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ELEMENTOS DE PROPEDÊUTICA RIMEIRA JURÍDICA PARTE 0 Primeiras Noções I Planos do Conhecimento II Os Objetos e sua Classificação III Método: os principais métodos de abordagem IV Natureza Objetiva do Direito V A Ciência do Direito: reflexão VI Relação entre a Ciência do Direito e as Ciências PróximasPRIMEIRAS NOÇÕES OS SENTIDOS DA PALAVRA 'DIREITO' Nossa disciplina tem caráter propedêutico, isto é, objetiva ministrar conheci- mentos básicos e preliminares, necessários à compreensão do direito, objeto dos estu- dos a serem realizados por vocês nos próximos anos, na faculdade. Trata-se, portanto, de introduzi-los no estudo de algo que se chama direito. Já aqui encontramos uma primeira dificuldade: a palavra não é unívoca, não tem um único significado, mas diversos. Quando alguém afirma ser o direito tributário brasileiro um direito inadequado, a exigir reformas etc., está empregando o vocábu- lo 'direito' no sentido de um conjunto de normas (leis, decretos, portarias, resolu- ções etc.); se, no entanto, eu pergunto sobre a natureza científica ou não científica do direito indagação própria da epistemologia jurídica -, já não o estou utilizando no mesmo sentido da proposição anterior, pois é claro que normas, regras e coisas assim não podem configurar-se como ciência (embora seja possível discutir se podem ser objeto de ciência); refiro-me agora a outra coisa, bastante diversa: um ramo do conhe- cimento humano, ou, se preferirem, uma ciência. Embora a palavra seja a mesma, as coisas por ela designadas são diferentes. Na primeira situação, trata-se de um objeto de conhecimento, de um fenômeno no caso, um conjunto de certo tipo especial de normas; na segunda, trata-se de um ramo do conhecimento, análogo à Sociologia, à Antropologia, à Economia ou à Ciência Política, por exemplo. Assim, quando faço uma indagação como a referida há pouco (é direito uma ciência?), é óbvio que não estou querendo saber se um conjunto de normas é uma20 PRIMEIRAS NOÇÕES INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 21 ciência, pois isto sei logo que não é. Estou querendo saber, sim, se conhecimentos determinadas normas de conduta, configuram ou não um conhecimento desenvolvidos durante séculos por juristas tendo por objeto, direta ou não por motivos meramente semânticos, mas com o importante objetivo de tornar clara a distinção entre que é ciência, ou conhecimento, e objeto da ciência jurídica. Temos até agora, portanto, dois significados para a palavra direito: o nome Anoto, entre parênteses, haver corrente de pensamento que nega tal distinção. Não uma ciência (no sentido genérico, de conhecimento) e um conjunto de normas de creio que isso beneficie a clareza e não acompanho tal perspectiva. gatórias. Pode ocorrer, no entanto, outro sentido interessante para nós. Se alguém obri- Como trabalharemos por etapas, no momento vamos nos fixar apenas em uma impedisse de ingressar na sala de aula, sem para tal atitude apresentar algum motivo primeira distinção, deixando para mais tarde as demais: tratemos de não confundir os relevante, vocês afirmariam com energia: "vou entrar e assistir à aula, porque tenho sentidos da palavra direito como designativo de um ramo do conhecimento humano direito a isto!". Eis que estamos em face de um terceiro sentido da palavra, bem ou uma ciência (o direito é uma ciência?) com objeto dessa ciência (o direito pode rente dos anteriores: com essa firme proposição, vocês não se referem a um conjunto dife- ser objeto de ciência?). É claro que uma ciência não pode ser confundida com seu de normas ou regras, nem tampouco a uma ciência ou a um ramo do objeto: quem confundiria a alma humana ou psique com a Psicologia, os fenômenos mas a uma situação subjetiva em que se encontram. Se seu interlocutor, aquele vitais com a Biologia, o movimento com a Mecânica, ou ainda, as grandezas mensu- impede seu ingresso na sala de aula, for minimamente informado, perceberá de pronto que ráveis com a Matemática? Nestes casos, a ciência é designada por um nome e 0 objeto estudado pela ciência por outro, facilitando o entendimento. Em nosso caso, não: que vocês estão, com aquela frase enérgica, invocando uma possibilidade de fazer tanto objeto estudado como a ciência ou ramo do conhecimento que estuda são algo (de assistir aula), possibilidade garantida de tal forma que a atitude de tentar designados pelo mesmo nome: direito. A dificuldade não é só nossa: também a pala- impedi-los será ou poderá ser neutralizada. vra economia designa a ciência e objeto estudado, dando-se mesmo com a história. Poderíamos arrolar, ainda, outras acepções, mas por enquanto fiquemos com Todavia, isso não nos autoriza a confundir as coisas.¹ estas três: Cabe dizer, entre parênteses, que saber se existe ou não uma ciência chamada 1. Um conjunto de normas jurídicas, a saber: princípios jurídicos, normas- direito e saber se o direito pode ou não ser objeto de ciência, não é questão pacífica, -regra contidas em leis, decretos, portarias, resoluções; em suma, um mas problemática. Mesmo para os que afirmam a existência de uma ciência jurídica, conjunto de normas jurídicas no sentido contemporâneo da expressão; determinar qual é objeto desta ciência provoca infindáveis discussões: são normas? 2. Certo tipo de conhecimento; São relações sociais? É um valor chamado Justiça? São princípios jurídicos? É apenas 3. A situação de uma pessoa em uma determinada relação (situação subjetiva). uma linguagem? Dessas discussões, vocês terão as primeiras notícias noções em Introdução ao Estudo do Direito, retomando tal estudo, em profundidade, quando São três 'coisas' diferentes, designadas pelo mesmo vocábulo; isto cria um estudarem Filosofia do Direito. problema de cuja existência devemos ter plena consciência. Sempre que ouvirmos Esses comentários preliminares mostram um primeiro problema com qual ou virmos, precisamos ter absoluta clareza sobre seu significado no contexto em que precisamos nos defrontar: temos de falar sobre direito sem saber exatamente que está empregado. ele é. A única forma de superar esta dificuldade é nos valermos de uma noção provi- Em outras línguas, ou o problema não ocorre, ou é atenuado. A palavra inglesa sória. Pois bem, no que se refere àquele primeiro sentido, ou seja, a nosso objeto de law vale para designar que chamamos de direito no sentido objetivo, de conjunto estudo, assentemos: a palavra direito será empregada provisoriamente para designar de normas, enquanto right (como em 'civil rights') denota uma situação subjetiva um conjunto de normas obrigatórias, reguladoras da vida social, contidas em normas (direito no sentido subjetivo, de meu direito, seu direito etc.). Em alemão, a palavra jurídicas em seu mais amplo sentido: desde princípios jurídicos constantes das cons- Recht basicamente significa direito enquanto objeto de conhecimento, ao passo que tituições, até cláusulas contratuais. Por ora, não vamos tomar partido sobre a quali- Rechtwissenchaft (algo assim como 'direitologia') significa exatamente 'ciência do dade dessas normas, nem questionar se são espontâneas ou artificiais, se provêm direito'. Outros idiomas além do inglês e do alemão apresentam termos diferentes da natureza ou se são criadas, se são apenas as editadas pelo Estado ou as nascidas para estas diversas acepções que, em português, chamamos sempre de direito. Justamente porque, entre nós, uma única palavra denota coisas distintas, crian- 1. Quando a palavra 'Direito' vier grafada com maiúscula, refere-se à Ciência Jurídica. Nas do algumas dificuldades, a superação delas é uma das finalidades de nossa disciplina; demais acepções, virá grafada com minúscula.22 PRIMEIRAS NOÇÕES RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 23 espontaneamente das relações humanas etc.; enfrentaremos tais problemas mais adiante, no decorrer do curso. Vamos apenas assentar provisoriamente que estamos CONTEÚDO DA DISCIPLINA falando de normas de conduta, seja qual for sua origem ou natureza. No entanto, não são quaisquer normas: a norma que determina urbanidade e respeito no tratamento Embora haja temas constantes e recorrentes em todos os livros de Introdução para com os outros, por exemplo, não tem caráter jurídico, e sim ético; logo, não ao Estudo do Direito, o conteúdo da matéria, a ênfase maior em alguns temas em detri- se configura como norma de direito. Interessa-nos, no momento, abordar apenas mento de outros e a maneira de organizá-los, revelam uma opção de parte de quem a normas jurídicas, isto é, aquelas cujo cumprimento é obrigatório. Por isso nossa noção as ministra. A linha seguida em nosso curso não foge à regra: alguns temas serão mais provisória de direito (objeto) é a de um conjunto de normas obrigatórias, controlado- profundamente discutidos, outros menos, e haverá sempre um estímulo à reflexão criti- ca. Nosso estudo compreende duas grandes partes, com a distribuição dos assuntos em ras da vida social. Talvez alguns de vocês perguntem: e aquele sentido (3) referente à situação duas grandes unidades: Elementos de Propedêutica Jurídica e Noções de Teoria Geral subjetiva de uma pessoa que invoca uma possibilidade de agir de maneira garantida do Direito. A primeira parte abrange algumas noções, ainda muito elementares, de filosofia geral e jurídica: epistemologia jurídica, ontologia sentido estrito e axiologia (sentido arrolado sob número 3, ainda há pouco)? Quando afirmo: "faço algo porque jurídica. Embora sejam elementares, são muito importantes para estimular uma visão tenho antes de tudo penso em uma situação minha; pelo mais densa do direito, uma percepção menos aferrada ao tecnicismo estéril, acrítico e menos, não estou aludindo a normas. Esse sentido estaria sendo desprezado? divorciado da vida e de nossa realidade. A segunda parte, por sua vez, compreende a Evidentemente, não. Se atentarmos bem para as coisas, verificaremos a possi- discussão de alguns temas fundamentais de Teoria Geral do Direito. bilidade de reduzir ao menos por enquanto o sentido arrolado sob número 3 (situa- Dentro em pouco, voltaremos a isto. No momento interessa apenas mostrar ção subjetiva) ao sentido arrolado sob o número 1 (conjunto de normas obrigatórias). que nesta primeira unidade, por mim chamada de Elementos de Propedêutica Jurídica, Notem: quando alguém afirma poder fazer alguma coisa porque a isto tem direito, iniciaremos do marco zero, sem pressupor, da parte de vocês, qualquer estudo anterior, se este alguém sabe do que está falando, está perfeitamente consciente de que sua qualquer base preliminar. Começaremos falando sobre os diferentes graus ou níveis maneira de agir de maneira garantida, de modo que a ação de quem o procura impedir de conhecimento, desde vulgar, ou comum, até filosófico. Afinal, se pretende- será neutralizada, tem sua origem em uma ou mais normas jurídicas. Posso caminhar mos participar da discussão sobre o caráter científico ou não do direito, necessitamos livremente pelas ruas porque as normas jurídicas, direta ou indiretamente, garantem a começar por alguma noção de ciência ou, o que é a mesma coisa, saber o significado mim tal possibilidade; tenho direito a assistir às aulas porque o estatuto da universida- de conhecimento científico. Discutiremos, em seguida, os principais métodos para de e outras regras também o asseguram; se sou credor de alguém, vou receber o valor atingir tal conhecimento, refletindo um pouco sobre o problema do método adequado de meu crédito no momento apropriado, pelos mesmos motivos. Consequentemente, para a chamada ciência do direito; procuraremos mostrar também que o conhecimento se minha possibilidade de agir garantidamente repousa nas normas, ao menos momen- jurídico não pode se desenvolver sem considerar suas relações com outras ciências, taneamente posso reduzir o terceiro sentido da palavra direito àquele primeiro. Assim, particularmente as sociais; com o estudo destes e de outros temas, teremos nossas objeto de nosso estudo será um conjunto ordenado de normas aí incluídos os prin- primeiras noções de epistemologia jurídica. Nossa perspectiva, portanto, estará volta- cípios jurídicos e tal será nosso objeto provisório (insisto muito neste ponto), até o da mais para a ciência, e não para o objeto da ciência, pois a epistemologia discute a momento adequado de questionar e discutir essa perspectiva. teoria de uma ciência em particular ou de um ramo específico do conhecimento. Já o ramo do conhecimento humano voltado ao estudo de tais normas, como Também sem pressupor da parte de vocês qualquer conhecimento anterior, elas se relacionam, que princípios obedecem etc., é a ciência do direito, ou pura e teremos algumas noções de ontologia sentido estrito; nesse ponto, vamos buscar uma simplesmente Direito (ciência jurídica). Um dos papéis a ser desempenhado por visão panorâmica dos objetos em geral e mostrar as diferentes e principais tentativas nossa disciplina Introdução ao Estudo do Direito é exatamente este a que já nos de determinar a natureza do objeto de nosso interesse, ou seja, o direito. Dedicaremos, ainda, nossa reflexão ao estudo dos valores, e com isto terão suas primeiras informa- estamos dedicando: determinar os diferentes sentidos da palavra 'direito' e discutir os primeiros problemas que cada um deles suscita. Outras finalidades serão vistas ções sobre axiologia jurídica. durante curso. Fixada nossa noção provisória e sujeita a complementações futuras, A segunda parte do programa envolve temas de um setor do conhecimen- dediquemo-nos a um panorama do conteúdo da disciplina. to jurídico a que se costuma denominar Teoria Geral do Direito. Vocês conhecem,24 PRIMEIRAS NOÇÕES intuitivamente e por sua experiência comum de vida, os diferentes ramos Os problemas relativos às nossas relações privadas com outras pessoas compras que efetuamos como simples cidadãos, relações de parentesco, os bens que possuímos eo destino deles após nossa morte, o casamento, a família e diversos outros aspectos de nossa vida privada são regulados pelo Direito Civil. Sabem também que determina- dos tipos de ação, como o homicídio, o roubo, o furto, o estupro, o estelionato etc., são rigorosamente proibidos, e quem os pratica está sujeito a sofrer penas de diferentes graus de severidade. Tudo isso é regulado por outro ramo do direito, o Direito Penal. PLANOS DO Não ignoram que o governo arrecada impostos para poder cumprir suas gerando assim um grande número de relações entre nós e o próprio governo, neste CONHECIMENTO contexto chamado vulgarmente de 'fisco'. Tais relações são estudadas pelo Direito Tributário. Por fim, pessoas relacionam-se nas posições