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ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
ab ord agen s
Sirio Possenti 
Rosana Paulillo 
Egon de Oliveira Rangel 
J.A. Guilhon Albuquerque 
Maria Tereza Aina Sadek 
Bolívar Lamounier
Vera Chaia 
Paulo-Edgar Resende 
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida
(Organizadores)
edwe
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
a b o rd a g e n s
Esta obra foi publicada 
com o apoio da
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA 
DO ESTADO DE SÃO PAULO - FAPESP
(Processo 94/2950-3)
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
ab o rd a g e n s
EDUC - Editora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Reitor. Antonio Carlos Caruso Ronca 
Vice-Reitor Acadêmico: Fernando José de 
Almeida
Conselho Editorial: Ana Maria Rapassi, 
Fernando José de Almeida (Presidente), 
Bemardette A. Gatti, Lúcia Santaella, Sylvia 
Helena Souza da Silva, Maria do Carmo 
Guedes, Maura Pardini Bicudo Veras, 
Onésimo de Oliveira Cardoso, Ricardo 
Augusto de Miranda Cadaval, Scipione de 
Pierro Neto, Teresa Celina de Arruda Alvim 
Pinto.
Sirio Possenti 
Rosana Paulillo 
Egon de O liveira Rangel 
J.A. Gu ilhon d e A lbuque rque 
M aria Tereza A ina sadek 
Bolívar Lam ounier
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO:
a b o rd ag en s
São Paulo 
1993
Catalogação na Fonte - Biblioteca Central/PUC-SP
Análise do discurso político: abordagens/orgs. Lúcio Flávio Rodrigues 
de Almeida, Paulo Resende, Vera C haia.- São Paulo: EDUC, 1993.
110p.; 23 cm. - (Coleção Eventos)
ISBN 85-283-0060-9
I. Análise do discurso. I. Almeida, Lúcio Flávio Rodrigues de.
II. Resende, Paulo-Edgar Almeida. III. Chaia, Vera. IV. Série.
V. Título.
CDD 415
Série Eventos 
Produção
F.veline BouteiUer Kavakama 
Composição
F.laine Cristine Fernandes da Silva 
Revisão
Berenice Haddad Aguerre 
Capa
Luiz Orlando Caracciolo
EDUC - Editora da PUC-SP 
Diretora
Maria do Carmo Guedes
Rua Monte Alegre, 984 
05014-001 - São Paulo — SP 
Fone: (011) 873-3359 
Fax: (011) 62-4920
SUMÁRIO
7 APRESENTAÇÃO
11 ANÁLISE DO DISCURSO: UMA COMPLICAÇÃO 
DO ÓBVIO?
Sirio Possenti
25 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE 
DO DISCURSO REFERIDO 
Rosana Paulillo
49 A ANÁLISE DE DISCURSO: ENTRE AS CONDIÇÕES 
DE PRODUÇÃO E A SUPERFÍCIE DISCURSIVA 
Egon de Oliveira Rangel
71 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS 
DA ANÁLISE DE DISCURSO 
José Augusto Guilhon de Albuquerque
81 DISCURSO POLÍTICO: NOTAS PARA UM DEBATE 
Maria Tereza Aina Sadek
93 NOVAS FORMAS DO DEBATE DEMOCRÁTICO 
Bolívar Lamounier
APRESENTAÇÃO
O Departamento de Política da Faculdade de Ciências Sociais 
da PUC-SP implantou, em 1989, o Núcleo de Memória Política Bra­
sileira. A prioridade inicial do Núcleo foi contribuir, ao lado de ou­
tras instituições de pesquisa, para o estudo ampliado do Poder Le­
gislativo no Brasil, no nível do Congresso Nacional, das Assem­
bléias Legislativas e das Câmaras Municipais.
Como primeira atividade do Núcleo, realizamos um ciclo de 
conferências no qual foram debatidas questões referentes aos proce­
dimentos metodológicos de análise de discurso e pesquisas que fize­
ram uso dessas metodologias.
Ao organizarmos esse ciclo de conferências tivemos a preocu­
pação de convidar especialistas nas áreas de Lingüística e Ciência 
Política. Os textos desta coletânea expressam a importância da análi­
se de discurso feita de modo interdisciplinar, visando a compreensão 
do fenômeno social de maneira mais abrangente.
Em “Análise do Discurso: Uma Complicação do Óbvio?”, Sirio 
Possenti procura eliminar, de forma segura e bem humorada, lugares 
comuns que produzem a ilusão de uma extrema facilidade dos pro­
blemas que se colocam para esta “disciplina”. A análise do discurso 
não é um campo perfeitamente delimitado de cientifícidade, nem 
possui a chave para a solução de todos os problemas que permane­
cem insolúveis no interior do universo caótico das ciências humanas.
Ao contrário, insistindo em que se trata de um campo vago e 
complexo, Possenti expõe alguns supostos consensuais, assim como 
as distinções entre as principais vertentes que se constituem neste 
elenco de procedimentos de análise, aos quais o autor, longe de 
contemplar com um pleno estatuto de cientifícidade, prefere reservar 
um “lugar de crítica” , similar, sob vários aspectos, aos que Foucault 
atribui à psicanálise e à etnologia.
8 Apresentação
O artigo “Procedimentos de Análise do Discurso Referido” de 
Rosana Paulillo se defronta com o discurso que inclui outro discur­
so, isto é, todas as formas em que a citação se verifica. Não se trata 
do discurso que representa uma realidade exterior, mas que reporta: 
é a linguagem em relação à linguagem. Nos processos discursivos, a 
fala dificilmente é ato de sujeito isolado, que nomeia o real, mas re­
plica, fala a partir de outras falas, que se põe como complemento ou 
contraste em relação a outras falas. A temática do discurso referido 
se liga, portanto, ao campo do interdiscurso e da heterogeneidade do 
sujeito enunciador, atravessado pela multiplicidade de vozes.
A autora apresenta, em primeiro lugar, como referência históri­
ca do trabalho atual de análise do discurso referido, a teoria da 
enunciação de Émile Benveniste e a teoria do dialogismo de Mikhail 
Bakhtin. Em segundo lugar, a autora apresenta procedimentos de 
análise de discurso nos quais se correlacionam formas de linguagem 
e efeitos de sentido.
Ao longo das reflexões que desenvolve em seu “A Análise de 
Discurso: Entre as Condições de Produção e a Superfície Discursi­
va”, Egon Rangel revela a complexidade das teorizações acerca des­
ses dois aspectos do discurso, bem como das relações entre eles. Pa­
ra isso o autor se reporta ao exame que efetuou, em sua pesquisa, do 
Diário Completo, de Lúcio Cardoso, e de um manual de sexologia. 
Por outro lado, recorre a uma rica bibliografia teórica.
Quando Egon Rangel, após examinar dois níveis das condições 
de produção do discurso (formação ideológica ou discursiva e con­
texto imediato de enunciação), recorre ao conceito de “ordem dis­
cursiva”, o resultado do cotejo daqueles materiais lingüísticos tão 
díspares toma-se, ao mesmo tempo, surpreendente e elucidativo.
José Augusto Guilhon de Albuquerque, em “Pressupostos Teó­
ricos e Metodológicos da Análise de Discurso”, situa a análise do 
discurso na longa tradição de reflexão sobre o pensamento. Duas 
questões fundamentais se apresentam: a dinâmica interna do pensa­
mento e seus efeitos de conhecimento e convencimento.
A preocupação é com as representações do sujeito, com o que 
ele diz, e não com o que ele quer dizer ou deveria dizer. O discurso
Apresentação 9
representa e não retrata a realidade. Descarta-se qualquer hierarquia 
entre discursos para a verificação da verdade, ou sua interpretação. 
Conseqüência técnica desta concepção é a identificação do sujeito 
do discurso e de seu objeto. Ao ser eliminada a separação entre su­
jeito e discurso, este passa a ser a representação da realidade pelo 
sujeito.
O artigo “Discurso Político: Notas Para Um Debate” , de Maria 
Tereza Aina Sadek, analisa os “... espaços ocupados pelo discurso 
político e seus conseqüentes desdobramentos nas concepções sobre a 
vida política” . A autora identifica três modelos que orientam e dão 
significado aos discursos políticos: o modelo idealista-ateniense, o 
ético-normativo e o realista. Após analisar esses modelos, conclui 
que apesar de ter ocorrido alterações sócio-economicas e políticas, o 
discurso dos anos 20 e 30 ainda é atual na sociedade brasileira con­
temporânea.
Bolívar Lamounier, em “Novas Formas do Debate Democráti­
co” , aponta a revalorização de estudos sobre o pensamento político 
brasileiro, detectando três fases neste desenvolvimento: a construção 
do Estado, a questão da industrialização e autonomia nacional, e a 
terceira fase centrada na questão democrática.
Conforme o autor, a preocupaçãocom a democracia se encon­
tra presente nas obras de Sérgio Buarque de Holanda e Victor Nunes 
Leal, porém, somente nos meados dos anos 70 é que a questão de­
mocrática aparecerá como um ‘arcabouço político-institucional’, ten­
do em vista consolidar a democracia no Brasil. Lembra, no entanto, 
que permanece a tensão entre os conceitos institucional e substanti­
vo da democracia e na sua avaliação a história dessa tensão deve ser 
analisada pela área do discurso político.
A utilização pelos articulistas de instrumental teórico e meto­
dológico adequado para análise de discurso, com ênfase na interdis- 
ciplinaridade, é contribuição valiosa para a compreensão da dinâmi­
ca de momentos políticos específicos da sociedade brasileira.
Os organizadores.
ANÁLISE DO DISCURSO: UMA COMPLICAÇÃO DO ÓBVIO?1
SIRIO POSSENTI 
IE L -U N IC A M P
Há dois grupos aos quais não é fácil tentar dizer o que seja 
análise do discurso, em pouco tempo. Um é o dos lingüistas, porque 
em princípio são eles que detêm as melhores e mais consistentes ex­
plicações de fenômenos da linguagem, e a análise do discurso lhes 
soa como, no mínimo, uma invasão de terreno. Mais do que isso, ela 
lhes aparece como reintroduzindo questões pertinentes, algumas das 
que mais claramente foram excluídas desta disciplina pelos seus mo­
dernos fundadores. Neste sentido, a análise do discurso parece um 
pouco uma nova filologia ou uma nova retórica, a depender da sa­
liência menor ou maior de certas questões em análise. É preciso que 
o analista do discurso se municie de bons argumentos e arranje uma 
boa estratégia (e às vezes refinadas táticas) para que consiga não 
criar um rival ou não ouça, em troca de sua laboriosa argumentação, 
alguma grosseira resposta do tipo “isto confunde campos” , “isto 
não tem objetividade” , “isto é sociologia” , “isto não corre o risco de 
ser uma semi-lingüística e uma semi-história?” , etc. É necessário di­
zer, a bem da verdade, que, se os lingüistas não têm razão, não dei­
xam de ter algumas razões para comentários do gênero. E isto pode 
depender menos do profeta da nova disciplina do que das condições 
mesmas desta disciplina, isto é, de algumas de suas características.
1. Texto elaborado a partir de anotações utilizadas para uma conferência em 
que se solicitava que o autor “explicasse” para “ leigos” o que é a análise 
do discurso. O autor não tem certeza de ter cumprido a missão que acei­
tou, se bem que acredita mais no que disse então do que nisso que poste­
riormente escreveu.
12 Sirio Possenti
Um outro grupo a quem não é fácil expor os fundamentos e as 
principais linhas da análise do discurso é o que aqui está representa­
do por vocês: os cientistas políticos ou, mais genericamente, os 
cientistas sociais. Por várias razões, a principal das quais é que, de 
feto, alguns dos trabalhos da análise do discurso se confundem e se 
fundem com o das ciências sociais. Se for verdade o que diz Robin, 
uma das razões pelas quais a análise do discurso surgiu e se firmou 
relativamente foi a solicitação de historiadores (e logo de outros 
cientistas sociais) para ajudá-los a responder perguntas do tipo “co­
mo ler e entender textos?”, para as quais eles imaginavam que a lin­
güística poderia ter respostas. Campos como a lingüística e outros 
das ciências sociais se aproximaram, acabaram contribuindo com 
partes relevantes e acopláveis e formaram, de certa forma, este que é 
para alguns um novo campo e para outros uma junção adequada e 
fértil de campos de trabalho já sedimentados, com objetos e métodos 
específicos. Explicar o que é análise do discurso para cientistas po­
líticos é de certa forma difícil porque, se se enfatizar o lado lingüís­
tico, pode-se dar a entender que as utilizações imediatas podem ser 
de pouca monta. Se se enfatizar o lado social, histórico, ideológico, 
etc. da análise do discurso, corre-se o risco de querer ensinar o pa­
dre-nosso ao vigário.
Algumas caracterizações fáceis da análise do discurso merecem 
ser afastadas de imediato, sob pena de se obscurecer ainda mais o 
campo. Em primeiro lugar, uma certa fé, encontrável em alguns cír­
culos e numa certa bibliografia, segundo a qual se descobriu enfim 
um lugar de efetiva solução dos verdadeiros problemas. Este lugar 
seria a análise do discurso. Assiste-se por vezes a arroubos de cará­
ter religioso em relação ao novo campo, que teria dogmas e santos 
intocáveis. Característica das novas disciplinas, certamente, porque 
não conseguiram ainda unanimidade em relação a seu direito de 
existência. E dos novos adeptos, que repetem slogans com a certeza 
que só uma certa ignorância pode garantir. Penso que a análise do 
discurso não ganha muito com este tipo fácil de reconhecimento, 
podendo fazer melhor seu papel se permanecer como uma espécie de 
lugar de crítica, como os ocupados, segundo Michel Foucault, pela
Análise do discurso:. 13
psicanálise e pela etnologia, com as quais partilha, aliás, pelo menos 
em algumas versões, de certas características.
A segunda caracterização fácil e superficial que não merece 
atenção séria é a que despreza contribuições próprias dos campos 
envolvidos, sejam elas as oriundas da lingüística ou as de outras dis­
ciplinas. O mais comum é que se valorize mais a contribuição de um 
dos campos apenas, o que pode levar a perdas na análise. O bom 
senso parece indicar que as várias disciplinas envolvidas têm contri­
buições relevantes, e o destaque maior ou menor de cada uma delas 
depende muito mais dos objetivos da análise (e da competência es­
pecífica do analista) do que propriamente do objeto a ser analisado.
Por outro lado, a análise do discurso exerce um fascínio sobre 
todo o estudioso que se interessa pelo campo, muito mais facilmente, 
por exemplo, que a história, a sociologia ou a lingüística. Se o inte­
ressado não for muito cuidadoso, poderá surpreender-se em pouco 
tempo a ejacular uma certa terminologia da moda diante de qualquer 
situação excitante, seja ela uma oportunidade de passar por pratica­
mente de um tipo de conhecimento engajado, seja pela facilidade, 
que a nova disciplina parece superficialmente propiciar, de poder 
falar simultaneamente e com autoridade de mais de um campo de 
conhecimento. É relativamente comum em iniciantes na arte falarem 
como profundos conhecedores de temas psicanalíticos, históricos, 
filosóficos, com a voracidade e simplificação dos ledores de orelhas.
Uma atitude recomendável e saudável neste domínio é uma boa 
dose de ceticismo. Afinal, se nunca houve campo fácil de conheci­
mento e se os problemas são complexos em cada domínio, por que 
se haveria de esperar o contrário de um tipo de abordagem à primei­
ra vista mais complexo, visto que opera simultaneamente em mais de 
um campo e sem abandonar a priori nenhum dos problemas rele­
vantes de cada um deles? Se o milagre é muito grande, o santo a ser 
invocado é São Tomé.
Uma das formas de se evitar uma certa euforia ingênua é mos­
trar o quanto o campo é vago e complexo, o quanto cada discurso 
sobre a análise do discurso pode ser diferente de outro. De certa 
maneira, dizèr isto aqui significa dizer-lhes que talvez não devam
14 Sirio Hossenti
esperar tanto da análise do discurso para solucionar os problemas 
que vão encontrar na realização de seu projeto.
A melhor maneira de mostrar que o campo da análise do dis­
curso é vago e confuso é analisar, ainda que intuitivamente, a pró­
pria expressão “análise do discurso”. Para isso é preciso dizer, antes 
de mais nada, que ler um texto, qualquer que seja sua dimensão, é 
mais do que decodificar, e que, portanto, uma língua não pode ser 
Concebida como um código. Suponhamos que a expressão “análise 
do discurso” ocorra numa expressão mais complexa do tipo “a aná­
lise do discurso amplia os horizontes da lingüística”. O sintagma 
“análise do discurso”, para aparecer nesta posição da frase,deve 
obedecer a algumas condições. Há as propriamente gramaticais, que 
não vou mencionar, mas cuja existência não pode ser esquecida. Das 
não estritamente gramaticais, é relevante mencionar pelo menos 
duas. É preciso que o locutor aceite que a análise do discurso existe, 
da mesma forma que se aceita ou pressupõe a existência de alguém 
chamado “Joaquim” quando se diz algo como “Joaquim morreu na 
torca” . Isto é, utilizar a expressão “análise do discurso” efetiva­
mente numa situação real significa, entre outras coisas, admitir que 
existe alguma coisa que este nome denota. Como “análise do discur­
so” é uma expressão complexa, não um mero nome, ela mesma tem 
uma análise interna que pode ser assim sumariada: se existe “análise 
do discurso” , existência pressuposta pela enunciação da expressão, 
então também se pressupõe a existência de um objeto chamado “dis­
curso”. Se há a análise de um objeto, este mesmo objeto suposta­
mente existe. Esta expressão se toma óbvia do ponto de vista das 
relações semânticas internas, isto é, pode ser perfeitamente analisada 
segundo regras de composição não ad hoc - a paráfrase com “anali- 
sar discursos” deixa mais evidente do ponto de vista sintálico-se- 
mântico a relação entre “analisar” e “discurso” . Não é nada óbvia, 
no entanto, de um outro ponto de vista, que pode ser chamado, em­
bora talvez isso crie uma certa confusão momentânea, de discursivo. 
Em outras palavras, a expressão pode ser evidente de um ponto de 
vista sintático-semântico, isto é, lingüístico, mas não do ponto de 
vista discursivo. O que pode significar “discursivo” neste contexto?
Análise do discurso:. 15
Creio que existem dois postulados básicos na análise do dis­
curso, que qualquer das teorias em confronto no interior da área 
aceitaria sem maiores problemas. O primeiro diz respeito à relevân­
cia da enunciação, o que implica uma recusa em analisar qualquer 
evento lingüístico como sendo apenas um evento de ordem gramati­
cal - ou pelo menos em admitir que uma análise de ordem gramatical 
esgote todos os aspectos de tal evento. É que o fato de ocorrer numa 
ou noutra circunstância pode ser determinante para sua análise. O 
segundo postulado é que as palavras (embora não só este tipo de 
elemento lingüístico, mas também outros, como as frases) têm seu 
sentido determinado - ou no mínimo fortemente condicionado -jx>r 
fatores extralingüísticos, que podem ser de vários tipos, desde os 
ideológicos, históricos, doutrinários, até os mais banalmente con- 
textuais. Por exemplo, a palavra “massa” pode designar uma coisa 
completamente diferente no discurso político e no discurso culinário. 
“A massa não está preparada” pode ser um enunciado de interpreta­
ção completamente distinta, portanto, se dito por um militante políti­
co que lamenta que certas ações tenham que ser adiadas ou por um 
cozinheiro que pede paciência aos comensais, isto é, em circunstân­
cias em que são outras as ações que devem ser adiadas. Atente-se 
para o quanto isto é aparentemente óbvio.
Ora, se as palavras só têm sentido no jnterior de certas fonna- 
ções, no interior de certos quadros, de certos esquemas, nada mais 
razoável do que esperar que a palavra “discurso” esteja submetida 
às mesmas leis. Isso quer dizer que o sentido da palavra “discurso” 
pode mudar completamente ou pelo menos, significativamente, con­
forme se trate de uma ou de outra teoria. Há provavelmente ele­
mentos que unem os diversos tipos de análise do discurso, mas há 
seguramente coisas que os separam.
Será certamente uma afirmação fácil de sustentar entre analis­
tas do discurso a de que a palavra “discurso” pode mudar de senti­
do. Eque, portanto, dizer que o objeto da análise do discurso é o 
discurso, para um analista do discurso, significa, de certa forma, 
produzir um enunciado incompatível com o discurso da análise do 
discurso. Por que? Porque dizer que o objeto da análise do discurso
16 Sirio Possetiti
é o discurso é admitir, contraditoriamente, que uma análise sintático- 
semântica desta expressão é suficiente, sendo desnecessário levar em 
conta o quadro (ou contexto, ou discurso) em que tal enunciação se 
dá. Ora, a afirmação de que uma análise lingüística, em sentido es­
trito, é insificiente, é um dos pilares fundamentais da análise do dis­
curso. Se Pêcheux ouvisse aquela afirmação, certamente a acres­
centaria às obviedades de La Palice e, se a ouvisse da boca de um 
analista do discurso, faria isso com um certo ar de desânimo, imagino.
Resumindo: afirm ar que “a análise do discurso amplia os hori­
zontes da lingüística” significa produzir um enunciado que contém 
relativamente numerosas palavras cujo sentido não é evidente. Mas 
que pode tomar-se claro, inteligível, acoplando-se uma análise lin­
güística a considerações de outra ordem, como, por exemplo, as se­
guintes: a tomada em consideração em comum, por parte dos interlo­
cutores, de um certo conjunto de textos nos quais palavras como 
“análise”, “discurso” e “lingüística”, termos mais marcados do ponto 
de vista teórico ou doutrinário, tenham seu sentido relativamente 
uniformizado por uma certa prática. Em_suma, tomada em considera- 
ção de um certo discurso onde tais palavras têm um sentido conheci­
do. Além disso, é necessário também uma partilha de conhecimentos 
ou de posições que confiram sentido à expressão “ampliarmos hori­
zontes” que, dentre outras coisas, dá a entender que os horizontes 
da lingüística antes da análise do discurso eram estreitosje. que am- 
pliá-los é uma coisa que não se lamenta. Ao contrário, é desejável.
Alguns dos elementos necessârios para a interpretação-acima 
mencionada têm a ver apenas com o universo de discurso específico 
ena que se fala, no caso, sobre análise do discurso e lingüística. Ou­
tros têm a ver com procedimentos enunciativos mais gerais, inde­
pendentes do tipo de discurso a que se adere (dizer alguma coisa 
significa ter com o que se diz um certo compromisso ou criar um 
certo quadro a partir do qual o comportamento que se segue é alte­
rado, etc.). E outros, ainda, decorrem de uma análise lingüística, 
gramatical, do enunciado dito.
Para exemplificar com outro material este tipo de complexida­
de e a relevância de cada elemento de um evento discursivo, consi­
Análise do discurso:. 17
dere-se o seguinte texto. Trata-se de uma tira de L.F. Veríssimo, pu­
blicada em jornal no dia 22 de outubro de 1989 (estes dados têm re­
levância relativa) em que seus personagens (as cobras) mantêm o se­
guinte diálogo:
- Então você acha que há uma luz no fim do túnel, Cândida?
- Que túnel?
- Assim não dd pra conversar...
Este pequeno texto exibe claramente uma das características do 
funcionamento da linguagem num diálogo real entre falantes: a ne­
cessidade da aceitação de um certo quadro para que o diálogo 
“prospere” e os problemas que aparecem para os interlocutores 
quando um delesnSo aceita.o quadro. Neste exemplo, o pressuposto 
que a primeira cobra tenta impor a sua interlocutora é o da existên­
cia de um túnel, que, por não ser tematizada explicitamente, mas 
pressuposta - ou implicada - pela enunciação da palavra “túnel” , 
coloca o seguinte dilema: ou você aceita as condições que decorrem 
do que eu digo (que um certo túnel que nós sabemos qual é existe), 
ou não é possível conversar. Este diálogo serve também para apontar 
que o quadro pressuposto pode ter duas características: ser apenas 
implicado pela enunciação, ou ser, além disso, marcado ideologica­
mente, de maneira que aceitar a existência de um certo objeto pode 
significar aceitar atribuir a ele um conjunto de predicadosaue fazem 
dele um objeto marcado de um certo ponto de vista. Enfim, pode 
significar aderir a um certo discurso. É fácil perceber que este tipo 
de análise é completamente diverso de uma análise gramatical. Por 
outro lado, o que ela diz é óbvio, no sentido de que todos osfalantes 
atuam, segundo regras desse tipo, o que significa que.as conhecem. 
Á análise do discurso se constitui-em grande parte da explicitação de 
tais regras e da tentativa de fazer delas um corpo teórico çomxarac- 
terístiças sintáticas e semânticas desejáveis para os enunciados de 
uma teoria.
Se o exemplo analisado fosse um texto político em sentido es­
trito, vocês talvez percebessem mais claramente que há um conjunto 
de elementos implicados na análise que concernem diretamente a
18 Sirio Possenti
este campo do saber, e não à lingüística. Suponham que se tratasse 
de analisar uma passagem como “As vantagens da democracia 
são...”. Mesmo como está, um texto pela metade, fica evidente que 
ele implica em aceitar-se que ‘há vantagens na democracia’. Se isto 
não é óbvio para falantes conhecedores de um certo campo do saber, 
a ciência política, então o que seria um exemplo de obviedade? Pode 
parecer ridículo, mas fatos como estes são um problema para teorias 
lingüísticas que se ocupam da relação entre sons e sentidos, por­
que alguma coisa está sendo dita sem que, de certa forma, esteja 
sendo dita.
