Prévia do material em texto
Saúde global e contemporaneidade Saúde global e contemporaneidade Copyright © UVA 2021 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. AUTORIA DO CONTEÚDO Yves Raphael de Souza REVISÃO Janaina Vieira Lydianna Lima PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO UVA S729 Souza, Yves Raphael de. Saúde global e contemporaneidade [recurso eletrônico] / Yves Raphael de Souza. – Rio de Janeiro: UVA, 2021. 1 recurso digital (1185 KB) Formato: PDF ISBN 978-65-5700-113-4 1. Saúde mundial. 2. Saúde pública. I. Universidade Veiga de Almeida. II. Título. CDD – 362.1 Bibliotecária Adriana R. C. de Sá CRB 7 – 4049. Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA. 4 APRESENTAÇ ÃO Neste material apresentaremos uma visão crítica sobre a saúde, seu processo de glo- balização e como ela funciona na atualidade. Você perceberá que existem muitos fato- res envolvidos nesse processo. Logo, é importante conhecer os aspectos legais, as leis e normas que fazem os diversos sistemas de saúde funcionarem e, especificamente, o sistema de saúde brasileiro. O entendimento sobre como gerenciar um sistema de saúde e com quem você pode- rá contar entre todas as profissões de saúde que existem, é muito importante para formar junto com você o corpo técnico, clínico, assistencial e gerencial que fará a saúde cada vez mais atual e global. Uma boa assistência em saúde passa pelo conhecimento dos processos de adoecimen- to, assim como de que forma podemos tratá-los e evitá-los. A prevenção é a base de um sistema de saúde sólido, que evita o adoecimento ou atenua as consequências das doenças mais prevalentes em uma população. Tudo isso é feito com base na mais pura e adequada evidência científica. Escolher as melhores evidências e entender como replicá-las à sua realidade também faz parte desse processo de aprendizado. Com esse conhecimento você terá a possibilidade de conhecer a saúde por meio de uma visão mais moderna, além de entendê-la de forma multidimensional, emitindo sua própria visão técnica do que é a saúde na realidade brasileira e também no contexto global. Dessa forma, este material não é fonte da sabedoria, mas de muitos conhecimentos. Desbravá-lo será o seu passaporte para o nível de conhecimento diferenciado e para assegurar sua formação sólida, estruturada e contemporânea. Faça uma boa leitura, fique atento aos pontos principais, e, ao final, colha os frutos que este material oferecerá. 5 YVES RAPHAEL DE SOUZA Professor e coordenador do curso de Fisioterapia da Universidade Veiga de Almeida – UVA. Fisioterapeuta formado pela UVA, especialista em Fisioterapia Respiratória, mes- tre em Ciências Médicas pela Universidade do Estados do Rio de Janeiro – Uerj e dou- torando em Ciências Médicas pela Uerj, com participação internacional no Laboratório de Ciências da Reabilitação da KU Leuven (Bélgica). Premiado em três oportunidades (2012, 2014 e 2017) pela American Thoracic Society por seu trabalho na área de Rea- bilitação Pulmonar. AUTOR C A P ÍT U LO S Modelos de saúde1 Multiprofissionalidade a serviço da saúde 3 Processo saúde-doença 2 Globalização do conhecimento e a tecnologia na saúde moderna4 7 Definitivamente, o Brasil é privilegiado por ter um sistema de saúde que é visto como exemplo por todos os outros países do mundo. A própria Organização Mundial de Saú- de – OMS define o Sistema Único de Saúde do Brasil – SUS como um exemplo a ser seguido por outras nações que querem oferecer a seus cidadãos uma boa assistência de saúde, sem negligenciar a existência da rede de saúde privada, chamada no Brasil de saúde suplementar. “Em todos os países temos acordo com o Ministério da Saúde, que é o gestor. Por isso, nos espelhamos na experiência do Ministério da Saúde. O Brasil é sempre visto como um exemplo de como se integra um sistema de saúde.” Jorge Bermudez - Diretor-executivo do Unitaid/ONU (CIMIERI, 2009) Existem vários modelos de saúde no mundo, mas o nosso foco será o modelo de saúde do Brasil. Ele poderá ser comparado com modelos de outros países, mas, por ser tão completo e bem elaborado, trataremos de suas principais nuances: Sistema Único de Saúde do Brasil. Modelos de saúde1 8 Nosso sistema de saúde é jovem, ele data do início dos anos 1990 quando, por meio da Lei nº 8.080/1990, o governo brasileiro decidiu formalizar a assistência de saúde como um direito do cidadão (a lei também está expressa na Constituição Federal de 1988). Outras formas de assistência à saúde mais antigas foram implementadas no Brasil. Por exemplo, na época do Brasil Império algumas leis focadas em vigilância sanitária, em hábitos de vida e higiene do dia a dia. Já se pensava em esgoto, tratamento de águas e até mesmo no uso das plantas medicinais, presentes abundantemente no Brasil para tratamento de sintomas das doenças já conhecidas naquela época, classificadas como doenças tropicais. Veremos algumas épocas marcantes na saúde do Brasil: • Período Imperial (1822-1889). • República Velha (1889-1930). • Era Vargas (1930-1945). • República Populista (1945-1964). • Ditadura Militar (1964-1984). • República Nova (tempos atuais). No fim do período Imperial e com o início do período do Brasil República, a diretoria geral de saúde, criada em 1920, foi o primeiro passo para a estatização do processo de saúde, ainda primitivo, mas já tratava-se de uma forma de documentar esse processo. Depois de várias tentativas legais ano após ano, modalidades de governo, diferentes governantes e tendências políticas do Brasil, em 1988 a Constituição Federal colocou a saúde como um direito do brasileiro e uma obrigação do Estado em provê-la. O SUS foi criado de forma moderna e descentralizada, ou seja, não é o governo federal ou o ministro da Saúde o grande chefe do SUS. O ministério é um grande organiza- dor que, em conjunto com os poderes de saúde dos estados, por sua vez também em conjunto com os poderes de saúde municipais, discutem as decisões que influenciam diretamente a saúde das pessoas. O SUS também prevê que todos os níveis de atenção à saúde sejam oferecidos pelo poder público, desde a pessoa que necessita de atendimento ambulatorial de menor complexidade até aquela que necessita de atendimento de emergência que levará a uma internação prolongada, gerando altos custos para a saúde pública. Também ofe- rece a continuidade do tratamento. 9 O objetivo é que o SUS apresente estratégias de prevenção, tratamen- to para doenças de menor complexidade, tratamento para doenças de maior complexidade, hospitais de grande porte para internação, cirurgias, transplantes e a continuidade dos tratamentos em serviços de reabilita- ção e acompanhamento clínico. Sim, é um modelo de saúde completo! Justamente por ser um modelo de saúde que abrange tudo que é necessário para a manutenção da boa qualidade de vida de um indivíduo, o SUS tem um custo extremamente caro. São centenas de bilhões de reais injetados anualmente no sistema e todo esse dinheiro é dividido entre ações federais por meio do Ministério da Saúde, ações estaduais por meio das Secretarias Estaduais de Saúde, e ações municipais,que são as mais periféricas e capilares por intermédio das Secretarias Municipais de Saúde. Existem comissões que decidem tudo que vai acontecer com esse sistema. Essas co- missões são, em geral, formadas por representantes da esfera Federal, o Ministério da Saúde; da esfera Estadual, que é um conselho formado pelos Secretários Estaduais de saúde dos 26 estados e do Distrito Federal, e também pelos milhares de Secretários Municipais de Saúde representando cada município do Brasil. Dessa forma, todos es- tão representados e todos participam ativamente para que boas decisões sejam toma- das, garantindo melhor assistência de saúde à população brasileira. Sistemas de saúde em outros países Fora do Brasil temos várias formas de a saúde ser oferecida aos cidadãos. Um dos paí- ses mais comentados é o Canadá. Alguns dizem que o Canadá tem um programa de saúde exemplar e que todas as pessoas têm acesso fácil, rápido e completo a todos os serviços de saúde. No entanto, até certo ponto isso não é uma verdade absoluta. O Canadá tem um sistema de saúde que podemos definir como um sistema com finan- ciamento público, mas a maior parte dos profissionais de saúde não são funcionários do governo. O paciente tem liberdade de escolher o profissional que quiser e o hospi- tal ou clínica que desejar. Eles serão custeados pelo