Prévia do material em texto
Capítulo 3 Envelhecimento e Periodonto Ian Needleman Sumário do capítulo EFEITOS DO ENVELHECIMENTO NO PERIODONTO Epitélio Gengival Tecido Conjuntivo Gengival Ligamento Periodontal Cemento Osso Alveolar Placa Bacteriana Respostas Imunes e Inflamatórias EFEITOS DO ENVELHECIMENTO NA PROGRESSÃO DAS DOENÇAS PERIODONTAIS ENVELHECIMENTO E RESPOSTA AO TRATAMENTO DO PERIODONTO O aumento da consciência sobre saúde e os avanços na odontologia preventiva levaram à diminuição da perda de dentes em todos os grupos etários. Os efeitos dessa mudança na retenção dos dentes devem ser considerados cuidadosamente. Particularmente, o aumento na expectativa de vida e as melhores condições de saúde da população idosa podem levar a uma alteração na demanda de tratamento periodontal por pessoas mais velhas e, potencialmente, um aumento substancial para a terapia periodontal de suporte. Consequentemente, um entendimento do impacto do envelhecimento no periodonto é crítico. Este capítulo faz uma revisão da literatura sobre os aspectos fundamentais do envelhecimento nos tecidos periodontais e, depois, examina aspectos mais amplos do envelhecimento, bem como os possíveis efeitos nos resultados do tratamento. A base de evidência apresenta muitos problemas que tornam difícil tirar conclusões sobre os efeitos do envelhecimento. Alguns destes problemas incluem inconsistência na definição de um grupo verdadeiramente “envelhecido”, inadequada exclusão de adultos com doenças sistêmicas que podem modificar os achados do estudo e tentativas de extrapolar resultados de pesquisas com animais. Para o 106 propósito deste capítulo, o efeito de envelhecimento será limitado a uma revisão restrita de possíveis mudanças biológicas e microbiológicas.* O leitor deve estar plenamente advertido de que isso exclui muitos fenômenos importantes associados à idade, como a redução na habilidade cognitiva e na função motora do indivíduo, que podem ter um impacto direto na conduta periodontal. O Capítulo 39 discutirá essas questões detalhadamente. Desde que este capítulo foi escrito pela primeira vez, há 10 anos, o número de pesquisas sobre envelhecimento e o periodonto não aumentou substancialmente. Novas técnicas moleculares estão sendo empregadas em pesquisa laboratorial relacionada, e estas técnicas estão começando a dar uma nova percepção aos efeitos relacionados à idade. Provavelmente, estas abordagens se mostrarão frutíferas no futuro. Apesar dos dados limitados sobre a investigação direta sobre o periodonto, muitos esforços e recursos vêm sendo empregados na pesquisa de questões parcialmente relacionadas a este tópico. Estas incluem o efeito da infecção periodontal sobre a saúde em geral (Cap. 28) e o impacto da osteoporose na condição periodontal (Cap. 38). Efeitos do envelhecimento no periodonto Epitélio Gengival Afinamento e diminuição na queratinização do epitélio gengival foram relatados com a idade.43 O significado desses achados pode indicar aumento na permeabilidade epitelial para antígenos bacterianos, resistência diminuída ao trauma funcional ou ambos. Caso ocorram, essas alterações podem influenciar o resultado periodontal em longo prazo. Entretanto, outros estudos não encontraram diferenças relacionadas à idade no epitélio gengival de humanos ou cães.8,19 Outras alterações relatadas com a idade incluem o achatamento das invaginações epiteliais para o conjuntivo (rete pegs) e densidade celular alterada. Dados conflitantes a respeito do tempo de regeneração cirúrgica para o epitélio gengival têm sido atribuídos a problemas na metodologia de pesquisa.48 O efeito do envelhecimento na localização do epitélio juncional tem sido objeto de muita especulação. Alguns investigações mostram a migração do epitélio juncional de sua posição em indivíduos saudáveis (isto é, sobre esmalte) para uma posição mais apical na superfície radicular, com simultânea retração gengival.8 Entretanto, em outros estudos em animais, não foi notada migração apical.22 Com a progressão da retração gengival, seria esperado que a largura da gengiva inserida diminuísse com a idade, mas o oposto parece ser verdade.2,3 Contrariamente, a migração do epitélio juncional para a superfície radicular poderia ser causada pela erupção dentária através da gengiva, numa tentativa de manter o contato oclusal com o dente 107 antagonista (erupção passiva) como resultado