***
Já que se disse acima que para se saber Q que significa a ex­
pressão “análise do discurso” é necessário ultrapassar as análises 
sintático-semânticas. E hora de esclarecer um pouco mais como isso 
pode ser feito. O que farei nesta seção é falar rapidamente dos dois 
principais sentidos da palavra “discurso” , na expressão que vem 
sendo analisada. A conseqüência será, espero, que fiquem claros os 
critérios de interpretação da expressão.
Para exemplificar claramente a questão, tomarei um episódio 
que se repetiu comigo mais de uma vez. Quando dizia a alguém que 
estava fazendo minha tese em análise do discurso, imediatamente 
ouvia a seguinte pergunta: - Qual? E ficava claro que nunca houve 
interesse em saber de que tipo de análise se tratava, mas sim de que 
tipo de discurso, ou de qual discurso se tratava. A partir deste 
exemplo fica clara a primeira e a mais intuitiva das duas noções de 
discurso que quero comentar rapidamente.
Neste primeiro sentido, “discurso” significa algo como um 
conjunto de enunciados, sendo que, na expressão, a palavra “con­
junto” tem importância óbvia. É neste sentido que a palavra “dis­
curso” vai bem em expressões como “o discurso dele é conserva­
dor”, “o candidato é outro mas o discurso é o mesmo”, ou, mais 
simplesmente, em expressões como “discurso religioso” , “discurso 
político”, “discurso sindical”, etc. Ao dizer que esta noção de dis­
curso é mais intuitiva não quero dizer que seja fácil defíní-la de ma­
Análise do discurso:... 19
neira clara. Quero dizer apenas que este sentido da palavra é mais 
conhecido, pelo menos para um certo tipo de falante, em geral com 
formação acadêmica razoável.
Dos grandes nomes que utilizam a palavra mais ou menos neste 
sentido, vale a pena mencionar Foucault, não apenas porque uma 
grande parte dos trabalhos do campo deve a ele mais do que em ge­
ral se pensa, mas também pelo fato de ele ter dado conta de uma ca­
racterística fundamental do objeto que ele assim nomeou, e que tan­
tos outros assim nomeiam, não necessariamente com a mesma argú­
cia. A característica a que quero me referir é a da dispersão, e por 
uma razão muito simples; quando o termo “discurso” é utilizado no 
sentido que neste momento se tematiza, é comum que conote um 
conjunto de enunciados que formam uma unidade e que se opõem a 
outro conjunto que forma outra unidade.
Assim, por exemplo, o discurso médico pode aparecer como 
sendo uniforme e oposto, diferenciado do discurso religioso, diga­
mos. A noção de dispersão, entre outras coisas, é capaz de fazer 
perceber que a relação entre os enunciados de um discurso pode se 
dar por mecanismos muito diversps, isto é, que eles não constituem 
uma.unidade, no sentido mais trivial desta palavra. Um discurso 
é composto por enunciados de natureza um tanto diversa. Em 
Foucault, talvez o exemplo mais claro seja o que ele chama de dis­
curso médico, que é composto de enunciados discritivos de corpos e 
sintomas, evidentemente, mas também de “observações tomadas 
mediatas por instrumentos, protocolos de experiências de laborató­
rios, cálculos estatísticos, constatações epidemiológicas ou demográ­
ficas, regulamentações institucionais, prescrições terapêuticas”.
Aquilo que se poderia chamar de discurso nacionalista é com­
posto, sem dúvida, por um conjunto de enunciados relativos às van­
tagens ou desvantagens de se permitir o ingresso do capital estran­
geiro, por exemplo, mas sem dúvida uma análise mais cuidadosa vai 
demonstrar que há disposições legais que se relacionam de uma ma­
neira determinada com os enunciados mais ideológicos e retóricos e
20 Sirio Possenti
que se destinam a implementar ou a impedir que tais enunciados 
passem a ter vigência efetiva e produzam determinados frutos.2
A noção de dispersão é importante porque se, por um lado fa­
lar de “discurso” significa de certa maneira falar de uma certa uni­
dade, pesquisas de corpora de enunciados revelarão, por outro, que 
os discursos são compostos menos regularmente do que parece indi­
car a intuição. De qualquer modo, uma das características da pesqui­
sa que leve em conta esta noção de discurso será sempre uma pes­
quisa que tomará em conta um corpus extenso e em geral produzido 
durante um espaço de tempo relativamente longo.
Tenho a sensação de que, sem querer dar a ninguém nenhum 
conselho, no Brasil seria ainda muito importante que se fizessem 
pesquisas neste filão, tentando descobrir, por exemplo, como certos 
discursos permanecem, como certos enunciados não deixam de rea­
parecer continuamente, nas mais diversas circunstâncias. Diria que, 
mais do que uma noção enunciativa de discurso, que interessa mais 
ao lingüista que pesquisa o sentido dos enunciados produzidos mais 
ou menos “ao vivo” por e para interlocutores em situações banais, a 
noção mais interessante para cientistas sociais é esta primeira.
Uma segunda noção de discurso é relevante e deve ser men­
cionada numa situação como esta. Ela tem a. ver fundamentalmente 
com uma forma de encarar o evento lingüístico. Pode ser caracteri­
zada fundamentalmente por dois traços: a relevância da enunciação e 
o papel do falante, ou melhor, a atitude do falante em relação a seu 
próprio texto ou, mais geralmente, a seu próprio enunciado. A con­
cepção que considera a enunciação um fator relevante leva em conta 
vários fatores, dentre os quais merecem ser mencionados como mais 
relevantes os seguintes. Falar não é agenciar apenas conhecimentos 
lingüísticos, isto é, gramaticais, mas todo um conjunto de regulações 
que fazem da linguagem uma forma de relação entre os membros da 
sociedade, que lhes impõe restrições e lhes cobra compromissos e
2. Alusão a um exemplo fornecido por um dos participantes, a quem dou o 
devido crédito, embora sem lembrar-me do nome.
Análise do discurso:., 21
conseqüências. Da mesma maneira, entender um enunciado ou uma 
série deles não é apenas decodificar um conjunto de signos, mas re­
lacionar o que significa o enunciado dito com um contexto específi­
co e tirar daí conseqüências tanto em relação ao sentido do enun­
ciado poferido quanto em relação ao falante que se responsabiliza 
por sua enunciação.
Neste campo, os atos de fala são o melhor exemplo. Prometer é 
assumir um compromisso, perguntar é colocar o ouvinte em situação 
diversa daquela em que estava e obrigá-lo a responder, etc. Correla- 
tivamente, entender que o que foi dito é uma promessa, é também 
poder exigir que seu autor a cumpra. Ser alvo de uma pergunta é 
obrigar-se a responder, etc. Assim, a língua é uma forma de ação 
sobre o outro e de comprometimento. Esta vertente enfoca com certo 
privilégio o lugar e papel do falante individual nesta ação lingüísti­
ca, daí porque é acusada de estar comprometidacom uma certa visão 
do sujeito segundo a qual, ele exerceria um controle sobre o sentido 
de seu discurso e escaparia, assim, às injunções da história. É possí­
vel que haja razões para esta crítica, mas parece que é mais adequa­
do criticar o tipo de concepção de sociedade que daí decone ou que 
é suposta. Os atos dos indivíduos aparecem sempre descritos como 
submetidos a regras. O que parece mais adequado é dizer que as re­
gras é que são um pouco diferentes ou têm outro alcance.
Uma outra característica desta concepção é a tentativa de for­
mular um conjunto de regras para a interpretação não literal dos 
enunciados, seja quando a interpretação é diversa da literal, seja 
quando a ultrapassa. Noções como pressuposição, inferência, implí­
cito, implicatura e outras do gênero, povoam os escritos dos autores 
que se dedicam a esta forma de abordagem dos fenômenos da lin­
guagem. Uma terceira característica é a consideração explícita dos 
interlocutores e a delimitação de seu papel na interação lingüística. 
De alguma maneira, isso eqüivale a admitir que a mesma coisa dita 
por falantes diferentes pode não ter os mesmos efeitos, os mesmos 
sentidos. (O que é, na verdade, um luear de encontro jdas.duaa.coD- 
cepções de discurso que estão aqui sendo expostas,, porque na pri- 
meira fica claro que um sujeito só pode dizer o que lhe permite sua
22 Sirio Possenti
doutrina ou_sua ideologia ou a teoria que adota e que aquilo que diz 
será interpretado no interior de um certo quadro. Seu discurso é re­
grado de fora. Aqui se verifica a mesma coisa. As regras que o su­
jeito precisa conhecer e cumprir não são apenas as regras lingüísti­
cas). Representantes típicos desta vertente assim sumariada são 
Benveniste e Ducrot, somados a alguns filósofos que se ocuparam 
de tentar encontrar regras que explicassem certos fenômenos da lin­
guagem ordinária, como Grice, Austin, Searle (os nomes vão aqui 
sem preocupação de ordená-los segundo qualquer critério e mesmo 
numa uniformização que é certamente grosseira. O objetivo é mais 
situar uma problemática que lhes está associada). Como é fácil veri­
ficar, a questão aqui não é se há um ou mais enunciados, se eles se 
relacionam de uma forma ou de outra, mas apenas se eles são efeti­
vamente ditos ou não, e o que significa efetivamente, dado que são 
ditos nas circunstâncias tais e não em tais outras.
Talvez se pudesse dizer, em resumo, que a questão do discurso 
é esclarecer o que os enunciados efetivamente produzidos significam 
ou significaram, dado que foram produzidos a partir de um determi­
nado lugar social e estão correlacionados a determinados outros 
enunciados. Considerados estes fatores, percebe-se que não é possí- 
vef fazer deles uma análise meramente lingüística. A problemática 
que se instaura passa a ser, como uma das conseqüências, a necessi­
dade de revisar algumas noções pertencentes ao corpo das teorias 
lingüísticas, e reformulá-las consistentemente, para que possam fazer 
parte de um corpo teórico que dê conta dos enunciados, considerada 
sua realidade lingüística e, simultaneamente, sua realidade histórica.
***
Uma última seção, breve. Só para dizer em poucas linhas e de 
lorma um pouco mais clara, quais são os problemas da análise do 
discurso. E sem sequer assinalar qualquer resposta. Parece que se 
pode resumir as questões às quais a análise do discurso tenta res­
ponder às seguintes:
Análise do discurso:. 23
\ a) quem fala?
J b) a quem é dirigida a fala?
• c) o que significa o que foi dito?
Parecem questões banais, de respostas óbvias. Mas elas ime­
diatamente deixam de parecer assim quando se começa pensar 
que alguém pode estar dizendo o que já foi dito muitas vezes; quan­
do se pensa no que descobriu Freud sobre os atos falhos; quando se 
pensa nas doutrinas às quais os falantes aderem e cujos enunciados 
repetem intermitentemente (e pior, às vezes de formas superficial­
mente diferentes, o que obriga o analista do discurso a pedir socorro 
à lingüística para determinar o que é que pode ser tomado como 
igual e obriga o lingüista a pedir socorro ao, digamos, historiador, e 
cada um achando que o outro tem a solução); quando se pensa no 
quanto enunciados historicamente datados passam por verdades ex­
ternas; quando se pensa no duplo ou múltiplo sentido das palavras; 
quando se pensa nos sentidos inesperados e indesejados que se ex­
traem do que se diz segundo as “melhores intenções” ; quando se 
pensa em quantas vezes diz-se uma coisa num lugar só porque se sa­
berá em outro lugar que ela foi dita (e era isso mesmo que era dese­
jado, mas não havendo garantia de que os resultados serão os proje­
tados), etc. Distinções e conceitos como locutor e enunciador, elo- 
cutário e destinatário, sujeito e autor, universo de discurso e con­
texto, leis de discurso e condições de produção, sujeito do enuncia­
do e sujeito da enunciação, intenção e inconsciente, ideologia, dou­
trina e formação discursiva, discurso e texto e outros menos votados 
estão sendo escoimados de sentidos indesejados e polidos e renova­
dos para servirem como termos de uma metalinguagem destinada a 
lançar um pouco de luz sobre a complexidade e variedade dos 
eventos lingüísticos.
Tentar dizer quemfala é mexer fundo na questão do sujeito, é 
enredar-se numa questão que é ideologicamente muito marcada. 
Tentar dizer a quem se fala é de certa maneira ainda pensar a mesma 
questão, mas com o agravante de que, pelo menos nas civilizações 
em que a escrita funciona correntemente, qualquer tentativa de con­
trole da ação do leitor sobre um texto só pode ser feita através do
24 Sirio Possenti
próprio texto, mas que é vazado numa linguagem que não é código e 
portanto não oierece nenhuma garantia de transparência e exatidão. 
Tentar dizer o que um texto significa é querer responder enfim à 
questão fundamental sobre a natureza da linguagem. A resposta não 
tem nada de óbvio, uma vez que a variedade dos fatores que atuam 
sobre a linguagem ou co-atuam com ela é tão grande que mal se po­
de sonhar em dar conta de um deles.
PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DO DISCURSO REFERIDO
ROSANA PAULILLO 
Depto. de Lingüística - PUC-SP
De maneira imediata, a expressão discurso referido ou discur­
so reportado designa, no campo da análise do discurso e das teorias 
da enunciação, o fenômeno em que o discurso inclui outro discurso. 
Em suma, todas as formas em que o fenômeno da citação pode se 
dar. Vê-se que no campo do discurso referido ocorre uma espécie de 
deslocamento em relação àquilo que parece ser a função dominante 
da linguagem, ou seja, aquela em que a linguagem se põe numa rela­
ção de representação com algo que lhe é exterior as coisas, os fatos, 
os acontecimentos, o mundo, enfim. No campo do discurso referido, 
temos a linguagem sendo mobilizada para reportar não o mundo, na 
sua imaginária exterioridade em relação à linguagem, mas a própria 
linguagem.
Contrariamente ao que, à primeira vista, possa parecer, o fe- 
nômeno do discurso referido não é nem esporádico, nem marginal 
nos processos discursivos, seja nas manifestações que podemos re­
meter a uma tipologia padronizada (discurso científico, político, 
etc.), seja na discursividade cotidiana. O fenômeno do discurso refe­
rido recobre, numa extensão e intensidade notáveis, a discursividade 
humana, e ésse fãtò aponta para a realidade de que a fala é essen­
cialmente não um ato de um sujeito isolado que nomeia o real, mas, 
réplica, fala a partir de outras falas, fala que se põe como comple­
mento oUjContraste em relação a outras falas. Nesse sentido, a temá­
tica do discurso referido se liga diretamente ao campo do interdis- 
curso e da heterogeneidade do sujeito enunciador, ao sujeito de
26 Rosana 1‘aulillo
linguagem como um ser não-uno, não-homogêneo, mas atravessado 
e suportado por uma multiplicidade de vozes.
Nestejirtigo, apresentarei, emprimeiro lugar, o que se pode 
chamar de fontes históricas, no campo da Lingüística, dos trabalhos 
em tomo do discurso referido, ou seja, aTeoria da Enunciação de 
Émile Benveniste, de um lado, e a Teoria do Dialogismo de Mikhail 
Bakhtin, de outro. Trata-se de duas fontes de investigação que, em­
bora tenham se desenvolvido independentemente, chegaram a uma 
abordagem bastante aproximada e constituem ambas os pontos de re­
ferência a partir dos quais se desenvolveram os trabalhos atuais no 
campo da análise do discurso referido.
Em segundo lugar, apresentarei de maneira sucinta alguns pro­
cedimentos de análise do discurso referido. Na esteira das fontes 
anteriormente mencionadas, alguns trabalhos se desenvolveram1 no 
sentido de analisar algumas correlações razoavelmente sistemáticas 
entre certas formas de linguagem e certos efeitos de sentido. Neste 
momento, portanto, estaremos às voltas com os procedimentos meto­
dológicos da análise do discurso referido (daqui em diante, DR).
Finalmente, mencionarei algumas linhas de reflexão mais re­
centes, no campo da Lingüística, que a meu ver são tributárias da 
temática do DR, no sentido de que o aprofundamento dos estudos 
sobre o DR permitiu perceber que certos fenômenos que, no DR, 
aparecem de maneira explícita e exemplar, na verdade permeiam a 
linguagem como um todo. Trata-se aqui das temáticas da polifonia e 
da heterogeneidade da enunciação.2
I. O Discurso Reportado na Teoria da Enunciação
Como se sabe, a Teoria da Enunciação de Benveniste se sus­
tenta na distinção entre enunciado e enunciação. Enquanto o enun­
ciado - o segmento de linguagem realizado - se põe como o produto
1. Maingueneau (1981); Authier (1978).
2. Authier (1982); Ducrot (1984); Maingueneau (1987).
Procedimentos de análise... 27
do ato de fala, a enunciação constitui o ato mesmo, o processo que 
ensejou a produção do enunciado. Todo o edifício da teoria da 
enunciação se sustenta nessa distinção e no pressuposto, que toma 
tal distinção necessária, de que no limite um enunciado é ininteligí­
vel se dissociado do ato de enunciação em que se produziu.
Para Benveniste, a língua, enquanto conjunto de unidades, é 
um aparelho formal. É o ato de enunciação que põe a língua em 
funcionamento. Nesse ato ocorre um processo de apropriação das 
formas da língua por parte do sujeito enunciador. Não se trata, por­
tanto, simplesmente de um “comportamento” , de uma ação de utili­
zação da língua pelo sujeito, mas de uma realização ativa, marcada 
pela singularidade do próprio sujeito e da situação em que a enun­
ciação se realiza. Nesse sentido, a enunciação é sempre situada, sin­
gular, histórica, portanto, é isso que faz dela um acontecimento.
No ato de enunciação, q falante, ao se apropriar do aparelho 
formal da língua, produz simultaneamente três fenômenos construti­
vos da enunciação enquanto ato. Em primeiro lugar, o falante se 
constitui como sujeito, como o ego que enuncia3; em segundo lugar, 
constitui o outro diante de si, como o seu outro, seu interlocutor - e 
nesse sentido a enunciação é o processo que institui a interação na 
linguagem; e, finalmente, constitui a referência, o objeto do mundo 
erigido à condição de objeto de discurso, pois a condição de exis­
tência dos objetos no discurso é diferente de sua condição de exis­
tência enquanto objetos do mundo (em termos empíricos ou ontoló- 
gicos): no discurso, o objeto se constitui como uma construção de 
linguagem e é significado em função dos processos lingüísticos que 
entraram em jogo na sua designação.
3. Benveniste aponta mesmo que a auto-imagem de individualidade é consti­
tuída na linguagem: “É na linguagem e pela linguagem que o homem se 
constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na 
sua realidade que é a do ser, o conceito de “ego” . (...) Ora, essa “subjetivi­
dade” , quer a apresentemos em fenomenologia ou em psicologia (...) não é 
mais que a emergência no ser de uma propriedade fundamental da lingua­
gem. Ê “ego” que diz ego”. (1958:286)
28 Rosana Paulillo
Desse modo, diz Benveniste, a enunciação implica sempre a 
presença do sujeito no interior de seu próprio discurso4. Esse cen- 
tramento do discurso em relação a seu sujeito resulta do fato de que 
todo discurso (enquanto enunciado(s) produzido(s)) traz inscrita nele 
mesmo a marca da singularidade do ato de enunciação em que se 
produziu.
Mas, como conciliar a singularidade do discurso com a gene­
ralidade das unidades da língua se, afinal, é da matéria destas últi­
mas que o discurso se tece? É nesse ponto que se explica a afirma­
ção de Benveniste de que a língua é um aparelho formal mobilizado 
ativamente pelo sujeito na enunciação. As unidades da língua em si 
mesmas são pura possibilidade; são virtuais, genéricas, vagas, pon­
tos em aberto que podem se atualizar em diferentes direções de sen­
tido (daí a polissemia potencial do signo lingüístico). É a enunciação 
que insufla as formas lingüísticas de um sentido afetivo, singular. 
A semantização, portanto, ocorre na enunciação.5
Na construção da teoria da enunciação, Benveniste partiu da 
análise de certos elementos lingüísticos que, se considerados inde­
pendentemente da instância de enunciação, seriam desprovidos de 
sentido. Trata- se dos dêiticos, elementos que marcam os sujeitos do 
processo enunciativo e as circunstâncias de tempo e espaço que an­
coram no real a enunciação (eu, você, nós, já, aqui, depois, etc.). 
Na perspectiva aberta pela análise das marcas de pessoa e de osten- 
ção (tempo e espaço), Benveniste avança para a análise do sistema 
de temporalidade da língua, isto é, daquela parte das formas verbais 
que expressam as noções de tempo. Esta análise, a meu ver a mais 
interessante, é a viga mestra que sustenta o conceito de planos de 
enunciação.6
4. “O ato individual de apropriação da língua introduz aquele que fala na sua 
fala (...) A presença do locutor na sua enunciação faz com que cada instân­
cia de discurso constitua um centro de referência interna” . (1970:82)
5. Benveniste (1969:65).
6. Benveniste (1946), (1956), (1959).
Procedimentos de análise.. 29
Analisando as marcas de temporalidade, Benveniste mostra que 
não há uma relação direta, especular, entre o tempo lingüístico e o 
tempo empírico7. A hipótese de que os verbos semantizam o tempo 
real dos acontecimentos é uma construção que faz parte do imaginá­
rio dos sujeitos sobre a linguagem. As marcas de tempo dos verbos 
constituem, na verdade, uma temporalidade estritamente lingüística, 
discursiva: não são determinadas por uma relação iminentemente re­
ferencial com o tempo real ou empírico.
Tomemos como exemplo os três tipos de pretérito em portu­
guês: perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito. Numa narrativa, é o 
sujeito enunciador quem escolhe quais acontecimentos irá marcar 
pelo perfeito (a-forma pontual) e quais marcará pelas formas imper- 
fecüvas. Do ponto de vista dos acontecimentos relatados, todos se 
situam na dimensão do passado enquanto tempo referencial, na me­
dida em que todos são anteriores e exteriores à enunciação. Assim, a 
escolha das formas verbais (pontuais ou imperfectivas) é determina­
da pelo objeto do discurso narrativo, na medida em que as formas 
pontuais ligam-se ao objeto narrativo por excelência, enquanto que 
os eventos marcados pelas formas não perfectivas remetem a um se­
gundo plano narrativo, a uma espécie de enquadramento da cena 
principal.
Na realidade, somente o perfeito é um verdadeiro tempo, por­
que sua significação se determina pela relação de oposição.que 
mantém com o presente; este, por sua vez, é também um verdadeiro 
tempo, propriedade que adquire pelo fato de ser coincidente com 
o instante da enunciação8. Quanto ao futuro, esse não é um verda­
deiro tempo: o futuro óão tem a função de representar um tempo re­
ferencial posterior à enunciação, mas'marcaas expectativas, proje­
ções, desejos, interferências que o sujeito experimenta no presente
7. Benveniste avança algumas considerações sobre a categoria do tempo co­
mo uma construção da linguagem (1965).
8. Nesse sentido, nossas noções de tempo seriam construídas a partir da ex­
periência da singularidade da enunciação, da coincidência entre o enuncia­
do e o aqui-e-agora da enunciação.
JO Rosana PautíUo
da enunciação. O uso generalizado da forma do futuro perifrástico 
(vou viajar ou invés de viajarei) dá uma pista dessa ancoragem do 
futuro no presente.
A partir da análise das marcas de têmporalidade Benveniste 
chegou ao conceito de planos em que a enunciação se realiza. Dis-
tinguiu, em primeiro lugar, dois funcionamentos enunciativos que 
correspondem aos dois grandes eixos temporais - presente e passado
- e chamou-os, inicialmente de discurso e história. Mais tarde, tais 
denominações se estabilizaram como plano do discurso (ou da enun­
ciação stricto sensu è plano de relato.
No plano da enunciação, temos uma relação de coincidência 
entre enunciado e enunciação. Aí aparecem os dêiticos marcadores 
de pessoa (eu-tu) e de ostenção (aqui-agora) e os enunciados são va­
zados na forma do presente. O plano da enunciação caracteriza 
aqueles discursos que são totalmente ancorados na situação de enun­
ciação em que se produzem.
No plano do relato, o presente, ao contrário, está excluído. 
Sem dúvida, o discurso que relata é produzido num ato de enuncia­
ção, mas ele não se põe em relação direta com a singularidade do 
ato, nem com o presente empírico que corresponde ao momento de 
sua produção. No plano do relato, o tempo do discurso é alheio à 
temporalidade da enunciação, pois o discurso relata acontecimentos 
passados, anteriores e exteriores à enunciação em que se produz. Es­
se deslocamento temporal produz a possibilidade de um desloca­
mento global em relação à singularidade da enunciação, dos sujeitos 
e da situação de enunciação, que aparecem dessa forma como 
alheios ao universo relatado - ocorre aqui a ausência de dêiticos, 
ausência de menção ao eu-outro ao aqui-e-agora do'acontecimento 
enunciativo. Os sujeitos do discurso aparecem então, essencialmen­
te, na figura da terceira pessoa, de um outro que não o enunciador 
ou o interlocutor.
Benveniste encontrou no discurso da História um caso exem­
plar do plano do relato, na medida em que esse discurso se realiza
Procedimentos de análise. 3 /
numa espécie de grau zero da marcação enunciativa9. Não há, aqui, 
pistas do ato de enunciação que o produz. Sem dúvida, no discurso 
da História alguém fala, mas esse alguém está ausente de seu pró­
prio discurso - tudo se passa como se houvesse uma voz em off que 
relata. Sendo os acontecimentos relatados anteriores e exteriores à 
enunciação, o relato toma possível que o próprio fenômeno enun- 
ciativo seja velado, encoberto. Desse modo, o discurso da História 
pode aparecer como um monumento, na medida em que se põe como 
independente das suas condições de produção. Vale lembrar que o 
plano do relato é também a forma discursiva dos mitos e lendas, em 
que também se manifesta essa relação de exterioridade do discurso 
em relação ao sujeito enunciador, condição de seu efeito de sentido 
de perenidade, de seu “ser fora do tempo” , enquanto não determi­
nado pelo tempo da enunciação.