governo local, que no Canadá são chamados de governos provinciais. Cada província é livre para elencar o rol de procedi- mentos atendidos pelo seu próprio sistema, ou seja, a província define os procedimen- tos de seu sistema de saúde. Até aqui já podemos perceber uma grande diferença da realidade brasileira. O Ca- nadá possui vários sistemas provinciais de saúde, enquanto o Brasil possui apenas um único, o SUS. A lei geral que serve de diretriz aos sistemas de saúde do Canadá 10 garante que serviços básicos de saúde sejam universais e acessíveis, no entanto os detalhes de como o sistema deve operar, tanto em sua parte gerencial quanto na parte assistencial, ficam a critério de cada província. O papel do governo central é tratar a população original da terra do Canadá, chamados também de aborígenes, e os veteranos de guerra. Se o serviço de saúde de que o indivíduo precisa estiver dentro daquilo que a província cobre, nenhum valor poderá ser cobrado, desde que a busca seja o serviço de saúde específico. Porém, os centros que oferecem esses atendimentos (podem ser consultó- rios, clínicas e hospitais) criam formas de cobrar por procedimentos médicos que não são oferecidas pelo governo. É possível que um pacote de taxas anuais, até mesmo mensais ou por um determinado procedimento, seja cobrada caso o paciente falte a uma consulta; por receitas não listadas no motivo do atendimento ou por algum rela- tório clínico que não esteja coberto no sistema. É possível que cobranças extras acon- teçam para prescrições feitas por telefone ou para que uma nova receita de um mes- mo medicamento prescrito anteriormente seja emitida, sem a necessidade de uma consulta, quando não for coberto pela província. Todos esses valores não são ilegais e podem ser cobrados pelo profissional ou pelo centro que presta o serviço de saúde. Sistema único de saúde, que reúne assistência pública financiada com- pletamente pelo governo, e saúde suplementar por meio de empresas prestadoras de saúde, sem financiamento governamental. Sistema público de saúde, com diferentes características em cada provín- cia. As coberturas são diferentes em cada região, mas todos os cidadãos são contemplados. Saúde pública para pobres e idosos carentes. Saúde privada gerida por seguradoras que firmam contratos com seus clientes e os contratos são a base do rol de procedimentos e coberturas assistenciais. Também podemos usar como exemplo o local do mundo que tem os profissionais de saúde mais citados, por exemplo, pela mídia internacional: os Estados Unidos da América. Essa fama não é injusta. Ao contrário, realmente grandes profissionais são formados pelas escolas norte-americanas de saúde. Porém, essa fama é inglória. Se- gundo a OMS, em eficiência a saúde americana está abaixo do 40º lugar entre todos os países do mundo. Isso inclui países muito pobres, onde o acesso à saúde é conhe- cidamente precário. 11 A saúde americana divide o indivíduo que necessita de cuidado em dois grupos: • Em um grupo estão aqueles que têm condição financeira de manter um seguro de saúde, que é equivalente ao plano de saúde privado no Brasil. • No outro grupo estão as pessoas que não têm condições financeiras de manter um vínculo com a saúde privada. Os mais jovens e pobres ficam reféns do Medicaid, e os idosos carentes ficam reféns do Medicare. Com alguma frequência, os consumidores dos planos de saúde são vítimas de atitudes até certo ponto questionáveis, quando falamos de assistência à saúde. Atitudes essas por parte das companhias de seguro quando, por exemplo, negam tratamento alegando doença preexistente ou quando valem-se de cláusulas contratuais que impossibilitam o tratamento de algumas doenças que não eram previstas no contrato original. Em casos de doenças que aparecem em determinada idade ou com fatores fisiopatológicos que não seguem a descrição tradicional na literatura médica, os cuidados de saúde não são cobertos, já que as seguradoras alegam ser impossível que tal pessoa, com tais caracte- rísticas, apresente aquela doença. Além disso, custos extras podem ser incluídos dentro de alguns procedimentos. Por exemplo, o contrato de seguro saúde prevê o uso de até 365 dias de UTI, mas a partir do 366º dia o valor integral será pago pelo beneficiário. Os mais pobres, sejam os jovens ou idosos, dependem de instituições de saúde filan- trópicas assistidas parcialmente ou totalmente pelo governo. O governo também mantém algumas instituições de saúde, mas em número absoluto minoritário se com- parado ao da rede privada. Além disso, tais instituições filantrópicas encontram-se sempre lotadas e em condições tecnológicas nada iguais às instituições privadas, que são a vitrine da saúde de ponta norte-americana. Há alguns anos, durante o governo do presidente Barack Obama, um governo demo- crata, decidiu-se enfrentar o lobby da saúde privada e dos grandes hospitais e promo- ver uma reforma de saúde que atendesse com maior dignidade e igualdade ao povo americano. Após essa reforma o plano de saúde seguiria três princípios básicos: 1. Garantia e maior estabilidade e segurança aos usuários de planos de saúde privados. 2. Cobertura universal para toda a população, com ou sem seguro de saúde. 3. Redução dos custos. Contudo, nenhum desses princípios foi atingido até o momento presente. 12 Lobby: atividade de pressão de um grupo organizado (de interesse, de pro- paganda etc.) sobre políticos e poderes públicos, que visa exercer sobre estes qualquer influência ao seu alcance, mas sem buscar o controle formal do governo. Por meio de uma breve reflexão, podemos entender que o mercado da saúde gera pressões que dificultam sua popularização (que significa redução de preços, ou seja, do lucro) em um sistema majoritariamente privado. Grande parte dessa pressão é exercida sobre os parlamentares norte-americanos. “Cobertura universal” é quase um termo utópico, principalmente em uma realidade de saúde como a norte-americana, em que mesmo os clientes de seguros de saúde po- dem ter alguma cobertura negada pela seguradora, caso tenham conflito contratual, mesmo quando se trata de um processo fisiopatológico imprevisto (uma doença rara ou adoecimento inesperado). Exemplos de pessoas que foram diagnosticadas com câncer e tiveram seu tratamen- to recusado pela seguradora apenas pelo fato ter ocorrido fora de uma faixa etária prevista na literatura científica ou mesmo em um perfil étnico improvável (segundo os achados teóricos), são muito frequentes. É possível que se encontre, em algum mo- mento, uma forma de oferecer melhor assistência aos norte-americanos, respeitando as exigências do mercadoe pondo a qualidade de saúde em primeiro lugar. Sistemas de saúde público e privado Existem grandes diferenças entre os sistemas de saúde públicos e privados. Os siste- mas públicos obviamente são financiados pelo governo e, consequentemente, ofe- recem saúde de forma gratuita para os cidadãos daquele local. O sistema privado é financiado por uma empresa, ou várias, que cobram valores para que pessoas partici- pem dos benefícios e das assistências oferecidas por aquele conglomerado de clínicas, hospitais, consultórios e profissionais. As formas de cobrança são diversas. Cobranças diretas ao usuário, cobranças à empresa para a qual o usuário presta serviço, cobrança compartilhada entre o usuário e a empresa ou entre o usuário e o governo. No Brasil, a saúde privada é chamada de saúde suplementar, justamente porque faz parte de um único sistema de saúde, o SUS. A diferença é que a saúde suplementar, seguindo as mesmas leis da Saúde Pública, oferece a possibilidade de o indivíduo pa- gar um valor para receber um tratamento em outras redes, além da rede pública. Ter 13 vínculo com a saúde suplementar (ter plano ou seguro saúde) não exclui os benefícios do SUS e não diminui a responsabilidade da rede pública de cobrir tudo o que deve ser oferecido à população, pois simplesmente amplia a rede de assistência. A saúde suplementar no Brasil tem um nome muito correto porque é aquela que au- xilia o SUS quando toda sua capacidade está esgotada. Um exemplo clássico é quando uma unidade de tratamento específico, em determinada cidade, está lotada. Existem duas tratativas para esse processo: 1. A primeira é tentar transferência para uma unidade do serviço público nas pro- ximidades. Em caso de ausência de vaga, o governo parte para a segunda opção. 