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Indaial – 2021 Química Farmacêutica Prof.ª Marcella Gabrielle Mendes Machado 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2021 Elaboração: Prof.ª Marcella Gabrielle Mendes Machado Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: M149q Machado, Marcella Gabrielle Mendes Química farmacêutica. / Marcella Gabrielle Mendes Machado – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 222 p.; il. ISBN 978-65-5663-667-2 ISBN Digital 978-65-5663-668-9 1. Novos fármacos. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 660 apresentação Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático Química Farmacêutica, que, como todas as ciências, está em constante evolução. Ano após ano, surgem novos registros de medicamentos criados pelas indústrias farmacêuticas, embora os números de registros sejam menores do que o esperado diante do investimento crescente na pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos. Na Unidade 1, abordaremos os aspectos gerais da ação dos fármacos, que envolvem as propriedades físico-químicas e estereoquímica, as forças intermoleculares envolvidas na interação do fármaco com a biomacromolécula-alvo, entre outros. Além disso, veremos as fases do metabolismo de fármacos e a importância do metabolismo para a toxicidade de fármacos. Em seguida, na Unidade 2, estudaremos mais especificamente a relação entre a estrutura química e a atividade biológica dos fármacos que atuam sobre os sistemas nervoso central e periférico, cardiovascular, renal e endócrino. Por fim, na Unidade 3, o foco será a relação entre a estrutura química e a atividade biológica de agentes quimioterápicos, anti-inflamatórios e hormônios esteroides. A classe dos agentes quimioterápicos é muito ampla e, com isso, veremos exemplos para cada uma das subclasses que envolvem os antibióticos, os antimicrobianos, os tuberculostáticos, os antifúngicos, os antiprotozoários, os antivirais e os antineoplásicos. Ao longo do livro, veremos muitas estruturas químicas, esquemas e demais figuras com o intuito de apresentar o conteúdo de forma clara e fácil de entender, e, sempre que necessário, estruturas tridimensionais (3D) também serão utilizadas para melhor visualização de como o fármaco encontra-se ligado ao seu receptor. Também estarão disponíveis algumas sugestões de leituras complementares, a fim de ampliar ainda mais a compreensão acerca dos variados assuntos relativos à Química Farmacêutica. Bons estudos! Prof.ª Marcella Gabrielle Mendes Machado Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi- dades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida- de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun- to em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS ......................................... 1 TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA .................................................................................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 FÁRMACOS ESTRUTURALMENTE ESPECÍFICOS .................................................................. 4 3 FORÇAS INTERMOLECULARES ENVOLVIDAS NA INTERAÇÃO FÁRMACO-RECEPTOR ..................................................................................................................... 8 3.1 INTERAÇÕES HIDROFÓBICAS .................................................................................................. 8 3.2 FORÇAS ELETROSTÁTICAS ....................................................................................................... 9 3.3 FORÇAS DE DISPERSÃO ........................................................................................................... 10 3.4 LIGAÇÃO DE HIDROGÊNIO .................................................................................................... 11 3.5 LIGAÇÃO COVALENTE ............................................................................................................. 12 4 PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS E ATIVIDADE BIOLÓGICA ................................... 13 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 20 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 21 TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS ................................................................... 23 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 23 2 TEORIA DO ENCAIXE INDUZIDO ............................................................................................. 24 3 CONFIGURAÇÃO E ATIVIDADE BIOLÓGICA ....................................................................... 27 4 CONFORMAÇÃO E ATIVIDADE BIOLÓGICA ........................................................................ 32 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 36 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 37 TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS .......................................................................... 39 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 39 2 METABOLISMO DE FASE 1 .......................................................................................................... 40 2.1 OXIDAÇÃO ................................................................................................................................... 41 2.2 REDUÇÃO .....................................................................................................................................46 2.3 HIDRÓLISE.................................................................................................................................... 46 3 METABOLISMO DE FASE 2 ........................................................................................................... 48 4 IMPORTÂNCIA DO METABOLISMO PARA A TOXICIDADE DE FÁRMACOS ................................................................................................................................. 51 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 53 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 60 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 61 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 64 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO............................................... 65 TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL ................................................................................................ 67 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 67 2 ANESTÉSICOS GERAIS .................................................................................................................. 68 3 HIPNÓTICOS E SEDATIVOS ........................................................................................................ 71 3.1 BENZODIAZEPÍNICOS .............................................................................................................. 72 3.2 NOVOS AGONISTAS DO RECEPTOR BENZODIAZEPÍNICO ........................................... 75 3.3 BARBITÚRICOS ............................................................................................................................ 76 4 ANTIDEPRESSIVOS ........................................................................................................................ 77 4.1 INIBIDORES DA CAPTURA DAS MONOAMINAS .............................................................. 78 4.2 ANTAGONISTAS DO RECEPTOR DE MONOAMINA......................................................... 81 4.3 INIBIDORES DA MONOAMINOXIDASE (IMAOS) .............................................................. 81 5 ANTIPSICÓTICOS ........................................................................................................................... 83 6 ANTICONVULSIVANTES .............................................................................................................. 86 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 89 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 90 TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO ........................................................................................... 93 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 93 2 COLINÉRGICOS ............................................................................................................................... 94 2.1 AGONISTAS MUSCARÍNICOS ................................................................................................. 95 2.2 AGONISTAS NICOTÍNICOS ...................................................................................................... 96 2.3 ANTICOLINESTERÁSICOS ....................................................................................................... 96 3 ANTICOLINÉRGICOS .................................................................................................................... 98 3.1 ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS ......................................................................................... 99 3.2 ANTAGONISTAS NICOTÍNICOS ........................................................................................... 100 4 ADRENÉRGICOS ............................................................................................................................ 102 4.1 ALFA1 E 2 E BETA1 E 3-AGONISTAS ..................................................................................... 104 4.2 BETA2-AGONISTAS .................................................................................................................. 104 5 ANTIADRENÉRGICOS ................................................................................................................. 106 5.1 BETABLOQUEADORES ............................................................................................................ 106 5.2 ALFABLOQUEADORES ............................................................................................................ 108 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 109 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 110 TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO................................................. 113 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 113 2 ANTI-HIPERTENSIVOS ................................................................................................................ 113 3 CARDIOTÔNICOS ......................................................................................................................... 117 4 DIURÉTICOS ................................................................................................................................... 119 4.1 TIAZIDAS .................................................................................................................................... 120 4.2 DIURÉTICOS DE ALÇA ............................................................................................................ 121 4.3 DIURÉTICOS POUPADORES DE POTÁSSIO ....................................................................... 121 5 ANTITROMBÓTICOS ................................................................................................................... 122 5.1 ANTICOAGULANTES ORAIS ................................................................................................. 122 5.2 ANTICOAGULANTES BASEADOS NA HEPARINA .......................................................... 124 6 HIPOGLICEMIANTES ORAIS .................................................................................................... 126 6.1 SULFONILUREIAS..................................................................................................................... 126 6.2 BIGUANIDAS ............................................................................................................................. 127 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 129 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 134 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 135 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 137 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOSESTEROIDES .......................................................................................................... 139 TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS .......................................................................................... 141 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 141 2 BETALACTÂMICOS....................................................................................................................... 142 2.1 PENICILINAS ............................................................................................................................ 143 2.2 CEFALOSPORINAS ................................................................................................................... 146 3 MACROLÍDEOS .............................................................................................................................. 149 4 AMINOGLICOSÍDEOS ................................................................................................................. 151 5 QUINOLONAS E FLUOROQUINOLONAS ............................................................................. 154 6 OUTROS ANTIBIÓTICOS ............................................................................................................ 157 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 160 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 161 TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS ....................................................... 165 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 165 2 TUBERCULOSTÁTICOS ............................................................................................................... 165 2.1 ISONIAZIDA ............................................................................................................................... 166 2.2 ETIONAMIDA E PIRAZINAMIDA ........................................................................................ 167 2.3 ETAMBUTOL .............................................................................................................................. 168 3 ANTIFÚNGICOS ............................................................................................................................. 169 3.1 POLIENOS: ANFOTERICINA B E NISTATINA .................................................................... 170 3.2 AZÓIS ........................................................................................................................................... 171 3.3 ALILAMINAS ............................................................................................................................. 172 4 ANTIPROTOZOÁRIOS ................................................................................................................. 173 4.1 TRIPANOMICIDAS .................................................................................................................... 174 4.2 ANTILEISHMANIÓTICOS ....................................................................................................... 175 4.3 ANTIMALÁRICOS ..................................................................................................................... 176 5 ANTIVIRAIS .................................................................................................................................... 178 6 ANTINEOPLÁSICOS ..................................................................................................................... 181 6.1 AGENTES INTERCALANTES .................................................................................................. 182 6.2 MOSTARDAS NITROGENADAS ............................................................................................ 183 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 185 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 186 TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES ............................. 189 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 189 2 ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES ........................................................................ 189 2.1 INIBIDORES SELETIVOS DE COX-2 ...................................................................................... 192 3 ANTI-INFLAMATÓRIOS ESTEROIDES ................................................................................... 194 4 HORMÔNIOS ESTEROIDES ...................................................................................................... 197 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 202 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 206 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 207 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 211 1 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender os aspectos que estão envolvidos no reconhecimento molecular de um fármaco com o seu biorreceptor; • entender a influência da estereoquímica na atividade biológica dos fármacos; • conhecer as fases do metabolismo de fármacos; • compreender como as alterações na estrutura dos fármacos podem alterar as fases farmacodinâmica e farmacocinética. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – FASE FARMACODINÂMICA TÓPICO 2 – ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS TÓPICO 3 – METABOLISMO DE FÁRMACOS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 FASE FARMACODINÂMICA 1 INTRODUÇÃO Para compreender os diferentes aspectos que estão envolvidos no reconhecimento molecular de um fármaco pelo seu biorreceptor, estudaremos o que ocorre durante a fase farmacodinâmica. É importante relembrar que, para um determinado fármaco exercer o efeito terapêutico desejado, deve percorrer algumas fases na biofase. Um fármaco administrado por via oral, em forma farmacêutica sólida, deve, inicialmente, passar pela fase farmacêutica na qual ocorrem os processos de desintegração, desagregação e dissolução. Com o fármaco em solução, ele passa para a fase farmacocinética, que engloba os processos de absorção, distribuição, metabolização e excreção. Após a fase farmacocinética, tem-se a fase farmacodinâmica, caracterizada pela interação do fármaco com o seu receptor biológico. Para a interação fármaco-receptor ocorrer, são necessárias forças intermoleculares que podem ser atrativas e/ou repulsivas, como interações hidrofóbicas, forças eletrostáticas e ligações covalentes. A afinidade de um fármaco por seu receptor depende, então, do somatório das forças de interação que ocorrem entre os seus grupamentos com os sítios complementares do receptor. Na fase farmacodinâmica, são de fundamental importância tambémas propriedades físico-químicas do fármaco, como a lipofilicidade, a solubilidade e a constante de ionização, para que o fármaco atinja concentrações plasmáticas capazes de exercer o seu efeito biológico. Assim, conheceremos todos esses aspectos relacionados com a fase farmacodinâmica dos fármacos. O conhecimento das forças intermoleculares envolvidas na ligação de um determinado fármaco com o seu receptor é de grande importância para o desenvolvimento e o planejamento de novos fármacos análogos, pois determinadas alterações na estrutura molecular do fármaco podem aumentar a força de interação com o seu receptor e, consequentemente, a sua afinidade. IMPORTANT E UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 4 2 FÁRMACOS ESTRUTURALMENTE ESPECÍFICOS De maneira geral, um determinado fármaco pode ser classificado pela sua forma de interação com a biofase e a promoção do efeito biológico como estruturalmente inespecífico e estruturalmente específico (FRAGA, 2001). Os fármacos estruturalmente inespecíficos são aqueles que para promove- rem o seu efeito biológico dependem apenas das suas propriedades físico-químicas, como o coeficiente de partição e pKa. Via de regra, esses fármacos apresentam baixa potência e, com isso, são necessárias doses elevadas ou acúmulos no tecido-alvo. Um exemplo clássico de fármacos estruturalmente inespecíficos são os anestésicos gerais que atuam provocando perda de consciência. Como é possível observar na Figura 1, a potência dos anestésicos gerais halotano, isoflurano e sevoflurano, dada pelo MAC50 (concentração alveolar mínima necessária para provocar imobilidade em 50% dos pacientes) está diretamente relacionada com a sua lipossolubilidade. Dessa forma, o fármaco halotano, que é o mais lipossolúvel, é o anestésico mais potente (BARREIRO; FRAGA, 2015). O coeficiente de partição é a relação das concentrações de uma substância em uma fase aquosa e uma fase orgânica. Já o pKa é o negativo do logaritmo da constante de ionização (Ka), que representa a constante de equilíbrio de reações que envolvem íons. A respeito do coeficiente de partição e pKa, mais adiante será abordada a influência das propriedades físico-químicas na atividade biológica dos fármacos. NOTA FIGURA 1 – CORRELAÇÃO ENTRE AS PROPRIEDADES FISICO-QUÍMICAS E A ATIVIDADE DE FÁRMACOS ANESTÉSICOS GERAIS FONTE: A autora TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 5 Os anestésicos gerais interagem com as macromoléculas da biofase principalmente por interações de van der Waals. Esse tipo de interação, como veremos adiante, é de fraca energia. ESTUDOS FU TUROS Já os fármacos estruturalmente específicos exercem seu efeito biológico por meio de interações seletivas com seus alvos biológicos, geralmente biomacromoléculas, como enzimas, receptores acoplados a proteína G, receptores acoplados a canais iônicos, receptores nucleares, entre outros (FRAGA, 2001). A ação desses fármacos se deve a suas estruturas químicas, por isso, dentro de uma mesma classe de compostos, eles apresentam características estruturais comuns e pequenas variações na estrutura resultam em alterações na atividade biológica. Outra diferença desses fármacos está no fato de serem necessárias pequenas doses para produção do efeito esperado (BARREIRO; FRAGA, 2015). O reconhecimento do fármaco (ligante) pela biomacromolécula, ou seja, pelo seu sítio receptor, é dependente das propriedades estruturais do fármaco e do arranjo espacial dos seus grupos funcionais. Para que ocorra a interação do fármaco com a biomacromolécula, deve haver uma complementaridade molecular, que pode ser explicada pelo modelo chave-fechadura proposto pelo químico Emil Fischer (Figura 2). FIGURA 2 – MODELO CHAVE-FECHADURA E O RECONHECIMENTO LIGANTE-RECEPTOR FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 21) UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 6 O modelo chave-fechadura foi inicialmente criado, a fim de explicar a especificidade da interação entre uma enzima e seu substrato. Nesse modelo aplicado ao reconhecimento molecular dos fármacos pelo seu receptor, a biomacromolécula é considerada uma fechadura, o sítio receptor a fenda da fechadura, e as chaves os diferentes ligantes (fármacos) do sítio receptor; já a ação de abrir a porta corresponde às possíveis respostas biológicas da interação chave-fechadura (FRAGA, 2001). A Figura 2 exemplifica os três tipos de chaves: a chave original, a chave modificada e a chave falsa. A chave original é totalmente complementar à fechadura, encaixando-se adequadamente e resultando na abertura da porta. Essa chave corresponde ao agonista endógeno ou substrato natural, o qual interage com o sítio receptor da biomacromolécula levando a uma resposta biológica. Já a chave modificada é aquela que apresenta propriedades estruturais semelhantes à chave original, que permitem a abertura da porta. Essa chave corresponde a um agonista modificado da biomacromolécula, de origem natural ou sintética, e a resposta biológica obtida é similar à do agonista natural, porém com diferente intensidade. Por outro lado, a chave falsa apresenta propriedades estruturais com semelhanças mínimas, quando comparado à chave original, que permitem o acesso dessa chave à fechadura, mas sem a capacidade de abrir a porta. A chave falsa corresponde ao antagonista da biomacromolécula, de origem natural ou sintética, que se liga ao sítio do receptor, não promove a resposta biológica esperada e ainda bloqueia a interação pelo agonista endógeno e/ou modificado. Nas três situações apresentadas, podemos observar duas etapas que são significativas na interação do fármaco com a sua biomacromolécula ou o seu receptor: a interação fármaco-receptor e a promoção da resposta biológica. A interação fármaco-receptor pode ser expressa de forma quantitativa pelo termo afinidade, enquanto a promoção da resposta biológica pode ser expressa de forma quantitativa pelo termo atividade intrínseca (FRAGA, 2001). De modo mais claro, esses termos podem ser definidos como: • Afinidade: capacidade do fármaco em se complexar com o sítio complementar da biomacromolécula-alvo. • Atividade intrínseca: capacidade do complexo fármaco-receptor de desencadear uma determinada resposta biológica. A Tabela 1 apresenta as substâncias ligantes de receptores benzodiazepínicos. Os fármacos diazepam e midazolam atuam como agonistas desses receptores, promovendo os efeitos biológicos característicos dessa classe terapêutica de hipnóticos e sedativos. No entanto, essas substâncias se ligam ao receptor com diferentes afinidades, sendo que o midazolam apresenta maior afinidade pelo receptor benzodiazepínico. Já o flumazenil, nos mostra que uma maior afinidade não significa uma maior capacidade da substância em produzir uma determinada resposta biológica, pois este fármaco é o que possui maior afinidade pelo receptor, porém atua como antagonista sobre os receptores benzodiazepínicos, não desencadeando a resposta biológica esperada para os fármacos dessa classe terapêutica. TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 7 TABELA 1 – AFINIDADE E ATIVIDADE INTRÍNSECA DE LIGANTES DE RECEPTORES BENZODIAZEPÍNICOS FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 22) Substância Afinidade do liganteKi* (nM) Atividade intrínseca do ligante Diazepam 11,0 Agonista Midazolam 3,1 Agonista Flumazenil 1,4 Antagonista *Ki: constante de afinidade pelos receptores benzodiazepínicos em preparações de cérebros de murinos (ensaio de “binding”). Tanto os fármacos agonistas e antagonistas possuem afinidade pelo receptor, porém os fármacos antagonistas não produzem efeito biológico algum e ainda impedem a ligação do agonista total ao receptor. Entre os agonistas, ainda temos os classificados como totais e parciais. Os agonistas totais produzem efeito máximo, enquanto osagonistas parciais apresentam menor efeito. IMPORTANT E UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 8 3 FORÇAS INTERMOLECULARES ENVOLVIDAS NA INTERAÇÃO FÁRMACO-RECEPTOR De modo qualitativo, a afinidade e a especificidade da ligação fármaco- receptor são determinadas por interações ou forças intermoleculares, sendo que raramente a ligação fármaco-receptor é produzida por um único tipo de interação. Essas interações podem ser classificadas em interações hidrofóbicas, forças eletrostáticas, forças de dispersão, ligações de hidrogênio e ligações covalentes. 3.1 INTERAÇÕES HIDROFÓBICAS As interações hidrofóbicas são resultantes da interação entre cadeias e/ou subunidades apolares/hidrofóbicas, presentes tanto no fármaco ligante quanto no sítio receptor. Em regra, essas subunidades apolares são encontradas solvatadas por moléculas de água e, de acordo com Barreiro e Fraga (2015, p. 28), “[...] a aproximação das superfícies hidrofóbicas promove o colapso da estrutura organizada da água, permitindo a interação ligante-receptor à custa do ganho entrópico associado à desorganização do sistema”. Essas forças são individualmente fracas (aproximadamente 1 kcal/mol), mas, como frequentemente são observados elevados números de subunidades hidrofóbicas nos fármacos e biomacromoléculas, essa interação é considerada importante no reconhecimento do fármaco pelo seu receptor. Na Figura 3, temos um exemplo de diversas interações hidrofóbicas envolvidas no reconhecimento molecular do fator de ativação plaquetária (PAF) com o seu biorreceptor, uma proteína que contém uma bolsa lipofílica que interage com a cadeia alquílica do ligante – na figura, as moléculas de água formando camadas de solvatação estão representadas em azul. FIGURA 3 – RECONHECIMENTO MOLECULAR DO PAF VIA INTERAÇÕES HIDROFÓBICAS COM A BOLSA LIPOFÍLICA DE SEU BIORRECEPTOR FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 29) TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 9 3.2 FORÇAS ELETROSTÁTICAS As forças eletrostáticas são resultantes da interação entre íons e/ou dipolos de cargas opostas, sendo que a intensidade dessa força é dependente da distância entre as cargas e da constante dielétrica do meio. A água, por exemplo, apresenta uma elevada constante dielétrica (ε = 80), decorrente de seu momento dipolo permanente, o que possibilita à água diminuir as forças de atração e repulsão entre dois grupamentos carregados que se encontram solvatados. A interação iônica é um tipo de força eletrostática, que, geralmente, é precedida pela dessolvatação dos íons e apresenta força de ligação de cerca 5 kcal/mol. Além disso, de acordo com Barreiro e Fraga (2015, p. 23), é “[...] dependente da diferença de energia da interação íon-íon versus a energia dos íons solvatados”. A interação iônica é comum na ligação de muitos fármacos com seus receptores, visto que, no pH fisiológico, alguns aminoácidos dos receptores biológicos encontram-se ionizados (por exemplo, arginina, lisina, histidina e ácido aspártico) e estes interagem com fármacos que apresentam grupos carregados. Na Figura 4, podemos ver a interação do flurbiprofeno com o seu biorreceptor, por meio de uma interação iônica. FIGURA 4 – RECONHECIMENTO MOLECULAR DO FLURBIPROFENO PELO SÍTIO ATIVO DA COX-1, VIA INTERAÇÃO IÔNICA FONTE: Autora As forças eletrostáticas apresentam outros dois tipos de interações: íon- dipolo e dipolo-dipolo, que apresentam energia entre 1 e 7 kcal/mol. No íon- dipolo, a interação ocorre entre um íon e uma espécie neutra que é polarizável, com carga oposta ao do íon. Já no dipolo-dipolo, a interação se dá entre dois grupos que apresentam polarizações de cargas opostas, decorrentes da diferença de eletronegatividade entre um heteroátomo e um átomo de carbono (FRAGA, 2001). Essas forças eletrostáticas encontram-se ilustradas na Figura 5. UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 10 FIGURA 5 – INTERAÇÕES ÍON-DIPOLO (A E B) E DIPOLO-DIPOLO (C) E O RECONHECIMENTO FÁRMACO-RECEPTOR FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 24) 3.3 FORÇAS DE DISPERSÃO As forças de dispersão de London ou interação de van der Waals ocorrem devido à aproximação de moléculas apolares que apresentam dipolos induzidos, resultantes de uma flutuação local transiente de densidade eletrônica entre grupamentos apolares próximos (por exemplo, ligações carbono-carbono; Figura 6). Essas interações são de fraca energia, cerca de 0,5 a 1 kcal/mol, porém, assim como as interações hidrofóbicas, são de grande importância para a ligação fármaco-receptor, pois, geralmente, observam-se interações múltiplas, que, quando somadas, alcançam uma contribuição energética significativa (FRAGA, 2001). Como exemplo, temos a losartana, um fármaco anti-hipertensivo que faz interações de van der Waals com os resíduos de aminoácidos hidrofóbicos do receptor de angiotensina II do subtipo 1 (AT1R; Figura 7). FONTE: A autora FIGURA 6 – INTERAÇÕES DE VAN DER WAALS PELA POLARIZAÇÃO TRANSIENTE DE LIGAÇÕES CARBONO-HIDROGÊNIO (A) OU CARBONO-CARBONO (B) TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 11 FIGURA 7 – RECONHECIMENTO DA LOSARTANA POR MEIO DE INTERAÇÕES DE VAN DER WAALS FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 29) 3.4 LIGAÇÃO DE HIDROGÊNIO Entre as interações não covalentes, a ligação de hidrogênio é o tipo mais importante que pode ser observado nos sistemas biológicos (BARREIRO; FRAGA, 2015). Ligações de hidrogênio podem ser observadas na manutenção das conformações de proteínas, bem como da estrutura α-hélice do DNA, por exemplo. Essas interações ocorrem entre átomos eletronegativos (por exemplo, oxigênio, nitrogênio e flúor) e o átomo de hidrogênio de ligações do tipo O-H, N-H e F-H, em decorrência de suas polarizações, e apresentam força de cerca de 2 a 5 kcal/mol. Vários fármacos são reconhecidos pelo seu sítio-alvo através de ligações de hidrogênio, tendo, como exemplo, o saquinavir, um antiviral que interage com o sítio ativo da protease do vírus da imunodeficiência 1 (HIV-1), como podemos observar na Figura 8, na qual são apresentadas ligações de hidrogênio entre os fármacos e os resíduos de aminoácidos, ácido aspártico (Asp) e glicina (Gly), diretas e indiretas (quando intermediadas por moléculas de água). UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 12 FIGURA 8 – INTERAÇÕES DE HIDROGÊNIO NO RECONHECIMENTO MOLECULAR DO ANTIVI- RAL SAQUINAVIR PELO SÍTIO ATIVO DA ASPARTIL PROTEASE DO HIV-1 FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 32) 3.5 LIGAÇÃO COVALENTE Na ligação covalente, há a formação de uma ligação sigma entre dois átomos, que contribuem cada qual com um elétron. As interações que envolvem a formação de ligações covalentes são as de maior energia, cerca de 77 a 88 kcal/ mol. Como nos sistemas biológicos, a temperatura comum de 30 a 40 °C raramente rompe ligações mais fortes do que 10 kcal/mol em processos não enzimáticos; o complexo fármaco-receptor formado por meio de ligações covalentes dificilmente é desfeito, o