizando a
investigação de algum aspecto em particular, segundo a sintomatologia e as características da
indicação.
Ocampo (1981) também enfatiza alguns aspectos profissionais do Psicólogo que
atrapalhavam a atuação desse profissional: um deles era a falta de identidade sólida, fazendo
com que este não soubesse qual era seu verdadeiro trabalho dentro das ocupações ligadas à
saúde mental. Isso se devia ao modelo similar ao do médico clínico que, para proceder com
eficiência e objetividade, tomava a maior distância possível em relação a seu paciente a fim de
estabelecer um vínculo afetivo que não lhe impedisse de trabalhar com a tranquilidade e
objetividade necessárias; assim, os testes eram utilizados como um escudo entre o profissional e
o paciente, como se eles constituíssem em si mesmos o objetivo do Psicodiagnóstico, evitando
dessa forma pensamentos e sentimentos que mobilizassem afetos.
Ancona-Lopez (2002) também cita esse distanciamento quando fala da visão clássica
do Psicodiagnóstico, onde era recomendada uma atitude de neutralidade, o que leva a certo
distanciamento do profissional, para facilitar as manifestações inconscientes do cliente;
recomendava-se também que os contatos com o psicólogo durante o Psicodiagnóstico não se
estendessem além do necessário, a fim de evitar o desenvolvimento de uma relação
transferencial que exigiria outro tipo de atendimento.
Alguns profissionais buscaram uma aproximação autêntica com o paciente, no entanto,
tiveram que abandonar o modelo médico sem estarem preparados para isso. Assim o tempo
passou e com a difusão da Psicanálise os psicólogos optaram por aceitá-la como modelo de
trabalho, o que trouxe progressos e ao mesmo tempo uma nova crise de identidade no
psicólogo, uma vez que este se esqueceu que a dinâmica do processo psicanalítico era muito
diferente da dinâmica do processo Psicodiagnóstico.
Como já se percebeu o Psicodiagnóstico está vinculado com a clínica, envolvendo
temas de interesse clínicos, tais como nosologias psicopatológicas, critérios de saúde psíquica,
enfoques patogênicos e saudáveis. Logo, diagnosticar supõe situarmo-nos no plano do processo
18
saúde e doença e poder determinar em que medida se está ou não em presença de uma
patologia ou transtorno que necessita de um determinado tipo de intervenção.
FONTE: Disponível em: < http://www.nhbar.org/uploads/images/BarExamBlueBook.jpg >. Acesso em: 10 ago. 2011.
Ao caracterizarmos mais o Psicodiagnóstico pode-se dizer que de acordo com Cunha
(2003) e outros autores, o plano de avaliação é estabelecido com base nas perguntas ou
hipóteses iniciais, definindo-se não só quais os instrumentos necessários, mas como e quando
utilizá-los. Os psicólogos devem saber quais instrumentos são eficazes, quais instrumentos
podem ser eficientes, se aplicados com propósitos específicos, para fornecer respostas a
determinadas perguntas ou testar certas hipóteses. Assim, percebemos que o psicólogo deve
conhecer os diferentes instrumentos de avaliação psicológica, dominando quais instrumentos
são eficientes e quais instrumentos fornecem respostas a determinadas perguntas ou testam
hipóteses.
O Psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo, mas é também um meio para outro
fim, ou seja, a finalidade é conhecer alguém de forma mais profunda possível.
Conclui-se que o Psicodiagnóstico é um diagnóstico psicológico, realizado utilizando
metodologia específica após solicitação ao psicólogo, com objetivo de clarificar alguma dúvida
ou dificuldade no tratamento de um paciente. Ele é realizado utilizando entrevistas (inicial,
anamnese, etc.) e aplicação de testes psicológicos para confirmar ou descartar hipóteses
levantadas durante as entrevistas. Ele inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de
19
jogocom crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o material
obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a família completa, conforme o
caso e o sistema do profissional.
1.3 SINTETIZANDO
1.3.1 Pontos fundamentais do Psicodiagnóstico
O cliente deve ser visto como uma totalidade vertical (passado) e horizontal
(presente), ou seja, cada pessoa é sua própria história e esta história deve estar aqui e agora
presente;
PSICODIAGNÓSTICO
O PRIMEIRO PASSO EM DIREÇÃO AO EQUILÍBRIO
O Psicodiagnóstico é uma avaliação de base científica que tem por objetivo uma
investigação minuciosa do comportamento dos indivíduos, envolvendo não só seus
sintomas, mas também suas possibilidades para superá-los. É por meio deles que
sabemos qual é o problema que nos aflige e qual a melhor maneira de tratá-lo. Logo, o
Psicodiagnóstico é o primeiro passo na direção do equilíbrio psicológico de crianças,
adolescentes e adultos que buscam um tratamento seguro.
20
É preciso que se faça e refaça a matriz individual e familiar do cliente: onde vive, de
onde ele vem, para onde vai, no seu contexto total;
Seu sistema de comunicação consigo e com o mundo deve ser avaliado;
Verificação contínua e cuidadosa de como ele faz ou diz as coisas;
Observar o aspecto relacional terapeuta/cliente.
1.3.2 Momentos da avaliação
Planejamento do diagnóstico psicológico: identificar o problema, escolher ou
construir o instrumental psicométrico adequado, logística a seguir na execução;
Resultado do Psicodiagnóstico (interpretação e integração dos dados);
Comunicação dos dados.
1.3.3 Prática do Psicodiagnóstico
Consultório;
Contexto hospitalar - atendimento e pesquisa;
Área forense;
Instituições;
Situações especiais;
Educação;
Trabalho.
21
1.4 OBJETIVOS
Cunha (1993) define que o objetivo do Psicodiagnóstico abrange a compreensão de
problemas com base em pressupostos teóricos, identificação e avaliação de aspectos
específicos ou classificação do caso e possível previsão de seu curso, comunicando, ao final do
trabalho, os resultados obtidos. Ele aponta para alguns possíveis usos do Psicodiagnóstico, o
que vai depender das instituições requerentes e dos objetivos a serem alcançados. Seu uso
pode ter um ou vários objetivos, dependendo das perguntas ou hipóteses inicialmente
formuladas. Dependendo da simplicidade ou da complexidade das questões propostas, variam
os objetivos.
Então podemos classificar os objetivos de uma avaliação psicológica clínica, segundo
Cunha (1993), como:
Classificação simples: especificamente podemos dizer que aqui o exame compara
amostras do comportamento da pessoa que está sendo examinada com os resultados de outros
sujeitos ou grupos específicos, com condições demográficas equivalentes, onde esses
resultados são fornecidos em dados quantitativos, sendo classificados sumariamente, como em
uma avaliação de nível intelectual. Percebemos que nesse tipo de avaliação psicológica
compara-se o sujeito a médias levantadas a partir de outros sujeitos da população.
As questões ou perguntas mais elementares que podem ser formuladas em relação
a uma capacidade, um traço, um estado emocional, seriam: “Quanto?” ou “Qual?”
Um exemplo comum de exame com tal objetivo seria o de avaliação do nível
intelectual, que permitiria uma classificação simples. O examinando é submetido a
testes, adequados à sua idade e nível de escolaridade. São levantados escores,
consultada tabelas e os resultados são fornecidos em dados quantitativos,
classificados sumariamente. (CUNHA, 2003, p. 26).
22
É muito importante que o profissional escolha os objetivos adequados a serem
utilizados no processo de Psicodiagnóstico, pois não podemos deixar de observar que se o
profissional se detém apenas a este objetivo de classificação simples, seu trabalho seria
caracterizado mais como o de um psicometrista do que um psicólogo clínico, pois como este tipo
de objetivo se restringe a classificações quantitativas, utilizar-se-ia de testes. Mas como o
psicólogo clínico dificilmente perde a referência de sujeito ou da pessoa do examinando,
raramente ele se restringiria a este objetivo, mesmo por que analisaria escores dos subtestes,
diferenças inter e intrateste que são suscetíveis de interpretação.
Ao fazer todas estas interpretações, identificaria forças e fraquezas no funcionamento
intelectual, aí já entraria no objetivo que citaremos a seguir, que é o de descrição.
Descrição: esse tipo de avaliação ultrapassa a classificação simples, interpretando
diferenças de escores, identificando forças e fraquezas e descrevendo o desempenho do
paciente, como em uma avaliação de deficits neuropsicológicos. Observamos que essa
classificação tem um valor mais interpretativo acerca dos escores levantados em testes,
buscando identificar o desempenho do sujeito.
REFORÇANDO!
Quando falamos que são levantados
escores queremos dizer que se
obtém um valor quantitativo obtido
pela soma ou total de pontos
creditados a um indivíduo em
situação de prova ou teste.
23
Um exemplo de objetivo focado pela maioria dos autores na descrição seria o exame
do estado mental, geralmente realizado sem a administração de testes, não sendo, portanto, de
uso exclusivo do psicólogo, ou seja, outros profissionais de saúde podem manejá-lo. Esse
exame pode ser conceituado como o processo por meio do qual o profissional que trabalha com
saúde mental (geralmente psiquiatras e psicólogos) examina sistematicamente o estado mental
de um paciente. Esse exame é subjetivo e muito comum na rotina em clínicas psiquiátricas, ou
melhor, ele é subjetivo e baseia-se em informações dadas pelo paciente e em observações de
seu comportamento. Muitas vezes ele é completado por um exame objetivo. Nesse recurso
diagnóstico explora-se a presença de sinais e sintomas, eventualmente utilizando provas muito
simples, não padronizadas, para uma estimativa sumária de algumas funções, como a
consciência, inteligência, orientação, atenção e memória.
Classificação Nosológica: aqui, hipóteses iniciais são testadas, tomando-se como
referência critérios diagnósticos, ou seja, várias hipóteses surgem no decorrer da coleta de
dados resultantes do exame do estado mental, da história clínica e da história pessoal do
examinando, e essas hipóteses que surgem são testadas para que sejam comprovadas ou
rebaixadas.
Essa avaliação pode ser realizada pelo psiquiatra e, também, pelo psicólogo, onde
ambos fazem um julgamento clínico sobre a presença ou não de sintomas significativos, assim
verificando semelhanças desse paciente com outros pacientes na mesma categoria diagnóstica.
Quando está sob a responsabilidade do psicólogo, sempre que possível, além desses
recursos o mesmo deverá lançar mão de outros instrumentos psicológicos, como baterias de
testes e técnicas, para poder testar cientificamente as suas hipótese ou ainda levantar outras
hipóteses a serem analisadas, conforme história e contexto de vida do paciente.
Esse tipo de classificação é muito importante, pois facilita a comunicação entre
profissionais; no caso, haveria uma grande interação entre psiquiatra e psicólogo, além de
contribuir para o levantamento de dados epidemiológicos de uma população.
Diagnóstico Diferencial: investigação de irregularidades ou inconsistências do
quadro sintomáticodo examinando, para diferenciar alternativas diagnósticas, níveis de
funcionamento ou a natureza da patologia; ou seja, no decorrer da coleta de dados surgem
informações que não se encaixam, digamos sintomas totalmente destoantes ou inconsistentes,
assim o profissional deve estar muito bem capacitado para atentar a fatos como este e saber
identificar as variações nos quadros sintomáticos e níveis de funcionamento patológico.
24
Cunha (2003) diz que o diagnóstico diferencial está associado ao objetivo de
classificação nosológica, assim podemos observar que o psicólogo investiga irregularidades e
inconsistências do quadro sintomático e dos resultados dos testes para diferenciar categorias
nosológicas, níveis de funcionamento mental. Um exemplo seria a investigação de certos
sintomas que o sujeito tem que não batem com os achados dos testes. Assim, existem algumas
objeções ao se trabalhar com esse objetivo, ou seja, o psicólogo deve ter um bom conhecimento
teórico, dominar algumas técnicas, ter ampla experiência na área, ter sensibilidade clínica e
muitos conhecimentos avançados de psicopatologia e de técnicas sofisticadas de diagnóstico.
Avaliação Compreensiva: nesse tipo de avaliação a primeira coisa que se faz é
determinar o nível de funcionamento da personalidade, examinando assim funções do ego, em
especial a de insight, condições do sistema de defesas, facilitando assim a indicação de recursos
terapêuticos e prevendo possíveis respostas ao mesmo.
A avaliação compreensiva considera o caso numa perspectiva mais ampla e global,
determinando o nível de funcionamento da personalidade, examinando funções do ego; e quais
seriam essas funções do ego? Poderiam ser controle da percepção e da mobilidade; prova da
realidade; antecipação, ordenação temporal; pensamento lógico, coerente, racional; elaboração
das representações pela linguagem e outras.
Nesse tipo de objetivo podem não ser utilizados testes, e essa não utilização de testes
é um objetivo explícito ou implícito nos contatos iniciais do paciente com psiquiatras,
psicanalistas e psicólogos de diferentes linhas de orientação terapêutica. Caso o objetivo seja
atingido por meio de um Psicodiagnóstico, obtêm-se evidências mais objetivas e precisas, que
podem, inclusive, servir de parâmetro para avaliar resultados terapêuticos, mais tarde, por
intermédio de um reteste.
Entendimento Dinâmico: nesse tipo de objetivo se associaria as dimensões
investigadas na avaliação compreensiva a uma perspectiva teórica; haveria uma interpolação de
dados, buscando inferir possíveis dificuldades futuras e focos terapêuticos para além do material
levantado nas entrevistas, ou seja, dá para se perceber que esse tipo de avaliação ultrapassa os
objetivos da avaliação anterior. Aqui há um nível mais elevado de inferência clínica, havendo
uma investigação de dados com base teórica, ou seja, os dados seriam fundamentados. Esse
objetivo também permitiria se chegar a explicações de aspectos comportamentais nem sempre
acessíveis na entrevista, à antecipação de fontes de dificuldades na terapia e à definição de
focos terapêuticos.
25
Aqui é focada a personalidade de maneira global, pressupondo um nível mais elevado
de inferência clínica como dedução, conclusão, julgamento clínico, ou seja, podemos dizer que
ela é considerada uma avaliação compreensiva, onde se procura entender a problemática do
sujeito numa dimensão mais profunda, observando a história do desenvolvimento, identificando
conflitos, investigando fatores psicodinâmicos e compreendendo o caso baseando-se num
referencial teórico.
Cunha (2003) deixa bem claro que um exame deste tipo requer entrevistas muito bem
conduzidas, cujos dados nem sempre se dão pelos passos específicos de um Psicodiagnóstico,
portanto, não sendo um recurso privativo do psicólogo clínico.
Observa-se que frequentemente este tipo de objetivo se combina com os objetivos de
classificação nosológica e de diagnóstico diferencial, mas que fique claro que quando é um
objetivo do Psicodiagnóstico, leva não só a uma abordagem diferenciada das entrevistas e do
material de testagem, como a uma integração dos dados com base em pressupostos
psicodinâmicos.
Prevenção: voltada para a identificação de problema precocemente, buscando
detectar fraquezas e forças do ego, da personalidade do sujeito em questão, avaliando riscos e
tentando identificar capacidade para enfrentar situações novas, estressantes e difíceis, e como o
próprio nome do objetivo diz, é uma prevenção para que se tente evitar que problemas maiores
ocorram futuramente.
Como citamos acima, esse exame visa à identificação precoce de problemas, avalia
riscos, faz uma estimativa de forças e fraquezas da personalidade, avalia a capacidade para
enfrentar situações novas, difíceis, conflitivas ou ansiogênicas; depois de identificado tudo isso,
investe-se na prevenção. Podemos dizer que não pressupõe profundidade no levantamento de
indícios de patologia, é usada apenas para dar fundamentação ao desenvolvimento de
programas preventivos com grupos maiores. Nos exame individual pode requerer uma dimensão
mais profunda, especialmente envolvendo uma estimativa de condições do ego frente a certos
riscos ou no enfrentamento de situações difíceis, seria indicado um Psicodiagnóstico.
Prognóstico: aqui se tenta determinar o curso provável do caso clínico. Ao se
identificar determinado transtorno por meio de outros objetivos, trabalha-se aqui no prognóstico.
Objetivo que não é privativo do psicólogo e que pode dar uma contribuição importante
na medida em que, por meio do Psicodiagnóstico, pode avaliar condições influenciadoras do
transtorno. Esse tipo de objetivo depende fundamentalmente da classificação nosológica e o que
podemos dizer é que ainda necessita de muitas pesquisas.
26
Perícia Forense: voltado para identificar insanidades, incapacidades e patologias
que possam estar associadas a infrações da lei e afetem o exercício da cidadania. Esse tipo de
objetivo é muito pedido por advogados, juízes e profissionais que trabalham nessa área para
definir questões de ordem legais.
Esse exame procura resolver questões relacionadas com “insanidade”, competência
para o exercício de funções de cidadão, avaliação de incapacidade ou de comprometimentos
psicopatológicos que na sua origem possam se associar com infrações da lei, etc.
Segundo Groth-Marnat (1984), o psicólogo, por meio de uma série de interrogações,
deve alcançar respostas claras, precisas e objetivas para que possa instruir um determinado
processo. Quanto aos testes deve haver um grau satisfatório de certeza quanto aos dados
coletados por meio desse instrumento, o que é um pouco complexo, por que os dados
descrevem o que uma pessoa pode ou não fazer no contexto da testagem, mas o psicólogo deve
ainda inferir, ou seja, concluir, julgar, deduzir, o que ele acredita que o examinando poderia ou
não fazer na vida cotidiana.
Muitas vezes este processo se torna até certo ponto ansiogênico para o próprio
psicólogo, pois além da enorme responsabilidade que está nas mãos deste profissional de
decidir a vida do outro, este processo busca respostas que fornecem subsídios para instruir
decisões de caráter vital para o indivíduo, como por exemplo, decisões delicadas de atestado de
insanidade que podem tirar a guarda dos filhos de uma mãe.
Acontece bastante e comumente do psiquiatra ser nomeado como perito e solicitar o
exame psicológico para fundamentar o seu parecer, assim, não obstante, muitas vezes o
psicólogo é chamado para colaborar com a justiça, de forma independente.27
Resumindo podemos dizer que Ocampo (1981) afirma que a investigação psicológica
deve conseguir uma descrição e compreensão da personalidade do paciente, onde é importante
explicar a dinâmica do caso tal como aparece no material recolhido, integrando-o num quadro
global. E uma vez alcançado um panorama preciso e completo do caso, incluindo os aspectos
patológicos e os adaptativos, trataremos de formular recomendações terapêuticas adequadas.
Arzeno (1995) cita algumas finalidades em que pode ser utilizado o Psicodiagnóstico.
Diagnóstico;
Avaliação do tratamento;
Meio de comunicação;
Na investigação.
A principal finalidade de um estudo Psicodiagnóstico é a de estabelecer um
diagnóstico, ou seja, explicar o que ocorre realmente com aquele paciente, o que ocorre além
Ocampo (2001) juntamente com Ancona-Lopez (1984) citam os
objetivos de forma mais geral:
1) Compreensão da personalidade como um todo;
2) Organizar conhecimentos: vida biológica, intrapsíquica e social;
3) Entender o sintoma: (fenomenológico e dinâmico) e se a ruptura do
equilíbrio expressa algo a nível familiar;
4) Mostrar a importância do desenvolvimento (criança) e a interação dos
fatores orgânicos com os emocionais;
5) Importância dos aspectos intrapsíquicos;
6) Principal objetivo seria conhecer os aspectos passados e presentes
(diagnóstico) e futuros (prognóstico);
7) Explicar dinâmica, ou seja, buscar relações (família, grupo);
8) Aspectos adaptativos e patológicos/ ser dinâmico.
28
do que o paciente pode descrever conscientemente, enfim, descobrir o que tem aquele paciente
a nível mental.
Na primeira entrevista, são elaboradas hipóteses que podem ou não serem
confirmadas. (Obs.: a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para
um diagnóstico cientificamente fundamentado.)
Pode-se dizer que a entrevista clínica não é uma ferramenta infalível, nem os testes,
mas se utilizarmos ambos os instrumentos de forma complementar há uma margem de
segurança maior para chegar a um diagnóstico correto, especialmente se incluirmos testes
padronizados. Então, o que vai diminuir a margem de erro são a interpretação e interpolação
adequada dos dados obtidos por meio de entrevistas, testes e observação pelo profissional.
Para se avaliar o tratamento, pode ser feito o reteste, consistindo em aplicar
novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira ocasião. Isso pode ser feito para
verificar os avanços terapêuticos de forma mais objetiva e também para planejar uma alta, ou
seja, descobrir o motivo de um impasse no tratamento e para que o paciente e o terapeuta
possam falar sobre isso, estabelecendo um novo contrato sobre bases atualizadas.
Ainda existe o caso da disparidade de opiniões entre o paciente e o terapeuta, sendo
que este é o que está apenas realizando o tratamento terapêutico e talvez ele não tenha
realizado o Psicodiagnóstico. Nesse caso esclarece-se ao paciente e ao terapeuta que o
Psicodiagnóstico registrará as situações para depois comentá-las.
Essa decisão de se fazer ou não o Psicodiagnóstico vai depender muito das
instituições em que está sendo realizado. Nas particulares, o terapeuta é quem decide o
momento adequado para um novo Psicodiagnóstico, sendo públicas ou privadas, são elas que
fixam os critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam a critério dos
terapeutas, outras consideram tanto a necessidade de avaliar a eficiência de seus profissionais
quanto a de contar com um banco de dados úteis, por exemplo, para fins de pesquisa.
Uma coisa que podemos ter certeza é que ao longo de um processo que se estende
nas primeiras entrevistas aproximadamente, podemos observar como o paciente se relaciona
diante de cada proposta, podemos extrair conclusões de grande utilidade para prever como será
29
o vínculo terapêutico, caso continue e quais serão os momentos mais difíceis do tratamento, os
riscos de deserção e etc.
Se usarmos diferentes instrumentos diagnósticos, isso nos permite estudar o paciente
por meio de várias vias: falar livremente, por meio de lâminas, desenhos, imaginação, quebra
cabeças e etc. e por algum motivo o domínio da linguagem verbal não foi alcançado, por conta
da idade, doença, casos de surdos-mudos; podem-se usar nesse caso os testes gráficos e
lúdicos que facilitam a comunicação.
Na investigação se tem dois objetivos, o primeiro é a criação de novos instrumentos de
exploração da personalidade que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnóstica; ex.: Rorschach
VOCÊ SABIA !
O Psicodiagnóstico, segundo Arzeno (1995), é também
realizado como meio de comunicação, porque muitos
pacientes têm dificuldades para conversar
espontaneamente sobre seus problemas, com crianças
muito pequenas, existem pacientes que só dão respostas
lacônicas, e quando o profissional favorece a comunicação,
a tomada de insight, ele contribui para que aquele que
consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente
para aceitar cooperar na consulta, o que também provoca
a perda de certas inibições, possibilitando assim um
comportamento mais natural.
30
quando criou o teste das manchas. O outro objetivo é o de planejar a investigação para o estudo
de uma determinada patologia, algum problema trabalhista, educacional ou forense, etc.
Agora vamos ver outros usos do Psicodiagnóstico por psicólogos:
Casos de dúvidas diagnósticas;
Na obtenção de informação mais precisa. Ex.: suspeita de risco de suicídio,
dependência de drogas, desestruturação psicótica;
Quando não tem certeza sobre o tratamento mais aconselhável. Ex.: terapia
comportamental, psicanálise, terapia breve;
Outros prescindem totalmente do Psicodiagnóstico e não concedem valor científico
algum aos testes projetivos;
Outros dizem que não é importante fazer um diagnóstico inicial, que as informações
chegam ao longo do tratamento.
Quanto aos motivos de encaminhamento para se realizar um Psicodiagnóstico, muitas
são as situações, como:
Dificuldades em se chegar a um diagnóstico médico;
Todos os tratamentos medicamentosos falharam;
Quando nada explica um determinado comportamento que afeta negativamente o
indivíduo.
(Obs.: por razões éticas, ninguém poderá ser encaminhado por curiosidade em saber
seu nível de inteligência ou QI, por exemplo.)
Como já dissemos, um diagnóstico psicológico não significa necessariamente o mesmo
que fazer um Psicodiagnóstico, porque este termo implica automaticamente a administração de
testes e os testes nem sempre são necessários ou convenientes nesse caso.
Vejamos agora algumas questões importantes que tornam o Psicodiagnóstico
imprescindível:
31
É realizado para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido
com o qual foi iniciada a consulta;
Outra questão que o torna fundamental é porque iniciar um tratamento sem o
questionamento prévio do que realmente ocorre representa um risco muito alto, pois o paciente
acredita que de alguma forma vamos poder ajudá-lo e “curá-lo” e caso apareçam situações
inesperadas ou complicadas, teremos que interromper o tratamento e, além disso, decepcionar o
paciente, o qual terá muitas dúvidas antes de tornar a solicitar ajuda;
Outra questão imprescindível é quanto à proteção do psicólogo, que ao iniciar o
tratamento contrai automaticamente um compromisso em dois sentidos, o clínico e ético; onde
do ponto de vista clínico, deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso sem cair emposturas ingênuas nem onipotentes, e do ponto de vista ético, deve proteger-se de situações nas
quais está implicitamente comprometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é, ou
seja, a consequência do não cumprimento de um contrato terapêutico pode ser a cassação da
carteira profissional.
32
2 QUESTÕES IMPORTANTES NO PSICODIAGNÓSTICO
2.1 O PROBLEMA
Segundo Cunha (2003), o Psicodiagnóstico é desencadeado quase sempre em vista de um
encaminhamento, iniciando por uma consulta, a partir da qual outro profissional ou mesmo um
psicólogo encaminham o paciente a um psicólogo clínico que trabalhe com Psicodiagnóstico.
Esta avaliação que irá ser feita decorre da existência de um problema prévio, ou seja, um
problema que o psicólogo deve identificar e avaliar, para poder chegar a um diagnóstico.
Segundo Yager & Gitlin (1999), geralmente os sintomas estão presentes quando os
limites da variabilidade normal são ultrapassados. Na maioria das vezes evidencia-se a
dificuldade de identificar o início do problema que necessite de uma avaliação clínica. Os
mesmos autores frisam também que a natureza e a expressão dos sinais e sintomas
psiquiátricos são profundamente alteradas pelos recursos pessoais, capacidades de
enfrentamento e defesas psicológicas do paciente.
O psicólogo, ao exercer sua função, deve examinar as circunstâncias que precederam
a consulta, avaliar a maneira de perceber o problema e delimitá-lo, investigar quando os
sintomas começaram e se houve algum fator estressante que o desencadeasse, investigar os
estados emocionais associados à vida diária, atribuindo a sinais e sintomas sua significação
adequada.
Um problema é identificado quando são reconhecidas alterações ou mudanças nos
padrões de comportamento comum, que podem ser percebidas como sendo de
natureza quantitativa ou qualitativa. (CUNHA, 2003, p. 33).
33
As perguntas que irão ser abordadas são muito importantes para se definir e se chegar
a um diagnóstico correto, então a pergunta que devemos fazer a nós mesmos, para sabermos se
estamos agindo corretamente com o paciente é: “A pergunta que estou a ponto de fazer será útil
para entrevistado? Estou perguntando questões que realmente são significativas no processo?”;
pois se você é um profissional que apenas faz a pergunta, que faz perguntas demais que
confundem o entrevistado, e, em consequência, não ouve a resposta do cliente, você ensina ao
entrevistado que nossa função é fazer perguntas e a dele, responder, ou seja, estipulamos que
nós somos os chefes e somente nós sabemos o que é importante para ele. Este modelo
(pergunta/resposta) não cria a atmosfera em que se pode desenvolver um relacionamento
positivo cordial, em que o entrevistado tenha a oportunidade de crescer.
Outro fato importante que devemos atentar é quanto a perguntas abertas e fechadas.
Que fique claro que as perguntas abertas são amplas, convidando o entrevistado/cliente a
alargar seu campo perceptivo, falando de concepções, opiniões, pensamentos e sentimentos.
REFORÇANDO!
É preciso ficar bem claro que um sintoma único não tem
valor diagnóstico por si, assim, dado a relatividade dos
critérios usuais na definição de um problema, a abordagem
científica atual para a determinação diagnóstica defende o
uso de critérios operacionais; isso quer dizer que é
necessário que o paciente apresente certo número de
características sintomatológicas, durante certo período de
tempo, para ser possível chegar a uma decisão diagnóstica,
ou seja, para cada transtorno existe um critério diagnóstico
que define se um determinado sujeito pode ser enquadrado
ou não naquele diagnóstico. Uma fonte útil nesse momento
seria a utilização do CID-10 ou do DSM-IV.
34
Nesse tipo de pergunta surgirão muitos conteúdos e até mesmo questões chaves que estejam
angustiando o paciente. Já as questões fechadas exigem apenas fatos objetivos, muitas vezes
não deixando o sujeito se alargar nas suas respostas ou falar questões que o atormentam.
Existe também a pergunta retórica, que é mais que fechada, porque é um tipo de pergunta que já
inclui a resposta.
As perguntas diretas podem ser conceituadas como perguntas que são interrogações
precisas, enquanto que as perguntas indiretas perguntam sem parecer fazê-lo, aparecendo sem
o ponto de interrogação, mas ainda assim fica claro que aquilo é uma pergunta e deseja-se uma
resposta. Esta cria empatia, mostrando interesse pelo cliente.
Às vezes aparecem em entrevista perguntas duplas, que alguns autores dizem que são
perguntas sem utilidade nenhuma em entrevistas. Servem apenas para bombardear o
entrevistado e nada acrescentam, só dificultam a confiança. Essa questão é delicada, pois
muitos pacientes não se sentem bem com o bombardeio de perguntas, quebrando na hora a
atmosfera de confiança e o rapport que está tentando estabelecer.
E quando o entrevistado passa a me interrogar, quando ele tenta inverter os papéis, o
que devo fazer? É claro que não se deve dar uma resposta a todas as perguntas, mas deve-se
responder a todas que nos forem feitas que sejam a respeito do paciente e não ao nosso
respeito, e tratá-las da mesma maneira que tratamos tudo o que o entrevistado diz – escutando,
visando à compreensão, pois muitas não exigem resposta, mas sim atenção, outras vezes deve-
se responder diretamente quando for conveniente, não ficando muito tempo com a palavra e
retornando a ele o mais rapidamente possível. E, caso o entrevistado nos faça perguntas sobre
outras pessoas, não devemos ignorar, mas também não responder diretamente; uma estratégia
seria ignorar a perguntar e fazer outra que englobe o assunto a que ele se referir, afinal, não
estamos ali para sermos interrogados e sim para se chegar a um Psicodiagnóstico. E se a
pergunta for sobre ele mesmo, deve-se ter um cuidado maior, pois dependendo da nossa
resposta o entrevistado pode se fechar, defender-se e racionalizar, mas o que acontece muitas
vezes, é que quando eles se referem a si próprios é para ter mais informações sobre seu
comportamento, sintomas e tratamento.
35
FONTE: Disponível em: <
http://www.topgyn.com.br/home/thumbnail.php?file=12_08_automedicacao_457861735.jpg&size=article_medium >.
Acesso em: 10 ago. 2011.
2.2 SINAIS E SINTOMAS
Sintoma é qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu
próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não consistir-se em um
indício de doença. Eles são subjetivos, sujeitos à interpretação do próprio paciente, sua
variabilidade varia enormemente em função da cultura do paciente, assim como da valorização
que cada pessoa dá às suas próprias percepções. Aqui, no estudo de Psicodiagnóstico,
chamaremos “sintoma” àquilo que o cliente traz como motivo manifesto da consulta.
Já sinais na área de saúde podem ser conceituados como as alterações no
metabolismo, no aspecto de uma pessoa, em sua conformação física, que podem ser
indicadoras de adoecimento e podem ser percebidas ou medidas pelo profissional de saúde.
Essa terminologia é oriunda da medicina, mas pode ter sentido comparável na
psicologia. Sintomas são frequentemente confundidos com sinais, que são as alterações
percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde.
36Mas quando se trata de doença mental essa diferenciação se torna muito vaga, porque
segundo Yager & Gitlin (1999), envolve estados internos, uma psicopatologia subjetiva, algo
difícil de descrever; os sintomas estão presentes quando os limites da variabilidade normal são
ultrapassados. Já Shaw (1977) afirma que sintoma é um sinal, porque se torna significativo na
medida em que evidencia uma perturbação.
Autores da linha psicanalítica – Freud é um deles – afirmam que podemos perceber é
que: à medida que a primeira entrevista se desenvolve poderemos perceber se é realmente um
sintoma, do ponto de vista clínico, ou se está somente encobrindo outros, mas geralmente o que
ocorre é que o motivo latente não aflora no início porque, geralmente, angustia muito e
permanece inconsciente. E na verdade o que acontecerá é que quando o motivo manifesto
parecer trivial demais para justificar uma consulta é que suspeitaremos com maior segurança da
VOCÊ SABIA!
A diferença entre sintoma e sinal é que o sinal é
aquilo que pode ser percebido por outra pessoa
sem o relato ou comunicação do paciente, ou
seja, o que outras pessoas percebem só de
observar; e o sintoma é a queixa relatada pelo
paciente, mas que só ele consegue perceber, ou
seja, é algo subjetivo como falamos acima. Então,
sinais são comportamentos observáveis, segundo
Kaplan e Sadock (2007), achados objetivos, e
sintomas achados subjetivos.
37
presença de um motivo latente de maior envergadura e deveremos prolongar a entrevista inicial
ou realizar outra até obtermos maiores esclarecimentos sobre o caso. Sintoma pode ser
conceituado como aquilo que o paciente traz como motivo manifesto da solicitação de
Psicodiagnóstico.
Devemos levar em consideração alguns fatores importantes para se chegar a um
resultado correto no Psicodiagnóstico:
Quando estamos falando sobre sintomas, devemos levar em consideração a etapa
de desenvolvimento em que se encontra a pessoa que nos consulta.
Algo muito importante a ser questionado é por que o sintoma preocupa agora, em
casos em que existe sintomatologia bastante antiga. Quanto maior o tempo transcorrido entre o
aparecimento da sintomatologia até o momento em que se concretiza a consulta, maior a nossa
suspeita de que exista outro motivo latente, que foi o desencadeante para realizar a consulta.
Certamente, o problema foi ignorado até esse momento, mas algo ocorreu que os fez tomar a
decisão de consultar.
A razão pela qual esse sintoma preocupa o paciente ou aos pais desse, ou a
ambos.
A sintomatologia descrita por cada um dos interessados no processo de estudo
psicológico pode diferir enormemente, mas essa contradição é apenas aparente; teríamos assim
diferentes motivos de consulta manifestos dentro de um mesmo caso.
Devemos integrar as várias imagens de uma única personalidade que surgirão,
definir o que realmente ocorre com a criança, entre todas aquelas projeções feitas pelos outros
envolvidos, e decidir a ordem de relevância dos sintomas.
Segundo Arzeno (1995) e Ancona-Lopez (2002), o sintoma ou os sintomas trazidos
como motivos da consulta devem ser colocados dentro de um contexto evolutivo, de forma a não
serem superdimensionados, pois estes sintomas apresentam várias características como: um
aspecto fenomenológico; um benefício secundário, ou seja, eles podem estar funcionando como
interferência para a intimidade dos pais; o sintoma está expressando alguma coisa, algo não
dito, dentro do contexto familiar; todo sintoma implica fracasso ou rompimento do equilíbrio entre
as séries complementares; o sintoma está no lugar de uma palavra que falta, ele vem como
máscara ou palavra fantasiada.
38
2.3 MOTIVO DA CONSULTA
Na primeira entrevista o paciente deve expor o que acontece com ele, o que lhe levou a
procurar uma ajuda médica ou psicológica e esclarecer por que deseja consultar-se. O paciente
vai apresentar vários motivos, esses motivos apresentados serão chamados de motivo
manifesto, não sendo os mais autênticos, mas ao longo do processo podem ser descobertos
outros motivos subjacentes, geralmente inconscientes que podemos chamar de motivos latentes
sobre os quais se deverá falar da forma mais ampla possível e aconselhável.
Arzeno (1995) nos confirma isso quando diz que à medida que a primeira entrevista se
desenvolve poderemos perceber se é realmente um sintoma, aquilo que o consultante traz como
motivo manifesto da consulta, do ponto de vista clínico, ou se está somente encobrindo outros. O
que ocorre comumente é que o motivo latente não aflora no início por seu conteúdo ser,
geralmente, muito angustiante, permanecendo, assim, no inconsciente. O paciente pode ter
diferentes motivos de consulta manifestos dentro de um mesmo caso, o que da mesma forma,
quanto maior o tempo transcorrido entre o aparecimento da sintomatologia até o momento em
que se concretiza a consulta, maior a nossa suspeita de que exista outro motivo latente, que foi o
desencadeante para realizar a consulta. Certamente, o problema foi ignorado até esse momento,
mas algo ocorreu que o fez tomar a decisão de consultar.
Isso adverte o terapeuta sobre o tipo de conflito que pode encontrar ao longo da
terapia de um paciente, que pode solicitar o tratamento por um motivo e na verdade o que
percebemos com o decorrer do processo é que existe algo mais profundo a ser investigado.
Outro conceito, que segundo Arzeno (1995) deve ser levado em consideração, do
ponto de vista teórico, é que na consulta o interessado deve expor a sua preocupação, o motivo
que o leva a consultar, o que ele considera o sintoma preocupante; está implícita uma fantasia
de doença e de cura que guarda uma estreita relação com o motivo latente da consulta.
2.4 SINTETIZANDO
39
Motivo da Consulta:
Alguém solicita ou encaminha;
Presença de doença física;
Familiares angustiados.
Nesta situação é importante que o psicólogo coloque-se:
Como referência, delimitando claramente sua função (enquadramento), ao mesmo
tempo em que observa a relação familiar;
O terapeuta do cliente não deve agir de forma abrupta, ou seja, que não obrigue o
paciente a fazer insight fora do timing.
DEVERÃO SER OBSERVADOS:
Estado emocional geral do paciente:
Estrutura emocional básica;
Autoconceito;
Relação familiar;
Nível de ansiedade;
Grau de informação sobre a doença;
Grau de informação sobre o tratamento.
Observar a existência de conflitos:
Com internação anterior;
Com tratamento anterior;
Com cirurgia anterior;
Com separação de pessoas queridas;
Com perdas.
Temperamento emocional básico presente:
Introvertido ou extrovertido (acentuado ou compensado);
Avaliação Psicológica no hospital.
40
Características especiais do desenvolvimento psicológico:
Observar adequação do ponto de vista intelectual, social e emocional.
Estado Emocional geral da família:
Estrutura;
Nível de Ansiedade;
Nível de Informação sobre a doença e tratamento;
Conflitos observados.
Obs.: Na realidade, o que possibilita uma boa observação são os sólidos conceitos na
área de personalidade, infância, adolescência, linha teórica, psicopatologia, além do próprio
psicólogo que é seu próprio e melhor instrumento.
É importante observar:
Relações familiares em que nunca existe uma comunicação de mão dupla;
Em que o desejo não se manifesta, ou que há poucas palavras poucas trocas vivas.
Ex.: O desejo que só se responde nos momentos das necessidadesvitais no quais os familiares
preocupam-se com as questões técnicas;
Familiares deprimidos, superprotetores e/ou ansiosos;
Familiares que largam todos os seus afazeres.
Na avaliação do paciente:
Fazer uma avaliação compreensiva da personalidade, nível de funcionamento,
funções do ego.
Capacidade de insight, condições do sistema de defesa, facilitando assim, a
indicação de recursos terapêuticos e prevendo a possível resposta aos mesmos;
Outro ponto relevante para quem trabalha com Psicodiagnóstico é a importância da
familiaridade com os sistemas de classificação nosológica, já que a nomenclatura oficial dos
transtornos é extremamente útil para comunicação entre profissionais, além do fato de que
outros documentos como atestados, além de laudos –, podem exigir o código do transtorno de
41
um paciente. Por isso é importante conferir cuidadosamente todos os critérios a partir das
hipóteses diagnósticas, examinar o que diferencia o caso de outros transtornos e ter em mente
os critérios usados para a exclusão de outros diagnósticos.
2.5 AVALIAÇÃO DA PSICOPATOLOGIA
No que diz respeito à Psicopatologia, o Psicodiagnóstico consiste, sobretudo, na
identificação de forças e fraquezas do funcionamento psicológico e se distingue de outros tipos
de avaliação psicológica de diferenças individuais por seu foco na existência ou não de
psicopatologia.