da perda de superfície dentária decorrente da atrição (Fig. 3-1). O consenso é que a retração gengival não é um processo fisiológico inevitável do envelhecimento, mas explicada pelos efeitos cumulativos da inflamação ou trauma sobre o periodonto6,8 (veja discussão adiante) (Fig. 3-2). Figura 3-1 Diagrama mostrando a relação da margem gengival com a coroa e a superfície radicular. A, Relação normal com a margem gengival de 1 a 2 mm acima da junção esmalte-cemento. B, Desgaste da borda incisal e erupção dentária contínua. A margem gengival permanece na mesma posição de A; portanto, a raiz dentária é exposta e a retração clínica fica evidente. A largura da gengiva inserida não se altera. C, Desgaste da borda incisal e erupção dentária contínua. A margem gengival moveu-se com o dente; assim, todo o complexo dentogengival moveu-se coronariamente, com um aumento resultante na largura da gengiva inserida. D, Sem desgaste evidente da borda incisal. A gengiva moveu-se apicalmente e a retração clínica é evidente. A largura da gengiva inserida está reduzida. 108 Figura 3-2 Três situações ilustram a variação da posição da margem gengival com a idade. A, Extrusão fisiológica com retração em um indivíduo idoso (mulher, 68 anos de idade), com retração generalizada e histórico prévio de periodontite (tratada). Note um pouco de sobrerupção dos dentes anteriores inferiores e desgaste de dentes relacionado a medidas de higiene oral. B, Radiografias da paciente em A. C, Extrusão fisiológica sem retração em um indivíduo mais velho (mulher, 72 anos de idade) sem periodontite, mas com desgaste marcante e extrusão dos incisivos inferiores. Note como a margem gengival migrou coronariamente com a erupção dos dentes. D, Retração extensa em indivíduo jovem (homem, 32 anos de idade) com retração marcante e sem histórico de periodontite. A retração resultou de uma combinação de tecidos anatomicamente finos associadas a trauma de escovação. Transferência científica Os tecidos periodontais são programados para proporcionar apoio saudável para a dentição durante a vida do paciente. Apesar de haver algumas preocupações de que os pacientes idosos tenham maior suscetibilidade à doença periodontal, o papel da idade na progressão da doença é mínimo. Com apropriada terapia dental e manutenção de baixos níveis de placas, os clínicos podem assegurar aos pacientes idosos que eles são capazes de manter uma dentição funcional, ainda que possa haver uma resistência ligeiramente menor à inflamação periodontal induzida por bactérias e um risco maior de níveis elevados de supostas bactérias patogênicas periodontais, como Tanerella forsythia, Treponema denticola, Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Em resposta ao tratamento da periodontite, os pacientes idosos geralmente têm todos os mecanismos celulares e moleculares necessários para assegurar a cicatrização e o reparo, mas estes mecanismos podem ser mais lentos e, de certa forma, inferiores aos dos pacientes jovens. Entretanto, com as interações celulares mais complexas que ocorrem com a cicatrização das cirurgias periodontais regeneradoras avançadas, envolvendo enxertos ósseos, regeneração tecidual guiada e uso de agentes bioativos, a expectativa é a de que os resultados do tratamento em pacientes idosos não sejam tão favoráveis quanto em jovens. Dessa forma, os clínicos podem decidir usar abordagens mais simples para tratar lesões avançadas nesses pacientes. Os procedimentos não cirúrgicos podem ser preferidos, nos casos em que se acredita que a idade dos pacientes é significativa. A distinção entre a idade real em anos e o estado biológico é uma habilidadeclínica que os profissionais precisam avaliar. Com as melhoras nos históricos do estado de saúde dos pacientes idosos, podem ser implementados, para estes pacientes, planos mais exigentes de tratamento do que os de décadas anteriores. As habilidades motoras dos pacientes e as capacidades cognitivas podem estar desgastadas pela idade, assim o dentista precisa modificar as técnicas de ensino de higiene oral com base na avaliação do potencial de aprendizagem de cada paciente e aplicar técnicas individualizadas para remoção da placa. O uso de antissépticos bucais antibacterianos e os aparelhos para higiene oral têm um papel especial para esses pacientes. Tecido Conjuntivo Gengival O aumento da idade resulta em um tecido conjuntivo