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Estomatite Vesicular – Bovinos e Equinos INTRODUÇÃO A Estomatite Vesicular é uma doença infecciosa aguda causada por vírus (família Rhabdoviridae, gênero Vesiculovirus) que acomete animais ungulados e biungulados, em especial equinos, bovinos e suínos, mas também pode acarretar patologia em espécies de mamíferos silvestres (há indícios de que possam ser reservatórios naturais) e no homem, sendo, portanto, uma zoonose. Ovinos e caprinos são considerados relativamente mais resistentes, raramentre demonstrando sinais clínicos. ETIOLOGIA E TRANSMISSÃO O vírus em questão possui forma de projétil e seu comprimento varia de 100 a 430 nanômetros, enquanto o diâmetro vai de 45 a 100 nanômetros (DE STEFANO et al., 2002). É formado por 5 polipeptídeos principais, denominados L, G, N, NS e M com o ácido nucleico constituído por uma molécula linear de ácido ribonucleico de fita simples com polaridade negativa; o nucleocapsídeo possui simetria helicoidal e é arrodeado por uma camada lipoproteica, em que saem projeções de 5 a 10 nanômetros e que formam a glicoproteína viral (MURPHY et al., 1995). Segundo DE STEFANO et al., 2002, essa região é a responsável pela interação com as células suscetíveis e na neutralização e diferenciação de sorotipo viral. Há dois tipos de vírus da Estomatite Vesicular imunologicamente distintos, classificados como New Jersey (NJ) e Indiana (Ind) (ALONSO FERNANDES & SONDHAL, 1985). De acordo com FEDERER et al., 1967, este último sorotipo apresenta ainda três subtipos com características antigênicas distintas, sendo eles: Indiana I (amostra clássica), Indiana II (Cocal e Argentina) e Indiana III (Alagoas). Além disso, há possibilidade de que os ciclos dos dois sorotipos sejam diferentes pois o Ind foi mais observado em animais silvestres arbóreos e semi-arbóreos (DE STEFANO et al., 2002) , enquanto TESH et al. (1969) demonstraram taxa de anticorpos mais elevada nestas espécies do quem em silvestres terrestres. Os animais infectados liberam o vírus no ambiente por meio de secreções e excreções, a exemplo da saliva e líquido vesicular, disseminando a infecção para outros animais suscetíveis pelo contato com a pele e mucosas lesionadas. Além disso, insetos hematófagos podem transmitir o vírus enquanto se alimentam, especialmente mosquitos do gênero Lutzomyia e moscas da família Simuliidae. SINAIS CLÍNICOS E PATOGENIA Quanto aos sinais clínicos, após um período de incubação de 24 a 72 horas, https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B37_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B3_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B15_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B55_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B55_ref primeiramente costuma haver salivação excessiva. As lesões características são vesículas esbranquiçadas nos lábios, narinas, cascos, tetos e na boca. Segundo LETCHWORTH et al., 1999, as lesões nos tetos acometem 2 a 10% das vacas, além de muitos animais biungulados apresentarem lesões no espaço interdigital e coroa do casco, que cicatrizam completamente em duas a três semanas. A febre costuma aparecer junto das vesículas ou um pouco antes. Após o rompimento das vesículas, os animais apresentam úlceras e erosões que podem causar anorexia, rejeição de bebida e claudicação. Entretanto, estudos demonstram que ao expor bovinos a aerossóis do vírus, não se formam vesículas na língua, lábios e mucosa bucal, e sim anticorpos neutralizantes; lesões vesiculares somente foram obtidas inoculando-se o vírus por via intradérmica ou subcutânea, na língua ou gengiva ou esfregando material contaminado na mucosa com abrasões (HANSON, 1952; JOHNSON et al., 1969), sugerindo que a penetração do vírus não ocorre em pele íntegra (KNIGHT & MESSER, 1983). A formação das vesículas que evoluem para úlceras acontecem