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Relações de trabalho O trabalho como categoria social, as características do trabalho assalariado, as cooperativas, a precarização da vida do trabalhador, o socialismo e o trabalho associado. Prof. Alex Andrade Costa/Prof. Nelson Lellis Ramos Rodrigues 1. Itens iniciais Propósito Conhecer a relação entre trabalho e remuneração e analisar as diferentes formas de organização do trabalho contribuirá para elaborar opiniões, tomar posicionamentos e fazer escolhas firmes e seguras dentro do mundo do trabalho. Preparação Levando em conta a riqueza e as múltiplas possibilidades de análise do tema, é importante ter à mão um bom dicionário de Teoria Política ou mesmo de Filosofia. Sugerimos o Dicionário de política, de Bobbio, Matteucci e Pasquino, e o Dicionário de filosofia, de Abbagnano, ambos disponíveis virtualmente. Objetivos Descrever a Consolidação das Leis do Trabalho e a Reforma Trabalhista. Identificar as transformações do mundo do trabalho com as modificações da dinâmica do capitalismo e seus impactos na organização social. Distinguir o trabalho assalariado das formas associadas de trabalho, conhecendo suas especificidades e como interferem na organização dos trabalhadores e das empresas. Introdução A Constituição da República Federativa do Brasil (1988) indica, no seu art. 6º, entre outras coisas, que o trabalho é um dos direitos sociais do brasileiro. A grande maioria das pessoas – homens, mulheres e até mesmo crianças – passa parte de seus dias, e até mesmo da vida, trabalhando. Afinal, o que é trabalho? O que ele significa? Quais legislações protegem os trabalhadores? Com este conteúdo, você poderá responder a essas perguntas e conhecer melhor outros aspectos do trabalho e do papel dele na organização social. • • • 1. Consolidação das leis do trabalho O objetivo da CLT A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) surgiu na Era Vargas, após 13 anos do regime, no dia 1º de maio de 1943. Garantida pelo Decreto-Lei nº 5.452, a CLT tinha como propósito regulamentar as relações de trabalho, fossem elas individuais ou coletivas. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm Essa regulamentação se traduziu pela criação de uma legislação trabalhista cuja necessidade de proteção do trabalhador, tanto urbano quanto rural, fosse contemplada. Ao longo do tempo, a CLT sofreu modificações que buscaram adequá-la às clivagens do mercado. Mesmo diante de tais transformações, não se pode negar que ela ainda é a principal ferramenta regulamentadora das relações de trabalho. Vejamos quais são os principais assuntos abordados na CLT: Registro do trabalhador Em seu art. 29, § 4º, a CLT veta ao empregador a realização de anotações desabonadas na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). O que isso significa? Ele não pode registrar nada que possa ser interpretado como algo calunioso ou discriminatório, uma vez que isso pode gerar dificuldades para que o funcionário encontre outro emprego. Caso se descumpra a lei e exista realmente uma gravidade em tais anotações, o (ex)funcionário poderá solicitar uma reparação por danos morais ou uma multa pelo constrangimento causado. Atenção Ainda que não seja interpretado ou caracterizado como dano moral, o registro (anotação) desabonador tem uma multa prevista para o empregador no art. 52 da CLT. Jornada de trabalho A jornada normal de trabalho, segundo a legislação trabalhista, é de 8 horas diárias e 44 horas semanais. Além de estipular a carga horária para o trabalhador, ela prevê a não computação na jornada diária de trabalho de 10 minutos (5 minutos antes e 5 após o serviço). Sobre o cômputo de horas, a lei também prevê o pagamento de horas extras, bem como o desconto de faltas. Nesse caso, muitas empresas adotam um banco de horas para seus funcionários, o que facilita o controle e a flexibilidade de suas horas trabalhadas. Período de descanso É obrigatório que, em todo trabalho cuja duração exceda 6 horas contínuas, seja conferido um intervalo (denominado intrajornada) de 1 hora ao funcionário para seu descanso ou sua alimentação. Porém, caso haja algum acordo coletivo, esse tempo pode chegar a 2 horas – e não mais do que isso. Atenção Em uma jornada de trabalho que não ultrapasse 6 horas, e sim 4, o intervalo obrigatório é de 15 minutos. A Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) modificou o inciso III do art. 611-A da CLT. Esse tópico se referia ao tempo mínimo de intervalo com uma jornada de trabalho acima de 6 horas. Vale saber que o horário de descanso pode ser reduzido para 30 minutos, mas isso só pode ocorrer graças a um acordo coletivo ou a uma convenção. Além disso, devem estar especificados na cláusula os detalhes das condições de repouso ou alimentação, uma vez que elas estão asseguradas aos funcionários. Férias As férias devem ser concedidas ao funcionário anualmente, ou seja, após o período chamado aquisitivo. É direito de cada empregado o tempo de férias dentro dos 12 meses de trabalho (denominado concessivo). Caso deixe o emprego sem ser readmitido dentro de 60 dias, ele perderá o direito a ela. Já um trabalhador e estudante menor de 18 anos tem a garantia de poder coincidir suas férias com as escolares. Quando, em uma mesma empresa (ou outro estabelecimento), houver membros de uma família, todos terão o direito, desde que não cause prejuízo para o setor, de gozar férias no mesmo período. Segurança e saúde do trabalho É obrigatório que cada empresa, seja ela privada ou pública, obedeça às normas regulamentadoras concernentes à segurança do trabalho. O empregador que não garantir a segurança de seu funcionário estará sujeito a penalidades previstas na legislação pertinente ao tema. Atenção O empregado que, sem a devida justificativa, não cumprir suas obrigações em relação à sua segurança terá tal recusa enquadrada como ato faltoso. Sindicato A CLT prevê o acordo coletivo como caráter normativo. O sindicato é o responsável por celebrá-lo com a empresa correspondente à categoria. A associação sindical ajuda o trabalhador a resguardar seus interesses laborais e econômicos, assim como na defesa da categoria que representa. Além da CLT, a Constituição Federal também assegura a organização e a associação sindical (que é uma associação considerada de primeiro grau) com a finalidade de coordenar os interesses profissionais ou econômicos de profissionais de diferentes áreas. Já as federações e as confederações são outras associações – no caso, de grau superior. Aquelas são constituídas por, no mínimo, cinco sindicatos que representam a maioria absoluta de um grupo de atividades; já estas, por, no mínimo, três federações de sindicatos. Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) A seguir, vamos discutir pontos importantes da Lei nº 13.467/2017. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13467.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13467.htm Principais pontos A Reforma Trabalhista já era esperada no Brasil não apenas por questões meramente político-partidárias mas também pelo movimento de transformações que já vinha ocorrendo em diversos países. Por iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego, teve início, em dezembro de 2016, a tramitação da Reforma Trabalhista. Ela, contudo, só entrou em vigor no dia 11 de novembro de 2017. Atenção Desde a promulgação da CLT na Era Vargas, em 1943, até o ano de 2017, nenhuma atualização tinha ocorrido com tamanha extensão. As alterações decorrentes da Lei nº 13.467/2017 envolvem, pela ordem: [...] grupo econômico, tempo à disposição do empregador, questões hermenêuticas relativas à elaboração da jurisprudência e à interpretação das convenções e acordos coletivos de trabalho, responsabilidade dos sócios e sucessão trabalhista, prescrição, multas administrativas, duração do trabalho e regime compensatório, teletrabalho, intervalos, férias, dano extrapatrimonial, trabalho da mulher em atividades insalubres, amamentação, trabalho autônomo, trabalho intermitente,vê no trabalho uma expressão qualquer da vida. Para Marx, o trabalho tem uma localização especial, até mesmo privilegiada, por ser a exteriorização do ser. Por ser a objetificação da essência humana, por ser o processo de colocar para fora a mais pura humanidade, o esforço material da transformação do mundo e a satisfação das necessidades.” 