Prévia do material em texto
Teoria das Organizações — Aula 11 Teoria das Organizações | 3º semestre ADM | Prof. Eduardo Meirelles | quinta, 12/06/2026 | 07h30–09h10 Onde paramos / contexto O prof retomou o fio da meada da aula passada: a gente tinha ficado na virada do século XIX pro XX, com a Revolução Industrial já consolidada e as empresas crescendo de um jeito que ninguém sabia muito bem como administrar. A questão central que motivou toda a teoria clássica era: como fazer grandes grupos de pessoas trabalharem de forma coordenada e eficiente? Essa pergunta ainda não tinha resposta sistemática, era tudo no feeling do dono. hoje a aula cobre as três grandes correntes clássicas: Administração Científica (Taylor), Teoria Clássica (Fayol) e Burocracia (Weber). Na semana que vem entra a Escola das Relações Humanas como contraponto. Taylor e a Administração Científica Frederick Winslow Taylor, engenheiro americano, final do século XIX. O problema que ele queria resolver era a vadiagem sistemática — termo dele mesmo. Os operários trabalhavam bem abaixo da capacidade porque sabiam que se produzissem mais o patrão baixaria o salário por peça. Taylor entendeu isso como um problema de sistema, não de caráter individual. A solução dele foi basicamente decompor cada tarefa nos seus movimentos elementares, cronometrar cada um, eliminar os movimentos inúteis e definir o tempo padrão para execução. Daí vem o nome estudo de tempos e movimentos. O trabalhador ideal era aquele que seguia o método sem questionar — Taylor chegou a dizer que a iniciativa do operário era indesejável porque introduzia variação. Quatro princípios do taylorismo que o prof pediu pra decorar: (1) princípio do planejamento — substituir a improvisação pela ciência; (2) princípio da preparação — selecionar e treinar os trabalhadores; (3) princípio do controle — garantir que o trabalho está sendo executado conforme planejado; (4) princípio da execução — separar quem pensa de quem faz. Esse último é o mais polêmico e o que mais gerou crítica depois. o prof fez uma pausa aqui pra perguntar se a gente reconhecia o taylorismo em algum lugar hoje. Alguém citou o iFood com as metas de tempo de entrega. Ele concordou e acrescentou: call centers com tempo médio de atendimento, linhas de montagem, cozinhas de fast food. O taylorismo não morreu, ele migrou. Críticas principais: desconsidera o lado humano completamente, trata o trabalhador como extensão da máquina, gera alienação, pressupõe que dinheiro é o único motivador. Além disso, separar quem pensa de quem faz cria organizações rígidas que não se adaptam bem a mudanças. Fayol e a Teoria Clássica Henri Fayol, engenheiro francês, contemporâneo de Taylor mas com olhar completamente diferente. Enquanto Taylor olhava de baixo pra cima (o chão de fábrica, a tarefa individual), Fayol olhava de cima pra baixo — ele queria entender como a empresa funciona como um todo e qual é o papel da administração nesse sistema. Fayol identificou seis funções básicas da empresa: técnica, comercial, financeira, de segurança, contábil e administrativa. A administrativa era a mais importante pra ele, e foi aí que ele concentrou o trabalho. Definiu administrar como: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar — o famoso POC³ ou POCCC. Isso virou base de praticamente todo currículo de ADM por décadas. Os 14 princípios de Fayol — o prof não quis que a gente decorasse todos, mas pediu atenção especial em alguns: divisão do trabalho (especialização aumenta eficiência), autoridade e responsabilidade (devem andar juntas), unidade de comando (cada subordinado deve ter um só chefe — contradizia Taylor que tinha supervisão funcional múltipla), unidade de direção (um plano para cada conjunto de atividades com o mesmo objetivo), subordinação do interesse individual ao geral, e hierarquia. a questão da unidade de comando vs. a supervisão funcional de Taylor é um ponto que o prof disse que cai em prova comparativa. Taylor achava ok ter vários supervisores especializados; Fayol dizia que isso gerava confusão e conflito. Crítica a Fayol: os princípios são muito prescritivos e universais demais — ele achava que valiam para qualquer organização em qualquer contexto, o que a teoria contingencial viria desmentir décadas depois. Mas o legado é enorme: a ideia de que administrar é uma atividade separável e que pode ser ensinada abriu caminho pra existência dos cursos de ADM. Weber e o Modelo Burocrático Max Weber é sociólogo