Temos, assim, distinguidos os dois planos básicos em que o 
discurso pode se articular. No entanto, cabe observar que os discur­
sos efetivamente proferidos, orais e escritos, dificilmente são vaza­
dos num único plano. Na maioria dos casos, os diferentes planos 
combinam-se de diferentes maneiras na produção discursiva, e esse é 
um dos fatores decisivos da extrema diversidade que a discursivida­
de apresenta. A análise das diferentes combinatórias que entram em 
jogo na produção discursiva toma possível a construção de uma ti­
pologia do discurso (narrativa de ficção, narrativa histórica, matéria 
jornalística, por exemplo).
A partir dessa distinção básica, Benveniste chega ao. plano, do 
Discurso Referido, como uma terceira possibilidade de construção: 
“(...) a enunciação histórica e a do discurso podem, conforme o ca­
so, conjugar-se num terceiro tipo de enunciação. no qual o discurso 
é referido em ‘termos de acontecimento e transposto para o plano
9. Tal modelo de discurso da História corresponde, talvez, mais apropriada­
mente, ao texto didático ou a formas positivistas de relato histórico. 
Barthes, num artigo intitulado justamente, O Discurso da História, realiza 
uma investigação das variantes em relação ao modelo canônico apontado 
por Benveniste.
32 Rosana Paulillo
histórico; é o que comumente se chama discurso indireto” 10. A pe­
culiaridade do DR consiste no fato de que se trata de uma enuncia­
ção que inclui uma outra enunciação, de um discurso encaixado em 
outro discurso.
O segmento de discurso reportado é, sem dúvida, enunciação, 
mas enunciação passada, anterior e exterior à enunciação atual, que 
o cita. Assim, no plano do DR, a enunciação atual relata uma outra 
enunciação, que adquire estatuto de acontecimento relatado.
O discurso referido difere do discurso proferido', este atualiza 
sua situação de enunciação, consistindo na instância de realização 
dessa situação (mesmo se não marcada no próprio discurso, como é 
o caso do relato histórico); já o discurso referido 6 aquele que so­
brevive, para além de seu proferimento, numa outra enunciação que, 
assim, permite, num certo sentido, sua re-instanciação.
O plano do DR nos põe em contato com um fenômeno crucial 
da linguagem, que é o fenômeno da multiplicidade de vozes. No 
DR, o lugar do enunciador se cinde em, pelo menos, duas vozes; há 
a voz do enunciador citante, aquele que é o responsável da enuncia­
ção atual, que é quem fala naquela instância de discurso; mas em al­
gumas seqüências esse enunciador dá lugar a outro (ou outros), põe 
em cena a voz de outro(s), que são os erumciadores citados. Cha­
mamos, assim, de discurso citante ao segmento do discurso atual 
onde se inscreve a voz de seu enunciador e que funciona como suporte 
para as outras vozes, inscritas nos segmentos de discurso citado. 11
Nem sempre é muito fácil diferenciar o escopo de cada uma 
das vozes que entram em cena no DR. Consideremos, a titulo de 
exemplo, a seqüência abaixo:
a. O presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados, Ulisses 
Guimarães, disse em Belo Horizonte que não assumirá a 
coordenação do pacto social, a sem ver m trabalho do y»* 
“toda a sociedade deve participar, através de suas organiza­
ções envolvendo trabalhadores e empresários”. Ele argu­
10. Benveniste (1959:267).
11. Maingueneau (1981:99).
Procedimentos de análise.. 33
mentou que vai apenas “colaborar” na solução de proble­
mas, na parte política, juntamente com outras foiças sociais: 
“Eu sou um partícipe”, frisou descartando a possibilidade 
de coordenar o pacto idealizado por Tancredo Neves.
(...)
b. Logo depois, o presidente Samey falou à imprensa, con­
firmando ter pedido a Ulisses que, como presidente da 
Aliança Democrática, fizesse uma sondagem no sentido de 
podermos concretizar o pacto social, para ele, “uma idéia 
generosa que deve ser aceita por todo o País”. Samey con­
firmou que Ulisses vai ajudar “e já está nos ajudando nesse 
sentido”.
c. Ontem, ainda na capital mineira (...), Ulisses Guimarães 
reafirmou sua disposição de apenas figurar como “colabo­
rador” na montagem do pacto social.
(seqüência de Planalto diz estranhar rejeição de Pazzianotto do 
pacto, FSP, 29.9.1985).
Nessa seqüência de texto, pode-se observar que as passagens 
grifadas com grifo simples correspondem claramente ao escopo da 
voz do enunciador citante (o jornal), enquanto que as passagens 
não grifadas correspondem claramente à voz do enunciador citado 
(Ulisses, nos blocos A e C; Samey, no bloco B).No entanto os 
segmentos em negrito com grifo são ambíguos: não se pode determi­
nar com precisão qual a voz .que sustenta as palavras e os sentidos 
que se produzem nesses segmentos, ou seja, se a responsabilidade 
desses segmentos de discursos deve ser atribuída ao enunciador ci­
tante ou ao enunciador citado.12
12. A análise do sentido dessas seqüências levanta três possibilidades (exem­
plificando através da primeira delas):
a) Foi Ulisses Guimarães quem disse: “A meu ver, o pacto social é um 
trabalho (-.)”, assumindo assim, o caráter subjetivo da enunciação;
b) Ulisses teria dito: “O pacto social é um trabalho („)”; foi o enuncia­
dor citante que, acrescentando o inciso “a seu ver”, subjetivou uma 
enunciação (a de Ulisses) que, na forma de uma afirmação categórica, 
se pretendia objetiva.
c) Ulisses não proferiu exatamente as palavras em questão; foi o enun­
ciador citante que pretendeu, nesse segmento, sintetizar as palavras e 
os sentidos do discurso original, produzindo, portanto, uma interpreta­
ção da fala de Ulisses.
34 Rosana Paulillo
Por outro lado, a seqüência em questão nos permite observar 
um fenômeno no plano do DR, que é a construção de um jogo poli- 
fônico, onde se ouvem várias vozes. As falas de Ulisses e de Samey 
que, enquanto discursos proferidos, ocorreram em situações dife­
rentes, em tempo e espaço diferentes e que não constituíam interlo- 
cuções recíprocas, podem, no plano do DR ser postas em contra­
ponto, compondo uma estrutura analógica à dos tumos de um 
diálogo.
Dessa forma, na seqüência analisada, se produz um efeito de
1 7sentido de contradição entre as posições das duas personagens1 , 
pelo mecanismo de pôr as falas em confronto, que o DR permite.
2. O Discurso Referido na Concepção do Dialogismo de Bakhtin
A teoria do dialogismo de Mikhail Bakhtin constitui o segundo 
aporte teórico que alimentou a construção das teorias sobre o DR. 
Bakhtin dedica alguns capítulos de seu famoso Marxismo e Filosofia 
da Linguagem, à análise das formas de DR e a atenção especial que 
o fenômeno do DR aí recebe14, se explica na medida em que o fe­
nômeno do DR traz evidências à tese do dialogismo, que é a marca 
específica do chamado Círculo de Bakhtin.15
Para Bakhtin, o DR é por excelência o discurso de outrem 
(conceito central na concepção do dialogismo, em que ojüscurso é 
sempre algo que aponta, no interior de si mesmo, para a presença da 
alteridade16). Sua peculiaridade consiste no fato de que no DR o dis­
13. Não importa se tal contradição, que o discurso sugere como efeito de 
sentido, é ou não real do ponto de vista das relações políticas - trata-se, 
de qualquer forma, de um sentido que é posto em circulação. Desse ponto 
de vista, é interessante observar que a seqüência de matéria analisada 
tem, como subtítulo, justamente Ulisses recusa.
14. Note-se que as formas de DR constituem o dnico fenômeno particular de 
linguagem a que, nesse texto, se consagra uma análise.
15. Cf.Todorov (1981).
16. Cf. Bakhtin (1975).
Procedimentos de análise... 35
curso de outrem figura não como um tema, mas “em pessoa” 17. No 
DR, não relatamos simplesmente o conteúdo, o significado do dis­
curso do outro, mas o próprio discurso como um acontecimento 
de fala, na ressonância própria de sua materialidade significante. 
Pois, como observa Bakhtin, no DR, o discurso^ original conserva 
“(...) pelo menos sob uma forma rudimentar, a autonomia primitiva 
do discurso de outrem, sem o que, ele não poderia ser completa­
mente apreendido”.18
Para Bakhtin, a linguagem é essencialmente dialógiç# e todas 
as estruturas de linguagem refletem, de uma maneira ou de outra,_ o 
fenômeno constitutivo do diálogo que a atravessa. Nesse sentido, o 
sujeito, mais do que um ser falante, seria um ser “dialogante” , na 
medida em que o movimento da linguagem pressupõe uma dinâmica 
reflexiva, interativa. O fenômeno do diálogo aponta, para Bakhtin, 
para o fato de que o que caracteriza o sujeito nessa natureza de ser 
“dialogante” é a reação ativa à palavra do outro. A fala do outro, a 
que o sujeito está necessariamente exposto, provoca no sujeito um 
movimento de recepção ativa, produz uma jpreciacão. fesse proces- 
so, constitutivo do diálogo, se realiza fundamentalmente como dis­
curso interno, fenômeno psíquico, não diretamente observável19. No 
entanto, as formas pelas quais se dá a reação ativa ao discurso do 
outro se manifestam, ganhando um certo grau de expressão estrutu­
ral, na situação empírica de diálogo, na medida em que a alternância 
dos turnos de fala, na interação dialógica, dá indício das formas des­
sa apreciação.
17. “Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele 
pode entrar no discurso e na sua construção sintática, por assim dizer, 
“em pessoa” , como uma unidade integral da construção”. Bakhtin 
(1977:130).
18. Bakhtin (1978:131).
19. “Como na realidade, apreendemos o discurso de outrem? Como o recep­
tor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se ex­
prime por meio do discurso ativamente absorvido pela consciência e qual 
a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor 
pronunciará em seguida? Encontramos justamente nas formas do discurso 
citado um documento objetivo que esclarece esse problema”. Bakhtin
• (1977:132).
36 Rosana Paulillo
Ora, o DR, para Bakhtin, guarda relações estreitas com a alter- 
nância dialógica, na medida em que envolve uma interação entre 
discurso citante e discurso citado. Porém, se no diálogo os diferentes 
turnos são estruturalmente independentes, cada qual constituindo 
uma unidade sintática independente, o mesmo não se dá no DR. 
Aqui, os diferentes segmentos, correspondentes às diferentes falas, 
estão integralizados numa estrutura sintática global. O DR, portanto, 
integraliza, no plano da construção sintática, aqueles segmentos que, 
no diálogo, guardam configuração sintática específica.
É justamente por_essa característica que as formas pelas quais 
se realiza o DR refletem, segundo Bakhtin, mais expressivamente, 
os movimentos nos quais se dá a apreciação da palavra do outro. E 
essas formas, procedimentos estilísticos, digamos que caracterizam a 
realização do DR, refletem aquelas tendências básicas e constantes 
da recepção ativa à palavra do outro, ou seja aqueles aspectos da re­
cepção ativa que, sendo socialmente mais relevantes, são justamente 
os que se cristalizam, ganhando expressão nas formas lingüísticas:
o mecanismo desse processo não se situa na alma individual, 
mas na sociedade, que escolhe e gramaticaliza - isto é, associa 
ás estruturas gramaticais da lfngua - apenas os aspectos da 
apreensão ativa, apreciativa, da enunciação de outrem em que 
são socialmente pertinentes e constantes (...).20
Além de integrar essas diferentes falas que estão em interlocu- 
Ção, um outro aspecto importante do DR, segundo Bakhtin, é que, 
enquanto discurso, o DR põe em jogo uma terceira pessoa, seu in­
terlocutor, o receptor que visa. Assim, se o diálogo em si mesmo 
aparece como dual, o DR, organizando e integrando os segmentos 
de discurso citante e de discurso citado numa configuração sintática 
uma, orienta-se, por sua vez, para uma terceira pessoa. Isso aponta 
para o fato de que, no limite, não há no diálogo somente um “eu” e 
seu “tu” , pois na fala desse “eu” muitas outras falas se falam.
20. Bakhtin (1977:132).
Procedimentos de análise.., 37
Quanto aos diferentes procedimentos lingüfsticos de constru­
ção do DR, aqueles que a tradição classificou como discurso direto, 
discurso indireto e discurso indireto livre, trata-se, diz Bakhtin, de 
variantes de construção sintática do DR. que a língua cristalizou e 
põe à disposição dos falantes. Tais formas, como se viu, refletem 
tendências historicamente consolidadas da apreensão do discurso de 
outrem. Bakhtin chama-as de esquemas,na medida em que consti­
tuem formas fixas de transmissão do discurso. Esses esquemas, por 
sua vez, exercem uma influência não só na reprodução das tendên­
cias de apreciação já cristalizadas, mas atuam sobre o processo de
desenvolvimento de novas tendências de apreciaçânr regulando-as, 
estimulando-as ou mesmo inibindo a emergência dessas novas ten­
dências. Os esquemas constituem, de qualquer maneira, a organiza­
ção e expressão simbólica dos processos de recepção ativa do dis­
curso do outro.
Do ponto de vista da análise das formas de DR, o que importa 
é que tais formas, na medida em que se cristalizam como estruturas 
significantes, estão correlacionadas a determinados efeitos de senti­
do. O estudo dos processos de construção do DR consiste, portanto, 
numa espécie de catalogação dessas formas e de seus respectivos 
efeitos de sentido, tal como se realizam e se mostram na prática efe­
tiva de linguagem dos sujeitos.
3. Procedimentos de Análise
3.1. O Discurso Direto
O discurso direto corresponde àquela forma de DR que pode­
mos chamar de “citação literal” . Ao recorrer à forma do discurso di­
reto, o DR produz, como efeito de sentido, o compromisso da enun- 
çiação citante de estar reproduzindo à letra o discurso citado.
Essa citação ipsis litteris faz com que o discurso direto seja a 
forma de DR onde se dá o maior grau de autonomia do discurso ci­
tado em relação ao discurso citante. Aqui, os campos enunciativos
38 Rosana Paulillo
están rlaramfinte separados, aque garante ao discurso citado a pre­
servação de sua autonomia sintático-semântica, embora figure como 
um segmento no interior de uma enunciação outra:
João me disse ontém no Rio: “Estou feliz por partir amanhã
daqui.”
Vê-se que, no discurso direto, as marcas de enunciação (dêiti­
cos) do discurso citado se preservam^ remetem à instância de enun­
ciação original (a primeira pessoa, as marcas de tempo e lugar do 
discurso citado se interpretam não em relação ao escopo da enuncia­
ção atual, mas em relação ao escopo daquela enunciação que é indi­
cada pela citação).
No discurso direto, a materialidade signifieante do discurso 
citado se põe como coincidente com a do discurso original. Nesse 
sentido, o discurso direto aparece como um ecoar do discurso do 
outro, que se preserva como um todo unissonante. Em conseqüência 
disso, o discurso direto envolve, como efeito de sentido, uma nítida 
separação dos campos de subjetividade dos discursos citante e cita­
do: as diferentes vozes aí presentes não se misturam.
É por isso que, no discurso direto, os verbos introdutores (que 
introduzem o discurso citado) só podem ser verbos neutros, como 
dizer, por exemplo, ou verbos locucionários, como gritar, sus­
surrar, etc.:
Ele disse: Estou feliz agora.
Ele gritou: Estou feliz agora!
Verbos neutros, como dizer, falar, limitam-se a introduzir o 
fato da fala, sem interpretar a intencionalidade comunicativa com 
que esta foi proferida (como concluir, etc.21). Verbos locucionários 
descrevem as características do ato físico do proferimento.
21. O uso desses verbos aponta para uma interpretação do enunciador citante 
em relação ao discurso citado, envolvendo portanto, uma incursão da 
subjetividade da enunciação citante sobre a enuncição citada.
Procedimentos de análise.., 39
Essa separação nítida entre os campos da enunciação citante e 
da enunciação citada favorecem a que o discurso direto apareça co­
mo um monumento, como algo que se dá como um bloco à aprecia­
ção. Isto produz, como efeito de sentido, uma atitude de distancia­
mento do discurso citante em relação ao discurso citado. Tal distan­
ciamento pode apontar na direção de uma adesão respeituosa, con­
templativa (como ocorre no discurso religioso, por exemplo22), mas 
pode também apontar na direção de um distanciamento crítico, de 
uma recusa à adesão (como se dá no discurso polêmico).
Ao se utilizar do procedimento do discurso direto, o enuncia- 
dor citante pode ter como propósito salientar p dito ou o dizer do 
discurso citado23. Na citação de um provérbio, por exemplo, o ob­
jetivo é salientar o dito, mesmo porque o enunciado do provérbio é 
sempre alegórico em relação ao acontecimento que rotula. Já no dis­
curso polêmico, o discurso direto tem como função fazer salientar-se 
o dizer do enunciador citado que, como alvo da crítica do enuncia- 
dor citante, tem sua voz, num primeiro nível, respeitada, para, num 
segundo nível, vir a ser desqualificada.24
3.2. O Discurso Indireto
Diferentemente do discurso direto, que realiza uma espécie de 
descrição do discurso do outro, no discurso indireto o discurso cita­
do aparece transformado pela enunciação citante. Ocorre uma incur­
são do campo do discurso citante sobre o campo do discurso citado; 
conseqüentemente, o discurso indireto não envolve o compromisso 
da preservação da letra do discurso citado.
22. O discurso religioso se utiliza exclusivamente da forma do discurso di­
reto.
23. A diferença entre o dito e o dizer corresponde à diferença semântica en­
tre o que é dito, enquanto conteúdo semântico referencial do discurso 
e o(s) modo(s) de dizer, que poduzem diferentes efeitos de sentido.
24. Considere-se a notação “(sic)” , como uma indicação retórica suplemen­
tar, dessa atitude.
40 Rosana Paulillo
No discurso indireto, o discurso citado sofre uma transforma­
ção, ao nível de sua materialidade significante, para se integrar à 
enunciação citante. Por isso, a forma clássica do discurso indireto é 
aquela onde o enunciado citado entra no campo do discurso, citante 
como uma sentença encaixada, introduzida por um conectivo:
Ele me disse que você sabia de tudo.
O segmento grifado, correspondente à seqüência em discurso 
indireto, mostra como o enunciado citado integrou-se ao ambiente 
sintático do discurso citante (“ele me disse que”), transformando-se 
para aí se encaixar. O enunciado originalmente proferido pelo enun­
ciador citado não tinha, está claro, exatamente esta formulação (seria 
algo como “Fulano sabe de tudo”). Portanto, as marcas de enuncia­
ção (tempo, pessoa) do discurso citado são “traduzidas” , digamos, 
para o contexto da enunciação citante..
Essa absorção da enunciação citada no campo da enunciação 
citante indica que, no discurso indireto, é a voz citante quem co­
manda o processo. No discurso indireto, não há uma delimitação ní­
tida de territórios enunciativos, como ocorre no discurso direto, pois 
a enunciação citante atua sobre a citada, interpreta-a, analisa-a. 
Bakhtin observava que o discurso indireto tem uma função analítica, 
marca uma atitude analítica na apreciação da fala do outro, e situava 
seu aparecimento, para algumas línguas européias, na época da Re­
nascença.
Em função da homogeneização da enunciação citada em rela­
ção à enunciação citante, ocorre uma espécie de sobreposição, onde 
a delimitação do escopo de cada uma das vozes é mais atenuada e, 
não raro, ambígua. E a voz do enunciador citante que tem saliência 
aqui: o discurso do outro sobrevive no DR redito pela voz do enun­
ciador citante.
Uma característica importante do discurso indireto é o uso de 
verbos introdutores que interpretam a intenção comunicativa com 
que o discurso citado teria sido proferido. Verbos como afirmar, 
confirmar, argumentar, alegar, por exemplo, são comuns aqui.
Procedimentos de análise... 41
Ocorrem também, como introdutores, verbos que acarretam a pres­
suposição de verdade ou falsidade, por exemplo:
Ele demonstrou que o documento foi adulterado
onde o enunciador citante realiza uma apreciação da fala do outro 
interpretando-lhe a intenção comunicativa (pretensão de provar algo) 
e admitindo, simultaneamente, a validade dessa pretensão, isto é, as­
sumindo, na sua apreciação, que o que disse o outro era verdadeiro.
No discurso indireto pode-se também salientar ou o dito ou o 
dizer do discursocitado (embora, nesse caso, a ênfase sobre o dizer 
seja sempre menos acentuada, dada a transformação da letra do dis­
curso citado). Em geral, a fórmula clássica.
X dizer que...
com verbo introdutor e encaixamento sintático do enunciado citado, 
está mais ligada à ênfase no dizer. Já o uso de incisos:
Segundo X ,...
De acordo com X ,...
presta-se mais. à ênfase no dito, em que o discurso do outro é forte­
mente parafraseado, sintetizado pelo enunciador citante.
Essas características formais do discurso indireto envolvem al­
gumas exclusões. Não é possível reportar em discurso indireto um 
enunciado em língua estrangeira, já que não se pode homogeneizar 
numa mesma estrutura sintática segmentos de línguas diferentes. 
Também não se pode reportar em discurso indireto segmentos meno­
res que um enunciado, palavras, sintagmas, expressões inteijeitivas, 
por exemplo:
Ele me disse que meu Deus! (?)
mas usa-se, nesses casos, a forma do discurso direto:
César disse: “Alea jacta est.”
Ele disse: “Meu Deus!”
42 Rosana Paulillo
Da mesma forma, elementos expressivos da fala do outro não 
podem figurar como tal no discurso indireto:
João disse que foi enganado por aquele imbecil do Júlio.
A presença do sintagma “aquele imbecil do” , um elemento ex­
pressivo, nessa seqüência de discurso reportado envolve duas possi­
bilidades de análise: ou “aquele imbecü do” é um comentário do 
enunciador citante sobre “Júlio” , mencionado na fala do enunciador 
citado; ou foi o próprio enunciador citado quem se referiu a Júlio 
chamando-o “aquele imbecil” . Somente na primeira hipótese a se­
qüência em questão corresponde a um caso de discurso indireto. Na 
segunda hipótese, em que o elemento expressivo provém diretamente 
da fala do enunciador citado, estaríamos diante de um caso de dis­
curso indireto livre.
3.3. Discurso Indireto Livre
O discurso indireto livre é um procedimento praticamente ex­
cluído do texto escrito não ficcional, mas, ao contrário, seu uso é 
extensivo na linguagem cotidiana, oral e, conseqüentemente, é uma 
presença forte no texto literário.
Constitui uma espécie de fusão dos dois procedimentos ante­
riores, pondo em jogo, simultaneamente, ambas as estratégias25. Em 
geral, conjeça-se com as estratégias de discurso indireto e, no decor­
rer da enunciação citada, desliza-se para a mimetização da fala do 
outro. Nesse sentido, o discurso indireto livre envolve uma fusão 
das subjetividades enunciantes, uma mistura de vozes, uma carnava-
25. Numa seqüência textual de DR, é comum ocorrer a alternância entre pro­
cedimentos de discurso direto e indireto: reporta-se certa enunciação em 
discurso direto, outra em discurso indireto. Isto não se confunde com o 
discurso indireto livre, onde a fusão dos procedimentos se dá no interior 
de um mesmo segmento de enunciação citada.
Procedimentos de análise... 43
lização, e implica a perda da atitude analítica, distanciada, típica do 
discurso indireto. Por essa razão, seu uso está excluído dos textos 
não ficcionais.
Nesta seqüência extraída de Estorvo26, temos um exemplo de 
discurso indireto livre, em que o narrador-personagem, ao reportar, 
no texto, a fala da irmã, mimetiza fragmentos da fala do enunciador 
citado:
(...) minha irmã ergue o rosto e pergunta se não tenho visitado 
mamãe. Diz que mamãe tem andado tão sozinha, nem empre­
gada ela quer, só tem uma diarista que às terças e quintas vai 
lá, mas diarista mamãe acha que não é companhia. O ideal se­
ria contratar uma enfermeira, mas enfermeira mamãe acha 
que cria logo muita intimidade, e qualquer hora mamãe pode 
levar um tombo, porque anda enxergando cada vez pior (...)
4. Outros Processos Ligados ao Fenômeno do DR
Há fenômenos de linguagem onde a presença do discurso do 
outro não é explicitado, como no DR, mas indicada, aludida, mos­
trada de maneira indireta. De qualquer forma, como o DR, implicam 
a presença de outra(s) voz(es), além do enunciador em questão.
4.1. Colocação Entre Aspas
O aspeamento é um fenômeno específico quando ocorre sobre 
um elemento lexical - palavra, expressão27. Nesse caso, o uso das 
aspas, indica que o enunciador, embora use em sua enunciação 
aquela palavra, sinaliza o fato de que tal palavra provém de outro(s) 
discurso(s), marca a presença, assim, da alteridade no interior de seu 
próprio enunciado.
26. Chico Buarque (1991), Companhia das Letras.
27. Quando incide sobre um enunciado, é uma convenção gráfica da citação 
em discurso direto.
44 Rosana Paulillo
A colocação entre aspas de palavras de língua estrangeira, 
elementos de gíria, são um exemplo desse procedimento. Quando se 
coloca entre aspas palavras ou expressões que correspondem a con- 
ceituações, nomenclaturas, qualificações, além de indicar aí a pre­
sença de uma outra voz, o enunciador marca também aí sua não 
coincidência com tal modo de dizer: nesse caso, no momento mesmo 
em que usa a palavra, o enunciador mostra que não adere a ela, por 
exemplo:
A “modernização” do país que o governo pretende...
