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A Formação dos Estados Europeus e a Natureza
das Relações Internacionais
Introdução Geral
Este guia de estudo compila informações de três textos centrais: "The Twin Self-Delusions of IR:
Why 'Hierarchy' and Not 'Anarchy' Is the Core Concept of IR" (Hobson), "O Guia de Estudo:
Coerção, Capital e Estados Europeus (Charles Tilly)" e "Guia de Estudo: Cidades e Estados na
História do Mundo (Charles Tilly)". O objetivo é organizar o conhecimento sobre a natureza das
relações internacionais, com um foco particular na formação histórica dos Estados europeus e
nos conceitos de hierarquia e poder dentro do sistema internacional.
O Conceito Central das Relações Internacionais:
Hierarquia em Vez de Anarquia (Hobson)
O Argumento Principal
Hobson argumenta que a teoria das Relações Internacionais (RI) está fundamentalmente
equivocada devido a duas "autoilusões":
A Ilusão da Anarquia: O foco convencional na igualdade jurídica dos estados soberanos sob 1.
uma anarquia internacional mascara uma realidade mais profunda de hierarquia, onde a
civilização ocidental é privilegiada em detrimento dos estados não ocidentais.
A Ilusão do Pluralismo Cultural: A suposição de que a teoria de RI é positivista e livre de 2.
valores, abraçando o pluralismo cultural, mascara um monismo eurocêntrico que constitui o
núcleo ideológico da maioria das teorias de RI.
Hobson sustenta que a hierarquia, e não a anarquia, é o verdadeiro conceito central de RI,
impulsionada pelo "padrão de civilização" e resultando em "soberanias graduadas".
Conceitos Chave
Padrão de Civilização: Um conceito eurocêntrico que historicamente categorizava estados e
sociedades com base em sua percepção de adesão a normas e instituições ocidentais (ex:
democracia, capitalismo, Estado de direito).
Soberania Graduada: A ideia de que a soberania não é absoluta ou igual para todos os
estados, mas sim em níveis baseados em seu grau percebido de "civilização".
Eurocentrismo: A tendência de ver o mundo a partir de uma perspectiva europeia ou
ocidental, frequentemente elevando implicitamente ou explicitamente a civilização ocidental
como superior.
Hierarquia Formal: Caracterizada por intervenção imperial explícita e o conceito de "hiper-
soberania" ocidental sobre a "a-soberania" oriental (pré-1945) ou "soberania
condicional" (pós-1989).
Hierarquia Informal: Caracterizada por uma postura anti-imperialista que ainda impõe
normas ocidentais, levando à "soberania plena" ocidental e à "soberania qualificada/padrão"
oriental, negando a autodeterminação cultural.
Análise das Principais Teorias de RI
Pluralismo Clássico da Escola Inglesa:
Vertente Imperialista: Adere à "teoria do Big Bang eurocêntrico", onde a Europa criou a
modernidade de forma única e a exportou. Vê a disseminação da civilização ocidental
como uma "sanção funcional progressiva" para o bem global, justificando implicitamente
o imperialismo (ex: Bull e Watson). Isso leva a uma "hierarquia formal" onde o "princípio
liberal" de não intervenção se aplica apenas dentro do Ocidente.
Vertente Anti-imperialista: Apesar das alegações de pluralismo, introduz uma hierarquia
informal. Argumenta que a falta de "instituições racionais" nos estados orientais (quasi-
estados, despóticos ou fracos) enfraquece a coesão global. Isso exige que as políticas
orientais se conformem ao padrão de civilização ocidental para a ordem global, negando
sua autodeterminação cultural.
Teoria da Estabilidade Hegemônica Neorrealista (HST):
Hierarquia Formal: Embora focada na anarquia, a HST implicitamente assume a
hegemonia anglo-saxônica (britânica e americana) como "impérios liberais" benignos.
Isso é explicado por etnocentrismo americano subconsciente e eurocentrismo
paternalista ("missão civilizadora", "fardo do homem branco").
Eurocentrismo Subliminar: A teoria de Gilpin racionaliza a hegemonia anglo-saxônica. O
problema do "carona" (free rider), particularmente com os estados do Leste Asiático, ecoa
os tropos do "Perigo Amarelo", sugerindo uma hierarquia em níveis onde o Ocidente é
essencial para a ordem global.