de empregado e participando assim de um tipo particular de relação jurídica, a relação de emprego, inteiramente regulada pelo Direito do Trabalho. Por certo, já ouviram falar também em Direito Comercial, Direito Financeiro, Direito Processual Civil e Penal, Direito Internacional Privado e outros. Em suma, a chamada Ciência Jurídica está dividida em várias disciplinas que corresponderiam a INTRODUÇÃO AO TEMA diversos ramos ou setores do direito positivo. Pois bem, há determinados temas e problemas específicos de cada um Que é conhecer? Conhecer é trazer para nossa consciência algo que sabemos ou que destes ramos jurídicos. Outros há, no entanto, como as noções de norma jurídi- supomos fora de nós, ensina Miguel Reale em seu livro Introdução à Filosofia (1989). ca, de fonte do direito, de situação jurídica subjetiva, de relação jurídica e outros, Realmente, conhecer é simplesmente isso. Até há pouco, eu não conhecia nenhum comuns a todas as disciplinas jurídicas. O estudo destes temas, que interessam tanto de vocês. Agora conheço, embora de forma apenas superficial, com um tipo bastante ao Direito Constitucional como ao Civil, tanto ao Direito Penal como ao Comercial elementar de conhecimento; ao vê-los sentados diante de mim, trago para minha cons- e ao Processual, integram a chamada Teoria Geral do Direito, assunto da segunda ciência a silhueta de cada um, a partir da experiência, de um conhecimento meramente parte de nossos estudos. Quando chegarmos a estes assuntos, no final do ano, teremos sensível. Caso os veja na rua, por exemplo, eu os reconhecerei. Vocês, neste caso, são percorrido um largo e espero interessante percurso. Vocês não terão mais, sobre o 'objeto' de meu conhecimento, e eu, sou 'sujeito' que os conhece. Daí a afirmação Direito, a visão do leigo, do homem comum: já terão um conhecimento diferenciado de todos os estudiosos de teoria do conhecimento: conhecer implica sempre a existên- cia de dois termos: um sujeito (aquele que conhece) e um objeto (0 que se conhece). de nosso objeto. Concluída a visão panorâmica do conteúdo de nosso trabalho, podemos iniciar A estrutura etimológica dessas duas palavras ajuda-nos a bem estudo do primeiro ponto do programa, que tem por título Planos do Conhecimento. -las: ob significa, em latim, 'em frente jectum, ou ob jectum: ou lançado diante Portanto, objeto é aquilo que está diante de nós, que jaz diante de um sujeito, disponível para ser conhecido. Já subjetus tem vários significados posto debaixo, 'submetido' etc. sugerindo sempre a ideia de apreensão e interiorização de algo: aquilo que está sob (nós, os que conhecemos). Há profundas relações entre o sujeito que conhece e 0 objeto conhecido, assun- to estudado pela filosofia do conhecimento (gnosiologia) e das ciências em particular (epistemologia), mas não é o caso de desenvolver, aqui, reflexões dessa26 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 27 No momento, basta fixar que o objeto é apreendido em sua interferência do sujeito que, de certa maneira, o constitui. Não aprofundaremos com a é conhecimento comum ou vulgar, adquirido por tradição oral e pela prática diutur- correlação entre sujeito e objeto. Por ora, interessa-nos principalmente sublinhar essa que na, sem os critérios próprios do conhecimento embora não seja errado, conhecimento tem formas e graus diferentes, exibe diferentes planos. mostrando-se correto na maior parte das vezes, falta-lhe para nos valermos de uma Há, primeiramente, o conhecimento comum ou vulgar, mas há também expressão feliz a "certeza da certeza". Esta é própria do conhecimento científico. conhecimento científico e ainda filosófico. De pronto, enunciamos três planos de conhecimento. Esses três níveis ou tipos são os usualmente encontrados nos manuais introdutórios de filosofia. Há, porém, outras formas e tipos de conhecimento não CONHECIMENTO CIENTÍFICO redutíveis exatamente a nenhum daqueles três, como veremos mais adiante. Quais seriam então as características do conhecimento científico? Responder a Iniciemos pelo conhecimento vulgar, em contraposição ao científico. Como indagação seria dar significado de ciência, o que constitui um dos maiores sobre desa- o próprio nome indica, conhecimento vulgar é aquele que possuímos sobre os diver- esta da epistemologia. Como muito bem lembra Tércio Sampaio Ferraz (1980) natureza sos aspectos da vida por uma espécie de aquisição espontânea, não programada nem fios conhecimento científico, não há um critério único que determine a extensão, a o submetida a métodos. Todos nós temos noções elementares de Física, de Química, o caracteres desse conhecimento. Outro célebre autor, cuja leitura recomendo para deno- de Biologia, de Direito, noções absolutamente necessárias para podermos viver. Mas e os salienta: será sempre questão de decisão ou de convenção saber o que deve ser 55). a aquisição de tais conhecimentos foi ocorrendo por força de nossa experiência, de minado futuro, ciência e quem deve ser chamado cientista. Refiro-me a Karl Popper (1974, p. cien- nossa vivência, são resultado da experiência dos outros, que nos transmitiram o apren- Algumas dessas convenções sobre as características do conhecimento e dido por resultam da herança cultural e da tradição. são aceitas pela maior parte dos estudiosos, sendo interessante reproduzi-las estudá-las tífico aqui sem a pretensão de dar como definitivamente resolvido o problema. Eis as principais características do conhecimento científico: CONHECIMENTO VULGAR OU COMUM a) Ter objeto determinado; b) Ser um conhecimento conceptual ou tipológico; Muito antes de conhecermos as propriedades do calor, sabíamos do perigo de c) Ser adquirido mediante método ou métodos; d) Ser um conhecimento organizado, configurando um sistema ou sistemas. deixar a mão exposta a uma chama; percebemos a nocividade de certos alimentos sem termos estudado sua natureza e o funcionamento de nosso organismo; mesmo E o objetivo ou finalidade da ciência ou do conhecimento científico é trans- não conhecendo juridicamente o direito penal, sabemos bem da punibilidade de certas mitir informações verdadeiras, mediante enunciados, sobre as constatações feitas um a ações tidas como criminosas e também sabemos da possibilidade de nos defender respeito do objeto eleito para estudo. Recapitulando, temos: para considerarmos perfei- legitimamente, quando atacados. Em suma, temos uma vasta soma de conhecimentos determinado conhecimento como científico, devemos identificar um objeto fazer comuns, adquiridos na medida de nosso desenvolvimento e de nossas necessidades, tamente determinado; a aquisição do conhecimento sobre este objeto há de se integrantes do chamado conhecimento vulgar. mediante método ou métodos; há de ser um conhecimento conceptual ou tipológico; de Tal conhecimento não é adquirido mediante métodos, não é submetido à deve prestar-se a ser organizado e ordenado de maneira sistemática, em forma comprovação rigorosa, nem é organizado de maneira a formar sistemas, ou apreendi- sistema, com suas implicações. Cada uma dessas características merece tratamento do mediante conceitos precisos. Isso não significa que se trata de um conhecimento específico. errôneo, advertem-nos os autores. Um ótimo exemplo refere-se aos pescadores de nossos litorais. Quem já conviveu com eles sabe perfeitamente de sua habilidade em prever o comportamento do mar, a possibilidade de vendavais, as variações das marés, Objeto determinado a direção das correntes marinhas, as maiores ou menores possibilidades de sucesso Uma ciência, qualquer que seja, determina uma parcela da realidade à qual na pesca etc. Trata-se de um conjunto de conhecimentos adquiridos de extraordinária dedicar-se. Essa parcela da realidade é objeto da A Psicologia, por exemplo, eficiência, como já tive ocasião de verificar muitas vezes. Não obstante, o que há aqui28 PLANOS DO CONHECIMENTO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 29 estuda os fenômenos da chamada alma humana e suas manifestações mentos, impulsos, comportamentos etc.). Tem, pois, um objeto perfeitamente delimi- senti- sociedade que justificam ou explicam aquela tomada de posição normativa. A esses a tado. A Antropologia, por sua vez, estuda também o homem, mas de outro ângulo, diferentes enfoques costuma-se dar o nome de objeto formal. Mais um exemplo: exami- melhor dizendo, de outros ângulos, pois tanto pode ocupar-se dos caracteres biológi- ou, agressividade humana, enquanto tal, mostra-se como um objeto material, a ser cos e físicos dos tipos humanos, como também da transformação e evolução de cultu- de diferentes formas: a Biologia poderá interessar-se pelas causas fisiológicas ras com todos os seus conteúdos. Uma vez mais nos defrontamos com determinação nado comportamento agressivo; a Psicologia o examinará como uma manifestação Essas do objeto. emocional; do e o sociólogo talvez se interesse pelas causas sociais do das diferentes formas de examinar mesmo objeto material são os objetos formais Com apenas nosso conhecimento comum, pensemos nos objetos de algumas ciências que nos são familiares: a Biologia delimita como objeto de seu estudo diferentes ciências. seres vivos em geral, enquanto a Mineralogia ocupa-se dos minerais. A Química teria por objeto a matéria, mas sob o ângulo de suas transformações, enquanto a Física Conceito e tipo se ocupa da matéria abstraindo de suas transformações, pois se volta mais para as Muitos autores dizem ser o conhecimento científico um conhecimento concep- propriedades dos corpos e das leis que comandam. Tais ramos do conhecimen- pois procura apreender os objetos conceituando-os. Mas o que seria essência conceituar? de to têm, portanto, objeto determinado, e isto é próprio do conhecimento científico; tual, lógica tradicional nos informa ser o conceito a simples apreensão da aí conhecimento vulgar não tem essa preocupação, assim como o conhecimento filosó- A coisa. E logo nos esclarece a respeito destas duas importantes expressões e fico, como veremos adiante. alguma colocadas em destaque (simples e essência). A apreensão é simples porque apenas Seria caso de abrir um parêntese para indagar: e o Direito (a Ciência do tão somente trago para minha consciência o que o objeto é, sem dele afirmar ou extraí- negar Direito), tem objeto determinado? Evidentemente a resposta a essa pergunta é essen- coisa alguma. E trata-se de apreensão da essência porque em virtude do conceito cial para quem queira saber se há ou não uma ciência jurídica. Já sabemos nossa mos mentalmente a coisa de sua aparência singular ou individual (Puigarnau, 1969). resposta provisória: sim, ele tem, e esse objeto seria um conjunto coerente de normas Examinemos um pouco tais informações. É clássico, nos livros de lógica de caráter obrigatório, vigorantes nas sociedades humanas. Chamemos a essa nossa formal, como exemplo de conceito, o de homem (no sentido mais geral, de ser huma- resposta provisória de hipótese. Mas será que não existem outras possibilidades de no). Que é 'homem'? A resposta vem imediatamente: animal racional. Esta é uma considerar objeto daquilo que usualmente chamamos de Direito? Os sociólogos simples apreensão, pois apenas traduz mentalmente o que, para a minha consciência, não estariam mais preocupados com as relações e fatos sociais como objeto da ciên- significa 'homem'. Não faço a respeito do ser humano qualquer afirmação ou negação; faz cia jurídica? E os adeptos do direito natural, não veriam as coisas sob outro prisma? somente apreendo o que ele seja. E o apreendo em sua essência, isto é, naquilo que resta claro que deveremos submeter aquela hipótese a muitas provas e contra- com que o objeto apreendido seja ele e não outro. Para isso, mediante um complicado provas, durante semestre. processo denominado abstração, elimino do objeto todas as características aciden- É útil ainda lembrar uma distinção, feita por diversos autores, entre objeto tais, quer dizer, aquelas características cuja falta não lhe altera a realidade. Buscando formal e objeto material da ciência. Objeto material é aquela parcela da realidade conceituar homem observo a multidão de seres humanos: vejo pessoas do sexo mascu- que se coloca diante de nós, para ser estudada, verificada, apreendida. Assim, duas ou lino e do feminino, crianças, moços, adultos, velhos; percebo pessoas brancas, negras, mais ciências podem ter o mesmo objeto material: se o jurista tem por objeto o direito, amarelas; constato seres humanos altos e pequeninos, como os pigmeus. Sexo, idade, isto não impede que sociólogo também eleja para suas pesquisas, assim como o cor da pele, estatura, cor dos cabelos, voz etc. são características acidentais, porque a cientista político. Nesse caso, direito seria o objeto material de todas estas ciências. falta de qualquer delas não faz com que ser humano deixe de sê-lo. Então podemos enfoque dado por cada uma delas será próprio e específico: o jurista abstraí-las (do latim abstrahere, separar, apartar, extrair) para a formação do conceito possivelmente prestará mais atenção ao aspecto normativo do direito, do fenômeno de homem. Verifico, no entanto, a impossibilidade de abstrair a racionalidade unida à enquanto sociólogo preocupar-se-á mais com as razões pelas quais ocorreu animalidade, pois se o fizer já não estou mais diante de um ser humano. Estas carac- esta e não outra solução normativa, com as causas desta ou daquela regra jurídica etc.; terísticas não são acidentais, mas essenciais. Somente elas entram na conceituação. finalmente. cientista político buscará explicar as relações de poder existentes na A ciência persegue, como prioridade, conceituar os objetos de que se ocupa.30 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 31 busca da essência das coisas, nem diferença entre efetuar essência e acidente etc., da Convém lembrar que a da discussão sobre a relevância e a real possibilidade raras vezes a realidade estudada oferece uma tão larga variedade e autor um dinamismo a respeito filosofia grega. Não é pertinente possível essa discussão nesse remonta à Não se torna impossível conceituá-la. Ou como anota um Jellinek to. Importa recordar tais noções apenas porque tanto processo de abstração momen- tão intenso ouvirão que falar principalmente em Teoria Geral do Estado, Georg não operacional, a conceituação são características fundamentais nos níveis do conhecimento como e da do qual eventualmente obtido, de tão genérico, tão amplo, torna-se realidade impor- linguagem; não é caso, no entanto, de tornar absolutas essas conceito fins de reflexão. É o que ocorre, por exemplo, com uma das formas de Retomando: se perguntarmos a uma pessoa qualquer, leiga em Biologia, inútil para jurista contemporâneo: o Estado. A extrema variedade políticas exis- é um besouro, obteremos respostas mais ou menos imprecisas e vagas: um inseto que tantíssima para notável o diferença existente entre as inúmeras organizações estudiosos deste preto, que produz um zunido, voa à noite em torno de lâmpadas etc. Essa ideia Estado no e a decorrer da história impossibilitam sua conceituação. Os risco de falsear própria do conhecimento vulgar, engloba características acidentais e vaga, tentes chamado Estado não podem trabalhar com conceitos, sob consequente meramente descritiva e, como foi dito, imprecisa. Não é um conceito. Se, no é fenômeno realidade ou ter em mãos algo não operacional pela sua generalidade e formulo a mesma indagação a um biólogo, ele dirá algo assim: "trata-se de um inseto vacuidade. a Valem-se então, em lugar de conceitos, de tipos. Antes de prosseguir, é importante advertir sobre os muitos significados há signi- do da ordem coleóptera, com asas membranosas, revestidas de uma espécie de estojo 'tipo' nas ciências em geral e também no conhecimento jurídico; significar ou cobertura córnea (élitro) com a qual produz um zunido biólogo vocábulo próximos, análogos, o que dificulta sua compreensão. 