Produz-se, nesse caso, um distanciamento crítico do enuncia­
dor em relação ao dizer do outro, onde tal elemento ocorre natural­
mente, não aspeado. Esse recurso da escrita corresponde, na lingua­
gem oral, a uma operação de destaque do elemento distanciado atra­
vés de uma anotação diferenciada.
4.2. Condicional
Certos usos do condicional, não ligados ao processo de ra­
ciocínio inferencial (formulação de uma hipótese e sua possível 
conseqüência), funcionam para pôr em jogo um enunciado outro, 
que aponta para a presença de outras vozes, outros discursos, por 
exemplo:
O incêndio teria sido provocado por um curto-circuito.
O uso do condicional é suficiente para sinalizar que, nessa 
enunciação, o sujeito não assume, não adere totalmente ao enuncia­
do produzido, mas que está reportando, num certo sentido, outras 
falas — tem-se, então, um vestígio de uma outra voz, que seria o su­
porte da forma afirmativa do enunciado.
Aqui, também, ocorre o efeito de distanciamento, que pode ir 
desde o não compromisso (com a forma assertiva do enunciado) até
Procedimentos de análise. 45
a recusa crítica, sob a capa da ironia, da verdade do enunciado afir­
mativo ao qual o condicional alude.
4.3. Indicadores Genéricos
Há certos embreadores que permitem atribuir a uma voz gené­
rica, não identificada (real ou imaginária) o enunciado posto em jo­
go na enunciação.
Dizem que...
Diz que...
Parece que...
Da mesma torma, tem-se aqui a menção a discursos outros; ou, 
pelo menos, projeta-se o escopo do enunciado em questão para além 
do campo da enunciação atual.
4.4. Provérbio
À primeira vista, a enunciação do provérbio parece um caso de 
discurso direto. Porém duas peculiaridades recomendam a conside­
ração do provérbio como um caso singular.
O enunciador de um provérbio está na posição de quem cita 
palavras outras, já proferidas, já realizadas em outras falas que não a 
sua e nisso a enunciação do provérbio coincide com o procedimento 
do discurso direto. Porém, ao contrário do que ocorre no discurso 
direto, o enunciador citado, no provérbio, não é nem identificado, 
nem individualizado. O provérbio não remete à figura de um enun- 
ciador original, mas à humanidade, ao senso comum, ao bom-senso.
Além disso, e diferentemente do que ocorre com o discurso di­
reto, na enunciação do provérbio o enunciador citante adere total­
mente ao enunciado citado, assume a validade do enunciado citado.
46 Rosana Paulillo
De qualquer forma, enunciar um provérbio implica sempre mencio­
nar outras vozes, outras falas, além da sua própria.
5. Desenvolvimentos Ulteriores
As reflexões em tomo do fenômeno do DR ensejaram, de uma 
torma ou de outra, a construção de teorias da linguagem e do discur­
so onde a presença da alteridade no interior do discurso é vista como 
um fenômeno global,constitutivo, para além dos casos exemplares 
onde se explicita a presença do discurso de outro ou a ela se alude.
É o caso da teoria do interdiscurso28, em que o discurso en­
quanto manifestação efetiva de linguagem é visto como atravessado 
não só pelo conjunto das práticas discursivas que constituem a for­
mação discursiva em que se inscreve (com as quais se põe em inter- 
locução complementar), mas em que cada formação discursiva é 
mesmo vista como atravessada pelas outras, com as quais está em 
interlocução polêmica.
Outro desenvolvimento que se pode remeter à reflexão sobre o 
discurso reterido é a teoria polifônica da enunciaçãç29, segundo a 
qual os efeitos de sentido dos enunciados podem ser analisados co­
mo envolvendo a presença de várias vozes, que apontam para “luga­
res de discurso” diferentes. Mesmo enunciados aparentemente mo- 
nofônicos podem ser vistos como envolvendo posições enunciativas 
distintas. Por exemplo,
Está chovendo, mas mesmo assim eu vou sair,
1 2
onde cada segmento corresponde a diferentes posições de discurso. 
Ou mesmo o caso clássico da negação:
28. Cf. Maingueneau (1987).
29. Cf. Ducrot(1984).
l ’roi cilinienlos de análise... 47
Inflação não pode ser comhatida com recessão.
em que o não menciona a presença de uma outra voz, aquela que 
sustentaria a forma afirmativa do enunciado.
Finalmente, as teorias da heterogeneidade constitutiva10, em 
que os mecanismos de marcação dã alteridade na fala do sujeito são 
vistos como uma estratégia que este utiliza para preservar a ilusão de 
homogeneidade da sua subjetividade enunciativa; assim, demarca-se 
a presença do discurso do outro para melhor sinalizar seu próprio 
território. Nesse sentido, todos os processos que decorrem direta ou 
indiretamente do fenômeno do discurso do outro, _e cuffi presença 
é tão intensiva e extensiva na linguagem, constituem uma espécie de 
sintoma da impossibilidade de o sujeito se representar no real de sua 
condição de ser de linguagem: ser cindido, não-uno, despedaçado, 
atravessado pelo outro do inconsciente.
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30. Cf. Authier(1984).
48 Rosana Paulillo
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A ANÁLISE DE DISCURSO: ENTRE AS CONDIÇÕES 
DE PRODUÇÃO E A SUPERFÍCIE DISCURSIVA
FfiO N DE: O U V K IR \ H W ( i H 
Depto. de Lingüística - PI < -SP
1. Preliminaies
Já que é sobre o discurso que estamos falando, quero começar 
chamando a atenção para alguns aspectos deste meu discurso, as­
pectos estes que, a meu ver, esclarecem (embora talvez não justifi­
quem) seus estreitos limites e seu alcance mais que modesto.
Não tematizo, aqui, o discurso político. E só não posso dizer 
que o descarto completamente por dois motivos: primeiro porque há 
muitas concepções diferentes do que seja o político, ou seja, há 
muitas definições diferentes de qual deva ser o escopo preciso co­
berto por sua definição; em segundo lugar, porque no âmbito da 
chamada “escola francesa” de análise de discurso (daqui em diante 
referida apenas como AD), à qual meu trabalho de alguma forma 
está filiado, o discurso político teve, desde o início, um lugar cen­
tral, de tal maneira que muitas de suas categorias analíticas, de 
que vou me servir, foram elaboradas no trato direto com o discurso 
político.
Não tendo, portanto, uma contribuição substantiva a fazer à 
AD política, neste momento em que lingüistas e cientistas sociais 
juntam esforços com o objetivo de delimitar um espaço teórico para 
análise do discurso político, o que pretendo é fazer eco às demais 
vozes deste volume, para, entre outras coisas, entrar em sintonia 
com elas. É minha intenção que uma e outra coisas se façam através 
de uma reflexão metodológica que, estando diretamente relacionada
50 Egon de Oliveira Range!
às dificuldades que tive que enfrentar em minha dissertação de mes­
trado, tematiza uma questão mais geral da AD, questão esta que, a 
meu ver, é mesmo constitutiva da Ad enquanto disciplina acadêmica. 
Trata-se da questão relativa à maneira pela qual, na análise efetiva 
de um discurso determinado, o analista constrói sua resposta às 
questões que fatalmente sua análise terá de responder1: Quais são as 
condições de produção (CP) desse discurso? Qual é sua superfície 
discursiva (SD), ou seja, sua extensão, sua forma e seu conteúdo? 
Que relações existem entre esses dois aspectos do discurso?
Tais questões envolvem outras, tanto mais ‘simples’ ou ‘primi­
tivas’ quanto mais ‘complexas’ ou ‘derivadas’: o que são as CP de 
um discurso? Quais os seus tipos? O que é uma SD ? Como medi-la 
ou descrevê-la? Etc. É a questões desse gênero que me prenderei.
A maneira pela qual tais questões são respondidas, repito, de- 
tine o tipo de análise que se pratica, fixando-lhe um nível - o da 
enunciação ou o do enunciado, por exemplo - determinando-lhe uma 
perspectiva (sociológica, psicológica, lingüística...), propondo-lhe 
as unidades discursivas a serem reconhecidas e trabalhadas (a pala­
vra, a frase ou o texto, entre outras possibilidades) e assim por 
diante. É minha convicção2 que essas respostas são determinadas - 
ou ao menos fortemente influenciadas - pelo corpus que se toma 
como objeto empírico, e portanto pelo interesse nele investido pelo 
analista. Quero dizer com isso que o interesse e o corpus (ou, numa 
palavra, a leitura que se fez de um discurso), fazem parte das CP da 
análise. Não sendo neutros nem indiferentes em relação aos resulta­
dos finais - muito pelo contrário - também fazem parte das CP do 
discurso que se analisa, na medida em que o constróem ej) consti­
tuem como objeto ao mesmo tempo (e ambiguamente, portanto) em­
pírico e teórico.
1. Evidentemente, estou pressupondo que esse analista endossa os que ca­
racterizam a AD como um tipo específico de trabalho com o discurso (Cf. 
a respeito Orlandi, 1986; Maingueneau, 1989 e Courtine, 1981).
2. A primeira pessoa, não só aqui, mas em todas as demais ocorrências, não 
significa originalidade, mas mera inclusão pessoal num determinado ‘para­
digma’.
A análise de discurso:, 51
2. Problemas metodológicos levantados por uma análise discursiva 
específica
O projeto de pesquisa que deu origem a minhadissertação era 
bastante simples. Consistia na apresentação de dois materiais lin­
güísticos - o Diário completo de Lúcio Cardoso e um Manual de 
Sexologia (Reuben, s/d) - cuja leitura mais atenta, ou, de alguma 
forma, interessada, colocava problemas relativos à natureza e ao 
funcionamento do discurso, problemas esses que então tomei como 
objetos da pesquisa.
No caso do Diário, o que chamava a atenção era o fato de tra­
tar-se de um texto com uma linguagem extremamente eficiente em 
criar climas emocionais - religiosidade, pessimismo, erotismo difu­
so, mas onipresente, sensibilidade exacerbada, rebeldia impotente, 
vocação suicida - bastante densos e envolventes. Ao mesmo tempo, 
a natureza e a origem de tais sentimentos, ou seja, as razões pelas 
quais um diário (e não outro tipo de texto) fora escolhido, assim co­
mo os fatos e situações que o gênero faz prever, ou eram mais ou 
menos escamoteados:
Sena difícil dizer qual o motivo real que me leva a escrever 
este Diário, depois de ter perdido em que redigi durante vários 
anos (...) e de ter tentado outros que nunca levei adiante. (...) 
Mas insensivelmente penso nos outros, nos amigos que nunca 
tive, naqueles a quem eu gostaria de contar estas coisas como 
quem faz confidências no fundo de um bar. Esse diabólico e 
raro prazer da confidência (,..),(pp. 5-6).
ou sua descrição e análise era questionada:
Poderia citar fatos: estive com X, fomos ao cinema, depois 
jantamos. Mas são estas coisas, exatamente, as que devem fi­
gurar aqui nestas páginas? Ou, ao contrário, devem elas cair no 
esquecimento? Prefiro o sentimento que me causaram, e se al­
gum houve digno de nota, este é que deve figurar aqui, ainda 
que seja expresso numa linguagem capenga e só corresponda a 
uma parcela reduzida da verdade, (p. 82).
52 Lf>on Je Oliveira Range!
Cria-se no leitor a expectativa de que algo suficientemente 
‘importante’, ‘grave’, etc., motiva esse tom confidencial, quase con­
fessional. Mas, como tal, essa confidência/confissão nunca se dá:
João A ugusto, que vem lendo este diário desde o seu nasci­
m ento, aconselhou-m e a ser mais sincero e a tocar em pontos 
que até agora, segundo e le , venho escam oteando. N ão vejo, na 
verdade nenhum a necessidade disto , prim eiro porque não tenho 
nenhum a tese por assim d izer... g idiana, a defender, segundo 
porque não vejo nenhum interesse em enum erar fatos que me 
parecem mais desenháveis do que outra coisa. (p. 132).
Nesse projeto, mantém-se firme o autor. Os fatos e as situações 
concretas que formam o material sobre o qual se constrói o Diário 
nunca são propriamente descritos ou narrados, mas sugeridos, e ape­
nas na medida do necessário para a criação do clima, conf igurando- 
se então algo como uma “confissão elíptica” .
Assim, mais que descrever ou narrar, esse texto seduz. Em no­
me de quê ou quem, parecia difícil dizer. Só pude respondê-lo, par­
cial e provisoriamente, ao tomar conhecimento, tempos mais tarde, 
do “Depoimento”, encomendado pela imprensa ao autor como ins­
trumento de apresentação do Diário ao público ledor, e que, por cir­
cunstâncias várias, não foi oportunamente publicado. Lá, somos in­
formados das intenções guerreiras e demolidoras de Lúcio, espe­
cialmente contra aquela parcela do público que ele sabia esperar 
com ansiedade o livro já anunciado - o escândalo da confissão de 
uma homossexualidade paradoxalmente notória - assim como contra 
sua própria infância e contra aqueles a quem identificou como 
“Minas Gerais” .
Meu m ovim ento de lu ta, aquilo que viso destruir e incendiar 
pela visão de uma paisagem apocalíp tica e sem rem issão é Mi­
nas G erais. M eu inim igo é M inas G erais.
O punhal que levanto , com a aprovação ou não de quem quer 
que seja, é contra M inas G erais. Ficções. (2):71
A análise dc discurso:. 53
A emoção exacerbada e ao mesmo tempo subtraída das condi­
ções de origem, a densidade da linguagem (oferecendo-se a inter­
pretações pessoais diferentes), o poder de sedução que assim se ga­
rante, tudo isso parece conduzir o leitor a tomar-se sem o saber, 
cúmplice do punhal levantado contra Minas Gerais, assim como 
identificado com o ponto de vista .do apunhalador. O que chama a 
atenção, aqui, é esse especial poder de aliciamento. Um dos objeti­
vos de meu projeto consistiu então, em descrever o funcionamento 
interno desse discurso, tal como marcado em sua SD..
Quanto ao caso do Manual, o interesse foi outro.
Construído sob a forma de um longo questionário anônimo di­
rigido por uma espécie de “consulente” a um autor mal caracteriza­
do (de Reuben somos informados apenas do nome e de sua titulação 
acadêmica como “doutor” ), já a partir do título - Tudo que você 
queria saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar) - revela um 
pressuposto de resto presente implicitamente na maioria desses ma­
nuais: o público a que se dirige teria curiosidades específicas sobre a 
questão, e a função do livro seria precisamente a de satisfazê-las, 
mstaurandojintão uma relação dissimétrica entre emissão (como lit 
gar do saber) e recepção (como lugar da dúvida e da desinforma­
ção). Esse discurso “sexológico”, que apesar da diferença de caráter 
e de registro, parece fortemente aparentado aos discursos da escola, 
da medicina e da família, apresenta-se como discurso “científico” , e 
portanto como revelador da verdade. Constrói lingüisticamente uma 
sexualidade voltada pára o “natural” , adulta (mas nunca velha ou 
sequer madura), heterossexual e, no entanto, quase exclusivamente 
masculina, genitalizada (essencialmente preocupada com o coito), 
familiar, etc. O resultado é um modelo de sexualidade rigidamente 
codificado, apresentado como materialização da “saúde” e da “nor­
malidade” sexuais, e frente ao qual só se toma possível a adesão in­
condicional ou a recusa, que então aparece como confissão de algu­
ma “anormalidade”.
Seja como for, era esse tipo de discurso impessoal e imaterial - 
que não explicita sua intenções, que se profere “do alto” em nome 
da Ciência, da Autoridade e da Verdade, e que parece dirigir-se
54 Egon de Oliveira Rangel
a todos e a ninguém - era esse tipo de discurso que parecia consti­
tuir o interlocutor privilegiado daqueles consulentes cuja curiosidade 
o texto de Reuben pressupõe. O que me intriga, neste caso, é esse 
poder de criar um ‘efeito de real’, através do qual informar alguém 
sobre a sexualidade eqüivale a enformar, ou seja, a dar forma e fôr­
ma externas a experiências em princípio particulares.
Um segundo propósito de meu trabalho foi, então, a descrição 
da produção desse efeito tal como - mais uma vez - implicado na 
materialidade do texto.
Ao lado do problema constituído por cada um desses dois dis­
cursos, havia um outro: o das relações que, intuitivamente, uma lei­
tura ‘ingênua’ podia perceber entre os textos. Num primeiro nível de 
investigação, a resposta ou a solução para esse problema é óbvia: a 
relação se dá - ou é estabelecida - pela própria leitura, ou seja, pelo 
simples fato de ambos serem fruto de uma mesma experiência pes­
soal vivida, e, portanto, terem participado de uma mesma ‘ordem 
empírica’ (Cf. Foucault, 1966; p. 10). Mas, a menos que se aceite 
que a leitura por si só contrói ou determina o discurso em todos os 
seus aspectos, o que essa primeira aproximação não explica é, exa­
tamente, por que discursos tão diferentes do ponto de vista lingüísti­
co e extra-lingüístico - gêneros diferentes, autores diferentes, épo­
cas distintas, países e culturas diversas, etc. - podiam ser aproxima­
dos pela leitura. Para responder a essa questão, é necessário respon­
der a duas outras: o .quê, nos textos desses discursos, permite ou 
mesmo provoca essa intenção? Como funcionam esses discursos, 
não mais em si mesmos, mas nessa ordem empúica em que foram 
colhidos?
Uma vez formuladas essas questões, todoo trabalho posterior 
consistiu em respondê-las - ou ao menos equacioná-las — com os 
instrumentos previstos pela AD. Nesse ponto, a pesquisa sobre os 
meus objetos específicos se cruza com a questão relativa à constru­
ção do objeto teórico da AD, e, portanto, de sua constituição como 
disciplina. Nos termos dessa disciplina, meu problema era: a) deter­
minar as CP de cada um dos efeitos de sentido tomados como pro­
A aiiâtise de discurso: 55
blema a investigar; b) descrever as SD envolvidas; c) fazer tal des­
crição recorrendo ao mesmo tempo às CP e aos efeitos desentido, de tal 
forma que as SD aparecessem como o instrumento - ou, se quiser­
mos, a estrutura significante - que, num conjunto de circunstâncias 
dadas, produz os efeitos apontados. Na sua globalidade, o objetivo 
da pesquisa foi, então, descrever, a partir dos materiais em questão, 
o processo de construção da significação no/pelo discurso, ao mes­
mo tempo em que, fazendo tal descrição, revelar-se-ia o papel estrutu- 
rante ou constitutivo do discurso enquanto prática lingüística so­
cialmente regulada: constituição de sujeitos, de saberes e de poderes.
A vinculação de um tal projeto com o empreendimento 
foucaultiano é evidente e imediata. Por isso mesmo, a arqueologia 
do saber e a genealogia dos poderes, particularmente no que dizem 
respeito a uma teoria da sexualidade enquanto um discurso onde se 
entrecruzam certos saberes e certos poderes, assim como certas posi­
ções de sujeito, foram o ponto de partida da pesquisa, na qualidade 
de teorias possíveis das CP relativas aos discursos que tomei como 
objeto. Ao mesmo tempo, se bem sucedida a pesquisa e se consis­
tentes as hipóteses arqueológicas e genealógicas, o resultado deveria 
ser como que uma volta ao ponto de partida. As dificuldades que 
então tive de enfrentar prenderam-se ao fato de, entre a partida 
e a chegada, ter havido uma análise lingüística enunciativa da SD 
cujos resultados não eram imediantemente creditáveis à hipótese 
foucaultiana. Nesse ponto, posso dizer que as dificuldades para ca­
racterizar e descrever os objetos particulares de minha pesquisa cru­
zam-se com a questão relativa à construção do objeto teórico da AD, 
e, portanto, de sua constituição como discurso, assim como de seu 
estatuto epistemológico particular. E o que explicitarei ao final desse 
texto. Antes disso, passa à apresentação dos termos da questão.
3. Condição de produção (CP) e superfície discursiva (SD): sobre 
os estilos de análise na AD.
Dificuldades e problemas do tipo que acabo de referir fazem o 
dia-a-dia do trabalho de análise. E a meu ver estão diretamente
56 Egon de Oliveira Rangel
relacionadas com o estatuto epistemológico não só da AD enquanto 
riisr.iplina específica, mas ainda a toda e qualquer análise discursiva 
que se faça com o propósito de problematizar e analisar o uso lin­
güístico como prática socialmente regulada e historicamente deter­
minada. Esse estatuto epistemológico particular pode ser bem perce­
bido quando se examina mais de perto a maneira pela qual, no âm­
bito da AD, a concepção de discurso é trabalhada como uma relação 
necessária entre duas ‘materialidades’: uma lingüística (a SD) e outra 
histórico-sociológica (as CP).
Segundo Çourtine (1981; p. 20), “a AD se inaugura sob o sig­
no da articulação de duas faltas, da qual a noção de CP constitui o 
sintoma mais seguro”. Para esse autor, a noção de condição de pro­
dução, fundamental para a análise, na medida em que lhe é reserva­
do um papel ao mesmo tempo explicativo da SD e direcionador do 
olhar analítico, situa-se no local exato do que eu chamaria, lembran­
do meu próprio trabalho, de um verdadeiro ‘fogo cruzado’. Há de 
um lado, os ‘disparos’ efetuados pela ‘lingüística do discurso’, ou 
seja, todas as características ‘extralingüística’ (como a situação de 
enunciação e o circuito de fala, por exemplo) que, ao examinar as 
propriedades mais gerais e ‘gramaticais’ do discurso, o lingüista é 
levado a supor como contrapontos funcionais e/ou histórico-sociais 
do discurso, sem entretanto teorizá-las diretamente; de outro lado, há 
as investidas do que estou chamando de teorias das CP (como a ar­
queologia e a genealogia foucaultiana, por exemplo) que, tomando 
diretamente como objetivos de estudo as condições sociais e/ou psi­
cológicas do exercício da fala, são freqüentemente levadas a apontar 
certos tipos de unidades (‘enunciados’, ‘gêneros discursivos’, ‘pala­
vras-chave’, ‘estilos’ etc.) como correlatos lingüísticos necessários 
de seus objetos específicos. Nesse sentido, a dupla falta apontada 
por Courtine corresponde a essa imposição recíproca de responsabi­
lidades teóricas, ou seja, à falta de uma teoria global e unificada do 
fenômeno discursivo. É essa mesma situação que Orlandi (1986), 
fazendo coro a muitos outros, caracteriza como a falta de um 
consenso teórico e/ou metodológico, nos domínios da AD como dis­
ciplina.
A análise de discurso:. 57
Uma vez explicitado, esse estatuto epistemológico pode ser 
nomeado. Ao apresentar, ao longo de toda sua obra, uma proposta 
de análise discursiva, destinada a cumprir um papel metodológico 
central tanto na arqueologia quanto na genealogia, Foucault procura 
sempre caracterizá-la como uma analítica, por oposição a uma 
teoria".
Enquanto uma teoria caracteriza-se como “ ... a dedução, a 
partir de um certo número de axiomas, de um modelo abstrato, apli­
cável a um número indefinido de descrições empíricas...” (1969; 
p. 143), uma analítièa define-se como o estabelecimento de “um 
domínio coerente de descrição” (1971; p. 18), com a conseqüente 
“designação de um objeto” , a identificação/explicitação do “nível” 
em que é preciso situar-se para definir a pertinência da questão dis­
cursiva, e, finalmente, “a definição dos intrumentos que permitem 
analisá-lo” (1976; p. 80).
Não podendo contar nem com a segurança prévia de um mo­
delo nem com a garantia do rigor dedutivo, mas sem jamais abrir 
mão da explicitação e da coerência como o rigor possível, uma ana­
lítica configura-se então, tal como a entendo, como uma disciplina 
em que o estilo - do (meta)discurso, assim como do pensamento a 
que ele dá corpo - é constitutivo do objeto e até mesmo, em boa 
parte, dos insfrumentos de análise. E o desafio maior a que esse es- 
tüo precisa responder para cumprir sua função analítica (ou meto­
dológica) é o de dar conta da heterogeneidade e da complexidade de 
seu objeto teórico, nunca inteiramente definido ou dado antes da 
própria análise, e sempre construído numa relação tensa e algojjara- 
doxal - ao mesmojempo próxima, ou comprometida, e. distante - 
com seus objetos empíriços. Isso quer dizer que o analista de discur- 
so é levado a movimentar-se no espaço de uma analítica também ja - 
radoxal (já que precisa conciliar teorias de objetos teóricos de natu­
reza distinta, como a forma lingüística e as funções discursivas), 
analítica essa que, ao ser exercida, leva o analista, quer ele queira 
quer não, a uma espécie de epistemologia amadora, ou seja, ao 
mesmo tempo aplicada e ‘militante’, já que imediatamente interessa­
da não só em definir limites e competências para as diferentes disci­
Egon de Oliveira Range!
plinas que forem convocadas para a análise, mas também, e em con­
seqüência, em assumir e/ou rejeitar certas responsabilidades.
Esse processo de constituição do estilo queuma análise especí­
fica tomará, principalmente no que diz respeito à forma particular 
com que se trabalhará a relação entre o ‘lingüístico’ (SD) e o ‘extra- 
lingüístico’ (GP), é diretamente determinado pelas necessidades e 
características do corpus que se quer analisar. Qs efeitos-do sentido 
apreendidos por uma leitura prévia, assim como as particularidades 
dífuncíonamento discursivo em questão, tomados comoobjeto pelo 
analista, não são dados como tais pela ordem empírica em que ocor­rem. Definir um problema discursivo a analisar, qualquer que ele 
seja, implica, portanto, em efetuar-se um recorte determinado no 
campo discursivo, implica em constituir-se um conjunto individuali­
zado de ‘fatos discursivos’ considerados, tais como manifestados 
num conjunto finito de textos, interessantes^, em função de um de­
terminado critério ou ponto de vista. Deve fazer parte do método da 
AD tematizar esse recorte, no sentido de .explicitar e justificar o ar­
bítrio que está em sua origemç, revelando assim no que consiste seu 
interesse, e, com ele, seu alcance e suas implicações paraa_análise.