Neomarxismo (Teoria do Sistema-Mundo - WST):
Hierarquia Informal: Apesar de sua abordagem global e crítica ao imperialismo ocidental,
a WST exibe "eurocentrismo crítico". O binômio "centro/periferia" reitera a divisão Oriente/
Ocidente.
Lógica Eurocêntrica de Imanência: A teoria de Wallerstein postula que apenas o Ocidente
poderia alcançar a modernidade capitalista autonomamente, enquanto o Oriente era
inerentemente incapaz ("desenvolvimento-negativo"). Isso resulta em uma meta-geografia
tripartite (centro, semiperiferia, periferia) que espelha o padrão de civilização
eurocêntrico. A expansão ocidental é apresentada como inerente à acumulação de
capital, criando um Oriente vitimizado.
Conclusão
Hierarquia, não anarquia, é o verdadeiro conceito central de RI.
O Ocidental-centrismo eurocêntrico, não o positivismo e o pluralismo cultural, é a base
ideológica de RI.
As teorias de RI, tanto mainstream quanto críticas, frequentemente servem como
racionalizações do poder ocidental.
A disciplina precisa ser reconstruída para fornecer uma conta verdadeiramente global da
política mundial, movendo-se para além de sua representação existente, desequilibrada e
eurocêntrica.
O Tratado de Vestfália e a Sociedade Europeia de
Estados
Contexto Histórico
O século XVII viu a consolidação de estados europeus independentes e soberanos, com
reconhecimento mútuo.
O declínio da autoridade universal do Papa e do Imperador marcou o fim da Cristandade
Latina.
Surgiu a necessidade de novas regras para regular as relações entre estados independentes,
formando uma nova sociedade internacional (Hedley Bull).
A sociedade europeia de estados evoluiu a partir de conflitos entre forças hegemônicas
(Habsburgos) e aquelas que defendiam a independência (luta anti-hegemônica).
O Tratado de Vestfália (1648)
Representou um acerto geral negociado após a Guerra dos Trinta Anos, sendo um marco
decisivo na organização da Europa.
Estabeleceu uma organização permanente baseada no princípio anti-hegemônico.
Influenciou o crescimento da consciência nacional e a expansão global do sistema europeu
de estados.
A Liderança de Richelieu e a Aliança Anti-Hegemônica
A França, sob Richelieu, opôs-se aos Habsburgos, buscando uma concepção anti-
hegemônica para enfraquecê-los.
A política externa francesa focou em eliminar ameaças externas dos Habsburgos, mesmo
que fossem católicos, alinhando-se com a raison d'État (razão de Estado).
Essa estratégia envolveu a formação de uma coalizão anti-hegemônica diversificada,
utilizando negociação, persuasão, subsídios e diplomacia eficaz. Aliados incluíam príncipes
protestantes alemães, reis da Dinamarca e Suécia, e os Países Baixos.
O pragmatismo prevaleceu sobre a ideologia religiosa, como evidenciado pela aliança
francesa com protestantes, apesar da perseguição interna aos Huguenotes.
A Nova Ordem de Vestfália
O Tratado legitimou o Stato (Estado soberano com controle interno e independência externa).
Estabeleceu regras e princípios políticos para a nova sociedade de estados.
Foi o primeiro congresso geral das potências europeias, com representação significativa.
Contudo, não estabeleceu um equilíbrio de poder eficaz, e o futuro papel dos Habsburgos
austríacos permaneceu incerto.
Hierarquia de Estados Pós-Vestfália
Primeira Categoria: Soberanos universalmente reconhecidos (ex: Imperador, reis de França e
Espanha).
Segunda Categoria: Estados independentes na prática, mas não em teoria jurídica (ex:
príncipes do Império, eleitores). Ganharam considerável liberdade de ação e direito de formar
alianças externas.
Terceira Categoria: Estados dependentes com leis e instituições próprias (ex: Países Baixos
Meridionais Habsburgos, estados italianos, colônias).
Características da Nova Sociedade de Estados
Soberania Independente: Legitimou uma multiplicidade de independências.
Fronteiras Claras: Definiu a competência exclusivade cada Estado dentro de suas fronteiras.
Anti-Hegemonia: Rejeitou a autoridade universal (Papa, Imperador) e a predominância de um
único Estado.
