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Aplicações de controlo na indústria Instrumentação e sensores CONTEÚDO 1. Objetivos 2. Introdução 3. Critérios de seleção de um sistema de controlo 4. Exemplos típicos de controlo na indústria Fornos Secadores Controlo da combustão Controlo de nível Permutadores de calor Reator de central nuclear 5. Resumo 6. Bibliografia Aplicações de controlo na indústria | 3 OBJETIVOS • Estabelecer os requisitos de funcionamento dos sistemas de controlo adequados, de acordo com as exigências do sistema. • Analisar o funcionamento dos sistemas de medição e controlo típicos nas indústrias. INTRODUÇÃO Uma das conquistas mais importantes da humanidade teve lugar durante a Revolução Industrial. A partir daí, tornou-se evidente a importância de dispor de um processo sequencial, rigoroso e o mais automatizado possível, com o objetivo de obter um produto em grandes quantidades a um custo relativamente baixo. Atualmente, a indústria em grande escala baseia-se na utilização contínua de maquinaria e processos controlados através de dispositivos mecânicos e eletrónicos. O emprego no setor industrial reinventou-se e continua a fazê-lo, uma vez que um operador necessita de uma maior qualificação técnica e multidisciplinar, dado que é exigido o manuseamento e a compreensão de tecnologia atualizada. Este módulo centra-se na análise dos diferentes tipos de sensores e atuadores que se encontram frequentemente em processos de caráter industrial, bem como na identificação dos tipos de sistemas de controlo, com o objetivo de compreender a intervenção de um dispositivo atuador em função de uma variável física ou química a medir. Será utilizado como base o livro «Instrumentação industrial», de A. Creus [1]; W. Bolton [2] e J.P. Holman e W. J. Gajda [3]. CRITÉRIO DE SELEÇÃO DE UM SISTEMA DE CONTROLO A escolha de um sistema de controlo pode ser vista como um compromisso entre a qualidade de controlo pretendida e o custo desse sistema. Por exemplo, do ponto de vista económico, atualmente não há grande diferença entre um controlador PI e um PID, pelo que é possível optar por um controlador PID, que oferece maior flexibilidade caso seja necessário. Como orientação aproximada para o controlo ideal, podem ser considerados os seguintes circuitos de controlo: • Tudo-nada (on-off): utilizado no controlo de nível e temperatura em processos de grande capacidade (adapta-se a uma velocidade de reação lenta e apresenta um tempo de atraso mínimo). • Flutuante (de velocidade constante): adequado para processos com tempos de atraso reduzidos. As variações de carga são muito rápidas. • Proporcional: pressão, temperatura e nível, onde o desvio permanente da variável, uma vez estabilizada em relação ao ponto de consigna, não constitui um problema. • Proporcional e integral: adapta-se à maioria das aplicações, incluindo o caudal. • Proporcional e derivado: quando é necessária uma grande estabilidade com um erro mínimo e não é necessária uma ação integral. • Proporcional, integral e derivado: mais adequado para processos com mudanças rápidas e atrasos significativos (controlo de temperatura em permutadores de calor). EXEMPLOS DE CONTROLO TÍPICOS NA INDÚSTRIA Nesta secção, são apresentados exemplos dos sistemas de controlo mais frequentemente utilizados, nomeadamente fornos, secadores, permutadores de calor e controlo de nível. Fornos Os fornos têm como objetivo facilitar o processo de cozedura, muito utilizado na indústria cerâmica. Normalmente, o forno é organizado em três zonas: pré-aquecimento, cozedura e arrefecimento (figura 1). A carga é transportada a uma velocidade determinada entre as zonas. A temperatura é regulada na zona de cozedura, onde se encontram os queimadores de combustível. A temperatura na zona de pré-aquecimento é alcançada através da circulação controlada de ar quente, proveniente da zona de arrefecimento. Salvo em casos especiais, em que se possa medir diretamente a temperatura das peças, as temperaturas são as correspondentes às zonas do forno. Para a medição da temperatura, utilizam-se termopares de cromel-alumel (máximo 950 - 1200 °C) ou de platina-ródio (máximo 1400 °C), dependendo das temperaturas a medir. Utilizam-se mangas cerâmicas de mullita de sílica-alumina ou de alumínio recristalizado. Os reguladores atuam sobre uma válvula solenóide ou sobre válvulas pneumáticas equipadas com servomotor eletropneumático ou digitopneumático. A zona de cozedura pode ser dividida em várias zonas de controlo com regulação independente entre si. São utilizados reguladores do tipo «tudo ou nada», de nível flutuante ou um regulador P/PI/PID. A regulação da tiragem tem duas tomadas de controlo ligadas em lados opostos à entrada ou saída da zona de ignição. O controlador atua, neste caso, sobre o ventilador de saída de ar para manter a tiragem