2. Entra em contato com hospitais privados, solicitando o leito necessário pelo paciente, pagando a esses hospitais os valores da tabela de repasse do SUS para o município. O benefício de um sistema único de saúde, que contempla a saúde pública e privada, está no auxílio mútuo, especialmente o auxílio que a saúde suplementar oferece à saúde pública no Brasil. Visando garantir que as estratégias da Saúde Suplementar estejam alinhadas com as estratégias do Sistema Único de Saúde, existe no Brasil, a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, responsável por regular o funciona- mento da saúde suplementar — rede privada. Não existia nenhuma interferência do Estado na oferta de planos e serviços priva- dos de saúde. Com a criação da agência reguladora, depois de estabelecido o marco regulatório dos planos de saúde (Lei nº 9.656/1998), os usuários passaram a ter ga- rantias e direitos assegurados. Hoje, a saúde suplementar é responsável por quase um quarto da assistência de saúde da população brasileira. Na atualidade, o maior desafio do ramo privado da saúde no Brasil está no envelhecimento populacional, que demanda mais cuidados de saúde, além das transformações tecnológicas e dos desperdícios de recursos. É difícil definir se o sistema público ou privado de saúde é melhor ou não para uma determinada população. Tudo depende da fonte de financiamento e de como esse financiamento é aplicado. Além disso, a forma de gestão do sistema de saúde compro- mete de forma importante o seu sucesso, que por sua vez é medido partir de desfe- chos positivos. Tais desfechos não significam obrigatoriamente sobrevivência, mas sim menor custo para melhor assistência de saúde, e consequentemente, maior qualidade de vida para o usuário do sistema. Definitivamente, dizer que um sistema é melhor ou pior do que o outro, por ter finan- ciamento privado ou financiamento público, não é o melhor caminho para se avaliar 14 um sistema de saúde. O melhor caminho é: de que forma a população é assistida e quais os resultados que o sistema de saúde apresenta após sua intervenção na vida daqueles indivíduos? Essa pergunta é a chave para uma boa avaliação dos sistemas de saúde que existem. 15 RESUMO Neste capítulo abordarmos um pouco como funciona o Sistema Único de Saúde no Brasil, e de que forma a assistência pública e a assistência privada de saúde se comple- mentam para formar um único sistema. Além disso, pudemos enxergar de forma glo- bal como funcionam os sistemas que são majoritariamente públicos, como o brasileiro, e sistemas majoritariamente privados, como os de outros países, suas diferenças sob os pontos de vista político, econômico e assistencial. Também vimos o papel da saúde suplementar e de que forma as instituições privadas de saúde no Brasil complemen- tam o sistema público, que é administrado pelo Ministério da Saúde, e de que forma ambos trabalham em sintonia. 16 REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: Constituição (pla- nalto.gov.br) Acesso em: 10 jan. 2021. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços cor- respondentes e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 19 set. 1990. Disponível em: L8080 (planalto.gov.br). Acesso em: 15 jan. 2021. BOUDREAUX M.; NOON J. M.; FRIED B.; PASCALE, J. Medicaid expansion and the Me- dicaid undercount in the American Community Survey. Health Serv. Res. 2019 Dec. 54(6):1263-1272. CIMIERI, F. O SUS é exemplo para outros países. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 ago. 2009. Disponível em: ‘’O SUS é exemplo para outros países’’ - Emais - Estadão (es- tadao.com.br). Acesso em: 10 fev. 2021. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://emais.estadao.com.br/noticias/geral,o-sus-e-exemplo-para-outros-paises,427117 https://emais.estadao.com.br/noticias/geral,o-sus-e-exemplo-para-outros-paises,427117 17 Quando falamos de saúde pensamos de forma ampla, pois esse assunto diz respeito a um estado físico e mental. Essa é uma boa explicação! Saúde é um direito constitu- cional, já que isso está escrito na Constituição Brasileira. Dessa forma, trata-se de um dever do Estado oferecer à população acesso à saúde. Saúde é sentir-se bem, é ter seu corpo físico e sua mente funcionando em plena harmonia. É não tomar remédios com frequência, mas também é tomar os remédios na quantidade e no momento adequa- dos para que uma doença seja controlada. Agora, chegou o momento de abordarmos doença. Doença é quando o corpo e/ou a mente não está bem, quando a conexão entre o corpo e a saúde mental não está em harmonia. Possivelmente, você pode entender doença como o contrário de saúde, mas ambos os estados não são obrigatoriamente paradoxais entre si. Uma pessoa por- tadora de uma doença crônica, tendo essa doença controlada, pode ser considerada alguém com saúde. Já uma pessoa que aparenta saúde pode não saber, mas pequenos hábitos aparentemente inocentes podem comprometer esse estado. Falar do processo saúde-doença não é simplesmente acordar dois significados ou duas grandezas na área do cuidado clínico. Falar de saúde-doença é falar do processo de adoecimento de uma população, de como a saúde pode melhorar a população doente e também de como, em seu papel preventivo, pode evitar a doença. A relação saúde- -doença não é uma relação de troca em que doente recebe saúde e a saúde evita a doença. Trata-se de um processo que se constrói com base em prevenção, educação, mudança de hábitos, participação de profissionais e pacientes, além da compreensão do que o sistema de saúde é capaz de promover e fazer para evitar o adoecimento. Processo saúde-doença 2 18 Existe, sim, a doença fisiopatológica, e é essa que somos treinados a buscar. No en- tanto, a doença não pode ser limitada a umestado examinável do corpo ou da mente. Doença também depende de: • Sentimentos. • Pertencimento. • Sofrimento. • Angústia. • Valor social. • Valor comunitário. • Realidade de vida. Doença é um termo tão amplo quanto saúde. Saúde, por sua vez, desde 1947 é defi- nida pela Organização Mundial de Saúde – OMS como um estado de completo bem- -estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Podemos conhecer pessoas que não gozam de plena saúde, mas que também não estão doentes. Esse é o caminho, nada exato, que nós, da área da saúde, percorremos diariamente. SAÚDE DOENÇA Estado de completo bem-estar físico, mental e social. Conjunto de sinais e sintomas que afetam um ser vivo. Para aumentar o nível de saúde de uma população e evitar o adoecimento, uma das formas mais utilizadas e mais recomendadas — e que tem grande evidência científi- ca — é a educação em saúde. Educação essa que pode ser facilmente subdividida em dois caminhos: a educação do profissional de saúde e a educação do paciente. Mesmo com objetivos diferentes, essas duas formas são complementares, garantindo cuidado mais preciso no processo de aumento da saúde e consequente aumento da qualidade de vida dos pacientes. Educação do profissional de saúde O profissional de saúde passa por um longo processo de treinamento teórico, prático e de vivência profissional na área em que irá atuar. São anos de estudo, dedicação, formação, aprendizado e experiências que garantem que, ao concluir sua formação, o profissional esteja apto a entrar em contato com a população e prestar assistência de saúde no mais alto nível técnico e humano. 