Raison d'État vs. Religião: O interesse do Estado tornou-se o princípio determinante das
alianças, superando a religião.
Desenvolvimento do Direito Internacional: Surgiu um conjunto de regras para regular as
relações entre príncipes soberanos (associado a juristas como Hugo Grotius e Samuel
Pufendorf).
A Hegemonia de Luís XIV e a Resposta Anti-Hegemônica
Após o declínio dos Habsburgos, Luís XIV buscou estabelecer uma hegemonia francesa,
visando casar sua dinastia com a espanhola e expandir o território francês.
Ele empregou diplomacia, subsídios, suborno e guerra para atingir seus objetivos.
Isso levou à formação de uma nova coalizão anti-hegemônica (Países Baixos, Habsburgos,
etc.).
A consequência foi a limitação do poder de Luís XIV, embora seu neto tenha permanecido no
trono espanhol.
Estado e Nação
Os governos soberanos passaram a exigir lealdade e obediência dos súditos, solidificando a
formação do Estado.
Desenvolveu-se a consciência nacional, uma lealdade primordial ao Estado e entre os
cidadãos.
Diferenças Regionais:
Europa Ocidental: Formação de Estados-nação onde unidades administrativas e étnicas
convergiam.
Europa Central (Alemanha e Itália): Fragmentação política, com Estado e nação
permanecendo conceitos separados até o século XIX.
Periferia vs. Centro
Estados Periféricos: Desenvolveram maior capacidade militar e administrativa devido ao
contato com vizinhos estrangeiros (ex: Espanha, Império Otomano).
Habsburgos: Suas tentativas de hegemonia foram limitadas pela pressão otomana e pelos
recursos demandados pela colonização do Novo Mundo.
França (Centro): As tentativas de hegemonia de Luís XIV e Napoleão, originadas no centro,
foram contidas por potências periféricas (Grã-Bretanha, Rússia).
Consequências do Tratado de Vestfália
Legitimou a sociedade de estados em direção a independências múltiplas.
A propensão à hegemonia persistiu, criando um descompasso entre as premissas e a
prática.
Padronizou e legitimou a independência de muitos principados e cidades do Império.
Promoveu a evolução do Direito Internacional, substituindo o direito universal medieval por
um conjunto de regras para príncipes soberanos.
A Grã-Bretanha, após a era de Luís XIV, buscou uma ordem baseada num equilíbrio de poder,
em vez de uma coalizão vitoriosa.
Coerção, Capital e a Formação dos Estados
Europeus (Charles Tilly)
O Argumento Central de Tilly
Tilly argumenta que a formação dos Estados modernos na Europa foi impulsionada pela
interação entre coerção (principalmente a guerra) e capital (desenvolvimento econômico e
financeiro). Ele rejeita explicações baseadas em raça ou em planos conscientes, focando nos
processos não planejados de governantes buscando recursos para a guerra.
Conceitos Chave
Formação do Estado: Processo impulsionado pelos esforços dos governantes em extrair
recursos (homens e dinheiro) para a guerra.
Coerção: A aplicação ameaçada ou real de força que causa perda ou dano. É a base da
dominação e do poder estatal. Inclui exércitos, prisões, expropriação.
Capital: Refere-se à economia, ao comércio, às cidades. A acumulação e concentração de
capital são cruciais para financiar a coerção.
Interação Estado-População: A necessidade de recursos para a guerra forçou governantes a
negociar com as populações, levando à expansão dos direitos de cidadania e representação
ao longo do tempo.
Variação na Formação do Estado: A importância relativa das cidades (capital) e dos
senhores rurais (coerção) nas diferentes regiões da Europa levou à formação de diferentes
tipos de Estados.
Estado Nacional: Uma forma de organização política que se tornou dominante por sua
eficácia na guerra, governando um território contínuo e possuindo uma organização interna
diferenciada.
A Dinâmica entre Capital e Coerção
Coerção: Governos usam a coerção para expandir seu poder e obter recursos. A
"acumulação e concentração de coerção" leva à formação de Estados.
Capital: O desenvolvimento do capital e do comércio influenciou a forma como os
governantes obtinham recursos, negociando com classes mercantis e concedendo
privilégios. A "acumulação e concentração de capital" impulsiona o crescimento urbano.
Interdependência: Capital e coerção são forças distintas, mas interligadas. A combinação
variável dessas forças moldou diferentes tipos de Estados.