que resulta em inativação do sítio receptor ou inibição enzimática irreversível (FRAGA, 2001). O ácido acetilsalicílico (AAS) é um fármaco que atua como inibidor irreversível da enzima prostaglandina endoperóxido sintase (PGHS), desencadeando efeitos anti-inflamatórios e analgésicos ao interromper a biossíntese de prostaglandinas. Essa interação AAS-receptor é de natureza irreversível, devido à formação de uma ligação covalente (Figura 9). A ligação covalente é formada por meio de um ataque nucleofílico da hidroxila do aminoácido serina-530 (Ser530) ao grupamento eletrofílico acetila do AAS, o que resulta em uma transacetilação. Barreiro e Fraga (2015, p. 32) ressaltam que “[...] atualmente se considera que a inibição da enzima prostaglandina endoperóxido sintase (PGHS) pelo AAS é um processo pseudoirreversível, pois o fragmentoSer-530-OAc é hidrolisado de forma tempo-dependente regenerando a enzima PGHS”. TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 13 FIGURA 9 – MECANISMO DE INIBIÇÃO IRREVERSÍVEL DA PGHS PELA ASPIRINA, VIA FORMAÇÃO DE LIGAÇÃO COVALENTE FONTE: Fraga (2001, p. 39) Embora as interações do tipo covalente sejam as de mais alta energia, muitas vezes, elas não são as mais adequadas no planejamento de novos fármacos, visto a irreversibilidade da interação fármaco-receptor. Por outro lado, esse tipo de interação é frequentemente visto em fármacos quimioterápicos, nos quais a inibição irreversível de determinado alvo molecular do patógeno é desejável. IMPORTANT E 4 PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS E ATIVIDADE BIOLÓGICA As propriedades físico-químicas dos fármacos apresentam grande relevância na etapa de reconhecimento molecular do fármaco pelo seu biorreceptor, assim como na fase farmacocinética que abrange os processos de absorção, distribuição, metabolização e excreção, influenciando diretamente em propriedades como biodisponibilidade e tempo de meia-vida do fármaco. Uma propriedade físico-química muito importante e capaz de alterar o perfil farmacoterapêutico de uma substância é a lipofilicidade. De acordo com Barreiro e Fraga (2015), a lipofilicidade (log P) pode ser definida pelo coeficiente UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 14 de partição (P) de uma substância entre uma fase aquosa e uma fase orgânica. O cálculo de P para um dado soluto em um sistema de dois compartimentos, sob condições de equilíbrio, é indicado na Figura 10, em que Corg e Caq são as concentrações do soluto nas fases orgânica e aquosa, respectivamente. FIGURA 10 – DETERMINAÇÃO DO COEFICIENTE DE PARTIÇÃO (P) DE UM SOLUTO FONTE: A autora Os valores de log P podem ser medidos experimentalmente e/ou calculados. O coeficiente de partição (P) é usualmente determinado pelo método de shake flask, empregando-se o sistema n-octanol/tampão fosfato de pH 7,4, sendo que a utilização do n-octanol decorre da sua semelhança estrutural com os fosfolipídios de membrana (SILVA, 2014). O log P pode ser calculado por meio da abordagem de Hansch, a qual utiliza o parâmetro π, que indica a contribuição hidrofóbica de um grupo substituinte na molécula. Há tabelas na literatura que determinam os valores de Hansch para cada grupamento. NOTA TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 15 Quanto à influência do coeficiente de partição na atividade biológica dos fármacos, os valores do logaritmo do coeficiente de partição (log P) são tradicionalmente correlacionados à atividade biológica. Os fármacos que apresentam maior log P, ou seja, que têm maior afinidade pela fase orgânica, tendem a exibir maior permeabilidade pelas membranas biológicas hidrofóbicas e, consequentemente, melhor perfil de biodisponibilidade, o que pode levar ao aumento dos efeitos terapêuticos do fármaco. Como exemplo, temos os fármacos cardiotônicos digitoxina e digoxina (Figura 11). A substituição de um hidrogênio por um oxigênio, grupamento mais polar na digoxina, diminui seu coeficiente de partição e, consequentemente, sua absorção gastrintestinal (Tabela 2). FIGURA 11 – FÁRMACOS CARDIOTÔNICOS DIGITOXINA E DIGOXINA FONTE: A autora R = H digitoxina OH digoxina TABELA 2 – RELAÇÃO ENTRE O COEFICIENTE DE PARTIÇÃO (P) E A ABSORÇÃO GASTRINTESTINAL DE FÁRMACOS CARDIOTÔNICOS FONTE: A autora Fármaco Coeficiente de partição P [CHCl3 / MeOH: H2O (16:84)] Absorção gastrintestinal (%) Tempo de meia-vida (h) Digitoxina 96,5 100 144 Digoxina 81,5 70 a 85 38 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 16 De acordo com Barreiro e Fraga (2015), existe uma lipofilicidade ótima para os fármacos, frequentemente compreendida entre valores de 1 a 3, a qual é capaz de expressar propriedades farmacodinâmicas e farmacocinéticas ideais, e um aumento desse valor, geralmente, leva à redução progressiva do processo de absorção do fármaco. O fármaco também pode se tornar tão hidrofóbico que passa a se acumular no tecido adiposo e, com isso, não alcança o sítio de ação. ATENCAO Outra propriedade físico-química que apresenta influência na atividade biológica de fármacos é a solubilidade, que, de acordo com Silva et al. (2004), é a “[...] medida da quantidade máxima de soluto que pode ser dissolvida em um determinado solvente”. Alguns fatores podem interferir na solubilidade de uma determinada substância, como: • tamanho molecular (ou iônico); • forças dispersivas ou dipolares; • polaridade (ou carga); • ligações de hidrogênio; • introdução grupos hidro/lipofílicos; • temperatura. Para os fármacos, devem apresentar adequada solubilidade para serem absorvidos e exercerem seu efeito biológico, sendo importante destacar que os fármacos geralmente são ácidos ou bases fracas, podendo formar sais. Contudo, na disponibilidade de mais de um sal para o mesmo fármaco, qual sal escolher? No exemplo do diclofenaco, que possui apresentações nos sais de potássio e de sódio, cujas solubilidades em água a 37 °C são de 120,5 mg/mL e 22,5 mg/mL, respectivamente; o diclofenaco potássico (Cataflan®) atinge o seu pico médio de concentração plasmática (cerca de 3,8 mcmol/L) cerca de 20 a 60 minutos após a administração de um comprimido de 50 mg. Já o diclofenaco sódico (Voltaren®) atinge o seu pico médio de concentração plasmática (5 mcmol/L), em média, 2 horas após o uso de um comprimido de 50 mg. Portanto, devido a maior solubilidade do diclofenaco de potássio, este atinge o pico médio da concentração plasmática mais rapidamente, o que pode ser preferível para condições agudas. TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 17 O polimorfismo de fármacos no estado sólido também pode influenciar na sua atividade biológica, visto que os polimorfos podem diferir na solubilidade e, consequentemente, na biodisponibilidade do fármaco. IMPORTANT E A fim de classificar os fármacos quanto a sua hidrossolubilidade e sua permeabilidade por difusão passiva, foi desenvolvido o Sistema de Classificação Biofarmacêutica, por Amidon et al., no qual os fármacos podem ser distribuídos em quatro classes, conforme pode ser visto na Figura 12 (LEMKE et al., 2008). FIGURA 12 – SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO BIOFARMACÊUTICA FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 38) A maioria dos fármacos são ácidos ou bases fracas. A constante de ionização é uma propriedade físico-química especialmente importante na fase farmacodinâmica, devido à possibilidade de formação de espécies ionizadas do fármaco, que podem interagir com resíduos de aminoácidos do sítio ativo da biomacromolécula por forças eletrostáticas, como a ligação iônica ou interações íon-dipolo (BARREIRO; FRAGA, 2015). Essa propriedade também é importante na fase farmacocinética, pois as espécies não ionizadas atravessam mais facilmente as membranas biológicas por transporte passivo (Figura 13). Um determinado fármaco ácido (HA) pode perder o seu próton, levando à formação da espécie aniônica (A-) correspondente, enquanto um fármaco básico (B) pode ser protonado, resultando na formação da espécie catiônica (BH+). UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 18 FIGURA 13 – GRAU DE IONIZAÇÃO E ABSORÇÃO PASSIVA DE ÁCIDOS OU BASES FRACAS FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 32) A constante de ionização (Ka) frequentemente é expressa pelo negativo do seu logaritmo (pKa), o qual pode ser calculado pela seguinte fórmula: 𝑝𝐾𝑎 = 𝑝𝐻 − 𝐿𝑜𝑔 [𝒆𝒔𝒑é𝒄𝒊𝒆 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂] [𝒆𝒔𝒑é𝒄𝒊𝒆 𝒏ã𝒐 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂]𝑝𝐾𝑎 = 𝑝𝐻 − 𝐿𝑜𝑔 [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂] [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒏𝒂𝒐 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂]𝑝𝐾𝑎 = 𝑝𝐻 − 𝐿𝑜𝑔 [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂] [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒏𝒂𝒐 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂]𝑝𝐾𝑎 = 𝑝𝐻 − 𝐿𝑜𝑔 [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂] [𝒆𝒔𝒑𝐞𝒄𝒊𝒆 𝒏𝐚𝒐 𝒊𝒐𝒏𝒊𝒛𝒂𝒅𝒂] A fração ionizada do fármaco pode ser dada pelo termo α, sendo possível calcularo percentual de ionização de ácidos e bases a partir das seguintes fórmulas: 𝑷𝒂𝒓𝒂 á𝒄𝒊𝒅𝒐𝒔: % 𝑖𝑜𝑛𝑖𝑧𝑎çã𝑜 α = 100 − 𝟏𝟎𝟎 𝟏+ 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐨𝐠 [𝐩𝐇− 𝐩𝐊𝐚] 𝑷𝒂𝒓𝒂 𝒃𝐚𝒔𝒆𝒔: % 𝑑𝑒 𝑖𝑜𝑛𝑖𝑧𝑎çã𝑜 α = 100− 𝟏𝟎𝟎 𝟏 + 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐨𝐠 [𝐩𝐊𝐚− 𝐩𝐇] Para ácidos: % ionização Para bases: % ionização 𝑷𝒂𝒓𝒂 á𝒄𝒊𝒅𝒐𝒔: % 𝑖𝑜𝑛𝑖𝑧𝑎çã𝑜 α = 100 − 𝟏𝟎𝟎 𝟏+ 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐨𝐠 [𝐩𝐇− 𝐩𝐊𝐚] 𝑷𝒂𝒓𝒂 𝒃𝐚𝒔𝒆𝒔: % 𝑑𝑒 𝑖𝑜𝑛𝑖𝑧𝑎çã𝑜 α = 100− 𝟏𝟎𝟎 𝟏 + 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐨𝐠 [𝐩𝐊𝐚− 𝐩𝐇] Como os principais compartimentos biológicos apresentam pH definidos, como a mucosa gástrica que tem pH 1, a mucosa intestinal que tem pH 5 e o plasma que tem pH 7,4; a determinação do pKa e da porcentagem de ionização de determinado fármaco é importante para a previsão do comportamento dos fármacos na fase farmacocinética e o direcionamento da sua ação biológica. Um exemplo é o anti-inflamatório piroxicam, um fármaco ácido (pKa = 6,3), cuja absorção se dá ao nível do trato gastrintestinal, sob a forma não ionizada (HA). Quando absorvido, o piroxicam apresenta alta porcentagem de ionização no pH sanguíneo e é distribuído ligado às proteínas plasmáticas. No tecido com TÓPICO 1 — FASE FARMACODINÂMICA 19 um processo inflamatório instaurado, há a redução significativa do pH pela ação de proteases, o que leva a mais de 95% do piroxicam se encontrar na forma não ionizada e ser absorvido por esse tecido, exercendo seu efeito biológico (BARREIRO; FRAGA, 2015). Na Figura 14, é possível observar os cálculos de ionização desse fármaco para diferentes compartimentos biológicos. FIGURA 14 – GRAU DE IONIZAÇÃO DO PIROXICAM EM DIFERENTES COMPARTIMENTOS BIOLÓGICOS FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 34) 20 Neste tópico, você aprendeu que: • Os fármacos estruturalmente inespecíficos são aqueles que dependem apenas das suas propriedades físico-químicas para promoverem o efeito biológico, enquanto os fármacos estruturalmente específicos exercem seu efeito por meio de interações seletivas com seus alvos biológicos. • A interação fármaco-receptor depende de forças químicas que se estabelecem entre a molécula do fármaco e o sítio receptor da biomacromolécula, e quanto maior a intensidade das forças químicas que ligam o fármaco ao receptor, maior é a intensidade da resposta farmacológica. • Raramente, a ligação fármaco-receptor é produzida por um único tipo de interação, sendo que as interações podem ser classificadas em hidrofóbicas, forças eletrostáticas, forças de dispersão, ligações de hidrogênio e ligações covalentes. • Interações hidrofóbicas ocorrem entre cadeias ou subunidades apolares. Forças eletrostáticas são resultantes da interação entre dipolos e/ou íons de cargas opostas. Forças de dispersão são resultantes da aproximação de moléculas apolares por dipolo induzido. Ligações de hidrogênio ocorrem entre átomos eletronegativos e o átomo de hidrogênio de ligações do tipo O-H, N-H e F-H. Ligação covalente é a formação de ligação sigma entre dois átomos que contribuem cada qual com 1 elétron. • A ligação covalente é a de maior energia, cerca de 77 a 88 kcal/mol, enquanto as interações hidrofóbicas (aproximadamente 1 kcal/mol) e as forças de dispersão de London (cerca de 0,5 a 1,0 kcal/mol) são de fraca energia. • As propriedades físico-químicas dos fármacos, como a lipofilicidade, a solubilidade e a constante de ionização, apresentam grande relevância na etapa de reconhecimento molecular do fármaco pelo seu biorreceptor • Log P é a medida de lipofilicidade. Os valores de Log P podem ser medidos experimentalmente e/ou calculados. RESUMO DO TÓPICO 1 21 1 Os anestésicos locais bloqueiam reversivelmente os canais de sódio voltagem-dependentes, aumentando o limiar de dor. Sobre a estrutura geral do anestésico local representado na figura a seguir, considerando o tipo de interação intramolecular indicado pela letra A, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Interação íon-dipolo. b) ( ) Ligação de hidrogênio. c) ( ) Interação de van der Waals. d) ( ) Ligação covalente. 2 Na interação do fármaco com o seu receptor biológico, deve haver uma complementaridade molecular, a qual pode ser representada pelo modelo chave-fechadura de Emil Fischer. A respeito do reconhecimento do fármaco pelo seu receptor, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Um agonista modificado, que interage com seu receptor biológico, apresenta propriedades estruturais semelhantes ao agonista endógeno ou substrato natural. ( ) Um fármaco antagonista promove a resposta biológica esperada, porém com intensidade diferente do agonista natural. ( ) Um fármaco antagonista bloqueia o sítio receptor da biomacromolécula, impedindo a interação de um agonista endógeno e/ou modificado. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. AUTOATIVIDADE FONTE: A autora 22 3 Dificilmente a ligação do fármaco com o seu receptor é produzida por um único tipo de interação molecular. No entanto, entre os diferentes tipos de interações não covalentes, tem-se um tipo muito importante para os sistemas biológicos, responsável pela manutenção da estrutura α-hélice do DNA e caracterizado por ocorrer entre átomos eletronegativos e o átomo de hidrogênio de ligações do tipo O-H, N-H e F-H. Com base nesse tipo de interação, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Ligação de hidrogênio. b) ( ) Ligação iônica. c) ( ) Interação de van der Waals. d) ( ) Ligação covalente. 4 A atividade farmacológica de um composto é determinada por diversos fatores, e dentre eles tem-se a estrutura das macromoléculas envolvidas no reconhecimento molecular ligante-receptor. Com base nessa informação e observando a figura a seguir, quais as forças intermoleculares envolvidas na ligação do benzodiazepínico com o seu receptor (A, B e C)? Justifique. FONTE: A autora 5 A sulfanilamida apresenta log P = -0,66. O que significa um composto ter log P negativo? É possível a sulfanilamida ser insolúvel na água? Justifique. FONTE: A autora 23 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 1 INTRODUÇÃO Embora o modelo chave-fechadura proposto por Emil Fischer seja útil para compreender a interação do fármaco com a biomacromolécula e os eventos envolvidos nesse reconhecimento, esse modelo é considerado “grosseiro” quando se analisa o que acontece na realidade, visto que a interação entre o fármaco e a biomacromolécula é tridimensional e dinâmica (FRAGA, 2001). Dessa forma, o tamanho molecular do fármaco (ligante), as distâncias interatômicas e o arranjo espacial entre os grupos farmacofóricos da molécula são de fundamental importância na compreensão dos aspectos envolvidos em uma interação fármaco-receptor. Na Figura 15, podemos observar, do ponto de vista tridimensional, o complexo fármaco-biomacromolécula, ilustrado pela interação do fármaco atorvastatina com a enzima hidroximetilglutaril-coenzima A (HMG-CoA) redutase, com um enfoque no arranjo espacial dos aminoácidos que constituem o sítio ativo (em laranja). FIGURA 15 – REPRESENTAÇÃO TRIDIMENSIONAL DO COMPLEXO DA HMG-COA REDUTASE COM O INIBIDOR ATORVASTATINA FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 17) Assim, abordaremos a relevância da estereoquímica na atividade biológica dos fármacos. 24 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Para o melhor entendimento da estereoquímica de fármacos, é importante definirmos alguns conceitos: • Isômeros são compostos diferentes com a mesma fórmula molecular. • Estereoisômeros são isômeros cujos átomos possuem a mesma conectividade, mas diferem pelo arranjo espacial. • Enantiômeros são estereoisômeros que são imagens especulares um do outro, porémnão são superponíveis. • Diastereoisômeros são estereoisômeros que não são imagens especulares um do outro nem se superpõem. • Uma substância é quiral quando não é sobreponível com a sua imagem especular. IMPORTANT E 2 TEORIA DO ENCAIXE INDUZIDO A fim de introduzir os aspectos dinâmicos envolvidos no reconhecimento molecular de um fármaco pela biomacromolécula-alvo, Koshland propôs a teoria do encaixe induzido (PATRICK, 2013). De acordo com essa teoria, ocorre um ajuste topográfico e eletrônico (na maioria das vezes, reversível) entre o fármaco e o receptor que desencadeia o estímulo e resulta no efeito biológico. O acomodamento conformacional é recíproco no sítio receptor, e ele ocorre até que os valores de energia do complexo fármaco-receptor (ligante-biorreceptor) sejam os menores possíveis (Figura 16). FIGURA 16 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DA TEORIA DO ENCAIXE INDUZIDO FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 18) TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 25 A interpretação da interação do fármaco-receptor pela teoria do encaixe induzido pode ser exemplificada pelas diferentes conformações bioativas de novos inibidores da enzima acetilcolinesterase (AChE), planejados como análogos (isto é, semelhantes) estruturais da tacrina, um fármaco utilizado no tratamento da doença de Alzheimer. Na Figura 17, podemos perceber que as três moléculas apresentam a unidade farmacofórica (tetraidro-4-aminoquinolina), responsável pela atividade biológica, porém suas orientações conformacionais bioativas e, consequentemente, seus modos de reconhecimento molecular pelo sítio receptor são relativamente distintos (BARREIRO; FRAGA, 2015). Pequenas alterações na estrutura de compostos de uma série congênere, ou seja, estruturalmente relacionada, podem resultar em grandes mudanças no perfil de interação com o receptor biológico, levando a possíveis interpretações comparativas falsas. IMPORTANT E FIGURA 17 – SOBREPOSIÇÃO DAS CONFORMAÇÕES BIOATIVAS DE INIBIDORES DA ACETIL- COLINESTERASE APÓS RECONHECIMENTO MOLECULAR PELO SÍTIO ATIVO DA ENZIMA FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 18) 26 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS No momento do reconhecimento molecular de determinados fármacos pelo biorreceptor, certos resíduos de aminoácidos podem ser expostos, a fim de permitirem a interação intermolecular com determinado grupamento do ligante. Assim, a Figura 18 mostra dois derivados peptoides inibidores da metaloproteinase-3 de matriz (MMP-3). O derivado 1 apresenta a subunidade N-metil-carboxamida terminal (destacada em azul), que se liga ao biorreceptor-alvo por meio de duas ligações de hidrogênio, ligação intermolecular importante para formação desse complexo fármaco-biorreceptor. Já o derivado 2 não apresenta essa subunidade, tendo como substituinte um grupamento hidrofóbico fenila, o que nos levaria a pensar que esse derivado mostraria uma menor afinidade pelo sítio receptor por não ser capaz de realizar ligações de hidrogênio. No entanto, o sítio ativo da MMP-3, induzido pela presença do derivado 2, expõe o aminoácido hidrofóbico leucina (Leu), o qual interage com a subunidade hidrofóbica fenila do derivado 2, proporcionando sua afinidade pela enzima-alvo. FIGURA 18 – ESTRUTURA CRISTALOGRÁFICA DOS COMPLEXOS ENTRE INIBIDORES PEPTOIDES COM A METALOPROTEASE-3 DE MATRIZ FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 19) TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 27 Com relação à interação fármaco-receptor e à teoria do encaixe induzido, Barreiro e Fraga (2015, p. 19) acrescentam que: pode-se considerar que a interação entre um bioligante e uma proteína deve ser imaginada como uma colisão entre dois objetos flexíveis. Nesse processo, o choque inicial do ligante com a superfície da proteína deve provocar o deslocamento de algumas moléculas de água superficiais sem, entretanto, garantir o acesso imediato ao sítio ativo, uma vez que o transporte do ligante ao sítio de reconhecimento molecular deve envolver múltiplas etapas de acomodamento conformacional que produzam o modo de interação mais favorável entálpica e entropicamente. 3 CONFIGURAÇÃO E ATIVIDADE BIOLÓGICA O químico Piutti, em 1886, foi um dos primeiros pesquisadores a relatar a relevância da configuração absoluta de compostos na atividade biológica. Esse pesquisador descreveu as diferentes sensações no paladar de enantiômeros do aminoácido asparagina (Figura 19), as quais eram decorrentes, de modos distintos, de interação do ligante pelo receptor localizado nas papilas gustativas (FRAGA, 2001). FIGURA 19 – PALADAR DOS ESTEREOISÔMEROS DA ASPARAGINA FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 20) 28 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Muitas propriedades dos enantiômeros são idênticas, como a faixa de fusão e ebulição, e solubilidade. Outras podem ser diferentes: atividade biológica, gosto, cheiro, rotação do plano da luz polarizada (rotação óptica). ATENCAO Em 1933, Easson e Stedman elaboraram um modelo de três pontos, propondo que o reconhecimento molecular de um ligante com um simples carbono assimétrico pelo receptor biológico deveria envolver a participação de pelo menos três pontos e, dessa forma, o reconhecimento molecular de um determinado isômero não seria muito eficaz, caso perdesse um ou mais pontos de interação com o receptor ou, ainda, apresentasse novas interações repulsivas com resíduos de aminoácidos do receptor (FRAGA, 2001). O modelo de três pontos pode ser exemplificado pelo reconhecimento estereoespecífico do fármaco propranolol (Figura 20). O enantiômero (S)- propranolol é reconhecido pelos receptores β-adrenérgicos, por meio de três principais pontos de interação: • Interações hidrofóbicas entre o receptor e o grupamento lipofílico naftila do fármaco. • Ligação de hidrogênio entre o aspartato e o átomo de hidrogênio da hidroxila da cadeia lateral do fármaco. • Interação do tipo íon-dipolo entre a asparagina e o grupamento amina da cadeia lateral do fármaco (ionizado em pH fisiológico). Por outro lado, o enantiômero (R)-propranolol apresenta apenas dois pontos de interação, o ponto de interações hidrofóbicas e o ponto de interação íon-dipolo, o que altera drasticamente sua atividade betabloqueadora devido à menor afinidade com o receptor decorrente de um ponto de interação e, além disso, esse enantiômero apresenta efeitos secundários associados à inibição do processo de conversão da tiroxina, um hormônio da tireoide, a tri-iodotironina. FIGURA 20 – RECONHECIMENTO MOLECULAR DOS GRUPAMENTOS FARMACOFÓRICOS DOS ENANTIÔMEROS DO PROPRANOLOL PELOS RECEPTORES BETA1 E BETA2-ADRENÉRGICOS TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 29 FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 21) O enantiômero de um fármaco que apresenta o efeito farmacológico desejado e que exibe maior afinidade e potência pelos sítios-alvo, é denominado eutômero, enquanto seu antípoda, ou seja, o enantiômero de menor afinidade pelo sítio do receptor, é denominado distômero. NOTA No entanto, a magnitude da influência da configuração absoluta na atividade biológica só ganhou força a partir da “tragédia da talidomida”, um fármaco muito utilizado por gestantes nas décadas de 1950 e 1960 para o alívio do mal-estar matinal, que resultou no nascimento de mais de 10 mil crianças em todo o mundo com malformações congênitas. A talidomida, comercializada em sua forma racêmica, ou seja, uma mistura em que os seus isômeros estão presentes em quantidades equivalentes, foi a responsável pelos casos de teratogenicidade, embora os estudos clínicos realizados na época não tenham indicado a sua toxicidade. De acordo com Machado (2013), os isômeros da talidomida (Figura 21) apresentam diferenças entre siem relação à ação terapêutica e aos efeitos secundários. Os efeitos teratogênicos são atribuídos ao enantiômero de configuração absoluta S, enquanto o enantiômero R é desprovido desse efeito tóxico e é o isômero responsável pelos efeitos sedativos de interesse para o alívio de enjoos. É importante destacar que, nesse caso, a obtenção do isômero R, em sua forma pura, não é viável, visto que, quando administradas separadamente, as formas R e S sofrem rápida interconversão in vivo. 30 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS FIGURA 21 – ESTEREOISÔMEROS DA TALIDOMIDA FONTE: A autora Atualmente, os efeitos biológicos dos estereoisômeros são avaliados antes de um fármaco ser lançado no mercado, e muitos produtos são comercializados enantiomericamente puros, ou seja, apresentando apenas um dos isômeros. No Quadro 1, encontram-se alguns exemplos de fármacos estereoisômeros e suas atividades biológicas. Assim como a configuração absoluta tem grande importância na atividade biológica de fármacos, a configuração relativa, para isômeros geométricos (diastereoisômeros), também pode repercutir no reconhecimento molecular do ligante pela biomacromolécula e, consequentemente, na atividade biológica, devido à diminuição de pontos de interação e redução de sua afinidade para ligantes alicíclicos, conforme pode ser observado na Figura 22. QUADRO 1 – COMPARAÇÃO ENTRE A ATIVIDADE BIOLÓGICA E A CONFIGURAÇÃO ABSOLUTA DE SUBSTÂNCIAS RELACIONADAS ENANTIOMERICAMENTE FONTE: Adaptado de Bermudez; Barragat (1996) Nome da substância Configuração dextrogira(ou como especificado) Configuração levogira (ou como especificado) Fenilalanina Doce Amargo Verapamil Ação antitumoral Ação antiarrítmica Cloranfenicol (R,R) Antibacteriano (S,S) Inativo Etambutol (R,R) Causa cegueira (S,S) Tuberculostático Penicilamina forma R: extremamente tóxico forma S: antiartrítico Propranolol Contraceptivo Anti-hipertensivo, antiarrítmico FIGURA 22 – CONFIGURAÇÃO RELATIVA E RECONHECIMENTO MOLECULAR LIGANTE-RECEPTOR TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 31 FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 22) Um exemplo, dado por Barreiro e Fraga (2015), que ilustra a influência da isomeria geométrica (cis-trans, E-Z) na atividade biológica de um determinado fármaco é o trans-dietilestilbestrol, um estrogênio sintético que apresenta uma configuração relativa quanto aos grupamentos para-hidroxifenila, que mimetiza o arranjo molecular do ligante natural, o hormônio estradiol, com uma distância de 12,0 Å entre os grupamentos farmacofóricos. Já o cis-dietilestilbestrol apresenta distância entre os grupamentos farmacofóricos (7,7 Å) inferior à necessária ao reconhecimento molecular pelo receptor biológico e, consequentemente, tem atividade estrogênica menor do que o isômero trans, em cerca de 14 vezes (Figura 23). FIGURA 23 – RECONHECIMENTO MOLECULAR DOS GRUPAMENTOS FARMACOFÓRICOS DOS ESTEREOISÔMEROS TRANS E CIS-DIETILESTILBESTROL FONTE: Fraga (2001, p. 41) Para ficar mais bem familiarizado e obter melhor clareza sobre a relação da quiralidade com o efeito farmacológico dos fármacos, sugerimos a leitura do seguinte artigo científico: http://qnesc.sbq.org.br/online/cadernos/03/quiral.pdf. Ótima leitura! DICAS http://qnesc.sbq.org.br/online/cadernos/03/quiral.pdf 32 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 4 CONFORMAÇÃO E ATIVIDADE BIOLÓGICA A conformação refere-se ao arranjo espacial das moléculas, a qual é variável, devido à rotação das ligações sigma. Esse tipo especial de estereoisomeria está relacionado a energias inferiores a 10 kcal/mol e é de extrema importância para o reconhecimento molecular de substâncias endógenas, como a dopamina e a acetilcolina, ou exógenas, que dependem da modulação de certos subtipos de receptores (por exemplo, D1/D2/D3/D4/D5 e muscarínicos/nicotínicos) (FRAGA, 2001). Para entender as diferenças entre os termos configuração e conformação: • Configuração: mudança de “forma” requer quebra de ligação. Com isso, as moléculas são diferentes. • Conformação: mudança de “forma” não requer quebra de ligação; está relacionada apenas com o giro de ligação. Com isso, as moléculas são iguais. Na conformação, tem-se os confôrmeros, estruturas que podem ser convertidas de uma para outra mediante rotação e deformação, mas não ruptura de ligações, e se encontram em equilíbrio tão rápido que, sob condições comuns, não podem ser isoladas. Um exemplo ilustrativo da importância dos fatores conformacionais de uma substância para o seu reconhecimento molecular é o da acetilcolina, um relevante neurotransmissor do sistema nervoso parassimpático. A acetilcolina é capaz de sensibilizar e atuar em dois subtipos de receptores: • receptores muscarínicos: localizados predominantemente no sistema nervoso periférico; • receptores nicotínicos: localizados predominantemente no sistema nervoso central. Os efeitos biológicos são diferentes quando a acetilcolina interage com cada um dos subtipos dos receptores e cada uma dessas interações envolvem arranjos espaciais diferentes dos grupamentos farmacofóricos (grupos acetato e amônio quaternário) com o sítio receptor. Entre essas possíveis conformações, temos a antiperiplanar, em que o afastamento entre os grupamentos farmacofóricos da acetilcolina é máximo, e a sinclinal, na qual os grupamentos farmacofóricos apresentam um ângulo de 60 graus entre si. A conformação antiperiplanar da acetilcolina está envolvida na interação com o subtipo muscarínico, enquanto a sua conformação sinclinal é a forma reconhecida pelo subtipo nicotínico, como pode ser visto na Figura 24, na qual também podemos observar o reconhecimento molecular dos ligantes de origem natural muscarina e nicotina, pelos receptores muscarínicos e nicotínicos, respectivamente. TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 33 Os fatores conformacionais são determinantes para os fármacos psicotrópicos. A dopamina, um neurotransmissor da classe das catecolaminas, apresenta diferentes confôrmeros, devido à unidade catecólica ser capaz de realizar ligações de hidrogênio intramoleculares, que levam a diferenciar as hidroxilas meta e para da unidade catecólica nos seus diferentes confôrmeros. A diversidade conformacional da dopamina influencia diretamente nas interações com os seus subtipos de receptores biológicos, uma vez que os grupamentos funcionais contribuem com interações que são relevantes, do ponto de vista energético, e ainda apresentam distâncias diferentes entre si, que alteram o reconhecimento molecular (BARREIRO; FRAGA, 2015). FIGURA 24 – VARIAÇÕES CONFORMACIONAIS DA ACETILCOLINA E O RECONHECIMENTO MOLECULAR SELETIVO DOS GRUPAMENTOS FARMACOFÓRICOS PELOS RECEPTORES MUSCARÍNICOS E NICOTÍNICOS FONTE: Fraga (2001, p. 42) 34 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Na Figura 25, podemos ver os confôrmeros da dopamina, nas quais temos as conformações sinclinais ou “gauche” nos confôrmeros a e b, com distância intramolecular de 6,2 Å entre os grupamentos amino terminal e a para-hidroxila do sistema catecólico, e as conformações anticlinal em c e antiperiplanar em d, em que os grupamentos citados ficam mais afastados em cerca de 7 Å e 7,8 Å, respectivamente (BARREIRO; FRAGA, 2015). FIGURA 25 – CONFÔRMEROS DA DOPAMINA FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 294) TÓPICO 2 — ESTEREOQUÍMICA DE FÁRMACOS 35 No desenvolvimento de novos fármacos, algumas estratégias de modificação molecular são utilizadas com o intuito de deslocar o equilíbrio de variados confôrmeros para uma conformação definida, o que é chamado de restrição conformacional, como a anelação e o efeito-orto. NOTA Os aspectos abordados neste tópico destacam a importância das propriedades estereoquímicas das moléculas sobre a formação de interações entre os ligantes/fármacose o sítio receptor, necessárias para desencadear o efeito biológico esperado. Além disso, a estereosseletividade dos enantiômeros pode influenciar na farmacocinética do fármaco, podendo alterar o metabolismo – como será visto no Tópico 3. 36 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A interação entre o fármaco e a biomacromolécula-alvo é tridimensional e dinâmica, e, com isso, o tamanho molecular, as distâncias interatômicas e o arranjo espacial entre os grupos farmacofóricos da molécula são importantes em uma interação fármaco-receptor. • Na teoria do encaixe induzido, ocorre um ajuste topográfico e eletrônico entre o fármaco e o receptor, que resulta no efeito biológico. • No modelo de três pontos, o reconhecimento molecular de um ligante com um carbono assimétrico pelo biorreceptor deve envolver a participação de pelo menos três pontos de interação. • A “tragédia da talidomida” mostrou a magnitude da influência da estereoquímica de fármacos na atividade biológica e, hoje, os efeitos biológicos dos estereoisômeros são avaliados antes de um fármaco ser lançado no mercado, sendo muitos produtos comercializados enantiomericamente puros. • A conformação refere-se ao arranjo espacial das moléculas e é de grande importância no reconhecimento molecular de substâncias endógenas, como a dopamina e a acetilcolina. 