19 Porém, a saúde está sempre em movimento. Os conceitos e definições mudam, novas técnicas são incorporadas, técnicas antigas são deixadas de lado e as evidências cien- tíficas cada vez mais reforçam a necessidade de atualização. Nesse contexto, estamos falando de educação continuada. Mesmo compreendendo que a formação profissio- nal tem um fim no momento da graduação, a continuidade dos estudos, a constante atualização e a aprendizagem de novos métodos de tratamento são características fundamentais da educação em saúde, na visão de formação continuada de um profis- sional de saúde de qualidade. Equipes de saúde costumam realizar treinamentos periódicos dos procedimentos que mais usam em sua prática clínica. Isso também é chamado de educação continuada. Outra forma de atualização constante é a participação do profissional em congressos da área. Em geral, participa-se de um congresso regional, um congresso nacional e um internacional. Essa escolha é pessoal, mas esses três tipos de eventos ajudam o profissional a discutir boas práticas com seus colegas mais próximos, entender como sua prática é realizada em outros locais do país — muito importante em países como o Brasil, que tem um território continental e diferentes culturas — e aprender com pro- fissionais de outros países formas novas de atuar, todas elas baseadas em evidência científica, que é o assunto que abordaremos nesta disciplina. Educação do paciente Enxergar o paciente como um alvo ou como uma vítima não é a forma mais correta de tratar aquele que precisa da nossa assistência para encontrar seu bem-estar físico, mental e social. O paciente deve ser empoderado e identificado como peça princi- pal de seu tratamento, seja este de prevenção, cura ou reabilitação. EDUCAÇÃO EM SAÚDE PROFISSIONAIS MAIS QUALIDADE DE VIDA POPULAÇÃO 20 Todas as informações devem ser compartilhadas com o paciente, principalmente seu conteúdo científico. É direito do paciente saber que o que está sendo feito com ele, ou o processo pelo qual ele está passando, tem respaldo científico, o que torna estatisti- camente viável tal procedimento. Igualmente, é papel do profissional de saúde tradu- zir a ciência de alto nível e as evidências científicas de forma que o paciente entenda, compreenda e aplique esse conhecimento em seu dia a dia, sentindo-se empoderado de informação e, consequentemente, participante ativo do processo de aquisição de saúde e controle de uma doença. Neste sentido, orientar sobre hábitos de higiene é o principal meio de educação em saúde que se trabalha dentro de uma perspectiva de “não adoecimento”, sendo utili- zado com essa finalidade há muitos séculos. Desde os primeiros anos do século XV percebeu-se que grande parte dos óbitos acon- teciam por diarreia, verminoses, infecções alimentares e outras situações que pode- riam ser evitadas por meio de conhecimento prévio. Então, a partir da tradição oral, as pessoas ensinavam umas às outras como evitar determinadas atitudes e até mesmo alimentos e líquidos que poderiam trazer desconfortos e gerar adoecimento. Até hoje, grande parte das doenças de menor criticidade são evitadas pelo ensino de hábitos de higiene corretos para cada situação. Outra forma muito interessante do trabalho de educação em saúde se dá por meio do ensino de técnicas de autodiagnóstico. Muitas doenças são descobertas, ainda em fase inicial, quando ensinamos a população a buscar possíveis alterações indese- jadas em seu corpo e comportamento. Dessa maneira, é possível procurar ajuda pro- fissional de forma precoce, elevando as chances de resolução do caso e diminuindo os custos para o sistema de saúde. Ao longo de períodos do ano dedicados a determina- das doenças, chama-se atenção para os principais sintomas, sinais, modos de realizar um primeiro diagnóstico ainda de casa, e quando se deve procurar ajuda. MESES DEDICADOS À CONSCIENTIZAÇÃO. UMA EXCELENTE ESTRATÉGIA DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE Mês Cores relacionadas Doenças abordadas Janeiro Branco Saúde mental. Fevereiro Roxo/Laranja Lúpus, Doença de Alzheimer e Fibromialgia/Leucemia. Março Azul-escuro Câncer colorretal. Abril Azul Autismo. 21 Maio Amarelo/Vermelho Acidentes de trânsito/Hepatites. Junho Vermelho Doação de sangue. Julho Amarelo Câncer ósseo e hepatites virais. Agosto Dourado Amamentação. Setembro Vermelho/Verde Saúde do coração/Doação de órgãos. Outubro Cor-de-rosa Câncer de mama. Novembro Azul Câncer de próstata. Dezembro Laranja/Vermelho Câncer de pele/AIDS. Prevenção Um dos grandes resultados da educação do paciente e do profissional é o sucesso em estratégias de prevenção. Todo profissional de saúde tem compromisso com a prevenção. O trabalho de um profissional de saúde não é focado apenas em cura, bem como alguns profissionais específicos não podem ter sua profissão focada apenas no viés da reabilitação. De forma integral, os profissionais atuam em vários níveis de atenção à saúde, sempre inseridos em processos de prevenção, cura e reabilitação. Por isso, sua formação deve obedecer a diretrizes que garantam o conhecimento des- ses tipos de atuação. Prevenir é melhor do que remediar — esse é um jargão popular repetido em vários idiomas, e que tem fundamento em seu significado. Estratégias de prevenção são muito mais baratas para os sistemas de saúde do que o tratamento de doenças já estabelecidas. Um exemplo clássico são as doenças res- piratórias crônicas. A mais comum no Brasil é a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que atinge uma porcentagem significativa da nossa população. Quase todos os pacientes que possuem DPOC adquiriram essa doença pelo tabagismo. Campanhas que mostram os malefícios do hábito tabágico e as doenças que podem ser geradas pelo consumo de cigarro são estratégias preventivas muito caras, mas elas custam me- nos de 1% de todo o valor gasto anualmente pelo sistema público de saúde do Brasil com o tratamento de pacientes que possuem DPOC. Outro exemplo que podemos citar é a hipertensão arterial sistêmica (HAS), conhe- cida popularmente como pressão alta. O paciente com elevação da pressão arterial pode apresentar vários comprometimentos em sua saúde. Um dos mais agressivos é o acidente vascular encefálico (AVE), quando uma artéria cerebral se rompe gerando sangramento dentro da cavidade craniana, o queapresenta pequena chance de rever- sibilidade, podendo levar à morte. As principais causas de HAS são má alimentação, sedentarismo e obesidade. 22 Programas de saúde que trabalham na prevenção desses três causadores da hiperten- são arterial custam infinitamente menos ao sistema de saúde — seja público ou saúde suplementar — do que o tratamento de quadro agudo de um AVE. Quando o paciente sobrevive, há sequelas deixadas por esse processo patológico. Além disso, mesmo não evoluindo para um acidente vascular encefálico, a hipertensão é uma doença crônica, ou seja, não tem cura, e deve ser controlada pelo resto da vida por meio de medicação e mudança dos hábitos de vida. O uso de medicamentos por toda a vida também gera um custo elevado. Uma das formas mais comuns de prevenção é a prática de atividade física regular e bem prescrita, que traz como benefícios: • Ganho e manutenção da força muscular. • Melhoria da capacidade aeróbica. • Diminuição, a longo prazo, da pressão arterial. • Diminuição, a longo prazo, da frequência cardíaca. • Efeitos positivos nos níveis de colesterol e triglicerídeos. • Auxilia no controle glicêmico. • Contribui para o bem-estar mental e social de um indivíduo. Muito se fala dos hormônios da felicidade e que a prática de exercício físico libera esses hormônios. São eles dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina. Quando liberados na corrente sanguínea, esses hormônios, cada um da sua forma, geram sensação de: • Prazer. • Felicidade. • Diminuição do estresse. • Diminuição da tensão e da ansiedade. Além disso, os hormônios trazem uma agradável sensação de aconchego e preenchi- mento. Eles ainda geram efeitos como o de um abraço ou o de um carinho, todos liberados pela prática de exercício físico. Os bons sentimentos e os benefícios mentais gerados pela prática desses exercícios tornam o convívio social mais fácil e prazeroso, garantindo ganho na saúde de uma população. Cuidados paliativos Possivelmente, o contexto mais complicado de se falar da relação saúde-doença é quan- do a doença toma um rumo em que um tratamento não pode mais oferecer a possibi- lidade de cura e o que resta é aguardar o desfecho natural da vida. Especificamente, nesses casos, a saúde não se encontra perdida, mas tem o nome de cuidado paliativo. 