A Evolução do Estado Europeu
A Europa, inicialmente uma periferia, viu a guerra impulsionar a formação de Estados mais
centralizados a partir do século XVIII.
Houve uma convergência para o Estado Nacional, caracterizado por controle civil
centralizado, redução de Estados autônomos e o crescimento de atividades não militares
como centrais na luta política.
Trajetórias de Formação do Estado:
Intensa Coerção: Governos extraem meios de guerra de suas populações e conquistas
(ex: Prússia, Rússia).
Grande Inversão de Capital: Governos dependem de pactos com capitalistas para
financiar a guerra (ex: cidades-estado italianas, República Holandesa).
Coerção Capitalizada: Governos integram capitalistas e fontes de capital às estruturas
estatais (ex: França, Inglaterra).
Guerra e Direitos Civis
Paradoxalmente, a guerra, ao exigir maior mobilização e cooperação das populações, levou a
um aumento do poder dos setores civis do governo e à expansão dos direitos de cidadania. A
necessidade de financiamento e recrutamento levou os governantes a negociar com seus
súditos.
Implicações para Estados Não Europeus
A compreensão da formação europeia ajuda a entender os estados não europeus, que
frequentemente foram moldados pela imposição do poder europeu. A experiência não
europeia difere devido a fatores como o colonialismo e a intervenção externa.
Conclusão de Tilly
A formação do Estado é um processo complexo moldado pela interação dinâmica entre capital
e coerção, com a guerra desempenhando um papel central. A competição entre estados
impulsionou a inovação e a consolidação do poder estatal, levando à convergência para o
modelo do Estado Nacional na Europa, com profundas implicações globais.
Cidades e Estados na História do Mundo (Charles
Tilly)
Capital e Cidades
O crescimento urbano é impulsionado pela acumulação (aquisição e reinvestimento) e
concentração (localização geográfica) de capital.
A ligação entre acumulação e concentração cria hierarquias de centros urbanos.
As cidades dependem das zonas rurais para alimentos e combustível, e os limites históricos
de produção agrícola e eficiência de transporte restringiram seu crescimento.
O capitalismo, surgido após 1500, com capitalistas assumindo o controle da produção,
tornou a manufatura concentradora de capital a base da prosperidade por volta de 1750.
Coerção e Estados
A coerção (aplicação de força) define um campo de dominação. Governos usam a coerção
para obter recursos e controlar a população.
A "acumulação e concentração de coerção" leva à formação de Estados, organizações que
controlam os meios de coerção em territórios definidos.
A guerra e a preparação para a guerra são os principais motores da criação de exércitos e
das estruturas administrativas civis necessárias para sustentá-los.
Relações entre Capital, Coerção, Cidades e Estados
Capital e coerção são forças distintas, mas interligadas. A combinação variável dessas
forças moldou diferentes tipos de Estados na Europa:
Impérios Extratores de Tributos: Dominados pela coerção (ex: Impérios europeus
posteriores).
Sistemas de Soberania Fragmentada: Dominados pelo capital, com pouca coerção
concentrada (ex: cidades-estado italianas, República Holandesa).
Estados Nacionais: Estruturas centralizadas em torno da guerra, extração e
administração (ex: França, Inglaterra, Prússia).
A competição internacional (principalmente guerra) impulsionou a convergência para
concentrações desproporcionais de capital e coerção, levandoao predomínio do Estado
Nacional.
Conclusão Geral
A formação dos Estados europeus e a natureza das relações internacionais são intrinsecamente
ligadas a processos históricos de poder e organização. O conceito de hierarquia, impulsionado
pelo padrão de civilização eurocêntrico, desafia a visão de uma simples anarquia internacional,
revelando como normas e instituições ocidentais foram historicamente privilegiadas.
Simultaneamente, a análise de Tilly demonstra que a formação dos Estados europeus foi um
processo complexo, moldado pela interação dinâmica entre a coerção (guerra, poder militar) e o
capital (economia, cidades), que levou à consolidação do Estado Nacional como forma
dominante de organização política e à expansão global desse modelo, muitas vezes de forma
imposta. O Tratado de Vestfália marca um momento crucial na legitimação de uma sociedade
de estados soberanos, embora a luta por poder e influência (seja formal ou informal) continue a
ser uma característica definidora das relações internacionais.