37 1 A estereoquímica de fármacos é uma propriedade que deve ser considerada na interação entre o fármaco e o receptor, sendo os estereoisômeros aqueles cujos átomos possuem a mesma conectividade, porém diferem pelo arranjo espacial. A respeito dos estereoisômeros, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Apresentam algumas propriedades físico-químicas idênticas e outras diferentes. ( ) As diferenças na solubilidade entre R e S explicam, muitas vezes, alterações na fase farmacocinética. ( ) A faixa de fusão é uma análise simples que permite diferenciar compostos R e S. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) V – F – F. 2 A acetilcolina é um relevante neurotransmissor do sistema nervoso parassimpático, capaz de sensibilizar mais de um subtipo de receptor, podendo exercer efeitos biológicos diferentes. Sobre a interação dos confôrmeros da acetilcolina com os seus respectivos receptores, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O confôrmero antiperiplanar é responsável pela interação com receptores muscarínicos. b) ( ) O confôrmero sinclinal é responsável pela interação com receptores muscarínicos. c) ( ) O confôrmero anticlinal é responsável pela interação com receptores nicotínicos. d) ( ) O confôrmero sinclinal apresenta a conformação de mais alta energia e deve interagir com o receptor por encaixe-induzido. 3 A conformação é de grande importância no reconhecimento molecular de substâncias endógenas pelo seu receptor biológico e está relacionada com o arranjo espacial das moléculas. Analise a estrutura a seguir e classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE FONTE: A autora 38 FONTE: A autora ( ) Essa estrutura corresponde à dopamina, que apresenta diversos confôrmeros. ( ) A subunidade catecólica dessa substância pode formar ligação de hidrogênio intramolecular. ( ) Os grupamentos amino terminal e a para-hidroxila na conformação antiperiplanar encontram-se mais próximos, com distância intramolecular de 6,2 Å. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – V. b) ( ) V – F – V. c) ( ) V – V – F. d) ( ) V – F – F. 4 Anos após de ter sido retirada do mercado após diversos casos de malformação congênita, a talidomida foi reintroduzida no mercado devido a seus efeitos anti-inflamatórios para o tratamento de hanseníase. Sabendo que a forma S da talidomida é a responsável pelo efeito teratogênico, a separação quiral do estereoisômero R é justificada, a fim de o paciente utilizar apenas a forma ativa e evitar a teratogenicidade? Justifique. 5 Na busca por novos análogos do estradiol com atividade contraceptiva, foram desenvolvidos os compostos 1 e 2. Considerando as estruturas apresentadas na figura a seguir, o que você esperaria da atividade de cada um dos compostos com base no estradiol como referência? Justifique. 39 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 METABOLISMO DE FÁRMACOS 1 INTRODUÇÃO O metabolismo é uma das fases da farmacocinética que está diretamente ligada à depuração dos fármacos e, dessa forma, evita que ocorra um acúmulo indesejado do fármaco na biofase. Do ponto de vista fisiológico, o metabolismo de fármacos pode ser mensurado pela biodisponibilidade e clearance – ambos parâmetros farmacocinéticos. A biodisponibilidade é um parâmetro influenciado pelo metabolismo pré-sistêmico, enquanto o clearance sofre influência do metabolismo pós-sistêmico. Esses dois parâmetros combinados influenciam a quantidade total do fármaco disponível na circulação sanguínea, a qual é medida por meio da área sob a curva (AUC) de um gráfico de concentração plasmática do fármaco versus tempo (Figura 26). FIGURA 26 – ÁREA SOB A CURVA (AUC) VERSUS O TEMPO E A INFLUÊNCIA DA BIODISPONIBILIDADE E CLEARANCE FONTE: A autora O fármaco livre, ou seja, aquele não complexado a proteínas, é depurado principalmente pelo fígado e pelos rins. De modo geral, os fármacos lipofílicos sofrem metabolismo hepático, enquanto os fármacos hidrofílicos sofrem metabolismo renal. Os fármacos lipofílicos ainda sofrem um processo de reabsorção após filtração glomerular, sendo impedidos de serem depurados pelos rins, pois, para isso, o fármaco deve ser transformado em metabólitos mais hidrofílicos, por meio de reações enzimáticas, que serão vistas mais adiante (BARREIRO; FRAGA, 2015). 40 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Do ponto de vista molecular, as reações de metabolismo de fase 1 e fase 2 têm como principal objetivo transformar fármacos lipofílicos em metabólitos hidrofílicos, a fim de favorecer a eliminação por via renal. ATENCAO Tradicionalmente, o metabolismo é dividido em metabolismo de fase 1 ou biotransformação e metabolismo de fase 2. De acordo com Barreiro e Fraga (2015), recentemente, foi incluído na classificação de Williams o metabolismo de fase 3, que inclui as proteínas transportadoras de efluxo, que auxiliam o processo de detoxificação. O conhecimento do metabolismo de fármacos é imprescindível no desenvolvimento de novos fármacos, visto que o efeito terapêutico do fármaco depende, como já vimos, da sua complementaridade molecular com o receptor- alvo, etapa que, por sua vez, depende da quantidade do fármaco que atinge o sítio-alvo. Os parâmetros de biodisponibilidade e meia-vida são influenciados diretamente pelo metabolismo, bem como as reações de fase 1 e fase 2 influenciam na intensidade e duração dos efeitos biológicos e/ou tóxicos dos fármacos e dos seus metabólitos ativos. A seguir, conheceremos um pouco mais sobre cada uma dessas fases. 2 METABOLISMO DE FASE 1 O metabolismo de fase 1 ou biotransformação envolve reações de oxidação, redução e hidrólise, e, em casos especiais, as desalquilações, um tipo especial de reação oxidativa. As primeiras geralmente resultam em metabólitos hidroxilados, enquanto as desalquilações formam metabólitos com a introdução de radicais OH, NH2 e SH (BARREIRO; FRAGA, 2015). Embora as reações de fase 1 gerem metabólitos de maior polaridade, quando comparados aos fármacos originais, na maioria das vezes, elas são insuficientes para aumentar a hidrofilia, a ponto desses metabólitos serem eliminados pela via renal. Com isso, de modo geral, o metabolismo de fase 1 atua funcionalizando a estrutura molecular do fármaco,tornando-o substrato para as reações de fase 2. TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 41 Dependendo da funcionalização primária da estrutura do fármaco, a situação normal de um fármaco passar pela fase 1 e o seu metabólito ser o substrato da fase 2 pode não ocorrer, sendo o fármaco original o substrato direto para as reações metabólicas de fase 2, como veremos no metabolismo de fase 2. ESTUDOS FU TUROS 2.1 OXIDAÇÃO Os fármacos são metabolizados por distintos complexos enzimáticos (Quadro 2), com o intuito de assegurar os processos de inativação e eliminação. Entre os complexos enzimáticos envolvidos na fase 1, há o predomínio de enzimas oxidativas, sendo que o citrocromo (CYP) P450 apresenta um papel essencial no metabolismo hepático de diversas classes terapêuticas. QUADRO 2 – COMPLEXOS ENZIMÁTICOS ENVOLVIDOS COM O METABOLISMO DE FASE 1 E FASE 2 E SUA PRINCIPAL LOCALIZAÇÃO SUBCELULAR FONTE: Adaptado de Barreiro; Fraga (2015, p. 45) METABOLISMO DE FASE 1 COMPLEXO ENZIMÁTICO LOCALIZAÇÃO SUBCELULAR PRINCIPAL Citocromo P450 mono-oxigenases Retículo endoplasmático Flavina mono-oxigenase Retículo endoplasmático Aldeído desidrogenase Citosol Álcool desidrogenase Citosol Monoaminoxidase Mitocôndria Xantina oxidase Citosol Azo ou nitrorredutases Citosol Aldocetorredutases Citosol Oxidorredutase Citosol Epóxido hidrolase Retículo endoplasmático Hidrolases (esterases, amidases, lipases) Citosol METABOLISMO DE FASE 2 Glicuroniltransferase Retículo endoplasmático Glutationatransferase Citosol Sulfotransferase Citosol Metiltransferases não específicas Citosol Catecol o-metiltransferase Citosol Acetiltransferase Citosol 42 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Na verdade, o CYP450 representa uma superfamília de hemeproteínas, que pode ser encontrado em células procariontes e eucariontes e, frequentemente, encontra-se em associação à flavoproteína redutase (NADPH-citocromo-P450 redutase), formando um sistema oxidase de função mista. Essas hemeproteínas são mono-oxigenases e promovem a oxidação ao inserir um átomo de oxigênio na molécula do fármaco, enquanto o outro átomo de oxigênio é reduzido à água, conforme a seguinte reação: Em que: RH é o substrato orgânico (por exemplo, fármaco). Entre as 18 famílias do CYP450, apenas três estão relacionadas com o metabolismo de fármacos, sendo que, de acordo com Barreiro e Fraga (2015), o conjunto das isoenzimas CYP1A2, CYP2C9, CYP2C19, CYP2D6, CYP2E1 e CYP3A4 realiza aproximadamente 90% do metabolismo oxidativo de todos os fármacos disponíveis comercialmente em todo o mundo. No Quadro 3, podemos observar as principais características dessas isoenzimas e alguns exemplos de fármacos que são metabolizados por elas. QUADRO 3 – CARACTERÍSTICAS DAS SEIS PRINCIPAIS ISOENZIMAS DE CYP ENVOLVIDAS COM O METABOLISMO DE FÁRMACOS FONTE: Adaptado de Barreiro; Fraga (2015, p. 50) CYP1A2 CYP2C9 CYP2C19 Preferência por substratos planares lipofílicos, neutros ou básicos. Substrato: fenacetina e cafeína Inibidor: teofilina Preferência por substratos que contenham grupo doador de ligação hidrogênio (comumente de natureza aniônica) próximo à região lipofílica lábil. Substrato: tolbutamida, naproxeno, varfarina Inibidor: sulfafenazol Preferência por substratos lipofílicos, neutros e de tamanhos intermediários. Substrato: diazepam, imipramina Inibidor: ticlopidina CYP2D6 CYP2E1 CYP3A4 Preferência por substratos arilalquilaminas com sítio de oxidação localizado a 5-7Å do N-básico. Substrato: fluoxetina, metoprolol Inibidor: quinidina Preferência por substratos lipofílicos cíclicos ou lineares pequenos (PM ≤ 200 Da). Substrato: paracetamol, halotano Inibidor: disulfiram Preferência por substratos lipofílicos, neutros, básicos ou ácidos. Oxidação dependente da reatividade química do substrato. Substrato: terfenadina, diltiazem Inibidor: cetoconazol TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 43 As hidroxilações representam uma clássica reação metabólica oxidativa catalisada pelas CYPs. A varfarina, fenitoína, buspirona e anfetamina são exemplos de fármacos submetidos a reações de hidroxilações aromáticas, como pode ser visto na Figura 27. A previsão do processo de hidroxilação aromática depende de fatores eletrônicos e estéricos, assim, é muito importante observar a natureza dos possíveis substituintes ligados ao anel aromático e da interação fármaco-CYP. A posição do anel mais suscetível à hidroxilação pode ser prevista com base na estrutura do fármaco, na qual será formado o radical com maior estabilidade. Na oxidação da S,R-varfarina, por exemplo, podemos prever que a oxidação ocorre preferencialmente na posição 6 do anel cromeno, devido à formação de um metabólito mais estável (menos energético), a 6-hidroxivarfarina (Figura 28; BARREIRO; FRAGA, 2015). FIGURA 27 – EXEMPLOS DE FÁRMACOS METABOLIZADOS POR HIDROXILAÇÃO AROMÁTICA FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 56) 44 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS FIGURA 28 – VARFARINA, 6-HIDROXIVARFARINA E A ENERGIA COMPARATIVA DOS RADICAIS FORMADOS NAS POSIÇÕES C6, C7 E C8 DO ANEL CROMENO FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 56) A presença de um carbono benzílico ou metila na estrutura de fármacos, geralmente, resulta em uma reação oxidativa, denominada hidroxilação benzílica. Nesse processo oxidativo, inicialmente, vemos a formação de um álcool benzílico (1), porém, ele raramente é isolado, sendo mais frequente a sua metabolização no ácido carboxílico (2) correspondente, como podemos ver na Figura 29 com o fármaco celecoxibe. FIGURA 29 – HIDROXILAÇÃO BENZÍLICA DO CELECOXIBE FONTE: A autora A CYP também pode catalisar reações de epoxidação, sendo os fármacos carbamazepina e a ciproeptadina exemplos de fármacos substratos de epoxidação catalisada pela isoenzima CYP2C9 (Figura 30). TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 45 FIGURA 30 – EXEMPLOS DE FÁRMACOS SUBSTRATOS DE EPOXIDAÇÃO FONTE: A autora As reações metabólicas de desalquilação são caracterizadas por hidroxilações de carbonos α-heteroátomos, obtendo aminoacetais (RNH-C- OR’), tioacetais (RS-C-OR’) e acetais (RO-C-OR’), os quais, por meio de rearranjo intramolecular, perdem o grupamento alquila ligado diretamente ao heteroátomo (BARREIRO; FRAGA, 2015). A venlafaxina e a sertralina são exemplos de fármacos metabolizados por desalquilação (Figura 31). FIGURA 31 – EXEMPLOS DE FÁRMACOS SUBSTRATOS DE DESALQUILAÇÃO FONTE: A autora 46 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 2.2 REDUÇÃO As reações de redução modificam a estrutura do fármaco pela adição de hidrogênio em duplas ligações, sendo que essas reações podem ocorrer em nível microssomal pela ação do complexo NADPH-citocromo P450 redutase. Esse complexo é responsável pela catalisação de reduções do grupo nitro (R-NO2), sendo que essas reduções podem passar por intermediários, como a hidroxilamina (R-NHOH) e o nitroso (R-N=O) (BARREIRO; FRAGA, 2015). São exemplos de fármacos contendo o grupo nitro que passam pelo processo de redução de fase 1 a nimesulida e o benzonidazol. Fármacos que apresentam carbonilas de aldeídos (RHC=O) e cetonas (RR’C=O), como o haloperidol, são reduzidos facilmente por ação de aldocetorredutases (Figura 32). FIGURA 32 – METABOLISMO REDUTIVO DE FÁRMACOS NITROAROMÁTICOS E CARBONILADOS FONTE: A autora 2.3 HIDRÓLISE As reações de hidrólise podem ocorrer em nível hepático, gastrointestinal ou plasmático, sendo catalisadas por enzimas denominadas hidrolases (por exemplo, esterases, amidases, fosfatases e tioesterases), responsáveis pela transformação de amidas, ésteres e demais funções derivadas de ácidos carboxílicos, em metabólitos mais polares. TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 47 As esterases e as amidases são sensíveis aefeitos estéricos e eletrônicos, e, com isso, é possível prever a cinética de hidrólise de certos compostos. Quanto à influência dos efeitos eletrônicos, por exemplo, a eletrofilicidade da carbonila de uma amida e da carbonila de ésteres é diferente, devido à eletronegatividade do nitrogênio e do oxigênio ligado à carbonila, respectivamente, o que varia a velocidade da hidrólise da procainamida e da procaína, como observado na Figura 33 (BARREIRO; FRAGA, 2015). FIGURA 33 – METABOLISMO HIDROLÍTICO DA PROCAINAMIDA E PROCAÍNA FONTE: A autora Já em relação à influência dos efeitos estéricos, tem-se como exemplo a hidrólise da cocaína com formação do metabólito benzoilecgonina (Figura 34), em que a hidrólise preferencial ocorre em um ponto de menor impedimento estérico e de maior caráter eletrofílico entre as carbonilas dos dois ésteres presentes na molécula (BARREIRO; FRAGA, 2015). FIGURA 34 – HIDRÓLISE PREFERENCIAL DA COCAÍNA E FORMAÇÃO DO METABÓLITO BENZOILECGONINA FONTE: A autora 48 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS 3 METABOLISMO DE FASE 2 De modo geral, embora os metabólitos de fase 1 apresentem coeficiente de partição ou Log P, menor que o do fármaco original, eles ainda mostram polaridade insuficiente para serem eliminados pela via renal, a principal via de eliminação de fármacos. Com isso, esses metabólitos passam por reações enzimáticas por meio do metabolismo de fase 2. Entretanto, alguns fármacos possuem, em sua estrutura molecular, subunidades que são substratos para as enzimas da fase 2, e, assim, não passam previamente pelo metabolismo de fase 1 (LE, 2019). As reações de fase 2, também conhecidas como reações de conjugação, são catalisadas por transferases, as quais, de acordo com Barreiro e Fraga (2015, p. 77), demandam a “[...] participação de cofatores que se ligam à enzima após aproximação do substrato. Estas enzimas transferem uma molécula endógena de elevada polaridade ao substrato (p. ex., fármaco), originando conjugados mais hidrossolúveis, que são excretados na urina, preferencialmente, ou na bile”. O Quadro 4 reúne as reações de conjugação e outras informações importantes, como a enzima envolvida e sua localização subcelular e o cofator necessário nessa catálise enzimática, enquanto, no Quadro 5, são exemplificadas as principais reações envolvidas no metabolismo de fase 2. QUADRO 4 – REAÇÕES DE CONJUGAÇÃO DE FASE 2, ENZIMA, LOCALIZAÇÃO SUBCELULAR E COFATOR REAÇÃO ENZIMA LOCALIZAÇÃOSUBCELULAR COFATOR OU DOADOR ATIVO Glicuronidação UDP- glicuroniltransferase (UGT) Microssoma UDP-ácido glicurônico (UDPGA) Sulfatação Sulfotransferase (SULT) Citosol 3’-fosfoadenosina-5’-fosfosulfato (PAPS) Conjugação com glicina – Citosol Acetil-coenzima A (acetilCoA) Metilação Metiltransferase (MT) Citosol S-adenosilmetionina (SAM) Acetilação Acetiltransferase (AC) Citosol S-acetilcoenzima A (S-acetilCoA) Conjugação com glutationa Glutationa-S-transferase (GTS) Citosol Glutationa (GSH) FONTE: Adaptado de Barreiro; Fraga (2015, p. 77) TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 49 FONTE: Barreiro; Fraga (2015, p. 77) QUADRO 5 – REAÇÕES METABÓLICAS DE FASE 2 OU CONJUGAÇÃO REAÇÃO DE FASE 2 (CONJUGAÇÃO) GRUPO FUNCIONAL METABÓLITO CONJUGADO Glicuronidação ROH, RCOOH, RNH2, RR’NH, RNHOH, RSH Sulfatação ROH, RNH2, RR’NH, RNHOH R-OSO3H, R-NHSO3H, (R- R)2NSO3H, RNHOSO3H Conjugação com glicina RCOOH Acetilação ROH, RNH2, RNHNH2, RSO2NH2 R-OAc, R-NHAc, RNHNHAc, RSO2NHAc Metilação ROH, RNH2, RR’NH, RSH, N-heterociclo R-OMe, R-NHMe, R2NMe, RSCH3 Conjugação com glutationa Grupos eletrofílicos (óxidos de areno, epóxidos, enonas, quinona, iminoquinona etc.) Diferentemente das demais reações de conjugação, as reações de metilação e acetilação não aumentam a polaridade do metabólito formado, e sim, contribuem para a sua bioinativação. Para fármacos que apresentam predomínio desses tipos de reações do metabolismo de fase 2, há o aumento de sua meia-vida. IMPORTANT E A glicuronidação, que consiste na condensação entre o UDPGA e o fármaco, é a reação de conjugação mais presente no metabolismo de fármacos. Nessa reação, uma molécula de ácido glicurônico é transferida para a estrutura do fármaco, formando metabólitos facilmente eliminados pela via renal, como O-glicuronato ou N-glicuronato ou acil-glicuronato hidrofílicos (BARREIRO; FRAGA, 2015). O enalapril é um exemplo de fármaco que, no metabolismo de fase 1, sofre hidrólise e, na fase 2, sofre glicuronidação, formando um metabólito éster (Figura 35). 50 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS FIGURA 35 – METABOLIZAÇÃO DO ENALAPRIL POR GLICURONIDAÇÃO FONTE: A autora A sulfatação envolve a conjugação entre fármacos contendo o grupamento amina, álcoois e hidroxilaminas com o PAPS, obtendo metabólitos frequentemente estáveis, inativos e hidrossolúveis, na forma de sulfamatos e sulfonatos, como mostra o exemplo do metabolismo da ciprofloxacina na Figura 36. FIGURA 36 – METABOLIZAÇÃO DA CIPROFLOXACINA POR SULFATAÇÃO FONTE: A autora A conjugação com aminoácidos, sendo a mais comum a glicina, é uma rota para metabolismo de fármacos que apresentam ácidos carboxílicos, embora minoritária. Para esse tipo de conjugação, é realizada previamente a ativação do ácido carboxílico em tioéster de CoA e, posteriormente, ocorre a sua reação com a glicina mediante ação de transacetilases (LEMKE et al., 2008). A metilação consiste na reação de fármacos, contendo o grupamento amina, álcool ou sulfidrila com SAM, um doador ativo, resultando em metabólitos O-, N- ou S-metilados. Essa reação é muito comum na biossíntese ou catabolismo de substâncias endógenas, como a adrenalina e a dopamina. Já a acetilação consiste na reação de fármacos contendo grupos NH2, como aminas, sulfonamidas, hidrazidas e hidrazinas, assim como OH de álcoois e fenóis com S-acetilCoA. Ambos os tipos de reações de conjugação produzem, geralmente, metabólitos mais apolares. A mercaptopurina e a tacrina são exemplos de fármacos metabolizados pelos processos de metilação e acetilação (Figura 37). TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 51 FIGURA 37 – EXEMPLOS DE METABOLISMO DE FASE 2 VIA METILAÇÃO E ACETILAÇÃO FONTE: A autora A conjugação com glutationa (GSH) é uma etapa-chave no processo de detoxificação de fármacos que contêm grupos ou subunidades eletrofílicas, capazes de formar ligações covalentes com a GSH, como os metabólitos da carbamazepina, paroxetina, paracetamol, cloranfenicol, entre outros, que apresentam elevado potencial de toxicidade (LEMKE et al., 2008). Para entender melhor a importância do metabolismo de fármacos no planejamento de novos compostos e trazer melhor clareza quanto a esse tema, sugerimos a leitura do seguinte artigo científico: https://bit.ly/2WMHVMV. Ótima leitura! DICAS 4 IMPORTÂNCIA DO METABOLISMO PARA A TOXICIDADE DE FÁRMACOS O estudo do metabolismo de fármacos como o paracetamol, uma acetanilida com atividades analgésicas e antipiréticas, indica o quão importante é conhecer as etapas de biotransformação que o fármaco passa na biofase, pois a formação de determinados metabólitos pode estar diretamente relacionada com o surgimento de efeitos adversos. Nesse caso específico, o paracetamol causa danos hepáticos dose-dependentes e irreversíveis (BARREIRO; FRAGA, 2015). 52 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Em condições normais, a maior parte da dose administrada de paracetamol, cerca de 85%, é metabolizada por glicuronidação ou sulfatação, formando metabólitos inativos. No entanto, cerca de 5 a 15% da dose administrada é metabolizada em iminoquinona, um metabólito tóxico, por meio da CYP2E1. Barreiro e Fraga (2015) afirmam que, em situações normais, a iminoquinona é neutralizada pela conjugação com GSH, porém, quando o paciente apresenta estresse hepático (porexemplo, inibição das enzimas UGT e SULT, uso de etanol, isoniazida e demais indutores da CYP2E1), há um desequilíbrio entre a produção da glutationa e da iminoquinona, a qual se liga por meio de uma ligação covalente com as proteínas dos hepatócitos, levando à hepatite medicamentosa e à necrose hepática (Figura 38). FIGURA 38 – METABOLISMO DO PARACETAMOL FONTE: Adaptada de Barreiro; Fraga (2015, p. 88) TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 53 LEITURA COMPLEMENTAR IMPORTÂNCIA FARMACÊUTICA DE FÁRMACOS QUIRAIS Ricardo Mathias Orlando Normandis Cardoso Filho Eric de Souza Gil João Paulo de Souza Stringhetta Introdução O início do estudo e da compreensão dos fenômenos quirais e, por consequência, da estereoquímica é atribuído, em parte, a Jean-Baptiste Biot, Louis Pausteur e van’t Hoff/Le Bel que descobriram, durante o século XIX, a capacidade de alguns compostos de desviar a luz plano polarizada, a assimetria molecular desses compostos e a configuração tetraédrica do átomo de carbono, respectivamente. A partir dessas descobertas, foi possível compreender que substâncias que não possuem elemento de simetria no arranjo espacial de seus grupos ligantes irão apresentar-se na forma de dois enantiômeros, que são imagens especulares entre si. Estereoisômeros são divididos em duas categorias. Uma categoria compreende os enantiômeros, nos quais a molécula apresenta a geometria e a disposição espacial de seus átomos igual à imagem especular do seu par complementar, chamado de antípoda óptico. Somente os compostos ditos quirais, ou seja, que não possuem elemento de simetria, apresentam essa característica. Na outra categoria, estão os chamados diastereoisômeros, cujas moléculas possuem diferentes arranjos espaciais de seus ligantes, porém não são imagens especulares sobreponíveis umas das outras (Figura 1). De acordo como o arranjo espacial, os enantiômeros recebem os prefixos R ou S, seguindo o sistema de nomenclatura desenvolvido pelos químicos R. S. Cahn, C. K. Ingold e V. Prelog em 1966 e adotado pela International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC). FIGURA 1 – REPRESENTAÇÃO DE DOIS ENANTIÔMEROS E DOIS DIASTEREOISÔMEROS 54 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Existe também uma outra nomenclatura atribuída aos enantiômeros e que está relacionada com a sua capacidade de desviar a luz plano polarizada para a direita (D ou +) e para a esquerda (L ou -). Essa propriedade que compostos quirais podem apresentar depende não somente do arranjo espacial dos seus átomos, mas também do meio em que eles se encontram. Um exemplo são os enantiômeros do anticoagulante varfarina, em que o enantiômero S apresenta rotação positiva (D) e o R rotação negativa (L) em n-hexano-2-propanol (90:10, v/v), enquanto, em n-hepatano-acetato de etila (80:20, v/v), o desvio é negativo para o enantiômero S e positivo para R. Dessa forma, podemos perceber que as denominações R-S e D-L são independentes e, portanto, podemos ter enantiômeros (+)-(S)- ou (-)-(S)- e da mesma maneira enantiômero (+)-(R)- ou (-)-(R)-. Outro tipo de compostos quirais e também de grande importância farmacêutica são os chamados atropoisômeros, que são originados pelo impedimento estérico de uma ou mais ligações simples. Por esse motivo, atropoisômeros são também conhecidos por rotâmeros. Estereoquímica de fármacos Fármacos enantioméricos recebem maior atenção em estudos farmacológicos, pois as vias sintéticas de fármacos quirais, em sua maioria, não são estereosseletivas, levando à formação de ambos os enantiômeros e, também, devido às dificuldades técnicas e econômicas em separá-los, o que é possível somente em ambientes quirais. Por esses motivos, fármacos enantioméricos são quase sempre comercializados na forma de misturas racêmicas, ou seja, uma mistura de quantidades iguais dos enantiômeros. Enantiômeros apresentam a maioria de suas propriedades físicas idênticas e, quimicamente, demonstram comportamentos diferentes somente em ambientes quirais. Essa característica é de extrema importância biológica, uma vez que a maioria dos receptores endógenos de fármacos, como proteínas de membranas e enzimas também são compostos quirais. TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 55 A discriminação estereosseletiva de dois enantiômeros por receptores biológicos deve-se à interação espacial específica fármaco-receptor, explicada pela teoria dos três pontos, inspirada por Easson e Stedman e, segundo a qual, somente um dos enantiômeros é capaz de apresentar três pontos de interação complementares, dispostos espacialmente de tal maneira que possam se ligar ao receptor, promovendo o efeito máximo (Figura 2). A teoria dos três pontos também explica as possíveis diferenças de resposta dos receptores de fármacos frente a diastereoisômeros de posição alicíclicos. No caso de isômeros geométricos, são necessários quatro pontos de interação para que haja distinção. FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO DA DIFERENÇA DE INTERAÇÃO DE DOIS ENANTIÔMEROS COM UM RECEPTOR QUIRAL DEVIDO A SUAS CONFIGURAÇÕES ABSOLUTAS Essas interações altamente específicas fármaco-receptor podem levar também a diferenças farmacocinéticas. Da mesma forma, a absorção, distribuição, eliminação e, principalmente, o metabolismo de estereoisômeros podem ser altamente específicos, pois, em muitos casos, são realizados por proteínas com alto grau de discriminação estereosseletiva. Depois da tragédia ocorrida com a talidomida, em razão do (-)-(S)- enantiômero apresentar efeitos teratogênicos, levando, por falta de conhecimento das diferenças toxicológicas entre os enantiômeros, à malformação de milhares de fetos, novos modelos de estudos para fármacos quirais foram desenvolvidos. A partir de então, passou-se a estudar a influência do arranjo espacial dos átomos nas moléculas na interação com macromoléculas biológicas e o quanto isso influenciava os processos bioquímicos, fisiológicos e farmacológicos. No Brasil, diversos pesquisadores já alertaram sobre a importância do tema. 56 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS Hoje, sabe-se que muitos fármacos quirais apresentam diferenças estereosseletivas significativas quanto à potência, toxicidade, absorção e metabolismo (Tabela 1). Dessa forma, as agências mundiais regulamentadoras de saúde exigem o estudo dos enantiômeros isolados, incluindo a avaliação de racemização do centro quiral além de preconizar a comercialização de fármacos quirais na forma de enantiômeros puros. TABELA 1 - Diferenças farmacocinéticas e farmacodinâmicas de alguns fármacos quirais Vários países possuem legislação própria quanto ao desenvolvimento e à comercialização de fármacos enantioméricos. Nota-se entre elas que muitos pontos são convergentes em relação à importância do assunto e às normas exigidas, principalmente no que diz respeito aos ensaios de bioequivalência. No Brasil, o controle e legislação vigentes são regulamentados pela Anvisa, por meio da RE nº 896 e RDC nº 135, ambas de 29 de maio de 2003. No caso em que dois enantiômeros possuem potência de ação diferente, a IUPAC recomenda que o enantiômero de maior ação farmacológica e afinidade pelo receptor seja denominado de eutômero, enquanto o outro enantiômero responsável pelo efeito indesejado deve ser denominado distômero. Além disso, a proporção da atividade do eutômero, em relação ao distômero, recebe a denominação de razão eudísmica e representa a eficácia ou estereoespecificidade do enantiômero mais ativo. O desenvolvimento dos enantiômeros isolados levou muitas empresas produtoras de fármacos quirais a obter novas patentes para a produção e comercialização do composto puro (Tabela 2). O estudo, desenvolvimento, produção e comercialização do um enantiômero puro de umracemato original é chamado de chiral switching e, com essa prática, várias empresas conseguiram estender o período de patente do fármaco. Essa estratégia vem se tornando um forte atrativo para o TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 57 TABELA 2 - Exemplos de racematos que atualmente existem também na forma de enantiômeros puros desenvolvimento de novos produtos, pois muitos estudos clínicos necessários para o desenvolvimento do enantiômero puro já foram realizados durante o desenvolvimento do racemato, o que torna o processo mais dinâmico e barato. Somente em 2001, o mercado com fármacos enantioméricos puros foi superior a 147 bilhões de dólares. A justificativa da concessão de novas patentes para o desenvolvimento e produção de enantiômeros puros é baseada nos fatos de que eles apresentam uma ou mais das seguintes vantagens: • maior índice terapêutico; • menor ou maior duração do tempo de ação (meia-vida); • menor variabilidade interindividual; • menor potencial de interações medicamentosas; • menor capacidade de desenvolver efeitos colaterais. Esperava-se que esses fatos levassem a uma maior segurança e eficácia no tratamento com o enantiômero puro que justifique, terapêutica e economicamente, o seu uso. Entretanto, muitos estudos desenvolvidos com enantiômeros puros, que apontavam para alguma dessas vantagens, não foram confirmados quando aplicados nem em estudos in vivo e menos ainda em testes clínicos. A talidomida, por exemplo, demonstrou, em estudos in vitro, a capacidade do enantiômero (R-) racemizar para a configuração (S-), o que significa que a utilização do enantiômero puro não evitaria, a princípio, o problema de teratogênese. O desenvolvimento do antidepressivo (-)-(R)-fluoxetina foi abandonado por causa da mudança do regime de dosagem mais alta que o enantiômero puro trouxe ao tratamento. O anti-hipertensivo labetalol também teve o desenvolvimento do seu enantiômero puro, dilevalol, cancelado em função da hepatotoxicidade causada. Outro exemplo de que o racemato pode ser superior ao enantiômero puro é o caso do antidepressivo mitazapina (Rameron®). A mirtazapina é um fármaco quiral comercializado na forma de racemato e pertencente a uma classe distinta dos antidepressivos tricíclicos clássicos por apresentar efeitos sobre os mecanismos de neurotransmissão noradrenérgica e serotoninérgica simultaneamente. Os 58 UNIDADE 1 — ASPECTOS GERAIS DA AÇÃO DOS FÁRMACOS enantiômeros da mirtazapina demonstraram diferenças farmacocinéticas e farmacodinâmicas significativas. A (+)-(S)-mirtazapina demonstra ter 10 vezes mais afinidade por receptores α2-pós-sinápticos e ser ca. 37 vezes mais potente para inibir autorreceptores α2 comparada a (-)-(R)-mirtazapina. Em contrapartida, a (-)-(R)-mirtazapina é um inibidor do receptor 5-hidroxitriptamina cerca de 140 vezes mais potente. Justamente essas diferenças farmacodinâmicas dos enantiômeros da mirtazapina conferem a capacidade desse fármaco em aplicação nos casos de depressão. Dessa forma, é possível imaginar que a comercialização de um dos enantiômeros puro não teria o mesmo efeito do racemato. Esses exemplos ilustram bem que enantiômeros puros podem ou não ser uma vantagem terapêutica em relação ao racemato, mas que a sua superioridade deve ser demonstrada na clínica para que o custo mais elevado do tratamento que os utilizam seja devidamente justificado. Conclusões No âmbito da comercialização e utilização de enantiômeros puros, assim como das reais vantagens apresentadas por eles, as informações que chegam aos profissionais da saúde devem ser claras e coerentes com os resultados dos estudos clínicos para que possam, através de suas experiências profissionais, tirar suas próprias conclusões e adotar o medicamento que julguem mais eficiente para o respectivo caso. A legislação brasileira vigente é pouco clara e de contribuição discreta para uma divulgação, estudo e controle adequado do assunto. Nota-se que o maior problema pertinente à compreensão e à importância do assunto na saúde está justamente nas classes farmacêuticas, médicas, odontológicas e veterinárias que correspondem justamente aos produtores, prescritores e dispensadores de medicamentos. Na área acadêmica, é preciso sempre enfatizar o assunto da quiralidade de fármacos em disciplinas de análise instrumental, controle de qualidade, química farmacêutica, farmacologia e bioquímica devem resgatar todos os aspectos relacionados com o assunto, para que os profissionais formados transmitam esse conhecimento aos diversos campos de atuação. É preciso ainda que as corporações farmacêuticas que atuam no país saibam tratar, discutir e comercializar seus produtos com respaldo técnico-científico adequado. No Brasil, existe um número considerável de mestres, doutores e grupos de pesquisas que trabalharam ou trabalham com o tema da quiralidade. Esses pesquisadores e profissionais poderiam estar atuando de forma mais significativa, caso o setor produtivo farmacêutico no Brasil desse a devida importância a esse tema. TÓPICO 3 — METABOLISMO DE FÁRMACOS 59 A história do uso de fármacos enantiôméricos deixou claro que nenhum fármaco quiral está tão extensivamente estudado que tudo pode ser previsto sobre as diferenças farmacodinâmicas, farmacocinéticas e toxicológicas que seus enantiômeros irão apresentar. Portanto, estudos completos envolvendo a avaliação da eficácia, de efeitos tóxicos e a influência de diversos parâmetros como estados patológicos, idade, fatores genéticos etc., devem ser muito bem avaliados antes da decisão final sobre a produção ou não do enantiômero puro. O mesmo vale para o controle de qualidade na produção e comercialização de fármacos enantioméricos racêmicos ou seus enantiômeros puros. FONTE: Adaptado de ORLANDO, R. M. et al. Importância farmacêutica de fármacos quirais. Revista Eletrônica de Farmácia, v. IV, n. 1, p. 8-14, 2007. Disponível em: https://bit.ly/3inmI4y. Acesso em: 14 abr. 2021. 