desejada. Aplicações de controlo na indústria | 4 Figura 1. Esquema de regulação num forno túnel típico. Secadores Os secadores têm como objetivo obter o produto sólido com pouca humidade. Os evaporadores concentram o produto na forma líquida ao evaporar a água. O modelo de secador contínuo de evaporação rápida (flash), que transporta o produto numa corrente de ar quente e, em pouco tempo, reduz a sua humidade até ao valor final. A temperatura variável (que depende da humidade e é mais fácil de medir do que a humidade diretamente do produto) é controlada de forma contínua. O controlo (normalmente PID) é geralmente em cascata, utilizando a temperatura de saída como variável primária e a temperatura do forno como secundária (figura 2). A Figura 2 apresenta um esquema com os instrumentos de controlo associados. O produto, na forma de pó húmido, entra no circuito após o forno e é seco durante o percurso pelo tubo vertical. O queimador do forno possui controlos auxiliares para monitorização da chama, uma válvula solenóide com rearmamento manual para interromper o fluxo de combustível, um pressostato e termóstatos para alarmes de pressão máxima e mínima e de temperatura. O modelo de secador rotativo consiste num cilindro de grande comprimento no qual é introduzido o produto húmido. Nesse cilindro circula ar quente. O controlo é também, geralmente, em cascata e normalmente PID, tal como no caso anterior. A figura 3 mostra um exemplo. Controlo da COMBUSTÃO A regulação da combustão, no caso de uma caldeira a vapor, baseia-se na manutenção constante da pressão do vapor no seu interior. As variações de pressão são consideradas como uma medida da diferença entre o calor retirado da caldeira sob a forma de vapor e o calor fornecido. O controlador da pressão do vapor ajusta a válvula de controlo do combustível. O caudal de ar gera um sinal que é modificado por um relé de relação para ajustar a relação entre o ar e o combustível. Em seguida, passa para um controlador que a compara com o sinal de caudal de combustível. Se a proporção não estiver correta, é emitido um sinal para o servomotor de comando do ventilador ou para a válvula borboleta, de modo a ajustar a relação combustível-ar. Existem as seguintes características de combustão: • Caudal de combustível – caudal de ar em série: O controlador de pressão ajusta o ponto de consigna do controlador de caudal de combustível e atua através do relé de relação combustível-ar, como ponto de consigna do controlador de ar. As variações no caudal de combustível influenciam lentamente o sinal de pressão de vapor, pelo que o controlador «mestre» é ajustado para uma resposta rápida. A principal desvantagem é que, em caso de falha de ar, o combustível continua a circular e acumula-se, com risco de explosão. Aplicações de controlo na indústria | 5 Figura 2. Secador de evaporação rápida. Retirado de: instrumentação industrial, Antonio Creus. 2010. Vapor Produto húmido Produto seco TT TRC TRC TT Figura 3. Secador rotativo. Retirado de: Instrumentação Industrial, Antonio Creus. 2010. • Caudal de ar – caudal de combustívelem série: O controlador de pressão (mestre) ajusta o sinal de ar. Isto é feito através de um relé de relação que ajusta o controlador de combustível. Elimina a possibilidade de formação de mistura explosiva caso falhe o sinal de ar de combustão. • Pressão de vapor – caudal de combustível/caudal de vapor – caudal de ar em série: O sistema caracteriza-se por manter com maior segurança a relação correta ar-combustível, mesmo que o combustível não seja medido corretamente. O controlador de pressão de vapor regula o controlador de caudal de combustível. O transmissor de caudal de vapor regula o controlador de caudal de ar no sistema de controlo de combustão. As flutuações no caudal de vapor não são tão rápidas como as da pressão na linha principal de vapor. • Caudal de ar – caudal de combustível em paralelo: A principal vantagem deste sistema é o seu controlo direto do combustível e do ar. De facto, para manter uma relação correta combustível-ar, convém incorporar um relé de relação manual no sistema. O sistema está limitado a caldeiras com pequenas variações de carga. Controlo de nível O sistema de controlo da água de alimentação pode ser implementado de acordo com a capacidade de produção da caldeira, tendo em conta que cada caso deve ser analisado individualmente. Em caldeiras de pequena capacidade (inferior a 1000 kg/h), a regulação pode ser do tipo «tudo ou nada», com dois alarmes de nível alto e baixo que acionam a bomba de alimentação de água. Em caldeiras de média capacidade (entre 2000 e 4000 kg/h), pode ser utilizado um controlador de flutuador com um reóstato acoplado eletricamente a uma válvula motorizada elétrica. Este conjunto tem um ponto de consigna situado no ponto médio do campo de medição do nível do