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BRITO, S.M.R.C. 2020 188 METABOLISMO LIPÍDICO DIGESTÃO E ABSORÇÃO LIPÍDICA Figura 86- Digestão e absorção lipídica. Os ácidos graxos da dieta são armazenados no tecido adiposo na forma de triacilgliceróis. A digestão dos triglicerídeos ou triacilgliceróis da dieta começa no estômago com a lipase gástrica que hidrolisa uma pequena quantidade dos triglicerídeos. No intestino delgado, a hidrólise continua sendo catalisada pela lipase pancreática. A alcalinidade do suco pancreático secretado no duodeno eleva o pH da mistura digestiva, permitindo a hidrólise dos triacilgliceróis pela lipase pancreática e por esterases não específicas, que Fígado Estômago Tecido adipos o Oxidação de ácidos graxos TAGs são transportados por lipoproteínas Sais Biliares e digestão de gorduras Lipídios da dieta Armazenamento de TAGs BRITO, S.M.R.C. 2020 189 hidrolisam as ligações éster dos ácidos graxos. A lipase pancreática cliva os ácidos graxos das posições C-1 e C-3, enquanto as outras lipases e esterases clivam em C-2. O zimogênio pró-lipase produzido pelo pâncreas é convertido em lipase ativa. A lipase na presença de sais biliares e colipase se liga às gotículas de triglicerídeos e catalisa a hidrólise destes em: monoacilgliceróis e ácidos graxos que são emulsificados com sais biliares junto com o colesterol, vitaminas lipossolúveis. Os sais biliares são moléculas anfipáticas que agem como detergentes biológicos com uma face polar e uma outra apolar. Formam micelas na água. Além de emulsificar lipídios, os sais biliares também facilitam a ligação da gota de gordura ao complexo lipase/colipase que hidrolisa os triacilgliceróis (TAG). As micelas deixam a superfície da gota de gordura para promoverem a passagem dos ácidos graxos e monoacilgliceróis através da membrana, mas nesta passagem, os sais biliares não são absorvidos, retornam para a gota de gordura para ligar-se a outras moléculas de ácidos graxos e monoacilgliceróis liberados para emulsificá-los. O suco pancreático possui uma esterase para atuar em ésteres de colesterol e ésteres da vitamina A. O pâncreas secreta também uma fosfolipase para catalisar a remoção do ácido graxo da posição C-2 de fosfolipídios. Figura 87- Hidrólise de triacilgliceróis (TAG) pela lipase pancreática, formação de micelas com sais biliares e absorção lipídica. Triacilglicerol (TAG) Monoacilglicerol (MAG) Ácido graxo livre (AGL) Gota de gordura Micela TAG AGL, MAG Mucosa celular AGL e MAG Lipase/colipase Micela de sais biliares BRITO, S.M.R.C. 2020 190 Os principais sais biliares humanos são: glicolato de sódio e o taurocolato de sódio, derivados do ácido cólico. Os sais biliares são produzidos no fígado e utilizados no intestino delgado para emulsificar os ácidos graxos e outros lipídios. O ácido cólico é sintetizado a partir do colesterol, antes de secretá-lo na bile, ocorre a conjugação deste para formar um sal biliar. No processo de conjugação, participam o grupo carboxila do ácido cólico e a glicina ou taurina para formar os ácidos glicocólico e taurocólico, respectivamente. Os ácidos biliares conjugados formam sais de sódio. Estes derivados são ácidos mais fortes e facilmente ionizados diante do pH do intestino delgado. Figura 88- A conjugação do ácido cólico com glicina e taurina forma o ácido glicólico ou taurocólico, respectivamente. Os ácidos graxos de cadeia curta e média (10 carbonos ou menos) estão presentes nos alimentos em pequenas quantidades são absorvidos diretamente pela mucosa intestinal para o sangue da veia porta e liberados no fígado como ácidos graxos livres. Estes ácidos graxos não formam micelas com sais biliares durante a o processo de absorção lipídica e não circulam através de quilomícrons, portanto, podem ser úteis em algumas situações terapêuticas. Os ácidos graxos de cadeia longa são reesterificados nas células epiteliais do intestino delgado e os triglicerídeos formados, junto com outros lipídios da dieta são complexados para formar as lipoproteínas chamadas de quilomícrons (QM). Estes últimos seguem pelos vasos linfáticos até a circulação sanguínea. Os quilomícrons circulam de 1 a 2h após a digestão dos triglicerídeos tornando o plasma turvo. Os triglicerídeos dos QM são hidrolisados a ácidos graxos e glicerol no tecido adiposo pela lipase lipoprotéica (LPL) estimulada pela insulina. Os ácidos graxos são esterificados no tecido adiposo e armazenados como gotas de triacilgliceróis. O glicerol segue pela