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2007 - Caderno 2 1 LÍNGUA PORTUGUESA ORGANIZADORES Adriana Aloiza (drikatj@bol.com.br) Margareth Morais (magamorais@hotmail.com) Márcia Morais (marcialatim@hotmail.com) Natália Rocha (natalia_roliveira@yahoo.com.br) Sinézio Gomes (sineziogomesdasilva@yahoo.com.br) ORIENTADORES Filomena Varejão Professora Adjunta de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras – UFRJ (fi lomenavarejao@uol.com.br) Sumário • Paródia e Ironia • Morfologia: verbo, adjetivo e advérbio. • Para gostar de ler: “Uma vela para Dario”, Dalton Trevisan. As várias possibilidades de leitura de um texto Leiamos o texto abaixo, uma das fábulas de La Fontaine: Vamos mostrar que a razão do mais forte é sempre melhor. Um cordeiro matava a sede numa corrente da água pura, quando chega um lobo cuja fome o levava a buscar caça. – Que atrevimento é esse de sujar a água que estou bebendo? – diz enfurecido o lobo. – Você será castigado por essa temeridade. – Senhor _ responde o cordeiro –, que Vossa Majestade não se encolerize e leve em conta que estou bebendo vinte passos mais abaixo que o Senhor. Não posso, pois, sujar a água que está bebendo. _ Você a suja – diz o cruel animal. – Sei que você falou mal de mim no ano passado. _ Como eu poderia tê-lo feito, se não havia sequer nascido? – res- ponde o cordeiro. – Eu ainda mamo. – Se não foi você, foi sei irmão. Eu não tenho irmãos. – Então, foi alguém dos seus, porque todos vocês, inclusive pas- tores e cães, não me poupam. Disseram-me isso e, portanto, preciso vingar-me. Sem fazer nenhuma outra forma de julgamento, o lobo pegou o cordeiro, estraçalhou-o e devorou-o. (LA FONTAINE. Fables. Tours: Alfred Mame et Fils, 1918. v. 1, p. 10. In: FIORIN, 1997:125.) A primeira questão que pode ser discutida no momento em que se lê uma fábula é a seguinte: como sabemos que, apesar de a história tratar de bichos, se refere, na verdade, a gente e não a animais? Uma das possíveis respostas seria que nos ensinaram, na escola, que as fábulas contam histórias dos seres humanos representados por animais. Con- tudo, há de se perguntar: como é que os estudiosos chegaram a essa conclusão? Certamente, há, nos textos, uma reiteração de traços semân- ticos, isto é, de elementos que compõem o signifi cado das palavras, que obriga a ler o texto de uma dada maneira. Podemos perceber, por exemplo, nesta fábula, que são atribuídos aos animais – o lobo e o cordeiro – procedimentos próprios dos seres humanos (dizer, castigar, responder, encolerizar-se, falar mal, não poupar, vingar-se), qualidades e estados exclusivos dos homens (enfurecido, temeridade, ter irmãos), formas de tratamento utilizadas nas relações sociais estabeleci- das entre humanos (Senhor, Vossa Majestade, você). Essa repetição, essa recorrência, essa reiteração do traço semântico humano desencadeia um novo plano de leitura. Como afi rmam Platão e Fiorin, o primeiro plano de leitura é a história de animais, porém, à medida que elementos com traço humano se repetem, não se pode mais ler a fábula como uma história de bichos. Esses traços são responsáveis por desencadear outro plano de lei- tura: o de uma história de homens. Nesse novo plano, portanto, o lobo é o homem forte que oprime o mais fraco, representado pelo cordeiro. Isso nos mostra que a recorrência de traços semânticos é que es- tabelece que leituras devem ou podem ser feitas de um texto. Ou seja, uma leitura não pode ter origem no desejo do leitor de interpretar o texto de uma dada maneira, mas no que está realmente inscrito no texto como possibilidade. O texto pode até parecer um aglomerado sem sentido de frases a que o leitor atribui o signifi cado que bem entender. Entretanto, há leituras que não estão de acordo com o texto e, por isso, não podem ser feitas. É bom lembrar que um texto não pode admitir todas as inter- pretações, embora possa aceitar muitas delas. As leituras que não estão de acordo com os traços de signifi cados repetidos, recorrentes ao longo do texto não devem ser admitidas. Os textos que possibilitarem mais de uma leitura apresentarão fi guras com mais de uma interpretação, confor- me o plano de leitura em que forem analisadas. Vejamos um exemplo. A professora passou a lição de casa: fazer uma redação com o tema “Mãe só tem uma”. No dia seguinte, cada aluno leu sua redação. To- dos dizendo mais ou menos as mesmas coisas: a mãe nos amamenta, é carinhosa conosco, é a rosa mais linda do nosso jardim etc. etc. etc. Portanto, mãe só tem uma. Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu2 Aí chegou a vez de Juquinha ler sua redação: “Domingo foi visita lá em casa. As visitas fi caram na sala. Elas fi caram com sede e minha mãe pediu para mim ir buscar coca-cola na cozinha. Eu abri a geladeira e só tinha uma coca-cola. Aí eu gritei para minha mãe: «Mãe, só tem uma!»”. (Apud ABAURRE, Maria Bernadet Marques et POSSENTI, Sírio. Vestibular Unicamp; língua portuguesa. São Paulo: Globo, 1993. p. 91. In: FIORIN, 1997: p. 125-129.) Um texto pode ter várias leituras, bem como pode jogar com lei- turas distintas para criar efeitos humorísticos. É o que acontece neste texto da Unicamp. Ele contém marcas de possibilidade de mais de um plano de signifi cação. Essas marcas estão, justamente, na frase “Mãe só tem uma”, possibilitadora de um novo plano de signifi cado no contexto vivido por Juquinha – o menino emprega o tema proposto pela profes- sora em uma situação totalmente inesperada. Esse disparate acaba por produzir um efeito cômico, mostrando as múltiplas facetas da semântica. Todavia, é preciso lembrar que não podemos conferir ao texto o signifi - cado que bem queremos. O leitor cauteloso abandona interpretações que não estejam apoiadas no texto e em suas recorrências. (Texto adaptado de FIORIN, 1997: 125-129.) Vejamos agora um recurso lingüístico muito interessante, a paródia. PARÓDIA. é imitação cômica ou sarcástica de certo texto, isto é, uma reescrita distorcida, que tem como objetivo desviar-se da leitura original – não totalmente, mas o sufi ciente para transgredi- la, produzindo, com isso, efeitos diversos, entre eles, o humor. O que proporciona uma interessante intertextualidade entre os dois textos, visto que dialogam entre si. É o que acontece com a música a seguir. Bem, vamos, então, aproveitar o maior evento do plane- ta: imagine-se, agora, como um publicitário que precisa criar uma propaganda sobre uma bola de futebol. Para isto, faça uma paródia. Você pode criar cenas, textos, músicas e etc; de acordo com sua criatividade. Exercícios propostos 1. “Num posto da IPIRANGA, às margens plácidas, De um VOLVO heróico BRAHMA retumbante SKOL da liberdade em RIDER fúlgido Brilhou no SHELL da Pátria nesse instante. Se o KNORR dessa igualdade Conseguimos conquistar com braço FORD Em teu SEIKO, ó liberdade Desafi o nosso peito à MICROSOFT O PARMALAT, MASTER CARD, Salve a SHARP AMIL um sonho intenso, um rádio PHILIPS De amor e LUFTANSA a TERRA desce INTEL formoso céu risonho OLYMPICUS A imagem do BRADESCO resplandece GILLETTE pela própria natureza És belo FORD impávido colosso E o teu futuro espelha essa GRENDENE CERPA gelada Entre outras mil é SUVENIL, COMPAQ amada. Do PHILCO deste Solo és mãe DORIL, COCA-COLA, BOM BRIL. (Autor Desconhecido) a. O autor do texto brinca com a linguagem, usando uma música muito conhecida por todos os brasileiros e inserindo, nela, marcas de pro- dutos também bastante conhecidos por nós. A que música o texto faz referência? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ b. Por que foi possível produzir um efeito cômico nesse texto? E se nós não conhecêssemos o texto original a que se faz referência? Explique. _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ c. As palavras “novas” empregadas pelo criativo autor só puderam ser utilizadas devido a semelhanças profundas entre elas e o texto original, que se dão nos níveis fonético e morfológico. Aponte, pelo menos, uma semelhança e dê exemplos. _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ d. Procure uma música bem conhecida e tente fazer a mesma brincadei- ra, de modo que se extraia, dela, efeito cômico. _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ 2. As palavras abaixo mostram que há um jogo de signifi cações, criado, também, pela coincidência fonética dessas palavras em relação a expres- sões e frases, as quais nada têm a ver com o signifi cado denotativo dos vocábulos apresentados pelo autor. Isso provoca um efeito inesperado e cômico. Vejamos: 1. Abreviatura – ato de abrir um carro da polícia. 2. Açucareiro – revendedor de açúcar que vende acima da tabela. 3. Alopatia – dar um telefonema para tia. 4. Amador – o mesmo que masoquista. 5. Armarinho – vento proveniente do mar. 6. Aspirado – carta de baralho completamente maluca. 7. Assaltante – um “A” que assalta. 8. Barbicha – boteco para gays. 9. Barganhar – ganhar um botequim como herança. 10. Barracão – proíbe a entrada de caninos. 2007 - Caderno 2 3 11. Bimestre – mestre em duas artes marciais. 12. Biscoito – fazer sexo duas vezes. 13. Ministério – aparelho de som de dimensões muito reduzidas. 14. Novamente – diz-se de indivíduos que renovam sua maneira de pensar. 15. Pornográfi co – o mesmo que colocar no desenho. 16. Ratifi car – transformar em rato. 17. Sexólogo – sexo apressado. 18. Simpatia – concordância com a irmã da mãe. 19. Talento – anda devagar. 20. Típica – o que o mosquito faz. 21. Unção – erro de concordância verbal. O certo seria “UM É”. 22. Violentamente – viu com lentidão. 23. Volátil – sobrinho avisando ao tio aonde vai. 24. Caçador – indivíduo que procura sentir dor. 25. Catálogo – ato de apanhar as coisas rapidamente. 26. Cerveja – é o sonho de toda revista. 27. Democracia – sistema de governo do inferno. 28. Destilado – aquilo que está deste lado de cá. 29. Desviado – uma dezena de homossexuais. 30. Diabetes – as dançarinas do Diabo. 31. Halogênio – forma de cumprimentar as pessoas muito inteligentes. Tente, com base no que foi falado, mostrar outra explicação para o jogo de sentidos criado pelo autor. _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ 3. (UNICAMP. In: FIORIN, 1997: 135) A questão que se segue, extra- ída do vestibular da Unicamp, explora a dupla possibilidade de leitura como recurso humorístico. Para entender a tira do Hagar reproduzida na prova da UNICAMP, é necessário dar-se conta de que a pergunta de Helga pode ter duas interpretações. (Helga, com um bule na mão, fala para Hagar) – CAFÉ? (Hagar, destampando o bule, responde) – SIM... ACHO QUE É!! a. No contexto, como deve ser interpretada a fala de Helga? _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ b. Como Hagar interpretou a fala de Helga? _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ c. Explique por que o comportamento lingüístico da Hagar não corres- ponde ao de um falante comum. _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ 4. Muitas vezes, a dupla possibilidade de leitura de um texto não é o resultado de um programa ou de estratégia intencional do autor, mas de um descuido, um cochilo que, se fosse percebido, seria corrigido. Nesses casos, diferentemente dos anteriores, não se trata de um recurso de construção textual, mas de defeito a ser evitado pelo seu caráter per- turbador. Observe o texto que segue, publicado na Folha Sudeste, de 6 de junho de 1992, e utilizado num vestibular da Unicamp. “As videolocadoras de São Carlos estão escondendo suas fi tas de sexo explícito. A decisão atende a uma portaria de dezembro de 91, do Juizado de Menores, que proíbe que as casas de vídeo aluguem, expo- nham e vendam fi tas pornográfi cas a menores de 18 anos. A portaria proíbe ainda os menores de 18 anos de irem a motéis e rodeios sem a companhia ou autorização dos pais.” (Folha Sudeste, 6 de junho, 1992.) a. Transcreva a passagem que produz efeito de humor. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Qual a situação engraçada que essa passagem permite imaginar? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. Reescreva o trecho de forma a impedir tal interpretação. __________________________________________________ __________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu4 Gramática do texto: O estudo dos Advérbios A palavra advérbio apresenta, assim como a palavra adjetivo, o prefi xo ad-, que indica noções como “proximidade”, “contigüidade”. É, assim, o nome de outra classe de palavras que se caracteriza principal- mente pelas relações que estabelece nas orações: o advérbio é, basi- camente, a palavra capaz de caracterizar o processo verbal, indicando circunstâncias em que esse processo se desenvolve. É o caso, por exem- plo, da palavra profundamente, que, no poema de Manuel Bandeira, que veremos abaixo, caracteriza o processo verbal expresso por dormir. A função básica dos advérbios é, portanto, relacionar-se com os verbos da língua, caracterizando os processos expressos por esses ver- bos. Essa caracterização pode ter fi nalidades descritivas, procurando representar objetivamente os dados da realidade: dizer, por exemplo, que todos estavam “dormindo profundamente”, na primeira estrofe do poe- ma, é descrever a maneira intensa como todos dormiam. A caracterização adverbial pode, no entanto, traduzir a subjetivi- dade de quem observa o processo verbal: o advérbio deixa de ter papel descritivo e passa a traduzir sentimentos e julgamentos de valor de quem escreve ou fala. O “profundamente” da estrofe inicial do poema é um bom exemplo dessa outra faceta dos advérbios: em vez de descrever, e se advérbio transmite uma forte carga emocional. Note que as emoções do sujeito lírico combinam saudade e isolamento com uma forte sensa- ção de irremediabilidade. Tudo isso de maneira sóbria, contida, simples, sincera. Advérbio é a palavra que caracteriza o processo verbal, exprimindo circunstâncias em que esse processo se desenvolve. Observe: “Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo. (circunstâncias de tempo, negação e tempo, respectivamente) Os balões passavam silenciosamente. (circunstância de modo) Alguns advérbios podem intensifi car ou caracterizar as noções transmitidas por adjetivos ou por outros advérbios. Isso ocorre principalmente com os advérbios que exprimem intensidade e modo: “Essa é a atitude menos correta para alguém que pretende ser po- liticamente correto”. “Você agiu bastante mal”. Em alguns casos, os advérbios podem se referir a uma oração inteira; nessa situação, normalmente transmitem a avaliação de quem fala ou escreve sobre o conteúdo da oração: “Infelizmente, os deputados não aprovarão as emendas”. “As providências tomadas foram infrutíferas, lamentavelmente”. 5. PROFUNDAMENTE Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam, errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? — Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente. * Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fi m da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. (BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 81.) a. A primeira estrofe nos fala de “alegria e rumor”. Aponte os elementos da organização sonora e da pontuação dessa estrofe capazes de sugerir essas noções e comente-os. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. O verso “Silenciosamente”, na segunda estrofe, produz algum efeito sonoro e rítmico que mereça destaque? Releia a estrofe em voz alta e comente. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. O que signifi ca estar “dormindo profundamente”. Na terceira estrofe do poema? E na última estrofe? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 2007 - Caderno 2 5 6. (UERJ) TEXTO I Infelizmente, devo dizer que sim. Não se trata de discriminação ou marginalização pelo fato de ser brasileiro, porém. Trata-se de uma difi culdade (talvez natural) que tem um “imigrante” em penetrar na “eli- te” da sociedade local, que controla as posições de poder. Essa elite é constituída por pessoas que estudaram juntas na escola, que fi zeram o serviço militar juntas, que pertencem ao mesmo partido político etc. e que se apóiam mutuamente. Tive a oportunidade de sentir esse tipo de hostilidade quando fui eleito diretor da Faculdade de Ciências Humanas. Cheguei mesmo a ouvir expressões como “a máfi a latino-americana em nossa faculdade”, quando somos nada mais que dois professores titula- res de precedência latino-americana. Mas, verdade seja dita, trata-se de uma hostilidade proveniente dos que estavam habituados ao poder e não se conformavam em perdê-lo. A maioria não só me elegeu, mas também me apoiou e continua apoiando as reformas que instituí em minha gestão.” (DASCAL, Marcelo. Entrevista publicada no caderno Mais / Folha de São Paulo. 18/05/2003.) TEXTO II Já se sentiu vítima de algum tipo de marginalização e/ou discriminação dentro de sua universidade? “Infelizmente, devo dizer que sim.” O advérbio “infelizmente”, na respos- ta do entrevistado, exprime um ponto de vista ou julgamento a respeito dos fatos relatados. A alternativa cujo elemento sublinhado desempenha essa mesma função é: (A) “Já se sentiu vítima de algum tipo de marginalização (...)?” (B) “que pertencem ao mesmo partido político etc. e que se apóiam mutuamente.” (C) “Mas, verdade seja dita, trata-se de uma hostilidade.” (D) “e continua apoiando as reformas que instituí em minha gestão.” 7. O ARQUIVO No fi m de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afi nal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe. No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centrada cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava sa- tisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição. Dois anos mais tarde, veio outra recompensa. O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial. Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. Novos sorrisos, novos agrade- cimentos, nova mudança. Agora João acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou. Prosseguiu a luta. Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu. (...) A vida foi passando, com novos prêmios.Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais proble- mas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescan- tes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. O corpo era um monte de rugas sorridentes. Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefi a: – Seu João. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não ha- verá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários. O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfi m, atingi- ra todos os objetivos. Tentou sorrir: – Agradeço tudo que fi zeram em meu benefício. Mas desejo reque- rer minha aposentadoria. O chefe não compreendeu: –Mas seu João, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha? A emoção impediu qualquer resposta. João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, fi cou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. João transformou-se num arquivo de metal. (GIUDICE, Victor. Contos jovens. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1976, p.35-37.) a. “Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?” O advérbio acima destacado é um marcador de pressuposição: sua presença indica, para o leitor, a existência de um conteúdo implícito. Aponte-o. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. “Respirou descompensado...” A palavra destacada foi utilizada com o valor morfológico de adjetivo ou de advérbio? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 8. (VUNESP) Não espero mais você, Pois você não aparece Creio que você se esquece Das promessas que me faz E depois vem dar desculpas, Inocentes e banais É porque você bem sabe Que em você desculpo Muitas coisas mais... O que sei somente É que você é um ente Que mente inconscientemente, Mas fi nalmente, Não sei porque Eu gosto imensamente de você. Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu6 E invariavelmente, sem ter o menor motivo Em um tom de voz altivo. Você, quando fala, mente Mesmo involuntariamente, Faço cara de inocente Pois sua maior mentira, È dizer à gente Que você não mente. O que sei somente É que você é um ente Que mente inconscientemente, Mas fi nalmente, Nao sei por que Eu gosto imensamente de você. (In: Noel pela primeira vez. Coleção organizada por Miguel Jubran. São Paulo: MEC/FUNARTE/Velas, 2000, Vol 4, CD 7, Faixa 1.) Aponte o efeito expressivo relacionado com o tempo e com a rima, que o emprego de advérbios como somente, inconscientemente, etc., produz na letra de Noel Rosa. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 9 (UFRJ) LONGE DE TUDO És livre, livre desta vã matéria, longe, nos claros astros peregrinos que havemos de encontrar os dons divinos e a grande paz, a grande paz sidérea. Cá nesta humana e trágica miséria, nestes surdos abismos assassinos teremos de colher de atros destinos a fl or apodrecida e deletéria. O baixo mundo que troveja e brama só nos mostra a caveira e só a lama, ah! só a lama e movimentos lassos... Mas as almas irmãs, almas perfeitas, hão de trocar, nas Regiões eleitas, largos, profundos, imortais abraços!” (SOUSA, Cruz e. Poesias completas. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981, p. 158.) O poema de Cruz e Sousa Longe de tudo confronta dois espaços para marcar a oposição “corpo e alma”. a. Retire do texto dois advérbios que explicitam esses dois espaços. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Transcreva duas expressões formadas por adjetivo(s) e substantivo que caracterizam esse espaço, identifi cando a que espaço cada um se refere. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Gramática aplicada aos textos Substantivos “É como eu disse. De dia somos uma família feliz. Mais tarde, antes de escurecer, alguém vem trazer o nosso milho. Os cachorros e o gato também recebem suas rações; Eu me recolho com meus fi lhos. Os ca- chorros fi cam por aí, vigiando. O gato desaparece, vai a outra espécie de caçada. Às vezes, escutamos os miados, é um namoro sofrido e gritado aos quatro ventos. Ainda bem que são só alguns dias por mês, se fosse sempre, ninguém agüentava. No dia seguinte ele aparece todo lanhado, mas feliz. Dois meses depois haverá em algum lugar da vizinhança uma gata com ninhada nova. Por essas e outras é que nunca vai faltar gato no mundo. Nem cachorro. Nem galinha. Amém.” (José J. Veiga) Agora responda: a. Quem é o narrador do texto? __________________________________________________ __________________________________________________ b. A que outros bichos ele se refere? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. Quem são “os fi lhos” a que o narrador se refere? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ d. De acordo com o narrador, não se pode falar em felicidade com- pleta no lugar em que os bichos convivem. Que palavra justifi ca essa afi rmativa? ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________ OBS.: Como podemos perceber no texto, algumas palavras como gato, cachorro e galinha, nos remetem a seres do mundo real. Des- ta forma, formamos imagens em nossa mente, como se fossem gravuras representando tais seres. Todo ser, real ou imaginário, tem um nome. A essas palavras que designam seres damos o nome de substantivos. 2007 - Caderno 2 7 Interpretação Textual A CASA MATERNA Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se encontra num lugar que só a mão fi lial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias, que a mão fi lial, fi el a um gesto de infância, desfolhaao longo da haste. É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos fi liais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em preces, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quan- do eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de fl anela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar. A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar fi lial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para os quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar fi lial primeiro viu a forma gráfi ca de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso. Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos fi liais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima fi cam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a fi gura materna, sabe porque queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a fi gura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre de sua casa materna, a fi gura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos fi liais ainda mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis. (MORAES, Vinicius de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Sabiá, 1964.) a. Qual o sentimento mais forte presente no texto? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. O autor busca reviver a presença do pai e da mãe, compondo uma página de recordação. Você concorda com tal afi rmação, caso concorde, comprove-a com elementos textuais. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. Pode-se afi rmar que a casa materna é sinônimo de amor e segurança? Por que? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ OBS.: Todo texto é um tecido de palavras. O modo como Vinicius de Moraes tece a sua crônica segue o caminho da conexão entre substantivos e adjetivos, passando para o leitor a bela imagem da casa de sua infância, parada no tempo. Há um jogo entre os nomes e suas qualidades: casa materna, piano fechado, olhar fi lial, bande- ja triste, e, em alguns trechos, a qualidade antecede o nome: velha ferrugem, brando ronco, passadas valsas, entre outros. Gramática aplicada aos textos: Adjetivos OPERAÇÃO DE ATRIBUIÇÃO Para que servem os adjetivos? Na verdade, os adjetivos não são empregados exclusivamente para atribuir qualidades aos substantivos – bom homem, funcionário incompetente, mas também para atribuir ca- racterísticas – livro verde, quadro da esquerda, para dar informações – livro que comprei na cidade – ou para restringir o alcance do signifi ca- do dos substantivos – suco de laranja. Além do seu aspecto semântico, os adjetivos têm grande importância no desenvolvimento textual e é a esse aspecto que vamos dirigir nossa atenção de forma mais destacada. I. AS FORMAS DOS ADJETIVOS: a adjetivação pode assumir várias formas. Ex.: • livro verde (adjetivo) • livro de política (locução adjetiva) • livro que trata de teatro (oração adjetiva) • livrão (sufi xação) • livro agenda (substantivo) II. A POSIÇÃO DOS ADJETIVOS Os adjetivos podem aparecer antepostos ou pospostos: EX.: • livro verde • bom livro - Em geral, os adjetivos antepostos apresentam maior carga subjeti- va, são qualifi cações dos substantivos que acompanham, depen- dentes das opiniões dos falantes: - pobre homem. Ex.: grande sujeito. - Já os adjetivos pospostos trazem uma carga mais objetiva, repre- sentando mais características dos substantivos. Ex.: homem pobre / homem grande. III. OS TIPOS DOS ADJETIVOS - As qualifi cações: o falante pode atribuir aos substantivos quali- dades, que são traços dependentes de suas opiniões sobre o objeto Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu8 adjetivado: livro interessante. Na dependência do tipo de texto em que estão inseridos, os adjetivos qualifi cativos podem vir expli- citados ou não: “O restaurante era modesto e pouco freqüentado, com mesinhas ao ar livre espalhadas debaixo das árvores. Sobre as mesinhas um abajur de garrafa projetava sobre a toalha... (A ceia – Lygia Fagundes Telles). O adjetivo modesto é uma qualifi cação do restaurante, que aparece explicitada no restante do parágrafo; já o adjetivo pouco freqüentado, por não ser uma qualifi cação, mas uma informação sobre o restaurante, de caráter objetivo, não ne- cessita de qualquer explicitação. Nos textos publicitários, de claro caráter manipulador, geralmente os adjetivos qualifi cativos não aparecem explicitados, como se as quali- dades atribuídas aos produtos anunciados tivessem caráter universal, ou seja, fossem evidentes para todos. Ex.: Camisas Fernandinho, as mais elegantes do planeta! - As características: são traços que são inerentes a essas realida- des representadas pelos substantivos, como sua cor, sua forma, sua dimensão, sua posição, seu material etc.: livro verde, livro quadrado, livro grosso, livro de cima. Como essas características são frutos de observação, geralmente não vêm acompanhadas de explicitações. - As informações: algumas vezes, anexamos aos substantivos de um texto dados que sabemos sobre eles, que não dependem nem de nossas opiniões, nem de nossa observação – livro de meu pai, roupa importada da Alemanha etc. - As restrições: restringem os substantivos a que estão ligados, limitando o seu alcance signifi cativo. Secretaria de Educação, porta da sala etc. (Agostinho Dias Carneiro) A VARIAÇÃO NA ORDEM DOS ADJETIVOS: A ordem dos adjetivos está ligada a diversos fatores/critérios que devem ser levados em consideração. Entre estes, destacamos um parâ- metro na ordem dos adjetivos. A diferença semântica entre os adjetivos – adjetivos com valor afe- tivo e adjetivos com valor intelectual. A opção pela posição do adjetivo parece obedecer a restrições de caráter semântico. Quando o adjetivo está após o substantivo (nome),tende a manter o valor próprio, objetivo, intelectual; quando antes, tende a perder o próprio valor e adquirir um sentido afetivo. Ex.: uma pessoa bela X uma bela pessoa. Por fi m, reparem que, na primeira frase, o adjetivo tem um sentido ‘real’(beleza física), enquanto, na segunda, ele possui um caráter afetivo (beleza moral). Exercícios de Fixação 1. Qual o signifi cado dos adjetivos destacados nas frases a seguir? a. O príncipe era um grande homem._____________________ _______________________________________________ b. O príncipe era um homem grande._____________________ _______________________________________________ c. O porteiro não era um homem pobre.___________________ _______________________________________________ d. O porteiro não era um pobre homem.___________________ _______________________________________________ e. Entregou o documento ao funcionário competente.__________ _______________________________________________ f. Entregou o documento ao competente funcionário.__________ _______________________________________________ g. O mendigo tomou um longo gole de bebida.______________ _______________________________________________ h. O mendigo tomou um gole longo de bebida.______________ _______________________________________________ i. Maria era uma boa professora ________________________ _______________________________________________ j. Maria era uma professora boa.________________________ _______________________________________________ 2. Na frase: “Se você tem se decepcionado com amigos cachorros, ar- rume um cachorro amigo.”, comente o efeito de sentido criado no texto pela inversão da ordem das palavras marcadas. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 3. Numa placa, está escrita a seguinte mensagem: “SEJA PACIENTE NO TRÂNSITO PARA NÃO SER PACIENTE NO HOSPITAL.” Discorra sobre a alteração de sentido entre as palavras sublinhadas nas duas frases. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 4. (A. D. CARNEIRO) Classifi que os adjetivos dos segmentos, numeran- do os parênteses segundo o esquema: (1) qualifi cação (2) característica (3) informação (4) restrição ( ) O bom leitor faz o livro bom. ( ) A grande tragédia do mundo é que não cultiva a memória. ( ) Teus olhos verdes sempre me encantaram a vida. ( ) Convém repetir as palavras úteis. ( ) O melhor profeta do futuro é o passado. ( ) O homem é o único animal que ri. ( ) O homem é o único animal que tem vergonha do próprio cheiro. ( ) Uma pintura é um poema sem palavras. ( ) A imprensa é a opinião pública. ( ) O jornalismo é uma profi ssão fácil: só diz o que dizem os outros. 