'Tipo' pode apreen- conceituou animalzinho, pois seu conhecimento dele não é vulgar, mas científico. ficados o agrupamento em categorias (tipos de clima, por exemplo); ou, como crimi- Mais exato seria dizer que biólogo explicitou o conceito de besouro. apenas em Direito Penal, a descrição precisa de uma ação humana considerada ou de Do mesmo modo, se indagarmos a uma pessoa rústica o que é um triângulo, talvez ela nem se arrisque a exprimir-se com palavras e apenas desenhe no ar uma qualquer nosa; outra coisa; ou ainda, certo método de procedimento, o método tipológico, derão pode designar também modelos ideais (tipo ideal) de comportamento figura: ela tem apenas uma imagem do objeto ideal. Um geômetra, por sua vez, nos empregado largamente em Sociologia por inspiração de Max Weber. responderá de pronto: "triângulo é um polígono com três lados". E só: ter ou não lados Interessa-nos, neste momento, apenas um sentido para o vocábulo: aquele obti- iguais é acidental, como também o é ter ângulos iguais, e assim por diante. Ao afirmar do por contraposição ao de conceito. Bom advertir que esse sentido é diferente daque- de três lados" o matemático em questão nos forneceu o conceito de triângulo. le que em breve estudarão em Direito Penal. Questione uma pessoa leiga em direito sobre o que seja crime. A resposta fará Quando disse anteriormente que o conhecimento científico pode ser concep- referências a uma ação má, antissocial, perversa, punida pela lei etc. Se, no entanto, tual ou tipológico, desejei apenas enfatizar que quando o objeto de estudo não é perguntarmos a um jurista, ele nos responderá tratar-se de uma "ação típica, antijurí- apreensível conceitualmente, a ciência vale-se de tipos. Esses tipos, como observa um dica e culpável" ou, dependendo de sua orientação teórica, "fato típico e jurista contemporâneo, ocupam, quanto ao grau de abstração, uma posição interme- E logo nos informará: "este é o conceito formal de crime". Se eu abrir um livro de diária entre conceito abstrato e concreto. Direito no capítulo sobre contratos, encontrarei lá o conceito de contrato de Tentemos explicar melhor: a experiência imediata que temos das coisas é uma fundamentado. aliás, na própria lei (art. 565 do Código Civil): contrato pelo experiência concreta, ou seja, do concreto: meus sentidos percebem este homem qual uma das partes se obriga a conceder à outra, por tempo determinado, ou não, uso e chamado Marcelo, não o homem; este besouro preto que voa ao redor desta lâmpada, gozo de uma coisa não fungivel, mediante certa retribuição. não besouro; tomo contato com esta norma jurídica, que pune aborto, não com a Mesmo sabendo, pela experiência, o que é locação, leigos evidentemente norma jurídica. No entanto, só com essa percepção do concreto não há propriamen- Bastam nunca forneceriam este conceito preciso, dominado por qualquer técnico em direito. te conhecimento científico. Então, o sujeito passa a buscar, em cada coisa concreta afirma os exemplos supracitados para que percebamos o que se quer dizer quando se que cai sob seu campo de reflexão, características constantes, relações permanentes no conhecimento vulgar. ser conhecimento científico um conhecimento conceptual, coisa inexistente essenciais -, desprezando transitório, inconstante acidental. Assim, como vimos, estaria em erro quem conceituasse o homem como um animal que anda ereto, Nem sempre é possível especialmente nas chamadas ciências humanas, ou que incluísse a cor preta para conceituar besouro. Quando chegamos ao conceito um conceito dos objetos de com rigor e a precisão reclamados pela lógica. (de homem, de besouro, de triângulo, de norma jurídica, de energia, de calor etc.)32 PLANOS DO CONHECIMENTO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 33 estamos diante de algo abstrato: Homem, O Besouro etc. Trata-se, obviamente, de abstrações. economia. Um último exemplo: para tentar compreender as circunstâncias que político leva- Não nos servimos, para pensar e refletir, de coisas concretas, coisa surgimento do chamado Estado Liberal de Direito, o notável cientista tipos Como pitorescamente disse alguém, é impossível metermos em nossa cabeça alguma ram ao brasileiro Roberto Mangabeira Unger tratou comparativamente alguns o entendi- coisa concreta. Pensamos com conceitos. Mas, como ficou dito, às vezes isso não e jurista direito e de sociedade, com os quais trabalhou. Exatamente para facilitar abstração, possível, então nos valemos de tipos. Tipificamos a parcela da realidade que estamos é de do leitor, adverte que trabalhará com 'tipos' em diferentes níveis de categorias mento "descrições simplificadas de um fenômeno histórico singular, com Isso facili- analisando. Para a obtenção do tipo, o processo é análogo ao da obtenção do conceito: a com gerais" representativas de formas recorrentes de direito e assim por diante. ta nosso trabalho de compreensão do que venha a ser tipificar. abstração. Esse processo, segundo o importante jurista, Como teremos ocasião de verificar mais tarde, o conhecimento jurídico trabalha um muito frequentemente: de direito subjetivo, por exemplo, não se fornece expressão; consiste em separar, das formas concretas de que se trate, certas propriedades com tipos dada a variedade de situações compreendidas usualmente por essa a mesma gerais, relações ou proporções, designando as com um nome. Mas, enquanto conceito, tipos, como estudaremos no momento apropriado. Penso dar-se notória que 0 pensamento por conceitos abstratos condensa tais propriedades em notas distintivas isoladas e a partir destas notas forma, por eliminação, conceitos cada formam-se com o problema da norma jurídica: mais apropriado é tipificá-la, dada situações a e vez mais gerais, 0 pensamento por tipos mantém unidas as notas distintivas do tipo coisa teórica dos esforços de conceituação. Assim ocorre com outras fixar a e serve-se delas unicamente para descrever 0 tipo como uma nota distintiva do todo expressões insatisfação de que se vale o conhecimento jurídico. Por isso, é muito importante estudos. (Larenz, 1989, 561 e grifo meu). noção de tipo, pois dela nos iremos valer durante boa parte de nossos Ou seja: embora abstraindo, eu renuncio à tarefa de chegar àquela catego- Método ria de grau máximo de abstração que é conceito; por abstração, separo algumas características distintivas, algumas relações, algumas propriedades diante da multidão Estudaremos em pontos específicos, tanto objeto quanto método. No momen- de objetos, em certo sentido convencionando o que será levado em conta. tipo, interessa-nos mostrar a impossibilidade de produzir conhecimento científico sem às assim, funciona como um modelo para estudo de certas realidades muito mutáveis. método. to, Esta também é uma palavra cujo emprego é marcado por ambiguidades: Diferentemente do que ocorre quando se conceitua, não se busca abarcar todo o objeto vezes significa formas de pensar a realidade; outras, o conjunto de procedimentos cien- necessários para pesquisar o objeto; outras ainda designa as técnicas de trabalho para obter, por abstração, suas notas essenciais (nos exemplos, as de homem, besouro, tífico. Neste contexto, não empregaremos a palavra 'método' nem em um sentido triângulo, crime, locação etc.). Em vez disso, cientista ou estudioso seleciona que tão lato, como o faz, por exemplo, Miguel Reale, que inclui até mesmo os chamados vai examinar para obter um tipo. processos intuitivos, nem tampouco em um sentido demasiadamente estrito. Jellinek nos dá seu exemplo quanto à realidade denominada Estado: não se A cada ciência corresponde o emprego de uma ou mais formas ordenadas e trata de buscar uma conceituação de Estado e que, por tratar-se de conceito, teria de disciplinadas de pensar a realidade objetiva que se estuda. A essas formas de apreensão estender-se a todas as formas possíveis de Estado, presentes e passadas, e também racional e disciplinada da realidade damos nome de método métodos de abordagem em sua variedade no trata-se, segundo ele, de selecionar aqueles Estados que -, como veremos proximamente. Assim, um naturalista Darwin, por exemplo em possuem um fundo histórico comum, pesquisando as formações políticas que constituem esse sua célebre viagem a bordo do Beagle, observava os pássaros, os répteis, enfim inúme- fundo comum (Jellinek, 1970, 25 e ss). Então, posso estabelecer algumas características ros animais, examinava e recolhia amostras de rochas e outros minerais, atentava para para o Estado Liberal formado depois da Revolução Burguesa, construindo um mode- a conformação geológica dos locais que visitava. Não era, no entanto, uma observação lo de análise: aí temos um exemplo de tipo. Larenz fornece outros exemplos de fácil espontânea, como a que qualquer um de nós faria se estivesse viajando em sua compa- compreensão: "economia de mercado" e "economia dirigida" são dois tipos utilizados nhia. Ele procurava encontrar características constantes naqueles animais e naquelas por cientistas políticos e não há um conceito rígido do que sejam uma amostras de terreno, com objetivo de atingir ou confirmar suas proposições de caráter ou outra coisa, mas é possível estabelecer tipos ou modelos de comparação e análise, geral. Estava pensando indutivamente, o que é um tipo de método (de abordagem). apresentando algumas características diferenciadoras destes dois padrões ideais de34 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 35 Claro está que leis aquelas observações (as da teoria de diferentes objetos particulares. em formulação de gerais evolucionista), não eram feitas ao busca da b) e relações (estrutura) que estabelecem as conexões entre e estrutura. os elemen- destinavam-se a confirmar um ou afastar hipóteses já formuladas pelo grande acaso. mas regras tos integrantes. Então, em qualquer sistema, temos elementos Se observarmos matemático, perceberemos coisa diversa: em hipóteses são verificadas mediante a deduções feitas a partir de princípios geral suas formam um sistema. O mesmo Tércio Sampaio móveis Ferraz veis e bastante gerais, sem necessidade de verificação Seu Elementos o feliz isolados recurso não didático calcado em uma analogia, a são de vários apenas elemen- de outra natureza, comumente chamado de racional-dedutivo. A isso tudo método nos fornece uma mesa, uma lousa etc. colocados em um depósito: todos esses mos; no momento, é importante apenas salientar fato de a produção retornare- carteiras, alguém dispõe como aqui, nesta sala, relacionando perceber o sempre submetida a métodos rigorosos, em contraste com conhecimento comum. estar tos. Se, no de acordo entanto, com regras, os temos uma sala de aula; passamos às então relações a que elas perfeitamente possível adquirir conhecimento vulgar mediante métodos, É objetos ordenado como um sistema. A essas regras, bem como elementos (repertório, também de forma espontânea, inconscientemente. Porém, no conhecimento empregados conjunto damos o nome de estrutura. Portanto, temos os sistema. há 0 emprego consciente e disciplinado do método. Veremos mais adiante que científico obje- estabelecem, para Ferraz) e a estrutura como componentes de todo e qualquer valer de um exemplo retirado da Biologia, especificamente mamífe- da to condiciona, de certa maneira, emprego deste ou daquele método. Podemos elementos nos são os diversos animais, vertebrados e invertebrados, biólo- Zoologia: os insetos, todos em um grupo aparentemente caótico. Quando dividindo-os o Leis e princípios científicos. ros, peixes, aves, irá 'organizá-los' de acordo com uma convenção (regras), (inver- Conhecimento sistematizado go decide os que possuem estrutura óssea (vertebrados) e os que não a possuem rela- entre que já há uma primeira percepção em forma de sistema. Ao prosseguir (estrutura), Fala-se que 0 conhecimento científico é sistematizado, ou seja, organizado tebrados), cionando os elementos, sempre de acordo com regras que nos explicita animais em forma de sistema. Que vem a ser sistema? É próprio de nossa natureza procurar orde- em continua seu trabalho de sistematização classificando, por exemplo, os taxo- nar as coisas, os objetos, quando estes se nos apresentam de forma caótica, desordena- espécies, filos, famílias, e assim por diante. Trata-se do procedimento outras. da: procuramos perceber tudo de forma ordenada, acreditamos que o próprio cosmos nômico, gêneros, uma forma singela de apreender sistematicamente e que não exclui está harmoniosamente ordenado, arranjado. Quando descrevemos ordenadamente As classificações são próprias do conhecimento científico. Por essa razão, uma parcela de realidade, estamos procurando sistematizá-la. Para o pensamento muitos afirmam tratar-se de um tipo de conhecimento classificatório. Ordenar, classi- ocidental, essa ideia de sistema, de sistematização é muito cara. ficando, patenteia a sistematização, própria do conhecimento científico. Repetindo: que vem a ser sistema? Como também a revela o fato de o conhecimento científico buscar exprimir as Um sistema é uma forma de apreender de maneira ordenada, algo complexo. relações entre os fenômenos, mediante leis. O enunciado das leis pelas quais deter- Um sistema pressupõe diversidade de elementos e princípio(s) ordenador (es). Esses minada ciência descreve a realidade também integra o conhecimento sistemático. A elementos no entanto, guardam afinidades. palavra 'lei' não aparece aqui em seu sentido