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Hemodinâmica Renal Profª Drª Mayara Nunes 2026 Análise de Fluidos Biológicos 1 O que é Hemodinâmica Renal? A hemodinâmica renal é o estudo do fluxo sanguíneo e das pressões dentro da circulação renal, vital para a função dos rins. Os rins recebem cerca de 20–25% do débito cardíaco, garantindo uma grande oferta de sangue para a filtração eficiente. Artéria Renal Arteríola Aferente Glomérulo Arteríola Eferente Capilares Peritubulares Veia Renal A hemodinâmica renal é fundamental para: Manter a Taxa de Filtração Glomerular (TFG) estável Regular o balanço de água e eletrólitos no corpo Eliminar resíduos metabólicos tóxicos Contribuir para o controle da pressão arterial Manter a homeostase geral do organismo 2 Hemodinâmica e Filtração Glomerular A Taxa de Filtração Glomerular (TFG) é diretamente influenciada pela pressão do sangue nos capilares do glomérulo. Pressão Hidrostática Glomerular ↑ Filtração ↑ Pressão Hidrostática Glomerular ↓ Filtração ↓ Papel das arteríolas na regulação da TFG: Constrição da Arteríola Aferente Diminui o fluxo sanguíneo renal, o que leva a uma redução da pressão glomerular e, consequentemente, à ↓ TFG. Constrição Moderada da Arteríola Eferente Aumenta a resistência à saída do sangue do glomérulo, elevando a pressão glomerular e resultando em ↑ TFG. 3 Por que a Hemodinâmica Renal Importa? Circulação e Função Tubular Existe uma estreita relação entre a circulação renal e a função tubular. O volume de sangue que perfunde os rins determina diretamente a quantidade de substâncias disponíveis para filtração, reabsorção e secreção. Volumes em Perspectiva A cada minuto, aproximadamente 1.200 mL de sangue passam pelos rins — mas apenas ~125 mL de plasma são efetivamente filtrados. Compreender essa diferença é o ponto de partida da hemodinâmica renal. 4 Fluxo Sanguíneo Renal (FSR) O FSR é definido como o volume de sangue que passa pelos rins por unidade de tempo. Apesar de representarem menos de 0,5% do peso corporal, os rins recebem aproximadamente 25% do débito cardíaco — uma proporção extraordinariamente elevada. Rins ~25% do débito cardíaco Fígado ~25% do débito cardíaco Músculos ~15–20% em repouso 5 Distribuição do FSR: Córtex vs. Medula Fluxo Cortical — 90% O córtex renal recebe a maior parte do FSR. O fluxo é rápido, favorecendo alta taxa de filtração glomerular e reabsorção tubular eficiente. Fluxo Medular — 10% A medula recebe apenas 10% do FSR. O fluxo lento é essencial para manter o gradiente osmótico intersticial, permitindo a concentração da urina pelo mecanismo de contracorrente. O baixo fluxo medular evita que o gradiente osmótico seja "lavado", preservando a capacidade de concentrar a urina. 6 Fatores que Alteram o FSR Idade O FSR atinge seu pico entre 20 e 30 anos e declina progressivamente com o envelhecimento. Gravidez Aumenta o FSR e o RFG devido ao maior débito cardíaco e vasodilatação renal. Nefrectomia Unilateral O rim remanescente sofre hipertrofia compensatória, aumentando seu FSR individual. Ingestão Proteica Dietas hiperproteicas elevam o FSR e o RFG por mecanismos ainda em estudo. 7 Medindo o FSR — Princípio de Fick A medida direta do FSR é inviável na prática clínica. Utiliza-se, portanto, uma substância marcadora que não seja sintetizada nem metabolizada pelo rim, permitindo calcular o fluxo de forma indireta. Fórmula geral do FSR (Princípio de Fick): FSR = Quantidade de substância excretada / (Concentração arterial − Concentração venosa) A lógica é simples: se conhecemos quanto da substância entra e sai do rim, e quanto é excretado na urina, podemos calcular o volume de sangue que passou pelo órgão por unidade de tempo. 8 Medindo o FSR — Uso do PAH Por que o PAH? O para-amino-hipurato (PAH) é quase completamente depurado em uma única passagem pelo rim — por filtração glomerular e secreção tubular. Isso o torna o marcador ideal para estimar o fluxo plasmático renal. FSR Total vs. Fluxo Cortical O PAH mede o fluxo plasmático renal cortical (onde ocorre a secreção tubular). O FSR total inclui também o fluxo medular, que não depura o PAH completamente. A diferença é corrigida pelo hematócrito para obter o FSR total. 