circulação sanguínea e em determinados tecidos pode ser fosforilado para formar glicerol-3-fosfato numa reação que consome ATP, catalisada Formação de sais biliares Acido cólico Glicina Conjugação do ácido biliar para formar o sal biliar Ácido glicólico Ácido taurocólico Taurina BRITO, S.M.R.C. 2020 191 pela glicerocinase. Um outro destino do glicerol livre é a síntese de glicose pela via de neoglicogênese no fígado e rins. As lipoproteínas são conjuntos esféricos compostos de uma parte lipídica (triacilgliceróis, colesterol, fosfolipídios e vitaminas lipossolúveis) e uma parte protéica (Apoproteínas). As apoproteínas podem ser: Estruturais - Estabilizam a lipoproteína. Exemplos: ApoB-48 (produzida no intestino) e ApoB-100 (sintetizada pelo fígado). Acessórias – Direcionam o metabolismo da lipoproteína no sangue. Exemplo: ApoC-I, ApoC-II, ApoC-III, ApoE, etc. Esta apoproteínas têm funções importantes para a ligação de enzimas à lipoproteína, tal como a lipase lipoprotéica (LPL). BRITO, S.M.R.C. 2020 192 Figura 90- Estrutura básica de uma lipoproteína. A composição, as propriedades e as apoproteínas das lipoproteínas humanas estão descritas nas tabelas 4 e 5 da página 42 deste trabalho. O metabolismo de lipoproteínas será visto no final deste capítulo. Biossíntese lipídica 1)- Biossíntese de “novo” de ácidos graxos A biossíntese e a degradação de ácidos graxos são vias metabólicas distintas, pois a biossíntese envolve um conjunto de reações e estratégias diferentes daqueles empregados na degradação ou -oxidação. a - Na biossíntese de ácidos graxos, os intermediários são ligados covalentemente ao grupo sulfidrila (-SH) das proteínas carreadoras de acila (ACP), enquanto na degradação de ácidos graxos, os intermediários são ligados ao grupo sulfidrila (-SH) da coenzima A; b- A síntese de ácidos graxos ocorre no citosol da célula, enquanto a degradação ocorre na matriz da mitocôndria; c- Nos animais vertebrados, o sistema ácido graxo sintase é formado por enzimas que formam uma longa cadeia polipeptídica, de modo que as cadeias são indissociáveis. Não existe associação similar entre as enzimas de plantas e bactérias, as sete enzimas formam um complexo multienzimático com cadeias separadas para síntese de ácidos graxos. Em leveduras, o sistema é formado por 2 polipeptídeos multifuncionais com 3 dos sete sítios ativos na subunidade alfa e 4 na beta (NELSON; COX. 2014). Apoproteínas acessórias (ApoC-II , ApoE, etc.) Apoproteínas estruturais (Apo B-100, Apo B-48) Concha de éster de colesterol, triacilgliceróis, e vitaminas lipossolúveis Lipídios de superfície (fosfolipídios, colesterol) BRITO, S.M.R.C. 2020 193 d- A síntese de ácidos graxos requer o NADPH (coenzima reduzida) formando NADP+ (coenzima oxidada), enquanto a degradação requer o NAD+ (coenzima oxidada) formando NADH (coenzima reduzida). BIOSSÍNTESE “DE NOVO” DE ÁCIDOS GRAXOS Abiossíntese de ácidos graxos consiste na condensação de unidades de dois carbonos doados pelo malonil-CoA. O malonil-CoA é formado pela carboxilação do acetil- CoA pela enzima acetil-CoA carboxilase que catalisa a reação com gasto de ATP e participação da vitamina biotina. Em aves e mamíferos, a carboxila da biotina é ligada por covalência à amina de uma lisina. A carboxilação ocorre em duas etapas. Primeiro, forma-se o intermediário carboxibiotina, às custas de ATP. O grupamento CO2 desse intermediário é transferido para o acetil-CoA formando malonil-CoA. Na E. coli, duas outras enzimas participam desta reação a biotina carboxilase e a transcarboxilase, a biotina é ativada por ligar-se de forma covalente à uma proteína carreadora de carboxi-biotina. Acetil-CoA + ATP + CO2 + H2O Malonil-CoA + ADP + Pi Acetil-CoA carboxilase Transporte de grupos acetil da mitocôndria para o citosol Os ácidos graxos são formados no citosol e as unidades de acetil-CoA são formadas na mitocôndria, o transporte do acetil-CoA da mitocôndria para o citosol envolve a condensação desse com o oxaloacetato formando citrato. Em altas concentrações, o citrato atravessa a membrana mitocondrial e no citosol é clivado pela enzima ATP-citrato-liase, formando acetil-CoA e oxaloacetato. Citrato + ATP + CoA + H2O Acetil-CoA + ADP + Pi + oxaloacetato Conforme a Figura 91, o oxaloacetato citosólico formado na transferência de grupos acetil, tem que voltar para a mitocôndria. Primeiro, o oxaloacetato é reduzido a malato por uma malato desidrogenase citosólica. Oxaloacetato + NADH + H+ Malato + NAD+ A seguir o malato