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Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos SUMÁRIO DEFINIÇÃO................................................................................................................................................................3 CAPÍTULO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA NORMAL.....................................................................6 CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA.......................................................................................................................... 18 CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA.................................................................................................................................... 20 CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO.................................................................................................................... 23 CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO..........................................................................................................................25 CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA.........................................................................................................................27 CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS....................................................................................................... 30 CAPÍTULO 8 — RED FLAGS................................................................................................................................... 32 CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO..............................................................................................................................34 CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES..................................................................................................38 CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL...................................................................................................40 CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO............................................................................................................................ 43 CAPÍTULO 13 — POSOLOGIA................................................................................................................................ 46 CAPÍTULO 14 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO.........................................................................................50 FICHA-RESUMO — DELIRIUM E TRANSTORNOS NEUROCOGNITIVOS AGUDOS..........................................52 ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA...............................................................................................................59 GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS............................................................................................................... 64 MAPA DE REVISÃO................................................................................................................................................67 ANEXO — QUESTÕES...........................................................................................................................................69 ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES.............................................................................................................. 72 REFERÊNCIAS........................................................................................................................................................73 Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 2 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos DEFINIÇÃO Esta unidade responde a uma única pergunta: o que é delirium? Fixa o conceito, a definição operacional adotada em todo o volume, a terminologia correta — incluindo uma armadilha da língua portuguesa — e a fonte que governa o volume onde as referências divergem. Critérios formais, mecanismos, investigação e tratamento pertencem a capítulos próprios. Figura 0.1 — O delirium é uma síndrome, não uma doença Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no Harrison [1,, no Hazzard [2, e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Delirium: Clinical Sciences — Osmosis from Elsevier Assista em: https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Avaliação e Manejo de Delirium — Medicina Interna HCFMUSP Assista em: https://youtu.be/nvV2zbU2EXg 1. O que é O delirium é uma síndrome clínica de instalação aguda, caracterizada por distúrbio da atenção e da consciência, acompanhada de comprometimento adicional de outros domínios cognitivos, com curso tipicamente flutuante e produzida por uma condição orgânica subjacente — clínica, neurológica, tóxica ou medicamentosa. [1-3] O termo vem do latim delirare, “estar fora dos trilhos”, e está entre os primeiros transtornos mentais descritos na medicina. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 3 https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo https://youtu.be/nvV2zbU2EXg https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo https://youtu.be/nvV2zbU2EXg Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Harrison, Hazzard e Goldman-Cecil convergem para esse núcleo. O Harrison define declínio relativamente agudo da cognição que flutua ao longo de horas ou dias, tendo o déficit de atenção como característica principal, ainda que memória, função executiva, habilidades visuoespaciais e linguagem também se comprometam. [1] O Hazzard descreve transtorno agudo da atenção e da função cognitiva global; [2] o Goldman-Cecil usa formulação equivalente. [3] A definição de matriz nosológica acrescenta a extensão do comprometimento: síndrome cerebral orgânica sem etiologia específica, com perturbação simultânea da consciência e da atenção, da percepção, do pensamento, da memória, do comportamento psicomotor, das emoções e do ritmo sono-vigília. [4] 2. Definição operacional deste LIDE Figura 0.2 — Definição operacional: a sequência cumulativa que fecha o diagnóstico Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [1-4] Atenção é o elemento central da definição clínica: dificuldade de focalizar, sustentar e redirecionar — na prática, não se consegue manter o fluxo de conversação. [1,2,4] Tempo: instalação em horas a dias, contra a instalação insidiosa em semanas a meses das demências; determinar essa agudeza exige conhecer o estado cognitivo prévio, quase sempre por informante. [2,3] No idoso o início pode ser menos abrupto, precedido de pródromos — queda de concentração, irritabilidade, insônia, pesadelos. [4] Flutuação: oscilação em 24 horas com intervalos lúcidos, que enganam examinadores experientes; o padrão clássico é sensório claro pela manhã e piora no fim do dia. [2,4,5] Organicidade: condição médica subjacente, com frequência mais de uma. [2,3] Duas delimitações decorrem daí. O delirium pressupõe paciente desperto o bastante para que atenção e cognição sejam avaliáveis — quadros em consciência gravemente comprometida ou coma não são delirium. [2] O nível de alerta pode variar: sonolência e redução da responsividade na forma hipoativa, inquietação e hiperalerta na hiperativa. O delirium não se define pelo grau de rebaixamento dentro de um continuum linear do nível de consciência, mas pelo conjunto de alteração aguda e flutuante da atenção e da consciência com comprometimento cognitivo adicional; [5,6] o quadro comparativo completo está no Diagnóstico Diferencial. Os critérios formais — DSM-5 e o algoritmo do Confusion Assessment Method — estão no Diagnóstico. 3. Terminologia O fenômeno recebeu mais de trinta denominações; as mais usadas são estado confusional agudo e confusão mental aguda. [4] O Harrison registra ainda encefalopatia, insuficiência cerebral aguda e psicose de unidade de terapia intensiva; [1] a psicopatologia clássica acrescentou amência e estado onírico, hoje absorvidos pela categoria ampla. [5] O termo preferencial é delirium: “síndrome confusional” enfatiza o discurso incongruente, que é apenas um traço da síndrome e nem sempre o maisEstudos de tomografia e ressonância encontraram lesões ou anormalidades estruturais em encéfalos de pacientes com delirium, e os estudos de SPECT mostram associação predominante com redução do fluxo sanguíneo cerebral — embora com resultados variáveis. [2] Esses achados não contradizem a natureza difusa do quadro. Como registra o Harrison, na maioria dos casos o delirium resulta de distúrbios difusos das regiões corticais e subcorticais, e não de causa neuroanatômica focal; lesões focais raramente o produzem, sendo as parietais direitas e as talâmicas dorsais mediais as mais relatadas. [10] 6.5 Neurotransmissores — o que se sabe e o que se supõe As anormalidades de neurotransmissão associadas envolvem função dopaminérgica cerebral elevada, função colinérgica reduzida ou um desequilíbrio relativo entre esses sistemas; a atividade serotoninérgica pode interagir regulando ou alterando os outros dois, com níveis que podem estar aumentados ou diminuídos. [2] Os três não têm, porém, o mesmo peso de evidência. Tabela 6.1 — Sistemas de neurotransmissores e o grau de evidência que os sustenta Sistema Achados Estatuto epistemológico Colinérgico — deficiência Evidência extensa. A acetilcolina tem papel-chave na consciência e nos processos atencionais; fármacos anticolinérgicos induzem delirium em humanos e animais; a atividade anticolinérgica sérica está aumentada nos pacientes; a fisostigmina reverte o delirium associado a anticolinérgicos e inibidores da colinesterase parecem trazer algum benefício mesmo em casos não induzidos por fármacos [2,10] Mecanismo com apoio experimental convergente — o mais bem sustentado do capítulo [2] Dopaminérgico — excesso relativo Aumentos de dopamina podem causar delirium; pacientes com doença de Parkinson tratados com dopaminérgicos podem apresentar estado semelhante ao delirium, com alucinações visuais, flutuações e confusão; a redução do tônus dopaminérgico com antagonistas é tratamento sintomático eficaz [10] Hipótese com apoio farmacológico indireto — a resposta ao antagonista não prova o mecanismo [2,10] Serotoninérgico Pode interagir para regular ou alterar os dois sistemas anteriores; os níveis podem estar aumentados ou diminuídos [2] Papel modulador, direção não definida [2] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2] e no Harrison — Neurologia clínica [10]. PONTO ESSENCIAL — O MODELO “ACETILCOLINA BAIXA, DOPAMINA ALTA” É DIDÁTICO O par colinérgico-dopaminérgico é uma simplificação de ensino, útil para organizar a farmacologia, e não um mecanismo estabelecido. A deficiência colinérgica tem evidência experimental convergente; o excesso dopaminérgico é hipótese apoiada sobretudo pela resposta clínica a antagonistas — e responder a um antagonista não demonstra que o excesso do agonista causou o quadro. É provável que outros neurotransmissores estejam implicados nesse distúrbio cerebral difuso. [2,10] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 28 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 6.6 Neuroinflamação e resposta ao estresse Os sistemas de neurotransmissão também podem ser afetados indiretamente. Na sepse, a resposta inflamatória sistêmica desencadeia uma cascata de neuroinflamação local, levando a ativação endotelial, comprometimento do fluxo sanguíneo, apoptose neuronal e disfunção de neurotransmissores. A neuroinflamação pode produzir hiperativação microglial, com resposta neurotóxica e lesão neuronal adicional. [2] Estudos animais mostram que a neurodegeneração causa priming de astrócitos e micróglia, resultando em resposta neuroinflamatória exagerada, além de alterações da vasculatura e da barreira hematoencefálica — o que pode tornar o encéfalo mais vulnerável a moléculas inflamatórias circulantes. [2] É um mecanismo plausível para a ligação entre demência prévia e delirium descrita no Capítulo 4. A resposta ao estresse associada a doença clínica grave ou cirurgia envolve ativação simpática e imune, com aumento da atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e hipercortisolismo, e liberação de citocinas cerebrais que alteram sistemas de neurotransmissores, o eixo tireoidiano e a permeabilidade da barreira hematoencefálica. [2] ESTRESSOR AGUDO — SEPSE, CIRURGIA ↓ RESPOSTA INFLAMATÓRIA SISTÊMICA E ATIVAÇÃO DO EIXO HHA ↓ NEUROINFLAMAÇÃO LOCAL E HIPERATIVAÇÃO MICROGLIAL ↓ ATIVAÇÃO ENDOTELIAL, QUEDA DO FLUXO E PERMEABILIDADE DA BARREIRA ↓ DISFUNÇÃO DE MÚLTIPLOS SISTEMAS DE NEUROTRANSMISSORES ↓ RUPTURA DE REDES DE LARGA ESCALA → DELIRIUM | Uma das vias descritas, não a única. O encadeamento é o mais bem caracterizado para o delirium associado à sepse [2] e não representa sequência obrigatória em todo caso — a própria noção de via final comum implica múltiplas entradas. 6.7 Por que o idoso é mais vulnerável Alterações relacionadas à idade na neurotransmissão central, no manejo do estresse, na regulação hormonal e na resposta imune podem contribuir para a maior vulnerabilidade do idoso ao delirium. [2] A descrição da síndrome como “falência cerebral aguda” — envolvendo múltiplos circuitos neurais, neurotransmissores e regiões encefálicas — sugere que compreendê-la pode ajudar a elucidar os próprios mecanismos do funcionamento cerebral. [2] SÍNTESE DO CAPÍTULO 6 — 1. Disfunção cerebral aguda em rede, sem lesão estrutural específica obrigatória — daí a reversibilidade potencial. ■ 2. Achado estabelecido: alentecimento generalizado da atividade alfa cortical, assinatura da desorganização talamocortical. ■ 3. Modelo vigente: via final comum de mecanismos interatuantes, sem evidência de via única. ■ 4. Estressor agudo sobre encéfalo vulnerável é a hipótese em favor. ■ 5. Deficiência colinérgica tem evidência convergente; excesso dopaminérgico é hipótese apoiada em resposta farmacológica. ■ 6. Neuroinflamação, hipercortisolismo e alteração da barreira hematoencefálica são vias indiretas bem caracterizadas na sepse. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 29 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS As manifestações do delirium refletem um largo espectro de disfunção cerebral. [4] O capítulo separa o que é achado maior — presente para que a síndrome exista — do que é achado associado, frequente porém dispensável. Confundir as duas categorias é a causa mais comum de erro diagnóstico à beira do leito. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Delirium: Estado Confusional Agudo — aula completa SanarFlix Assista em: https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 PRINCÍPIO CENTRAL — A DESATENÇÃO É O ACHADO CENTRAL A desatenção é o achado central. No CAM, o diagnóstico exige início agudo e curso flutuante somados à desatenção, mais pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência — os dois últimos não precisam coexistir. [2] Alucinações, delírios, agitação e labilidade emocional são frequentes, mas não obrigatórios — e sua ausência jamais afasta o diagnóstico. 7.1 Os três achados maiores Tabela 7.1 — Achados maiores e sua expressão à beira do leito Achado Como se manifesta Como se examina Desatenção Paciente facilmente distraível; dificuldade com comandos de múltiplas etapas; não acompanha o fluxo da conversa; persevera com a resposta de uma pergunta anterior [2]. Há dificuldade em manter a atenção em um estímulo e em desviá-la para um estímulo novo [4] Recitar os meses do ano de trás para frente é a tarefa citada como exemplo [2] Pensamento desorganizado Discurso desconexo e incoerente, com fluxo de ideias ilógico ou pouco claro [2]. O prejuízo do pensamento está invariavelmente presente: vago e fragmentado; lento ou acelerado nas formas leves, sem lógica ou coerência nas graves [4] Ouvir o paciente narrar o motivoda internação — a incoerência aparece na narrativa espontânea [2] Alteração do nível de consciência Tipicamente manifesta-se por letargia, com redução da percepção do ambiente e variação diurna [2]. O estado de alerta pode estar reduzido ou aumentado [4] Observar ao longo do dia e comparar com o relato da enfermagem e do acompanhante [2,4] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. A disfunção global da cognição é manifestação essencial. [4] O Harrison registra que, embora o déficit de atenção seja a característica principal, todos os domínios cognitivos — memória, função executiva, habilidades visuoespaciais e linguagem — mostram-se comprometidos de alguma forma. [1] 7.2 Achados associados Não são elementos cardinais, mas acompanham o quadro com frequência: desorientação — mais comumente temporal e espacial do que quanto a si mesmo [2] —, déficits de memória e de resolução de problemas, disnomia e disgrafia [2,4], agitação ou lentificação psicomotora, distúrbios da percepção, delírios paranoides, labilidade emocional e ruptura do ciclo sono-vigília. [2] A memória está comprometida de modo diretamente associado ao prejuízo da atenção e do nível de consciência — não é déficit primário de armazenamento. [4] A desorganização circadiana do sono é Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 30 https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos comum, com sonolência diurna e sono noturno reduzido e fragmentado. [4] Podem surgir ainda raiva, medo, ansiedade e euforia, além de manifestações autonômicas — rubor facial, taquicardia, sudorese e hipertensão arterial —, em geral na forma hiperativa. [4] O Harrison acrescenta instabilidade da frequência cardíaca e da pressão arterial entre os achados autonômicos possíveis. [1] NÃO CONFUNDIR — ALUCINAÇÃO NÃO É CRITÉRIO As anormalidades da sensopercepção manifestam-se mais comumente por ilusões e alucinações visuais que, embora não essenciais para o diagnóstico, podem estar presentes em 40 a 75% dos pacientes idosos com delirium. [4,12] Exigir alucinação para diagnosticar delirium exclui a maioria dos pacientes hipoativos — o subtipo mais comum no idoso, conforme o Capítulo 5. 7.3 O curso é uma manifestação O comportamento temporal não é pano de fundo: é achado clínico. A flutuação dos sintomas é característica marcante e dificulta muitas vezes o diagnóstico. [4, O padrão clássico descrito por Dalgalarrondo: sensório relativamente claro pela manhã, com “afundamento” do nível de consciência no início da tarde e piora no fim do dia e à noite — quando podem surgir ilusões e alucinações visuais, intensificar-se a desorientação e a confusão do discurso, com possível agitação psicomotora e sudorese. [5, Figura 7.1 — O curso como manifestação: flutuação circadiana e o intervalo lúcido Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [5] No idoso, o início pode ser precedido por dias de pródromos: diminuição da concentração, irritabilidade, insônia, pesadelos ou alucinação transitória. [4] Reconhecê-los é a única janela de prevenção antes da instalação do quadro completo. SÍNTESE DO CAPÍTULO 7 — 1. Três achados maiores: desatenção, pensamento desorganizado e alteração do nível de consciência. ■ 2. A disfunção cognitiva é global; a atenção é apenas a mais afetada. ■ 3. Memória prejudicada por desatenção, não por falha primária de armazenamento. ■ 4. Alucinações visuais em 40–75%, mas não são critério. ■ 5. A flutuação circadiana é achado clínico — o exame matinal isolado engana. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 31 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 8 — RED FLAGS Red flags são os achados que mudam a urgência, a sequência da investigação ou o local do atendimento. Não substituem a avaliação sistemática do Diagnóstico; antecipam-na. O ponto de partida já foi estabelecido: delirium deve ser considerado uma urgência médica, com diagnóstico corretamente estabelecido e terapêutica rapidamente instituída. [4] PRINCÍPIO CENTRAL — A RED FLAG NÃO APONTA O DELIRIUM, APONTA A CAUSA O reconhecimento da síndrome já está feito quando estas perguntas se colocam. O que os sinais desta lista indicam é qual causa não pode esperar — e qual exame deixa de ser eletivo para se tornar imediato. 8.1 Red flags da avaliação inicial Tabela 8.1 — Red flags no delirium: o que preocupa e o que muda Red flag Preocupação Por que muda a conduta Febre, taquipneia, consolidação pulmonar, sopro cardíaco ou meningismo Infecção sistêmica ou do sistema nervoso central O rastreamento cuidadoso de sinais de infecção integra o exame físico obrigatório. [1] Meningite, encefalite e abscesso são etiologias menos comuns, mas a morbimortalidade quando não tratadas rapidamente exige alto índice de suspeição permanente. [1] Novo déficit neurológico focal Lesão estrutural Raras vezes AVC focal ou lesão expansiva causa delirium — mas o paciente com doença cerebrovascular extensa ou neurodegenerativa pode não resistir a lesões pequenas. [1] O restante do exame neurológico deve ser dirigido a identificar déficits focais novos. [1] Mioclonia multifocal ou asterixe Etiologia tóxica ou metabólica Achado inespecífico, mas que direciona a investigação para causa tóxico-metabólica. [1] Icterícia; cianose; marcas de agulha Encefalopatia hepática; hipoxemia; uso de drogas intravenosas A inspeção da pele é dado diagnóstico e redireciona a propedêutica de imediato. [1] Abstinência de álcool ou de benzodiazepínico Delirium tremens A síndrome cognitiva da abstinência alcoólica grave cursa com alucinações, agitação e hipervigilância, acompanhada de instabilidade autonômica potencialmente fatal. [1] Deve ser considerada em todos os casos de delirium, inclusive em idosos que ingerem pequenas doses diárias. [1] Delirium sem causa aparente, com flutuação extrema Estado de mal epiléptico não convulsivo Consta entre os diagnósticos diferenciais do delirium e só é reconhecido por eletroencefalograma. [1] Desidratação ou sobrecarga hídrica com hipoxemia Causa reversível de correção imediata Ambas se associam ao delirium e ambas podem ser corrigidas com facilidade — a avaliação do grau de hidratação é parte do exame físico. [1] Forma hipoativa: paciente quieto, letárgico, “colaborativo” Delirium não reconhecido É a forma mais comum no idoso, a de pior prognóstico global e a que mais escapa ao diagnóstico. [2] A ausência de agitação é red flag, não tranquilizador. Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [1] e no Hazzard [2]. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 32 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 8.2 As apresentações que enganam no idoso Três quadros graves apresentam-se no idoso sem os sinais que os anunciariam em adultos jovens — e o delirium pode ser a única manifestação de cada um deles. INFECÇÃO OCULTA — SEM LEUCOCITOSE E SEM RESPOSTA FEBRIL TÍPICA ■ INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA OCULTA — SEM DISPNEIA E SEM TAQUIPNEIA ■ INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E INSUFICIÊNCIA CARDÍACA — COM ANGINA E DISPNEIA MÍNIMAS → DELIRIUM COMO MANIFESTAÇÃO CARDINAL | Ausência do sinal clássico não afasta a doença no idoso. [2] É o que sustenta a formulação do Goldman-Cecil: a alteração do estado mental funciona como barômetro da saúde subjacente e é, com frequência, a única manifestação de doença grave. [3] Some-se a isso que qualquer falência de órgão maior, particularmente renal ou hepática, pode precipitar delirium, assim como distúrbios metabólicos e endocrinológicos — hiper e hiponatremia, hipercalcemia, distúrbiosacidobásicos, hipo e hiperglicemia, e afecções tireoidianas ou adrenais. [2] 8.3 O que se faz antes de investigar ALERTA CRÍTICO — DUAS CORREÇÕES PRECEDEM A INVESTIGAÇÃO O paciente com alteração do nível de consciência exige que medidas terapêuticas sejam tomadas ao mesmo tempo em que as informações clínicas são obtidas — não se deve abandoná-lo para colher anamnese. [6] Entre as medidas gerais estão garantir condições ventilatórias adequadas, obter acesso venoso, corrigir a glicemia e administrar tiamina 100 mg, quase rotineiramente, quando houver possibilidade de encefalopatia de Wernicke. [6] A ordem importa: a tiamina precede ou acompanha a glicose no paciente sob risco. SÍNTESE DO CAPÍTULO 8 — 1. Delirium é urgência médica; a red flag indica qual causa não pode esperar. ■ 2. Febre com meningismo, déficit focal novo e suspeita de estado de mal não convulsivo mudam o exame de eletivo para imediato. ■ 3. Asterixe e mioclonia multifocal apontam causa tóxico-metabólica. ■ 4. Abstinência alcoólica deve ser cogitada em todos os casos, inclusive no idoso. ■ 5. No idoso, infecção, insuficiência respiratória e evento coronariano podem se apresentar sem os sinais clássicos. ■ 6. A forma hipoativa é red flag por si só. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 33 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO O diagnóstico de delirium envolve duas etapas essenciais: estabelecer o diagnóstico sindrômico e determinar a sua etiologia. [4] Este capítulo trata da primeira; a segunda é a Etiologia aplicada ao paciente concreto, com o apoio dos Exames Complementares. PRINCÍPIO CENTRAL — É DIAGNÓSTICO CLÍNICO, FEITO À BEIRA DO LEITO O delirium é um diagnóstico clínico que só pode ser definido à beira do leito. [1] A despeito de sua base orgânica, o diagnóstico é primariamente clínico, e o uso de critérios específicos tem contribuído para ele. [4] Nenhum exame o estabelece; os exames servem à segunda etapa, a etiológica. 9.1 Passo zero: o estado cognitivo basal A primeira etapa na avaliação de suspeita de delirium é obter anamnese detalhada de uma pessoa confiável, para estabelecer o nível basal de função cognitiva e a evolução clínica de quaisquer alterações. [3] Sem esse dado, agudeza não é determinável — e sem agudeza não há diagnóstico. Figura 9.1 — Passo zero: estabelecer o estado cognitivo basal Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [3] A necessidade do informante é reforçada pelo próprio curso da síndrome: pacientes com delirium apresentam evolução flutuante, de modo que o diagnóstico pode passar despercebido quando se confia em um único momento da avaliação; nos que pioram no fim do dia, a avaliação apenas nas visitas da manhã pode ser falsamente tranquilizadora. [1] 9.2 Critérios diagnósticos Os critérios padronizados da American Psychiatric Association representam o padrão diagnóstico corrente. [2] Foram desenvolvidos por consenso de especialistas, e características de desempenho como sensibilidade e especificidade não foram relatadas para eles. [2,3] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 34 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 9.1 — Critérios diagnósticos para delirium (DSM-5) Critério Enunciado A — Atenção e consciência Perturbação da atenção — redução da capacidade de direcionar, focalizar, manter e mudar a atenção — acompanhada por alteração do nível de consciência e da percepção do ambiente [2,4] B — Instalação e curso A perturbação desenvolve-se em período curto, habitualmente de horas a dias, representa mudança em relação ao nível basal e tende a flutuar ao longo do dia [2,4] C — Cognição adicional Existe alteração adicional da cognição: déficit de memória, desorientação, alteração da linguagem, da percepção ou outra perturbação cognitiva [2,4] D — Delimitação As alterações dos critérios A e C não são melhor explicadas por transtorno neurocognitivo preexistente ou em evolução e não ocorrem exclusivamente em nível de consciência gravemente reduzido, como o coma [2] E — Organicidade Há evidências na história, no exame físico ou nos exames complementares de que a perturbação seja consequência fisiológica direta de condição médica, intoxicação ou abstinência de substância, exposição a medicamento ou múltiplas etiologias [2,4] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no DSM-5-TR [11], no Hazzard [2] e no Quadro 27.2 do Tratado de geriatria e gerontologia [4]. 9.3 O Confusion Assessment Method O CAM é um instrumento padronizado que fornece algoritmo diagnóstico breve e validado, atualmente em uso disseminado. [2] Abrange nove itens derivados de critérios do DSM-III-R, formulados em linguagem de compreensão simples, o que o torna aplicável por profissionais de saúde não treinados em psiquiatria. [4] Está traduzido para 14 idiomas, e o estudo de validação e confiabilidade da versão em língua portuguesa mostrou que é útil em nosso meio na investigação inicial de delirium. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 35 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 9.2 — Os nove itens do CAM e o algoritmo diagnóstico Item O que se investiga Papel no algoritmo 1. Início agudo Há evidência de mudança aguda do estado mental de base do paciente? [4] Critério 1 — obrigatório 2. Distúrbio da atenção Dificuldade em focalizar a atenção, distração fácil, dificuldade em acompanhar o que é dito; e se o comportamento variou durante a entrevista, surgindo e desaparecendo ou oscilando em gravidade [4] Critério 2 — obrigatório (inclui a flutuação) 3. Pensamento desorganizado Pensamento desorganizado ou incoerente, conversação dispersiva ou irrelevante, fluxo de ideias pouco claro ou ilógico, mudança imprevisível de assunto [4] Critério 3 — um dos dois alternativos 4. Alteração do nível de consciência Classificação em alerta, vigilante, letárgico, estupor ou coma [4] Critério 4 — um dos dois alternativos 5. Desorientação Pensar que está em outro lugar, no leito errado, ou ter noção errada da hora do dia [4] Item descritivo 6. Distúrbio da memória Incapacidade de lembrar eventos do hospital ou dificuldade para lembrar instruções [4] Item descritivo 7. Distúrbios da percepção Alucinações, ilusões ou interpretações errôneas [4] Item descritivo 8. Agitação ou retardo psicomotor Aumento anormal da atividade motora, ou lentidão exagerada, olhar fixo no vazio, permanência longa na mesma posição [4] Item descritivo 9. Alteração do ciclo sono-vigília Sonolência diurna excessiva e insônia noturna [4] Item descritivo Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Quadro 27.3 do Tratado de geriatria e gerontologia [4] e no Hazzard [2]. CRITÉRIO 1 — INÍCIO AGUDO E CURSO FLUTUANTE E CRITÉRIO 2 — DESATENÇÃO ↓ MAIS ↓ CRITÉRIO 3 — PENSAMENTO DESORGANIZADO OU CRITÉRIO 4 — ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA → DELIRIUM | Algoritmo do CAM. Os critérios 1 e 2, associados ao 3 ou ao 4, já estabelecem o diagnóstico. [2,4] Os cinco itens restantes descrevem o quadro, mas não entram na decisão. Desempenho. O algoritmo tem sensibilidade de 94 a 100%, especificidade de 90 a 95% e alta confiabilidade entre avaliadores. [2] O Goldman-Cecil, em estudos com mais de mil indivíduos, registra sensibilidade de 94%, especificidade acima de 85% e alta confiabilidade interavaliadores. [3] 9.4 Como testar a atenção à beira do leito Em paciente com nível de consciência relativamente normal, é obrigatório o rastreamento para déficit de atenção, por ser a característica neuropsicológica clássica do delirium. [1] A atenção pode ser avaliada durante a própria anamnese: fala tangencial, fluxo fragmentado de ideias ou incapacidade de obedecer a comandos complexos geralmente significam problema deatenção. [1] O teste formal mais prático é a repetição de séries de dígitos: pede-se ao paciente que repita séries sucessivamente mais longas de números aleatórios, começando com dois, ditos em intervalos de um segundo. Adultos saudáveis repetem séries de 5 a 7 dígitos antes de falhar; a repetição de 4 ou menos sugere comprometimento da atenção, mas deve ser lida considerando idade, escolaridade, audição, linguagem e condição clínica — nenhum ponto de corte isolado estabelece delirium — e muitos Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 36 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos pacientes com delirium conseguem repetir 3 ou menos. [1] Outra tarefa citada é recitar os meses do ano de trás para frente. [2] ARMADILHA CONCEITUAL — O MEEM NÃO SERVE PARA DIAGNOSTICAR DELIRIUM O miniexame do estado mental fornece informações sobre orientação, linguagem e habilidades visuoespaciais, mas o desempenho em tarefas como soletrar “mundo” de trás para frente ou a subtração seriada estará prejudicado justamente pelo déficit de atenção — de modo que seus resultados não serão confiáveis no paciente com delirium. [1] Um MEEM baixo não distingue delirium de demência; apenas confirma que há disfunção cognitiva. 9.5 Outros instrumentos A aplicação sistemática de instrumentos melhora a detecção, e há escalas, questionários e algoritmos com diferentes graus de complexidade, para avaliadores de diversos níveis. [4] Entre os de rastreamento: CAM, CAM-ICU (para terapia intensiva), ICDSC, Delirium Symptom Interview, Cognitive Test for Delirium, NEECHAM Confusion Scale, Delirium Observation Screening e Nu-DESC. Entre os que avaliam gravidade: DRS-R-98, Memorial Delirium Assessment Scale, Confusion Assessment Scale Evaluation, Delirium Index, Delirium Severity Scale, Delirium-O-Meter e CAM-S. [4] SÍNTESE DO CAPÍTULO 9 — 1. Duas etapas: diagnóstico sindrômico e determinação da etiologia. ■ 2. Passo zero é o basal cognitivo, obtido com informante confiável. ■ 3. DSM-5: atenção e consciência, instalação aguda e flutuante, cognição adicional, delimitação frente a demência e coma, e organicidade. ■ 4. CAM: critérios 1 e 2 mais 3 ou 4; sensibilidade 94–100%, especificidade 90–95%; versão brasileira validada. ■ 5. Atenção se testa com séries de dígitos — 4 ou menos indica déficit. ■ 6. O MEEM não diagnostica delirium. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 37 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES O Diagnóstico é clínico. Os exames servem à segunda etapa — determinar a etiologia. [4] Devem ser direcionados a confirmar ou afastar os diagnósticos sindrômico, topográfico e etiológico, e tanto os tipos quanto a sequência variam conforme o raciocínio diagnóstico. [6] PRINCÍPIO CENTRAL — NÃO EXISTE ALGORITMO ÚNICO Dado o grande número de etiologias possíveis, nenhum algoritmo funciona para todos os pacientes. [1] A abordagem de melhor relação custo-benefício deixa que a anamnese e o exame físico orientem as etapas seguintes: se um fator precipitante for identificado — um fármaco agressor, por exemplo —, pode não haver necessidade de exames adicionais. [1] Só quando a avaliação inicial não revela etiologia provável é que se institui pesquisa minuciosa. 10.1 Avaliação em etapas Tabela 10.1 — Avaliação complementar em etapas Etapa Exames Quando Inicial Hemograma completo; painel de eletrólitos incluindo cálcio, magnésio e fósforo; provas de função hepática com albumina; provas de função renal [1] Para todos os pacientes com delirium [1] Adicional primária, orientada pelos dados iniciais Pesquisa de infecção sistêmica: exame de urina e cultura, radiografia de tórax, hemoculturas. Eletrocardiografia. Gasometria arterial. Rastreamento toxicológico sérico e urinário. Imagem cerebral. Punção lombar após imagem, se suspeita de infecção ou inflamação do SNC. EEG, se suspeita de etiologia relacionada a crises [1] Rastreamento de infecção é importante no idoso; o rastreamento toxicológico deve ser solicitado logo de início no paciente jovem; se a suspeita de crise for forte, o EEG é imediato [1] Adicional secundária Vitaminas B12, folato e tiamina; TSH e T4 livre; cortisol; amônia sérica; VHS; sorologias autoimunes (FAN, complemento, p- ANCA, c-ANCA, encefalites autoimune e paraneoplásica); sorologias infecciosas (RPR, anti-HIV, fúngicas e virais); punção lombar e ressonância, se ainda não realizadas [1] Reservada aos pacientes cujo diagnóstico permanece incerto após os exames iniciais [1] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir da Tabela 27.3 do Harrison [1]. 10.2 Neuroimagem Diversos estudos demonstraram que os exames de imagem do encéfalo em pacientes com delirium com frequência são inúteis. [1] Ainda assim, quando a pesquisa inicial nada revela, recorre-se à imagem para excluir causas estruturais. Tabela 10.2 — Escolha do método de imagem Método O que oferece Limitação Tomografia sem contraste Identifica grandes massas e hemorragias [1] Relativamente inútil para esclarecer a etiologia do delirium [1] Ressonância magnética com difusão e gadolínio Identifica a maioria dos AVC isquêmicos agudos e mostra detalhe neuroanatômico com indícios de afecções infecciosas, inflamatórias, neurodegenerativas e neoplásicas — é o exame preferível [1] Disponibilidade, tempo de aquisição, necessidade de cooperação do paciente e contraindicações [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 38 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [1]. Na prática, muitos clínicos começam com a tomografia e prosseguem para a ressonância caso a etiologia permaneça incerta. [1] Vale registrar que estudos de tomografia e ressonância encontraram lesões ou anormalidades estruturais em encéfalos de pacientes com delirium, e que estudos de SPECT mostram associação predominante com redução do fluxo sanguíneo cerebral, com resultados variáveis. [2] 10.3 Líquor e eletroencefalograma A punção lombar deve ser realizada imediatamente, após imagem neurológica apropriada, em todos os pacientes com suspeita de infecção do SNC. O exame do líquido cerebrospinal também identifica condições autoimunes, inflamatórias e neoplásicas — razão pela qual deve ser considerada em qualquer paciente com delirium e investigação negativa. [1] O EEG permanece exame valioso quando se cogitam crises epilépticas ou quando nenhuma causa é prontamente identificada. [1] Seu achado característico no delirium é o desarranjo funcional global com alentecimento generalizado da atividade alfa cortical de base; [2] o Harrison descreve lentificação simétrica, achado inespecífico que confirma disfunção cerebral difusa. [10] PONTO ESSENCIAL — O EEG CONFIRMA A ENCEFALOPATIA; NÃO DIAGNOSTICA O DELIRIUM O alentecimento difuso é inespecífico: comprova disfunção cerebral difusa, sem apontar a causa. [10] Seu valor decisório concentra-se em duas situações — descartar estado de mal epiléptico não convulsivo e sustentar a organicidade quando a investigação inicial foi negativa. [1] Fora delas, não altera a conduta. A base fisiológica desse achado está no Capítulo 6. SÍNTESE DO CAPÍTULO 10 — 1. Nenhum exame diagnostica delirium; todos servem à etapa etiológica. ■ 2. Se a causa foi identificada na avaliação inicial, exames adicionais podem ser dispensáveis. ■ 3. Para todos: hemograma, eletrólitos com cálcio, magnésio e fósforo, função hepática e renal. ■ 4. Idoso pede rastreamento de infecção; jovem pede toxicológico logo de início. ■ 5. A tomografia identifica massa e hemorragia, mas esclarece pouco a etiologia; quando a investigação estrutural é necessária e não há contraindicação, a ressonância acrescenta informação.■ 6. Punção lombar imediata na suspeita de infecção do SNC e a considerar em toda investigação negativa; EEG para crise ou causa não identificada. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 39 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Duas perguntas distintas se colocam aqui. A primeira é onde o paciente está no espectro da consciência — se o quadro é delirium ou outro grau de rebaixamento. A segunda é qual condição não orgânica pode estar imitando a síndrome. As duas são respondidas por eixos diferentes. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Alteração de Consciência: Psicopatologia — FabulosaMente Assista em: https://youtu.be/ayw8-mZT7qg ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Consciência e suas Alterações | Psicopatologia — PsiqAula Assista em: https://youtu.be/16bd-XPURhA ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Psicopatologia — Consciência e Alterações Qualitativas Assista em: https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 PRINCÍPIO CENTRAL — O DISCRIMINADOR É A ATENÇÃO SOBRE O BASAL Nenhum achado isolado decide. Mas a combinação desatenção + instalação aguda sobre o estado cognitivo prévio + flutuação é o que separa o delirium de tudo o mais. A ausência dessas características desloca a investigação para depressão, transtornos psicóticos agudos não orgânicos e outras condições psiquiátricas. [3] 11.1 O espectro da consciência As alterações do nível de consciência constituem um continuum, do alerta ao coma profundo. [6] O delirium ocupa posição intermediária — rebaixamento leve a moderado, suficiente para desorganizar atenção e cognição, insuficiente para impedir o exame. [5] Tabela 11.1 — Posição do delirium no continuum do nível de consciência Estado Caracterização essencial Alerta Vigília plena, conteúdo íntegro [6] Confusão Incapacidade de manter pensamento ou ação coerentes, com evidente distúrbio da atenção; paciente desperto, incapaz de responder a solicitações que exijam coerência; comum em encefalopatias metabólicas [6] DELIRIUM Rebaixamento leve a moderado com desatenção, desorientação, discurso ilógico, ilusões ou alucinações visuais e alteração psicomotora, em curso flutuante [5] Obnubilação / sonolência Turvação da consciência; o paciente é despertado prontamente e responde de forma coerente [5,6] Torpor (estupor) Despertar apenas com estimulação vigorosa; respostas lentas, inconsistentes e inadequadas [5,6] Coma Ausência de conhecimento de si e do ambiente; não responsivo a estímulos internos e externos [6] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base em Dalgalarrondo [5] e em Fukujima & Ferraz [6]. A fronteira superior é operacional: o delirium exige paciente desperto o bastante para que atenção e cognição sejam avaliáveis; quadros em consciência gravemente comprometida ou coma não são classificados como delirium. [2] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 40 https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 https://youtu.be/16bd-XPURhA https://youtu.be/ayw8-mZT7qg https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 https://youtu.be/16bd-XPURhA https://youtu.be/ayw8-mZT7qg Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 11.2 Delirium, demência, depressão e psicose Tabela 11.2 — Discriminadores entre as quatro condições Característica Delirium Demência Depressão e psicose primária Início Súbito — horas a dias [1,4] Insidioso — semanas a meses ou meses a anos [2,3] Depressão: coincide com alterações da vida, frequentemente recente. Psicose: súbito [4] Curso nas 24 horas Flutuante, com exacerbação noturna [4,5] Em geral mais estável ao longo do dia; pode flutuar na demência com corpos de Lewy [4] Depressão: efeito diurno, tipicamente pior pela manhã, com menos flutuação que o delirium. Psicose: estável [4] Nível de consciência Variável: reduzido, normal ou aumentado, com flutuação [4,5] Claro [4] Claro [4] Atenção Globalmente desordenada — achado cardinal [1,4] Normal, exceto em casos graves [4] Depressão: prejuízo mínimo, paciente distraível. Psicose: pode estar desordenada [4] Alucinações Frequentemente visuais, ou visuais e auditivas [4] Geralmente menos proeminentes do que no delirium, mas podem ocorrer em determinadas demências, particularmente na demência com corpos de Lewy, na qual alucinações visuais recorrentes e flutuações cognitivas podem ser manifestações características [4] Psicose: predominantemente auditivas [4] Reversibilidade Potencialmente reversível quando a causa é identificada e tratada; a recuperação pode ser incompleta no idoso frágil ou com déficit cognitivo prévio [2] Progressiva [2] Tratável, com curso próprio [3] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir do Quadro 27.4 do Tratado de geriatria e gerontologia [4], com Harrison [1], Hazzard [2] e Goldman-Cecil [3]. 11.3 As três armadilhas que mais custam Demência com corpos de Lewy. Cursa com evolução flutuante, alucinações visuais proeminentes, parkinsonismo e déficit de atenção que lembra clinicamente o delirium hiperativo; e esses pacientes são particularmente vulneráveis ao delirium. [1] A distinção depende do basal e da temporalidade, não do quadro transversal. Delirium sobreposto a demência. A sobreposição é significativa e nem sempre simples de distinguir: pelo menos dois terços dos casos ocorrem em pacientes com demência coexistente. [1] Alterações agudas, mesmo superpostas a demência, exigem avaliação cognitiva formal. [3] A pergunta correta nunca é “é delirium ou demência”, e sim “há delirium sobre esta demência”. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 41 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Depressão e a forma hipoativa. A redução da atividade no delirium hipoativo é frequentemente atribuída a humor deprimido ou fadiga, o que contribui para o diagnóstico incorreto. [2] O discriminador é a atenção: na depressão o prejuízo é mínimo e a consciência permanece clara. [4] 11.4 Quadros que simulam rebaixamento sem sê-lo Várias síndromes que afetam a vigília são erroneamente interpretadas como estupor ou coma. [8] Reconhecê-las evita investigação equivocada: MUTISMO ACINÉTICO — VÍGIL, IMÓVEL E MUDO, MAS FORMA IMPRESSÕES E PENSA ■ ABULIA — FORMA MAIS LEVE, COM LENTIDÃO MENTAL E FÍSICA E REDUÇÃO DA INICIATIVA ■ CATATONIA — ALTERAÇÕES PSICOMOTORAS COM ESTUPOR, MUTISMO, NEGATIVISMO, POSTURAS MANTIDAS, AGITAÇÃO E ESTEREOTIPIAS, EM TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS E EM CONDIÇÕES MÉDICAS E NEUROLÓGICAS ■ ESTADO DE ENCARCERAMENTO — DESPERTO, SEM FALA NEM MOVIMENTO, COM MOVIMENTOS OCULARES VERTICAIS E ELEVAÇÃO PALPEBRAL PRESERVADOS | Nenhum deles é delirium. Mutismo acinético e abulia decorrem de lesão de núcleos talâmicos mediais, lobos frontais ou hidrocefalia extrema; a catatonia preserva o piscar de ameaça e a resistência ativa à abertura palpebral; o locked-in costuma vir de infarto ou hemorragia da ponte ventral. [8] SÍNTESE DO CAPÍTULO 11 — 1. O delirium exige paciente avaliável — coma não é delirium. ■ 2. Discriminadores: início súbito, curso flutuante com piora noturna, consciência reduzida e desatenção global. ■ 3. Alucinação visual sugere delirium; auditiva, psicose primária. ■ 4. Dois terços dos delirium ocorrem sobre demência — a pergunta é “sobre”, não “ou”. ■ 5. Mutismo acinético, abulia, catatonia e encarceramento simulam rebaixamento sem sê-lo. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 42 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO O tratamento do delirium começa com medidas para o fator incitante subjacente — antibiótico apropriado na infecção sistêmica, correção criteriosa do distúrbio eletrolítico. Tais medidas geralmente acarretam a resolução do quadro. [1] Tudo o mais neste capítulo é acessório a essa primeira frase. PRINCÍPIO CENTRAL — COMBATER OS SINTOMAS ÀS CEGAS PIORA O PACIENTE Combater cegamentede maneira farmacológica os sintomas do delirium serve apenas para prolongar a confusão e pode mascarar informações diagnósticas importantes. [1] A abordagem recomendada para todos os pacientes começa por estratégias não farmacológicas, que habitualmente já resultam em melhora sintomática. [2] 12.1 Prevenção primária Prevenir antes que se instale é a estratégia mais eficaz para reduzir o delirium e seus desfechos adversos. [2] Um ensaio clínico controlado dirigido aos fatores de risco modificáveis produziu redução de 40% no risco em idosos hospitalizados, comparado ao cuidado padrão. [2] Ao menos 14 estudos controlados com abordagens multicomponentes não farmacológicas demonstraram redução significativa das taxas de delirium, de quedas intra-hospitalares e da duração dos episódios. [2] A consultoria geriátrica proativa reduziu em 40% o risco de delirium após fratura de quadril em ensaio randomizado. [2] No conjunto, até 50% dos casos são preveníveis, e as estratégias devem começar cedo na internação. [2] O Hospital Elder Life Program (HELP) organiza essas estratégias em cuidado interdisciplinar: voluntários e familiares na orientação diária e no auxílio à alimentação; enfermagem e reabilitação na mobilização; nutricionistas na ingestão calórica e na hidratação. [2] 12.2 Manejo não farmacológico O manejo efetivo baseia-se em dois eixos complementares — promover o estado de alerta durante o dia e o sono à noite. [1] Tabela 12.1 — Os dois eixos do manejo não farmacológico Eixo Intervenções Dia — promover alerta Reorientação repetida pela equipe de enfermagem e pela família, com informações sobre tempo, espaço, condição de saúde e procedimentos; relógios visíveis, calendário, janela para o exterior e objetos pessoais conhecidos; correção do isolamento sensorial com óculos e aparelhos auditivos; quarto bem iluminado; atividades ou exercícios programados para evitar cochilos; visitas de familiares e amigos durante o dia, evitando a alternância frequente de acompanhantes [1,4] Noite — promover sono Ambiente silencioso e escuro, com iluminação suave e estímulo sonoro em baixo volume; poucas interrupções pela equipe hospitalar; roupa própria e roupa de cama trazida de casa, com objetos habituais ao alcance; vigilância ativa do ciclo sono-vigília [1,4] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [1] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. As intervenções sobre o ciclo sono-vigília são especialmente importantes na UTI, onde a atividade constante por 24 horas comumente causa delirium. [1] Somam-se as práticas de enfermagem — nutrição e hidratação adequadas, tratamento da dor, da incontinência e de feridas — e a correção de desidratação, distúrbio hidreletrolítico, desnutrição, úlceras de pressão e demais complicações da imobilidade. [1,4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 43 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Figura 12.1 — Sequência obrigatória do tratamento Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [2] 12.3 Quando medicar — e o que a evidência mostra O tratamento farmacológico deve ser reservado aos casos de delirium hiperativo com agitação grave, com risco potencial à segurança do paciente, dos cuidadores e da equipe, e aos distúrbios acentuados da sensopercepção. [4] Prescrever qualquer fármaco exige equilibrar o benefício contra o efeito adverso, porque sedativos podem prolongar o delirium e piorar os desfechos. [2] ALERTA CRÍTICO — OS ANTIPSICÓTICOS NÃO TRATAM O DELIRIUM Os ensaios clínicos têm demonstrado de maneira consistente que esses medicamentos são ineficazes no tratamento do delirium. [1] Devem ficar reservados a pacientes com agitação intensa e potencial significativo de dano a si e à equipe, e a associação de antipsicóticos a aumento da mortalidade em idosos reforça o uso criterioso e apenas como último recurso. [1] Comparações entre agentes não encontraram eficácia superior de nenhum deles. [2] Benzodiazepínicos costumam piorar a confusão pelos efeitos sedativos; seu uso deve se limitar ao delirium causado por abstinência de álcool ou de benzodiazepínicos. [1] Equipe, família e cuidadores devem compreender que quase qualquer medicamento pode turvar ainda mais o estado mental, prolongar os sintomas e obscurecer o acompanhamento do curso; qualquer fármaco começa na menor dose e pelo menor tempo possível. [2] As doses estão no Capítulo 13. 12.4 Segurança sem contenção Quando o paciente ameaça a própria segurança ou a da equipe, alarmes no leito e a presença de um acompanhante são muito mais eficazes e menos desorientadores que a contenção física. [1] A restrição ao leito deve ser evitada sempre que possível. [4] As contenções químicas também devem ser evitadas. [1] Nenhum medicamento específico mostrou-se definitivamente efetivo na prevenção do delirium, incluindo ensaios com inibidores da colinesterase e antipsicóticos. [1] Melatonina e ramelteon mostraram-se promissores em pequenos estudos preliminares, [1] mas os resultados até o momento são mistos. [2] Em UTI, os estudos recentes concentram-se em sedativos com menor propensão a causar delirium, como a dexmedetomidina, e em protocolos de despertar diário, com interrupção das infusões e reorientação do paciente pela equipe. [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 44 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos SÍNTESE DO CAPÍTULO 12 — 1. Tratar a causa resolve; tratar o sintoma às cegas prolonga. ■ 2. Até 50% dos casos são preveníveis; intervenção multicomponente reduz o risco em 40%. ■ 3. Dois eixos: alerta de dia, sono à noite. ■ 4. Fármaco só com risco à segurança ou interrupção de terapia essencial — menor dose, menor tempo. ■ 5. Antipsicóticos são ineficazes e aumentam mortalidade em idosos; benzodiazepínico, só na abstinência. ■ 6. Alarme de leito e acompanhante superam a contenção física. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 45 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 13 — POSOLOGIA Este capítulo pressupõe que a indicação já foi estabelecida no Capítulo 12: risco à segurança do paciente ou de terceiros, ou interrupção de terapia essencial. Nenhum fármaco aqui trata o delirium — todos contêm sintomas enquanto a causa é corrigida. PRINCÍPIO CENTRAL — COMEÇAR BAIXO E IR DEVAGAR; O ALVO É “DESPERTO PORÉM MANEJÁVEL” O desfecho clínico buscado é um paciente desperto, porém manejável — não sedado —, alcançado pelo princípio geriátrico de prescrição start low and go slow. [2] Qualquer fármaco começa na menor dose inicial, pelo menor tempo possível, com reavaliação contínua da necessidade e desmame tão logo seja possível. [2] 13.1 Rol de fármacos: o que revisar antes de prescrever Antes de acrescentar qualquer medicamento, revisa-se o que o paciente já usa. Cerca de um terço dos casos é secundário a fármacos, e essa é a causa mais acionável de todas — retirar costuma valer mais que introduzir. O rol abaixo reúne as classes descritas como causadoras ou prolongadoras do quadro, com o papel que cada uma cumpre; nem toda exposição precisa ser suspensa, mas toda deve ser justificada. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 46 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 13.1 — Rol de fármacos que causam ou prolongam delirium Classe Exemplos Papel no delirium Anticolinérgicos Atropina, escopolamina, difenidramina, biperideno, tri-hexifenidil Reduzem o tônus colinérgico central, mecanismo mais consistentemente implicado na síndrome; risco 5 a 12× [2,4] Sedativo-hipnóticos Benzodiazepínicos, barbitúricos, hipnóticos "Z" Causam delirium na intoxicação e na retirada abrupta; prolongam o quadro já instalado; risco 3 a 12× [1,2,4] Opioides Morfina, meperidinae congêneres Precipitam por sedação e efeito anticolinérgico; a dor não tratada também precipita, o que exige titulação, não suspensão [1,4] Antidepressivos Tricíclicos sobretudo; ISRS e mirtazapina com menor frequência Carga anticolinérgica dos tricíclicos é a principal responsável [1,4] Antiparkinsonianos Levodopa, agonistas dopaminérgicos, amantadina Excesso dopaminérgico relativo, coerente com o mecanismo que fundamenta o uso de antipsicóticos [4] Neurolépticos Fenotiazinas sedativas de primeira geração Paradoxalmente causam ou prolongam delirium por sedação e ação anticolinérgica [4] Anticonvulsivantes Carbamazepina, fenitoína, valproato, levetiracetam, vigabatrina Efeito sedativo e neurotoxicidade dose- dependente; interações relevantes no idoso [4] Corticosteroides Prednisona, dexametasona e equivalentes Alterações agudas de comportamento e cognição, dose-dependentes [4] Cardiovasculares Digitálicos, antiarrítmicos, betabloqueadores, clonidina, diuréticos Classes de uso corrente no idoso; contribuem por efeito central direto e por distúrbio hidreletrolítico [1,4] Antimicrobianos Fluoroquinolonas, macrolídeos, cefalosporinas, aminoglicosídeos, metronidazol, isoniazida, aciclovir, anfotericina B Neurotoxicidade, sobretudo em disfunção renal; concorrem com a própria infecção como precipitante [4] Outros de uso corrente AINEs, hipoglicemiantes, relaxantes musculares, bloqueadores H2, interferona Contribuição individual menor, mas somam- se na polifarmácia — o acréscimo de mais de três fármacos no dia anterior é fator precipitante validado [1,2] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [1], no Hazzard [2] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. Rol orientativo e não exaustivo: a revisão da prescrição precede a introdução de qualquer fármaco. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 47 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 13.2 Arsenal terapêutico: esquema posológico Tabela 13.2 — Arsenal terapêutico: fármacos detalhados neste volume Fármaco Dose Observações Haloperidol 0,5 a 1,0 mg VO, 2 vezes/dia, com dose adicional a cada 4 h se necessário (efeito máximo em 4 a 6 h). 0,5 a 1,0 mg IM: observar 30 a 60 min e repetir se necessário (efeito máximo em 20 a 40 min) [4] É o antipsicótico mais utilizado, e os de segunda geração não se mostraram superiores a ele; permanece terapia de primeira linha no delirium com agitação do paciente terminal. Dose máxima 3 a 5 mg/dia; manutenção com metade da dose inicial, fracionada. Efeitos extrapiramidais potenciais com dose acima de 3 mg. Evitar a via intravenosa pela curta duração de ação e indução de arritmias [4] Dose máxima do fármaco: 20 mg/dia [13] Risperidona 0,5 a 1,0 mg VO, 2 vezes/dia [4] Eficácia semelhante e menos efeitos extrapiramidais que o haloperidol; o Hazzard estabelece máximo de 1,5 mg em 24 h [2,4] Dose máxima do fármaco: 6 mg/dia [13] Olanzapina 2,5 a 5,0 mg VO, 1 vez/dia [4] Aumento do intervalo QT; máximo de 10 mg em 24 h [2,4] Dose máxima do fármaco: 20 mg/dia [13] Quetiapina 12,5 a 25 mg VO, 2 vezes/dia [4] Pode aumentar o risco de AVE em pacientes com demência. As fontes divergem no limite: o Tratado descreve 12,5 a 50 mg/dia; o Hazzard estabelece máximo de 25 mg em 24 h [2,4] Dose máxima do fármaco: 300 mg/dia [13] Lorazepam 0,5 a 1,0 mg VO; pode-se repetir a cada 4 h [4] Somente na abstinência de álcool ou de benzodiazepínico. Havendo crise epiléptica ativa ou estado de mal, trata-se a crise conforme protocolo próprio. Sonolência [2,4] Trazodona 25 a 150 mg VO à noite [4] Antagonista do receptor 5-HT. Sonolência. Testada apenas em estudos não controlados [4] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir do Quadro 27.5 do Tratado de geriatria e gerontologia [4], com o Hazzard [2]. VO: via oral; IM: via intramuscular. Quando as medidas não farmacológicas são insuficientes e a agitação representa risco relevante, considera-se o uso sintomático e breve de antipsicótico — que não trata a causa nem encurta necessariamente o quadro. Entre os fármacos, o haloperidol é a opção tradicional entre os fármacos, por baixo custo e disponibilidade oral e parenteral; a via oral é preferida por farmacocinética favorável. Quando o tratamento farmacológico sintomático for necessário, a via oral deve ser preferida quando for viável e segura, considerando o estado clínico e o agente utilizado; os atípicos geram efeitos extrapiramidais com menos frequência. Quanto à eficácia terapêutica, não há diferença entre os fármacos. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 48 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos DIVERGÊNCIA ENTRE FONTES — A DOSE INICIAL DO HALOPERIDOL O Tratado de geriatria e gerontologia indica início com 0,5 a 1,0 mg, máximo de 3 a 5 mg/dia. [4] O Hazzard recomenda início com 0,25 mg, VO ou parenteral, repetível a cada 30 minutos após rechecagem dos sinais vitais, com dose total de carga não superior a 2,5 mg no idoso sem exposição prévia a antipsicótico; a manutenção é metade da dose de carga, fracionada nas 24 h seguintes, com desmame ao longo das 48 h subsequentes conforme a agitação cede. [2] ■ Neste LIDE, o esquema do Tratado é a referência nacional e o do Hazzard é a referência conservadora. Em paciente virgem de antipsicótico, muito idoso ou frágil, o esquema mais baixo é o mais defensável. 13.3 Contraindicações e cuidados de via Evitar antipsicóticos na doença de Parkinson e na demência com corpos de Lewy. [2] Advertências oficiais foram emitidas quanto ao aumento de mortalidade associado ao uso de haloperidol e de antipsicóticos atípicos em pacientes com demência. [2] Quanto à via: a intravenosa deve ser reservada a ambiente monitorizado, pelo risco de torsades de pointes e morte súbita. A administração parenteral é necessária quando se requer início rápido de ação com curta duração; as vias oral e intramuscular associam-se a duração de ação mais adequada. [2] 13.4 Situações particulares Abstinência. No delirium secundário à abstinência de álcool ou de benzodiazepínicos, o tratamento é feito com benzodiazepínico, com preferência pelo lorazepam, por sua meia-vida curta e menor quantidade de metabólitos ativos. [4] Os benzodiazepínicos não constituem tratamento geral do delirium: são indicados nas síndromes de abstinência de álcool ou de benzodiazepínicos. Havendo crise epiléptica ativa ou estado de mal, o tratamento se dirige à crise conforme protocolo específico — não se caracteriza o benzodiazepínico como tratamento de um “delirium pós-crise”. [2] O Whitebook acrescenta duas situações em que o benzodiazepínico de meia-vida curta pode ser opção: insuficiência cardíaca grave e doença de Parkinson. [13] Forma hipoativa. Existem poucos estudos sobre fármacos na forma hipoativa. Foram citados psicoestimulantes como cafeína e metilfenidato, além de haloperidol, olanzapina e aripiprazol, porém sem resultados consistentes que sustentem a indicação. [4] Terapia intensiva. Ensaios com dexmedetomidina em pacientes ventilados encontraram redução da duração do delirium e do tempo de internação em UTI, além de melhor efetividade e segurança em pacientes resistentes ao haloperidol. [2] A clonidina mostrou-se segura, sem efeito detectado sobre o delirium. [2] INDICAÇÃO CONFIRMADA ↓ MENOR DOSE INICIAL, VIA ORAL OU IM ↓ REAVALIAR SINAIS VITAIS E RESPOSTA ↓ ALVO: DESPERTO PORÉM MANEJÁVEL ↓ MANUTENÇÃO COM METADE DA DOSE, FRACIONADA ↓ DESMAME ASSIM QUE A AGITAÇÃO CEDER | A prescrição tem começo, meio e fim programados. O plano de retirada faz parte da prescrição inicial, não é decisão posterior. [2,4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 49 Livro IntegradoDigital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 14 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO Por muito tempo o delirium foi tido como condição reversível e transitória. As evidências acumuladas colocam isso em questão. [2] Este capítulo reúne o que acontece durante a internação, o que acontece depois da alta e o que resta ao paciente. PRINCÍPIO CENTRAL — O DELIRIUM É DETERMINANTE INDEPENDENTE DE DESFECHO Não é apenas marcador da gravidade da doença de base: é determinante independente de internação prolongada, aumento de mortalidade, maior taxa de institucionalização e declínio funcional e cognitivo. [2] E funciona como marcador crítico de risco, identificando o paciente com alta probabilidade de desfecho desfavorável. [2] 14.1 Complicações durante a internação Nos pacientes hospitalizados, a ocorrência de delirium associa-se a maior tempo de internação e a complicações como quedas, úlceras de pressão, incontinência urinária e prejuízo funcional. [4] No cuidado pós-agudo, os pacientes que chegam com delirium experimentam mais complicações, incluindo quedas, taxas mais altas de reinternação e maior mortalidade. [2] 14.2 Mortalidade Tabela 14.1 — Mortalidade associada ao delirium por cenário Cenário Achado Internação hospitalar Taxas de mortalidade hospitalar de 25 a 33% em algumas séries de pacientes hospitalizados de alto risco, com magnitude que varia conforme idade, comorbidades, gravidade e cenário assistencial [3] Unidade de terapia intensiva Risco quatro vezes maior de mortalidade intra-hospitalar e seis vezes maior em seis meses [2] Serviço de emergência Risco sete vezes maior de mortalidade em seis meses [2] Delirium persistente Associado a mortalidade mais alta [2] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [3] e no Hazzard [2]. O aumento da mortalidade hospitalar relaciona-se principalmente à gravidade da doença de base, ao déficit cognitivo prévio e à idade avançada. [4] Após a alta, estudos de seguimento mostram maior taxa de hospitalização, de institucionalização, piora da função cognitiva e maior mortalidade. [4] 14.3 Persistência Os sintomas de delirium podem persistir por semanas ou meses em idosos frágeis e no cuidado pós-agudo, enquanto outros pacientes apresentam resolução mais rápida; as proporções descritas na literatura devem ser interpretadas conforme a população e o cenário estudados, e apenas cerca de 20% dos pacientes alcançam resolução completa dos sintomas no seguimento de seis meses. [2] Alguns episódios prolongam-se por semanas a meses, e a persistência em alguns pacientes, bem como sua alta taxa de recorrência, podem advir do tratamento inadequado da etiologia subjacente. [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 50 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Figura 14.1 — Persistência e recuperação funcional no cuidado pós-agudo Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [2] 14.4 Desfecho cognitivo de longo prazo A função cognitiva é afetada por até um ano após o episódio, e os pacientes que desenvolvem delirium têm risco aumentado de desenvolver demência. [2] Os efeitos crônicos deletérios provavelmente relacionam-se à duração, à gravidade e à causa subjacente do delirium, além da vulnerabilidade basal do paciente. [2] O Harrison acrescenta a leitura mecanicista: em algumas situações o delirium parece causar dano neuronal permanente e declínio cognitivo de longo prazo — razão pela qual é importante implementar estratégias preventivas. [1] A contribuição do delirium para o comprometimento cognitivo permanente ou para a demência é área de pesquisa ativa. [2] ARMADILHA CONCEITUAL — “REVERSÍVEL” NÃO SIGNIFICA “SEM CONSEQUÊNCIA” A reversibilidade do delirium é enfatizada porque muitas etiologias — infecções sistêmicas, efeitos de medicamentos — são facilmente tratáveis. [1] Isso descreve o potencial de resolução, não o desfecho habitual: apenas cerca de 20% resolvem completamente em seis meses, [2] e a função cognitiva permanece afetada por até um ano. [2] 14.5 O que resta ao paciente Mesmo quando o episódio se resolve completamente, pode haver efeitos persistentes. A recordação do paciente sobre os eventos varia muito — desde a amnésia completa até repetições da experiência assustadora do período de confusão, semelhante ao que se observa em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático. [1] SÍNTESE DO CAPÍTULO 14 — 1. O delirium é determinante independente de desfecho, não apenas marcador de gravidade. ■ 2. Mortalidade hospitalar de 25 a 33%; risco 4× na UTI e 7× em seis meses após a emergência. ■ 3. Os sintomas persistem em geral por um mês ou mais; só cerca de 20% resolvem completamente em seis meses. ■ 4. Resolução em até duas semanas foi o divisor da recuperação funcional no cuidado pós-agudo. ■ 5. A cognição permanece afetada por até um ano, com risco aumentado de demência. ■ 6. Pode restar amnésia completa ou revivência da experiência, semelhante ao estresse pós- traumático. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 51 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos FICHA-RESUMO — DELIRIUM E TRANSTORNOS NEUROCOGNITIVOS AGUDOS Condensa o volume na ordem dos capítulos, em quadros, tabelas e fluxos. Não acrescenta informação nova: serve à revisão rápida e a localizar onde cada assunto está desenvolvido. 1. Definição (Definição) Figura F.1 — Definição operacional — a sequência que fecha o diagnóstico Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica. Reproduz a Figura 0.2. Pressupõe paciente avaliável — coma não é delirium. [1-4] Desatenção é cardinal. Instalação em horas a dias, contra semanas a meses da demência — exige conhecer o basal. Flutuação em 24 h com intervalos lúcidos. Delirium ≠ delírio: um é a síndrome, o outro é a ideia delirante. [5] Delirium tremens é forma etiológica da abstinência alcoólica. [1] Governa o volume a definição ampla, que inclui a forma hipoativa. 2. Anatomia e fisiologia (Capítulo 1) Estrutura Função normal Área facilitadora bulborreticular Força motriz da ativação; via colinérgica rápida (ms) e via lenta pelos núcleos intralaminares, que define o nível basal de excitabilidade [7] Sistema talamocortical Córtex e tálamo como unidade; a excitação talâmica é necessária para quase toda atividade cortical [7] POVL e núcleo pré-óptico mediano Iniciação do sono por inibição GABAérgica dos centros de vigília [9] Núcleo supraquiasmático Relógio mestre de 24 h pela alça CLOCK/BMAL1–PER/CRY, arrastada pela luz [7] Rede atencional Tronco, tálamo, pré-frontal e parietal — distribuída, não focal [10] ESTÍMULO SENSORIAL ↓ ÁREA RETICULAR EXCITATÓRIA ↓ NÚCLEOS INTRALAMINARES DO TÁLAMO ↓ CÓRTEX → RETROALIMENTAÇÃO POSITIVA → VIGÍLIA AUTOSSUSTENTADA | Sono é inibição ativa (rafe, serotonina, pré-óptico), não fadiga passiva. EEG mede sincronia: alfa depende do circuito talamocortical, delta persiste sem ele. [7] A BASE É CELULAR Neurônio — pericário, dendritos e axônio; unidade de recepção, integração e transmissão. Glia — oligodendrócito mieliniza, astrócito mantém a homeostase, micróglia vigia, ependimária reveste o sistema ventricular. Sinapse química — potencial de ação, liberação do neurotransmissor, ligação ao receptor pós-sináptico, efeito excitatório ou inibitório conforme o circuito. A função encefálica é de rede: alterar um grupo neuronal altera circuitos inteiros. [7,8] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 52 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 3. Epidemiologia (Capítulo 2) Cenário Frequência Cenário Frequência Comunidade 1–2% [4] UTI 16–82%; até 87% em ventilados [2,4] Emergência 8–27%; até 40% [2,4] Pós-agudo e ILPI até 48% [2] Admissão hospitalar 7–80% [2] Fim de vida até 83%[2] Delirium incidente 8–82% [2] Mortalidade hospitalar 25–33% [3] OS DOIS NÚMEROS QUE MUDAM A CONDUTA 70 a 85% dos casos não são reconhecidos; na emergência, a forma hipoativa escapa em até 76%. [2,4] ■ Até 50% são preveníveis. [2] 4. Etiologia (Capítulo 3) Eixo Conteúdo Topográfico Supratentorial · intratentorial · disfunções difusas — a terceira domina a casuística; lesão focal é rara (parietal direita, talâmica dorsal medial) [6,10] Mais frequentes Infecções (pneumonia, ITU); hipóxia cardiovascular, cerebrovascular ou pulmonar; distúrbios metabólicos [4] Fármacos Cerca de um terço dos casos; anticolinérgicos e sedativos lideram; tricíclicos, antiparkinsonianos, neurolépticos, hipnóticos (uso ou abstinência) [1,4] Outros Perioperatório; deficiência de tiamina; no jovem, drogas ilícitas e toxinas [1,4] 5. Fatores de risco (Capítulo 4) ALTA VULNERABILIDADE + INSULTO MÍNIMO → DELIRIUM BAIXA VULNERABILIDADE +⟷ MÚLTIPLOS INSULTOS → DELIRIUM | Eixos intercambiáveis; efeito cumulativo — corrigir um fator isolado raramente basta. [2] Predisponentes Precipitantes Demência ou déficit cognitivo prévio — risco 2–5×, presente em até dois terços dos casos [2] Psicoativos 4×; dois ou mais 5×; anticolinérgicos 5–12×; sedativo-hipnóticos 3–12× [2] Delirium prévio; idade acima de 70; doença grave e multimorbidade [2] Cateter vesical; contenção física; imobilização; desidratação e desnutrição [1,2] Déficits sensoriais; depressão; álcool; AVE prévio [1,2,4] Infecção; distúrbio metabólico; cirurgia; UTI acima de 10 dias; evento iatrogênico [2] Modelo preditivo à admissão: déficit cognitivo prévio, doença grave (APACHE acima de 16), uremia e déficit sensorial. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 53 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 6. Classificação (Capítulo 5) Subtipo Apresentação Reconhecimento Hipoativo Letargia e lentificação psicomotora [1,2] Mais comum no idoso; menos reconhecido; pior prognóstico [2] Hiperativo Agitação, hipervigilância, alucinações [1,2] Raramente escapa à equipe [2] Misto Alternância no tempo, não simultaneidade [2] Confunde-se com psicose e transtorno do humor [2] Outros eixos: completude — formas subsindromáticas são frequentes (no pós-agudo, 16% completos e 50% parciais) e não são benignas; [2] e duração — agudo × persistente. [1,2] TAMBÉM CONTA COMO CLASSIFICAÇÃO Completude — a forma subsindromática reúne alguns achados sem fechar o quadro completo e, no cuidado pós-agudo, foi mais frequente que o delirium completo. Duração — agudo resolve com a causa; persistente ultrapassa o episódio e muda o prognóstico. [2,4] 7. Fisiopatologia (Capítulo 6) Item Estatuto Disfunção em rede, sem lesão estrutural obrigatória Estabelecido — base da reversibilidade potencial [2] Alentecimento generalizado da atividade alfa cortical Estabelecido — assinatura da desorganização talamocortical [2,10] Via final comum de mecanismos interatuantes Modelo vigente; falta evidência de via única [2] Estressor agudo sobre encéfalo vulnerável Hipótese em favor [2] Deficiência colinérgica Evidência experimental convergente [2,10] Excesso dopaminérgico Hipótese apoiada em resposta a antagonistas — o par “ACh baixa, DA alta” é modelo didático [2,10] Neuroinflamação, hipercortisolismo, barreira hematoencefálica Vias indiretas bem caracterizadas na sepse [2] 8. Manifestações clínicas (Capítulo 7) Categoria Achados Maiores Desatenção · pensamento desorganizado · alteração do nível de consciência [2] Cognitivos Disfunção global; memória falha por desatenção, não por defeito de armazenamento; desorientação temporoespacial; disnomia e disgrafia [1,2,4] Associados Alucinações visuais em 40–75% (não são critério); delírios paranoides; alteração psicomotora; labilidade; ruptura do ciclo sono-vigília; manifestações autonômicas [1,4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 54 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Figura F.2 — O curso ao longo das 24 horas Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica. Reproduz a Figura 7.1. Pródromos no idoso: concentração, irritabilidade, insônia, pesadelos. [4,5] 9. Red flags (Capítulo 8) Red flag Preocupação Febre com meningismo Infecção do SNC [1] Déficit neurológico focal novo Lesão estrutural [1] Asterixe ou mioclonia multifocal Etiologia tóxico-metabólica [1] Abstinência de álcool ou benzodiazepínico Delirium tremens — cogitar em todos os casos [1] Quadro sem causa com flutuação extrema Estado de mal epiléptico não convulsivo [1] Paciente quieto e letárgico Delirium hipoativo não reconhecido [2] Ausência dos sinais clássicos no idoso Infecção, insuficiência respiratória e evento coronariano ocultos [2,3] Antes de investigar: medidas correm em paralelo à anamnese — ventilação, acesso venoso, correção da glicemia e tiamina 100 mg quando houver risco de Wernicke. [6] 10. Diagnóstico (Capítulo 9) BASAL COGNITIVO COM INFORMANTE ↓ CRÔNICO (MESES A ANOS) → DEMÊNCIA ■ AGUDO (DIAS A SEMANAS), MESMO SOBRE DEMÊNCIA → AVALIAÇÃO FORMAL ↓ SEM CARACTERÍSTICAS → DEPRESSÃO, PSICOSE AGUDA NÃO ORGÂNICA | Duas etapas: diagnóstico sindrômico e determinação da etiologia. [3,4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 55 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Instrumento Conteúdo e desempenho DSM-5 Atenção e consciência · instalação aguda e flutuante · cognição adicional · delimitação frente a demência e coma · organicidade. Critérios de consenso, sem sensibilidade e especificidade relatadas [2,3] CAM Critérios 1 e 2 + 3 ou 4: início agudo e curso flutuante, desatenção, e pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência. Sensibilidade 94–100%, especificidade 90–95%; versão em português validada [2,4] Teste de atenção Séries de dígitos: saudável repete 5 a 7; 4 ou menos indica déficit; muitos com delirium repetem 3 ou menos. O MEEM não diagnostica delirium [1] DELIRIUM SOBREPOSTO À DEMÊNCIA Pelo menos dois terços dos casos ocorrem em paciente com demência coexistente. A pergunta correta nunca é “é delirium ou demência?”, e sim “há delirium sobre esta demência?”. O que decide é a mudança em relação ao basal, não o desempenho absoluto no teste. [1,3] 11. Exames complementares (Capítulo 10) Etapa Exames Para todos Hemograma; eletrólitos com cálcio, magnésio e fósforo; função hepática e renal [1] Orientada pelos dados Infecção (urina, radiografia, hemoculturas); ECG; gasometria; toxicológico — logo de início no jovem; imagem quando houver indicação clínica específica; punção lombar na suspeita de neuroinfecção; EEG na suspeita de crise [1] Secundária Vitaminas; TSH e T4 livre; cortisol; amônia; VHS; sorologias autoimunes e infecciosas [1] REGRAS DE DECISÃO Se a causa foi identificada na avaliação inicial, exames adicionais podem ser dispensáveis. [1] ■ Imagem é frequentemente inútil; a TC identifica massa e hemorragia mas pouco esclarece a etiologia — a ressonância é preferível. [1] ■ O EEG pode demonstrar disfunção difusa, tipicamente por lentificação — achado inespecífico; não encefalopatia difusa; não diagnostica delirium. [1,10] NEUROIMAGEM E EEG — QUANDO DE FATO ENTRAM Imagem: sinal focal novo, trauma, rebaixamento desproporcional ou investigação inicial sem causa; ressonância preferível à tomografia. EEG: suspeita de estado de mal não convulsivo, ou dúvida entre causa orgânica e quadro psiquiátrico primário. Punção lombar: suspeita de neuroinfecção, após imagem. [1] 12. Diagnóstico diferencial (Capítulo 11) Característica Delirium Demência Depressão / psicose Início Súbito [1,4] Insidioso [2,3] Depressão: recente. Psicose: súbito [4] Curso em 24 h Flutuante, pior à noite [4,5] Estável [4] Depressão: pior pela manhã [4] Consciência Reduzida [4,5] Clara [4] Clara [4] Atenção Globalmentedesordenada [1,4] Normal, salvo casos graves [4] Depressão: prejuízo mínimo [4] Alucinações Visuais [4] Ausentes, salvo casos graves [4] Psicose: auditivas [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 56 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Dois terços dos casos ocorrem sobre demência — a pergunta é “sobre”, não “ou”. [1] Demência com corpos de Lewy imita o delirium hiperativo. [1] Mutismo acinético, abulia, catatonia e encarceramento simulam rebaixamento sem sê-lo. [8] 13. Tratamento (Capítulo 12) Figura F.3 — Sequência obrigatória do tratamento Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica. Reproduz a Figura 12.1. Combater o sintoma às cegas prolonga a confusão e mascara informação diagnóstica. [1] Eixo Medidas Dia — alerta Reorientação repetida; relógio, calendário, janela e objetos pessoais; óculos e aparelho auditivo; quarto iluminado; atividade programada; visitas sem rodízio de acompanhantes [1,4] Noite — sono Silêncio e penumbra; mínimas interrupções da equipe; roupa e objetos de casa; vigilância do ciclo sono-vigília [1,4] Prevenção Intervenção multicomponente reduz o risco em 40%; consultoria geriátrica proativa reduz 40% após fratura de quadril; até 50% dos casos são preveníveis [2] Segurança Alarme de leito e acompanhante superam a contenção física; evitar contenção química [1,4] O QUE NÃO FUNCIONA Antipsicóticos são ineficazes no tratamento do delirium e associam-se a aumento de mortalidade em idosos. [1] ■ Benzodiazepínicos pioram a confusão, exceto na abstinência. [1] ■ Nenhum fármaco mostrou-se definitivamente efetivo na prevenção. [1] PREVENÇÃO É INTERVENÇÃO MULTICOMPONENTE Programas do tipo HELP agem sobre vários fatores modificáveis ao mesmo tempo — orientação, mobilização precoce, correção de déficit visual e auditivo, sono, hidratação e nutrição. Nenhuma medida isolada resolve; o efeito vem da soma. Revisar a prescrição integra a prevenção, não a farmacoterapia. [2] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 57 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 14. Posologia (Capítulo 13) Fármaco Dose Limite e cuidado Haloperidol 0,5–1,0 mg VO 2×/dia, adicional a cada 4 h; 0,5–1,0 mg IM com reavaliação em 30–60 min [4] Máx. 3–5 mg/dia; extrapiramidais acima de 3 mg; evitar IV [4] Risperidona 0,5–1,0 mg VO 2×/dia [4] Teto geriátrico 1,5 mg/24 h (Hazzard); máximo do fármaco 6 mg/dia [2] Olanzapina 2,5–5,0 mg VO 1×/dia [4] Teto geriátrico 10 mg/24 h; máximo do fármaco 20 mg/dia; prolonga QT [2,4] Quetiapina 12,5–25 mg VO 2×/dia [4] Teto geriátrico: Tratado 12,5 a 50 mg/dia, Hazzard 25 mg/24 h; máximo do fármaco 300 mg/dia. Risco de AVE na demência [2,4] Lorazepam 0,5–1,0 mg VO, repetível a cada 4 h [4] Apenas na abstinência de álcool ou de benzodiazepínico; na crise ativa, trata-se a crise [2,4] REGRAS DA PRESCRIÇÃO Alvo: desperto porém manejável; start low and go slow; menor dose, menor tempo, com desmame programado desde a prescrição. [2] ■ Evitar na doença de Parkinson e na demência com corpos de Lewy; haloperidol e demais típicos de alta potência contraindicados na demência com corpos de Lewy. [2] ■ Forma hipoativa: sem evidência que sustente indicação farmacológica. [4] O QUE MAIS ENTRA NO ARSENAL Trazodona — antagonista 5-HT, sonolência, testada apenas em estudos não controlados. Dexmedetomidina — agonista α2 usado em sedação de terapia intensiva, sem constituir tratamento etiológico. Melatonina e ramelteon — promissores em estudos pequenos, resultados ainda mistos. [1,2,4] 15. Complicações e prognóstico (Capítulo 14) Desfecho Dado Mortalidade Hospitalar 25–33%; [3] UTI 4× intra-hospitalar e 6× em seis meses; emergência 7× em seis meses [2] Complicações da internação Tempo prolongado; quedas; úlceras de pressão; incontinência urinária; prejuízo funcional [4] Persistência Sintomas em geral por um mês ou mais; apenas cerca de 20% resolvem completamente em seis meses [2] Recuperação funcional No pós-agudo, mais de 50% ainda em delirium após um mês; só quem resolveu em até duas semanas recuperou a função prévia [2] Cognição Afetada por até um ano; risco aumentado de demência [2] Experiência do paciente Da amnésia completa à revivência semelhante ao estresse pós-traumático [1] O QUE MUDA NA VIDA DEPOIS Declínio funcional persistente, maior dependência para atividades básicas e instrumentais, maior risco de institucionalização e redução do convívio social. A alta não encerra o caso: a cognição precisa ser reavaliada depois da resolução, para separar sequela de declínio prévio que o episódio revelou. [2,4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 58 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA Este anexo aplica o conteúdo do volume a um problema clínico. O nome e a idade do paciente foram modificados; sexo, achados e desfecho são reproduzidos sem acréscimo, de modo que as conclusões permanecem as mesmas. Onde o enunciado é omisso, isso é assinalado — a lacuna faz parte do raciocínio. O problema Anselmo, 76 anos, foi levado ao pronto-socorro por mudança aguda do comportamento nas últimas 48 horas. Apresenta confusão mental e desorientação no tempo e no espaço. Está agitado e repete a todo momento que há vários insetos andando em seu braço. É hipertenso, não tem antecedente de transtorno neurocognitivo, faz uso crônico de remédios para dormir, e a acompanhante informa que ele iniciou medicamento para infecção urinária há seis dias. O médico solicita internação para investigação diagnóstica, revisão medicamentosa e plano inicial de manejo. 1. O que o problema pede — e onde o volume responde Os quatro objetivos da atividade, reescritos como perguntas clínicas, e o trecho do volume que sustenta cada resposta: Tabela A.1 — Objetivos do problema e sua localização no volume Pergunta clínica O que se espera concluir Onde está no volume O quadro de Anselmo é agudo ou é a expressão de um declínio cognitivo já instalado? Separar o que se instala em horas a dias, com flutuação, do que se instala em meses a anos, de curso estável Definição; Capítulo 11 — Diagnóstico Diferencial Como essa síndrome se expressa à beira do leito? Reconhecer desatenção, pensamento desorganizado, alteração do nível de consciência e as manifestações comportamentais, incluindo as alucinações Capítulo 7 — Manifestações Clínicas; Capítulo 9 — Diagnóstico O que produziu o quadro, por que este paciente e por qual mecanismo? Percorrer da causa ao mecanismo: etiologia, vulnerabilidade prévia, precipitantes e a via fisiopatológica Capítulo 3 — Etiologia; Capítulo 4 — Fatores de Risco; Capítulo 6 — Fisiopatologia O que resta depois do episódio? Dimensionar o impacto sobre funcionalidade, autonomia e convívio, e o que isso muda no seguimento Capítulo 14 — Complicações e Prognóstico Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no enunciado do problema. 2. O que o caso dá e o que o caso esconde Antes de interpretar, separa-se o que está no enunciado do que precisará ser buscado. A coluna da direita não é preciosismo: cada lacuna corresponde a uma pergunta que muda a conduta. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 59 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela A.2 — Dado do caso e dado ausente Categoria Dado do caso Dado ausente Identificação Sexo masculino; 76 anos — Instalação Mudança aguda de comportamento em 48 horas Hora aproximada do início; houve flutuação ao longo do dia? Cognição Confusão mental; desorientação no tempo e no espaço Atenção testada formalmente; cognição prévia por informante Comportamento Agitação; alucinação visual e tátil (insetos no braço) Ciclo sono-vigília nos últimos dias; inversão noturna Antecedentes Hipertensão; sem transtorno neurocognitivoimportante. [5] Delirium tremens não é sinônimo de delirium — é forma etiológica específica da abstinência alcoólica grave e exemplo clássico do subtipo hiperativo. [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 4 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos NÃO CONFUNDIR — DELIRIUM ≠ DELÍRIO Delirium designa o quadro sindrômico decorrente de alteração do nível de consciência em distúrbio cerebral agudo. Delírio designa a ideia delirante — alteração do juízo de realidade, encontrada principalmente em pacientes psicóticos. Ideias delirantes podem ocorrer dentro de um episódio de delirium, mas os termos designam objetos diferentes: um é a síndrome; o outro é um fenômeno psicopatológico que pode ou não integrá-la. [5,12] 4. Duas tradições de definição — e qual governa este LIDE DIVERGÊNCIA ENTRE FONTES — DEFINIÇÃO AMPLA × DEFINIÇÃO RESTRITA Ampla (clínica e geriátrica): qualquer estado confusional agudo de causa orgânica com desatenção cardinal, independentemente do padrão psicomotor; abrange a forma hipoativa. Harrison [1,, Hazzard [2,, Goldman- Cecil [3], Tratado de Geriatria [4]. ■ Restrita (neurológica clássica): separa “confusão” de “delirium”, reservando o segundo ao estado confusional acrescido de hiperatividade autonômica — alucinações visuais, agitação, taquicardia, sudorese, hipertensão, tremores. [6] ■ Governa este LIDE a definição ampla, por ser a base dos instrumentos em uso, incluindo o CAM, e porque a restrita exclui justamente a forma hipoativa — a menos reconhecida à beira do leito. A restrita é registrada porque explica o uso do termo em textos neurológicos e descreve o que hoje se chama subtipo hiperativo. ALERTA CRÍTICO — O QUE SE PERDE NÃO É UM RÓTULO, É A DOENÇA QUE O PRODUZIU No idoso, a alteração do estado mental funciona como barômetro da saúde subjacente e é, com frequência, a única manifestação de doença grave. [3] Toda mudança aguda do estado mental deve ser tratada como manifestação de doença e levantar suspeita de delirium, sobretudo no idoso hospitalizado. [1-4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 5 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA NORMAL Não é necessário revisar toda a neuroanatomia encefálica para compreender o delirium. É necessário entender quatro funções normais: como o encéfalo mantém a vigília, como distribui a ativação ao córtex, como regula o ciclo sono-vigília e como esse estado se expressa no traçado eletroencefalográfico. A base fisiológica deste capítulo é o Guyton & Hall [7]; os capítulos clínicos de Harrison e do Tratado de geriatria entram apenas onde acrescentam o que a fisiologia não cobre. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Capítulo 12: A Consciência e suas Alterações — Biblioteca da Psicologia Assista em: https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE Este capítulo descreve apenas o funcionamento normal. Como cada um desses sistemas falha é assunto da Fisiopatologia. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — A Consciência e suas Alterações — resumo de Dalgalarrondo Assista em: https://youtu.be/ey64sZ3eGLk 1.1 Vigília e estado de alerta: a base fisiológica da consciência Vigília é o estado em que o encéfalo mantém ativação suficiente para que a pessoa permaneça desperta e responsiva ao ambiente. Não se resume a manter os olhos abertos: depende da ativação coordenada de sistemas neurais que sustentam o estado de alerta e permitem receber, integrar e responder a estímulos externos e internos. O estado de alerta é, portanto, condição para que as funções cognitivas superiores possam se expressar. [8] Essa manutenção depende da interação entre sistemas do tronco encefálico, estruturas diencefálicas — sobretudo o tálamo — e amplas regiões do córtex. Não há um único “centro da consciência”, e sim uma rede funcional distribuída, na qual sistemas ascendentes de ativação modulam o funcionamento cortical. O sistema reticular ativador ascendente participa desse processo ativando estruturas talâmicas e corticais, mas como parte da rede, não como estrutura isolada. [6] [8] Vigília não é sinônimo de conteúdo da consciência. A vigília é o componente do despertar e da ativação encefálica; o conteúdo é a capacidade de perceber, integrar e processar informação sobre si e sobre o ambiente. Estar desperto não garante que as funções cognitivas estejam preservadas — distinção decisiva no delirium, em que há alteração aguda da atenção e da cognição com o paciente aparentemente acordado. [6] Vigília também não é atenção. A atenção é função cognitiva que depende de selecionar, direcionar e sustentar o processamento da informação relevante; exige nível suficiente de alerta, mas não se confunde com ele. Essa relação é retomada adiante neste capítulo. [8] Do ponto de vista fisiológico, o estado mental normal resulta da integração entre os sistemas de ativação, o tálamo, o córtex e as redes de processamento cognitivo. É sobre essa arquitetura que as próximas seções trabalham: primeiro as estruturas que sustentam a vigília, depois como se integram e, por fim, como se relacionam à consciência e à atenção. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 6 https://youtu.be/ey64sZ3eGLk https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE https://youtu.be/ey64sZ3eGLk https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos PRINCÍPIO CENTRAL — A VIGÍLIA DEPENDE DE UMA REDE, NÃO DE UMA VIA ÚNICA A prova é lesional: a excitação talâmica do córtex é necessária para quase toda a atividade cortical, e o dano combinado de tálamo e córtex produz perda funcional muito maior do que o dano cortical isolado — nenhuma das duas estruturas sustenta sozinha o que sustentam juntas. [7] 1.2 Os dois níveis da consciência A distinção nível × conteúdo, introduzida na Definição, tem substrato anatômico distinto. O conteúdo depende das funções corticais dos hemisférios. O nível depende, além dos hemisférios, de estruturas do tronco encefálico sincronizadas pelo sistema reticular ativador ascendente. [6] Guyton descreve o mesmo arranjo em termos funcionais: como praticamente todas as vias sensoriais passam pelo tálamo — com exceção de parte da via olfatória — e como cada área cortical se conecta a uma área talâmica própria em mão dupla, córtex e tálamo operam como unidade conjunta, o sistema talamocortical. [7] 1.3 Base celular da função cerebral: neurônios, glia e sinapses O tecido nervoso é formado por neurônios e por células da glia, que operam de modo integrado para receber, processar, transmitir e modular informação. [7] O neurônio é a célula especializada nessa comunicação. O corpo celular, ou pericário, abriga o núcleo e a maquinaria metabólica; os dendritos recebem a maior parte dos sinais que chegam de outras células; o axônio conduz o sinal a outras regiões ou a células-alvo. Organizados em rede, milhares de neurônios formam circuitos funcionais. [7] A glia não é preenchimento. Os oligodendrócitos produzem a mielina no sistema nervoso central, que torna a condução axonal eficiente; os astrócitos mantêm a homeostase do microambiente em que os neurônios funcionam; a micróglia faz a vigilância do tecido e responde a lesão; as células ependimárias revestem o sistema ventricular. [8] A comunicação entre neurônios se dá sobretudo por sinapses químicas. Quando o potencial de ação alcança o terminal axonal, desencadeia a liberação de neurotransmissor na fenda sináptica; ele se liga a receptores da célula pós-sináptica e altera sua atividade. Conforme o neurotransmissor, o receptor e a organização do circuito, essa influência é predominantemente excitatória ou inibitória. [7] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 7 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudosconhecido Funcionalidade prévia; déficit sensorial; episódio semelhante anterior Medicamentos Uso crônico de indutor do sono; antimicrobiano iniciado há seis dias Quais fármacos, em que doses; houve suspensão abrupta do indutor do sono? Quadro clínico atual — Sinais vitais; exame neurológico; foco infeccioso ativo; hidratação; diurese Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no enunciado do problema. 3. Representação do problema Homem de 76 anos, sem declínio cognitivo conhecido, com alteração aguda do comportamento instalada em 48 horas, desorientação, agitação e alucinações visuais e táteis, em vigência de infecção urinária em tratamento e sob uso crônico de indutor do sono. Vale notar o que essa formulação não afirma. Não afirma que se trata de quadro psiquiátrico primário, não afirma que a infecção é a única causa, e não afirma que não exista demência subjacente — apenas que ela não é conhecida. Cada uma dessas afirmações exigiria dado que o enunciado não fornece. 4. À beira do leito: o que perguntar e em que ordem O diagnóstico é clínico, e a maior parte dele se faz com a acompanhante, não com o paciente. Três perguntas ordenam a anamnese e correspondem, uma a uma, aos eixos da Definição: • “Como ele estava há uma semana?” — estabelece a linha de base cognitiva e funcional. É a pergunta que separa agudo de crônico, e nenhum exame a substitui. • “Isso muda ao longo do dia?” — a flutuação é a assinatura temporal da síndrome. Períodos de lucidez alternados com desorientação sustentam o diagnóstico; deterioração linear e progressiva aponta para outra direção. • “O que mudou nos últimos dias?” — abre a revisão de medicamentos, a busca do foco infeccioso e a pesquisa de retirada abrupta de substâncias. No exame, o alvo é a atenção. Pede-se ao paciente que repita uma sequência de dígitos, recite os meses do ano de trás para frente ou soletre uma palavra ao contrário. A falha nessas tarefas, em quem antes as executava, é o achado central — e é preciso descontar audição, escolaridade e linguagem antes de concluir. O QUE OBSERVAR ENQUANTO SE CONVERSA A avaliação começa antes da primeira pergunta. O paciente sustenta o olhar? Perde o fio da conversa e retoma outro assunto? Está sonolento entre as frases ou inquieto na maca? Reage a algo que não está no quarto? Boa parte do exame cognitivo do delirium é feita por observação, e ela não exige colaboração. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 60 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos 5. Aplicando a escala: o CAM no caso de Anselmo O instrumento não substitui o raciocínio; ele o organiza. O CAM opera com quatro itens, e a regra de combinação é o que costuma ser aplicado errado: os dois primeiros são obrigatórios e somam-se a um — apenas um — dos dois últimos. Tabela A.3 — Os quatro itens do CAM aplicados ao caso Item Como se verifica No caso 1. Início agudo e curso flutuante (obrigatório) Informante: mudança em relação à linha de base e variação ao longo do dia PRESENTE quanto ao início — 48 horas. A flutuação não foi descrita e precisa ser perguntada 2. Desatenção (obrigatório) Dígitos, meses de trás para frente, soletração invertida; observação da conversa PROVÁVEL — a confusão e a desorientação sugerem, mas o item exige teste dirigido 3. Pensamento desorganizado (um dos dois) Discurso incoerente, ideias que não se encadeiam, mudança abrupta de assunto A avaliar — o enunciado descreve conteúdo alterado, não a estrutura do discurso 4. Alteração do nível de consciência (um dos dois) Vigilante, sonolento, letárgico ou estuporoso — qualquer coisa fora de alerta normal PRESENTE — a agitação configura hiperalerta, que também é alteração do nível Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. Com o que o enunciado oferece, o caso já reúne o item 1 e o item 4, e a desatenção é altamente provável. Confirmada formalmente a desatenção, o CAM fecha. Repare que a alucinação não entra em nenhum dos quatro itens: ela chama atenção, mas não é critério diagnóstico — pertence às manifestações associadas. 6. Agudo ou crônico: o diferencial que o problema exige O primeiro objetivo do problema se decide aqui. Três discriminadores bastam para separar as duas famílias, e todos os três favorecem a mesma resposta: • Tempo de instalação. Quarenta e oito horas é território do agudo. A demência se instala em meses a anos, e a mudança que a família percebe costuma ser lenta. • Curso nas 24 horas. Flutuação com períodos de lucidez aponta para o agudo; estabilidade relativa ao longo do dia aponta para o crônico — com a ressalva de que a demência com corpos de Lewy também flutua, e é a exceção que obriga cautela. • Atenção. Comprometida desde o início no quadro agudo; relativamente preservada nas fases iniciais da demência, em que a memória costuma abrir o quadro. Os dois não são mutuamente exclusivos, e essa é a armadilha do caso. Demência é o principal fator predisponente para delirium, e o episódio agudo em idoso frequentemente revela um declínio que ainda não havia sido diagnosticado. O enunciado diz que Anselmo não tem antecedente de transtorno neurocognitivo — o que significa que não há diagnóstico prévio, não que não haja doença. A cognição basal precisa ser reavaliada depois da resolução, e não durante. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 61 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos ARMADILHA DO CASO — A ALUCINAÇÃO NÃO É DELÍRIO Anselmo vê insetos no braço: alucinação visual e tátil, isto é, percepção sem objeto. Delírio é alteração do juízo de realidade, e o nome parecido produz confusão — inclusive no título do problema. Alucinação visual e tátil de instalação aguda em idoso hospitalizado é achado típico de delirium, não de transtorno psiquiátrico primário, e não deve conduzir a um encaminhamento psiquiátrico apressado. 7. Por que este paciente: vulnerabilidade e precipitantes O terceiro objetivo pede o mecanismo, e ele se monta em duas camadas. A vulnerabilidade de base é a idade avançada, à qual se somam, se confirmados, déficits sensoriais e declínio cognitivo não diagnosticado. Sobre esse terreno agem os precipitantes, e o caso oferece pelo menos dois simultâneos: a infecção urinária em curso e o uso crônico de indutor do sono — classe que precipita tanto pelo uso quanto pela retirada abrupta, situação comum na internação, quando o medicamento domiciliar deixa de ser administrado. A soma importa mais que cada parcela. Quanto maior a vulnerabilidade basal, menor o insulto necessário para desencadear o quadro — e aqui há vulnerabilidade alta e insultos múltiplos, o que explica a intensidade da apresentação. No plano fisiopatológico, a via descrita é a convergência de insultos diversos para disfunção das redes que sustentam atenção e vigília, com desequilíbrio de neurotransmissores e participação da resposta inflamatória sistêmica. Não é mecanismo único nem obrigatório: é a via mais bem caracterizada. 8. Exames: o que pedir e por quê Nenhum exame estabelece o diagnóstico, que é clínico. Os exames servem a outra pergunta — qual causa está operando —, e é assim que se justificam: • Rastreio metabólico e infeccioso, para confirmar ou afastar a infecção urinária como precipitante ativo e identificar distúrbios hidreletrolíticos, glicêmicos, renais ou hepáticos que frequentemente coexistem. • Revisão medicamentosa completa, que é procedimento diagnóstico, não formalidade. Levantar nome, dose e horário de todos os fármacos, incluindo os de venda livre, e verificar o que foi introduzido, aumentado ou interrompido nos últimos dias. • Neuroimagem apenas se houver sinal focal, trauma, rebaixamento desproporcional ou ausência de causa após a investigação inicial.Solicitada de rotina, atrasa a conduta e raramente muda o diagnóstico. • Punção lombar e eletroencefalograma em cenários específicos — suspeita de neuroinfecção no primeiro caso, suspeita de estado de mal não convulsivo no segundo. Nenhum dos dois se aplica de partida a este caso. 9. Conduta: o que trata é a causa O plano se organiza em três camadas, nesta ordem. Inverter a ordem é o erro mais comum diante de um paciente agitado. • Corrigir a causa. Tratar a infecção documentada, restaurar hidratação e eletrólitos, controlar dor e retenção urinária, revisar a prescrição. Retirar fármaco costuma valer mais que introduzir — e a revisão da prescrição é, ela própria, intervenção terapêutica. • Medidas não farmacológicas, que são a base do tratamento e da prevenção: reorientação frequente, relógio e calendário visíveis, presença de acompanhante, devolução de óculos e aparelho auditivo, Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 62 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos mobilização precoce, preservação do ciclo sono-vigília com luz de dia e escuridão à noite, hidratação e nutrição adequadas, retirada de dispositivos desnecessários. Nenhuma isolada resolve; o efeito vem da correção simultânea de vários fatores. • Fármaco, apenas se houver agitação grave com risco à segurança do paciente ou de terceiros, ou risco de interrupção de terapia essencial — e após tentativa das medidas anteriores. RESSALVA SOBRE A INDICAÇÃO No caso de Anselmo, a agitação está descrita, mas o enunciado não informa se há risco concreto à segurança. Sem esse dado, a indicação de fármaco não está estabelecida — e é isso que o aluno deve responder. O antipsicótico não trata o delirium nem encurta sua duração: controla sintoma comportamental enquanto a causa é corrigida. Prescrevê-lo para “melhorar o quadro” confunde o alvo. Quanto às classes, sem entrar em posologia: os antipsicóticos são os agentes habitualmente empregados, e seu efeito antagoniza a transmissão dopaminérgica, o que é coerente com o excesso relativo de dopamina descrito entre os mecanismos da síndrome. Os benzodiazepínicos, ao potencializar a transmissão gabaérgica, tendem a agravar a confusão e a prolongar o quadro, e por isso ficam reservados a duas situações — abstinência de álcool ou de benzodiazepínico e delirium associado a crises. Em Anselmo, que usa indutor do sono cronicamente, essa exceção precisa ser ativamente considerada: se houver retirada abrupta, o raciocínio se inverte. A contenção física não é tratamento e é, ela própria, fator precipitante validado. Alarme de leito e acompanhante junto ao paciente resolvem mais e custam menos. 10. O que resta depois O quarto objetivo trata do que sobra quando o episódio termina — e a resposta é que nem sempre ele termina limpo. A recuperação pode ser incompleta, sobretudo no idoso frágil ou com déficit cognitivo prévio, e o episódio associa-se a declínio funcional persistente, maior dependência para atividades básicas e instrumentais, maior risco de institucionalização e maior mortalidade em populações hospitalizadas de alto risco. Traduzido para a vida de Anselmo: pode não voltar a fazer sozinho o que fazia antes, pode precisar de supervisão para medicamentos e finanças, pode reduzir o convívio por insegurança, e a família passa a exercer um cuidado que não exercia. Por isso a alta não encerra o caso — exige reavaliação cognitiva programada após a resolução, para distinguir sequela de declínio pré-existente que o episódio revelou. 11. Raciocínio integrado IDOSO DE 76 ANOS COM MUDANÇA AGUDA DE COMPORTAMENTO EM 48 H ↓ É AGUDO OU CRÔNICO? — linha de base pelo informante; buscar flutuação ↓ A ATENÇÃO ESTÁ COMPROMETIDA? — teste dirigido à beira do leito ↓ CAM: início agudo e flutuação + desatenção + alteração do nível de consciência ↓ DIAGNÓSTICO SINDRÔMICO FECHADO — a pergunta passa a ser a causa ↓ QUAIS PRECIPITANTES? — infecção urinária · fármacos usados ou retirados · desidratação · dor · retenção ↓ CORRIGIR A CAUSA + MEDIDAS NÃO FARMACOLÓGICAS ↓ FÁRMACO SÓ SE HOUVER RISCO CONCRETO ↓ REAVALIAR A COGNIÇÃO APÓS A RESOLUÇÃO O caminho não muda com a gravidade da agitação. O que muda é a urgência de percorrê-lo. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 63 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS Referência rápida de siglas e termos usados no volume. • Abulia — Forma mais leve de mutismo acinético, com lentidão mental e física e capacidade reduzida de iniciar atividades; em geral por lesão dos lobos frontais e suas conexões. [8] • Adenosina — Nucleosídeo que se acumula em neurônios colinérgicos do prosencéfalo basal e sinaliza a necessidade homeostática de sono; a cafeína desperta por antagonizá-la. [9] • Amência — Termo da psiquiatria clássica (Meynert, 1890) para quadros de confusão mental por rebaixamento do nível de consciência; hoje absorvido pela categoria ampla do delirium. [5,12] • Área facilitadora bulborreticular — Região excitatória da substância reticular da ponte e do mesencéfalo; força motriz da atividade encefálica, projeta-se ao córtex via tálamo. [7, • Arquitetura do sono — Organização temporal dos estados do sono ao longo da noite: alternância entre NREM e REM em ciclos, com proporções que variam do início ao fim do período. [8, • Asterixe — Achado motor inespecífico que, no contexto do delirium, geralmente indica etiologia tóxica ou metabólica. [1] • Astrócito — Célula da glia responsável por manter a homeostase do microambiente em que os neurônios funcionam. [8] • Atenção — Capacidade de dirigir, selecionar e sustentar o processamento sobre a informação relevante. Exige nível suficiente de alerta, mas não se confunde com a vigília. [5] • Axônio — Prolongamento do neurônio que conduz o sinal a outras células ou regiões. [7] • CAM — Confusion Assessment Method. Instrumento de nove itens com algoritmo diagnóstico breve e validado; versão em língua portuguesa validada. [2,4] • Catatonia — Síndrome psicomotora com combinações de estupor, mutismo, negativismo, posturas, flexibilidade cérea, agitação, ecolalia e ecopraxia, associada a transtornos psiquiátricos ou a condições médicas; preserva o piscar de ameaça e resiste ativamente à abertura palpebral, sem sinais de lesão cerebral. [8,12] • Conteúdo da consciência — Componente dependente das funções corticais dos hemisférios cerebrais; reconhecimento de si e do ambiente. [6, • Delírio — Ideia delirante — alteração do juízo de realidade, encontrada principalmente em pacientes psicóticos. Não confundir com delirium. [5,12] • Delirium tremens — Forma etiológica específica, ligada à abstinência alcoólica grave; exemplo clássico do subtipo hiperativo, com instabilidade autonômica potencialmente fatal. [1, • Dendrito — Prolongamento do neurônio que recebe a maior parte dos sinais vindos de outras células. [7, • Dexmedetomidina — Agonista α2-adrenérgico usado para sedação em contextos selecionados de terapia intensiva; pode ter vantagem sobre outros sedativos quanto a desfechos relacionados ao delirium em populações específicas, sem constituir tratamento etiológico. [1,2] • Disgrafia — Distúrbio da escrita; junto à disnomia, está entre as alterações de linguagem frequentes no delirium, como parte do comprometimento cognitivo difuso. [4] • Disnomia — Dificuldade em nomear objetos; distúrbio de linguagem frequente no delirium. [2,4] • Encefalopatia — Termo usado historicamente como sinônimo de delirium; designa disfunção cerebral difusa. [1] • Estado confusional agudo — Sinônimo mais utilizado de delirium, ao lado de confusão mental aguda. [4] • Estado de encarceramento (locked-in) — Pseudocoma em que o paciente acordado não produz fala nem movimento voluntário, mas mantém movimentos oculares verticais e elevação palpebral; causa habitual é lesãoda ponte ventral. [8] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 64 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos • Estado onírico (oniroide) — Alteração da consciência com atividade alucinatória visual intensa e cênica; termo clássico hoje absorvido pelo delirium. [5,12] • Fator precipitante — Insulto agudo que contribui para o desenvolvimento do delirium durante a internação. [4] • Fator predisponente — Vulnerabilidade já presente à admissão, que reduz o limiar necessário para o delirium. [2,4] • Glia — Conjunto de células não neuronais do tecido nervoso — oligodendrócito, astrócito, micróglia e célula ependimária — que sustentam e modulam a função neuronal. [7] • HELP — Hospital Elder Life Program. Estratégia interdisciplinar de cuidado hospitalar que incorpora as intervenções de prevenção do delirium. [2] • Inatenção — Redução da capacidade de dirigir, manter ou responder adequadamente ao processamento da informação relevante. [5] • Melatonina — Hormônio da glândula pineal cuja secreção aumenta no período biológico noturno, sob comando do NSQ, e é suprimida pela luz. Sinaliza a noite; não causa o sono. [9] • Micróglia — Célula da glia encarregada da vigilância do tecido nervoso e da resposta a lesão. [8] • Mutismo acinético — Estado parcial ou totalmente vígil no qual o paciente forma impressões e pensa, mas permanece imóvel e mudo; por lesão de núcleos talâmicos mediais, lobos frontais ou hidrocefalia extrema. [8] • Neurônio — Célula especializada na comunicação nervosa, com pericário, dendritos e axônio. [7] • Nível de consciência — Grau de alerta ou vigília; depende dos hemisférios e de estruturas do tronco encefálico sincronizadas pelo sistema reticular ativador ascendente. [6] • NSQ — Núcleo supraquiasmático do hipotálamo; relógio mestre que organiza o ritmo circadiano de 24 horas. [7] • Obnubilação — Turvação da consciência ou sonolência patológica; o paciente é despertado prontamente e responde de forma coerente. [5,6] • Oligodendrócito — Célula da glia que produz mielina no sistema nervoso central, tornando eficiente a condução axonal. [8] • Orexina (hipocretina) — Neuropeptídio hipotalâmico que estabiliza a vigília; seus neurônios são mais ativos durante o estado desperto. [7,9] • Orientação alopsíquica — Capacidade de situar-se quanto a tempo, espaço e situação. [5] • Orientação autopsíquica — Capacidade de situar-se quanto à própria identidade e história pessoal. [5] • Período endógeno — Tempo que o relógio biológico leva para completar um ciclo sem sincronizador ambiental; no ser humano, cerca de 24,2 h, com variação entre indivíduos. [9] • POVL — Hipotálamo pré-óptico ventrolateral; conjunto de neurônios GABAérgicos e galaninérgicos que inicia o sono inibindo os centros de vigília. [9] • Priming microglial — Sensibilização de astrócitos e micróglia pela neurodegeneração, resultando em resposta neuroinflamatória exagerada. [2] • Ritmo alfa — Ritmo de 8 a 13 Hz do EEG do adulto acordado e em repouso; depende da oscilação no sistema talamocortical difuso. [7] • Ritmo circadiano — Ritmo biológico com período aproximado de 24 h, que organiza temporalmente sono- vigília, secreção hormonal e temperatura corporal. [9] • Ritmo delta — Ritmo abaixo de 3,5 Hz, de alta voltagem; ocorre no sono profundo e persiste mesmo sem conexões talamocorticais. [7] • Sinapse — Ponto de comunicação entre neurônios; na sinapse química, o potencial de ação desencadeia liberação de neurotransmissor que altera a atividade da célula pós-sináptica. [7] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 65 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos • Sistema talamocortical — Unidade funcional formada por córtex e tálamo, conectados em mão dupla; a excitação talâmica é necessária para quase toda a atividade cortical. [7] • Sono NREM — Sono sem movimentos oculares rápidos (non-rapid eye movement); conjunto de estágios com profundidade progressiva, cujos estágios profundos correspondem ao sono de ondas lentas. [8] • Sono REM — Sono com movimentos oculares rápidos (rapid eye movement); cursa com atividade encefálica intensa e atonia muscular, o que lhe valeu o nome de sono paradoxal. [8] • SRAA — Sistema reticular ativador ascendente; rede de núcleos e tratos do tronco encefálico que mantém a vigília por projeção difusa ao córtex via núcleos talâmicos. [6] • Subsindromático — Forma parcial do delirium, que não preenche todos os critérios; frequente e associada a piores desfechos de longo prazo. [2] • Torpor (estupor) — Despertar apenas mediante estimulação vigorosa, com respostas lentas, inconsistentes e inadequadas. [5,6] • Via final comum — Modelo segundo o qual mecanismos patogênicos distintos, porém interatuantes, convergem para disfunção de múltiplas regiões e sistemas, culminando na ruptura de redes de larga escala. [2] • Vigília — Estado de estar desperto, com encéfalo ativo e responsivo ao ambiente; sustentado pela interação entre os sistemas ascendentes de ativação, o tálamo e as redes corticais. É condição para avaliar atenção e cognição — por isso o coma não é delirium. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 66 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos MAPA DE REVISÃO Revisão de 2 a 3 minutos, organizada na ordem do raciocínio clínico — não na ordem dos capítulos. Doze perguntas, uma resposta curta cada. O desenvolvimento está nos capítulos e na Ficha-Resumo. 1. O que é? · Definição Síndrome aguda com desatenção e alteração da consciência, comprometimento cognitivo adicional, curso flutuante e causa orgânica. Os quatro eixos são cumulativos. Pressupõe paciente avaliável — coma não é delirium. Delirium é a síndrome; delírio é a ideia delirante. 2. Por que acontece? · Capítulo 1 A vigília é imposta ao córtex pela área reticular excitatória via tálamo, e a atenção é rede distribuída — tronco, tálamo, pré-frontal, parietal. Qualquer agressão difusa desorganiza essa rede. Não há um centro único a lesar. 3. Quem adoece? · Capítulo 4 Risco = vulnerabilidade basal × insulto agudo, eixos intercambiáveis. Demência e déficit cognitivo prévio são o predisponente mais forte (2–5×). O efeito é cumulativo: corrigir um fator isolado raramente basta. 4. O que desencadeia? · Capítulo 3 Infecções (pneumonia, ITU), hipóxia e distúrbios metabólicos. Fármacos respondem por cerca de um terço dos casos — anticolinérgicos e sedativos à frente. Lesão focal como causa é rara. 5. Como se apresenta? · Capítulo 7 Três achados maiores: desatenção, pensamento desorganizado e alteração do nível de consciência. A memória falha por desatenção. Alucinações visuais em 40 a 75%, mas não são critério. 6. Quantos tipos existem? · Capítulo 5 Hipoativo, hiperativo e misto — apresentações da mesma síndrome, e o paciente transita entre elas. Misto é alternância no tempo, não simultaneidade. Formas subsindromáticas são frequentes e não benignas. 7. Qual o subtipo que mais escapa? · Capítulo 5 O hipoativo: mais comum no idoso, o menos reconhecido e o de pior prognóstico. A ausência de agitação é red flag, não tranquilizador. 8. Quando é red flag? · Capítulo 8 Febre com meningismo; déficit focal novo; asterixe ou mioclonia; abstinência de álcool ou benzodiazepínico; flutuação extrema sem causa. No idoso, infecção, insuficiência respiratória e evento coronariano podem se apresentar sem os sinais clássicos. 9. Como se diagnostica? · Capítulo 9 Clinicamente, em duas etapas: sindrômica e etiológica. Passo zero é o basal cognitivo com informante. CAM: critérios 1 e 2 mais 3 ou 4. Atenção se testa com séries de dígitos — 4 ou menos indica déficit. O MEEM não diagnostica. 10. Quais exames? · Capítulo 10 Nenhum diagnostica delirium; servem à etiologia. Para todos: hemograma, eletrólitos,função hepática e renal. Se a causa já apareceu na avaliação inicial, exames adicionais podem ser Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 67 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos dispensáveis. A ressonância acrescenta informação quando a investigação estrutural é necessária; o EEG mostra disfunção difusa inespecífica. 11. Como se trata? · Capítulo 12 Tratando a causa. Depois, alerta de dia e sono à noite. Fármaco só com risco à segurança ou interrupção de terapia essencial — e antipsicóticos são ineficazes para tratar o delirium, além de aumentarem mortalidade em idosos. Até 50% dos casos são preveníveis. 12. O que acontece depois? · Capítulo 14 Determinante independente de desfecho. Mortalidade hospitalar de 25 a 33%. Só cerca de 20% resolvem completamente em seis meses, e apenas quem resolveu em até duas semanas recuperou a função prévia. Cognição afetada por até um ano. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 68 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos ANEXO — QUESTÕES Assinale a alternativa correta em cada questão. As cinco questões foram construídas em formato clínico- contextual, com uma única melhor resposta, e exigem integração entre capítulos. O gabarito encontra-se ao final desta seção. Questão 1 Homem de 78 anos, previamente independente, é internado por pneumonia. Nas primeiras 24 horas permanece conversando adequadamente. Após piora do quadro inflamatório e introdução de medicamento com atividade anticolinérgica, passa a perder o encadeamento das perguntas, distrair-se com ruídos do corredor e alternar períodos de sonolência com momentos de inquietação. Durante a noite, afirma ver pequenos animais no quarto. Não apresenta hemiparesia, afasia focal ou sinais meníngeos. Durante discussão do caso, considera-se que o paciente permanece capaz de despertar, mas perdeu a integração estável necessária para sustentar atenção e organizar adequadamente os estímulos ambientais. Qual alternativa correlaciona de modo mais adequado a anatomia funcional, a fisiopatologia e as manifestações clínicas observadas? (A) A falência primária do sistema reticular ativador ascendente reduz difusamente a vigília; a interrupção das projeções do tronco encefálico explica, por si só, desatenção, alucinações e flutuação sem redução importante da responsividade. (B) A inflamação sistêmica e a redução relativa da transmissão colinérgica podem desestabilizar redes talamocorticais e frontoparietais responsáveis pela atenção; a integração cerebral torna-se variável, favorecendo desatenção, flutuação e erros perceptivos. (C) A manifestação fundamental resulta de lesão hipocampal bilateral aguda, que impede a consolidação da memória recente; a perda mnésica produz secundariamente alterações do nível de alerta e alternância psicomotora durante o mesmo dia. (D) A hiperatividade dopaminérgica isolada em vias mesolímbicas é suficiente para explicar a síndrome; as alterações perceptivas demonstram que a vigília e as redes atencionais permanecem funcionalmente preservadas. Questão 2 Mulher de 84 anos, com comprometimento cognitivo leve previamente estável, é internada após fratura de fêmur. No segundo dia pós-operatório, torna-se pouco comunicativa, sonolenta e demora a responder às solicitações. Algumas horas depois conversa de forma relativamente organizada. Durante a noite, fica inquieta, tenta retirar o acesso venoso, afirma estar em sua antiga residência e não consegue dizer os meses do ano em ordem inversa. Na manhã seguinte, a filha informa que nenhuma dessas alterações existia antes da hospitalização. Qual alternativa apresenta simultaneamente a definição sindrômica, a classificação clínica e a interpretação anatomopatológica mais adequada? (A) Trata-se de progressão aguda de transtorno neurocognitivo maior, classificada como demência flutuante; alterações microscópicas específicas das camadas corticais permitem separar esse quadro do delirium. (B) Trata-se de delirium hiperativo, porque a agitação noturna define o subtipo predominante; a sonolência diurna corresponde apenas ao efeito farmacológico e não participa de sua classificação. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 69 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos (C) Trata-se de delirium misto, síndrome neurocognitiva de início agudo e curso flutuante, com desatenção e alteração cognitiva adicional; não existe lesão histológica única ou patognomônica que defina a síndrome. (D) Trata-se de estado crepuscular, pois a alternância entre hipoatividade e agitação representa estreitamento episódico do campo da consciência; a desatenção possui menor valor diagnóstico que a desorientação espacial. Questão 3 Mulher de 81 anos, com diagnóstico prévio de doença de Alzheimer leve, vive com a filha e habitualmente reconhece familiares, alimenta-se sozinha e consegue manter conversas simples, embora apresente dificuldade progressiva de memória recente. É internada após descompensação de insuficiência cardíaca. No terceiro dia de hospitalização, a filha percebe que a paciente “está diferente”: pela manhã permanece excessivamente sonolenta e não acompanha as perguntas; à tarde reconhece a filha e conversa por alguns minutos; durante a noite tenta levantar-se repetidamente, afirma estar em sua antiga casa e vê uma criança que não está no quarto. Ao exame, distrai-se facilmente e não consegue completar a tarefa de dizer os meses do ano em ordem inversa. Qual interpretação melhor diferencia o quadro atual da evolução habitual da doença neurocognitiva prévia? (A) A presença de demência prévia explica suficientemente a desorientação e as alterações perceptivas, pois flutuações importantes do alerta constituem evolução habitual da doença de Alzheimer. (B) O surgimento de alucinação visual indica psicose associada à demência, sendo a alteração da atenção pouco útil porque testes cognitivos já são anormais em pacientes com transtorno neurocognitivo. (C) A mudança em horas a dias, a desatenção nova e a oscilação acentuada do alerta favorecem delirium sobreposto à demência, devendo-se investigar uma ou mais agressões precipitantes. (D) A preservação intermitente do reconhecimento da filha torna delirium improvável, pois a síndrome exige desorientação contínua e comprometimento simultâneo de todas as funções cognitivas. Questão 4 Homem de 63 anos, internado por pancreatite aguda, apresenta alteração progressiva do comportamento no segundo dia de internação. Está desorientado, intensamente agitado, sudoreico, taquicárdico e hipertenso, com tremor grosseiro das mãos. Durante a noite refere ver insetos caminhando pelas paredes. A esposa informa então que ele consome grande quantidade de álcool diariamente há muitos anos e que sua última ingestão ocorreu poucas horas antes da admissão. A equipe discute administrar haloperidol ou benzodiazepínico para controlar o quadro. Qual alternativa relaciona corretamente etiologia, fisiopatologia e tratamento? (A) O quadro representa delirium comum associado à pancreatite; benzodiazepínicos devem ser evitados porque potencializam GABA-A, enquanto antagonismo D₂ constitui tratamento etiológico da síndrome. (B) A interrupção do álcool após exposição crônica pode produzir redução relativa da inibição GABAérgica e hiperexcitabilidade do SNC; nesse contexto, benzodiazepínicos possuem papel terapêutico específico. (C) A presença de alucinações visuais demonstra excesso dopaminérgico como mecanismo principal, tornando o haloperidol preferível independentemente da história de dependência e da hiperatividade autonômica. (D) O tremor e a hipertensão são manifestações inespecíficas do delirium hiperativo; a etiologia não modifica a escolha farmacológica porque todos os subtipos psicomotorescompartilham o mesmo tratamento. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 70 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Questão 5 Homem de 71 anos, em pós-operatório de artroplastia de quadril, apresenta desatenção e curso flutuante desde a manhã. À tarde surge sonolência progressiva, com respostas cada vez mais lentas. A saturação periférica está em 88% em ar ambiente e a pressão arterial sistólica caiu para 84 mmHg. A equipe considera que se trata de delirium pós-operatório esperado e propõe aguardar a evolução com medidas ambientais. Qual conduta o quadro impõe e por quê? (A) Manter apenas as medidas não farmacológicas, porque o delirium pós-operatório é autolimitado e a hipotensão isolada não modifica a prioridade da investigação. (B) Prescrever antipsicótico em dose baixa para conter a flutuação, reservando a avaliação hemodinâmica para o caso de o quadro não melhorar em 24 horas. (C) Aguardar o resultado de neuroimagem antes de qualquer intervenção, já que o rebaixamento progressivo do nível de consciência indica lesão estrutural até prova em contrário. (D) Interromper a espera e agir de imediato: hipoxemia e hipoperfusão são red flags que ameaçam a viabilidade neuronal e, somadas ao rebaixamento progressivo, exigem estabilização antes de qualquer atribuição ao delirium pós-operatório. Gabarito Tabela G.1 — Gabarito e onde revisar cada questão Questão 1 Questão 2 Questão 3 Questão 4 Questão 5 B C C B D Seção 1.10 Seção 6.4 Seção 5.1 Seção 9.2 Seção 11.2 Seção 11.3 Seção 3.2 Seção 13.4 Seção 8.1 Seção 8.3 Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo deste LIDE. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 71 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES Reúne os vídeos indicados ao longo do volume, com o ponto do texto que cada um complementa. Títulos e endereços são clicáveis. 1. Delirium: Clinical Sciences — Osmosis from Elsevier Complementa a Definição. Visão panorâmica em vídeo curto: definição, quadro clínico e principais causas. Assista em: https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo 2. DELIRIUM: Causes, Symptoms, Physiology — Neural Academy Complementa o Capítulo 6. Percorre causas, manifestações e mecanismos propostos em sequência visual, ligando agressão sistêmica a disfunção cerebral difusa. Assista em: https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA 3. Delirium: Estado Confusional Agudo — aula completa SanarFlix Complementa o Capítulo 7. Aula em português, com ênfase no reconhecimento à beira do leito e na diferenciação entre as formas hiperativa, hipoativa e mista. Assista em: https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 4. A Consciência e suas Alterações — resumo de Dalgalarrondo Complementa o Capítulo 1. Resume a organização psicopatológica da consciência adotada por Dalgalarrondo, base conceitual usada para situar o delirium. Assista em: https://youtu.be/ey64sZ3eGLk 5. Psicopatologia — Consciência e Alterações Qualitativas Complementa o Capítulo 11. Detalha as alterações qualitativas da consciência, terreno em que o delirium é mais confundido com quadros psicóticos e dissociativos. Assista em: https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 6. Consciência e suas Alterações | Psicopatologia — PsiqAula Complementa o Capítulo 11. Revisão do conceito de consciência e de seus níveis, útil para consolidar a distinção entre vigília e atenção. Assista em: https://youtu.be/16bd-XPURhA 7. Capítulo 12: A Consciência e suas Alterações — Biblioteca da Psicologia Complementa o Capítulo 1. Leitura comentada do capítulo correspondente do compêndio de psicopatologia; reforça a terminologia empregada no volume. Assista em: https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE 8. Alteração de Consciência: Psicopatologia — FabulosaMente Complementa o Capítulo 11. Síntese objetiva das alterações de consciência, com exemplos clínicos; serve como revisão rápida antes do anexo de questões. Assista em: https://youtu.be/ayw8-mZT7qg 9. Avaliação e Manejo de Delirium — Medicina Interna HCFMUSP Complementa a Definição. Aula em português de serviço universitário de referência, que integra reconhecimento clínico, investigação etiológica e manejo não farmacológico no idoso hospitalizado. Assista em: https://youtu.be/nvV2zbU2EXg Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 72 https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo https://youtu.be/nvV2zbU2EXg https://youtu.be/ayw8-mZT7qg https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE https://youtu.be/16bd-XPURhA https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 https://youtu.be/ey64sZ3eGLk https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA https://youtu.be/nvV2zbU2EXg https://youtu.be/ayw8-mZT7qg https://youtu.be/Bhtj0UcvcHE https://youtu.be/16bd-XPURhA https://youtu.be/-kYSMPHxfJ4 https://youtu.be/ey64sZ3eGLk https://youtu.be/AtzEoPgD7o8 https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA https://youtu.be/qmMYsVaZ0zo Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos REFERÊNCIAS Numeração por ordem de primeira aparição, conforme o estilo Vancouver. A lista é cumulativa e será consolidada ao final do volume. [1] Josephson SA, Miller BL. Confusão e delirium. In: Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Medicina interna de Harrison. 21ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2024. Cap. 27. ► Citada em: Definição, Seção 3.2, Seção 3.3, Seção 4.1, Seção 4.2, Capítulo 5, Seção 5.1, Seção 5.3 e outras. [2] Growdon ME, Mailhot T, Saczynski JS, Fong TG, Inouye SK. Delirium. In: Halter JB, Ouslander JG, Studenski S, High KP, Asthana S, Supiano MA, et al., editores. Hazzard's Geriatric Medicine and Gerontology. 8th ed. New York: McGraw Hill; 2022. Cap. 58. ► Citada em: Definição, Capítulo 2, Seção 2.1, Seção 2.2, Seção 2.3, Seção 2.4, Capítulo 4, Seção 4.1 e outras. [3] Delirium no paciente idoso. In: Goldman L, Schafer AI, editores. Goldman-Cecil Medicina. 26ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2022. Cap. 25. ISBN 978-85-9515-893-1. ► Citada em: Definição, Seção 2.1, Seção 2.3, Capítulo 3, Seção 8.2, Seção 9.1, Seção 9.3, Capítulo 11 e outras. [4] Freitas EV, Py L, editores. Tratado de geriatria e gerontologia. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017. Cap. 27 — Delirium. ► Citada em: Definição, Seção 2.1, Seção 2.2, Seção 2.4, Capítulo 3, Seção 3.2, Seção 3.3, Capítulo 4 e outras. [5] Dalgalarrondo P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2019. Cap. 12 — A consciência e suas alterações. ► Citada em: Definição, Seção 7.3, Seção 11.1, Ficha-Resumo, Glossário. [6] Fukujima MM, Ferraz MEMR. Alterações da consciência. In: Rodrigues MM, Bertolucci PHF, coordenadores. Neurologia para o clínico-geral. Barueri (SP): Manole; 2014. Cap. 14. ISBN 978-85- 204-5224-0. ► Citada em: Definição, Seção 1.2, Seção 3.1, Seção 8.3, Capítulo 10, Seção 11.1, Ficha- Resumo, Glossário. [7] Hall JE, Hall ME. Guyton & Hall: tratado de fisiologia médica. 14ª ed. Rio de Janeiro: GEN/Guanabara Koogan; 2021. Capítulos utilizados: Cap. 58 — Córtex cerebral, funções intelectuais do cérebro, aprendizado e memória; Cap. 59 — Sistema límbico e hipotálamo: mecanismos comportamentais e motivacionais do cérebro; Cap. 60 — Estados da atividade cerebral: sono, ondas cerebrais, epilepsia, psicose e demência. ISBN 978-85-9515-861-0. ► Citada em: Capítulo 1, Seção 1.2, Seção 1.4, Seção 1.5, Seção 1.7, Seção 1.8, Seção 1.9, Seção 6.1 e outras. [8] Coma. In: Hauser SL, organizador; Josephson SA, organizador associado. Neurologia clínica de Harrison. 3ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2015. Cap. 17. ISBN 978-85-8055-463-2. ► Citada em: Seção 1.4, Seção 3.1, Seção 11.4, Ficha-Resumo, Glossário. [9] Czeisler CA, Scammell TE, Saper CB. Distúrbios do sono. In: Hauser SL, organizador; Josephson SA, organizador associado. Neurologia clínica de Harrison. 3ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2015. Cap. 20. ► Citada em: Seção 1.5, Seção 1.8, Ficha-Resumo, Glossário. [10]Josephson SA, Miller BL. Delirium. In: Hauser SL, organizador; Josephson SA, organizador associado. Neurologia clínica de Harrison. 3ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2015. Cap. 16. ► Citada em: Seção 1.10, Seção 3.1, Seção 6.1, Seção 6.4, Seção 6.5, Seção 10.3, Ficha-Resumo. [11] American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5ª ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed; 2023. Delirium. ► Citada em: Seção 9.2. [12] Cheniaux E. Manual de psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021. ► Citada em: Definição, Seção 1.10, Seção 1.11, Seção 7.2, Glossário. [13] Afya. Whitebook: suporte à decisão clínica. Delirium — tratamento farmacológico. São Paulo: Afya; 2026. ► Citada em: Seção 12.3, Seção 13.2, Seção 13.4, Ficha-Resumo. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 73 SUMÁRIO DEFINIÇÃO 1. O que é 2. Definição operacional deste LIDE 3. Terminologia 4. Duas tradições de definição — e qual governa este LIDE CAPÍTULO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA NORMAL 1.1 Vigília e estado de alerta: a base fisiológica da consciência 1.2 Os dois níveis da consciência 1.3 Base celular da função cerebral: neurônios, glia e sinapses 1.4 O sistema reticular ativador ascendente: como o encéfalo sustenta a vigília 1.5 Os quatro sistemas neuro-hormonais da ativação encefálica 1.6 Sono: um estado fisiológico organizado 1.7 O sono é um processo inibitório ativo 1.8 Ritmo circadiano, núcleo supraquiasmático e melatonina 1.9 O correlato eletrofisiológico: as ondas cerebrais 1.10 Atenção: integração entre alerta, seleção e processamento de informações 1.11 Consciência, conteúdo e orientação 1.12 Integração funcional: do estado de vigília à experiência consciente CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA 2.1 Frequência por cenário de cuidado 2.2 Subnotificação: o dado epidemiológico mais importante 2.3 Peso clínico e assistencial 2.4 O que a epidemiologia autoriza a concluir CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA 3.1 Organização topográfica: onde a agressão atua 3.2 As causas mais frequentes na prática 3.3 Fármacos: a causa que se prescreve CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO 4.1 Os dois eixos 4.2 A magnitude de cada fator 4.3 Modelo preditivo à admissão CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO 5.1 Eixo 1 — atividade psicomotora 5.2 Eixo 2 — completude: formas parciais e subsindromáticas 5.3 Eixo 3 — duração: agudo e persistente CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA 6.1 O que está estabelecido 6.2 A hipótese da via final comum 6.3 Estressor agudo sobre encéfalo vulnerável 6.4 Topografia funcional 6.5 Neurotransmissores — o que se sabe e o que se supõe 6.6 Neuroinflamação e resposta ao estresse 6.7 Por que o idoso é mais vulnerável CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 7.1 Os três achados maiores 7.2 Achados associados 7.3 O curso é uma manifestação CAPÍTULO 8 — RED FLAGS 8.1 Red flags da avaliação inicial 8.2 As apresentações que enganam no idoso 8.3 O que se faz antes de investigar CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO 9.1 Passo zero: o estado cognitivo basal 9.2 Critérios diagnósticos 9.3 O Confusion Assessment Method 9.4 Como testar a atenção à beira do leito 9.5 Outros instrumentos CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES 10.1 Avaliação em etapas 10.2 Neuroimagem 10.3 Líquor e eletroencefalograma CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 11.1 O espectro da consciência 11.2 Delirium, demência, depressão e psicose 11.3 As três armadilhas que mais custam 11.4 Quadros que simulam rebaixamento sem sê-lo CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO 12.1 Prevenção primária 12.2 Manejo não farmacológico 12.3 Quando medicar — e o que a evidência mostra 12.4 Segurança sem contenção CAPÍTULO 13 — POSOLOGIA 13.1 Rol de fármacos: o que revisar antes de prescrever 13.2 Arsenal terapêutico: esquema posológico 13.3 Contraindicações e cuidados de via 13.4 Situações particulares CAPÍTULO 14 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO 14.1 Complicações durante a internação 14.2 Mortalidade 14.3 Persistência 14.4 Desfecho cognitivo de longo prazo 14.5 O que resta ao paciente FICHA-RESUMO — DELIRIUM E TRANSTORNOS NEUROCOGNITIVOS AGUDOS 1. Definição (Definição) 2. Anatomia e fisiologia (Capítulo 1) 3. Epidemiologia (Capítulo 2) 4. Etiologia (Capítulo 3) 5. Fatores de risco (Capítulo 4) 6. Classificação (Capítulo 5) 7. Fisiopatologia (Capítulo 6) 8. Manifestações clínicas (Capítulo 7) 9. Red flags (Capítulo 8) 10. Diagnóstico (Capítulo 9) 11. Exames complementares (Capítulo 10) 12. Diagnóstico diferencial (Capítulo 11) 13. Tratamento (Capítulo 12) 14. Posologia (Capítulo 13) 15. Complicações e prognóstico (Capítulo 14) ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA O problema 1. O que o problema pede — e onde o volume responde 2. O que o caso dá e o que o caso esconde 3. Representação do problema 4. À beira do leito: o que perguntar e em que ordem 5. Aplicando a escala: o CAM no caso de Anselmo 6. Agudo ou crônico: o diferencial que o problema exige 7. Por que este paciente: vulnerabilidade e precipitantes 8. Exames: o que pedir e por quê 9. Conduta: o que trata é a causa 10. O que resta depois 11. Raciocínio integrado GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS MAPA DE REVISÃO 1. O que é? · Definição 2. Por que acontece? · Capítulo 1 3. Quem adoece? · Capítulo 4 4. O que desencadeia? · Capítulo 3 5. Como se apresenta? · Capítulo 7 6. Quantos tipos existem? · Capítulo 5 7. Qual o subtipo que mais escapa? · Capítulo 5 8. Quando é red flag? · Capítulo 8 9. Como se diagnostica? · Capítulo 9 10. Quais exames? · Capítulo 10 11. Como se trata? · Capítulo 12 12. O que acontece depois? · Capítulo 14 ANEXO — QUESTÕES Questão 1 Questão 2 Questão 3 Questão 4 Questão 5 ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES REFERÊNCIASTabela 1.1 — Organização celular do tecido nervoso Elemento Função principal Neurônio Recepção, integração e transmissão de informação Dendritos Recepção dos sinais que chegam Pericário Manutenção metabólica e integração celular Axônio Condução do sinal a outras células e regiões Oligodendrócito Mielinização no sistema nervoso central Astrócito Homeostase e suporte do microambiente neural Micróglia Vigilância e resposta do tecido nervoso Célula ependimária Revestimento do sistema ventricular Sinapse Comunicação entre células Neurotransmissor Transmissão química do sinal Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no Guyton & Hall [7] e na Neurologia clínica de Harrison [8]. Daí decorre a característica que governa todo o restante do capítulo: a função encefálica não depende da atividade isolada de uma célula, e sim da atividade coordenada de redes de neurônios, sustentadas e moduladas pela glia. Alterar a atividade de um grupo neuronal pode, por isso, modificar o funcionamento de circuitos inteiros. Os sistemas de ativação do tronco encefálico, do tálamo e do córtex descritos a seguir são exatamente isso: redes celulares cuja atividade coordenada sustenta vigília, atenção, consciência e processamento cognitivo. [7] 1.4 O sistema reticular ativador ascendente: como o encéfalo sustenta a vigília O sistema reticular ativador ascendente (SRAA) é o nome dado ao conjunto de vias e núcleos do tronco encefálico, e de regiões a eles associadas, que sustenta o estado de alerta. Não é uma estrutura anatômica única: é um sistema funcional distribuído, cujas projeções ascendentes alcançam tálamo, hipotálamo, prosencéfalo basal e córtex. [8] Seu núcleo de integração é a formação reticular da ponte e do mesencéfalo — a área facilitadora bulborreticular de Guyton —, que, além dos sinais descendentes para a medula, envia profusão de sinais ascendentes; a maioria chega primeiro ao tálamo, onde excita neurônios que retransmitem para todo o córtex e para múltiplas áreas subcorticais. [7] Da formação reticular partem sistemas de neurotransmissão distintos — colinérgico, noradrenérgico, serotoninérgico, dopaminérgico, histaminérgico —, além do sistema orexina/hipocretina do hipotálamo. Eles não fazem a mesma coisa nem se substituem: cada um modula globalmente a excitabilidade das redes, e é a interação entre eles que regula o nível de ativação, a responsividade e a transição entre estados comportamentais. Não existe um neurotransmissor da vigília — existe um conjunto de sistemas neuromoduladores operando em paralelo, detalhado na seção seguinte. [8] Esses sinais ascendentes são de dois tipos, e a distinção importa clinicamente: Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 8 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 1.2 — Vias ascendentes da área reticular excitatória Via Origem e trajeto Efeito Rápida — colinérgica Grandes corpos celulares da área reticular do tronco; as terminações liberam acetilcolina Excitação de poucos milissegundos, destruída em seguida — ativação fásica [7] Lenta — tônica Numerosos neurônios pequenos; fibras finas de condução lenta que fazem sinapse nos núcleos intralaminares e reticulares do tálamo, com distribuição difusa ao córtex Excitação que se prolonga por segundos a minutos ou mais — define o nível basal de excitabilidade encefálica [7] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Guyton & Hall [7]. A área excitatória é ativada pela periferia. O nível de atividade dessa área — e, portanto, de todo o encéfalo — é determinado em grande parte pelo número e pelo tipo de sinais sensoriais que chegam. Os sinais de dor, em particular, aumentam fortemente essa atividade. A demonstração é experimental: seccionar o tronco encefálico acima da entrada do V nervo craniano faz desaparecer os sinais somatossensoriais mais altos, a atividade da área excitatória cai abruptamente e o encéfalo aproxima-se de um estado de coma permanente; a secção abaixo do trigêmeo não produz esse efeito. [7] Figura 1.1 — Ciclo de ativação da vigília: a retroalimentação positiva Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no Guyton & Hall [7]. Representação esquemática: os sistemas que mantêm a vigília são distribuídos e têm múltiplas conexões recíprocas — o esquema mostra a integração funcional, não uma via anatômica única e linear. Há também uma área reticular inibitória, situada medial e ventralmente no bulbo, capaz de inibir a área facilitadora superior e reduzir a atividade do prosencéfalo — em parte por excitar neurônios Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 9 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos serotoninérgicos. [7] Vigília e sono, portanto, não são a presença e a ausência de um mesmo sistema, mas o resultado do equilíbrio entre dois. Do ponto de vista clínico, a consequência dessa arquitetura difusa e bilateral é que o rebaixamento da consciência decorre, em regra, de três situações: lesão do sistema reticular ativador no mesencéfalo superior ou de suas projeções; destruição de grandes áreas dos hemisférios; ou supressão da função reticulocerebral por fármacos, toxinas ou alterações metabólicas. [8] Essa tríade é a espinha dorsal da Etiologia. Relevância para o delirium: por ser distribuída, essa arquitetura explica por que agressões sistêmicas, metabólicas, farmacológicas ou neurológicas conseguem alterar o nível de ativação e a capacidade de interagir com o ambiente. No delirium, essa alteração vem acompanhada de comprometimento da atenção e de outras funções cognitivas — o como e o porquê são assunto da Fisiopatologia. 