Então, de acordo com Cunha (2003), Arzeno (1995) e Ocampo (2001), analisando
todas suas definições sobre o processo de Psicodiagnóstico e sua relação com a psicopatologia,
podemos dizer que embora o Psicodiagnóstico tenha um domínio próprio, o seu foco na
existência ou não da psicopatologia torna essencial a manutenção de canais de comunicação
com outras áreas, precisando o psicólogo estar atento para questões que são fundamentais na
determinação de um diagnóstico.
42
3 PASSOS DO PROCESSO DIAGNÓSTICO/OPERACIONALIZAÇÃO DO PROCESSO
Sabemos que um dos pontos-chaves no Psicodiagnóstico é saber claramente qual é o
objetivo desse processo que vamos realizar, de forma que antes de iniciar a tarefa, o
profissional, no caso o psicólogo, deve esclarecer com o cliente qual é o motivo manifesto e mais
consciente do estudo e intuir qual seria o motivo latente e inconsciente do mesmo, dedicando o
tempo que for necessário. Pode-se dizer que o motivo manifesto diz respeito à queixa principal
do paciente, e o latente é algo que está oculto por detrás dessa queixa.
Primeiramente, vamos fazer algumas comparações entre os principais autores que
discutem as teorias do Psicodiagnóstico, Ocampo e Cunha, depois detalharemos tópico por
tópico.
Ocampo (1981) cita os seguintes passos:
Primeiro contato e entrevista inicial com o paciente;
Aplicação ou uso de testes e técnicas ordenadas e selecionadas de acordo com o
caso;
Encerramento do processo com a entrevista de devolução oral ao paciente e aos
pais;
Informe escrito para o requerente.
Cunha (2003) diz que os passos de um Psicodiagnóstico são os seguintes:
Formulação de perguntas;
Contrato de trabalho;
Estabelecimento de um Plano de Avaliação;
Bateria de Testes;
Administração de Testes e Técnicas;
Levantamento, Análise, Interpretação e Integração de Dados;
Diagnóstico e Prognóstico;
Comunicação dos Resultados.
43
3.1 FORMULAÇÃO DE PERGUNTAS
De acordo com Cunha (2003) podemos conceituar esse passo como um processo
científico que parte de perguntas específicas, cujas respostas prováveis se estruturam na forma
de hipóteses que serão confirmadas ou não por meio dos passos seguintes do processo. Mas
que fique claro que o primeiro passo ocorre desde o momento em que o cliente ou seus
responsáveis fazem a solicitação da consulta até o encontro pessoal com o profissional.
Deve-se ter um cuidado maior com essa etapa do processo para que não se formule
perguntas que não vão acrescentar valor a anamnese, pois muitas vezes o profissional, por
algum motivo de informação, na sua formação ou mesmo inexperiência, bombardeia o paciente
com perguntas que não vão acrescentar nada ao processo. Sabemos que a anamnese, como
toda ferramenta de investigação, pode ser mais ou menos precisa na obtenção das informações
CONCLUINDO!
Percebemos que o processo descrito por
Ocampo está englobado dentro do
processo descrito por Jurema Cunha,
então, optaremos por detalhar o
processo de Psicodiagnóstico de acordo
com a ordem exposta em Cunha (2003).
44
desejadas, assim devemos estar atentos a induções nas respostas, na formulação de perguntas
amplas e na satisfação com respostas vagas.
O ponto de partida para iniciar esse processo seria o encaminhamento, e se o paciente
foi encaminhado a um profissional que trabalha na área de psicologia é porque há uma
pressuposição que este apresenta problemas psicológicos, a pessoa que encaminhou deve ter
hipotetizado algo, feito alguma pergunta, a qual só um profissional habilitado a realizar uma
investigação psicodiagnóstica poderia responder ou solucionar.
Geralmente, existe uma preocupação que expressa uma pergunta, seja de um leigo,
seja da família, seja do profissional que
o encaminhou. Então, é nesse
momento que se inicia a investigação,
pois o psicólogo precisa de mais dados
para continuar a investigação ou
desdobrar a pergunta que ainda está
vaga. Um exemplo seria: meu filho está
apresentando determinado
comportamento, será que ele tem
algum transtorno mental?
Inicia-se a investigação com
a história do paciente, pois com a
história de vida, o psicólogo consegue
alternativas de explicação que
chamaremos de hipóteses, que serão
testadas no decorrer do
psicodiagnóstico. Assim, no decorrer da coleta dos dados de vida vão surgindo algumas
hipóteses novas que podem ser confirmadas ou descartadas.
Nesta etapa o esclarecimento e a organização das questões pressupostas num
encaminhamento são de inteira responsabilidade do psicólogo; ele deve trabalhar para que tudo
saia como planejado.
Se for um profissional que encaminha, provavelmente ele encaminhou porque tem em
mente uma série de questões específicas, fundamentadas em observações ou informações
prévias. Na maioria das vezes as questões vão explícitas no encaminhamento, outras vezes elas
são expostas por meio de um telefonema ou outro contato. Esse contato entre o profissional que
45
encaminhou e o psicólogo clínico que realizará a investigação é muito importante para o
desenrolar do caso.
Percebe-se então que as questões quando reformuladas pelo psicólogo irão dar
embasamento adequado a um exame, permitindo assim que o laudo sirva de fundamento para
decisões que devam ser tomadas.
Como já citamos antes, é muito importante perceber que os objetivos do
Psicodiagnóstico dependem das perguntas iniciais. Ocampo (2001) diz que as entrevistas iniciais
com o paciente poderão levantar perguntas complementares, que definem novos objetivos para
o exame e algumas vezes o elenco de perguntas necessárias só fica inteiramente completo após
o levantamento de toda história de vida do paciente.
Conclui-se que no momento em que é possível levantar as questões básicas e
estabelecer os objetivos, ou seja, se já se conseguiu levantar as questões ou hipóteses
pertinentes, que geralmente ocorrem no final da primeira ou segunda entrevista, já há condições
para o estabelecimento de um plano de avaliação com bases nessas hipóteses e
consequentementehá condições para realizar um contrato de trabalho, que é a próxima etapa a
ser detalhada.
3.2 CONTRATO DE TRABALHO
Como já sabemos o Psicodiagnóstico é um processo limitado no tempo, ou seja, ele
tem um prazo para ser realizado e concluído, e depois que se é esclarecido as primeiras
questões que relatamos no item anterior, o psicólogo tem condições para saber qual o tipo de
exame que é adequado para chegar a conclusões, e se ele já tem ideia de quais técnicas irá
aplicar; então, ele pode prever o tempo necessário para realizá-lo. A duração do
Psicodiagnóstico constitui uma estimativa de tempo, em que se podem operacionalizar as tarefas
implícitas pelo plano de avaliação, bem como completar as tarefas subsequentes até a
comunicação dos resultados.
46
Em outras palavras, e de acordo com Cunha (2003) e Ocampo (2001), aqui se tenta
esclarecer o motivo latente e o motivo manifesto da consulta, as ansiedades e defesas que a
pessoa que consulta mostra sobre a fantasia de doença, cura e análise que cada um traz e a
construção da história do indivíduo e da família em questão.
Na hora que o psicólogo tiver uma previsão, deve formalizar os termos com o paciente
como papéis, direitos e responsabilidades.
O estabelecimento do contrato de trabalho depende de variáveis como:
Precisão das questões iniciais;
Objetivos (quais objetivos irá utilizar);
Experiência do psicólogo;
Sintomatologia do paciente;
Estilo de trabalho.
O contrato de trabalho envolve que o psicólogo compromete-se a realizar um exame:
Durante certo número de sessões;
Cada sessão com duração prevista;
Sessões em horário predeterminado;
Definição dos informes necessários;
E quem terá acesso aos informes.
Muitos autores dizem que quando são necessários vários tipos de informes ou laudos
mais elaborados, o tempo estimado para sua confecção deve ser computado na duração do
processo, mas se forem pareceres muito simples, deve-se prever um período de duas horas
para a preparação dos informes.
Assim, com base na estimativa do tempo, são estabelecidos:
Honorários;
Datas;
Formas de pagamento;
Entrevista de devolução.
E se perguntássemos quais os deveres do paciente nesse processo? Afinal, ele tem
deveres?
47
A resposta seria sim, ele tem deveres e se ele não os cumprir vai dificultar muito o
andamento do processo. Seus deveres seriam:
Comprometer-se a comparecer nas horas determinadas;
Comprometer-se a comparecer nos dias previstos;
Colaborar para que o plano de avaliação seja realizado sem problemas e
interferências;
Estar à disposição para esclarecer qualquer dúvida do profissional que dirige o
processo.
Só assim, depois de se ter em mente todas estas questões, deve ser firmado o
contrato de trabalho. Esse contrato de trabalho deve ser feito adequando-o ao paciente e deve
ter flexibilidade, devendo ser revisto sempre que o processo tiver modificações. Modificações
estas que podem surgir por alguns motivos como:
Surgimento de novas hipóteses;
Obstáculos do próprio paciente;
Necessidade de uso de novos instrumentos.
Cunha (2003) diz que caso o psicólogo já tenha feito o contrato de trabalho e perceba
que necessite da administração de mais um instrumento para elucidar algumas dúvidas, ele deve
chamar o paciente e comunicar que usará mais um instrumento, sem qualquer ônus para ele.
3.3 ESTABELECIMENTO DE UM PLANO DE AVALIAÇÃO
Esse passo do Psicodiagnóstico pode ser conceituado de várias formas, umas delas e bem
simples é a parte em que será feito um planejamento do que vai haver em todo o processo. Será
passado ao paciente como o processo acontecerá, o que será feito e como será feito, ou seja,
quais instrumentos serão utilizados. Pode ser também conceituado como o processo que
procura identificar recursos que permitam estabelecer uma relação entre as perguntas iniciais e
48
suas possíveis respostas, ou seja, traduzir as perguntas em termos de técnicas e testes,
programar a administração de uma série de instrumentos adequados ao sujeito específico e
especialmente selecionados para fornecer subsídios que se possa chegar às respostas para as
perguntas iniciais; ou seja, o profissional faria uma reflexão sobre o material colhido
anteriormente e sobre todas as hipóteses iniciais para planejar os passos a serem seguidos e os
instrumentos diagnósticos a serem utilizados e administrados posteriormente durante o
processo.
Cunha (2003) diz que esse plano de avaliação frequentemente só é estabelecido após
a entrevista com o sujeito e/ou responsável, quando então se dá o início ao processo de
testagem. Mas chama a atenção para algumas questões, como:
Às vezes, é necessário observações do comportamento em situações da vida
diária;
Observação de resultados de exames médicos;
Análise de outros materiais que não contribuíram para a anamnese como
fotografias, gravações, diários, pinturas, desenhos, cadernos escolares e etc.
Aqui se deve estar atento a cada técnica que vai ser utilizada, suas especificidades
como o tempo que determinada técnica consome, para que seja estabelecido um adequado
plano de ação. Mas no caso de se ter uma diferença apreciável no tempo de duração previsto no
contrato de trabalho, deve-se reexaminar com o paciente e/ou responsável, nunca se
esquecendo de dar uma margem de tolerância, caso não se tenha ainda a estimativa segura do
ritmo de desempenho do sujeito.
49
3.4 BATERIA DE TESTES
Os testes psicológicos têm sido utilizados com as mais diferentes finalidades. Hoje, se
observa um crescimento na utilização de testes na área clínica como um recurso auxiliar no
autoconhecimento e como auxilio também na anamnese, nas observações, e como um
parâmetro para avaliar os resultados obtidos ao longo do tratamento.
Bateria de testes é conceituada por muitos autores como a reunião de inúmeros testes,
formando a bateria ou como Cunha conceitua “um conjunto de testes ou de técnicas, que podem
variar entre dois a cinco ou mais instrumentos, que são incluídos no processo Psicodiagnóstico
para fornecer subsídios que permitam confirmar ou infirmar as hipóteses iniciais, atendendo o
objetivo da avaliação”.
No planejamento da bateria temos que pensar que o processo psicodiagnóstico deve
ser suficientemente amplo para compreender bem o paciente, mas ao mesmo tempo,
RESUMINDO!
O profissional irá comunicar ao
cliente a duração do processo e o que
será realizado durante esse tempo,
quais os instrumentos e técnicas
terão que ser utilizados para
confirmar ou descartar as hipóteses
que existem sobre o cliente.
50
não se deve exceder porque isto implica uma alteração no vínculo
psicólogo/paciente. (OCAMPO, 1981).
Razões porque a bateria de testes é usada ao invés de somente um teste ou uma
técnica, segundo Exner (1999):
Considera-se que nenhum teste, isoladamente, pode proporcionar uma avaliação
abrangente da pessoa como um todo;
O emprego de uma série de testes envolve a tentativa de uma validação intertestes
dos dados obtidos, a partir de cada instrumento em particular, diminuindo, dessa maneira, a
margem de erro e fornecendo melhor fundamento para se chegar a inferências clínicas.
É necessário incluir, entre os testes gráficos, diferentes conteúdos em relação ao tema
solicitado,começando pelos de temas mais ambíguos até chegar aos mais específicos. E no
planejamento de bateria de testes, é necessário pensar em testes que captem o maior número
possível de condutas verbais, gráficas e lúdicas, de maneira a possibilitar a comparação de um
mesmo tipo de conduta, provocada por diferentes estímulos ou instrumentos, e diferentes tipos
de conduta entre si. Isso é comprovado quando Ocampo (1981) diz que numa bateria, devem ser
incluídos, entre os testes projetivos, aqueles que promovam condutas diferentes, por exemplo, a
bateria projetiva deve incluir testes gráficos, verbais e lúdicos, ou seja, a bateria de testes
utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter ao máximo a projeção de si mesmo.
“O teste psicológico pode ser definido como uma situação
padronizada que serve de estímulo a um comportamento por
parte do examinando; esse comportamento é avaliado, por
comparação estatística com o de outros indivíduos submetidos
à mesma situação, permitindo assim sua classificação
quantitativa e qualitativa”. (SCHEEFFER, 1968).
51
Arzeno (1995) fala que na seleção da bateria de testes, devem-se introduzir outros
fatores a serem considerados nessa dada escolha:
Quem formula a solicitação;
Levar-se em conta a idade cronológica do consultante e o nível sociocultural;
O momento em que está sendo pedida essa avaliação (ela menciona que em
momentos de crises vitais deve-se esperar para realizar o Psicodiagnóstico e encarar a situação
como um tratamento de crise, até recorrendo a estratégias medicamentosas);
O contexto espaçotemporal no qual se realiza, onde ela vai enfatizar a situação das
instituições onde o psicólogo dispõe de pouco tempo e material para a realização dessas
práticas.
Quanto às baterias de testes, Cunha (2003) diz que existem dois tipos:
Baterias padronizadas para avaliações específicas;
Baterias de testes não padronizadas, que são organizadas a partir de um plano de
avaliação.
De acordo com Anastasi (2000), os testes psicológicos podem ser definidos como
medidas objetivas e padronizadas de uma amostra de comportamento que tem como objetivo
predizer ou diagnosticar a resposta comportamental do indivíduo em diferentes situações a partir
dos resultados obtidos na avaliação.
Podemos conceituar como padronizados testes que têm uniformidade de procedimento
tanto na aplicação quanto na pontuação do teste, ou seja, as condições de testagem têm que ser
as mesmas para todas as pessoas. Então, as baterias de testes padronizadas ou específicas
não resultam de uma seleção de instrumentos de acordo com as questões levantadas num caso
individual, a não ser quando se trata de bateria padronizada especializada. A organização dessa
bateria é feita com base em pesquisas, ou seja, ela é padronizada, com objetivos explícitos e
deve ser administrado na sua íntegra, o que não impede o psicólogo de administrar outros
testes, como acrescentar testes de personalidade a essa bateria.
A bateria não padronizada é a mais tradicional. No plano de avaliação são
determinadas as especificidades e o número de testes que são programados sequencialmente,
conforme:
Sua natureza;
Tipo;
Propriedades psicométricas;
52
Tempo de administração;
Grau de dificuldade;
Qualidade ansiogênica;
E características do paciente individual.
Embora a bateria não padronizada deva atender, então, a vários requisitos, ela é
organizada de acordo com critérios mais flexíveis do que a bateria padronizada, um exemplo são
os números de testes que eventualmente podem ser modificados para mais ou para menos.
Frequentemente a bateria de testes inclui testes psicométricos e técnicas projetivas,
devido à variedade de questões propostas inicialmente e adequadas aos objetivos do
Psicodiagnóstico. O que se faz nesse caso é considerar cuidadosamente a sequência e
distribuição relativa da bateria de testes, levando em conta:
O tempo necessário para a administração;
O grau de dificuldades das mesmas;
Sua qualidade ansiogênica;
E as características específicas do paciente.
É muito importante discriminar a sequência em que serão aplicados os testes
escolhidos, sendo estabelecida em função de dois fatores: a natureza do teste e a do caso em
questão.
Segundo Ocampo (1981) é importante observar a questão da mobilização ou não da
ansiedade na distribuição sequencial das técnicas, recomendando prioridade para instrumentos
não ansiogênicos; um exemplo é que se um paciente está iniciando uma testagem e apresenta
certo grau de ansiedade, sugere-se que as técnicas gráficas sejam usadas nesse momento, pois
vão concorrer para baixar o nível de ansiedade.
Outra questão importante é quanto à distribuição de técnicas, que devem ser
distribuídas adequadamente para que corroborem com os objetivos vigentes. Se estiverem
previstas técnicas projetivas e psicométricas, é conveniente alterná-las, iniciando e completando
a bateria com material pouco ou não ansiogênico.
Os testes para serem aplicados de forma adequada devem seguir certas regras, uma
delas é a administração do tempo, que também é muito importante. Devem-se programar as
sessões de testagem, o tempo de administração de cada instrumento e a possibilidade ou não
53
de o mesmo ser interrompido para ser concluído outro dia. (Obs.: As técnicas projetivas, de um
modo geral, não devem ser interrompidas com exceção do TAT e do Rorschach (apenas o
inquérito pode ser outro dia)).
Veremos logo abaixo sugestões de técnicas que poderão ser utilizadas segundo
alguns autores:
Entrevistas de vários tipos;
Técnicas de associação;
Técnicas de complemento;
Técnica expressivo-gráfica;
Técnicas expressivo-lúdicas;
Técnicas de ordenação;
Técnicas de construção;
Testes de inteligência;
Inventários de personalidade;
Inventário de traços ou estados afetivos;
Inventários de sintomas específicos;
Técnicas expressivo-gráficas psicométricas;
Escala de maturidade viso-motora e muitas outras.
3.5 ADMINISTRAÇÃO DE TESTES E TÉCNICAS
Nesse tópico falaremos das particularidades da situação da interação com o examinando e do
manejo clínico. De início, é básico que o psicólogo saiba que o foco da testagem deve ser o
sujeito e não os testes, e para que este profissional possa concentrar sua atenção no paciente,
deve estar perfeitamente seguro quanto à escolha adequada dos instrumentos para o paciente
que vai ser examinado; deve também estar familiarizado com instruções, sistema de escores,
sabendo manejar o material pertinente e sempre ter em mente os objetivos a que se propõem
para cada instrumento.
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Que fique claro que não há um modelo rígido de Psicodiagnóstico, ou melhor, não há
uma receita pronta que possa ser usada em todos os casos, assim a melhor orientação para
cada caso virá da experiência clínica e nível de análise pessoal do psicólogo. Cada caso é um
caso, sendo assim, deve-se analisar a melhor forma de administrar os testes de acordo com
aquele sujeito. Cunha (2003) propõe algumas questões básicas relacionadas à administração de
testes:
Primeiro, que fique claro, que de acordo com Art. 1º, da RESOLUÇÃO CFP N.º
002/2003: os Testes Psicológicos são instrumentos de avaliação ou mensuração de
características psicológicas, constituindo-se um método ou uma técnica de uso privativo
do psicólogo, em decorrência do que dispõe o § 1o do Art. 13 da Lei no 4.119/62;
É importante revisar particularidades referentes aos instrumentos e as
características do paciente, mesmo que o profissionaltenha estabelecido seu plano de avaliação
e previamente a administração: deve-se conferir se o teste selecionado é a opção mais
apropriada, observar certas características do paciente.
Estar suficientemente familiarizado com o instrumento: jamais utilizar uma técnica
que ele não esteja treinado o suficiente para aplicar, ou seja, não basta conhecer, tem que
entender mesmo o que vai manejar e saber como interpretar e se chegar aos resultados, ou
seja, ter certeza que tem pleno domínio sob a aplicação do teste e sobre o processo.
Organizar todo o material que pretende utilizar antes da chegado do cliente: com
essa organização facilita-se o manejo do material e evitam-se imprevistos, que possam
atrapalhar e atrasar o processo.
É importante ter em mente os objetivos para a inclusão de cada técnica da bateria:
nesse caso, se ele tem esses objetivos bem presentes, vai estar atento a vários indícios que
possam surgir, onde poderá introduzir questionamentos pertinentes no momento certo.
Uma questão importante é o rapport, pois com um bom relacionamento se
administrará de forma genuína os testes.
O psicólogo deve esclarecer as dúvidas do paciente, não só durante o rapport, mas
antes da introdução de qualquer instrumento.
O psicólogo deve ser honesto com o paciente e nunca prometer o que não pode
cumprir, assim como a confidencialidade da avaliação.
Os testes devem ser realizados em ambiente adequado, ou seja, com boa
ventilação, boa iluminação, deve haver condições de privacidade e silêncio. Quanto ao
55
examinando, este deve estar em uma posição adequada, confortável em relação à mesa,
especialmente em técnicas que exijam maior precisão.
Que não esqueçamos que as instruções na aplicação dos testes devem ser
seguidas cuidadosamente, para garantir a fidedignidade de seus resultados.
Não apenas especificamente as respostas dos testes, mas também todas as
reações verbais ou não, ou seja, todos os indícios comportamentais devem ser cuidadosamente
observados e anotados durante a administração de testes e técnicas.
3.6 LEVANTAMENTO, ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DE DADOS
Chegamos ao levantamento, análise, interpretação e integração dos dados e como o
próprio título já diz é hora de pegar todos os dados colhidos e analisá-los, interpretá-los e tentar
articulá-los para que se chegue ao diagnóstico final; ou seja, nessa etapa acontece o estudo do
material para obter um quadro, o mais claro possível sobre o caso em questão. Aqui, o psicólogo
já possui muitas informações do paciente, independente das informações do testes, então, ele é
capaz de descrever uma série de comportamentos do examinando.
Assim, todo material dos testes é agora conjugado com as entrevistas – já tivemos
numa primeira entrevista o motivo da queixa; em outras entrevistas houve aprofundamento dos
dados e foram levantadas hipóteses; aplicou-se os testes de acordo com o exposto pelo
paciente, e agora de posse de todo esse material deve-se utilizar o material reunido, relatar os
dados coletados nas entrevistas, as nossas impressões, de forma organizada, para serem
trabalhados depois.
Nas inúmeras definições vigentes, muitas expressam a importância dos resultados:
“Psicodiagnóstico é um processo científico, que utiliza técnicas e testes psicológicos (input) e,
por meio de uma série de passos, termina com a comunicação de resultados (output) após a
integração e seleção de dados” (CUNHA, 2003).
Cunha (2003) e Ancona-Lopez (2002) afirmam que é bastante conveniente fazer um
exame da história clínica, pois estas poderão contribuir para atribuição de significados e
56
interpretação de dados coletados também por meio dos testes. Então, se percebe a importância
dessa interseção dos dados da história clínica com os dados fornecidos pelos testes, fazendo
com que haja uma melhor interpretação dos dados. Mas esse processo não é tão fácil assim,
muitas vezes gera resistências, mesmo em profissionais de boa formação e que trabalham com
seriedade, então é muito importante encontrar o significado de pontos obscuros, correlacionar os
diferentes instrumentos utilizados entre si e com a história do indivíduo e de sua família, como já
mencionamos.
Em seguida, devem-se recapitular os questionamentos levantados inicialmente, ou
melhor, as hipóteses, sempre tendo em mente os objetivos, que foram estabelecidos de acordo
com as hipóteses ou perguntas iniciais. De acordo com muitos autores, as perguntas iniciais
servirão de critérios para análise, seleção e escolha dos dados úteis; elas indicarão que
respostas devem ser buscadas e assim confirmando ou não as hipóteses e os objetivos que
nortearão a organização das informações obtidas.
Nessa etapa do Psicodiagnóstico, segundo Cunha (2003), o psicólogo deve procurar
compreender algumas incongruências ou contradições e aceitá-las como tais, ou seja, renunciar
à onipotência de poder entender tudo, porque muitas vezes surgem dados que não se encaixam
com as hipóteses levantadas e assim não deve-se desprezar essas questões, pelo contrário,
deverão ser colocadas no laudo que enviarmos a quem solicitou o estudo, para deixá-lo de
sobreaviso; mas quanto ao paciente, o melhor que poderia ser feito é poupá-lo de entrar em
contato com essas questões nesse momento, sendo imprudente incluí-los na devolução ao
paciente, pois elas poderão trazer angústias e provocar uma crise, um ataque ao psicólogo ou
até mesmo desistência do tratamento.
Quanto aos testes, podemos falar em termos de quantitativos e qualitativos: quando se
trata de quantitativos, devem-se atribuir escores para as suas respostas, porque cada teste
quantitativo tem sua padronização e regras que devem ser obedecidas. Já os testes qualitativos
perdem em objetividade quanto aos quantitativos, mas seus resultados podem ser corroborados
com outros dados coletados para que se tenha uma melhor compreensão dinâmica do paciente.
Quanto ao estudo do material coletado, como entrevista inicial, testes, entrevistas
vinculares, familiares, e outros, o psicólogo precisa dedicar-se a classificar e interpretar suas
respostas para poder usar as suas conclusões e integrá-las ao resto do material, pois todos
esses materiais reunidos com informações do paciente são muito ricos em informações, e sendo
57
usados e articulados de forma adequada vão trazer respostas às perguntas-problemas e às
hipóteses feitas no início do processo.
Arzeno (1995) diz que nas entrevistas realizadas devem ser feitas leituras de maneira
a extrair certos padrões de conduta do sujeito e de sua família, certas condutas chamativas,
comentários, significativos, etc., pois isso poderá ajudar bastante a encaixar os dados.
Uma das funções do psicólogo é observar, durante as diferentes entrevistas, o
momento em que aparece o sintoma; se ele chega a ser observável ou não; quais as
circunstâncias em que isso ocorre e como reagem depois o sujeito e os outros membros
presentes; assim, a sintomatologia descrita poderá ser registrada ou confirmada pelos pais ou,
pelo contrário, outra completamente diferente que passava despercebida para todos poderá ser
identificada.
O psicólogo, como profissional responsável pelo direcionamento do processo, deve
buscar ou conseguir uma boa integração de tudo o que foi registrado; e como sabemos que não
se trata de uma ciência exata não podemos aplicar critérios fixos, e sim fazermos um estudo das
recorrências e convergências que vão aparecendo e assim esclarecendo cada caso, ou seja, o
psicólogo é responsável tanto pela direçãodo processo como por uma das partes altas do
processo, a articulação dos dados obtidos.
REFORÇANDO!
Todas essas etapas são de suma
importância para que não se corra o
risco de um erro diagnóstico. Erros
estes que podem acontecer por se
ter desprezado dados não julgados
importantes e na verdade eram a
chave da investigação.
58
Percebemos que elaborar um diagnóstico consiste em conseguir descrever uma
personalidade que pode ser conceituada como tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros
indivíduos, ou seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua
individualidade pessoal e social.
Mas que fique claro que não significa colocar um rótulo ou enquadrar o sujeito de
acordo com a personalidade que ele tem. Isso não é possível porque em muitos casos a
patologia é mista e complexa, constituindo um verdadeiro desafio para o profissional, que, se
não souber reconhecer os seus limites e aqueles que toda ciência possui poderá cair em
afirmações equivocadas. Em outros casos, o pedido de Psicodiagnóstico é feito para um
diagnóstico diferencial, então o profissional deve tentar ser claro e preciso.
Veja agora algumas dicas de como proceder para chegar a conclusões claras, simples
e convincentes para o paciente, à sua família e para o destinatário do informe que será
elaborado a posteriori.
Faça uma listagem de tudo o que o paciente traz como motivo de consulta, assim
como o que preocupa seu pai, a sua mãe e irmãos, até mesmo professores ou outras pessoas.
Assim não se corre o risco de omissão, desprezo ou perda de dados importantes.
Após haver estudado todo o material deve-se voltar novamente ali para tentar
encontrar uma explicação, ou seja, ler e reler os materiais inúmeras vezes é importante para
conseguir entender o caso.
Usam-se inúmeros instrumentos diagnósticos para se chegar a um fim: depois de
analisadas todas as entrevistas, esboçam-se as hipóteses preliminares, então se tenta estudar o
material para encontrar um grau de certeza para essas hipóteses.
A escolha dos testes adequados ao caso daquele paciente é fundamental para
coletar informações importantes, então se deve escolher uma bateria de testes que nos
proporcione informações sobre um quadro completo; por exemplo, os testes gráficos que
mostram o que é mais profundo e patológico estão padronizados, o que nos permite comparar a
produção do paciente com a maioria das estatísticas e extrair conclusões que nos resguardam
de cair numa subjetividade que mistura a produção do sujeito com nossos próprios conteúdos.
Mas que fique claro que, de acordo com Cunha (2003), o Psicodiagnóstico não
pode passar apenas pelo mais patológico e excluir outros aspectos da personalidade mais
desenvolvidos, adaptáveis e maduros, pois a maioria das patologias aparece nos traços formais
– esses traços são os mais relacionados com a parte estrutural da personalidade e, portanto, os
mais estáveis; são os que variam mais lentamente à medida que o indivíduo amadurece ou se
59
modifica, e os mais confiáveis para medir os resultados de um tratamento ou fazer ou outro
teste.
Arzeno (1995) afirma que o estudo do material consiste fundamentalmente na
busca de recorrências e convergências, ou seja, aparecem constelações simbólicas que se
repetem e que são complementares com outras, sendo este outro critério que fornece segurança
para nossas conclusões. Esse trabalho de interpretação do material é constituído por idas e
vindas constantes de um material a outro, do observável ao inferível, da teoria à prática, das
entrevistas livres às pautadas, aos testes, etc., assim somos guiados tanto por nossos
conhecimentos quanto pelas nossas dúvidas, pelas próprias associações do sujeito observado e
ouvido.
Recapitulando o que já dissemos anteriormente, pode acontecer de algumas
questões não se encaixarem, pois pode aparecer algum elemento estranho em algum teste com
desenhos ou mesmo na fala do paciente, e nesse caso devemos pedir associações ao sujeito,
caso isso não resolva, precisamos aceitar o não entendimento do seu significado. Poderíamos
catalogar isso como núcleos estranhos, talvez psicóticos, que deveremos colocar no informe
como advertência para o terapeuta, pediatra, etc.; e durante a devolução ao sujeito e/ou a seus
pais aproveitaremos para fazer algumas perguntas sem despertar suspeitas, para não despertar
no sujeito e na família grande ansiedade.
Segundo Alchieri e Bandeira (2002), outro recurso para obter resultados mais
exatos é usar testes devidamente validados.
Finalmente, é recomendável a supervisão do trabalho por outro colega com mais
experiência, especialmente para aqueles que estão iniciando, pois casos difíceis podem surgir
para todos e esse é um recurso valioso.
3.7 DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO
Para ficar mais claro essa etapa, vamos tentar definir diagnóstico e prognóstico de
acordo com área médica.
60
Diagnóstico: é o conhecimento ou juízo ao momento, feito pelo profissional da
saúde, acerca das características de uma doença ou de um quadro clínico, que comumente
suscita um prognóstico, com base nas possibilidades terapêuticas, segundo o estado da arte,
acerca da duração, da evolução e do eventual termo da doença ou do quadro clínico sob seu
cuidado ou orientação.
Prognóstico: é conhecimento ou juízo antecipado, prévio, baseado necessariamente
no diagnóstico e nas possibilidades terapêuticas, segundo o estado da arte, acerca da duração,
da evolução e do eventual termo de uma doença ou quadro clínico sob seu cuidado ou
orientação. É predição do médico de como a doença do paciente irá evoluir, e se há e quais são
as chances de cura.
Agora que ficaram mais claras as definições citadas, podemos dizer que muitas vezes
o quadro sintomático e a história clínica do examinando podem conter informações suficientes
para se chegar a um determinado diagnóstico. Outras vezes, mesmo quando não há dúvida
quanto ao diagnóstico, o psicólogo pode ser convocado para coletar dados mais substanciais
com base para um prognóstico.
Mas que fique claro que para se chegar a um diagnóstico, o psicólogo deve
primeiramente examinar os dados de que dispõe como quadro sintomático, dados da história
clínica, as observações do comportamento do paciente durante o processo Psicodiagnóstico e
os resultados da testagem, em função de vários critérios diagnósticos, podendo chegar a
inúmeras alternativas diagnósticas.
Pode se chegar ao prognóstico ou a indícios muito úteis por meio do testes utilizados
no Psicodiagnóstico.
Para se verificar se um caso preenche os critérios de uma categoria diagnóstica, o
psicólogo pode e deve utilizar algum sistema oficial de classificação de transtornos mentais. Os
sistemas de classificação mais difundidos são o CID-10 e o DSM-IV.
“Fica facultado ao psicólogo o uso do Código Internacional de Doenças - CID, ou
outros Códigos de diagnóstico, científica e socialmente reconhecidos, como fonte para
enquadramento de diagnóstico”. (Parágrafo único, do Art. 1º, da resolução CFP N.º 015/1996 de
13 de dezembro de 1996).
Veja no último módulo as resoluções na íntegra.
61
3.8 COMUNICAÇÃO DOS RESULTADOS NA ENTREVISTA DE DEVOLUÇÃO
O informe ou a comunicação dos resultados constitui uma unidade essencial do
Psicodiagnóstico e, portanto, deve ser previsto no contrato de trabalho com o sujeito e/ou
responsável. Essa etapa pode ser vista também como a entrevista devolutiva, pois é o momento
em que o profissional dará o feedback ao paciente, ou melhor, será anunciada ao paciente todas
as conclusões a quese chegaram.
Temos que estar sensíveis a uma serie de dúvidas, conflitos que o sujeito nos traz e
saber trabalhar os conteúdos inconscientes, os afetos, pois ele acredita e tem a expectativa que
possamos ajudá-lo de alguma forma. Não esqueçamos que estamos falando de conteúdos
consciente e inconsciente que o paciente deposita ali no espaço terapêutico e precisa receber de
volta esses conteúdos de forma mais organizada e integrada, mostrando o que está
acontecendo com ele.
Outras unidades fundamentais que compõem a estrutura do Psicodiagnóstico e são
essenciais para que se chegue ao final do processo são:
Sujeito ou examinado;
Psicólogo;
Testes e técnicas psicológicas;
Informe Psicodiagnóstico, como já citamos;
Receptor.
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A comunicação do resultado é o último passo, seguida apenas das recomendações
pertinentes e do encerramento, e é o psicólogo que define como será o tipo, conteúdo e forma. A
entrevista de devolução de informação pode ser somente uma ou várias; geralmente é feita de
forma separada, ou uma com o indivíduo chave da consulta e outra com os pais e o restante da
família, mas caso a consulta tenha sido iniciada como familiar, a devolução e as conclusões
também serão feitas a toda a família, não esquecendo que deve ser enviado um laudo ou
relatório ao profissional que a solicitou.
Nesta entrevista devolutiva, pode-se ainda colher dados, aí surge a pergunta: Mas por
que fazer isso se estamos encerrando o processo? Isso é feito por quê:
O profissional irá gradualmente aventando suas conclusões e observando as
reações que estas produzem nele ou nos entrevistados.
VOCÊ SABIA!
Duas questões são muito importantes na
devolutiva, a primeira é a curiosidade do sujeito
e de sua família para saber o que pensamos que
ocorre depois de fazer os estudos, e a segunda
é a necessidade do profissional de transmitir
esses resultados e o fato de que as reações que
forem registradas nessa entrevista final
poderão ratificar o nosso diagnóstico ou
modificá-lo substancialmente.
63
O sujeito ou seus pais podem não ter mencionado algo que surge no material
registrado, e aproveitaremos essa entrevista para perguntar; o que pode mudar radicalmente as
hipóteses levantadas pelo profissional, e sua presença é um bom sinal porque aumenta o grau
de sinceridade e confiança do cliente.
Cunha (2003) diz que o tipo de comunicação dos resultados ou do informe é definido
basicamente pelos objetivos do exame.
Existem alguns casos específicos, deveremos fazer uma entrevista devolutiva
diferente, especialmente em uma família com crianças, dependendo do que tenhamos percebido
nas entrevistas familiares diagnósticas, pode ser adequado realizar a entrevista de devolução
com uma técnica lúdica que se alterne com a verbal, especialmente naqueles casos no qual o
indivíduo ou a família são movidos mais por códigos de ação que de verbalização.
O informe ou a forma como vão ser comunicados os resultados consiste no resumo
das conclusões diagnósticas e prognósticas do caso estudado e inclui, muitas vezes, as
recomendações terapêuticas adequadas ao mesmo.
Assim, podem ser realizados exames como laudo, parecer ou relatório. O laudo vai
responder vários tipos de questões como, o quê, quanto, como, porquê, para que, quando, e
quase sempre constituem resultados de um processo Psicodiagnóstico com vários objetivos,
sendo mais extensos, abrangentes e minuciosos. Geralmente, o laudo é iniciado com dados de
identificação, seguido da época de realização do exame, registram os motivos explícitos e
implícitos da consulta, citam-se por extenso as técnicas utilizadas, comunica-se a impressão
sobre o sujeito, apresenta-se dados sobre o estado mental, relata-se sua história clínica,
descrevem-se os resultados da testagem organizados em tópicos e conforme o objetivo dos
exames faz-se, se for o caso, o entendimento dinâmico e/ou a classificação nosológica, com
prognóstico com possíveis encaminhamentos ou recomendações.
O informe tem suas peculiaridades e algumas regras que devem ser seguidas como a
questão dele constar em cada conjunto de documentos, tanto no nosso trabalho particular como
no institucional; no institucional ele é imprescindível devido à rotatividade permanente de
profissionais, permitindo assim que o terapeuta que vier a se encarregar de um caso deixado por
outro possa ter informação adequada sem precisar estudar todos os testes do material. E caso
seja solicitada numa interconsulta os resultados do estudo, podemos oferecer o informe
64
Psicodiagnóstico e não uma cópia dos testes, que não serão entendidos por neurologistas,
pediatras, cardiologistas, etc. ou quaisquer outros profissionais que não estejam habilitados a
lidar com testes psicológicos.
Nesse informe, o importante não é que o psicólogo escreva tudo o que sabe sobre o
sujeito, mas o que for pertinente aos objetivos do exame e de interesse para o receptor.
Já o parecer se restringe à análise de problemas específicos colocados por
determinado profissional que já dispõe de muitas informações sobre o examinando, pressupõe
um único objetivo e são no geral focalizados, resumidos e curtos.
E como se dá a comunicação? Bem, isso também depende dos objetivos, onde podem
ser necessários vários tipos de comunicação.
Ex.:
Uma entrevista de devolução com os pais e com o sujeito;
Laudo encaminhado ao pediatra;
Laudo encaminhado à escola;
Um parecer ao serviço de orientação da escola;
Ao psicoterapeuta.
Que fique claro que o conteúdo da comunicação é definido, segundo Ocampo (2001) e
Cunha (2003), pelas questões específicas, formuladas no início do processo e também pela
identidade do receptor, variando assim quanto à natureza dos dados que vai depender da
pessoa que vai receber, e das questões que interessam a cada receptor, seja a escola, o
psicoterapeuta, o psiquiatra, a família. Isso nos mostra que as mesmas questões podem ser
respondidas a cada receptor por meio de comunicações diferentes, sendo o conteúdo de cada
um diverso, em especificidade, profundidade e extensão.
Nesse momento, de acordo com o código de ética do psicólogo, entra em questão o
sigilo profissional, onde este compromete o psicólogo a não fornecer certas informações, ou a
prestá-las somente a quem de direito e sempre em benefício do paciente.
Em muitos casos, quando sabemos que o local onde vai ser enviado um informe,
como, por exemplo, uma escola, não dispõe de um local em que seja mantido o informe em
sigilo, podemos nos restringir a uma comunicação pessoal ou telefônica. É muito importante
essa questão da segurança e privacidade das informações, pois elas poderão cair em mãos de
pessoas leigas, que podem distorcer essas informações por não entendê-las.
65
A forma do informe deve ser definida pela identidade e qualidade do receptor, deve
estar de acordo com a profissão, nível sociocultural e intelectual e com as condições emocionais
do receptor; como por exemplo, se o informe for a uma pessoa mais humilde, neste caso, não se
podem usar termos científicos, a qual a pessoa que está sendo informada não entenda, deve-se
tentar ao máximo explicar o resultado de acordo com seu grau de entendimento.