jurídico, é claro, mas em outro: de de Parsons sobre sistema: Duverger (1975), falando sobre sistemas políticos, cita e adota a famosa noção um enunciado que manifesta uma relação constante e geral entre fenômenos. Quando se fala em lei da gravitação universal (matéria atrai matéria na razão direta de suas massas e inversa do quadrado de suas distâncias), quando se fala em leis da genética, Quando uma um conjunto de fenômenos interdependentes (elementos) faz ele coordenação suficientemente definida e no tempo, pode-se dizer aparecer ou em lei da oferta e da procura, trata-se de formulações sobre constâncias e relações possui uma estrutura e que é proveitoso tratá-lo como um sistema (p. 17). que necessárias, descobertas pela ciência. Nesse sentido especial em que a palavra lei é utilizada, poderíamos, ou não, Assim, a) diversos em um sistema. qualquer que seja, podemos distinguir: identificar leis da ciência jurídica? É evidente que a ciência jurídica ocupa-se de leis, nome elementos que integram e aos quais Tércio Sampaio Ferraz mas em outro sentido, diferente do utilizado agora. que se quer saber é se a ciência elementos: de repertório (1988, p. 164 e vamos chamá-los apenas de jurídica pode traduzir, em enunciados gerais, certas constâncias no mundo jurídico ocorrentes; se a ciência jurídica (e não o direito enquanto objeto, conjunto de normas)36 PLANOS DO CONHECIMENTO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 37 genética, pode fornecer da oferta enunciados e procura como etc. a lei da gravitação, a da dilatação dos corpos, as da si mesmos e, portanto, é impossível prová-los. máximo mas que não se prová-los. pode fazer Não é É claro que não. A natureza especial do Direito não se compadece. por explicar seu significado para alguém que não formal. o conheça, adapta a esse tipo de enunciado e nem dele necessita. Mesmo as ciências do humano não que não tenham por objeto normas, mas sim outros fenômenos, como a obstante, são ciências pontos da de natureza, partida para vigora a lógica (parcialmente) o chamado princípio e é impossível da causali- haver a Ciência Política, a Teoria Geral do Estado -, não podem fornecer leis análogas dade, segundo de importantissimo princípio princípio. Em o qual nada existe que não seja efeito de uma de causa todo um ramo do conhe- da Física, da Biologia, da Química, das ciências da natureza como um Quando às muito podem fornecer leis de tendência, e não de necessidade: não podem cimento efeito sem causa. Trata-se bastam um estes exemplos para sabermos o que é fundamen- humano.² foi dito Por anteriormente, ora, os princípios são verdades ou juízos de certeza a como fisico ou que se um metal for aquecido, irá dilatar-se necessaria- Como servem, obviamente, como ponto de partida e como diante, garantia portanto, de axio- mente, forçosamente. Quando muito, podem estabelecer leis de tendência, do tipo: "se tais e que proposições científicas. Estamos diferença houver retração na economia, desemprego tende a crescer", e outras um conjunto de juízos Discute-se e sobre sua natureza e se realmente e existe para nosso uso, Ideia próxima à de lei, mas dela diferente, é a de Sistemas científicos mas e/ou axioma postulados. e postulado. Convencionemos, com alguns autores si mesma: "O todo valem-se de princípios. Reale (1989) assim os conceitua: são verdades ou juízos funda- entre é princípio cuja verdade é evidente por iguais"; já mentais que servem de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de juízos, ordenados uma distinção: cada axioma uma de um suas partes", ou "todos os ângulos retos como são verdadei- em um sistema de conceitos relativos a dada porção da realidade (p. 46). é maior que princípio que colocamos ou aceitamos (postulamos) setor No sentido comum, a ideia de princípio evoca a de começo, ponto de partida: postulado evidente é um por si mesmo, tornando-se então ponto de partida Tal seria para o um caso do vocês estão no princípio do curso de Direito. Essa ideia acompanha, mas não esgo- do conhecimento como e válido, portanto, dentro daquele referencial. ta, a noção de princípio científico, que é uma formulação muito geral que serve de postulado da geometria euclidiana, que não é válido para as outras. base para outras, menos gerais, e assim sucessivamente. Um princípio não pode ser Como podemos perceber, há princípios válidos para amplos setores do conheci- tal é reduzido a nenhuma outra proposição mais geral que ele; se isto fosse possível, esta humano, para muitas ciências. Reale os chama de princípios polivalentes: válido para proposição mais geral é que mereceria o nome de princípio. Estas formulações muito mento do princípio da identidade e do princípio da causalidade, este último monovalentes, gerais são pontos de partida para determinadas ciências. o caso ciências da natureza; mas há princípios não polivalentes, mas sim, euclidiana Alguns exemplos de princípios irão ajudar-nos a compreender essa explicação. as válidos apenas no interior de uma ciência, como postulado da geometria "Por um ponto dado pode-se traçar somente uma paralela a uma reta dada" trata-se, ou princípio da imputação (válido para direito), que estudaremos mais adiante. como sabem, do postulado da chamada geometria euclidiana, na formulação dada direito também tem princípios, que serão estudados no momento apropriado. pelo matemático Legendre ao V Postulado de Euclides. Toda a geometria que estu- Mas e com isto nos dedicamos a distinguir bem direito/objeto do direito/ciência damos no ensino médio é euclidiana e tem como ponto de partida principalmente não devemos confundir princípios pertencentes ao conjunto normativo, e que valem esse postulado. Interessante notar, para mostrar a importância do princípio no conhe- para decisões de caráter jurídico, com princípios da ciência jurídica. Os primeiros são cimento científico, que existem outras geometrias, chamadas não euclidianas, pois normas jurídicas, tanto quanto o são as normas-regra. Os últimos pertencem ao campo partem de postulados inteiramente distintos, quando não opostos a este de Euclides. matemático por exemplo, estruturou sua geometria sob outro postulado, 2. É bom saber que para o universo científico que estuda o infinitamente pequeno e infini- segundo 0 qual uma infinidade de retas é paralela a uma reta dada. tamente grande, o princípio da causalidade já não vale da mesma maneira que para nosso Quem se interessar por Lógica começará seu estudo aprendendo os princípios universo 'normal'. Como nos ensina Foulquié (1978): "mais recentemente, a microfisica da lógica formal: chamado princípio da identidade ou não contradição, que assim se desferiu um rude golpe àquilo que passava por um postulado fundamental da ciência, o determinismo. É certo que, à nossa escala, pelo menos no mundo físico, as mesmas causas enuncia: "uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo e sob as mesmas produzem os mesmos efeitos e a ação das causas em jogo só pode, em dadas circunstâncias princípio do terceiro excluído: "entre duas contradições não cabe termo concretas, ter uma resultante. Mas este rigor não se verifica na escala microcósmica. [...] não há e princípio da razão suficiente: "tudo o que é tem sua razão (lógica) de ser, Estas incertezas derivam da impossibilidade, já comprovada em história e em psicologia, de nada sem razão Notem que todos esses princípios são evidentes separar a coisa observada do observador, ou, melhor, o objeto do experimentador" (p. 82).38 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 39 teórico, científico que seja. Não saber distingui-los equivale a confundir to com objeto de conhecimento, erro contra o qual temos de estar sempre conhecimen- dos critérios existentes nos próprios objetos. elementos O sistema vai científico, ordenar e de por acor- sua Por exemplo, quando a lei brasileira se refere a princípios gerais de direito e à escolha é aquele que estudioso elabora ao definir quais exemplo da classificação zoológica, de está tratando de normas, que podem servir como pauta exemplo, no artigo 4° da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, como, na verda- por vez, do com quais há princípios animais vertebrados (estrutura). e Retomando invertebrados, o há os que de possuem fato aos elementos ou não glân- do Notem que o artigo 4° referido estabelece: Quando a lei for omissa, juiz temos que características, que pertencem sistema cien- caso de acordo com a analogia, costumes e os princípios gerais de Ora, se decidirá dulas mamárias, animais, entre nesse outras caso), embora tenham sido selecionadas perceber pelo sistema assim, se 0 juiz deve tomar princípio como norma de decisão, resta claro que isso eles é sistema tífico. Trata-se, (os portanto, de uma questão de perspectiva: podemos verão pertencem ao campo do direito objetivo, ao direito objeto de sob a ótica tocante objetiva a ou nossos sob a estudos, ótica científica. a distinção torna-se bastante fácil, de como um sistema Fala-se atualmente em normas ou em princípios normas. Conforme No Quais são os elementos de uma sistematização jurídica, embora outras possibi- veremos mais tarde, ocorre aqui um tipo especial de norma jurídica, com formulação futuramente. podem ser normas jurídicas, podem bastante genérica e que nem sempre apresenta a estrutura normal de uma regra de jurídico? devam Não há ser dúvida consideradas, de que o que fica para outro momento. claramente Tais normas ordenada. Um Mas nem por isso tais princípios normativos deixam de ser normas jurídicas. lidades aparentemente desordenada ou ordenado de Mais tarde, no momento apropriado, retomaremos estas considerações e aprofunda- apresentar-se como de o forma Código Civil é um bom exemplo de um um objeto, conjunto já se mostra em remos tal distinção. código dado da realidade, ou títulos, Se considerarmos o brocardo frequentemente invocado "a lei não contém normas. de Assim, sistema, embora com sua seja divisão um em duas grandes partes, sistema com seus científico livros, deverá, palavras inúteis" como princípio hermenêutico, pertenceria ele propriamente à ciên- forma portanto, de um sistema objetivo. O irá além. cia jurídica, ao conhecimento jurídico. Não pode ser considerado uma norma jurídica. capítulos no mínimo, etc. trata-se, consideração tal estrutura sistemática, mas por certo siste- Há princípios que participam das duas categorias: são normativos (fincados, levar em é a que se costuma estabelecer entre sistemas em abertos si, de e novos portanto, no plano do objeto) e também informam um setor do conhecimento jurídico Outra distinção Abertos são os sistemas que permitem a inclusão, A descoberta de uma (científico), ajudando na fixação do real sentido das normas. Tal me parece ser o caso mas fechados. propiciando alterações sem descaracterizar sistema. no qual ela será do artigo 4° mencionado há pouco. elementos, exemplo, não anula em princípio o sistema zoológico assim não fosse, É bom repetir: quando se trata de princípios, é necessário tomar muito cuida- nova ave, Os por sistemas científicos são necessariamente abertos; se auto- do, pois esta é uma esfera em que facilmente se confunde objeto de conhecimento incluída. impossível compreender progresso das ciências, como lembram é alguns da natureza com 0 próprio conhecimento. Isso porque, como já foi salientado, há princípios que seria Canaris, por exemplo. Como as ciências devem sempre progredir, pode ser possuem caráter de normas jurídicas, quando então exibem seu caráter de objeto de res sistemas científicos sua abertura. Por ora, fixem apenas isto: um sistema isto perca conhecimento. Outros são estes os que nos interessam no momento orientam dos fechado: se admite a inclusão de novos elementos, sem que com não pensamento jurídico e, consequentemente, pertencem à esfera científica (ou que se sua aberto qualidade ou de sistema, trata-se de um sistema aberto. Fechado é o sistema que pretende do Direito. permite a inclusão de qualquer novo elemento. Recapitulando, são características do conhecimento científico: ser classificató- Uma última distinção necessária para aproveitamento futuro é a que se rio, ou seja, ordenar classificando; exprimir relações entre fenômenos mediante leis; costuma fazer entre sistemas móveis e sistemas rígidos. Se os elementos de um dado tomar por base princípios, dos quais se extraem inferências, conclusões etc. Tudo isso sistema são organizados segundo rigorosa hierarquia, trata-se de um sistema rígido. integra caráter sistemático do conhecimento científico, fazendo parte da estrutura Muito em breve vocês aprenderão um bom exemplo de sistema rígido, que é a clas- do(s) sistema(s). sificação das normas jurídicas em diferentes tipos (leis constitucionais, leis ordiná- Com vistas à utilização futura, examinemos agora alguns aspectos dos sistemas. rias, decretos etc.) em uma rigorosa hierarquia, como o faz um autor famoso, Hans Em primeiro lugar, costuma-se distinguir entre sistema objetivo e sistema científico. Kelsen. sistema, aqui, é rígido. Se, em vez disso, os diferentes elementos de um Sistema objetivo é um conjunto de objetos que exibem certa 'ordem' a eles sistema podem coexistir sem hierarquia, trata-se de um sistema móvel. Cabe destacar a participação do sujeito do conhecimento fica restrita ao reconhecimento que sistemas móveis e rígidos não devem ser confundidos com sistemas abertos ou40 PLANOS DO CONHECIMENTO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 41 fechados. Há outras distinções sobre sistemas cujo estudo seria impróprio e sário em um curso introdutório, mas tais diferenciações básicas devem ser pois serão retomadas e utilizadas na segunda parte do curso, com mais feitas atuar em parte expressiva das ciências da natureza, mas não médio, em certamente todas as ciências. lembrar- Se por estudos já realizados no ensino causal a propósito de diferentes assuntos. procurarem recordar-se dos Química Biologia os cientistas buscam a explicação explica- Resumindo: o conhecimento caracteriza-se por ter objeto -se-ão de que em Física, leis e da natureza são formulações gerais dessas tampa ser sistematizado e, portanto, classificatório, traduzir-se em leis, estruturar-se a conceptual ou tipológico, valer-se de método ou métodos para apreender seu objeto. dos fenômenos causas observados. eficientes. As Tomando um exemplo de nossa abrir vida o recipiente diária: se que uma ela veda, ções pelas girar para que possamos estará superada. de princípios. Ao conhecimento comum ou vulgar, faltam todas essas partir metálica rosqueada logo a providência recusa-se de a aquecê-la, quando então a dificuldade a dilatação da tampa metá- Por fim, não nos esqueçamos de