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1 KAUANE MONTEIRO ALVES O CONFLITO ENTRE A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E A VERDADE BIOLÓGICA NAS RELAÇÕES FAMILIARES CONTEMPORÂNEAS Cidade AnoSão Paulo 2026 KAUANE MONTEIRO ALVES O CONFLITO ENTRE A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E A VERDADE BIOLÓGICA NAS RELAÇÕES FAMILIARES CONTEMPORÂNEAS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Anhanguera, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Direito. Orientador: Leandro do Nascimento Panzuto. São Paulo 2026 KAUANE MONTEIRO ALVES O CONFLITO ENTRE A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E A VERDADE BIOLÓGICA NAS RELAÇÕES FAMILIARES CONTEMPORÂNEAS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Anhanguera, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Direito. BANCA EXAMINADORA Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) São Paulo, 01 de Outubro de 2026 Dedico este trabalho ao meu pai do coração, que, com afeto, cuidado e dedicação diários, me criou e me tornou quem sou hoje. A ele, que me ensinou, na prática, que a paternidade se constrói muito além dos laços biológicos e que inspirou, de forma pessoal, a escolha do tema deste trabalho. ALVES, KAUANE MONTEIRO. O CONFLITO ENTRE A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E A VERDADE BIOLÓGICA NAS RELAÇÕES FAMILIARES CONTEMPORÂNEAS. 2026. 29 folhas. Trabalho de Conclusão de Curso em Direito – Anhanguera, São Paulo, 2026. RESUMO O presente trabalho tem como tema o conflito entre a paternidade socioafetiva e a verdade biológica nas relações familiares contemporâneas, com ênfase na multiparentalidade. Diante da consolidação constitucional da igualdade entre filhos e da crescente valorização da afetividade no Direito de Família, questionou-se como o ordenamento jurídico brasileiro concilia o vínculo biológico e o vínculo socioafetivo na determinação do estado de filiação. Objetivou-se compreender esse conflito à luz da evolução histórica do conceito de filiação, do entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622 de repercussão geral, e dos critérios adotados pelo Poder Judiciário para a solução de conflitos entre as duas formas de parentalidade. A pesquisa caracterizou-se como bibliográfica, de natureza qualitativa, fundamentada na doutrina de Paulo Lôbo, Maria Berenice Dias, Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, bem como na legislação e na jurisprudência pertinentes. Os resultados demonstraram que a filiação brasileira superou o modelo exclusivamente biológico vigente até a Constituição Federal de 1988, passando a admitir a coexistência entre paternidade biológica e socioafetiva, notadamente nos casos de posse de estado de filiação, conforme reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal. Constatou-se, ainda, que, quando a simples coexistência não é suficiente para solucionar o conflito, o Direito recorre à técnica de ponderação de princípios e a critérios específicos, como nas situações de reconhecimento post mortem. Conclui-se que o ordenamento jurídico brasileiro não adota uma resposta única e abstrata para esses conflitos, priorizando a análise das circunstâncias concretas de cada caso, sempre orientada pela dignidade da pessoa humana. Palavras-chave: Paternidade socioafetiva. Verdade biológica. Multiparentalidade. Filiação. Direito de Família. ALVES, Kauane Monteiro. THE CONFLICT BETWEEN SOCIO-AFFECTIVE PATERNITY AND BIOLOGICAL TRUTH IN CONTEMPORARY FAMILY RELATIONSHIPS. 2026. 29 pages. Undergraduate Thesis in Law – Anhanguera, São Paulo, 2026. ABSTRACT This paper addresses the conflict between socio-affective parenthood and biological truth in contemporary family relationships, with emphasis on multiparenthood. Given the constitutional consolidation of equality among children and the growing recognition of affectivity within Family Law, the study questioned how the Brazilian legal system reconciles biological and socio-affective bonds in determining filiation status. The objective was to understand this conflict in light of the historical evolution of the concept of filiation, the understanding established by the Brazilian Federal Supreme Court in the ruling on Theme 622 of general repercussion, and the criteria adopted by the Judiciary to resolve conflicts between these two forms of parenthood. The research was characterized as bibliographic, of a qualitative nature, grounded in the doctrine of Paulo Lôbo, Maria Berenice Dias, Cristiano Chaves de Farias, and Nelson Rosenvald, as well as in relevant legislation and case law. The results showed that Brazilian filiation law has overcome the exclusively biological model that prevailed until the 1988 Federal Constitution, now admitting the coexistence of biological and socio-affective parenthood, particularly in cases involving the factual status of filiation (posse de estado de filiação), as recognized by the Federal Supreme Court. It was further found that, when mere coexistence is not sufficient to resolve the conflict, the law resorts to the technique of balancing principles and to specific criteria, such as in cases of posthumous recognition of parenthood. It is concluded that the Brazilian legal system does not adopt a single, abstract response to these conflicts, prioritizing instead the analysis of the concrete circumstances of each case, always guided by the principle of human dignity. Keywords: Socio-affective parenthood. Biological truth. Multiparenthood. Filiation. Family Law. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS DNA Ácido Desoxirribonucleico ECA Estatuto da Criança e do Adolescente RE Recurso Extraordinário REsp Recurso Especial STF Supremo Tribunal Federal STJ Superior Tribunal de Justiça Público Público Público Público Público Público SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 1 2. A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE FILIAÇÃO NO DIREITO DE FAMÍLIA BRASILEIRO: DA PREVALÊNCIA BIOLÓGICA AO PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE 3 3. A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E O RECONHECIMENTO DA MULTIPARENTALIDADE PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL 8 4. OS CRITÉRIOS DE SOLUÇÃO DO CONFLITO ENTRE A VERDADE BIOLÓGICA E A VERDADE SOCIOAFETIVA NAS AÇÕES DE FILIAÇÃO 13 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 18 REFERÊNCIAS 20 1. INTRODUÇÃO O estudo desse tema justificou-se pela relevância crescente assumida pela afetividade nas relações familiares contemporâneas, especialmente diante da multiplicação de arranjos familiares nos quais a criança frequentemente convive com figuras parentais distintas daquelas com quem mantém vínculo biológico. Paralelamente, o desenvolvimento do exame de DNA (Ácido Desoxirribonucleico) conferiu às ações de investigação de paternidade elevado grau de certeza científica, fortalecendo a proteção do direito à identidade genética. A coexistência desses dois critérios legitimadores da filiação passou a gerar situações de conflito para as quais a legislação civil codificada, ainda estruturada sob a lógica tradicional de filiação única, não oferece resposta expressa e uniforme, o que tornou o tema relevante tanto para a dogmática jurídica quanto para a prática forense, na qual se multiplicam demandas envolvendo o reconhecimento de vínculos parentais de origem distinta. Diante desse cenário, definiu-se como problema de pesquisa o seguinte questionamento: como o ordenamento jurídico brasileiro pode solucionar o conflito entre o vínculo biológico e o vínculo socioafetivo na determinação do estado de filiação, de modo a compatibilizar a proteção da identidade genética do indivíduo com a tutela da parentalidade construída pelo afeto? A pergunta decorreu da constatação de que nem a verdade biológica, amparada pela certeza científica do exame de DNA, nem a verdade socioafetiva, amparada pela convivência familiar consolidada, mostraram-se capazes de se sobrepor de modo absoluto e definitivo uma à outra, o que exigiu do intérprete uma solução que não se limitasse à escolha excludente entre os dois critérios legitimadores da filiação. Para responder a essa questão, definiu-se como objetivo geral compreendero conflito entre a verdade biológica e a paternidade socioafetiva nas relações de filiação no Direito brasileiro contemporâneo, com ênfase na possibilidade jurídica de coexistência entre os dois vínculos por meio do instituto da multiparentalidade. Esse objetivo foi desdobrado em três objetivos específicos, cada um correspondente a um capítulo do trabalho. O primeiro consistiu em discutir a evolução histórica do conceito de filiação no Direito Civil brasileiro, da prevalência do critério biológico à consolidação do princípio da afetividade. O segundo voltou-se a examinar os fundamentos doutrinários e jurisprudenciais da paternidade socioafetiva e do instituto da multiparentalidade, à luz do entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622 de repercussão geral. Por fim, o terceiro buscou discutir os critérios adotados pelo Poder Judiciário brasileiro para a solução dos conflitos entre a verdade biológica e a verdade socioafetiva nas ações de filiação, especialmente por meio da técnica de ponderação de princípios e das situações de reconhecimento post mortem. Quanto à metodologia, o presente trabalho caracterizou-se como pesquisa de natureza qualitativa, do tipo bibliográfica, desenvolvida por meio de revisão narrativa de literatura. Foram utilizados como principais referenciais teóricos os estudos de Paulo Lôbo, Maria Berenice Dias, Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, além das contribuições doutrinárias de João Baptista Villela e Luiz Edson Fachin sobre a socioafetividade. A pesquisa recorreu, ainda, à análise documental da legislação pertinente, notadamente a Constituição Federal de 1988 e o Código Civil de 2002, bem como à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, com destaque para o julgamento do Recurso Extraordinário nº 898.060/SC, no qual se fixou a tese vinculante referente ao Tema 622 de repercussão geral, utilizada como eixo central de análise ao longo de todo o trabalho. 2. A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE FILIAÇÃO NO DIREITO DE FAMÍLIA BRASILEIRO: DA PREVALÊNCIA BIOLÓGICA AO PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE A compreensão contemporânea da filiação pode ser introduzida a partir da contribuição de João Baptista Villela, que, em 1979, desenvolveu a ideia da "desbiologização da paternidade", destacando que a relação paterna não se reduz ao vínculo biológico, mas pode ser construída a partir da vontade, da convivência e da afetividade. A concepção representa importante mudança na compreensão da parentalidade, ao deslocar a atenção exclusiva da origem genética para a relação efetivamente construída entre pai e filho (VILLELA, 1979 apud LÔBO, 2024, p. 37). Historicamente, entretanto, o Direito de Família brasileiro esteve estruturado sobre um modelo patriarcal e matrimonializado. Sob a vigência do Código Civil de 1916, estabelecia-se uma diferenciação entre os filhos legítimos, vinculados ao casamento, e os filhos considerados ilegítimos, submetidos a tratamento jurídico distinto, distinção que somente foi definitivamente superada com a Constituição Federal de 1988 (LÔBO, 2024, p 32.). Nesse contexto, a origem biológica e a filiação decorrente do casamento ocupavam posição central para a determinação jurídica da parentalidade, enquanto os vínculos construídos pela afetividade e pela convivência familiar não possuíam reconhecimento jurídico autônomo. Apesar