3. O trabalho assalariado Apresentação Trabalho e assalariamento Leis trabalhistas e o salário no Brasil Pessoalidade Subordinação Habitualidade Onerosidade Flexibilização e precarização Conteúdo interativo Socialismo e cooperativismo Verificando o aprendizado 1. (2016 - AOCP - CISAMUSEP - PR - Adaptada)De acordo com o disposto na Consolidação das Leis do Trabalho, considera-se empregado a: 2. (Adaptado) A organização coletiva e a cooperação foram fundamentais desde o início da história humana, possibilitando o desenvolvimento de civilizações e a ocupação de todas as regiões da Terra. A cooperação também foi e ainda é importante na formação e na estrutura das sociedades mais recentes.Com base nesse contexto, leia atentamente as afirmativas a seguir.I – O estabelecimento de relações de cooperação possibilitou, ao homem primitivo, construir e utilizar abrigos, proteger-se do ataque de predadores e obter alimentos.II – O trabalho cooperativo apresenta uma grande importância, com base na ajuda mútua e no compartilhamento de objetivos comuns, com muitos exemplos desde a Antiguidade.III – O surgimento de modos de cooperação modernos, como o cooperativismo e o associativismo, está relacionado à modernização da agricultura, na década de 1970.IV – Uma relação muito próxima pode ser identificada entre o cooperativismo e o associativismo, sendo reflexo dos princípios e dos valores comuns entre essas duas formas de organização coletiva.Das afirmativas acima, somente: 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore+ Referênciasvestimenta, salário e remuneração, natureza jurídica de parcelas recebidas pelos empregados, equiparação salarial, alteração do contrato de trabalho, extinção do contrato de trabalho, dispensa coletiva, plano de dispensa voluntária, despedida por justa causa, arbitragem para os chamados “hipersuficientes”, quitação anual do contrato de trabalho, representação dos empregados nas empresas, contribuição sindical, e convenções e acordos coletivos de trabalho. Fincato; Stürmer, 2019, p. 57 Como se poderia imaginar, a nova lei atua, diretamente, sobre a vida do trabalhador no âmbito legal e, consequentemente, social. Entre as muitas mudanças apresentadas por ela, Fincato e Stürmer (2019) consideram que as dispostas a seguir merecem o devido destaque: Tempo à disposição do empregador O art. 4º, §1º, da Lei nº 13.467/2017 fala sobre o efeito de indenização e estabilidade, frisando que, na contagem de tempo de serviço, serão computados os períodos em que o trabalhador estiver afastado por motivo de serviço militar e acidente de trabalho. No § 2º, porém, não será computado o período em que o funcionário exceder ao trabalho por motivo de: Práticas religiosas. Descanso. Lazer. Estudo. Alimentação. Atividades de relacionamento social. Higiene pessoal. Troca de roupa ou de uniforme (quando não houver a obrigatoriedade de realizar essa troca na empresa). Diante da insegurança nas ruas e do horário que alguns funcionários saem de seus trabalhos, muitos preferem permanecer no local até o momento que acharem seguro. Essa permanência não onera o empregador, uma vez que o funcionário não está ali à disposição da empresa para a realização de alguma atividade. Nesse caso, muitos podem permanecer no local por motivos variados, o que não deve ser considerado hora extra. Essa mudança foi considerada positiva tanto para os empregadores quanto para os empregados. • • • • • • • • Duração do trabalho O art. 58, § 2º, da referida lei aborda o tempo despendido do trabalhador de sua residência até o local de trabalho, bem como seu retorno, seja caminhando, seja por meio de transporte. Esse tempo, enfim, não será computado na jornada de trabalho. Com a Reforma Trabalhista, o funcionário não tem o direito de receber horas in itinere, ou seja, o tempo de deslocamento de sua residência até o local de seu trabalho (ida e volta). Atenção Quando o local for de difícil acesso e o transporte público regular não estiver presente, se o empregador oferecer um transporte a seu funcionário, ele poderá ser pago por esse horário. Por exemplo: O trabalhador inicia sua jornada às 8h, mas o transporte da empresa chega à sua residência às 7h. A jornada de trabalho, portanto, começaria às 7h, e não 1 hora depois. Teletrabalho Não havia regulamentação dessa função no Brasil até então. Em 2017, essa lei acrescentou à CLT os arts. 75-A e 75-E, que são os responsáveis pela regulação do teletrabalho. O que caracteriza o teletrabalho? Chave de resposta O uso de meios telemáticos e informatizados fora do ambiente de trabalho do funcionário. [...] A prestação de serviços preponderantemente fora das dependências do empregador, com a utilização de tecnologias de informação e de comunicação que, por sua natureza, não se constituam como trabalho externo. Brasil, 2017, art. 75 Então, qual é a diferença entre teletrabalho e home office? Chave de resposta Os dois termos são confundidos. O home office se trata das atividades realizadas na residência durante dias determinados, isto é, o funcionário pode exercer sua função tanto em sua casa quanto no espaço físico da empresa. Nesse caso, ao contrário do teletrabalho, não existe a necessidade de um aditivo contratual. O que pode ser feito para conferir maior segurança ao empregado é a confecção de um documento que esclareça a possibilidade de o trabalho eventualmente ser realizado fora do ambiente da empresa. Percebe-se, na atualidade, muito em parte pelo advento da globalização, novas configurações sociais, econômicas e tecnológicas, as quais fazem emergir profundas modificações no mundo do trabalho. São exemplos dessas modificações a flexibilização da produção, a terceirização da mão de obra, a produção just-in-time, modelos de carreiras com características mais individuais e a maior valorização do capital humano e psicológico no trabalho. A abertura do mercado em países em desenvolvimento para empresas multinacionais e a forma de trabalho em home office, possibilitada pela internacionalização e descentralização das empresas, caracterizam um cenário com diferentes formas de trabalhar e se apresentam como uma realidade do fenômeno trabalho. Rafalski; Andrade, 2015, p. 1 A pandemia causada pela covid-19, desde 2020, obrigou várias empresas, diante do isolamento social, a manter os funcionários operando suas funções a partir de casa. Esse cenário ajuda a compreender um pouco mais as diferenças entre essas duas modalidades. Atenção O home office, portanto, é a realização do trabalho dentro e fora do ambiente da empresa (do trabalho). Já o teletrabalho se caracteriza pelas atividades realizadas fora das dependências da empresa (isso não quer dizer que o trabalhador não possa, eventualmente, comparecer ao local). Outra diferença entre as duas atividades é que o teletrabalho não é passível de controle de jornada. No home office, por outro lado, o funcionário está submetido a um controle de horário pelo empregador. Sobre esse ponto, é possível concluir que a responsabilidade recai sobre o empregador no home office, enquanto, no teletrabalho, ela é passível de discussão. Intervenções críticas à Reforma Trabalhista Diante das rápidas considerações aqui realizadas, alguns autores puderam analisar, criticamente, alguns aspectos da Lei nº 13.467/2017. Falaremos sobre eles a seguir: Possibilidade de terceirização das atividades Isso pode resultar em diminuição salarial, uma vez que o salário de terceirizados é menor e eles têm jornadas de trabalho mais longas, bem como menos direitos e pouca garantia de estabilidade. Nesse cenário, pontua Lacaz (2016), as condições de trabalho não são totalmente adequadas, trazendo riscos de acidentes fatais. Por exemplo, na Petrobras, entre os anos de 1995 e 2013, foram computados 320 acidentes fatais. Desse contingente, 268 eram terceirizados. Liberação da terceirização nos serviços essenciais de saúde pública Trata-se de uma tentativa de desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa possibilidade deixaria de contemplar e valorizar os servidores em atividade. Jornada de trabalho Segundo Antunes (2018), essa jornada, que até então era de 8 horas por dia, com uma possibilidade de 2 horas extras e duração de 44 horas por semana, foi alterada para: 12 a 14 horas por dia. Sem remuneração pelas horas extras. 48 horas por semana. Por exemplo, ter a atenção chamada diante de outros funcionários ou ser ameaçado, ser alvo de objetos lançados contra seu corpo ou constrangido. Tudo isso resulta em maior concorrência, exigência de metas, mais rotatividade e menos solidariedade no ambiente da empresa – pontos que têm sido utilizados para explicar o aumento de problemas de saúde e de assédio moral. • • • assédio moral Tudo aquilo que pode ser caracterizado como uma humilhação sofrida. Férias Podem ser divididas até em 3 períodos, sendo que nenhum deles pode ter menos do que 5 dias. O maior período deve ser maior do que 14 dias. Além disso, as férias não podem ser gozadas 2 dias antes de um feriado ou em dia de descanso remunerado. Tempo de deslocamento Anteriormente, o tempo de deslocamento para o trabalho pago pela empresa, de acordo com a CLT, era computado como hora de trabalho. Agora, isso mudou, o que acentua o desgaste na saúde do funcionário e aumenta a jornada de trabalho dele. Trabalho de mulher grávida Anteriormente, o trabalho para elas era proibido em lugares insalubres. Com a mudança ocasionada pela Reforma Trabalhista, caso a mulher tenha um atestado médico que garanta sua permanêncianesse ambiente, mesmo gerando riscos para a saúde do nascituro, ela terá a autorização para trabalhar. Contribuição sindical facultativa A lei de 2017 torna-a facultativa, o que dificulta a atuação dos sindicatos mediante demandas dos trabalhadores. Tais mudanças, sobretudo as que recaem no tema da terceirização, coisificam ainda mais o trabalhador, pois