é descarboxilado pela enzima málica. Nesta reação forma-se uma grande parte do NADPH consumido na síntese de ácidos graxos. Malato + NADP+ Piruvato + CO2 + NADPH Enzima málica O piruvato formado nesta reação entra na mitocôndria, onde é convertido em oxaloacetato pela piruvato carboxilase. Piruvato + CO2 + ATP + H2O Oxaloacetato + ADP + Pi + 2H+ BRITO, S.M.R.C. 2020 194 Para cada acetil-CoA transferido é formado 1 NADPH. Na síntese do ácido palmítico, são transferidas oito moléculas de acetil-CoA e formados 8 NADPH, os outros seis NADPH necessários para a síntese provêm da via das pentoses-fosfato numa reação catalisada pela glicose-6-fosfato desidrogenase. Fonte: BRITO, S.M.R.C. 2002. Figura 91- Transporte de grupos acetil da mitocôndria para o citosol BRITO, S.M.R.C. Metabolismo de lipídios BRITO, S.M.R.C. 2020 195 BIOSSÍNTESE DE ÁCIDOS GRAXOS CH 3 C O Malonil-CoA CH 2 CC OO O S-CoA Acetil-CoA S-CoA CoA-SHACP-SH+ CH 3 C O + Acetil-ACP CoA-SHACP-SH+ CH 2 CC OO O + Malonil-ACP CH 3 C O -ACP Acetil-ACP CH 2 CC OO O Malonil-ACP + CONDENSAÇÃO CO2 CH 2 CC O CH 3 O S-ACP Acetoacetil-ACP NADPH + H+ NADP+ ACP-SH + REDUÇÃO CH 2 CC O CH 3 OH H S-ACP D-b-hidroxibutiril-ACP S-ACP H 2 O Trans-butenoil-ACP Butiril-ACP NADP + NADPH + H + C CC O CH 3 H H DESIDRATAÇÃO REDUÇÃO S-ACPCH 2 CCH 2 O CH 3 H 2 O (+6 ciclos) Palmitoil-ACP 16 CARBONOS PALMITATO Acetiltransacilase Maloniltransacilase b-Cetoacil-ACP-sintase b-Cetoacil-ACP-redutase Db-hidroxiacil- ACP-desidratase Enoil-ACP- redutase S S-ACP S -ACPS -ACP ACP-SH TiolaseLIBERAÇÃO Figura. 92-A biossíntese “de novo” do ácido palmítico em 7 ciclos de reações. Fonte: BRITO, S.M.R.C. 2002. BRITO, S.M.R.C. 2020 196 Estequiometria da síntese de ácidos graxos Para o 1 mol de palmitato de 16C: Acetil-CoA + 7 malonil-CoA + 14 NADPH + 14 H+ Palmitato + 7CO2 + 14 NADP+ + 8CoA + 6H2O Para formação de malonil-CoA: 7Acetil-CoA + 7ATP + 7CO2 7Malonil-CoA + 7ADP + 7Pi A reação global: 8Acetil-CoA + 7ATP + 14NADPH + 14H+ Palmitato + 14NADP+ + 8CoA + 7ADP + 7Pi + 6H2O São sete ciclos de reações, sendo que 7 moles de H2O são liberadas na etapa de desidratação e 1 mol é consumido na etapa de liberação catalisada pela tiolase ou tioesterase. A síntese do ácido palmítico consome 7ATP e 14 NADPH (fonte de átomos de hidrogênio). Síntese de ácidos graxos em procariontes e plantas superiores Em procariontes e plantas superiores, o malonil-CoA é também o doador das unidades de dois carbonos durante a síntese de ácidos graxos. O sistema enzimático que catalisa a síntese de ácidos graxos saturados de cadeia longa a partir do acetil-CoA, malonil-CoA e NADPH é chamado de ácido graxo sintase e envolve sete reações enzimáticas. Em E. coli, as sete enzimas do sistema ácido graxo sintase formam um complexo multienzimático com a ACP (proteína carreadora de acila). In vitro, as sete enzimas são separadas e não se associam para formar um complexo. A ACP possui na sua estrutura, a fosfopantetoína (derivada da vitamina ácido pantotênico) e um grupo sulfidrila. Durante a síntese de ácidos graxos, a ACP transfere o substrato de um centro ativo para outro. Síntese de ácidos graxos em mamíferos O sistema ácido graxo sintase (AGS-I) de mamífero é um dímero com subunidades polipeptídicas idênticas e multifuncionais. Cada cadeia possui sete centros catalíticos que não se dissociam e correspondem às sete enzimas que existem em separado no sistema BRITO, S.M.R.C. 2020 197 ácido graxo de E. coli. Cada cadeia enovela-se em três domínios unidos por regiões flexíveis: Domínio 1- Unidade de entrada e condensação de substrato, contém acetil-ACP transacilase, malonil-ACP transacilase e -cetoacil-ACP sintase (enzima de condensação). Domínio 2- Unidade de redução, contém a proteína carreadora de acila (ACP), a - cetoacil-ACP redutase, a -hidroxiacil-ACP desidratase e enoil-ACP redutase. Domínio 3- Unidade de liberação do palmitato, contêm a tiolase (também chamada de palmitoil-tioesterase). Assim, sete diferentes centros catalíticos estão presentes em cada cadeia polipeptídica. O dímero, é formado então por duas subunidades multifuncionais que sintetiza duas moléculas de ácidos graxos ao mesmo tempo. As duas cadeias são unidas formando uma estrutura do tipo cabeça-cauda. Cada cadeia contêm um longo e flexível braço de fosfopantoteína (na ACP) que transfere o substrato de um centro catalítico para outro e entre cadeias no dímero. Dominío 2Domínio 1 Dominío 3 Dominío 2 Dominío 1Dominío 3 Fig. 93- Representação esquemática