desse modelo jurídico rígido, a realidade social já demonstrava a existência de vínculos de filiação constituídos pela afetividade, como se observa na chamada "adoção à brasileira", prática em que alguém registra como próprio filho alheio, estabelecendo relação de filiação que não corresponde à origem biológica. Embora realizada à margem das formalidades legais, essa prática revela a existência de relações socioafetivas que ultrapassavam o modelo jurídico baseado exclusivamente na origem biológica (DIAS, 2023, p. 235). Esse modelo passou a ser gradualmente questionado ao longo do século XX, diante das transformações sociais e da valorização das relações afetivas no âmbito familiar, sendo a ruptura mais significativa consolidada pela Constituição Federal de 1988, que estabeleceu novos parâmetros para a compreensão da família e da filiação, afastando a diferenciação jurídica entre os filhos e inaugurando nova perspectiva de proteção das relações familiares. A Constituição Federal de 1988 representou uma ruptura definitiva com o modelo jurídico que diferenciava os filhos conforme sua origem. A partir de sua promulgação, deixaram de ser admitidas as antigas classificações de filiação legítima, ilegítima, natural, adotiva, incestuosa, matrimonial, extramatrimonial e adulterina, consolidando-se a filiação como categoria jurídica única, sem distinções ou adjetivações baseadas em sua origem (LÔBO, 2024, p. 296). Essa transformação encontra fundamento no artigo 227, §6º, da Constituição Federal, segundo o qual os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, sendo proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação (BRASIL, 1988). A mesma regra foi reproduzida pelo artigo 1.596 do Código Civil de 2002, que assegura igualdade de direitos e qualificações entre os filhos, independentemente de sua origem (BRASIL, 2002; LÔBO, 2024, p. 297). Essa igualdade entre as filiações produziu importante impacto na compreensão jurídica da parentalidade, pois permitiu superar a ideia de que somente a origem biológica ou o vínculo matrimonial seriam capazes de fundamentar uma relação de filiação juridicamente reconhecida. Nesse novo cenário, os vínculos construídos pela convivência, pelo cuidado e pela afetividade passaram a encontrar espaço para reconhecimento jurídico, contribuindo para a consolidação da filiação socioafetiva como modalidade de filiação dotada de efeitos jurídicos próprios. Embora a Constituição Federal tenha estabelecido essa igualdade como fundamento, o texto constitucional não definiu, por si só, todos os contornos da filiação socioafetiva. A construção de seus critérios e de seus efeitos ocorreu progressivamente nas décadas seguintes, especialmente por meio da doutrina e da jurisprudência, que passaram a reconhecer a afetividade como elemento relevante para a configuração das relações de parentalidade. Nesse processo, destaca-se a contribuição de Luiz Edson Fachin que, em 1996, na obra Da paternidade: relação biológica e afetiva, resgatou, no âmbito do Direito de Família, a noção de posse de estado de filho como realidade sociológica e jurídica (FACHIN, 1996 apud LÔBO, 2024, p. 37), contribuindo, ao lado da posterior valorização do princípio da afetividade, para a ampliação da compreensão contemporânea da filiação. Esse instituto, resgatado por Fachin e já mencionado no parágrafo anterior, somente passou a ganhar relevância prática a partir da igualdade entre filiações estabelecida pela Constituição de 1988. Até então, embora existissem, na prática social, relações de convivência e afeto equivalentes às de pai e filho sem vínculo biológico ou formal, o Direito não lhes atribuía reconhecimento próprio, privilegiando a filiação decorrente do casamento e da origem genética. Com a igualdade constitucional, a posse de estado tornou-se instrumento relevante para demonstrar a existência de uma relação de filiação legitimamente constituída. Maria Berenice Dias explica que a filiação socioafetiva está ligada justamente à existência dessa relação vivenciada como verdadeira relação parental, razão pela qual a autora associa esse instituto à ideia de "verdade real" da filiação valorizando a relação que efetivamente existe entre as pessoas, e não apenas o registro formal (DIAS, 2023, p. 235-236). Esse reconhecimento ajudou a fortalecer a filiação socioafetiva no Direito brasileiro, atribuindo maior peso jurídico ao afeto na definição das relações familiares a mudança ligada ao desenvolvimento de um princípio que se tornaria fundamental no Direito de Família contemporâneo: o princípio da afetividade, tratado no próximoparágrafo. A partir das contribuições de Villela e Fachin, a afetividade deixou de ser apenas um elemento observável nas relações familiares e passou a ocupar o status de princípio jurídico, servindo de critério interpretativo para a aplicação das normas de Direito de Família. Paulo Lôbo teve papel relevante nesse processo de sistematização teórica: o próprio autor relata ter publicado, em 1989, o trabalho "Repersonalização das Relações Familiares" e, em 2000, um estudo voltado especificamente ao princípio da afetividade, contribuições que ajudaram a consolidar essa ideia no cenário jurídico brasileiro (LÔBO, 2024, p. 37). Tratar a afetividade como princípio significa, na prática, autorizar o intérprete a considerá-la diante de situações para as quais a legislação não oferece resposta expressa de modo que um vínculo construído pela convivência e pelo cuidado mútuo pode ser reconhecido juridicamente, mesmo sem previsão legal específica para o caso concreto. Observa-se, assim, que a trajetória da filiação no Direito brasileiro percorreu um caminho claro: partiu de um modelo centrado na origem biológica e no casamento, passou pela valorização da posse de estado de filho e culminou no reconhecimento