devido à replicação do vírus nas células epiteliais da mucosa oral, língua, gengiva, lábios e tetos. Essa replicação viral causa degeneração celular e acúmulo de líquido seroso entre as camadas epiteliais, formando vesículas esbranquiçadas. Em seguida, a pressão interna das vesículas aumenta devido ao líquido formado, rompendo-as e expondo o tecido subjacente. Após o rompimento, surgem úlceras e erosões dolorosas que dificultam a alimentação e a locomoção. Ademais, o processo inflamatório com presença de neutrófilos, macrófagos e linfócitos gera a dor, salivação intensa e a febre. De acordo com ACHA & SZYFRES, 1986, a incidência da doença pode variar consideravelmente nos rebanhos afetados, sendo geralmente inaparente com somente 10-15% dos animais afetados apresentando sinais clínicos. A mortalidade é muito baixa em bovinos e equinos, sendo espécimes com menos de um ano de idade dificilmente afetadas de acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal. Entretanto, suínos afetados pela variante imunológica New Jersey possuem alta taxa de mortalidade (OMSA, 2000). EPIDEMIOLOGIA Em relação à epidemiologia, trata-se de uma enfermidade restrita às Américas, ocorrendo nos Estados Unidos, México, América Central e América do Sul. ACHA & SZYFRES, 1986, constataram que a Estomatite Vesicular possui ocorrência sazonal, ocorrendo no verão em climas temperados e imediatamente após as chuvas em climas tropicais. DE STEFANO et al., 2002, ao comparar os trabalhos de JOHNSON et al., 1969 e TESH et al., 1970, verificou que ambos compartilham a hipótese de que o vírus supracitado seja um vírus de planta que sofre modificação ao ser ingerido por insetos que se alimentam destas, passando assim o vírus para outras plantas e animais que se alimentassem das plantas ou fossem picados pelos insetos, explicando a alta morbidade em determinadas regiões, especialmente em períodos de maior proliferação de vegetação, além da distribuição irregular da doença. No Brasil, surtos https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B32_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B20_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B27_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B29_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B1_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B1_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B1_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B1_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B27_ref https://www.scielo.br/j/aib/a/rMhC8QS3Pkjk8rXmyZwYnjM/?lang=pt#B56_ref foram documentados desde 1964 com circulação do sorotipo Indiana, sendo os subtipos identificados Cocal e Alagoas (OLIVEIRA et al., 2023). Este primeiro caso foi relatado após análise de amostra de epitélio oral de equinos doentes no estado de Alagoas, com o subtipo que leva seu nome. Outros casos ocorreram em diferentes estados como São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Santa Catarina, Sergipe envolvendo também o subtipo Cocal. Ocorrências do New Jersey não foram verificadas devido à prevalência em clima temperado, divergindo do clima tropical brasileiro. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS E MÉTODOS DIAGNÓSTICOS A Estomatite Vesicular apresenta sinais clínicos semelhantes a doenças vesiculares em bovinos, sendo a principal a Febre Aftosa. O cuidado é essencial pois de acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal, o Brasil é totalmente livre da Febre Aftosa com vacinação desde 2018 e sem vacinação desde 2025. Pelos sinais clínicos idênticos, a diferenciação só é feita pelo isolamento viral ou PCR. Em regiões com presença de animais biungulados e equinos na mesma propriedade, observa-se se os equinos ficarão doentes ou não para auxiliar nessa diferenciação, uma vez que a Febre Aftosa apenas acomete biungulados. Outras doenças em bovinos também classificam