1.5 Os quatro sistemas neuro-hormonais da ativação encefálica Além da transmissão nervosa direta, o encéfalo é controlado por neuro-hormônios cuja ação persiste por minutos a horas, fornecendo longos períodos de modulação em vez de ativação instantânea. [7] Guyton descreve quatro sistemas de origem troncoencefálica; os capítulos de sono da Neurologia clínica de Harrison acrescentam os componentes hipotalâmicos e homeostáticos. Tabela 1.3 — Sistemas neuroquímicos que sustentam a vigília e o sono em condições normais Sistema Origem Papel fisiológico Acetilcolina Neurônios gigantocelulares da área reticular excitatória da ponte e do mesencéfalo Excitatório na maioria dos locais; sua ativação produz sistema nervoso abruptamente desperto e excitado [7] Noradrenalina Locus ceruleus, na junção ponte- mesencéfalo; fibras espalham-se por todo o encéfalo Em geral excitatório, com efeitos inibitórios em áreas com receptores inibitórios; participa da geração do sono REM [7] Dopamina Substância negra e regiões adjacentes; projeção para núcleos da base, hipotálamo e sistema límbico Inibitório nos núcleos da base, possivelmente excitatório em outras áreas — distribuição regional, não difusa [7] Serotonina Núcleos da rafe, na linha média da ponte e do bulbo Papel inibitório; associado à produção do sono normal [7] Histamina Hipotálamo posterior Promoção da vigília [9] Orexina (hipocretina) Neurônios do hipotálamo Sinais excitatórios para múltiplas áreas; neurônios mais ativos durante a vigília — estabilização do estado desperto [7,9] GABA e galanina Hipotálamo pré-óptico ventrolateral e núcleo pré-óptico mediano Iniciação do sono por inibição dos múltiplos centros de vigília [9] Adenosina Acúmulo em neurônios colinérgicos do prosencéfalo basal Sinaliza a necessidade homeostática de sono; a cafeína desperta por antagonizá-la [9] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Guyton & Hall [7] e no Harrison — Neurologia clínica [9]. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 10 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos PONTO ESSENCIAL — A VIGÍLIA É REDUNDANTEPOR CONSTRUÇÃO Não existe um único “centro da vigília”. Modelos neuroquímicos simples — serotonina para dormir, catecolaminas para acordar — foram substituídos por formulações que reconhecem múltiplos sistemas de despertar paralelos. [9] Essa redundância explica por que o estado desperto é robusto em condições normais e por que o delirium exige, em geral, mais de um insulto simultâneo. 1.6 Sono: um estado fisiológico organizado O sono é um estado fisiológico normal, reversível e organizado, com alterações coordenadas da atividade cerebral, da responsividade ao ambiente e de várias funções sistêmicas. Não é interrupção da atividade encefálica nem desligamento: durante o sono o encéfalo permanece metabolicamente ativo, operando em outra organização. [8] Sono e vigília são estados distintos e interdependentes. A alternância entre eles resulta da interação entre os mecanismos que determinam quando o organismo tende a dormir ou a permanecer desperto e os que determinam a intensidade e a estabilidade de cada estado. O ciclo sono-vigília não é, portanto, sucessão passiva de dormir e acordar, e sim integração entre circuitos neurais e mecanismos temporais. [8] O sono também não é uniforme. Divide-se em dois estados fisiológicos com características próprias — o sono NREM (non-rapid eye movement, sem movimentos oculares rápidos) e o sono REM (rapid eye movement, com movimentos oculares rápidos) —, que se alternam ao longo da noite. [8] O NREM não é simplesmente “sono profundo”: é um conjunto de estágios, com graus progressivos de profundidade. À medida que avança, a responsividade ao ambiente diminui e surgem padrões eletrofisiológicos característicos, retomados na Seção 1.8. O sono de ondas lentas, que corresponde aos estágios mais profundos do NREM, é o sono reparador, acompanhado de queda de 10 a 30% na pressão arterial, na frequência respiratória e na taxa metabólica basal. [7] O REM tem fisiologia distinta, não apenas profundidade distinta. Cursa com movimentos oculares rápidos, atividade encefálica intensa — o metabolismo cerebral global pode aumentar até 20% — e importante redução do tônus da musculatura esquelética, a atonia muscular, poupando grupos que permanecem funcionalmente ativos. Essa combinação de encéfalo ativo com corpo atônico lhe valeu o nome de sono paradoxal. Ocupa cerca de 25% do tempo de sono no adulto jovem, em episódios de 5 a 30 minutos que reaparecem a cada 90 minutos aproximadamente. [7] NREM e REM não são dois níveis de profundidade do mesmo sono: são estados distintos, com padrões próprios de atividade cerebral, de tônus muscular e de comportamento autonômico. A alternância entre eles forma ciclos, e a proporção de cada estado varia ao longo da noite. Essa organização temporal é a arquitetura do sono. Quando ela se desorganiza, o resultado é fragmentação do ciclo sono-vigília. [8] Isso importa no delirium porque alterações do ciclo sono-vigília e fragmentação do sono acompanham a síndrome com frequência e contribuem para sua expressão clínica — sem que o delirium se reduza a um transtorno do sono. [6] Por fim, sono não é coma. O sono é reversível e organizado, e o indivíduo desperta diante de estímulo adequado; o coma é estado patológico de profunda redução da responsividade e da consciência, do qual não se desperta. A distinção é retomada no Diagnóstico Diferencial. [8] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 11 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos A alternância entre sono e vigília depende, então, de duas coisas que convém separar: os circuitos que produzem cada estado e os mecanismos temporais que organizam quando cada um tende a ocorrer. Os circuitos vêm a seguir; a organização temporal, logo depois, com o sistema circadiano. 1.7 O sono é um processo inibitório ativo Uma teoria antiga sustentava que o sistema reticular ativador simplesmente se fatigava ao longo do dia. Um experimento decisivo mudou esse entendimento: a secção transversal do tronco encefálico no nível da ponte média cria um córtex cerebral que nunca dorme. Existe, portanto, abaixo da região mediopontina, um centro necessário para produzir sono pela inibição ativa de outras partes do encéfalo. [7] A área mais notável para induzir sono quase natural são os núcleos da rafe, na metade inferior da ponte e no bulbo, cujos terminais secretam serotonina; o bloqueio farmacológico da síntese de serotonina impede o animal de dormir por vários dias. O sono também pode ser promovido pela estimulação da porção rostral do hipotálamo, sobretudo na área supraquiasmática. [7] A prova complementar é lesional: lesões discretas dos núcleos da rafe, ou lesões bilaterais da área supraquiasmática rostromedial, produzem vigília intensa — os núcleos reticulares excitatórios são liberados da inibição. [7] CENTROS DO SONO INATIVOS ↓ NÚCLEOS RETICULARES ATIVADORES LIBERADOS DA INIBIÇÃO ↓ EXCITAÇÃO CORTICAL E PERIFÉRICA ↓ RETROALIMENTAÇÃO POSITIVA → VIGÍLIA AUTOSSUSTENTADA ↓ FADIGA PROGRESSIVA DOS NEURÔNIOS ATIVADORES ↓ ENFRAQUECIMENTO DA ALÇA POSITIVA ↓ CENTROS DO SONO ASSUMEM → TRANSIÇÃO RÁPIDA PARA O SONO | Mecanismo proposto para o ciclo vigília-sono. Explica tanto a rapidez das transições em ambos os sentidos quanto a insônia produzida por preocupação mental ou atividade física. [7] 1.8 Ritmo circadiano, núcleo supraquiasmático e melatonina O ciclo sono-vigília não depende só da decisão de dormir ou ficar acordado. O organismo tem um sistema temporal interno que organiza ritmos ao longo de aproximadamente 24 horas: os ritmos circadianos (circa, aproximadamente; dies, dia), que governam não apenas o sono, mas também secreção hormonal, temperatura corporal e outros processos. [9] Esse sistema tem período endógeno — a periodicidade que o próprio organismo mantém sem sinais externos que o sincronizem. No ser humano ele é próximo de 24 horas, mas não idêntico ao dia solar: a literatura adotada neste volume registra cerca de 24,2 horas. É justamente por não coincidir exatamente com o dia que o organismo precisa de sinais ambientais periódicos para se manter alinhado ao ciclo externo. [9] O QUE É PERÍODO ENDÓGENO É o tempo que o relógio biológico leva para completar um ciclo quando não há sincronizador ambiental. O valor de cerca de 24,2 horas é uma estimativa da literatura adotada aqui, não um número universal: varia entre indivíduos. O que importa clinicamente é que, por não ser exatamente 24 horas, o relógio precisa ser reajustado todos os dias pela luz. O núcleo supraquiasmático (NSQ) do hipotálamo, com cerca de 20.000 neurônios situados acima do quiasma óptico, funciona como relógio mestre: sua frequência de disparo segue ritmo circadiano e organiza o sono em um padrão recorrente de 24 horas. Lesões do NSQ causam perda dos ritmos circadianos de sono-vigília. [7] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 12 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos O mecanismo molecular são duas alças de retroalimentação: os ativadores CLOCK e BMAL1 iniciam a transcrição dos genes do relógio (PER1, PER2, PER3) e do criptocromo (CRY1, CRY2); as proteínas PER e CRY acumulam-se, inibem CLOCK e BMAL1 e reprimem a própria transcrição — ciclo liga-desliga de 24 horas. [7] O NSQ é endógeno e autossustentado, mas arrastado por sinais ambientais, sobretudo o ciclo claro-escuro, por aferência direta de células ganglionares intrinsecamente fotossensíveis da retina através do trato retino-hipotalâmico. [7] A luz é, portanto, o principal sincronizador do sistema circadiano humano. O NSQ não é um “centro do sono”. Sua função é organizar temporalmente os ritmos — dizer quando, não produzir o estado. O sono resulta da interação entre esse sistema temporal e os circuitos neurais que geram vigília e sono, descritos nas seções anteriores. [9] O principalsinal do período biológico noturno é a melatonina, produzida pela glândula pineal sob comando do NSQ. Sua secreção aumenta predominantemente à noite e é suprimida pela luz ambiente. [9] Melatonina e sono não são sinônimos. A melatonina sinaliza o período biológico noturno independentemente de o indivíduo estar efetivamente dormindo naquele momento — pode haver secreção com a pessoa acordada, e o sono depende de mecanismos que vão além dela. [9] A organização normal do ciclo sono-vigília resulta, portanto, de dois componentes que convém manter distintos: os mecanismos neurais que produzem e sustentam cada estado, e os mecanismos circadianos que organizam quando cada um tende a ocorrer. [9] Daí a consequência clínica: o ambiente hospitalar tende a apagar justamente os sinais que organizam esse sistema — luz indiferenciada entre dia e noite, interrupções frequentes do sono, perda de referências temporais. Em quem já é vulnerável, isso desorganiza o ciclo sono-vigília. É esse o alicerce fisiológico das medidas ambientais de prevenção — luz e atividade de dia, penumbra e silêncio à noite, reorientação temporal —, desenvolvidas em Tratamento. 1.9 O correlato eletrofisiológico: as ondas cerebrais O eletroencefalograma registra a atividade elétrica contínua do encéfalo, com intensidade entre 0 e 200 microvolts. O caráter das ondas depende do grau de atividade das respectivas porções do córtex e muda acentuadamente entre vigília, sono e coma. [7] Tabela 1.4 — Ritmos do EEG normal Ritmo Frequência Contexto fisiológico Alfa 8 a 13 Hz Adulto saudável acordado, calmo, com atividade cerebral em repouso; máximo na região occipital; cerca de 50 µV; desaparece no sono profundo [7] Beta acima de 14 Hz Atenção dirigida a atividade mental específica; assincrônico, alta frequência e baixa voltagem; regiões parietal e frontal [7] Teta 4 a 7 Hz Normal em crianças, nas regiões parietal e temporal; em adultos, sob estresse emocional [7] Delta abaixo de 3,5 Hz Sono muito profundo e infância; voltagem duas a quatro vezes maior que a dos demais ritmos [7] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Guyton & Hall [7]. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 13 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos PONTO ESSENCIAL — O EEG MEDE SINCRONIA, NÃO INTENSIDADE A descarga de um neurônio isolado nunca é registrável no couro cabeludo. A amplitude das ondas é determinada pelo número de neurônios que disparam em sincronia, não pelo nível total de atividade elétrica: sinais intensos e não sincrônicos anulam-se por polaridades opostas. Por isso abrir os olhos aumenta muito a atividade encefálica e, ainda assim, reduz a voltagem do traçado — o ritmo alfa é substituído por beta de baixa voltagem. [7] A origem dos dois ritmos extremos define uma dissociação anatômica útil. Sem conexões corticotalâmicas, o córtex não apresenta ondas alfa: elas resultam da oscilação de retroalimentação espontânea no sistema talamocortical difuso, possivelmente com participação do sistema reticular ativador. Já a secção das fibras do tálamo para o córtex não bloqueia as ondas delta, o que indica mecanismo de sincronização intracortical, independente das estruturas inferiores. [7] O comportamento do EEG nos estados patológicos é tratado em Exames Complementares. 1.10 Atenção: integração entre alerta, seleção e processamento de informações Atenção é a capacidade de direcionar, selecionar e sustentar o processamento mental sobre a informação relevante, de modo que a pessoa responda adequadamente ao ambiente e ao que se passa nela mesma. Não é a mesma coisa que estar acordado: prestar atenção exige nível suficiente de alerta, mas vigília e atenção são funções relacionadas, não equivalentes. [5] A vigília fornece a condição fisiológica; a atenção decide o que será processado. Daí a situação que define o delirium à beira do leito: o paciente pode estar desperto, de olhos abertos e respondendo ao chamado, e ainda assim não conseguir acompanhar uma conversa ou sustentar uma tarefa simples. [1] Também não há uma estrutura da atenção. Seu substrato é uma rede de larga escala que se distribui pelo tronco encefálico, tálamo, córtex pré-frontal e lobos parietais — razão pela qual distúrbios difusos, corticais e subcorticais, a desorganizam com muito mais frequência do que lesões focais. [10] Três níveis operam em série: a ativação, pela área reticular excitatória, que disponibiliza o córtex; o filtro e a retransmissão, pelo tálamo, que seleciona o que chega ao córtex e sustenta os ritmos talamocorticais; e o controle executivo, pelos córtices pré-frontal e parietal, que focaliza, sustenta e redireciona o foco. Falha em qualquer um dos três produz o mesmo achado à beira do leito: desatenção. Funcionalmente, convém distinguir cinco componentes que se sobrepõem: [5] Alerta — manter nível de ativação suficiente para receber e processar informação. Atenção sustentada — manter o foco sobre a mesma informação ou tarefa ao longo do tempo. Atenção seletiva — priorizar o que é relevante e deixar o resto em segundo plano. Orientação da atenção — dirigir os recursos para um local, estímulo ou fonte específica. Controle da atenção — manter ou mudar o foco conforme a tarefa exige. Esses componentes não são estruturas independentes: são aspectos funcionais de um mesmo sistema distribuído. Inatenção, termo usado adiante no volume, designa a redução da capacidade de dirigir, manter ou responder adequadamente a esse processamento. A atenção condiciona outras funções cognitivas. Para que uma informação seja registrada e depois recuperada, é preciso que tenha sido processada; por isso alteração atencional importante repercute sobre memória, aprendizagem, orientação e desempenho cognitivo em geral. Isso não torna atenção e memória a mesma função. [5] A atenção também se distingue da consciência. A consciência abrange o estado e o conteúdo da experiência mental; a atenção são os mecanismos que selecionam e priorizam dentro desse Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 14 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos processamento. Interagem estreitamente, mas não são sinônimos — e no delirium a alteração atencional vem acompanhada de alterações da consciência, da percepção, da orientação e da memória. [5,12] VIGÍLIA ≠ ATENÇÃO ≠ CONSCIÊNCIA Vigília — estado de alerta e despertar. ■ Atenção — seleção, direcionamento e manutenção do processamento. ■ Consciência — estado e conteúdo da experiência mental. ■ Integração — a vigília dá a condição para a atenção; a atenção organiza o processamento; a consciência integra estado e conteúdo. Por que a atenção é central no delirium: a síndrome compromete justamente a capacidade de dirigir e sustentar o processamento da informação. Na prática, isso aparece como dificuldade de acompanhar uma conversa, manter uma tarefa simples, responder a estímulos sucessivos ou sustentar o foco. Chamá-la de característica cardinal significa que é central e especialmente representativa da síndrome — não que seja produzida por uma única estrutura. [1, A alteração atencional varia em intensidade e flutua ao longo do dia, e é por isso que uma avaliação isolada pode não representar o funcionamento cognitivo do paciente. Essa compreensão sustenta as manifestações clínicas e os instrumentos de avaliação vistos adiante: no diagnóstico, a atenção não se infere pela aparência de vigília — testa-se de forma dirigida. [1, 1.11 Consciência, conteúdo e orientação A Seção 1.2 estabeleceu que a consciência tem dois componentes com substratos distintos. Aqui interessa o que cada um significa na avaliação à beira do leito. [5] O nível de consciência é o grau de alerta e de responsividade. Em condições normais, a pessoa desperta mantém contato adequado com o ambiente e responde de forma proporcional ao estímulo.Quando os sistemas de ativação são progressivamente comprometidos, surgem graus variados de redução da responsividade — obnubilação, torpor, coma —, caracterizados no Diagnóstico Diferencial. [8] O conteúdo da consciência é o conjunto de funções mentais presentes enquanto se está desperto: percepção do ambiente, atenção, orientação, pensamento, memória. Estar acordado não garante conteúdo íntegro — e é exatamente aí que o delirium se instala, com alteração aguda da atenção e da consciência acompanhada de comprometimento cognitivo adicional. [1] A orientação é a capacidade de situar-se em relação a si próprio e ao mundo. A psicopatologia distingue a orientação autopsíquica, referente à própria identidade e à história pessoal, da orientação alopsíquica, referente a tempo, espaço e situação. [5,12] Desorientação, isolada, não define delirium. Ocorre em condições neurológicas e psiquiátricas diversas e só faz sentido dentro do conjunto clínico. No delirium ela costuma acompanhar o comprometimento da atenção e da consciência, não substituí-lo. [5, Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 15 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 1.5 — Quatro perguntas que não se confundem Dimensão Pergunta clínica Como a alteração aparece Vigília O paciente está desperto? Redução do estado de alerta Nível de consciência Quanto responde ao estímulo? Obnubilação, torpor, coma Conteúdo da consciência Como estão as funções mentais durante a vigília? Alterações cognitivas e perceptivas Atenção Consegue dirigir e sustentar o processamento? Distratibilidade, perda do fio da conversa Orientação Consegue situar-se? Desorientação temporal, espacial ou quanto a si Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, síntese didática dos conceitos descritos nesta seção, com base em Dalgalarrondo [5] e na Neurologia clínica de Harrison [8]. POR QUE ISSO É FUNDAMENTAL NO DELIRIUM O delirium não se reduz a “confusão mental”. O raciocínio começa pelo estado de vigília e pela consciência, passa à atenção e só então às demais funções cognitivas. É essa sequência que separa um paciente apenas desorientado de um paciente com síndrome confusional aguda — e que evita confundir delirium com redução primária do nível de consciência, como no torpor e no coma. 1.12 Integração funcional: do estado de vigília à experiência consciente Este capítulo tratou de sistemas que a exposição obriga a separar, mas que no encéfalo operam juntos. A vigília fornece o estado de alerta; a consciência sustenta a experiência e a interação com o ambiente; a atenção seleciona e mantém o que será processado; e sobre essas condições operam memória, orientação, percepção e pensamento. Nenhuma dessas funções existe isolada das demais. [5, O sono e o sistema circadiano completam o arranjo. O organismo alterna sono e vigília, e a organização temporal dessa alternância é imposta pelo relógio interno, sincronizado pela luz. O estado mental de um paciente às três da manhã não é o mesmo das dez da manhã, e isso é fisiologia, não acaso. [9] A consequência é que a consciência não está em lugar nenhum em particular. Ela emerge da integração dinâmica de sistemas distribuídos, que precisa permanecer suficientemente organizada para que a pessoa mantenha alerta, processe informação e interaja de forma coerente. [8] Daí a propriedade que mais importa clinicamente: alterações fisiológicas amplas — privação de sono, desorganização do ciclo circadiano, distúrbios metabólicos, fármacos, doença sistêmica — conseguem comprometer o funcionamento encefálico sem qualquer lesão estrutural focal. Um sistema distribuído falha de modo distribuído. [1] No delirium, essa integração é perturbada de forma aguda. O resultado não é “menos consciência”, e sim desorganização funcional das redes que sustentam atenção, consciência, percepção e orientação — razão pela qual conhecer a fisiologia normal é condição para reconhecer o que está alterado. Os mecanismos dessa desorganização são o objeto da Fisiopatologia. [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 16 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos FISIOLOGIA NORMAL DO ESTADO MENTAL RITMO CIRCADIANO ↓ ORGANIZAÇÃO TEMPORAL DO SONO E DA VIGÍLIA ↓ SISTEMAS DE ATIVAÇÃO: TRONCO ENCEFÁLICO ↔ TÁLAMO ↔ CÓRTEX ↓ VIGÍLIA / ALERTA ↓ CONSCIÊNCIA ↓ ATENÇÃO ↓ PERCEPÇÃO · ORIENTAÇÃO · MEMÓRIA · PENSAMENTO ↓ INTERAÇÃO ADEQUADA COM O AMBIENTE | Organização didática, não via anatômica: os sistemas mantêm relações recíprocas e paralelas, não uma sequência unidirecional. A IDEIA CENTRAL DO CAPÍTULO O encéfalo não mantém vigília, consciência e atenção por mecanismos isolados. O estado mental normal resulta da integração entre sistemas de ativação, redes corticais e subcorticais, mecanismos de sono-vigília e organização circadiana. Quando essa integração se perturba, surgem as alterações de atenção e de consciência que caracterizam o delirium. SÍNTESE DO CAPÍTULO 1 — 1. Consciência = nível (área reticular excitatória + tálamo) + conteúdo (córtex), operando como sistema talamocortical único. ■ 2. A ativação ascendente tem uma via colinérgica rápida, de milissegundos, e uma via lenta pelos núcleos intralaminares que define o nível basal de excitabilidade. ■ 3. A vigília se autossustenta por retroalimentação positiva córtex ↔ tronco e é mantida por múltiplos sistemas neuroquímicos paralelos. ■ 4. O sono é inibição ativa — rafe, serotonina, hipotálamo pré-óptico —, e não fadiga passiva do sistema ativador. ■ 5. O NSQ impõe a organização temporal de 24 h por alça CLOCK/BMAL1–PER/CRY, arrastada pela luz. ■ 6. O EEG mede sincronia: alfa depende do circuito talamocortical; delta persiste sem ele. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 17 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA A pergunta epidemiológica correta neste tema não é “qual a frequência do delirium”, e sim onde o paciente está. As taxas variam mais por cenário de cuidado do que por qualquer outra variável, e é essa dependência do contexto que define a probabilidade pré-teste à beira do leito. PRINCÍPIO CENTRAL — A FAIXA É ENORME PORQUE O CENÁRIO É A VARIÁVEL As taxas relatadas variam conforme o subgrupo estudado e o local de cuidado. [2] Números isolados fora de contexto não são interpretáveis; o que se usa clinicamente é a faixa do cenário em que o paciente se encontra. 