O psicólogo também é peça fundamental nesse momento, pois ele vai encaminhar
decisões cruciais para a vida de outra pessoa; ele precisa estar muito consciente do que está
ocorrendo, ser ágil em suas percepções, flexível no manejo da relação, muito seguro de suas
conclusõese de si mesmo para manter a sua sensibilidade clínica e ser hábil em sua
comunicação.
O sujeito ou responsável pela solicitação do Psicodiagnóstico tem direito
regulamentarmente à devolução – sendo esta obrigatória, tem que haver esse feedback. De
acordo com o código de ética, o psicólogo é obrigado a fornecer ao examinando as informações
que foram encaminhadas ao solicitante e a orientá-lo em função dos resultados obtidos, sendo
essa comunicação clara, precisa e inteligível.
Ao cliente e a pessoas da família é mais recomendável dar um feedback por meio de
uma entrevista de devolução; a comunicação oral será um recurso mais esclarecedor do que as
informações por escrito, prevenindo assim interpretações dúbias e entendimentos errôneos.
Existem casos em que não é exigido na entrevista de devolução laudo ou parecer
escrito, e isso acontece quando o psicólogo faz parte de uma equipe multidisciplinar, pois o caso
é discutido em equipe, onde cada profissional utiliza seu modelo próprio para o exame do sujeito,
sendo integrados os dados num informe, conforme os objetivos propostos.
Vejamos alguns tipos de informe:
Aos pais: como já citamos anteriormente, a esse receptor é preferível a
entrevista de devolução para comunicar os resultados, mas caso os pais solicitem algum
relatório por escrito, há duas questões: se o motivo for apresentar o informe em algum lugar (ex.:
escola), perguntaremos onde e elaboraremos o informe pertinente, que será enviado diretamente
ao destinatário; o outro caso é porque os pais querem conservar algo escrito para que sirva
como um auxílio para a memória sobre tudo o que foi falado, assim, aceitaremos entregar-lhes
um informe redigido numa linguagem simples resumindo tudo o que foi falado de forma tal que
possa ser lido também pelo próprio sujeito (criança, adolescente ou adulto) com quem foi
realizado o estudo.
66
A um Psicoterapeuta: usa-se linguagem técnica, fazendo referência concreta ao
material de testes do qual foram extraídas as conclusões, devendo-se fazer uma descrição
minuciosa da estrutura básica da personalidade, das ansiedades e defesas.
A uma Escola: este será breve, referindo-se exclusivamente ao que o professor
precisa saber, expressando a linguagem cotidiana usada. A este receptor deve-se tomar cuidado
para que não transpareçam intimidades do caso que não se relacionam com o campo
pedagógico.
A médicos: o informe fará referência simplesmente ao registro ou não de
transtornos emocionais, à sua gravidade e à conveniência de um tratamento psicológico do
sujeito, da sua família, etc.
A advogados: geralmente se refere a uma perícia que terá peso numa sentença e
isso faz dele um trabalho difícil, principalmente no campo penal, então deveremos ser bastante
cuidadosos com os termos utilizados e a informação que iremos oferecer. Esse informe deve ser
expresso em termos inequívocos e com afirmações que não deixem margem para que sejam
usadas conforme convier à causa, porque uma vez formulada a nossa conclusão em relação à
dúvida que levou à solicitação do estudo, é conveniente justificar essa conclusão usando como
apoio alguns pontos do material, mas sempre expressando-nos claros e de uso comum no
âmbito forense.
A empresas: esse tipo de receptor busca informações as quais responderá se os
traços de personalidade requeridos para a função correspondem ao perfil do examinando,
devendo-se dizer o necessário e de tal forma que sempre possa ser interpretado com
objetividade e não possa ser usado em prejuízo do individuo em questão.
Concluindo podemos dizer que os informes podem ser sistemáticos ou assistemáticos,
e reiterando algumas informações importantes, o tipo de comunicação dos resultados ou
devolução é definido pelos objetivos do exame e seu conteúdo é definido pelas questões
específicas iniciais e pela identidade do receptor.
67
3.9 ENTREVISTA DE DEVOLUÇÃO
3.9.1 Recomendações
De acordo com Cunha, Freitas e Raymundo (1991), algumas recomendações sobre a
entrevista de devolução devem ser seguidas:
Deve-se evitar o uso da linguagem técnica, termos que são difíceis de ser
entendidos por leigos, e iniciar por sintoma ligado diretamente à queixa principal;
Essa entrevista servirá para o entrevistador comunicar em que consiste o
Psicodiagnóstico, e indicar a terapêutica que julga mais adequada;
Nesse momento, o entrevistador retoma os motivos da consulta e a maneira como o
processo de avaliação foi conduzido;
Ela inicia com os aspectos menos comprometidos do paciente, ou seja, menos
causadores de ansiedade;
A devolutiva deve encerrar com a indicação terapêutica.
Muitos autores são claros quando dizem que a devolutiva, também chamada de
entrevista de devolução, é um dos momentos mais importantes do mesmo, pois é o que
particulariza e caracteriza o processo de Psicodiagnóstico. E acredita-se que a cada vez que
lemos o material podemos encontrar algo a mais.
A entrevista de devolução começa sempre pela aquisição de um bom conhecimento do
caso, ou seja, ao terminar o processo, o psicólogo analisará criteriosamente todo o material
colhido e irá elaborar hipóteses explicativas que serão capazes de situar o cliente dentro de um
contexto, um todo, levando-se em conta as suas capacidades, limitações e defesas.
Continuando as recomendações, de acordo com Ocampo (1981):
Um ponto fundamental é comparar a entrevista inicial com a de devolução, pois se
vai ter uma noção de como é que foi todo o processo e de como é que está sendo a devolução
68
de informações, se aconteceu alguma mudança, se a queixa se desdobrou ou se transformou, e
assim vai mostrar que modificações houve.
O psicólogo deve identificar os aspectos mais sadios e adaptativos, assim como os
menos sadios e adaptativos, tanto do cliente quanto do seu grupo familiar; depois ele irá fazer
uma distinção entre o que pode e o não pode ser dito ao cliente, como consciência de questões
sobre o que é menos adaptativo e consequentemente mais doente, muitas vezes não deve ser
dito para respeitar as possibilidades do cliente e seus limites. Assim, a entrevista inicia-se com
os aspectos mais adaptativos do cliente e prossegue até chegarmos aos menos adaptativos.
Resumindo esse tópico, devemos ficar atento ao cliente para identificar a tolerância ou não às
informações que estão sendo ditas e podem aparecer por meio de aspectos verbais conscientes;
há também os inconscientes que são os lapsos ou então a aceitação passiva para simplesmente
não pensar no assunto, e ainda os não verbais, tais como os atrasos, as faltas, a resistência do
final do processo – pode-se também perceber isso quanto os sinais de tolerância com relação
àquilo que é devolvido.
É importante devolver os conteúdos desse paciente que ficaram depositados sobre
o psicólogo, mas como já citamos, de forma organizada, pra ser saudável também para o
profissional e para que este não seja depositário dessas expectativas e conflitos que o outro traz.
Com esses elementos bem definidos o psicólogo pode elaborar um roteiro
suficientemente flexível, que sirva de parâmetro – algo que determina os limites e assuntos a
serem abordados.
A linguagem a ser utilizada deve ser observada, sendo a mais adequada possível,
como não utilizar termos técnicos e evitar termos ambíguos, na medida do possível lançar mão
da linguagem empregada pelo cliente e seus pais.
Sabemos que o cliente vai depositar muitas angústias no psicólogo e a função
deste é reorganizar essas informações e devolvê-las; o ideal seria que ele processe essa
angústia e devolva ao clienteou paciente de forma reconfigurada, reconduzindo e reorganizando
aquilo que está caótico para aquele sujeito.
Assim, o psicólogo vai passando o conteúdo menos ansiógeno ao mais ansiógeno,
mas devemos ficar atentos a alguns casos em que é difícil identificar, do ponto de vista do
cliente, o que é mais e menos ansiógeno; aqui, o melhor se que pode fazer é seguir a mesma
sequência apontada pelos pais no momento da queixa.
Na devolução, como já citamos antes, ainda pode surgir uma série de coisas e até
um dado novo que seja importante pra questão que está sendo discutida, assim essas novas
69
informações podem ratificar o diagnóstico ou modificá-lo no sentido de ampliar. Então, há a
probabilidade de que modifiquemos nosso laudo, nesse caso, adiaríamos a entrega do laudo,
pra que ele seja mais completo. Percebe-se nesse ponto que o profissional deve ter flexibilidade
e capacidade de captar o que está sendo dito e reinserir no que está sendo dito na entrevista de
devolução.
O psicólogo deve estar sempre preocupado em se expressar claramente, tentando
fazer o fechamento dos assuntos de forma que o cliente, que pode ser a criança e seus pais,
também o faça.
Outra questão importante e que não se deve perder de vista é quanto ao objetivo da
devolução que é, segundo Ocampo (1981), "sintetizar ou unir aspectos reparadores e
destrutivos, assim, podemos mostrar como o presente e o futuro funcionam como elementos de
reparação".
Uma entrevista de devolução tem alguns parâmetros a serem seguidos, mas não é
estático como um laudo.
A seguir mostraremos alguns parâmetros, caracterizados por Ocampo (1981), que são
relevantes para compreensão da entrevista de devolução, assim Ocampo os analisa sob o ponto
de vista do:
PROFISSIONAL: o psicólogo deve restituir aos seus verdadeiros donos o que nele
foi depositado durante todo o processo, tanto consciente quanto inconscientemente, com a
intenção de preservar a si próprio; espera-se do psicólogo a capacidade de escuta,
discriminação, discernimento e percepção do que se passa ou do que pode se passar, podendo
então transmitir as informações da melhor maneira possível.
CLIENTE: se o cliente/paciente for uma criança ou um adolescente não implica em
privá-lo dessa posição, que fique claro que a entrevista deve circular a todos os interessados e
principalmente ao cliente; deve-se devolver a informação aos pais e ao filho separadamente,
favorecendo a discriminação de identidades dentro do grupo familiar, pois no caso da criança, se
não houver devolução, ela poderá sentir-se como um terceiro excluído de uma comunicação, a
qual tem direito por ser a principal interessada; a devolução de informações gera
comprometimento, na medida em que o cliente toma ciência das informações observadas pelo
profissional; ao devolvermos as informações dá-se ao cliente a oportunidade de se enxergar com
mais critério de realidade, redefinindo a sua personalidade atual e possibilitamos a ele esse
movimento de redefinição.
70
PAIS DO CLIENTE: caso os pais cheguem ao Psicodiagnóstico, enviados por
terceiros, a entrevista de devolução funciona como uma oportunidade para fazer com que
consigam certo insight a respeito da situação real; caso o profissional seja procurado
espontaneamente, a entrevista de devolução serve para reintegrar e atualizar uma imagem do
cliente; caso o profissional foi procurado com a intenção de que se descubra o que o paciente
tem, a entrevista de devolução aparece como o momento onde os pais irão conhecer a
percepção do profissional.
3.9.2 Pontos importantes a frisar
Definição da Entrevista de Devolução:
ntrevista em que se devem transmitir os resultados do Psicodiagnóstico de forma
discriminada, organizada e de acordo com o destinatário;
A linguagem verbal, gráfica ou lúdica deve ser apropriada ao mesmo, para que seja
clara e adequadamente compreendida;
A escolha da linguagem é importante pra devolução pra que o paciente
compreenda tudo.
Objetivos da entrevista de devolução:
Transmitir uma informação a qual o paciente busca;
Observar as reações do paciente, principalmente as verbais, gestuais, etc. e a
capacidade para fazer "insight";
Proporcionar um panorama complementar em relação ao material anteriormente
recolhido;
Conforme as reações dos pais do filho, ou do adulto em questão, durante esta
entrevista manteremos a recomendação terapêutica previamente pensada ou a modificaremos
apropriadamente;
De acordo com a resposta dos envolvidos nessa entrevista de devolução poder-se
71
pensar se é apropriada nossa recomendação, ou seja, podemos ter noção se os envolvidos irão
acolher os encaminhamentos e também nosso prognóstico.
Motivo pelo qual a entrevista de devolução é realizada:
Falar dos resultados que obteve de todo o processo;
De acordo com a teoria da Gestalt, toda forma tende ao seu próprio fechamento,
nesse processo acontece a mesma coisa, tanto para o paciente como para o profissional, pois
aquilo que não é concluído fica como algo pendente;
Reintegrar de forma organizada e explicada ao paciente aquilo que ele trouxe;
Quando a consulta é feita por uma parte da família em relação à outra parte, ela
deve ser feita separada, pois ajuda a discriminar e a reconhecer que o cliente foi trazido como
um ser humano e não como um objeto de manipulação;
É uma experiência clínica de valor incalculável que nos dará o maior grau de
segurança possível na delicada tarefa psicodiagnóstica.
Importantes no processo:
Oportunidade de insight;
Papel do psicólogo: transmitir resultados e observar reações.
PASSOS DO PSICODIAGNÓSTICO
ENCAMINHAMENTO;
↓
CONTATOS COM OS FATOS;
↓
PERGUNTAS OU HIPÓTESES;
↓
OBJETIVOS ESTABELECIDOS;
72
↓
CONTRATO DE TRABALHO;
↓
CONFRONTAÇÃO DE DADOS E ESTABELECIMENTO DO PLANO DE AVALIAÇÃO;
↓
SELEÇÃO DA BATERIA DE TESTES;
↓
LEVANTAMENTO, ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS DADOS;
↓
DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO;
↓
COMUNICAÇÃO DOS RESULTADOS
ou
ENTREVISTA DE DEVOLUÇÃO.
73
4 ENTREVISTA DIAGNÓSTICA INICIAL
4.1 DEFINIÇÕES
Podemos defini-la como sendo a primeira entrevista de um processo de
Psicodiagnóstico.
Segundo alguns autores, nessa entrevista o sujeito fica livre para expor seus
problemas.
Segundo Fiorini (1987), o empenho do terapeuta nessa primeira entrevista pode ter
uma influência decisiva na continuidade ou no abandono do tratamento.
Para Gilliéron (1996), a primeira entrevista permite conhecer: o modo de chegada
do paciente à consulta, como por si mesmo, enviado por alguém ou a conselho de alguém;
permite conhecer o tipo de relação que a paciente procura estabelecer com o seu terapeuta, e
permite adentrar nas queixas iniciais verbalizadas pelo paciente, em particular a maneira pela
qual ele formula seu pedido de ajuda.
De acordo com Pinheiro (2004), essa entrevista ocorre num certo contexto de
relação constantemente negociada, ou seja, quando falamos de negociação estamos nos
referindo ao posicionamento definido como um processo discursivo, por meio do qual são
situados numa conversação como participantes observáveis, subjetivamente coerentes em
linhas de histórias conjuntamente produzidas.
Essa entrevista inicial geralmente inicia-se com a chamada telefônica de outro
profissional, encaminhando o entrevistado para a avaliação psicodiagnóstica, ou mesmo com a
chamada dopróprio entrevistado.
A “primeira entrevista” tem um conceito referente à primeira etapa diagnóstica, que
tem um objetivo específico, mas não significa que deve ser só uma, nem que deva ser realizada
obrigatoriamente no início do processo diagnóstico. Em circunstâncias especiais podemos obter
dados após a aplicação dos testes, e não no início da consulta.
74
A partir dessa entrevista vão surgir impressões e expectativas. Entrevistador e
entrevistado constroem mutuamente suas transferências, contratransferências, e resistências
que foram ativadas bem antes de ocorrer o encontro propriamente dito.
No final dessa entrevista, devem ficar esclarecidos os seguintes pontos: horários,
duração das sessões, honorários, formas de pagamento, condições para administrar
instrumentos de testagem e para as condições de consulta a terceiros;
Este tipo de entrevista pressupõe uma apresentação mútua, seguida de um rapport
e finalmente o esclarecimento, por parte do psicólogo do enquadramento/contrato, ou seja, tendo
o cliente relatado o motivo que o levou a procurar a ajuda profissional, cabe a esse esclarecer
alguns parâmetros que deverão ser respeitados durante todo processo de Psicodiagnóstico.
4.2 PRIMEIRO CONTATO COM O PACIENTE
O primeiro contato passa muitas informações, dá uma imagem dos pais do paciente,
conforme ele nos foi enviado, por que motivo, e segundo as características de seu primeiro
vínculo conosco. Assim, questões como respeitar o horário marcado e ligar na hora combinada
implicam desde o início uma atitude de respeito com o profissional, fazendo com que
percebamos como aquela família age diante de algumas situações. Já as consultas canceladas
repetidamente não dão uma imagem positiva do paciente ou daquele que consulta, pois a atitude
é evidentemente bastante fóbica, pois o paciente prevê que iniciar uma consulta vai ser algo
muito mobilizador e talvez desestruturante.
Muitos autores, dentre eles Trinca (1984), dizem que uma forma delicada e adequada
de iniciar a entrevista inicial, após as respectivas apresentações, pode ser com a seguinte
pergunta: “Em que posso ajudá-lo?” e adequar-se à resposta recebida para decidir a estratégia
seguinte. Então, a resposta a essa pergunta dará uma pauta que dirigirá a nossa atenção para
um determinado caminho, dando-nos a possibilidade de fazermos novas perguntas.
Retomando o conceito de motivo manifesto, podemos dizer que de acordo com
Ocampo (1981) é aquilo que está mais próximo da consciência e o que o indivíduo prefere
mencionar em primeiro lugar. Já os latentes ou inconscientes são mencionados quando o
75
paciente adquire mais confiança, ou melhor, eles vêm implícitos e cabe ao psicólogo ir
analisando-os de acordo com o discurso, testes, observações.
De acordo com Arzeno (1995), em cada um dos pais, no paciente e no profissional que
escuta o que é relatado, há uma fantasia de doença, sendo que essas fantasias nem sempre
coincidem. Então o ideal seria detectar isto o mais rápido possível, porque nos informaria sobre
as várias resistências vigentes e assim nos alertaria em relação ao enquadre da tarefa, e a ser
muito cauteloso na entrevista final para ajudar aos pais de forma que revejam a sua concepção
de vida, da doença e da cura.
Mas como muitas vezes o nível de ansiedade dos pais ou adulto é muito alto ao chegar
para a primeira entrevista, então o ideal nessas entrevistas é ela ser mais curta e centralizada na
descrição daquilo que causa preocupação no momento, depois num segundo momento pode
adentrar em assuntos mais delicados, pelo fato dos indivíduos estarem menos tensos e mais
colaboradores.
Muitas vezes também eles realmente não acreditem que possam ser ajudados por um
psicólogo, e esse seria um ponto no qual devemos deter-nos todo o tempo necessário, evitando
assim que o estudo precise ser interrompido mais adiante.
VOCÊ SABIA!
É muito importante que durante a primeira
entrevista, além de explicitar o sintoma
que o paciente traz, e as suas fantasias de
doença e cura, tentemos obter uma
história familiar, dando atenção a dados
cronológicos extras; mas mais importante
ainda é a versão que os pais ou o paciente
trazem sobre essa história, pois irá ajudar
a desvendar a história do sintoma em torno
do qual vai se entrelaçando a história do
paciente e de sua família.
76
De acordo com alguns autores, após a entrevista inicial, em que são obtidas
impressões sobre a pessoa do paciente, esclarecimentos sobre os motivos da procura, e
realizado o contrato de trabalho do Psicodiagnóstico, são necessários mais alguns encontros,
cujo objetivo é a obtenção de mais dados com riqueza de detalhes sobre a história do
entrevistado, tais como: fases do seu desenvolvimento, escolaridade, relações familiares,
profissionais, sociais e outros, para que se tenham os dados necessários para se chegar ao
Psicodiagnóstico.
Se estivermos tratando de um paciente de outro profissional, na primeira entrevista
pode-se ter uma breve conversa sobre dados de filiação, constelação familiar primária e atual,
profissão, etc., mas isso se o cliente tem conhecimento do motivo pelo qual foi enviado e se já
fez algo semelhante antes, não se esquecendo de frisar que devemos evitar que esse relato se
transforme em um relato detalhado e prolongado da história da vida do paciente, já que isso
tende a estabelecer um vínculo que interfere naquele estabelecido previamente com o seu
terapeuta, confundindo o paciente.
Nestas circunstâncias, o psicólogo deve controlar a sua curiosidade e manter uma
distância ideal que possibilite um clima agradável para trabalhar, sem fomentar falsas
expectativas no sentido de criar um vínculo que muito brevemente será interrompido.
O objetivo primordial da primeira entrevista, geralmente, é conhecer a história do
sujeito e de sua família, mas mais importante que o registro cronológico dos fatos de três
gerações é a reconstrução da estrutura e essa história familiar com seus mitos, seus segredos,
suas tradições, etc. Uma vez conhecido o motivo manifesto da consulta, faremos perguntas
sobre tudo o que possa estar relacionado com ele, isso claramente de acordo com o estado
emocional do paciente, sendo que às vezes só é possível num segundo momento.
Dependendo das condições do paciente – alguns autores como Trinca (1984) afirmam
– torna-se imprescindível interrogar, durante a primeira entrevista, sobre o nome e sobrenome de
cada progenitor, idade atual, se o pai e a mãe vivem ou são falecidos (quando e por qual
motivo), se os encontros com esses são frequentes ou não e como é a relação. Também serão
feitas perguntas sobre os irmãos de cada um e as suas idades, assim como a história e todos os
detalhes do ou dos nomes escolhidos para o filho que foi trazido para consultar, ou para o adulto
que está consultando.
Em relação aos recursos de que dispõe o psicólogo para registrar tudo o que é
necessário desde a entrevista inicial, cabe resumir o seguinte: a comunicação verbal é a via
essencial para tal objetivo; o registro do não verbal também é essencial e por isso o psicólogo
77
deve ser um ouvinte atento a gestos, lapsos, atuações, etc. Neste momento não é o inquérito,
mas a observação atenta que serve ao psicólogo como fonte de coleta de dados.
Arzeno (1995) afirma que no encerramento da primeira entrevista, que é o momento da
despedida desse primeiro encontro entre os pais ou o adulto e o psicólogo, é indicado combinar
os passos que serão seguidos, os horários das consultas posteriores,assim como esclarecer
também quais serão os honorários e a forma de pagamento dos mesmos.
E por onde começar? É recomendável começar pelo motivo manifesto da consulta
passando por todas as áreas que possam ter conexão com o mesmo, para logo investigar as
outras cautelosamente sem descartá-las sob nenhuma hipótese, já que podem surgir dados
muito valiosos.
Sabemos e percebemos que na primeira entrevista, os pais, o adolescente, a criança
ou o adulto chegam cada um com uma expectativa; o ideal é deixá-los bem à vontade para que
possam expressar o que lhes preocupa. Embora existam casos em que não é tão claro entender
o sintoma como uma palavra não dita pelos pais, há alguns nos quais isto é muito verdadeiro, e
por isso, durante o diagnóstico devemos manter uma posição de abertura a todos os enfoques
teóricos seriamente desenvolvidos, pois cada caso torna-se mais facilmente compreensível se
focalizado a partir de uma determinada teoria.
Quanto a quem entrevistar, podemos dizer que será indispensável incluir a entrevista
com os pais, para colher dados sobre a história do paciente. Assim, quando a ligação for feita
pelos pais de uma criança, o primeiro contato será feito com eles; já quando o psicólogo for
procurado por um jovem adolescente é diferente, pois às vezes, são eles mesmos que nos
ligam, e então as primeiras entrevistas serão com eles. E somente mais tarde, geralmente antes
de decidir se vai ser necessário ou não o tratamento e de que natureza, é que são chamados os
pais, pois como dissemos antes, os pais são fundamentais para coleta de mais informações.
Mas caso esse adolescente seja um adolescente tardio, será diferente, pois este
provavelmente já possui independência econômica e idade suficiente para poder enfrentar a
responsabilidade de um contrato terapêutico por si próprio. Aqui a opinião dos pais ainda pode
ter influência, mas não tanta como a de um jovem adolescente, ou pode-se dizer que talvez já
não tenha nenhuma influência, mas em se tratando de crianças e jovens adolescentes, é
imprescindível contar com a presença e colaboração dos pais.
Então, percebe-se a importância do primeiro contato, sendo evidentes quantos dados
ou informações podemos obter nesse contato inicial, como:
Ele nos dá uma imagem dos pais do paciente;
78
Ele nos dá uma imagem do próprio paciente, conforme ele nos foi enviado, por que
motivo, e segundo as características de seu primeiro vínculo conosco.
Algumas atitudes dos pais do paciente e do paciente também nos revelam muito:
Respeitar o horário marcado e ligar na hora combinada implica desde o início uma
atitude de respeito com o profissional;
Já as consultas canceladas repetidamente não dão uma imagem positiva do
paciente ou daquele que consulta, pois a atitude é evidentemente bastante fóbica. De acordo
com Arzeno, isso trará muitas dúvidas em relação ao cancelamento da consulta, se esta não foi
concretizada porque o paciente projetou nele o seu temor e evitou o encontro, se cancelou a
entrevista porque no momento preferiu manter o status quo e não modificar nada ou se,
finalmente, trata-se de uma conduta psicótica na qual deixar esperando é o cartão de
apresentação do paciente.
Então podemos caracterizar algumas posturas:
Fóbico: este é percebido como inseguro, temeroso, talvez fale de uma forma
peculiar e se mostre mais dependente; ele inspira necessidade de tranquilizá-lo.
Psicopata: este tipo de paciente provoca sentimentos agressivos ou pelo menos de
impaciência, geralmente são casos que não avisam com a antecipação devida e esse “deixar
esperando” provoca rejeição e um sentimento de não atendê-lo se tornar a ligar.
Pré-psicóticos: neste caso dá-se uma reação de espera paciente até a chegada do
momento apropriado para concretizar a consulta.
Sintetizando a entrevista inicial, devemos estar atentos a:
A queixa e a demanda;
Se o cliente for uma criança deve-se investigar sua vida desde o nascimento até o
presente; questões como a dinâmica com os outros, família, e pode também haver um formulário
para a mãe completar em casa, checando-se na próxima sessão. Nesse tipo de entrevista é
importante ter no consultório e usar caixa lúdica com massinha, lápis coloridos, bonecos
representando família, lego, etc.; usa-se de acordo com o objetivo e o sexo.
79
4.3 OBJETIVOS
Geralmente o objetivo desse primeiro encontro é conhecer-nos, pois muitas vezes o
nível de ansiedade dos pais ou adulto é muito alto ao chegar para a primeira entrevista, e assim
torna-se difícil manter um clima ideal de trabalho.
Na primeira entrevista que os pais ou paciente adulto fazem, ela é o primeiro passo do
processo Psicodiagnóstico e deve reunir certos requisitos para cobrir seus objetivos, tais como
no começo ser:
Livre;
Não direcionada.
Mas por que ser livre e não direcionada? Porque, segundo Arzeno (1995), é dessa
forma que possibilitará a investigação do papel que cada um dos pais desempenha, entre eles e
conosco; o papel que cada um parece desempenhar com o filho, a fantasia que cada um traz
sobre o filho, a fantasia de doença e cura que cada um tem, a distância entre o motivo manifesto
e o latente da consulta, o grau de colaboração ou de resistência com o profissional, etc. Então,
concluímos que no início da primeira entrevista, nossas perguntas devem ser mínimas, para dar
mais liberdade ao sujeito ou aos pais, mas à medida que formos elaborando hipóteses sobre o
que estiver ocorrendo será imprescindível fazer comentários e perguntas pertinentes.
Este mesmo autor diz que no primeiro contato a entrevista deve ser livre, para fluir
melhor, mas ele frisa que em outro momento ou mesmo num segundo contato, deve ser mais
dirigida, devendo-se solicitar dados, colher informação exaustiva sobre a história do sintoma e
também deixar estabelecido um contrato para esta etapa do trabalho diagnóstico, ou seja,
devem ser estabelecidas questões como quantas entrevistas serão feitas, quem deve participar,
em que horário e que ordem será dada ao filho, quais serão os honorários, qual o objetivo de
todo o estudo, em que vamos centrá-lo, qual é o motivo mais profundo, que destino terá a
informação que obtivermos (se será transmitida a eles ou ao filho, ou além deles ao pediatra, à
professora, a um juiz, etc.).
Arzeno (1995) enumera alguns objetivos bastante importantes:
Discutir expectativas;
80
Clarear as metas do trabalho;
Coletar informações sobre o entrevistado, que não poderiam ser obtidas de outras
fontes;
Saber sobre as primeiras impressões sobre o entrevistado, sua aparência,
comportamento durante a espera e outros.
O que seria então levado em consideração durante a primeira entrevista? São levados
em consideração elementos verbais como não verbais da entrevista, a gesticulação dos pais,
seus lapsos, suas ações – como, por exemplo, ir ao banheiro, esquecer algo ao partir, segurar
uma bolsa ou pasta o tempo todo, fazer comentários profissionais, fazer alguma queixa,
desencontro do casal ao chegar para a primeira entrevista, trocar o horário por engano, trazer
uma lista escrita com dados excessivamente detalhados, olhar o teto o tempo todo, pedir um
conselho rapidamente, etc.
Então, caso a primeira entrevista seja com os pais, quando conhecermos o filho, no
passo seguinte do processo, já poderemos comparar essa imagem que temos dele com a que
realmente estamos recebendo.
Ocampo (1981) cita vários objetivos da entrevista inicial:
É importante observar sua linguagem corporal, suas roupas, seus gestos, sua
maneira peculiar de ficar quieto ou mover-se, seus semblantes,para que percebamos a primeira
impressão que o cliente nos causa.
Avaliar características, que aspectos da vida o cliente escolhe para falar, o que
expressa como motivo manifesto da consulta; para isso deve-se considerar o que, quando, como
e em que ritmo o cliente verbaliza.
Como já citamos, o motivo da consulta se divide em dois, o manifesto e o latente.
Então devemos investigar o motivo manifesto (aquele que preocupa quem solicita a consulta) e o
latente (aquele mais relevante do que o evocado em primeiro lugar e, portanto mais sério) que
carece de percepção para que possamos identificá-lo.
O psicólogo deve escutar o cliente, mas não deve se contentar, ingenuamente, com
a versão que ele lhe transmite.
Estabelecer o grau de coerência ou discrepância entre tudo que foi verbalizado e
tudo que captamos de sua linguagem não-verbal, com o intuito de identificar o que é
apresentado como motivo manifesto da consulta e o que é percebido como motivo subjacente ou
latente.
81
Estabelecer um bom rapport que reduza ao mínimo a possibilidade de bloqueios e
que consequentemente crie um clima favorável para os subsequentes encontros.
Planejar a bateria de teste mais adequada (elementos a utilizar, sequência, ritmo,
etc.).
É importante identificar que tipo de vínculo o cliente procura estabelecer com o
psicólogo e que sentimentos e fantasias o psicólogo experimenta com relação ao cliente, e
também identificar que tipo de vínculo une o casal, como que tipo de vínculo une o filho a esses
e esses ao filho, o cliente ao psicólogo, os pais.
Avaliar a capacidade dos pais de elaboração da situação diagnóstica atual e
potencial, pois os pais transmitem a queixa da maneira que querem, mas principalmente da
forma que dão conta.
E não se esquecer de averiguar desde o início que fantasias e que concepções de
vida, de saúde, de doença têm os pais e/ou o cliente.
Detectar na primeira entrevista seja com os pais, com o filho, com o adolescente ou
com o adulto, o nível de angústia, o nível de preocupação que provoca isso que está ocorrendo
com eles, porque assim mais dados vão surgindo ao adentrar nessa angústia e mais próximo
fica do conteúdo latente.
E não esquecendo de citar o Psicodiagnóstico grupal, onde este pode ser
caracterizado como uma breve entrevista inicial ou mesmo não havendo uma primeira entrevista
inicial individual. Nesses casos, deve-se iniciar convocando o grupo para a aplicação de uma
série de provas coletivas (ou seja, cada um fará o seu trabalho simultaneamente ao trabalho dos
outros) ou grupais (nas quais, entre todos, vão elaborar uma resposta a uma solicitação nossa).
82
A atitude do psicólogo deve ser ao mesmo tempo plástica, aberta, permeável e
concretamente precisa e centralizada em um objetivo que não podemos ignorar ou perder de
vista em momento algum, pois ficarmos com respostas ambíguas significa não podermos chegar
às conclusões necessárias para realizar o diagnóstico ou prognóstico, nem tomar uma decisão
ou dar sugestões quanto à estratégia terapêutica, enfim realizar um bom informe. Então quando
surge resistência por parte do paciente, o que podemos fazer para mudar essa situação:
Podemos trocá-la por outra equivalente, sem omiti-la;
Podemos encontrar outro teste paralelo ou propor-lhe outra atividade;
FIQUE LIGADO!
Outra questão que todo psicólogo que trabalhe na área deve
saber é a diferença entre uma entrevista clínica habitual e a
entrevista usada para iniciar o Psicodiagnóstico. Nesta
deveremos manter um duplo papel: no início, um papel de não
intervenção ativa, limitando-nos a sermos um observador da
situação que está se desenvolvendo no campo do qual estamos
participando. Tentaremos manter o nosso papel de
observador que escuta e registra (por meio do material do
paciente e dos efeitos contratransferenciais). Já na outra
podemos intercalar perguntas ou tentar dirigir o diálogo,
adotando um papel mais ativo, tal como intervir, investigar, e
inclusive enfrentar os pais com suas próprias contradições,
falta de recordações ou falta de sensibilidade para registrar
a seriedade da sintomatologia e os riscos que o filho está
correndo.
83
Podemos não aplicar nenhum teste no momento, simplesmente dedicar horas de
jogo, caso seja uma criança, ou caso seja um adolescente ou adulto, realizar entrevistas. Mas
isso não significa que deixaremos de fazê-lo mais adiante, no momento mais oportuno.
De acordo com Ocampo (1981), podemos terminar a primeira entrevista, caso ela
tenha cumprido seus objetivos, com uma imagem do conflito central e seus derivados, com uma
história da vida do paciente e da situação desencadeadora, com hipótese inicial sobre o motivo
profundo do conflito, a qual será ratificada ou modificada, segundo o material projetivo dos testes
e da entrevista de devolução e com uma estratégia para usar determinados instrumentos
diagnósticos seguindo uma determinada ordem, de modo que sirvam para ratificar e ampliar as
nossas hipóteses prévias ou para retificá-las.
4.4 PRINCIPAIS REGISTROS
Podemos dizer que são muitos os registros que poderão ser feitos, mas que fique claro
que nem todos vão importar para se chegar à queixa latente, mas vamos resumir esses registros
nos principais, como registrar sempre que possível o que diz cada um dos pais, como e quando
dizem; registrar o que cada um lembra, o que cada um faz e como faz e não só o que lembra,
mas o que esquecem também; registra-se também a sequência dos aspectos do filho que os
pais vão relatando, sejam favoráveis ou desfavoráveis.
Se partirmos do princípio que o principal objetivo do Psicodiagnóstico é a busca de
compreensão, por parte do psicólogo, dos processos biopsicossociais referentes ao cliente,
qualquer anotação que possibilite o alcance desses processos é de extrema relevância.
84
5 ENQUADRE NO PROCESSO PSICODIAGNÓSTICO
Sabemos que em todas as atividades clínicas é necessário partir de um enquadre, e no
Psicodiagnóstico não é diferente. Ele pode se apresentar de várias maneiras: pode ser mais
estrito, mais amplo, mais permeável ou mais plástico, conforme as diferentes modalidades do
trabalho individual e variando de acordo com o enfoque teórico que serve como marco
referencial predominante para o profissional, conforme a sua formação, suas características
pessoais e também conforme as características do cliente.
Mas a pergunta que sempre existe: Que enquadre usar? Podemos dizer que seja um
adolescente, um adulto ou os pais de uma criança, a primeira entrevista nos dará subsídios que
facilitarão o enquadre a ser escolhido, então não precisa se preocupar que enquadre usar, ele
vai ser escolhido de acordo com o paciente, com o seu comportamento, seu discurso, suas
reações, ou seja, tudo isso são indicadores que nos ajudam a resolver que tipo de enquadre
usaremos, se mais estrito ou mais permissivo. No decorrer do capítulo, você entenderá mais
sobre enquadramento.
Segundo Santiago (1995), o enquadre do Psicodiagnóstico consiste em alguns itens:
Esclarecimento dos papéis respectivos: limite e natureza da função que cada parte
integrante do contrato desempenha;
Lugar de realização das entrevistas;
Horários e duração do processo: nem muito longo, nem muito curto;
Honorários (caso se trate de consulta particular);
Que fique claro que qualquer entrevista posterior à devoluçãorequer o
estabelecimento de um novo contrato que explicite o enquadre, as características e os objetivos
da tarefa.
Vejamos alguns parâmetros que deverão ser respeitados durante o processo de
Psicodiagnóstico a qual o enquadre está inserido:
Devem ser definidos os objetivos que caracterizarão o tipo de atendimento ou
processo ao qual o cliente irá se submeter;
85
Devem-se esclarecer os papéis, preocupando-se em clarear natureza e limite da
função que cada parte do contrato desempenha, tanto cliente como psicólogo;
Definir o lugar aonde irão se realizar os encontros e combinar os horários;
Explicar ao cliente como alcançará seu principal objetivo, ou seja, quais técnicas,
entrevistas, observações serão usadas ou como serão usadas;
Indicar a duração do processo;
Caso se trate de clínica particular ou instituição paga, irá combinar os honorários;
Informar sobre a entrevista de devolução e encaminhamentos, se necessário;
Ratificar a condição de sigilo pela qual o processo se passa.
Segundo determinados autores, alguns profissionais afirmam que trabalham sem
enquadre, então o que podemos dizer é que cada profissional assume um sistema de trabalho
que o caracteriza, além das variáveis que possa introduzir no caso; se ele opta trabalhar sem
enquadre não se questiona.
Muitas questões devem ficar claras para que o profissional não cometa erros quanto ao
enquadre; segundo alguns autores como Arzeno (1995) e Trinca (1984):
Quanto à patologia do cliente: a qualidade e o grau da patologia nos obrigam a
adaptar o enquadre a cada caso, pois não é possível trabalhar da mesma forma com pacientes
com patologias diferentes; cada caso implica diferentes graus de plasticidade e técnicas
diferentes.
Quanto à idade do cliente: questões de idade também influem no enquadre
escolhido, pois nós agiremos de diferentes formas com crianças, adolescentes e adultos. Com
uma criança pequena nós poderemos sentar para brincar no chão se ela assim solicitar, já com
adolescentes precisaremos ser mais tolerantes quanto à sua frequência, sua pontualidade e
suas resistências para realizar certos testes dos quais não gostam.
Quanto a questões do próprio enquadre: ele inclui não somente o modo de
formulação do trabalho, mas também o objetivo, a frequência dos encontros, o lugar, os horários,
os honorários e, principalmente, o papel que cabe a cada um, o papel de cliente e do
profissional.
Quanto ao papel do Psicólogo: o psicólogo dispõe de conhecimentos e
instrumentos de trabalho para ajudar o paciente a decifrar os seus problemas, ao encontrar uma
explicação para os seus conflitos e para aconselhá-lo sobre a maneira mais eficiente de resolvê-
los.
86
Quanto a não aceitação do paciente: se o cliente não acredita ou aceita
atendimento psicológico, mas foi por ser enviado ao médico, é preciso que se diga a ele que se o
médico nos enviou seu paciente e espera receber um informe psicológico, devemos explicar-lhe
que mesmo que ele não acredite faremos alguns testes para poder enviar ao médico uma
resposta conforme o que ele espera de nós.
Quanto à entrevista e observação: o campo da entrevista também não é fixo, ou
seja, está sujeito a uma mudança permanente, assim percebemos que cada situação humana é
sempre única e original; sendo assim, a forma de observar bem é ir formulando hipóteses
enquanto se observa, e no transcorrer da entrevista verificar e retificar as hipóteses durante o
seu próprio andamento, em função das observações subsequentes que, por sua vez, vão ser
enriquecidas pelas hipóteses prévias.
Quanto a modificações no enquadre: o enquadre funciona como um tipo de
padronização da situação estímulo para ele, mas que deixe de oscilar como variável para o
entrevistador, caso o enquadre sofra alguma modificação (por exemplo, porque a entrevista é
realizada em um lugar diferente), essa modificação deve ser considerada como uma variável
sujeita à observação, tanto como o próprio entrevistado.