60 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • As reações de metabolismo têm como principal objetivo transformar fármacos lipofílicos em metabólitos hidrofílicos, a fim de favorecer a eliminação por via renal. • Via de regra, os fármacos lipofílicos sofrem metabolismo hepático, enquanto os fármacos hidrofílicos sofrem metabolismo renal. • O metabolismo de fármacos pode ser dividido em metabolismo de fase 1 ou biotransformação e metabolismo de fase 2 ou conjugação. • O metabolismo de fase 1 envolve reações de oxidação, desalquilação, redução e hidrólise. • O citrocromo P450 tem papel essencial no metabolismo hepático de diversas classes terapêuticas. • O processo de hidroxilação aromática depende de fatores eletrônicos e estéricos. • As reações de fase 2 envolvem a glicuronidação, sulfatação, conjugação com glicina, metilação, acetilação e conjugação com glutationa. • As reações de metilação e acetilação formam metabólitos apolares, contribuindo para a bioinativação do fármaco. • O paracetamol pode causar danos hepáticos dose-dependentes e irreversíveis em pacientes com estresse hepático devido à formação de um metabólito tóxico, a iminoquinona. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 61 1 As reações de metabolismo de fase 1 ocorrem em sua grande maioria no fígado. Os metabólitos podem manter ou não a atividade farmacológica, e no pior dos casos levar a formação de compostos tóxicos. O diclofenaco sofre metabolismo regiosseletivo, levando majoritariamente à formação do derivado mostrado na figura a seguir. Com base no tipo de reação de fase 1 que levou à formação do metabólito do diclofenaco,assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE FONTE: A autora FONTE: A autora a) ( ) Hidroxilação benzílica. b) ( ) Epoxidação. c) ( ) Desalquilação. d) ( ) Hidrólise. 2 O metabolismo de fármacos pode ser dividido em reações de Fase 1 e reações de Fase 2. A respeito da reação metabólica abaixo, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Representa uma reação de fase 1 do tipo desalquilação. ( ) Nessa reação, ocorre a perda do grupamento alquila ligado ao heteroátomo. ( ) O metabólito X é um aminoacetal e pode causar hepatotoxicidade. 62 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) V – F – F. ( ) V – F – V. ( ) F – V – F. ( ) V – V – F. 3 Os fármacos são metabolizados por diferentes sistemas enzimáticos, com o objetivo de assegurar seu processo de inativação e eliminação. A respeito da reação metabólica apresentada na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora FONTE: A autora ( ) Representa uma reação de metabolismo de fase 2. ( ) Representa uma reação de redução de uma fármaco nitroaromático. ( ) Pode ocorrer em nível microssomal por ação da NADPH-citocromo P450 redutase. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F – V – F. ( ) V – F – V. ( ) F – V – V. ( ) V – V – F. 4 Em 3 de outubro de 2008, a Anvisa cancelou o registro do lumiracoxibe baseado no aumento de casos relatados de hepatoxicidade. Com base na estrutura desse fármaco apresentada na figura a seguir, discorra o motivo desse fármaco ter causado casos de hepatoxicidade. 63 FONTE: A autora 5 Observando-se a estrutura do composto 1 a seguir, desenhe o metabólito principal decorrente de uma hidroxilação aromática. Justifique sua resposta. 64 REFERÊNCIAS BARREIRO, E. J.; FRAGA, C. A. M. Química medicinal: as bases moleculares da ação dos fármacos. 3. ed. Porto Alegre: Artmed; 2015. BERMUDEZ, J. A. Z.; BARRAGAT, P. Medicamentos Quirais: da dimensão química à discussão política. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 47-51, 1996. FRAGA, C. A. M. Razões da atividade biológica: interações micro- e biomacro- moléculas. QNEsc, São Paulo, Caderno Temático, n. 3, 2001. LE, J. Metabolismo de Fármacos, 2019. Disponível em: https://msdmnls. co/3A6VKUN. Acesso em: 12 maio 2021. LEMKE, T. L. et al. Foye’s Principle of Medicinal Chemistry. 6. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2008. MACHADO, M. G. M. Síntese e avaliação biológica de novos derivados anti-inflamatórios esteroides. 2013, 122f. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) – Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, 2013. PATRICK, G. L. An Introduction to Medicinal Chemistry. 5. ed. Oxford University Press; 2013. SILVA, C. M. Determinação do Coeficiente de Partição n-octanol/água do defensivo agrícola Imazethapyr utilizando o método do frasco agitado, e validação da metodologia analítica empregada. 2014, 77f. Monografia – Escola de Engenharia de Lorena, Universidade de São Paulo, Lorena, 2014. SILVA, L. A. et al. Por que todos os nitratos são solúveis? Quim. Nova, v. 27, n.6, p. 1016-1020, 2004. 65 A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender o mecanismo de ação dos fármacos que atuam sobre os sistemas nervoso, cardiovascular, renal e endócrino; • reconhecer estruturalmente as diferentes classes de fármacos que atuam sobre os sistemas nervoso, cardiovascular, renal e endócrino; • identificar as relações estruturais e atividades farmacológicas dos fármacos que atuam sobre os sistemas nervoso, cardiovascular, renal e endócrino; • identificar os principais grupos funcionais presentes nos fármacos das classes abordadas. UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL TÓPICO 2 – FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO TÓPICO 3 – FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 66 67 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O sistema nervoso é dividido em sistema nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP), sendo o primeiro formado pelo cérebro e medula espinal e o segundo pelos tecidos neuronais encontrados fora do SNC (KATZUNG; TREVOR, 2017). Neste tópico, compreenderemos os fármacos que atuam deprimindo, modificando ou estimulando as funções do SNC, que, de acordo com Hilal- Dandan e Brunton (2015), podem ser divididos em: • depressores gerais (não seletivos) do SNC; • modificadores seletivos da função do SNC; • estimulantes gerais (não seletivos) do SNC. Os depressores gerais do SNC incluem os anestésicos gerais, os álcoois alifáticos e alguns fármacos hipnóticos e sedativos. Essas substâncias deprimem, em todos os níveis do SNC, os tecidos excitáveis, reduzindo a quantidade de neurotransmissores liberados, o transporte iônico e a reatividade pós-sináptica. Entretanto, em concentrações subanestésicas, o álcool pode apresentar efeito levemente específico em alguns neurônios, levando à dependência. Os fármacos modificadores seletivos da função do SNC podem causar depressão ou excitação – em determinados casos, os dois efeitos de modo simultâneo em diferentes sistemas. Embora esses fármacos apresentem ação seletiva no SNC, normalmente afetam diferentes funções neurológicas centrais, porém com intensidades variáveis. As principais classes de fármacos com ações seletivas no SNC incluem anticonvulsivantes, antidepressivos, antipsicóticos, hipnóticos e sedativos, antiparkinsonianos, tranquilizantes, analgésicos opioides e não opioides, supressores do apetite, antieméticos, analgésicos-antipiréticos, alguns estimulantes e fármacos para o tratamento da doença de Alzheimer. Os estimulantes gerais do SNC incluem o fármaco pentilenotetrazol e substâncias semelhantes, que induz intensa excitação do SNC, e as metilxantinas, que apresentam ação estimulante mais fraca. Essas substâncias estimulam o SNC pelo bloqueio da inibição ou pela excitação neuronal direta, resultando em aumento da liberação de neurotransmissores ou no prolongamento de sua ação. TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 68 Assim, abordaremos mais especificamente a relação entre estrutura química e atividade biológica dos fármacos que atuam sobre o SNC: anestésicos gerais, hipnóticos-sedativos, antidepressivos, antipsicóticos e anticonvulsivantes. 2 ANESTÉSICOS GERAIS Os anestésicos gerais são fármacos que promovem analgesia, relaxamento muscular, perda de consciência e redução da atividade reflexa, pela depressão inespecífica e reversível do SNC. A palavra anestesia significa “sem percepção ou insensibilidade” e foi utilizada pela primeira vez, em 1846, por Oliver Wendell Holmes (KOROLKOVAS; BURCKHALTER, 1988). Na Antiguidade, a fim de produzir anestesia, eram utilizadas substâncias narcóticas de vários tipos, como alcaloides de ópio e beladona, bem como métodos físicos, como asfixia por estrangulamento. O óxido nitroso, preparado em 1776 por Priestley, foi indicado como anestésico para operações cirúrgicas em 1799 e aplicado na Odontologia em 1844. O éter foi introduzido em cirurgias por William Morton, em 1846, enquanto o clorofórmio foi usado comoanestésico um ano mais tarde e, posteriormente, também foi utilizado pela Rainha Vitória durante o seu trabalho de parto (KOROLKOVAS; BURCKHALTER, 1988). Embora os fármacos anestésicos sejam empregados na prática clínica há centenas de anos, o seu mecanismo de ação permanece desconhecido. Entretanto, sabe-se que os anestésicos atuam sobre os neurônios e que apresentam como principal alvo a sinapse, podendo atuar na fase pré-sináptica e, consequentemente, interferir na liberação de neurotransmissores ou na fase pós-sináptica, alterando a frequência e a amplitude dos impulsos provenientes da sinapse (KATZUNG; TREVOR, 2017). Em nível orgânico, os anestésicos podem aumentar a atividade sináptica inibitória ou diminuir a atividade excitatória dentro do SNC, apesar de estudos demonstrarem que a transmissão excitatória é mais fortemente afetada pelos anestésicos. Os anestésicos alteram diferentes tipos de canais iônicos, como os canais de cloreto (por exemplo, receptores de ácido γ-aminobutírico A [GABAA] e glicina) e os canais de potássio (por exemplo, canais de K2P, possivelmente KV e KATP) são considerados os principais alvos de ação anestésica com efeitos inibitórios. Entre os canais iônicos com efeitos excitatórios, os principais são alvos incluem os ativados por: • acetilcolina – receptores nicotínicos e muscarínicos; • glutamato – receptores de ácido amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazol-propiônico (AMPA), de cainato e N-metil-d-aspartato (NMDA); • serotonina – receptores de 5-HT2 e 5-HT3). TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 69 Outro fator que não sugere um mecanismo particular dos anestésicos gerais, mas que deve ser considerado, é a correlação da potência anestésica com a solubilidade lipídica, provada por Overton e Meyer, na virada do século XX. A Figura 1 mostra a correlação entre a concentração alveolar mínima (CAM), que indica a potência anestésica nos seres humanos, versus a solubilidade lipídica, expressa como coeficiente de partição óleo:água, de diversos agentes anestésicos inalatórios. Como o valor de CAM indica a quantidade necessária do anestésico para abolir a resposta à incisão cirúrgica em 50% dos indivíduos, sendo inversamente proporcional à potência, o metoxiflurano, que tem alta solubilidade lipídica, é o que apresenta menor CAM e, consequentemente, maior potência anestésica. FIGURA 1 – CORRELAÇÃO DA POTÊNCIA ANESTÉSICA COM O COEFICIENTE DE PARTIÇÃO ÓLEO:GÁS DE DIVERSOS ANESTÉSICOS INALATÓRIOS FONTE: RANG et al. (2016, p. 498) Os anestésicos gerais são fármacos estruturalmente inespecíficos, ou seja, para promoverem o seu efeito biológico, dependem apenas das suas propriedades físico- químicas, como o coeficiente de partição. Esses fármacos apresentam características estruturais diferentes e pequenas variações na estrutura não resultam em alterações na atividade biológica. Com isso, não é possível determinar uma relação estrutura-atividade (REA) para essa classe de fármacos. IMPORTANT E UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 70 Os anestésicos gerais podem ser classificados em anestésicos inalatórios e anestésicos intravenosos, sendo alguns exemplos relacionados no Quadro 1 (KOROLKOVAS; BURCKHALTER, 1988). Os anestésicos gerais possuem classes químicas diversas, como gases simples (por exemplo, óxido nitroso e xenônio), hidrocarbonetos halogenados (por exemplo, isoflurano), barbitúricos (por exemplo, tiopental) e esteroides (por exemplo, alfaxalona) (RANG et al., 2016). Muitos anestésicos inalatórios utilizados na prática clínica no passado (por exemplo, éter, clorofórmio, ciclopropano, metoxiflurano) foram substituídos pelo isoflurano, sevoflurano e desflurano, por não serem inflamáveis e apresentarem propriedades farmacocinéticas melhoradas e menores efeitos adversos, sendo que, atualmente, de acordo com Rang et al. (2016), o isoflurano é o anestésico inalatório mais utilizado. Dos fármacos antigos, o óxido nitroso ainda é amplamente usado, principalmente na obstetrícia, e o halotano em certas situações também. Os anestésicos intravenosos (por exemplo, propofol, tiopental e etomidato) apresentam efeito mais rápido que os inalatórios, produzindo um estado de inconsciência em aproximadamente 20 segundos, sendo, em geral, utilizados para indução da anestesia. Por outro lado, muitos anestésicos intravenosos não são adequados para a manutenção da anestesia, por apresentarem velocidade de eliminação lenta, quando comparados aos inalatórios. Entre os anestésicos intravenosos, destaca-se o propofol, com alta potência, de curta ação, rapidamente metabolizado e útil para cirurgias simples. Esse fármaco substituiu largamente o tiopental como agente indutor (RANG et al., 2016). QUADRO 1 – ANESTÉSICOS GERAIS Nome oficial Nome químico Estrutura Anestésicos inalatórios Óxido nitroso Óxido de nitrogênio N2O Isoflurano 2-cloro-2-(difluormetoxi)-1,1,1-trifluoretano CF3CHClOCF2H Desflurano 2-(difluorometoxi)-1,1,1,2-tetrafluoretano CF3CHFOCHF2 Sevoflurano 1,1,1,3,3,3-hexafluor-2-(fluormetoxi)-propano FH2COCH(CF3)2 Halotano 2-bromo-2-cloro-1,1,1-trifluoretano CF3CHClBr Enflurano 2-cloro-1-(difluormetoxi)-1,1,2-trifluoretano CHF2OCF2CHClF Éter 1,1’-oxibisetano C2H5OC2H5 Anestésicos intravenosos Propofol 2,6-diisopropilfenol TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 71 Etomidato Etil 3-[(1R)-1-feniletil] imidazol-4-carboxilato Cetamina 2-(o-clorofenil)-2-(metilamino)ciclo-exanona FONTE: A autora O midazolam, um benzodiazepínico, e o tiopental, um barbitúrico, são fármacos também utilizados como anestésicos intravenosos. Os benzodiazepínicos e barbitúricos são utilizados clinicamente no tratamento da ansiedade aguda e da insônia, e, dessa forma, veremos sua relação estrutura-atividade dentro da classe dos hipnóticos e sedativos. ESTUDOS FU TUROS 3 HIPNÓTICOS E SEDATIVOS Os fármacos pertencentes à classe dos hipnóticos e sedativos são depressores do SNC e atuam na promoção de sedação e alívio da ansiedade ou indução do sono. Fármacos com propriedades hipnóticas produzem sonolência e estimulam o início e a manutenção de um estado de sono, enquanto fármacos sedativos diminuem a ansiedade, moderando a excitação e exercendo um efeito calmante. Os efeitos hipnóticos envolvem uma depressão mais pronunciada do SNC, quando comparados com os sedativos, geralmente obtida pelo aumento da dose dos fármacos (KATZUNG; TREVOR, 2017; HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). Os hipnóticos e sedativos são amplamente prescritos em todo o mundo e incluem benzodiazepínicos, novos agonistas do receptor benzodiazepínico (“compostos Z”), barbitúricos e outros fármacos hipnóticos e sedativos (por exemplo, buspirona e ramelteona). UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 72 A buspirona é um agonista parcial do receptor 5-HT(5-hidroxitriptamina)1A, que apresenta pouco efeito sedativo e é utilizado no tratamento dos estados de ansiedade generalizada. A ramelteona é um análogo tricíclico sintético da melatonina, utilizado para o tratamento de insônia, principalmente para pacientes com dificuldades para adormecer. A ramelteona se liga com alta afinidade aos dois receptores para melatonina (MT1 e MT2) nos núcleos supraquiasmáticos do SNC, ativando-os. NOTA 3.1 BENZODIAZEPÍNICOS De acordo com Rang et al. (2016), os benzodiazepínicos são fármacos que aumentam a afinidade de um importante neurotransmissor inibitório, o ácido γ-aminobutírico (GABA), pelos receptores GABAA. O receptor GABAA é um canal iônico dependente da voltagem, que contém diferentes subunidades, com destaque para as subunidades α, β e γ (RANG et al., 2016). Grande parte dos efeitos dos benzodiazepínicos, como sedação, hipnose, redução da ansiedade, relaxamentomuscular, amnésia anterógrada e ação anticonvulsivante, decorre de suas ações sobre o SNC; porém, esses fármacos produzem dois efeitos de origem periférica: a vasodilatação coronária e o bloqueio neuromuscular, sendo este observado apenas em doses muitos elevadas (HILAL- DANDAN; BRUNTON, 2015). Todos os benzodiazepínicos apresentam perfis farmacológicos similares, embora possam diferir quanto à seletividade e, consequentemente, ao uso terapêutico (Quadro 2). Entretanto, é importante destacar que, dependendo da dose, qualquer benzodiazepínico pode ser usado pelo seu efeito hipnótico. De acordo com Lemke et al. (2008), o uso de um determinado benzodia- zepínico como hipnótico tem como base, sobretudo, suas propriedades farma- cocinéticas. Os seguintes questionamentos determinam se o benzodiazepínico funcionará bem como um hipnótico: • Há o desenvolvimento de tolerância aguda ao benzodiazepínico, diminuindo os seus efeitos no SNC antes que o fármaco seja eliminado do SNC? • A distribuição do benzodiazepínico do SNC para outros tecidos é muito rápida? • Há uma rápida eliminação do fármaco e do metabólito ativo por biotransformação? TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 73 QUADRO 2 – BENZODIAZEPÍNICOS Fármaco Usos terapêuticos Comentários Alprazolam Transtornos de ansiedade, agorafobia Sintomas de abstinência podem ser especialmente graves Clonazepam Distúrbios convulsivos, tratamento adjuvante na mania aguda e em determinados distúrbios do movimento Surge tolerância aos efeitos anticonvulsivantes Diazepam Transtornos de ansiedade, estado epiléptico, relaxamento muscular esquelético, pré-medicação anestésica Benzodiazepínico prototípico Flurazepam Insônia Metabólitos ativos acumulam-se com o uso crônico Lorazepam Transtornos de ansiedade, medicação pré-anestésica Metabolizado somente por conjugação UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 74 Midazolam Medicação pré-anestésica e intraoperatória Rapidamente inativado Oxazepam Transtornos de ansiedade Metabolizado somente por conjugação Temazepam Insônia Metabolizado principalmente por conjugação FONTE: Adaptado de Hilal-Dandan; Brunton (2015, p. 525) A estrutura química central dos benzodiazepínicos é formada pela fusão de um anel de benzeno e um anel de diazepina, quando dois átomos de nitrogênio normalmente encontram-se nas posições 1 e 4 (Figura 2). Os diversos compostos dessa classe apresentam diferentes grupos laterais ligados a essa estrutura central nas posições 1, 2, 5 ou 7. Os diferentes grupos laterais afetam a ligação da molécula ao receptor GABAA e, portanto, podem modular as propriedades farmacológicas e as condições farmacocinéticas (por exemplo, duração do efeito, distribuição, entre outros). De acordo com Batlle et al. (2019), existem benzodiazepínicos que são fundidos com anel triazol ou imidazol, como o midazolam e o triazolam. TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 75 FIGURA 2 – ESTRUTURA GERAL DOS BENZODIAZEPÍNICOS FONTE: A autora A relação estrutura-atividade dos benzodiazepínicos, segundo Batlle et al. (2019), é descrita como: • Substituição na posição 1: aumenta a atividade por alquilação (pró-fármacos – por exemplo, diazepam). • Substituição na posição 2: átomo eletronegativo (O ou N) derivado de carboxil – primeira geração de benzodiazepínicos –, embora também não possa ser substituído (por exemplo, medazepam). • Substituição na posição 3: se não for substituído ou tiver um −OH, aumenta a polaridade e leva à eliminação mais rápida (por exemplo, lorazepam). • Anel benzeno na posição 5: ótimo para atividade; se R2’ = Cl, F, aumenta a atividade (por exemplo, flurazepam e clonazepam). • Substituição na posição 7: estabelece a potência; posição favorável para aumentar a atividade, especialmente por um grupo atrator de elétrons: CF3> NO2> Br> Cl> OCH3> R, sendo que NO2 é a ação hipnótica (por exemplo, clonazepam, nitrazepam e lormetazepam) e X, a ação ansiolítica (por exemplo, lorazepam e alprazolam). • Qualquer substituição nas demais posições (6, 8 e 9): diminuição da atividade. 3.2 NOVOS AGONISTAS DO RECEPTOR BENZODIA ZEPÍNICO Os hipnóticos dessa classe, conhecidos como “compostos Z”, que incluem zolpidem, zaleplona, zopiclona e eszopiclona (enantiômero S(+) da zopiclona) (Figura 3), são muito utilizados no tratamento da insônia, tendo substituído os benzodiazepínicos nos últimos anos. Quando comparados aos benzodiazepínicos, os compostos Z possuem menor atividade como anticonvulsivantes e relaxantes musculares. Embora os compostos Z tenham sido aprovados com a informação de que a dependência era inferior à dos benzodiazepínicos, após a comercialização desses fármacos, foi verificado que eles causam tolerância e dependência física após o uso prolongado, principalmente quando em doses altas (HILAL- UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 76 DANDAN; BRUNTON, 2015). O mecanismo de ação dos compostos Z dá-se pela ligação seletiva aos receptores GABAA, atuando como agonistas e aumentando a hiperpolarização da membrana (ligam-se ao receptor no mesmo local que os benzodiazepínicos) (HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). FIGURA 3 – ESTRUTURAS DOS COMPOSTOS Z FONTE: A autora 3.3 BARBITÚRICOS Os barbitúricos são fármacos que já foram amplamente utilizados como hipnóticos e sedativos, e, embora apresentem mecanismo de ação semelhante aos benzodiazepínicos, foram substituídos por serem mais seguros. Entre os efeitos adversos relacionados com o uso de barbitúricos, têm-se alterações de humor, comprometimento do julgamento e das habilidades motoras finas, vertigens, náuseas, vômitos, diarreia, inquietação, excitação, reações de hipersensibilidade e, em alguns casos, causam excitação, em vez de depressão do SNC, dando a impressão de embriaguez (HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). Quanto à farmacocinética, os barbitúricos podem ser classificados de acordo com a duração de efeito, a saber: • efeito prolongado (4 a 12 h), como o fenobarbital e o metabarbital; • efeito intermediário (2 a 8 h), como o secbutabarbital e o amobarbital; • efeito curto (até 3 h), como o secobarbital e o pentobarbital; • efeito ultracurto, como o hexobarbital e o tiopental. Quanto à relação estrutura-atividade dos barbitúricos, cuja estrutura geral encontra-se na Figura 4, Korolkovas e Burckhalter (1988) listam alguns parâmetros gerais: • Substituição de grupos alquílicos nas posições 1 e 3: diminuição do efeito hipnótico e aumento de propriedades estimulantes. • Metilação de um átomo de nitrogênio: aumenta a afinidade por lipídios, porém diminui o efeito. TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 77 • Substituição na posição 2: átomo de enxofre (S) diminui a duração de ação, devido à rápida distribuição no tecido adiposo. • Substituição na posição 5 (R1 e R2): conferem lipossolubilidade e influenciam diretamente na duração do efeito. Esse efeito aumenta até que o número total de carbonos em R1 e R2 seja de oito carbonos. O grupo fenila nessa posição confere propriedades anticonvulsivantes. ᵒ efeito ultracurto: cadeia longa na posição 5 e X= S; ᵒ efeito curto: cadeia longa na posição 5 e X= O; ᵒ efeito intermediário: cadeia mais curta e menos ramificada na posição 5 e X= O; ᵒ efeito prolongado: cadeia curta e saturada ou fenila na posição 5 e X= O. FIGURA 4 – ESTRUTURA GERAL DOS BARBITÚRICOS FONTE: A autora 4 ANTIDEPRESSIVOS A depressão é uma doença mental altamente prevalente em todo o mundo e pode ser classificada como transtorno depressivo maior (TDM) ou doença maníaco-depressiva (depressão bipolar) (HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). As causas e fisiopatologia do TDM ainda nãoforam totalmente esclareci- das; com isso, há diferentes teorias para a depressão, com destaque para a teoria das monoaminas. De acordo com Rang et al. (2016), a teoria das monoaminas, proposta por Schildkraut, em 1965, afirma que “[...] a depressão pode ser causada por déficit funcional de transmissores de monoaminas, norepinefrina (NE) e 5-hi- droxitriptamina (5-HT), em certos locais do cérebro, enquanto a mania resulta de excesso funcional” (RANG et al., 2016, p. 570). Embora muitos fármacos antide- pressivos possuam como mecanismo de ação a transmissão de monoaminas, essa teoria é insuficiente como explicação da depressão. De forma geral, os antidepressivos aumentam a transmissão serotonérgica e noradrenérgica. Os antidepressivos disponíveis clinicamente apresentam diferenças estruturais e diferentes alvos moleculares, podendo ser classificados nas seguintes subclasses: • inibidores da captura das monoaminas; • antagonistas do receptor de monoamina; • inibidores da monoaminooxidase (IMAOs); • agonista do receptor da melatonina. UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 78 4.1 INIBIDORES DA CAPTURA DAS MONOAMINAS Na subclasse dos inibidores da captura das monoaminas, temos: • inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs); • antidepressivos tricíclicos (ADTs); • inibidores seletivos da recaptação de serotonina-norepinefrina (IRSNs); • inibidores da recaptação de norepinefrina. Os ISRSs são os antidepressivos de maior uso clínico na atualidade, pois apresentam facilidade e diversidade de uso, tolerabilidade relativa, custo, segurança em casos de superdosagem, já que também podem ser utilizados no tratamento do transtorno de pânico, bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada. Os ISRSs incluem fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina, sertralina, citalopram, escitalopram, e atuam inibindo o transportador de serotonina (SERT), responsável pela recaptação da serotonina (5-hidroxitriptamina ou 5-HT) no terminal pré-sináptico (KATZUNG; TREVOR, 2017). A fluoxetina é uma 3-fenoxi-3-fenilpropilamina que exibe seletividade e alta afinidade pelo SERT, sendo comercializada em sua forma racêmica. A seletividade das fenoxifenil-propilaminas na inibição do SERT depende da posição do substituinte no anel fenoxi. Na Tabela 1, é possível observar a relação estrutura-atividade para fenoxifenil-propilaminas. A monossubstituição na posição 4 (para) do grupo fenoxi com um grupo retirador de elétrons, como um grupo trifluorometil (2-CF3) na fluoxetina resulta na inibição seletiva da recaptação de 5-HT, observada pela grande diferença de Ki para 5-HT (Ki = 17 nM) e NE (Ki = 2.703 nM). Quando esse mesmo grupo é colocado na posição 2 (orto) do grupo fenoxi, a seletividade muda consideravelmente, resultando em um Ki de 1.489 nM para 5-HT e de 4.467 nM para NE. Lemke et al. (2008) ressaltam que a dissubstituição (substituição 2,4 ou 3,4) resulta na perda de seletividade de SERT. TABELA 1 – RELAÇÃO ESTRUTURA-ATIVIDADE PARA FENOXIFENIL-PROPILAMINAS H N CH3 O R R (fármaco) Inibição da recaptação (Ki nM) -5-HT NE H 102 200 2-OCH3 (nisoxetina) 1371 2.4 2-SCH3 (tionisoxetina) 130 0.2 2-CH3 (atomoxetina) 390 3.4 2-F 898 5.3 2-I 25 0.4 2-CF3 1489 4467 TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 79 3-CF3 16 1328 4-CF3 (fluoxetina) 17 2703 4-CF3 (norfluoxetina, NH2) 17 2176 4-CH3 95 570 4-OCH3 71 1207 4-Cl 142 568 4-F 638 1276 R (fármaco) Inibição da recaptação (Ki nM) FONTE: Adaptada de Lemke et al. (2008, p. 567) A paroxetina é um análogo estrutural da fluoxetina, em que o grupo fenilpropilamina da fluoxetina, que é linear, foi modificado a um anel piperidina. O composto possui quatro estereoisômeros, pois apresenta dois centros quirais, sendo que um deles, o (3S,4R)-isômero, é comercializado como paroxetina. A paroxetina é um potente e seletivo inibidor do SERT e apresenta alta afinidade por esse receptor e baixa afinidade pelo NET (LEMKE et al., 2008). Alterações estruturais na paroxetina resultam na diminuição da afinidade pelo SERT, como pode ser visto na Figura 5. Entre essas alterações, percebe-se que os fatores estereoquímicos afetam a afinidade da molécula para SERT, sendo que a substituição na posição 2 (orto) de qualquer um dos anéis aromáticos diminui a afinidade para SERT em cerca de 10 a 100 vezes, com maior perda no anel fenoxi. FIGURA 5 – RELAÇÃO ESTRUTURA-ATIVIDADE DA PAROXETINA FONTE: A autora Uma vez que a noradrenalina tenha interagido com o seu receptor, normalmente, ela é levada de volta ao neurônio pré-sináptico por uma proteína de transporte, a qual é um importante alvo para vários medicamentos que inibem a captação noradrenalina, visando a prolongar a atividade adrenérgica. UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 80 Os ADTs (Figura 6), como imipramina, desipramina, amitriptilina, nortriptilina e clomipramina, funcionam dessa maneira no SNC e eram os principais antidepressivos até a introdução dos ISRSs. Atualmente eles são indicados para o tratamento da depressão não responsiva aos ISRSs ou aos IRSNs (PATRICK, 2013). FIGURA 6 – EXEMPLOS DE ADTS, IRSNS E INIBIDORES DA RECAPTAÇÃO DE NOREPINEFRINA FONTE: A autora Foi proposto que os ADTs são capazes de agir como inibidores porque são parcialmente sobreponíveis à noradrenalina. Infelizmente, os ADTs não são seletivos e interagem com uma variedade de outros alvos, como a proteína de recaptação para a serotonina, os canais de íons de sódio e cálcio no coração, e os receptores para histamina e acetilcolina. O bloqueio da proteína de transporte da serotonina é benéfico para a atividade antidepressiva, mas a interação com canais iônicos e receptores resulta em vários efeitos adversos, incluindo cardiotoxicidade. Os agentes que contêm aminas terciárias têm os maiores efeitos colaterais no sistema colinérgico, como a amitriptilina e a imipramina (KATZUNG; TREVOR, 2017; PATRICK, 2013). Os IRSNs, como venlafaxina, desvenlafaxina, duloxetina e levomilnaciprana, são efetivos no tratamento do TDM e também possuem outros usos terapêuticos, como no tratamento de fibromialgia e neuropatias, na ansiedade generalizada, na incontinência urinária por estresse e em sintomas vasomotores da menopausa. Os IRSNs, assim como os ADTs, ligam-se aos SERT e aos transportadores de norepinefrina (NET), inibindo a recaptação dos transmissores, porém, não apresentam afinidade com outros receptores, como os ADTs, o que leva à diminuição de efeitos colaterais relacionados com o uso destes fármacos. A venlafaxina, por exemplo, tem atividade semelhante à imipramina, mas com menos efeitos colaterais. TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 81 Os inibidores da recaptação de norepinefrina incluem bupropiona, reboxetina e atomoxetina. A bupropiona é um fármaco utilizado no tratamento da depressão associada à ansiedade, que inibe seletivamente a recaptação de NE sobre a serotonina, apesar de também inibir a recaptação da dopamina. A bupropiona é uma fenil-isopropil-aminocetona que está estruturalmente relacionada com o estimulante fenil-isopropil-amina do SNC, a metanfetamina e o anorexiante dietilpropiona. Embora estruturalmente semelhante aos estimulantes do SNC, a bupropiona exibe efeitos farmacológicos e terapêuticos distintos. A ausência do sistema de anel tricíclico na bupropiona resulta em um melhor perfil de efeitos adversos, quando comparado aos ADTs. O grupo butil terciário na bupropiona impede sua N-desalquilação para metabólitos que possuam propriedades simpatomiméticas e/ou anorexigênicas (LEMKE et al., 2008). 