diagnóstico diferencial para Estomatite Vesicular, incluindo a EstomatiteNecrótica (ou difteria dos terneiros), caracterizada por úlceras profundas e amareladas na cavidade oral, com odor fétido; Diarreia Viral Bovina, que causa erosões e úlceras não apenas na boca, mas por todo o trato digestivo e Dermatite Digital Bovina, que causa lesões ulcerativas nos cascos. Nos equinos, o Herpesvírus equino constitui um diagnóstico diferencial, uma vez que pode causar lesões vesiculares ou ulcerativas na mucosa oral e a Arterite Viral Equina, que causa febre, edema e afecções respiratórias, podendo também apresentar úlceras na mucosa bucal. Em ambas as espécies, traumatismos mecânicos, intoxicações e queimaduras térmicas e químicas que causem lesões vesiculares e úlceras também podem ser confundidas com a Estomatite Vesicular, sendo essencial análise do histórico clínico e anamnese bem feitas, além da realização de testes diretos e sorológicos. Os testes diretos detectam a presença do vírus, podendo ser através do isolamento viral, onde há inoculação em cultivo celular, ovos embrionados ou camundongos lactentes (incluindo método intracerebral em jovens), utilizando amostras de secreções orofaríngeas, fluídos vesiculares, epitélio oral e podal. Pode-se fazer a virusneutralização, onde se mistura vírus com soro e observa-se a neutralização em células, a partir de amostra de soro sanguíneo ou material das lesões. O ELISA (ensaio imunoenzimático ligado a enzimas) imunoenzimático pode ser feito com o mesmo tipo de amostra usado na virusneutralização, bem como para teste de fixação de complemento baseado em reação sorológica para identificar antígenos virais. Este primeiro constitui um ensaio para detectar antígenos virais e é rápido e muito aplicável na rotina. Já o RT-PCR (reação em cadeia de polimerase por transcriptase reversa) em tempo real baseia-se na amplificação do RNA viral, utilizando secreções orofaríngeas, fluído vesicular e fragmentos de epitélio. É considerado mais sensível que o isolamento, mas detecta apenas o RNA, e não o vírus vivo. Quanto aos testes de detecção de anticorpos, há o ELISA de bloqueio ou competição, caracterizado como ensaio enzimático para anticorpos específicos, utilizando soro sanguíneo e realizado como triagem rápida. A neutralização pode ser realizada para avaliar a capacidade do soro em neutralizar o vírus, com os anticorpos aparecendo entre 4-8 após o início da infecção e podendo persistir por até 3 anos. Por fim, há a fixação de complemento com reação sorológica para anticorpos, usado em complemento ao ELISA e neutralização. PROFILAXIA E CONTROLE Devido às características citadas anteriormente, a profilaxia e controle da Estomatite Vesicular baseiam-se em manejo sanitário e higiênico adequado: controle dos insetos vetores, desinfecção nos locais com maior concentração animal como estábulos, bretes e currais, visando reduzir as áreas contaminadas pelo vírus e destruição do leite proveniente de animais com sinais clínicos; considerando a alta sensibilidade do vírus ao calor, o leite de animais que não apresentam sinais clínicos poderá ser retirado da propriedade e enviado para pasteurização ou para processamento de produtos submetidos a tratamento térmico. IMPACTO SOCIOECONÔMICO E TRATAMENTO Além destes aspectos, a Estomatite Vesicular também apresenta alto impacto econômico, uma vez que os animais apresentam queda na produção de carne e leite, no caso dos bovinos e possui sintomatologia igual à Febre Aftosa, estando classificada como doença de notificação obrigatória de categoria 2 na lista do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), ou seja, qualquer caso suspeito deve ser notificado, assim como a Febre Aftosa. Ademais, a perda financeira está também relacionada aos casos de mastite com perda parcial ou completa da função mamária devido às lesões da doença. Nos equinos, lesões na coroa