Só assim os procedimentos analíticos estarão explicitados o su­
ficiente para serem reprodutíveis e criticdveis, duas condições ne­
cessárias, como nos lembra Courtine (1981; p. 11) para uma análise 
que se pretenda rigorosa e, acrescento eu, interessante. Tudo isso 
quer dizer, repito, que a delimitação de um corpus é já uma primeira 
e decisiva hipótese a respeito da homegeneidade de um conjunto de 
C F hõmogêneas implicadas numa SD determinada. Por isso mesmo 
não é qualquer teoria das CP - nem qualquer teoria da SD - que
3. Lembrando a etimologia latina da palavra ‘interessante’, “estar entre, no 
meio, participar”, segundo o Aurélio - como TêzTSabelle Stengers, em re­
cente e interessante palestra na PUC-SP — eu diria que os ‘fatos discursi­
vos’ de que a AD possa se ocupar serão tão mais interessantes quanto mais 
situarem-se no entrecruzamento das preocupações e curiosidades das mais 
diferenteiTdisciplinas e estudiosos. A situação estatútariamente ‘entre’ da 
ÁD, por outro lado, explica o interesse freqüente que nem sempre ela é 
capaz de satisfazer.
A análise de discurso... 59
pode ser mobilizada para a análise de um corpus. Lembrando que 
um lingüista cuidadoso como Maingueneau (1987; p. 53) define CP, 
em seu recente manual de AD como “o ‘contexto social’ que ‘envol­
ve’ um corpus, isto é, um conjunto desconexo (grifo meu) de fatores 
entre os quais são selecionadas previamente os elementos que per- 
mitegj__descrever uma ‘conjuntura’” , pode-se dizer que a ‘questão 
metodológica’ de uma análise resume-se precisamente na tarefa de 
revelar o nfvel (ou o ponto de vista) em que as CP podem ser vistas 
como homogêneas - ou seja, o nfvel em que aparecem como ‘uma 
conjuntura’ - assim como descrever a articulação das CP e da SD 
como uma espécie de organização conjunta. Na forma como o ana- 
lista reconhece e combina os fatores que podem intervir no recorte 
do corpus, na homogeneização das CP e no tratamento dispensado 
ao mapeamento da SD é que reside o essencial do que estou cha­
mando de ‘estilo de análise’.
O que pretendo, na seqüência desse artigo, é apontar alguns 
dos fatores que, no âmbito da AD, podem estar em jogo na homoge­
neização das CP, assim como a relação entre esses fatores e os que 
determinam o recorte do corpus. Ao fazê-lo, estarei me reportando a 
três tipos de teorias das CP, as três, em princípio, relacionadas a 
meu próprio trabalho.
Pretendendo prever e equacionar um primeiro nfvel de CP, há 
o esforço das ‘teorias do uso’ mobilizadas peiãlíngüística do discur­
so a que me referi há pouco. São as chamadas teorias docontexto, 
geralmente entendido como contexto de situação. Trata-se, aqui, de 
identificar as circunstâncias mundanas imediatas pressupostas 
no/pelo uso da língua, tanto no sentido de que formam o contexto 
que se supõe necessário para que um discurso individual, seje ele 
qual for, seja produzido, quanto no sentido dê que estão implicadas 
nas formas lingüísticas imobilizadas. Desse ponto de vista, a discus­
são, promovida por Searle (1979 e 1983) sobre o ‘pano de fundo’ 
institucional e sobre as condições mundanas necessárias para o êxito 
de atos de fala como a promessa, o juramento, a declaração, etc., são 
exemplares e bastante esclarecedoras dessa concepção.
60 Egon cie Oliveira Range!
Muito apropriadamente, Maingueneau (1987; pp. 29-52) chama 
a esse tipo de contexto de ‘ce.aa_6RUflciativa’. É o espaço da inter- 
subjetividade de Benveniste (1966 e 1974), ou seja, do sujeito da 
enunciação e seu(s) interlocutores) direto(s), assim como do tempo 
e do lugar - físico e social - em que o discurso se dá. No limite, é 
da relação conversacional, face-a-face, que se trata, como nos tra­
balhos de Goffman (1981; pp. 205-272). O discurso, em todas as 
suas dimensões, é apreendido na imediatez de seu ‘aqui-agora’; seus 
jeitos são considerados em sua atividade de “apropriação do apare­
lho formal da enunciação” (Benveniste) e, por isso mesmo, em suas 
intenções e estratégias comunicativas. Todas as referências a esses 
traços constitutivos da cena enunciativa, no nível do texto, são defi­
nidas como compondo, o ‘plano da enunciação’ de um discurso. Os 
instrumentos gramaticais previstos pela língua para essa tarefa - 
pronomes pessoais como eu/você, advérbios como aqui/agora, enun­
ciados performativos como ‘Eu te prometo que...’ - são chamados de 
‘embreadores’ (do texto ao seu contexto; do plano da enunciação ao 
plano do enunciado), ou ainda, de ‘marcas de enunciação’.
Complementando essa verdadeira ‘cena de origem’, concebida 
então como a exterioridade a que a materialidade lingüística do dis­
curso necessariamente remete, o entorno especificamente discursivo, 
e não mais contextu^l, de um ato de enunciação, é nomeado como 
seu co-texto, cujos marcadores formais no nível do texto, são os 
coesivos do tipo.‘como disse Fulano’, ‘mudando de conversa’, etc., 
que remetem aos outros atos de enunciação com que aquelejse de­
fronta. Esse verdadeiro interdiscurso imediato é apenas o aspecto 
mais visível e concreto do que Bakhtin, assim como Ducrot, na es­
teira do primeiro, chamam de caráter ‘polifônico* da enunciação. 
Apesar de um discurso determinado ser proferido por um único indi­
víduo, muitos sujeitos diferentes ‘falam’ através desse discurso.
Num outro nível, diametralmente oposto ao que acabo de refe­
rir, as CP são homogeneizadas não mais como o contexto ou co- 
texto imediatos de um discurso individualizado qualquer, mas, como 
diria Foucault (1966:10), como aqueles “ ... códigos fundamentais de 
uma cultura [que] fixam, logo de entrada, para cada homem, as or­
A análise de discurso:. 61
dens empíricas com as quais terá de lidar, e nas quais se hâ de en- 
contrar” . Esse é o plano das ‘formações ideológicas’ (FI) previstas 
por Pêcheux, das ‘formações discursivas’ (FD) tais como concebidas 
por Foucault (1969) ou mesmo como reinteroretada na AD por auto­
res como Pêcheux (1969; 1975; 1979), Robin (1973) e Courtine 
(1981; 1982).
No caso das FI de Eêcheui, o ponto de partida é o trabalho de 
Althusser (1969), em que a ideologia é concebida como um funcio­
namento discursivo específico que, consistindo fundamentalmente na 
interpelação dos indivíduos em sujeitos de uma das duas classes so­
ciais antagônicas do Modo de Produção Capitalista,JLuma das con­
dições não econômicas da reprodução das relações de produção. A 
FTè entendida por Pêcheux (1975), então, como uma espécie de 
grande discurso prévio e anônimo, investido de uma força e direção 
políticas determinadas:
Falamos de FI para caracterizar um elemento (...) susceptível 
de intervir como uma força confrontada a outras na conjuntura 
ideológica característica de uma formação social num momento 
dado; cada FI constitui assim um conjunto complexo de atitu­
des e representações que não são nem ‘individuais’ nem ‘uni­
versais’, mas sim relacionadas mais ou menos diretamente 
a posições de classe em conflito umas com as outras.
(ppTTO-11) ~
Dadas as Fl, Pêcheux pensa as FDs, ou seja, os conjuntos de “con­
dições de exercício da função enunciãtíva” que Foucault postulara 
como princípio de explicação para as regularidades discursivas que 
detectava na grande massa de coisas ditas de uma época, de uma 
cultura e de uma áreadeterminada do saber, como os elementos que 
compõem uma Fl:
As FI de que acabamos de falar ‘comportam necessariamente, 
como um de seus componentes, uma ou várias FDs interliga- 
das, que determinam o que pode e deve ser d ito — na forma de 
uma arenga, de um sermão, de úm pãnfleto, de uma exposição, 
de um programa — a partir de uma posição dada numa coniun- 
tura’... (p. 11).
62 Egon de Oliveira Rangel
Nesse sentido, o que caracteriza a interpretação que Pêcheux, e 
através dele a AD, fazem das FDs de Foucault é sua inserção^num 
campojjolíüco-econômico. Sendo assim, uma outra maneira de ca- 
racterizar essa diferença é dizer que enquanto Foucault define a re­
gra da imanência como uma das regras básicas de seu método de 
análise (1969) - o político aparecendo apenas tal como pressuposto 
nos enunciados de um FD - , Pêcheux define primeiro o campo de 
forças em que odiscurso se move; a luta de classes; e faz dele um 
princípio extralingüístico de inteligibilidade, não só dos sistemas de 
regras que caracterizam cada uma das FDs de uma FI, mas ainda dos 
enunciados dessas formações. Em ambos os casos a SD é descrita, 
então, a partir de suas unidades mínimas, os enunciados, definidos 
como invariantes semânticos e enunciativos de uma prática discursi­
va histórica e socialmente determinadas.
Ouando definidas como FI e/ou como FDs, as CP são então, 
vistas num grau máximo de abrangência, numa espécie de ‘vista aé­
rea’ que faz desaparecerem os ‘contextos’ ou ‘situações de enuncia- 
ção’ dos discursos individuais. Evidentemente, a opção por uma ou 
outra dessas maneiras de homogeneizar as CP e caracterizar a ‘con­
juntura’ do discurso que se analisa, é determinada pelo tipo de cor­
pus e pelo objetiyo da análise. Se este tiver sido recortado como um 
grande arquivo - como será o caso do Projeto que originou este 
simpósio - arquivo esse que se suspeita constituir uma só e gigan­
tesca SD cunhada pelo mesmo ‘código enunciativo’, dentro de um 
mesmo campo político-econômico, as CP só poderão ser equaciona­
das como FI e/ou FDs. Se, ao contrário, o corpus for constituído de 
uns poucos discursos cuja singularidade se quer caracterizar - a fala 
de um candidato num debate de TV, como no caso de um artigo de 
Osakabe et alii (1983) que trabalha o debate Sandra Cavalcanti/Miro 
Teixeira nas eleições para o govemo do Rio - nesse caso, repito, a 
SD será interpretada como diretamente determinada pelo contexto 
imediato.
No meu próprio trabalho, os obstáculos a transpor prendiam-se 
exatamente ao fato de que o corpus, assim como meus interesses, 
pendiam ao mesmo tempo os dois tipos de CP. O Diário, fortemente
A análise de discurso:., 63
vinculado ao contexto de enunciação, com efeitos-de sentido - como 
o poder de sedução já referido - diretamente determinados por esse 
contexto, exigia que a análise contemplasse esse nível das CP. Ao 
mesmo tempo, a análise de sua superfície discursiva revelou uma 
estrutura temática complexa, que trazia à tona, principalmente no 
que diz respeito à temática religiosa obsessiva, a presença de uma 
interlocução - um interdiscurso - representado no interior do pró­
prio texto do Diário, configurando-se assim uma espécie de teatrali- 
zação do drama vivido por Lúcio, católico praticamente dividido 
entre a identificação com a moral cristã e o desejo desviante. Um 
quadro como esse sugere também, portanto, condições de produção 
homegêneas, do nível de uma FD da sexualidade, como a que 
Foucault (1969) previu, mas não chegou a descrever, já que, ao en- 
tregar-se ao projeto da História da Sexualidade, acabou deslocando 
o foco de sua atenção para a constituição do sujeito de uma moral na 
sua relação discursiva de si para si. Quanto ao Manual, apresentava 
um semantismo em nada subordinado ao contexto de enunciação, já 
por isso sugerindo CP homogeneizáveis num nível mais alto de 
abrangência. Sua estrutura temática, bem menos complexa que a do 
Diário, monolítica e monótona na referência ao ato sexual como de­
sempenho que deve ser otimizado na busca do máximo prazer, por 
sua vez metaforizado como rendimento e lucro, mesmo assim repro­
duzida como o Diário, a interlocução com o leitor - figurada nas 
perguntas supostamente dirigidas por um ‘interessado’ ao autor - 
que o legitima como discurso normativo. Essa mesma estrutura te­
mática deixa perceber que, qualquer que seja a FD a que o Manual 
remeta, certamente não será a mesma do Diário. ‘Carne’, ‘desejo’ e 
‘pecado’ estão no centro da FD a que o Diário remete; ‘organismo’, 
‘necessidades fisiológicas’ e ‘disfunção’ movimentam a do Manual. 
Mesmo assim, houve uma leitura desses dois textos em que a apro­
ximação foi possível... Por quê?
É aqui que convém introduzir o que eu chamaria de^um tercei­
ro nível possível aéhomogeneização das CP, intermediário entre 
os dos extremos já referidos. É o nível das ‘ordens discursivas’ 
de Foucãüir(1971), da ‘prática discursiva’ tal como referida por
64 Egon de Oliveira Range!
Maingueneau (1987) a partir do próprio Foucault, e, finalmente, dos 
‘gêneros do discurso’, desde que entendidos como padrões de enun­
ciação e interlocucão fixados historicamente, como em Todorov, 
(1978) e Bakhtin (1953), por exemplo. Examinemos mais de perto 
esse nível de CP.
Foucault (1971) concebe a ordem discursiva como um conjunto 
de procedimentos que regulam as funções enunciativas de uma práti- 
clTdiscursiva qualquer, ou seja, que regulam essa prática antes da 
constituição de um discurso efetivo e determinado.
Esses procedimentos são repartidos por Foucault em três gran­
des grupos: aqueles que põem em jogo o poder e o desejo (procedi­
mentos externos de controle), aqueles que se ocupam da classifica­
ção, ordenação e distribuição da produção lingüística (procedimen­
tos internos de controle) e, finalmente, aqueles que definem quem 
pode ter acesso ao discurso.
Os sistemas de controle externo incubem-se de definir quem 
pode falar, de que pode falar e em que circunstância, intituindo en­
tão o privilégio daquele que fala, o tabu do objeto e os rituais que 
cercam as circunstâncias; encarregam-se em dividir os reinos da ra­
zão e da loucura, excluindo do circuito autorizado de fala os discur­
sos relativos a esta última; estabelecem no discurso a oposição cer­
to/errado, sendo o critério da oposição a vontade de verdade das so­
ciedades ocidentais, apoiadas sobre um suporte e uma distribuição 
institucionais. •
Os sistemas internos de controle exercem três grandes funções 
de restrição da dimensão de acontecimento e de acaso do discurso. 
À primeira (o comentário) institui discursos matrizes - discursos 
primeiros - e discursos comentários - discursos segundos seu po­
der residindo em permitir novos discursos a partir do primeiro e em 
'revelar, através dos comentários, o que de alguma forma “já estava 
dito nele” ; a segunda (o autor) limita o acaso do discurso pelo jogo 
de uma identidade que tem a forma da individualidade e do ‘eu’; a 
terceira (a disciplina) institui sistemas anônimos constituídos por um 
domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpo de proposi­
A análise de discurso:., 65
ções consideradas verdadeiras, um jogo de regras e definições, de 
técnicas e de instrumentos que estabelecem aquilo que se requer pa­
ra que novos enunciados sejam, reconhecidos como pertencentes à 
disciplina em questão.
Finalmente, os sistemas de controle que definem quem pode ter 
acesso ao discurso determinam as condições em que ele pode ser 
colocado em jogo e impõe aos indivíduos um certo número de re­
gras. Estabelecem-se assim rituais (convenções lingüísticas e extra- 
lingüísücas que devem ser respeitadas pela falante), as sociedades 
de discurso (que produzem e fazem circular em circuitos de fala ex­
clusivos e fechados - e segundo regras estritas - um certo número 
de discursos), as doutrinas (discursosúnicos a partir dos quais mui- 
tos indivíduos definem seu pertencimento recíproco e que os liga a 
certos tipos de enunciação, proibindo-lhes os demais) e a apropria­
ção social dos discursos (capacitação social, pela educação, por 
exemplo, de qualquer indivíduo para qualquer tipo de discurso, ob­
servadas as reservas às distâncias, posições e lutas sociais).
'Pensar as CP de um discurso como uma ordem discursiva é 
pensar, como sç vê, o nível de sua enunciação, tal como numa análi­
se enunciativa típica da lingüística do discurso; mas, aoxontrário do 
que .acontecfcjiesía, uma análise que remeta um discurso à ordem 
que o cunha - identificando-o, por exemplo, como comentário auto­
rizado de um texto primeiro - articula o contexto imediato da produ- 
ção do discurso pelo _sujeito da enunciação com as CP mediatas. do 
nível das FDs e/ou FI. Uma ordem discursiva é portanto como que 
uma ‘máquina* para produçãotte FDs. E estas são como que a ‘coa- 
gulação’ historicamente determinada de uma ordem, no elemento do 
enunciado, ou seja, da SD. Por fim, na medida em que uma análise 
da ordem revela tanto os limites impostos ao acesso do discurso, 
quanto os ‘desvios’ enunciativos (imediantamente ‘mensuráveis’ pe­
las leis conversacionàis da lingüística do discurso, por exemplo) que 
a caracterizam como controle social da fala, abre espaço para uma 
teoria dos gêneros como verdadeiros ‘embreadores’ entre a codifica­
ção social da enunciação e a formulação individual do discurso. 
Desse ponto de vista, uma ordem discursiva e inseparável dos gêne­
66 Egon de Oliveira Rangel
ros que cria e/ou mobiliza: o mesmo gesto que divide a razão e a 
loucura, por exemplo, é o que cria a oposição entre o ‘discurso psi­
cótico’ (Todorov, 1978) ou patológico, em geral, o ‘discurso nor­
mal’; estabelecer o certo e o errado é criar, imediatamente, gêneros 
‘ficcionais’ - brincadeiras, jogos de palavra, mentiras, sentido figu­
rado, literatura, etc. - em confronto com os gêneros ‘a sério’, aos 
quais, aliás, o Foucault da Arqueologia se restringira - ‘discurso 
teórico’, ‘discurso de experiência pessoal vivida’, etc. Por outro la­
do, uma ordem discursiva é inseparável também das instituições em 
que funciona e das ‘comunidades discursivas’ (Maingueneau, 1987; 
pp. 53-71) que ela delimita e que, em contrapartida, lhe dão susten- 
ção e condições de reprodução. É esse o caso da Escola e das Igre­
jas, por exemplo, que estão inteiramente pressupostas no comentário.
Em resumo, fixar o nível da ordem discursiva como nível ideal 
para a homogeneização das CP de um corpus é pôr em relevo, então, 
tanto a singularidade da enunciação dos discursos que o compõem 
quanto sua inserção numa conjuntura histórico-social determinante.
Volto então as minhas análises do Diário e do Manual, para 
encerrar. O nível em que foi possível homogeneizar as CP desse 
corpus, tomando-as então como um princípio de explicação para os 
efeitos de sentido particulares e para a leitura que os aproximou, 
está diretamente relacionado a alguns aspectos das respectivas or­
dens discursivas. Como os materiais revelam de FDs diferentes, ain­
da que em ambos os casos se possa falar em ‘discursos de sexualida­
de’, mesmo as ordens discursivas são diferentes. No caso do Diário, 
o gênero e a ordem são confessionais: uma interlocução dis simétrica 
onde o autor figura sempre como um confidente que se expõe e jus­
tifica a um confessor que analisa, condena, obsolve, etc.; no caso do 
Manual, ordem e gênero são ao mesmo tempo ‘didático-pedagógi- 
cos’ e ‘clínicos’, o autor ocupando o lugar de professor e médico ou 
cientista numa interlocução também dissimétrica.
O nível em que um e outro discursos são aproximáveis é, en­
tão, exclusivamente o da dissimetria interlocutiva e da posição com­
plementar em que se encontram um em relação ao outro: o Manual 
como ‘discurso de autoridade’, o Diário como discurso de experiên­
A análise de discurso:.. 67
cia pessoal vivida em ‘prestação de contas’. Apesar então de rela­
cionados a diferentes modos de produção discursiva da sexualidade, 
ouTdiferentes ‘morais sexuais’ (Foucault, 1984) ambos ns materiais 
dão testemunho, do funcionamento discursivo semelhante de um dos 
aspectos da moral: aquele que Foucault chamou de ética, a relação 
de si para consigo, a construção da própria subjetividade pela inter­
pelação da norma.
O que minha leitura do corpus captou, portanto, foi um mesmo 
‘modo de fazer’, muito embora o que se fizesse, em cada caso, fosse 
diferente. E esse mesmo modo de fazer acaba criando analogias pos­
síveis entre aquilo que se faz ou produz em cada caso; de tal forma 
que as posições de médico e padre, por exemplo, se assimilam como 
posições ‘de autoridade’; as de confidente e de cliente, como ‘posi­
ções de falta'\ e as noções de virtude e pecado, de um lado, e saúde 
e doença, função e disfunção, do outro, se assimilam na mesma lógi­
ca maniqueísta. Pode-se dizer, portanto, que esse é um ponto de 
contato possível entre FDs diferentes. Como uma das tarefas priori­
tárias da AD é exatamente a de descrever essas modalidades de 
contato entre FDs e FI diferentes (Cf. Courtine, 1982; p. 245), uma 
vez que a ordem empírica dos discursos as embaralha constante­
mente no etemo trabalho de gerar o novo e reproduzir o já dado, é 
recomendável que a análise da ordem discursiva, em seu papel de 
embreante por excelência dos diferentes tipos de CP receba do ana­
lista o cuidado que merece.
68 Egon de Oliveira Rangel
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PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS 
DA ANÁLISE DE DISCURSO
J.A. GUILHON ALBUQUERQUE 
Depto. de Ciência Política - USP
A análise de discurso tem por objeto o pensamento sob as suas 
diversas formas de expressão. Liga-se, portanto, a uma longa tradi­
ção que remonta aos primórdios da filosofia grega e, particularmen­
te, à sofistica. Desde o início, a reflexão sobre o pensamento preo­
cupa-se com duas questões que permanecem centrais para a análise 
de discurso: o pensamento considerado em si mesmo, em seus mo- 
vimentosJntemos e na sua coerência e identidade consigo mesmo; e 
o pensamento considerado nos seus efeitos, tanto sobre o seu emis­
sor quanto sobre seus eventuais receptores.
A primeira vertente desemboca na lógica e nas teorias do co­
nhecimento e da percepção. A segunda, desagua na retórica. A anâ- 
lise de discurso participa das duas vertentes. Embora ela lide mais 
imediatamente com a expressão do pensamento sob suas diversas 
formas, e tenha por matéria prima diferentes tipos de linguagem, e 
particularmente o texto, a análise de discurso não se limita à questão 
do convencimento, ou seia. à retórica.
A análise de discurso procura compreender os mecanismos 
através dos quais o pensamento produz efeitos de conhecimento e de 
convicção, e isto não apenas no receptor, como também no emissor 
do discurso. Análise de discurso é uma expressão recente, que sina­
liza uma ruptura com a tradição filosófica. Isto porque, por um. lado, 
não estabelece uma oposição de princípio entre uma teoria do co­
nhecimento e uma teoria da convicção e, por outro lado, porque .não 
estabelece uma hierarquia de princípio, nem precedência ontológiça 
entre emissor e receptoole discursos.
72 JA . Guillion Alhuc/uerqm
Essa ruptura, na verdade, não é estranha a uma corrente filosó- 
tica relativamente recente, que compreende algumas teorias das 
ciências voltadas para a reflexão sobre a linguagem, que tomam por 
objeto a expressão do pensamento, seja na linguagem científica, seja 
na linguagem filosófica ou na linguagem comum. Essas correntes 
tendem a descartar o pressuposto de uma distinção a priori entre o 
pensamento e sua expressão e, particularmente, entre os mecanismos 
do pensamento e os mecanismos da linguagem.
Uma conseqüência importante desse pressuposto, e que tem 
implicações metodológicas, é a de que todos os movimentos do pen­
samento - seja no conhecimento, seja no convencimento - devem 
ser estudados na sua expressão discursiva. Deve-se, portanto, des­
cartar também qualquer hierarquia ontológica entre ambos, como 
também qualquer dicotomia de princípio que subordine um, à lógica 
dos mecanismos formais e, o outro, à retórica e, através dela, à emo­
ção ou às sensações.
Outro tipo de ruptura com a tradição filosófica de reflexão so­
bre o pensamento deve ser mencionado aqui. Trata-se das correntes 
que vão buscar os mecanismos do conhecimento e do convencimen­
to, não do lado do pensamento, mas do lado da realidade. Incluem- 
se nessa órbita as sociologias do conhecimento e as terorias da 
ideologia. Seu pressuposto teórico essencial é o de que, indepen­
dentemente dos mecanismos internos do pensamento e das regras da 
linguagem, ou sobredeterminando esses mecanismos e regras, exis­
tem efeitos que derivam das relações sociais e, em particular, das 
relações de poder.
A conseqüência metodológica desse pressuposto é a de que a 
matéria prima da análise que visa à compreensão do pensamentojião 
é o material discursivo ou, em todo caso, não se limita ao material 
discursivo. Ela compreende a organização sociaLgomo um todo, in­
cluindo o processo produtivo, as relações de produção e a estrutura 
de dominação política.
Como podemos notar, os pressupostos teóricos das diferentes 
concepções do pensamento conduzem a três diferentes direções me­
todológicas: o objeto material da reflexão nn du análise deve ser
Pressupostos teóricos e metodológicos... 73
buscado seja nqj>róprio pensamento ou, em todo o caso, no sujeito 
pensanie; çeja no objeto do pensamento op, em todo o caso, na rea­
lidade exterior ao sujeito; seja, ainda, na própria expressão do pen­
samento e, particularmente, na tinguagem.