da afetividade como valor jurídico autônomo. Esse percurso histórico serve de base para a análise que se desenvolve no capítulo seguinte, dedicado à aplicação concreta desses conceitos pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622. A consolidação da afetividade como princípio jurídico também se sustenta nos valores estabelecidos pela Constituição Federal de 1988. Destaca-se, em primeiro lugar, o princípio da dignidade da pessoa humana, previsto no artigo 1º, inciso III, fundamento estruturante do próprio Estado brasileiro e norte da proteção jurídica da pessoa em suas diversas dimensões (BRASIL, 1988). No campo das relações familiares, valorizar a afetividade significa permitir que o Direito enxergue a realidade efetivamente vivida pelas pessoas, reconhecendo que a relação entre pais e filhos se manifesta não só pelo vínculo genético ou formal, mas também pelo cuidado, pela convivência e pelo senso de pertencimento. O reconhecimento jurídico da afetividade, nesse sentido, é uma forma concreta de realizar a dignidade da pessoa humana dentro das relações de filiação. Um segundo fundamento está na igualdade entre os filhos, prevista no artigo 227, §6º, da Constituição Federal. Ao assegurar que todos os filhos, independentemente de sua origem, tenham os mesmos direitos, a Constituição afastou de vez a ideia de que a filiação matrimonial ou biológica mereceria tratamento jurídico privilegiado (BRASIL, 1988). Essa igualdade revela que a proteção da parentalidade não pode se restringir a uma única forma de constituição do vínculo familiar o que abre caminho para que relações efetivamente construídas pela convivência e pelo afeto recebam a mesma proteção jurídica dedicada à filiação biológica. A proteção constitucional da família relaciona-se, ainda, com a proteção integral da criança e do adolescente e com o direito à convivência familiar. O artigo 227, caput, impõe à família, à sociedade e ao Estado o dever de assegurar, com absoluta prioridade, entre outros direitos, a convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1988) proteção reafirmada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A presença cotidiana, o cuidado e a convivência real assumem, assim, papel central no desenvolvimento da pessoa, o que justifica proteger juridicamente vínculos familiares concretamente vividos, e não apenas formalmente constituídos. A partir desses três fundamentos, percebe-se que o princípio da afetividade não surgiu isoladamente, como simples resposta a uma mudança de costumes sociais. Sua legitimidade jurídica decorre da leitura conjunta da dignidade da pessoa humana, da igualdade entre os filhos e da proteção integral com prioridade à convivência familiar o que a diferencia de uma compreensão puramente moral ou sociológica do afeto. É justamente essa base constitucional sólida que permitiu ao Direito de Família passar a reconhecer, de forma consistente, diferentes formas de constituição da parentalidade, tema que será aprofundado no capítulo seguinte, a partir do entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622. 3. A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E O RECONHECIMENTO DA MULTIPARENTALIDADE PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL Historicamente, o direito brasileiro atribuía primazia à filiação decorrente da origem biológica, sobretudo quando esta se originava do casamento, relegando as demais espécies de filiação a um tratamento jurídico inferior e, muitas vezes, discriminatório. Esse cenário foi profundamente alterado pela Constituição Federal de 1988, que estabeleceu a igualdade de direitos entre filhos de qualquer origem, conforme disposto no artigo 227, §6º, princípio posteriormente reafirmado pelo artigo 1.596 do Código Civil de 2002. A partir dessa mudança paradigmática, a filiação no ordenamento jurídico brasileiro passou a ser compreendida essencialmente como um fato de natureza cultural, e não meramente biológica, de modo que a origem genética deixou de ser, por si só, critério de prevalência sobre as demais formas de constituição do vínculo parental (LÔBO, 2024, p. 315-317). Nesse contexto, a doutrina identifica três espécies de filiação socioafetiva reconhecidas pelo ordenamento jurídico: a decorrente de adoção, a oriunda de inseminação artificial heteróloga e a fundada na posse de estado de filiação. (LÔBO, 2024, p. 316-317). É justamente esta última espécie por não decorrer de qualquer ato jurídico formal, mas de uma situação fática vivida consolidada no tempo que desperta as maiores controvérsias quanto à sua relação com a origem biológica, e que será examinada com maior profundidade ao longo deste capítulo. A posse de estado de filiação é a situação fática em que uma pessoa vive publicamente como filho de outrem, baseada no afeto, mesmo sem vínculo biológico (LÔBO, 2024, p. 326). Segundo Fachin (1992 apud LÔBO, 2024, p. 326), "o pai é aquele que se revela no comportamento cotidiano, de forma sólida e duradoura, capaz de estreitar os laços de paternidade numa relação socioafetiva, aquele que, além de emprestar o nome de família, trata como sendo verdadeiramente o seu filho perante o ambiente social". A afetividade em relação a um filho não gerado biologicamente, o amor e o vínculo ali estabelecidos ultrapassam a mera previsão jurídica, devendo ser evidenciado, em cada caso concreto, o desejo de pertencimento àquela família. A doutrina identifica três elementos que caracterizam essa relação: o nomen (nome), que corresponde ao uso do sobrenome da família pelo filho socioafetivo; o tractatus (trato), que se refere ao cuidado, afeto e assistência moral e material dispensados no cotidiano, com a correspondente relação de respeito e dependência por parte do filho; e a fama (reputação social), que consiste no reconhecimento público dessa