23 Existem mitos acerca dos cuidados paliativos e em muitas situações se encara esse tipo de cuidado como um degrau para a morte. Lembre-se: quando uma doença não tem cura, nós aguardamos pelo desfecho natural da vida. Obviamente, esse desfecho na- tural é a morte, mas o cuidado paliativo existe para guiar o paciente durante o tempo de tratamento de uma doença crônica, para que ele tenha a melhor qualidade de vida possível dentro do quadro fisiopatológico que apresenta. Neste sentido, podemos dizer, então, que não se trata de um degrau para a morte, mas sim de um degrau de subida para a vida, quando mesmo em um complexo quadro clínico é viável encontrar formas de viver com o máximo de qualidade possível. “Cuidados paliativos: não é sobre morrer. É sobre como quero viver até lá!” Ana Michelle Soares Como definição clínica, o cuidado paliativo é um conjunto de práticas assisten- ciais multiprofissionais, oferecidas a pacientes que se encontram no estado de uma doença incurável, e que durante todo o processo de doença poderão sofrer consequências do quadro clínico que agravam sua qualidade de vida. Nesse contexto, a multiprofissionalidade é um fundamento do cuidado paliativo. Isso porque diversos estudos comprovam que o tratamento oferecido de forma mul- tiprofissional atinge níveis de sucesso muito maiores do que o cuidado paliativo feito por um profissional (mas não com todas as profissões possíveis. Obviamente, o suces- so é infinitamente maior do que o cuidado oferecido por apenas um profissional). Como a multiprofissionalidade é um pilar do cuidado paliativo para que se tenha qua- lidade no tratamento, um único profissional atuando de forma paliativa em um pa- ciente não configura cuidado paliativo. Cercar o paciente com a atenção e a dedicação necessárias para que esse momento seja vivido da melhor forma possível, por meio das habilidades de várias profissões, da participação da família, dos amigos e do con- sentimento e participação do próprio paciente, isso sim configura cuidado paliativo. 24 RESUMO Neste capítulo pudemos perceber que a definição de saúde é muito mais abrangente do que simplesmente ter bem-estar físico, pois também abrange bem-estar mental e social. Igualmente, percebemos que doença não é simplesmente a falta de saúde. Além disso, compreendemos o papel da educação em saúde na formação do profissio- nal e na capacitação do paciente, para que ele também participe de forma ativa em seu processo de tratamento. Definimos, ainda, a prevenção em saúde como um item fundamental para melhorar a qualidade da assistência e garantir menores custos ao sistema de saúde e ao pró- prio paciente no tratamento de seus distúrbios clínicos. Entendemos também o papel do exercício físico em estratégias de prevenção. Por fim, abordamos que o cuidado paliativo não é sobre morte, mas sim sobre como se deseja viver até o dia em que a morte chegar. 25 REFERÊNCIAS BYDLOWSKI, C. R.; LEFEVRE, A. M. C.; PEREIRA, I. M. T. B. Promoção da saúde e a for- mação cidadã: a percepção do professor sobre cidadania. Ciência e Saúde Coletiva. 2011;16(3):1771-80. CZERESNIA, D.; FREITAS, C. M. Promoção da Saúde: conceitos, reflexões, tendências. 2. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2011. 176 p. GOMES, K. O.; COTTA, R. M. M.; ARAÚJO, R. M. A.; CHERCHIGLIA, M. L.; MARTINS, T. C. P. Atenção Primária à Saúde – A “menina dos olhos” do SUS: sobre as representa- ções sociais dos protagonistas do Sistema Único de Saúde. Ciência e Saúde Coletiva. 2011;16(1):881-892. MENDES, E. V. As redes de atenção à saúde. Ciência e Saúde Coletiva. 2010;15(5):2297-305. MITRE, S. M.; ANDRADE, E. I. G.; COTTA, R. M. M. Avanços e desafios do acolhimen- to na operacionalização e qualificação do Sistema Único de Saúde na Atenção Pri- mária: um resgate da produção bibliográfica do Brasil. Ciência e Saúde Coletiva. 2012;17(8):2071-85. MORAES, P. A.; BERTOLOZZI, M. R.; HINO, P. Percepções sobre necessidades de saúde na Atenção Básica segundo usuários de um serviço de saúde. Rev. Esc. Enferm. USP. 2011;45(1):19-25. 26 Multiprofissionalidade A multiprofissionalidade acontece quando vários profissionais de saúde, de acordo com suas características específicas de atuação, trabalham juntos em prol de um único objetivo. Mesmo existindo várias profissões na saúde, é possível encontrar harmonia no trabalho entre esses profissionais. Isso porque em um contexto mais amplo o obje- tivo de todos os envolvidos no cuidado do ser humano é proporcionar ao indivíduo o melhor tratamento, com o melhor desfecho possível. Nós podemos imaginar um perfil multiprofissional ideal, que é quando todas as pro- fissões existentes na área da saúde trabalham em um único paciente. Mesmo chaman- do tal situação de ideal, nem sempre um paciente precisa de todos os profissionais. Porém, sem dúvida, todos os pacientes precisam de mais de um profissional para cuidar de sua saúde. Não se trata apenas de um conjunto de profissões atuando, mas sim da harmonia com que o trabalho é realizado por cada perfil profissional, levando o paciente a uma experiência diferenciada de atenção à saúde. A área da saúde é composta por várias profissões, tanto de nível superior quan- to de nível técnico. Cada profissional atua de maneira específica, regido por regras, leis e diretrizes. Em um contexto de melhor assistência à saúde, pensar em cuida- do, tratamento ou processo de saúde composto por vários profissionais que utili- zam seus saberes múltiplos para alcançar um único objetivo, é o cenário perfeito da atividade multiprofissional. Multiprofissionalidade a serviço da saúde 3 27 A atuação profissional é regulamentada e regida por conselhos declasse, que são autarquias federais, subdivididas em sedes regionais, que fiscali- zam a atividade profissional de acordo com o que as normas técnicas pre- conizam. Falar da atuação de cada profissional é muito complexo, já que existem diversos livros, artigos e documentos oficiais que descrevem, em inúmeras páginas, a atividade de cada um, desdobradas em suas diversas áreas de especialidade. A seguir veremos um quadro em que algumas profissões são apresentadas e o cerne de suas atividades é descrito. PROFISSIONAL DE FISIOTERAPIA O fisioterapeuta é um profissional de saúde com graduação em Fisio- terapia e inscrito regularmente no Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Tem como principal responsabilidade a formula- ção de um diagnóstico cinético funcional, também chamado diagnós- tico fisioterapêutico, para guiá-lo na prevenção, cura e reabilitação do corpo humano, nas disfunções que afetam seus sistemas. PROFISSIONAL DE MEDICINA O médico é um profissional de saúde com graduação em Medicina, ins- crito regularmente no Conselho Regional de Medicina. Seu papel prin- cipal é o cuidado do paciente na formulação de um diagnóstico clínico e no estudo aprofundado das doenças do corpo e da mente humana, assim como métodos terapêuticos medicamentosos ou cirúrgicos de cura, controle da doença e manutenção da saúde. Trabalha também de forma preventiva, por meio de programas específicos de saúde. PROFISSIONAL DE FONOAUDIOLOGIA O fonoaudiólogo é um profissional de saúde, com graduação em Fo- noaudiologia e inscrito no Conselho Regional de Fonoaudiologia. Par- ticipa do processo de reabilitação da fala e da deglutição a partir de técnicas específicas, com exercícios, orientação e reeducação dos movi- mentos que contemplam essas funções. Tem importante papel na pro- moção da saúde e atua nos setores público e privado com sua prática clí- nica convencional e também em cargos educacionais e administrativos. 28 PROFISSIONAL DE FARMÁCIA O farmacêutico é um profissional de saúde com graduação em Farmá- cia e regularmente inscrito no Conselho Regional de Farmácia. Tem participação fundamental em análises e controle de qualidade de me- dicamentos e produtos químicos, de acordo com regras estabelecidas pelas autoridades sanitárias. Igualmente responsável pela produção de remédios, o farmacêutico está envolvido nas demais etapas até o pro- cesso de chegada ao paciente, sendo também o responsável pelo uso correto de medicamentos. PROFISSIONAL DE PSICOLOGIA O psicólogo é um profissional de saúde com graduação em Psicologia e regularmente inscrito no Conselho Regional de Psicologia. A função do psicólogo é cuidar da saúde mental e comportamental de um indiví- duo. Para isso, ele se aprofunda na análise de questões internas como consciência, comportamento, infância, relações sociais, traumas, entre outros aspectos da vida humana. Existem várias linhas teóricas em psi- cologia que podem ser adotadas por um profissional e o tratamento para o paciente vai depender da linha seguida por cada psicólogo. PROFISSIONAL DE ODONTOLOGIA O cirurgião-dentista é o profissional de saúde com graduação em Odon- tologia e regularmente inscrito no Conselho Regional de Odontologia. Sua função é caracterizada pelo cuidado da saúde oral, que vai desde o cuidado clínico até o cuidado estético. Cirurgias na cavidade oral que envolvam dentes, gengivas ou qualquer estrutura anatômica do inte- rior da boca, assim como a correção da dentição, fazem parte do rol de procedimentos desse profissional. PROFISSIONAL DE NUTRIÇÃO O nutricionista é o profissional de saúde com graduação em Nutrição e regularmente inscrito no Conselho Regional de Nutrição. Sua atividade clínica é caracterizada pela atenção dietética e de segurança alimentar, realizada para um indivíduo ou uma população. Além disso, desenvol- ve atividades na indústria alimentar, na indústria de suplementação ali- mentar, no esporte, em escolas e restaurantes, além de atividade clínica em todos os níveis de complexidade hospitalar. 