flutuador. TRC TT TRC Produto Saída do produto Aplicações de controlo na indústria | 6 Em caldeiras de alta capacidade (superior a 4000 kg/h), podem ser considerados três tipos de regulação: • De um elemento (nível) • De dois elementos (nível e caudal de vapor) • Três elementos (nível, caudal de vapor e caudal de água) Na regulação de nível de um elemento, o único instrumento utilizado é o controlador de nível que atua sobre a válvula de alimentação de água. Para medir o nível, utiliza-se um instrumento do tipo deslocamento ou de pressão diferencial de diafragma. Na regulação de nível de dois elementos, esta é conseguida com um controlador de caudal de vapor e um controlador de nível, cujos sinais de saída são comparados num relé de relação que atua diretamente sobre a válvula de controlo da água de alimentação. Na regulação de três elementos, elimina-se o fenómeno de oscilação do nível de água que ocorre quando o caudal de vapor muda rapidamente. É um sistema recomendado em sistemas com cargas dinâmicas. Existem três variáveis que intervêm principalmente no sistema: • O caudal de vapor • O caudal de alimentação de água • O nível da água Para que sejam estáveis, o caudal de vapor e o caudal de água devem ser iguais. Por outro lado, o nível de água deve ser reajustado para manter limites determinados. A medição do caudal de vapor é efetuada preferencialmente com um bocal (que facilita a redução da erosão causada pelas gotas de água arrastadas pelo vapor). O caudal de água de alimentação pode ser medido através de uma placa orificiada ou de um bocal. Os instrumentos de medição e atuação podem interagir de várias formas; os mais frequentes (figura 4) utilizam um sinal antecipado (feedforward) do caudal de vapor que se sobrepõe ao controlo de nível (procurando dar mais prioridade às diferenças entre os caudais de água e de vapor do que às variações do nível face a uma procura súbita). Permutadores de calor Os permutadores de calor são habitualmente utilizados em processos industriais, como, por exemplo, na refrigeração, pasteurização, esterilização, etc. Nos permutadores de calor, existem diversos sistemas de controlo, devido aos vários fatores a ter em conta: a pressão, as flutuações no caudal, as variações de temperatura, etc. Um esquema de controlo simples que atua sobre a válvula de vapor com um controlador de temperatura é apresentado na figura 5. Na figura 6, o nível de condensado no serpentino de vapor é regulado indiretamente por meio de um controlador de temperatura do produto que aciona uma válvula de controlo na linha de saída do condensado. A vantagem deste sistema é que elimina os problemas de purga do condensado que o anterior apresentava, ao manter constante a pressão do vapor no interior do serpentino. A desvantagem é a lentidão que isso introduz na resposta quando as condições mudam, uma vez que, se o caudal do produto diminuir, o controlador de temperatura ordena o fecho da válvula e o serpentino demora algum tempo a encher-se com o condensado do vapor. Figura 4. Controlo de nível. Retirado de: Instrumentação industrial, Antonio Creus. 2010. FT e) Três elementos Relé comparador SP LRC LT FT Aplicações de controlo na indústria | 7 TT Condensado TIC Figura 5. Controlo de temperatura na linha de vapor. Retirado de: Instrumentação industrial, Antonio Creus. 2010. Figura 6. Controlo da temperatura na linha de condensado. Retirado de: Instrumentação Industrial, Antonio Creus. 2010. A figura 7 mostra uma variante do sistema anterior, na qual o purgador clássico de condensado é substituído por um controlo de nível de condensado. Continua a ser utilizado um controlador convencional que atua sobre a válvula de vapor para controlar a temperatura do produto. A figura 8 mostra um controlo em cascata entre o controlador de temperatura (primário) e um controlador de pressão de vapor (secundário). Desta forma, as variações de pressão do vapor na linha de alimentação são corrigidas pelo controlador de pressão, e as variações de temperatura por outras causas são corrigidas pelo controlador de temperatura. No caso de o controlo estável face a perturbações ser uma tarefa crítica, é possível utilizar instrumentação mais complexa (e dispendiosa) para combinar o controlo antecipativo (feedforward) com o controlo clássico de retroalimentação. A figura 9 mostra como se calcula a posição da válvula de controlo utilizando a equação K1Wpx t1- K2(onde Wpé o caudal do produto; t1e t2são as temperaturas do produto na entrada e na saída, respetivamente). Nos permutadores de calor entre líquidos, é habitual estabilizar a temperatura do líquido de aquecimento/refrigeração num sistema separado. Para melhorar o tempo de resposta, utiliza-se um controlador de temperatura que atua sobre uma válvula de três vias de derivação que desvia o permutador. Reator de central nuclear Numa central nuclear, utiliza-se um reator nuclear que gera calor, o qual é transferido para um sistema primário de refrigeração e para geradores de vapor. Figura 7. Controlo de temperatura na linha de vapor com controlo de nível no condensado. Retirado de: instrumentação industrial, Antonio Creus. 