do casco podem evoluir até para descolamento, dificultando locomoção e impedindo participação em rodeios e competições. Somado a isso há o custo de tratamento, que no caso da Estomatite Vesicular é de suporte, com adaptação da alimentação para uma mais fácil de processar como concentrado pastoso em caso de lesões que estejam fazendo o animal parar de se alimentar voluntariamente. Em situações em que ele não esteja se hidratando, é possível realizar fluidoterapia intravenosa e, de modo geral, realizar antissepsia das lesões com iodo povidona, clorexidina 0,05% a 2%, água oxigenada ou permanganato de potássio. DISCUSSÃO E RESULTADOS ISOLAMENTOS VIRAIS PRIMORDIAIS NO BRASIL Os casos supracitados em São Paulo ocorreram em Rancharia em 1966, onde PUSTIGLIONE NETTO et al. (1967) relataram o primeiro isolamento do subtipo Ind 2 Salto em equinos, utilizando-se amostras do epitélio de animais doentes e com a sorologia relevando alto título de anticorpos. Aconteceram também casos em 1979 em Ribeirão Preto, relatados por ARITA & ARITA (1983), que isolaram o subtipo Ind 2 Cocal em equinos. Surtos em 1986 ocorreram em bovinos e equinos no Vale da Paraíba, onde PITUCO et al. (1989) descreveram o primeiro isolamento do subtipo Ind 3 em bovinos. O estudo foi complementado por KOTAIT (1990) que estudou a sorologia de 2.181 bovinos e 483 equinos, obtendo respectivamente 1,64% e 4,36% de prevalência. Vale ressaltar que o estudo verificou maior prevalência logo após o período de chuvas, reforçando a importância dos insetos como parte do ciclo da doença. Já em 2001 em Araçatuba, DE STEFANO (2001) realizou análise sorológica de 1.099 amostras de bovinos, observando prevalência de 28 animais com anticorpos contra o sorotipo Indiana. Em Minas Gerais, um estudo realizado em 1977 por ROCHA ARAÚJO et al. (1977) relataram o primeiro isolamento do subtipo viral Ind 3 em bovinos. No Ceará em 1984, ARITA et al. (1985) descreveram o primeiro isolamento do subtipo Ind 3 Alagoas (cepa Canindé) em bovinos. Já em 1998 em Bela Vista, no estado de Santa Catarina, LOPES et al. (1999) isolaram o vírus Ind 3 em bovinos, porém não foram detectados anticorpos específicos nos soros analisados. Completando a análise de estudos primordiais sobre Estomatite Vesicular em território brasileiro, houve o caso de 1984 em Sergipe, onde ALONSO FERNANDES & SONDAHL (1985) isolaram o subtipo Ind 3 em equinos. Os estudos citados, realizados entre os anos de 1964 e 2001 são de extrema importância por serem pioneiros no isolamento de subtipos virais da Estomatite Vesicular no país, indicando uma tendência de prevalência e ocorrência em bovinos e equinos, demonstrando o que esperar do panorama futuro da doença e auxiliar na formação de inquéritos epidemiológicos. Desse modo, faz-se de imprescindível relevância compará-los com estudos mais atuais. PANORAMA CONTEMPORÂNEO DA EV O estudo de JESUS, Taile Katiele Souza de et al. (2020) aborda a presença de anticorpos contra a Estomatite Vesicular e identifica fatores de risco em equídeos das mesorregiões Leste e Oeste Potiguar, ou seja, no Rio Grande do Norte. A metodologia incluiu amostragem sanguínea de 809 equídeos de 90 propriedades em 16 municípios, sendo a coleta realizada entre julho de 2018 e fevereiro de 2019. O diagnóstico foi feito pela técnica de soroneutralização, enquanto um questionário foi aplicado para valiar os fatores de risco, submetido posteriormente à análise estatística com EpiInfo 3.5.2, obtendo 95% de confiabilidade. Os resultados demonstraram 24,6% de animais soropositivos, sendo, entre esses, 3,2% do Leste Potiguar e 45,7% no Oeste Potiguar. Em relação aos sorotipos, Ind 2 apresentou 3,8% de prevalência e Ind 3 24,5%. A coinfecção de Ind 2 e Ind 3 representou 15,1%. Os fatores de risco associados avaliados pela regressão logística multivariada incluíram: criação em áreas rurais da mesorregião Oeste, sistemas extensivo