precarizam não apenas o ambiente de trabalho (segurança) mas também a saúde dele. CLT E REFORMA TRABALHISTA DE 2017 Qual seria o ponto mais relevante da Reforma Trabalhista? É o que veremos a seguir: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) alterou alguns pontos em relação à carga horária de trabalho. Marque a alternativa correta em relação a essa lei. A A nova legislação não mantém a jornada máxima de 44 horas semanais. B As férias podem ser fracionadas, no máximo, em até 2 períodos de 15 dias (cada). C O horário de almoço pode ser reduzido, conforme acordo com o sindicato, de 1 hora para 30 minutos. D A CLT prevê que o funcionário deve receber hora extra por permanecer no local de trabalho para realizar tarefas pessoais. E O horário de almoço não pode ser, em hipótese alguma, diminuído diante de uma jornada de trabalho acima de 8 horas por dia. A alternativa C está correta. O horário de descanso poderá ser reduzido para 30 minutos, mas isso somente ocorrerá se for estipulado em um acordo coletivo ou em uma convenção. Além disso, os detalhes das condições de repouso ou alimentação precisam estar especificados na cláusula contratual, já que tais condições estão asseguradas aos funcionários. Questão 2 Observamos algumas críticas acerca da Reforma Trabalhista. A maior delas diz respeito ao risco da terceirização do trabalho. Afinal, ela pode acarretar não só a desvalorização do funcionário como também retirar a segurança e aumentar a possibilidade de enfermidades e assédio moral. Marque a alternativa que corresponde a um caso típico de assédio moral. A O empregador chama a atenção e humilha determinado funcionário por ele não ter conseguido atingir metas que, na verdade, eram inatingíveis. B O empregador solicita, diante dos demais funcionários, que determinado trabalhador permaneça por mais duas horas após sua jornada de trabalho. C O empregador, sabendo da condição financeira de seu funcionário, disponibiliza um veículo da empresa para que ele realize a condução até o ambiente de trabalho. D O empregador se comporta, eventual ou isoladamente, de maneira grosseira e isso é considerado um assédio moral. E Quando consentido pelo sindicato, o empregador pode espalhar boatos de seu funcionário pela empresa. A alternativa A está correta. Tudo isso resulta em maior concorrência, exigência de metas, mais rotatividade e menos solidariedade no ambiente da empresa – pontos que têm sido utilizados para explicar o aumento de problemas de saúde e de assédio moral. Eis alguns exemplos desse tipo de assédio: ter a atenção chamada diante de outros funcionários ou ser ameaçado, ser alvo de objetos lançados contra seu corpo ou constrangido. 2. Transformações do mundo do trabalho Apresentação Observe a imagem a seguir: Você pode ver trabalhadores (consegue identificar quantos?) executando serviços diversos na construção de um edifício. Eles estão concentrados em suas tarefas que, embora possam ser individualizadas e especializadas, têm um objetivo comum. Contudo, a imagem mostra os trabalhadores confundindo-se com os próprios materiais com os quais trabalham, quase como máquinas ou coisas, que não são sociais nem sociáveis. Vamos entender melhor o conceito de trabalho partindo de sua origem e das perspectivas de três importantes pensadores que estudaram o tema e deixaram reflexões que ainda influenciam a nossa sociedade nos dias atuais: Max Weber (1864-1920), Karl Marx (1818-1883) e Émile Durkheim (1858-1917). Trabalho: a longa trajetória de construção de um conceito Trabalho é uma atividade eminentemente humana, na qual as pessoas transformam a natureza, utilizando a inteligência e a força física, para produzir bens e serviços. O trabalho diferencia o ser humano de outros animais que não planejam sua existência e não podem modificá-la, apenas adaptar-se ao meio. Pelo trabalho, os seres humanos produzem conhecimento, tecnologia, inovação, criam e transformam, de modo consciente, o mundo em que vivem, modificando, continuamente, os aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos. É por meio do trabalho que se tem acesso aos bens básicos necessários à subsistência, como também aos bens tecnológicos e culturais. Contudo, o trabalho é mais do que a produção de bens; é um importante meio de formação de vínculos sociais, para além dos familiares, em que o ser humano pode exercitar sentimentos que se constituam em práticas de solidariedade, companheirismo e cooperação. Para muitos, o trabalho é o único espaço de convivência social. A palavra trabalho tem origem no latim tripalium, que se refere a um instrumento utilizado no plantio de lavoura nas sociedades antigas. Historicamente, o trabalho intelectual ou que despendia menor força física sempre foi mais valorizado do que o trabalho braçal, considerado atividade de escravizados na Grécia Antiga. Foram os romanos que primeiramente associaram os escravizados a objetos de trabalho, qualificando-os como instrumentum vocalis, coisificando a pessoa humana. A ilustração da Idade Média A construção da torre de Babel (1240) retrata as formas de trabalho da época. Max Weber em 1918. Saiba mais Na Roma Antiga, escravizados e animais de carga eram classificados na mesma categoria dos instrumentos destinados a cultivar a terra. A diferença era que os escravizados pertenciam ao gênero vocale – falantes – e os bois, ao gênero semivocale, com voz parcial, isto é, emitem sons, mas não falam. No direito romano, a condição de coisa (res), estabelecida para o gado e para os demais animais de carga, era a mesma do escravizado. O Direito romano legislava sobre os animais domésticos, que, tais como os escravizados, pertenciam a um dono. A escravidão, portanto, embora tenha sido um gênero de trabalho, era também uma condição degradante da pessoa humana reduzida à condição de animal. Na Antiguidade, trabalho era uma atividade majoritariamente desempenhada por escravizados ou pessoas pobres, tornando-se sinônimo de perda da liberdade, uma vez que a palavra estava associada ao esforço físico, à humilhação e ao sofrimento. Por isso, em fins do século VI, tripalium passou a ser também o nome dado a um instrumento de tortura usado no Império Romano. Na Idade Média, o conceito de trabalho estava ligado à condição social das pessoas, visto que a sociedade estava dividida entre os bellatores, os oratores e os laboratores. Os primeiros eram a classe dos cavaleiros, isto é, a alta nobreza, que se responsabilizava por comandar as guerras, as conquistas e por defender o território; os seguintes oravam, eram os religiosos e o clero; e os últimos, a grande massa de gente das cidades e dos campos, que trabalhavam. A Igreja valorizava o ato de contemplação e a elevação espiritual em detrimento das atividades braçais, consideradas mundanas e apegadas aos bens terrenos. Com o declínio da Idade Média e a consequente retomada da urbanização e do comércio, o trabalho se diversificou, mas também aumentou, fazendo com que fosse comparado, metaforicamente, ao suplício ou à tortura. Com o desenvolvimento do capitalismo, o trabalho sofreu inúmeras e profundas transformações, especialmente com o impacto do protestantismo. Segundo o sociólogo Max Weber, a Igreja Protestante, por pregar a salvação a partir de uma vida módica e dedicada ao trabalho, teve papel fundamental no convencimento dos trabalhadores a aceitarem as condições de exploração a que estavam submetidos. Isso incluía a negação dos prazeres terrenos – o luxo, o ócio e a preguiça –; enfim, não desperdiçar o tempo com comportamentos quenão favorecessem o acúmulo de bens e o aperfeiçoamento da alma. Essa associação entre o trabalho e a salvação da alma Weber chama espírito do capitalismo. Embora condenasse o luxo, a riqueza não exteriorizada era sinal da salvação. Aí reside o conceito de Weber de ética protestante, que se verifica com o acúmulo de bens, e não para o consumo e os gastos supérfluos. Max Weber considera que a ética protestante foi o fator cultural de maior impacto para o desenvolvimento do capitalismo. Saiba mais Max Weber foi um intelectual, jurista e economista alemão, considerado um dos fundadores da sociologia, além de ter influenciado os estudos nas áreas da economia, da filosofia, do direito, da ciência política e da administração. Suas principais obras dedicam-se ao estudo do capitalismo e do chamado processo de racionalização e desencantamento do mundo. Aprofundemos um pouco mais a relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo a partir do pensamento de Max Weber. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Posteriormente, entre os séculos XVIII e XIX, a ideologia capitalista passa a inculcar nos trabalhadores a ideia do trabalho como forma de realização pessoal e social, mesmo que estivessem submetidos a duras formas de exploração e opressão. Contudo, foi a partir de meados do século XIX que o capitalismo se intensificou, aumentando o ritmo de produção dos mais variados bens, demandando, consequentemente, maior esforço humano no trabalho. Essa é uma das características da sociedade de consumo que se funda na produção acelerada dos bens, na ampliação da concorrência e na precarização das relações trabalhistas. Práticas como terceirizações, contratos temporários ou atividades informais chegaram no século XXI com um verniz de liberdade para o trabalhador e como uma possibilidade maior de controle de seu tempo e remuneração, mas tiveram como resultados concretos o aumento das incertezas e das inconstâncias no mundo do trabalho. A palavra trabalho, portanto, é entendida como toda atividade profissional, remunerada ou não, produtiva ou criativa, exercida para determinado fim, cujo sentido é oriundo de uma historicidade, isto é, está em consonância com a época, a cultura, o modo de se relacionar e de compreender o mundo de cada sujeito e do grupo do qual fez e faz parte. O ser social Georg Lukács (2013), filósofo e historiador húngaro de vertente marxista, via o trabalho como o “complexo concreto de sociabilidade como forma de ser”, ou seja, uma célula geratriz ou uma categoria ontológica, que faz parte da natureza humana. Isso não significa que ele entendia que a vida social estava limitada ao trabalho, mas sim que toda a multiplicidade de expressões humanas se funda no trabalho como atividade originária. Georg Lukács (1885-1971) Segundo filho de um próspero dirigente da principal instituição bancária da Hungria, desde jovem recusou, forte e decididamente, seu próprio universo burguês. Em vez dos negócios, dedicou-se ao estudo das artes e da literatura, revelando um talento notável para a crítica. Entusiasmado com a Revolução de Outubro, em 1918 ingressou no Partido Comunista da Hungria, iniciando sua longa e atribulada trajetória política inscrita na prática e na teoria revolucionária que haveria de desenvolver. Fonte: Instituto Lukács Para Lukács, o trabalho é o ponto de partida para tornar-se “homem do homem”, senhor de si, uma vez que o trabalho é o veículo para a autocriação do ser humano como sujeito histórico. Como ser biológico, ele é um produto do desenvolvimento natural, mas o trabalho o leva a um novo ser: o ser social. Portanto, o trabalho é o vínculo material entre o ser humano e a natureza, assinalando a passagem do ser meramente biológico (que sobrevive e se adapta às circunstâncias da natureza) ao ser social (que cria e transforma, intencionalmente, a natureza). Para Karl Marx, o que diferencia o trabalho do ser humano do de outros animais é a capacidade de dar significado à natureza por meio de uma atividade planejada e consciente. Para o filósofo, é pelo trabalho que o ser humano transforma a si e à natureza, e, ao transformá-la, de acordo com suas necessidades, imprime em tudo que o cerca a sua marca. No trabalho, o ser humano “defronta-se com a natureza como uma de suas forças, numa dupla transformação entre o homem e a natureza. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo [...], a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana” (Marx, 2011). Na medida em que atua sobre a natureza e a modifica, o ser humano também modifica a si próprio. Assim, ao transformar a natureza, a humanidade não só cria ou produz bens, mas modifica a sua própria condição. Ao longo de toda a história, o trabalho foi determinante para a vida humana, tanto individual quanto coletiva. A humanidade se estruturou histórica e politicamente, quase em sua totalidade, em função do conceito de trabalho. Separar o trabalho da existência das pessoas é muito difícil, senão impossível, diante da importância e do impacto que o trabalho nelas provoca. Pirâmide do sistema capitalista, cartaz publicado pela IWW (Industrial Workers of the World) em 1911. A visão ontológica de trabalho em Marx se opõe à perspectiva capitalista, pois, nesse modelo econômico, o ser humano é limitado ou impedido de exteriorizar a sua natureza, uma vez que os frutos de seu trabalho lhe são retirados. Por exemplo, o trabalhador da indústria de automóveis, que, no final do dia, volta para casa de transporte coletivo, sucateado, lotado e caro; ou o trabalhador da construção civil, que mora em condições precárias ou de aluguel. A maneira como a sociedade do capital se organiza resulta na fragmentação do trabalhador, retirando dele a capacidade de se sentir parte de sua produção, caracterizando o trabalho como um agente da alienação. alienação A alienação (do alemão Entfremdung, que também pode ser traduzido por afastamento) exprime, sobretudo, a ideia de algo que está separado de outra coisa ou que é estranho a essa coisa: estou alienado de mim, na medida em que não posso compreender ou aceitar a mim mesmo; o pensamento está alienado da realidade, pois a reflete de forma inadequada; estou alienado de meus desejos, uma vez que eles não são autenticamente meus, sendo antes impostos a mim do exterior; estou alienado dos resultados dos meus trabalhos porque estes se tornam mercadorias; e posso estar alienado de minha sociedade, pois, em vez de fazer parte de uma unidade social que a constrói, me sinto controlado por ela. Fonte: Sérgio Biagi Gregório Os versos de Cidadão, música de Zé Ramalho, ajudam a entender esse contexto de expropriação imposto ao trabalhador: Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar Foi um tempo de aflição Era quatro condução Duas pra ir, duas pra voltar Hoje depois dele pronto Olho pra cima e fico tonto Mas me vem um cidadão E me diz, desconfiado Tu 'tá aí admirado Ou 'tá querendo roubar? A análise de Karl Marx (2011) sobre a alienação do trabalhador aprofunda o olhar quanto à percepção que o trabalhador tem de si próprio e da riqueza produzida, sempre como riqueza alheia, do capitalista. Embora a força de trabalho seja a condição para a produção dos bens e o trabalhador gaste a sua vida com o trabalho, ele não usufrui da riqueza produzida. Quando o trabalhador fabrica uma mercadoria na condição de explorado, ele também se torna uma, reduzindo-se à condição de instrumento que gera a riqueza de outros homens. Quanto maior for seu esforço em produzir mercadorias das quais não se beneficia, mais o trabalhador se coisifica. O ser coisificado Linha de produção da Ford em 1913. Se a alienação do trabalho é considerada por Marx o princípio de todas as outras alienações, a sociedade burguesa é a origem do trabalho alienado, uma vez que se fundamenta na propriedade privada, que nega ao trabalhador o acesso aos bens que produz ou a participação nos lucros. Em virtude disso, as relações humanas se transformamem relação entre coisas, entre mercadorias: o trabalhador se desumaniza e se transforma em uma mercadoria, barata, que produz outra mercadoria, de maior valor, gerando riqueza para poucos. O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata quanto maior número de bens produz. Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadoria; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e justamente na mesma proporção com que produz bens. Marx, 2012 Algumas vezes, o trabalho é interpretado como um elemento que promove a satisfação e a autorrealização. Outras abordagens, porém, atribuem conotações negativas ao trabalho, representado como maldição, castigo, jugo, estigma, coerção, esforço e penalidade – consequências de quem vive para trabalhar. Soma-se a essas percepções aquela que entende o trabalho como mero veículo para a sobrevivência material. Para Marx (1983), o trabalho no capitalismo deixa de formar o sujeito humano/social e passa a alienar, pois o produto (bens e serviços produzidos) e o próprio processo de produção (trabalho) se tornam estranhos à realidade do trabalhador. O capitalismo modifica a visão de liberdade do ser humano à medida que ele precisa vender sua força de trabalho para sua sobrevivência, dissociando o trabalho da pessoa que o realiza. O trabalhador subordinado ao capital não tem mais controle do produto nem do processo de seu trabalho, centralizados nas mãos do capitalista. Assim, na sociedade capitalista, o trabalho passa a ser visto como meio pelo qual uma parte da sociedade sobrevive e a outra parte acumula bens. O trabalho é o meio que permite adquirir os produtos dos demais, dado que ninguém consome o que produz. Por conseguinte, a função do trabalho e dos seus produtos passa a ser um meio para obter produtos dos outros, gerando uma interdependência em que ninguém consome o que produz e todos dependem da produção de todos. Para Marx (2012), quando o trabalho e os bens resultantes dele deixam de ser um objeto que pertence ao trabalhador, isso indica que ele se tornou um servo de seu objeto: “O auge dessa servidão é que somente como trabalhador ele pode se manter como sujeito e apenas como sujeito ele é trabalhador”. No mundo globalizado e capitalista, onde as relações de poder e dominação não são explícitas, o que prevalece é a ideologia liberal, e o trabalho é visto e tratado sob esse viés, em que predomina a ética individualista e a competitividade, impondo ritmos alucinantes no mundo do trabalho, submetendo os trabalhadores à ameaça constante da demissão e à insegurança em relação à permanência no emprego. Esse modo de relações de trabalho visa garantir a submissão do trabalhador a essas condições, inculcando nele o desejo de