das 2 subunidades multifuncionais da síntese de ácidos graxos numa associação do tipo cabeça-cauda formando um dímero. Fonte: adaptado de VOET; VOET. BIOCHEMISTRY, 1995. Fonte: BRITO, S.M.R.C, 2002. Fig. 92- O sistema ácido graxo sinatse de mamíferos. Um dímero com três domínios em cada cadeia polipetídica. Cada cadeia do dímero sintetiza um ácido graxo, de forma que 2 moléculas de palmitato podem ser sintetizados ao mesmo tempo. BRITO, S.M.R.C. 2020 198 Alongamento e a insaturação de ácidos graxos Em eucariontes, os ácidos graxos mais longos são formados a partir do palmitato na face citosólica da membrana do retículo endoplasmático. Unidades de 2 carbonos são acrescentadas à extremidade carboxílica de ácidos graxos saturados ou insaturados. O malonil-CoA é o doador dos carbonos no processo de alongamento. A introdução de uma dupla ligação cis-9, no estearil-CoA (18C, saturado) para formar o oleil-CoA (18C, insaturado), requer NADH ou NADPH e três enzimas ligadas à membrana: NADH- citocromo b5 redutase, citocromo b5 e uma dessaturase. Estearil-CoA + NADH + H+ + O2 Oleil-CoA+ NAD+ + 2H2O Os mamíferos não possuem enzimas para introduzir duplas ligações além de C-9 na cadeia de ácidos graxos. Portanto, não podem sintetizar o ácido linoléico (18: 2 cis-9, cis- 12) e ácido linolênico (18: 3 cis-9, cis-12 cis-15,). Estes ácidos graxos são ditos essenciais porque são necessários na dieta. A partir destes ácidos graxos da dieta são formados vários outros ácidos graxos insaturados. O ácido linoléico (ou linoleato) é um precursor do araquidonil-CoA (ácido araquidônico condensado com a CoA) por dessaturação e alongamento catalisados por enzimas diferentes do sistema ácido graxo sintase. A porção araquidonil é incorporada em triacilgliceróis e fosfolipídios. O araquidonato derivado de fosfolipídios dá origem aos eicosanóides (icosanóides) que incluem as prostaglandinas, prostaciclinas, tromboxanas e leucotrienos. Regulação da síntese de ácidos graxos A etapa limitante da síntese de ácidos graxos é a reação catalisada pela acetil-CoA carboxilase. A enzima é regulada por modificação covalente e por efetores alostéricos. A insulina ativa a proteína fosfatase A2 que defosforila a acetil-CoA carboxilase, ativando-a. O glucagon e adrenalina desativam a enzima pelo aumento do AMPc na célula e ativação da proteína cinasee A que fosforila a enzima, inativando-a. A acetil-CoA carboxilase é ativada alostericamente pelo citrato. Elevados níveis de palmitoil-CoA inibem a enzima. O palmitoil-CoA inibe a translocase que tranporta o citrato da mitocôndria para o lado citosólico e inibe a enzima glicose-6fosfato desidrogenase que gera NADPH. A síntese e a degradação de ácidos graxos têm uma regulação recíproca, pois no jejum, há aumento dos ácidos graxos livres (AGL ligados à albumina plasmática) devido a ativação da lipase hormônio sensível que é estimulada pelo glucagon e adrenalina, ativando o processo de lipólise (hidrólise de triacilgliceróis). No estado alimentado, os níveis de insulina estão aumentados e há estímulo da lipogênese, ou seja, aumento da síntese de ácidos graxos. O maior sítio de síntese de ácidos graxos em humanos é o fígado. O controle a longo prazo envolve a expressão gênica de enzimas, sendo útil para situações adaptativas. A acetil-CoA carboxilase e o sistema ácido graxo sintase estão em maiores concentrações em animais que jejuaram e em seguida foram realimentados com dietas ricas em glicídios e pobres em lipídios por alguns dias. BRITO, S.M.R.C. 2020 199 Tecido adiposo O tecido adiposo é um importante sítio de interação entre o metabolismo de carboidratos e lipídios. Em mamíferos fora do período de lactação, os principais sítios de síntese de ácidos graxos são o fígado e o tecido adiposo. A grande reserva lipídica é armazenada no tecido adiposo. No tecido adiposo de animais alimentados, a lipase lipoprotéica (LPL) do endotélio dos capilares adjacentes hidrolisa os triacilgliceróis dos quilomícrons e de VLDL (lipoproteína de muito baixa densidade). O glicerol é lançado na corrente sanguínea e os ácidos graxos livres captados pelas células adiposas e imediatamente convertidos em triacilgliceróis. No tecido adiposo branco, o glicerol-3-fosfato necessário para síntese de triacilgliceróis é formado a partir da glicose por um desvio da via glicolítica, na etapa da diidroxiacetona-fosfato. Em adipócitos de ratos alimentados, a glicose captada do sangue é utilizada preferencialmente para a síntese de