9 Ritmo de Filtração Glomerular (RFG) O RFG representa o volume de plasma filtrado pelos glomérulos por unidade de tempo. Apenas ~20% do plasma que entra no rim é filtrado — o restante segue pela arteríola eferente para os capilares peritubulares. Filtração Inicial O filtrado glomerular é o ponto de partida para a formação da urina definitiva. Volume Filtrado ~125 mL/min em adultos saudáveis — equivalente a filtrar todo o plasma a cada ~30 minutos. 10 Composição do Filtrado Glomerular O que passa livremente Água Íons (Na⁺, K⁺, Cl⁻, HCO₃⁻) Glicose e aminoácidos Ureia e creatinina Moléculas pequenas O que é retido Proteínas plasmáticas (albumina) Células sanguíneas Lipoproteínas O equilíbrio de Gibbs-Donnan explica como as proteínas aniônicas retidas influenciam a distribuição dos íons entre plasma e filtrado. 11 Valores Normais do RFG 125 mL/min — Homens Valor médio de referência para adultos do sexo masculino. 110 mL/min — Mulheres Valor médio de referência para adultas do sexo feminino. 1,73 m² — Superfície Padrão Os valores são padronizados pela superfície corpórea de 1,73 m² para comparação entre indivíduos. A padronização pela superfície corpórea é fundamental para comparar o RFG entre indivíduos de diferentes tamanhos corporais e em estudos populacionais. 12 Medindo o RFG — Clearance O clearance de uma substância representa o volume de plasma completamente depurado dessa substância por unidade de tempo. Para medir o RFG, a substância ideal deve: 1 Ser filtrada livremente Sem ligação a proteínas plasmáticas. 2 Não ser reabsorvida nem secretada O que é filtrado deve ser exatamente o que aparece na urina. 3 Não ser metabolizada A inulina é o padrão-ouro. A creatinina é o marcador clínico usual, apesar de sofrer pequena secreção tubular. 13 Membrana Filtrante — Três Camadas Endotélio Capilar Fenestrado; retém células sanguíneas. Membrana Basal Principal barreira; rica em sialoproteínas aniônicas. Epitélio de Bowman Podócitos com fendas de filtração; seletividade final. A seletividade por tamanho molecular aumenta progressivamente: Na⁺ e glicose passam livremente; inulina passa parcialmente; mioglobina e albumina são retidas. 14 Seletividade por Carga Elétrica O Papel da Carga A membrana basal glomerular é aniônica (rica em sialoproteínas). Isso repele moléculas com carga negativa e facilita a passagem de moléculas catiônicas — mesmo com tamanho semelhante. Evidência Experimental Experimentos com dextrana demonstram: a dextrana catiônica é mais filtrada que a neutra, e a aniônica é menos filtrada. Em doenças glomerulares, a perda das cargas aniônicas leva à proteinúria, mesmo sem alteração estrutural evidente. A proteinúria em doenças glomerulares pode resultar da perda da seletividade por carga, antes mesmo de alterações morfológicas detectáveis. 15 Pressão de Ultrafiltração - Forças de Starling A filtração glomerular depende do equilíbrio entre forças que favorecem e que se opõem à passagem de líquido do sangue para o espaço de Bowman. 🔵 Favorece a filtração Pressão hidrostática dos capilares glomerulares (PᴳC): Pressiona o líquido para fora dos capilares, principal força promotora. 🔴 Opõem-se à filtração Pressão hidrostática de Bowman (PᴮS): Pressiona líquido de volta. Pressão oncótica glomerular (πᴳC): Proteínas atraem água para dentro. Pressão oncótica de Bowman (πᴮS): Geralmente ≈ 0. Pressão de Ultrafiltração Líquida Exemplo: Se PᴳC = 55 mmHg, PᴮS = 15 mmHg, πᴳC = 30 mmHg PUF = 55 - 15 - 30 = 10 mmHg (favorecendo a filtração) 16 Pressão de Ultrafiltração ao Longo do Capilar À medida que o plasma percorre o capilar glomerular da arteríola aferente para a eferente, a filtração progressiva concentra as proteínas no plasma remanescente — elevando a pressão oncótica (πCG). Meio do capilar Ph cai levemente; πCG aumenta Eferente Equilíbrio:PEU≈0 Aferente Alta Ph e baixa πCG Distal πCG continua a subir No equilíbrio de filtração, a pressão oncótica iguala a pressão hidrostática efetiva e a filtração cessa — fenômeno que pode limitar o RFG em condições de baixo FSR. 17 Coeficiente de Ultrafiltração (Kf) Definição O Kf expressa a relação entre a permeabilidade hidráulica da membrana filtrante e a área de superfície disponível para filtração. RFG = Kf × PEU Por que os Glomérulos Filtram Tanto? Os capilares glomerulares possuem Kf 100 a 400 vezes maior que os capilares sistêmicos, devido à alta permeabilidade do endotélio fenestrado e à vasta área de superfície dos glomérulos. Doenças que reduzem a área filtrante (ex.: glomerulonefrite) diminuem