e semi-intensivo, pastagens alagadas, ausência de quarentena, falta de desinfecção das instalações e manutenção dos animais enfermos nos rebanhos. Outro estudo foi realizado por BEZERRA, Camila deSousa (2018), no estado da Paraíba. O objetivo do estudo foi semelhante ao realizado no Rio Grande do Norte, avaliando fatores de risco, prevalência da doença a nível de rebanho e animal e identificação de agrupamentos espaciais de rebanhos positivos. A metodologia utilizada dividiu o estado da Paraíba em três estratos para análise, sendo eles: Sertão, Borborema e Agreste/Zona da Mata. A amostragem foi realizada em rebanhos e vacas com idade maior ou igual a 24 meses. No total foram verificadas amostras de 2.279 animais de 468 propriedades com diagnóstico a partir da soroneutralização viral e com critério de positividade variando conforme tamanho do rebanho. A prevalência constatada nos rebanhos foi de 38,5% no estado inteiro, 80,6% no Sertão, 7,0% na Borborema e Agreste/Zona da Mata 2,6%. Em relação às vacas, houve prevalência de 26,2% no estado, 48,2% no Sertão, 6,3% na Borborema e 1,9% no Agreste/Zona da Mata. Dessa forma, Sertão e Borborema foram classificados como os dois clusters significativos. Ademais, os fatores de risco complementaram os identificados no estudo anteriormente citado, sendo eles: produção mista, rebanhos com mais de 23 animais, presença de cervídeos, aluguel de pastagens e compartilhamento de fontes de água. No Ceará, Antunes, João Marcelo Azevedo de Paula et al. (2019) investigaram a ocorrência de focos da Estomatite Vesicular a partir de casos suspeitos de síndrome vesicular notificados ao Serviço Veterinário Oficial do Ceará entre 2013 e 2015. Foram avaliadas 51 notificações, onde houve coleta de soro, epitélio e líquido esôfagofaríngeo conforme as lesões. Estas amostras foram enviadas ao Laboratório Nacional Agropecuário (LANAGRO) para diagnóstico e adicionado a isto, também foi feito levantamento epidemiológico para análise de fatores de risco. Como resultado, 24 propriedades foram confirmadas como foco, com presença do subtipo Ind 3 em 8 focos (fixação de complemento 50%). Quando levados em consideração os casos confirmados por laboratório, fatores de risco não puderam ser identificados, com diferenças significativas aparecendo em comparação de casos em focos e não focos. Os fatores de risco identificados foram tipo de criação, uso de instalações e equipamentos de vizinhos, mão de obra compartilhada entre propriedades, participação de animais em eventos de aglomeração, proximidade com rodovias, lixões, aeroportos, frigoríficos e entre outros, sendo esses fatores válidos para investigação epidemiológica de suspeitas e não fatores confirmados de transmissão. Os últimos dois estudos verificados ocorreram no estado do Maranhão. O primeiro foi realizado por DE ARRUDA, Roberto CN et al. (2015), analisando casos notificados ao Serviço Veterinário Oficial do Maranhão. Em levantamento dos sinais clínicos prevalentes nas suspeitas constatou-se sialorreia, perda do epitélio lingual, lesões abertas com bordas amareladas em gengivas, lábios, língua e mucosa oral em bovinos e sialorreia e lesões abertas em mucosa oral e lábios em equinos. Nestes animais com sintomas foram coletadas amostras de soro para realização de ELISA e soroneutralização viral, com diagnóstico diferencial para febre aftosa e fragmentos epiteliais de bovinos sendo enviados ao Instituto Biológico de São Paulo para PCR. Todos os animais apresentaram resultado negativo para febre aftosa, sendo todos na verdade reativos para Estomatite Vesicular nos testes sorológicos. O PCR confirmou o agente como subtipo Ind 3 Alagoas. Por fim, o artigo de ARAÚJO SOARES, José Wendel et al. (2025) aborda surtos de Estomatite Vesicular em bovinos da Amazônia Maranhense, mais especificamente nos municípios de Cururupu, Santa Helena e Turilândia. O fluxo investigativo