glicerol-3-fosfato. Mas, uma outra via metabólica está sendo estudada mais recentemente, é a gliceroneogênese. O processo de gliceroneogênese ocorre no fígado e no tecido adiposo, envolvendo a reversão parcial da via glicolítica e conversão de certos aminoácidos, de piruvato e lactato em glicerol-3-fosfato. No tecido adiposo, não ocorre o processo de neoglicogênese pela ausência de 2 enzimas chaves, a frutose-1,6-bifosfatase e a glicose-6-fosfatase. No entanto, os adipócitos possuem as enzimas necessárias para a reversão parcial da via glicolítica até a formação da diidroxiacetona-fosfato que é canalizada para a síntese do glicerol-3-fosfato pela enzima glicerol-3-fosfato desidrogenase, conforme a Figura 96. No tecido adiposo branco, os adipócitos são monoloculares e apresentam uma enorme gota de triacilglicerol que ocupa grande parte do citoplasma da célula, em mamíferos e pássaros exercem o importante papel de reserva de energia para todo o organismo. O controle da lipogênese (síntese lipídica) é bastante complexo e envolve fatores genéticos, neurais, hormonais e nutricionais. Os depósitos de gordura não são fixos, pois os lipídios são continuamente mobilizados e depositados. A esterificação de ácidos graxos no tecido adiposo é ativada pela ação da insulina e inibida por hormônios que ativam adenilato ciclase, tais como, glucagon e adrenalina. BRITO, S.M.R.C. 2020 200 Em adipócitos, o produto do gene obese (ob) é o hormônio leptina (do grego: leptos ou magro) que controla o apetite e o gasto de energia total do organismo. A leptina produzida em adipócitos é lançada no sangue, age através de receptores de membrana inibindo a expressão gênica de neuropeptídeos que estimulam o apetite, tais como, o neuropeptídeo Y, como também pelo estímulo do gasto de energia por termogênese. Além de estimular a perda de peso corpóreo, muitos efeitos centrais e periféricos desse hormônio protéico são descritos na literatura. A seguir veremos as reações de síntese de triacilgliceróis a partir de carbonos da glicose no tecido adiposo (Figura 95) e mais adiante está demonstrada a via de gliceroneogênese (Figura 96). BRITO, S.M.R.C. 2020 201 Fig. 95- Biossíntese de triacilgliceróis no tecido adiposo. Fonte: adaptado de NELSON; COX. Princípios de Bioquímica do Lehninger, 2014. NADH + H + Biossíntese de triglicerídeos No tecido adiposo GLICOSE FRUTOSE-1,6 BIFOSFATO DIIDROXIACETONA-FOSFATO L-GLICEROL-3 FOSFATO ACIL-CoA CoA NAD + TRIACILGLICEROL ÁCIDO LISOFOSFATÍDICO ACIL-DIIDROXIACETONA-P PI ACIL-CoA CoA ÁCIDO FOSFATÍDICO ACIL-CoA 1,2-DIACILGLICEROL ACIL-CoA CoA NADPH + H + NADP + VIA GLICOLÍTICA ÁCIDO GRAXO (1) (2) (3) (4)(5) (6) (7) (8) 1-Aldolase 2-Diidroxiacetona-fosfato aciltransferase 3-Glicerol-3fosfato desidrogenase 4-Glicerol-fosfato acil-transferase 5-Acil-diidroxiacetona-fosfato-redutase 6-lisofosfatidato acil-transferase (1acilglicerol 3P-aciltransferase) 7-Fosfatidato-fosfatase 8-Diacilglicerol-acil-transferase. ÁCIDO GRAXO ÁCIDO GRAXO ÁCIDO GRAXO BRITO, S.M.R.C. 2020 202 D-Frutose 3 L-Glicerol-3- fosfato NAD + NADH + H + 3 2-fosfoglicerato (2PG) Mg 2+ K + H 2 O Piruvato Piruvato CO2 + ATP ADP + Pi Piruvato carboxilase Oxaloacetato Lactato Malato NADH + H + NAD + Malato Malato desidrogenase Citosol Oxaloacetato Malato desidrogenase 3 GTP GDPCO 2 + Fosfoenolpiruvato carboxiquinase (PEPCK) Fosfoenolpiruvato (PEP) Enolase 3 Fosfoglicerato mutase Mg 2+ 3-fosfoglicerato (3PG) 3 3 1,3-Bifosfoglicerato (BPG) ADP Mg 2+ Fosfoglicerato quinase ATP Gliceraldeído- 3-fosfato desidrogenase P NAD + Mg 2+ D-Gliceraldeído- 3-fosfato(G3P) 3 NADH + H + Triose fosfato isomerase 3 Diidroxiacetona- fosfato Glicerol-3-fosfato desidrogenase NADH H + NAD + + NADP + NADPH + H + Enzima málica Aminoácidos CH 3 C C O O O CH 2 CH CH 2 OH O P OH O 2- CH 2 CH C OH O OPO 2- O C C C O OH H C H O O H O CH 2 C C O O C O O O CH 2 C C O OPO 2- O CH 2 CH C OH O O PO 2- O CH 2 CH C O OH O OPO 2- PO 2- CH 2 CH C O OH O P H O 2- CH 2 C CH 2 O OH O PO 2- Gliceroneogênese Fig.96- A via de gliceroneogênese- Conversão de intermediários de trêscarbonos em glicerol-3-fosfato. Fonte: BRITO, S. M.R.; MIGLIORINI, R.H. 2000. BRITO, S.M.R.C. 2020 203 Biossíntese de fosfolipídios Os fosfolipídeos são componentes lipídicos fundamentais de todas as membranas celulares. As enzimas biossintéticas estão associadas ao retículo endoplasmático de células eucarióticas. Nas células procarióticas, as enzimas de biossíntese de fosfatidiletanolamina estão associadas à membrana