alemão, não administrador — mas a teoria dele sobre burocracia entrou no campo da administração porque descreve um modelo de organização que dominou o século XX, especialmente no setor público mas também em grandes empresas. Antes de entrar na burocracia, o prof explicou os três tipos de autoridade legítima de Weber, que é o contexto pra entender por que a burocracia surge. Autoridade tradicional: baseada no costume e na tradição, o líder manda porque sempre foi assim (reis, patriarcas). Autoridade carismática: baseada nas qualidades pessoais do líder, seguidores obedecem por crença e devoção — instável porque depende de uma pessoa. Autoridade racional-legal: baseada em regras e leis, a pessoa obedece ao cargo, não à pessoa — é a base da burocracia. Características do tipo ideal burocrático segundo Weber: caráter legal das normas (tudo está escrito e formalizado), caráter formal das comunicações (registros, memorandos — o papel existe pra garantir continuidade), divisão racional do trabalho (cada cargo tem competências definidas), impessoalidade nas relações (o funcionário aplica a regra sem favoritismo), hierarquia de autoridade bem definida, rotinas e procedimentos padronizados, competência técnica como critério de seleção e promoção — não parentesco ou amizade. Isso era revolucionário pra época, onde o nepotismo era a norma. o prof usou o exemplo do INSS pra ilustrar: você chega lá e o atendente aplica a regra do jeito que está escrito, independente da sua situação específica. Isso é impessoalidade burocrática funcionando. O problema é quando a regra não prevê o caso real da pessoa. Disfunções da burocracia — isso é o que Robert Merton sistematizou depois, com base em Weber. As mesmas características que garantem eficiência e imparcialidade podem virar patologias quando levadas ao extremo: excesso de formalismo (o formulário importa mais que resolver o problema), resistência a mudanças, apego exagerado aos regulamentos, despersonalização do relacionamento, exibição de sinais de autoridade, dificuldade com clientes e conflitos internos. Ponto importante que o prof fez questão de sublinhar: Weber não estava elogiando a burocracia nem criticando. Ele estava descrevendo um tipo ideal — um modelo analítico puro que não existe na realidade mas serve como referência. A valoração positiva ou negativa veio de outros autores depois. Comparando as três correntes O prof fez uma síntese rápida no final pra amarrar: Taylor e Fayol são contemporâneos e complementares de certo modo — Taylor resolve o problema da eficiência operacional, Fayol resolve o problema da estrutura e da coordenação geral. Weber, escrevendo na mesma época mas num contexto sociológico diferente, descreve o modelo organizacional que naturalmente emerge quando você aplica esses princípios em grande escala — a burocracia é o resultado estrutural do racional-legal. As três correntes compartilham o mesmo pressuposto: existe uma melhor forma de organizar (the one best way). Isso é exatamente o que a Escola das Relações Humanas e depois a Teoria da Contingência vão contestar — a ideia de que não existe fórmula universal, depende do contexto. ele fechou falando que apesar das críticas, a herança dessas três correntes está em todo lugar: organogramas, descrições de cargo, manuais de procedimento, avaliação de desempenho por mérito, separação entre planejamento e execução. A gente critica o taylorismo mas trabalha dentro de estruturas que ele ajudou a desenhar. Dúvidas e comentários finais Alguémperguntou se a burocracia pública brasileira é weberiana de verdade. O prof riu e disse que é weberiana nas disfunções mas não nas virtudes — temos o formalismo e a resistência a mudanças sem a impessoalidade e o critério de competência técnica, que são justamente os elementos que deveriam garantir eficiência e equidade. Outra pergunta: startups são antiburocracia? Ele disse que parcialmente — startups jovens são mais orgânicas e flexíveis, mas à medida que crescem tendem a burocratizar porque precisam de coordenação e controle. Citou o conceito de burocratização progressiva que aparece na teoria do ciclo de vida das organizações. Ver Adizes se quiser aprofundar. lembrar: seminário na semana que vem, meu grupo apresenta Elton Mayo e Hawthorne. Preparar slides até sexta. leitura obrigatória pra próxima aula: cap. 3 e 4 do Chiavenato (Introdução à Teoria Geral da Administração) — ele cobre Relações Humanas e já adianta a teoria estruturalista