que o conhecimento científico é sempre tomamos a causa de nosso sucesso: o aquecimento provocou do calor. (como também é 0 conhecimento filosófico), ou seja, está sempre reverificando suas lica, Sabemos em virtude da lei da dilatação em descobrir dos metais a cura sob de a ação uma doença obstina-se a doença em é enten- efeito, bases, seus pressupostos, seus conceitos e proposições. Embora não aprecie muito causa, cientista o que ocupado a provoca. Descoberta(s) a(s) causa(s) de relação que de causa e efeito as definições de ciência, apenas para que possamos ter uma base para futuras refle- der sua formular inúmeras proposições, em que esta a água, se aquecida xões, transcrevo aqui uma delas, de autoria de Trujilo Ferrari e adotada por Lakatos a ciência pode aproveitada. Outro exemplo: ebulição. Então, e Marconi (1991): A ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas é evidenciada e, temperatura, posteriormente, cem graus, para simplificar, entra a água em aquecida a 100 °C ao conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação 80). até determinada exemplos, posso formular proposições: presença dos Encontramos aí, de forma resumida, tudo o que foi dito anteriormente. tomando entra todos em esses ebulição; o metal submetido à ação do calor dilata-se; logo, que a no plano da conhecimento vulgar não possui tais marcas; seria, no dizer de outro autor, superficial. ferve, X, y e provoca hipertensão arterial etc. Noto, ocorrerá. desde sensitivo, subjetivo, assistemático e acrítico; não tem preocupação com conceituações natureza, fatores acionadas da as causalidade, causas, efeito importantissimo necessariamente para o entendimento não do necessita universo rigorosas, pois se compromete com dia a dia, contentando-se com a aparência das O não princípio vigora em todas as ordens. A Matemática, por exemplo, se exprime Reale, coisas. natural, explicar coisa alguma. Como pitorescamente princí- Isto, no entanto, não nos deve iludir, pois, como lembra Rubem Alves (1992), desse princípio dois são para quatro, não causam quatro. Também na ciência da e efetivamente lógica o se em um dois mais não tem papel a desempenhar. Cabe perguntar do prin- senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a pio da causalidade se na compreensão normativo/axiológica do direito nos valemos e axiológica do necessidade de compreender mundo, a fim de viver melhor e sobreviver. E perguntou causalidade. Notem que salientei na compreensão normativa a ele para aqueles que tenham a tendência de achar que senso comum é inferior cípio da de outros ângulos, posso tentar entender causalmente fenômenos econômicas) à ciência, eu só gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, direito Nada porque, impede que alguém questione as causas (sociais, políticas, socio- homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à nossa ciência. ligados. do Brasil em aceitar o divórcio, por exemplo. Mas essa preocupação dos valores da demora situa-se fora da compreensão propriamente normativa, inseparável isto Causalidade e imputação lógica informam, como justiça, liberdade, ordem etc. Advirta-se, no entanto, que não que lhe a retira a importância para a integral compreensão do fenômeno jurídico. Ao discutirmos as características do conhecimento científico, falamos em Há juristas que falam em uma causalidade jurídica. Assim, por de exemplo, sistemas e, dentro desse tópico, mencionamos os princípios. Referimo-nos especifi- Lourival Vilanova, entre outros. Para tanto, alarga-se sentido do conceito causa- no camente ao princípio da causalidade, próprio das ciências da natureza (cf., neste capí- lidade, propondo que se não restrinja esse mesmo sentido às relações ocorrentes socio- tulo, item Conceito e tipo, p. 29). É importante tecer algumas considerações sobre mundo da natureza; ou mesmo no campo das ciências sociais não normativas (a esse assunto, antecipando algo que deverá ser estudado mais adiante. Tais explicações logia e a economia, por exemplo). serão bastante úteis para entendimento de matéria futura. Argumentam assim: quando a norma jurídica incide em um determinado fato, As ciências da natureza procuram, com as restrições apontadas anteriormente, seja ele natural, como o nascimento, exemplifica Vilanova, ou social, a ele atribuindo explicar fenômenos por suas causas, sendo tal princípio o da causalidade polivalente,42 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 43 consequências de caráter jurídico, dá-se a causalidade Seria aqui, embora a implicação com diferença. deve ser Sobre (1989, esta, 83, conclui destaques o autor: do autor). a diferença reside: ali, a causalidade furto punido não é efetivamente punido, v.g., quando traduzir é com prisão, pois casos há nos quais, apesar ladrão da vigência se subtrai desta à Sucede que a diferença não é pequena. Dizer que algo é ou que algo punição. norma, A furto proposição jurídica que descreva esta norma apenas pode inteiramente diverso de afirmar que algo deve ser ou deve ocorrer. E se há ocorre que, se alguém comete furto, deverá ser punido (p. 116). a clareza somente tem a lucrar com designar o fenômeno com nomes esse semelhante ao da causalidade, mas dele diverso, Kelsen ele expri- dá o Claro que, como salientou Hans Kelsen, surpreenderemos uma analogia A princípio, imputação. Assim como o princípio da causalidade, atribuído, caminho. os fenômenos causais e os jurídicos. Mas, diante da diferença, melhor buscar outro entre nome de relação princípio em da que um fato consequente (pena, execução um crime, forçada) não é pagamento me uma conduta antecedente (prática de submetida Qual seria essa analogia? Ao observarmos uma proposição pertencente ligado, imputado, a uma ligação não ocorre como na causalidade, Na ordem mundo da natureza "se aquecermos esta barra de metal ela sofrerá dilatação" ao de uma dívida inelutável etc.). No das entanto, coisas a da natureza e expressa pelo os verbo elementos 'ser'. é distinta. uma proposição jurídica descritiva de uma norma "se alguém comete um crime, ao caráter as coisas se passam de forma diversa e a ligação entre liga, imputa o conse- deve receber uma pena" ou "se alguém não paga sua dívida, deve sofrer execução jurídica, fato antecedente, ao qual a ordem jurídica da imputação forçada em seu patrimônio" (exemplos do próprio Kelsen) -, essa analogia surgirá de Dada a conduta este deve ou sobrevir: o 'se A é, deve ser B'. É fundada no A princípio extensão e os limites pronto diante de nossos olhos. Tanto na proposição descritiva de um acontecimento da quente, pode descrever seu objeto de estudo. poucos, natureza e submetido à causalidade, como nas proposições descritivas do que se dá no que a ciência jurídica aplicar e aproveitar tais observações de Kelsen aspecto, serão, aos adotamos plano normativo, dois fatos ou elementos são relacionados um ao outro: a dilatação ao desenvolvidos em que podemos durante o curso. Mas, desde logo, neste particular calor, a pena à prática do crime, a execução forçada ao não pagamento. Esta, portanto, como melhor e mais clara a diferença proposta por Kelsen. é a semelhança: nos dois tipos de proposição teórica, dois fatos ou dois termos são relacionados um ao outro. A analogia, no entanto, termina aqui, pois a relação entre Juízos de realidade e juízos de valor. dois elementos tem natureza inteiramente distinta. Proposições de dever ser No primeiro caso do que se passa no universo natural, regido pela causa- tudo foi abordado no tópico anterior, podemos inferir que a linguagem menos lidade a consequência ocorre necessariamente e o verbo ou cópula que liga os termos é o verbo 'ser'. Assim, a proposição explicativa da relação causal ocorrida De que explicar o mundo da natureza, dos objetos naturais, regido (ao empre- empregada para pelo princípio da causalidade, é também distinta da linguagem nos no mundo da natureza pode ser formal e simbolicamente representada pela fórmula 'se A é, B em que A é qualquer antecedente causal (no exemplo, a ação do calor parcialmente) a compreensão da esfera normativa. Assim, convém examinar, Lógica. apenas gada limites para de nossas necessidades imediatas, algumas noções estudadas em pelo aquecimento) e é efeito (a dilatação do metal). Já nas proposições jurídicas, Cabe distinguir, por ora, juízos ou proposições de realidade ou de ser, juízos de temos também uma consequência ligada a um antecedente (A e B), mas a cópula não valor e juízos ou proposições de dever ser. Juízo é a ligação lógica de um predicado a algo, é dada pelo verbo 'ser' mas pela locução verbal 'dever ser'. A fórmula seria diversa: ensina Reale (1989, p. 45). E como é feita essa ligação? Afirmando-se ou negando- 'se Aé, deve em que A é a prática do crime ou não pagamento da dívida e -se a conveniência de uma ideia à outra, com pretensão de verdade.³ "Esta parede é a pena ou a execução forçada, respectivamente nos exemplos dados. A diferença é, pois, decisiva e fundamental: se, no universo submetido à causalidade, dada a causa 3. Tanto a terminologia como as explicações e classificações aqui reproduzidas são bastante de efeito surgirá, o mesmo não se dá no universo normativo, em que, dado o antecedente, discutidas em Lógica, e há quem conteste com bons fundamentos a tradicional divisão deve ser o consequente; este, no entanto, pode efetivamente não ocorrer, na ordem dos proposições que será lembrada mais adiante. Stebbing, por exemplo, define a proposição como "tudo aquilo do que se afirma ou se nega, se duvida ou se supõe", acrescentando algo acontecimentos. Kelsen (1974) explica: (a dúvida e a suposição) às definições clássicas. Não cabe, no entanto, abordar tais discus- sões nestas aulas introdutórias e que, afinal de contas, não são aulas de Lógica. Fica, de A proposição que descreve a validade de uma norma penal que prescreva a qualquer modo, feita a observação. pena de prisão para furto seria falsa se afirmasse que, segundo tal norma,44 PLANOS DO CONHECIMENTO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 45 é branca". Esta proposição exprime um juízo afirmativo, pois da parede branca. "O direito excluindo não é uma a Apreciei, neste caso, duas ideias, a afirmo de realidade; no universo normativo, o enlace será dever expresso ser. pelo princípio ainda da e a de ciência, primeira (direito) da segunda. Procedi, então, direito negativo, expresso mediante uma proposição negativa, com pretensão de a um imputação. ser ou de No decorrer As proposições do curso, encerram retomaremos valores e e são logo. aprofundaremos de No momento, essas embora noções introdutórios. estejam "A Terra é o centro do Esta proposição exprime o que os sábios verdade tinham como verdade antes da vitória da teoria Todas essas proposições antigos elementares, incompletas, elas mas são é importante suficientes fixá-las para conhecimento. que desde prossigamos nossos estudos exprimem juízos de realidade, pois nelas aprecio algo, afirmando sua existência ou Passemos agora a outros tipos de atribuindo-lhe determinada qualidade. Vale salientar que juízo de realidade não se confunde com juízo verdadeiro: "A Terra é centro do "Este livro de Introdução é um eis dois CONHECIMENTO FILOSÓFICO exemplos de juízos de realidade falsos. Os juízos de realidade podem ser simboli- conhecimento filosófico é um plano do caracterização, conhecimento não diverso raras do vezes, científico trai a zados pela fórmula é Eles não contêm qualquer apreciação valorativa sobre a coisa, mas ambicionam apenas dizer que ela é ou que uma coisa tem esta ou aquela e do vulgar. posição Não filosófica é fácil caracterizá-lo de quem a enuncia. e essa Frequentemente delimitado, ou se encaram afirma que, uma enquan- parcela objetos característica. "A Nona Sinfonia de Beethoven é "O comportamento de Luiz não foi própria to as ciências de possuem forma nitidamente um objeto perfeitamente definida, a filosofia uma parcela "é o conhecimento da realidade dos a ser estu- "O legislador sul-africano era injusto" eis alguns exemplos de proposições da realidade vista da totalidade". Não se recorta acrescenta-se: que exprimem juízos de valor. Como percebemos facilmente, tais juízos envolvem do dada, ponto não de se delimita objeto de reflexão. A isto, apreciações a respeito de valores dos objetos Beleza, Bem (valor ético) e Justiça, que a filosofia é estudo de tudo aquilo visão que é a objeto filosofia de pode conhecimen- dividir-se nos exemplos acima. dizemos e totalitário. Pois bem: segundo esta um primeiro capítulo ou Aos juízos de valor estão intimamente ligados juízos de dever, que se expri- to universal duas grandes ciências: objetos, mem mediante proposições de dever ser. Exemplos: "Se você deseja compor uma em dois grandes capítulos, ontologia, em e no qual a filosofia estudará os qual a sinfonia, trate de (deve) aprender as regras de legislador sul-afri- zona que os objetos, chamaremos qualquer de objeto, seja que for; e outro De que capítulo, conhecimento? no todos conhecimento dos objetos. 