plasmática. Os triacilgliceróis e fosfolipídeos neutros (fosfatidilcolina e fosfatidiletanolamina) são sintetizados por uma via metabólica comum, a partir do diacilglicerol. Os fosfolipídios ácidos (fosfatidilinositol) são formados a partir do fosfatidato. O CDP-diacilglicerol pode dar origem a fosfatidilserina (em E.coli) e fosfatidilinositol (em procariontes e eucariontes). L-FOSFATIDATO CDP-DIACILGLICEROL CTP PP Fosfatidato citidiltransferase FOSFATIDILINOSITOL FOSFATIDILGLICEROL CARDIOLIPINA FOSFATIDILETANOLAMINA PP Enzima de troca de bases (retículo endoplasmático)sferase FOSFATIDILSERINA SERINA ETANOLAMINA SERINA ETANOLAMINA CO 2 Fosfatidilserina descarboxilase (mitocondrial) Fig98- A interconversão de fosfatidiletanolamina em fosfatidilserina em mamíferos. BRITO, S.M.R.C. 2020 204 Biossíntese do colesterol O colesterol é formado a partir do acetil-CoA em 4 etapas: Acetato (2C) Isoprenóide (5C) Esqualeno (30C) Colesterol (27 C) Estágio1- De acetil-CoA ao mevalonato Nesta primeira etapa três moléculas de acetil-CoA se condensam para formar o 3- hidroximetilglutaril-CoA (HMG-CoA). O HMG-CoA é convertido no mevalonato. As reações desta fase são catalisadas por enzimas citosólicas. Acetil-CoA S-CoA Acetil-CoA S-CoA HS-CoA Acetil-CoA S-CoA S-CoA Acetoacetil-CoA S-CoA Tiolase HS-CoA H 2 O -OO 3-Hidroxi-3-metilglutaril-CoA (HMG-CoA) HMG-CoA sintase HS-CoA 2NADPH + 2H + HMG-CoA redutase NADP + -OO Mevalonato CH 2 OHCH 2 C CH 2 OH C CH 3 C O CH 2 C CH 2 OH C CH 3 CH 3 C O CH 3 C O CH 3 C O C O CH 3 C CH 2 O Fig. 100- As reações iniciais da biossíntese do colesterol. A HMG-CoA redutase catalisa a etapa limitante. BRITO, S.M.R.C. 2020 205 Estágio 2- O mevalonato formado é convertido no isopentenil pirofosfato. A HMG-CoA redutase catalisa a etapa limitante da síntese do colesterol. É a principal enzima de regulação desta via, sendo ativada pela insulina, inibida pelo glucagon através de fosforilação e por ácidos graxos de cadeia longa. Altos níveis de colesterol reduz a atividade da enzima por aumentar a degradação e reduzir a síntese da HMG-CoA redutase. Fig. 101- síntese do isopentenil pirofosfato. CH 2 OHCH 2 C CH 2 OH C CH 3 -OO Mevalonato CH 2 OCH 2 C CH 2 OH C CH 3 P O O O -OO Fosfomevalonato ATP ADP Mevalonato quinase ATP ADP Fosfomevalonato quinase CH 2 OCH 2 C CH 2 OH C CH 3 P O O O O P O O O -OO Mevalonato pirofosfato CH 2 O CH 3 C CH 2 CH 2 P O O O O P O O O H 2 O HCO3 - ATP ADP + PiPirofosfomevalonato descarboxilase Isopentenil pirofosfato BRITO, S.M.R.C. 2020 206 Estágio 3 – Do isopentenil pirofosfato ao esqualeno O isopentenil pirofosfato é isomerizado a dimetilalil pirofosfato (5C) que se condensa com outra molécula de isopentenil pirofosfato para formar uma molécula (C10), o geranil pirofosfato. O geranil pirofosfato se condensa com outra molécula de isopentenil pirofosfato para formar o farnesil (15C). Duas moléculas de farnesil se condensam para formar o esqualeno (30C). Estágio 4 – Numerosas etapas complexas transformam o esqualeno no colesterol. A ciclização do esqualeno, leva à formação do lanosterol que é convertido no colesterol. CATABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS Os ácidos graxos representam uma importante forma de armazenamento de energia em muitos organismos. Os ácidos graxos de cadeia longa possuem muitas unidades –CH2, sendo a grande quantidade de átomos de hidrogênio importantes para a redução do NADP+ e do FAD à NADPH e FADH2, respectivamente. Dessa forma, a oxidação dos ácidos graxos resulta na redução de coenzimas que transferem elétrons para a cadeia de transporte de elétrons, produzindo ATP por fosforilação oxidativa. O armazenamento de triacilgliceróis no tecido adiposo é feita de forma mais anidra, ou seja, com menor hidratação do que o glicogênio no fígado e músculos. Isto permite que Acetato Mevalonato Isopreno Isopentenil pirofosfato Esqualeno Colesterol Fig. 102 A biossíntese do colesterol ocorre em 4 etapas. BRITO, S.M.R.C. 2020 207 grandes quantidades de triacilgliceróis sejam armazenados nos depósitos de tecidos adiposos e constituem a maior reserva de energia. Nos adipócitos, os triacilgliceróis formam uma gota líquida de gordura que ocupa quase todo citoplasma da célula. MOBILIZAÇÃO LIPÍDICA A lipólise ou hidrólise de triacilgliceróis (TAG) nos adipócitos libera ácidos graxos livres (AGLs) para a circulação sanguínea. Os AGLs não esterificados circulam ligados à albumina e podem ser captados por outros tecidos, tais como, músculos e