relação pela comunidade, escola e círculo familiar. Dessa forma, a ausência de vínculo biológico comprovado por exame genético não afasta o reconhecimento da filiação, que passa a ser comprovada por outros meios: a duração do relacionamento, a presença do afeto, o reconhecimento social da relação e o desejo de pertencimento manifestado tanto pelo pai ou mãe quanto pelo filho. No julgamento do Recurso Extraordinário nº 898.060/SC, sob relatoria do Ministro Luiz Fux, o Supremo Tribunal Federal (STF) fixou, em sede de repercussão geral (Tema 622), a seguinte tese: "a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios" (STF, RE 898.060/SC). No caso concreto que deu origem ao julgamento, havia tanto pai socioafetivo quanto pai biológico, e a Corte decidiu que o registro civil deveria contemplar ambos os vínculos, sem que o reconhecimento de um implicasse a exclusão do outro (LÔBO, 2024, p. 332-333). Consolidou-se, assim, o entendimentode que a existência de filiação socioafetiva não constitui impedimento ao reconhecimento simultâneo da filiação biológica, admitindo-se a coexistência de ambos os vínculos e a produção de seus respectivos efeitos jurídicos. Importa destacar, contudo, que a multiparentalidade reconhecida pelo STF não se aplica indistintamente a todas as espécies de filiação socioafetiva, mas restringe-se, especificamente, à hipótese de posse de estado de filiação. Isso porque a adoção e a inseminação artificial heteróloga possuem regramento próprio, incompatível com a lógica da concomitância: a adoção extingue os vínculos de parentesco de origem, por força do artigo 41 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), enquanto a inseminação heteróloga impede, por disposição do artigo 1.597, inciso V, do Código Civil, o estabelecimento de qualquer vínculo de filiação entre a criança e o doador do material genético. O Supremo Tribunal Federal, portanto, não instituiu uma regra geral de coexistência obrigatória entre todo vínculo socioafetivo e o vínculo biológico, mas reconheceu, especificamente para os casos de posse de estado de filiação, a possibilidade de ambas as parentalidades produzirem, simultaneamente, seus efeitos jurídicos próprios (LÔBO, 2024, p. 333-334). O reconhecimento da multiparentalidade não possui caráter meramente simbólico, uma vez que produz consequências jurídicas concretas na vida da pessoa reconhecida como filha. O reconhecimento simultâneo das parentalidades biológica e socioafetiva pode repercutir diretamente no registro civil, permitindo a inclusão formal do nome do pai ou da mãe socioafetivos ao lado do vínculo biológico e, conforme o caso, a composição do nome com os sobrenomes correspondentes a ambos os vínculos (LÔBO, 2024, p.333). Além disso, o reconhecimento da multiparentalidade estabelece responsabilidades parentais em relação aos diferentes genitores, sem que exista hierarquia entre a parentalidade biológica e a socioafetiva: os pais reconhecidos passam a exercer os deveres decorrentes da relação parental, especialmente aqueles relacionados ao cuidado, à educação, à assistência e à representação do filho. Os efeitos do reconhecimento também não se limitam à relação direta entre pais e filhos, pois o parentesco decorrente da filiação pode alcançar os demais integrantes das respectivas famílias, formando uma rede de parentesco que inclui, conforme o caso, avós, irmãos, tios e outros parentes vinculados a cada uma das linhas parentais reconhecidas, nos termos do Código Civil (Brasil,2002, art. 1.591-1592). Esse entendimento foi reafirmado pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial (REsp) 1.487.596/MG, no qual se reconheceu a nulidade de qualquer hierarquização de efeitos jurídicos e patrimoniais entre pais biológicos e socioafetivos, assegurando-se equivalência plena de direitos e deveres entre ambos os vínculos (STJ, REsp 1.487.596/MG, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, 4ª Turma, julgado em 28/09/2021). A multiparentalidade também produz efeitos de natureza patrimonial, especialmente no que se refere à obrigação alimentar e aos direitos sucessórios. Com o reconhecimento de mais de um vínculo parental, o dever de prestar alimentos pode alcançar os diferentes pais ou mães reconhecidos, observadas as necessidades do filho e as possibilidades de contribuição de cada responsável, conforme o Enunciado 341 do Conselho da Justiça Federal (DIAS, 2023, p. 238-239). Do mesmo modo, o reconhecimento da filiação produz efeitos no âmbito sucessório, de modo que o filho passa a integrar a sucessão dos diferentes genitores reconhecidos, assim como estes passam a integrar sua sucessão, nos termos do Enunciado 33 do Instituto Brasileiro de Direito de Família (DIAS, 2023, p. 238-239). Esses efeitos demonstram que a multiparentalidade não representa apenas uma alteração formal no registro civil ou a possibilidade de inclusão de mais de um nome na certidão de nascimento trata-se do reconhecimento de vínculos parentais que produzem consequências pessoais, familiares e patrimoniais concretas, razão pela qual sua aplicação exige a análise cuidadosa da realidade familiar e dos efeitos jurídicos decorrentes de cada vínculo reconhecido, conforme já examinado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622. Da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 622, é possível extrair quatro conclusões relevantes para a compreensão da filiação socioafetiva no direito brasileiro. A primeira delas é o pleno reconhecimento jurídico da parentalidade socioafetiva: uma relação construída pelo afeto, pelo cuidado, pela convivência e pelo exercício da função parental passa a ser reconhecida juridicamente como filiação, produzindo efeitos jurídicos próprios, e não apenas sendo tratada como uma relação afetiva de fato, sem consequências legais. A segunda