o Kf e, consequentemente, o RFG. 18 Gradientes de Pressão nos Vasos Renais Artéria renal ~100 mmHg Arteríola aferente (queda) Capilar glomerular ~60 mmHg Arteríola eferente (queda) → Peritubulares ~15 mmHg → Veia renal ~8 mmHg As arteríolas aferente e eferente são os principais pontos de resistência vascular renal. Sua regulação independente permite o controle preciso da pressão no capilar glomerular e, portanto, do RFG. 19 Regulação do FSR e RFG pelas Arteríolas Arteríola Aferente Vasoconstrição: ↓ FSR e ↓ RFG (mesma direção) Vasodilatação: ↑ FSR e ↑ RFG Arteríola Eferente Vasoconstrição leve: ↓ FSR, mas ↑ RFG (direções opostas) Vasoconstrição intensa: ↓ FSR e ↓ RFG Fração de Filtração (FF) = RFG / FPR Valor normal: ~0,20 (20% do plasma filtrado). A FF aumenta com vasoconstrição eferente e diminui com vasoconstrição aferente. Os rins mantêm o FSR e o RFG relativamente constantes mesmo com variações da pressão arterial entre 80 e 200 mmHg. Esse mecanismo intrínseco protege o glomérulo de flutuações pressóricas e garante filtração estável. 20 Mecanismos da Autorregulação Mecanismo Miogênico Baseado na Lei de Laplace: o aumento da pressão intraluminal provoca estiramento da parede arteriolar, desencadeando contração do músculo liso — reduzindo o calibre e normalizando o fluxo. Resposta rápida (segundos). Balanço Tubuloglomerular A mácula densa detecta variações na concentração de NaCl no túbulo distal. Quando o RFG aumenta, mais NaCl chega à mácula densa → sinalização parácrина → vasoconstrição da arteríola aferente → redução do RFG. Resposta mais lenta (minutos). 21 Controle Neuro-Humoral da Circulação Renal Agente Efeito sobre FSR Efeito sobre RFG Sistema Nervoso Simpático ↓ (vasoconstrição) ↓ Angiotensina II (SRAA) ↓ ↔ / ↓ (mantém via eferente) ADH (vasopressina) ↓ leve ↔ / ↓ leve ANP (peptídeo atrial) ↑ ↑ Prostaglandinas (PGE₂, PGI₂) ↑ (vasodilatação) ↑ Endotelinas ↓ (vasoconstrição intensa) ↓ Óxido Nítrico (NO) ↑ (vasodilatação) ↑ 22 Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona O SRAA é o principal sistema hormonal de controle da circulação renal. A renina, liberada pelas células justaglomerulares em resposta à queda de pressão ou ativação simpática, converte angiotensinogênio em angiotensina I → angiotensina II (via ECA). Angiotensina II Vasoconstrição preferencial da arteríola eferente — mantém o RFG mesmo com FSR reduzido. Estimula aldosterona e reabsorção de Na⁺. Relevância Clínica Inibidores da ECA e bloqueadores do receptor AT₁ reduzem a pressão intraglomerular — efeito nefroprotetor em diabéticos e hipertensos. 23 Prostaglandinas, NO e Endotelinas Prostaglandinas (PGE₂, PGI₂) Produzidas localmente no rim em resposta ao estresse. Causam vasodilatação e protegem o FSR durante ativação simpática intensa. AINEs bloqueiam sua síntese — risco de lesão renal aguda. Óxido Nítrico (NO) Potente vasodilatador endotelial. Contrabalança a vasoconstrição da angiotensina II e das endotelinas, mantendo o tônus vascular renal basal. Endotelinas Vasoconstritores potentes liberados pelo endotélio. Reduzem intensamente o FSR e o RFG. Papel relevante em estados de choque e doenças renais crônicas. 24 Revisão e Próximos Passos Pontos-Chave para a Prova FSR = 25% DC; RFG normal; fórmula PEU; efeitos das arteríolas aferente/eferente; platô de autorregulação (80–200 mmHg); SRAA vs. ANP. Próximo Capítulo Função Tubular — reabsorção e secreção de solutos, mecanismos de concentração e diluição da urina (Margarida de Mello Aires, Fisiologia). Base Clínica Compreender a hemodinâmica renal é essencial para interpretar exames (creatinina, TFG estimada) e entender fisiopatologia da HAS, DRC e lesão renal aguda. 25 image1.jpeg image9.png image10.png image2.png image3.png image4.png image5.png image6.png image7.png image8.png image11.png image-2-2.svg image12.png image-2-4.svg image13.png image-2-6.svg image14.png image15.jpeg image16.png image21.png image-5-9.svg image17.jpeg image18.png image-5-3.svg image19.png image-5-5.svg image20.png image-5-7.svg image22.jpeg image23.png image24.png image25.png image26.png image27.png image28.png image29.png image30.png image31.png image32.png image33.png image-22-3.svg image34.png image-23-2.svg image35.png image-23-4.svg image36.png image-23-6.svg image37.png image-25-3.svg image38.png image-25-5.svg image39.png image-25-7.svg