13, cano precisa (deve) acabar com apartheid se pretende ser justo". Como vemos, filosofia De todo será conhecimento, estudo do de qualquer conhecimento (Morente, 1957, tratam-se de proposições de natureza diversa daquelas de ser. Exprimem-se pela fórmula 'se S é, deve ser P'. tradução minha). Relacionando esses comentários com o início destas observações, percebe- essa razão que os autores costumam também afirmar que conhecimen- de apreendê- mos que as ciências da natureza exprimem-se mediante proposições de ser. Ou, É por distingue do científico pelo objeto, mas pela maneira examiná-la do ponto como resumem os autores, o objetivo das ciências da natureza é, mediante juízos to filosófico não se de delimitar uma parcela da realidade e estuda de realidade, evidenciar as relações entre fenômenos, exprimindo-as mediante leis -lo. vista A ciência da generalidade. ocupa-se Já a filosofia não separa uma parcela do examinar real, mas seu o objeto universais. de totalidade ou, quando faz essa separação, ocupa-se de É o ocorre E a ciência jurídica? Pelo menos em seu aspecto normativo (veremos que há em sua perspectiva da sua situação em relação com a totalidade. que examiná- outros aspectos) exprime-se, ao descrever seu objeto, mediante proposições de dever desde Filosofia uma do Direito, por exemplo: o direito é examinado ou tenta-se liberto de ser. Se houve um homicídio, deve ser a pena correspondente; se houve empréstimo, com -lo a no conjunto dos demais objetos, imerso na realidade total, universal, deve ser o pagamento; se houve dano, deve ser a indenização etc. Percebe-se que o contingências de tempo e de espaço. Se isso é possível, é outra questão. dever traduzido pela norma e pela proposição que a descreve relaciona-se com a Se na história do conhecimento ocidental, perceberemos isso com realização de algum valor. Logo, antes que a proposição de dever ser fosse formu- mais clareza. pensarmos O filósofo grego era um homem ocupado com todo conhecimen- lada, houve uma apreciação valorativa, conversível em um juízo de valor. No mundo to de seu tempo: falava de matemática e de lógica, de fisica, da biologia de então, da natureza, o princípio vigente é o da causalidade, que se exprime em um enlace de46 PLANOS DO CONHECIMENTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 47 de política, de ética, de estética, e assim por diante. Nessa época não havia distinguir ciência a ser de tratadas filosofia. isoladamente: Com o tempo, no parcelas da realidade por que parte da experiência vivida do homem trabalhando vai além dessa numa constatação. linha de tos) passaram números, figuras filósofo mesmo gesto. Mas busca do montagem repetindo sempre deveria ser. Julga valor da ação, sai em 1986, zas mensuráveis tornaram-se objetos de uma ciência que deles as grande- Matemática. Nesse ponto, ela já não era mais filosofia, e sim uma cuidava: Quando a significado Não só vê como dela. é, Filosofar mas como é dar sentido à experiência (Aranha; Martins, movimento, a relação dos corpos físicos uns com os outros e coisas análogas 0 46). a ser estudadas em si mesmas, independentemente da multidão objetiva, forma-se passam Física, que também não é filosofia, mas ciência; e assim por Com esses a plos, fica mais fácil perceber que se quer dizer com a expressão "examinar exem- OUTROS TIPOS DE CONHECIMENTO do ponto de vista de sua Relendo a citação de Morente, verificamos objeto são estes os tipos de conhecimento discutidos nos outras livros formas prope- de a ontologia, parte da filosofia, não destaca um tipo, espécie ou mesmo gênero que Usualmente, de outras disciplinas. Há, no entanto, seria nem objetos para suas reflexões, mas examina objeto em sua totalidade, todos objetos, de conhecimento. nem Alguns científico, fazem sem ser comum ou vulgar; teria, pois, da história gera dêuticos, tanto de Direito como referência ao conhecimento religioso, peculiaridades que não que o quaisquer que sejam. Costuma-se falar também que o conhecimento filosófico é transcendental. filosófico distinto e cujo exame não cabe aqui. Também o conhecimento técnico ou as tecnolo- que isso significa? Significa que ele se coloca para além da experiência, em contrapo- 0 tornam natureza. Há, ainda, o conhecimento ação, com sição ao conhecimento científico, que é, em larga medida, experimental e, portanto, polêmicas quanto à sua não é com que seja objeto estudado, mas em com seu sentido a mais verificável. conhecimento filosófico, além de colocar-se logicamente para além da gias, como cuja fazer preocupação alguma coisa, conhecimento diverso do científico experiência, submete a própria experiência, em si mesma, à sua crítica. estrito, visto anteriormente. conhecimento filosófico é também sistemático, de maneira análoga, mas de passagem que há uma linha de pensamento que considera como a tecnolo- chama- diferente do que ocorre com a ciência. Por colocar-se para além da experiência, é Diga-se do direito, tal como vem sendo desenvolvida no ocidente, válido para sistemático na medida em que suas afirmações integram uma totalidade de senti- da ciência conhecimento de natureza tecnológica. Existe, é claro, e isto é técnico e do, partindo de princípios determinados e exibindo coerência interna. Também seu gia, como tipo de ciência, uma relação bastante estreita entre conhecimento ciência aplicada caráter é distinto do das ciência, pois a filosofia critica os próprios pontos científico. qualquer Não há técnica sem embasamento científico: a técnica é uma o de partida do cientista e seus pressupostos. Quando nos indagamos sobre a possi- e sabemos que as pesquisas em ciência fundamental são indispensáveis e até condicionam bilidade de tratamento científico do direito, ou da efetiva existência de uma ciên- progresso técnico (Capalbo, 1979, 98). cia autônoma chamada Direito, estamos nos propondo problemas filosóficos, e não No que nos interessa mais de perto, cabe salientar serem técnicas nossas ativi- científicos. Estamos examinando criticamente um pressuposto do jurista, qual seja, dades profissionais: advogados, juízes, promotores, quando trabalham com o direito, que seu conhecimento tem caráter científico. Se nossa indagação está orientada para não fazem ciência. Exercitam, sim, seus conhecimentos técnicos. Já os juristas, ou a natureza de uma coisa, de um objeto, em referência a outros objetos, também esta- seja, aqueles que pensam direito, investigam as relações normativas e a própria natureza das normas e coisas assim, pretendem fazer ciência do direito. mos no campo filosófico. Do conhecimento filosófico costuma-se dizer ainda que é valorativo, por contemplar a realidade sob a ótica de valores e, como alguém já Não obstante, a técnica dos profissionais mencionados será tanto mais valorando próprio valor, que é problema específico de uma parte da aprimorada quanto maior for, por parte do técnico, seu cabedal de conhecimentos a axiologia. propriamente científicos. Um autor, cuidando das relações entre técnica e ciência conhecimento científico em particular as ciências da natureza, mas não em geral (ciências da natureza), desenvolve considerações a respeito da própria elas persegue obstinadamente a objetividade, ou seja, a coincidência de seus formação do técnico contemporâneo, e conclui que é necessário dar um lugar impor- de suas descrições, com as coisas descritas e apreendidas. A filo- tante no ensino a uma cultura científica geral, aparentemente desinteressada e não direta- fia quer ir além. Como exprime um livro didático de introdução à filosofia, mente eficiente, e até, sem dúvida, a uma cultura humanista, à cultura em sentido estrito (Granger, 1994).48 PLANOS DO CONHECIMENTO Se natureza, isso é verdade dizer para o universo das ciências RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 49 diretamente qual objeto inexiste a na conhecimento vida que das pessoas? pelo do nosso conhecimento campo humano e resultado e e especialmente das técnicas da que AVANÇAR MAIS um livro bastante PARA simples e de leitura recomendo agradável Rubem para Alves iniciá-los (1992). ler em os COMENTÁRIO FINAL noções alunos Se desejarem de interessados epistemologia em (geral, formar, não Aranha aos a poucos, jurídica), e Martins sua cultura (1986). filosófica, Mais adiante, poderão recomen- É o ou Direito estamos uma diante ciência? de O uma que técnica? os juristas vêm fazendo há séculos tem Os livros de aprofundamento, Marilena Chauí (1996) a excelente e coletânea sobre Os Filósofos os conhecimentos (2008), preparando-os filosóficos Os objeto direito, seja ele o que for, pode ser objeto Caso não haja uma jurídica do, para para a Filosofia ao estudo do Direito. do direito, Mais especificamente menciono a especificamente Introdução de Miguel àqueles Reale estudantes (1989). ponto. de as perceber, coisas. as questões são muitas e a polissemia da palavra de ciência? 'direito' Como complica vocês bastante podem destinados livros aqui referidos, ao Estudo vale do Direito dizer, destinam-se que desejarem a aprofundamento melhor em aguardar. algum Sobre IV, Introdução metodologia jurídica, haverá aulas respeito: consultar o capítulo n. de saber deixá-las aberto, para Vocês indagações: vamos Ao deliberadamente menos por enquanto, em não daremos uma resposta a estas problema Sobre (1970) do e 'tipo', as páginas o aluno indicadas interessado da obra poderá de resumo Larenz (1989), a respeito esta do última método mais tipo- tões, qual o caminho a ser percorrido se desejarem enfrentar já têm elementos para Jellinek cil lógico para em os Lakatos iniciantes. e Marconi Há também (1991, um p. pequeno 109 e ss) que poderá ser consultado indicados provei- culdades sem a emitir impressões vazias, meros palpites. E devem seriamente ter essas superar. No decorrer deste curso de introdução, buscaremos percebido as difi- tosamente. indicações bibliográficas são de livros mais complexos, para não consulta em sêmico resposta. Neste momento, gostaria apenas de lembrar o cuidado com juntos uma de imediato As demais para os principiantes, mas certamente recomendados da palavra 'direito', que pode conduzir a conclusões afoitas. Mais caráter tarde volta- polis- um futuro próximo. remos ao tema, sem muita pressa. A importância maior está na discussão. Haverá quem prefira manter o problema em suspenso, e esta também é excelente forma de aprender. Pode-se ainda, em vez de assumir uma posição uma reflexiva, propor novas perguntas. Perguntar bem, propor novas questões ou novas pouco maneiras de ver as velhas questões: tais atitudes frequentemente revelam mais conhe- cimento que o simples fornecimento de respostas superficiais. O importante é refletir sobre os temas, com os dados recebidos, espontaneamente procurados e gradativa- mente acumulados. Por enquanto, quero salientar que a discussão sobre o caráter científico do direito, do conhecimento jurídico, não é tranquila nem oferece respostas unânimes. Alguns consideram possível conhecimento científico do direito, tal qual os juristas o vêm fazendo há muito tempo; outros também acham possível essa apreensão cientí- fica, mas como um capítulo da Sociologia; outros negam inteiramente a possibilidade desse conhecimento, havendo também quem inclua, como vimos, no rol de conheci- mentos tecnológicos. Muitas são as respostas fornecidas. De qualquer forma, não vejo muito sentido em forçar-lhes a tomar uma posição neste início de estudo. Tratemos de obter mais dados, refletindo um pouco sobre nosso objeto, não isoladamente mas em comparação com os demais. Este será assunto do próximo capítulo.Os OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO [...] um cientista que nunca tenha filosofado sobre a sua ciência nunca poderá passar de um cientista secundário, um imitador, um funcionário da ciência (Colingwood). GENERALIDADES Vamos iniciar o estudo dos objetos. Nossa finalidade é situar o direito - que, vimos, também é um objeto no universo maior dos demais objetos. Adotaremos, como uma perspectiva filosófica e não científica, no plano denominado ontologia de um sentido assim, estrito. Não obstante, convém deixar bem claras duas coisas: trata-se estudo simples e acessível, pois não abordaremos os temas em sua complexidade, Filosofia do de maneira singela. aprofundamento ocorrerá quando estudarem Direito, mas já no final do curso; em segundo lugar, quero destacar que a finalidade desta é predominantemente didática e não implica um valor absoluto, ou uma tomada apresentação ortodoxa de posição filosófica. O próprio progresso da ciência pode, even- tualmente, exibir insuficiências da visão filosófica que aqui se reproduz. Além disso, nossa apreciação ontológica vale para universo em que nos movimentamos, em que vivenciamos nossas experiências, ajudando-nos, portanto, a ter uma perspectiva do nosso objeto de estudo, percebido em meio aos demais. Garcia Morente, na obra já mencionada, sugere a seus alunos duas atitudes muito importantes para estudo que iniciamos. Primeiramente, propõe que nos52 os OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 53 quer de conhecimentos ingenuidade ele acerquemos significar de uma nosso postura tema isenta de estudo de com ingenuidade e rigor. Por estou afirmando ou negando de algo: quem "Marcelo afirmo estuda que estuda Direito". Direito. de Obviamente, nitrogênio "A chuva em o é sem atitude prejuízo em que do nos rigor deixemos na penetrar pela no uma observação, quer dizer, sem atitudes precipitadas. sujeito do qual desse juízo lógico sujeito é Marcelo, é a chuva. "A água não possui água. átomos Todos esses sujeitos âmbito importante. da percepção como no da reflexão. Esta segunda atitude rigor é tanto bastante no sua útil de juízo composição": para lógico a lavoura": (não outro sujeitos juízo esta do lógico, conhecimento, aqui em empregada que que sujeito em fique um é a sentido bem claro) inadequado são objetos, e muito são por exemplo, sala aula. Há seres humanos: o professor e há Animados a por de esse espírito, podemos perguntar: que é objeto? amplo. são 'coisas' esta formulação palavra (não se trata de uma definição) bem a multidão objeto de é coisas tudo aquilo que ou, entes, a mesa, as carteiras, a lousa; vemos também as lâmpadas, o as roupas alunos; alguns seguram canetas em suas mãos, com as quais tomam notas no dos todos estamos respirando ar; no intervalo, beberemos água, tomaremos nosso caderno: que termo pode Ora, ser abarca, sujeito denota. de um juízo Daí a lógico impossibilidade mostra de impor-lhe limites, ingenuidade confins, Pois bem, tudo o que acabamos de descrever, desde ar que respiramos e a água a impossibilidade objeto Fiéis à nossa de-finir. proposta de atentar para Notamos, o que desde nos cerca logo, que com construídos os objetos pelo por bebemos a nós mesmos, homens e mulheres, a mesa e as carteiras, nosso que ventilador, enfim, tudo isso que enumeramos... é objeto. Mas um aluno está irritado com a exposição; uma aluna mostra-se metódica, nós arrolados (a observemos mesa, exibem as carteiras, uma os exemplos clara nosso diferença: acima. vestuário dos alguns que etc.) são são e fabricados outros fabricados, não pelo (a água, homem, no madeira, último como pois o tipo de abordagem a agrada. Ambas as pessoas revelam emoções. Estas, as emoções, são também objeto? São! Como também o são as figuras geométricas! exemplo). homem os móveis vegetais) desta Observamos sala e e que nosso ainda estes vestuário, que existem alguns o na foram natureza. natureza a partir Pois de como bem, outros um isto objetos dado, nos independen- sugere (a uma Eis, portanto, um obstáculo: não podemos dar uma definição para objeto, e não podemos fazê-lo por uma razão muito simples: definir é marcar os fins, os confins, primeira as fibras da diferença: participação há objetos do homem. que existem Outros, na no entanto, os últimos foram e feitos nos concentrarmos por ele, com limites Logo, quem define marca limites àquela parcela da realidade descri- determinados temente fins. Vamos ignorar temporariamente ta, separando-a das demais, principalmente daquelas que lhe são próximas. Quando defino o homem como animal racional, o que na verdade estou fazendo é separá-lo nos primeiros. dos outros animais, os não racionais. Aliás, essa limitação, esse ato de marcar limites, neste caso começa antes: ao afirmá-lo um animal, separei-o dos outros seres viventes, como