Quanto ao papel do Psicólogo na devolução: a recomendação da estratégia
terapêutica mais adequada deve ser formulada e devidamente fundamentada pelo profissional e
na entrevista final anunciada. Na entrevista final, agimos ativamente, pois vamos dar nossa
opinião sobre o que ocorre e caso o paciente não assimile todas as informações, é aconselhável
que se marque mais uma entrevista.
Quanto a não aceitação do resultado do Psicodiagnóstico: muitas vezes o processo
Psicodiagnóstico e nossas conclusões não são bem aceitos pelo paciente. Muitas vezes, o
cliente ou seus responsáveis precisam de tempo para pensar, para assimilar o que lhes foi dito,
e nós também precisamos de tempo para ratificar e retificar as nossas hipóteses. Assim,
algumas vezes é necessário modificar o enquadre inicial no que se refere ao número de
entrevistas e deixar mais espaço para concluir o processo com maior clareza.
Quanto à responsabilidade dos instrumentos: as instituições podem fixar os limites
dentro dos quais vão se desenvolver o trabalho do psicólogo, como a duração de cada
entrevista, o tipo de diagnóstico que se espera, o modo de deixar registrado e arquivado o
material, o tipo de informe final, etc. Mas quando se trata de testes, do tipo de bateria a ser
usada e a sua sequência, é de responsabilidade exclusiva do psicólogo.
87
Segundo Arzeno (1995), para obter o campo particular da entrevista que descrevemos,
devemos contar com um enquadre fixo que consiste na transformação de certo conjunto de
variáveis em constantes. Dentro deste enquadre inclui-se não somente a atitude técnica e o
papel do entrevistador como o temos descrito, mas também os objetivos, o lugar e a duração da
entrevista.
A importância do enquadre, segundo Arzeno (1995), é que ele seria o fundo ou a base;
e o processo Psicodiagnóstico, a imagem do que, unindo ambos os conceitos (enquadre e
processo) configurariam a situação terapêutica. E que fique claro que o enquadre seria o fator
constante, e o processo seria aquilo que é variável, que se modifica. E no caso de um
Psicodiagnóstico podemos fazer uso destes conceitos, pois mesmo que a situação não seja
terapêutica, mas da mesma forma, precisamos observar o indivíduo para fazer um diagnóstico
correto e devemos ter certeza de que aquilo que surgir será material do paciente (variáveis por
ele introduzidas) e não nosso.
CONCLUINDO!
Depois de tudo exposto que é
impossível trabalhar sem um
enquadre, embora existam
profissionais, como citamos,
que trabalhem dessa forma.
Não se esquecendo de
ressaltar que existe mais de
um enquadre.
88
6 O PROCESSO DIAGNÓSTICO NA INFÂNCIA, ADOLESCÊNCIA E IDADE ADULTA
6.1 HISTÓRIA DO EXAMINANDO
De acordo com Strauss (1999), a história do paciente também é considerada um dos
recursos básicos de um diagnóstico e se desenvolve como outra interação clínica, no contexto
de uma entrevista.
Uma questão importante é que em muitos casos a função do psicólogo vai se restringir
ao uso da entrevista e ao exame do estado mental, pois às vezes o paciente não é testável,
dado ao grau de comprometimento de funções psíquicas ou cognitivas, onde quanto mais grave
o estado do paciente, mais seu trabalho será parecido com o do psiquiatra. Sua função vai se
restringir também ao uso da entrevista e ao exame do estado mental, dependendo dos objetivos,
como o objetivo “avaliação compreensiva” que visa a uma intervenção terapêutica imediata ou o
“entendimento dinâmico”, que visa à identificaçãode conflitos e possíveis fatores
psicodinâmicos. Percebe-se que avaliações como essas têm caráter mais interpretativo,
descritivo, formal e dinâmico.
Cunha (2003) diz que quando se fala de história do paciente, pode ser investigado a:
História pessoal ou anamnese;
História clínica ou história da doença atual;
Avaliação psicodinâmica (perspectiva histórica para compreender a doença atual)
“A anamnese ou a história pessoal pressupõe uma reconstituição global da vida do
paciente, como um marco referencial em que a problemática atual se enquadra e ganha
significação” (CUNHA, 2003, p. 59).
89
HISTÓRIA PESSOAL OU ANAMNESE:
Existem inúmeros modelos de roteiros, diferindo apenas por serem mais ou menos
completos, sendo que não podemos deixar de focar a necessidade de se ter em mente que não
é uma simples entrevista de coleta de dados e datas, ou seja, todas as perguntas que fazemos
devem ter como objetivo a construção da história do sujeito investigado, e bases sólidas para um
diagnóstico e prognóstico futuros.
Muitas vezes acontece de se coletar muitas informações que não contribuem para o
entendimento do caso. Ao observar esse ponto precisa-se entender que a história pessoal deve
ser coletada tendo em vista os objetivos do exame e o tipo e idade do paciente. E não
esquecendo que é impossível coletar dados completos sobre a vida de um paciente.
A história pessoal pode ser complementada com a história clínica. Assim, muitas vezes
o psicólogo segue um esquema ou tópicos para que tenha referência e controle da sua
investigação.
E de acordo com Strauss (1999), a ênfase que é dada a cada esquema vai depender,
de como acabamos de citar, do objetivo, tipo e idade do paciente.
De acordo com Kaplan & Sadock (2007), a história pessoal do paciente permite
compreender a doença do paciente e sua situação atual de vida, devendo-se ter uma
compreensão minuciosa do seu passado e da sua relação com o problema emocional atual.
Cunha (2000) apresenta tópicos que podem servir como pontos de referência para a
exploração da vida do paciente. Kaplan & Sadock (2007) também detalham todos os tópicos a
seguir:
CONTEXTO FAMILIAR: uma breve declaração sobre qualquer doença psiquiátrica,
hospitalização e tratamento de familiares do paciente deve fazer parte da história familiar. Deve-
se definir o papel que cada pessoa desempenha na criação e atual relacionamento com o
paciente. Investiga-se também o conhecimento e a atitude da família para com a doença do
paciente. O paciente deve descrever todos os membros da família. Aconselha-se construir um
genetograma focalizando principalmente o núcleo familiar atual. Deve-se procurar descrever o
contexto familiar por ocasião da concepção, as condições socioculturais, o clima das relações
afetivas do casal ou da família, suas expectativas quanto à vinda de um bebê ou a existência de
algum tipo de planejamento familiar, bem com as reações ante a gravidez.
90
HISTÓRIA PRÉ-NATAL E PERINATAL: aqui se considera a situação doméstica na
qual o paciente nasceu e se o mesmo foi desejado e planejado, investiga-se se houve problemas
com a gravidez e no parto; o estado emocional da mãe no nascimento; se havia problemas de
saúde da mãe e consumo de álcool. Podemos dizer que procuramos nesse item esclarecer as
condições em que se processou a gestação: idade da mãe e do pai à época; saúde física e
mental dos dois; possível consanguinidade de ambos; se a mãe teve doenças infecciosas ou
intoxicações, tombos ou acidentes; tentativas mecânicas ou químicas de aborto e até que mês
elas foram praticadas; verificação da existência de estados tóxicos ou infecciosos responsáveis
por transformações permanentes na estrutura fetal. Quanto ao parto especificamente investiga-
se se foi demasiado rápido ou lento, natural, a fórceps ou cesariana, se foi planejado ou
realizado de emergência. Sobre este item, por vezes, se conseguem melhores informações com
o pai que, no momento do parto, e logo a seguir, costuma estar em melhores condições
emocionais e físicas do que a mãe para ser notificado pelo médico sobre as condições de
nascimento do filho. Investigam-se também como os pais reagiram às mudanças ocorridas com
a inclusão de um novo membro na família.
De acordo com Knobel (1977), é muito importante conhecer a história de vida da
criança, isto é, a sua história cronológica biopsicossocial e da família até o momento em que ela
vem ao consultório, pois esta começa desde o momento da concepção e inclui todos os
elementos que possam influir no desenvolvimento da criança. Mas, devemos lembrar que, na
realidade, a investigação necessária não se refere somente ao processo evolutivo da criança em
seu micromundo social, que é basicamente a sua família, mas também deve levar em
consideração o macromundo social, com todas as influências socioeconômicas, políticas e
culturais.
A PRIMEIRA INFÂNCIA (DO NASCIMENTO ATÉ OS TRÊS ANOS): Nesta fase, é
de especial importância a qualidade da relação materno-infantil, desde a ligação simbiótica
primária até a fase de separação/individuação, ou seja, é significativa a qualidade de interação
mãe/bebê e algumas questões merecem atenção como a interação na hora da alimentação e no
treinamento higiênico, questões de ansiedade de separação, que detalharemos a seguir:
91
HÁBITOS ALIMENTARES: aqui se investiga sobre como era a amamentação ou
mamadeira e se houve problemas alimentares, pois indícios significativos sobre a experiência
afetiva podem ser encontrados exatamente nos problemas na amamentação ou nos sintomas
exacerbados de cólicas. Atenta-se também se houve dificuldades de sucção durante os
primeiros dias de vida, durante quanto tempo a criança foi alimentada ao seio, condições em que
se deu o processo de alimentação artificial, se tiveram problemas de vômitos ou desidratação.
Essa parte deve ser investigada com bastante atenção, pois sabemos que uma atitude
plenamente negativista por parte da criança no que diz respeito à alimentação pode ter causas
patológicas graves ou ser uma forma de chamar a atenção.
NORMAS E ASPECTOS SOCIAIS: quando se fala em normas, é de suma
importância obter dados sobre como era o treinamento da higiene, a idade em que ocorreu o
controle dos esfíncteres, entrando assim na investigação os conflitos entre obediência e
oposição. No que tange aos aspectos sociais, estes podem ser explorados, principalmente pela
análise das ligações afetivas com irmãos e na competição pelo afeto dos pais, rivalidades,
alianças.
SONO: nessa fase, em algumas crianças estão presentes pesadelos,
sonambulismo, terrores noturnos, sono agitado, insônia ou sonolência durante o dia, ou seja,
investigam-se todos os padrões do sono. Nessa fase podem aparecer distúrbios precoces nos
padrões. Assim, deve ser investigado, pois muitos deles estão ligados a fatores afetivos e
emocionais. Um exemplo seria a resistência que a criança por vezes apresenta para dormir em
horário normal, assim como a propensão a passar durante a noite para a cama dos pais, sendo
importante também, por razões óbvias, pesquisar até que idade a criança dormiu no quarto dos
mesmos.
SAÚDE: questões ligadas à saúde da criança devem ser exploradas para que se
descubra se estas têm alguma ligação com os problemas psicológicos. Aqui se sondam os
primeiros dias de vida, se a criança teve febres altas, desidratação, possíveis intoxicações,
assim como a superação das doenças chamadas de infantis e suas possíveis complicações,
92
sendo importante investigar como esta criança reagia diante dadoença e a atitude dos pais
durante a mesma.
MOTRICIDADE: sondam-se questões como quando a criança caminhou, falou,
quando começou a crescer os dentes, questões de desenvolvimento motor e de linguagem.
Existem escalas próprias sobre maturidade motora, que em caso de necessidade podem ser
consultadas, mas é aconselhável que sejam usadas com parcimônia e flexibilidade.
Obs.: Sintomas especiais como roer unhas, chupar dedos, enurese, explosão de raiva, tiques,
terrores noturnos, medos, devem ser investigados se tiveram continuidade depois dessa fase e
como foram manejados pelos pais.
INFÂNCIA INTERMEDIÁRIA (03 A 11 ANOS): nessa faixa etária sondam-se temas
importantes, como identificação de gênero, punições usadas no lar, pessoas que proporcionaram
a disciplina e influenciaram a formação da consciência. De acordo com os autores citados,
geralmente é nesta fase que há um alargamento da rede de relações sociais da criança, pelo
ingresso na escolinha e paralelamente, no começo desta fase, a criança vê-se às voltas com a
experiência e os conflitos, associados com a situação do triângulo edípico. Sendo importante
enfatizar:
RELACIONAMENTO AFETIVO e SOCIAL: devem-se investigar dados sobre as
primeiras amizades e relacionamentos pessoais. Determinar o número e a proximidade dos
amigos, descrever se o paciente assumia um papel de líder ou de seguidor, bem como sua
popularidade social e participação em atividades de grupo ou turma. A maior parte das
solicitações de Psicodiagnósticos refere-se a algumas das três áreas da personalidade (afetivo,
social e sexual), excluindo as solicitações de pareceres sobre problema de deficiência
intelectual. Então, percebe-se que a coleta de informações provenientes dos pais e por vezes de
outras pessoas se fazem necessárias. Histórias de pesadelos, fobias, urinar na cama,
provocação de incêndios, crueldade com animais e masturbação compulsiva devem ser muito
93
bem analisadas e exploradas, pois são importantes no reconhecimento de distúrbios
psicológicos. Contudo, desde que a criança ou o adolescente tenha condições de comunicar-se
nos termos que essa comunicação seja factível, deve ser a fonte de dados.
HISTÓRIA ESCOLAR: investigam-se as primeiras experiências escolares,
especialmente se o paciente tolerava se separar de sua mãe no início. Padrões de afirmação,
impulsividade, agressividade, passividade, ansiedade ou comportamento antissocial emerge
nesse contexto escolar. Que fique claro que essa área deve ser investigada desde os primeiros
contatos do paciente com a escola, se o problema tiver implicações de desajustamento escolar,
caso não tenha, é suficiente sabermos se está estudando a série que lhe corresponde de acordo
com a idade e se acompanha a turma. O desempenho escolar deve ser investigado
considerando forças e fraquezas em determinadas áreas.
DINÂMICA FAMILIAR: aqui se deve entender o clima familiar no qual cresceu o
paciente, nível de ajustamento dos pais, preferência ou rejeição em relação aos irmãos,
ambiente alegre, descontraído ou opressivo e restrito.
INFÂNCIA TARDIA (DA PUBERDADE À ADOLESCÊNCIA): Kaplan & Sadock
(2007) falam que nesta fase as pessoas começam a desenvolver mais independência de seus
pais, por meio de relacionamentos com amigos e atividades em grupos, assim tenta-se identificar
os valores dos grupos sociais e determinar quem eram as figuras que o paciente idealizava, para
se chegar à autoimagem do paciente.
HISTÓRIA ESCOLAR/DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E MOTOR: exploram-se
seus relacionamentos com professores e estudos, e interesses favoritos, tanto na escola, como
em atividades extracurriculares, participação em esportes e hobbies, questionando sobre
problemas emocionais e físicos que podem ter surgido nessa época. Questões como se
aprendeu a ler e outras habilidades intelectuais e motoras, sobre disfunção cerebral mínima, e
dificuldades de aprendizagem também devem ser investigadas.
RELACIONAMENTOS SOCIAIS: investigam-se atitudes para com os irmãos e
colegas, líder ou seguidor, popularidade social, participação em atividades, figuras idealizadas,
agressividade, passividade, ansiedade e comportamento antissocial. Também é conveniente
94
analisar fracassos, interrupções na vida escolar, por necessidade de trabalhar ou por outras
razões, e o impacto que esta teve na vida do sujeito.
PROBLEMAS EMOCIONAIS, FÍSICOS E SEXUAIS: sonda-se questões como
pesadelos, fobias, se ainda urina na cama, fugas, delinquência, uso de álcool e outras
substâncias; tabagismo, problemas com peso, anorexia, bulimia, sentimentos de inferioridade,
depressão e ideias e atos suicidas. Quanto à área sexual, exploram-se as primeiras
experiências, atitudes frente a outro sexo, práticas sexuais, escolha e variabilidade de parceiros,
dificuldades, conflitos e as reações da família frente ao desenvolvimento sexual.
IDADE ADULTA: aqui se investiga tudo a respeito da vida ocupacional, conjugal,
educacional, militar (se prestou serviço a essa corporação), religiosa, social, sexual até chegar à
atual situação de vida.
HISTÓRIA OCUPACIONAL: investiga-se a escolha da ocupação do paciente, a
formação e a preparação necessária, conflitos relacionados ao trabalho, bem como ambições e
objetivos de longo prazo, relacionamento no trabalho, descrevendo toda sua história
ocupacional. Essa história deve ser investigada em continuidade às expectativas do adolescente
em relação ao futuro acadêmico e/ou profissional, as concretizações que houve e êxitos e
fracassos, trabalho atual, relações com chefias, colegas e subordinados e suas condições
financeiras atuais.
HISTÓRIA EDUCACIONAL: tendo uma base clara da imagem educacional do
paciente, podemos entender sua origem social e cultural, sua inteligência, motivação e quaisquer
obstáculos a sua realização
HISTÓRIA DE RELACIONAMENTOS E CONJUGAL: o paciente aqui vai relatar a
história de seu(s) casamento(s) ou relacionamentos significativos com pessoas com quem o
paciente viveu por um período de tempo prolongado. Nessa área descreve-se a evolução do
95
relacionamento, incluindo formas de lidar com dinheiro, dificuldades domésticas, atitudes ao
cuidar dos filhos, como ele vive o relacionamento atual e outras questões.
HISTÓRIA SEXUAL: como grande parte da história sexual infantil não pode ser
recuperada, deve-se investigar como o paciente aprendeu a respeito do sexo, quais eram as
atitudes dos pais em relação ao desenvolvimento sexual, investigam-se sobre abusos sexuais na
infância, histórias de masturbação, atitudes para com o sexo, sua orientação sexual, relações
extraconjugais, distúrbios de ordem sexual, se apresenta doenças sexualmente transmissíveis e
se usa contraceptivo. Essa área sexual pode ser explorada, até certo ponto e em certos casos,
junto com a história conjugal.
TABELA DE TRIAGEM DA HISTÓRIA SEXUAL DE ACORDO COM KAPLAN & SADOCK
(2007):
1
.
Questões de triagem:
a. Você é sexualmente ativo?
b. Notou alguma mudança ou problema com o sexo recentemente?
2
.
Desenvolvimento:
a. Aquisição de conhecimento sexual;
b. Início da puberdade/menarca;
c. Desenvolvimento da identidade e da orientação sexual;
d. Primeiras experiências sexuais;
e. Sexo no relacionamento amoroso;
f. Experiências ou preferências diferentes ao longo do tempo;
g. Sexo e idade avançada.
3 Esclarecimentos de problemas sexuais:
a. Fase do desejo:
Presença de pensamento ou fantasias sexuais;
Quando ocorrem e qual o seu objetivo;
96
Queminicia o sexo e como?
b. Fase da excitação:
Dificuldade de excitação sexual (atingir ou manter ereções, lubrificação) durante
preliminares e antes do orgasmo.
c. Fase do orgasmo:
Ocorre orgasmo?
Manifesta-se cedo ou tarde demais?
Com que frequência e sob quais circunstâncias o orgasmo ocorre?
Se não há orgasmo, é por não está excitado ou ele não ocorre mesmo com
excitação?
d. Fase de resolução:
O que acontece quando o sexo termina (contentamento, frustração, excitação
continuada)?
FONTE: KAPLAN & SADOCK , 2007.
HISTÓRIA MILITAR (se houver): sonda-se a adaptação do paciente no serviço
militar, se ele participou de algum combate, se teve lesões prolongadas e a natureza de sua
saída.
HISTÓRIA SOCIAL: Atém-se à vida social do paciente e à natureza de suas
amizades, com ênfase na profundidade, na duração e na qualidade de seus relacionamentos;
como é o relacionamento com pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto, é isolado ou
antissocial, motivos que levam o paciente a escolher e manter determinados relacionamentos,
dificuldades para compartilhar ideias, interesses e afetos.
97
RELIGIÃO: procura-se descrever a origem religiosa dos pais e os detalhes da
formação do paciente sob esse aspecto. Investiga-se se a família tinha ou tem atitude rígida ou
permissiva para com a religião, qual a relação do paciente em relação à religião.
HISTÓRIA LEGAL: aqui se averigua se o paciente deve algo à justiça, se o
paciente já foi preso, se cometeu algum delito, se apresenta história de agressão e violência.
ATUAL SITUAÇÃO DE VIDA: descrever onde vive e com quem vive, como é a
intimidade da família, questões de renda e outras.
Enfim, finaliza averiguando como o sujeito lidou com situações críticas e fatores
estressantes, sendo alguns normais como mudanças e crises que ocorrem ao longo da vida.
OBSEVAÇÕES IMPORTANTES: é muito importante termos uma informação concreta
da importância que cada um dos pais dá aos problemas do filho, grau de envolvimento e
participação nesses problemas, assim algumas questões merecem atenção em relação à atitude
dos pais:
Compete ao profissional criar um clima adequado para que o aconselhamento
possa dar frutos, pois muitas vezes um dos pais não admite determinado aspecto do problema,
ou o problema em si, tornando-se muito difícil aceitar as sugestões sobre aconselhamento que o
orientador possa levantar no parecer;
Outras vezes acontece de os pais ocultarem ou colocarem em segundo plano o
verdadeiro motivo da procura de assistência psicológica, e isto acompanhado de uma dose muito
intensa de emoção e ansiedade.
Quando os pais, ao dar as informações sobre o filho, colocam, junto aos aspectos
negativos, características positivas que valorizam e atenuam o possível aspecto destrutivo do
conteúdo da problemática, isso é muito positivo em relação aos pais;
Outros pais idealizam muito o filho na hora da entrevista a ponto de não conseguir
colocar para o psicólogo o problema e, ao que tudo indica, experimentando um grande
envolvimento acompanhado de sentimentos de culpa, esquecem, literalmente, qualquer coisa de
negativo em relação à criança ou ao adolescente.
98
De acordo com Adrados (1993), de acordo com a psicanálise, o profissional na hora da
entrevista precisa atuar com grande tolerância e compreensão aceitando que a maior parte das
motivações do comportamento humano são inconscientes, assim percebemos que mais
importante que os fundamentos lógicos desse comportamento são as causas psicológicas
distinguindo a realidade objetiva da realidade subjetiva do examinando.
HISTÓRIA CLÍNICA OU HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL:
De acordo com Cunha (2003), a história clínica é chamada muitas vezes de história da
doença atual por influência do modelo médico, mas quando se trata de um profissional como o
psicólogo, este não pode categorizar quaisquer problemas como doença mental, pois embora
envolva uma sintomatologia pertinente e que justifique uma intervenção clínica, pode não ser
classificado como tal.
Kaplan & Sadock (2007) afirmam que a história clínica, seja de doenças atuais ou
passadas, pode proporcionar um quadro abrangente e cronológico dos eventos que levam ao
momento atual de vida do paciente. Quanto mais detalhada a história da doença atual, mais
preciso será o diagnóstico. Ela caracteriza a emergência de sintoma ou de mudanças
comportamentais, numa determinada época, e sua evolução até o momento atual.
Quando se começam a levantar dados da história clínica, já se tem conhecimento das
queixas, dos motivos que levaram à consulta, de acordo com informações prévias dadas por
alguém ou discriminadas no encaminhamento, mas ressaltando que sempre se deve averiguar a
versão clínica do próprio paciente.
99
Quando se investiga os sintomas ou mudanças de comportamento é muito importante
que sejam bem descritos, procurando localizar no tempo o seu aparecimento, tentando fazer
associações com as circunstâncias de vida no momento, analisando seu impacto em diferentes
áreas da vida pessoal ou dos demais, avaliando sua repercussão em atividades e relações da
vida do entrevistado.
Além da determinação do início da história clínica e de seu curso, ainda é necessário
um levantamento da sintomatologia e das condições de vida do paciente no momento atual e da
história psiquiátrica pregressa.
FIQUE ATENTO!
Muitas vezes, o paciente nega ter
qualquer problema, nesse caso pode ser falta
de insight, ou uma posição defensiva; ou ele
pode estar sendo sincero e o que pode estar
havendo é um encaminhamento por pressão
do meio devido a comportamentos não
aceitáveis ou intolerância de familiares ante
uma crise.
100
AVALIAÇÃO PSICODINÂMICA (perspectiva histórica para compreender a
doença atual)
Geralmente, é realizada integrada com a história, buscando uma relação entre a
pessoa com seus problemas específicos atuais e as experiências de sua vida passada.
Cunha diz que se pretende colocar a problemática presente numa perspectiva
histórica, que permita compreender o transtorno dentro de um processo vital, em um contexto
temporal, afetivo e social.
Gabbard (1998) diz que a entrevista dinâmica não é uma sessão de psicanálise, trata-
se de um modo específico de compreender os fatos. Os acontecimentos devem ser entendidos
em função da época em que ocorreram, pois a sua repercussão psicodinâmica pode ser
intensificada em meio a vários motivos como, por exemplo, uma crise de desenvolvimento.
Assim, partimos das queixas, identificamos conflitos, pesquisamos causas,
interrelacionamos conteúdos, reunimos e integramos informações que embasam o entendimento
dinâmico no fluxo da história do paciente, ou seja, tudo vai ser explicado e justificado pelos
dados históricos.
IMPORTANTE!
Caso o sujeito analisado seja uma criança ou um
adolescente, o cuidado deve ser redobrado,
pois deve ser feita uma investigação minuciosa
examinando os enfrentamentos das questões
psicodinâmicas da fase em que a criança ou
adolescente se encontra, com isso tentando
determinar se os problemas não estão
circunscritos a estas fases de
desenvolvimento.
101
Modelo de anamnese mais comum, utilizados por profissionais da área, exibido no
site http://www.psiquiatriageral.com:IDENTIFICAÇÃO: aqui os dados são colocados na mesma linha, em sequência, como
podemos ver abaixo:
Somente as iniciais do nome completo do paciente, uma vez que, por extenso,
constará o mesmo do seu prontuário ou ficha de triagem (ex.: J.P.S.);
Idade em anos redondos (ex.: “28 anos”);
Sexo;
Cor: branca, negra, parda, amarela;
Nacionalidade;
Grau de instrução: analfabeto, alfabetizado, primeiro, segundo ou terceiro grau
completo ou incompleto;
Profissão;
Estado civil – não necessariamente a situação legal, mas se o paciente se
considera ou não casado, por exemplo, numa situação de coabitação;
Religião;
Número do prontuário.
QUEIXA PRINCIPAL (QP): neste item, explicita-se o motivo pelo qual o paciente
recorre ao serviço em busca de atendimento. Caso o paciente traga várias queixas, registra-se
aquela que mais o incomoda e, preferencialmente, em não mais de duas linhas, bem
sintetizadas e da forma que foi dita pelo paciente.
HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL (HDA): esse item já foi muito bem detalhado
anteriormente, então só sintetizando, podemos dizer que ele busca informações sobre a doença
psíquica, “como” ela se manifesta, com que frequência e intensidade e quais os tratamentos
tentados.
102
HISTÓRIA PESSOAL (HP): coloca-se, de forma sucinta, separando-se cada tópico em
parágrafos, dados sobre a infância, educação, escolaridade, relacionamento com os pais,
relacionamento social, aprendizado sobre sexo, tudo que falamos anteriormente, enfim, tudo o
que se refere à vida pessoal do paciente. Mas que fique claro que não se titulam esses tópicos,
apenas relata-se a que se referem cada um deles. Mais a frente mostraremos como este tópico
deve ser feito.
DE NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO:
Gestação (quadros infecciosos, traumatismos emocionais ou físicos, prematuridade
ou nascimento a termo):
Parto (normal, uso de fórceps, cesariana);
Condições ao nascer;
Se o paciente foi uma criança precoce ou lenta;
Dentição;
Deambulação (ato de andar ou caminhar);
Como foi o desenvolvimento da linguagem e a excreta (urina e fezes).
SINTOMAS NEURÓTICOS DA INFÂNCIA:
Medos;
Terror noturno;
Sonambulismo;
Sonilóquio (falar dormindo);
Tartamudez (gagueira);
Enurese noturna;
Condutas impulsivas (agressão ou fuga);
Chupar o dedo ou chupeta (até que idade);
Ser uma criança modelo;
Tinha crises de nervosismo, tiques, roer unhas.
103
ESCOLARIDADE:
Anotar começo e evolução;
Rendimento escolar;
Especiais aptidões;
Dificuldades de aprendizagem;
Relações com professores e colegas;
Jogos mais comuns ou preferidos;
Divertimentos;
Formação de grupos, amizades;
Popularidade;
Interesse por esportes;
Escolha da profissão.
LEMBRANÇA SIGNIFICATIVA:
Perguntar ao paciente qual sua lembrança antiga mais significativa que consegue
recordar, tendo como objetivo observar a capacidade de estabelecer vínculos, além do auxílio à
compreensão da ligação passado/presente.
PUBERDADE:
Época de aparição das primeiras mudanças: nas mulheres, a história menstrual
(menarca, cólicas e cefaleias; alterações psíquicas, como nervosismo, emotividade, irritabilidade,
depressão; menopausa, última menstruação).
HISTÓRIA SEXUAL:
Aqui se registram as primeiras informações que o paciente obteve e de quem as
primeiras experiências masturbatórias; início da atividade sexual; jogos sexuais; atitude ante o
sexo oposto; intimidades, namoros; experiências sexuais extraconjugais; homossexualismo;
separações; desvios sexuais.
104
TRABALHO:
Registrar quando o paciente começou a trabalhar diferentes empregos e funções
desempenhadas (sempre em ordem cronológica), regularidade nos empregos e motivos que
levaram o paciente a sair de algum deles, satisfação no trabalho, ambições e circunstâncias
econômicas atuais, aposentadoria.
HISTÓRIA FAMILIAR (HF)
Este item deve abrigar as relações familiares (começa pela filiação do paciente).
Pais: idade; saúde; se mortos; causa e data do falecimento; ocupação;
personalidade; recasamentos se houver, de cada um deles. Verificar se há caso de doença
mental em um deles ou ambos;
Irmãos: idade; condições maritais; ocupação; personalidade. Indagar se há caso de
doença mental. Apenas referir-se por iniciais;
Cônjuge: idade, ocupação e personalidade; compatibilidade; vida sexual; frigidez ou
impotência; medidas anticoncepcionais;
Filhos: número; idades; saúde; personalidade. Também referir-se apenas pelas
iniciais;
Lar: neste quesito, descrevem-se, em poucas palavras, a atmosfera familiar, os
acontecimentos mais importantes durante os primeiros anos e aqueles que, no momento, estão
mobilizando toda a família; as relações dos parentes entre si e destes com o paciente.
HISTÓRIA PATOLÓGICA PREGRESSA (HPP)
Nesta etapa, investigam-se os antecedentes mórbidos do paciente. Devem constar
somente as doenças físicas como viroses comuns da infância, desmaios, convulsões e sua
frequência, doenças, operações, acidentes, traumatismos (sintomas, datas, duração),
internações e tratamentos.
EXAME PSÍQUICO (EP)
O exame do estado mental será detalhado no próximo módulo.
105
Obs.: nunca é demais lembrar que se evite o estilo romanceado e opiniões pessoais
por parte de quem faz a anamnese. Frases curtas e objetivas, contendo dados essenciais,
facilitarão a apreensão do caso. A utilização das palavras do paciente será produtiva na medida
em que se queira explicitar, de maneira objetiva e clara, alguma situação ou característica
relevante.
ANAMNESE
1. IDENTIFICAÇÃO:
Nome:
________________________________________________________________
Idade:
_______________________________________________________________
Sexo:
_________________________________________________________________
Cor:
________________________________________________________________
Nacionalidade:
_______________________________________________________________
Grau de instrução:
___________________________________________________________________
Profissão:
______________________________________________________________
Estado civil:
_________________________________________________________________
Religião:
______________________________________________________________
Número do prontuário:
___________________________________________________________________
106
2. QUEIXA PRINCIPAL:
_____________________________________________________________________________
_________________________________________________________
3. HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL (HDA)
Aqui se trata apenas da doença psíquica do paciente:
Sintomas mais significativos:
___________________________________________________________________
Época em que começou o distúrbio:
___________________________________________________________________
Como vem se apresentando:
___________________________________________________________________
Sob que condições, você melhora ou piora:
___________________________________________________________________
Houve instalação súbita ou progressiva?
__________________________________________________________
Algum fato desencadeou a doença ou episódios semelhantes que pudessem ser
correlacionados aos sintomas atuais?
___________________________________________________________________
Alguma coisa fazia prever o surgimento da doença?
___________________________________________________________________ Houve alguma alteração nos interesses, hábitos, comportamento ou personalidade?
_____________________________________________________________________________
_________________________________________________________
Quais as providências tomadas?
___________________________________________________________________
Já esteve em tratamento?
___________________________________________________________________
Como foi realizado?
___________________________________________________________________
107
Quais os resultados obtidos?
___________________________________________________________________
Houve internações?
_____________________________________________________________
Quais as causas da internação?
___________________________________________________________________
Explique, o mais claro e detalhado possível, o que sente atualmente:
_____________________________________________________________________________
_________________________________________________________
Toma algum medicamento (doses, duração e uso)?
___________________________________________________________________
Caso não tome remédios, registra-se: “Não faz uso de medicamentos”.
4. HISTÓRIA PESSOAL (HP)
De nascimento e desenvolvimento: Ex.: “Paciente declara ter nascido de gestação
bastante complicada, parto cesárea...”.
Sintomas neuróticos da infância: Ex.: “J.P.S. informa ter urinado na cama até 10
anos de idade, além de chupar o dedo até sete anos.
Escolaridade: Ex.: “Afirma que chorava muito para não ir à escola...”
Lembrança significativa: Ex.: “Quando eu tinha uns cinco anos, uma pessoa da
minha família desapareceu, ficamos desesperados...”
Puberdade: Ex.: “Paciente relata que os primeiros sinais da puberdade ocorreram
aos 12 anos e que obteve informações sobre menstruação...”
História sexual: Ex.: “Nunca teve experiência sexual...”
Trabalho: Ex.: “Conta que aos 18 anos obteve seu primeiro trabalho como
secretária numa empresa transportadora...”
Hábitos: Ex.: “Não faz uso de álcool, fumo ou quaisquer outras drogas”
5. HISTÓRIA FAMILIAR (HF)
108
Pais: Ex: “J.P.S. é a quinta filha de uma prole de seis. Seu pai, J.C., falecido, em
1990, aos 60 anos, de infarto...”
Irmãos: Ex: “Seus irmãos são: A.M., 24 anos, solteiro, desempregado, descrito
como violento, não se dá com ele...”
Cônjuge: Ex: J.P. coabita maritalmente com M., 35 anos, do lar, descrita como
carinhosa, mas às vezes explosiva.
Filhos: Ex: “Tem dois filhos: J., de 8 anos, cursando a 2ª série do 1º grau, apontado
como “carinhoso, mas cobra demais de mim e da minha mulher”
Lar: Ex: “Quanto ao seu lar, diz não uma das filhas, a mais nova, é muito
desobediente, isso tem dificultado a relação entre eles...”
6. HISTÓRIA PATOLÓGICA PREGRESSA (HPP)
_____________________________________________________________________________
_________________________________________________________
FONTE: Adaptado de: Disponível em: <http://www.psiquiatriageral.com>. Acesso em: 10 ago. 2011.
6.2 ENTREVISTA INICIAL NO PSICODIAGNÓSTICO INFANTIL
Sabemos que trabalhar com crianças é diferente, pois o profissional tem que dominar
as questões que ocorrem em cada fase do desenvolvimento, então esse profissional deve
entender de psicologia evolutiva, conhecimentos básicos de fisiologia, neurologia e
psicomotricidade que o possibilite identificar questões próprias da fase. Assim, existem essas
peculiaridades na clínica com crianças que exigem especial atenção por parte desses
profissionais, assim como uma investigação normal, torna-se de extrema importância esclarecer
a razão do encaminhamento, o motivo da busca por psicoterapia e de quem parte a queixa
principal.
109
Pode-se dizer que a primeira entrevista é destinada à investigação clínica, a coleta da
maior quantidade de dados sobre a história da criança, que requer informações obtidas com os
relatos dos pais e/ou responsáveis, pela criança. Geralmente é solicitado aos pais que
compareçam à entrevista inicial sem a criança, para que eles possam discorrer livremente sobre
o motivo da consulta, assim, eles podem fornecer suas próprias teorias e temores sobre o
comportamento do filho, que são informações valiosas, pois podem nos dizer algo sobre as
crenças e estigmas dos pais em relação aos afetos e à própria dinâmica familiar.
Depois de realizada a primeira entrevista com os pais, mantém-se o primeiro contato
com a criança, que pode ser por meio de uma entrevista lúdica. Os pais devem conversar com a
criança os motivos da sua ida a este profissional; assim, caso os pais não saibam, o psicólogo
deve combinar isso com os pais. Dessa forma, no primeiro encontro com a criança, o psicólogo
deve investigar se esta sabe por que está ali, e o que os pais falaram a ela sobre sua ida ao
psicólogo. Fazendo isso se compreenderá as fantasias da criança a respeito do processo de
Psicodiagnóstico, assim caso a criança esteja desinformada, deve-se fazer um breve relato
superficial sobre o que foi falado com os pais, sem entrar em detalhes, mas sempre falando a
verdade.
Outros profissionais consideram útil fazer logo de início uma entrevista conjunta com
pais e filho, assim se observaria como eles interagem entre si. Esses profissionais argumentam
que, concomitante à obtenção da história da criança e do relato dos sintomas, o profissional
deve estar atento às diversas formas de comunicações e trocas extraverbais entre os familiares.
Mas há de se concordar que numa situação dessas, os pais ficariam preocupados sobre como
falar dos filhos na frente deles e ficar boa parte do tempo medindo palavras. Então, essa
modalidade pode não ser tão eficaz no objetivo de escuta aos pais, pois a entrevista não flui com
a mesma naturalidade. Assim, a maioria dos profissionais concorda que esse tipo de entrevista
conjunta deve ser deixada para o segundo encontro.
Como já citamos várias vezes, e aqui no Psicodiagnóstico Infantil não seria diferente, é
muito importante estabelecer primeiramente o rapport. Adrados (1982) diz que o rapport
antecede à entrevista; é uma conversa informal, um bate papo, que tem como objetivo principal
deixar o entrevistado à vontade. Ele antecede qualquer encontro, não só as entrevistas iniciais
mais também e principalmente as subsequentes que são as entrevistas de aplicação de testes,
no caso do Psicodiagnóstico infantil. E caso esse rapport não se desenvolva adequadamente,
isso faz com que se desenvolvam, com relação ao entrevistador, fantasias que somente
dificultarão a comunicação e/ou a transmissão de informações.
110
Quando iniciamos o contato com a criança, logo na primeira hora de jogo a criança
dramatiza, associa, desenha, modela e brinca, mostrando, sem saber, qual é a sua fantasia de
doença e cura, assim já colhemos informações sobre o motivo latente da consulta e as fantasias
de doença e cura, mas muitas vezes isso talvez não apareça exatamente na primeira hora de
jogo e pode ser necessária outra hora para isso, ficando então a critério do profissional. Essa
atividade pode ser complementada com o Desenho Livre, que traz muitas informações
importantes.
A Hora de Jogo Diagnóstico é um recurso técnico utilizado no processo
Psicodiagnóstico com o objetivo de conhecer a realidade da criança que está sendo analisada,
implicando no desenvolvimento de um vínculo breve para conhecer e compreender esta criança,
isso de acordo com Efron (1979). Não se esquecendo de ressaltar que esse recurso tem
começo, meio e fim em si mesmo, operando como unidade para o conhecimento inicialda
criança, sendo os dados confirmados ou não com a testagem.
As instruções mais importantes e específicas numa entrevista lúdica, de acordo com
Cunha (2003), consistem em oferecer à criança a oportunidade de brincar, da forma que desejar,
com todo o material lúdico disponível no consultório, esclarecendo para criança, de forma
simples, questões sobre o tempo que poderá brincar, sobre o espaço, sobre os objetivos dessa
atividade, onde possibilitarão conhecê-lo melhor para ajudá-lo.
Quanto à postura do psicólogo, seria indicado em todos os casos, a de estimular a
interação, compreendendo o momento, acolhendo, respeitando a criança, de forma que esta se
sinta segura e aceita por este profissional, o que ajudará no estabelecimento de um bom rapport.
Na entrevista lúdica, podem-se obter muitas informações que não seriam possíveis por
meio das palavras. Assim, o profissional, acima de tudo, deve ser um bom observador, pois o
papel do psicólogo na entrevista lúdica diagnóstica pode ser passivo (profissional apenas
observa), mas também ativo (estando atento na compreensão e formulação das hipóteses,
fazendo perguntas para esclarecer dúvidas sobre a brincadeira, e ainda participar da brincadeira,
caso seja a vontade da criança). Então, percebe-se que as possibilidades de comunicação são
mediadas utilizando-se a atividade lúdica; por meio de um brinquedo a criança pode expressar
aquilo que vivencia no momento.