2.1 Frequência por cenário de cuidado Tabela 2.1 — Ocorrência de delirium por cenário Cenário Frequência relatada Fonte Idosos na comunidade 1 a 2% Tratado de Geriatria [4] Serviço de emergência 8 a 27%; até 40% em unidades de urgência; presente em cerca de 30% das avaliações de emergência de idosos Hazzard [2]; Tratado [4]; Goldman-Cecil [3] Prevalência na admissão hospitalar 7 a 80% no conjunto dos estudos; 18 a 35% em enfermarias de clínica médica acima de 65 anos Hazzard [2]; Goldman-Cecil [3] Delirium incidente durante a internação 8 a 82% no conjunto dos estudos; 11 a 14% como evento novo em enfermaria clínica Hazzard [2]; Goldman-Cecil [3] Pós-operatório 8 a 58%; 2 a 60% conforme a casuística; 10 a 50% em séries gerais Hazzard [2]; Tratado [4]; Goldman-Cecil [3] Unidade de terapia intensiva 16 a 82%; até 80%; 70 a 87% em pacientes ventilados Hazzard [2]; Goldman-Cecil [3]; Tratado [4] ILPI e cuidado pós-agudo até 48%; até 35% em asilos Hazzard [2]; Goldman-Cecil [3] Fim de vida até 83%; pelo menos 45% Hazzard [2]; Goldman-Cecil [3] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2], no Goldman-Cecil [3] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. Duas leituras se extraem da tabela. A primeira: as maiores taxas concentram-se onde há ventilação mecânica e sedação — a UTI é o cenário de maior prevalência e incidência.[2] A segunda: o delirium é infrequente na comunidade, mas quando aparece no ambulatório costuma anunciar doença subjacente grave. [2] 2.2 Subnotificação: o dado epidemiológico mais importante Nenhum número deste capítulo pesa tanto quanto este: o delirium não é reconhecido em 70 a 85% dos pacientes afetados, considerando todos os cenários. [2] O Tratado registra faixa próxima — de 36 a 67% dos casos sem diagnóstico correto, confundidos com demência, depressão ou atribuídos ao próprio envelhecimento — e acrescenta o dado mais específico: na primeira avaliação em unidade de emergência, o não reconhecimento da forma hipoativa chega a 76%. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 18 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Figura 2.1 — A cascata da subnotificação na forma hipoativa Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [2,4] 2.3 Peso clínico e assistencial Mortalidade. As taxas de mortalidade hospitalar associadas ao delirium situam-se entre 25 e 33%, comparáveis às da sepse. [3] O risco é modulado pelo cenário: na UTI, o delirium associa-se a risco quatro vezes maior de mortalidade intra-hospitalar e seis vezes maior em seis meses; no serviço de emergência, a sete vezes maior em seis meses. [2] Morbidade. Ao delirium somam-se maior tempo de internação, sequelas cognitivas e funcionais que podem persistir por até um ano após cirurgia e maior necessidade de institucionalização após a alta. [2] Ele funciona, além disso, como marcador de risco: identifica o paciente com alta probabilidade de desfecho desfavorável, independentemente da causa que o precipitou. [2] 2.4 O que a epidemiologia autoriza a concluir Dois achados mudam a conduta. Primeiro: em grande parte dos casos a síndrome decorre de complicação iatrogênica, razão pela qual sua incidência funciona como barômetro da qualidade do atendimento hospitalar. [4] Segundo, e decisivo: o delirium é prevenível em até 50% dos casos com abordagens não farmacológicas de eficácia comprovada. [2] Nenhuma outra síndrome geriátrica de mortalidade comparável tem margem de prevenção dessa magnitude — o que é desenvolvido em Tratamento. SÍNTESE DO CAPÍTULO 2 — 1. A frequência depende do cenário: 1–2% na comunidade, 8–27% na emergência, 7–80% na admissão hospitalar, até 82% em UTI, até 83% no fim da vida. ■ 2. De 70 a 85% dos casos não são reconhecidos; na emergência, a forma hipoativa passa despercebida em até 76%. ■ 3. Mortalidade hospitalar de 25 a 33%, com risco 4× na UTI e 7× em seis meses após passagem pela emergência. ■ 4. Até 50% dos casos são preveníveis com medidas não farmacológicas. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 19 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA Reconhecer o delirium é meio caminho; o capítulo que importa é este. Tipicamente, o delirium é de etiologia multifatorial e pode ser atribuído a virtualmente qualquer afecção médica, ao uso ou à abstinência de substâncias. [4] Qualquer condição que comprometa a função cerebral pode causá-lo, embora, na prática, ele resulte de um número limitado de condições clinicamente comuns. [4] PRINCÍPIO CENTRAL — PROCURAR A CAUSA NO PLURAL Como outras síndromes geriátricas, o delirium costuma ter múltiplas causas simultâneas, e a busca pelos contribuintes exige avaliação clínica completa — sobretudo porque muitos são tratáveis, mas produzem morbidade e mortalidade substanciais se não tratados. [3] Encontrar uma causa plausível não autoriza encerrar a investigação. 3.1 Organização topográfica: onde a agressão atua A fisiologia do Capítulo 1 impõe a estrutura desta seção: como a vigília depende de rede difusa e bilateral, apenas três configurações rebaixam a consciência — lesão do sistema reticular ativador ou de suas projeções, destruição de grandes áreas hemisféricas, ou supressão da função reticulocerebral por fármacos, toxinas e alterações metabólicas. [8] A neurologia clínica traduz isso em três compartimentos. Tabela 3.1 — Organização topográfica das causas de rebaixamento da consciência Compartimento Causas representativas Lesões supratentoriais Hematoma subdural ou extradural, contusão cerebral, infarto cerebral, hemorragia intraparenquimatosa, apoplexia hipofisária, oclusão venosa, tumores primários ou metastáticos, abscesso, empiema epidural. [6] Lesões intratentoriais Hemorragia cerebelar ou de fossa posterior, infarto cerebelar, tumor ou abscesso cerebelar, aneurisma da artéria basilar, hemorragia pontina, infarto e desmielinização do tronco encefálico. [6] Disfunções difusas Encefalite, hemorragia subaracnóidea, concussão, estado pós-ictal, anóxia, hipoglicemia, desnutrição, encefalopatia hepática, uremia, doença pulmonar, endocrinopatias, intoxicação exógena, distúrbios hidreletrolíticos e acidobásicos. [6] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir da Tabela 14.1 de Fukujima & Ferraz, Neurologia para o clínico-geral [6]. PONTO ESSENCIAL — O DELIRIUM É DOENÇA DE REDE, NÃO DE FOCO Na maioria dos casos o delirium resulta de distúrbios difusos corticais e subcorticais, e não de causa neuroanatômica focal. Lesões focais raramente o produzem em pessoas sadias; quando o fazem, as mais relatadas são as parietais direitas e as talâmicas dorsais mediais. [10] Por isso a terceira linha da tabela — as disfunções difusas — concentra a maior parte da casuística clínica. 3.2 As causas mais frequentes na prática Entre as causas clínicas em idosos destacam-se os processos infecciosos — sobretudo pneumonia e infecção do trato urinário —, as afecções cardiovasculares, cerebrovasculares e pulmonares que causam hipóxia e os distúrbios metabólicos. [4] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 20 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Tabela 3.2 — Grupos etiológicos e exemplos comuns Grupo Exemplos Substâncias Álcool e hipnóticos/sedativos (intoxicação ou abstinência); anticonvulsivantes; antidepressivos; anti-hipertensivos; antiparkinsonianos; corticosteroides; digitálicos; bloqueadores H2; narcóticos; fenotiazinas [4] Infecções Meningite; pneumonia; septicemia; pielonefrite [4] Doenças cardíacas Arritmias; insuficiência cardíaca congestiva; infarto do miocárdio [4] Distúrbios metabólicos Distúrbios hidreletrolíticos; hipercalcemia; hipoglicemia e hiperglicemia; hipóxia; insuficiência hepática; insuficiência renal [4] Sistema nervoso central Epilepsia; doença vascular; metástases cerebrais; tumores primários [4] Perioperatório, trauma e ambiente Anestesia; cirurgia; queimaduras; traumatismos e fraturas, especialmente de fêmur; mudança de ambiente; hospitalização, sobretudo em unidade de terapia intensiva [4] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir do Quadro 27.1 do Tratado de geriatria e gerontologia [4]. No perioperatório, os precipitantes são a anestesia e a cirurgia — tipo, duração, hipotensão, hipóxia — e, depois, dor, infecção, analgesia, sedação e imobilização; idade e comorbidade também operam aí, mas são predisponentes e pertencem aos Fatores de Risco. [4] Duas causas escapam com frequência: a deficiência de tiamina, muitas vezes não diagnosticada, [4] e, no jovem, drogas ilícitas, alcoolismo e toxinas — que precisam ser ativamente perguntados. [1] 3.3 Fármacos: a causa que se prescreve São a causa isolada mais acionável. O Harrison estima que quase um terço dos casos seja secundário a medicamentos, sobretudo no idoso, com destaque para compostos anticolinérgicos ou sedativos; [1] o Tratado registra faixa compatível — fator etiológico isolado em 12 a 39%. [4] Figura 3.1 — Risco medicamentoso: da polifarmácia à queda do tônus colinérgico Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [1] Os mais implicados são antidepressivostricíclicos, antiparkinsonianos, neurolépticos e o uso ou a abstinência de hipnóticos e sedativos. Contribuem ainda classes de uso corrente — digitálicos, diuréticos, anti-hipertensivos, narcóticos, anti-inflamatórios não hormonais, antimicrobianos, antifúngicos, anti-histamínicos e bloqueadores H2 —, sobretudo sob polifarmácia. [4] O acréscimo de três ou mais medicamentos novos é risco hospitalar reconhecido. [1] ALERTA CRÍTICO — O EPISÓDIO PODE ANUNCIAR UMA DEMÊNCIA AINDA NÃO DIAGNOSTICADA No idoso, o delirium reflete com frequência agressão a um encéfalo já vulnerável por doença neurodegenerativa, e seu surgimento por vezes anuncia um distúrbio cerebral ainda não reconhecido — daí o rastreamento cognitivo ambulatorial após a resolução do episódio. [1] Os riscos hospitalares que não são doença nem fármaco — cateterismo vesical, contenção, privação de sono e sensorial [1] — estão nos Fatores de Risco. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 21 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos SÍNTESE DO CAPÍTULO 3 — 1. Etiologia multifatorial: achar uma causa não encerra a busca. ■ 2. Supratentorial, intratentorial e difusa — a terceira domina a casuística; lesão focal é rara. ■ 3. Na prática: infecções, hipóxia e distúrbios metabólicos. ■ 4. Fármacos respondem por cerca de um terço dos casos. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 22 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO A Etiologia respondeu o que desencadeia o delirium. Este capítulo responde por que o mesmo insulto derruba um paciente e não outro. No paciente hospitalizado, a distinção operacional é entre fatores predisponentes — já presentes à admissão — e fatores precipitantes, que contribuem para o desenvolvimento do quadro durante a internação. [4] PRINCÍPIO CENTRAL — RISCO É O PRODUTO DE VULNERABILIDADE POR INSULTO No idoso, o delirium resulta da inter-relação entre a vulnerabilidade do paciente e a ocorrência de insultos nocivos. [2] Um paciente muito vulnerável — com demência ou doença grave — pode desenvolver delirium após um insulto trivial, como uma única dose de sedativo. Um paciente com poucos fatores predisponentes é relativamente resistente e só adoece após exposição a múltiplos insultos: anestesia geral, cirurgia de grande porte, vários psicoativos, imobilização e infecção. [2] ALTA VULNERABILIDADE BASAL + INSULTO MÍNIMO → DELIRIUM BAIXA⟷ VULNERABILIDADE BASAL + MÚLTIPLOS INSULTOS → DELIRIUM | O limiar é individual. Os dois eixos são intercambiáveis: quanto maior a vulnerabilidade, menor o insulto necessário. Por isso não existe “dose segura” universal de sedativo no idoso hospitalizado. [2] 4.1 Os dois eixos Tabela 4.1 — Fatores predisponentes e precipitantes Predisponentes (vulnerabilidade prévia) Precipitantes (insultos agudos) Comprometimento cognitivo prévio ou demência; história prévia de delirium; idade avançada, acima de 70 anos [2] Uso de medicamentos, sobretudo psicoativos e anticolinérgicos; acréscimo de mais de três fármacos no dia anterior [1,2] Doença de base grave e multimorbidade; comprometimento funcional; imobilidade; desnutrição [1,2] Cateter vesical de demora; contenção física; imobilização; desidratação e desnutrição [1,2] Déficits sensoriais — auditivo e visual [1,2] Infecções; distúrbios metabólicos e hidreletrolíticos; falência renal ou hepática [2] Depressão; abuso de álcool [2,4] Cirurgia; internação de urgência ou por trauma; permanência em UTI por mais de 10 dias [2] História de acidente vascular encefálico, hipertensão, ataque isquêmico transitório, doença carotídea [2,4] Qualquer evento iatrogênico; privação de sono e privação sensorial [1,2] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2], no Harrison [1] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. 4.2 A magnitude de cada fator Cognição prévia é o fator mais poderoso. O comprometimento cognitivo preexistente, incluindo demência, é o fator de risco mais forte e mais consistente entre estudos e cenários, com risco duas a cinco vezes maior; até dois terços dos pacientes com delirium têm demência subjacente. [2] O Harrison converge: idade avançada e disfunção cognitiva prévia são os dois fatores mais frequentemente identificados, e indivíduos acima de 65 anos ou com baixo desempenho em testes cognitivos apresentam incidência aproximada de 50% ao serem hospitalizados. [1] Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 23 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Entre os precipitantes, os fármacos dominam. O uso de qualquer psicoativo associa-se a risco quatro vezes maior; dois ou mais psicoativos, cinco vezes. Por classe: sedativo-hipnóticos, 3 a 12 vezes; narcóticos, três vezes; anticolinérgicos, 5 a 12 vezes. [2] Os demais precipitantes validados — contenção física, desnutrição, mais de três fármacos acrescentados no dia anterior, cateter vesical e qualquer evento iatrogênico — conferem, cada um, risco duas a quatro vezes maior. [2] Eventos iatrogênicos merecem destaque próprio: ocorrem em até 40% dos idosos hospitalizados — três a cinco vezes o risco de adultos com menos de 65 anos — e dobram o risco de delirium. [2] 4.3 Modelo preditivo à admissão Um modelo preditivo validado em idosos internados por afecções clínicas identificou quatro fatores de risco independentes presentes já à admissão: déficit cognitivo prévio, doença grave (APACHE acima de 16), uremia e déficit sensorial. [4] O paciente que reúne esses fatores é o candidato prioritário à triagem e às medidas de prevenção. Outros fatores relevantes registrados foram história prévia de delirium, depressão, alcoolismo, acidente vascular encefálico prévio e idade acima de 75 anos; o déficit cognitivo prévio está presente em 25 a 50% dos pacientes que desenvolvem delirium. [4] ALERTA CRÍTICO — REMOVER UM FATOR SÓ QUASE NUNCA RESOLVE O efeito de múltiplos fatores de risco é cumulativo. A consequência clínica da natureza multifatorial do delirium é que retirar ou tratar um único fator com frequência falha em resolvê-lo: costuma ser necessário abordar muitos ou todos os fatores predisponentes e precipitantes antes que os sintomas melhorem. [2] Em compensação, cada precipitante é potencialmente modificável — é essa a base das intervenções do Tratamento. SÍNTESE DO CAPÍTULO 4 — 1. Risco = vulnerabilidade basal × insulto agudo; os eixos são intercambiáveis. ■ 2. Demência e déficit cognitivo prévio são o fator predisponente mais forte: risco 2–5×, presente em até dois terços dos casos. ■ 3. Psicoativos e anticolinérgicos lideram os precipitantes, com risco de até 12×. ■ 4. Quatro fatores independentes à admissão: déficit cognitivo, doença grave, uremia e déficit sensorial. ■ 5. O efeito é cumulativo — corrigir um fator isolado raramente basta. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 24 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO Além da classificação segundo o perfil psicomotor — hipoativo, hiperativo e misto —, o delirium também pode ser organizado segundo fatores causais ou etiológicos. Essa organização é uma forma de classificar os contextos causais e não substitui a investigação da causa individual do paciente. Este capítulo organiza o que varia na apresentação clínica: como ela se apresenta. Este capítulo organiza três eixos independentes — a atividade psicomotora, a completude do quadro e a duração. Nenhum deles designa doenças distintas; todos descrevem a mesma síndrome vista sob ângulos diferentes. PRINCÍPIO CENTRAL — SUBTIPO NÃO É DIAGNÓSTICO, É APRESENTAÇÃO Hiperativo, hipoativo e misto são padrões de apresentação da mesma síndrome, e um mesmo paciente transita entre eles durante a evolução.[1,2,4] Classificar o subtipo não substitui nem modifica a busca da causa — muda apenas a probabilidade de o quadro ser reconhecido e a estratégia de vigilância. 5.1 Eixo 1 — atividade psicomotora A apresentação clínica assume três formas principais: hipoativa, hiperativa e mista. [2] A dicotomia entre os extremos é conceito útil, mas os pacientes frequentemente se situam em algum ponto do espectro entre eles. [1] Tabela 5.1 — Subtipos de delirium segundo a atividade psicomotora Subtipo Apresentação Contexto etiológico típico Reconhecimento Hipoativo Letargia e redução da função psicomotora; paciente retraído e quieto, com apatia marcante e lentificação [1,2] Distúrbios metabólicos e processos infecciosos; intoxicação por benzodiazepínicos é o exemplo clássico [1,4] Forma mais comum no idoso e a que mais passa despercebida; atribuída a humor deprimido ou fadiga; pior prognóstico global [2,4] Hiperativo Agitação, hipervigilância, alucinações proeminentes, tremor e instabilidade autonômica [1,2] Intoxicação ou abstinência de medicamentos e álcool; delirium tremens é o exemplo clássico [1,4] Raramente escapa à percepção de cuidadores e da equipe [2] Misto Alternância entre os padrões hipoativo e hiperativo ao longo da evolução [2] Qualquer etiologia [2] Desafio de distinção em relação a transtornos psicóticos e do humor [2] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Hazzard [2], no Harrison [1] e no Tratado de geriatria e gerontologia [4]. NÃO CONFUNDIR — MISTO É ALTERNÂNCIA, NÃO SIMULTANEIDADE O subtipo misto não designa a coexistência simultânea de agitação e lentificação. Designa o paciente que flutua entre as formas hipoativa e hiperativa ao longo do tempo. [2] A distinção não é semântica: o paciente misto examinado em uma janela hipoativa será classificado como hipoativo se o examinador não buscar ativamente a informação sobre as 24 horas anteriores. 5.2 Eixo 2 — completude: formas parciais e subsindromáticas Nem todo paciente preenche o quadro completo. O reconhecimento das formas parciais ou subsindromáticas chamou atenção para a persistência de sintomas em idosos, particularmente nas Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 25 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos fases de resolução do delirium — e essas formas parciais também influenciam desfavoravelmente os desfechos de longo prazo. [2] A magnitude do fenômeno aparece no cuidado pós-agudo: 16% das admissões preencheram critérios completos do CAM para delirium, enquanto outros 50% apresentavam sinais de delirium subsindromático. [2] Nesse cenário de cuidado pós-agudo, portanto, os sinais subsindromáticos foram mais frequentes que o delirium completo — achado que não deve ser generalizado automaticamente para outros contextos assistenciais. 5.3 Eixo 3 — duração: agudo e persistente Por muito tempo o delirium foi tido como condição reversível e transitória; as evidências acumuladas colocam isso em questão. [2] Quanto à duração, o delirium pode apresentar início agudo, com desenvolvimento em poucas horas a dias, ou persistente, quando a alteração permanece por semanas a meses. A persistência pode decorrer do tratamento inadequado da etiologia subjacente. [1] Figura 5.1 — Eixo da duração: delirium agudo e delirium persistente Fonte: Elaboração SYNAPSE — Educação Médica, com base no conteúdo desenvolvido nesta seção. [2] ALERTA CRÍTICO — O SUBTIPO MAIS COMUM É O QUE MENOS SE VÊ A forma hipoativa é a mais frequente no idoso, a que mais escapa ao diagnóstico e a que carrega pior prognóstico global. [2] O paciente quieto, sonolento e colaborativo é o cenário de maior risco — não o agitado. É essa assimetria que justifica a triagem ativa e sistemática discutida no Diagnóstico. SÍNTESE DO CAPÍTULO 5 — 1. Três eixos independentes: atividade psicomotora, completude e duração. ■ 2. Hipoativo, hiperativo e misto são apresentações da mesma síndrome; o paciente transita entre elas. ■ 3. Misto = alternância no tempo, não simultaneidade. ■ 4. O hipoativo é o mais comum no idoso, o menos reconhecido e o de pior prognóstico. ■ 5. Formas subsindromáticas são frequentes e não são benignas. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 26 Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA Este é o capítulo em que a honestidade epistemológica importa mais do que a fluência da explicação. Os mecanismos fisiopatológicos fundamentais do delirium permanecem obscuros. [2] O que se segue distingue, deliberadamente, o que está estabelecido, o que é hipótese com apoio experimental e o que é apenas modelo didático. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — DELIRIUM: Causes, Symptoms, Physiology — Neural Academy Assista em: https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA PRINCÍPIO CENTRAL — DISFUNÇÃO CEREBRAL AGUDA EM REDE, SEM LESÃO ESTRUTURAL ESPECÍFICA OBRIGATÓRIA O delirium é entendido como disfunção aguda e difusa de redes cerebrais, sem lesão estrutural específica obrigatória. [2] É por isso que ele é potencialmente reversível, que nenhum exame de imagem o diagnostica e que a correção da causa pode restaurar integralmente a função — quando feita a tempo. 6.1 O que está estabelecido O achado eletroencefalográfico característico demonstra desarranjo funcional global, com alentecimento generalizado da atividade alfa cortical de base. [2] O Harrison converge: o EEG na maioria dos casos mostra lentificação simétrica, achado inespecífico que confirma disfunção cerebral difusa. [10] A raiz histórica desse achado é o trabalho de Engel e Romano, que atribuiu o delirium à redução da taxa de metabolismo cerebral, documentada justamente pelo alentecimento difuso do traçado. [4] Como visto no Capítulo 1, o ritmo alfa depende da oscilação de retroalimentação no sistema talamocortical difuso: sem conexões corticotalâmicas o córtex não produz alfa. [7] O alentecimento do delirium é, portanto, a assinatura elétrica da desorganização do próprio circuito que sustenta a vigília. 6.2 A hipótese da via final comum Postula-se que o delirium seja mediado por uma via final comum de mecanismos patogênicos distintos, porém interatuantes, que levam à disfunção de múltiplas regiões encefálicas e de múltiplos sistemas de neurotransmissores, culminando na ruptura de redes de larga escala. [2] Essa formulação é coerente com a anatomia distribuída da atenção descrita no Capítulo 1. ARMADILHA CONCEITUAL — NÃO EXISTE “O” MECANISMO DO DELIRIUM Falta evidência de via única, e permanece difícil atribuir o delirium a um mecanismo neurobiológico distinto. [2] Qualquer explicação que apresente uma cascata linear e definitiva ultrapassa o que as referências deste volume sustentam. O modelo é de convergência de mecanismos, não de sequência obrigatória. 6.3 Estressor agudo sobre encéfalo vulnerável A hipótese que ganhou favor é a de que o delirium ocorre quando um estressor agudo — cirurgia, sepse — incide sobre uma vulnerabilidade encefálica prévia, como comprometimento cognitivo ou fragilidade. À medida que a vulnerabilidade aumenta, estressores relativamente menores passam a bastar. [2] É a tradução biológica do modelo de risco do Capítulo 4. Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos · Página 27 https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA https://youtu.be/JiJ6BjdTZKA Livro Integrado Digital de Estudo — Delirium e Transtornos Neurocognitivos Agudos Entre as contribuições sugeridas para essa vulnerabilidade estão lesões estruturais, alterações vasculares, alterações da conectividade encefálica, neuroinflamação, neurodegeneração e outras mudanças relacionadas à idade. [2] 6.4 Topografia funcional Estudos de EEG, potenciais evocados e neuroimagem sugerem disfunção localizada em córtex pré- frontal, tálamo, núcleos da base, córtex temporoparietal e giros fusiforme e lingual do hemisfério não dominante. [2]