acompanhou 16 bovinos avaliados como suspeitos de doença vesicular. Os sinais clínicos mais recorrentes foram: claudicação (75%), perda de peso (100%), sialorreia e lesões epiteliais na boca (100%), lesões na banda coronária (62%) e lesões entre os cascos (75%). Para diagnóstico, amostras de tecido epitelial foram submetidas a RT-qPCR, onde os resultados confirmaram Estomatite Vesicular em todos os animais, com diagnóstico diferencial de Febre Aftosa descartado. Além disso, verificou-se que um dos bovinos apresentou coinfecção por Parapoxvirus, vírus da Estomatite Papular Bovina. Os animais se recuperaram em um intervalo de tempo entre 3 e 4 semanas, espontaneamente ou com uso de antibióticos de amplo espectro como oxitetraciclina, enrofloxacina, florfenicol, amoxicilina e cefalexina. É importante ressaltar que, por se tratar de uma virose, os antibióticos não tratam a doença em si, mas sim ajudam a prevenir e tratar infecções bacterianas secundárias nas lesões ulceradas da boca, língua e cascos. O artigo destaca também a relevância de práticas de biosseguridade e manejo adequado para minimizar a disseminação do vírus, prevenir contaminação humana e evitar agravamento das lesões epiteliais. Na verdade, este ponto de boas práticas está presente em todos os estudos, demonstrando que muitos surtos poderiam ser evitados e minimizados com práticas de desinfecção, limpeza adequada de recintos e instalações, controle de trânsito, quarentena com novos animais e animais doentes, evitar eventos de aglomeração de animais, vigilância epidemiológica passiva e ativa de animais e seus produtos. Esses estudos mais recentes também convergem em outros aspectos, como o fato de todos confirmarem presença do vírus Indiana, especialmente o subtipo 3, com ênfase para a cepa Alagoas. Também reforçam a semelhança clínica com a Febre Aftosa, sendo o principal diagnóstico diferencial. Ainda em relação a esse tópico, destaca-se o papel do Serviço Veterinário Oficial como intermediário das notificações de síndrome vesicular em cada estado, sendo essencial juntamente à investigação epidemiológica que monitora as ocorrências e focos, tomando medidas para prevenir, controlar e erradicá-las, com especial cautela pois a Estomatite Vesicular é extremamente similar à Febre Aftosa, num cenário onde atualmente o Brasil é livre sem vacinação desta última enfermidade. Ademais, o impacto socioecônomico é igualmente enfatizado, pois devido à queda de produção e perda de peso pelos animais, impacta o comércio não somente nacional mas também internacional, perdendo credibilidade na visão de países compradores dos produtos. ANÁLISE COMPARATIVA – ESTUDOS PRIMORDIAIS E ATUAIS Comparando os artigos iniciais sobre a Estomatite Vesicular no Brasil (1964-2001) com os mais atuais (2015-2025), percebe-se a prevalência dos estudos antigos em regiões do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, com ênfase para São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Já os recentes, demonstram foco no Nordeste, incluindo Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Maranhão. Essa diferença ocorre por alguns fatores somados, como a maior concentração de rebanhos comerciais e centros de pesquisa presentes entre as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste principalmente na época em que os primeiros artigos foram escritos, principalmente considerando que eram esses estados que tinham infraestrutura laboratorial para realização de isolamento, que era o foco dos antigos estudos. Ainda hoje essas regiões concentram animais e tecnologias, porém com o tempo houve uma maior expansão da pecuário bovina e equina para o semiárido, com crescente relevância econômica da pecuária nordestina para o mercado nacional. As condições ambientais favoráveis à propagação da doença no Nordeste como alagamentos resultando em proliferação de insetos vetores contribui para a