No Jogo Diagnóstico existem alguns indicadores importantes para fins diagnósticos e
prognósticos, em especial, para classificação do nível de funcionamento da personalidade,
segundo Efron (1978):
111
Escolha de brinquedos e brincadeiras: essa escolha deve ser feita conforme a
idade da criança, ou seja, deve atender o momento evolutivo emocional e intelectual que a
criança se encontra.
Modalidade de brincadeira: quando se trata de optar pela modalidade, isso deve
ser feito com cuidado, pois dependendo da modalidade vai-se detectar plasticidade, rigidez,
estereotipia e perseverança.
Personificação: analisa a capacidade da criança para assumir e desempenhar
papéis no brincar.
Motricidade: ao se analisar a motricidade poderá se perceber se há
desenvolvimento neurológico e de fatores psicológicos e ambientais.
Criatividade: brincadeiras que exigem criatividade demonstrarão se a criança é
plástica, tolerante e aberta para experiências novas.
Tolerância à frustração: que está relacionada ao princípio de prazer e de realidade
e da aceitação de limites.
Capacidade simbólica: aqui demonstrará se a criança tem capacidade intelectual
para resolução de conflito.
Adequação à realidade: aqui se faz uma avaliação das possibilidades egoicas e
também aceitação de limites.
No caso de estar lidando com crianças, é mais adequado trabalhar em uma sala que
não seja o consultório do adulto, sendo mais conveniente utilizar uma sala que esteja preparada
para brincar. Quanto ao material que será utilizado, no caso lúdico, deve ser apresentado a
criança sem uma ordem aparente, em caixas ou armários, sempre com tampas ou portas
abertas, devendo estar de acordo com a idade, sexo e interesses dessa criança.
Os brinquedos mais usados são:
Papel;
Lápis preto e colorido;
Canetinhas;
Borrachas;
Apontador;
Régua;
Cola;
Fita adesiva;
112
Corda;
Tesoura;
Massa para modelar;
Argila;
Tinta;
Pincéis;
Bonecos e família de bonecos;
Marionetes;
Família de animais domésticos e selvagens;
Bloquinhos de construção;
Carros, aviões, caminhões;
Bolas;
Armas de brinquedo;
Cowboys e índios;
Equipamentos de cozinha e ferramentas domésticas;
Equipamentos de enfermagem;
Quebra-cabeça;
Telefone;
Panos;
Jogos de competição;
Quadro negro.
Casinha.
Podemos dizer que a avaliação psicológica ou Psicodiagnóstico, de acordo com Cunha
configura uma situação com papéis bem-definidos, e com um contrato no qual uma pessoa, que
é o paciente solicita ajuda, e o outro, que no caso é o psicólogo, aceita a esse pedido e se
compromete a satisfazê-lo dentro de suas possibilidades, objetivando investigar alguns aspectos
em particular, de acordo com a sintomatologia e informações da indicação ou queixa. Alguns
autores como Nascimento (2005) afirmam que a avaliação psicológica não tem por objetivo
somente identificar os aspectos deficitários ou patológicos do indivíduo, mas também reconhecer
as suas capacidades e possibilidades, assim procura valorizar o que ele tem de melhor, para
viabilizar seus potenciais.
113
E se nos perguntarmos como se dá a utilização de testes em crianças? Quais seriam
os testes utilizados? Os instrumentos de avaliação de crianças possuem aspectos peculiares em
relação àqueles de aplicação em adultos, pois como já citamos anteriormente, a criança é um
indivíduo em desenvolvimento, apresentando assim características distintas dependendo da
idade em que se encontram, então, alguns instrumentos de avaliação infanto-juvenil devem
apresentar versões específicas para as diferentes faixas etárias. Citaremos alguns
posteriormente.
IMPORTANTE!
Na seleção da bateria de testes, no Psicodiagnóstico
infantil, o psicólogo deve ser muito cuidadoso,
cauteloso, não só na escolha, como também para
analisar os resultados, procurando aproximá-los da
realidade social da criança, não se prendendo somente
a parâmetros meramente quantitativos, mas
principalmente, qualitativos. Que fique claro que não
há uma bateria padrão de testes a ser empregada
com toda criança, mas a necessidade de cada caso ser
vista cuidadosamente e dentro das especificidades da
114
6.3 TESTES QUE PODEM SER UTILIZADOS NO PSICODIAGNÓSTICO INFANTIL
Entrevista Familiar Estruturada: técnica que pretende trazer à tona o dinamismo
do funcionamento familiar, possibilitando a realização, em tempo mais curto, de uma avaliação
das relações familiares.
Teste de Maturidade Mental Colúmbia: fornece uma estimativa da capacidade de
raciocínio geral de crianças de três anos e meio a nove anos e 11 meses.
Escala de Transtorno de Deficit de Atenção/Hiperatividade: instrumento que
pretende avaliar sintomas comportamentais do TDAH, no contexto escolar, tendo o professor
como fonte de informação.
Teste das Fábulas: teste projetivo adequado para detectar crises situacionais e de
desenvolvimento; conflitos neuróticos, transtornos neuróticos e psicóticos, entendimento
psicodinâmico da criança e acompanhamento da evolução do caso, durante o processo
terapêutico.
ESI – Escala de Stress Infantil: escala que se propõe a verificar a existência ou
não de stress em crianças de seis a 14 anos, determinando o grau de reação ao stress mais
frequente apresentada pela criança.
R2 – Teste de Inteligência não verbal: teste de inteligência não verbal que avalia
mais especificamente o “fator g” da inteligência em crianças de cinco a 11 anos.
Bender – Sistema de Pontuação Gradual: teste para avaliar a maturação
perceptomotora em crianças de seis a 10 anos.
Desenho da Figura Humana III: teste que utiliza o desenho da figura humana como
medida do desenvolvimento cognitivo e de desenvolvimento conceitual em crianças de cinco a
12 anos.
Raven Escala Especial: avaliação da inteligência geral em crianças de cinco a 11
anos (desenvolvimento intelectual).
TDE - Teste de Desempenho Escolar: avaliaçãodo desempenho de alunos em
escolas a fim de dimensionar quais áreas da aprendizagem apresenta eventuais dificuldades.
De acordo com Winnicott, os testes devem ser utilizados da seguinte maneira: ele
propõe uma linha de pensamento para a escolha dos testes, saindo dos mais lúdicos (técnicas
115
projetivas gráficas) para se chegar aos mais estruturados, como os de inteligência, ressaltando
uma análise qualitativa da produção obtida nesses testes, levando-se em conta os fatores
emocionais que possam estar interferindo no desempenho intelectual da criança.
6.4 FANTASIAS SOBRE A DOENÇA
E quando tocamos num assunto importante, que é a fantasia dos pais e da criança em
relação à doença ou ao seu diagnóstico, percebemos que essas fantasias nem sempre
coincidem; às vezes, para a mãe, toda a patologia do filho é devido a que ela tem sido
condescendente demais na educação do menino desde o início, já o pai pode pensar da mesma
forma e dizer-nos que na realidade para ele tudo vai se resolver quando o menino for crescendo,
porque tudo pode ser corrigido exclusivamente com a experiência, ou seja, a vida ensina a cada
um como resolver os seus problemas. A criança, por sua vez, pode ter a fantasia de que o seu
problema seja incurável e tem muito medo de não poder ser ajudado – detectar isto é importante
porque nos informa que as resistências são muitas.
Não podemos esquecer-nos de citar um fator bastante importante sobre as fantasias
advindas da mãe: suas fantasias de cura são vindas de fora, e deixam pouca margem para a
reparação de um dano causado em uma época passada que não pode ser modificada. Quanto
às fantasias do pai, podemos dizer que elas giram em torno de que o homem se faz a pancadas,
descarta a possibilidade de ajudar o filho e, ainda mais, desqualifica qualquer intervenção
reparadora. A fantasia da criança é a de que tem uma doença incurável. Tudo isso alertará ao
terapeuta em relação ao enquadre de sua tarefa, e a ser muito cauteloso na entrevista final para
ajudar aos pais de forma que revejam a sua concepção da vida, da doença e da cura.
Segundo Arminda Aberastury (1978), a fantasia de doença e cura é considerada como
algo muito importante a ser levado em consideração na primeira hora do jogo diagnóstico. Ela
diz que a criança é capaz de estruturar, por meio dos brinquedos, a representação de seus
conflitos básicos, suas principais defesas e fantasias de doença e cura, deixando em evidência,
já nos primeiros encontros do acompanhamento, o seu funcionamento mental. Aberastury
(1982), além de evidenciar o valor diagnóstico da entrevista lúdica, tentou diferenciar a hora do
jogo diagnóstica com a hora do jogo terapêutica.
116
Arzeno recomenda incluir e correlacionar:
Em crianças pequenas: horas do jogo, desenho livre, técnicas projetivas;
Em crianças com mais de dez anos, adolescentes e adultos: entrevista, desenho
livre, técnicas projetivas.
O objetivo é a de que encontraremos resultados coincidentes (recorrentes ou
convergentes).
Arzeno (1995) enfatizou o conceito de fantasia de análise que vai se desenvolvendo ao
longo do tratamento. Esse conceito diz respeito a algo que está ali, dentro dela; é algo diferente
de si mesmo, é algo que é sentido como egodistônico (do contrário não seria fantasia de doença)
e que exerce uma enorme influência sobre si mesmo (self) e com o qual existe um determinado
tipo de vínculo. Por isso seria muito importante estudar o material dos testes e das entrevistas,
tentando encontrar essas fantasias.
Assim, quase no encerramento da primeira entrevista, costumamos explicar ao
paciente e/ou aos seus pais, que deverá fazer alguns desenhos, inventar algumas histórias, etc.,
e que logo após haverá a reunião para conversar sobre os resultados. E quando estiver prevista
uma entrevista familiar, devemos também adverti-lo com o tempo, que normalmente não há
resistência quando é dito que desejamos conhecer como é a família quando estão todos juntos.
Durante a hora do jogo diagnóstico e das entrevistas familiares diagnósticas, nosso
papel será o de um observador não participante ou participante; em alguns casos, o mesmo
acontece no momento de aplicar os testes. Somente após colher a produção espontânea do
indivíduo deve-se intervir mais ao fazer algum inquérito e inclusive algum exame de limites.
É importante ressaltar que o contrato, no caso do Psicodiagnóstico infantil, deve ser
feito não só com os pais ou responsáveis, mas também com a criança. E ainda, que o psicólogo
deve assumir uma postura permeável e aberta com a intenção de não estabelecer condições
que logo se tornem insustentáveis, ou por falta de limites ou por limites muito rígidos. Isso
implica em dizer que logo que o cliente exponha a queixa inicial, os elementos imprescindíveis
do contrato devem ser marcados, deixando os mais variáveis para serem abordados no final da
entrevista inicial.
6.5 ESCOLHA DA ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA ADEQUADA
117
Depois de tudo que já foi falado, já dá para termos uma ideia que um Psicodiagnóstico
completo e corretamente administrado permite-nos estimar o prognóstico do caso e a estratégia
mais adequada para ajudar o cliente, assim poderemos usar entrevistas de esclarecimento, de
apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo, familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural;
análise transacional, gestáltica, etc.
ALÇA DE REALIMENTAÇÃO PARA A ENTREVISTA
1) Paciente conta a história;
2) Profissional ouve;
3) Do geral ao específico;
4) Evita direcionamento excessivo;
5) Impede digressão;
6) Objetividade, precisão;
7) Esclarece, resume, realimenta.
Queixa principal;
História da doença atual;
Outros problemas ativos;
História mórbida pregressa;
História familiar;
Perfil do paciente;
Revisão de sistemas.
HIPÓTESES
Sobre a história;
Sobre diagnóstico;
Sobre o paciente;
Sobre a entrevista.
FONTE: Disponível em: <http://www.psiquiatriageral.com.br/educacaomedica/educacaomed2.htm>. Acesso em: 10
ago. 2011.
118
7 ENTREVISTAS, TESTES E EXAME DO ESTADO MENTAL
Tudo se modifica com o passar do tempo e com a entrevista psicológica não foi
diferente: ela sofreu algumas modificações no início do século XIX, quando predominava
totalmente o modelo médico. Ainda naquela época, Kraepelin usava a entrevista com o objetivo
de detalhar o comportamento do paciente, e, assim, poder identificar as síndromes e as doenças
específicas que as classificavam segundo as doenças vigentes; já Meyer se interessava pelo
enfoque psicobiológico, que visava aos aspectos biológicos, históricos, psicológicos e sociais do
entrevistado.
Já na época de Anna Freud o interesse da entrevista se deslocou para as defesas do
paciente, defesas estas, muito bem discutidas por Freud. Assim a psicanálise teve sua influência
na investigação dos processos psicológicos, sem enfatizar o aspecto diagnóstico, antes
valorizado e centrado no modelo da medicina.
Com a técnica Análise Associativa, criada na década de 50 por Deutsch e Murphy,
considerava-se importante registrar não somente o que o paciente dizia, mas também, em
fornecer informações sobre o mesmo, desviando-se assim o foco sobre o comportamento
psicopatológico para o comportamento dinâmico.
Já Carl Rogers procurava compreender significados e componentes emocionais, tendo
como base a sua aceitação incondicional por parte do entrevistador.
Esses são os fatos mais importantes que aconteceram e fizeram com que a entrevista
assumisse a importânciaque ela tem hoje no processo psicoterápico e do psicodiagnóstico.
Agora falaremos das técnicas, e muitas são usadas para se fazer a avaliação
psicológica, mas que fique claro aqui que não são apenas os testes que constituem a avaliação,
ela é feita por meio de observações, da entrevista e mesmo da aplicação de testes e inventários.
Segundo Alchieri e Cruz (2004), a avaliação psicológica perpassa por três dimensões:
Dimensão observacional;
119
Dimensão inquiridora;
Dimensão representativa.
A dimensão observacional é centrada na manifestação da conduta e expressa o mais
imediato dos meios para emitir uma apreciação da ação e reação do avaliando; aqui as
atividades estão representadas na ação de observar e categorizar conteúdos, onde podemos
exemplificar essa dimensão por meio da observação do comportamento infantil no jogo, na
forma, conteúdo e estrutura de suas atividades.
A dimensão inquiridora, segundo Alchieri e Cruz (2004), representa a possibilidade de
verificação mediada pela autopercepção do avaliando, de suas manifestações comportamentais
e cuja expressão centra-se no diálogo estabelecido entre avaliador e avaliando. Esta dimensão
pode ser representada de duas formas:
Escrita por meio de:
Questionários;
Inventários.
Verbal por meio de:
Entrevistas
A dimensão representativa é a medida de comportamentos correlatos; representa o
uso de procedimentos de avaliação e medida do comportamento pretendido, nela se verifica o
comportamento por meios de provas similares de medidas dos aspectos identificados
anteriormente, ou seja, os testes de ação do comportamento. Aqui os testes representam ações,
reações, condutas, expressões de afetos ou habilidades cujo interesse do avaliador está em
representar uma expressão do comportamento antes mesmo de sua emergência.
1. Dimensão Observacional:
Foco na ação;
Conteúdo: comportamento.
2. Dimensão Inquiridora:
120
Foco por meio da entrevista;
Conteúdo: relação entre avaliador e avaliando.
3. Dimensão representativa:
Foco no comportamento;
Conteúdo: ação representativa.
7.1 ENTREVISTA
A entrevista é uma técnica, mas deve ser vista como um contato social entre duas ou
mais pessoas. Ela não é única, existem várias formas de abordá-la de acordo com seu objetivo
específico (que determinam suas estratégias, seus alcances e seus limites) e a orientação do
entrevistador.
Definições:
A entrevista clínica pode ser entendida como um conjunto de técnicas de
investigação, que tem o seu tempo delimitado e é direcionada por um profissional treinado, que
vai utilizar conhecimentos psicológicos, com o objetivo de descrever e avaliar os aspectos
pessoais, relacionais ou sistêmicos (indivíduo, casal, família, rede social) do entrevistado, em um
processo que visa a fazer recomendações, encaminhamentos ou propor algum tipo de
intervenção em benefício das pessoas entrevistadas (CUNHA, 2003);
É um processo bidirecional de interação, entre duas ou mais pessoas com o
propósito previamente fixado no qual uma delas – o entrevistador – procura saber o que
acontece com a outra, o entrevistado, procurando agir conforme esse conhecimento (NUNES
apud CUNHA, 1993);
“Um campo de trabalho no qual se investiga a conduta e a personalidade de seres
humanos.” (BLEGER, 1960, p. 21);
121
A entrevista é parte de um processo, ou melhor, um processo de avaliação, que
pode ocorrer em apenas uma sessão e ser dirigido a fazer um encaminhamento, ou a definir os
objetivos de um processo psicoterapêutico (CUNHA, 2003);
É um procedimento poderoso que é capaz de adaptar-se à diversidade de situações
clínicas relevantes e de fazer explicitar particularidades que escapam a outros procedimentos,
principalmente aos padronizados;
“Uma forma especial de conversão, um método sistemático para entrar na vida do
outro, na sua intimidade.” (RIBEIRO, 1988, p. 154);
É a única técnica capaz de testar os limites de aparentes contradições e de tornar
explícitas características indicadas pelos instrumentos padronizados, dando a eles validade
clínica, por isso, a necessidade de dar destaque à entrevista clínica no âmbito da avaliação
psicológica;
É tida como uma técnica, dentre outras, de extrema relevância, principalmente
porque subexiste ao dia a dia tornando-se cada vez mais eficiente e imprescindível, constituindo-
se como ponto fundamental para o alcance de uma visão global e, consequentemente, de uma
conclusão diagnóstica, a respeito do cliente (ADRADOS, 1982);
“Uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e
a outra se apresenta como fonte de informação.” (GIL, 1999, p. 117).
Mas o que seria a técnica?
Esta é conceituada como uma série de procedimentos que possibilita investigar os
temas em questão, permitindo o alcance dos objetivos primordiais da entrevista, que são
descrever e avaliar, ou seja, levantar informações, a partir das quais se torna possível
relacionar eventos e experiências, fazer inferências, estabelecer conclusões e tomar decisões;
122
O aspecto avaliativo de uma entrevista inicial muitas vezes confunde-se com a
psicoterapia que se inicia, devido:
Ao processo de avaliação que é complexo e exige um conjunto diferenciado de
técnicas de entrevistas e de instrumentos e procedimentos de avaliação, como, por exemplo,
além da entrevista, os instrumentos projetivos ou cognitivos, as técnicas de observação, etc.;
Ao aspecto terapêutico intrínseco a um processo de avaliação e ao aspecto
avaliativo intrínseco à psicoterapia.
Percebe-se que ao vermos a entrevista como um processo ou parte do processo do
psicodiagnóstico consegue-se vislumbrar seu papel e o seu contexto ao lado de uma grande
quantidade possível de procedimentos em psicologia.
Uma das características da entrevista é a de ser dirigida, então, mesmo nas
chamadas entrevistas livres é necessário um direcionamento, o reconhecimento de seus
objetivos pelo entrevistador, pois é no intuito de alcançar os objetivos da entrevista que o
entrevistador estrutura suas intervenção.
VOCÊ SABIA!
Segundo alguns autores, essa investigação se dá
dentro de domínios específicos da psicologia clínica
e leva em consideração conceitos e conhecimentos
amplos e profundos nessas áreas. Esses domínios
incluem, por exemplo, a psicologia do
desenvolvimento, a psicopatologia, a psicodinâmica,
as teorias sistêmicas. Aspectos específicos em
cada uma dessas áreas podem ser priorizados como,
por exemplo, o desenvolvimento psicossexual, sinais
e sintomas psicopatológicos, conflitos de
identidade, relação conjugal, etc.
123
Às vezes, o indivíduo tenta dar outros rumos ou direcionamento à entrevista e nesse
momento o entrevistador precisa estar preparado para lidar de forma a otimizar o encontro entre
a demanda do sujeito e os objetivos da tarefa.
Existem alguns momentos em que o entrevistador define direções:
Quando confronta defesas;
Reconhece afetos;
Pede esclarecimentos.
Algumas funções específicas do entrevistador, segundo Anastasi (2000) e Cunha
(2003):
É dele a responsabilidade pela condução do processo e pela aplicação de
conhecimentos psicológicos em benefício das pessoas envolvidas;
É responsabilidade dele dominar as especificidades da técnica e a complexidade do
conhecimentoutilizado;
É responsabilidade delimitar (estruturar) o processo em seus aspectos clínicos;
Assumir essas responsabilidades profissionais pelo outro tem aspectos éticos
fundamentais, significa reconhecer a desigualdade intrínseca na relação que dá uma posição
privilegiada ao entrevistador;
É responsabilidade dele compreender algo de natureza psicológica, para poder
fazer alguma recomendação, encaminhamento ou sugerir algum tipo de tratamento ou
intervenção;
CONCLUINDO!
Toda entrevista, qualquer tipo que
seja, tem alguma forma de
estruturação no sentido de alcançar os
objetivos desejados e assim tanto o
entrevistador como o entrevistado têm
atribuições diferenciadas de papéis na
124
É responsabilidade zelar pelo interesse e bem-estar do outro;
Também é do entrevistador a responsabilidade de reconhecer a necessidade de
treinamento especializado e atualizações constantes ou periódicas.
Cunha (2003) diz que a complexidade dos procedimentos específicos de cada tipo de
entrevista clínica, dos conhecimentos psicológicos envolvidos e dos aspectos relativos à
competência do entrevistador, necessário para sustentar uma relação interpessoal de
investigação clínica, requerem treinamento especializado; ou seja, Cunha nos diz que os
resultados de uma entrevista dependem largamente da experiência e da habilidade do
entrevistador, além do domínio da técnica.
A entrevista clínica deve ter como beneficiário direto as pessoas entrevistadas, mas
nos dias de hoje, quanto aos psicólogos, têm de haver, cada vez mais, terceiros envolvidos,
como escolas, juízes, empregados, empresas de seguros e etc.; isso fica um pouco obscuro.
Nesse sentido é necessário o psicólogo definir em que sentido quem é o cliente (empresa ou
empregado, por ex.), que demandas são apropriadas ou não e ter explícito o conflito; com essas
atitudes o psicólogo poderá estabelecer a conduta apropriada a cada uma das situações.
IMPORTANTE!
Deve haver a delimitação temporal
para que fique claro o início e o fim de
determinado processo. Assim,
podemos citar o processo de
entrevista, que não há um contrato de
continuidade como em um processo
terapêutico, embora, a entrevista
clínica resulte em um contrato
terapêutico.
125
Essa delimitação temporal que o profissional deve fazer entre a entrevista inicial e o
processo terapêutico tem a função de explicitar as diferenças existentes entre os dois
procedimentos e dos papéis diferenciados do profissional nas duas situações.
Com essa delimitação o profissional define o setting e fortalece o contrato terapêutico,
que pode ser consolidado como conclusões das entrevistas iniciais, sendo que as
recomendações, o encaminhamento ou a definição de um setting e contrato terapêutico podem
ocorrer integrados como parte de uma única sessão de entrevista ou podem ser reservados para
uma entrevista designada exclusivamente para este fim, que chamamos de entrevista de
devolução, demarcando, de maneira mais precisa, o término do processo de avaliação.
A entrevista é uma relação humana entre duas pessoas com características
particulares, devendo assim coletar dados completos do comportamento do indivíduo, ter uma
função de escuta, de observar e vivenciar o que houve.
Na entrevista deve-se estar atento aos fatores como ao grau de ansiedade. Isso surge
porque ambos estão diante de uma situação desconhecida, implicando numa desorganização da
personalidade de cada um dos participantes; esta desorganização poderíamos dizer que é o
fator causador da ansiedade. Sendo assim, durante a sessão, podem aumentar a ansiedade e
os mecanismos de defesa, pois o desconhecido pode ser perigoso em relação à própria
personalidade. Em alguns casos a ansiedade deve ser instrumentalizada.
De acordo com Bleger (1980), a entrevista se diferencia de acordo com o beneficiário
do resultado, assim fica claro que há a entrevista que se realiza em benefício do entrevistado
(consulta psicológica ou psiquiátrica); existe a entrevista cujo objetivo é a pesquisa, valorizando,
apenas, o resultado científico da mesma; e ainda a entrevista que se realiza para terceiros
(serviço a uma instituição).
Já Gilliéron (1996) se refere à entrevista em termos de anamnese, citando que se
podem estudar os comportamentos do paciente praticamente em relação a dois eixos: do ponto
de vista histórico (a anamnese do sujeito que permite a observação dos comportamentos
repetitivos que dão uma ideia exata da sua personalidade) e do ponto de vista da observação,
que também fornece indicações muito precisas sobre a organização da sua personalidade.
De acordo com Erickson (apud KAPLAN E SADOCK, 2007), algumas recomendações
devem ser aplicáveis ao processo de entrevista psicológica: o tempo de entrevista deve ser
marcado e o entrevistador deve tomar esse cuidado para não extrapolar ou mesmo terminar
antes; deve-se limitar o número de assuntos em cada sessão para não confundir o entrevistado
com um bombardeio de assuntos; o entrevistador deve usar expressões mais vagas ao invés de
126
EU; o entrevistador deve ter o cuidado para não transformar a entrevista numa conversa social,
assim como também o término da entrevista não deve transformar-se numa conversa social,
sem ter nenhuma relação com os problemas discutidos; indica-se ao entrevistador que faça um
resumo do que foi discutido, podendo este fazer uma síntese de tudo ao entrevistado; uma forma
de iniciar a entrevista é usando algumas expressões como: “Como posso ajudá-lo?”; a atitude do
entrevistador deve ser de aceitação completa das vivências do entrevistado, não devendo haver
discussão dos pontos de vista de um ou de outro quando forem divergentes e também o
entrevistador não deve completar as frases do entrevistado; pausas e silêncios são, na maioria
das vezes, constrangedores para o entrevistador, possivelmente, nesse momento de silêncio o
entrevistado está revivendo experiências que não consegue expressar verbalmente e caso essas
pausas sejam longas, o que o entrevistador deve fazer é retomar um tópico anterior que estava
sendo discutido; devem-se evitar perguntas que induzam respostas do tipo “sim” ou “não” e
tentar nunca interromper o fluxo do pensamento do entrevistado, a não ser que ele se perca em
ideias que fogem dos tópicos da entrevista. Com essas dicas de Erickson pode-se realizar uma
entrevista bastante proveitosa e sem deslizes.
Gil (1999) diz que as entrevistas podem ocorrer em duas modalidades. A primeira
modalidade que ele enumera é a face a face (que ele diz ser a tradicional) e a segunda por
telefone, a qual a caracterizaremos agora.
Assim como a tradicional, ela tem vantagens e desvantagens. As vantagens seriam por
conta dos custos, que seriam mais baixos, da facilidade na seleção da amostra; maior aceitação
dos moradores das grandes cidades, que temem abrir suas portas para estranhos, mais rápida,
e a facilidade de agendar o momento mais apropriado para a realização da entrevista. As
desvantagens estariam ligadas às limitações havendo: menor quantidade de informações; muitas
vezes interrupção da entrevista pelo entrevistado; impossibilidade de descrever as
características do entrevistado ou observar seu comportamento ou as circunstâncias em que se
realizou a entrevista.
Foddy (2002) aconselha o investigador ou entrevistador a usar expressões como: “Por
acaso você...”; assim revelaria uma atitude casual e comum por parte do entrevistador; tentar
olhar o entrevistado bem nos olhos, e colocar a pergunta sem rodeios de modo a que eles
tenham dificuldadeem mentir; colocar as perguntas causadoras de ansiedade ou perturbadoras
na parte final da entrevista de modo que as respostas não sofram qualquer consequência desse
efeito; usar técnicas projetivas para conseguir algumas informações desejadas, ou seja, de
forma indireta.
127
De acordo com Bleger (1980), o entrevistado que fala muito não traz à tona aspectos
relevantes das suas dificuldades, um desses aspectos revelados nessa circunstância é evitar
uma verdadeira comunicação.
E quando se trata do silêncio? O que pode significar esse silêncio? Como agir diante
dessa circunstância? Alguns autores dizem que o silêncio é uma expressão não verbal que
muitas vezes comunica bem mais que as palavras, e ele é geralmente o fantasma do
entrevistador iniciante. Ele também pode ser considerado uma tentativa de encobrir algo a qual o
sujeito não consegue enfrentar.
Agora veremos alguns “silêncios” que podem ocorrer com frequência durante uma
entrevista ou sessão psicoterápica, citados por Castilho (1995):
VOCÊ SABIA!
Há algumas informações que o entrevistador não
pode deixar passar, pois embora sejam mínimas,
elas podem ter grande repercussão no
entrevistado. Uma delas é que o entrevistador não
deve expor suas reações e nem sua história de
vida, não deve permitir que o entrevistado o
considere um amigo e nem entrar em relação
comercial que não seja o pagamento dos seus
honorários. O entrevistado deve ser recebido com
cordialidade, e não de forma efusiva.
128
De reflexão: este tipo de silêncio pode aparecer após um feedback, uma
intervenção do entrevistador ou depois do entrevistador ter passado por algum tipo de vivência.
Nele não há tensões, há um recolhimento introspectivo de elaboração mental, ou seja, é como
se o entrevistado estivesse elaborado o conteúdo liberado pelo entrevistador.
De medo: nesse tipo de silêncio o entrevistado fica com medo como se tentasse
fugir de uma situação psicologicamente ameaçadora; é um silêncio tenso.
Silêncio de tensão: este tipo de silêncio já expressa ansiedade, assim podemos
observá-lo por meio da postura corporal que pode expressar tensão ou inquietude, da sua
respiração ofegante, do tamborilar dos dedos.
De desinteresse: aqui o entrevistado perde o foco da atenção, camufla resistência,
se desinteressa pela situação externa porque interiormente ela o atinge.
De acordo com Gori (2002), a transferência e a contratransferência são fenômenos que
estão presentes em toda relação interpessoal, inclusive na entrevista. Na transferência o
entrevistado atribui papéis ao entrevistador, e se comporta em função dos mesmos, transfere
situações e modelos para a realidade presente e desconhecida, e tende a configurar esta última
como situação já conhecida, repetitiva.
Segundo Sang (2001, p. 319-20), é a situação analítica e não a sua pessoa o que
levou a paciente a se apaixonar por ele, isto é, que o amor de transferência é essencialmente
impessoal. “[...] o analista não deve nem reprimir nem satisfazer as pretensões amorosas da
paciente. Deve sim, tratá-las como algo irreal”. No que é confirmado por Yalom (2006, p.175),
quando diz que os sentimentos que surgem na situação terapêutica geralmente pertencem mais
ao papel que à pessoa; é um equívoco tomar a adoração transferencial como um sinal de sua
atratividade ou charme pessoal irresistível.
Já na contratransferência as reações emergem do entrevistador, que se originam do
campo psicológico em que se estrutura a entrevista, mas se constituindo num indício de grande
significação e valor para orientar o entrevistador, quando bem conduzida. Caso ela haja, a
contratransferência compete ao entrevistador averiguar como essas atitudes funcionam e como
o afetam.
129
7.1.1 Tipos de entrevistas
Existem diversos tipos de entrevistas, que irão se diferenciar de acordo com seu
objetivo principal e com o trabalho que está sendo realizado. Para cada processo há um tipo de
entrevista, que podem ser classificadas de várias maneiras:
A) Segundo o seu aspecto formal ou estruturação;
B) Segundo os objetivos.
Quanto ao aspecto formal ou estruturação, as entrevistas podem ser divididas em:
Estruturadas;
Semiestruturadas;
Livre estruturação.
1) As entrevistas estruturadas são de pouca utilidade clínica, sendo sua aplicação
mais frequente em pesquisas e sua utilização raramente considera as necessidades ou
demandas do sujeito avaliado – usualmente ela se destina ao levantamento de informações
definidas pelas necessidades de um projeto, pois privilegiam a objetividade, sendo as perguntas
quase sempre fechadas ou delimitadas por opções previamente determinadas, buscando assim
respostas específicas a questões específicas. Segundo Gil (1999), a entrevista Estruturada ou
Fechada se desenvolve a partir de uma relação fixa de perguntas, cuja ordem e redação
permanecem invariáveis para todos os entrevistados, que geralmente são em grande número.
Ela tem muitas funções, uma delas é poder possibilitar o tratamento quantitativo dos dados,
tornando-se mais adequada para o desenvolvimento de levantamentos sociais. Ex.: Entrevista
epidemiológica.
2) A entrevista de livre estruturação, segundo Cunha (2000), pode ser chamada de
entrevista livre ou não estruturada, ou ainda aberta. Nesse modelo o paciente é convidado a falar
livremente sobre aquilo que quiser. Gil (1999) chama esse tipo de entrevista de Informe e a
caracteriza como um tipo menos estruturado, distinguindo-se da simples conversação porque
tem como objetivo básico a coleta de dados, onde o que se pretende é a obtenção de uma visão
130
geral do problema pesquisado, bem como a identificação de alguns aspectos da personalidade
do entrevistado.
3) Nas entrevistas semiestruturadas o entrevistador tem clareza de seus objetivos,
de que tipo de informação é necessária para atingi-los, de como essa informação deve ser
obtida, quando ou em que sequência; em que condições devem ser investigadas e como devem
ser consideradas. Muitos autores, como Cunha, a preferem porque além de modo padronizado,
ela aumenta a confiabilidade ou fidedignidade da informação obtida. Gil (1999) vai mais adiante
e subdivide esse tipo de entrevista em duas: Entrevista Focalizada, que é tão livre quanto a
informal, todavia, enfoca um tema bem específico, permitindo ao entrevistado falar livremente
sobre o assunto, mas quando este se desvia do tema original o entrevistador deve se esforçar
para sua retomada; e Entrevista por Pautas, que apresenta certo grau de estruturação, já que
se guia por uma relação de pontos de interesses que o entrevistador vai explorando ao longo do
seu curso, onde as pautas devem ser ordenadas e guardar certa relação entre si, fazendo com
que o entrevistador faça poucas perguntas diretas e deixando-se falar livremente à medida que
se refere às pautas assimiladas, e se ele por ventura se afasta, o entrevistador intervém de
maneira sutil, para preservar a espontaneidade da entrevista. Ex.: geralmente a entrevista clínica
é assim.
Quanto à classificação das entrevistas a partir dos seus objetivos podemos dizer
que há uma grande variedade. Dentre as mais estudadas vamos citar:
Entrevista de triagem;
Entrevista de anamnese;
Entrevistas diagnósticas;
Entrevistas sistêmicas;
Entrevista de devolução;
Entrevista de encaminhamento;
Entrevista psicoterápica;
Entrevista de seleção;
Entrevista de desligamento;
Entrevistade pesquisa.
1. Entrevista de triagem: tem por objetivo principal avaliar a demanda do sujeito e
fazer um encaminhamento. Ela é fundamental para avaliar a gravidade do caso ou da crise que o
indivíduo está passando, pois muitas vezes é necessário o encaminhamento para apoio
131
medicamentoso. Geralmente, é utilizada em serviços de saúde pública ou em clínicas sociais,
onde existe a procura contínua por uma diversidade de serviços psicológicos, e torna-se
necessário a adequação da demanda em relação ao encaminhamento pretendido. Uma
observação importante e que não pode ser deixada de lado é que o clínico que trabalha sozinho
também terá que triar seus clientes e encaminhar aqueles que não julgar adequado atender, isso
conforme sua especialidade e competência.
2. Entrevista de anamnese: tem por objetivo o levantamento detalhado da história de
desenvolvimento da pessoa, principalmente na infância. A anamnese é uma técnica de
entrevista que pode ser facilmente estruturada cronologicamente, pois vai analisar e facilitar a
apreciação de questões desenvolvimentais por parte do clínico, sendo investigadas fases
importantes do desenvolvimento. (será aprofundada no tópico seguinte).
3. Entrevistas diagnósticas: esta entrevista visa ao exame e análise de uma
condição na tentativa de compreendê-la, explicá-la e talvez, ou possivelmente, modificá-la. Aqui
há implicações como descrever, avaliar, relacionar e inferir para que se possa modificar aquela
condição a qual o paciente traz. Visa a estabelecer o diagnóstico e o prognóstico do paciente,
bem como as indicações terapêuticas adequadas, fazendo-se necessário uma coleta de dados
sobre a história do paciente e sua motivação para o tratamento. Quase sempre, a entrevista
diagnóstica é parte de um processo mais amplo de avaliação clínica que inclui testagem
psicológica. Esse tipo de entrevista pode, segundo Cunha (2003), priorizar os aspectos
sindrômicos ou psicodinâmicos. Os aspectos sindrômicos visam à descrição de sinais e sintomas
para a classificação de um quadro ou síndrome. Os aspectos psicodinâmicos visam ao modo de
funcionamento, à descrição e à compreensão da experiência ou do modo particular de
funcionamento do sujeito, tendo em vista uma abordagem teórica. É um tipo de entrevista que
visa à modificação de um quadro apresentado em benefício do sujeito.
4. Entrevistas sistêmicas: focalizam a avaliação da estrutura ou da história relacional
ou familiar. Podem também avaliar aspectos importantes da rede social de pessoas e famílias.
5. Entrevista de devolução: tem por finalidade comunicar ao sujeito o resultado da
avaliação. Essa entrevista também pode ser útil, por permitir ao sujeito expressar seus
sentimentos em relação às conclusões e recomendações do avaliador. Podendo ainda avaliar a
reação do sujeito à conclusão. Ela pode ser integrada em uma mesma sessão, ao final da
entrevista ou quando as atividades de avaliação se estendem por mais de uma sessão, ela pode
se destacar do restante do processo por meio da entrevista de devolução.
6. Entrevista Psicoterápica: este tipo de entrevista procura colocar em prática
132
estratégia de intervenção psicológica presente nas diversas abordagens, para acompanhar o
paciente, esclarecer suas dificuldades, tentando ajudá-lo a solucionar seus problemas. Como
exemplo, podemos citar a abordagem rogeriana (C. Rogers), jungiana (C. Jung), gestalt (F.
Perls), bioenergética (A. Lowen), logoterapia (V. Frankl) e outras.
7. Entrevista de Encaminhamento: nesse tipo de entrevista deve ficar claro para o
entrevistado, logo no início, que a mesma tem como objetivo indicar seu tratamento, e que este
não será conduzido pelo entrevistador ou continuará o processo, ou seja, deixa-se explícito que
será apenas uma entrevista e o paciente será encaminhado logo ao seu final. Assim devem-se
obter informações suficientes para se fazer uma indicação e ao mesmo tempo evitar que o
entrevistado desenvolva um vínculo forte, uma vez que pode dificultar o processo de
encaminhar.
7.1.2 Outros tipos de entrevistas
Entrevista de Seleção: realizada principalmente em empresas que objetivam
contratar mão de obra. Aqui o entrevistador deve ter um conhecimento prévio do currículo do
entrevistado, do perfil do cargo, deve fazer uma sondagem sobre as informações que o
candidato tem a respeito da empresa, e destacar os aspectos mais significativos do examinando
em relação à vaga que ele deseja ocupar.
Entrevista de Desligamento: essa entrevista tem como objetivo identificar os
benefícios do tratamento por ocasião da alta do paciente; examina junto com ele os planos da
pós-alta ou a necessidade de trabalhar algum problema ainda pendente; ela também é utilizada
com o funcionário que está deixando a empresa, e tem como o objetivo obter um feedback
sobre o ambiente de trabalho, para providenciais intervenções do psicólogo em caso, por
exemplo, de alta rotatividade de demissão num determinado setor.
Entrevista de Pesquisa: aqui o objetivo principal é investigar temas em áreas das
mais diversas ciências; tem algumas restrições como só poder ser realizada somente a partir da
assinatura do entrevistado ou paciente com o documento: Termo de Consentimento Livre
133
Esclarecido (Resolução CNS no 196/96), no qual estará explícita a garantia ao sigilo das suas
informações e identificação, e liberdade de continuar ou não no processo.
7.2 EXAME DO ESTADO MENTAL
Como já citamos antes, de acordo com Strauss (1999), o exame do estado mental do
paciente e a entrevista também são considerados recursos básicos de um diagnóstico e se
desenvolve como outra interação clínica, no contexto de uma entrevista. Ele permite a coleta de
subsídios introdutórios que vai fundamentar o processo a que chamamos de psicodiagnóstico.
As anotações feitas neste exame deverão ser feitas de forma que alguém de fora da
área médica ou especificamente de fora da área psicológica possa compreendê-las. Sua
organização deve obedecer a determinadas categorias que, obrigatoriamente, serão citados pelo
entrevistador, como aparência, fala, humor, pensamento, percepções, sensórios, insight e
discernimento. Estes tópicos apontam para os diferentes aspectos da vida psíquica do indivíduo
que devem ser investigados.
O exame do estado mental, segundo Kaplan e Sadock (2007), é a descrição da
aparência, do discurso, das ações e dos pensamentos do paciente durante a entrevista.