No primeiro caso, temos tipicamente uma reflexão filosófica 
ou, mais precisamente metafísica - embora não necessariamente as­
sumida como tal - e que consiste em buscar, numa reflexão do pen­
samento sobre o pensamento, a natureza do conhecimento e a expli­
cação sobre a origem e a evolução das idéias. Dentro dessa perspec­
tiva as idéias são o elemento explicativo fundamental: as idéias ver­
dadeiras produzem idéias verdadeiras, as idéias falsas derivam de 
idéias falsas, as novas idéias são engendradas por idéias que as pre­
cedem no tempo pu na ordem lógica ou ontológiça das idéias.
No segundo caso, temos as diversas variedades de positivismo 
que consistem em postular a existência de uma estrutura racional 
imanente à realidade das coisas a qual, de alguma forma, impõe-se 
ao pensamento. Por conseguinte, trata-se, aqui, de derivar a explica­
ção do movimento das idéias e o conteúdo dos discursos de uma 
teoria acerca da realidade - material, social, espiritual, pouco 
importa - das coisas. Incluem-se, aqui, as diversas teorias evolu- 
cionistas eJüstoricistas e, particularmente a teoria marxista da ideo­
logia.
No terceiro caso, o pensamento é imanente ao discurso e, por­
tanto, a origem e o movimento das idéias, bem como a estrutura do 
conhecimento e os mecanismos da convicção estão embutidos no 
próprio material discursivo. Este é um outro sentido em que pode­
mos dizer que a expressão análise do discurso inova: ela aponta pa­
ra uma teoria assumidamente reducionista do pensamento e das 
idéias, na medida em que reduz o discurso à sua manifestação mate­
rial. Isto eqüivale a explicar o processo desconhecimento e os meca­
nismos de convencimento em termos de efeitos discursivos.
Creio que seria mais rigoroso considera a análise de discurso 
como um conjunto de concepções que se enquadram nessa última 
categoria, e,_que tratam o pensamento individual e sociaLcomo dis­
curso, isto é, como uma realidade que se esgota nos elementos da
74 JA . Guilhon Albuquerque
própria expressão discursiva do pensamento, ou que, em todo o ca­
so, pode ser explicada a partir desses elementos. Mais precisamente, 
análise de discurso tem uma conotação que lhe foi emprestada por 
Michel Foucault, e que consiste no pressuposto de não hierarquia 
entre os discursos.
Nesse sentido, encarar como discurso uma manifestação indi­
vidual ou coletiva de pensamento eqüivale a recusar qualquer para­
digma de discurso verdadeiro, autêntico, justo, etc. Significa recu­
sar, à verdade, à ciência, à razão, mas também às diversas lormas de 
revelação, qualquer direito de extraterritorialidade com relação ao 
campo discursivo.
Quando se fala em análise de discurso, entretanto, particular­
mente no Brasil, é freqüente a referência a duas origens divergentes 
que, no entanto, têm algo em comum: a soi-disant análise de discur­
so tanto se pratica como uma análise de ideologia, quanto se encara 
como uma análise da linguagem. Ora, essas duas concepções são di­vergentes, porque uma se volta para a realidade social como deter­
minante dos processos de pensamento e de sua expressão discursiva, 
enquanto a outra se restringe à materialidade do discurso para reti­
rar, de sua forma ou de seu conteúdo, conforme o caso, as bases de 
compreensão não só do discurso, mas também do sujeito e - por que 
não? - da realidade.
Contudo, essas duas concepções têm algo em comum que justi­
fica a confusão que se faz entre ambas como paradigmas da análise 
de discurso. Ambas vêem no discurso - e, por extensão, no pensa­
mento - um elemento intermediárjQ entre o sujeito e o objeto de co­
nhecimento. Esse elemento intermediário cumpre uma função de re- 
produção, e a função das teorias da ideologia, como também das teo- 
rias da análise formal.e conteudística do discurso, é a de explicar as 
condições dessa reprodução, isto é, o que falseia e o que garante 
uma reprodução autêntica do objeto.
Varnos^então^ater-nos a essas duas concepções dojiiscurso, 
freqüentemente confundidas como análise de discurso, e que 
sem dúvida constituem as formas mais freqüentes de sua manifesta-
Pressupostos teóricos e metodológicos.. 75
ção no Brasil: a crítica das ideologias e a análise conteudística e 
formal do discurso.
Creio que a forma mais corrente e que envolve o maior número 
de enfoques teóricos e de modo de abordagem é a que considera o 
discurso como ideologia. Considerar o discurso como ideologia, sig­
nifica considerar o discurso como algo que se situa entre o sujeito e 
a realidade. Isto tanto pode ser entendido no sentido de que a ideo­
logia é algo que expressa ou que distorce a realidade. Nos dois ca­
sos, o discurso-ideologia é encarado como uma espécie de lente 
através da qual o sujeito recebe a reprodução da realidade.
i
Essa lente pode desfocar, como pode também concentrar, mas, 
em todo caso, ela filtra e retrata o objeto. Mas, ainda que se trate de 
uma reprodução distorcida, o que está pressuposto na interpretação 
do discurso-como ideologia é a idéia de que o discurso reproduz a 
realidade. Q jjue distingue a teoria da ideologia dentre as concep­
ções do discurso equanto reprodução do objeto, é o pressuposto de 
que o determinante dessa reprodução deve ser buscado do lado da 
realidade social e, mais particularmente, das ,relações de produção 
no sentido marxista^da expressão.
A outra vertente das teorias que encaram o discurso como re­
produção do objeto - ou da realidade - compreende as teorias con- 
teudísticas do discurso. O princípio de reprodução é o mesmo: o_dis- 
curso é algo que reproduz. Entretanto, as teorias conteudísticas, seja 
as que encaram o conteúdo do ponto de vista quantitativo ou formal, 
concebem essa reprodução de forma dixersa, porque reduzem a rea- 
lidade reproduzida ar> discurso. Isto significa que, ao analisar a ma- 
terialidade do discurso, seja no seu conteúdo, seja na sua forma, eu . 
já estou analisando a realidade.
A diferença entre as teorias conteudísticas quantitativas e as 
formais, do ponto de vista técnico, é que as primeiras, previamente 
ao processo analítico, empregam procedimentos classificatórios que 
irão permitir trabalhar com métodos estatísticos simples e, às vezes 
de natureza probabilística. Quanto às demais, que estamos chamando 
de formais por oposição às simplesmente quantitativas, vão empre-
76 J A . Guilhon Albuquerque
gar algum tipo de abordagem sistêmica, em que a estrutura do dis­
curso determina os conteúdos.
De qualquer modo, todas essas abordagens, seja a ideológica, 
seja as diversas teorias cnntpnHfstiras, tanto as quantitativas quanto 
as sistêmicas, compartilham uma concepção comum do discurso que 
consiste, em primeiro lugar, em encarar o discurso na sua materiali­
dade, em segundo lugar, em entender o discurso como intermediário 
entre o sujeito e a realidade e, em terceiro lugar, em pressupor o dis­
curso como reprodução. Quer falseie a realidade, quer a espelhe, o 
discurso é esse elemento intermediário que a reproduz na sua mate­
rialidade. É na materialidade do discurso que eu posso qualificar e 
classificar os conteúdos, bem como referi-los a uma estrutura discur­
siva ou societária.
A dificuldade comum a essas teorias está precisamente na con­
cepção do discurso .como intermediário, como medium entre sujeito 
e objeto e, portanto, na sua função de reprodução. Por causa desse 
duplopressuposto, a análise de discurso - e análise ideológica como 
aqui a entendemos - precisa sempre apelar para um princípio meta- 
discursivo, para algum determinante que se mantém em estado de 
extraterritorialidade com relação ao discurso.
O caso mais patente é obviamente o da análise ideológica, on­
de a garantia da reprodutibiüdade da realidade pelo discurso é uma 
coincidência da posição do sujeito da ideologia com o sujeito histó­
rico. No caso dos esquemas analíticos mais conhecidos em ciências 
sociais no Brasil, que se baseiam na estrutura narrativa, a garantia 
de reprodutibilidade do discurso está na sua coincidência com con­
teúdos míticos. De qualquer forma, os pressupostos de intermedia­
ção e, portanto, de reprodução introduzem uma petição de transcen­
dência: uma instância transcendente é necessária para garantir a 
identidade entre o discurso e a realidade - ou entre o discurso e o 
sujeito, dá no mesmo - ou para explicar sua não coincidência sob a 
forma seja do erro, seja da falsa consciência.
É precisamente para fugir à necessidade de se garantiu; .do erro 
ou da ideologia que proponho que se encare o discurso não como 
intermediação, nã<T como reprodução, mas como representação. O
Pressupostos teóricos e metodológicos... 77
que quero dizer com isso é que o discurso significa a realidade em 
vez de reproduzf-la ou de intermediar a relação do sujeito com o 
objeto de pensamento. Com isso, os três elementos comuns às con­
cepções de que estâvamos tratando são conjuntamente descartados e, 
com e1esT a necessidade de uma parantia transcendente.
Em primeiro lugar, elimina-se a separação entre o sujeito e o 
discurso, eliminando-se. simultaneamente, a intermediação com a 
realidade. O discurso não é um elemento distinto do sujeito e da 
realidade, cuja adequação a ambos é problematizada na questão do 
erro e da falsa conciência, mas é a representação da realidade pelo 
sujeito. Assim sendo, o discurso está no sujeito enquanto represen- 
tação, significação, e está na realidade enquanto linguagem e texto,
Por isso mesmo, elimina-se o problema da reprodução, bem 
como o da redução do discurso à sua materialidade. Se o discurso é 
representação, significação, ele não se encara num objeto interme- 
diário que reproduz a realidade para o sujeito, a significação é uma 
relação entre sujeito e realidade, entre sujeito e objeto de pensa­
mento
Portanto, não se coloca o problema da coincidência entre o 
sujeito e o discurso: o discurso sempre coincide com o sujeito, pois 
é sempre o sujeito que significa, e^o discurso sempre significa algu­
ma coisa. Eu não tenho que colocar a questão de saber se o sujeito 
se engana, se deixa enganar ou distorce deliberadamente a realidade. 
Do ponto de vista da técnica, isto significa que eu só tenho que 
preocupar-me com as representações do sujeito, com o que ele diz, e 
não com o que ele quer dizer ou com o que ele deveriajdizer.
Tampouco se coloca a problema da coincidência entre o dis­
curso e a realidade. Como o discurso representa, mas não retrata a 
realidade, eu não tenho que descrever esse retrato, nem tenho que 
compará-lo com minha própria descrição ou com alguma descrição 
canônica da realidade. Como o discurso, enquanto texto ou fala, é_ 
um demento integrante da realidade jmaterial, ele sempre é alguma 
realidade e, portanto, não se coloca a questão de saber até que 
ponto ele retrata a realidade como um todo.
78 J A . Guilhon Albuquerque
Descartamos, com isso, tantoo problema da verificação do 
discurso - o discurso diz a verdade? - quanto o problema da sua in­
terpretação - o que ele realmente quer dizer? - para ater-nos tão so­
mente ao problema da significação do discurso. Não preciso, por­
tanto, nem de uma hermenêutica, que me diga qual o verdadeiro 
sentido do discurso, nem de uma teoria normativa da realidade, que 
me diga o que deveria dizer para ser verdadeiro.
A conseqüência técnica desses pressupostos é que, diante de 
um discurso, trata-se sempre, apenas e tão somente de analisar o que 
ele diz - e ele sempre diz alguma coisa com certeza - e não, de en­
tender por que ele o diz, para quê ele o diz, e se o que ele diz é 
aceitável ou compatível com algum ponto de vista científico, políti­
co, ético, ou seja lá que tipo de normatividade se queira considerar.
Outra conseqüência técnica desses pressupostos é a de que a 
análise de discurso precisa introduzir o sujeito e o objeto na análise. 
Se o discurso é um elemento intermediário entre o sujeito e a reali­
dade, então eu posso tratar o discurso nele mesmo, posso analisar o 
discurso pelo discurso. Entretanto, se não se trata de um elemento 
intermediário, eu tenho que necessariamente referir o discurso ao 
sujeito e à realidade.
A primeira conseqüência técnica dessa concepção é que, ao 
trabalhar com o discurso, a minha primeira preocupação é identificar 
os atores ou sujeitos discursivos e o objeto de seu discurso. Não vou 
considerar o discurso em si mesmo mas vou, a cada momento, iden­
tificar, nos diversos textos discursivos sob análise, quaissão os ato- 
res discursivos, isto é, quem está falando, e quais são os objetos de 
que se está falando.
Esse objeto pode ser o próprio ator, outro ator, ou uma entida­
de material qualquer, como pode ser uma entidade social. Objeto, 
nesse sentido, é apenas uma posição no discurso, e não a substância 
daquilo de que se fala. Assim sendo, sou obrigado a analisar o dis­
curso enquanto discurso de um sujeito sobre um determinado objeto, 
o qual pode ser o próprio sujeito, outro sujeito ou qualquer obje­
to discursivo, seja ele material, social ou mesmo simplesmente lin­
güístico.
Pressupostos teóricos e metodológicos... 79
Em termos práticos, podemos considerar discurso qualquer re­
presentação verbal, seja um texto científico, uma entrevista, algo 
gravado, uma aula, um texto de jornal, onde quer que eu tenha uma 
representação verbal, um ator que diz, que significa algo, um objeto 
que é representado verbalmente. Trata-se, portanto, de identificar os 
atores e, a partir daí, identificar as representações que figuram no 
discurso, isto é, tudo o que os atores representam, isto é, o(s) obje- 
to(s) de seus discursos: todas as representações dos atores sobre eles 
mesmos e sobre os diversos objetos de seu discurso, o que inclui as 
representações das relações entre os atores com os objetos de seu 
discurso.
DISCURSO POLÍTICO: NOTAS PARA UM DEBATE
MARIA TEREZA AINA SADEK 
Depto. de Ciência Política - USP
O anedotário político brasileiro está repleto de histórias que 
retratam, com certa ironia, o jogo de poder e nele o papel da pala­
vra. Entre esses inúmeros relatos, gostaria de relembrar um que re­
sume em tom sarcástico as artimanhas relacionadas à esfera da polí­
tica. Conta-se que Gustavo Capanema teria cunhado a expressão “o 
que vale é a versão e não o fato” , mas que ela teria sido apropriada 
por José Maria Alkimim. Inconformado de ter perdido a autoria de 
seu achado lingüístico, Capanema dirigiu-se a Alkimim cobrando: 
“Com o quê, eu faço a frase de efeito e você diz que é sua?”. Pron­
tamente, não perdendo a oportunidade, o sagaz político mineiro teria 
respondido: “Ora, Capanema, o que vale é a versão e não o fato”.
O contraste entre as versões e o fato é próprio da vida política, 
para não mencionar sua presença no cotidiano, recheando os mo­
mentos da vida privada. No que se refere à esfera pública, esta é 
uma lição que se aprende nos primeiros manuais de Ciência Política. 
Entretanto, o que é marcante quando se debruça sobre a história po­
lítica brasileira é o fato de que a cultura política nacional, em nome 
de criticar as versões, desconfia quase que por inteiro da idéia mes­
ma do conflito político. Isto se reflete no desprestígio dos políticos, 
dos partidos, do Congresso. Este traço tem apresentado uma durabi­
lidade tanto no discurso dos profissionais da política como no dis­
curso popular que merece ser examinado.
O objetivo deste texto é apontar que, apesar das radicais trans­
formações por que passou o estado e a sociedade no Brasil nos últi­
mos sessenta anos, o legado ideológico das décadas de 20 e 30 deste 
século fincou raízes mais profundas do que faria imaginar uma aná-
MarUi I preza \iiin Sadcí.
lise que se centrasse apenas nos aspectos sócio-econôniicos ou mes­
mo institucionais. Não se pretende, pois, discutir os diferentes para­
digmas que orientam as análises de discurso. Nosso objetivo é mais 
modesto e segue um outro caminho. Trata-se, sobretudo, de salientar 
que concepções elaboradas durante o período de crise da Primeira 
República têm apresentado um excepcional grau de resistência às 
mudanças estruturais e político-institucionais. Atentar para este fato 
e avaliar suas conseqüências são imperativos indispensáveis para 
qualquer estudo preocupado com as condições de sobrevivência da 
democracia no país.
1. O Espaço da Palavra
L)a pólis ateniense ao mundo contemporâneo assistiu-se a uma 
radical redefinição do papel da palavra na arena política. Saliente-se 
que não é nosso propósito descrever nem explicar as profundas 
translormações que ocasionaram tal deslocamento, mas simples­
mente marcar a existência de diferentes espaços ocupados pelo dis­
curso político e seus conseqüentes desdobramentos nas concepções 
" sobre a vida política.
A despeito de o discurso poder ser sempre visto como arma 
política, ou seja, como um precioso recurso de poder, é possível ma­
pear três orientações distintas a respeito de seu significado no inte­
rior da esfera pública. Simplificadamente, teríamos: o modelo idea- 
lista-ateniense, o ético-normativo e o realista. Muito embora seja 
possível localizá-los num suceder histórico, não se trata de uma 
evolução progressiva, de um passar de uma forma mais simples para 
outra mais complexa. Diversamente, muitas vezes se sobrepõem, 
coexistindo, e_nada indica que qualquer um deles esteja definitiva­
mente ultrapassado. Examinemos rapidamente estes modelos:
1.1.0 Modelo Idealista-Ateniense
A originalidade da forma de convivência humana instituída 
pela pólis grega encontrou no papel da palavra e no espaço reserva­
Discurso político: notas para um debate 83
do para o discurso político seu epicentro. Neste modelo, a palavra 
adquiriu preeminência sobre os demais instrumentos de poder. A 
força da palavra bem como o lugar por ela ocupado implicavam a 
existência de um piíblico-juiz, possuidor da atribuição de julgamen­
to, isto é, de cíêcidir qual parte ou qual discurso deveria se impor. 
Em face de dois ou mais discursos que se defrontavam, venceria o 
que apresentasse maior força persuasiva. Daí poder-se sustentar, 
como o faz Vemant em sua interpretação sobre a origem do pensa­
mento grego, que “a arte política é essencialmente o exercício da 
linguagem”.1
A oratória identificava-se então com a arte e com a técnica, 
sendo sempre julgada de forma muito positiva. Sua avaliação tinha 
por critérios centrais o rigor argumentativo e a eficácia ou, em ou­
tros termos, sua capacidade de convencimento na busca do “Bem 
Público”. A valorização positiva da palavra contrapunha-se ao des­
prestígio de formas anteriores de domínio baseadas no poder abso­
luto do monarca, no prestígio pessoal ou religioso. Tratava-se agora 
de conseguir demonstrar a retidão de princípio, a correta utilização 
dás regras de demonstraçãoe da lógica. - t
O demagogo, nestas circunstâncias, identificava-se com o 
Homem de Estado, o hábil orador, enfim, com aquele capaz dejcon- 
duzir o povo. Desta forma, é possível dizer que este modelo que 
concede ao discurso um espaço central tem por horizonte a busca do 
“Bem”, aceita a pluralidade e tem na divergência entre as falas e na 
idlía de um público-juiz seus pilares de sustentação.
1.2. O Modelo Ético-Normativo
Um outro modelo que por falta de melhor nome poderia ser de­
signado de ‘ético-normativo’ parte da radical distinção entre o dis- 
curso considerado falso e o verdadeiro. Nele se contrapõem a fala 
do senso comum e a do sábio. A fala do senso comum é vista como
1. Jean-Pierre Vemant. ,4$ Origens do Pensamento Grego. São Paulo, Difu­
são Européia do Livro, 1972; p. 35.
Maria I creia Aina Stulek
enganosa, mistificadora e por isso perigosa. A do sábio, ao contrá­
rio, não é parcial, não é particularista, mas comprometida com o 
real. Qesta forma, o único discurso legítimo, de fato, é o discurso do 
sábio. Osl demais são desqualificados, devendo ser combatidos ou no 
máximo confinados a um espaço muito reduzido. Não se trata aqui 
de procurar a eficácia, nem mesmo o resultado de um jogo de con­
vencimento. Não cabe a pluralidade das falas, já que apenas uma 
pode apreender a totalidade, o bem geral. E claro que a expressão 
“sábio” corresponde a um grande número de tipos históricos, indo 
dos intelectuais ao partido, sem esquecer os césares e os tecno- 
cfatas.
Os argumentos que sustentam tal percepção do discurso políti­
co são bastante diversificados, muito embora apresentem uma estru­
tura básica comum, cujo pilar central está na oposição radical entre a 
verdade e a falsidade. O critério de julgamento é essencialmente éti-
co-normativo. Tal como ilustramos o primeiro modelo com a con­
cepção imperante nos primórdios da pólis ateniense, este encontra 
seu perfil muito bem traçado em Rousseau. O pensador genebrino 
não é certamente seu fundador, mas o fato de ter elaborado a versão 
moderna mais difundida deste tipo de percepção permite-nos apoiar 
em suas proposições para melhor esclarecer o que estamos caracteri­
zando como modelo ético-normativo.
Para que não se suponha que esta orientação vincula-se à mo­
dernidade, deve-se lembrar traços de sua presença na antiguidade e 
com mais força ainda no período medieval. Já em Aristóteles, por 
exemplo, encontra-se uma mudança radical na apreciação do dis­
curso quando se compara com o período que lhe antecedeu. Para 
Aristóteles, o termo ‘demagogo’ deixa de significar o hábil orador, 
passando a desipnar ‘uma prática corrupta ou degenerada’, ‘adulador 
do povo’. A demagogia converte-se em um instrumento através do 
qual se institui um governo despótico das classes inferiores ou de 
muitos que governam em nome da multidão. Suas críticas a um tipo 
específico de oratória permitia-lhe distinguir o discurso enganoso do 
verdadeiro. E, obviamente, o enganoso deveria ser deslegitimado e 
apenas o verdadeiro, valorizado.
Discurso político: notas para um debate 85
Rousseau, de forma mais sedutora do que qualquer outro autor 
precedente, desenhou um quadro no qual a iadicalidade dos princí­
pios normativos pode ser examinada. De seu ponto de. vista, a ordem 
social legítima funda-se em um ato de vontade e só se mantém sob a 
condição de preeminência incontrastável da “vontade geral”. A 
“Vontade Geral” deteriora-se no contato com os interesses particu­
lares, privados, cuja pior manifestação se encontra na formação de 
facções, de .partidos políticos. Os particularismos, sempre pernicio­
sos, devem estar dominados, submetidos ao que há de comum entre 
todas as vontades. “Só a vontade geral” , dirá Rousseau, “pode diri­
gir as forças do Estado dç.acordo com a finalidade de sua institui­
ção, que é o bem comum”2. Para esta correta direção em nada con­
tribui a presença de discursos que se confrontam. Não se trata aqui 
de convencimento, mas, ao contrário, da abolição do espaço reser­
vado às diferentes falas, já que estas só podem traduzir a particulari­
dade dos interesses. Daí Rousseau enfaticamente afirmar que
se, quando o povo suficientemente informado delibera, não ti­
vessem os cidadãos qualquer comunicação entre si, do grande 
ndmero de pequenas diferenças resultaria sempre a vontade ge­
ral e a deliberação seria sempre boa. Mas quando se estabele­
cem facções, associações parciais a expensas da grande, a 
vontade de cada uma dessas associações toma-se geral em re­
lação a seus membros e particular em relação ao Estado.
E concluirá: “Importa, pois, para alcançar o verdadeiro enun­
ciado da vontade geral, que não haja no Estado sociedade parcial e 
que cada cidadão só opine de acordo consigo mesmo”.3
Desta forma, se os interesses particulares são perniciosos, 
qualquer organização baseada nestes interesses seria mais danosa 
ainda para o estado. Conseqüentemente, pregar a legitimidade de um
•* •
2. Jean Jacques Rousseau. O Contrato Social. Livro II, cap. 1. Esta ci&ção e 
as que se seguem da mesma obra baseiam-se na tradução para o português 
de Lourdes Santos Machado, na edição brasileira, da Coleção Os Pensado­
res. São Paulo, Abril Cultural, 1973.
3. Idem, cap. 3.
M a n a I creza \ ir u i Satlet
espaço para o convencimento seria um contra-senso. Daí a substitui­
ção deste espaço pela valorização das atribuições do legislador, al­
guém de qualidades excepcionais, com a reta consciência dos pro­
blemas comuns. Sustentará, pois:
para descobrir as melhores regras de sociedade que convenham 
às nações, precisar-se-ia de uma inteligência superior, que vis­
se todas as paixões dos homens e não participasse de nenhuma 
delas, que não tivesse nenhuma relação com a nossa natureza e 
a conhecesse a fundo. (...) Aquele que ousa empreendei a ins­
tituição de um povo deve sentir-se com capacidade para, por 
assim dizer, mudar a natureza humana, transformar cada indi­
víduo, que por si mesmo é um todo perfeito e solitário, em 
parte de um todo maior, do qual de certo modo esse indivíduo 
recebe sua vida e seu ser. alterar a constituição do homem para 
fortificá-la. substituir a existência física e independente, que 
todos nós recebemos da natureza, por uma existência parcial e 
moral.4
Apontando o perigo da instituição de um largo espaço para a 
palavra, este modelo advoga seu encolhimento e atribui a uma úni­
ca fala a capacidade.de apreensão “correta” do real, do bem comum. 
Assim, cabe o destaque ao papçl do legislador, no caso de 
Rousseau, ou do partido no de Lenin, ou de um César em tantas 
propostas autoritárias. O maniquefsmo no julgamento das falas e a 
submissão dos discursos à palavra dita “verdadeira” são, com fre­
qüência ou tendencialmente, acompanhados de um alargamento do 
espaço público em detrimento do privado.