29 PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA O educador físico é o profissional de saúde com graduação em Educa- ção Física e regularmente inscrito no Conselho Regional de Educação Fí- sica. Sua atividade profissional tem por objetivo promover a saúde das pessoas a partir da prática de atividades físicas. O trabalho desse pro- fissional compreende o acompanhamento e a orientação de pessoas ao longo de suas práticas de esportes e exercícios físicos. Cabe destacar que tem público diversificado. PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM O enfermeiro é o profissional de saúde com graduação em Enferma- gem e regularmente inscrito no Conselho Regional de Enfermagem. Sua atividade profissional está ligada ao cuidado do paciente em todos os níveis de complexidade. Atua em prevenção, cura e recuperação, além de administrar medicamentos, realizar curativos e orientar a saú- de de uma população. O corpo técnico de saúde ainda é composto por profissionais de nível técnico que au- xiliam no cuidado do paciente. Especificamente, o corpo técnico mais conhecido é o de enfermagem. Algumas profissões, como a fisioterapia, por exemplo, não possuem formação técnica expressa em resolução do conselho federal (que tem valor de lei). Existe um contexto muito comum chamado multidisciplinaridade, que não é a mesma coisa que multiprofissionalidade, porém a segunda depende da primeira para ser rea- lizada de forma mais completa. Multidisciplinaridade é o conjunto das várias especialidades de uma única profissão. Quando várias especialidades de várias profissões se reúnem para trabalhar juntas, com o mesmo objetivo, visando o melhor desfecho para o paciente, estamos falando do padrão ouro da multiprofissionalidade. Um exemplo de multidisciplinaridade pode ser visto em unidades de terapia intensi- va, locais de maior complexidade da atenção hospitalar. Um determinado paciente, com uma doença neurológica importante está internado. Ele precisa de atenção fi- sioterapêutica de um fisioterapeuta respiratório para os cuidados devidos ao sistema 30 respiratório durante a internação, como manejo da ventilação mecânica, retirada de secreções e manutenção da qualidade respiratória. Porém, ele também precisa de um fisioterapeuta neurofuncional, que vai trabalhar na área neurológica com o processo de recuperação, para que o corpo tenha funcionalidade dentro da terapia intensiva e que essa funcionalidade seja mais rapidamente recuperada após o período de terapia. Nesse exemplo, nós temos uma única profissão atendendo a um paciente, porém são necessários dois profissionais, com especialidades diferentes, agindo com o mesmo objetivo em um único paciente. Logo, é a mesma profissão, com especialidades dife- rentes, atuando pela recuperação de um paciente. Isso é multidisciplinaridade, que também se repete com relação a mais especialidades e em todas as profissões da saú- de. Uma forma interessante de pensar é que em multidisciplinaridade o centro é a profissão, mas em multiprofissionalidade o centro é o paciente. Multidisciplinaridade. Fonte: Elaborada pelo autor (2021). 31 Multiprofissionalidade. Fonte: Elaborada pelo autor (2021). Grandes emergências e catástrofes Em um cenário em que normalidade não existe, encontrar a melhor forma de prestar um atendimento de saúde é muito difícil. Todos os profissionais disponíveis devem, obrigatoriamente, trabalhar de forma multiprofissional. Além de suas especialidades e experiência, a necessidade de manter a ordem local é fundamental para o sucesso do que se pretende fazer. É assim em um cenário de catástrofe. Nessa situação, a multiprofissionalidade é muito mais ampla do que apenas os profissionais de saúde. Outras profissões, de nível técnico e superior, mesmo sem formação clínica, tornam-se essenciais para que um centro de assistência de saúde funcione perfeitamente. Profissionais técnicos e com habilidades 32 manuais fazem parte desse contextode auxílio logístico e estrutural de um hospital de campanha, ajudando a recuperar a ordem social, permitindo que os profissionais de saúde exerçam seu trabalho e apliquem seu talento da melhor forma possível. Em um cenário de catástrofe, a multiprofissionalidade é iniciada com os três níveis de liderança do local de assistência dos profissionais: lideranças primária, secundária e terciária. A liderança primária é a principal, pois será a chefia de comando de toda a equipe de saúde. Deve ser escolhido um profissional para liderar, tendo em mente que as pes- soas precisam se relacionar facilmente com ele, considerando, neste contexto, todas as outras profissões e suas lideranças. O líder primário pode ser de qualquer profissão e atuará exclusivamente na gestão do sistema de saúde. A liderança secundária é a liderança de cada unidade de saúde. É comum que, em cenários de catástrofes, dividam-se as alas de assistência por criticidade (nível de ne- cessidade de cuidado dos pacientes). Os pacientes que demandam cuidados mais in- tensivos ficam em um determinado setor onde um grande aparato tecnológico é ne- cessário, além de centro cirúrgico e de equipamentos para manutenção da vida. Pacientes que demandam menor complexidade de cuidados ficam em outro setor, completamente separado e com outro perfil de abordagem dos profissionais de saúde. Em geral, são locais mais voltados ao cuidado de enfermos moderadamente graves, que necessitam de medicação e terapias específicas para acelerar o processo de recuperação. Existe também um local onde os pacientes, em geral, provêm de uma demanda não absorvida pela saúde tradicional. Não são necessariamente vítimas diretas da tragédia, mas são pessoas que ficaram sem assistência de saúde na região após o acontecimen- to. Esses ficam em outra área, com um perfil ambulatorial de assistência. De acordo com o perfil da catástrofe, necessidade local e compreensão do cenário (os aspectos são individualmente analisados) outras subdivisões podem ser cria- das. Cada local destinado a um tipo de assistência de saúde terá seu próprio líder (liderança secundária). Este também pode ser de qualquer profissão da saúde e será o responsável por gerenciar e liderar aquele local de assistência. A liderança terciária é a liderança imediata de cada profissão. Por exemplo, indepen- dentemente de qual seja o local de trabalho de um fisioterapeuta (ala de maior ou menor complexidade), existe um líder de todos os fisioterapeutas, responsável por manter a união da equipe e promover multidisciplinaridade. 33 Na imagem a seguir é possível identificar um exemplo de divisão dos espaços de traba- lho em um hospital de campanha. As divisões são apenas ilustrativas e não uma repre- sentação fiel das atividades desempenhadas nesse local. Fonte: Agência Verde-Oliva - Exército Brasileiro. Adaptada (2021). Além do corpo clínico, todos os profissionais que auxiliam no funcionamento do espa- ço hospitalar (ou qualquer espaço de saúde) levantado em meio ao caos social, fazem parte da equipe e são representados dentro das lideranças. Também se exerce a multiprofissionalidade entre as profissões que não são direta- mente ligadas à área da saúde. Essas são fundamentais para que todo o processo ocorra com segurança e qualidade técnica, além de garantir alimentação, manuten- ção e consertos de equipamentos, limpeza, segurança, logística, material e outras atividades indispensáveis. 34 RESUMO Abordamos até aqui aspectos relevantes do contexto da multiprofissionalidade. Além disso, apresentamos a multidisciplinaridade e o papel fundamental que ela desempe- nha em um contexto multiprofissional mais amplo. Tratamos, ainda, da responsabilida- de de algumas profissões da saúde e sua característica profissional, incluindo aspectos de formação. No contexto das catástrofes e grandes emergências, demonstramos a importância da multiprofissionalidade, explicando níveis de lideranças, que, por sua vez, englobam e vão além de profissionais do campo da saúde. 