Descreveremos todas as categorias de acordo com os autores acima citados.
7.2.1 Descrição geral
Nessa categoria descreve-se a impressão geral que o paciente causa no entrevistador.
Aqui são investigados dados como:
134
Aparência: descreve-se a aparência e impressão física do paciente, tipo
constitucional, condições de higiene pessoal, vestuário, cuidados pessoais. Não confundir com a
classe social a que pertence o indivíduo. Pode descrever a aparência por meio de termos como
saudável, doentia, mal-estar, equilibrada, jovial, desarrumada, infantil ou bizarra. Pode-se
também descrever sinais de ansiedade observados como mãos úmidas, olhos arregalados,
postura tensa ou testa suada.
Comportamento e Atividade psicomotora: essa categoria refere-se a aspectos
quantitativos e qualitativos do comportamento motor do paciente, incluindo tiques, gestos,
contrações musculares, maneirismos, comportamentos estereotipados, hiperatividade, agitação,
flexibilidade, rigidez, andar e agilidade. Então, procura-se observar atitudes e movimentos
expressivos da fisionomia: triste, alegre, ansioso, temeroso, desconfiado, esquivo, dramático,medroso; gesticulação, observando se é ausente ou exagerada; a capacidade motora se é
inquieto, imóvel, incapaz de manter-se em um determinado local; observa-se seu modo de
caminhar, se é tenso, elástico, largado, amaneirado, encurvado. É importante também
descrever, se houver, retardos motores ou redução generalizada nos movimentos corporais e
relatar atividades sem propósito ou objetivo. A psicomotricidade pode ser observada no decorrer
da entrevista.
Atitude para com o entrevistador: aqui se registra o nível de harmonia
estabelecido entre examinador e examinando. Atitudes como amigável, cooperativo, submisso,
interessado, arrogante, sedutor, franco, desconfiado, apático, perplexo, superior, desdenhoso,
irritado, indiferente, evasivo, hostil, bem-humorado, normalmente responsivo às deixas do
entrevistador, não espontâneo (tipo pergunta e resposta), fala muito, exaltado e muitos outros
termos adjetivos poderão ser usados.Ex.: “Mostra-se tímido, mas tem uma atitude amigável com
o examinador...”.
7.2.2 Humor e afeto
135
Humor: o humor é definido como uma emoção ampla e prolongada que colore a
percepção que se tem do mundo. Ele é mais superficial e variável do que a afetividade,
podendo-se observar com mais facilidade numa entrevista; é uma emoção difusa. O humor em
algumas pessoas pode ser instável, flutuante e alternar rapidamente entre extremos. Aqui se
investiga como o paciente se sente: se deprimido, desesperado, angustiado, bravo, irritável,
ansioso, apavorado, zangado, expansivo, perplexo, eufórico, culpado, atônito, fútil,
autodepreciativo. Existem alguns tipos de humor:
o Normotímico: normal;
o Hipertímico: exaltado;
o Hipotímico: baixa de humor;
o Distímico: quebra súbita da tonalidade do humor durante a entrevista;
o Esses que citamos acima são os mais comuns, mas existem outras classificações,
que apenas as citaremos a título de informação: Humor disfórico, eutímico, expansivo, irritável,
instável ou também conhecido como flutuações de humor, humor elevado, euforia, êxtase,
depressão, anedonia, luto, alexitimia, júbilo, hipomania, mania, melancolia, La belle indifférence.
Nesse exame, deve-se descrever o humor do paciente sem registrar termos técnico.
Ex.: “O paciente apresenta humor exaltado...”.
Afeto: o afeto revela a sensibilidade intensa da pessoa frente à satisfação ou
frustração das suas necessidades, podendo ainda ser definida como uma resposta emocional
atual do paciente, inferida a partir de sua expressão facial, incluindo a quantidade e variedade de
comportamentos expressivos. O fato pode ser ou não congruente com o humor, sendo descrito
como estando dentro de um limite:
o Normal: aqui há uma variação na expressão facial, no tom de voz, no uso das mãos
e nos movimentos corporais;
o Constrito: a variedade e intensidade das expressões são reduzidas;
o Embotado: a expressão emocional é reduzida ainda mais;
o Plano: não há nenhum sinal de expressão afetiva;
o Outros tipos de afeto: afeto inadequado, afeto instável. Então, percebe-se que o
afeto diz respeito à tonalidade afetiva com que alguém se relaciona às ligações afetivas que o
paciente estabelece com a família e com o mundo.
136
7.2.3 Características do discurso
Discurso: quando se discute sobre o discurso, analisam-se as características
físicas do discurso, que pode ser referido em termo de sua quantidade, taxa de produção e
qualidade. Assim o paciente pode ser descrito como falante, tagarela, calado, fluente, pouco
espontâneo ou que responde normalmente às pistas fornecidas pelo entrevistador. Já quando se
trata da fala, podemos classificá-la como lenta, hesitante, apressada, monótona, ruidosa,
confusa, emocional, dramática e etc. Aqui incluímos algumas limitações da fala como a gagueira,
ou disprosódias.
7.2.4 Percepção
Pensamento: este item da anamnese é destinado à investigação do curso, forma e
conteúdo do pensamento, pois é por meio deste que o ser humano é capaz de manifestar suas
possibilidades de adaptar-se ao meio, sendo por intermédio dele que se elaboram conceitos,
articulam-se juízos, constrói-se, solucionam-se problemas, elaboram-se conhecimentos
adquiridos e ideias. O pensamento pode ser dividido em:
o Processo (forma): maneira como o indivíduo reúne ideias e associações, a forma
como ele pensa, podendo ser lógicos e coerentes ou completamente ilógicos e
incompreensíveis. A forma é a maneira como o conteúdo do pensamento é expresso. O
pensamento abriga um encadeamento coerente de ideias ligadas a uma carga afetiva, que é
transmitida pela comunicação. As desordens da forma podem ocorrer por perdas (orgânicas) ou
deficiência (oligofrenia) qualitativas ou quantitativas de conceitos ou por perda da
intencionalidade (fusão ou condensação, desagregação ou escape do pensamento, pensamento
137
imposto ou fabricado), onde pode se compreender as palavras que são ditas, mas o conjunto é
incompreensível.
o Conteúdo: se refere àquilo que o sujeito realmente pensa sobre delírios, crenças,
preocupações, obsessões, compulsões, fobias, planos intenções, ideias recorrentes sobre
suicídio ou homicídio, sintomas hipocondríacos e ânsia antissociais específicas.
o Curso: alguns autores citam esse tipo de classificação para o pensamento: trata-se
da velocidade com que o pensamento é expresso e pode ir do acelerado ao retardado, passando
por variações.
De acordo com Kaplan e Sadock (2007), nas perturbações da forma do pensamento
acontecem uma superabundância ou pobreza de ideias, podendo haver Transtornos de
Pensamento Formal:
o Circunstancialidades: perda da capacidade de pensar de forma orientada para os
próprios objetivos, inclusão exagerada de detalhes triviais ou irrelevantes que impedem de se
chegar à questão;
o Associação por assonância: pensamentos associados pelo som das palavras e
não por seu significado, como rimas;
o Descarrilhamento ou associações frouxas: ideias frouxas ou ideias que parecem
não ser relacionadas ou conectadas, ou seja, quebra na conexão lógica entre as ideias e o
sentido de objetividade geral;
o Fuga de ideias: sucessão de associações múltiplas, de maneira que o pensamento
parece trocar abruptamente de ideia para ideia;
o Neologismo: invenção de novas palavras ou expressões ou uso de palavras
convencionais de maneira idiossincráticas;
o Perseverança: repetição de palavras, ideias e expressões fora do contexto;
o Tangencialiodade: o paciente não reponde à questão a qual foi questionado, dá
uma resposta que é apropriada para o tópico geral;
o Bloqueios: interrupção do fluxo do pensamento antes de uma ideia ser concluída,
quebra no fluxo de ideias;
o Outros transtornos: incoerência, verbigeração, ecolalia, condensação e
glossolalia.
138
As perturbações no conteúdo do pensamento estão associadas a determinadas
alterações, como as obsessões, hipocondrias, fobias e especialmente os delírios.
Os transtornos específicos no conteúdo do pensamento são: pobreza de conteúdo,
ideia supervalorizada, delírio (engloba vários tipos, que citaremos adiante), pensamento
tendencioso, egomania, monomania, hipocondria, obsessão, compulsão, coprolalia, fobia, noese,
unio mystica.
Prenderemo-nos aos delírios que podem ser classificados como: bizarro,
sistematizado, congruente com o humor, incongruente com o humor, niilista, de pobreza,
somático, paranoide, de autoacusação, de controle, de infidelidade, erotomania e delírio de
pseudologia fantástica.
Para se classificar uma ideia de delirante tem-se que levar em conta alguns aspectos:
o Incorrigibilidade:não há como modificar a ideia delirante por meio de correções;
o Ininfluenciabilidade: a vivência é muito intensa no sujeito, chegando a ser mais
fácil o delirante influenciar a pessoa dita normal;
o Incompreensibilidade: não pode ser explicada logicamente.
O delírio é uma convicção íntima, contra a qual não há argumento. Eles podem ser
primários (núcleo da patologia) ou secundários (são consequentes a uma situação social, a uma
manifestação afetiva ou a uma disfunção cerebral).
Faz-se necessário fazer a distinção entre delirium e delírio: o primeiro pode-se dizer
que é um rebaixamento da consciência e como exemplo temos o delirium tremens; delirium
febril. O segundo é conceituado como uma alteração do pensamento, ou seja, alteração do juízo
e pode se dividir em ideia delirante ou delírio verdadeiro, que é primário e ocorre com lucidez de
consciência, não sendo consequência de qualquer outro fenômeno, ou simplificando podemos
dizer que é um conjunto de juízos falsos, que não se sabe como eclodiu. E ideia deliroide, que é
secundária a uma perturbação do humor ou a uma situação afetiva traumática, existencial grave
ou uso de droga. Há uma compreensão dos mecanismos que a originaram.
139
As ideias delirantes podem ser agrupadas em expansão do eu (grandeza, ciúme,
reivindicação, genealógico, místico, de missão salvadora, deificação, erótico, de ciúmes,
invenção ou reforma, ideias fantásticas, excessiva saúde, capacidade física, beleza...); retração
do eu (prejuízo, autorreferência, perseguição, influência, possessão, humildade, experiências
apocalípticas) ou ainda negação do eu (hipocondríaco, negação e transformação corporal,
autoacusação, culpa, ruína, niilismo, tendência ao suicídio).
Senso percepção: fundamenta-se na capacidade de perceber e sentir,
investigando-se assim as experiências ilusórias ou alucinatórias que são acompanhadas de
profundas alterações do pensamento. Ilusão é a percepção deformada da realidade, uma
interpretação errônea do que existe. Já Alucinação é uma percepção sensorial falsa, sem
associação e estímulos externos reais, podendo ou não haver uma interpretação delirante da
experiência alucinatória. Pode-se dizer uma percepção sem objeto. Os transtornos de percepção
podem ser subdivididos em: Alucinações e Ilusões. Caso o paciente não apresente nenhuma
situação digna de nota neste item, pode-se registrar: “Não apresenta experiências ilusórias ou
alucinatórias”.
Consciência do Eu e da doença: o indivíduo tem consciência dos próprios atos
psíquicos? Qual percepção tem do seu eu? O terapeuta orientará sua entrevista no sentido de
saber se o paciente acha que seus pensamentos ou atos são controlados por alguém ou forças
exteriores. E quanto à consciência da doença atual, verifica-se o grau de consciência e
compreensão que o paciente tem de estar enfermo, assim como a sua percepção de que precisa
ou não de um tratamento.
7.2.5 Sensório e cognição
Consciência: significa ter ciência, ou seja, percepção de alguma coisa. Sentimento
ou percepção do que se passa em nós; voz secreta da alma que aprova ou reprova as nossas
140
ações. É a capacidade do indivíduo de dar conta do que está ocorrendo dentro e fora de si
mesmo. Aqui será a indicação do processo psíquico complexo, que é capaz de integrar
acontecimentos de um determinado momento numa atividade de coordenação e síntese. Os
distúrbios da consciência geralmente indicam dano cerebral orgânico, assim o que acontece é
que as informações sensoriais chegam amortecidas ou nem chegam à consciência. Existem
vários transtornos para descrever o nível de consciência do sujeito, e como já dissemos, eles
costumam estar associados a patologias cerebrais: Sonolência; Rebaixamento ou embotamento;
Turvação ou Obnubilação: rebaixamento geral da capacidade de perceber o ambiente; Estupor;
Coma; Coma vígil; Letargia; Alerta; Estreitamento (perda da percepção do todo com uma
concentração em um único objetivo paralelo à realidade); Perturbação da consciência; Estado
crepuscular; Estado onírico e Crepuscular. No decorrer do exame do estado mental cabe ao
entrevistador avaliar o grau de alteração da consciência, observando se o paciente faz esforço
para manter o diálogo e levar a entrevista a termo, se a confusão mental interfere na exatidão
das respostas, que se fazem com lentidão, ou se o paciente chega mesmo a cochilar, adormecer
no curso da entrevista.
Orientação: é o estado normal do indivíduo em relação a seu entorno em termos
de tempo, lugar ou pessoa. Complexo de funções psíquicas, pelo qual tomamos consciência da
situação real em que nos encontramos a cada momento de nossa vida. Os transtornos de
orientação costumam ser separados em tempo, lugar e pessoa, pois geralmente qualquer
limitação aparece nessa ordem e de maneira semelhante, à medida que a melhora ocorre, a
limitação desaparece na ordem inversa. A orientação pode ser inferida da avaliação do estado
de consciência. Para definir melhor como se dá a desorientação, pode-se dizer que o primeiro
sentido de orientação que se perde é o do tempo, depois o do espaço, que envolve
deslocamento e localização e, num estado mais grave, a desorientação do próprio eu (identidade
e corpo). A orientação divide-se em:
o Autopsíquica: paciente sabe quem ele é, reconhece dados de identificação
pessoal;
o Alopsíquica: paciente reconhece os dados fora dele ou podemos dizer do eu no
ambiente: Temporal: dia, mês, ano em que está; em que parte do dia se localiza (manhã, tarde,
noite); Espacial: o paciente reconhece o lugar em que se encontra, para que serve; a cidade
onde está; como chegou ao consultório; Somatopsíquica: alterações do esquema corporal,
como, por exemplo, a incapacidade de localizar o próprio nariz ou olhos.
141
Memória: função pela qual as informações armazenadas no cérebro são trazidas à
consciência posteriormente. Ela permite a integração de cada momento passado, presente e
futuro. As funções da memória são tradicionalmente divididas em quatro áreas:
o Memória remota;
o Memória do passado recente;
o Memória recente (anterógrada);
o Retenção e recuperação imediata.
Há cinco dimensões principais do seu funcionamento:
o Percepção: maneira como o sujeito percebe os fatos e atitudes em seu cotidiano e
os reconhece psiquicamente;
o Fixação: é a capacidade de gravar imagens na memória;
o Conservação: refere-se a tudo que o sujeito guarda para o resto da vida; a memória
aparece como um todo e é um processo tipicamente afetivo;
o Evocação: atualização dos dados fixados – nem tudo pode ser evocado;
o Reconhecimento: é o momento em que fica mais difícil detectar onde e quando
determinado fato aconteceu no tempo e no espaço.
Resumo de testes de memória, de acordo com Kaplan e Sadock (2007), tentando-se
avaliar o envolvimento dos processos de registro, retenção ou recuperação do material:
o Memória remota: pergunta ao paciente sobre dados da infância, eventos
importantes que ocorreram quando o paciente era jovem ou saudável, questões pessoais;
o Memória do passado recente: questiona-se algo sobre os últimos meses;
o Memória recente (anterógrada): pergunta-se sobre os últimos dias, aquilo que o
paciente fez ontem, anteontem, o que comeu no café da manhã, no almoço, no jantar;
o Retenção e recuperação imediata: aqui se avaliam medidas de lembranças de
números, capacidade de repetir seis números após o examinador o ditar, primeiramente em uma
ordem, depois em ordem inversa (aqueles com problemas de memória em geral conseguem
repetir seis números de trás para diante), capacidade de repetir três palavrasimediatamente, e
três a cinco minutos depois.
142
Concentração e Atenção: No dicionário Aurélio, encontramos o fenômeno da
atenção definido como “aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa” e concentração como
“aplicação da atenção da mente de modo interno e exclusivo. A concentração pode ser afetada
por transtornos cognitivos, depressivos, de ansiedade e estímulos internos, como alucinações
auditivas. A atenção é um processo psíquico que concentra a atividade mental sobre
determinado ponto, traduzindo um esforço mental”. Destaca-se aí a:
o Vigilância: consciência sem foco, difusa, com atenção em tudo ao redor;
o Tenacidade: capacidade de se concentrar num foco.
Investiga-se assim:
o Atenção normal ou euprossexia ou Normovigilância;
o Hipervigilância: ocorre num exagero, na facilidade com que a atenção é atraída
pelos acontecimentos externos;
o Hipovigilância: é um enfraquecimento significativo da atenção, onde é difícil obter a
atenção do paciente;
VOCÊ SABIA!
Os transtornos de memória mais comuns exposto em
Kaplan e Sadock (2007) são: Amnésia (Anterógrada
ou Retrógrada); Paramnésia (Fausse reconnaissance;
Falsificação retrospectiva; Confabulação; Déjà vu;
Déjà entendu; Déjà pensé; Jamais vu e Falsa
memória); Hipermnésia; Imagem eidética; Memória
seletiva; Repressão; Letológica e Apagamento.
143
o Hipertenacidade: a atenção se adere em demasia a algum estímulo ou tópico;
concentração num estímulo;
o Hipotenacidade: a atenção se afasta com demasiada rapidez do estímulo ou tópico.
Inteligência: capacidade de entender, recuperar, mobilizar e integrar de maneira
construtiva os aprendizados anteriores ao deparar-se com situações novas. Aqui se faz uma
pequena avaliação para se constatar se o paciente está dentro da normalidade, interessando a
autonomia que o paciente tenha a sua capacidade laborativa. Assim, é avaliado se o paciente
tem: Retardo mental; Demência; Pseudodemência; Pensamento concreto e Pensamento
abstrato.
Que fique claro que a consciência, a inteligência e a memória estão alocadas entre as
funções psíquicas de base.
Linguagem: conjunto das palavras e expressões usadas por um povo, por uma
nação, e o conjunto de regras da sua gramática, e é por meio da linguagem que nos
comunicamos. Ela é considerada como um processo mental predominantemente consciente,
significativo, além de ser orientada para o social. É um processo dinâmico que se inicia na
percepção e termina na palavra falada ou escrita e, por isso, se modifica constantemente. A
linguagem verbal é expressa por intermédio da fala, ou seja, a fala é conceituada como conjunto
de ideias, pensamentos, sentimentos expressados por meio da linguagem. Citaremos alguns
transtornos da fala e transtornos afásicos (alterações na produção da linguagem) de acordo com
Kaplan e Sadock (2007):
Transtornos da fala: Pressão da fala; Volubilidade ou logorreia; Pobreza da fala;
Fala não espontânea; Pobreza de conteúdo; Disprosódia; Fala excessivamente alta ou baixa;
Tartamudez; Cluttering (fala errática ou disrítmica); Aculalia; Bradilia e Disfonia.
Transtornos Afásicos: Afasia motora ou afasia de Broca; Afasia sensorial; Afasia
nominal; Afasia sintática; Afasia de jargão; Afasia global; Alogia e Coprofrasia.
7.2.6 Impulsividade
144
Uma avaliação do controle de impulsos é essencial para verificar se o paciente tem
consciência de comportamentos socialmente apropriados, representando uma medida do perigo
potencial do paciente para si mesmo e para terceiros. Verifica-se se o paciente é capaz de
controlar impulsos sexuais, agressivos e outros.
7.2.7 Discernimento e insight
Aqui se avaliam muitos aspectos da capacidade de discernimento do paciente, como
se ele entende o resultado provável de seu comportamento? É influenciado por esse
entendimento? Consegue prever situações imaginárias?
Quanto ao insight, podemos conceituá-lo como o grau de consciência e entendimento
em relação a estar doente.
7.2.8 Confiabilidade
Este relatório termina com esta seção, onde se avalia a confiabilidade do paciente em
relação ao profissional; isso pode ser confirmado quando o paciente conta algo que tenha a ver
com problemas legais ou da lei.
Uma vez realizado e redigido o exame psíquico, deverão constar na súmula os termos
técnicos que expressam a normalidade ou as patologias observadas no paciente. Trata-se de um
resumo técnico de tudo o que foi observado na entrevista.
145
Agora apresentaremos dois modelos de roteiros usados para se fazer o Exame
do Estado Mental:
ROTEIRO 1
EXAME PSÍQUICO
Apresentação:
Aspecto geral e cuidados (ex.: higiene, cabelo, barba, vestes, presença de
adornos);
Faces (ex.: marmórea, melancólica);
Porte (ex.: encurvado, retraído);
Atitude em relação ao investigador (ex.: adequação, colaboração, hostilidade,
oposição, desconfiança).
Consciência:
Quantitativa ou Nível de consciência:
o Vigil/hipervigil (aumentada);
o Alerta (normal);
o Obnulado;
o Comatoso/flutuação (diminuição);
Qualitativa: estados crepusculares, estados dissociativos, transe;
Fenômenos da Consciência do Eu (continuidade, atividade, oposição, identidade).
Orientação:
Alopsíquica:
o Tempo (ano/mês/dia/hora);
146
o Espaço (lugar caminho realizado);
Autopsíquica: nome, idade, sexo, profissão, estado civil (...).
Atenção:
Voluntária (concentração/tenacidade): avaliação: digit span, soletrar “MUNDO” em
ordem inversa.
Espontânea (reação aos estímulos externos - prosexia).
Obs.: distraibilidade: atenção voluntária ↓ e espontânea ↑(ex: mania, delirium).
Memória:
Alterações quantitativas:
o Fixação (pesquisar fatos recentes/avaliar aquisição de informações novas; ex.:
“teste das três palavras”);
o Evocação (pesquisar fatos antigos/autobiográficos).
Alterações Qualitativas:
o Confabulação;
o Amnésia dissociativa (presente na histeria);
o Rememorações delirantes (ex: delírios persistentes, esquizofrenia).
Afetividade
Componentes do afeto:
o Tônus (quantidade, carga);
o Modulação (variação);
o Ressonância: aos estímulos + ou –.
Tipos:
o Embotamento afetivo (afeto hipotônico, hipomodulante e pouco ressonante
característico da esquizofrenia);
o Labilidade afetiva (passagem súbita de um estado afetivo para outro);
147
o Dissociação do afeto (incoerência entre a ideia expressa e o afeto presente na
histeria -“La belle indifference”);
o Ambivalência (amor/ódio ao objeto vivenciado na esquizofrenia).
Humor (estado basal do afeto)
Tipos:
o Eutímico (normal);
o Depressivo;
o Elado/elevado (ex.: hipomania);
o Eufórico (ex.: mania/intoxicação exógena);
o Disfórico (instável, depressivo e irritável; ex.: personalidade borderline);
o Ansioso;
o Irritável;
o Delirante ou tremático (perplexidade característica das fases prodrômicas das
psicoses);
Pensamento/Discurso:
Componentes do Pensamento:
o Curso:
Aceleração;
Lentificação;
Bloqueio/roubo do pensamento;
o Forma:
Organizada (lógica);
Arboriforme (intencionalidade/meta preservada);
“Fuga de ideias” / “descarrilamento” (pensamento mais veloz que articulação das
palavras, conexão dos elementos por assonância, perda da meta);
Desorganizado/desagregado (falta de conexão entre as ideias, “salada de
palavras”);
o Conteúdo (tema): desvalia, ruína, niilista,grandiosidade, persecutoriedade,
místico/religioso. Obs.: o pensamento é inferido indiretamente pelo discurso.
Discurso (manifestação explicita da linguagem):
148
o Logorreia/pressão de discurso (ex.: mania);
o Prolixo/barroco (ex.: obsessivo, epilepsia);
o Concreto (ex.: crianças, retardo mental);
o Perseverante (ex.: lesão lobo frontal);
o Lacônico (pouco, conciso);
o Neologismos (esquizofrenia hebefrênica);
o Ecolalia (catatonia, síndrome de tiques);
o Coprolalia (idem).
Sensopercepção:
IIusão: distorção de um percepto real, não necessariamente patológica (ex.:ilusão
óptica);
Alucinações (verdadeiras): percepção nítida, objetiva e externa na ausência de um
percepto real (ex.: “Doutor, são vozes de mulheres vindas da sala que comentam as minhas
ações.”); Obs.: alucinações auditivas são as mais comuns; visuais, tácteis e cenestésicas:
afastar transtorno orgânico (ex.: delirium, epilepsia, tumor);
Pseudoalucinações: localizadas no espaço subjetivo interno (ex.: “vozes dentro da
cabeça”);
Alucinose: crítica do indivíduo em relação ao fenômeno (ex.: alucinose alcoólica)
Juízo:
Capacidade de criticar/ajuizar/avaliar satisfatoriamente a realidade vivida;
Gradações:
o Ideias sobrevaloradas (ex.: fundamentalismo religioso, apaixonamentos);
o Ideias deliroides (ex.: ideias de grandeza em mania);
o Delírio: alteração patológica do juízo: pensamento errôneo, fato improvável
caracterizado por uma certeza subjetiva, irrefutabilidade pela lógica e impossibilidade de se
compartilhado;
Tipos: ciúme, persecutórios, ruína, grandeza, místico etc. (ex.: esquizofrenia e
delírios persistentes).
149
Vontade/Conação:
1º: representações volitivas = intenção (vontade/desejo/interesse):
o Alterações quantitativas:
Hipobulia (ex.: depressão);
Hiperbulia (ex.: mania);
o Alterações Qualitativas: piromania, parafilias (ex.: pedofilia).
2º: tomada de decisão (envolve juízos, deliberação):
o Alteração: hesitação enfrentada em estados depressivos e obsessivos;
3º: pragmatismo: capacidade de praticar ou interromper ações (ex.: cessar um
vício); capacidade de manter atividades gerais da vida prática (ex.: banhar-se, estudar).
Psicomotricidade:
Lentificação (ex.: Parkinson, depressão);
Inquietude (ex.: ansiedade);
Agitação (ex.: mania);
Movimentos repetitivos e estereotipados (ex.: tiques, ecopraxia);
Flexibilidade cerúlea (ex.: catatonia);
Distonias;
Acatisia;
Discinesia tardia (ocasionada pelo uso de neurolépticos).
Inteligência:
Função psíquica complexa que determina resolução de problemas e adaptação do
indivíduo;
Avaliar histórico escolar, profissão; considerar nível cultural e regionalismos;
Medida quantitativa (QI); cálculo, resolução de equações, capacidade de abstração
(ex.: compreensão de ditados populares).
150
Personalidade:
Função psíquica complexa que determina o ajustamento do indivíduo e seu padrão
de resposta às condições impostas.
Determinada por quatro componentes:
o Temperamento (componente afetivo): predominantemente herdado (“ele é explosivo
como o pai”);
o Caráter (componente conativo): predominantemente adquirido (“ele ficou egoísta
depois que saiu do orfanato”);
o Componente intelectivo (Inteligência);
o Componente somático/biológico (estatura, genética).
Avaliação do padrão “gatilho-resposta”, diversas entrevistas, convocação de familiares.
ROTEIRO 2
EXAME PSÍQUICO
Pontos principais a serem investigados:
1. INSPEÇÃO:
Vestuário, a atitude, os gestos, a fisionomia, a mímica, linguagem, conduta (atos
simples, complexos, isolados, associados, voluntários, involuntários, com objetivos ou sem
objetivos etc.).
151
2. EXAME DAS FUNÇÕES PSÍQUICAS:
Atenção;
Percepção;
Memória;
Imaginação;
Associação ideativa;
Julgamento;
Orientação auto e alopsíquica;
Consciência;
Inteligência;
Afetividade;
Sentimentos éticos;
Vontade;
Iniciativa pragmática;
Atividade (anorexia, sitofobia, bulimia, dipsomania, desvios sexuais, avareza,
prodigalidade, agressividade, tentativa de suicídio, atos delituosos, etc.).
COMPORTAMENTO GERAL:
1. Aparência: face (alegre, triste, perplexa, desconfiada), vestuário, fala.
2. Atividade psicomotora.
3. Linguagem.
4. Atitude em relação ao terapeuta: cooperativa, agressiva, desconfiado e evasivo.
SINAIS E SINTOMAS PSICOPATOLÓGICOS
152
I. CONSCIÊNCIA:
Conhecimento do próprio eu e do mundo externo momentâneo.
1. Transtorno do sono:
Hipersonia;
Insônia.
2. Diminuição de claridade:
Obnubilação simples;
Obnubilação acompanhada de onirismo (delírio onírico).
3. Estreitamento do campo da consciência:
Estados crepusculares.
4. Abolição de consciência:
Paroxísticos (ataques epilépticos, síncopes);
Prolongados (comas).
II. ATENÇÃO:
Concentração sobre o estímulo que o solicita.
Atenção espontânea;
Atenção voluntária.
1. Aprosexia:
Ausência.
2. Hipoprosexia:
Por falta de interesse;
Por deficit intelectual;
Por obnubilação da consciência.
153
3. Hiperprosexia:
(excesso de mobilidade de atenção)
4. Distraibilidade:
Incapacidade de fixar a atenção para um determinado fim.
5. Paraprosexia ou disprosexia.
III. AFETIVIDADE:
Totalidade afetiva
1. Hipertimia:
Euforia (sentimento agradável do bem-estar e confiança);
Elação (idem, mais afetividade motora exagerada)
2. Hipotimia:
Depressão patológica (sentimento de tristeza imotivada).
3. Apatia ou indiferença afetiva.
4. Irritabilidade patológica.
5. Ansiedade.
6. Ambivalência afetiva
7. Incongruência afetiva
8. Fobias:
Acrofobia;
Agorafobia;
Claustrofobia.
IV. SENSOPERCEPÇÃO:
Conhecimento pelos órgãos do sentido.
154
1. Alteração da intensidade:
Hiperestesia;
Hipoestesia;
Abolição de percepção (anestesia, cegueira, surdez, agnosia, anosmia).
2. Alterações qualitativas:
Alucinações:
o Auditivas;
o Visuais;
o Olfativas;
o Gustativas;
o Cenestésicas;
o Cinestésicas.
Pseudoalucinações ou alucinações psíquicas;
Alucinose;
Ilusão.
V. PENSAMENTO:
Fuga de ideias;
Inibição do pensamento;
Bloqueio;
Prolixidade;
Incoerência;
Inserção;
Subtração, roubo de pensamento;
Perseverança;
Ideia fixa;
Ideia obsessiva.
155
DELÍRIOS:
Juízo falso, não forma parte da cultura, época, ambiente convicção subjetiva.
Não é rebatido pela experiência e argumentação lógica.
Delírios de:
o Grandeza;
o Perseguição;
o Ruína/prejuízo;
o Influência ou de controle;
o Ciúmes;
o Autoacusação;
o Relação ou de referência;
o Místico;
o Negação.
VI. ALTERAÇÕES DA ATIVIDADE VOLUNTÁRIA:
Estados de exaltação;
Debilidade da vontade;
Estupor;
Negativismo;
Estereotipias;
Atos impulsivos - ações isoladas, súbitas, involuntárias e desprovidas de finalidade;
Compulsão - impulso incontrolado de desempenhar um ato repetitivamente;
Tiques;
Obediência passiva - Flexibilidade cérea (Catalepsia);
Cataplexia.
156
VII. MEMÓRIA:
Capacidade de fixação e capacidade de evocação ou reprodução.
Hipermnésia;
Hipomnésia e amnésia; Amnésia anterógrada:
o Perturbação de fixação;
o Consciência obnubilada;
o Demência senil.
Amnésia retrógrada de evocação;
Amnésia retroanterógrada ou total;
Amnésia transitória;
Paramnésia ou Dismnésia:
o Falsificação da memória por distorção;
o Confabulações;
o Fenômeno já visto na evocação.
VIII. INTELIGÊNCIA:
1. Capacidade geral para resolver problemas novos.
2. Capacidade para utilizar o pensamento de forma eficaz e produtiva.
3. Capacidade de síntese.
4. Capacidade de distinguir o essencial do acessório:
Retardo Mental:
o Leve (QI 53 A 67);
o Moderado (QI 36 a 51);
o Profunda (QI menor que 20).
Demência.
157
IX. LINGUAGEM:
1. Alterações por causas orgânicas:
Disartria: dificuldades para articular as palavras;
Dislalia: malformações: língua, abóbada palatina ou órgão de fonação (omissão,
substituição ou deformação do fonema);
Afasia:
o Afasia motora: compreende, mas não fala;
o Afasia sensorial: fala, mas não entende;
o Afasia global.
Disfemias: gagueira;
Disfonias: defeitos na voz.
2. Alterações da linguagem funcional:
Logorreia;
Ecolalia;
Bradilalia;
Neologismo;
Verbigeração;
Estereotipia verbal;
Mutismo.
3. Alterações dos movimentos de expressão:
Hipomimia;
Hipermimia;
Paramimia.
X. ORIENTAÇÃO:
(Orientação no tempo e no espaço, e da própria pessoa)
Desorientação apática;
Desorientação amnéstica;
158
Desorientação amencial;
Desorientação delirante;
Desdobramento de personalidade;
Despersonalização.
Temporalidade:
Império do presente: oligofrenia, demência;
Império do passado: depressivos;
Império do futuro: angústia, fobias.
FONTE: Disponível em:
<http://www.psiquiatriageral.com.br/educacaomedica/educacaomed2.htm>. Acesso em: 10 ago.
2011.
CHECK-LIST DE SINTOMAS DO CID-10 PARA TRANSTORNOS MENTAIS
Apresentaremos a versão 1.1, preparado por: Dr. A. Janca, Dr. T.B. Üstün, Dr. J. van
Drimmelen, Dr. V. Dittmann e Dr. M. Isaac, todos da Divisão para Saúde Mental da
Organização Mundial de Saúde Genebra (1994), disponível no site
www.psiquiatriageral.com.br.
INTRODUÇÃO
159
INSTRUMENTO
O checklist de sintomas para Transtornos Mentais - CID-10 é um instrumento
semiestruturado para avaliação de sintomas e síndromes psiquiátricas nas categorias F0 a F6
do CID-10. O instrumento consiste de: folha de rosto, triagem e módulos. Os seguintes
módulos são incluídos no checklist: a) Módulo F0/F1: Síndromes Mentais Orgânicas e de Uso
de Substância Psicoativa. b) Módulo F2/F3: Síndromes Psicóticas e Afetivas. c) Módulo
F4/F5: Síndromes Neuróticas e Comportamentais. d) Módulo F6: Transtornos de
Personalidade.
Para facilitar o uso, os módulos são impressos em diferentes cores, e o usuário
usará apenas aqueles módulos em que o paciente for triado positivamente.
Cada um dos módulos consiste de uma lista de sintomas e listas de estados que,
de acordo com os critérios do CID-10, devem ser excluídos ou podem estar associados à
síndrome. Estas listas são acompanhadas de instruções que podem ajudar o usuário a
considerar outras possíveis síndromes e, portanto, o uso de outros módulos da checklist. Se
for o caso, os módulos também oferecem a possibilidade de se registrar o início, a severidade
e a duração da síndrome, assim como o número de episódios.
APLICAÇÃO
O usuário do checklist deve estar familiarizado com os critérios diagnósticos do
CID-10. Os passos a seguir são recomendados na administração do checklist:
Passo 1: registrar e codificar as informações gerais na folha de rosto.
160
Passo 2: checar os sintomas positivos listados na avaliação (usar X).
Passo 3: usar apenas os módulos para os quais o paciente for avaliado
positivamente.
Passo 4: checar os sintomas positivos nos módulos utilizados (usar X). Para a
duração da síndrome e o número de episódios, escrever o número apropriado no box (por
exemplo, 03).
Passo 5: considerar diagnósticos diferenciais ou síndromes conforme é instruído
nos módulos. Se necessário, consultar outros módulos.
Passo 6: codificar diagnósticos positivos na folha de rosto usando as categorias F
(por exemplo, F41.0).
Passo 7: checar confiabilidade diagnóstica na folha de rosto (usar X).
Passo 8: registrar qualquer comentário na folha de rosto.
161
FOLHA DE ROSTO Código
Instituição:___________________________________________
Estudo:______________________________________________
Clínico:______________________________________________
Data:___/___/_____
Paciente:____________________________________________
Idade:_______________________________________________
Sexo:
Masculino
Feminino
Diagnóstico CID-10 (categoria F):
Principal
Secundário
Grau de confiança do diagnóstico:
Alto
Moderado
Anotações do Clínico:
162
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
TRIAGEM
Identificação do caso psiquiátrico
• Queixas psicológicas.
• Queixas somáticas não explicadas medicamente.
• Comportamento desviado das normas culturalmente aceitas.
• Nenhum dos acima, mas é um caso.
Explique:__________________________________________________
*Se todos NÃO, parar.
• Comprometimento ou incapacidade social ou ocupacional.
• Condição ou doença física coexistente.
• Estressor psicossocial.
163
Síndromes Mentais Orgânicas e de Uso de Substância Psicoativa
• Prejuízo da memória ou de outra habilidade intelectual.
• Alteração da consciência.
• Uso de substância psicoativa.
*Se algum SIM, usar módulo F0/F1 (páginas amarelas).
Síndromes Psicóticas e Afetivas
• Conduta catatônica.
• Delírios ou alucinações.
• Humor elevado, expansivo, irritável ou desconfiado.
• Humor deprimido ou diminuído.
• Retraimento social ou diminuição do desempenho social.
*Se algum SIM, usar módulo F2/F3 (páginas rosa).
Síndromes Neuróticas e Síndromes Comportamentais
• Fobia ou ansiedade (pânico).
• Obsessões ou compulsões.
• Estados dissociativos (conversão).
• Somatização.
• Anorexia ou bulimia.
• Dissonias ou parassonias.
164
• Disfunções sexuais.
* Se algum SIM, usar módulo F4/F5 (páginas azuis).
Transtorno de Personalidade
• Desvio prolongado de traço de personalidade ou padrões de comportamento.
* Caso SIM, usar módulo F6 (páginas verdes).
MÓDULO F0/F1: SÍNDROMES MENTAIS ORGÂNICOS E DE USO DE SUBSTÂNCIA
PSICOATIVA
TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS
a) Quais dos sintomas a seguir estão presentes?
1. Prejuízo da memória.
2. Prejuízo de outras habilidades intelectuais.
3. Deterioração no controle emocional, comportamento social ou motivação.4. Comprometimento da consciência e atenção.
5. Distúrbios de percepção ou desorientação.
6. Distúrbios psicomotores.
7. Distúrbio do ciclo sono/vigília.
8. Início rápido e flutuações diurnas dos sintomas.
b) Quão severa é a síndrome?
165
1. Leve
2. Moderada
3. Grave
c) Como foi o início da síndrome?
1. Agudo
2. Crônico
d) Qual é a duração da síndrome?
1. Em dias.
2. Em meses.
3. Em anos.
e) Quais dos seguintes estados podem ser excluídos?
1. Retardo mental.
2. Transtorno mental iatrogênico devido à medicação.
f) Qual dos seguintes estados está associado?
1. Sintomas depressivos.
2. Sintomas maníacos.
* Se algum SIM, também considerar Síndrome Afetiva.
3. Abuso de álcool ou drogas:
166
• Causando a síndrome.
• Coexistindo com a síndrome.
*Se algum SIM, também considerar Síndromes Decorrentes do Uso de Substância Psicoativa.
4. Mudanças na personalidade ou no comportamento.
*Caso SIM, considerar Transtorno de Personalidade.
5. Sintomas psicóticos agudos ou transitórios.
6. Sintomas agudos de esquizofrenia.
*Se algum SIM, considerar Síndromes Psicóticas.
g) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Demência (F01-F03).
2. Delirium (F05).
3. Transtorno orgânico de personalidade (F07).
*Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
4. Outros transtornos mentais orgânicos:
• Alucinose orgânica (F06.0).
• Transtorno catatônico orgânico - estupor ou excitação (F06.1).
• Transtorno delirante (esquizofreniforme) orgânico (F06.2).
• Transtorno orgânico do humor (afetivo) (F06.3).
167
• Transtorno orgânico de ansiedade (F06.4).
• Transtorno dissociativo orgânico (F06.5).
• Transtorno emocional orgânico lábil (F06.6).
* Se algum SIM, considerar também o módulo apropriado após codificar a categoria F na folha
de rosto.