4.2 ANTAGONISTAS DO RECEPTOR DE MONOAMINA Os antagonistas do receptor de monoamina não são seletivose incluem a trazodona, nefazodona, mirtazapina e mianserina (Figura 7). A trazodona inibe os receptores 5-HT2 e os receptores α1-adrenérgicos, além de também inibir o SERT com menor potência. Já a mirtazapina e a mianserina inibem os receptores da histamina H1 e também apresentam afinidade com os receptores α2-adrenérgicos. Quanto aos usos clínicos, a trazodona apresenta eficácia mais limitada quando comparada aos ISRSs, enquanto a mirtazapina e a mianserina promovem bastante sedação, sendo os fármacos de escolha para o tratamento de pacientes depressivos que sofrem de insônia. FIGURA 7 – ANTAGONISTAS DO RECEPTOR DE MONOAMINA FONTE: A autora 4.3 INIBIDORES DA MONOAMINOXIDASE (IMAOS) A monoamina oxidase (MAO) é uma das enzimas responsáveis pelo metabolismo de neurotransmissores importantes, como dopamina, noradrenalina e serotonina, sendo duas formas isozímicas (MAO-A e MAO-B). Essas isozimas UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 82 diferem na especificidade do substrato, na distribuição nos tecidos e na estrutura primária. MAO-A é seletiva para noradrenalina e serotonina, enquanto MAO-B é seletiva para dopamina (PATRICK, 2013). Os inibidores da monoaminoxidase (IMAOs) foram introduzidos na década de 1950 e, hoje, são pouco utilizados na clinicamente, em decorrência da sua toxicidade e de sua baixa segurança, já que certas interações medicamentosas e alimentares podem ser fatais. Seus usos terapêuticos incluem o tratamento da depressão não responsiva a outros antidepressivos, da doença de Parkinson e de ansiedade social e transtorno de pânico. A “reação do queijo” é uma interação fármaco-nutriente que pode ocorrer em pacientes que fazem uso de IMAOs e consomem queijo maturado, o qual contém tiramina, um neurotransmissor derivado da tirosina. Essa interação causa crise hipertensiva ou um aumento súbito da pressão sanguínea, que pode ser perigoso. Isso ocorre devido a tiramina ser degradada pela monoamina oxidase, inibida pelos medicamentos IMAO. Com isso, os níveis de tiramina aumentam no organismo, causando efeitos simpaticomiméticos. ATENCAO Os IMAOs disponíveis comercialmente incluem a fenelzina, a isocarboxazida, a tranilcipromina, que são inibidores irreversíveis e não seletivos aos subtipos MAO-A e MAO-B, a selegilina e a moclobemida (Figura 8), que apresentam propriedades reversíveis e seletivas para determinado subtipo (por exemplo, a moclobemida é reversível e seletiva para MAO-A). A selegilina foi planejada para agir como substrato suicida, ligando-se à enzima por ligações covalentes. Os grupos funcionais amina e alcino, presentes em sua estrutura, são fundamentais para esse processo (PATRICK, 2013). FIGURA 8 – INIBIDORES DA MONOAMINOXIDASE FONTE: A autora TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 83 A subclasse agonista do receptor da melatonina tem a agomelatina como único fármaco representante, sendo este um agonista dos receptores MT1 e MT2 da melatonina e um antagonista fraco do 5-HT2C. ATENCAO 5 ANTIPSICÓTICOS A psicose é caracteriza por ser uma realidade distorcida ou inexistente. Entre os transtornos psicóticos mais comuns que acometem a população, tem-se a depressão maníaco-depressiva, a psicose induzida por substâncias, o transtorno psicótico breve, o transtorno delirante, o transtorno esquizoafetivo, a esquizofrenia, a demência e o delirium com aspectos psicóticos (HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). Os primeiros fármacos que apresentaram atividade na redução dos sintomas da esquizofrenia foram a reserpina e a clorpromazina, descobertas a partir de estudos da hipótese da dopamina. Atualmente, a reserpina não é mais utilizada como fármaco antipsicótico. Segundo a hipótese da dopamina, a redução dos sintomas da esquizofrenia é obtida pela diminuição da neurotransmissão dopaminérgica. No entanto, essa hipótese apresenta limitações, pois a dopamina não é responsável pelos déficits cognitivos associados a essa doença nem explica os efeitos alucinógenos da fenciclidina e cetamina que são fármacos antagonistas do receptor do glutamato N-metil-D-aspartato (NMDA) (HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). Entretanto, essa hipótese continua relevante, pois, a partir dela, é possível compreender os principais aspectos da esquizofrenia, assim como os mecanismos de ação dos fármacos antipsicóticos (KATZUNG; TREVOR, 2017). Até o momento, todos os antipsicóticos disponíveis comercialmente são antagonistas dos receptores D2 de dopamina, podendo ser divididos em duas principais classes: antipsicóticos de primeira e segunda geração. Os antipsicóticos de primeira geração (também conhecidos como “antipsicóticos típicos” ou “convencionais”) são aqueles que foram desenvolvidos inicialmente, como a clorpromazina, haloperidol e outros compostos análogos (por exemplo, flufenazina, flupentixol e clopentixol). Os antipsicóticos de primeira geração atuam bloqueando os receptores D2 de modo estereosseletivo (em grande parte), sendo que a afinidade de ligação ao receptor se relaciona com a potência antipsicótica e a incidência de efeitos colaterais extrapiramidais (EEP). UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 84 Após a introdução da clorpromazina (CPZ) no tratamento da esquizofrenia, milhares de novos agentes baseados em sua topologia tricíclica foram preparados e avaliados farmacologicamente. O potencial neuroléptico desses agentes foi determinado por meio de uma série de testes padronizados em animais, que serviram para classificar a “potência” neuroléptica de novos agentes em relação à CPZ. Essa classificação ficou conhecida como “índice de clorpromazina”, e esses testes foram notavelmente precisos na previsão da ordem de afinidade para o subtipo de receptor D2 da dopamina (ABRAHAM, 2003b). A estrutura-atividade dos antipsicóticos tricíclicos pode ser analisada a partir da divisão em três subestruturas (A, B e C), como podemos ver na Figura 9. Ao considerar o efeito da estrutura na atividade neuroléptica, é informativo examinar cada uma das três subestruturas do isolamento tricíclico para ver como as mudanças individuais em cada uma dessas regiões afetam as propriedades biológicas do composto resultante. Abraham (2003b) relata que: • a distância entre as subestruturas A e C é crítica para a atividade neuroléptica, sendo ideal uma cadeia de três carbonos. Cadeias com dois carbonos amplificam as propriedades anticolinérgicas e anti-histamínicas; • pequenos substituintes alquil (por exemplo, metil) são tolerados no carbono C2, enquanto substituintes maiores (por exemplo, fenil) restringem a rotação livre e diminuem a potência neuroléptica. Além disso, se a rotação for restringida pela formação de anel, o índice de clorpromazina é bastante reduzido; • X = oxigênio diminui a atividade neuroléptica, quando comparado a X = enxofre; • uma amina terciária na subestrutura A é ótima para a atividade. A substituição da função dimetilamino da clorpromazina por derivados da piperazina produz compostos com maior potência. FIGURA 9 – CLORPROMAZINA E SUBESTRUTURAS DOS ANTIPSICÓTICOS TRICÍCLICOS FONTE: A autora Os antipsicóticos de butirofenona possuem uma amina terciária no quarto carbono da cadeia butiral (essencial para a atividade) e podem apresentar atividade analgésica mínima pela adição de um substituinte na posição 4 do anel aromático. Muitos dos compostos dessa classe que foram testados clinicamente mostraram alta potência neuroléptica em relação à clorpromazina. O primeiro desses medicamentos a ser introduzido para o tratamento da psicose foi o TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 85 haloperidol. A toxicidade relativamente baixa do haloperidol em relação à clorpromazina resultou em sua amplaaceitação na clínica e, atualmente, é o antipsicótico de primeira geração mais utilizado (ABRAHAM, 2003b). Outras substâncias relacionadas com o haloperidol podem ser observadas na Figura 10. A substituição da hidroxila terciária do haloperidol por amidas como nos compostos 1 e 2 resulta em compostos eficazes, assim como a substituição simultânea do aromático por piperidina no composto 3. FIGURA 10 – ANTIPSICÓTICOS DE BUTIROFENONA FONTE: A autora Os antipsicóticos de segunda geração (também conhecidos como “antipsicóticos atípicos”) (Figura 11) foram desenvolvidos mais recentemente e incluem clozapina, risperidona, olanzepina, sertindol, quetiapina, amisulprida, aripiprazol, zotepina e ziprasidona. Esses fármacos causam menores efeitos adversos e apresentam uma farmacologia complexa, diferentemente dos compostos de primeira geração. Os fármacos atípicos possuem maior capacidade de atuar sobre receptores 5-HT2A (antagonismo) do que nos receptores D2 e a maior parte deles também atua como agonistas parciais do receptor 5-HT1A, o que resulta em efeitos sinérgicos. A maioria desses fármacos também são antagonistas dos receptores 5-HT6 ou 5-HT7. FIGURA 11 – ANTIPSICÓTICOS DE SEGUNDA GERAÇÃO UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 86 FONTE: A autora 6 ANTICONVULSIVANTES A epilepsia é um distúrbio neurológico muito comum, caracterizada por convulsões, que atinge aproximadamente 1% da população mundial. No entanto, Rang et al. (2016) relata que nem todas as crises envolvem convulsões. As crises convulsivas podem ser classificadas em: crises parciais, que acometem apenas uma parte do cérebro, e crises generalizadas, que envolvem todo o cérebro. As crises generalizadas podem ser subdividas em: crises de ausência, crises mioclônicas e crises tônico-clônicas. As crises de ausência comprometem de maneira abrupta a consciência, sendo associado a olhar fixo, de curta duração (inferior a 30 segundos) e interrupção das atividades realizadas pelo indivíduo no momento. As crises mioclônicas são contrações musculares muito rápidas, semelhantes a choques, podendo atingir apenas uma parte do membro ou ser generalizadas. Nas crises tônico-clônicas, as contrações dos músculos de todo o corpo são persistentes e há perda da consciência, seguidas por períodos de contrações musculares alternados com períodos de relaxamento, com duração de cerca de 1 a 2 min. NOTA O tratamento da epilepsia é sintomático visto que, até o momento, não há cura para essa condição. No entanto, 20% dos pacientes não apresentam controle das convulsões após o uso da farmacoterapia padrão (KATZUNG; TREVOR, 2017; HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). Entre os fármacos anticonvulsivantes clássicos (Figura 12), tem-se: carbamazepina, fenitoína, valproato, etossuximida, fenobarbital e benzodiazepínicos (por exemplo, clonazepam, lorazepam e diazepam). A carbamazepina é o anticonvulsivante mais utilizado clinicamente, sendo especialmente eficaz no tratamento das crises convulsivas parciais (do tipo complexas). A fenitoína é eficaz nas crises convulsivas dos tipos parciais e generalizadas, porém sem efeitos nas crises de ausência. O barbitúrico fenobarbital apresenta usos clínicos semelhantes à fenitoína, mas é muito pouco utilizado por causar sedação. TÓPICO 1 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO CENTRAL 87 FONTE: A autora FONTE: A autora FIGURA 12 – ANTICONVULSIVANTES CLÁSSICOS O fenobarbital e os benzodiazepínicos potencializam a ativação dos receptores de GABAA com o favorecimento da abertura dos canais de cloreto, enquanto a carbamazepina e a fenitoína inibem a excitabilidade da membrana, atuando sobre os canais de sódio dependentes de voltagem. O valproato e a etossuximida são agentes utilizados no tratamento de crises de ausência (crises generalizadas) e inibem os canais de cálcio que são ativados por baixa voltagem do canal do tipo T, sendo estes relevantes na determinação do ritmo de despolarização dos neurônios do tálamo (RANG et al., 2016). No tratamento da epilepsia, também são utilizados os fármacos anticonvulsivantes desenvolvidos recentemente, incluindo: vigabatrina, lamotrigina, gabapentina, pregabalina, felbamato, tiagabina, topiramato, levetiracetam, zonisamida, rufinamida, lacosamida, retigabina e perampanel. Na Figura 13, é possível observar a estrutura molecular de alguns desses fármacos. FIGURA 13 – ANTICONVULSIVANTES DESENVOLVIDOS RECENTEMENTE A vigabatrina e a tiagabina atuam potencializando a ação do GABA, o primeiro inibindo de forma irreversível a enzima GABA transaminase, que inativa o GABA, e o segundo, os transportadores (por exemplo, GAT1, neuronais e gliais) que removem o GABA das sinapses. A lamotrigina e a lacosamida UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 88 inibem a função dos canais de sódio. A lamotrigina atua de forma semelhante aos anticonvulsivantes clássicos carbamazepina e fenitoína, enquanto a lacosamida difere por afetar os processos de inativação lentos em vez dos rápidos, como os demais. A gabapentina e a pregabalina atuam sobre os canais de cálcio, inibindo a entrada de cálcio nos terminais nervosos, o que reduz a liberação de neurotransmissores e moduladores. Os demais fármacos anticonvulsivantes ainda não apresentam uma elucidação do mecanismo de ação em nível celular (RANG et al., 2016). Em relação à estrutura-atividade dos derivados da hidantoína, como a fenitoína, Abida, Tauquir e Asif (2020) relatam que: • um substituinte 5-fenil ou outro substituinte aromático parece ser essencial para a atividade contra convulsões generalizadas; • substituição na posição 5: substituintes alquil contribuem para a sedação, uma propriedade ausente na fenitoína. Embora essa posição seja um ponto de assimetria nesses derivados, parece haver pouca diferença na atividade entre os isômeros. Na relação estrutura-atividade do valproato ou ácido valproico e derivados, Kadam, Mahadik e Bothara (2008) discorrem que: • A atividade anticonvulsivante aumenta conforme a cadeia lateral. • A introdução de uma ligação dupla diminui a atividade. • A introdução de um grupo hidroxila secundário ou terciário ou a substituição de uma carboxila por um grupo hidroxila não tem efeito. 89 Neste tópico, você aprendeu que: • Os anestésicos gerais possuem mecanismo de ação desconhecido, porém sabe- se que o seu efeito biológico depende apenas das suas propriedades físico- químicas, como o coeficiente de partição, e não da interação com o receptor- alvo, não sendo possível determinar uma relação estrutura-atividade. • Os benzodiazepínicos são hipnóticos e sedativos que apresentam diferentes grupos laterais ligados à estrutura central nas posições 1, 2, 5 ou 7. Esses grupos laterais afetam a ligação da molécula ao receptor GABAA, modulando as propriedades farmacológicas e as condições farmacocinéticas. • Substituintes na posição 5 dos barbitúricos conferem lipossolubilidade e influenciam diretamente na duração do efeito. • Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como a fluoxetina e a paroxetina, são os antidepressivos de maior uso clínico na atualidade. A seletividade para inibição do SERT pela fluoxetina é dada pela monossubstituição na posição 4 do anel fenoxi com um grupo retirador de elétrons. • O haloperidol é o antipsicótico de primeira geração mais utilizado atualmente. A amina terciária no quarto carbono da cadeia butiral desse fármaco é essencial para a atividade. A substituição da hidroxila terciária do haloperidol por amidas resulta em compostos eficazes. • Os fármacos anticonvulsivantes clássicos incluem a carbamazepina, fenitoína,valproato, etossuximida, fenobarbital e benzodiazepínicos. No valproato e derivados, a atividade anticonvulsivante aumenta conforme a cadeia lateral. Nos derivados da hidantoína, um substituinte 5-fenil ou outro aromático é essencial para a atividade. RESUMO DO TÓPICO 1 90 1 A potência dos fármacos anestésicos gerais é dada pela concentração alveolar mínima (CAM), que indica a quantidade necessária do anestésico para abolir a resposta à incisão cirúrgica em 50% dos indivíduos. Com base na tabela a seguir, assinale o anestésico mais potente: AUTOATIVIDADE Anestésico Coeficiente de partição a 37 °C Óleo:gás CAM (vol %) Halotano 224 0,77 Isoflurano 90,8 1,15 Enflurano 98,5 91,7 Desflurano 16,7 6,0 FONTE: A autora FONTE: A autora a) ( ) Halotano. b) ( ) Isoflurano. c) ( ) Enflurano. d) ( ) Desflurano. 2 Observando a estrutura geral dos antidepressivos, apresentada na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Se o R for igual a 4-CF3, o fármaco corresponde à fluoxetina, um fármaco que inibe seletivamente a recaptação de serotonina. ( ) Se o R for 2-OCH3, o fármaco corresponde à nisoxetina, um fármaco tão potente quanto à fluoxetina na inibição da recaptação de serotonina. ( ) A dissubstituição no anel com R resulta na perda de seletividade ao transportador de serotonina. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 91 FONTE: A autora FONTE: A autora 3 Os benzodiazepínicos são fármacos amplamente utilizados em todo o mundo, devido a seus efeitos sedativos, hipnóticos, de redução da ansiedade, entre outros. A estrutura química central dos benzodiazepínicos é dada na figura a seguir. A respeito da relação estrutura-atividade dos benzodiazepínicos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A introdução de uma hidroxila na posição 3 leva à eliminação mais rápida. b) ( ) A substituição na posição 6 é favorável para aumentar a atividade. c) ( ) O grupo NO2 em R7 confere ao benzodiazepínico de ação ansiolítica. d) ( ) Se R1 for um grupo alquil, ocorre diminuição da atividade. 4 Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs) são os antidepressivos de maior uso clínico na atualidade. Entre eles, a paroxetina, cuja estrutura é apresentada a seguir, é um potente e seletivo inibidor do transportador de serotonina (SERT). Com base nessas informações e após a análise da figura, o que se espera da atividade do composto X, quando comparado à paroxetina? Justifique. 5 Após a descoberta da atividade neuroléptica da clorpromazina, novos compostos baseados em sua topologia tricíclica foram preparados e avaliados farmacologicamente. Observe as estruturas apresentadas na figura a seguir. O que se espera da atividade neuroléptica do composto 1, quando comparado à clorpromazina? Justifique. 92 FONTE: A autora 93 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O sistema nervoso periférico (SNP) é formado pelos tecidos neuronais que se encontram fora do SNC, sendo que a sua porção motora (eferente) pode ser subdividida em autônoma e somática. O sistema nervoso autônomo (SNA), também conhecido como sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário, é responsável pela regulação de funções autônomas que não são controladas pelo consciente, estando ligado a funções altamente necessárias para a vida, como o débito cardíaco, a distribuição do fluxo sanguíneo e a digestão. Já o sistema nervoso somático (SNS) é responsável pelas funções controladas pelo consciente, como respiração, movimentos e postura (KATZUNG; TREVOR, 2017; HILAL-DANDAN; BRUNTON, 2015). O SNA pode ser dividido, anatomicamente, em duas grandes porções: simpática e parassimpática. Embora o SNA simpático não seja essencial para a vida com base em um ambiente controlado, em circunstâncias de estresse, ele é totalmente necessário, pois seu grau de atividade varia de acordo com a circunstância, ajustando-se à determinado ambiente ou situação. Diante de uma situação de perigo/estresse, o organismo é preparado para uma “luta ou fuga” e, com isso, a frequência cardíaca acelera, a pressão arterial e a glicemia se elevam, o fluxo sanguíneo é desviado de regiões como a pele e a região esplâncnica para os músculos esqueléticos, e os bronquíolos e as pupilas se dilatam. Por outro lado, o SNA parassimpático é essencial para a vida e realiza descargas limitadas e localizadas, com o intuito de conservar a energia e manter a função dos órgãos durante períodos de pouca atividade. Entre as suas funções, tem- se a redução da frequência cardíaca, diminuição da pressão arterial, estimulação dos movimentos e secreções gastrointestinais, esvaziamento da bexiga e do reto, ajuda na absorção de nutrientes e proteção da retina contra a luz excessiva. Os fármacos podem alterar muitas funções autônomas, pela mimetização ou pelo bloqueio das ações dos transmissores químicos, sendo úteis em diversas condições clínicas. Há um grande número de neurotransmissores no corpo, mas os mais importantes no SNP são a acetilcolina e a norepinefrina (NE). Cada etapa envolvida no processo de neurotransmissão representa um local possível de intervenção terapêutica. No entanto, diversos fármacos, utilizados para outros alvos, apresentam efeitos indesejáveis sobre a função autonômica. TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 94 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO Neste tópico, abordaremos a relação estrutura-atividade (REA) dos fármacos com atividades colinomiméticas e anticolinérgicas, os quais são amplamente utilizados devido aos seus efeitos na cognição e no comportamento, bem como no coração, olhos, pulmões e os tratos geniturinário e gastrintestinal. Além disso, veremos a relação estrutura-atividade dos fármacos denominados simpatomiméticos, que produzem ações semelhantes à epinefrina e à NE. A farmacologia colinérgica aborda as propriedades da acetilcolina (ACh), um neurotransmissor com diversas ações fisiológicas importantes, as quais envolvem a junção neuromuscular (JNM), o SNA e o SNC. IMPORTANT E 2 COLINÉRGICOS Os fármacos colinérgicos são aqueles que de modo direto ou indireto produzem efeitos similares aos causados pela ACh. A partir dessa afirmação, pode-se perguntar: se há falta de acetilcolina agindo em uma determinada parte do corpo, por que não administrar diretamente mais acetilcolina, já que é um composto possível de ser obtido em laboratório? Patrick (2013) relata as seguintes razões pelas quais isso não é viável: • a acetilcolina é facilmente hidrolisada no estômago por catálise ácida, o que impede sua administração por via oral; • a acetilcolina é facilmente hidrolisada na corrente sanguínea por enzimas esterases; • não haveria seletividade de ação, pois a acetilcolina adicional iria se ligar a todos os receptores colinérgicos do corpo. Com isso, são necessários análogos da acetilcolina mais estáveis à hidrólise e mais seletivos. Em relação à seletividade, existem diferentes tipos de receptores colinérgicos, que variam na forma como eles encontram-se distribuídos nos tecidos. Com isso, é possível projetar agentes sintéticos que exibem seletividade para esses receptores e, portanto, têm seletividade de tecido. Os receptores colinérgicos são divididos em duas grandes classes: muscarínicos e nicotínicos. Os receptores muscarínicos são expressos nos gânglios autônomos, em todas as fibras pós-ganglionares parassimpáticas e em algumas fibras pós-ganglionares simpáticas e no SNC. Os receptores nicotínicos TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 95 são canais iônicoscontrolados por ligantes que se interpõem pós-sinapticamente na JNM e nos gânglios autônomos periféricos. No SNC, os receptores nicotínicos controlam a liberação de outros neurotransmissores, como o glutamato e a dopamina, pelas estruturas pré-sinápticas. Para o desenvolvimento de novos análogos da ACh, foi realizada a REA da própria ACh, a fim de identificar quais partes da molécula são importantes para a atividade biológica e decidir quais mudanças valem a pena serem realizadas do planejamento dos novos compostos. A Figura 14 apresenta os resultados da REA da acetilcolina relatados por Patrick (2013), que são válidos para ambos os tipos de receptores, nicotínicos e muscarínicos. FIGURA 14 – RELAÇÃO ESTRUTURA-ATIVIDADE DA ACETILCOLINA FONTE: A autora 2.1 AGONISTAS MUSCARÍNICOS Os agonistas muscarínicos são também conhecidos como parassimpato- miméticos, pois seus principais efeitos no organismo se assemelham aos decor- rentes da estimulação parassimpática. Atualmente, apenas os fármacos betanecol, pilocarpina e cevimelina são utilizados na terapêutica (Figura 15). A pilocarpina e a cevimelina são usadas clinicamente para aumentar a produção da saliva e lágrimas em pacientes com boca e olhos secos, sobretudo naqueles com síndrome de Sjögren e também após irritação ou lesão nas glândulas salivares ou lacrimais. O betanecol possui uso raro como estimulante laxativo ou para estimular o esvaziamento da bexiga. 96 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO FIGURA 15 – AGONISTAS MUSCARÍNICOS FIGURA 16 – ESTRUTURA DA VARENICLINA FONTE: A autora FONTE: A autora Como mostrado na Figura 15, a pilocarpina não apresenta em sua estrutura o grupamento amônio quaternário, porém presume-se que esse fármaco é protonado antes de interagir com o receptor muscarínico, além de adotar a conformação ideal para a interação com esse tipo de receptor (PATRICK, 2013). 2.2 AGONISTAS NICOTÍNICOS Os agonistas nicotínicos atuam nos receptores neuronais (ganglionares e do SNC) ou nos receptores musculares estriados (placa motora). A maioria dos agonistas nicotínicos não é utilizada na prática clínica, exceto a nicotina e a vareniclina (Figura 16), que são indicadas como tratamento auxiliar para cessação do tabagismo. A vareniclina é um agonista parcial do subtipo alfa4beta2 do receptor nicotínico da acetilcolina (nAChR). A estimulação dos receptores nicotínicos centrais, localizados nos terminais pré-sinápticos do núcleo accumbens, causa a liberação do neurotransmissor dopamina, que pode estar associado à experiência de prazer. A vareniclina, sendo um agonista nicotínico, atenua a fissura e os sintomas que ocorrem com a abstinência da nicotina, mas não causa dependência. 2.3 ANTICOLINESTERÁSICOS Os fármacos anticolinesterásicos inibem a acetilcolinesterase, a enzima responsável pela degradação da ACh. Essa inibição pode ser reversível ou irreversível, dependendo de como o fármaco interage com o sítio ativo. Com a inibição dessa enzima, ocorre a elevação da ACh endógena na fenda sináptica, a qual é capaz de ativar os receptores colinérgicos adjacentes, ou seja, um anticolinesterásico apresenta o mesmo efeito biológico que um agonista colinérgico. TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 97 FONTE: A autora O desenvolvimento de anticolinesterásicos depende do sítio ativo da enzima, das interações da acetilcolina com o receptor e o mecanismo de hidrólise. Na acetilcolinesterase, há um sítio de ligação periférico que desempenha um papel crucial no reconhecimento da ACh como substrato. Uma das principais interações presentes é uma interação do tipo π-cátion fraca entre o anel heteroaromático de um resíduo de triptofano e o nitrogênio quaternário carregado da acetilcolina (PATRICK, 2013). Os agentes anticolinesterásicos podem ter ação periférica ou central, sendo que os de ação periférica podem ser divididos em três principais tipos: de ação curta (por exemplo, edrofônio), de duração média (por exemplo, neostigmina e fisostigmina) e irreversíveis (por exemplo, organofosforados, diflos e ecotiopato). O tempo de ação desses fármacos é resultante do tipo de interação química que fazem com o ponto ativo da enzima acetilcolinesterase. A fisostigmina tem aplicação clínica limitada devido a graves efeitos colaterais, sendo usada apenas no tratamento do glaucoma ou como antídoto para envenenamento por atropina. Análogos mais simples da fisostigmina foram planejados, como a neostigmina, um fármaco utilizado no tratamento da miastenia gravis e na reversão dos efeitos de bloqueadores neuromusculares. Estudos de relação estrutura-atividade da fisostigmina (Figura 17) demonstraram que: • o grupo carbamato é essencial para a atividade; • o anel benzênico é importante para a atividade; • o nitrogênio da pirrolidina é importante para a atividade e encontra-se ionizado no pH do sangue. FIGURA 17 – ESTRUTURAS DA FISOSTIGMINA E NEOSTIGMINA Os fármacos anticolinesterásicos de ação central são utilizados no tratamento da doença de Alzheimer e de outras doenças que causam disfunção cognitiva e demência, e incluem tacrina, donepezila, rivastigmina e galantamina (Figura 18). 98 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO Acredita-se que a tacrina entra no sítio ativo da enzima de maneira semelhante à acetilcolina; em outras palavras, ela é protonada e se liga inicialmente ao sítio de ligação periférico. Em seguida, é transferida para o local ativo. Estudos demonstraram que os principais resíduos de triptofano no sítio ativo e no sítio de ligação periférico podem formar interações de cátions π com cada um dos componentes da tacrina. A natureza tricíclica hidrofóbica das frações de tacrina também é importante, pois há apenas uma pequena perda de dessolvatação envolvida, quando a estrutura se liga. Interações π-cátions mais fortes seriam possíveis se um dos sistemas de anel de tacrina fosse substituído por uma amina mais simples, mas esta seria fortemente solvatada e exigiria uma maior perda de dessolvatação (PATRICK, 2013). FIGURA 18 – ANTICOLINESTERÁSICOS DE AÇÃO CENTRAL FONTE: A autora 3 ANTICOLINÉRGICOS De acordo com Abraham (2003b), os anticolinérgicos interferem nas funções fisiológicas que dependem da transmissão nervosa colinérgica. Esses fármacos não evitam que a acetilcolina seja liberada nas terminações nervosas, embora possam competir com esse neurotransmissor pelos receptores colinérgicos. As ações farmacológicas dos anticolinérgicos, discutidas a seguir, imitam os efeitos do corte do suprimento nervoso parassimpático para vários órgãos, portanto, são conhecidos também como parassimpatolíticos. TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 99 3.1 ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS Os antagonistas muscarínicos são aqueles competitivos, que impedem a ligação da acetilcolina no receptor. O efeito geral desses fármacos é referente à ausência de ACh. Os antagonistas muscarínicos podem variar quanto ao grau de seletividade para tecidos, como o coração e a bexiga. Os principais fármacos representantes dessa classe incluem atropina, escopolamina (hioscina), ipratrópio e a pirenzepina. Ao observarmos a estrutura da atropina e da hioscina apresentada na Figura 19, à primeira vista, eles não se parecem em nada com a acetilcolina. Entretanto, ao olhar mais de perto, podemos ver que o nitrogênio básico e um grupo éster estão presentes nesses compostos e, quando o esqueleto da acetilcolina é sobreposto ao esqueleto da atropina, a distância entre o éster e o nitrogênio é semelhante em ambas as moléculas. Como a atropina é uma molécula maior do que a acetilcolina,ela é capaz de se ligar a outras regiões dentro do sítio receptor que não são usados pela própria acetilcolina. Como resultado, interage de forma diferente com o receptor e não induz as mesmas mudanças conformacionais (encaixe induzido) que a acetilcolina, bloqueando o receptor e a atividade biológica (PATRICK, 2013). FIGURA 19 – ESTRUTURAS DA ATROPINA E HIOSCINA E ESQUELETO DA ACETILCOLINA SOBREPOSTO NO ESQUELETO DE ATROPINA FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 588) 100 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO Como a atropina e a hioscina são aminas terciárias, em vez de sais quaternários, capazes de atravessar a barreira hematoencefálica como base livre e produzir efeitos no SNC. Como exemplo, altas doses desses fármacos podem causar efeitos alucinógenos e, assim, foram usados por bruxas nos séculos passados para produzir esse efeito. A fim de reduzir os efeitos colaterais no SNC, análogos da atropina são utilizados clinicamente, como o ipratrópio (broncodilatador no tratamento da doença de obstrução pulmonar crônica). INTERESSA NTE Quanto ao REA da atropina, Patrick (2013) faz as seguintes considerações: • o anel aromático, o grupo éster e o nitrogênio básico (que é ionizado) são importantes para a atividade; • o sistema de anéis não é necessário para a atividade antagonista; • os grupos alquil, ligados ao nitrogênio, podem ser maiores do que o metil (diferindo dos agonistas); • grupos acil muito grandes são permitidos; • o grupo acil deve ser volumoso, devendo haver algum tipo de ramificação. 