35 REFERÊNCIAS BABCOCK, C. et al. Chicago medical response to the 2010 earthquake. In: Haiti: translating academic collaboration into direct humanitarian response. Disaster Med. Public Health Prep. 2010;4(2):169-73. GAMULIN, A.; VILLIGER, Y.; HAGON, O. Disaster medicine: mission in Haiti. Rev. Med. Suisse. 2010;6(248):973-7. STEINMAN, M. et al. Terremoto no Haiti: uma experiência multiprofissional. Einstein (São Paulo), 2011;9(1), 1-7. 36 Telessaúde Brasil O uso de tecnologia em saúde tornou-se fundamental para manutenção e elevação dos níveis de qualidade assistenciais em qualquer tipo de sistema de saúde. No Bra- sil, onde a tecnologia enfrenta limitações como conexão de internet e equipamentos inapropriados, ainda assim tem se tornado cada vez mais comum o uso de estratégias tecnológicas no cuidado do ser humano. O programa Telessaúde Brasil nasceu de iniciativas pequenas em alguns estados, por meio da iniciativa privada. Posteriormente, passou a ser chamado pelo governo de Programa Telessaúde Brasil Redes e agora possui abrangência nacional, integrando o sistema único de saúde – SUS. Esse programa oferece educação, consultoria e con- A tecnologia está em toda a parte, e é quase impossível viver sem contato com algo tecnologicamente avançado. Na área da saúde a tecnologia trouxe celeridade a pro- cessos administrativos, proximidade ao processo de formação dos profissionais e tor- nou mais acessível ao público em geral programas de saúde, especificamente aqueles que abordam prevenção. Ainda assim, a tecnologia pode fragilizar os dados que tra- fegam através da internet, embora medidas legais tenham sido tomadas para manter esse nível de segurança. Não apenas a segurança, mas também a confiabilidade dos dados colhidos e transmiti- dos são importantes. Por isso, a prática clínica baseada em evidência torna-se cada vez mais forte e presente em todos os níveis assistenciais de saúde. Globalização do conhecimento e a tecnologia na saúde moderna4 37 sultas clínicas sem barreiras geográficas a todos os brasileiros a partir de meios de comunicação seguros. TELESSAÚDE Assistência Educação Gestão A atuação do telessaúde é baseada em assistência, educação e gestão. Em assistên- cia, esse programa contribui aproximando grandes especialistas de locais com dificul- dade de acesso a esses profissionais. Um exemplo clássico seria um posto de saúde no interior da região Norte do Brasil. Lá, o governo conseguiu alocar na clínica de saúde da família um médico clínico geral, que atende a todas as necessidades da população. Diante de um quadro muito específico, quando uma investigação guiada por um es- pecialista é necessária, o telessaúde torna-se uma nova alternativa para solucionar esse problema. A opção padrão seria enviar o paciente até o local mais próximo, onde exista um espe- cialista, para que ele pudesse conduzir uma consulta e emitir seu parecer. Com o teles- saúde, é possível que o clínico geral, que já acompanha esse paciente presencialmente em sua cidade de origem, receba orientações vindas de um especialista que esteja em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, ajudando a interpretar de forma visual aquilo que a distância impede. Essa modalidade também permite contribuição intelectual e aplicação de toda a experiência do especialista, no caso daquele usuário, tudo isso sem grandes processos logísticos e financeiros. Existem ainda casos em que um cirurgião, utilizando um equipamento muito especí- fico que esteja na cidade de São Paulo, por exemplo, possa realizar uma cirurgia em um paciente que está no interior da Bahia. Ainda é possível que um cirurgião de uma grande escola médica europeia possa realizar uma cirurgia em um paciente na região Centro-Oeste do Brasil. Obviamente, é um processo que demanda equipamentos específicos, além de cone- xão de internet extremamente segura e estável. No entanto, é capaz de aproximar grandes especialistas da população-alvode sua assistência. Afinal, a área da saúde re- quer estudo, extremo aperfeiçoamento em técnicas muito específicas, para que, no final, seja possível beneficiar o ser humano, elevando o nível de qualidade do cuidado que ele recebe. Do ponto de vista da educação, o modelo telessaúde contribui levando atualização profissional a diversos especialistas em todo o Brasil e no mundo. Além disso, é possí- 38 vel que formações tradicionais, como especialização e cursos de pós-graduação, sejam realizadas por intermédio de diversos meios de comunicação, aproximando o profis- sional de saúde das informações mais atuais. O ensino de novas técnicas ou diretrizes também é feito a partir do telessaúde — por exemplo, durante uma campanha de vacinação: como os indivíduos devem ser vacinados? Partindo do princípio de que os profissionais atuantes já sabem realizar o processo natural e padrão de vacinação, uma atualização técnica e o compartilhamento de um único protocolo pode ser realizado por meio dos canais educacionais de telessaúde. A gestão da saúde acontece de forma local e presencial. Cada serviço de saúde, in- dependentemente de seu tamanho, possui um gestor. Porém, a troca de experiência gerencial tem benefícios com a facilidade do telessaúde. O gestor de um centro de reabilitação no extremo Norte do Brasil pode trocar experiências gerenciais com o administrador de um centro de reabilitação na capital de São Paulo. Um outro gestor de um centro de saúde para assistência de indígenas pode trocar experiências com o gestor de um centro de saúde na capital do Rio de Janeiro. Não existe interferência ge- rencial por meio de telessaúde, mas as reuniões gerenciais, assim como a troca de ex- periência entre gestores, podem acontecer mediante o uso regular dessa ferramenta. Proteção dos dados clínicos Sem dúvida, a tecnologia facilita o acesso a saúde, principalmente de pessoas que mo- ram distantes dos grandes centros no Brasil, e essa realidade se repete em qualquer lugar do mundo. Da mesma forma, existe um nível maior de segurança que precisa ser respeitado nessa nova realidade. Quanto maior o número de informações sobre alguém existir em meios eletrônicos, maior o risco desses dados seguirem um rumo er- rado, e em algum momento prejudicarem aquela pessoa que apenas queria ter acesso a tratamento médico. Exemplos corriqueiros são noticiados em todo o mundo, como pessoas que, sabendo minimamente do estado clínico de pacientes internados, conseguem dados pessoais e o contato dos familiares para extorqui-los, como se a unidade hospitalar estivesse solicitando pagamentos, contratos e valores adicionais, algo que não acontece nas uni- dades de saúde oficiais e regulares. Esse é um exemplo simples, mas ilustra como a fragilidade de dados ainda é uma rea- lidade no Brasil e em qualquer outro lugar. Visando dar maior segurança a dados de pessoas que são trocados a partir de meios impressos e eletrônicos, o Brasil instituiu, no ano de 2018, uma lei específica que trata de dados pessoais, pela primeira vez abor- dando também dados clínicos que constam em prontuários. Essa lei dá muito mais 39 segurança ao processo de assistência de saúde, principalmente àqueles que utilizam meios eletrônicos. A Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pes- soa jurídica de direito público ou privado, com o objetivo de proteger os di- reitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimen- to da personalidade da pessoa natural. Esse documento ainda apresenta seus fundamentos, sempre priorizando a garantia do sigilo das informações de qualquer indivíduo. Outros países também apresentam leis e normas internas para segurança de dados, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, válido em todo o continente europeu, e o Data Protection Act, na Inglaterra. Nos Estados Unidos não existe uma legislação geral que trate de dados pessoais, porém muitos processos de coleta, trata- mento e distribuição desses dados já possuem legislações específicas. Prática baseada em evidência científica Os dados clínicos são de extrema importância para a saúde. Sabe por quê? Toda a área da saúde é baseada em evidências científicas, que nada mais são do que um conjunto de dados, tratados estatisticamente, que seguem métodos es- pecíficos, demonstrando determinados resultados. Os dados pessoais, especificamente os dados clínicos, são muito valiosos para a área da saúde. Existem empresas, indústrias e centros de pesquisa que pagam fortunas por um banco de dados que contenham desde gênero, idade, peso e altura, até dados especí- ficos de uma população que em algum momento foi