os vegetais. OBJETOS NATURAIS Pois bem. termo 'objeto' tem tal amplitude, estende-se a tantas coisas, que impossível defini-lo. Se tentássemos uma definição, dizendo, por exemplo, "objeto é mencionados em primeiro lugar, denominamos objetos são naturais. vege- tudo aquilo que posso perceber pelos sentidos", o que seriam as demais realidades não Àqueles chumbo, os metais todos, são objetos naturais, como também o os demais definidas dessa maneira? O que seriam as coisas não passíveis de serem apreendidas ouro, os o animais, inclusive o homem; a água, fogo, a própria luz, a Terra e os dentro do pelos sentidos? Não seriam objeto? Seriam o que, então? tais, e astros... enfim, a tudo aquilo que encontramos como um dado, objetos Assim, não se pode definir objeto, dada sua extrema extensão. Por isso, muitos é tudo planetas usualmente chamamos de natureza (e justamente por isso) denominamos em autores costumam repetir a afirmação de alguém, no sentido de que: "objeto no naturais. que Esses objetos possuem algumas características: são espaciais, na medida aquilo que pode ser sujeito de um juízo lógico". Tratemos de fazer uma pausa que existem no espaço, têm extensão. Além disso, são temporais, pois duram, existem assunto do capítulo para explicar essa frase tão repetida. no tempo, têm ou tiveram um começo e também têm ou terão um fim. Espacialidade Os lógicos definem juízo como a operação do espírito pela qual intelectual se afirma e temporalidade são, portanto, duas das características dos objetos naturais que obser- se alguma coisa de outra; outros ainda acrescentam: é a operação sujei- vamos: os objetos naturais Mas cabe perguntar será que os objetos naturais ou em nega se afirma, se nega, se duvida ou se supõe (Stebbing, 1965, p. 53). Ora, respeito físicos esgotam campo da natureza, dos objetos naturais? to, nesse que contexto (não confundir com sujeito de conhecimento) é aquilo a54 os SUA CLASSIFICAÇÃO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 55 Parece que não. Pode acontecer que alguns de vocês, durante a uma sensação Outro estranha, uma insegurança por não estarem entendendo bem sintam De um quadro dirão algo sobre esses sua beleza valores, etc. somos Pois incapazes bem, Beleza, de compreender Utilidade, edifica, explica. não nas poderá experimentar Um algo mais grave, uma emoção chamada que (de passar provas). terceiro, de temperamento forte, poderá sofrer medo qualquer Bem, a Justiça objeto uma etc que finalidade, são tenha valores. sido sem E criado sem um fim. pelo Vocês homem: não estão ele nada aqui constrói, outros sem um mais nada fim: estão para aqui uns tipo de emoção: raiva do professor... Os sentimentos emoções que listamos outro medo, insegurança, nos quais poderiamos acrescentar amor, o ódio, a inveja nada tornar-se aumentar faz sem advogado, a bagagem para cultural, outros, juiz e não de 'fim' direito falta quem fala ou necessariamente apenas tenha por em fim motivo ou objeti- como de são objetos? Posso conhecê-los? A respeito deles posso fazer afirmações, etc. transformando-os em sujeitos de lógicos? A resposta obviamente, afirmativa para gosta matar de exprimir-se o tempo... Ora, um grande quem autor, fala em "fim é um valor reconhecido como naturais, Deparamo-nos então com outra classe ou tipo de objetos naturais: se os naturais fisicos, temos agora os naturais psíquicos. Têm eles existem no espaço? Evidentemente que não, Nossas emoções e sentimentos não existem no mesmos, Creio que são alheios à ideia de fim e, portanto, culturais, por sua vez, são frutos Eis agora as coisas tenham se tornado mais de claras: valor. Podem os objetos ser explica- da espaço, não têm Mas têm temporalidade: existem no tempo, duram. Um sentimento ou uma emoção ou qualquer outro fenômeno que ocorre em nossa psique ação dos em si sem humana qualquer e podem alusão quando ser a compreendidos valores; afirmamos os objetos serem apenas os quando objetos captamos naturais sempre seu valor. neutros dizer dura, tem um começo um fim. ódio o amor acaba e assim por diante. que Então, os objetos naturais têm apenas temporalidade, não possuindo espa- ao queremos Poderíamos examinar outras características. No entanto, ficaremos apenas Estão na alma de quem os experimenta, mas isso não espaço, salvo no com estas, suficientes para as finalidades de nosso curso. sentido figurado, Examinemos agora outra a ser enunciada de modo negativo: os objetos naturais tanto os fisicos como os psíquicos são neutros a valorações, aos OBJETOS IDEAIS valores. Isto nos obriga a recorrer a uma explicação. Que se pretende dizer ao afirmar uma importante região de objetos os naturais, como a das que podem figuras serem os objetos naturais neutros ao valor? Mais adiante estudaremos os valores. No entanto, para poder prosseguir obje- na Já temos, portanto, Pensemos agora em outra categoria, natureza? Não, temos que antecipar algumas informações sobre eles. Foi dito Para que explicar os Um viu por triângulo na natureza. que encontramos na aproxi- ser ou triângulo, exemplo, è um objeto natural, existe na natureza exposição, naturais, tanto os fisicos como os psíquicos, são neutros ao valor. perfeitamente Nunca ninguém triangular, um ou, melhor dizendo, coisas cuja forma se entidade tos utilizemos os mesmos exemplos. Para conhecer um de a basta-nos saber sua composição: dois de hidrogênio uma descrição são objetos com triangular. a forma Do mesmo modo, jamais alguém viu qualquer outra entanto, ma da forma como o quadrado, 0 retângulo, a esfera, a reta etc. Isso, Imaginemos no a que seja conhecer determinada planta, o botânico apresenta-me o an passo da geometria, impede nosso trabalho com tais entes ou objetos. retangular. oxigênio. Para das leguminosas etc. Sei perfeitamente oxigênio, que não atrapalha nem quero trocar os tacos da sala de aula, e ela tem a forma encontrando sucinta: at quando da me informam tratar-se de uma mistura dos de objetos naturais sua seguinte situação: será multiplicar a medida de um lado pela do outro, objeto a conhecer carbônico etc. Em suma: não pertence à essência sua beleza ou fealdade etc. Em Meu primeiro metros passo quadrados etc. Notem que lidei de maneira desenvolta com o ou maldade, sua utilidade ou inutilidade, nem valor, o que não impede a denominado em como lidaria com qualquer outra figura da geometria. outras bondade palavras, não ao ser do objeto qualquer Ainda na matemática, pensemos nos estão na natureza? Alguém já encontrou sete? Ou teria avistado o nove? Nunca, Apesar disso, escrito. se homens thes no entanto, valores. naqueles outros objetos a que que nos referimos se trata de no que escrever na lousa 9 todos entenderão perfeitamente o que foi que se thes Pensemos, pergunto 0 que modo como ao responder, farão entrar dirão em seu atender conceito à nossa de relógio eu Pois figuras geométricas, números e outros objetos da matemática constituem outro tipo de objeto, os objetos Eles não possuem espacialidade, quer dizer, mesmo serve sidade finalidade para de escrever, de marcar do de as proteção Do ao pudor e também dirão que que deve tem uma finalidade56 OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 57 não estão no espaço, não têm extensão. Podem ser representados no é apenas coisa exibirá distinta. uma Se alguém representação desenhar gráfica no quadro dessa negro o que pensa ser espaço, um 0 que não confundir a forma geométrica, nada além Ora, podemos representação de alguma coisa com a coisa capta os o ponto, homens é nosso o reais, triângulo entendimento, ser este e homem, as demais nosso aquele graficamente, intelecto. figuras outro, geométricas. Observem mas como não podemos captam que Nossos que alguns entes ou representar sentidos menor objetos ideais. que. apreendem ideais o Quem triângu- nem da os fotografia de Patrícia pode representá-la, mas não é Patrícia: nem tampouco em signo representativo. Patrícia escrito ou pronunciado é a moça chamada Patrícia, embora dela seja nome um lo: mesmo tentem podem representar representados uma exemplo: relação, "todo como X é a y". ideia Trata-se de maior de uma várias proposição coisas (objeto a respeito Os objetos ideais também não estão no tempo, são destituídos de lógica). proposição: Analisem Mesmo sem outro trata-se saber de o que uma significam universal afirmativa; e y, ao posso mesmo dizer "todo tempo é y" verdadeiras; e "nenhum todo y foi é e se os objetos naturais têm um começo e terão um fim, os objetos ideais estão fora do tempo. Nunca tiveram um princípio e sua existência jamais Logo, não y" dessa podem em ser apenas ao mesmo parte tempo de sua falsas, extensão, mas ou nunca seja, tendo na afirmado proposição que não "todo falo de é y", dizer não faz sentido situá-los temporalmente. Um triângulo repetem os autores é sempre idêntico a si mesmo. Era na Grécia antiga o que é hoje (polígono com três lados), tomado qualquer afirmar y, mas ao de mesmo algum tempo y etc. que Sei ainda "há alguns ideia que, do que que não e são y y". simbolizam Enfim, posso aqui. Isso leis isso encerra o seu ser. Ou, como se exprime Collingwood (1986), reproduzindo explicando o pensamento antigo, porque, posso tudo isso em corretamente, virtude do validade caráter sem no ter ideal universo a menor desse objeto em que (a ele proposição é aplicado, "todo independentemente é y"), suas têm todas as propriedades de um triângulo estão presentes no triângulo em qual- e do tempo e do espaço. propriedades A, deve ocorrer B". Este é um tipo especial estamos de quer momento. A eternidade do triângulo reside na posse de todas as suas propriedades ao mesmo tempo, de tal maneira que não necessita de um lapso de tempo para manifestá-las uma após outra (p. 82). proposição, Outro particularmente exemplo é: "se de interessante ocorrer dever ser, isto para é, nós, que estudiosos não enuncia do nada Direito; adiante, a respeito essa é da a diante de uma proposição exemplos anteriores. Conforme veremos prática de Outros exemplos de objetos ideais são as relações: igualdade, semelhança realidade, como das ocorre normas nos jurídicas de conduta: "se ocorrer A (em exemplo)". que A é a Também etc. Se digo que os gêmeos Pedro e Paulo são iguais um ao outro, refiro-me a algo. forma lógica B é pena correspondente, por retomaremos Pedro é um objeto (um homem), Paulo é outro. E igualdade, que significa? A mesma rela- um crime), deve ser como B (em quaisquer que outras, a são objetos ideais. de Mais objetos tarde ideais. questão se coloca quando digo que este edifício é maior do que aquele. Essas ideal, tais assunto. proposições, No momento, basta enfatizar tratar-se, também, são meramente diferentemente dos objetos naturais, não são coisas; seu ser é meramente clareza que os objetos ideais todos centro, pensados: isto ções, relações são objetos ideais, ou como tais podem ser tomadas, tanto características quanto Podemos do círculo ver que com todos os seus pontos estão a igual distância de a falsa seu impressão pois as matemáticos. As relações são estudadas pela lógica formal e suas estudaremos na ao dizer Advertem-nos, no entanto, os autores contra Os objetos fundamentais entes estarão presentes em um tipo especial de relação que é pensado por de mim. objetos psíquicos, como as emoções ou paixões e outros. estão necessa- de tratar-se não são independentes da pessoa que os vivencia, e a ela o triângulo é, segunda parte de nosso de estudo objetos ideais, a relação além jurídica. dos que já vimos, e que nos termo, interessam juízo, psíquicos riamente ligados. Os objetos ideais, por sua vez, simplesmente são: Há mais tipos os objetos estudados pela Lógica, como o conceito, o é a apreensão independentemente da pessoa que pense sobre ele. particularmente: de objetos ideais. conceito, por exemplo, de ser Vimos no tópico anterior que os objetos naturais são neutros ao valor. dos objetos Dá-se a proposição etc. Trata-se tivemos ocasião de estudar. O conceito de homem, não tem com os objetos ideais? Sem dúvida. Não pertence à estrutura nem da essência como de animal algo, como racional, mostra-nos a apreensão de sua tem essência. existência Isso real são o ideais mesmo qualquer tipo de valor: não são belos ou feios, nem justos ou injustos, nesse bons, nem seguros etc. Levando em conta as características utilizadas por nós humano meramente ideal. Notem: o que sim, são existência real, pois seu ser é Marcelo, Pedro, Patrícia, Daniela etc. Estes, insatisfei- estudo, temos então que, além de aespaciais e atemporais, os objetos ideais são neutros os diferentes reais. Mas homens, 'homem', como como na proposição "o homem meramente é eternamente conceptual, que ao valor. entes pura abstração, números, apreendemos to com seu destino apenas e idealmente; sua sorte", é é, uma pois, um objeto ideal, tanto quanto os58 os OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 59 OBJETOS CULTURAIS É o aplicar aos objetos culturais os critérios de descrição feitos utiliza- pelo suficiente para avaliarmos a importância de tais objetos. cia tomamos Listamos Pensemos conhecimento diversos um pouco no agora início em de uma nosso categoria estudo e de que objetos deixamos de cuja Se desejarmos teríamos que são temporais, existem no tempo; afinal, não ter são espacialidade, agora. objetos inexistentes como tais na natureza de lado até de pelo outras homem: coisas este giz, não aquela são nem caneta, naturais relógio, nosso vestuário; há uma porque feitos homem dos até agora, e, logo, têm um princípio e por certo um fim. Podem ou conforme veremos. E quanto ao valor? humana, do trabalho que humano. homem nem ideais todas elas são fruto infinidade termina universo da neutralidade ao valor: objetos culturais temos nunca que saber são atua sobre as coisas naturais, da ação Aqui Para os compreendamos, saibamos o que sejam, Os objetos inumeráveis objetos, que vão desde a tosca tigela de cerâmica das culturas fabricando neutros ao valor. sua razão que de ser, e quem fala nisso já está falando em valor. O valor deles vas até os sofisticados foguetes espaciais de nosso tempo; desde o grosseiro primiti- seu sentido, portanto, valiosos; positiva ou negativamente valiosos. alguém nós) tum-tum dos tambores primitivos até uma sublime sinfonia de Beethoven (para culturais são, à sua própria natureza e não, como nos objetos naturais, porque não faz nada Prokofiev; das pinturas rupestres às de Picasso, e assim por diante. Bastam esses ou é inerente conferir-lhes algum valor. Dissemos há pouco que o homem culturais de objetos: os objetos culturais. ros comentários para percebermos a enorme importância dessa modalidade especial ligei- resolveu fim ideias de fim e valor são inseparáveis. Ora, se os