vencer e obter sucesso, levando-o a uma dedicação extra sem limites, que se estende para além dos muros das organizações (Antunes, 2000). Tal situação cria uma insegurança psicossocial que acentua o medo de perder o emprego, aumentando o estresse e corroendo o caráter. No entanto, esses mesmos sentimentos fragilizam as relações sociais entre os companheiros de trabalho e em outras instituições – por exemplo, a família. Talvez essa seja a causa de, cada vez mais, trabalhadores estarem propensos ao estresse e aos riscos psicossociais do trabalho, por sentirem o risco do desemprego, mesmo trabalhando (Sennett, 2009). O ser solidário Para o filósofo e sociólogo Émile Durkheim, o trabalho é um fato social presente em todos os tipos de sociedade e se impõe sobre todos os indivíduos, independentemente da própria vontade. Durkheim escreveu a sua principal e mais conhecida obra, Da divisão social do trabalho, em 1893, na qual argumenta, ao contrário das análises críticas de Marx e Weber, que a divisão social do trabalho promove a coesão social e, por isso, deve ser preservada. O trabalho, portanto, em vez de concentrar a atenção na produtividade, seria um caminho para que os indivíduos criassem vínculos e formassem um grupo coeso. Émile Durkheim Émile Durkheim é considerado um dos pais da sociologia moderna. Foi graças à atuação sistemática desse pensador que a sociologia penetrou nas universidades e garantiu o status de disciplina acadêmica. Fundador da escola francesa de sociologia, acreditava que a sociedade é regida por leis, e uma ciência que dela se ocupe deve chegar à formulação de grandes generalizações que as explique. Considerava a sociologia a ciência das instituições, cuja missão era reconstruir uma moral que respondesse às exigências do espírito científico da época. Fonte: Secretaria da Educação do Paraná O processo de especialização de funções no mundo do trabalho, como mostra o trecho da obra de Durkheim, torna os indivíduos interdependentes. Porém, a depender da intensidade dessa especialização, a sociedade desenvolveria dois tipos de solidariedade: mecânica e orgânica. A solidariedade mecânica é típica de sociedades pré-capitalistas, em que há pouca divisão do trabalho e, consequentemente, pouca importância nas relações. Nessas sociedades, os indivíduos se reconhecem e se identificam por culturas e tradições em comum que exercem grande influência sobre a coesão social. Em uma cidade, podem coexistir diferentes profissões sem se prejudicarem mutuamente, porque elas perseguem objetivos diferentes. O soldado procura a glória militar; o sacerdote, a autoridade moral; o homem de Estado, o poder; o industrial, a riqueza; o cientista, o renome científico. Cada um deles pode, assim, atingir o seu fim, sem impedir os outros de atingirem o deles. Tudo se passa do mesmo modo quando as funções estão menos afastadas umas das outras. O médico oculista não faz concorrência ao que trata as doenças mentais, nem o sapateiro ao chapeleiro, nem o pedreiro ao marceneiro, nem o físico ao químico etc. Como prestam serviços diferentes, podem prestá-los paralelamente. Durkheim, 1999 O desenvolvimento do capitalismo, no qual a industrialização e a urbanização ganham espaço, marca o processo de especialização do trabalho e de diferenciação social. Esses fatores, segundo Durkheim, são responsáveis pelo declínio da solidariedade mecânica e pelo surgimento de uma nova solidariedade, denominada orgânica. A solidariedade orgânica, portanto, é uma marca da sociedade capitalista e parte da percepção de que os indivíduos são diferentes. É caracterizada pelo alto grau de divisão do trabalho e por uma heterogeneidade cultural maior. Observe a síntese da teoria de Durkheim sobre a divisão do trabalho no fluxograma a seguir. A análise de Durkheim sobre a sociedade e o trabalho visa entender a coesão social ou a sua ausência. Para isso, ele utiliza dois conceitos: o da solidariedade e da anomia. A solidariedade se evidencia na interação de cada indivíduo na divisão do trabalho. Já a anomia é a manifestação da desintegração social gerada pela industrialização, provocando diferenciação social – ricos e pobres, citadinos e camponeses, centro e periferia etc. A anomia é uma característica do mundo moderno, evidenciado pelas crises e pelo ritmo de trabalho contínuo e monótono. Nesse mundo, as relações do capital e do trabalho não produzem solidariedade, reduzindo o ser humano ao papel de máquina. Desse modo, a anomia pode levar a crises que desestruturam as relações sociais, como o suicídio e a criminalidade. Verificando o aprendizado 1. (Prefeitura Municipal de Betim - Instituto AOCP - 2020 - Adaptada) Compreender as transformações no mundo do trabalho e seus impactos na vida dos trabalhadores é essencial na atuação de um sociólogo. A respeito das diferentes interpretações sociológicas sobre esse tema, assinale a alternativa correta. A As inovações no sistema de organização do trabalho diminuíram o nível de rotatividade dos trabalhadores e estimularam a qualificação educacional e profissional dos operários.Esse contexto apresentou um novo passo para as relações entre empregadores e empregados no século XX, proporcionando aumento do poder econômico das famílias. B A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, é um importante estudo sobre como o protestantismo (fator religioso) foi a principal causa do capitalismo ocidental. Essa afirmação é pautada na ideia de que o comportamento do protestante, de acordo com a teologia calvinista, deveria ser de estímulo ao trabalho profissionalizado e de busca pela riqueza. C Para Marx, a economia é fundamentada pelas relações de trabalho, sendo por meio do trabalho que o ser humano transforma a natureza e reproduz a sua existência. D Segundo Émile Durkheim, as sociedades modernas estão enquadradas, teoricamente, no tipo de solidariedade mecânica, caracterizando-se por alto grau de divisão do trabalho, maior diferenciação cultural, especialização das funções entre os indivíduos e enfraquecimento da consciência coletiva. E Os novos modelos de liberalização econômica, especialmente pela terceirização, acarretaram melhorias na vida do trabalhador, fortalecimento dos sindicatos e seguridade trabalhista. A alternativa C está correta. Para Marx, o trabalho é a principal característica humana pela capacidade que tem de transformar a natureza e, ao mesmo tempo, transformar a si próprio por meio desse trabalho e da natureza ao seu serviço. Contudo, nem sempre as relações de trabalho garantem dignidade ao ser humano, que pode ser tratado como uma coisa geradora de riqueza e bem-estar a outrem. 2. (CONSULPLAN - 2018 - SEDUC - PA - Adaptada) “A noção de alienação é fundamental no pensamento marxista, pois apresenta o estado psicossocial primordial ao qual o indivíduo é submetido no modo de produção capitalista. Além disso, Marx não vê no trabalho uma expressão qualquer da vida. Para Marx, o trabalho tem uma localização especial, até mesmo privilegiada, por ser a exteriorização do ser. Por ser a objetificação da essência humana, por ser o processo de colocar para fora a mais pura humanidade, o esforço material da transformação do mundo e a satisfação das necessidades.” A É a constatação básica de que o trabalhador está alienado em relação ao produto de seu trabalho que gera a revolta de classe, cerne da revolução em massa. B Construir as próprias ferramentas é exercer uma dominação impossível a qualquer outro animal, o que já elimina para o ser humano a possibilidade de total alienação. C Uma das formas de reconhecer a alienação é quando, no fim do processo de trabalho, o produto feito se transforma em algo estranho, independente do ser que o produziu. D É o estranhamento em não se reconhecer em um produto a essência da pobreza e da alienação gerada pela substituição progressiva e inexorável do ser humano pela máquina. E A alienação se concretiza quando o trabalhador deixa de participar dos sindicatos e da luta por seus direitos por não se ver representado nos líderes sindicais. A alternativa D está correta. Marx explica que o trabalho pode ser emancipatório quando possibilita ao trabalhador usufruir das transformações que ele faz na natureza. Contudo, também pode alienar o trabalhador, por diversas circunstâncias, como quando, movido pelo medo do desemprego ou da concorrência, ele se sujeita a ritmos e formas de trabalho opressores contra si e contra seus companheiros. A alienação, para Marx, ainda ocorre quando o trabalhador é alijado da possibilidade de usufruir dos bens e serviços que produz. 