2010. TRC TT TRC TT LT Condensado TIC Aplicações de controlo na indústria | 8 K1 Wp t1 XY TRC K1 Wp t1 - K2 FIC FT TT FT TT Wp t1 Figura 8. Controlo em cascata. Retirado de: Instrumentação Industrial, Antonio Creus. 2010. Multiplicador Somatório t2 Figura 9. Controlo antecipado mais realimentação pneumática. A produção de calor (energia) no reator nuclear é obtida através da fissão dos átomos do material combustível por bombardeamento com neutrões. O combustível tem uma reação em cadeia que pode ser controlada por meio de barras de controlo (por exemplo, cilindros de carbono) que são introduzidas no combustível para absorver neutrões e reduzir progressivamente a reação em cadeia (quanto mais as barras de controlo são introduzidas, mais o processo de reação em cadeia é interrompido) (figura 10). O número de neutrões fornece uma medida aproximada da potência de saída. Para o ajustar, posicionam-se as barras de controlo. O sistema de controlo utiliza como sinais de entradaos seguintes parâmetros: • O fluxo de neutrões: o reator contém detetores móveis de neutrões para o controlo do fluxo de neutrões. • As temperaturas: o reator contém termopares de cromel-alumel para obter os dados da distribuição de temperaturas. • A pressão e o caudal do fluido de refrigeração: contém medidores de pressão diferencial tanto do núcleo do reator como da bomba de refrigeração, transmissores de temperatura e de pressão, medidores de caudal do refrigerante, etc. • A posição das barras de controlo e a potência de saída da central. Um programa é responsável por calcular a utilização das barras de controlo para atingir o nível de potência desejado. Além desse programa, existe um sistema de paragem que permite realizar tanto paragens programadas como paragens de emergência. Uma paragem de emergência num reator nuclear pode ocorrer devido a uma perda do caudal do refrigerante primário ou a um aumento excessivo da potência de saída. Em qualquer um dos casos, verifica-se uma reação em cadeia que ultrapassa um nível de segurança, pelo que é necessário agir rapidamente e com total fiabilidade nestas situações (evitando que haja uma situação de emergência que não seja detetada). TRC PRC TT Aplicações de controlo na indústria | 9 Figura 10. Esquema de controlo do reator nuclear. Os sistemas de segurança têm, portanto, em conta os seguintes aspetos: • Isolamento do sistema de contenção com uma válvula de bloqueio em cada linha que atravessa as paredes do reator. • Manutenção do sistema de barras de controlo. Se houver algum problema nas barras de controlo (por não funcionarem de acordo com as especificações ou por serem utilizadas incorretamente), é necessário que o sistema de segurança acione as barras de segurança, cuja rápida atuação (cerca de meio segundo) permite evitar danos maiores. Com o objetivo de melhorar a fiabilidade (incluindo a confiabilidade), recorre-se à redundância nos instrumentos. Por exemplo, é possível utilizar três instrumentos de medição independentes cujos sinais de saída são enviados para um sistema de votação que compara os três valores; se um deles for diferente dos outros dois, o sistema consegue detetar que um medidor está com falha e continuar a operação apesar dessa falha. A configuração da redundância visa cumprir as normas elaboradas para que os sistemas funcionem em diferentes cenários de possíveis problemas. As normas incluem os métodos para testar os contadores de radioatividade, materiais elétricos, motores, resistência ao calor, etc. São introduzidas no dispositivo de segurança falhas de alimentação dos instrumentos, temperatura elevada de refrigeração, nível excessivo de potência de saída, etc., para que este cumpra o esperado. RESUMO Foram analisados os principais critérios de seleção de um sistema de controlo, oferecendo uma orientação básica para se começar. Da mesma forma, foram analisados exemplos típicos de controlo na indústria, tais como: • Fornos • Secadores • Controlo de combustão • Controlo de nível • Permutadores de calor Em cada um destes exemplos, foram abordados aspetos como: • Objetivo • Processo de medição • Possível mecanismo de controlo (ação). Também foram incluídos, a título de exemplo, os aspetos de um reator de uma central nuclear. BIBLIOGRAFIA [1] W. Bolton, Instrumentação e controlo industrial, segunda edição. Espanha: Paraninfo, 1996. [2] A. Creus, Instrumentação industrial, oitava edição. Espanha: Marcombo, 2010. [3] J.P. Holman e W.J. Gajda, Métodos experimentais para engenheiros, segunda edição. Espanha: McGraw-Hill, 1986.