1.3. O Modelo Realista
Diversamente das orientações anteriores, o modelo realista não 
se preocupa com o critério de verdade e tampouco com a adequada
4. Ibitlem, cap. 7.
Discurso político: notas para um debate 87
demonstração dos princípios da argumentação. Aqui, o que importa 
é antes de mais nada a eficácia, a capacidade de convencimento, da­
do um objetivo determinado. A fala é um instrumento legítimo de 
poder, a fala é poder, a despeito de seu rigor argumentativo ou de 
seu compromisso com a verdade. Conseqüentemente, a princípio, 
cabem tantos discursos quantos conseguirem se fazer presentes no 
espaço püblico. O que determina o tamanho deste espaço é, funda­
mentalmente, o jogo de forças entre atores políticos, atores estes que 
se definem por sua capacidade de se fazer ouvidos. Nada indica de 
antemão se teremos uma ou mais falas. Este número, como também o 
tamanho e a qualidade do espaço reservado ao discurso, resultam do 
poder e da habilidade dos diferentes atores políticos.
Este modelo como os demais pode ser ilustradopor uma série 
de autores. Julgamos, contudo, que Maquiavel, por ter inaugurado 
este tipo de orientação, traduz seus princípios fundamentais com 
mestria.
Referindo-se à palavra, sustentava o pensador renascentista 
que esta era uma das formas de se obter o domínio; a outra era a for- 
ça. A primeira seria típica dos homens, enquanto a segunda, dos 
animais. Como, por vezes, era preciso recorrer à segunda, todos 
aqueles que desejassem o poder deveriam saber agir simultanea­
mente como homens e como animais. Entretanto, mesmo a natureza 
animal não eqüivalia apenas à força bruta, já que esta deveria se 
desdobrar nas qualidades do leão e da raposa. A astúcia, típica da 
raposa, indispensável em qualquer projeto de domínio, redefine, por 
sua vez, a dicotomia aparentemente simples entre o homem e o ani­
mal. Não se trata da força contrapondo-se à qualidade dos homens, 
mas de uma força astuciosa, na qual a palavra é um ingrediente in­
dispensável. Assim, dirá: “quem se contenta de ser leão demonstra 
não conhecer o assunto”5. Daí deduzir que as regras que régem o 
mundo da política possuem uma especificidade. Elas não são a re­
produção dos valores que norteiam a vida privada. Sustentará:
5. Nicolau Maquiavel. O Príncipe, cap. XVIII. Esta referência e as seguintes 
baseiam-se ha edição publicada pela Editora Vecchi, 1965.
m Maria íereza Aiiut SiuM
Todos compreendem como é digno de encômios um príncipe 
quando cumpre a sua palavra e vive com integridade e não com 
astúcia. No entanto, a experiência de nossos dias mostra have­
rem realizado grandes coisas os príncipes que, pouco caso fa­
zendo da palavra dada c sabendo com astúcia iludir os homens, 
acabaram triunfando dos que tinham por norma de proceder 
a lealdade.6
Nem sempre é, pois. possível manter-se fiel à palavra dada. A 
eficácia do discurso está em sua capacidade de persuasão, não em 
sua possível verdade ou retidão argumentativa. Integra, portanto, a 
qualidade do discurso a busca do convencimento. Para isso, valem, 
mais do que tudo, as aparências. Não £ necessário a um príncipe ter 
todas as qualidades valorizadas em uma sociedade específica. “Mas 
£ indispensável", enfatizará Maquiavel, “que pareça tê-las". A dis­
tância entre o ser e o parecer ser está no imago da atividade política. 
Ou, em outras palavras, para retomarmos o inicio deste texto, as ver­
sões são o fato e o fato só existe por meio das versões.
2. Bnãfc o legado autoritário
A rejeição de uma ordem pluralista, a desconfiança nas insti­
tuições polfòcas, criticas cenadas aos políticos são traços muito co­
nhecidos da cultura política brasileira. Tentar somar afirmações 
desta natureza £ uma tarefa fácil e ao mesmo tempo infindável. 
Basta debruçar-se sobre os jornais, ouvir comentários no rádio ou na 
televisão, interessar-se por pesquisas de opinião que imediatamente 
saltará à observação o quanto estes valores se repetem. Quer com 
argumentos mais sofisticados, quer com frases que só fazem repetir 
velhos chavões tem sido muito preponderante um tipo de orientação 
que poderia ser classificada, pata ufiEzarmos da tipologia anterior­
mente exposta, como £tico-normarivo.
6. Idem.
Discurso político: notas para um debate 89
Chama, pois, a atenção, antes de mais nada, a persistência de 
um discurso ético-normativo apesar das extraordinárias mudanças 
experimentadas pela sociedade brasileira nos últimos decênios, bem 
como as sucessivas mudanças institucionais. Como se sabe, muitas 
das análises sobie a ideologia política dos anos 20 e 30 encontram 
justificativas para seu caráter normativo, ãintf-líBeral, nas condições 
políticas e sócio-econômicas entãoprevalecentes. Ou seja, tal como 
os ideólogos do Estado Autoritário, procura-se nas estruturas eco­
nômica, social e política os determinantes de uma proposta de reor­
ganização do estado e da sociedade que exchii por inteiro a idéia de 
um “mercado político”. Admitindo-se a plausibilidade de tal inter- 
pretação, restaria sempre indagar não apenas por que não se deu 
idêntica primazia em sociedades que experimentaram iguais proble­
mas, mas também - e por que, principalmente - uma vez alteradas 
aquelas condições, o discurso político continua muito parecido, 
apoiado em iguais balizas.
É inegável que hoje estamos muito distantes do Brasil dos anos 
20 e 30. Bastaria confrontar os dados referentes ao tamanho da po­
pulação à distribuição da população economicamente ativa, o grau 
de urbanização, o tamanho e proporção do eleitorado. De fato, o 
Brasil de nossos dias guarda pouca semelhança com aquele de 70 
anos atrás. A mudança é quantitativa e qualitativa. A sociedade bra­
sileira é muito mais urbana, mais complexa e muito mais diversifica­
da. Do ponto de vista das instituições políticas, sucederam-se vários 
arranjosjnstitucionais desde o período pré-Estado Novo até a situa­
ção presente, de consolidação democrática. Se estas alterações se 
apresentam como indiscutíveis, o mesmo não acontece no que se re­
fere ao discurso político. Este demonstra tantas similaridades com o 
desenvolvido no passado que nos obriga a desconfiar tanto das in­
terpretações que deduzem a ideologia da infra-estrutura como dos 
mais otimistas, que acreditam estar definitivamente exorcizado o 
fantasma dos períodos não-democráticos.
Uma releitura dos ideólogos dos anos 30 tem, pois, um sabor 
que não se limita àquele momento histórico. Desvenda também os 
fundamentos, de uma concepção que reheradamente se manifesta no
90 Maria 1'ereza Aina Sadek
discurso político atual. Assim, apesar das apreciáveis diferenças en­
tre os principais autores, há que se destacar um núcleo comum, de 
crítica à política, aos políticos, às instituições que sediam o conflito. 
Algumas poucas citações podem ser coligadas para fundamentar as 
concepções imperantes nas primeiras décadas deste século. Vamos 
a elas:
No que se refere à política, há uma clara distinção entre o que 
se considera a “verdadeira” política e a prática resultante do con­
flito entre grupos. A primeira deveria ser procurada, almejada, en­
quanto a segunda, abominada, eliminada. A política superior teria 
que se opor à politicalha, às intrigas, às mentiras, ao demagogismo, 
ao caudilhismo. Conseqüentemente, a política não deveria ser uma 
atividade resultante do jogo das forças sociais, mas fruto de uma 
consciência da realidade, com soluções “apropriadas”, objetivas, 
científicas e, portãntõTuidépendentes de preferências individuais ou 
partidárias. Dirá Francisco Campos:
Para as decisões políticas, uma sala de parlamento tem hoje a 
mesma importância que uma sala de museu (...) O regime polí­
tico das massas é o da ditadura. Não há hoje um povo que não 
clame por um César (...) As transformações não se operam pela 
ação da mentalidade primitivadas multidões e dos seus líderes, 
mas pela influência das ciências e das artes, filósofos, pesqui­
sadores, cientistas, engenheiros,_artistas. (...) Deve-se impor 
silêncio à querela dos partidos, empenhados em quebrar a uni­
dade do Estado e, por conseguinte, a unidade do povo e da 
Nação.^
A abolição de qualquer princípio que defendesse o primado do 
interesse do indivíduo sobre o da tutela social bem como a redução 
da política a uma atividade técnico-administrativa são igualmente 
advogadas por Azevedo Amaral e Oliveira Vianna. Sustenta Azevedo 
Amaral: ,
7. Francisco Campos. O Estado Nacional. Rio de Janeiro, Livraria José 
Olympio Ed„ 1940, pp. 27 e 172.
Discurso político: notas para um debate 91
No curso que teremos de seguir para aumerftar a eficiência do 
Estado, como instrumento solucionador dos problemas con­
cretos que nos defrontam em vários ramos da atividade admi­
nistrativa, teremos de reforçar ainda certos aspectos da autori­
dade executiva e sobretudo de preparar os meios de afastar a 
influência perturbadora de agitações políticas.**
E assinala na mesmadireção também Oliveira Vianna:
Os parlamentos deixam ver cada vez mais a sua inutilidade, a 
sua imprestabilidade como órgãos auxiliares do Governo polí­
tico das sociedades. (...) Os parlamentos vão sendo insensi­
velmente postos de lado e não sei se seria exagerado dizer que 
se estão tom ando progressivamente um aparelho intítil e dis­
pendioso.^
Da mesma forma, os partidos são criticados ao longo de toda a 
sua obra. Identificados como “simples agregados de clãs, organiza­
dos para a exploração em comum das vantagens do Poder”.10
Este discurso coloca fora das fronteiras da arena política as 
lutas ideológicas e as disputas pelo poder. Em conseqüência, os par­
tidos são vistos como desnecessários, um mal a ser extirpado. Os 
discursos não poderiam apresentar um destino diferente: são suma­
riamente desqualificados como expressão de interesses particularis- 
tas enviesados. Trata-se, em resuno, de uma visão contrária à políti­
ca, uma concepção anti-política da atividade política. A política 
considerada “verdadeira” será uma resultante da análise objetiva da 
realidade, daí identificar-se e esgotar-se na técnica.
Não comporá, assim, o reino das cogitações políticas a exigên­
cia de se buscar compatibilizar interesses ou projetos distintos. O 
confronto de posições contrárias e a disputa pela hegemonia entre
8. Azevedo Amaral. Ensaios Brasileiros. Rio de Janeiro, Omega e Barreto, 
1930; p. 224.
9. Oliveira Vianna. O Idealismo da Constiuição. 2- edição, Companhia 
Editora Nacional, São Paulo, 1939; pp. 105-6.
10. Oliveira Vianna. O caso do Império. 1! edição, Compaiti ia Melhora­
mentos de São Paulo, São Paulo, 1925; p. 24.
92 Maria Tereza Aina Sadek
segmentos sociais diversos serão questões estranhas, entendidas co­
mo sinônimo da má política, da política vulgar, de politicagem, de 
vírus que deve ser combatido.
As semelhanças destes argumentos com os hoje divulgados pa­
recem inegáveis. O descrédito na classe política, o desprestígio do 
parlamento, a crença na necessidade de césares povoam as falas do 
cotidiano. São, entretanto, suficientemente conhecidos os resultados 
da implementação de projetos políticos sustentados em orientações 
como a descrita acima. Sabe-se, também, as potencialidades arregi- 
mentadoras de tal discurso em épocas de crise. A história está re­
pleta de exemplos. Talvez saiba-se menos sobre as conseqüências de 
tal discurso em períodos de consolidação democrática. A preocupa­
ção com o fortalecimento da democracia no país, certamente, não 
pode deixar de levar em consideração os fortes constrangimentos 
advindos de uma cultura política tão eivada de valores normativos.
NOVAS FORMAS DO DEBATE DEMOCRÁTICO
BOLÍVAR LAMOUNIER 
IDESP — Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de SP.
A análise do pensamento político brasileiro é hoje uma área em 
expansão dentro do quadro geral das ciências sociais. Há vinte ou 
trinta anos a literatura sobre esse tema era escassa; pior, muitos du­
vidavam da utilidade e até da legitimidade dessa atividade. Ao ver 
desses, essa área de estudos careceria de objeto, visto que o Brasil 
não tinha pensamento político digno do nome - tudo o que aqui se 
produzisse seria necessariamente insubsistente e imitativo (“tudo é 
colonial na colônia”). Hoje, parece-me desnecessário voltar a essa 
discussão. Podemos (e devemos) discutir interpretações, abordagens, 
métodos, mas a validade do empreendimento parece fora de dúvida. 
Neste sentido, o que ofereço neste artigo não é uma visão global da 
área - menos ainda um estudo de textos ou autores específicos - , e 
sim alguns apontamentos sobre o que me parece ser o tema crucial 
desta nova fase: a consolidação e a reorganização institucional da 
democracia em nosso país.
Um dos impulsos mais fortes à revalorização do pensamento 
político brasileiro veio do estudo do “ciclo autoritário”, isto é, da­
quele grupo de pensadores que se constitui pela análise crítica da 
primeira Constituição republicana, passa pela Revolução de 1930 e 
chega à justificação ideológica do Estado Novo: digamos, de 
Alberto Tones, passando por Oliveira Vianna até Azevedo Amaral e 
Francisco Campos. Foi em tomo desse grupo que se desenvolveu o 
principal veio energético, geralmente contrastando o seu (alegado) 
“realismo” ao “formalismo” dos liberais ou de outros que even­
tualmente tivessem visão distinta acerca da organização política de­
sejável para o país. Penso que hoje, sob condições internas e inter-
94 B o lív a r Lam oun ier
nacionais tão diferentes, outros ângulos de interpretação e debate 
podem ser suscitados. Duas décadas sob regime militar levaram a 
maioria dos intelectuais brasileiros a uma visão mais positiva a res­
peito da necessidade e das chances da democracia. O colapso do 
chamado “socialismo real” e o conseqüente abalo do marxismo co­
mo teoria, a fragilidade teórica do economicismo latino-americano, 
que há tempos se evidenciava, e o próprio avanço da Ciência Políti­
ca nos últimos trinta anos recolocaram em pauta os chamados “for­
malismos” da democracia, com toda a sua riqueza analítica. Parece 
pois proveitoso examinar em que medida e de que a maneira a de­
mocracia foi tematizada pelos pensadores brasileiros no passado, e 
como o está sendo hoje.
I. Recapitulação: Três Grandes Fases
Com a inevitável simplificação, penso que três grandes fases 
podem ser distinguidas no desenvolvimento do pensamento político 
brasileiro neste século. A primeira seria a fase da construção do 
Estado (coextensiva ao “ciclo autoritário”): aquela que vai da Pri­
meira Guerra Mundial, começando com a obra de Alberto Tones, 
até o final do Estado Novo (1937-1945). Nesse primeiropêríòdo, o 
foco da discussão é a viabilidade do país como Estado Nacional. O 
principal objetivo prático é o fortalecimento do governo central, pa­
ra evitar a desagregação que se supunha" que poderia ocorrer sob a 
Constituição de 1891. Todo o ciclo da crítica ao liberalismo da Pri­
meira República - o que em outro texto chamei de “formação de um 
pensamento autoritário” - pode ser visto como resposta a esta ques­
tão básica1. Na segunda fase, que começa com o fim da Segunda
1. Ver meu texto “Formação de um Pensamento Autoritário na Primeira Re­
pública: Uma Interpretação”. In: Boris Fausto, organizador, História Ge­
ral da Civilização Brasileira - O Período Republicano, Tomo 3, vol. 2 
(São Paulo: Difel, 1974). Vale a pena lembrar que A Organização Nacio­
nal, de Alberto Torres (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933),
Novas formas do debate democrático 95
Guerra Mundial, o foco se desloca decisivamente para a questão da 
industnalizqção, vista como requisito ou conseqüência do anseio da 
autonomia nacional. O tema fundamental, nesse período, é a mu­
dança estrutural da economia e da sociedade. O que se discute é co­
mo transformar aquele impulso de industrialização - que inicial­
mente fora reflexo - , em um projeto deliberado e consistente de 
crescimento econômico, as relações desse projeto com a mudança 
social em geral, e suas relações de retroalimentação com a formação 
de uma identidade nacional mais “autêntica”. A referência obrigató­
ria aqui é ao 1SEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e a 
autores como Celso Furtado, Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos. 
Embora relevantes, as diferenças então existentes no espectro ideo­
lógico não invalidam a caracterização que hoje fazemos do foco - 
ou, como diria Mannheim, da “intenção” básica - do pensamento 
daquele período. Podemos admitir, por exemplo, que a esquerda não 
concebesse a industrialização como um fim em si mesmo, mas como 
a condição necessária a uma transformação revolucionária da socie­
dade, ou simetricamente, que a industrialização fosse vista de manei­
ra ambígua e aceita com restrições por boa parte da direita, preocu­
pada com seu impacto na estrutura global depoder ou temerosa de 
suas conseqüências sociais disruptivas. O ponto que desejo frisar, 
porém, é que a industrialização passou à condição de conceito-cha- 
ve, ou de elemento estruturador do campo discursivo; foi ela o ân­
gulo sob o qual as questões foram colocadas e discutidas, o ponto de 
convergência na pluralidade das formulações e elaborações ideoló­
gicas da segunda fase.
Somente mais tarde, uma década após a implantação do regime 
militar de 1964, é que começamos de fato a identificar uma terceira 
fase, agora centrada na questão democrática: não somente no pro­
cesso imediato de redemocratização, mas também nas raízes históri-
apareceu pela primeira vez em 1914; e que Instituições Políticas Brasilei­
ras, de Oliveira Vianna (Rio de Janeiro: José Olympio, 1951) é edição 
póstuma e de fato reelaboração de numerosos escritos produzidos ao longo 
de todo esse período.
Bolívar Lamounier
cas distantes do autoritarismo e da democracia, no caráter democrá­
tico ou não da cultura política e, progressivamente, como veremos 
adiante, nas formas institucionais mais apropriadas à consolidação 
da democracia no país.
A afirmação de que a questão democrática (assim como a 
questão redistributiva) não foi dominante no pensamento brasileiro 
até pelo menos os anos 60 ou 70 é menos contundente do que pa­
rece à primeira vista. Vale a pena recordar que, mesmo na Ciên­
cia Política"do' Primeiro Mundo, trabalhava-se nos anos 70 com a 
idéia de uma pluralidade de vias para o pleno desenvolvimento po­
lítico, e não especificamente com a questão democrática. Foram os 
numersos golpes militares e a posterior preocupação com a redemo- 
cratização e a consolidação das novas democracias que levaram à 
modificação daquela ótica. No Brasil, onde a Ciência Política aca­
dêmica apenas engatinhava, a ênfase do debate público recaía muito 
mais sobre a construção do Estado e a transformação estrutural da 
sociedade (por meio da industrialização) que propriamente sobre a 
construção da democarcia. Nos anos 50 e 60, até o golpe militar 
de_1964, o tema dos “obstáculos” políticos ao crescimento econô- 
mico preponderaya sobre o da consolidação e da boa ordenação de 
um sistema político democrático, entendjdo este como valor inde­
pendente. Eventuais referências à questão democrática permaneciam 
como subtemas ou variações sobre o tema maior ou estavam confi­
nadas ao âmbito interno de certas instituições como o legislativo ou 
as faculdades de Direito, não encontrando ressonância generalizada 
em todo o espectro ideológico. Não quero subestimar aqui a contri­
buição prestada à reflexão democrática por figuras maiúsculas como 
Assis Brasil, Sérgio Buarque de Holanda e Victor Nunes Leal, 
aos quais farei referência adiante. Tampouco subestimo a importân­
cia prática da longa tradição eleitoral do país (interrompida por 
completo somente durante o Estado Novo, 1937-1945) e dos deba­
tes sobre questões institucionais, como a dos sistemas eleitoral e 
de governo, que vêm ocorrendo continuamente desde o Império. 
Mas a convergência dessas práticas e debates com uma valoriza­
ção generalizada da questão democrática é um fato recente. Até
Novas formas do debate democrático 97
meados dos anos 70, os focos analíticos principais haviam sido a 
construção do Estado e a transformação estrutural pela industrializa­
ção. A democracia - e de certa forma a própria questão redistributi- 
va não se localizavam no eixo conceituai dominante.2
II. Mudanças na Tematização da Democracia
Para bem recuperar o pensamento liberal-democrático anterior 
a J_964, ou mesmo ao Estado Novo, e para melhor discenir seus di­
lemas atuais, era preliminarmente necessário dissolver a catalogação 
simplória daquele pensamento como simples “formalismo jurisdi- 
cista” ; mais que isso, era necessário reelaborar e dar o devido vigor 
à própria idéia do “formal” , para que o processo de representação e 
o estudo das instituições que o regulam surgissem com a força que 
lhes corresponde dentro da teoria democrática. De fato, o desenvol­
vimento histórico da democracia, entendida aqui como sistema polí­
tico e não apenas como corrente de idéias, tem como cerne a pro­
gressiva diferenciação e autonomização de úm subsistema repre- 
sentativo, isto é, de um conjunto de procedimentos eleitorais, parla­
mentares e partidários que regulam a investidura de pessoas privadas
2. Vistas as coisas pelo ângulo da historiografia - ou seja, da pesquisa, da 
análise e da interpretação - , é claro que não existe a mesma nitidez de fa­
ses. O que existe é um elenco de temas que vão e vêm e são abordados de 
diferentes maneiras pelos pesquisadores: releituras, que se explicam em 
parte pelo desenvolvimento imanente da pesquisa, mas que em parte são 
também respostas à agenda política de cada momento. O pensamento polí­
tico do passado reaparece em ondas, reapropriado a cada momento segun­
do os questionamentos que sucessivas conjunturas apresentam aos pesqui­
sadores. Sobre a historiografia das duas primeiras fases, veja-se além do 
meu texto da nota anterior, Guerreiro Ramos, “Esforços de Teorização da 
Realidade Brasileira, Politicamente Orientados, de 1870 aos Nossos Dias” 
(São Paulo: Primeiro Congresso Brasileiro de Sociologia, 1955) e 
Wanderley Guilherme dos Saihos, Ordem Burguesa e Liberalismo Político 
(São Paulo: Duas Cidades, 1978).
9<S Bolívar Lamounier
em posições de autoridade pública3. A autonomia dessa órbita ob­
viamente nunca será absoluta - ela deve corresponder a (representar) 
interesses e anseios sociais, e deve ser razoavelmente legitimada 
pela cultura política - , mas sua institucionalização é a questão-chave 
na evolução da democracia moderna. Não por acaso, foi em tomo 
dela que gravitou grande parte da reflexão política brasileira, mesmo 
no século passado e na primeira metade deste, quando o foco era a 
construção do Estado. O otimismo ou pessimismo sobre o futuro 
democrático dos diferentes autores se exprimiu quase sempre sob 
esta forma: em que medida a polis poderia de fato destacar-se do oi- 
kos, contrapoíse a este e eventualmente subordiná-lo como princi­
pal referência normativa no comportamento político. Foi nestes ter­
mos (o “complexo de Antígona” ) que Sérgio Buarque de Holanda 
sintetizou a tese central de Raízes do Brasil, em 1936:
a idéia de uma entidade imaterial e impessoal pairando sobre
os indivíduos e presidindo os seus destinos é dificilmente ima­
ginável para os povos da América Latina (6- edição; p. 138).
Com mais de 50 anos de retrospecto, não é difícil ver que 
Sérgio Buarque era mais consistente e sutil em seu culturalismo que 
Oliveira Vianna, mas menos perceptivo no que se refere às então 
nascentes formas institucionais que Victor Nunes Leal. Oliveira 
Vianna despejava toneladas de sarcasmo sobre o “formalismo” dos 
liberais, tentando demonstrar que os “complexos culturais” funda­
dos no latifúndio constituíam uma barreira intransponível à efetiva 
constituição de um ordenamento institucional democrático, mas su­
cumbia ao mesmo viés formalisía ao supor que a centralização dita-
3. Ver B. Lamounier, “Representação Política: a Importância de Certos 
Formalismos”. In: B. Lamounier, F. Weffort e Maria Vitória Benevides, 
organizadores, Direito, Cidadania e Participação (São Paulo: T.A. Quei­
roz, 1981). Nos últimos anos, mesmo teóricos de formação marxista pas­
saram a dar a devida ênfase aos formalismos da representação como con­
dição da “incerteza” necessária ao processo democrático. Veja-se, por 
exemplo, Adam Przeworski, Democracy and the Market (New York: 
Cambridge and New York: University Press, 1991).
Novas formas do debate democrático 99
tonal do poder tomaria o Estado imune aos partícularismos, ao ne­
potismo e aos demais “vícios” decorrentes de nossa formação sócio- 
cultural. Sérgio Buarque, mais consistente, considerava que nossas 
“raízes” histórico-culturaislimitavam a eficácia normativa, de qual­
quer ordenamento institucional, democrático ou não. A democracia 
representativa era anêmica, mas a utopia autoritária seria igualmente 
corroída por dentro, degenerando em caudilhismo ou alguma outra 
forma de autocracia. Opondo-se aos movimentos de extrema-esquer- 
da e de extrema-direita, cético quanto às possibilidades imediatas de 
quaisquer forças democrático-liberais, Sérgio Buarque parece haver 
percebido com razoável antecedência que o desfecho daquela con­
juntura - a primeira metade dos anos 30 - poderia ser algo como o
Estado Novo getulista. Longe de abraçar qualquer dessas altemati- • . 
vas, optou pela dessecação analítica da estrutura social a elas subja­
cente, insistindo sempre nas mudanças, particularmente na crescente 
importância das cidades, que iriam a médio prazo forçar uma rees­
truturação da vida social e política brasileira4.