3.2 ANTAGONISTAS NICOTÍNICOS Os antagonistas nicotínicos que atuam como bloqueadores ganglionares, como o hexametônio e a tubocurarina, são clinicamente obsoletos. Patrick (2013) relata que esses fármacos não podem distinguir entre os gânglios do sistema nervoso simpático e os gânglios do sistema nervoso parassimpático, causando muitos efeitos adversos. Por outro lado, os antagonistas nicotínicos que atuam na JNM são úteis na prática clínica e são conhecidos como bloqueadores neuromusculares não despolarizantes, sendo muito utilizados durante procedimentos cirúrgicos. A tubocurarina é um alcaloide vegetal que foi muito utilizado por índios da América do Sul em suas flechas para causar paralisia dos soldados espanhóis. No entanto, esse fármaco é muito pouco usado atualmente devido a seus efeitos colaterais e, dessa forma, foram desenvolvidos compostos sintéticos com propriedades melhoradas. O decametônio é um análogo da tubocurarina, simples, flexível, com cadeia linear e capaz de assumir um grande número de conformações. Esse fármaco se liga fortemente aos receptores colinérgicos e, embora seja um agente clínico útil, apresenta diversas desvantagens. Por exemplo, quando se liga inicialmente aos receptores nicotínicos, ele atua como um agonista, em vez de um antagonista. Como ele não é hidrolisado rapidamente da mesma forma que a TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 101 acetilcolina, permanece ligado ao receptor, levando à despolarização persistente e subsequente dessensibilização. Neste último estágio, pode ser visto como um antagonista, pois não estimula mais os músculos de contração e bloqueia o acesso à acetilcolina. Além disso, ele também se liga fortemente ao receptor, fazendo com que os pacientes levem muito tempo para se recuperar dos seus efeitos (PATRICK, 2013). Pancurônio, vecurônio e rocurônio são fármacos que foram baseados na tubocurarina, porém apresentam um núcleo esteroide como espaçador entre os dois grupos de nitrogênio, como pode ser visto na Figura 20. Além disso, grupos acila também foram adicionados para apresentar um ou dois esqueletos de acetilcolina na molécula, a fim de melhorar a afinidade pelos sítios receptores. Esses compostos têm um início de ação mais rápido do que a tubocurarina e não afetam a pressão arterial. A principal vantagem desses análogos é que eles produzem menos efeitos colaterais e, portanto, são amplamente utilizados clinicamente. Esses fármacos agem como antagonistas puros, de modo que não apresentam efeito despolarizante sobre células musculares alvo. FIGURA 20 – BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES NÃO DESPOLARIZANTES FONTE: A autora 102 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 4 ADRENÉRGICOS Na fase final da neurotransmissão simpática, ocorre a liberação de norepinefrina (NE ou noradrenalina) em sítios pós-sinápticos com ativação dos adrenoceptores. Ademais, frente a diferentes estímulos, como o estresse, a medula suprarrenal libera a epinefrina (adrenalina), a qual é transportada até os tecidos-alvo. Os fármacos com ações semelhantes à NE e à epinefrina são denominados fármacos simpatomiméticos. Alguns desses fármacos são agonistas diretos e atuam diretamente nos adrenoceptores; outros são agonistas indiretos e dependem do aumento das ações de catecolaminas endógenas. Certos fármacos possuem ambas as ações, são agonistas diretos e indiretos. Os agonistas indiretos apresentam dois mecanismos de ação diferentes: deslocam as catecolaminas armazenadas da terminação nervosa adrenérgica e diminuem a depuração de NE, liberada por meio da inibição da recaptação de catecolaminas que já foram liberadas ou pela inibição do metabolismo enzimático da NE. A tiramina atua pelo primeiro mecanismo, enquanto a cocaína e os antidepressivos tricíclicos atuam pelo segundo (KATZUNG; TREVOR, 2017). Os fármacos simpatomiméticos diretos e indiretos causam muitos ou todos os efeitos típicos das catecolaminas endógenas, porém os efeitos farmacológicos dos diretos dependem da sua afinidade com os subtipos dos adrenoceptores, bem como da expressão desses receptores nos seus tecidos-alvo. A adrenalina é um agonista adrenérgico frequentemente usado em emergências, como parada cardíaca ou reações anafiláticas. Além disso, a adrenalina também é administrada com anestésicos locais a fim de contrair os vasos sanguíneos e prolongar a atividade anestésica no local da injeção. A ação rápida da adrenalina é ideal para emergências, porém é rapidamente eliminada do sistema. Ademais, a adrenalina se liga a todos os receptores adrenérgicos possíveis, causando uma série de efeitos colaterais e, assim, em situações que necessitam de um tratamento a longo prazo, é preferível utilizar agonistas que são seletivos para determinados adrenoceptores. A partir de estudos de mutagênese e modelagem molecular, foi indicada a presença de um resíduo de ácido aspártico (Asp-113), um resíduo de fenilalanina (Phe-290) e dois resíduos de serina (Ser-207 e Ser-204) no sítio ativo do receptor adrenérgico. Esses grupos podem se ligar à adrenalina ou noradrenalina, conforme mostrado na Figura 21. Os resíduos de serina interagem com os compostos fenólicos da catecolamina pela via ligação de hidrogênio. O anel aromático da fenilalanina interage com o anel catecol por interações de van der Waals, enquanto o ácido aspártico interage com o nitrogênio protonado da catecolamina por ligação iônica. Há também uma possível ligação de hidrogênio entre Asn-293 e o álcool da catecolamina. TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 103 Com base nessas interações, é possível determinar a REA das catecolaminas, como a adrenalina: • A presença do grupo álcool é importante, mas não essencial para a atividade. • A amina ionizada é importante para a atividade. Aminas primárias e secundárias apresentam melhor atividade adrenérgica. • O sistema de anel catecol intacto com ambos os grupos fenólicos não substituídos é importante. O fenol em meta pode ser substituídopor outros grupos capazes de interagir com o sítio receptor por ligação de hidrogênio. FIGURA 21 – SÍTIO DE LIGAÇÃO NO RECEPTOR ADRENÉRGICO FONTE: Patrick (2013, p. 615) A partir de um estudo de clonagem molecular, foram identificados os subtipos de adrenoceptores α, β e de dopamina. Os subtipos de receptores α são: α1 (α1A, α1B, α1D) e α2 (α2A, α2B, α2C). Já os receptores β apresentam três subtipos (β1, β2 e β3), enquanto os receptores do tipo dopamina apresentam cinco subtipos (D1-D5). ATENCAO 104 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 4.1 ALFA1 E 2 E BETA1 E 3-AGONISTAS Em geral, há uma aplicação limitada para agonistas desses subtipos de receptores β. Como exemplo de β1-agonista, tem-se a dobutamina, usada para tratar choque cardiogênico e insuficiência cardíaca aguda. O mirabegron é um β3- agonista utilizado para urgência urinária. De acordo com Patrick (2013), também há uma atividade potencial antiobesidade para fármacos que atuam no receptor β3. Agonistas que agem nos α-adrenoceptores são menos úteis, porque esses agentes contraem os vasos sanguíneos, aumentam a pressão arterial e podem causar problemas cardiovasculares. Como exemplos de α-agonistas, tem- se a midodrina (α1-agonista) e a clonidina (α2-agonista), que possuem como aplicações clínicas a hipotensão ortostática e a hipertensão, respectivamente. Na Figura 22, é possível observar a estrutura desses fármacos. FIGURA 22 – AGONISTAS DOS ADRENOCEPTORES FONTE: A autora 4.2 BETA2-AGONISTAS Atualmente, os agonistas adrenérgicos mais úteis na medicina são os β2- agonistas, mais comumente usados para o tratamento da asma, embora também sejam utilizados no relaxamento do músculo do útero, a fim de retardar um parto prematuro. TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 105 FONTE: A autora O salbutamol, cuja estrutura encontra-se na Figura 23, é o principal exemplo de um β2-agonista, sendo usado no tratamento da asma. Vários análogos de salbutamol foram sintetizados para testar se o grupo meta CH2OH pode ser modificado. Esses estudos demonstraram os seguintes requisitos para o substituinte meta: • tem que ser capaz de participar de ligações de hidrogênio (por exemplo, MeSO2NHCH2, HCONHCH2 e H2NCONHCH2); • substituintes com um efeito retirador de elétrons no anel apresentam pouca atividade (por exemplo, CO2H); • substituintes volumosos em meta são ruins para a atividade, porque evitam que o substituinte adote a conformação necessária para realizar ligações de hidrogênio; • o grupo CH2OH pode ser estendido para CH2CH2OH, mas não mais que isso. FIGURA 23 – ESTRUTURAS DO SALBUTAMOL E SALMEFAMOL No salmefamol, o t-butil do salbutamol foi substituído por um n-arilalquil. O salmefamol é 1,5 vez mais ativo que o salbutamol e tem uma duração mais longa de ação (seis horas). Esse fármaco é administrado por inalação, mas, em ataques graves, pode ser administrado por via intravenosa. O salbutamol, comercializado como um racemato, logo se tornou um líder de vendas em 26 países. Quanto a seus enantiômeros, sabe-se que o enantiômero R é 68 vezes mais ativo do que o enantiômero S, o qual ainda se acumula em maior extensão no corpo, produzindo efeitos colaterais. Com isso, foi desenvolvido o seu enantiômero R puro, denominado levalbuterol. IMPORTANT E 106 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 5 ANTIADRENÉRGICOS Os antiadrenérgicos ou os antagonistas dos receptores adrenérgicos inibem a interação da NE, da epinefrina e de outros simpatomiméticos com os receptores α e β. Esses fármacos apresentam efeitos clínicos importantes no sistema cardiovascular, causando vasodilatação, redução da pressão arterial e diminuição da resistência periférica. 5.1 BETABLOQUEADORES Atualmente, os principais antagonistas adrenérgicos disponíveis comercialmente são os β-bloqueadores, originalmente desenvolvidos para atuar como antagonistas nos receptores β1 do coração. O primeiro objetivo no desenvolvimento desses agentes foi alcançar seletividade nos receptores β em relação aos receptores α. Dessa forma, a isoprenalina (Figura 24) foi o composto escolhido como o protótipo dessa série, por ser ativo em receptores β e inativo em receptores α, embora atuasse como agonista. Esse planejamento resultou na obtenção do pronetalol, que, embora ainda fosse um agonista parcial, foi o primeiro β-bloqueador a ser usado clinicamente para angina, arritmia e pressão alta (PATRICK, 2013). FIGURA 24 – ESTRUTURAS DA ISOPRENALINA, PRONETALOL E PROPRANOLOL FONTE: A autora Os antagonistas dos receptores β ou β-bloqueadores diminuem a frequência cardíaca e a contratilidade do miocárdio, sendo que muitos apresentam efeito anestésico local ou estabilizador de membrana, como propranolol, acebutolol e carvedilol. IMPORTANT E TÓPICO 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA NERVOSO PERIFÉRICO 107 Estudos foram realizados na estrutura do pronetalol, a fim de verificar o efeito do aumento do comprimento da cadeia entre o anel aromático e o grupo amina. Nesses experimentos, foi obtido o propranolol, um antagonista puro, com atividade de 10 a 20 vezes superior ao pronetalol. Esse fármaco foi introduzido na clínica para o tratamento da angina e, hoje, é referência entre os β-bloqueadores (PATRICK, 2013). O propranolol pertence ao grupo das ariloxipropanolaminas, e diversos compostos desse grupo foram sintetizados e testados, a fim de estabelecer a REA: • Substituintes n-alquil volumosos e ramificados (por exemplo, isopropil e t-butil) são bons para a atividade β-antagonista, sugerindo uma interação com uma bolsa hidrofóbica no local de ligação. Entretanto, a substituição por n-alquil mais longos do que isopropil e t-butil diminui a atividade. • Para a extensão, adicionar um grupo n-aretil (por exemplo, -CHMe2-CH2Ph ou CHMe-CH2Ph) é benéfico para a atividade. • A variação do sistema de anéis aromáticos é possível, podendo ser introduzidos anéis heteroaromáticos. • A substituição no grupo metileno da cadeia lateral aumenta a estabilidade metabólica, porém diminui a atividade. • O grupo álcool na cadeia lateral é essencial para a atividade. • Substituir o oxigênio do éter na cadeia lateral por S, CH2 ou NMe é prejudicial. A substituição por NH pode levar à seletividade. • A amina deve ser secundária. O propranolol é um antagonista β não seletivo, ou seja, atua como antagonista nos receptores β1 e β2. Normalmente, isso não é um problema, mas, para pacientes asmáticos, seu uso pode ser perigoso, pois pode iniciar um ataque asmático por antagonizar os receptores β2 no músculo liso brônquico, levando à contração desse músculo e ao fechamento das vias aéreas. Com isso, foram planejados compostos bloqueadores β1 seletivos, a segunda geração de β-bloqueadores, como acebutolol, atenolol, metoprolol e betaxolol (Figura 25). Para essa atividade seletiva nos receptores β1 cardíacos, percebeu-se que o grupo amida deve estar na posição para do anel aromático, o que indica que, nos receptores do tipo β1, há uma possível interação extra de ligação de hidrogênio com esses fármacos, o que não ocorre nos receptores β2. FIGURA 25 – BETABLOQUEADORES DE SEGUNDA GERAÇÃO 108 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO FONTE: Patrick (2013, p. 626) 5.2 ALFABLOQUEADORES Antagonistas α1-seletivos têm sido utilizados para tratar a hipertensão ou para controlar o débito urinário (Figura 26). Prazosina foi o primeiro antagonista α1-seletivo a ser usado para o tratamento da hipertensão, porém é de curta duração. Medicamentos de longa duração, como doxazosina e terazosina, são melhores, pois podem ser administrados umavez ao dia. Esses agentes aliviam a hipertensão, bloqueando as ações da noradrenalina ou adrenalina nos receptores α1 do músculo liso em vasos sanguíneos, levando ao relaxamento do músculo liso e à dilatação dos vasos sanguíneos e, consequentemente, à redução da pressão arterial. Esses medicamentos também têm sido usados para o tratamento de pacientes com próstata aumentada (hiperplasia benigna da próstata). FIGURA 26 – ANTAGONISTAS ALFA1-SELETIVOS FONTE: A autora Já os antagonistas α2 são considerados antidepressivos. A mirtazepina é um agente antidepressivo que bloqueia o receptor α2 e aumenta o nível de norepinefrina liberada. Além disso, o receptor α2 também controla a liberação de serotonina nos nervos serotoninérgicos terminais e, assim, a mirtazepina também aumenta os níveis de serotonina (PATRICK, 2013). 109 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Os fármacos colinérgicos são aqueles que produzem efeitos similares aos causados pela acetilcolina. Na acetilcolina, o átomo de nitrogênio carregado positivamente é essencial para a atividade colinérgica e a distância desse grupo ao grupo éster é importante para a atividade. • Os fármacos anticolinesterásicos inibem a acetilcolinesterase, a enzima responsável pela degradação da acetilcolina. A REA da fisostigmina, um agente anticolinesterásico de duração média, evidenciou que o grupo carbamato é essencial para a atividade e o anel benzênico é importante para a atividade. • Os fármacos anticolinérgicos competem com a acetilcolina pela ligação com os receptores colinérgicos. Na REA da atropina, um antagonista muscarínico, o anel aromático, o grupo éster e o nitrogênio básico são importantes para a atividade. • Os fármacos adrenérgicos ou simpatomiméticos são aqueles com ações semelhantes à norepinefrina e à epinefrina. A adrenalina é um agonista adrenérgico frequentemente usado em emergências. Na REA da adrenalina, o grupo álcool e a amina ionizada são importantes para a atividade. • Entre os fármacos adrenérgicos, os β2-agonistas, como o salbutamol, merecem destaque. O grupo meta CH2OH do salbutamol pode ser modificado, embora se deva atentar para vários requisitos, como ser capaz de participar de ligações de hidrogênio. • Os principais antagonistas adrenérgicos disponíveis comercialmente são os β-bloqueadores, como o propranolol. 110 1 Observando a estrutura do β-bloqueador na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE FONTE: A autora FONTE: A autora ( ) Apresenta atividade superior ao propranolol pela substituição do isopropil na cadeia lateral. ( ) O grupo álcool na cadeia lateral é essencial para a atividade. ( ) O oxigênio do éter poderia ser substituído por S sem prejudicar a sua atividade biológica. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 2 Com base na estrutura geral dos análogos do salbutamol exibida na figura a seguir, um β2-agonista, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O substituinte em R pode ser o grupo MeSO2NHCH2. ( ) Se R for CO2H, esse composto apresenta pouca atividade antiasmática. ( ) R pode ser um grupo volumoso como o CH2CH2CH2OH, sem prejudicar a atividade. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 111 FONTE: A autora FONTE: A autora FONTE: A autora 3 A adrenalina é um agonista adrenérgico frequentemente usado em emergências, como parada cardíaca ou reações anafiláticas. A respeito da adrenalina, cuja estrutura é apresentada na figura a seguir, e da REA das catecolaminas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A presença do grupo álcool na cadeia lateral é essencial para a atividade da adrenalina. b) ( ) Aminas terciárias apresentam melhor atividade adrenérgica. c) ( ) O fenol em meta pode ser substituído por um grupo que realiza ligação de hidrogênio. d) ( ) O anel catecol da adrenalina interage com o receptor por ligação iônica. 4 O propranolol é um antagonista β não seletivo, utilizado no tratamento da angina. Considerando as estruturas apresentadas na figura a seguir, o que se espera da atividade dos compostos 1 e 2 quando comparados ao propranolol? Justifique. 5 A atropina é um antagonista competitivo que impede a ligação da acetilcolina no receptor muscarínico. Explique como a atropina é reconhecida pelo mesmo receptor da acetilcolina, já que as estruturas das duas moléculas apresentam grandes diferenças. 112 113 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO As doenças cardiovasculares são responsáveis por milhares de mortes todos os anos. Essas doenças podem ser resultado de defeitos congênitos ou hábitos ou condições patológicas adquiridas no decorrer da vida. No tratamento da hipertensão arterial sistêmica, os principais fármacos utilizados são os anti-hipertensivos, enquanto na insuficiência cardíaca são usados os cardiotônicos e diuréticos. O diabetes melito é outra doença de alta prevalência na população mundial, sendo definido por altos níveis de glicose associados a uma secreção pancreática inadequada ou ausente de insulina. Pacientes com diabetes tipo 1 devem ser tratados com reposição de insulina, enquanto pacientes com diabetes tipo 2 geralmente fazem uso apenas de hipoglicemiantes orais. Neste tópico, serão apresentados os fármacos que atuam sobre o sistema vascular, bem como aqueles que agem sobre os sistemas renal e endócrino. Mais especificamente, abordaremos, entre os agentes cardiovasculares, os fármacos anti-hipertensivos, cardiotônicos e antitrombóticos. Os fármacos que atuam sobre o sistema renal, que serão aprofundados a seguir, são os diuréticos, enquanto os fármacos que afetam o sistema endócrino são os hipoglicemiantes orais. 2 ANTI-HIPERTENSIVOS Os fármacos anti-hipertensivos são substâncias utilizadas no tratamento da hipertensão, uma condição que é caracterizada pela pressão sistólica/diastólica maior ou igual a 140/90 mmHg. Uma das classificações dos agentes hipertensivos está relacionada com o mecanismo que eles atuam, sendo dividida nas seguintes categorias: agentes que bloqueiam a produção ou a ação da angiotensina, vasodilatadores diretos, agentes simpaticoplégicos e diuréticos (KATZUNG; TREVOR, 2017). Entre os agentes que bloqueiam a produção ou a ação da angiotensina, tem-se os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), também chamada de peptidil dipeptidase. O captopril e os demais fármacos dessa classe terapêutica inibem a ECA, que hidrolisa a angiotensina I e angiotensina II e inativa a bradicinina. Consequentemente, com o uso dos inibidores da ECA, ocorre o aumento dos níveis de bradicinina, o qual é um potente vasodilatador. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 114 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO A ECA é uma enzima que contém zinco, que cliva unidades dipeptídicas de substratos peptídicos. Os inibidores da ECA (Figura 27) são amplamente usados para prevenir, tratar ou melhorar os sintomas em condições como hipertensão, doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, diabetes, certas doenças renais crônicas, ataques cardíacos, esclerodermia e enxaquecas. FIGURA 27 – INIBIDORES DA ECA FONTE: A autora A REA dos inibidores da ECA, descrita por Lemke et al. (2008), pode ser descrita da seguinte forma: • O N-anel deve conter um ácido carboxílico para imitar o carboxilato C-terminal dos substratos da ECA. • Grandes anéis heterocíclicos hidrofóbicos (por exemplo, N-anel) aumentam a potência e alteram os parâmetros farmacocinéticos.• Os grupos de ligação de zinco podem ser compostos por uma sulfidrila, um ácido carboxílico ou um ácido fosfínico. • O grupo sulfidrila mostra uma ligação mais forte com o zinco (a cadeia lateral que mimetiza o fenil em compostos de ácido fosfínico e carboxilato compensa a falta de um grupo sulfidrila). • Compostos que contêm sulfidrila produzem alta incidência de erupção cutânea e distúrbios do paladar. • Os compostos que contêm sulfidrila podem formar dímeros e dissulfetos que podem encurtar a duração da ação. • Os compostos que se ligam ao zinco, através de um carboxilato ou fosfinato, imitam o estado de transição de hidrólise do peptídeo. • A esterificação do carboxilato ou fosfinato produz um pró-fármaco biodisponível oralmente. • X é geralmente um metil, a fim de imitar a cadeia lateral da alanina. Dentro da série de dicarboxilatos, quando X é igual a n-butilamina (cadeia lateral da lisina), isso produz um composto que não requer um pró-fármaco para atividade oral. • A atividade ideal ocorre quando a estereoquímica do inibidor é consistente com a estereoquímica do L-aminoácido presente em substratos normais. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 115 FONTE: A autora Os agentes bloqueadores dos receptores de angiotensina II tipo 1 (AT1) incluem a losartana e a valsartana, que são bloqueadores mais seletivos dos efeitos da angiotensina que os inibidores da ECA, pois não atuam sobre a bradicinina e geralmente são utilizados em pacientes que apresentaram efeitos adversos ao captopril e aos demais inibidores da ECA. FIGURA 28 – ESTRUTURA GERAL DOS BLOQUEADORES DOS RECEPTORES DE ANGIOTENSINA II A REA desses agentes, com estrutura geral ilustrada na Figura 28, é listada a seguir: • Acredita-se que o “grupo ácido” imite o fenol Tyr4 ou o carboxilato Asp1 da angiotensina II. Grupos capazes de tal função incluem um ácido carboxílico, um fenil tetrazole ou um fenil carboxilato. • Na série bifenila, os grupos tetrazol e carboxilato devem estar na posição orto para atividade ideal (o grupo tetrazol é superior em termos de estabilidade metabólica, lipofilicidade e biodisponibilidade oral). • O grupo n-butil possibilita uma ligação hidrofóbica e muito provavelmente imita a cadeia lateral de Ile5 da angiotensina II. Esse grupo n-butil pode ser substituído por um anel de benzimidazol. • O anel imidazol, ou um equivalente isostérico, é necessário para imitar a cadeia lateral His6 da angiotensina II. • A substituição com uma variedade de grupos R, incluindo um ácido carboxílico, um álcool metílico, um éter ou uma cadeia alquílica, é necessária para imitar o Phe8 da angiotensina II. Os bloqueadores dos canais de cálcio, que incluem verapamil, diltiazem, anlodipino, nifedipino, entre outros, são fármacos que reduzem a resistência periférica e a pressão arterial. O seu mecanismo de ação consiste na inibição do influxo de cálcio nas células musculares lisas arteriais (KATZUNG; TREVOR, 2017). As estruturas desses fármacos podem ser vistas na Tabela 2. 116 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO TABELA 2 – ESTRUTURAS DOS BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO Composto R1 R2 R3 X Anlodipino CH2O(CH2)2NH2 CO2CH2CH3 CO2CH3 2-Cl Felodipino CH3 CO2CH2CH3 CO2CH3 2,3-Cl2 Nicardipino CH3 CO2CH3 3-NO2 Nifedipino CH3 CO2CH3 CO2CH3 2-NO2 Nimodipino CH3 CO2CH2CH2OCH3 3-NO2 Nisoldipino CH3 CO2CH2CH(CH3)2 CO2CH3 2-NO2 FONTE: A autora A respeito da REA dos bloqueadores dos canais de cálcio: • Um anel fenil substituído na posição 4 otimiza a atividade (anéis heteroaromáticos, como a piridina, produzem efeitos terapêuticos semelhantes, mas não são usados devido à toxicidade animal observada). A substituição na posição 4 por um alquil pequeno e não planar ou cicloalquil diminui a atividade. • Grupos ésteres na posição 3 e 5 otimizam a atividade. Outros grupos retiradores de elétrons mostram atividade antagonista diminuída e podem até apresentar atividade agonista. • Quando os ésteres na posição 3 e 5 não são idênticos, o carbono C4 torna-se quiral e a estereosseletividade entre os enantiômeros é observada. Além disso, há evidências de que as posições 3 e 5 do anel de di-hidropiridina não são equivalentes. • A substituição em X é importante para o tamanho e posição do composto, e não pela natureza eletrônica. Os compostos com substituinte orto ou meta possuem atividade ótima, enquanto aqueles que não são substituídos ou apresentam um substituinte para mostram uma atividade com diminuição significativa. • O anel 1,4-dihidropiridina é essencial para a atividade. A substituição na posição N1 ou o uso de sistemas de anéis oxidados ou reduzidos (por exemplo, piperidina e piridina) diminui consideravelmente ou anula a atividade. • A amlodipina apresenta maior potência que a nifedipina, o que sugere que o receptor pode tolerar um grupo volumoso na posição 6. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 117 FONTE: A autora 3 CARDIOTÔNICOS Os cardiotônicos compreendem uma classe de substâncias que são ativas no tratamento de doenças cardiovasculares, sendo os fármacos de escolha para o tratamento da insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Os cardiotônicos aumentam a força contrátil do miocárdio (efeito inotrópico positivo), o que promove o aumento do volume de sangue ejetado e, consequentemente, a alteração do aporte de nutrientes e oxigênio dos tecidos e órgãos periféricos. Desde antes da era cristã, os povos antigos já empregavam plantas contendo glicosídeos cardiotônicos ou digitálicos. Registros de 1250 d.C. relatam o uso da digital por médicos galeses, sendo que, em 1544, essa planta foi denominada botanicamente de Digitalis purpurea. No entanto, a digitoxina foi isolada a partir dessa planta somente na década de 1870 (FRAGA; BARREIRO, 1996). A digoxina é obtida a partir da Digitalis lanata, popularmente conhecida como dedaleira branca. ATENCAO De acordo com Korolkovas e Burckhalter (1988), os glicosídeos digitálicos agem, em nível molecular, como inibidores da ATPase da membrana, inibindo o transporte de Na+ e K+ pela membrana celular do miocárdio. Para uma melhor análise da estrutura-atividade dos glicosídeos cardiotônicos, a sua estrutura química básica pode ser subdividida em duas regiões distintas: uma porção glicosídica e uma porção esteroide, também chamada de aglicona (Figura 29). FIGURA 29 – ESTRUTURA BÁSICA DOS GLICOSÍDEOS CARDIOTÔNICOS 118 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO De acordo com Fraga e Barreiro (1996), é importante ressaltarmos as seguintes observações sobre a REA dessa classe de compostos: • de modo geral, a introdução de insaturações ou grupos funcionais oxigenados na estrutura básica diminui a atividade inotrópica; • a introdução de uma β-OH no C14 é essencial para a atividade; • a junção dos anéis A/B e C/D em cis é essencial para a atividade; • qualquer modificação da γ-lactona α,β-insaturada (por exemplo, epimerização no C17) diminui acentuadamente a atividade. A porção glicosídica dos cardiotônicos geralmente corresponde a monossacarídeos ou polissacarídeos. O número e o tipo do açúcar variam de um glicosídeo para outro, porém os quatro açúcares mais frequentes nos glicosídeos cardiotônicos são: D-glicose, D-digitoxose, L-ramnose e D-cimarose. As estruturas da digitoxina e digoxina, dois importantes cardiotônicos empregados na terapêutica, são apresentadas na Figura 30. A digoxina difere da digitoxina por conter uma hidroxila na posição 12. Essa diferença estrutura confere à digoxina diferentes parâmetros farmacocinéticos, como menor absorção no trato gastrointestinal, menor tempo de meia-vida, menorligação às proteínas plasmáticas e menor toxicidade, quando comparada à digitoxina. IMPORTANT E FIGURA 30 – ESTRUTURAS DA DIGITOXINA E DIGOXINA FONTE: Adaptada Lemke et al. (2008, p. 701) TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 119 Além dos digitálicos, as bipiridinas também são utilizadas no tratamento da insuficiência cardíaca, embora suas utilidades sejam limitadas. Os principais representantes dessa classe são a inanrinona e a milrinona (Figura 31), fármacos disponíveis apenas na forma parenteral, que inibem a enzima 3 da fosfodiesterase (PDE-3), o que leva a um aumento da contratilidade e vasodilatação. FIGURA 31 – ESTRUTURAS DA INANRINONA E A MILRINONA FONTE: A autora 4 DIURÉTICOS Os diuréticos estão entre os agentes terapêuticos mais frequentemente prescritos para o tratamento de edema, hipertensão e insuficiência cardíaca congestiva, atuando principalmente na inibição da reabsorção de íons de sódio dos túbulos renais (ABRAHAM, 2003a). Essa classe diversa de agentes terapêuticos inclui polióis, açúcares, tiazidas, ácidos fenoxiacéticos, aminometilfenóis, xantinas, sulfonamidas aromáticas, pteridinas, pirazinas e esteroides. Os diuréticos utilizados atualmente podem ser classificados por sua classe química, mecanismo de ação, sítio de ação ou pelos efeitos no conteúdo da urina. Os diuréticos variam quanto a sua eficácia, frequentemente mensurada pela habilidade de aumentar a excreção de íons de sódio no glomérulo, e a sua potência, que é a quantidade necessária para produzir uma resposta diurética específica. IMPORTANT E 120 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 4.1 TIAZIDAS As tiazidas são importantes agentes diuréticos utilizados há mais de 40 anos. A clorotiazida foi o primeiro diurético oral obtido, com alta potência, poucos efeitos adversos e que pode ser usado sem perturbar o equilíbrio ácido- base normal. Esse fármaco e seus análogos também exercem uma leve redução da pressão arterial em pacientes hipertensos. De acordo com Lemke et al. (2008), o mecanismo de ação dos diuréticos tiazídicos está relacionado principalmente com a sua capacidade de inibir o transporte de Na+/Cl- no túbulo contorcido distal. Esses diuréticos são secretados ativamente no túbulo proximal e são transportados para a alça de Henle e para o túbulo distal. O principal sítio de ação desses compostos é no túbulo distal, onde esses fármacos competem pelo sítio de ligação do cloreto do simportador Na+/Cl- e inibem a reabsorção dos íons sódio e cloreto – por esse motivo, são chamados de saluréticos. Eles também inibem a reabsorção de íons potássio e bicarbonato, mas em menor grau. Os diuréticos tiazídicos são fracamente ácidos e apresentam, em sua estrutura geral, o núcleo benzotiadiazina-1,1-dióxido (Figura 32). Entre os diuréticos tiazídicos, a clorotiazida é o membro mais simples, tendo um pKa de 6,7 e 9,5. FIGURA 32 – ESTRUTURA GERAL DOS DIURÉTICOS TIAZÍDICOS FONTE: A autora Podemos resumir a REA da clorotiazida como: • Posição 2: o átomo de hidrogênio no 2-N é o mais ácido por causa do efeito de retirador de elétrons do grupo sulfona vizinho. O grupo sulfonamida, que é substituído em C-7, fornece um ponto adicional de acidez na molécula, mas é menos ácido do que o próton 2-N. Esses prótons ácidos possibilitam a formação de um sal de sódio solúvel em água, que pode ser usado para administração intravenosa de diuréticos. A substituição de alquil na posição 2-N diminui a polaridade e aumenta a duração da ação diurética. • Posição 3: a saturação da ligação dupla para fornecer um derivado 3,4-di-hidro produz um diurético que é 10 vezes mais ativo do que o derivado insaturado. A substituição por um grupo lipofílico na posição 3 aumenta significativamente a potência diurética. A substituição por haloalquil, aralquil ou tioéter aumenta a lipossolubilidade da molécula e produz compostos com ação mais longa. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 121 FONTE: A autora • Posição 6: um grupo retirador de elétrons é necessário na posição 6 para a atividade diurética. Compostos com hidrogênio na posição 6 apresentam pouca atividade diurética, enquanto compostos com cloro ou trifluorometil são altamente ativos. Os diuréticos substituídos por trifluorometil são mais solúveis em lipídios e têm uma duração de ação maior do que os substituídos com cloro. Quando grupos doadores de elétrons, como o metil ou metoxil, são colocados na posição 6, a atividade diurética é significativamente reduzida. • Posição 7: a substituição ou remoção do grupo sulfonamida produz compostos com pouca ou nenhuma atividade diurética. 4.2 DIURÉTICOS DE ALÇA Essa classe de fármacos é caracterizada mais por suas semelhanças farmacológicas do que por suas semelhanças químicas. Esses diuréticos produzem um pico de diurese muito maior do que o observado com os outros comumente usados. Acredita-se que seu principal local de ação seja no ramo ascendente espesso da alça de Henle, onde inibem o simporte luminal Na+/ K+/ 2Cl-, tendo possíveis efeitos adicionais nos túbulos proximal e distal. Os diuréticos de alça como a furosemida e a bumetanida são caracterizados por um início de ação rápido e de curta duração (LEMKE et al., 2008). A furosemida (Figura 33) é um derivado do ácido antranílico ou do ácido o-aminobenzoico. Como a molécula da furosemida possui um grupo carboxila livre, ela é um ácido mais forte do que os diuréticos tiazídicos (pKa = 3,9). Esse fármaco é excretado principalmente em sua forma inalterada. No entanto, uma pequena fração do fármaco pode sofrer metabolismo no anel furano, o qual é substituído no grupo amino aromático. As considerações na REA das tiazidas para as substituições de cloro e sulfonamida também são válidas para a furosemida. FIGURA 33 – ESTRUTURA DA FUROSEMIDA 4.3 DIURÉTICOS POUPADORES DE POTÁSSIO O córtex adrenal secreta um potente mineralocorticoide denominado aldosterona, que promove a retenção de sal e água e a excreção de íons de potássio e hidrogênio. Outros mineralocorticoides têm efeito no equilíbrio eletrolítico do corpo, mas a aldosterona é o mais potente. Sua capacidade de causar aumento 122 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO da reabsorção de íons sódio e cloreto e aumento da excreção de íons potássio é aproximadamente 3.000 vezes maior que a capacidade da hidrocortisona. Os diuréticos poupadores de potássio são substâncias que antagonizam os efeitos da aldosterona, sendo um exemplo a espironolactona (LEMKE et al., 2008). A espironolactona (Figura 34) é um antagonista competitivo que se liga ao receptor mineralocorticoide e inibe a ligação da aldosterona. Como a aldosterona não consegue se ligar ao seu receptor, não há a reabsorção dos íons sódio e cloreto e da água associada. O local mais importante desses receptores é no final do túbulo contorcido distal e no sistema coletor (ducto coletor). FIGURA 34 – ESTRUTURA DA ESPIRONOLACTONA FONTE: A autora 5 ANTITROMBÓTICOS Os fármacos atualmente comercializados como antitrombóticos incluem os agentes anticoagulantes, que interferem direta ou indiretamente na atividade da trombina e/ou seus precursores, além dos agentes antiplaquetários, que interferem na ativação e na agregação das plaquetas (ABRAHAM, 2003a). 