gengival mais grosseiro e 109 denso.51 Alterações qualitativas e quantitativas do colágeno têm sido relatadas. Elas incluem aumento da taxa de conversão do colágeno solúvel em insolúvel, aumento da resistência mecânica e elevação da temperatura de desnaturação. Esses resultados indicam maior estabilização do colágeno, causada por alterações na conformação macromolecular.26 De maneira não surpreendente, um conteúdo maior de colágeno é encontrado na gengiva de animais mais velhos, apesar de um menor grau na síntese de colágeno que diminui com a idade.8,26,48 Ligamento Periodontal Alterações no ligamento periodontal são reportadas com o envelhecimento, incluindo diminuição no número de fibroblastos e uma estrutura mais irregular acompanhando as mudanças no tecido conjuntivo gengival.8,26,48 Outros achados abrangem a diminuição da produção de matriz orgânica e restos de células epiteliais e aumento na quantidade de fibras elásticas.48 Resultados conflitantes foram relatados sobre alterações na largura do ligamento periodontal em humanos e modelos animais. Apesar de uma variação verdadeira poder existir, esse achado provavelmente reflete a condição funcional dos dentes nos estudos, porque a largura do espaço irá diminuir se o dente estiver sem antagonista (hipofunção) ou irá aumentar com a sobrecarga oclusal.26,48 Ambas as situações podem ser antecipadas como resultado da perda dentária na população em questão. Esses efeitos também podem explicar a variabilidade dos estudos que relatam alterações qualitativas no ligamento periodontal. O reconhecimento de que o ligamento periodontal tem importante papel no metabolismo do osso alveolar levou a um interesse maior em investigar este papel em relação à manutenção da saúde periodontal e à patogênese da periodontite. Uma abordagem para investigar este papel é o exame dos mediadores da homeostase óssea, como o ligante do receptor ativador do fator nuclear kB (RANKL) e da osteoprotegerina (OPG). O RANKL é amplamente reconhecido por seu papel na ativação de osteoclastos, enquanto a OPG antagoniza a ligação de RANKL, ajudando assim a manter o equilíbrio. A interação das citocinas, em particular da família da interleucina, também tem sido amplamente pesquisada na patogênese periodontal. Algumas das interleucinas são potentes mediadores de inflamação (p. ex., interleucina-1 [IL-1]), enquanto outras mostraram que fazem a regulação descendente deste processo (p. ex., IL-4 e IL-10). Portanto, parece que a determinação do equilíbrio entre os processos homeostáticos seria de grande mérito na avaliação de possíveis alterações negativas no periodonto. Tal estratégia parece ser preditiva da destruição de tecido duro na artrite reumatoide.15 Achados recentes, comparando as células de ligamento periodontal em indivíduos idosos (>60 anos de idade) versus jovens (15 a 20 anos de idade), sugeriram maior expressão genética para citocinas pró-inflamatórias.7 Este efeito é citado de forma mais ampla como uma alteração 110 associada à idade, embora não esteja claro se como causa ou como efeito.35 Contudo, além da maior expressão de IL-1 e IL-6, a OPG também aumentou, sugerindo que este aumento de OPG poderia ser uma resposta homeostática à regulação ascendente da inflamação.7 Se este mecanismo homeostático fosse efetivo, ele poderia explicar por que um aumento na inflamação não resultou em maior dano tecidual com a idade. A proliferação de células do ligamento periodontal estava diminuída com a idade, sugerindo comprometimento do potencial de reparo, embora tal impacto não pareça se manifestar clinicamente.50 Outras pesquisas investigando as células do ligamento periodontal dos indivíduos diagnosticados com periodontite serão importantes para a compreensão da relação potencialmente importante entre envelhecimento e as células do ligamento periodontal. Cemento Existe algum consenso a respeito dos efeitos do envelhecimento sobre o cemento. Um aumento na largura do cemento é um achado comum; esse aumento pode ser de cinco a 10 vezes com o decorrer da idade.8 Esse achado não é surpreendente devido à deposição contínua após a erupção dos dentes. O aumento na espessura é maior apicalmente e na face lingual.48 Apesar de o cemento ter uma capacidade limitada para remodelação, um acúmulo de sítios de reabsorção explica o achado de aumento de irregularidade de superfície.16 Osso Alveolar As alterações