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131 Doença inflamatória pélvica e violência sexual Doença inflamatória pélvica Definição Ascensão de bactérias do trato genital inferior ao trato genital superior, geralmente associada a uma infecção sexualmente transmissível. Pode gerar re- percussões como infertilidade e dor pélvica crônica. Agentes etiológicos • Práticas sexuais e sociais de maior risco • Mulheres jovens: 15-25 anos • Baixa renda familiar, desemprego e baixa es- colaridade • Comportamento sexual de risco • Não usar preservativo • Múltiplas parcerias sexuais • Ocorrência prévia de DIP ou outras ISTs • Duchas vaginais ou tampão vaginal • * DIU • Não aumenta o risco de DIP a longo prazo; pode haver aumento na incidência até 20 dias após a inserção, relacionado ao procedimento Neisseria gonorrhoeae + Chlamydia trachomatis + Outras bactérias anaeróbias/aeróbias → infecção polimicrobiana Dano epitelial e quebra de barreira Ascensão de bactérias Infecção polimicrobiana Trompa de falópio Útero Tuba uterina inflamada Ovário Ovário inflamado Colo Vagina Miométrio Endometrio inflamado miométrio Fatores de risco • Práticas sexuais e sociais de maior risco • Mulheres jovens: 15-25 anos • Baixa renda familiar, desemprego e baixa escolaridade • Comportamento sexual de risco • Não usar preservativo • Múltiplas parcerias sexuais • Ocorrência prévia de DIP ou outras ISTs • Duchas vaginais ou tampão vaginal • * DIU • Não aumenta o risco de DIP a longo prazo; pode haver aumento na incidência até 20 dias após a inserção, relacionado ao procedimento 132 Diagnóstico clínico + • Outros sintomas sugestivos: • Dispareunia • Corrimentos vaginais • Saindo pelo colo uterino • Febre • Sangramento uterino anormal • Infertilidade • Dor à mobilização do colo do útero • Dor à palpação de anexos • Corrimento cervical • Friabilidade de mucosas Critérios diagnósticos 3 critérios maiores + 1 menor ou 1 critério elaborado Dor pélvica aguda em mulher sexualmente ativa Critérios maiores • Dor no hipogástrio • Dor à palpação dos anexos • Dor à mobilização de colo uterino Critérios menores • Temperatura axilar > 37,5°C ou temperatura retal > 38,3°C • Conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal • Massa pélvica • Mais de cinco leucócitos por campo de imersão em material de endocervice • Leucocitose em sangue periférico • Proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação (VHS) elevada • Comprovação laboratorial de infecção cervical por gonococo, clamídia ou micoplasmas Critérios elaborados • Evidência histopatológica de endometrite • Presença de abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco de Douglas em estudo de imagem • Laparoscopia com evidência de DIP 133 Tratamento Classificação de Monif Esquemas terapêuticos Tratamento ambulatorial Tratamento hospitalar (internar) Chlamydia trachomatis Doxiciclina ou azitromicina Bactérias anaeróbicasNeisseria gonorrhoeae Ceftriaxona ou cefalospo- rina Metronidazol ou associa- ções com clindamicina Estádio 1 Endometrite e salpingite aguda sem peritonite Estádio 2 Salpingite com peritonite Estádio 3 Abscesso tubo ovariano íntegro Estádio 4 Abscesso tubo-ovariano roto ou Abscesso maior que 10 cm 134 Tratamento Primeira opção Segunda opção Terceira opção Ambulatorial Ceftriaxona 500 mg. IM, dose única + Doxiciclina 100 mg. 1 comprimido, VO, Ambulatorial 2x/ dia por 14 dias + Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia por 14 dias Cefotaxima 500 mg, IM, dose única + Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia por 14 dias + Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia por 14 dias Hospitalar Ceftriaxona 1g, IV, 1x/dia por 14 dias + Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, Vo, 2x/dia por 14 dias + Metronidazol 400 mg, IV de 12/12h Clindamicina 900 mg, IV, 3x/dia por 14 dias + Gentamicina (IV ou IM): 3-5 mg/ kg, 1x/dia por 14 dias Ampicilina/ Sulbactam 3 g, IV, 6/6h por 14 dias + Doxiciclina* 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia por 14 dias Ministério da saúde Não uso de bebidas alcoólicas durante e após 24 horas do uso de Metronidazol, a fim de evitar efeito dissulfiram (antabuse) símile. *A Doxiciclina é contraindicada durante a gravidez. Primeira escolha Alternativa *Ceftriaxona 250 mg IV DU + Azitromicina 1g VO DU + 500 mg/dia por 7 dias (1 g/semana por 2 semanas) OU Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 14 dias com ou sem Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 12/12h, por 14 dias • Lembrar da resistência do micoplasma à Doxiciclina **Ciprofloxacino 500 mg VO DU + Azitromicina 1g VO DU + 500 mg/dia por 7 dias (OU 1 g/semana por 2 semanas) OU Doxiciclina 100 mg VO 12/12 por 14 dias, com ou sem Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 12/12h, por 14 dias • Na suspeita de gonococo, lembrar da possibilidade de resistência a quinolonas Febrasgo - Ambulatorial Segundo alguns protocolos, o aumento da dose do Ceftriaxona de 250 para 500 mg diminui a chance de resistência do gonococo. Escolhas de antibióticos 135 Tratamento das parcerias • Ceftriaxona 