3. O trabalho assalariado Apresentação Preste atenção ao gráfico a seguir. Reajuste do salário mínimo e inflação do ano anterior - 02/09/2020. Os dados do gráfico comparam o aumento do salário mínimo e a inflação no Brasil nos últimos vinte anos. Por esses dados, percebe-se que, entre 2001 e 2015, houve uma política formal do governo de valorização do salário mínimo. Contudo, a partir de 2016, o que se verifica é uma redução dos aumentos que mal cobrem a inflação. Para 2021, por exemplo, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), enviada pelo governo à Câmara de Deputados, previa a correção do salário mínimo apenas pela inflação, concedendo um aumento de R$ 22 aos então R$ 1.045. Após revisão, seu valor em âmbito nacional (exceto para as unidades da Federação que possuem valor próprio), a partir de 01/01/2021, passou a ser de R$1.100,00. Contudo, o que é salário e como ele se estrutura no mundo do trabalho? Quais são as outras formas possíveis de remuneração, além do salário? Vamos entender melhor a seguir. Trabalho e assalariamento É quase um consenso entre os historiadores que a palavra salário vem da Antiguidade, quando se usava o sal como expressão de valor para as relações de trabalho. No direito brasileiro, o salário é conceituado como “o conjunto de parcelas contraprestativas pagas pelo empregador ao empregado em decorrência da relação de emprego” (Delgado, 2005). Segundo a teoria da contraprestatividade, o salário é a contraprestação do trabalho na troca que o empregado faz com o empregador, fornecendo a sua atividade e dele recebendo a remuneração correspondente. Entretanto, nem sempre o trabalho foi remunerado! Nem todas as formas de trabalho pressupõem o recebimento de salário. Durante a Idade Média, com o crescimento das cidades na Europa, as relações econômicas se modificaram. Se antes estavam centradas no campo e os trabalhadores usavam suas próprias produções como forma de pagamento de serviços, a vida urbana fez renascer o uso do dinheiro, que se tornou o principal mecanismo de remuneração de serviços para pessoas livres. Representação de uma sapataria do século XVI. Ilustração publicada no jornal Solidariedade dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW), em 30 de junho de 1917. Na Idade Moderna, a produção era de caráter familiar, e o artesão, proprietário dos meios de produção (oficina e ferramentas), realizava todas as etapas, pois não havia divisão do trabalho ou especialização. Em muitos casos, os artesões recebiam ajudantes em sua oficina, que, no entanto, não eram assalariados, atuando como aprendizes de um ofício até abrirem sua própria oficina. O aprendiz recebia como pagamento o próprio aprendizado, mas também poderia receber alimento ou, eventualmente, algum dinheiro. Quando o aprendiz não conseguia abrir seu próprio negócio, podia continuar com o seu mestre na condição de jornaleiro (diarista), recebendo um salário. As corporações de ofício – antecessoras dos atuais sindicatos – surgiram como instituições que reuniam trabalhadores de determinada categoria em defesa de interesses comuns – entre eles, a defesa do salário justo. No século XIX, com a Revolução Industrial, os primeiros sindicatos se organizaram e, com eles, as lutas contra a exploração e em defesa da dignidade do trabalhador, em especial sobre a remuneração; pauta ainda central nos sindicatos e nas associações contemporâneas. É preciso lembrar, porém, que os regimes de trabalho forçado, servidão e escravidão, tanto na Antiguidade quanto na contemporaneidade, são marcados por diversos tipos de violência física, moral e psicológica que desumanizam o trabalhador, colocando-o na condição de coisa ou objeto móvel, negando a essas pessoas a remuneração justa pelo esforço despendido na geração de riquezas para os outros – o Estado ou as pessoas. Leis trabalhistas e o salário no Brasil Imagem do ex-presidente Getúlio Vargas em 1930. Em seu primeiro período de governo, Vargas criou o Ministério do Trabalho e instituiu a legislação trabalhista. No Brasil, a discussão sobre o salário mínimo se deu na década de 1930, passando a vigorar a partir de 1º de maio de 1940. Três anos depois, em 1943, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) definiu, no art. 76, o conceito do salário mínimo como a contraprestação mínima devida e paga diretamente pelo empregador a todo trabalhador, inclusive ao trabalhador rural, sem distinção de sexo, por dia de serviço e capaz de satisfazer às necessidades básicas de alimentação, habitação,vestuário, higiene e transporte. De acordo com o art. 459 da CLT, o período de pagamento do salário não pode ser superior a um mês, e o trabalhador deve recebê-lo até o quinto dia útil do mês subsequente ao vencido. A legislação também é clara no sentido de definir que os salários serão pagos em dinheiro, não havendo nenhuma outra possibilidade de meio, instrumento ou bem que ocupe esse lugar. A lei também estabelece o direito a receber um salário adicional a cada ano: o décimo terceiro salário é uma gratificação equivalente a um salário mensal, pago em até duas prestações. A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, portanto, garante um salário mínimo nacional que atenda às necessidades básicas de vida dos trabalhadores e suas famílias, com reajustes periódicos para manter o poder de compra das pessoas. A Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, conhecida como Reforma Trabalhista, criou inúmeras mudanças para a CLT. No que se refere ao salário mínimo, a reforma abre a possibilidade de um trabalhador receber menos do que o salário mínimo. Isso só pode acontecer se o empregado trabalhar menos de oito horas diárias. A Lei da Reforma Trabalhista trouxe, também, uma mudança para a composição do salário. Anteriormente, o art. 457 da CLT determinava que gratificações, percentuais, diárias e outras formas de remuneração variável e acessória integravam o salário. Agora, estabelece que essas remunerações acessórias e variáveis não compõem salário e, por isso, são excluídas do montante sobre o qual incidem os tributos e as contribuições previdenciárias. Segundo a CLT, o vínculo empregatício é caracterizado no contrato de trabalho por quatro condições: Pessoalidade O contrato é individual e intransferível, sem possibilidade de o contratado colocar, eventualmente ou de modo permanente, um substituto em seu lugar. Subordinação O contratado é subordinado ao contratante, dentro dos limites da lei e no período de trabalho, ou seja, está a serviço do contratante, ao dispor dele. Habitualidade No período do contrato, o vínculo de trabalho é permanente, não eventual, com frequência previamente determinada no contrato. Onerosidade Indica que o contratante deve remunerar o contratado pelo serviço prestado. Ou seja, é empregada aquela pessoa (física) que se submete a trabalhar como subordinado para alguém (pessoa física ou jurídica) em troca de salário fixo, com frequência predefinida e que trabalha de maneira contínua, não eventual. O trabalho assalariado, próprio do vínculo empregatício, induz à competição entre a classe trabalhadora frente ao mercado de trabalho (contratantes), levando os trabalhadores desempregados a se qualificar, capacitar e reciclar (termo que revela o caráter coisificado dos trabalhadores no modo capitalista de produção) para que possam competir na venda de sua força de trabalho nos processos seletivos (cada dia mais individualizados). Além disso, leva os trabalhadores empregados a competir com os colegas e intensificar seu trabalho, trabalhando além do período contratado (muitas vezes em casa, sem horas extras remuneradas) etc., tão somente pela sua manutenção na empresa contratante. Flexibilização e precarização Nas últimas décadas, o mundo do trabalho tem enfrentado diversas crises que levaram a novas formas de relações de trabalho e, consequentemente, de remuneração. Na maioria das vezes, o sistema capitalista enxerga, no salário do trabalhador, o motivo das crises e busca formas de resolver a situação para que garanta seus lucros. Quase sempre, o incentivo à flexibilização do trabalho é uma maneira de as empresas enfrentarem a competitividade em uma economia internacionalizada, em que a palavra de ordem é a redução de custos. O capital, normalmente, vai em busca de regiões periféricas do planeta onde os mercados estão desregulados, com baixos encargos sociais e mão de obra barata, levando a um enxugamento de despesas, como se observa em países da Ásia, como a China, a Índia e na América do Sul. Com a flexibilização, as grandes empresas concentram suas atividades no produto principal e terceirizam as atividades consideradas secundárias, subcontratando empresas. Uma empresa de refrigerantes, por exemplo, dedica-se apenas à produção da bebida, enquanto a fabricação de vasilhames (garrafas e latas) e a distribuição ao consumidor são terceirizadas. Outra forma de trabalho terceirizado são as cooperativas de trabalho que surgem de modo induzido e supervisionado pelas empresas, instituindo o trabalho do tipo associado, caracterizado pela inexistência dos direitos trabalhistas. Mesmo a empresa supervisora não detém responsabilidade sobre a mão de obra. O trabalho associado em cooperativas, não raro, visa diminuir os gastos com a gestão da força de trabalho, mantendo, contudo, o controle da produção. No Brasil, as cooperativas ganharam força a partir das políticas neoliberais implantadas no governo Fernando Collor, no início dos anos 1990, e levadas adiante no governo Fernando Henrique Cardoso, com a privatização de empresas estatais, a reestruturação empresarial provocada pela abertura do mercado nacional a produtos