objetos obrigatória sem feitos um pelo e que homem, as e se este nada faz sem uma finalidade, a conclusão econômi- são tais objetos estão sempre voltados para valores: ou atendem a valores diante. Todo objeto, qualquer que seja, sendo fruto do trabalho humano, é um objeto cos, é que ou a valores estéticos, ou a valores éticos (como a Justiça), e assim por cultural. simples lápis que temos diante de nós é tão objeto cultural quanto extraordinário romance como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. É um Os objetos culturais possuem uma estrutura: são compostos de um cultural, suporte substrato e de um sentido. suporte é elemento 'material' do objeto conjunto desses objetos culturais que constitui mundo humano. São eles a condição 0 empregada ou a palavra 'material' em seu sentido mais lato. Tomemos como exemplo de nossa existência como humanos, são os referenciais que encontramos quando aqui uma estátua: seu suporte ou substrato é o material mesmo de que é feita o mármo- chegamos, ao nascer. E que fazemos é destinado a ficar, depois de nossa morte, pois re digamos. Em uma pintura, a tela e as tintas são o substrato ou, se preferirem, o a durabilidade é característica relevante destes objetos dos quais estamos falando: suporte. No entanto, basta pensar um pouco para ver que substrato, por si, não é os objetos culturais, repito, destinam-se à durabilidade e não ao consumo imediato. aquele objeto cultural no caso, a pintura mas apenas um de seus elementos. No Falando dos produtos do trabalho humano, a grande pensadora Hannah Arendt assim exemplo, alguém pode observar que a tela e a tinta também são objeto cultural, já que se exprime: feitos pelas mãos humanas, o que é verdade. Mas, em relação à pintura, são apenas seu suporte. trabalho de nossas mãos [...] fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma É evidente que se nos perguntarem o que é determinada estátua de Aleijadinho, total constitui artifício humano. [...] É esta durabilidade que empresta às não responderemos que se trata de... pedra-sabão, nem responderemos, diante de uma coisas do mundo sua relativa independência dos homens que as produziram pintura de Portinari, que aquilo é tela e bisnagas de tinta. elementos materiais e as utilizam, a "objetividade" que as faz resistir, "obstar" e suportar, pelo ou suporte, no caso da estátua ou da pintura, o artista imprimiu um sentido, que é menos durante algum tempo, as vorazes necessidades de seus fabricantes e precisamente a tentativa de realização de alguns valores estéticos, éticos etc. usuários. Abro pequeno parêntese para lembrá-los, graças a uma pergunta de aluno, que a palavra 'valor' aqui não se restringe, é óbvio, ao valor econômico. 0 sentido, como Também são dela estas observações: fácil de perceber, é muito mais amplo. mundo, o lar feito pelo homem, construído na terra e fabricado com o mate- Há casos em que o substrato não é tão facilmente identificável: se tomarmos rial que a natureza terrena coloca à disposição de mãos humanas, consiste não um poema, por exemplo, qual seria seu substrato? Não se trata apenas de palavras de coisas consumidas, mas de coisas que são usadas. [...] Mas, sem se sentir organizadas de certo modo, pois o poeta usa as palavras de forma especial (o mesmo à vontade em meio a coisas cuja durabilidade as torna adequadas ao uso e à fazem o cientista e o filósofo); o que interessa na poesia não é apenas a forma como as construção de um mundo, do qual a permanência está em contraste direto com a vida, essa vida jamais seria humana (Arendt, 1991, 150). palavras são arranjadas, mas as ideias e conceitos que essas palavras carregam e que,60 os OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 61 emoções. arranjadas de um modo específico, provocam em nós os mais diferentes Os Suporte e sentido formam, nesse caso, um todo quase dois exemplos anteriores referem-se a objetos de arte, nos outros não, pois são valiosos; referimo-nos mais de uma vez seu a significado, juízos de valor. pois res e termo sem a preocupação de determinar avançarmos objetos: liga-se, principal uma mesa, mas por não exclusivamente, Seu a valores Pensemos quais sentido No entanto, usamos de nossa esse noção comum, intuitiva. É chegado o momento também de de um objeto? exemplo. suporte é a madeira da qual em outros nos valemos valor? É possível defini-lo? Trata-se ideal? utilidade tem ela um está sentido, presente. qual seja, o da utilidade para o fim a que se foi feita. valor Mas um pouco. Que significa de tipo de objeto se trata? Será natural? Ou talvez isto trará É o a caso verdade de refletirmos e também sobre regras morais. Tomemos a regra de Por Se a que resposta não cultural? for positiva, Tratemos que de discorrer um pouco sobre tais temas, pois mos falar evitar a Como essa regra 'entra' em "deve- clareza a futuras reflexões. alguns juízos de valor, pois sobre isto já falamos: "Este brasileiro quadro é Mediante um enunciado imperativo (devemos!) que revela problemas nosso mundo? Tomemos belo!"; "A carga tributária que recai sobre o contribuinte Eis aí: de um dúvida. Mas não são os aspectos lógicos que interessam nesse enunciado, sem de Portinari "Você é acaba de ter uma atitude má, profundamente imoral!". ação, ser regra ética, e sim o sentido, que é a proclamação de um valor ético. No caso, enquanto injusta!"; diz-se belo; de determinado direito tributário, ser injusto; de uma valor, sabe o sam conceitos como o de verdade -, que são objetos ideais. Assim, há, como quadro, má, perversa. ser Se quem faz tais afirmações, formulando juízos de tem uma Miguel Reale, objetos culturais que têm por suporte não objetos naturais insiste imoral, está falando ou seja, se não as faz de maneira inconsequente é porque medida vimos, mas objetos ideais, como conceitos, proposições etc. Isto é bastante importante como que um parâmetro, um critério: o quadro é belo porque confere com a de medida, beleza; a tributação é injusta porque não confere com um parâmetro qualquer fosse e será retomado a seguir. Percebam e fixem, por ora, que se o sentido dos objetos cultu- justiça; de por fim, tem-se uma ideia do que é ético, do que significa bem (se não rais está sempre voltado para um ou mais valores, o suporte ou substrato pode ser qual- assim, jamais se poderia afirmar que a atitude de alguém foi má). quer tipo de objeto natural, ideal ou mesmo cultural. A tela e as tintas com as quais Em um primeiro exame, constatamos que os valores se nos apresentam como pintor faz seu quadro são, em si mesmos, objetos culturais, como acabamos de ver. qualidades das coisas: as coisas são belas ou feias, justas ou injustas, más ou boas, Todo o conjunto de objetos culturais marca o que chamamos de cultura: um inseguras ou seguras, ordenadas ou caóticas etc. Para alguns, os valores são apenas determinado povo indiano, por exemplo produz certo tipo de música que é dife- isto: qualidades que aderem aos objetos, que podem ou não ter certo valor, ostentar rente da minha, tem seus quadros também peculiares, utensílios próprios, um ou não tais qualidades. No entanto, vendo as coisas mais de perto, talvez não seja uma estrutura sociais distintos, uma literatura característica e uma religião própria etc. exatamente assim. Para dizer de um quadro, por exemplo, que é belo, ou de uma lei, Estou diante de uma cultura diversa. Todavia, percebo isso examinando os diversos que é justa, preciso ter um critério uma medida de beleza e de justiça. Então, posso objetos culturais que integram aquele mundo, diferente em muitos prismas do meu. separar, abstrair das coisas esses critérios e discorrer sobre eles. Um tratado de Essa constatação sugere-nos a íntima relação entre objetos culturais e história, pois estética falará sobre a Beleza, sem necessariamente referir-se a coisas belas. Tenho é nela que todos eles vão se revelando e manifestando. Muito ainda há para ser dito, sobre minha mesa um livro de Albert Schweitzer, Cultura e Ética. Nesse livro, o mas, no momento e tendo em vista o caráter meramente introdutório de nosso curso, autor fala de concepções éticas, referentes ao Bem, abstraindo das ações (embora as supondo, é óbvio). Do mesmo modo, posso discorrer sobre o valor Justiça em si fiquemos por aqui. mesmo. Ora, se isso é assim, segue-se que, ao menos no plano intelectivo, é possível tratar desses critérios independentemente de coisas ou objetos aos quais aderem para VALORES dar-lhes as qualidades de beleza, justiça, bondade etc. Estamos agora em face do que costumamos chamar de valor. E todos esses valores Belo, Bem, a Verdade, a Introdução Justiça, a Ordem etc. podem, ao menos por abstração, ser tratados separadamente Examinamos os objetos, desde os naturais (físicos ou psíquicos), passando das coisas belas, justas, verdadeiras etc. Quando isso ocorre, estamos falando sobre pelos ideais, até chegarmos aos culturais. Durante todo este tempo falamos muitas valores: chamamos valor não ao bem, coisa real e à qual valor adere, mas ao próprio vezes em valor, principalmente para dizer que alguns objetos são neutros aos valo- valor aderente, afirma Rickert (apud Hessen, 1980, p. 41).62 os OBJETOS E SUA CLASSIFICAÇÃO RENAN SEVERO TEIXEIRA DA CUNHA 63 Dessa maneira, se posso falar da Beleza independentemente e tenho esses por objetos belo valiosos e de Justiça são bens separadamente ou objetos das ações ou leis que entendo do objeto que de vista é enfaticamente repetido na sua e Filosofia escritos, do sustenta Direito, ser edição indis- culturais e se o Belo justas -los, são valores, isto é, sem consequentemente transformá-los em posso coisas. tratá-los de maneira e o sem Justo 1999. Tal Esse ponto eminente autor, em algumas objetiva de suas obras do valor (o valor como objeto em pensável de mesmo) para reconhecimento a exata compreensão da autonomia e construção de sua teoria (a qual estudaremos Valores então são objetos? Essa questão é problemática e não podemos mais si adiante, em suas linhas gerais). -la longamente aqui. Assentemos, no entanto, que, ao menos em sentido discuti- valores são, sim, objetos: podem funcionar como sujeitos de juízos lógicos, geral, Os Valor e objeto acabamos de ver. Nesse momento, é preciso reafirmar que essa separação como no entanto, de forma um pouco diferente. Muitos restou insinuado, estudiosos podemos da maté- valor e as coisas valiosas é uma atitude eminentemente Ou, entre Penso, objetos ideais. Como já continente dos explica Messer, os valores, tomados em si mesmos, não são algo de porém, sim, como ria incluem os valores dentre restrições. os É que, na verdade, apenas a parte Tentemos explicar que podemos pensá-los em si mesmos (apud Hessen, 1980, 66, grifo meu). É nessa medida, e apenas nela, que podemos tomá-los como objetos autôno- também melhor. valores é Quando fazer ideal. isto, de Eles abstraio um com são, quadro de intelectualmente fato, que objetos tenha beleza, complexos os valores a Justiça ou das compostos. de coisas uma conduta às Belo quais ou justa, aderem a Justiça o Bem o mos, independentes dos bens ou coisas valiosas. Qualquer estudioso do Direito ou pessoa que se disponha a refletir sobre o assunto conseguirá perfeitamente Belo abstraído boa ação etc., isso para discorrer apenas Estes, sobre por Bem, sua vez, são conteúdos valor de em uma norma jurídica como a que pune homicídio, a própria norma (não matarás e, de estou uma referindo-me ou de formas. a determinados São essas conteúdos. formas os objetos Bem e outras ideais. Tais são, formas no feliz do dizer de se matares, serás punido) da Justiça (valor) que nela se concretiza, se realiza. Também continentes, Segurança, nossas não é separar intelectualmente a ação tomada por um amigo leal do valor ético Justiça, Beleza, Verdade, Ordem, sob qual subsumimos o conteúdo de começando todas as por que naquela ação se manifestou; pois, como nos ensinam os que se dedicam à axiolo- vivências Hessen (1980), da mesma o conceito espécie do (p. gênero 38). Expliquemos o isto minuciosamente, gia, é valor que nos dá fundamento do dever-ser (Hessen, 1980, 84). Façamos baixar as coisas desse plano tão abstrato para exemplos concretos: se exemplos. Quando de acabar com as desigualdades com uma penso em Justiça, se faço completa abstração de regionais um ou ou mais a da conteú- busca estabelecemos que erradicar as desigualdades sociais é algo que deve, necessariamen- acompanhar a atividade política brasileira como o faz a Constituição de com 1988 suas dos de Justiça melhor (como distribuição a justiça da riqueza social no Brasil), permaneço acabar com sempre as desigualda- de uma sob) todos esses conteúdos: de renda te, é porque esse dever-ser está fortemente fundado nos valores Justiça, Bem, ideia na qual e subsumo regionais (coloco é de justiça, assim como propiciar uma economicamente distribuição fraco necessárias implicações na realização de outros valores. des sociais existe. É de justiça amparar assim por dessas considerações, caberia tentar responder que suas tipo últimas de objeto obras, é 0 diferente da que atualmente distinguir pessoas em razão de gênero ou de raça e à forma A partir jusfilósofo Miguel Reale, em especial nas dos demais diante do Então, poderoso, posso não sempre seguir perguntando o que subsumo é Justiça, todas até chegar as experiências valor. Para um o grande inteiramente autônomo, que não ingressa Assim, na categoria seguindo seu ponto diante. sem conteúdo, sob a qual, como diz Hessen, coloco, valor é não objeto é natural, não é ideal nem tampouco cultural. exatamente valor. Para ele, os da mesma espécie. algo como "Justiça é dar a cada que é seu" exem- (suum objetos: de vista, teríamos outro tipo de objeto entendeu e este seria na primeira fase de seu pensamento cabem Essa tribuere) forma ou poderia coisa equivalente: ser trata-se apenas de um dentre de Justiça, os inúmeros chegaremos valores nem tampouco não são objetos objetos ideais culturais. como Dada a importância desse ponto de vista, cuique entanto, analisarmos essa 'definição' nada significa: plos históricos. conclusão Se, no de estarmos diante de uma fórmula vazia, que qual é seu citações literais de seu pensamento: me pareceu, e parece impossível ou um situar teorema, no mesmo com algo plano que um seu objeto "ser rapidamente se observou à tantas vezes, o problema está justamente em ela saber necessariamente como já Qualquer que seja a fórmula a que se chegue, será da mesma vazia de cada de um. conteúdo. Apesar disso, ela é a referência para todos os conteúdos A ideal, riamente mim que deve é, tal ser como (o belo, um sua juízo significação bom, lógico útil enquanto etc.) por correlacionada ser-lhe essencial à práxis (Reale,