avaliada por uma ou várias formas de exames clínicos. Grandes centros de estudos, em todo o mundo, frequentemente 40 recebem financiamento para a realização de pesquisas com seres humanos para que esses dados sejam coletados, tudo de acordo com critérios rigorosos de bioética. Esses dados, quando reunidos e tratados de forma estatística adequada, tornam-se importantes fontes de pesquisas científicas, que contribuem muito para a saúde e nos ajudam a entender o melhor caminho para tratar dos nossos pacientes. É possível afirmar que todo estudo publicado trata de uma evidência científica, mas se essa evidência reflete a realidade e seguiu um método bem traçado, se seus objetivos foram bem definidos e seus resultados bem apresentados, aí é outra história! Para ser evidência, de fato, é necessário que os dados apresentados sejam de alta qualidade. E essa alta qualidade é reflexo de um método muito rigoroso e bem executado. Depois de publicado, todo trabalho científico é avaliado individualmente por cada lei- tor. Mesmo sendo uma avaliação individual e pessoal, ela segue padrões já determina- dos pelo próprio meio científico. Quando você escolhe uma técnica para tratar o seu paciente, é mandatório que ela seja baseada em evidência científica. Porém, como escolher a me- lhor evidência para então retirar a melhor técnica, e consequentemente, obter o melhor resultado com seu paciente? A resposta dessa pergunta não é simples, mas também não é tão difícil. Uma palavra pode definir o melhor modelo de escolha de uma evidência científica: confiança! O quanto pode-se confiar nos dados que foram apresentados por determinado estu- do? Esses dados representam a verdade? Caso repita-se o método utilizado nesse estu- do na prática clínica, os resultados serão os mesmos que os apresentados no estudo? Tudo isso nos remete a um princípio muito conhecido e às vezes pouco lembrado na área científica: o princípio da reprodutibilidade. 41 Estratégia PICO Quando você realiza um método científico seguindo os mesmos padrões apresentados em um estudo, o resultado deve ser 95% semelhante aos resultados publicados, salvo diferenças previamente explicadas na contextualização do estudo. REPRODUTIBILIDADE A prática baseada em evidência propõe que os problemas clínicos apresentados, prin- cipalmente em estudos científicos, sejam desmembrados e reorganizados em uma es- tratégia conhecida como PICO. PICO é um acrônimo para Paciente, Intervenção, Comparação e Outcomes (desfecho). P Paciente I Intervenção C Comparação O Outcomes/Desfecho P Paciente Pode ser um único paciente, um grupo de pacientes com uma condição particular ou um problema de saúde. I Intervenção Representa a intervenção de interesse, que pode ser terapêu- tica, preventiva, diagnóstica, prognóstica, administrativa ou relacionada a assuntos econômicos. C Comparação Definida como uma intervenção padrão, a intervenção mais utilizada ou nenhuma intervenção. O Outcomes/ Desfecho Resultado da pesquisa realizada. 42 Dessa forma, os pontos principais da construção de novas pesquisas são separadamen- te analisados, elevando a qualidade de todo o processo de pesquisa e sua confiabili- dade. Nesse ponto encontramos outra palavra mágicaquando o assunto é prática ba- seada em evidência. A mesma palavra que nos levou ao princípio da reprodutibilidade, agora volta para ser explicada e mostrar sua importância técnica: confiança. GRADE – Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation Para classificar um estudo científico pela confiança gerada por seus resultados, existe o sistema GRADE (Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evalua- tion). Ele divide a qualidade das evidências científicas em quatro níveis: alto, modera- do, baixo e muito baixo. Esses níveis são interpretados com base na figura a seguir. Qualidade da evidência pelo GRADE. Alto O efeito verdadeiro aproxima-se do efeito estimado en- contrado. Moderado O verdadeiro efeito provavelmente aproxima-se da esti- mativa do efeito, mas há a possibilidade de ser substan- cialmente diferente. Baixo O efeito verdadeiro pode ser substancialmente diferente do efeito estimado. Muito baixo O efeito verdadeiro é provavelmente propenso a ser subs- tancialmente diferente da estimativa do efeito. O GRADE também apresenta cinco fatores que podem diminuir o nível da evidência, especificamente nos ensaios clínicos: • Limitação do estudo: corresponde aos aspectos internos do próprio estudo científico, como os critérios metodológicos e as formas de controle que foram uti- lizadas nos vieses do estudo. Do mesmo modo, a aleatoriedade de alocação dos indivíduos participantes e o mascaramento, ou cegamento, dos avaliadores e par- ticipantes, além do controle de perdas e seus motivos, bem como a descrição do desfecho do estudo. Qualquer falha nesses itens implica queda significativa do ní- vel de evidência do estudo. C O N FI A N Ç A C O N FI A N Ç A 43 • Inconsistência: está ligada às diferentes estimativas do efeito que a interven- ção terá e de que forma será apresentada no resultado. A variabilidade dos resul- tados pode sugerir diferenças clínicas na população. Logo, direciona para um erro anterior do momento da análise dos dados (erro na fundamentação e execução do método), o que também contribui para queda do nível de evidência do estudo. • Imprecisão: ligada diretamente a um termo chamado intervalo de confiança. Grandes intervalos de confiança em uma população pequena sugerem que o cál- culo necessário para que os resultados obtidos expressem a verdade estão equivo- cados e comprometem o nível do estudo. • Direcionamento: diretamente ligado ao público participante. Esse fator veri- fica se os critérios de inclusão e exclusão da população participante da pesquisa estão de acordo com os objetivos, se acompanham o processo metodológico e se são coerentes com os resultados apresentados ao final do estudo. Um erro na seleção dos indivíduos pode descaracterizar completamente um estudo científico. • Viés de publicação: refere-se a quando a evidência obtida é apresentada em poucos estudos e não obedece ao critério de reprodutibilidade. Se as amostras são muito pequenas, se o estudo foi financiado por uma agência que tenha conflito de interesse direto com o assunto abordado ou se foi publicado em um periódico que aceita pagamentos para garantir efetiva da publicação do trabalho, esses critérios diminuem muito a qualidade da evidência científica presente no estudo. A partir desse sistema é possível avaliar o grau de confiança que um estudo científico apresenta e escolher adequadamente a fonte para seus estudos e prática clínica. 44 RESUMO Neste capítulo pudemos perceber a importância que o programa telessaúde tem em estratégias assistenciais em todo o Brasil, bem como verificamos que é um movimento que rompe barreiras geográficas. Além disso, observamos que o cuidado e o sigilo com os dados, sejam de meios físicos ou digitais, são uma preocupação em todo o mundo e devem ser parte da rotina clínica de todos os profissionais de saúde que lidam com dados clínicos diariamente. Aprendemos também que a prática clínica é baseada em evidências científicas, que, por sua vez, devem ser sustentadas pela qualidade dos estudos que as inspiram, assim como a confiabilidade que eles transmitem. Para isso, ferramentas básicas e simples foram apresentadas, tornando o processo de escolha de estudos científicos mais fácil e dinâmico. Todo esse conhecimento contribui para a sua formação enquanto um profissional que atende aos sistemas internacionais, compondo um perfil globalizado e contemporâneo. 45 REFERÊNCIAS GUYATT, G.H.; OXMAN, A. D.; KUNZ, R.; VIST, G. E.; FALCK-YTTER, Y.; SCHUNEMANN, H. J. What is “quality of evidence” and why is it important to clinicians? BMJ. Clinical research ed. 2008;336(7651):995-8. GUYATT, G. H.; OXMAN, A. D.; VIST, G. E.; KUNZ, R.; FALCK-YTTER, Y.; ALONSO-COELLO, P. et al. GRADE: an emerging consensus on rating quality of evidence and strength of recommendations. BMJ. Clinical research ed. 2008;336(7650):924-6. ASLAM, S.; EMMANUEL, P. Formulating a researchable question: a critical step for faci- litating good clinical research. Indian journal of sexually transmitted diseases and AIDS. 2010;31(1), 47–50. PEREIRA, C. C. A. ; MACHADO, C. J. Telessaúde no Brasil – Conceitos e aplicações. Ciên- cia e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro , v. 20, n. 10, p. 3283-3284, Out. 2015.