5.1 ANTICOAGULANTES ORAIS Existem duas classes químicas diferentes de anticoagulantes orais ativos: os derivados cumarínicos e 1,3-indandionas. Entre os derivados cumarínicos, destaca-se a varfarina, um fármaco amplamente utilizado e que atua como antagonista da vitamina K. De acordo com Katzung e Trevor (2017, p. 590): os anticoagulantes cumarínicos bloqueiam a γ-carboxilaçãode vários resíduos de glutamato existentes na trombina e nos fatores VII, IX e X, bem como nas proteínas anticoagulantes endógenas C e S. O bloqueio resulta na formação de moléculas incompletas de fatores da coagulação, biologicamente inativas. A reação de carboxilação proteica está acoplada à oxidação da vitamina K. Em seguida, a vitamina K precisa ser reduzida para reativação. A varfarina impede o metabolismo redutor do epóxido da vitamina K inativo em sua forma de hidroquinona ativa. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 123 Todos os derivados cumarínicos são lactonas insolúveis em água (Figura 35). A REA desses compostos, geralmente, é baseada na substituição no anel lactona, especificamente nas posições 3 e 4. Embora a cumarina seja um composto neutro, seus derivados são ácidos fracos devido à presença de uma substituição 4-hidroxi. A atividade do próton no grupo 4-hidroxi permite a formação de sais sódio solúveis em água para preparações comerciais. Além disso, a varfarina também pode existir em solução como dois confôrmeros hemicetais cíclicos diastereoméricos. FIGURA 35 – ESTRUTURA DA CUMARINA E DERIVADOS CUMARÍNICOS FONTE: A autora Os substituintes na posição 3 afetam as propriedades farmacocinéticas e toxicológicas da varfarina e dos seus derivados. Dicumarol não é completamente absorvido no trato gastrointestinal e está associado com desconforto gastrointestinal, sendo raramente utilizado na clínica. De acordo com Lemke et al. (2008), a varfarina é a única cumarina usada nos Estados Unidos, porém a femprocumona e o acenocumarol são utilizados na Europa. 124 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO Os derivados da 1,3-indandiona (Figura 36), como a fenidiona e a anisindiona, são anticoagulantes orais, apresentam mecanismo de ação semelhante aos derivados da cumarina, porém são raramente utilizados na clínica, em razão de seus efeitos tóxicos renais e hepáticos. Além disso, pacientes que são alérgicos à varfarina também apresentam sensibilidade cruzada com anisindiona e outros derivados dessa classe. FIGURA 36 – DERIVADOS DA 1,3-INDANDIONA FONTE: A autora 5.2 ANTICOAGULANTES BASEADOS NA HEPARINA Os anticoagulantes da heparina são representados por uma variedade de estruturas, incluindo o sulfato de heparan natural que reveste o endotélio vascular, a heparina não fracionada, as heparinas de baixo peso molecular (HBPM) e o pentassacarídeo sintético fondaparinux. A heparina (não fracionada) foi o primeiro anticoagulante parenteral a mostrar eficácia no tratamento do tromboembolismo venoso e está em uso desde 1937 (LEMKE et al., 2008). A heparina atua em vários locais da cascata de coagulação e é composta por uma mistura heterogênea de mucopolissacarídeos de cadeia linear sulfatada e carregados negativamente, com peso molecular variando de 5 a 30 kd, isolados do pulmão bovino ou da mucosa intestinal suína. A heparina, também conhecida como ácido heparínico, é uma molécula ácida semelhante à condroitina e ao ácido hialurônico. As cadeias de polímero polissacarídeo são compostas por duas unidades alternadas de açúcar, N-acetil-d-glucosamina e ácido urônico (D-glucurônico ou L-idurônico), unidos por ligações α (LEMKE et al., 2008). As HBPMs e o fondaparinux (Figura 37) são anticoagulantes mais seletivos que a heparina não fracionada. Entre as HBPMs, são exemplos a enoxaparina e a dalteparina, fármacos aprovados para uso em combinação com o ácido acetilsalicílico para a profilaxia de complicações isquêmicas de angina instável e infarto do miocárdio sem onda Q. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 125 FIGURA 37 – ESTRUTURAS DA HEPARINA E HBPM (PARCIAL) E FONDAPARINUX FONTE: Adaptada de Abraham (2003a, p. 288) O fondaparinux é um protótipo de uma nova classe de anticoagulantes com vantagens significativas, em comparação com a sua heparina estruturalmente relacionada. Com base no sítio ativo das heparinas, o fondaparinux é um pentassacarídeo sintético altamente sulfonado. A vantagem imediata do fondaparinux é que, por ser um medicamento sintético, sua composição não muda, o que resulta em melhor farmacocinética e ação anticoagulante mais seletiva. Além disso, ao contrário da heparina ou HBPMs, o fondaparinux não tem efeito sobre a trombina, porque não possui as cadeias de sacarídeo mais longas, necessárias para a ligação à trombina, sendo, então, um inibidor indireto específico do fator Xa ativado (LEMKE et al., 2008). Outro local para regular a coagulação do sangue e a subsequente formação de trombos é no nível das plaquetas. Os fármacos antiplaquetários (por exemplo, aspirina, triflusal, dipiridamol, clopidogrel, eptifibatida, entre outros) inibem a ativação plaquetária, por meio de uma série de mecanismos diferentes. Para se familiarizar com o mecanismo de ação desses fármacos, sugerimos a leitura de um artigo científico, a fim de proporcionar melhor clareza quanto a esse tema: https://bit.ly/3iqa19i. Ótima leitura! DICAS 126 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 6 HIPOGLICEMIANTES ORAIS De acordo com a Ministério da Saúde (BVSMS, 2018): diabetes é uma doença crônica na qual o corpo não produz insulina ou não consegue empregar adequadamente a insulina que produz. A insulina, hormônio produzido pelo pâncreas, controla a quantidade de glicose no sangue. O corpo precisa desse hormônio para utilizar a glicose, que obtemos por meio dos alimentos, como fonte de energia. O diabetes melito (DM) consiste em um grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos que apresentam em comum a hiperglicemia, devido a defeitos secreção e/ou ação da insulina. Pode ser classificada em: DM tipo 1, DM tipo 2, DM gestacional e outros tipos específicos de DM (por exemplo, defeitos genéticos na função da célula beta). O DM2 representa a grande maioria dos casos e é resultante de graus variáveis de resistência à insulina e deficiência de secreção de insulina, sendo influenciada por sobrepeso, obesidade, idade, entre outros. Os hipoglicemiantes orais são úteis no tratamento de pacientes com DM2 que não é controlada somente com a dieta. Entretanto, para muitos pacientes que apresentam essa doença há vários anos, pode ser necessário combinar um hipoglicemiante oral com a insulina, a fim de controlar a hiperglicemia. Os fármacos hipoglicemiantes orais mais utilizados pertencem a duas classes químicas: sulfonilureias e compostos correlatos; e biguanidas. 6.1 SULFONILUREIAS A carbutamida foi o primeiro fármaco hipoglicemiante obtido da classe das sulfonilureias. Após a descoberta da carbutamida, muitas sulfonilureias foram desenvolvidas e, até a década de 1990, eram os únicos hipoglicemiantes orais disponíveis comercialmente. De acordo com Korolkovas e Burckhalter (1988, p. 682), as sulfonilureias “[...] estimulam a liberação de insulina das células β das ilhotas pancreáticas, reduzem a captação hepática da insulina secretada endogenamente e suprimem diretamente a liberação de glucagon”. Sulfonilureias são ácidos fracos (pKa = 5). Uma sulfonilureia típica é composta por um anel aromático monossubstituído, geralmente em para, e tem um substituinte alifático volumoso no nitrogênio não ligado ao grupo sulfonil. Grupos alquílicos pequenos, como metil e etil, não são ativos. Nos análogos da primeira geração, a substituição no anel aromático é relativamente simples, com átomos de Cl, Br, metil, amino, acetil, entre outros. Por outro lado, a segunda geração de sulfonilureias apresentam um grupo p-(β-arilcarboxiamidoetil), o que aumenta significativamente a potência desses fármacos (LEMKE et al., 2008).TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 127 A Tabela 3 demonstra as estruturas das principais sulfonilureias de primeira e segunda geração. TABELA 3 – SULFONILUREIAS FONTE: Adaptada de Lemke et al. (2008, p. 867) Fármaco R1 R2 Tolbutamida (1ª geração) CH3- -CH2CH2CH2CH3 Clorpropamida (1ª geração) Cl- -CH2CH2CH3 Tolazamida (1ª geração) CH3- Acetoexamida (1ª geração) Glibenclamida (2ª geração) Glibizida (2ª geração) Glimepirida (2ª geração) 6.2 BIGUANIDAS Na década de 1950, foi descoberto que a fenformina apresentava propriedades antidiabéticas, tendo sido utilizada nos Estados Unidos até 1977, quando foi retirada do mercado após causar a morte de muitos pacientes, relacionada com um alto risco de acidose láctica. A metformina (Figura 38) foi introduzida na terapêutica em 1995, permanecendo em uso desde então. 128 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO FIGURA 38 – ESTRUTURAS DA FENFORMINA E METFORMINA FONTE: A autora De acordo com Katzung e Trevor (2017), o mecanismo de ação das biguanidas não é totalmente elucidado, porém sabe-se que seu principal efeito consiste na redução da produção hepática de glicose pela ativação de uma enzima denominada proteinocinase ativada por AMP (AMPK). Além disso, a ação das biguanidas na redução da glicemia não é dependente da presença de células beta funcionais do pâncreas. Outros hipoglicemiantes orais podem ser classificados em tiazolidinedionas (por exemplo, pioglitazona e rosiglitazona) e inibidores da α-glicosidase (por exemplo, acarbose e miglitol). Os primeiros atuam na diminuição da resistência à insulina e os segundos na redução das excursões pós-prandiais da glicose, por meio do retardamento da digestão e da absorção do amido. Estudos de REA dessa classe de compostos indicaram que as substâncias ativas possuem, em comum, um anel cicloexano e um grupo 4,6-didesoxi-4-amino-D-glicose. Na Figura 39, é possível observar a estrutura dos inibidores da α-glicosidase. FIGURA 39 – INIBIDORES DA ALFA-GLICOSIDASE FONTE: Adaptada de Katzung; Trevor (2017, p. 759) TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 129 LEITURA COMPLEMENTAR AVALIAÇÃO DA ATIVIDADE DE ALDEÍDOS AROMÁTICOS E SUAS OXIMAS FRENTE À ENZIMA ACETILCOLINESTERASE ERITROCITÁRIA HUMANA Maíra Dias Mangueira Bastos Victória Laysna dos Anjos Santos Arlan de Assis Gonsalves Cleônia Roberta Melo Araújo Introdução A acetilcolinesterase (AChE) é a enzima responsável por hidrolisar a acetilcolina (ACh) na fenda sináptica, de forma a finalizar a transmissão neuronal, sendo esta chamada de sinapse colinérgica. Inibidores da acetilcolinesterase (IAChE), ou anticolinesterásicos, atuam inibindo a hidrólise da ACh pela AChE, aumentando, assim, a amplitude e a duração da ação desse neurotransmissor. De acordo com o modo de ação, os inibidores de AChE podem ser divididos em dois grupos: irreversíveis e reversíveis. Os inibidores reversíveis na sua maioria têm aplicações terapêuticas, enquanto os inibidores irreversíveis são caracterizados por apresentar efeitos tóxicos. Os inibidores reversíveis apresentam grande importância terapêutica no tratamento da miastenia gravis, da doença de Alzheimer, na retenção urinária, bem como para reverter o bloqueio neuromuscular promovido por miorrelaxantes adespolarizantes. A neostigmina, o edrofônio, a rivastigmina e a donepezila são exemplos de fármacos IAChE. Como IAChE irreversíveis, têm-se os pesticidas organofosforados, que, apesar da elevada toxicidade, ainda são largamente empregados; atualmente, correspondem entre 24,4% e 33% dos inseticidas consumidos no mundo, mas, em 1987, chegaram a representar 71%. Os sintomas típicos de intoxicações por organofosforados são: agitação, fraqueza muscular, fasciculações musculares, miose, hipersalivação, sudorese, insuficiência respiratória, perda de consciência, confusão, convulsões e até morte. Um dos tratamentos para esses casos envolve o uso de reativadores da AChE, como a pralidoxima, uma oxima capaz de reverter a inibição da AChE e, assim, restaurar a atividade enzimática. Considerando a alta gravidade das patologias que podem ser tratadas com o uso de IAChE, bem como a importância terapêutica da reativação dessa enzima em casos de intoxicações por organofosforados, faz-se de grande necessidade a avaliação da ação de substâncias frente à enzima para o desenvolvimento de novas moléculas bioativas. Os ensaios utilizados atualmente para verificar o 130 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO potencial de inibição ou regeneração da AChE in vitro, em geral, empregam a enzima obtida de diversas fontes, podendo ser isolada de uma espécie de peixe elétrico, Electrophorus electricus (Teleostei, Gymnotiformes), do sangue bovino e de eritrócitos humanos. As enzimas humanas geram resultados mais fiéis, visto que há diferenças entre a enzima encontrada nas diferentes espécies animais. Contudo, AChE de eritrócitos humanos e AChE recombinante têm elevados custos para aquisição. O emprego da AChE presente nos eritrócitos fantasmas livres de hemoglobina (Hemoglobin-free erythrocyte ghosts) é uma alternativa atraente, pois o ensaio é realizado na enzima humana a um baixo custo. Oliveira-Silva et al. (2000) empregaram o etil-paraoxon para inibir a AChE sanguínea em concentrações variadas (0,0625 ± 50 μg/mL de sangue). O diclorvós (2,2-diclorovinil dimetil fosfato) é um organofosforado, inibidor direto das colinesterases, com amplo uso no ambiente doméstico, no combate a endemias e pragas agrícolas. Contudo, não há estudos de regeneração da AChE humana inibida pelo diclorvós, e este é um atraente organofosforado para realização de testes in vitro, visto que é hidrossolúvel. A presença de anéis piridínico quaternário e de grupos oximas nas posições 2 e 4 é característica importante para as moléculas capazes de reativar a AChE inibida por organofosforados. Então, considerando essas características, a atividade dos aldeídos aromáticos benzaldeído, 4-hidroxibenzaldeído, 4-hidroxi- 3-metoxibenzaldeído, 4-dimetialminobenzaldeído e suas oximas foi avaliada frente à enzima AChE presente na proteína ghost humana não inibida e inibida por diclorvós. Resultados e Discussão Nos ensaios, foram testados tantos os aldeídos precursores, o benzaldeído, o 4-hidroxibenzaldeído, o 4-hidroxi-3- metoxibenzaldeído e o 4-dimetialminobenzaldeído, quanto às oximas sintéticas, todos na concentração de 100 mM em soluções 10% C2H6O/H2O. A 4-dimetilaminobenzaldoxima e todos os aldeídos investigados atuaram na enzima de forma a inibi-la, sendo a inibição de 36,67% para a 4-dimetilaminobenzaldoxima, e de 21,33%, 53%, 44% e 62,67%, respectivamente, para o benzaldeído, o 4-hidroxibenzaldeído, o 4-hidroxi-3- metoxibenzaldeído e o 4-dimetialminobenzaldeído (Tabela 2). Desse modo, foi possível observar que, entre os aldeídos aromáticos testados, os que se apresentam substituídos com grupos doadores de elétrons, o grupamento hidroxila e dimetilamina, na posição para mostram-se como inibidores mais potentes da AChE eritrocitária. Li et al. (2016) também observaram que, entre os inibidores testados em seu estudo, os que apresentaram melhor atividade inibitória frente a AChE foram os que o anel aromático presente em seus derivados sintéticos se apresentava substituído na posição para, ressaltando, assim, a importância de substituintes nessa posição para a atividade inibitória. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 131 TABELA 2 – Porcentagem de inibição (% ± Desvio padrão) da AChE eritrocitária na concentração de 100 mM. A benzaldoxima, a 4-hidroxibenzaldoximae a 4-hidroxi-3- metoxibenzaldoxima, na concentração investigada, foram capazes de regenerar 9,21%, 32,83% e 8,90% da atividade da AChE eritrocitária inibida por diclorvós, respectivamente (Tabela 3). Os estudos de relação estrutura-atividade de reativadores da AChE inibida por organofosforados demonstram que existem quatro fatores estruturais importantes que influenciam na reativação desta enzima, sendo eles: a presença de um nitrogênio quaternário, a estrutura da cadeia que liga dois anéis piridínicos, a presença do grupo oxima e sua posição no anel piridínico. O grupo oxima atua como reativador da AChE quando esta encontra-se inibida por organofosforados, através do ataque nucleofílico ao átomo de fósforo do resíduo de serina fosforilado da AChE, resultando na remoção do grupo 132 UNIDADE 2 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS NERVOSO, CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO fosforil e na consequente reativação da enzima inibida. Esse processo depende da nucleofilicidade e orientação do grupo oxima na molécula do reativador, assim como da força das interações intermoleculares formadas entre a enzima e o organofosforado, de modo que sua eficácia pode variar de acordo com o organofosforado utilizado. No presente estudo, foi possível observar a importância do grupo oxima para a reativação da AChE inibida por organofosforado, uma vez que a oximação dos aldeídos aromáticos permitiu que essas moléculas deixassem de ser inibidores e adquirissem a capacidade de regenerar a atividade enzimática da AChE eritrocitária inibida por diclorvós. TABELA 3 - Porcentagem de regeneração (% ± Desvio padrão) da AChE eritrocitária inibida por diclorvós na concentração de 100 mM. TÓPICO 3 — FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS SISTEMAS CARDIOVASCULAR, RENAL E ENDÓCRINO 133 A pralidoxima é o fármaco reativador da AChE inibida presente na versão atual da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), a edição de 2014. Este foi capaz de regenerar 100% da AChE eritrocitária inibida por diclorvós na concentração de 10 mM e atuando por 15 minutos na enzima inibida. Apesar da benzaldoxima, da 4-hidroxibenzaldoxima e da 4-hidroxi-3- metoxibenzaldoxima serem capazes de regenerar a enzima, essa atividade é baixa quando comparada com a pralidoxima. A principal diferença estrutural entre a pralidoxima e as oximas testadas é a presença do anel piridínico presente na pralidoxima; assim, este resultado corrobora com os estudos que mostram que o anel pirídinico é importante para as moléculas reativadoras da AChE inibida. A influência dos substituintes aromáticos das oximas testadas pode ser analisado através da comparação entre as atividades destas sobre a AChE. Ao comparar o potencial de reativação da benzaldoxima (9,21±1,66) e do 4-hidroxibenzaldoxima (32,83±1,73), é notado que a substituição do anel aromático na posição para pelo grupo hidroxila potencializou a ação da molécula. Contudo, ao introduzir além da hidroxila uma metoxila na posição meta esse efeito foi eliminado, como ocorreu com 4-hidroxi- 3-metoxibenzaldoxima (8,90±0,25) que apresentou atividade semelhante ao seu análogo simplificado, a benzaldoxima (9,21±1,66). Além disso, observou-se também que a oxima aromática, quando substituída na posição para pelo grupo dimetilamina, a 4-dimetilaminobenzaldoxima, não foi capaz de reativar a AChE eritrocitária inibida por diclorvós, apresentando atividade inibidora da enzima. Conclusões A semelhança estrutural apresentada entre os compostos testados e a pralidoxima se mostrou importante para a capacidade dos compostos atuarem na enzima AChE. Tanto que os aldeídos foram capazes de inibir a AChE eritrocitária humana de forma significativa, na concentração de 100 mM, sendo o maior potencial demonstrado pelo 4-dimetilamibenzaldeído, com 62,67% de inibição. A benzaldoxima, a 4-hidroxibenzaldoxima e a 4-hidroxi-3- metoxibenzaldoxima se comportaram como regeneradores fracos da enzima inibida por diclorvós, este resultado mostra a relevância do grupo oxima, bem como do anel piridínico para a regeneração da AChE inibida por organofosforados. FONTE: Adaptado de BASTOS, M. D. M. et al. Avaliação da atividade de aldeídos aromáticos e suas oximas frente à enzima acetilcolinesterase eritrocitária humana. Acta Brasiliensis, v. 1, n. 3, p. 22-27, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3xso426. Acesso em: 18 mai. 2021. 134 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Os fármacos anti-hipertensivos são substâncias utilizadas no tratamento da hipertensão e incluem os inibidores da enzima conversora de angiotensina, os bloqueadores dos receptores de angiotensina II e os bloqueadores dos canais de cálcio. • Os glicosídeos cardiotônicos, como a digitoxina e a digoxina, são utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva e apresentam, em sua estrutura, uma porção glicosídica (açúcares) e uma porção esteroide (denominada aglicona). A junção dos anéis A/B e C/D em cis e um substituinte β-OH na posição 14 são essenciais para a atividade. • Os diuréticos tiazídicos apresentam, em sua estrutura, o núcleo benzotiadiazina- 1,1-dióxido. Um grupo retirador de elétrons é necessário na posição 6 para a atividade diurética, como o cloro presente na estrutura da clorotiazida. Além disso, o grupo sulfonamida na posição 7 é importante para a atividade diurética. • Os anticoagulantes cumarínicos, como a varfarina, são lactonas insolúveis em água. Os substituintes na posição 3 afetam as propriedades farmacocinéticas e toxicológicas da varfarina e dos seus derivados. • As sulfonilureias são hipoglicemiantes orais que podem ser classificadas em primeira e segunda geração. Eles diferem principalmente em relação à potência, já que o substituinte p-(β-arilcarboxiamidoetil), presente nos fármacos de segunda geração, é responsável por um aumento significativo da potência desses fármacos. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 135 1 Os diuréticos são fármacos frequentemente prescritos para o tratamento de edema, hipertensão e insuficiência cardíaca congestiva. A respeito da relação estrutura-atividade do diurético, apresentada na figura a seguir, assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE FONTE: A autora FONTE: A autora a) ( ) A substituição do grupo sulfonamida na posição 7 produz compostos com pouca ou nenhuma atividade diurética. b) ( ) A substituição do cloro pelo grupo metil na posição 6 aumenta a atividade diurética significativamente. c) ( ) A substituição por um grupo alquil na posição 2 aumenta a polaridade e diminui o tempo de ação do fármaco. d) ( ) A ligação dupla entre o carbono da posição 3 e o nitrogênio da posição 4 é essencial para a atividade diurética. 2 Observando a estrutura dos agentes hipoglicemiantes orais na figura a seguir, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Ambos os compostos são amplamente utilizados no diabetes do tipo 1. b) ( ) O composto 1 é um hipoglicemiante oral da classe das biguanidas. c) ( ) O composto 2 é um inibidor da alfa-glicosidase. d) ( ) O composto 2 é mais potente que o composto 1. 3 Com base na estrutura da cumarina apresentada na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 136 FONTE: A autora FONTE: A autora ( ) Os derivados cumarínicos são lactonas solúveis em água. ( ) Uma hidroxila na posição 4 permite a formação de sais solúveis em água. ( ) A varfarina é um anticoagulante oral classificado como derivado cumarínico. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d)( ) F – V – V. 4 Observando a estrutura geral dos bloqueadores dos receptores de angiotensina II apresentada na figura a seguir, justifique as substituições (A, B e C) realizadas para obtenção do fármaco losartana. 5 Considerando a estrutura de dois compostos inibidores da ECA, apresentada na figura a seguir, responda: a) Por que o composto 1 é cerca de 100 vezes mais ativo que o composto 2? b) Quais os possíveis efeitos adversos relacionados com o composto 1? 137 REFERÊNCIAS ABIDA; TAUQUIR, A.; ASIF, M. Study of Some Hyndantion Derivatives as Anticonvulsant Agents. Progress in Chemical and Biochemical Research, v. 3, n. 2, p. 93-104, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3jq0jTt. Acesso em: 9 maio 2021. ABRAHAM, D. J. 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Rio de Janeiro: Elsevier; 2016. 138 139 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender o mecanismo de ação dos agentes quimioterápicos, anti- inflamatórios e hormônios esteroides; • reconhecer estruturalmente os agentes quimioterápicos, anti-inflamatórios e hormônios esteroides; • identificar as relações estruturais e atividades farmacológicas de fármacos quimioterápicos, anti-inflamatórios e hormônios esteroides; • identificar os principais grupos funcionais presentes nos fármacos das classes abordadas. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS TÓPICO 2 – OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS TÓPICO 3 – ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 140 141 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O termo “quimioterapia” tornou-se amplamente utilizado pela população quando relacionado ao uso de medicamentos para o tratamento de tumores que provocam efeitos adversos como náuseas, vômitos e queda de cabelo. No entanto, o termo “quimioterapia”, na química farmacêutica, assim como em outras disciplinas, é utilizado para descrever o uso de fármacos que apresentam certa seletividade para microrganismos invasores, ao mesmo tempo que produzem poucos efeitos no hospedeiro, o que também inclui os fármacos anticâncer citotóxicos. Embora, para Ehrlich, no começo do século XX, os quimioterápicos fossem relacionados a substâncias químicas sintéticas utilizadas para destruir patógenos infecciosos, nos últimos anos, os antibióticos que são produzidos por microrganismos (ou pelos químicos farmacêuticos) também foram incluídos nessa classificação. Dessa forma, neste tópico, focaremos na quimioterapia antimicrobiana, buscando sintetizar um assunto que é muito extenso, visto que os agentes antimicrobianos apresentam vários avanços dentro da medicina moderna, com diferentes classes, fármacos e, com isso, será possível apresentar importantes relações de estrutura-atividade posteriormente. Além disso, é preciso ter em mente que o principal problema relacionado ao uso terapêutico dos fármacos antimicrobianos continua sendo o desenvolvimento de organismos resistentes e, com isso, vários antimicrobianos foram desenvolvidos ao longo da história, a fim de burlar os mecanismos de resistência bacterianos. É importante relembrarmos que os antibióticos são compostos naturais ou sintéticos, capazes de inibir o crescimento ou causar a morte de fungos ou bactérias, podendo ser classificados como bactericidas ou bacteriostáticos. Os antibióticos bactericidas agem causando a morte da bactéria, enquanto os bacteriostáticos promovem a inibição do crescimento microbiano (GUIMARÃES; MOMESSO; PUPO, 2010). Os antimicrobianos em uso clínico podem ser classificados em: betalactâmicos, macrolídeos, aminoglicosídeos, quinolonas, fluorquinolonas e outros antibióticos. TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 142 2 BETALACTÂMICOS A história dos antibióticos betalactâmicos tem início com Alexander Fleming e sua observação, em 1928, de que uma cepa do fungo Penicillium produzia um agente antibacteriano, mais tarde, denominado penicilina. Os antibióticos betalactâmicos estão em uso clínico há mais de 70 anos. Esses fármacos permanecem sendo amplamente usados, e sua introdução para o uso clínico é uma das mais importantes, senão a mais importante, para o desenvolvimento médico do século XX (ABRAHAM, 2003c). O sucesso da penicilina G teve um efeito inesperado: um número crescente de isolados de Staphylococcus aureus resistentes à penicilina G em hospitais de Londres se espalhou progressivamente por todo o mundo. Descobriu-se que certas enzimas bacterianas, as betalactamases, tinham a capacidade de hidrolisar o anel betalactâmico desses antibióticos, diminuindo sua eficácia como agentes antibacterianos. Com base na rapidez da resistência generalizada às penicilinas, tornou-se óbvio que as enzimas hidrolíticas poderiam potencialmente destruir a utilidade dessa potente classe de antibióticos. Nas últimas décadas, a indústria farmacêutica investiu no desenvolvimento de novos betalactâmicos, na tentativa de se manter à frente da evolução contínua de novas betalactamases com propriedades hidrolíticas alteradas. Dessa forma, novos antibióticos betalactâmicos foram planejados seguindo duas abordagens: desenvolvimento de agentes estáveis à hidrólise pelas principais betalactamases e identificação de inibidores potentes para essas enzimas. O número de compostos betalactâmicos, mesmo quando limitado aqueles terapeuticamente importantes, é enorme. Esses compostos podem ser conhecidos por nomes triviais, como penicilinas, cefalosporinas, ácido clavulânico, entre outros (ABRAHAM, 2003c). Quanto ao mecanismo de ação dos antibióticos betalactâmicos, eles inibem a síntese do peptidoglicano, que é o principal polímero da parede celular bacteriana, responsável por manter a forma da célula e protege contra as forças osmóticas. De acordo com Rang et al. (2016), depois de se fixarem às proteínas de ligação nas bactérias, esses antibióticos inibem, por acilação, as transpeptidases (D-alanil-D-alanina transpeptidase),que cruzam as cadeias peptídicas ligadas à estrutura do peptidoglicano e, por fim, formam um éster estável, tendo o anel lactâmico aberto ligado ao grupo hidroxil do sítio ativo da enzima chamada de PBP (proteína ligadora de penicilina), o que provoca a lise da bactéria. A capacidade dos betalactâmicos em inibir a D-alanil-D-alanina transpeptidase depende da semelhança conformacional entre a ligação amida do anel betalactâmico e a ligação peptídica da D-alanil-D-alanina (D-Ala-D-Ala), o substrato da transpeptidase. Suas estruturas podem ser observadas na Figura 1. TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 143 FIGURA 1 – COMPARAÇÃO DAS ESTRUTURAS DA PENICILINA E DA D-ALA-D-ALA FONTE: A autora De acordo com Guimarães, Momesso e Pupo (2010, p. 669): todos os antibióticos betalactâmicos têm um elemento estrutural farmacofórico em comum, o anel azetidinona de quatro membros, ou anel betalactâmico. Na maioria dos antibióticos, o anel central betalactâmico é fundido a outro anel de cinco (tiazolidínico) ou seis (di- hidrotiazínico) membros, formando as penicilinas ou cefalosporinas, respectivamente. O sistema bicíclico altamente tensionado desses antibióticos contribui para o aumento da instabilidade química do anel betalactâmico, o qual é altamente suscetível ao ataque de nucleófilos que promovem a hidrólise desse grupo. Essa alta reatividade do sistema bicíclico é importante para a atividade biológica desses fármacos. Na cadeia lateral dos betalactâmicos, são encontradas as diferenças estruturais que conferem o espectro de ação e as propriedades farmacológicas. Dessa forma, essa classe de fármacos pode ser subdividida em: penicilinas, cefalosporinas e outros antibióticos betalactâmicos (carbapenens e monobactans). 