recente casuística e estudos na região, além da maior vigilância sanitária após a descentralização das ações do MAPA. É possível notar que os estudos retrógrados utilizam testes de sorologia básica como imunodifusão e soroneutralização, enquanto nos contemporâneos técnicas avançadas como ELISA, RT-qPCR e análise multivariada de risco são mais presentes. Os antigos eram pontuais e buscavam realizar os primeirosisolamentos virais da doença, enquanto os recentes abordam estudos epidemiológicos amplos com centenas ou milhares de animais, análise espacial e fatores de risco, além do fato de que nos antigos é possível observar uma variedade maior de agentes analisados, como Ind 2 (Salto e Cocal) e Ind 3 (Alagoas e Canindé), ao passo que os recentes estudos demonstram presença praticamente apenas do Ind 3 Alagoas. Como Rocha, Célio Souza da et al. (2020) analisam em seu artigo, esse fato se deve ao desaparecimento ou substituição dos subtipos Ind 1 e Ind 2 , pois estes foram caracterizados por circulação restrita e surtos pontuais, possivelmente sendo eliminados por barreiras ecológicas como clima e sazonalidade, uma vez que estes tipos eram mais recorrentes nas regiões Sul e Sudeste, que são mais úmidas e frias e apenas o Ind 3 tendo se adaptado ao semiárido nordestino; a disponibilidade de vetores, já que mosquitos e flebotomíneos hematófagos proliferam majoritariamente em ambientes tropicais e semiáridos; presença de hospedeiros silvestres como cervídeos na região; competição viral com outros vírus vesiculares ou mesmo o Parapoxvirus, criando pressão seletiva, principalmente em relação ao subtipo Ind 3 que se adaptou ao semiárido. Além disso, práticas de manejo intensivo no Sul e Sudeste aplicadas no passado favoreciam surtos pontuais do Ind 1 e Ind 2, com os atuais sistemas extensivo e semi-intensivo do Nordeste sendo adequados para a manutenção do Ind 3 e há também o papel da pressão sanitária, com vigilância atuante significativamente com mais relevância no passado concentrada nas regiões Sul e Sudeste, o que pode ter auxiliado na redução ou eliminação da circulação dos antigos subtipos. Devido a isto, o Nordeste recebia uma pressão sanitária consideravelmente inferior, o que possibilitou a permanência do Ind 3 na região, tornando-se, assim, endêmico no Nordeste. META-ANÁLISE SOBRE PREVALÊNCIA DE ANTICORPOS DA EV Sobre a prevalência de anticorpos contra a Estomatite Vesicular em bovinos e equinos, realizou-se meta-análise envolvendo os trabalhos de Rodriguez et al. (1990), De Anda et al. (1992), Atwill et al. (1993) e Mumford et al. (1998). De acordo com os resultados, o vírus NJ apresentou maior soroprevalência do que o Ind, com valores entre 36% e 94,2% em bovinos e 37% em equinos, demonstrando ampla capacidade de circulação e manutenção em rebanhos. Sobre o Ind, os valores variaram de 13% a 21% e não apresentaram clara correlação com fatores ambientais, possuindo um ciclo diversificado e menos compreendido. Rodriguez et al. (1990), contribuiu com estudos demonstrando que a presença de anticorpos não impede reinfecção e que os títulos podem permanecer elevados por anos, porém sem proteção clínica eficiente. A análise de Atwill et al. (1993), foi determinante quanto à associação da prevalência dos sorotipos virais com fatores ambientais, concluindo que a altitude e tipo de bioma influenciam a soropositividade do NJ, sendo um estudo precursor da ideia de ciclos múltiplos de transmissão desse sorotipo. Mumford et al. (1998) contribuíram com estudos relacionados à idade dos animais, concluindo que a prevalência aumenta com a idade, indicando exposição cumulativa. Além disso, confirmaram ampla faixa etária de bovinos e equinos com anticorpos. Por fim, De Anda et al. (1992) observaram ausência de casos clínicos mesmo em regiões enzoóticas, demonstrando que o vírus da Estomatite Vesicular circula significativamente na forma subclínica.