conclusão é a inexistência de primazia entre a filiação biológica e a socioafetiva, de modo que ambas podem coexistir sem que uma prevaleça sobre a outra, afastando-se a necessidade de a pessoa escolher entre o pai biológico e o pai socioafetivo. A terceira conclusão diz respeito à própria admissão da multiparentalidade: o direito brasileiro passou a reconhecer a possibilidade de mais de um vínculo de filiação simultâneo, com a produção de efeitos jurídicos para todos eles. Por fim, a quarta conclusão estabelece um limite importante à aplicação da tese: conforme já examinado, essa possibilidade de coexistência restringe-se à hipótese de posse de estado de filiação, não se estendendo à adoção ou à inseminação artificial heteróloga (LÔBO, 2024, p. 334-335). Dessas conclusões, evidencia-se a superação da hierarquia entre origem biológica e socioafetividade, remanescendo, contudo, situações em que o conflito entre os dois vínculos não se resolve pela simples coexistência, cabendo ao Poder Judiciário definir os critérios aplicáveis nesses casos tema que será examinado no capítulo seguinte. 4. OS CRITÉRIOS DE SOLUÇÃO DO CONFLITO ENTRE A VERDADE BIOLÓGICA E A VERDADE SOCIOAFETIVA NAS AÇÕES DE FILIAÇÃO Nem todo conflito entre filiação biológica e socioafetiva pode ser resolvido simplesmente colocando os dois vínculos lado a lado. Quando eles entram realmente em conflito para além da hipótese do Tema 622 é necessário analisar o caso concreto. É aí que entra a ponderação de princípios: o Direito não estabelece, de forma abstrata, que um princípio sempre vai prevalecer sobre o outro. O julgador precisa analisar os princípios envolvidos e verificar qual solução melhor protege os interesses daquela situação específica. Isso ocorre porque a aplicação tradicional da norma pela técnica da subsunção pode não ser suficiente diante de conflitos entre princípios constitucionais. Conforme destaca Manoel Jorge da Silva Neto (apud FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 42), quando diferentes valores constitucionais entram em conflito, a aplicação mecânica de uma norma ao fato concreto não é suficiente para identificar, por si só, a solução mais adequada. Nesses casos, torna-se necessária a análise dos princípios envolvidos e das circunstâncias específicas do caso, mediante a técnica da ponderação. A aplicação da técnica de ponderação no âmbito da filiação pode ser observada no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 363.889/DF pelo Supremo Tribunal Federal, relatado pelo Ministro Dias Toffoli e julgado em 2 de junho de 2011. Discutia-se, no caso, a possibilidade de propositura de nova ação de investigação de paternidade diante do surgimento de novas provas, uma vez que já havia decisão anterior sobre a mesma paternidade, protegida pela coisa julgada, mas posteriormente surgira a possibilidade de realização do exame de DNA. Diante disso, o Supremo Tribunal Federal precisou ponderar, de um lado, a segurança jurídica decorrente da coisa julgada e, de outro, o direito da pessoa de conhecer sua origem e identidade biológica. Diante das circunstâncias daquele caso concreto, a Corte atribuiu maior peso ao direito à identidade biológica, permitindo a propositura de novaação de investigação de paternidade. O caso demonstra, portanto, que a solução de conflitos entre princípios de igual hierarquia não é estabelecida de forma abstrata pela lei, mas depende da análise das circunstâncias concretas de cada caso e do peso atribuído a cada princípio envolvido, sempre tendo como referência a dignidade da pessoa humana (STF, RE 363.889/DF apud FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 43-44). O exame de DNA representou importante avanço científico para o Direito de Família, por possibilitar a identificação da origem biológica com elevado grau de certeza, constituindo-se em relevante instrumento para o conhecimento da identidade genética e da própria ascendência do indivíduo. Entretanto, a origem genética e o estado de filiação não devem ser confundidos, pois representam aspectos distintos da relação parental: enquanto a primeira identifica quem forneceu o material biológico, o segundo revela a existência de uma relação parental efetivamente constituída, que pode ou não decorrer da origem genética (LÔBO, 2024, p. 372). Por essa razão, embora o exame de DNA ofereça resposta científica segura quanto à origem biológica, seu resultado não é suficiente, isoladamente, para solucionar todos os conflitos relacionados à filiação. A certeza da origem genética não é, por si só, suficiente para fundamentar a filiação, especialmente quando esta já tiver sido constituída na convivência duradoura com pais socioafetivos; os avanços científicos, ainda que confiram grau elevadíssimo de certeza quanto à origem genética, pouco contribuem para esclarecer a relação entre pais e filho, pois a imputação da parentalidade biológica não substitui a convivência e a construção permanente dos laços afetivos (LÔBO, 2024, p. 40). Também é importante distinguir a investigação da origem biológica da pretensão de desconstituir uma paternidade ou maternidade socioafetiva já estabelecida. O direito ao conhecimento da origem genética integra o direito da personalidade de qualquer pessoa, mas não se confunde com as relações de parentesco propriamente ditas (LÔBO, 2024, p. 372). Assim, o reconhecimento da origem biológica pode ocorrer sem que isso implique, necessariamente, a exclusão de uma relação socioafetiva já existente. Essa compreensão dialoga diretamente com o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 622, segundo o qual a existência de paternidade socioafetiva não impede o reconhecimento concomitante do vínculo baseado na origem biológica, com os respectivos efeitos jurídicos próprios. Desse modo, a certeza proporcionada