fígado. A hidrólise de TAG (lipólise) é ativada por hormônios como a adrenalina (epinefrina), glucagon e ACTH (hormônio adrenocorticotrópico). Os hormônios se ligam a receptores específicos na membrana plasmática dos adipócitos e induzem a ativação do sistema de proteína Gs que ativa a adenilato ciclase. A adenilato ciclase ativada catalisa a formação de AMP cíclico (AMPc) na célula a partir do ATP. A cascata de transdução de sinal resulta no aumento dos níveis de AMPc na célula que ativa a proteína cinase A (PKA). A PKA ativa a lipase hormônio-sensível (LHS) que hidrolisa a ligação do ácidos graxos do C1 ou C3 do TAG. As ações subsequentes da diacilglicerol-lipase (DAG-lipase) e monoacilglicerol-lipase (MAG-lipase) produzem AGL e glicerol. Os AGL circulam pelo sangue ligados à albumina. -oxidação de ácidos graxos Etapa de ativação Ocorre a condensação do ácido graxo (AG) com a CoA para formar uma ligação tioéster entre o carbono da carboxila do ácidos graxo e o grupo tiol (-SH) da CoA. A reação é catalisada pela acil-CoA-sintetase (também chamada de acil-CoA ligase ou ácido graxo tiocinase) e consome 2 fosfatos ricos em energia fornecidos pelo ATP. Para os AGs de cadeia longa, esta reação é citosólica e pode ocorrer na membrana externa da mitocôndria ou na superfície no retículo endoplasmático. Os ácidos graxos de cadeia curta e média são ativados na mitocôndria. Palmitato + CoA-SH + ATP Palmitoil-S-CoA + AMP + PPi (Acil-CoA graxo) H2O PPi 2Pi A hidrólise do pirofosfato fornece energia suficiente para a ativação. BRITO, S.M.R.C. 2020 208 Figura 104- Mobilização de triacilgliceróis (TAG) do tecido adiposo. Transporte do acetil-CoA graxo para a matriz da mitocôndria. Todas as enzimas da -oxidação estão localizadas na matriz da mitocôndria. Os ácidos graxos de cadeia curta são transportados para a matriz mitocondrial onde formam acil-CoA derivados. Entretanto, os ácidos graxos de cadeia longa necessitam de um sistema de transporte. Os acil-CoA graxos não atravessam a membrana interna da mitocôndria. O acil- CoA graxo reage com a carnitina, formando acil-carnitina, numa reação catalisada pela carnitina aciltransferase I, localizada na membrana mitocondrial externa. A acil-carnitina é transportada pela translocase presente na membrana interna. No lado da membrana interna que fica voltado para a matriz da mitocôndria, a carnitina aciltransferaseII catalisa a transferência do grupo acil da acilcarnitina para a CoA para formar acil-CoA e L-carnitina. A L-carnitina livre pode retornar para o citosol via a translocase, conforme a Figura 105. BRITO, S.M.R.C. 2020 209 Figura 105 - O processo de ativação dos ácidos graxos para a -oxidação. A lançadeira da carnitina transporta os acil-CoA graxos através da membrana interna da mitocôndria. O grupo acil é transferido para a carnitina para formar acil carnitina um éster), a translocase da membrana interna transporta o éster de carnitina (ou acilcarnitina) para o lado interno da membrana interna que contêm a carnitina aciltransferase II, enzima que transfere o grupo acil para a CoA formando o Acil-coA graxo pronto para a oxidação. Fonte: adaptado de NELSON; COX. Princípios de Bioquímica do Lehninger, 2014. -OXIDAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS O processo de -oxidação envolve uma sequência repetida de 4 reações. Para ácidos graxos saturados, a -oxidação fornece acetil-CoA de forma proporcional ao número de carbonos do ácido graxo. A cada ciclo de reações da -oxidação, dois carbonos são retirados na forma de 1 molécula de acetil-CoA, sendo que na última volta 2 moléculas de acetil-CoA são formadas. Na oxidação do ácido palmítico (16C), oito moléculas de acetil- CoA são formadas em 7 voltas do ciclo de -oxidação (seis voltas formam 6 acetil-CoA e na sétima volta são formadas mais 2 acetil-CoA, num total de 8 moléculas). Também são formados 1NADH e 1FADH2 por cada ciclo de reações. Portanto para o ácido palmítico são formados 7NADH e 7 FADH2. O acetil-CoA formado pode ser oxidado no Ciclo de Krebs formando 3NADH e 1FADH2 por cada acetil-CoA metabolizado. As coenzimas reduzidas FADH2 e NADH são reoxidadas na cadeia de transporte de elétrons acoplada à fosforilação do ATP. No tecido adiposo marrom (TAMI), a oxidação de ácidos graxos fornece energia para a termogênese num processo que envolve o desacoplamento do transporte de elétrons da fosforilação oxidativa pelas termogeninas ou UCPs (proteínas desacopladoras). BRITO, S.M.R.C. 2020 210 Degradação