TRANSTORNO DO USO DE SUBSTÂNCIA PSICOATIVA
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Forte desejo ou senso de compulsão em usar uma substância (craving).
2. Capacidade prejudicada de controlar o uso de uma substância ("perda do controle").
3. Estado de abstinência.
4. Uso de uma substância para aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
5. Tolerância (fisiológica, comportamental ou psicológica).
6. Redução no repertório do padrão de uso de substâncias.
7. Abandono progressivo de divertimentos, comportamentos ou interesses alternativos
em favor do uso de uma substância.
8. Dano físico ou psicológico devido ao uso de uma substância (deve ser claramente
especificado).
9. Persistir com o uso de uma substância apesar de claras evidências de
consequências danosas.
b) Qual a duração do transtorno?
1. Em meses.
168
2. Em anos.
c) Quais das seguintes substâncias foram usadas?
Álcool
Opioides
Canabinoides
Hipnóticos
Cocaína
Estimulantes (incluindo cafeína)
Alucinógenos
Tabaco
Solventes voláteis
Substâncias psicoativas ou múltiplas outras
d) Qual dos seguintes estados está associado?
1. Delirium.
2. Síndrome amnésica.
*Se algum SIM, também considerar Transtornos Mentais Orgânicos.
3. Sintomas psicóticos.
*Caso SIM, considerar Síndrome Psicótica.
e) Quais dos seguintes diagnósticos estão presentes?
169
1. Uso nocivo (F1x.1).
Se SIM, registrar a(s) substância (s) psicoativa (s)
_____________________________________________________________
2. Síndrome de dependência (F1x.2).
Se SIM, registrar a(s) substância (s) psicoativa (s)
_____________________________________________________________
*Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
Voltar à triagem
MÓDULO F2/F3: SÍNDROMES PSICÓTICAS E AFETIVAS
TRANSTORNOS PSICÓTICOS
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Eco do pensamento, inserção ou roubo do pensamento, ou irradiação do
pensamento.
2. Delírios ou percepção delirante.
3. Vozes alucinatórias ou outras alucinações persistentes de qualquer tipo.
4. Discurso incoerente ou irrelevante, neologismos.
5. Comportamento catatônico.
6. "Sintomas negativos" (apatia, pobreza de discurso, embotamento ou incongruência
de respostas emocionais).
170
7. Comportamento sem objetivo ou desorganizado.
8. Comunicação não verbal pobre por expressão facial.
9. Marcado declínio do desempenho social, escolar ou ocupacional, ou retraimento
social.
10. Aparência estranha, excêntrica ou peculiar, ou autocuidado deficiente.
11. Experiências de despersonalização ou desrealização.
12. Tempestade ou confusão emocional.
13. Perplexidade ou identificação errônea de pessoas ou lugares.
14. Motricidade aumentada ou diminuída.
b) Como foi o início do transtorno?
• Agudo
• Crônico
c) Qual é a duração do transtorno?
• Em dias.
• Em meses.
d) Quais dos seguintes estados podem ser excluídos?
1. Doença mental orgânica.
2. Transtorno de personalidade esquizoide.
3. Modos de expressão influenciados (sub) culturalmente.
4. Nível de inteligência abaixo do normal.
171
5. Intoxicação relacionada com drogas ou álcool, ou abstinência causando a síndrome.
e) Qual dos seguintes estados está associado?
1. Sintomas maníacos.
2. Sintomas depressivos.
* Se algum SIM, considerar também Síndrome Afetiva.
3. Abuso de álcool ou drogas coexistindo com a síndrome.
*Caso SIM, considerar também Síndrome de Uso de Substância Psicoativa.
f) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Esquizofrenia (F20).
2. Transtorno esquizotípico (F21).
3. Transtorno delirante (F22).
4. Transtornos psicóticos agudos e transitórios (F23).
5. Transtorno esquizoafetivo (F25).
* Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
MANIA
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Humor anormalmente elevado ou irritável.
2. Atividade aumentada ou inquietude física.
172
3. Loquacidade aumentada ("pressão da fala").
4. Propensão à distração ou mudanças constantes nas atividades ou planos.
5. Diminuição da necessidade de sono.
6. Energia sexual aumentada ou indiscrições sexuais.
7. Comportamento arriscado, imprudente ou irresponsável.
8. Sociabilidade aumentada ou familiaridade excessiva.
9. Fuga de ideias ou pensamento acelerado.
10. Autoestima inflada ou grandiosidade.
11. Delírios.
12. Alucinações.
b) Quão grave é a síndrome?
• Hipomaníaca.• Maníaca.
c) Qual a duração da síndrome?
• Em dias.
d) Quantos episódios houve?
e) Quais dos seguintes estados podem ser excluídos?
1. Doença endócrina precipitante.
2. Tratamento medicamentoso precipitante.
173
3. Anorexia nervosa.
4. Esquizofrenia.
f) Quais dos seguintes estados estão associados?
1. Doença mental orgânica:
• Causando a síndrome.
• Coexistindo com a síndrome.
*Se algum SIM, também considerar Síndromes Mentais Orgânicas.
2. Sintomas depressivos.
*Caso SIM, considerar Transtorno Afetivo Bipolar.
3. Instabilidade de humor persistente.
*Caso SIM, considerar Ciclotimia.
4. Abuso de álcool ou drogas:
• Causando a síndrome.
• Coexistindo com a síndrome.
*Caso SIM, também considerar Síndromes de Uso de Substância Psicoativa.
5. Delírios ou alucinações.
*Caso SIM, considerar Transtorno Esquizoafetivo.
g) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Hipomania (F30.0).
2. Mania sem sintomas psicóticos (F30.1).
174
3. Mania com sintomas psicóticos (F30.2).
* Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
DEPRESSÃO
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Humor deprimido.
2. Perda de interesse ou prazer.
3. Energia diminuída ou fatigabilidade aumentada.
4. Perda de confiança ou autoestima.
5. Autorrecriminações irracionais ou culpa excessiva.
6. Pensamentos ou comportamento suicida.
7. Dificuldade para pensar ou se concentrar.
8. Agitação ou retardo psicomotor (objetivo).
9. Distúrbio do sono.
10. Alteração do apetite e peso (5% do peso corporal).
11. Perda da reatividade e eventos ou atividades.
12. Depressão pior pela manhã.
13. Marcada perda da libido.
14. Choro frequente.
15. Sentimentos de falta de esperança ou desespero.
175
16. Incapacidade de levar adiante as responsabilidades rotineiras.
17. Pessimismo a respeito do futuro ou ruminações sobre o passado.
18. Falando menos do que o habitual.
19. Estupor depressivo.
20. Delírios.
21. Alucinações.
b) Quão severa é a síndrome?
1. Leve
2. Moderada
3. Grave
c) Qual a duração da síndrome?
• Em semanas.
• Em meses.
d) Quantos episódios houve neste período?
e) Qual dos seguintes estados pode ser excluído?
1. Doença endócrina precipitante ou tratamento medicamentoso.
2. Esquizofrenia causando a síndrome.
f) Quais dos seguintes estados estão associados?
1. Doença mental orgânica.
*Caso SIM, considerar Síndromes Mentais Orgânicas.
176
2. Esquizofrenia coexistindo com o transtorno.
*Caso SIM, considerar Esquizofrenia.
3. Sintomas maníacos ou hipomaníacos.
*Caso SIM, considerar Transtorno Afetivo Bipolar.
4. Instabilidade persistente de humor por dois anos ou mais.
*Caso SIM, considerar Ciclotimia.
5. Menos de duas semanas de duração do transtorno.
*Caso SIM, Considerar Transtorno Afetivo Breve ou Misto.
6. Delírios ou alucinações.
*Caso SIM, Considerar Transtorno Esquizoafetivo.
7. Abuso de álcool ou drogas:
• Causando a síndrome.
• Coexistindo com a síndrome.
*Se algum SIM, considerar também Uso de Substância Psicoativa.
g) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Episódio depressivo leve (F32.0).
2. Episódio depressivo moderado (F32.1).
3. Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos (F32.2).
4. Episódio depressivo grave com sintomas psicóticos (F32.3).
5. Episódios depressivos recorrentes (F33).
177
6. Ciclotimia (F34.0).
7. Distimia (F34.1).
8. Transtorno afetivo bipolar (F31).
*Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
Voltar à triagem
MÓDULO F4/F5: SÍNDROMES NEURÓTICAS E COMPORTAMENTAIS
TRANSTORNOS NEURÓTICOS
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Medos.
2. Ataques de pânico.
3. Ansiedade, preocupações, apreensões.
4. Sintomas autonômicos de ansiedade.
5. Pensamentos obsessivos ou atos compulsivos.
6. Exposição a um estressor mental, físico ou social excepcional.
7. Relembrar ou reviver persistentemente o estressor.
8. Evita circunstâncias associadas ao estressor.
9. Sintomas de sensibilidade psicológica ou vigilância aumentada.
10. Sintomas ou estados dissociativos (conversivos).
178
11. Queixas físicas múltiplas e variáveis não explicadas por nenhuma doença física.
12. Repetidas consultas médicas e recusas persistentes em aceitar orientação médica.
13. Fadiga mental ou física persistente.
b) Qual a duração da síndrome?
• Em semanas.
• Em meses.
• Em anos.
c) Quais dos seguintes estados podem ser excluídos?
1. Sintomas ou transtorno psicótico.
2. Consumo excessivo ou abstinência de drogas.
3. Simulação intencional.
d) Quais dos seguintes estados estão associados?
1. Sintomas afetivos.
*Caso SIM, considerar também Síndrome Afetiva.
2. Experiências de despersonalização ou desrealização.
*Caso SIM, considerar também Síndrome Psicótica.
e) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Fobias (F40.0-F40.2).
2. Transtorno de pânico (F41.0).
3. Transtorno de ansiedade generalizada (F41.1).
179
4. Transtornos de ansiedade e depressão mistos ou outros transtornos mistos de
ansiedade (F41.2-F41.3).
5. Transtorno obsessivo-compulsivo (F42).
6. Reação aguda a estresse (F43.0).
7. Transtorno de estresse pós-traumático (F43.1).
8. Transtorno de ajustamento (F43.2).
9. Transtornos dissociativos (ou conversivos) (F44).
10. Transtornos somatoformes (F45.0-F45.4).
11. Neurastenia (F48.0).
*Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
SÍNDROMES COMPORTAMENTAIS
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Perda de peso significativa e autoinduzida.
2. Episódios de orgias alimentares.
3. Pavor de engordar.
4. Consequências endócrinas (amenorreia, impotência).
5. Distúrbio da quantidade, qualidade ou horário do sono.
6. Episódios involuntários de levantar-se da cama durante o sono e caminhar.
7. Episódios de despertar do sono com gritos de pânico e manifestações de ansiedade.
180
8. Despertar de pesadelos com recordação vívida.
9. Distúrbio de sono causando incômodo marcante ou interferindo nas atividades ou na
vida do paciente.
10. Incapacidade frequente de participar numa relação sexual da maneira como
gostaria.
b) Qual a duração da síndrome?
• Em meses.
• Em anos.
c) Quantos episódios houve neste período?d) Quais dos seguintes estados podem ser excluídos?
1. Condição neurológica ou médica causando a síndrome.
2. Tratamento medicamentoso precedente ou atual causando a síndrome.
e) Quais dos seguintes estados estão associados?
1. Transtorno depressivo.
*Caso SIM, considerar Transtorno Afetivo.
2. Abuso de álcool ou drogas.
*Caso SIM, considerar Transtornos de Uso de Substância Psicoativa.
3. Doença mental orgânica.
*Caso SIM, considerar Transtorno Mental Orgânico.
f) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Anorexia nervosa (F50.0).
181
2. Bulimia nervosa (F50.2).
3. Transtornos não orgânicos de sono (F51).
4. Disfunção sexual não causada por transtorno ou doença orgânica (F52).
* Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
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MÓDULO F6: TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE
a) Quais dos seguintes sintomas estão presentes?
1. Desvio consistente e estável de traços de personalidade ou comportamentos em
relação às normas culturalmente aceitas de forma estável e permanente.
2. Comportamento inflexível, desadaptado ou, sob outros aspectos, disfuncional numa
ampla gama de situações pessoais e sociais.
3. Desconforto pessoal ou impacto adverso sobre o ambiente social.
b) Quais das seguintes características e comportamentos estão presentes?
1. Paranoide:
• Sensibilidade excessiva a contratempos e rejeições.
• Incapacidade de perdoar ofensas e injúrias.
• Desconfiança.
• Combativo e obstinado no que se refere a direitos pessoais.
182
• Propensão a ciúme patológico.
• Tendência a experimentar excessiva autovalorização.
• Preocupação com explicações "conspiratórias" não comprovadas sobre eventos.
2. Esquizoide:
• Incapacidade de experimentar prazer (anedonia).
• Frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.
• Indiferença tanto para elogios quanto para críticas.
• Pouco interesse em ter experiências sexuais.
• Preferência por fantasias, atividades solitárias e introspecção.
• Falta de amigos íntimos.
• Dificuldade em reconhecer e aderir a convenções sociais (comportamento excêntrico).
3. Antissocial:
• Falta de capacidade de empatia.
• Irresponsabilidade e desrespeito por normas sociais.
• Incapacidade de manter relacionamentos persistentes.
• Baixa tolerância à frustração e baixo limiar para descarga de agressão.
• Incapacidade de experimentar culpa.
• Propensão para culpar os outros.
• Irritabilidade persistente.
183
4. Emocionalmente instável:
• Tendência a agir inesperadamente e sem consideração das consequências.
• Tendência a comportamentos beligerante e a ter conflitos com os outros.
• Facilidade para ter explosões de raiva ou violência.
• Incapacidade evidente de planejar adiante ou prever acontecimentos futuros que têm
grande chance de ocorrer.
• Dificuldade em persistir em qualquer tarefa que não ofereça gratificação imediata.
• Humor instável e caprichoso.
• Perturbações e incerteza sobre autoimagem e preferências internas (incluindo a
sexual).
• Propensão a se envolver em relacionamentos intensos e instáveis.
• Ameaças ou atos recorrentes de dano a si próprio.
5. Histriônico:
• Autodramatização, teatralidade.
• Sugestionabilidade.
• Afetividade superficial e lábil.
• Egocentricidade.
• Busca contínua de apreciação.
• Necessidade de excitação ou de ser o centro das atenções.
• Comportamento manipulativo para adquirir necessidades próprias.
184
6. Anancástico:
• Indecisão.
• Perfeccionismo.
• Consciencioso, escrupuloso.
• Pedantismo e convencional.
• Rigidez e teimosia.
• Intrusão de pensamentos ou impulsos insistentes e indesejáveis.
• Planejamento em longo prazo de todas as atividades e com detalhes imutáveis.
7. Ansioso (de evitação):
• Sentimentos de tensão e apreensão.
• Autoconsciência e sentimentos de insegurança e inferioridade.
• Desejo de ser querido e aceito.
• Hipersensibilidade à rejeição e críticas.
• Recusa em se envolver com pessoas, a não ser com garantias de aceitação sem
críticas.
• Propensão habitual a exagerar o potencial de perigo ou riscos em situações
cotidianas.
• Estilo de vida restrito devido à necessidade de certeza e segurança.
8. Dependente:
• Permitir que outros assumam responsabilidades em áreas principais da vida.
185
• Subordinação de suas próprias necessidades àquelas dos outros dos quais é
dependente.
• Relutância em fazer exigências, ainda que razoáveis, às pessoas das quais depende.
• Perceber a si mesmo como desamparo, incompetente e sem vigor.
• Medo de ser abandonado e necessidade constante de se assegurar contra isso.
• Sentimentos de ruína e desamparo quando um relacionamento íntimo termina.
• Transferir responsabilidades para outros.
c) Qual a duração da síndrome?
• Em anos.
d) Qual dos seguintes estados pode ser excluído?
1. Desvio resultante de outra doença mental adulta.
2. Desvio resultante de doença ou dano cerebral orgânico.
e) Quais dos seguintes estados estão associados?
1. Abuso de álcool ou drogas.
*Caso SIM, considerar Síndromes Decorrentes do Uso de Substância Psicoativa.
2. Sintomas afetivos.
*Caso SIM, considerar também Síndrome Afetiva.
3. Sintomas psicóticos.
*Caso SIM, considerar Síndrome Psicótica.
4. Sintomas neuróticos.
186
*Caso SIM, considerar Síndrome Neurótica.
f) Qual dos seguintes diagnósticos está presente?
1. Transtorno de personalidade paranoide (F60.0).
2. Transtorno de personalidade (F60.1).
3. Transtorno de personalidade (F60.2).
4. Transtornos de personalidade emocionalmente instável:
• Tipo impulsivo (F60.30).
• Tipo boderline (F60.31).
5. Transtorno de personalidade histriônica (F60.4).
6. Transtorno de personalidade anancástica (F60.5).
7. Transtorno de personalidade ansiosa (de evitação) (F60.6).
8. Transtorno de personalidade dependente (F60.7).
9. Outros transtornos de personalidade especificados (F60.8).
*Se algum SIM, codificar a categoria F na folha de rosto.
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187
8 ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS DECORRENTES DE AVALIAÇÕES PSICOLÓGICAS
Neste tópico informaremos sobre os vários documentos existentes como a Declaração,
o Atestado Psicológico, o Relatório Psicológico, Laudo Psicológico e o Parecer Psicológico.
Desses, os mais usados na entrevista devolutiva são o Laudo Psicológico, o Relatório
e o Parecer, mas aqui falaremos de todos os documentos a título de informação aos
profissionais.
Estas informações sobre a elaboração dos instrumentos foram colhidas no site
www.pol.org.br em resoluções doCFP Nº. 07/2003 e têm por objetivos:
Orientar o profissional psicólogo na confecção de documentos decorrentes das
avaliações psicológicas;
Fornecer os subsídios éticos e técnicos necessários para a elaboração qualificada
da comunicação escrita.
A avaliação psicológica é entendida como o processo científico de coleta de dados,
estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos, que
são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-se, para tanto,
de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos. Os resultados das
avaliações devem identificar os condicionantes sociais e seus efeitos no psiquismo,
com a finalidade de serem instrumentos para atuar não somente sobre o indivíduo,
mas na modificação desses condicionantes sociais. (POL, 2010, s. p.).
Itens:
Princípios norteadores da elaboração documental;
Modalidades de documentos;
Conceito e Finalidade/Estrutura;
Validade dos documentos;
Guarda dos documentos.
188
8.1 PRINCÍPIOS NORTEADORES NA ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS
O psicólogo, na elaboração de seus documentos, deverá adotar como princípios
norteadores as técnicas da linguagem escrita e os princípios éticos, técnicos e científicos da
profissão.
8.2 PRINCÍPIOS TÉCNICOS DA LINGUAGEM ESCRITA
O documento deve, na expressão escrita, apresentar uma redação bem-estruturada e
definida, ou seja, expressar o pensamento, o que se quer comunicar. Deve ter uma ordenação
que possibilite a compreensão por quem o lê – o que é fornecido pela estrutura, composição de
parágrafos ou frases, além da correção gramatical.
O emprego de expressões ou termos deve ser compatível com as expressões próprias
da linguagem profissional, garantindo a precisão da comunicação e evitando a diversidade de
significações da linguagem popular.
A comunicação deve ainda apresentar como qualidades a clareza, a concisão e a
harmonia. A clareza se traduz na estrutura frasal, pela sequência ou ordenamento adequado dos
conteúdos, pela explicitação da natureza e função de cada parte na construção do todo. A
concisão se verifica no emprego da linguagem adequada, da palavra exata e necessária. Essa
“economia verbal” requer do psicólogo a atenção para o equilíbrio que evite uma redação
lacônica ou o exagero de uma redação prolixa. Finalmente, a harmonia se traduz na correlação
adequada das frases, no aspecto sonoro e na ausência de cacofonias.
189
8.3 PRINCÍPIOS ÉTICOS E TÉCNICOS
8.3.1 Princípios éticos
Na elaboração de DOCUMENTO, o psicólogo baseará suas informações na
observância dos princípios e dispositivos do Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Enfatizamos aqui os cuidados em relação: aos deveres do psicólogo nas suas relações com a
pessoa atendida, ao sigilo profissional, às relações com a Justiça e ao alcance das informações
– identificando riscos e compromissos em relação à utilização das informações presentes nos
documentos em sua dimensão de relações de poder.
8.3.2 Princípios técnicos
O processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos deste
procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais,
econômicas e políticas, sendo os mesmos elementos constitutivos no processo de subjetivação.
O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a natureza dinâmica, não definitiva e não
cristalizada do seu objeto de estudo.
Os psicólogos, ao produzirem documentos escritos, devem se basear exclusivamente
nos instrumentais técnicos (entrevistas, testes, observações, dinâmicas de grupo, escuta,
intervenções verbais etc.) que se configuram como métodos e técnicas psicológicas para a
coleta de dados, estudos e interpretações de informações a respeito da pessoa ou grupo
atendido, bem como sobre outros materiais e documentos produzidos anteriormente e
pertinentes à matéria em questão.
A linguagem nos documentos deve ser rigorosa, precisa, clara e inteligível.
190
8.4 MODALIDADES DE DOCUMENTOS
Laudo Psicológico;
Relatório Psicológico;
Parecer Psicológico;
Declaração;
Atestado.
8.5 LAUDO PSICOLÓGICO OU PERICIAL
8.5.1 Conceito e finalidade do Laudo Psicológico ou Pericial
A palavra laudo é originária do idioma latino, do genitivo laudis e significa originalmente
mérito, valor, glória. É um documento conciso, minucioso e abrangente, que busca relatar,
analisar e integrar os dados colhidos no processo de avaliação psicológica tendo como objetivo
apresentar diagnóstico e/ou prognóstico, para subsidiar ações, decisões ou encaminhamentos.
Portanto, diferencia-se do Relatório Psicológico por ter como objetivo subsidiar uma
tomada de decisão, por realizar uma extensa pesquisa cujas observações e dados colhidos
deverão ser relacionados às questões e situações levantadas pela decisão a ser tomada.
191
8.5.2 Estrutura
Na sua estrutura básica, o laudo psicológico contém os seguintes itens:
1) Identificação;
2) Descrição da demanda;
3) Métodos e técnicas utilizadas;
4) Conclusão.
1) Identificação
Refere-se à descrição dos dados básicos do avaliado, como nome, data de
nascimento, idade, escolaridade, filiação, profissão etc.
2) Descrição da demanda
Nesse item, o psicólogo apresenta as informações referentes a motivos, queixas ou
problemáticas apresentadas, esclarecendo quais ações, decisões ou encaminhamentos o laudo
deverá subsidiar.
3) Métodos e técnicas utilizadas
Refere-se à descrição dos recursos utilizados e dos resultados obtidos.
4) Conclusão
Destina-se a apresentar uma síntese do diagnóstico e/ou prognóstico da avaliação
realizada e/ou encaminhamentos, necessariamente relacionados à demanda.
192
8.6 RELATÓRIO PSICOLÓGICO
8.6.1 Conceito e finalidade do Relatório Psicológico
O Relatório Psicológico é uma apresentação descritiva e/ou interpretativa acerca de
situações ou estados psicológicos e suas determinações históricas, sociais, políticas e culturais,
pesquisadas no processo de Avaliação Psicológica. Como todo DOCUMENTO, deve ser
subsidiado em dados colhidos e analisados à luz de um instrumental técnico (entrevistas,
dinâmicas, testes psicológicos, observação, escuta, intervenção verbal etc.), consubstanciado
em referencial técnico-filosófico e científico, adotado pelo psicólogo.
A finalidade do Relatório Psicológico será sempre a de apresentar resultados e
conclusões da avaliação psicológica. Entretanto, em função da petição ou da solicitação do
interessado, o Relatório Psicológico poderá destinar-se a finalidades diversas, como:
encaminhamento, intervenção, diagnóstico, prognóstico, parecer, orientação, solicitação de
acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo para acompanhamento psicológico etc.
Enfim, a solicitação do requerente é que irá apontar o objetivo último do Relatório Psicológico.
8.6.2 Estrutura
Independentemente das finalidades a que se destina, o Relatório Psicológico é uma
peça de natureza e valor científicos, devendo conter narrativa detalhada e didática, com clareza,
precisão e harmonia, tornando-se acessível e compreensível ao destinatário.
193
Os termos técnicos devem, portanto, estar acompanhados das explicações e/ou
conceituações retiradas dos fundamentos teórico-filosóficos que os sustentam.
Independentemente também, da finalidade a que se destina, o Relatório Psicológico
deve conter,no mínimo, três etapas: introdução, descrição e conclusão, além do cabeçalho.
1) Cabeçalho;
2) Introdução ou Histórico;
3) Descrição ou Desenvolvimento;
4) Conclusão;
1) Cabeçalho
É a parte superior da primeira parte do Relatório Psicológico com a finalidade de
identificar:
Autor/relator – quem elabora o Relatório Psicológico;
Interessado – quem solicita o Relatório Psicológico;
O assunto/finalidade – qual a razão/finalidade do Relatório Psicológico.
No identificador AUTOR/RELATOR deverá(ão) ser colocado(s) o(s) nome(s) do(s)
psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s) inscrição (ões) no Conselho
Regional.
No identificador INTERESSADO, o psicólogo indicará o nome do autor do pedido (se a
solicitação foi da Justiça, se foi de empresas, entidades ou do cliente).
No identificador ASSUNTO, o psicólogo indicará a razão, o motivo do pedido (se para
acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo para acompanhamento ou outras razões
pertinentes a uma avaliação psicológica).
2) Introdução ou Histórico
194
Alguns psicólogos, em seus Relatórios, intitulam essa primeira parte como
HISTÓRICO. Ela é destinada à narração histórica e sucinta dos fatos que produziram o pedido
do Relatório Psicológico. Inicia-se com as razões do pedido, seguida da descrição do processo
ou procedimentos utilizados para coletar as informações, contextualizando fatos e pessoas neles
envolvidos e a metodologia empregada, possibilitando assim, para quem lê, a compreensão do
ocorrido, o que se está analisando, solicitando e/ou questionando.
Portanto, a introdução tratará da narração:
a) Dos fatos motivadores do pedido;
b) Dos procedimentos e instrumentos utilizados na coleta de dados (número de
encontros, pessoas ouvidas, instrumentos utilizados), à luz do referencial teórico-filosófico que
os embasa.
3) Descrição ou Desenvolvimento
É a parte do Relatório na qual o psicólogo faz uma exposição descritiva de forma
metódica, objetiva e fiel dos dados colhidos e das situações vividas. Nessa exposição, devem
respeitar a fundamentação teórica que sustenta o instrumental técnico utilizado, bem como
princípios éticos, como as questões relativas ao sigilo das informações. Somente deve ser
relatado o que for necessário para o esclarecimento do encaminhamento, como disposto no
parágrafo 2o do Artigo 23 do Código de Ética Profissional.
O psicólogo, ainda nessa parte, poderá se valer de citações ou transcrições, visando a
reforçar as conclusões de sua análise. Não deve fazer afirmações sem sustentação em fatos
e/ou teorias, devendo ter linguagem precisa, especialmente quando se referir aos dados de
natureza subjetiva, expressando-se de maneira clara e exata.
4) Conclusão
É a parte final, conclusiva, do Relatório Psicológico. Nela, o psicólogo vai espelhar e
dar ênfase às evidências encontradas na análise dos dados a partir das referências adotadas,
que subsidiaram o resultado a que o psicólogo chegou, sustentando assim a finalidade a que se
propôs. Escrita logo após a descrição, o psicólogo deve expor o resultado e/ou considerações.
195
Após a narração conclusiva, o Relatório Psicológico é encerrado, com indicação do local, data de
emissão e assinatura do psicólogo.
8.7 PARECER
8.7.1 Conceito e finalidade do Parecer
O Parecer é uma manifestação técnica fundamentada e resumida sobre uma questão
focal do campo psicológico cujo resultado pode ser indicativo ou conclusivo.
O Parecer tem como finalidade apresentar resposta esclarecedora, no campo do
conhecimento psicológico, por meio de uma avaliação técnica especializada, de uma “questão-
problema”, visando a dirimir dúvidas que estão interferindo na decisão, sendo, portanto, uma
resposta a uma consulta, que exige de quem responde competência no assunto.
8.7.2 Estrutura
O psicólogo nomeado perito deve fazer a análise do problema apresentado, destacar
os aspectos relevantes e opinar a respeito, considerando os quesitos apontados e com
fundamento em referencial teórico-científico.
196
Devem-se rubricar todas as folhas dos documentos. Havendo quesitos, o psicólogo
deve respondê-los de forma sintética e convincente, não deixando nenhum quesito sem
resposta. Quando não houver dados para a resposta ou quando o psicólogo não puder ser
categórico, deve-se utilizar a expressão “sem elementos de convicção”. Se o quesito estiver mal
formulado, pode-se afirmar “prejudicado”, “sem elementos” ou “aguarda evolução”.
O parecer é composto de quatro partes:
1) Cabeçalho;
2) Exposição de motivos;
3) Discussão;
4) Conclusão.
1) Cabeçalho
É a parte que consiste em identificar o nome do perito e sua titulação, o nome do autor
da solicitação e sua titulação.
2) Exposição de Motivos
Essa parte destina-se à transcrição do objetivo da consulta e os quesitos ou à
apresentação das dúvidas levantadas pelo solicitante. Deve-se apresentar a “questão-problema”,
não sendo necessária, portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como os dados
colhidos ou o nome dos envolvidos.
3) Discussão
A discussão do parecer constitui-se na análise minuciosa da “questão-problema”,
explanada e argumentada com base nos fundamentos necessários existentes, seja na ética, na
técnica ou no corpo conceitual da ciência psicológica.
4) Conclusão
197
É a parte final do parecer, em que o psicólogo irá apresentar seu posicionamento,
respondendo à questão levantada. Ao final do posicionamento ou do parecer propriamente dito,
informar o local e data em que foi elaborado e assinar o documento.
8.8 DECLARAÇÃO
8.8.1 Conceito e finalidade da Declaração
É um documento que visa a informar a ocorrência de fatos ou situações objetivas
relacionados ao atendimento psicológico, com a finalidade de:
a) Declarar comparecimentos do atendido;
b) Declarar o acompanhamento psicológico do atendido;
c) Informações diversas sobre o enquadre do atendimento (tempo de
acompanhamento, dias ou horários);
Não deve ser feito o registro de sintomas, situações ou estados psicológicos.
8.8.2 Estrutura
a) Ser emitido em papel timbrado ou apresentar na subscrição do documento o
carimbo, em que constem nome e sobrenome do psicólogo acrescido de sua inscrição
profissional (“Nome do Psicólogo/N.º da inscrição”);
198
b) A Declaração deve expor:
Registro do nome e sobrenome do solicitante;
Finalidade do documento (por exemplo, para fins de comprovação);
Registro de informações solicitadas em relação ao atendimento (por exemplo: se
faz acompanhamento psicológico, em quais dias, qual horário);
Registro do local e data da expedição da Declaração;
Registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP, e/ou carimbo com
as mesmas informações. Assinatura do psicólogo acima da identificação do psicólogo ou do
carimbo.
8.9 ATESTADO PSICOLÓGICO
8.9.1 Conceito e finalidade do Atestado Psicológico
É um documento expedido pelo psicólogo que certifica uma determinada situação ou
estado psicológico, tendo como finalidade:
a) Afirmar como testemunha, por escrito, a informação ou estado psicológico de quem,
por requerimento, o solicita, aos fins expressos por este;
b) Justificar faltas e/ou impedimentos do solicitante, atestando-os como decorrentes
do estado psicológico informado;
c) Solicitar afastamento e/ou dispensa do solicitante, subsidiadona afirmação atestada
do fato, em acordo com o disposto na Resolução CFP nº 015/96.
8.9.2 Estrutura
199
A formulação do Atestado deve restringir-se à informação solicitada pelo requerente,
contendo expressamente o fato constatado. Embora seja um documento simples, deve cumprir
algumas formalidades:
a) Ser emitido em papel timbrado ou apresentar na subscrição do documento o
carimbo, em que conste seu nome e sobrenome acrescido de sua inscrição profissional (“Nome
do Psicólogo / N.ºda inscrição”).
b) O Atestado deve expor:
Registro do nome e sobrenome do cliente;
Finalidade do documento;
Registro da informação pelo sintoma, situação ou estado psicológico que justifica o
atendimento, afastamento ou falta – podendo registrar sob o indicativo do código da
Classificação Internacional de Doenças (CID);
Registro do local e data da expedição do Atestado;
Registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP, e/ou carimbo com
as mesmas informações;
Assinatura do psicólogo acima da identificação do psicólogo ou do carimbo.
Se a finalidade do Atestado for solicitar afastamento ou dispensa, o registro da
informação/pedido deverá estar justificado pelo sintoma, situação ou estado psicológico.
Os registros deverão estar transcritos de forma corrida, ou seja, separados apenas
pela pontuação, sem parágrafos, evitando, com isso, riscos de adulterações. No caso em que
seja necessária a utilização de parágrafos, o psicólogo deverá preencher esses espaços com
traços.
8.10 VALIDADE DOS DOCUMENTOS
200
O prazo de validade dos documentos escritos decorrentes das avaliações psicológicas
deverá considerar a legislação vigente nos casos já definidos.
Não havendo definição legal, o psicólogo, onde for possível, indicará o prazo de
validade em função das características avaliadas, das informações obtidas e dos objetivos da
avaliação.
Quando não for possível a indicação do prazo, informará o caráter situacional e
temporal dos dados de uma avaliação psicológica.
Ao definir o prazo, o psicólogo deve dispor dos fundamentos para a indicação, devendo
apresentá-los sempre que solicitado.
8.11 GUARDA DOS DOCUMENTOS E CONDIÇÕES DE GUARDA
Os documentos escritos decorrentes de avaliação psicológica, bem como todo o
material que os fundamentou, deverão ser guardados pelo prazo mínimo de cinco anos,
observando-se a responsabilidade por eles tanto do psicólogo quanto da instituição em que
ocorreu a avaliação psicológica.
Esse prazo poderá ser ampliado nos casos previstos em lei, por solicitação judicial, ou
ainda em casos específicos em que seja necessária a manutenção da guarda por maior tempo.
Em caso de extinção de serviço psicológico, o material privativo e os documentos
escritos devem permanecer em posse do psicólogo responsável, que os manterá sob sua guarda
pelo prazo previsto neste manual.
Atingido esse prazo, o psicólogo ou instituição responsável pela guarda deverá destruir
o material de forma a não permitir a quebra do sigilo das informações nele contidas.
O psicólogo responsável pelo documento escrito decorrente da avaliação psicológica
deverá estar atento ao artigo 24 do Código de Ética Profissional do Psicólogo, garantido, assim,
o sigilo profissional.
201
9 ASPECTOS ÉTICOS IMPLICADOS NO PSICODIAGNÓSTICO
9.1 COMPORTAMENTOS ESPECÍFICOS DO PSICÓLOGO EM UM PSICODIAGNÓSTICO
Devemos saber que na operacionalização dessa avaliação devem ser considerados os
comportamentos específicos do psicólogo e os passos para realização do Psicodiagnóstico com
um modelo psicológico de natureza clínica; tais passos serão discutidos no próximo tópico.
De acordo com alguns autores, sendo um deles Cunha (2003 & 2004), os
comportamentos específicos do psicólogo podem variar na sua especificidade e na sua seriação,
conforme os objetivos do Psicodiagnóstico.
Citaremos os mais importantes:
Determinar os motivos do encaminhamento, queixas e outros problemas iniciais;
Colher dados sobre a história clínica e história pessoal ou anamnese, procurando
reconhecer denominadores comuns com a situação atual, do ponto de vista psicopatológico e
dinâmico;
Levantar dados de natureza psicológica, social, médica, profissional e/ou escolar,
etc. sobre o sujeito e pessoas significativas, solicitando eventualmente informações de fontes
complementares;
Realizar o exame do estado mental do paciente (exame subjetivo), eventualmente
complementado por outras fontes (exame objetivo);
Levantar hipóteses iniciais e definir os objetivos do exame;
Estabelecer um plano de avaliação;
Estabelecer um contrato de trabalho com o sujeito ou responsável;
Administrar testes e técnicas psicológicas;
Levantar dados quantitativos e qualitativos;
Selecionar, organizar e integrar todos os dados significativos para os objetivos do
exame, conforme o nível de inferência (dedução, conclusão, julgamento) previsto;
202
Comunicar os resultados (entrevista devolutiva, relatório, laudo, parecer e outros
informes);
Encerrar o processo Psicodiagnóstico.
Todos esses procedimentos feitos com rigor e atenção levam a um processo com
resultados satisfatórios.
9.2 COMPETÊNCIAS QUE O AVALIADOR DEVE TER
A aceitação das recomendações ou a permanência no tratamento dependem de
algumas características importantes do primeiro contato, que são influenciadas por um conjunto
de competências do entrevistador. Percebemos que as primeiras entrevistas, como ponto de
contato inicial, são cruciais para o desenvolvimento de uma relação de ajuda.
Nesse processo deve realmente ser construído o rapport, pois podem haver muitas
dificuldades de aceitação das recomendações ou a desistência de iniciar um processo
terapêutico, e isso normalmente ocorre nos primeiros contatos terapêuticos.
203
Sabemos que existem muitas orientações teóricas entre os entrevistadores e também
objetivos específicos da entrevista, mas algumas competências pessoais essenciais para a
condução de uma entrevista devem ser peculiares entre esses entrevistadores. E para o êxito da
entrevista em si, deve ter uma atenção especial a esses aspectos e ao desenvolvimento dessas
competências.
Segundo Cunha (2003 & 2004), para se levar uma entrevista a termo de modo
adequado, o entrevistador deve ser capaz de:
Estar presente, no sentido de estar inteiramente disponível para o outro naquele
momento, e poder ouvi-lo sem a interferência de questões pessoais, ou seja, a
atenção do entrevistador deve ser focada no paciente e ele ainda tem que ser capaz de
isolar outras preocupações. O entrevistador deve cuidar de suas necessidades pessoais,
IMPORTANTE!
O sucesso de uma entrevista dependerá de
qualidades gerais de um bom contato social, entre o
entrevistador e o examinando, sobre qual se apoiam
as técnicas clínicas específicas, sendo que a execução
dessas técnicas é influenciada pelas habilidades
interpessoais desse entrevistador. Podemos observar
uma grande interdependência entre as habilidades
interpessoais e os usos da técnica, muitas vezes
sendo impossível separá-las.
204
suas ansiedades para que estas não interfiram na escuta terapêutica. Cordioli (1993) fala
dessa escuta diferenciada, que é considerada um dos elementos terapêuticos.
Ajudar o paciente a se sentir à vontade e desenvolver uma aliança de trabalho,
paraque a relação seja construída baseada em confiança e sinceridade. Essa aliança
de trabalho mais tarde se transformará em uma aliança terapêutica, que segundo alguns
autores pode ser composta por dois fatores: a percepção de estar e recebendo apoio e o
sentimento de estarem trabalhando juntos. O terapeuta deve ser receptivo às
dificuldades do examinando e este deve perceber essa receptividade e também a
aceitação do entrevistador em relação às suas dificuldades. Com essa atmosfera de
colaboração e a percepção dessa receptividade, a relação entre ambos é fortalecida.
Facilitar a expressão dos motivos que levaram a pessoa a ser encaminhada ou a
buscar ajuda. Para isso, o paciente deve se sentir seguro o suficiente para poder
arriscar-se, e esta segurança para enfrentar certas situações vem em parte do tipo de
escuta e atenção que o examinando percebe estar recebendo, como também da
capacidade do entrevistador de facilitar a expressão de experiências, sentimentos e
pensamentos relevantes;
Buscar esclarecimentos para colocações vagas ou incompletas, pois estas atuam
como defesas que obscurecem o assunto em questão, e quando o entrevistador deixa
passar esse momento, perde uma oportunidade de desenvolver uma ideia mais clara
sobre assunto, além de não ajudar o paciente a ampliar sua percepção da questão.
Confrontar, de forma gentil, esquivas e contradições, ou seja, saber manejar esse
retorno ao paciente de forma que ele não se sinta ameaçado ou acuado. A confrontação
é uma técnica dirigida ao insight e requer certa capacidade de tolerar a ansiedade; deve-
se criar um contexto suficiente de apoio para que o sujeito se sinta em condições de
enfrentar esses momentos.
Tolerar, ter paciência com a ansiedade relacionada aos temas evocados na
entrevista. Muitos temas que envolvem emoção e experiências dolorosas aparecem
durante a entrevista e o entrevistador deve saber lidar e falar abertamente sobre esses
temas difíceis.