importados, o aumento da competitividade, o estabelecimento de políticas de demissão voluntária de empregados e as demissões decorrentes da eliminação de postos de trabalho e da busca de enxugamento de custos. O ideal da cooperativa encarna a flexibilidade das relações de trabalho evidenciada pela ausência de contratos e pela responsabilização do trabalhador. Sem salário fixo, em tese o trabalhador iria se envolver mais no trabalho, como maneira de garantir melhores ganhos. Contudo, o próprio Estado é falho no acompanhamento das cooperativas. A inexistência da fiscalização do governo e o fim de incentivos fiscais e de políticas estatais para as cooperativas progressivamente reduziram os atrativos dessa forma de organização do trabalho para as empresas. A organização em cooperativas não está limitada ao setor fabril ou agrícola, onde é mais comum, mas alcança outros setores, inclusive de trabalhadores qualificados, como é o caso de cooperativas de médicos e de professores. Especificamente neste último grupo, detentor de baixos salários, tanto na iniciativa privada quanto na rede pública, quando esses profissionais integram cooperativas chegam a ganhar três vezes mais por hora/aula, renunciando, porém, a todos os direitos trabalhistas. No entanto, há formas de trabalho associado em cooperativas ou empresas denominadas autogestionárias, aquelas organizadas e/ou assessoradas por organizações não governamentais (ONGs) e sindicatos a partir da ocupação de fábricas em situação de falência, em que os trabalhadores assumem o comando. Nesse tipo de atividade, os trabalhadores precisam participar ativamente da gestão da empresa, tornando-se uma possibilidade diante do iminente desemprego motivado pela falência, e também sendo uma alternativa ao capitalismo ao reconstruir ideais do socialismo utópico. Agora, vamos destacar a importância, as dificuldades e as possibilidades das cooperativas no âmbito da realidade brasileira. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Socialismo e cooperativismo Foi a partir das transformações econômicas e sociais impostas pela Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX, especialmente sobre o trabalhador das indústrias e os mineradores, que os primeiros socialistas desenvolveram o conceito de cooperativismo como “um ideal alternativo ao individualismo (o cooperativismo) e uma organização alternativa à empresa capitalista (a cooperativa)” (Costa apud Pinho, 1966). Esses pioneiros do socialismo, também chamados socialistas utópicos, reivindicavam uma sociedade igualitária entre os indivíduos, embora concebessem que a mesma sociedade poderia conservar diferenças na esfera econômica. Robert Owen era membro da burguesia inglesa, dono de uma indústria têxtil, na qual começou a aplicar algumas mudanças nas relações de trabalho: reduziu a jornada de trabalho, implantou escolas paraos filhos dos trabalhadores, construiu vilas operárias e concedeu aumento de salários regularmente. Essas iniciativas o levaram ao socialismo associacionista e cooperativista que originou o cooperativismo. Robert Owen (1771-1858) Foi um fabricante galês que se tornou reformador, um dos mais influentes defensores do socialismo utópico no início do século XIX. Suas fábricas de New Lanark, em Lanarkshire, Escócia, com seus programas de bem-estar social e industrial, tornaram-se um local de peregrinação para estadistas e reformadores sociais. Ele também patrocinou ou incentivou muitas comunidades experimentais “utópicas”, incluindo os Estados Unidos. Fonte: Encyclopedia Britannica Nos anos 1830, Owen utilizou a teoria do valor do trabalho, desenvolvida pelos pais do liberalismo, Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), que tratava do direito do trabalhador ao usufruto do seu trabalho, para criar um sistema em que todo produto tivesse o seu valor definido conforme as horas de trabalho necessárias para a sua produção. O dinheiro do pagamento pelo trabalho seria substituído por vales correspondentes ao número de horas trabalhadas que poderiam ser usados entre os trabalhadores, de acordo com suas necessidades. Owen defendia a substituição da sociedade individualista por uma sociedade fundada sobre os pilares da associação, em que a concentração de riquezas e de poder se transformasse em acesso à saúde, à educação e à moradia. Robert Owen considerava que o cooperativismo seria capaz de fazer com que os pobres, desempregados e miseráveis pudessem obter modos de melhorar suas vidas e conseguir se inserir na sociedade. O comerciante francês Charles Fourier também é considerado um teórico socialista da linha utópica. Ele criticava a sociedade industrial e defendia a criação de associações para os operários e a organização deles em cooperativas. Na sociedade idealizada por Fourier, o trabalho seria livre e os indivíduos se tornariam cooperados de maneira espontânea, sendo que cada um trabalharia naquilo que fosse mais satisfatório, ao mesmo tempo que ajudava seus companheiros de trabalho a também satisfazer às necessidades deles. Charles Fourier François-Marie-Charles Fourier (1772-1837) foi um dos mais significativos representantes do socialismo utópico. Abandonando os estudos aos 17 anos, serviu no exército durante a Revolução Francesa, empregando-se como balconista mais tarde. Escreveu, em seguida, o seu primeiro grande trabalho, Théorie des quatres mouvements et des destinées générales (1808), em que considera a existência de uma ordem social natural. Desenvolveu depois a sua teoria no Traité de l'association domestique agricole (1822). Autor de uma obra que se constitui como um projeto de reforma social muito ambicioso e sistemático, sua doutrina antecipou, em vários aspectos, o socialismo marxista e a Psicanálise. Fonte: Infopédia Segundo Fourier, a sociedade seria regida pelos princípios da liberdade e da vida compartilhada, e todos, sem nenhuma distinção social, deveriam ter acesso à cultura, à educação e às artes. A organização dessa sociedade se daria em grupos denominados falanges, que compartilhariam o mesmo espaço de trabalho, lazer e moradia, chamados falanstérios, edifícios onde os trabalhos e a convivência seriam voltados para produzir uma vida harmônica. Fourier chegou a criar vilas com essas características, mas que fracassaram em pouco tempo. Enquanto Owen e Fourier são identificados com uma visão utópica do socialismo, o filósofo Karl Marx é conhecido pela idealização de um socialismo real, também chamado científico. Para Marx, as cooperativas seriam a oportunidade para a sociedade romper com o capitalismo a partir de uma alternativa que se apresentava contrária à exclusão dos operários e da apropriação indevida de sua mão de obra excedente. Marx também é contrário à interferência do Estado no cooperativismo, com subvenções ou regulamentação, uma vez que, geridas pelos próprios operários, as cooperativas atuariam na emancipação de toda a classe operária. A partir do cooperativismo, toda a sociedade alcançaria o socialismo, ou seja, Marx entende que o cooperativismo poderia ir além do aspecto econômico, abrangendo, de igual modo, a política. [..] o futuro nos reserva uma vitória ainda maior da economia política dos proprietários. Referimo‐nos ao movimento cooperativo, principalmente às fábricas cooperativas levantadas pelos esforços desajudados de alguns operários audazes [...]. Pela ação, ao invés de pôr palavras, demonstra que a produção em larga escala e de acordo com os preceitos da Ciência moderna pode ser realizada sem a existência de uma classe de patrões que utiliza o trabalho da classe dos assalariados; que, para produzir, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados, servindo como um meio de dominação e de exploração contra o próprio operário; e que, assim como o trabalho escravo, assim como o trabalho servil, o trabalho assalariado é apenas uma forma transitória e inferior, destinada a desaparecer diante do trabalho associado que cumpre a sua tarefa com gosto, entusiasmo e alegria. Marx, 1983 Verificando o aprendizado 1. (2016 - AOCP - CISAMUSEP - PR - Adaptada) De acordo com o disposto na Consolidação das Leis do Trabalho, considera-se empregado a: A Pessoa jurídica que prestar serviços de natureza eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário ou outra espécie de remuneração. B Pessoa física ou jurídica que prestar serviços de natureza eventual a empregador, ainda que sem dependência deste e mediante qualquer forma de remuneração. C Pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, ainda que sem a dependência deste e independentemente de salário ou remuneração. D Pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. E Pessoa física ou jurídica que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante qualquer tipo de remuneração. A alternativa D está correta. Para existir vínculo empregatício, é preciso haver um contrato pessoal entre patrão (empregador) e contratado, devendo este permanecer ao dispor daquele no período (horário) estabelecido em contrato. Além disso, deve haver um vínculo permanente, não eventual, que resulte na remuneração do contratado pelo serviço prestado. 