morfológicas relacionadas à idade relatadas no osso alveolar espelham aquelas que ocorrem em outros sítios ósseos. Achados mais específicos ao periodonto são superfície óssea periodontal mais irregular e menor inserção regular de fibras colágenas.48 Apesar da idade ser um fator de risco para redução da massa óssea na osteoporose, ela não é causadora e, portanto, deve ser distinguida do processo fisiológico de envelhecimento.18 Passando por cima das diversas observações de alterações ósseas com a idade está o importante achado que o grau de cicatrização óssea em alvéolos de extração parece não ser afetado pela idade.4 De fato, o sucesso de implantes dentários osteointegrados, que depende das respostas de cicatrização intactas, não parece estar relacionado à idade.9 Entretanto, contrapõe-se a essa visão a observação recente de que preparados de enxerto ósseo (osso liofilizado) de doadores com mais de 50 anos de idade possuiam um potencial osteogênico significativamente menor do que o material de enxerto de doadores mais jovens.42 O possível significado desse fenômeno nas respostas normais de cicatrização precisa ser investigado. Placa Bacteriana 111 Sugeriu-se que o acúmulo da placa dentogengival aumenta com a idade.17 Isso pode ser explicado pelo aumento da superfície de tecidos duros resultante da retração gengival e pelas características da superfície radicular exposta como um substrato para a formação da placa diferente do esmalte. Outros estudos não demonstraram diferenças na quantidade da placa com a idade. Essa contradição poderia refletir as diferentes faixas etárias dos grupos experimentais como graus variáveis de retração gengival e exposição radicular. Para a placa supragengival, não foram demonstradas diferenças qualitativas reais para a composição da placa.17 Para a placa subgengival, um estudo demonstrou uma microbiota subgengival semelhante à microbiota normal, enquanto outro estudo relatou um aumento no número de bacilos entéricos e pseudomonas em adultos mais velhos.31,46 Mombelli sugere cautela na interpretação desse achado, devido à transmissão aumentada destas espécies entre indivíduos adultos.29 Especula-se que uma mudança ocorra na importância de certos patógenos periodontais com a idade, especificamente um aumento no papel da Porphyromonas gingivalis e uma diminuição no papel do Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Entretanto, diferenciar os verdadeiros efeitos do envelhecimento das alterações nos determimantes ecológicos para as bactérias bucais será difícil.Este tópico é considerado mais detalhadamente em uma recente revisão.29 Uma outra abordagem para investigar microbiologia é conduzir estudos intervencionistas e examinar seu impacto sobre a microbiota. Em indivíduos de 60 a 75 anos de idade, a prevalência de P. gingivalis, Tanerella forsythia, T. denticola, A. actinomycetemcomitans, e Prevotella intermedia foi alta e não serelacionou claramente à profundidade de sondagem.39 O achado de altos níveis dos organismos poderia estar relacionado à amostra de indivíduos, visto que em sua maioria eram indivíduos de baixa renda e sem cuidados dentais recentes. O uso prolongado (cinco anos) de um colutório de clorexidina a 0,12% não promoveu reduções nas proporções dos organismos em indivíduos com perda óssea alveolar, comparados com o colutório placebo, possivelmente devido a rotina de uso do colutório ter sido menos frequente que o uso diário. Respostas Imunes e Inflamatórias Avanços recentes nos estudos dos efeitos do envelhecimento sobre as respostas imunes (imunofluorescência) alteraram a compreensão desse fenômeno. Particularmente, estudos mais recentes determinaram controles mais rígidos para a exclusão de indivíduos com condições sistêmicas que sabidamente afetam a resposta imune. Como resultado, reconheceu-se que a idade possui muito menos efeito na alteração das respostas do hospedeiro do que se pensa.20,27 Diferenças entre indivíduos jovens e idosos podem ser demonstradas nas células T e B, citocinas e células natural killer, mas não para células polimorfonucleares e atividade macrofágica. McArthur concluiu: “A mensuração de indicadores da competência imune e inflamatória sugere que, 112 dentro dos parâmetros testados, não houve evidência de mudanças relacionadas à idade nas defesas do hospedeiro correlacionando-se com periodontite em um grupo de indivíduos idosos (65 