Reconhecer defesas e modelos de estruturação do paciente, especialmente
quando elas atuam diretamente na relação com o entrevistador, ou seja, saber
identificar possíveis transferências (processo que segundo Roudinesco & Plon (1998) é
205
constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do
analisando concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação
analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos, ou seja, a
transferência é um conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige
ao entrevistador ou psicoterapeuta, sentimentos estes que não são justificáveis em sua
atitude profissional, mas que estão fundamentados nas experiências que o paciente teve
em sua vida com seus pais ou criadores) a que estão sujeitos o entrevistador e o
examinando. Se o entrevistador reconhecer esses aspectos, poderá antecipar situações
de transferência e evitar resposta contratransferenciais inadequadas, assim o terapeuta
pode antecipar as ansiedades da pessoa e adaptar-se de modo correspondente.
Compreender seus processos contratransferenciais (que segundo Laplanche &
Pontalis (2001) pode ser compreendido como o conjunto das reações inconscientes do
analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste). Esse é
um dos recursos mais importantes do clínico, porque se ele sabe reconhecer como
processos mentais e afetivos são mobilizados em si mesmo e ser capaz de relacionar
esse processo ao que se passa na relação imediata com o sujeito fornece uma via muito
grande de compreensão do outro.
Assumir a iniciativa em momentos de impasse. Isso significa usar da criatividade
para dar uma resposta eficaz no momento, e ainda mobilizar recursos pessoais diante
de situações difíceis e inesperadas;
Saber muito bem sobre os elementos que está manejando, ou seja, dominar as
técnicas que utiliza. Se o entrevistador domina as técnicas que usa, este deixa de se
preocupar com a execução e se concentra no paciente, no que ele apresenta e na sua
relação com ele. A falta desse domínio da técnica pode resultar em uma aplicação
mecânica e desconexa das diretrizes da técnica.
Quanto à utilização da Avaliação Psicológica e mais especificamente dos testes,
Almeida (2005) deixa bem claro que o profissional que vai manejar os testes deve ter uma
formação sólida em avaliação psicológica, sustentada pelo ensino que privilegie o
aprofundamento teórico, as atividades práticas e investigativas. Outros autores acrescentam
ainda que a formação em avaliação psicológica vai além do ensino de graduação, fazendo-se
necessário que o profissional realize cursos de atualização e se insira em programas de pós-
graduação para a continuidade de sua formação e aprimoramento do conhecimento pertinente
ao uso dos instrumentos de avaliação.
206
9.3 GUIA DE RESPONSABILIDADE ÉTICA E PROFISSIONAL
Como já ressaltamos anteriormente a avaliação psicológica no Brasil é função privativa
do psicólogo, definida pela lei nº 4.119, de 1962, que regulamenta a profissão e corresponde ao
processo de coleta de dados e interpretações de informações, por meio de teorias, métodos e
instrumentos psicológicos. De acordo com Wechsler (1999), tem por finalidade obter maior
conhecimento do indivíduo, do grupo ou situações, a fim de atingir os objetivos definidos e,
assim, auxiliar em processos de tomada de decisões.
Sabemos que a avaliação psicológica é uma atividade ampla e fundamental, onde a
utilização pode se dar em vários contextos de atuação do psicólogo.
Alchieri & Bandeira (2002) falam dos problemas relativos à área, referindo-se à
precária formação dos profissionais, ao uso inadequado de instrumentos psicológicos, aos
instrumentos desatualizados e sem fundamentação científica, à falta de professores
especializados e à falta de consenso sobre como deve ser feita a formação do psicólogo nessa
área, no âmbito da graduação. E muitos desses problemas são decorrentes das dificuldades que
permearam a área da avaliação no início da década de 60, ainda quando os primeiros
instrumentos estavam sendo estudados no país.
Assim, as primeiras intervenções para que se modificasse essa situação vigente em
torno da Avaliação Psicológica no Brasil foi de certa forma reforçada pelo Conselho Federal de
Psicologia, que publicou em novembro de 2001 a primeira edição da Resolução CFP nº. 25/01
(CFP, 2001).
Dois anos depois de algumas reformulações, em 2003, passou a vigorar a Resolução
CFP nº. 02/2003 (CFP, 2003), onde esse documento define e regulamenta o uso, a elaboração e
a comercialização de testes psicológicos, com o objetivo de aprimorar os procedimentos de
avaliação por meio da aferição da qualidade dos instrumentos existentes, impedindo o uso de
instrumentos de má qualidade. Para isso, estabelece os requisitos mínimos que os testes devem
possuir para serem utilizados pelos profissionais, tais como, fundamentação teórica, validade,
precisão e normas com amostras brasileiras, visando à realização de um exercício profissional
ético e adequado ao atendimento das diferentes demandas sociais.
207
Diante de tantas dificuldades, um guia de Procedimentos Éticos para Avaliação
Psicológica foi publicado por Solange Wechsler, em 1999, que segundo ela, os psicólogos têm
um Código de Ética, estabelecido pelo CRP - Conselho Federal de Psicologia, orientando de
maneira geral as ações dos psicólogos nas suas mais diversas áreas de atuação, mas não
tinham ou faltava um código de ética específico para as áreas de avaliação psicológica,
apresentando diretrizes específicas para os diversos passos envolvidos no processode
avaliação psicológica, assim como acontece em outros países.
O Guia é um instrumento de grande valia para profissionais que trabalham com
avaliação objetivando orientar o trabalho de avaliação psicológica por meio das explicações
sobre o uso de instrumentos psicológicos objetivos.
É vigente que os Princípios Éticos são determinantes no trabalho de qualquer
profissional e mais especificamente, de acordo com o que estamos discutindo com o psicólogo e
a avaliação psicológica, acresce a responsabilidade inerente ao cumprimento do código de Ética.
Vários aspectos são mencionados no guia, dentre eles podemos citar:
A utilização dos testes psicológicos é de inteira competência e responsabilidade do
psicólogo, pois somente ele tem o treinamento e experiência necessária para assumir
esta responsabilidade de maneira profissional, ética e técnica;
Cabe exclusivamente ao psicólogo a responsabilidade pela qualidade da aplicação dos
testes psicológicos, sendo esta condição essencial para a obtenção de um resultado
fidedigno;
De acordo com o código é vedado ao psicólogo ceder, emprestar ou vender testes
psicológicos ou materiais integrantes destes (folha de correção, manual, tabelas de
normatização, etc.) a outros profissionais que não sejam psicólogos. Esta regra também
se aplica às editoras e distribuidoras de instrumentos psicológicos, devendo qualquer
infração ser denunciada ao CFP, que tomará as medidas necessárias;
O psicólogo deverá seguir rigorosamente as instruções, os exemplos, o tempo e outras
orientações que se encontrem no manual ou no próprio caderno do teste, evitando
quaisquer improvisações que possam comprometer todo o processo de validade do
instrumento;
Cabe ao psicólogo a responsabilidade do trabalho de correção dos testes psicológicos,
seguindo os critérios e as tabelas apropriadas para cada finalidade;
208
É vedado ao psicólogo o uso de material de teste fotocopiado ou em outras formas que
não sejam as originais do teste, a fim de que seja garantida a qualidade padronizada do
instrumento.
9.4 RESOLUÇÕES DO CRP REFERENTES À AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Veja todas essas resoluções detalhadamente nos anexos.
Resolução CFP nº. 012/1997:
Disciplina o ensino de métodos e técnicas psicológicas em cursos livres e de pós-
graduação, por psicólogos a não psicólogos.
Resolução CFP nº. 012/2000:
Instituição do Manual para Avaliação Psicológica de candidatos à CNH e condutores
de veículos automotores.
Resolução CFP nº. 025/2001:
Definição do teste psicológico como método de avaliação privativo do psicólogo e
regulamentação de normas para elaboração, publicação, comercialização e uso dos testes
psicológicos (Esta resolução foi revogada pela resolução 002/2003).
Resolução CFP nº. 030/2001:
Criação do Manual de elaboração de documentos escritos decorrentes de Avaliação
Psicológica. (Esta resolução foi revogada pela resolução 017/2002).
Resolução CFP nº. 001/2002:
Regulamenta a Avaliação Psicológica em concursos públicos e processos seletivos da
mesma natureza.
Resolução CFP nº. 016/2002:
Dispõe acerca do trabalho do psicólogo na avaliação psicológica de candidatos à CNH
e condutores de veículos automotores.
Resolução CFP nº. 017/2002:
209
Institui o Manual de elaboração de documentos escritos decorrentes de Avaliação
Psicológica. Esta resolução foi revogada pela 007/2003.
Resolução CFP nº. 002/2003:
Define e regulamenta o uso e a comercialização de testes psicológicos no Brasil.
Resolução CFP nº. 007/2003:
Institui o Manual de elaboração de documentos escritos decorrentes de Avaliação
Psicológica. Esta resolução revoga a 017/2002.
Resolução CFP nº. 006/2004:
Altera a resolução 002/2003.
9.5 DISPOSITIVOS QUE DEVEM SER OBSERVADOS PELO PSICÓLOGO NA AVALIAÇÃO
PSICOLÓGICA
Agora, abordaremos, devido à extensão do Código de Ética, somente as principais
questões referentes à Avaliação Psicológica:
Art. 1º - São deveres fundamentais dos psicólogos:
b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais
esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente;
c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e
apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas
reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;
h) Orientar a quem de direito sobre os encaminhamentos apropriados, a partir da
prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os documentos
pertinentes ao bom termo do trabalho;
i) Zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo, guarda e formas
de divulgação do material privativo do psicólogo sejam feitos conforme os princípios deste
Código.
Art. 2º - É vedado ao psicólogo:
g) emitir documentos sem fundamentação e qualidade técnico-científica;
210
k) Ser perito, avaliador ou parecerista em situações nas quais seus vínculos pessoais
ou profissionais, atuais ou anteriores, possam afetar a qualidade do trabalho a ser realizado ou a
fidelidade aos resultados da avaliação;
h) Interferir na validade e fidedignidade de instrumentos e técnicas psicológicas,
adulterar seus resultados ou fazer declarações falsas;
q) Realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar resultados de
serviços psicológicos em meios de comunicação, de forma a expor pessoas, grupos ou
organizações.
Art. 6º - O psicólogo, no relacionamento com profissionais não psicólogos:
b) Compartilhará somente informações relevantes para qualificar o serviço prestado,
resguardando o caráter confidencial das comunicações, assinalando a responsabilidade de
quem as receber, de preservar o sigilo.
Art. 12º - Nos documentos que embasam as atividades em equipe multiprofissional, o
psicólogo registrará apenas as informações necessárias para o cumprimento dos objetivos do
trabalho.
Art. 14º - A utilização de quaisquer meios de registro e observação da prática
psicológica obedecerá às normas deste Código e a legislação profissional vigente, devendo o
usuário ou beneficiário, desde o início, ser informado.
Art. 18º - O psicólogo não divulgará, ensinará, cederá, emprestará ou venderá a leigos
instrumentos e técnicas psicológicas que permitam ou facilitem o exercício ilegal da profissão.
9.6 RESPONSABILIDADE DO DIAGNÓSTICO PSICOLÓGICO
Nesse tópico vamos enumerar quais profissionais podem realmente realizar o
Psicodiagnóstico, mas de já podemos dizer que de acordo com a definição de alguns casos, em
que o diagnóstico deve ser da responsabilidade do psicólogo, pelos membros da sociedade em
geral, vai depender essencialmente da atuação profissional do psicólogo e da adequabilidade
das respostas que puder dar às necessidades reais do mercado.
211
Os profissionais que estão aptos a realizar o Psicodiagnóstico são eles:
O Psicodiagnóstico pode ser realizado por psicólogos, por psiquiatras, e segundo
Cunha (2003), atualmente ele pode ser realizado eventualmente por neurologistas ou
psicanalistas, com vários objetivos, exceto o de classificação simples, desde que seja utilizado o
modelo médico apenas, no exame de funções, identificação de patologias, sem uso de testes e
técnicas privativas do psicólogo clínico;
Pelo psicólogo clínico exclusivamente, para consecução de qualquer ou vários dos
objetivos, quando é utilizado o modelo psicológico – o Psicodiagnóstico – incluindo técnicas e
testes privativos desse profissional; Pela equipe multiprofissional como psicólogos, psiquiatras, neurologistas,
orientadores educacionais, assistentes sociais e outros, para êxito dos objetivos citados e,
eventualmente, de outros, desde que cada profissional utilize seu modelo próprio, em avaliação
mais complexa e inclusiva, em que é necessário integrar dados muitos interdependentes de
natureza psicológica, médica, social e etc.
Segundo Cunha (2004), a atribuição da responsabilidade pelo diagnóstico
tradicionalmente vem se baseando numa avaliação sumária do caso e numa expectativa do tipo
de tratamento necessário, só que essa posição vem mudando pela consideração do tipo de
exame que o caso individual requer. Podemos perceber que hoje, com as urgências
psiquiátricas, os encaminhamentos começam a ser feitos de acordo com a complexidade do
caso e não a sua gravidade, e consequentemente, a necessidade de que o diagnóstico seja feito
por meio de um exame mais ou menos sofisticado.
212
10 RESOLUÇÕES NA ÍNTEGRA
Essas resoluções foram obtidas no site www.pol.org.br, que dispõe informações sobre
o CFP.
RESOLUCÃO CFP N° 015/96
Institui e regulamenta a Concessão de Atestado Psicológico para tratamento de saúde
por problemas psicológicos.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e
regimentais:
CONSIDERANDO que o PSICÓLOGO é um profissional que atua também na área da
SAÚDE, com fundamento, inclusive, na caracterização efetuada pela OIT, OMS e CBO;
CONSIDERANDO que o parágrafo 1° do artigo 13 da Lei n° 4.1 19 de 27 de agosto de
1962 estabelece que é função do psicólogo a elaboração de diagnóstico psicológico;
CONSIDERANDO que o PSICÓLOGO pode diagnosticar condições mentais que
incapacitem o paciente para o trabalho e/ou estudos;
CONSIDERANDO que o PSICÓLOGO pode diagnosticar condições mentais que
ofereçam riscos para o paciente e para o próprio meio ambiente onde se insere;
CONSIDERANDO que para o devido restabelecimento do equilíbrio mental do paciente
é muitas vezes necessário seu atestamento das atividades laborais ou de estudos;
213
CONSIDERANDO que tal medida visa, sobretudo, promover a sanidade mental,
garantir as condições de trabalho necessárias ao bem-estar individual e social, valorizando os
direitos do cidadão;
CONSIDERANDO, ainda, a ampla repercussão da resolução n° 07/94, as discussões
ocorridas em várias instâncias e o deliberado no II Congresso Nacional de Psicologia.
RESOLVE:
Art. 1° - É atribuição do PSICÓLOGO a emissão de atestado psicológico circunscrito
às suas atribuições profissionais e com fundamento no diagnóstico psicológico produzido.
Parágrafo único - Fica facultado ao psicólogo o uso do Código Internacional de
Doenças - CID, ou outros Códigos de diagnóstico, cientifica e socialmente reconhecidos, como
fonte para enquadramento de diagnóstico.
Art. 2° - Quando emitir atestado com a finalidade de abastamento para tratamento de
saúde, fica o PSICÓLOGO obrigado a manter em seus arquivos a documentação técnica que
fundamente o atestado por ele concedido e a registrar as situações decorrentes da emissão do
mesmo.
Parágrafo único - Os Conselhos Regionais poderão a qualquer tempo suscitar o
PSICÓLOGO a apresentar a documentação que se refere o "caput" para comprovação da
fundamentação científica do atestado.
Art.3° - No caso do afastamento para tratamento de saúde ultrapassar a 15 (quinze)
dias o paciente deverá ser encaminhado pela empresa à Perícia da Previdência Social, para
efeito de concessão de auxílio-doença.
Art. 4° - O atestado emitido pelo PSICÓLOGO deverá ser fornecido ao paciente, que
por sua vez se incumbirá de apresentá-lo a quem de direito para efeito de justificativa de falta,
por motivo de tratamento de saúde.
214
Art. 5° - O PSICÓLOGO será profissionalmente responsável pelos termos contidos no
atestado emitido, devendo cumprir seu mister com zelo e competência sob pena de violação,
dentre outros, do art. 2, alínea "m" do Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Art. 6° - Os casos omissos serão resolvidos pelos Conselhos Regionais.
Art. 7° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
RESOLUÇÃO CFP N° 012/97
Disciplina o Ensino de Métodos e Técnicas Psicológicas em cursos livres e de pós-
graduação, por Psicólogos a não Psicólogos.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA no uso das atribuições que lhe conferem
o Art. 06, alíneas a e b, da lei 5.766 de 20 de dezembro de 1971, e o art. 6, incisos IV e V, do
decreto n° 79.822 de 17 de junho de 1977, e;
CONSIDERANDO o art. 13, parágrafo 1°, da Lei 4.119, de 27 de agosto de 1962, que
estabelece como função privativa do Psicólogo o uso de métodos e técnicas Psicológicas;
CONSIDERANDO o disposto no Art. 35 da Resolução CFP n° 2/87 de 15 de agosto de
1987, que aprovou o Código de Ética Profissional do psicólogo, e que proíbe a divulgação,
cessão, doação, empréstimo ou venda a leigos de instrumentos e técnicas psicológicas que
permitam ou facilitem o exercício ilegal da profissão;
CONSIDERANDO a grande incidência dos chamados cursos de formação, regulares
ou não, onde, a título de especialização, têm sido ministrados, para não psicólogos, métodos e
técnicas psicológicas de uso exclusivos do Psicólogo;
CONSIDERANDO que, frequentemente, os responsáveis pela administração desses
conteúdos são Psicólogos;
CONSIDERANDO as frequentes denúncias de exercício ilegal da profissão contra
pessoas não habilitadas, egressas desses cursos;
215
RESOLVE:
Art. 1 - O ensino de métodos e técnicas psicológicas fica reservado exclusivamente
aos alunos regularmente matriculados nos Cursos de Psicologia, regulamentados nos termos da
lei 4.119, de 27 de agosto de 1962, e aos psicólogos registrados no respectivo Conselho
Regional.
Art. 2 - O descumprimento ao estabelecido nesta resolução constituir-se-á em infração
ao Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Art. 3 - Esta resolução entrará em vigor na data de sua publicação e revogadas as
disposições em contrário.
RESOLUÇÃO CFP N.º 012/2000
Institui o Manual para Avaliação Psicológica de candidatos à Carteira Nacional de
Habilitação e condutores de veículos automotores.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e
regimentais, que lhe são conferidas pela Lei nº. 5.766, de 20 de dezembro de 1971 e;
CONSIDERANDO a necessidade de normatização e qualificação de procedimentos
relacionados à prática da avaliação psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação
e condutores de veículos automotores e;
CONSIDERANDO as exigências do novo Código de Trânsito Brasileiro e resoluções
conexas e;
CONSIDERANDO o trabalho realizado pela câmara interinstitucional de Avaliação
Psicológica, grupo de trabalho integrado por entidades e segmentos envolvidos com a área e;
216
CONSIDERANDO a deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 8 de dezembro de 2000 e;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em Sessão realizada no dia 16 de
dezembro de 2000;
RESOLVE:
Art. 1 – Fica aprovado o Manual para Avaliação Psicológica de Candidatos à Carteira
Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores, que dispõe sobre os seguintes
itens:
I – Conceito de Avaliação Psicológica;
II – Perfil do Candidato à CNH e dos Condutores de Veículos Automotores;
III – Instrumentos de Avaliação Psicológica;
IV – Condições do Aplicador;
V – Condições da Aplicação dos Instrumentos de Avaliação Psicológica;VI – Material Utilizado;
VII – Mensuração e Avaliação;
VIII – Laudo Psicológico
Art. 2 – Os dispositivos deste manual constituem exigências mínimas de qualidade
referentes à área de avaliação psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação e
condutores de veículos automotores.
§ 1º - Para cumprimento do que dispõe o inciso 6.2 do Anexo II da Resolução n.°0/98
do CONTRAN, os Conselhos Regionais de Psicologia serão responsáveis pela verificação do
cumprimento desta Resolução, do Código de Ética Profissional e demais normas referentes ao
exercício profissional do Psicólogo.
§ 2º – A desobediência à presente norma constitui-se falta eticodisciplinar passível de
217
capitulação nos dispositivos referentes ao exercício profissional do Código de Ética Profissional
dos Psicólogos, sem prejuízo de outros que possam ser arguidos.
Art. 3 - Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação.
Art. 4 - Revogam-se as disposições em contrário.
RESOLUÇÃO CFP Nº. 25/2001
Esta Resolução foi revogada pela 02/2003, sendo assim torna-se bastante semelhante
seus artigos e parágrafos. Ela será apresentada na íntegra na resolução na 02/2003.
Define teste psicológico como método de avaliação privativo do psicólogo e
regulamenta sua elaboração, comercialização e uso.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso das atribuições legais e
regimentais, que lhe são conferidas pela Lei nº 5.766, de 20 de dezembro de 1971 e;
CONSIDERANDO o disposto no § 1o do Art. 13 da Lei no 4.119/62, que restringe ao
psicólogo o uso de métodos e técnicas psicológicas;
CONSIDERANDO a necessidade de aprimorar os instrumentos e procedimentos
técnicos dos psicólogos, com o objetivo de garantir serviços com qualidade técnica e ética à
população usuária desses serviços;
CONSIDERANDO a necessidade de revisão periódica das condições dos métodos e
técnicas utilizados na avaliação psicológica;
CONSIDERANDO as deliberações do IV Congresso Nacional da Psicologia acerca do
tratamento a ser dispensado aos testes psicológicos;
CONSIDERANDO propostas encaminhadas por psicólogos, delegados das diversas
218
regiões, que participaram do I Fórum Nacional de Avaliação Psicológica, realizado em dezembro
de 2000;
CONSIDERANDO deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 4 de maio de 2001;
RESOLUÇÃO CFP Nº. 30/2001
Esta resolução foi revogada pela 17/2002 e posteriormente pela 07/2003. Portanto,
devido à semelhança de parágrafos, ela será apresentada na íntegra na resolução 07/2003.
Institui o Manual de Elaboração de Documentos produzidos pelo psicólogo,
decorrentes de Avaliações Psicológicas.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e
regimentais que lhe são conferidas pela Lei no 5.766, de 20 de dezembro de 1971;
CONSIDERANDO que o psicólogo no seu exercício profissional tem sido solicitado a
apresentar informações documentais com objetivos diversos;
CONSIDERANDO a necessidade de referências para subsidiar o psicólogo na
produção qualificada de documentos escritos decorrentes de Avaliação Psicológica;
CONSIDERANDO a frequência com que representações éticas são desencadeadas a
partir de queixas que colocam em questão a qualidade dos documentos escritos, decorrentes de
Avaliação Psicológica, produzidos pelos psicólogos;
CONSIDERANDO os princípios éticos fundamentais que norteiam a atividade
profissional do psicólogo e os dispositivos sobre avaliação psicológica contidos no código de
Ética Profissional do Psicólogo;
219
CONSIDERANDO as implicações sociais decorrentes da finalidade do uso dos
documentos escritos pelos psicólogos a partir de Avaliações Psicológicas;
CONSIDERANDO propostas encaminhadas no I FORUM NACIONAL DE AVALIAÇÃO
PSICOLÓGICA, ocorrido em dezembro de 2000;
CONSIDERANDO deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 4 de maio de 2001 e;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em sessão realizada em 1º de dezembro
de 2001.
OBS: O Manual de Elaboração de Documentos foi visto anteriormente.
RESOLUÇÃO CFP Nº. 01/2002
Regulamenta a Avaliação Psicológica em Concurso Público e processos seletivos da
mesma natureza.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso das atribuições legais e
regimentais que lhe são conferidas pela Lei nº 5.766, de 20 de dezembro de 1971 e;
CONSIDERANDO o disposto no § 1º do Art. 13 da lei 4119/62, que restringe ao
psicólogo o uso de métodos e técnicas psicológicas;
CONSIDERANDO a natureza pública do Conselho Federal de Psicologia, da qual
decorre tanto a necessidade de aprimorar os serviços técnicos dos psicólogos, quanto a defesa
da população usuária desses serviços;
CONSIDERANDO a necessidade de estabelecer normas que garantam ao usuário dos
serviços de avaliação psicológica, além de qualidade técnica, condições legais e éticas
adequadas;
220
CONSIDERANDO a necessidade de orientação aos psicólogos a respeito de
procedimentos adequados quando da sua participação em processos seletivos;
CONSIDERANDO propostas encaminhadas por psicólogos, delegados das diversas
regiões, que participaram do I Fórum Nacional de Avaliação Psicológica, realizado em dezembro
de 2000;
CONSIDERANDO deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 15 de dezembro de 2001;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário nesta data;
CONSIDERANDO a necessidade de orientar os órgãos públicos e demais pessoas
jurídicas a respeito das informações relacionadas à avaliação psicológica que devem constar nos
Editais de concurso para garantia dos direitos dos candidatos;
RESOLVE:
Art. 1 - A avaliação psicológica para fins de seleção de candidatos é um processo
realizado mediante o emprego de um conjunto de procedimentos objetivos e científicos, que
permite identificar aspectos psicológicos do candidato para fins de prognóstico do desempenho
das atividades relativas ao cargo pretendido.
§ 1º - Para proceder à avaliação referida no caput deste artigo, o psicólogo deverá
utilizar métodos e técnicas psicológicas que possuam características e normas obtidas por meio
de procedimentos psicológicos reconhecidos pela comunidade científica como adequados para
instrumentos dessa natureza.
§ 2º - Optando pelo uso de testes psicológicos, o psicólogo deverá utilizar testes
validados em nível nacional, aprovados pelo CFP de acordo com a Resolução CFP nº. 25/2001,
que garantam a precisão dos diagnósticos individuais obtidos pelos candidatos.
Art. 2 - Para alcançar os objetivos referidos no artigo anterior, o psicólogo deverá:
221
I - utilizar testes definidos com base no perfil profissiográfico do cargo pretendido;
II – incluir, nos instrumentos de avaliação, técnicas capazes, minimamente, de aferir
características tais como inteligência, funções cognitivas, habilidades específicas e
personalidade;
III - à luz dos resultados de cada instrumento, proceder à análise conjunta de todas as
técnicas utilizadas, relacionando-as ao perfil do cargo e aos fatores restritivos para a profissão,
considerando a capacidade do candidato para utilizar as funções psicológicas necessárias ao
desempenho do cargo;
IV - seguir sempre a recomendação atualizada dos manuais técnicos adotados a
respeito dos procedimentos de aplicação e avaliação quantitativa e qualitativa.
Art. 3 - O Edital deverá conter informações, em linguagem compreensível ao leigo,
sobre a avaliação psicológica a ser realizada e os critérios de avaliação, relacionando-osaos
aspectos psicológicos considerados compatíveis com o desempenho esperado para o cargo.
Art. 4 - O psicólogo ou comissão responsável deverá ser designada pela instituição ou
empresa que promove o concurso ou a seleção, por meio de ato formal, devendo todos estar
regularmente inscritos em Conselho Regional de Psicologia.
Art. 5 - O psicólogo deverá declarar-se impedido de avaliar candidatos com os quais
tenha relação que possa interferir na avaliação.
Parágrafo Único – Na hipótese do exposto no caput desse artigo, o candidato deverá
ser encaminhado a outro membro da comissão de avaliação ou a outro profissional.
Art. 6 - A publicação do resultado da avaliação psicológica será feita por meio de
relação nominal, constando os candidatos indicados.
§ 1º - O sigilo sobre os resultados obtidos na avaliação psicológica deverá ser mantido
pelo psicólogo, na forma prevista pelo código de ética da categoria profissional.
§ 2º - Será facultado ao candidato, e somente a este, conhecer o resultado da
avaliação por meio de entrevista devolutiva.
Art. 7 – Na hipótese de recurso à instância competente, o candidato poderá ser
222
assessorado ou representado por psicólogo que não tenha feito parte da comissão avaliadora,
que fundamentará o pedido e a revisão do processo de avaliação do recorrente, com base nas
provas realizadas.
§ 1º - Havendo recurso para realização de perícia, ficam os membros da comissão
impedidos de participarem do processo.
§ 2º - Os peritos deverão considerar todas as informações referentes ao cargo,
fornecidas pelo órgão.
Art. 8 - Tanto para a entrevista de devolução quanto para a apresentação do recurso,
não será admitida a remoção dos testes do candidato do seu local de arquivamento público,
devendo o psicólogo contratado fazer seu trabalho na presença de um psicólogo da comissão
examinadora, salvo determinação judicial.
Art. 9 - A avaliação psicológica em concurso público ou processo seletivo da mesma
natureza terá sua validade de acordo com a Resolução CFP n.º 25/2001.
Parágrafo Único – Caso o candidato possua aprovação em concurso público e o
exame psicológico esteja fora do prazo de validade, a admissão do candidato estará sujeita à
nova avaliação psicológica.
Art. 10 - O laudo psicológico deverá ser assinado, ao menos, pelo responsável técnico
da avaliação.
Art. 11 - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
RESOLUÇÃO CFP Nº. 16/2002
Dispõe acerca do trabalho do psicólogo na avaliação psicológica de candidatos à
Carteira Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores.
223
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e
regimentais, que lhe são conferidas pela Lei nº. 5.766, de 20 de dezembro de 1971;
CONSIDERANDO a necessidade de normatização e qualificação de procedimentos
relacionados à prática da avaliação psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação
e condutores de veículos automotores;
CONSIDERANDO a importância de todos os exames de avaliação psicológica serem
distribuídos imparcialmente, por meio de divisão equitativa, aleatória e impessoal entre as
entidades credenciadas na área de jurisdição do órgão executivo do trânsito;
CONSIDERANDO as exigências do novo Código de Trânsito Brasileiro e resoluções
conexas;
CONSIDERANDO o disposto na Resolução CFP Nº. 012/2000;
CONSIDERANDO a deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 14 de dezembro de 2002 e;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em Sessão realizada no dia 19 de
dezembro de 2002;
RESOLVE:
Art. 1 - A Avaliação Psicológica de Candidatos à Carteira Nacional de Habilitação e
condutores de veículos automotores não poderá ser realizada em centros de formação de
condutores ou em qualquer outro local, público ou privado, cujos agentes tenham interesse no
resultado dos exames psicológicos, dada sua natureza pericial.
Art. 2 - Os locais para a realização das avaliações psicológicas para candidatos à
Carteira Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores devem ser exclusivos
para esse tipo de procedimento.
§ Parágrafo único – Nos locais referidos no caput deste artigo poderão ser realizados
também exames de sanidade física e mental com a finalidade de obtenção da Carteira Nacional
de Habilitação e condutores de veículos automotores.
Art. 3 - Aos psicólogos peritos responsáveis pela avaliação psicológica fica vedado
estabelecer qualquer vínculo com os Centros de Formação de Condutores (CFCs), seja como
pessoa física, seja como jurídica.
Art. 4 - O prazo para a adequação de procedimentos contidos nesta Resolução será
de 120 (cento e vinte) dias a partir da data de sua publicação.
224
Art. 5 - Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação.
Art. 6 - Revogam-se as disposições em contrário.
RESOLUÇÃO CFP Nº. 17/2002
Esta resolução foi revogada pela 007/2003 e esta por sua vez, revogou a resolução
30/2001. Por esse motivo ela será apresentada na íntegra na resolução 07/2003.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e
regimentais, que lhe são conferidas pela Lei no 5.766, de 20 de dezembro de 1971;
CONSIDERANDO que o psicólogo no seu exercício profissional tem sido solicitado a
apresentar informações documentais com objetivos diversos;
CONSIDERANDO a necessidade de referências para subsidiar o psicólogo na
produção qualificada de documentos escritos decorrentes de avaliação psicológica;
CONSIDERANDO a frequência com que representações éticas são desencadeadas a
partir de queixas que colocam em questão a qualidade dos documentos escritos, decorrentes de
avaliação psicológica, produzidos pelos psicólogos;
CONSIDERANDO os princípios éticos fundamentais que norteiam a atividade
profissional do psicólogo e os dispositivos sobre avaliação psicológica contidos no código de
Ética Profissional do Psicólogo;
CONSIDERANDO as implicações sociais decorrentes da finalidade do uso dos
documentos escritos pelos psicólogos a partir de avaliações psicológicas;
CONSIDERANDO as propostas encaminhadas no I FORUM NACIONAL DE
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA, ocorrido em dezembro de 2000;
225
CONSIDERANDO a deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras, em reunião realizada em 15 de dezembro de 2002, para tratar da revisão do Manual
de Elaboração de Documentos produzidos pelos psicólogos, decorrentes de avaliações
psicológicas;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em sessão realizada em 19 de dezembro
de 2002;
RESOLUÇÃO CFP Nº. 02/2003
Define e regulamenta o uso, a elaboração e a comercialização de testes psicológicos e
revoga a Resolução CFP n° 025/2001.
O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso das atribuições legais e
regimentais que lhe são conferidas pela Lei nº 5.766, de 20 de dezembro de 1971, e;
CONSIDERANDO o disposto no § 1o do Art. 13 da Lei no 4.119/62, que restringe ao
psicólogo o uso de métodos e técnicas psicológicas;
CONSIDERANDO a necessidade de aprimorar os instrumentos e procedimentos
técnicos de trabalho dos psicólogos e de revisão periódica das condições dos métodos e
técnicas utilizados na avaliação psicológica, com o objetivo de garantir serviços com qualidade
técnica e ética à população usuária desses serviços;
CONSIDERANDO a demanda social e a necessidade de construir um sistema
contínuo de avaliação dos testes psicológicos, adequado à dinâmica da comunidade científica e
profissional, que vem disponibilizando com frequência novos instrumentos dessa natureza aos226
psicólogos;
CONSIDERANDO as deliberações do IV Congresso Nacional de Psicologia acerca do
tratamento a ser dispensado aos testes psicológicos;
CONSIDERANDO as propostas encaminhadas por psicólogos, delegados das diversas
regiões, que participaram do I Fórum Nacional de Avaliação Psicológica, realizado em dezembro
de 2000;
CONSIDERANDO a necessidade de agilizar e de tornar público o processo de
avaliação desses instrumentos;
CONSIDERANDO a função social dos Conselhos de Psicologia em buscar a qualidade
técnica e ética dos produtos e serviços profissionais do psicólogo;
CONSIDERANDO a necessidade de divulgação prévia aos psicólogos dos
requisitos mínimos que devem ter os testes psicológicos, conforme disposto no Anexo I da
presente Resolução;
CONSIDERANDO que a divulgação dos requisitos mínimos proporcionará as
condições para a adoção de providências imediatas para a qualificação dos testes;
CONSIDERANDO a deliberação da Assembleia das Políticas Administrativas e
Financeiras em reunião realizada no dia 14 de dezembro de 2002 e;
CONSIDERANDO decisão deste Plenário no dia 16 de março de 2003;
RESOLVE:
Art. 1 - Os Testes Psicológicos são instrumentos de avaliação ou mensuração de
características psicológicas, constituindo-se um método ou uma técnica de uso privativo do
psicólogo, em decorrência do que dispõe o § 1odo Art. 13 da Lei no 4.119/62.
Parágrafo único. Para efeito do disposto no caput deste artigo, os testes psicológicos
227
são procedimentos sistemáticos de observação e registro de amostras de comportamentos e
respostas de indivíduos com o objetivo de descrever e/ou mensurar características e processos
psicológicos, compreendidos tradicionalmente nas áreas emoção/afeto, cognição/inteligência,
motivação, personalidade, psicomotricidade, atenção, memória, percepção, dentre outras, nas
suas mais diversas formas de expressão, segundo padrões definidos pela construção dos
instrumentos.
Art. 2 - Os documentos a seguir são referências para a definição dos conceitos,
princípios e procedimentos, bem como o detalhamento dos requisitos estabelecidos nesta
Resolução:
I - International Test Commission (2000). ITC Guidelines on Adapting Tests.
International Test Commission. Disponível on-line em: http://www.intestcom.org.
II - American Educational Research Association, American Psychological Association &
National Council on Measurement in Education (1999). Standards for Educational and
Psychological Testing. New York: American Educational Research Association.
III - Canadian Psychological Association (1996). Guidelines for Educational and
Psychological Testing. Ontário, CA: CPA. Disponível On-Line em:
http://www.cpa.ca/guide9.html;
Art. 3 - Os requisitos mínimos que os instrumentos devem possuir para serem
reconhecidos como testes psicológicos e possam ser utilizados pelos profissionais da psicologia
são os previstos nesta Resolução.
Art. 4- Para efeito do disposto no artigo anterior, são requisitos mínimos e obrigatórios
para os instrumentos de avaliação psicológica que utilizam questões de múltipla escolha e outros
similares, tais como "acerto e erro", "inventários" e "escalas":
I - apresentação da fundamentação teórica do instrumento, com especial ênfase na
definição do construto, sendo o instrumento descrito em seu aspecto constitutivo e operacional,
incluindo a definição dos seus possíveis propósitos e os contextos principais para os quais ele foi
desenvolvido;
II - apresentação de evidências empíricas de validade e precisão das interpretações
228
propostas para os escores do teste, justificando os procedimentos específicos adotados na
investigação;
III - apresentação de dados empíricos sobre as propriedades psicométricas dos itens
do instrumento;
IV - apresentação do sistema de correção e interpretação dos escores, explicitando a
lógica que fundamenta o procedimento, em função do sistema de interpretação adotado, que
pode ser:
a) referenciada à norma, devendo, nesse caso, relatar as características da amostra de
padronização de maneira clara e exaustiva, preferencialmente comparando com estimativas
nacionais, possibilitando o julgamento do nível de representatividade do grupo de referência
usado para a transformação dos escores; b) Diferente da interpretação referenciada à norma,
devendo, nesse caso, explicar o embasamento teórico e justificar a lógica do procedimento de
interpretação utilizado.
V - Apresentação clara dos procedimentos de aplicação e correção, bem como as
condições nas quais o teste deve ser aplicado, para que haja a garantia da uniformidade dos
procedimentos envolvidos na sua aplicação;
VI - Compilação das informações indicadas acima, bem como outras que forem
importantes, em um manual contendo, pelo menos, informações sobre:
a) O aspecto técnico-científico, relatando a fundamentação e os estudos empíricos
sobre o instrumento;
b) O aspecto prático, explicando a aplicação, correção e interpretação dos resultados
do teste;
c) A literatura científica relacionada ao instrumento, indicando os meios para a sua
obtenção.
Art. 5 - São requisitos mínimos obrigatórios para os instrumentos de avaliação
psicológica classificados como "testes projetivos":
I - Apresentação da fundamentação teórica do instrumento com especial ênfase na
229
definição do construto a ser avaliado e dos possíveis propósitos do instrumento e os contextos
principais para os quais ele foi desenvolvido;
II - Apresentação de evidências empíricas de validade e precisão das interpretações
propostas para os escores do teste, com justificativas para os procedimentos específicos
adotados na investigação, com especial ênfase na precisão de avaliadores, quando o processo
de correção for complexo;
III - Apresentação do sistema de correção e interpretação dos escores, explicitando a
lógica que fundamenta o procedimento, em função do sistema de interpretação adotado, que
pode ser:
a) Referenciada à norma, devendo, nesse caso, relatar as características da amostra
de padronização de maneira clara e exaustiva, preferencialmente comparando com estimativas
nacionais, possibilitando o julgamento do nível de representatividade do grupo de referência
usado para a transformação dos escores;
b) Diferente da interpretação referenciada à norma, devendo, nesse caso, explicar o
embasamento teórico e justificar a lógica do procedimento de interpretação utilizado;
IV - Apresentação clara dos procedimentos de aplicação e correção e das condições
nas quais o teste deve ser aplicado para garantir a uniformidade dos procedimentos envolvidos
na sua aplicação;
V - compilação das informações indicadas acima, bem como outras que forem
importantes, em um manual contendo, pelo menos, informações sobre:
a) o aspecto técnico-científico, relatando a fundamentação e os estudos empíricos
sobre o instrumento;
b) o aspecto prático, explicando a aplicação, correção e interpretação dos resultados
do teste e;
c) a literatura científica relacionada ao instrumento, indicando os meios para a sua
obtenção.
Art. 6 - Os requisitos mínimos obrigatórios são aqueles contidos no Anexo I desta
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Resolução, Formulário de Avaliação da Qualidade de Testes Psicológicos.
Parágrafo Único – O Anexo que trata o caput deste Artigo é parte integrante desta
Resolução.
Art. 7- Também estão sujeitos aos requisitos estabelecidos na presente Resolução os
testes estrangeiros de qualquer natureza, traduzidos para o português, que devem ser
adequados a partir de estudos realizados com amostras brasileiras, considerando a relação de
contingência