2. (Adaptado) A organização coletiva e a cooperação foram fundamentais desde o início da história humana, possibilitando o desenvolvimento de civilizações e a ocupação de todas as regiões da Terra. A cooperação também foi e ainda é importante na formação e na estrutura das sociedades mais recentes. Com base nesse contexto, leia atentamente as afirmativas a seguir. I – O estabelecimento de relações de cooperação possibilitou, ao homem primitivo, construir e utilizar abrigos, proteger-se do ataque de predadores e obter alimentos. II – O trabalho cooperativo apresenta uma grande importância, com base na ajuda mútua e no compartilhamento de objetivos comuns, com muitos exemplos desde a Antiguidade. III – O surgimento de modos de cooperação modernos, como o cooperativismo e o associativismo, está relacionado à modernização da agricultura, na década de 1970. IV – Uma relação muito próxima pode ser identificada entre o cooperativismo e o associativismo, sendo reflexo dos princípios e dos valores comuns entre essas duas formas de organização coletiva. Das afirmativas acima, somente: A IV é falsa. B III é falsa. C II é falsa. D I é falsa. E I e III são falsas. A alternativa B está correta. O trabalho cooperativo existiu antes da institucionalização das cooperativas que, como empresas coletivas de trabalho e lucro compartilhado, surgiram como resposta às demandas do capitalismo industrial. As formas associadas de trabalho são consideradas por muitos socialistas, como Karl Marx, um dos princípios de um modo de produção justo e que oferece dignidade e solidariedade entre seus membros. 4. ConclusãoConsiderações finais Verificamos que o trabalho se caracteriza como uma categoria eminentemente humana por se originar da criatividade que produz os bens necessários à subsistência e às suas mais variadas necessidades, tornando o ser humano um ser social. Por isso, foi importante termos iniciado nosso estudo apresentando os elementos que caracterizam a realização do trabalho no âmbito social – especialmente uma legislação, que, de uma forma ou de outra, interfere em sua vida cotidiana. Entendemos, por outro lado, que o trabalho poderá se tornar fonte de alienação se, sob a exploração do capitalismo, o trabalhador não refletir sobre sua condição e gastar toda a sua vida sem se perceber como sujeito. Tal ideia, como vimos, coisifica o trabalhador, que se comporta tal qual uma máquina. As perspectivas de Weber, Marx e Durkheim sobre o trabalho, por exemplo, embora apresentem divergências de abordagens, partem do princípio de que o ser humano ocupa a centralidade no mundo profissional. Além do trabalho assalariado e da legislação trabalhista do Brasil, que rege a política salarial, estudamos, ainda, outras formas de trabalho: o associado e o cooperativo. Embora tenha origem no socialismo, já que está fundamentado em ideais de solidariedade e companheirismo, o trabalho cooperativo também poderá impactar o aumento da precarização da vida do trabalhador quando o capitalismo se apropriar das cooperativas como maneira de baixar seus encargos e aumentar seus lucros. Podcast Para encerrar, ouça sobre relações de trabalho. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore+ Que tal aprender um pouco mais sobre o assunto com um filme bacana? Veja as dicas a seguir. A fábrica de nada Entre o ensaio e o musical, A fábrica de nada é um filme de Pedro Pinho que conta a história de um grupo de operários que tenta salvaguardar seus postos de trabalho e evitar o encerramento de uma fábrica a partir de um sistema de autogestão coletiva. Quando percebem que a administração está roubando máquinas e matérias-primas, os trabalhadores decidem se organizar para impedir o deslocamento da produção. Como forma de retaliação, enquanto ocorrem as negociações para as demissões, eles são obrigados, pelos patrões, a permanecer nos seus postos, sem nada a fazer. Indústria americana Primeiro filme produzido pela Higher Ground, companhia criada por Michelle e Barack Obama, é uma inversão de valores no sonho norte-americano. Por três anos (entre 2015 e 2017), os diretores Julia Reichert e Steven Bognar filmaram a reabertura da planta de uma fábrica em Ohio que havia sido fechada, em 2008, com a falência da General Motors (GM) – símbolo da cultura norte-americana. Uma empresa chinesa compra as antigas instalações da GM e inaugura uma filial da Fuyao, indústria de vidros automotivos. Nesse processo, traz centenas de funcionários chineses para acompanhar os trabalhadores norte-americanos, que veem seus direitos trabalhistas totalmente negados. Leia os seguintes artigos: BYLUND, P. Questão de lógica: você não teme a automação (e nem a Reforma da Previdência); você teme a inflação. In: Mises Brasil. Publicado em: 9 out. 2020. TUCKER, J. Lockdown: a nova ideologia totalitária. In: Mises Brasil. Publicado em: 26 fev. 2021. Este artigo de Jeffrey Tucker, diretor do American Institute for Economic Research, é bastante atual – e provocativo – para os tempos em que vivemos. Referências ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000. BRASIL. Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. Brasília, DF: Presidência da República, 1943. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. BRASIL. Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017. Altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e as Leis nº 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho. Brasília, DF: Presidência da República, 2017. DELGADO, M. G. Curso de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: LTR, 2005. DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1999. FINCATO, D; STÜRMER, G. A reforma trabalhista simplificada: comentários à Lei nº 13.467/2017. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2019. LACAZ, F. A. C. Continuam a adoecer e morrer os trabalhadores: as relações, entraves e desafios para o campo saúde do trabalhador. In: Revista brasileira de saúde ocupacional, v. 41, p. 1-11, 2016. • • LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2013. v. II. MARX, K.; ENGELS, F. Obras escolhidas. Lisboa: Edio Avante, 1983. Tomo II. MARX, K. O capital: crítica da economia política. 28. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. Livro I. v. 1. MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2012. PINHO, D. B. A doutrina cooperativa nos regimes capitalistas e socialistas. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1966. RAFALSKI, J.; ANDRADE, A. Home office: aspectos exploratórios do trabalho a partir de casa. In: Temas de psicologia, v. 23, n. 2, p. 431-441, jun. 2015. SENNETT, R. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2009. Relações de trabalho 1. Itens iniciais Propósito Preparação Objetivos Introdução 1. Consolidação das leis do trabalho O objetivo da CLT Registro do trabalhador Atenção Jornada de trabalho Período de descanso Atenção Férias Segurança e saúde do trabalho Atenção Sindicato Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) Principais pontos Atenção Tempo à disposição do empregador Essa mudança foi considerada positiva tanto para os empregadores quanto para os empregados. Duração do trabalho Atenção Teletrabalho O que caracteriza o teletrabalho? Então, qual é a diferença entre teletrabalho e home office? Atenção Sobre esse ponto, é possível concluir que a responsabilidade recai sobre o empregador no home office, enquanto, no teletrabalho, ela é passível de discussão. Intervenções críticas à Reforma Trabalhista Possibilidade de terceirização das atividades Liberação da terceirização nos serviços essenciais de saúde pública Jornada de trabalho Férias Tempo de deslocamento Trabalho de mulher grávida Contribuição sindical facultativa CLT E REFORMA TRABALHISTA DE 2017 Conteúdo interativo Verificando o aprendizado A Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) alterou alguns pontos em relação à carga horária de trabalho. Marque a alternativa correta em relação a essa lei. Observamos algumas críticas acerca da Reforma Trabalhista. A maior delas diz respeito ao risco da terceirização do trabalho. Afinal, ela pode acarretar não só a desvalorização do funcionário como também retirar a segurança e aumentar a possibilidade de enfermidades e assédio moral. Marque a alternativa que corresponde a um caso típico de assédio moral. 2. Transformações do mundo do trabalho Apresentação Trabalho: a longa trajetória de construção de um conceito Saiba mais Saiba mais Conteúdo interativo O ser social O ser coisificado O ser solidário Verificando o aprendizado 1. (Prefeitura Municipal de Betim - Instituto AOCP - 2020 - Adaptada)Compreender as transformações no mundo do trabalho e seus impactos na vida dos trabalhadores é essencial na atuação de um sociólogo. A respeito das diferentes interpretações sociológicas sobre esse tema, assinale a alternativa correta. 2. (CONSULPLAN - 2018 - SEDUC - PA - Adaptada)“A noção de alienação é fundamental no pensamento marxista, pois apresenta o estado psicossocial primordial ao qual o indivíduo é submetido no modo de produção capitalista. Além disso, Marx não