a 75 anos de idade), com e sem a doença.”27 As diferenças referentes à idade na resposta inflamatória na gengivite foram claramente demonstradas e são discutidas adiante neste livro. Em relação às respostas inflamatórias sistêmicas, a proteína C reativa (PCR) é uma proteína de fase aguda e amplamente considerada como um marcador de carga inflamatória e resposta à infecção bacteriana.44 Ao investigar os níveis séricos de PCR em indivíduos de 60 a 75 anos de idade, comparados àqueles com periodontite progressiva contra doença estável, os níveis de PCR estavam aumentados naqueles com periodontite progressiva e sem outra condição sistêmica.47 Isso pode indicar que a carga inflamatória pode ser investigada com o uso da PCR, embora haja crescente evidência de que a PCR sozinha pode não ser um marcador muito confiável em pessoas idosas.40 Outro modulador das respostas imunes e inflamatórias é a nutrição. O interesse neste campo está crescendo rapidamente em medicina e periodontologia.11 A nutrição tem sido extensamente estudada em medicina geriátrica devido às alterações na ingestão nutricional com a idade. O impacto como um fator de risco em potencial para doenças periodontais e sua progressão é, portanto, de interesse. Começaram a surgir dados que sugerem a associação negativa entre folato sérico e a periodontite (isto é, após controlar os principais fatores de confusão, o folato sérico diminuído em adultos com dentes (>60 anos de idade) está associado a níveis mais altos de periodontite).53 Estes dados transversais podem não demonstrar apenas a causalidade, mas a reconhecida relação entre a proteção do folato para doenças inflamatórias crônicas, como a doença cardiovascular,28 oferece plausibilidade biológica para uma relação em potencial e merece mais investigações por estudos prospectivos. Em resumo, apesar da existência de muitas contradições, uma pesquisa na literatura demonstrou que algumas mudanças relacionadas à idade são evidentes no periodonto e na resposta do hospedeiro. A seguir será discutido se essas alterações são significativas na mudança da progressão das doenças periodontais ou na resposta de adultos idosos para o tratamento periodontal. Efeitos do envelhecimento na progressão das doenças periodontais Em um estudo clássico de gengivite experimental, restituiu-se a condição livre de placa e livre de inflamação nos indivíduos por meio de limpezas profissionais frequentes. Uma vez atingidos esses objetivos, os indivíduos abstinham-se das medidas de higiene bucal por um período de três semanas para permitir o 113 desenvolvimento da gengivite.25 Nesse modelo experimental, uma comparação do desenvolvimento da gengivite em indivíduos jovens e idosos demonstrou uma resposta inflamatória maior nos indivíduos idosos, tanto em humanos como em cães.8,12,13,17 No grupo mais velho (65 a 80 anos), os achados incluíram maior quantidade de infiltrado no tecido conjuntivo, aumento do fluxo do fluido gengival e aumento no índice gengival.12,13 Outros estudos não demonstraram diferenças entre os indivíduos; isso pode estar relacionado a diferenças menores entre as idades dos grupos experimentais jovem e idoso.52 De maneira intrigante, mesmo no início, com saúde gengival ótima antes do início do acúmulo da placa, podem existir diferenças entre os dois grupos, com o grupo idoso demonstrando mais inflamação.12,13 A frase “getting long in the tooth” (ficando um velho desdentado) expressa uma crença disseminada de que a idade está inevitavelmente associada ao aumento da perda de inserção conjuntiva. Entretanto, essa observação pode igualmente refletir a exposição cumulativa para um número de processos potencialmente destrutivos. Essas exposições podem incluir periodontite associada à placa, trauma mecânico crônico da escovação e danos iatrogênicos de uma odontologia restauradora desfavorável ou repetidas raspagem e alisamentos aumentada. Os efeitos da exposição aos fatores descritos atuam em uma única direção (perda de inserção).49 Nas tentativas de diferenciar os efeitos da idade desses outros processos, vários estudos foram delineados para eliminar temas que causam confusão e abordem mais claramente a questão da idade como um fator de risco para a periodontite. Um fator de risco é definido como “qualquer característica, comportamento ou exposição associado a uma determinada doença. A relação não é de natureza