Um fato notável, nem sempre frisado nas análises disponíveis, 
é que a reflexão de Sérgio Buarque foi escrita justamente no mo­
mento em que o país realizava uma ambiciosa reforma institucional, 
com o Código Eleitoral de 1932 e em seguida com a Constituição de 
1934. Como Sérgio Buarque, tampouco Victor Nunes Leal era um 
liberal do tipo voluntarista e jurisdicista. Mas foi Victor Nunes, cer­
ca de 15 anos depois, quem formulou com maior precisão analítica a 
questão subjacente ao trabalho de Sérgio Buarque, e a questão era 
basicamente esta: seriam melhores as chances da reforma eleitoral de 
1932, em comparação com as diversas reformas do Império e da 
Primeira República? Iríamos dessa vez conter a fraude, liquidar o
4. Ver J.F. Assis Brasil, Democracia Representativa: Do Voto e do Modo de 
Votar (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1931); Sérgio Buarque de 
Holanda, Raízes do Brasil (TCio de Janeiro: José Olympio, 1936; 6? ed., 
1971); B. Lamounier, “Raízes do Brasil: Quatro Décadas de um Clássico”, 
Senhor Vogue, n. 1, Abril de 1978; Victor Nunes Leal, Coronelismo, En- 
xata e Voto (São Pauto: Alfa-Ômega, 1986,55 ed.; primeira edição da Re­
vista Forense, 1949).
vício do “govemismo” e proporcionar condições de maior envolvi­
mento e independência aos eleitores? Em que medida e sob que con­
dições poderiam os “formalismos” da democracia representativa ga­
nhar eficácia frente às resistências do latifúndio e dos “complexos 
culturais” a ele ligados? Ao mesmo tempo que frisava o enorme po­
der estratificador da grande propriedade rural na sociedade brasilei­
ra, VictorNunes procurou circunscrever cuidadosamente o problema 
do coronelismo, evitando a visão demonológica tão comum na es­
querda e mesmo em certa direita protofascista. De fato a visão de­
monológica é descartada na primeira sentença do livro:
O fenômeno de imediata observação para quem procure conhe­
cer a vida polftica do interior do Brasil é o malsinado corone­
lismo. Não é um fenômeno simples, pois envolve um complexo 
de características da polftica m unicipal....^
Outro aspecto que chama a atenção em Coronelismo, Enxada e 
Voto é a plena explicitação de um modelo dinâmico de análise ape­
nas sugerido em Raízes do Brasil. Fugindo àquele essencialismo 
culturalista tão comum na época - e não totalmente ausente em Sérgio 
Büãrque - , Victor Nunes trata de sopesar dois grandes grupos de va­
riáveis, como se fossem os pratos de uma balança: num deles está 
a inércia cultural, a estratificação legada pela sociedade escravista, a 
coagulação do poder ao redor da propriedade rural; no outro, o cres­
cimento da população urbanizada e mesmo os efeitos auto-sedimen- 
tadores do ordenamento normativo, com a progressiva regularidade 
das lutas eleitorais. O primeirp capítulo fala da forte concentração 
da estrutura agrária e delineia com precisão os pontos através dos 
quais!) poder social dela decorrente se intromete no sistema repre­
sentativo, substituindo-se ao poder público. O resultado daquela 
simbiose perversa, diz Victor Nunes, é o debilitamento dos govemos 
municipais, em proveito dos estaduais, grandes promotores do “go-
100 Bolívar Larnounier
5. Ver Coronelismo, 5- ed., Alfa-Ômega; p. 19. Na ótica aqui esboçada, não 
passará despercebida a ambigüidade do adjetivo “malsinado” , que pode 
significar acusado com ou sem razão.
Novas formas do debate democrático 101
vemismo”. Lembremos também que o livro foi escrito em 1948, ba­
seando-se portanto em poucos anos de prática das regras eleitorais 
adotadas em 1932 e quando os índices de urbanização do país ainda 
eram baixíssimos. Apesar disso, sua avaliação não era pessimista. 
Ao contrário de Sérgio Buarque, que em 1936 ainda se mostrava cé­
tico quanto à autonomização do ordenamento representativo frente 
aos vínculos do “grupo primário”, Victor Nunes concluiu que, na 
dimensão eleitoral, o mecanismo representativo começava a decolar 
rumo a sua órbita própria. Não é possível negar - dizia ele na con­
clusão do livro “as perturbações que ultimanente vêm minando o 
sistema coronelista, as quais se tomaram mais visíveis a partir da 
execução do Código Eleitoral de 1932”. Insistia na tese de que o co- 
ronelismo, entendido como um sistema, expressava o poder privado 
em declínio, e não ascendente, dos grandes proprietários de terra; a 
decadência, não a pujança do latifúndio (ver Coronelismo, 5- ed.; 
pp. 253-8).
Esta recapitulação de dois clássicos - Sérgio Buarque e Victor 
Nunes - estabelece um pano de fundo, contra o qual podemos iden­
tificar alguns dos novos eixos do debate sobre a democracia no Brasil. 
O primeiro diz respeito à cultura política. Será ela ainda tão defe- 
rencial, estratificadora e autoritária como a que se depreende da­
quelas antigas descrições do “complexo cultural” fundado no lati­
fúndio? Em que medida e sob que aspectos se pode dizer que a cul­
tura política seja um obstáculo à consolidação da democracia no 
país? Naqueles primórdios, como vimos, a discussão resvalava fa­
cilmente para um culturalismo essencialista - os traços culturais 
eram vistos como virtualmente imutáveis e altamente determinantes, 
levando a um pessimismo exagerado. Em linha com a ciência social 
da época (lembremos que Sérgio Buarque foi o nosso primeiro gran­
de weberiano), atribuía-se um peso muito grande aos conteúdos 
culturais e considerava-se que, na América Latina, esses conteúdos 
bl ' ente o desenvolvimento da democracia repre­
se w ivitação da população em tomo da grande pro-
102 Bolívar lamounier
priedade rural, tendo em vista os baixos índices de urbanização e in­
dustrialização, reforçava ainda mais essa suposição de uma forte 
inércia cultural. Pois bem: hoje a ciência social já não é tão cultura- 
lista - os novos “racionalistas” da Ciência Política passaram ao 
extremo oposto - e aquelas condições estruturais já se acham subs­
tancialmente alteradas, mas o debate brasileiro sobre a democracia 
às vezes parece mais culturalista que nunca. Incontáveis artigos aca­
dêmicos e matérias jomalíticas estão trazendo de volta a noção de 
que os mecanismos democráticos serão sempre anêmicos, ou ,linau- 
tênticos”, ou “meramente formais”, enquanto os valores e compor­
tamentos sociais refletirem de perto a estratificação econômica e 
ocupacional. Parece haver no debate público uma constante suposi­
ção de que as relações interpessoais e sociais em geral reeditam in­
cessantemente um script cultural autoritário, uma eterna danse sur 
place, como se fossem totalmente determinadas por uma diferencia­
ção vertical imune à urbanização, às comunicações de massa e a ou­
tras mudanças comportamentais. Até o mega-clientelismo e a mega- 
corrupção das altíssimas esferas, são às vezes interpretados dentro 
do antigo paradigma aristotélico: o insufuciente predomínio da pólis 
sobre o oikos, das normas gerais sobre os vínculos de sangue. Mas 
não será mais razoável considerar que estamos agora diante de fe­
nômenos distintos, produzidos porcondições exatamente opostas 
àquelas da antiga sociedade rural: pelo hiper-hobbesianismo de um 
sistema político complexo e instável, ou pelo hiper-utilitarismo de 
uma sociedade forçada a conviver com o acirramento distributívo e 
com a inflação crônica? Parece evidente que a relação entre cultura 
política e democracia é um tema a ser reexaminado. O modelo la­
tente na obra de Sérgio Buarque e de Oliveira Vianna (não impor­
tando aqui as diferenças entre ambos) era persuasivo enquanto alu- 
dia a um' feixe de variáveis que se mantinha unido em virtude de 
certas características do contexto global. Na estrutura social de anti­
gamente, a desigualdade de renda e riqueza, o comportamento timo- 
rato das camadas pobres, as restrições jurídicas e a despolitização 
associavam-se estreitamente, formando um feixe compacto. Nas 
grandes concentrações urbanas de hoje, e cada vez mais no meio ru­
Novas formas do dehate democrático 103
ral, isso não acontece. A desigualdade.de rendas trabalha no sentido 
da manutenção daquela cultura política diferencial, mas a urbaniza­
ção e as comunicações de massa trabalham no sentido oposto.6
Outra questão , fundamental é a relação entre os sentidos insti­
tucional e substantivo do conceito de democracia. Na literatura in­
ternacional da Ciência Política, é hoje amplamente dominante o en­
tendimento de que a democracia é um arcabouço institucional para a 
luta política pacífica, não um modelo idealizado de sociedade, fun­
dado na igualdade sòcioeconômica substantiva. No Brasil, esta dis­
tinção não tem sido feita com o necessário rigor. A afirmação de que 
a democracia só é “autêntica” quando estreitamente associada a 
avanços no plano da igualdade (“voto não enche barriga”) continua 
a ser um ponto de encontro entre parcela da esquerda e uma velha 
direita autoritária e corporativa. É a tensão entre os conceitos insti­
tucional e substantivo da democracia, que existe e sempre existiu 
por toda parte, mas que se articula de maneira específica e com im­
pacto também diferenciado no pensamento de cada país. A constata­
ção inicial é óbvia: a tensão entre essas duas visões da democracia 
decorre do grau de pobreza e de desigualdade de rendas existentes 
no país, que agora se toma mais dramática em função da forte urba­
nização. Decorre também da coincidência no tempo entre a atual 
centralidade da democracia como conceito teórico e. os retrocessos 
econômicos e redistributivos que tiveram início nos anos 80. Deve- 
se ainda, em terceiro lugar, o fato de que a transição ao governo ci­
vil em 1985 e a convocação da Assembléia Constituintejsm 1986 
exacerbaram expectativas utópicas de assegurar “conquistas sociais” 
pela. jria. jurídica (responsável, em grande parte, pelo excessivo de- 
talhismo e pela sobrecarga retórica da Constituição de 1988).
Reconhecer as dificuldades associadas ao conceito substantivo 
de democracia e apontar os eqúivocos que periodicamente o revigo­
6. Ver B. Lamounier e Amaury de Souza, “Democracia c Rclorma Institu­
cional no Brasil: Uma Cultura Política em Mudança ’, Hcvixia Dados, 
v. 34/3, 1991.
104 Bolívar Ixtmounier
ram, não significa endossar em toda a linha a ótica “minimalista” 
que hoje predomina na Ciência Política norteamericana. O conceito 
analítico da democracia como um arcabouço político-institucional, a 
meu ver correto, não significa que o corpo de hipóteses históricas e 
empíricas que_explica a sua consolidação da democracia como sis- 
tema em casos concretos possa passar ao largo das desigualdades 
sociais e dos obstáculos culturais delas decorrentes. Como na divisa 
francesa, penso que a democracia consolidada é uma síntese de três 
fatores: a liberdade (um sistema jurídico-institucional capaz de asse­
gurar a competição polftica pacífica); a igualdade (a progressiva 
“desconcentração” da renda e das chances de vida em geral); e 
a fraternidade (uma cultura polftica que amorteça o entrechoque en­
tre j>s dois elementos anteriores).7
Igualmente relevante para o debate atual é a distinção entre re­
presentação e participação. Em seu clássico Poliarchy: Participation 
and Opposition, publicado em 1971 pela Yale University Press, 
Robert Dahl sugeriu que o desenvolvimento histórico da democracia 
representativa fosse visto como resultante de duas variáveis: de um 
lado, a crescente pacificação da luta entre facções de elite, de outro, 
a expansão da participação, entendida como inclusão das grandes 
massas ao processo eleitoral. Observe-se que enfrentamento pacífico 
entre facções de elite (por ele chamado de “contestação”) eqüivale 
ao que corriqueiramente designamos como consolidação do processo 
representativo: grupos diversos, em geral organizados como parti­
dos, adquirem nas umas o direito de representar os seus interesses e 
os de seus eleitores, em confronto com outros grupos igualmente in­
vestidos em posições de autoridade. Trata-se, portanto, da consoli­
dação do subsistema representativo dentro do sistema político glo­
bal. Mas a referência à participarão coloca certas dificuldades. Co­
7. Ver minhas “Variações sobre um Tema Francês”, capítulo primeiro de 
Depois da Transição: Democracia e Eleições no Governo Collor (São 
Paulo: Editora Loyola, 1991).
Novas formas do debate democrático 105
mo retrospecto histórico, é certamente correto que a ampliação do 
direito de voto — passagem do sufrágio censitário ao universal — foi 
uma dimensão relevante do desenvolvimento democrático, mas hoje 
a maioria dos países do mundo, inclusive dezenas cujas credenciais 
democráticas são duvidosas, reconhecem nominalmente a universali­
dade do sufrágio. Neste sentido, o critério de Dahl já não discrimina 
satisfatoriamente, servindo apenas como elemento interpretativo da 
história passada. Se entendermos a participação de maneira mais 
ampla, não apenas como direito, mas como prática efetiva do direito 
de voto, as dificuldades aumentam. A participação efetiva pode au­
mentar ou diminuir em diferentes países ou períodos, sob o influxo 
de diferentes fatores. Nos Estados Unidos, os níveis de compareci- 
mento eleitoral dos cidadãos aptos a votar são sabidamente mais 
baixos hoje que no século XIX. Se ampliarmos ainda mais o con­
ceito de participação, para abranger outras modalidades além da 
eleitoral, as dificuldades se multiplicam ainda mais. Nos anos 60, 
por exemplo, a participação parecia aumentar por toda parte, sob 
o impacto da guerra no Vietnã e de importantes mudanças com- 
portamentais. Maio de 1968 foi o momento canônico daquele pro­
cesso. Mas, na década seguinte, a reversão foi igualmente notável: 
um novo “conservadorismo” (ou nova apatia) tomou-se dominante 
até mesmo nos campi universitários do Primeiro Mundo. Devería­
mos, então dizer que os países onde ocorreu esse declínio se toma­
ram menos democráticos?
As dificuldades acima apontadas tomam-se ainda mais agudas 
quando se alega que o ideal democrático na verdade requer a passa­
gem à chamada “democracia direta” . Na recente transição brasileira, 
como se sabe, o “participacionismo” passou a ocupar um espaço 
significativo no debate democrático, a ponto de se inscrever com 
destaque no novo texto constitucional. Mas democrático, nesse sen­
tido, é o ordenamento institucional que oferece aos cidadãos amplas 
oportunidades de intervenção direta, por meio de mecanismos como 
o plebiscito e a iniciativa popular? Ou o país onde tais oportunida­
des são efetiva e regularmente utilizadas? Na primeira acepção, esta- 
ríamos vivendo na plena vigência dessa democracia ampliada, visto
106 Bolívar Lamounier
que a Constituição de 1988 legitima a participação direta já em seu 
primeiro artigo. A segunda acepção nos levaria a uma avaliação pes­
simista, mas seria justo considerar não-democrática a atual Consti­
tuição pelo fato de que, até o momento, aqueles mecanismos se re­
velaram inóculos? O fato é que a democraciadireta permance como 
um ideal utópico em toda sociedade de larga escala. Este é outro 
ponto onde a análise do discurso político do passado e a reflexão 
teófíca^sõbre a democracia podem ser combinados de maneira pro­
veitosa. Onde será mais “rentável” o investimento, do ponto de 
vista democrático: na realização do ideal participatório da democra­
cia direta, ou na busca de uma organização institucional mais ade­
quada, mantidos os parâmetros da democracia representativa? No
Brasil hoje, esta é uma questão pungente.
■------------------ t
III. Uma Nova Identidade Institucional?
Os debates ocorridos durante a Constituinte e a convocação de 
um plebiscito sobre o sistema de govemo realizado em 1993, trouxe­
ram de novo à tona a instável identidade institucional do país. Neste 
sentido, além da nova centraüdade da democracia e das variações 
em tomo deste conceito a que acima nos referimos, o debate atual 
tem também como horizonte a fixação de uma nova estrutura ou de 
um novo perfil institucional. Vale a pena explorar aqui, à guisa de 
conclusão, os parâmetros da estrutura estabelecida nos anos 30, que 
constituem o ponto de referência necessário desse debate.8
Meu argumento quanto a este ponto é que o modelo originário 
da Revolução de 1930 assumiu a forma de um tripé, cada uma das 
pontas do qual correspondia à solução dada a dilemas que haviam 
emergido em três distintos subsistemas ou esferas polfico-institucio-
8. Esta seção final reproduz alguns trechos de meu artigo “O Modelo Institu­
cional dos Anos Trinta e a Presente Crise BrasOeira” (São Paulo: Textos 
tdesp, 1992).
Novas formas do debate democrático 107
nais. Na esfera das relações capital/trabalho a opção foi pelo corpo­
rativismo, com a conseqüente rejeição do pluralismo sindicah~No 
subsistema representativo, vale dizer, na esfera dos procedimentos 
eleitorais e partidários e das relações federativas, a solução escolhi­
da foi de caráter consociativo (no sentido de Lijphart), isto é, um ar­
ranjo que se orienta mais para a proteção das minorias políticas que 
para a formação de maiorias compactas e/ou o exercício unilateral 
do poder por parte destas9. Na terceira ponta, o presidencialismo ou 
mais exatamente, a radicalização plebiscitária do modelo presiden­
cial de origem norteamericana à medida em que se consolidava a 
ditadura pessoal de Getúlio Vargas.
Especificar em que aspectos e em que grau o subsistema repre­
sentativo brasileiro se assemelha às chamadas democracias conso- 
ciativas européias tomaria demasiado extenso o presente artigo. 
Lembrarei apenas que o mecanismo consociativo não significa, no 
caso brasileiro, concessão de garantias ou equivalências em direitos 
a minorias, étnicas, lingüísticas ou religiòsasrdada a pouca projeção 
de_ cüvagens desseJipo na arena pública, mas sim a preferência por 
mecanismos l^pais arpntuadam^e fraementadores. e mesmo, indivi­
dualistas, em diferentes níveis da competição política. O resultado 
agregado de tais mecanismos é um sistema muito mais voltado para 
o bloqueio multilateral que para o exercício do poder pela maioria 
numérica resultante dos pleitos eleitorais.
Os governos militares pós-64 empenharam-se, como é sabido, 
em neutralizar a força fragmentadora desses tnyi»iÍ'!mnS impondo 
ao país um bipartidarismo artificial (Arena/MDB) e reduzindo a au­
tonomia política e financeira dos estados e municípios. Os equívocos 
e a intrínseca ilegitimidade dessa tentativa condenaram-na, porém, 
ao fracasso.
A construção de um arcabouço institucional consociativo teve 
início logo após a Revolução de 1930 e foi produto de uma política
9. Arend Lijphart, Democracies: Patterns o f Majoritarian and Consensus Go­
vernment in Twenty-One Countries (New Haven: Yale University Press, 
1984).
B o lív a r Lam ounier
deliberada. Destacavam-se entre os motivos para essa orientação, a 
crítica generalizada às práticas políticas da Primeira República, com 
a Virtual impossibilidade do exercício da oposição contra a oligar­
quia dirigente em cada estado e, especificamente, a ocorrência de 
duas guerras civis no Rio Grande do Sul. Assim, o Código Eleitoral 
de 1932 introduziu parcialmente a representação proporcional no 
país, associado ao voto secreto, à criação de um ramo do judiciário 
encarregado de organizar e gerir todo o processo eleitoral - do alis­
tamento dos eleitores à diplomação dos eleitos - e, logo em seguida, 
ao voto feminino. Após a Segunda Guerra Mundial, a representação 
proporcional foi consolidada com a introdução do sistema D’Hondt. 
No tocante ao esquema lederativo, existe hoje uma controvérsia 
acentuada a respeito da super-representação dos estados menos po­
pulosos e da subrepresentação de São Paulo na Câmara Federal. 
Vale a pena lembrar, entretanto, que esse dispositivo se consolidou 
juridicamente após a Revolução de 1930, como reação à situação 
anterior, na qual dois estados, São Paulo e Minas Gerais, pratica­
mente comandavam toda a federação. Tratava-se, portanto, de um 
reforço ao elemento consociativo já inerente ao conceito de federa­
ção. O problema, hoje, é que esse enfoque constitucional a respeito 
da federação entrou em conflito com o princípio democrático segun­
do o qual o voto de todos os cidadãos individuais deve ter o mesmo 
peso (“one person, one vote”). Acrescente-se ainda à lista de ele­
mentos consociativos a existência, desde 1945, de um sistema multi- 
partidário, com extrema facilidade, a partir de 1985, para a formação 
de partidos e a concessão quase automática aos mesmos, após o re­
gistro legal, de importantes recursos de poder, como o acesso anual 
a uma cadeia nacional de rádio e televisão. A única importante ex­
ceção à plena vigência do modelo consociativo, que era a proscrição 
dos partidos extremistas (na prática, os marxistas), foi finalmente 
eliminada em 1985, logo no início do regime civil.
Essa característica consociativa do sistema político brasileiro - 
e principalmente a sua origem nos anos 30, épçca ainda marcada- 
mente oligárquica - só agora começa a ser percebida e ressaltada 
pelos analistas. Dentro dos enfoques até há pouco predomimantes, o 
que se percebia era, na melhor das hipóteses, um discurso (no senti­
Novas formas do debate democrático 109
do fraco do termo) de “conciliação” , e esse discurso era sempre 
atendido como um traço cultural arcaico, sintoma de que a elite 
“ainda” não se livrara completamente de suas raizes oligárquicas e 
rurais. Mais que discurso, o que de fato ocorria era porém a constru­
ção de um ordenamento institucional - ordenamento esse que nada 
tinha de arcaico. Assistíamos a uma negociação político-institucional 
significativa (embrião de um possível elite settlement no sentido de 
Higley & Gunther) e não um “arreglo” excludente, segundo o co­
nhecido estereótipo da política brasileira e latinoamericana10. Ao 
mainstream da historiografia, brasileira e estrangeira, parece até 
hoje inconcebível que mecanismos consociàüv^s possaarexistir em 
um país latinoamericano {ergo, de cultura política autoritária), que 
passou por dois regimes ditatoriais no período que estamos conside­
rando, e no qual clivagens étnicas, religiosas ou lingüísticas de fato 
não têm a mesma relevância que nas democracias consociativas es­
tudadas por Lijphart. Mas o fato é que a evolução institucional, 
(com exceção da restrição aos partidos marxistas), foi muito mais 
consistentemente democrática do que se tem admitido, sendo pouco 
relevante, neste nível de análise, o discurso sobre o suposto autorita­
rismo das elites políticas.
Decorridas seis décadas da Revolução de 1930, podemos e de­
vemos questionar se não é excessiva a fragmentação política induzi- 
da por esse mecanismo consociativo; se, levado à presente exacerba­
ção, ele na verdade não dificulta a estabilidade e a efetividade deci- 
sória da democracia. Esta indagação é tanto maisrelevante quando 
se considera que a presidência plebiscitária não tem o potencial es­
tabilizador e unificador que a ela atribuíram incontáveis analistas, 
obviamente inspirados em Getúlio Vargas - ou, para sermos exatos, 
na fase ditatorial do getulismo. Num país fortemente urbanizado, so­
cialmente muito desigual e cronicamente inflacionário, o carisma 
presidencial se esvai com vertiginosa rapidez, vulnerando de manei­
10. John Higley & Richard Gunther, Elites and Democratic Consolidation in 
Latin America and Southern Europe (Cambridge and New York: Cam- 
bridge University Press, 1992).
110 Bolívar l.amounwr
ra decisiva o pressuposto principal do modelo presidencialista ple- 
biscitãnó. Do lado do legislativo, a fragmentação das forças políti­
cas não é simples “reflexo” da base social, mas também resultado 
dos incentivos embutidos no ordenamento institucional, que facilita 
a progressão rumo ao legislativo federal de grupos sem verdadeiro 
lastro representativo e dificulta a formação de maiorias parlamenta­
res estáveis. Nestas condições, a fragilidade do modelo erigido a 
partir dos anos 30 vem à tona com extrema nitidez. Frágil em suas 
variantes autoritárias (o Estado Novo e o golpe de 1964) por não 
poder estabilizar-se numa sociedade já tão complexa e aberta aos in­
fluxos internacionais, o sistema político mostra-se também frágil na 
moldura democrática. E aqui surge um tema crucial para o debate 
atual: se essa fragilidade se deve, como querem muitos analistas, 
somente aos “vícios” de nossa formação (a desigualdade social e o 
alegado imutável elitismo ou autoritarismo da sociedade brasileira), 
ou também a suas qualidades: a consistente evolução, ao longo dos 
últimos sessenta anos, no sentido da pluralidade consociativa. Pe­
rante Deus e o senso comum, é sempre mais confortável acreditar 
que o bem vai com o bem e o mal vai com o mal, em duas bandas 
bem distintas; mas, como dizia certo filósofo americano, “it airit 
always like that’'.
Convidados pelo Núcleo de Memória Política Brasileira 
(da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP), 
especialistas nas áreas de Lingüística e Ciência Política 
falam dos procedimentos metodológicos de análise do 
discurso e pesquisas que fizeram uso dessas metodologias. 
Os textos desta coletânea expressam a importância da 
análise do discurso feita de modo interdisciplinar, visando 
à compreensão do fenômeno social de maneira mais 
abrangente. Uma contribuição valiosa para a compreensão 
de momentos políticos específicos da sociedade brasileira.