do ácido palmítico (16 carbonos) Primeiro estágio: 16/2 -1 = 7 voltas no ciclo de B-oxidação são formados: Acetil-CoA = 8 NADH = 7 FADH2 = 7 Segundo estágio: 8 voltas do acetil-CoA no ciclo de Krebs são formados: NADH = 8 x 3 = 24 FADH2 = 8 x 1 =8 ATP = 8 x 1= 8 CO2 = 8 x 2= 16 CO2 Balanço do ATP: NADH = 31 x 2,5 = 77,5 ATP FADH2 = 15 X 1,5 = 22,5 ATP C. Krebs= 8 ATP Total de ATP formados: 108 ATP Saldo: 108 -2 = 106 ATP Balanço da H2O: Gastos: B-oxidação: 7 H2O C. de Krebs: 16 H2O Total: 23 H2O Formados na CTE e fosforilação oxidativa: p/ cada NADH......3,5 H2O x 31 = 108,5 p/ cada FADH2....2,5 H2O x 15 = 37,5 Total formado: 146 H2O Saldo = 146 - 23 = 123 H2O Balanço do oxigênio: Gastos: FADH2 = 15 x 0,5 O2 = 7,5 O2 NADH = 31 x 0,5 O2 = 15,5 O2 Saldo: 23 O2 Quociente respiratório QR = vCO2/vCO2 QR=16/23 =0,7 Reação global: Ac. palmítico + 106 ADP + 106 Pi + 23O2 106 ATP + 16 CO2 + 123 H2O BRITO, S.M.R.C. 2020 211 Formação e utilização de corpos cetônicos A oxidação excessiva de ácidos graxos no fígado em situações de jejum muito prolongado, diabetes mellitus não controlado ou por efeitos agudos da ingestão excessiva de álcool, leva à formação dos corpos cetônicos, acetona, acetoacetato e -hidroxibutirato. O acetoacetato e -hidroxibutirato são lançados na circulação e utilizados pelos outros tecidos, inclusive o cérebro como fonte de acetil-CoA. A ativação da formação de corpos cetônicos pelos hepatócitos ocorre pelos mesmos hormônios ativadores da via de neoglicogênese hepática. Uma via que consome bastante oxaloacetato (OAA). Os níveis de OAA mitocondrial tornam-se muito baixos. Dessa forma, o acetil-CoA é utilizado para a síntese de corpos cetônicos no fígado, ao invés de condensar-se com o oxaloacetato para formar citrato. Nestas situações, a velocidade da biossíntese de ácidos graxos torna-se reduzida. Normalmente, o músculo cardíaco e o córtex renal utilizam mais acetoacetato do que glicose. No cérebro e glóbulos vermelhos, a glicose é o substrato preferencial para a obtenção de energia. Durante o jejum prolongado e diabetes, o cérebro utiliza também o acetoacetato. O acetoacetato pode ser considerado como uma fonte hidrossolúvel de unidades acetila. Para ser utilizado, o acetoacetato condensa-se com a CoA proveniente do succinil- CoA numa reação catalisada por uma CoA transferase específica. O acetoacetil-CoA é então clivado pela tiolase, liberando 2 moléculas de acetil-CoA que podem ser oxidadas no ciclo de Krebs. No fígado, não existe a CoA transferase, portanto, o fígado produz, mas não utiliza os corpos cetônicos como fonte de energia. O cérebro não realiza a -oxidação, mas capta corpos cetônicos do sangue para obtenção de energia. Os corpos cetônicos são substâncias ácidas. Em altas concentrações, deslocam o equilíbrio do tampão bicarbonato/ácido carbônico com redução da concentração de bicarbonato sanguíneo, redução do pH do sangue, promovendo acidose metabólica, coma e morte. Os animais não podem transformar glicose em ácidos graxos porque o acetil-CoA não é convertido em oxaloacetato numa síntese “de novo” (molécula nova formada). Mas, as plantas possuem 2 enzimas do ciclo do glioxilato que permitem a conversão do acetil- CoA em oxaloacetato. O ciclo do glioxilato em plantas e bactérias difere do ciclo de Krebs por converter 2 moléculas de acetil-CoA (2C) em oxaloacetato (4C), desviando-se das duas reações de descarboxilações do ciclo de Krebs. O ciclo se assemelha ao de Krebs até a formação do isocitrato, a seguir a enzima isocitrato liase cliva o isocitrato em succinato e glioxilato (-OOC-HC=O). O glioxilato condensa-se com a segunda molécula de acetil-CoA formando malato pela malato sintase e este último é convertido em oxaloacetato. O oxaloacetato pode ser convertido em glicose. BRITO, S.M.R.C. 2020 212 Figura 106- A formação dos corpos cetônicos a partir do acetil-CoA Acetil-CoA S-CoA Acetil-CoA S-CoA HS-CoA Acetil-CoA S-CoA S-CoA Acetoacetil-CoA S-CoA 3-Cetotiolase HS-CoA H2O -OO 3-Hidroxi-3-metilglutaril-CoA (HMG-CoA) HMG-CoA sintase NADH + H+ HMG-CoA liase NAD+ Formação de corpos cetônicos Acetil-CoA Acetoacetato D-3-Hidroxibutirato H+ CO2 D-3-hidroxibutirato desidrogenase (Reação espontânea) Acetona C O CH 2 C CH 2 OH C CH 3 C O O CH 3 C CH 2 OH H CH 3 C CH 3 O C O O CH 3 C CH 2 O CH 3 C O CH 3 C O CH 3 C O C O CH 3 C CH 2 O 1 1 Figura 107- Utilização de corpos cetônicos pela liberação de acetil-CoA. Fonte: adaptado de NELSON; COX. Princípios de Bioquímica do Lehninger, 2014.