necessariamente causal … Alguns fatores de risco, se causais, podem ser modificados para reduzir o risco de início ou de progressão da doença em um indivíduo, como o tabagismo ou a melhora da higiene oral … enquanto outros fatores podem ser modificados, como os fatores genéticos”14 As conclusões desses estudos são notavelmente consistentes e mostram que o efeito da idade ou não existe ou leva a um aumento clinicamente insignificante no risco de perda de suporte periodontal.10,24,32,36,37 De fato, em comparação com a relação de chances de 20,52 para condição de higiene bucal precária e periodontite, a relação de chances para a idade foi de apenas 1,241 e o tabagismo tem mais influência do que a idade.32 Portanto, foi sugerido que a idade não é um fator de risco verdadeiro, mas um fato associado com a periodontite.36 Além do mais, esclarecimentos de base genética para a suscetibilidade a formas graves de periodontite enfatizam a grande importância da placa, do tabagismo e da suscetibilidade na explicação da maioria das variações de gravidade da doença periodontal entre indivíduos.21 Contudo, um longo estudo de periodontite essencialmente não tratada em uma população japonesa idosa (pelo menos 70 anos de idade) indicou que 296 de 394 indivíduos (75%) tiveram pelo menos um sítio com perda de inserção de 3mm ou mais ao longo de um período de dois anos.33 Tabagismo 114 e nível de inserção inicial de 6mm ou mais foram associados de modo significativo com a progressão da doença. Envelhecimento e resposta ao tratamento do periodonto O tratamento bem-sucedido da periodontite exige tanto controle meticuloso da placa pelo paciente, por meio de cuidados caseiros, quanto limpeza meticulosa supragengival e subgengival feita pelo terapeuta.30 Infelizmente, só alguns estudos têm comparado diretamente tal abordagem entre pacientes de grupos etários diferentes. Os poucos estudos que o fizeram demonstraram claramente que, apesar das mudanças histológicas no periodonto com o envelhecimento, não houve diferença na resposta para tratamento cirúrgico da periodontite versus tratamento não cirúrgico.5,23,50 Porém, se o controle de placa não for ideal, a perdade inserção é inevitável. Além do mais, sem uma efetiva terapia periodontal, a progressão da doença deve avançar com a idade.38 Tentativas de controle da placa por meios químicos também foram descritas.45 Uma revisão puramente biológica ou fisiológica indica que o envelhecimento tem certo impacto na estrutura e função do periodonto, assim como na função da resposta imune e na natureza tanto da placa supragengival como subgengival. Entretanto, essas mudanças apresentam um impacto desprezível na resposta individual ao tratamento. O envelhecimento pode afetar outros aspectos do tratamento das doenças periodontais, como o risco de cárie radicular41 (Cap. 39), e as dificuldades resultantes não devem ser menosprezadas. Curiosamente, um estudo recente identificou maior tendência à manutenção de suporte em indivíduos mais velhos do que em pacientes mais jovens.34 As referências bibliográficas estão disponíveis no site em www.elsevier.com.br/odontoconsult. * Para leitura adicional sobre os efeitos do envelhecimento no paciente dentado e periodontal, o leitor deve consultar Lamster IB, Northridge ME: Improving oral health for the elderly: an interdisciplinary approach, New York, 2008, Springer. 115 http://www.elsevier.com.br/odontoconsult Parte 2 Classificação e Epidemiologia das Doenças Periodontais 116 Parte 2: Classificação e Epidemiologia das Doenças Periodontais Michael G. Newman A classificação das doenças periodontais é útil para ajudar no estabelecimento do diagnóstico, determinar o prognóstico e facilitar o plano de tratamento. Diferentes classificações das doenças periodontais utilizadas ao longo dos anos foram substituídas assim que novos conhecimentos melhoraram nossa compreensão sobre a etiologia e a patologia das doenças do periodonto, conforme discutido no Capítulo 4. Também, como discutido no Capítulo 5, a Parte 2 inclui informações sobre a epidemiologia das doenças periodontais que irão ajudar o estudante e o clínico a analisar a doença e basear seu diagnóstico e decisões terapêuticas na sua prevalência, incidência e distribuição em grandes populações ou grupos. O conhecimento da epidemiologia da doença melhora nosso entendimento e aguça nossas decisões em casos individuais. 117