5. Observando uma descrição do autor Aluízio de Azevedo, grife a idéia núcleo e justifi que, de maneira resumida, a presença dos adjetivos nela. “Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Ma- ranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruido- 2007 - Caderno 2 9 samente, abalando os prédios, e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas [calças] arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua: tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar, ou andavam no ganho.” (Aluízio de Azevedo) __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 6. ADÃO E EVA EM CONFLITO NO PARAÍSO Adão chega tarde em casa e encontra Eva furiosa: Arrá! Então você anda saindo com outra mulher! Qual é, Eva? Que ciúme doentio, amor! Você é a única mulher sobre a face da terra! Eva se cala e eles vão dormir. De madrugada, Adão acorda com alguma coisa cutucando o seu peito: é ela. Ei, que diabo você está fazendo, mulher? O que você acha? Contando suas costelas! (Jornal Extra, fevereiro de 2007.) a. De acordo com nosso conhecimento de mundo, o que se pode espe- rar do título do texto? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. O que possibilita o efeito de humor na piada? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. A forma como Adão se dirige a Eva (mulher) é pouco comum em nossa cultura, chegando a ter um valor até mesmo negativo. Substitua o vocábulo por outro de valor positivo conforme nossa cultura propõe. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Adjetivos e produção de textos A adjetivação é um dos elementos estruturadores de um texto. Quando é excessiva e voltada à obtenção de efeitos retóricos, prejudica a qualidade do texto um texto e evidencia o despreparo ou a má-fé de quem escreve. Quando é feita com sobriedade e sensibilidade, contribui para a efi ciência comunicativa do texto. Nos textos dissertativos, os adjetivos normalmente explicitam a posição de quem escreve em relação ao assunto tratado. É muitas vezes por meio de adjetivos que os juízos e avaliações do produtor do texto vêm à tona, transmitindo ao leitor atitudes como aprovação, reprova- ção, aversão, admiração, indiferença. Analisar a adjetivação de um texto dissertativo é, portanto, um bom caminho para captar com segurança a opinião de quem o produziu. Lembre-se sempre de que é a sua adjetiva- ção eu passa a cumprir esse papel quando você escreve. Gramática Aplicada aos textos: Verbos ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU Além da Terra, além do Céu, no trampolim do sem-fi m das estrelas, no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas. Além, muito além do sistema solar, até onde alcançam o pensamento e o coração, vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas e do medoe da moeda e da política, o verbo sempreamar, o verbo pluriamar, razão de ser e de viver. (Carlos Drummond de Andrade) a. Aponte detalhes expressivos da organização sonora do texto. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. O texto nos fala de um espaço privilegiado, aonde nos convida a ir. Aponte as características desse espaço, comentando as imagens que o descrevem. No texto, o que signifi ca “conjugar” um verbo? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Conjugar verbos é algo que tem feito parte de sua vida escolar há muito tempo; no entanto, é pouco provável que você tenha pensado nesse processo como algo dotado de um sentido mais profundo. Na ver- dade, os verbos desempenham uma função vital na língua portuguesa: é em torno deles que se organizam as orações. O estudo de uma classe gramatical dessa importância representa, obviamente, um passo signifi - cativo para um desempenho lingüístico mais satisfatório”. Verbo signifi ca, originariamente, “palavra”. Esse signifi cado pode ser percebido em expressões como abrir o verbo ou deitar o verbo, utili- zadas para indicar o uso farto das palavras. As palavras que pertencem à Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu10 classe gramatical dos verbos receberam esse nome justamente porque, devido à sua importância nas orações da língua, foram consideradas as palavras por excelência pelos gramáticos. Conjugar um verbo é, por- tanto, exercer o direito pleno de empregar a palavra; no caso de verbos como sempreamar e pluriamar, é, segundo o poeta, realizar-se em sua própria humanidade. Verbo é a palavra que se fl exiona em número, pessoa, modo, tempo e voz. Pode fi car, entre outros processos: ação (correr, pular); estado ou mudança de estado (ser, fi car); fenômeno natural (chover, anoitecer); ocorrência (acontecer, suceder); desejo (querer, aspirar). Nas orações, o verbo sempre faz parte do predicado; você pode obter mais informações sobre o papel sintático dos verbos no estudo dos termos essenciais da oração. O que caracteriza o verbo são as suas fl exões, e não os seus possíveis signifi cados. Observe que palavras como corrida, pulo, chuva, aconte- cimento e aspiração têm conteúdo muito próximo ao de alguns verbos mencionados acima, mas não apresentam, porém, todas as possibilida- des de fl exão que esses verbos possuem. Textos para análise Texto I O VERDE DA MODA Muita gente acha que clorofi la faz bem à saúde. Os estudiosos dizem que é bobagem (Paula Beatriz Neiva) Texto II As cápsulas do desodorante havaiano: a última invenção Suco de clorofi la: há também cremes e loções TEXTO III Todo mundo aprende na escola que a clorofi la, aquele pigmento que dá cor verde às plantas, está na base da fotossíntese – o processo pelo qual os vegetais, na presença de luz solar, absorvem o gás car- bônico da atmosfera e liberam oxigênio. Fundamental na natureza, a clorofi la desde há muito tem o papel de coadjuvante nos produtos de higiene pessoal. É adicionada a pastas de dentes e desodorantes, por causa da sensação de frescor que propicia. De uns tempos para cá, no entanto, os naturebas começaram a divulgar que a substância é capaz de operar verdadeiros milagres também nos corpinhos que não têm caule, folhas e frutos. Ela limparia a corrente sanguínea, fortaleceria o sistema imunológico, revitalizaria o cérebro, diminuiria a depressão, retardaria o envelhecimento, evitaria a ressaca e – pasme – até ajudaria no trata- mento de doenças como o câncer e a Aids. Como há quem acredite em tudo (e também quem ganhe dinheiro com tudo), o consumo de clorofi la não tardou a virar moda. Ela passou a ser vendida na forma de sucos, sorvetes e cremes e loções para o corpo. A última novidade vem do Havaí. Uma empresa daquele Estado americano lançou o primeiro deso- dorante em comprimido à base de clorofi la. Uma pastilha pela manhã, outra à noite e tchan, tchan, tchan: em no máximo quatro dias, o usuário já sentiria uma mudança incrível. Qual seria ela? “Todos os odores do or- ganismo desaparecem”, diz Eddie Onouye, um dos donos do laboratório que fabrica o tal desodorante. Essa história de clorofi la está deixando verdes de raiva os estudio- sos mais sérios. Eles afi rmam que tudo não passa de mais uma bobagem destinada a enganar quem tem QI de pterodófi ta. “O consumo de clorofi la não serve para nada”, esclarece a professora Ursula Lanfer Marquez, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. O motivo é simples: as moléculas da substância não são absorvidas pelo organismo. Os defensores do modismo argumentam que, uma vez inge- rida, a molécula de clorofi la se quebra e libera magnésio, mineral impor- tante para os ossos, dentes, músculos e para a transmissão de impulsos nervosos. “Nem sempre há essa liberação de magnésio e, quando há, as suas quantidades são tão pequenas que não têm nenhum efeito”, explica Ursula. Para ingerir magnésio, basta comer bem. O mineral é encontrado na maioria dos alimentos – laticínios, peixes, carne, frutos do mar, maçã, abacate, banana, feijão, rúcula, batata e agrião, entre outros. (Revista Veja, Agosto de 2006.) a. No trecho marcado acima, substitua “clorofi la” por “clorofi la e inha- me” e reescreva o texto fazendo as adaptações necessárias em outros elementos do texto. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Observe o papel dos verbos no futuro do pretérito no texto e indique que efeito de sentido esse tempo verbal causa. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. No subtítulo do anúncio, há uma contradição. Identifi que-a. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 2007 - Caderno 2 11 d. O fato de esse texto ter sido publicado em uma revista como a Veja causa que impressão no leitor? Justifi que sua resposta. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ e. Substitua o futuro do pretérito pelo presente do indicativo e observe que efeito de sentido isso causa. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ f. Com essa mudança de tempo verbal, é necessário fazer mais alguma alteração para deixar o texto mais coerente com o efeito de sentido pre- tendido? Qual(is)? __________________________________________________ __________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________ g. Se substituíssemos “naturebas” por “cientistas” e fi zéssemos as alte- rações que fossem necessárias para que o texto mantivesse uma unida- de, como fi caria o novo texto? Apenas leiam. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ h. Um texto como esse poderia ter sido publicado em uma revista de divulgação científi ca? Justifi que sua resposta. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ i. O recurso lingüístico “tchan,tchan,tchan” nos remete a que outra situ- ação comunicativa? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ TEXTO IV ESTROGONOF DE CHOCOLATE E NOZES INGREDIENTES: 2 latas de leite condensado 2 latas de creme de leite 1 lata de leite 3 gemas 3 claras em neve 5 colheres de chocolate 1 cálice de rum 200g de nozes picadas 200g de chocolate ao leite ralado 200g de chocolate meio amargo ralado MODO DE PREPARAR: Faça um brigadeiro mole com leite condensado, o chocolate em pó, o leite e as gemas. Deixe esfriar; Junte o creme de leite, rum, chocolates ralados e nozes; Bata as claras em neve, misture e leve a geladeira; Enfeite com chocolate picado e nozes; Detalhe: bata a mistura de brigadeiro no liquidifi cador, antes de levar ao fogo. TEXTO V MIL-FOLHAS COM FOIE GRAS INGREDIENTES: 200g de beterraba 200g de massa folhada 2 escalopes de foie gras MODO DE PREPARAR: Cozinhe as beterrabas no vapor por 10’; Corte em lâminas fi ninhas; Deixe secar e frite em óleo quente; Asse a massa folhada em camadas de mais ou menos meio cm; Doure o foie grãs em pouquíssimo azeite; Fatie em lâminas de 1cm; Grelhe rapidamente as lâminas de foie gras e salgue. Ao servir, intercale, em forma de torre, a massa folhada e as lâminas de foie gras; Decore com os chips de beterraba. Vamos dialogar com os textos: a. A que gênero textual esse texto pertence? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. O que marca esse gênero? Por quê? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. Que efeito de sentido os verbos provocam nos textos? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu12 d. Se trocássemos o modo (imperativo por subjuntivo) dos verbos no texto, que efeito de sentido teríamos com o novo modelo? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ e. Baseado apenas no modo de preparar, escreva um parágrafo coerente, usando os elementos de ligação, formando a unidade do parágrafo. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Texto 1 MULHER GOSTA DE APANHAR? Brasília - É um dos documentos mais chocantes já produzidos no congresso sobre nossa barbárie - há relatos capazes de virar o estômago das pessoas mais insensíveis. Deveria ser leitura obrigatória para quem coloca direitos humanos na sua agenda de preocupações. Está em fase de redação fi nal um texto sobre a violência contra a mulher no Brasil a ser divulgado nos próximos dias. E, mais uma vez, comprova-se a lei da covardia social: quanto mais frágil um cidadão maior a crueldade. Resultado da investigação promovida pela CPI da Violência contra a Mulher, o documento mostra como está enraizada em nossa sociedade a agressão e, no caso das mulheres, acrescente-se a agres- são sexual. A cada dia são registradas, em média, 337 reclamações de vítimas. Como a maioria não tem coragem ou informações sobre seus direitos para ir à uma delegacia, tal número é apenas uma pálida projeção sobre a realidade. De todos esses casos, 50% referem-se à lesão corporal, na maioria das vezes, segundo a CPI, baseada em estatísticas fornecidas por 20 Es- tados, são provocadas pela recusa do sexo forçado. São as mais variadas manifestações de violência. O documento apresenta nomes de empresas que humilham suas funcionárias. Outras que induzem ao aborto ou à esterilização, proibindo a gravidez. É uma coleção interminável de pequenas e grandes crueldades. O estupro continua prática comum - 50% praticados dentro da própria família. Como não podia deixar de ser, apanha mais quem pode menos. Quanto mais ignorante e pobre a vítima maior a violência. É sabido, sa- bidíssimo, aliás, que policiais, supostos guardiões da ordem, exploram sexual e fi nanceiramente as prostitutas - o controle é mantido na surra. São esses tipos de informação que revelam, de fato, nosso perfi l político. Estranho país, o Brasil: consegue dar uma lição de democracia ao tirar um presidente, servindo como exemplo mundial. E, ao mesmo tempo, não se libertou da Casa-Grande e, muito menos, da Senzala. A verdade é que, socialmente, estamos na Pré-História. E a prova disso é que documentos, como o da CPI da Mulher, estão fadados a gerar repercussão inversamente proporcional à sua importância. (DIMENSTEIN, Gilberto. Folha de SãoPaulo, 29 novembro 1992.) a. Qual a estratégia adotada no primeiro parágrafo para expor o tema do texto? De que forma o segundo parágrafo se relaciona com o primeiro? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. No terceiro parágrafo, amplia-se o conceito de violência. Explique. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. A que se refere o texto quando fala em Casa-Grande e em Senzala? Explique. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ d. Você concorda com a conclusão a que chega o texto? Por quê? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ e. O que indicam os verbos presentes no texto, como eles se relacionamcom o modo de organização do texto acima? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Texto 2 O COVEIRO “Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profi ssão coveiro era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de es- bravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouviu um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?” O coveiro então gritou, desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!” ” Mas, coitado!” condoeu-se o bêbado “Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente. Moral: Nos momentos graves, é preciso verifi car muito bem para quem se apela.” (Millôr Fernandes) a. A que tipo textual esse texto pertence? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 2007 - Caderno 2 13 b. O que causa o humor no texto? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. Qual é o ponto do tempo inicial da ação, passado, presente ou futuro? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ d. O que indicam os verbos presentes no texto, como eles se relacionam com o modo de organização do texto acima? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ e. Comparando esse texto com o texto anterior, como podemos explicar a diferença dos tempos verbais empregados? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Texto 3 (UFRJ- 2006) “Na contramão dos carros ela vem pela calçada, solar e musical, pára diante de um pequeno jardim, uma folhagem, na entrada de um prédio, colhe uma fl or inesperada, inspira e ri, é a própria felicidade – passando a cem por hora pela janela. Ainda tento vê-la no espelho, mas é tarde, o eterno relance. Sua imagem quase embriaga, chego no trabalho e hesito, por que não posso conhecer aquilo?- a plenitude, o perfume inusitado no meio do asfalto, oculto e óbvio. Sempre minha cena favorita. Ela chegaria trazendo esquecimentos, a fl or no cabelo. Eu estaria à espera, no jardim. E haveria tempo.” (CASTRO, Jorge Viveiros de. De todas as únicas maneiras & outras. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002. p. 113.) 1. Ao longo do texto 3, utilizam-se dois tempos verbais. Identifi que-os e justifi que o emprego de cada um, considerando a experiência narrada no texto. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 2. No decorrer do texto, o autor apresenta um modo verbal que normal- mente mostra clareza em relação ao contexto. Identifi que-o e explique-o. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Interpretação textual SEI LÁ A VIDA TEM SEMPRE RAZÃO Tem dias que eu fi co pensando na vida E sinceramente não vejo saída Como é por exemplo que dá pra entender A gente mal nasce e começa a morrer Depois da chegada vem sempre a partida Porque não há nada sem separação Sei lá, sei lá A vida é uma grande ilusão Sei lá, Sei lá A vida tem sempre razão A gente nem sabe que males se apronta Fazendo de conta, fi ngindo esquecer Que nada renasce antes que se acabe E o sol que desponta tem que anoitecer De nada adianta fi car-se de fora A hora do sim é o descuido do não Sei lá, sei lá Só sei que é preciso paixão Sei lá, sei lá A vida tem sempre razão (Vinicius de Morais e Toquinho) a. No verso 1, a locução verbal fi co pensando poderia ser substituída por um único verbo – pensar – no presente do indicativo que o sentido do enunciado seria mantido. Sabendo que o emprego do presente do indicativo não só aponta um fato que ocorre no momento da enunciação, (aponta um fato que ocorre no momento da enunciação, mas também tem outros papéis textuais,) que valor de sentido podemos atribuir ao enunciado do verso 1 ao empregar- mos o verbo pensar no presente do indicativo. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Como podemos observar, Vinícius de Moraes apresenta a VIDA como plano de fundo de sua canção. Considerando o título “Sei lá a vida tem sempre razão” e os fragmentos “(...) mal nasce e começa a morrer”, “(...) nada renasce antes que se acabe” e “(...) o sol que desponta tem que anoitecer”, como podemos explicar os ciclos da vida e do tempo presen- te nos trechos destacados? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu14 c. Antítese (substantivo feminino) – Figura pela qual se salienta a oposi- ção entre duas palavras ou idéias. (Dicionário Aurélio). No decorrer da música, Vinicius e Toquinho apresenta algumas contradições. Transcreva três contradições presentes no texto. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ d. Na primeira estrofe da canção, os autores revelam uma queda na nos- sa vida devido a vários aspectos. Aponte o momento que os músicos retratam esse fato. (momentos em que parece não haver esperança, devi- dos a vários aspectos.Selecione os versos em que isso ocorre). __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ e. O prefi xo des- pode aparecer com valor de negação às vezes. Na composição, há duas palavras – “desponta e descuido”. Responda: 1. Baseado no texto, aponte em qual dos vocábulos o termo des- expressa o valor de negação. _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ 2. Dê um sinônimo para o vocábulo que não tem o des- com valor negativo. _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ f. Identifi que na letra da música dois vocábulos (dois versos em que há ação contínua) que indicam ação contínua de um fato. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES 1. (RURAL - 2004) “Vivemos numa cultura marcada pelo individualismo afetivo e prático. Vivemos sob um sistema socioeconômico globalizado que prioriza o lucro e a produtividade em prejuízo das pessoas. As conse- qüências são sentidas por todos nós, e mais duramente pelos pobres. A lógica do mercado decreta friamente que eles são um estorvo, não deveriam ter fi lhos e melhor seria se simplesmente não existissem. Seus rostos famintos nos incomodam, seus fi lhos miseráveis nos revoltam.” (MIRANDA, Mário de F. Promover a vida. O Globo, 12/12/2002, p. 06.) Os dois primeiros períodos do texto iniciam-se com verbos na primeira pessoa do plural - vivemos. Está estratégia utilizada pelo autor serve para indicar que, tanto ele (autor) quanto (nós) leitores, (A) somos cúmplices na situação descrita pelo autor. (B) sentimo-nos impotentes diante da situação descrita pelo texto. (C) temos um compromisso com a mudança histórica. (D) dependemos do estado de coisas descrito para sobreviver. (E) convivemos com um estado de coisas que combatemos neces- sariamente. 2. (RURAL 2004) “Substituiu-se esse conceito verdadeiro pela idéia de “dever” imposição exterior, a que se satisfaz por atos materiais, superfi - ciais, faltos de toda substância ética, pois eles serão negados ou defrau- dados quando falte o olho policial.” Sobre a oração grifada, é correto afi rmar que: (A)se trata de uma oração temporal, não sendo possível acrescentar a esta idéia de tempo nenhuma outra. (B) a presença do subjuntivo na oração pode fazer com que a idéia de tempo se complemente com a de fi nalidade. (C) a presença do subjuntivo na oração contribui para a certeza de que, no tempo futuro, as ações enunciadas na oração anterior serão realizadas. (D) a idéia de futuro e o uso subjuntivo dão à oração um sentido de incerteza, tornando também possível uma interpretação de condição. (E) a idéia de futuro e o uso do subjuntivo dão à oração um sentido de conseqüência que se deve seguir às explicações. 3. (RURAL 2004) “Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu che- guei a perguntar-lhe se machucara o pé.” A forma verbal destacada pode ser substituída, sem alteração de sentido, pela forma composta: (A) teria machucado (B) tivesse machucado (C) tinha machucado (D) tem machucado (E) teve machucado 4. (UERJ - 2006) Texto I. PROCURA DA POESIA Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. (...) Não faças poesia com o corpo, excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (...) Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. (...) Não dramatizes, não invoques, indagues. Não percas tempo em mentir. (...) Não recomponhas sepultada e merencória infância. (...) Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...) Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume 2007 - Caderno 2 15 com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. (...) Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave? (ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.) Ao construir as frases, às vezes fazem-se escolhas gramaticais que alte- ram o estilo, mas não interferem no signifi cado. Em Procura da poesia, algumas dessas escolhas incidem nas categorias gramaticais do verbo. a. Reescreva o verso “Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provo- cam.” (v. 14), adaptando-o ao tratamento você. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Transcreva a forma de futuro do subjuntivo empregada entre os versos 12 e 23 do texto I e indique outra forma do mesmo verbo apta a substituí- la sem provocar alteração relevante de sentido no poema. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 5. (UERJ - 2006) TEXTO II. AS PALAVRAS “Estão soltas, em férias. Nada signifi cam ainda. E enquanto esperam ser chamadas ao silêncio do poema, adejam livres na luz de limbo, anterio- res ao mistério que ainda vão gerar.” (MACHADO, Aníbal. Cadernos de João. Rio de Janeiro, 1957.) A forma verbal esperam ocorre no texto I (v.11) e no fragmento de Aní- bal, porém em uma delas pode apresentar duas interpretações. Indique em qual dos textos o verbo esperar apresenta dois sentidos possíveis e explicite esse duplo sentido. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 6. (UERJ - 2006) TEXTO III. A ESCOLHA DAS PALAVRAS A efi ciência de uma comunicação lingüística depende, em última análise, da escolha adequada das palavras, e a arte de bem falar e escre- ver é chamada, com razão, a arte da palavra. Essa escolha é, em regra, muito mais delicada e muito menos simples do que à primeira vista poderia parecer. O sentido de uma palavra não é essencialmente uno, nitidamente delimitado e rigorosamente privativo dela, à maneira de um símbolo ma- temático. Há uma complexidade imanente, que se apresenta sob diversos aspectos. (...) Em matéria de sinonímia, é preciso, antes de tudo, ressalvar que não há a rigor o que muitas gramáticas chamam os sinônimos perfeitos: eles só existem como tais nas listas dessas gramáticas. Todos decorrem das signifi cações diversas que adquire uma mes- ma coisa, de acordo com os diversos interesses que tem para nós; um conceito “neutro”se concretiza em duas ou mais denominações, segun- do valores específi cos, e é assim que a palavra construção, que nos faz ver o conjunto arquitetônico, cede lugar a prédio para objetivar o bem imóvel. É o interesse, e também a incerteza das apreciações, que explica o fato de nos parecer haver muitas vezes à nossa escolha duas palavras sinônimas, como justo e equitativo ou castigar e punir para qualifi car uma ação ou um procedimento. (CÂMARA JR., J. M. Manual de expressão oral e escrita. Rio de Janeiro: J. Ozon, 1961.) a. Os textos I e II tratam da palavra e de seus sentidos. O texto II aborda o fato semântico conhecido como sinonímia. No trecho, “Espera que cada um se realize e consume” (v. 15), indique o infi nitivo correspondente à forma verbal sublinhada e reescreva o verso, substituindo esse verbo por um sinônimo adequado ao contexto. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 7. (UNICAMP) A breve tira abaixo fornece um bom exemplo de como o contexto pode afetar a interpretação e até mesmo a análise gramatical de uma seqüência lingüística. Homem mente Curso Pré-Vestibular de Nova Iguaçu16 a. Supondo que a fala da moça fosse lida fora do contexto dessa tira, como você a entenderia? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ b. Se a fala da moça fosse considerada uma continuação da fala do rapaz, poderia ser entendida como uma única palavra, de derivação não previs- ta na língua portuguesa. Que palavra seria e o que signifi caria? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ c. As duas leituras possíveis para a fala da moça não estão em contradi- ção; ao contrário, reforçam-·se. O que signifi cará essa fala, se fi zermos, simultaneamente, as duas lei- turas? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 8. TEXTO I. MORTE E VIDA SEVERINA Esta cova em que estás, com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho, nem largo, nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio Não é cova grande, é cova medida É a terra que querias ver dividida É uma cova grande pra teu pouco defunto Mas estarás mais amplo que estavas no mundo É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo, te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio (É a terra que querias ver dividida) Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada não se abre a boca (João Cabral de Melo Neto) TEXTO II Naquela terra querida, Que era sua e não era, Onde sonhara com a vida Mas nunca viver pudera, Ia morrer sem comida Aquele que de cuja lida Tanta comida nascera. (GULLAR, Ferreira. João Boa-Morte, cabra marcado pra morrer, 1964. In: AGUIAR, F., org. Com palmos medida. Terra, trabalho e confl ito na literatura brasileira. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 309.) Nos trechos abaixo, está sublinhado um sintagma formado por dois ter- mos (um substantivo e um adjetivo). Assinale a alternativa na qual a inversão das duas palavras também poderia inverter sua classe gramatical: (A) É a conta menor que tiraste em vida; (B) É de bom tamanho, nem largo, nem fundo; (C) É uma cova grande pra teu pouco defunto; (D) É uma cova grande pra teu defunto parco. 9. O texto “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e o texto de Ferreira Gullar tematizam a relação do trabalhador com a terra. Aponte a alternativa que melhor expressa esta semelhança temática entre os textos. (A) Ambos os textos traduzem o vínculo do homem urbano com seus espaços; (B) Os dois textos tratam da questão do retirante que emigra do nordeste para tentar sobreviver na metrópole; (C) Os textos sugerem a libertação do homem aos bens materiais já que os dois textos relatam o abandono da terra natal; (D) Ambos os textos relativizam a questão da posse da terra e do trabalhador que se dedica ao cultivo de uma terra que é sua, mas não é. 10. DESAFIO A revista TV de fevereiro de 2007 do Jornal do Brasil traz uma curiosa matéria sobre a mais recente novela de Manoel Carlos: “é a no- vela que mais extrapola em número de traições e casamentos frustra- dos”. Para chamar a atenção do leitor, foi usado o recurso da paródia com o poema “Quadrilha”, já conhecido por nós, de Carlos Drummond de Andrade. QUADRILHA João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili ue não ama- va ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria fi cou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. (Carlos Drummond de Andrade) NINGUÉM É DE NINGUÉM Greg, ex-marido de Helena, namorado de Carmem, é amante de Sandra. Sílvio, marido de Olívia, se envolve com Tônia. Léo, noivo de Alice, se apaixona por Olívia. Renato, casado com Lívia, é louco por Isa- bel. Camila seduz Horácio, marido de Cecília... - Contudo, se observarmos a estrutura sintática dos 2 textos, veremos que ambos recorreram a recursos gramaticais diferentes para produzirem a mesma sensação de troca-troca, de paixões fugazes. 2007 - Caderno 2 17 a. Mostre as diferenças de estrutura gramatical entre os dois textos, exemplifi cando. Depois de observar cada detalhe, diga qual efeito pro- duzido por cada um. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ PARA GOSTAR DE LER UMA VELA PARA DARIO Por Dalton Trevisan Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à pa- rede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feioe bolhas de espuma surgiram no canto da boca. Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfi nete de pérola na gravata. Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fi m do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fi zesse um gesto para espantá-las. Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o inci- dente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario fi cou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na car- teira era de outra cidade. Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes. O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identifi cá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele pró- prio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão. A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fi m. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café fi caram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair. (TREVISAN Dalton. Vinte contos menores. Rio de Janeiro: Editora Record, 1979, p.20.) Bibliografi a CAMPEDELLI, Samira & SOUZA, Jésus. Gramática do texto e texto da gramática. São Paulo: Saraiva, 2002. FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto. Gramática escolar. São Paulo: Ática, 2003. INFANTE, Ulisses. Curso de gramática aplicada aos textos. São Paulo: Scipione, 2003. TREVISAN, Dalton. Vinte contos menores. Rio de Janeiro: Record, 1979, p.20.