500 mg IM + Azitromicina 500 mg VO em dose única Complicações Abscesso tubo-ovariano • Suspeita: piora clínica, mesmo após o tratamento adequado • TC ou RM • Tratamento • Inicial: clínico – ATB EV • Cirúrgico (laparoscópico): se não houver resposta ou se houver rotura • Culdotomia: se o abscesso estiver no fundo de saco Síndrome de Fitz-Hugh-Curtis • Peri-hepatite e aderências próximas ao fígado resultante de DIPs gonocócicas • Diagnóstico frequentemente por laparoscopia Infertilidade e gestações ectópicas • Por conta de sequelas tubárias decorrentes da DIP. Febrasgo - Internado Esquema 1 Ceftriaxona 1 g; EV 12/12h + Metronidazol 500 mg; EV 8/8 h OU Clindamicina 900 mg EV 8/8 h Esquema 3Esquema 2 Ciprofloxacina 400 mg EV 12/12 h + Metronidazol 500 mg EV 8/8 h OU Clindamicina 900 mg EV 8/8 h Clindamicina 900 mg EV 8/8h + Gentamicina 2 mg/kg EV OU IM +1,5 mg/kg 8/8 h Fonte: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Doença inflamatória pélvica. Relatórios Febrasgo, n. 25, 2018. 136 Resumo do manejo clínico Suspeita de DIP Dor pélvica aguda em paciente sexualmente ativa + fatores de risco Agentes etiológicos Neisseria gonorrhoeae Chlamydia trachomatis Critérios diagnósticos 3 critérios maiores (dores) + 1 menor ou 1 critério elaborado Internar? Classificação de MONIF: • Estádio 1: Endometrite e salpingite aguda sem peritonite • Estádio 2: Salpingite com peritonite • Estádio 3: Abscesso tubo ovariano íntegro • Estádio 4: Abscesso tubo-ovariano roto ou abscesso > 10 cm Antibióticos • Clamídia → Doxiciclina ou Azitromicina • Gonorreia → Ceftriaxona ou Cefoxitina) • Anaeróbios → Metroni- dazol / Clinda Complicações • Abscesso tubo-ovariano • Infertilidade e gestação ectópica • Síndrome de Fitz-Hugh- -Curtis 137 Violência sexual Definição • Qualquer ato sexual realizado por uma pessoa sem o consentimento • Inclui tanto o ato de estupro quanto o atentado violento ao pudor • Agravo de NOTIFICAÇÃO COMPULSÓRIA IME- DIATA • Notificação em até 24 horas • O Boletim de Ocorrência (B.O.) deve ser OPCIONAL para a paciente • Atendimento médico NÃO deve depender dele • Crianças e idosos: comunicar aos conselhos Profilaxias não-virais Clamídia Azitromicina 1g VO em dose única Sífilis Benzetacil 2,4 milhões UI IM em dose única Gonorreia Ceftriaxona 250 mg IM dose única Tricomoníase → Metronidazol 2g VO em dose única Assistência à Vítima *** Estupro: “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” • Recomendadas em todas as situações com risco de transmissão - prazo máximo de início 14 DIAS (melhor se for imediato). Realizar mesmo em gestantes! “ABC das profilaxias” 138 Exposição com risco de transmissão do HIV Exposição sem risco de transmissão do HIV Sangue SuorSêmen Lágrima Fluidos vaginais Fezes Líquidos de serosas (peritoneal, pleural, pericárdico) Urina Líquido amniótico Vômitos Liquor Saliva Líquido articular Secreções nasais Leite materno Cutânea em pele integra Percutânea Mordedura sem a presença de sangue Membranas mucosas Beijo Cutânea em pele não integra Mordedura com presença de sangue HPV • Indicada vacina para HPV para homens e mulhe- res de 15 a 45 anos de idade, imunocompetentes vítimas de violência sexual • 09 a 14 anos, 11 meses e 29 dias: duas doses (0 e 6 meses) • 15 a 45 anos de idade: três doses (0, 2 e 6 meses) Profilaxias virais Hepatite B • Completar esquema vacinal com 3 doses - 0,1 e 6 meses • Imunoglobulina hiperimune para Hepatite B: apenas se vítima suscetível + agressor HBsAG positivo OU de grupo de risco (usuário de drogas, por exemplo) • Melhor até 48 horas; pode até 14 dias após a agressão • Não realizado se: • Violência crônica ou repetida • Uso de preservativo • Agressor sabidamente vacinado • Vítima com esquema vacinal completo para Hep B HIV 1. O material biológico oferece risco? 2. O caráter da exposição é de risco? 3. Passaram-se menos de 72 horas desde a violência? 4. A vítima não convive com o HIV no momento do atendimento? Se sim para todas as perguntas: • Fazer profilaxia para HIV (PEP). Esquema preferencial: • Tenofovir + Lamivudina + Dolutegravir • Gestantes: esquema preferencial segue o mesmo (TDF+3TC+DTG) - atualização do PCDT de 2025 após segurança comprovada do DTG mesmo em gestantes de primeiro trimestre. 139 Anticoncepção de Emergência • Ideal até 72 horas; pode até 120 horas • Se a paciente usa método anticoncepcional de alta eficácia ! Não há necessidade Composto Tempo Ação Método Yuzpe • Etinilestradiol 100 mcg • Levonorgestrel 1 cp - 2x (intervalo 12h) Inibir/atrasar ovulação Hospitalar • 1,5 mg Levonorgestrel Única (preferencial: 72h) Inibir/atrasar ovulação Ulipristal • Acetato de Ulipristal Até 120h Inibir/atrasar ovulação DIU • Cobre • Levonorgestrel Até 120h *** Esquema preferencial: levonorgestrel 1,5 mg em dose única Interrupção Legal da Gestação Permitida em 3 situações: • Risco de vida da gestante • Gestação decorrente de violência sexual • Anencefalia fetal Importante: • Não necessita de autorização judicial ou de boletim de ocorrência • Sempre necessário consentimento • O médico pode se negar a realização por “obje- ção de consciência”