pelo exame de DNA, embora possua grande relevância para o reconhecimento da origem biológica, não elimina a necessidade de análise da realidade familiar concreta. É justamente nesse ponto que se evidencia a complexidade do conflito entre a verdade biológica e a verdade socioafetiva, uma vez que a existência de vínculo genético não significa, por si só, que ele deva substituir uma relação parental construída ao longo da vida. Por essa razão, a solução desses conflitos não pode se basear exclusivamente no resultado do exame de DNA, sendo necessária a análise das circunstâncias específicas de cada caso e dos princípios jurídicos envolvidos, conforme a técnica de ponderação apresentada neste capítulo. O conflito entre a filiação biológica e a socioafetiva também pode surgir após a morte do suposto pai ou mãe biológico, quando o filho busca o reconhecimento da filiação biológica mesmo diante da existência de vínculo socioafetivo previamente estabelecido. Nessa hipótese, a legitimidade passiva da ação de investigação de paternidade post mortem recai sobre os herdeiros do falecido, sejam legítimos ou testamentários, e não sobre o espólio, em razão da natureza da ação e da ausência de personalidade jurídica própria deste (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 634). O espólio constitui uma universalidade de direitos e possui apenas capacidade para estar em juízo na defesa dos interesses patrimoniais da massa hereditária, razão pela qual não deve figurar como réu na ação investigatória, cabendo aos herdeiros integrar o polo passivo da demanda. A questão assume especial relevância quando o reconhecimento da filiação é acompanhado da pretensão de produzir efeitos sucessórios, uma vez que o vínculo parental reconhecido pode repercutir diretamente na sucessão do falecido, de modo que a investigação de paternidade post mortem pode ultrapassar o simples reconhecimento do estado de filiação e alcançar os efeitos jurídicos dele decorrentes, inclusive no âmbito sucessório (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 634-635). Nesse contexto, a possibilidade de reconhecimento da filiação biológica após o falecimento, mesmo diante da existência de uma filiação socioafetiva, demonstra que a presença de vínculo socioafetivo não impede, por si só, a investigação da origem biológica. Essa situação apresenta particularidades em relação ao entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 622, na medida em que, aqui, ganham relevância especial os efeitos sucessórios decorrentes do reconhecimento tardio da filiação. Nessa mesma linha, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 2.075.230/RJ, reconheceu a possibilidade de filiação socioafetiva mesmo após a morte dos pais socioafetivos, desde que comprovada a posse de estado de filho em vida, afirmando ainda que a mudança de convivência familiar na fase adulta não descaracteriza o vínculo afetivo construído na infância e juventude (STJ, REsp 2.075.230/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, julgado em 11/02/2025). A busca pelo reconhecimento da parentalidade socioafetiva pode ocorrer após a morte do genitor, inclusive quando já existe pai registral, sendo possível o reconhecimento da filiação socioafetiva e da multiparentalidade. Entretanto, o reconhecimento post mortem da filiação socioafetiva não deve ser confundido com a adoção póstuma, pois se tratam de situações juridicamente distintas. No primeiro caso, busca-se declarar juridicamente um vínculo parental que já existia de fato antes do falecimento, sendo suficiente a comprovação da posse do estado de filho, caracterizada pela existência de uma relação socioafetiva consolidada entre as partes, não sendo necessária a demonstração de que o falecido tivesse manifestado intenção de adotar (DIAS, 2023, p. 238). A adoção póstuma, por sua vez, possui requisitos próprios previstos no artigo 42, §6º, do Estatuto da Criança e do Adolescente: em regra, exige-se que a ação de adoção já tivesse sido proposta antes do falecimento do adotante, ou que este tivesse manifestado, de forma inequívoca, sua intenção de adotar. A jurisprudência, contudo, relativizou a exigência de prévia propositura da ação, admitindo a adoção póstuma quando comprovada a inequívoca vontade do adotante, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça no julgamento do AgInt (Agravo Interno) no REsp 1.667.105/RJ, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 14 de outubro de 2019. Essa distinção demonstra que o direito trata de maneira diversa duas situações: de um lado, o reconhecimento de uma relação de filiação socioafetiva que já existia e pode ser comprovada pela posse do estado de filho; de outro, a adoção póstuma, que envolve a formalização de um vínculo adotivo ainda não concretizado e, por isso, está submetida a requisitos específicos mais rígidos (DIAS, 2023, p. 238-239). A análise desenvolvida ao longo deste capítulo demonstra que, embora o Supremo Tribunal Federal tenha reconhecido, no Tema 622, a possibilidade de coexistência entre a filiação biológica e a socioafetiva, nem todas as situações envolvendo esses vínculos podem ser solucionadas pela simples afirmação dessa coexistência. Em determinados casos, especialmente quando há conflito entre princípios constitucionais ou quando o reconhecimento da filiação ocorre após o falecimento de um dos envolvidos, torna-se necessária uma análise das circunstâncias concretas e dos efeitos jurídicos decorrentes de cada situação. Nesse sentido, tanto nos conflitos submetidosà técnica de ponderação de princípios quanto nas situações de reconhecimento da filiação socioafetiva post mortem, a solução não decorre de uma resposta abstrata e previamente estabelecida, mas exige a consideração das particularidades do caso concreto, dos efeitos pessoais e patrimoniais decorrentes do reconhecimento da filiação, e da proteção aos direitos fundamentais envolvidos, sempre com fundamento na dignidade da pessoa humana. Essa perspectiva evidencia a transformação do Direito de Família contemporâneo, que passou a reconhecer a complexidade das relações parentais e a admitir soluções que soluções que ultrapassam modelos rígidos, exclusivamente baseados na origem biológica (LÔBO, 2024, p. 315), permitindo que diferentes formas de parentalidade sejam juridicamente consideradas, com a devida preservação dos direitos e interesses decorrentes de cada vínculo. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste trabalho, buscou-se compreender como o Direito brasileiro concilia a verdade biológica e a verdade socioafetiva na definição de quem é, juridicamente, pai ou mãe de alguém. A análise desenvolvida nos três capítulos permitiu responder a essa pergunta: não existe uma fórmula pronta, aplicável a todos os casos da mesma forma. A origem genética e o vínculo construído pelo afeto, isoladamente, não bastam para explicar a complexidade das relações familiares cada situação exige um olhar próprio, atento às pessoas envolvidas. O primeiro capítulo mostrou que a própria ideia de filiação mudou bastante ao longo do tempo. Por muito tempo, o Direito brasileiro enxergava a família de forma rígida e patriarcal o Código Civil de 1916 separava os filhos entre "legítimos" e "ilegítimos", como se alguns merecessem menos proteção que outros só por terem nascido fora do casamento. Foi a Constituição de 1988 que rompeu com essa lógica, ao garantir que todo filho, independentemente de sua origem, tivesse os mesmos direitos. A partir daí, o afeto deixou de ser apenas um sentimento e passou a ser reconhecido como algo capaz de gerar direitos e deveres o que abriu espaço para conceitos como a desbiologização da paternidade e a posse de estado de filho, que valorizam a relação vivida no dia a dia, não apenas o que está escrito num exame de DNA. No segundo capítulo, viu-se como essa mudança de olhar chegou ao Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 622. A Corte reconheceu algo simples, mas revolucionário: ter um pai socioafetivo não apaga o direito de também reconhecer o pai biológico os dois vínculos podem existir juntos, cada um com seus efeitos. Foi assim que a multiparentalidade passou a ser aceita pelo direito brasileiro, ainda que com um limite importante: essa possibilidade vale para quem já vive a posse de estado de filho, não se estendendo automaticamente à adoção ou à inseminação artificial com doador, que seguem regras próprias. Já o terceiro capítulo revelou que nem sempre basta dizer "os dois vínculos podem coexistir" às vezes, eles realmente entram em conflito, e alguém precisa decidir qual pesa mais naquela situação específica. Foi o que se viu na técnica de ponderação de princípios, usada pelos tribunais quando não há uma resposta pronta na lei. E foi o que também apareceu nos casos de reconhecimento de filiação depois da morte de um dos envolvidos, quando a questão deixa de ser só afetiva e passa a envolver herança, patrimônio e a própria identidade de quem busca saber de onde veio. Diante de tudo isso, é possível concluir que o Direito brasileiro não escolhe, de forma abstrata, entre biologia e afeto ele tenta, sempre que possível, dar espaço para os dois. A verdade biológica e a verdade socioafetiva não precisam ser vistas como inimigas: muitas vezes, ambas fazem parte da mesma história de vida, da mesma identidade, da mesma família. E quando não é possível conciliar as duas, cabe ao Judiciário olhar com cuidado para cada caso, sempre buscando proteger a dignidade das pessoas envolvidas. Por fim, fica evidente que o Direito de Família continua se transformando, assim como as próprias famílias brasileiras. Reconhecer que existem diferentes formas de ser pai, de ser mãe, de pertencer a uma família para além do que manda a biologia é também reconhecer a humanidade que existe por trás de cada vínculo. O debate sobre verdade biológica, socioafetividade e multiparentalidade certamente vai continuar avançando, à medida que a sociedade também muda e o Direito precisa acompanhar essas transformações. REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial [da] União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em:https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 28 set. 2026. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] União, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 28 set. 2026. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial [da] União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 28 set. 2026. DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 16. edição São Paulo: JusPodivm, 2023. FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: famílias. 7. ed. rev., ampl. e atual. Salvador: pela Atlas S.A, 2015. LÔBO, Paulo. Direito civil: famílias. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2024. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, Terceira Turma. AgInt no Recurso Especial nº 1.667.105/RJ. Relator: Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. Brasília, DF, 14 out. 2019. 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Disponível em: https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso.asp?incidente=2072456&numeroProcesso=363889&classeProcesso=RE&numeroTema=392. Acesso em: 28 set. 2026. BRASIL. Supremo Tribunal Federal (Tribunal Pleno). Recurso Extraordinário nº 898.060/SC. Relator: Ministro Luiz Fux. Brasília, DF, 21 set. 2016. Tema 622 – Repercussão Geral. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso.asp?incidente=4803092&numeroProcesso=898060&classeProcesso=RE&numeroTema=622. Acesso em: 28 set. 2026. Público Público Público Público Público Público image1.png