2.1 PENICILINAS Até os dias atuais, a penicilina permanece como uma excelente classe de antimicrobianos. Possui como protótipo a penicilina G (benzilpenicilina), que apresenta a particularidade de não poder ser administrada por via oral, devido à degradação. Em meio ácido, o anel betalactâmico sofre hidrólise, levando à formação de ácido peniciloico, o qual é desprovido de atividade. Esse fármaco também é rapidamente degradado em meio básico. A penicilina G também é susceptível à ação das betalactamases, as quais podem clivar o anel betalactâmico, pois possuem resíduos de serina que atuam como nucleófilos. Muitos análogos da penicilina foram sintetizados e estudados. Os resultados desses estudos levaram às seguintes conclusões quanto à relação estrutura-atividade (REA) desses compostos: • o anel betalactâmico tenso é essencial para a atividade; UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 144 • o ácido carboxílico livre é essencial. Geralmente, encontra-se ionizado e penicilinas são administradas como sódio ou sais de potássio. O íon carboxilato liga-se ao nitrogênio carregado de um resíduo de lisina na ligação local; • o sistema bicíclico é importante, pois confere mais tensão no anel betalactâmico – quanto maior a tensão, maior a atividade; • a cadeia lateral de acilamino é essencial; • o enxofre geralmente é usual, mas não essencial; • a estereoquímica do anel bicíclico em relação à cadeia lateral de acilamino é importante. Na Figura 2, é possível observar a REA das penicilinas de forma esquemática. FIGURA 2 – REA DAS PENICILINAS FONTE: A autora A fim de resolver o problema com a degradação ácida da penicilina G, foi desenvolvida a fenoximetilpenicilina (penicilina V), uma substância que apresenta maior estabilidade ácida, sendo estável o suficiente para sobreviver ao ácido no estômago e podendo ser administrada por via oral. Isso é possível devido à cadeia lateral da penicilina V conter um grupo retirador de elétrons, que pode atrair elétrons para longe da carbonila da amida. Outros análogos da penicilina com substituintes retiradores de elétrons também foram planejados e podem ser administrados oralmente, como a ampicilina. No entanto, a penicilina V ainda é sensível às betalactamases. Para resolver e impedir o acesso da enzima betalactamase, foram desenvolvidos compostos com um grupo volumoso na cadeia lateral. No entanto, se esse grupo fosse muito volumoso, também evitaria que a penicilina atacasse o sítio alvo. Com isso, muito trabalho foi realizado para encontrar um grupo volumoso ideal até o desenvolvimento da meticilina. Atualmente, a meticilina não é utilizada mais clinicamente, sendo outros agentes resistentes à betalactamase desenvolvidos desde então, como a nafcilina, que contém um anel naftaleno que promove o impedimento estérico, e a temocilina, que apresenta um grupo 6-metoxi (PATRICK, 2013). Essas estruturas podem ser visualizadas na Figura 3. TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 145 FIGURA 3 – PENICILINAS RESISTENTES À BETALACTAMASE FONTE: A autora Ampicilina e amoxicilina são compostos oralmente ativos, que têm estruturas muito semelhantes e são comumente usados como uma primeira linha de defesa contra infecções. Ambos os compostos são ácidos resistentes, por causa da presença do grupo amino retirador de elétrons. Em suas estruturas, não há grupos volumosos presentes e, portanto, esses agentes são sensíveis às enzimas betalactamase. Ambas as estruturas são mal absorvidas pela parede intestinal, já que, tanto o grupo amino quanto o grupo carboxílico, são ionizados. Esse problema pode ser resolvido usando a estratégia de latenciação (PATRICK, 2013). Com isso, foi planejada uma série de pró-fármacos de ampicilina, como a pivampicilina, a talampicilina e a bacampicilina, cujas estruturas encontram-se na Figura 4. FIGURA 4 – ESTRUTURAS DA AMPICILINA E SEUS PRÓ-FÁRMACOS E AMOXICILINA FONTE: A autora UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 146 2.2 CEFALOSPORINAS O segundo grupo principal de antibióticos betalactâmicos a ser descoberto foram as cefalosporinas. A primeira cefalosporina (cefalosporina C) foi obtida na década de 1940 de um fungo das águas do esgoto na ilha de Sardenha. Um professor italiano observou que as águas ao redor da saída do esgoto se encontravam limpas de microrganismos. Ele raciocinou que um organismo deveria estar produzindo alguma substância antibacteriana, por isso, coletou amostras e conseguiu isolar um fungo denominado de Cephalosporium acremonium (formalmente chamado de Acremonium chrysogenum) (PATRICK, 2013). A estrutura da cefalosporina C (Figura 5) apresenta semelhanças à penicilina por ter um sistema bicíclico contendo um anel betalactâmico de quatro membros, porém este é fundido a um anel de seis membros, a di-hidrotiazina. A cefalosporina C é menos potente em comparação com as penicilinas (1/1.000 a atividade da penicilina G), porém sua atividade antibacteriana é mais uniforme, ou seja, pode ser usada contra bactérias Gram-negativas e Gram-positivas. Outra vantagem da cefalosporina C é sua maior resistência à hidrólise ácida e à ação das enzimas betalactamases. Com isso, a cefalosporina C foi vista como um importante composto para o desenvolvimento de outros antibióticos de amplo espectro e com potência aumentada (PATRICK, 2013). FIGURA 5 – ESTRUTURA DA CEFALOSPORINA C FONTE: A autora Quanto à REA das cefalosporinas, são importantes para a atividade: o anel betalactâmico dentro do sistema bicíclico, um grupo carboxilato ionizado na posição 4 e a cadeia lateral de acilamino na posição 7. Todas essas considerações estão de acordo com a REA das penicilinas. Há um número limitado de posições em que as modificações estruturais podem ser realizadas, mas há mais possibilidades do que com penicilinas, como variações da cadeia lateral 7-acilamino e da cadeia lateral 3-acetoximetil, e substituição extra no carbono 7 (PATRICK, 2013). As cefalosporinas de primeira geração incluem a cefalotina, a cefalexina e a cefazolina (Figura 6). Em geral, têm uma atividade menor do que as penicilinas comparáveis,mas uma gama melhor. A maioria são má absorvidas pela parede TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 147 intestinal e administradas por via parenteral. Tal como acontece com as penicilinas, a resistência a microrganismos é um problema, particularmente contra Gram- negativos, uma vez que estes contêm betalactamases mais eficazes do que as de Gram-positivos. FIGURA 6 – CEFALOSPORINAS DE PRIMEIRA GERAÇÃO FONTE: A autora FIGURA 7 – ESTRUTURA DA CEFUROXIMA FONTE: A autora Entre as cefalosporinas de segunda geração, destacam-se as oximinocefalosporinas, que foram um grande avanço na pesquisa de cefalosporinas. Esses compostos contêm um grupo iminometoxi na posição α da cadeia lateral de acila, o que aumenta significativamente a estabilidade das cefalosporinas contra as betalactamases produzidas por alguns organismos (p.ex. Haemophilus influenzae). O primeiro agente útil nessa classe de compostos foi a cefuroxima (Figura 7), a qual tem um aumento da resistência a betalactamases e esterases de mamíferos. Além disso, a cefuroxima retém a atividade contra estreptococos e, em menor extensão, estafilococos (PATRICK, 2013). UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 148 A substituição do anel furano das oximinocefalosporinas por um anel aminotiazol aumenta a penetração de cefalosporinas através da membrana externa de bactérias Gram-negativas e também pode aumentar a afinidade pela enzima transpeptidase. Como resultado, a terceira geração das cefalosporinas (Figura 8) contendo esse anel apresenta um aumento acentuado na atividade contra essas bactérias, como a cefotaxima, ceftizoxima e ceftriaxona, sendo que os diferentes substituintes na posição 3 variam as propriedades farmacocinéticas desses compostos. FIGURA 8 – CEFALOSPORINAS DE TERCEIRA E QUARTA GERAÇÃO FONTE: A autora As cefalosporinas de terceira geração desempenham um papel importante na terapia antimicrobiana, por conta da sua atividade contra bactérias Gram-negativas, muitas sendo resistentes a outros betalactâmicos. Como essas infecções são incomuns fora dos hospitais, os médicos são desencorajados a prescrever esses medicamentos rotineiramente, sendo considerados “tropas de reserva” a serem usados para infecções problemáticas e que não respondam aos demais betalactâmicos comumente prescritos. ATENCAO TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 149 Como a eritromicina e o cloranfenicol ligam-se à mesma região do ribossomo, esses fármacos não devem ser administrados juntos, pois irão competir um com o outro, diminuindo a atividade de ambos. ATENCAO Cefepima e cefpiroma são oximinocefalosporinas classificadas como cefalosporinas de quarta geração. Esses compostos apresentam um substituinte carregado positivamente na posição 3 e um grupo carboxilato carregado negativamente na posição 4. Essa propriedade parece aumentar radicalmente a capacidade desses compostos em penetrar na membrana externa das bactérias Gram-negativo. Eles também têm uma boa afinidade pela enzima transpeptidase e uma baixa afinidade para uma variedade de betalactamases. Embora as penicilinas e as cefalosporinas sejam os betalactâmicos mais conhecidos e pesquisados, existem outros compostos betalactâmicos classificados como carbapenens e monobactans. No Brasil, imipenem, meropenem e ertapenem são os carbapenens disponíveis atualmente na prática clínica, apresentam amplo espectro de ação para uso em infecções sistêmicas e são estáveis à maioria das betalactamases. Os monobactans foram descobertos em 1981 e apresentam em sua estrutura um anel monocíclico; têm ação bactericida e atuam como as penicilinas e as cefalosporinas, interferindo com a síntese da parede bacteriana. No Brasil, o aztreonam é o único representante disponível comercialmente. ATENCAO 3 MACROLÍDEOS O exemplo mais conhecido desta classe de compostos é a eritromicina, um metabólito isolado, em 1952, do microrganismo Streptomyces erythreus, encontrado nas Filipinas, sendo um dos antibióticos mais seguros em uso clínico para o tratamento de diversas condições, como pneumonia, sinusite aguda, otites médias, faringites, tonsilites e exacerbação bacteriana aguda de bronquite crônica (PATRICK, 2013). Os macrolídeos são agentes bacteriostáticos. Seu mecanismo de ação se dá pela interferência da elongação da cadeia peptídica durante a translação, por meio da ligação com o RNA ribossomal 23S da subunidade 50S, o que resulta no bloqueio da biossíntese de proteínas bacterianas (GUIMARÃES; MOMESSO; PUPO, 2010). UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 150 Os macrolídeos naturais consistem em uma lactona macrocíclica de 14 ou 16 membros ligada a um açúcar e um amino-açúcar. Os resíduos de açúcar são importantes para a atividade. Os macrolídeos de 14 membros são, em geral, mais potentes. Macrolídeos semissintéticos podem apresentar anel macrocíclico de 15 membros (por exemplo, azitromicina). Atualmente, os macrolídeos com 14 e 15 membros são, de longe, os mais úteis em termos de uso como terapêutica humana. A eritromicina é instável aos ácidos do estômago, mas pode ser administrada por via oral. Sua formulação envolve um revestimento, projetado para proteger o comprimido durante sua passagem pelo estômago, mas que é solúvel quando atinge o intestino. A sensibilidade da eritromicina aos ácidos é decorrente da presença de uma cetona e dois grupos de álcool que, na presença de ácido, realizam uma ligação intramolecular com a formação de um acetal (Figura 9). Uma maneira de prevenir essa reação intramolecular é a proteção dos grupos hidroxila. Por exemplo, a claritromicina é um análogo metoxi da eritromicina mais estável aos sucos gástricos e que apresenta uma melhor absorção oral. Outro método para aumentar a estabilidade em ácido é aumentar o tamanho do macrocíclico para um anel de 16 membros (PATRICK, 2013). A respeito da REA dos macrolídeos, Abraham (2003c) acrescenta que a orientação dos açúcares, em relação ao anel macrocíclico da eritromicina, é considerada importante para a ligação ribossomal e, portanto, a atividade antibacteriana. Além disso, a redução da cetona na posição 9 da eritromicina resulta em um composto mais estável, porém com atividade antibacteriana menos potente. FIGURA 9 – FORMAÇÃO INTRAMOLECULAR DE ACETAL NA ERITROMICINA FONTE: A autora TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 151 FIGURA 10 – ESTRUTURAS DA AZITROMICINA E TELITROMICINA FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 456) A azitromicina (Figura 10) contém um anel macrocíclico de 15 membros com a incorporação de um grupo N-metil. É um dos fármacos mais vendidos no mundo. A telitromicina é um derivado semissintético da eritromicina que atingiu o mercado em 2001. O açúcar cladinose da eritromicina foi substituído por um grupo ceto e um anel carbamato, que foi fundido ao anel macrocíclico. Nesse composto, as duas hidroxilas que causam a formação do acetal na eritromicina foram mascaradas, uma com um grupo metoxi e o outra como parte do anel carbamato (PATRICK, 2013). 4 AMINOGLICOSÍDEOS Os aminoglicosídeos são fármacos que possuem um grupo amino básico e uma unidade de açúcar em sua estrutura. O principal representante dessa classe é a estreptomicina, a qual foi isolada do microrganismo Streptomyces griseus em 1944. Após a descoberta da penicilina, a estreptomicina foi a próxima grande descoberta, e uma variedade de outros aminoglicosídeos foram subsequentemente isolados de vários organismos, como a gentamicina C1a (PATRICK, 2013). Os aminoglicosídeos funcionam melhor em condições ligeiramente alcalinas. Em pH 7,4, apresentam uma carga positiva que é benéfica para a atividade, auxiliando na absorção através da membrana externa das bactérias Gram-negativas. Uma interação iônica ocorre com vários grupos carregados negativamente na superfície externa da membrana celular, que desloca íonsde magnésio e cálcio. Esses íons normalmente atuam como pontes entre os lipopolissacarídeos e o seu deslocamento resulta em um rearranjo de componentes da membrana celular, para produzir poros pelos quais um aminoglicosídeo possa atravessar. O fármaco, então, atravessa a membrana celular, por um processo dependente de energia, e fica preso dentro da célula, acumulando-se a concentrações relativamente altas (PATRICK, 2013). Após o transporte através da parede celular, os aminoglicosídeos se ligam à subunidade 30S dos ribossomos, inibindo a síntese proteica, por impedir o movimento do ribossomo ao longo do mRNA, ou podem ainda produzir proteínas defeituosas. UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 152 Os aminoglicosídeos são bactericidas, e não bacteriostáticos, e sua atividade pode ser decorrente de seus efeitos, tanto nos ribossomos quanto na membrana celular externa das bactérias. Como os ribossomos das células humanas são diferentes dos que compõem a estrutura das células bacterianas, eles têm uma afinidade de ligação muito menor para os aminoglicosídeos, o que explica a seletividade desses fármacos. De acordo com Guimarães, Momesso e Pupo (2010), os aminoglicosídeos devem ser administrados por via parenteral, devido à polaridade, ou seja, apresentam baixa absorção quando administrados oralmente. Esses fármacos também são incapazes de atravessar a barreira hematoencefálica de modo eficiente e, portanto, não devem ser usados no tratamento de meningites, a menos que sejam injetados diretamente no SNC. Quanto ao uso clínico dos aminoglicosídeos, a estreptomicina é utilizada no tratamento da tuberculose e da tularemia; a neomicina, no tratamento de queimaduras, ferimentos, úlceras e dermatites; e a espectinomicina, no tratamento da gonorreia. NOTA Para aprender mais a respeito da aplicação terapêutica desses compostos e de outras particularidades, sugerimos a leitura de uma dissertação de mestrado: https:// bit.ly/3DxnLqv. Ótima leitura! DICAS Em relação à estrutura química dos aminoglicosídeos, muitos desses compostos possuem um anel aminociclitol, que pode conter três hidroxilas, sendo denominado 2-desoxi-estreptamina, ou quatro hidroxilas, correspondendo à estreptamina (Figura 11). A presença de numerosos grupos amina em todos os compostos, carregados positivamente em pH neutro, garante uma natureza geral catiônica e uma solubilidade substancial em água (ABRAHAM, 2003c). TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 153 FIGURA 11 – ESTRUTURAS DOS GRUPOS 2-DESOXI-ESTREPTAMINA E ESTREPTAMINA FONTE: A autora FIGURA 12 – ESTRUTURA DA NEOMICINA FONTE: A autora Os fármacos aminoglicosídeos são formados pela ligação do anel aminociclitol a um ou mais amino-açúcares através de ligação glicosídica. Na maioria dos aminoglicosídeos clinicamente importantes o grupo aminociclitol é a 2-desoxi-estreptamina substituída por amino-açúcares nas posições 4 e 5 ou 4 e 6. De acordo com Morais (2008, p. 3): a classificação mais usada refere-se ao anel I como sendo o aminoaçúcar que se liga na posição 4 de 2-desoxiestreptamina. O anel II é o grupo aminociclitol central 2-desoxiestreptamina, enquanto o anel III refere-se ao aminoaçúcar que está ligado à posição 5 ou 6 de 2-desoxiestreptamina. No caso da neomicina e paromomicina o anel III está ligado a um anel derivado furano, que se liga, por sua vez, à posição 5 de 2-desoxiestreptamina. Na Figura 12, é possível ver a estrutura da neomicina, com a indicação de cada um desses anéis e as posições de ligação na estrutura. UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 154 No entanto, existem aminoglicosídeos que não se enquadram nessa classificação como é o caso da estreptomicina que possui como aminociclitol a estreptidina (II’) e a espectinomicina, a qual apresenta em sua estrutura três anéis fundidos, onde o anel aminociclitol é a espectinamina (II”), como pode ser visto na Figura 13 (MORAIS, 2008). FIGURA 13 – ESTRUTURAS DA ESTREPTOMICINA E ESPECTINOMICINA FONTE: Morais (2008, p. 5) Quanto à REA dos aminoglicosídeos, Morais (2008) faz as seguintes considerações: • o anel I é fundamental para a atividade de amplo espectro dessas substâncias e também é o principal alvo para as enzimas inativantes bacterianas; • poucas modificações podem ser realizadas no anel II, já que é o principal grupo envolvido na ligação do aminoglicosídeo ao receptor; • modificações estruturais no anel III parecem influenciar menos na atividade quando comparado com as realizadas no anel I ou II; • as funções amino nas posições 2’ e 6’ são importantes para a atividade; • a metilação nas posições 2’ ou 6’ não diminui substancialmente a atividade antibacteriana e confere resistência à acetilação enzimática do grupo amino em 6’; • a remoção da hidroxila nas posições 3’ ou 4’ não altera a atividade. 5 QUINOLONAS E FLUOROQUINOLONAS Os agentes antibacterianos quinolonas e fluoroquinolonas são particularmente úteis no tratamento de infecções do trato urinário e infecções que se mostram resistentes aos agentes antibacterianos mais utilizados. O ácido nalidíxico (Figura 14), sintetizado em 1962, foi o primeiro agente terapeuticamente útil nessa classe de compostos (PATRICK, 2013). TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 155 FIGURA 14 – QUINOLONAS E FLUOROQUINOLONAS FONTE: A autora Na década de 1980, houve o desenvolvimento da enoxacina, uma fluoroquinolona que mostrou uma grande melhora no espectro de atividade. O desenvolvimento da enoxacina foi baseado na descoberta de que um único átomo de flúor na posição 6 era capaz de aumentar consideravelmente a atividade e a captação celular. Um substituinte básico, como um anel piperazinil na posição 7, também foi benéfico, do ponto de vista farmacocinético. Na ciprofloxacina, a introdução de um substituinte ciclopropil na posição 1 aumentou ainda mais a atividade e o espectro de ação, enquanto a substituição do nitrogênio na posição 8 por carbono reduziu as reações adversas e aumentou a atividade contra S. aureus. Hoje, ciprofloxacina é a fluoroquinolona mais ativa contra bactérias Gram- negativas (PATRICK, 2013). As quinolonas e as fluoroquinolonas inibem a replicação e a transcrição do DNA bacteriano ao estabilizarem o complexo formado entre o DNA e as topoisomerases. Em bactérias Gram-positivas, os complexos estabilizados estão entre o DNA e a topoisomerase IV, com os fármacos mostrando uma seletividade 1.000 vezes superior para a enzima bacteriana sobre a enzima correspondente em células humanas. Nas bactérias Gram-negativas, o principal alvo das fluoroquinolonas é o complexo entre o DNA e uma enzima topoisomerase II, chamada DNA girase. A DNA girase é uma enzima essencial à sobrevivência bacteriana, pois torna a molécula de DNA compacta e biologicamente ativa (PATRICK, 2013). Desde a síntese da ciprofloxacina, um grande número de fluoroquinolonas foi sintetizado. Todos os agentes com boa atividade apresentam um sistema de anel bicíclico semelhante, que inclui um anel de piridona e um ácido carboxílico na posição 3. As fluoroquinolonas de primeira e segunda geração geralmente mostram apenas uma atividade moderada contra S. aureus, seguida por rápida resistência ao medicamento. Além disso, realiza apenas uma atividade marginal contra anaeróbios e S. pneumoniae. As fluoroquinolonas de terceira e quarta geração (Figura 15), como ofloxacina, levofloxacina, moxifloxacina e besifloxacina, começaram a ser desenvolvidas no início da década de 1990, para lidar com UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 156 essas questões. A ofloxacina tem um centro assimétrico e é vendida como uma mistura racêmica de ambos os enantiômeros, um dos quais é ativo e outro não. Levofloxacina é o enantiômero ativo da oflaxacina e é duas vezes mais ativo que o racemato (PATRICK, 2013). FIGURA 15 – QUINOLONASE FLUOROQUINOLONAS FONTE: A autora A respeito da REA das quinolonas e das fluoroquinolonas, Abraham (2003c) faz as seguintes considerações: • as posições 3 e 4 são consideradas críticas para a atividade antibacteriana. As carbonilas em 3 e 4 devem ser mantidas; • a redução da ligação dupla entre os carbonos 2 e 3 elimina a atividade; • um átomo de flúor na posição 6 aumenta a lipofilicidade do fármaco, o que facilita a penetração nas células e aumenta a atividade; • piperazina na posição 7 amplia o espectro de ação, especialmente para organismos Gram-negativos, porém também aumentam a afinidade para o receptor GABA, contribuindo para efeitos colaterais do SNC. Essa afinidade de ligação ao receptor pode ser reduzida adicionando um grupo metil ou etil à piperazina ou colocando um substituinte volumoso no nitrogênio na posição 1; • a substituição de carbono por nitrogênio na posição 8 aumenta a biodisponibilidade; • a adição de um segundo flúor na posição 8 aumenta a absorção e a meia-vida. TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 157 6 OUTROS ANTIBIÓTICOS O cloranfenicol foi originalmente isolado de um microrganismo chamado Streptomyces venezuelae, encontrado em um campo perto de Caracas, Venezuela. Hoje, é preparado sinteticamente e tem dois centros assimétricos, sendo apenas o isômero R,R ativo (PATRICK, 2013). O cloranfenicol liga-se à subunidade 50S dos ribossomos e inibe o movimento dos ribossomos ao longo do mRNA, provavelmente inibindo a reação da peptidil transferase, pela qual a cadeia do peptídeo é estendida. O cloranfenicol tem um amplo espectro de atividade contra bactérias aeróbias e anaeróbicas Gram-positivas e Gram-negativas, embora agora seja raramente usado por causa da toxicidade. O principal efeito adverso do cloranfenicol é o risco de anemia aplástica irreversível fatal, que ocorre após a terapia e não parece estar relacionada à dose ou à via de administração. No entanto, o cloranfenicol e seus pró-fármacos ainda são indicados para o tratamento da febre tifoide aguda (Salmonella typhi) e como alternativa no tratamento da meningite bacteriana (ABRAHAM, 2003c). O cloranfenicol tem um sabor amargo, quando administrado por via oral na forma de solução. Para superar esse problema, foi desenvolvido o pró-fármaco palmitato de cloranfenicol, em que o cloranfenicol é conjugado com ácido palmítico por esterificação, para torná-lo insolúvel em água e insípido. A porção ativa do fármaco é liberada quando o pró-fármaco é hidrolisado no duodeno pela enzima lipase pancreática. INTERESSA NTE Quanto à REA do cloranfenicol, os grupos nitro e álcool estão envolvidos nas interações com o receptor. O grupo dicloroacetamida (Figura 16) também é importante, mas pode ser substituído por outros grupos eletronegativos. Acredita- se que o substituinte nitro seja responsável pela toxicidade do cloranfenicol (PATRICK, 2013). UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 158 FIGURA 16 – ESTRUTURA DO CLORANFENICOL FONTE: A autora *centros assimétricos A rifampicina (Figura 17) é uma rifamicina semissintética, obtida a partir da rifamicina B – um antibiótico que foi isolado de Streptomyces mediterranei em 1957. Ela inibe bactérias Gram-positivas e atua ligando-se não covalentemente à RNA polimerase dependente de DNA, inibindo o início da síntese de RNA. As RNA polimerases dependentes de DNA em células eucarióticas não são afetadas porque o fármaco se liga a uma cadeia de peptídeo não presente na RNA polimerase de mamíferos. É, portanto, um fármaco altamente seletivo (PATRICK, 2013). O anel naftaleno planar e vários dos grupos hidroxila são essenciais para a atividade biológica, e a molécula apresenta características anfóteras (“zwitterion”), proporcionando boa solubilidade tanto em lipídios quanto em ácido aquoso. A rifaximina é outro análogo semissintético, aprovado em 2004, para o tratamento de diarreia e infecção por E. coli (PATRICK, 2013). FIGURA 17 – ESTRUTURAS DA RIFAMICINA B, RIFAMPICINA E RIFAXIMINA FONTE: Adaptado de Patrick (2013, p. 460) TÓPICO 1 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS: ANTIBIÓTICOS E ANTIMICROBIANOS 159 FIGURA 18 – TETRACICLINAS FONTE: A autora Os antibióticos de tetraciclina foram introduzidos, pela primeira vez, há mais de 70 anos como os primeiros antibióticos de amplo espectro, eficazes contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas aeróbias e anaeróbias. Geralmente, são administrados por via oral e continuam a ser amplamente usados, embora estejam sendo suplantados por outros agentes, como as quinolonas. No entanto, as tetraciclinas permanecem como medicamentos de primeira linha no tratamento de infecções causadas por patógenos da família Rickettsiaceae, Chlamydia pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia trachomatis, Borrelia burgdorferi (doença de Lyme), entre outros (ABRAHAM, 2003c). Quanto ao mecanismo de ação, as tetraciclinas adentram a célula por difusão, em um processo dependente do gasto de energia, ligam-se à subunidade 30S do ribossomo, de maneira reversível, e bloqueiam a ligação do RNA- transportador, impedindo a síntese proteica (LEMKE et al., 2008). Como o nome sugere, as tetraciclinas possuem quatro anéis, que formam, no mínimo, um anel tetraciclo de naftaceno. As posições no “fundo” da molécula (posições 1, 10 e 11) e as posições 2, 3 e 4 do anel A representam a região farmacofórica invariante da molécula, cujas modificações resultam em perda da atividade antibiótica. As posições restantes nas quais a substituição é permitida foram exploradas por químicos naturais e sintéticos no desenvolvimento de novas tetraciclinas, conforme ilustrado na Figura 18 (ABRAHAM, 2003c). 160 Neste tópico, você aprendeu que: • As penicilinas têm uma estrutura bicíclica, que consiste em um anel betalactâmico fundido a um anel tiazolidina. O anel betalactâmico tenso reage irreversivelmente com a enzima transpeptidase, responsável pela reticulação final da parede celular bacteriana. • A variação da estrutura da penicilina é limitada à cadeia lateral de acila. As penicilinas podem se tornar mais resistentes a condições ácidas, incorporando um grupo retirador elétrons na cadeia lateral de acila. Grupos volumosos podem ser adicionados às penicilinas para protegê-los das enzimas betalactamases. • As cefalosporinas contêm um anel betalactâmico tenso, fundido a um anel di-hidrotiazina. Em geral, as cefalosporinas de primeira geração oferecem vantagens sobre as penicilinas, por serem mais estáveis em condições ácidas e contra betalactamases, e por apresentarem uma boa relação de atividade contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. No entanto, têm baixa disponibilidade oral e, geralmente, apresentam menores atividades. • A variação da cadeia lateral de 7-acilamino altera a atividade antimicrobiana das cefalosporinas, enquanto a variação da cadeia lateral na posição 3 altera predominantemente o metabolismo e a farmacocinética do composto. • Carbapenens e monobactans são outros exemplos de estruturas betalactâmicas com atividade antibacteriana clinicamente útil. • Aminoglicosídeos, tetraciclinas, cloranfenicol e macrolídeos inibem a síntese de proteínas, ligando-se aos ribossomos bacterianos envolvidos no processo de tradução. • Quinolonas e fluoroquinolonas inibem as enzimas topoisomerase, resultando na inibição da replicação e da transcrição. • As rifamicinas inibem a enzima RNA polimerase e previnem a síntese de RNA, o que, por sua vez, impede a síntese de proteínas. A rifampicina é usada para tratar tuberculose e infecções por estafilococos. RESUMO DO TÓPICO 1 161 1 Em 1928, Alexander Fleming observou que uma cepa do fungo Penicillium produzia um agente antibacteriano, mais tarde, denominado penicilina. Observe a estrutura da penicilina a seguir e assinale a alternativa CORRETA: FONTE: A autora a) ( ) Essa penicilina é resistente às betalactamases, pois apresenta um grupo volumoso na cadeia lateral.b) ( ) Essa penicilina contém um grupo retirador de elétrons, que impede que ela sofra degradação ácida. c) ( ) O ácido carboxílico presente na estrutura não é essencial para a atividade antibacteriana, podendo ser substituído por um metil. d) ( ) A cadeia lateral acilamino poderia ser substituída por outro grupo sem prejudicar a atividade antibacteriana dessa penicilina. 2 Existem muitos compostos betalactâmicos, que podem ser conhecidos por nomes triviais, como penicilinas, cefalosporinas, ácido clavulânico, entre outros. Considerando as estruturas das cefalosporinas a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora ( ) A cefalotina é resistente à hidrólise ácida. ( ) A cefalexina é resistente à degradação por betalactamases. ( ) A cefotaxima apresenta maior atividade frente às bactérias Gram-negativas. AUTOATIVIDADE 162 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – F. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 3 Os agentes antibacterianos quinolonas e fluoroquinolonas são particularmente úteis no tratamento de infecções do trato urinário e infecções que se mostram resistentes aos agentes antibacterianos mais utilizados. Observe a estrutura da fluoroquinolona a seguir e classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora ( ) A carbonila na posição 4 é considerada crítica para a atividade antibacteriana, não devendo ser substituída. ( ) O átomo de flúor na posição 6 aumenta a atividade antibacteriana do fármaco. ( ) A ligação dupla entre os carbonos 2 e 3 pode ser reduzida sem impactar a atividade do fármaco. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 4 A penicilina G não pode ser administrada por via oral, devido ao anel betalactâmico sofrer hidrólise em meio ácido. A partir da estrutura do fármaco apresentada na figura a seguir, responda: essa penicilina pode ser administrada por via oral? Justifique sua resposta. FONTE: A autora 163 5 O cloranfenicol é um antibiótico raramente usado na clínica, devido a sua toxicidade, embora ainda seja indicado para o tratamento da febre tifoide aguda. Observe a estrutura apresentada na figura a seguir e responda: FONTE: A autora a) ( ) Qual é o principal efeito adverso desse fármaco? b) ( ) Qual é o grupo presente na estrutura química do cloranfenicol responsável por sua toxicidade? 164 165 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, abordaremos outros agentes quimioterápicos, além dos antimicrobianos, mais especificamente, os fármacos tuberculostáticos, antifúngicos, antiprotozoários e antivirais, com foco em seu mecanismo de ação e sua estrutura-atividade. Também trataremos dos fármacos quimioterápicos antineoplásicos ou citostáticos utilizados no tratamento de neoplasias como adjuvantes para cirurgia ou quando a cirurgia e/ou radioterapia não é possível ou foi ineficaz. Visto que doenças fúngicas, parasitárias e virais, tuberculose e câncer apresentam muitas causas ou mecanismos, existem muitos alvos possíveis para diferentes fármacos. Dessa forma, centenas de fármacos podem ser enquadrados nessas classes. Assim, veremos os principais representantes para cada classe, bem como as sugestões de materiais que aprofundem o seu aprendizado nesse tema. 2 TUBERCULOSTÁTICOS Algumas espécies de micobactérias são patogênicas para várias espécies animais e são responsáveis por duas importantes doenças crônicas humanas, a tuberculose e a hanseníase, além de outras infecções menos disseminadas, porém graves, tradicionalmente chamadas de micobacterioses atípicas. Mycobacterium leprae (identificada por Hansen, em 1881) e M. tuberculosis (identificada por Koch, em 1882) estavam entre as primeiras bactérias reconhecidas como agentes causadores, respectivamente, da hanseníase e da tuberculose. A dramática importância dessas duas doenças, ainda presentes, é bem conhecida; nos últimos 200 anos, a tuberculose foi responsável pela morte de 1,1 milhão de pessoas, enquanto a hanseníase tem sido uma das doenças mais devastadoras desde a Antiguidade e seu estigma persiste em praticamente todas as culturas de alguma forma (ABRAHAM, 2003c). Apesar da descoberta precoce dos agentes etiológicos dessas infecções, somente nas últimas cinco décadas foram descobertos fármacos altamente eficazes no tratamento das doenças micobacterianas. Durante muitos séculos, a tuberculose foi uma doença fatal, porém seu tratamento sofreu uma revolução TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 166 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES com a introdução da estreptomicina na década de 1940, seguida da isoniazida na década de 1950 e, nos anos 1960, da rifampicina e do etambutol. Atualmente, embora seja uma doença tratável, são comuns espécies com maior virulência ou pacientes com resistência a vários dos fármacos (RANG et al., 2016). Os tuberculostáticos de primeira linha utilizados no Brasil incluem a isoniazida, a rifampicina, o etambutol e a pirazinamida. A seguir, veremos suas características estruturais, com exceção da rifampicina, já apresentada no Tópico 1. 2.1 ISONIAZIDA A isoniazida ou isonicotinil hidrazida foi descrita, pela primeira vez, na literatura em 1912, preparada como um intermediário sintético. Quando testada, em 1952, provou ser um potente agente tuberculostático in vitro e in vivo. Várias hipóteses têm sido levantadas a respeito do mecanismo de ação da isoniazida, levando-se em consideração que a atividade desse fármaco é muito específica contra micobactérias em baixas concentrações. Investigações nessa direção indicaram que a ação da isoniazida está na via biossintética dos ácidos micólicos, constituintes importantes da parede celular específica das micobactérias (ABRAHAM, 2003c). A isoniazida (Figura 19) possui uma estrutura química simples, constituída por um anel piridina e um grupo hidrazida, ambos essenciais para a sua atividade biológica. Abraham (2003c) relata que, a fim de investigar a REA desse fármaco, foram preparados pelo menos 100 análogos, mas as mudanças estruturais causaram redução ou perda de atividade. Entre as formas modificadas que mantiveram uma atividade apreciável, tem-se os derivados N2-alquil. Em particular, o derivado de N2-isopropil (iproniazida) foi considerado ativo in vivo. Ensaios clínicos extensos comprovaram a eficácia terapêutica da iproniazida e revelaram seu efeito estimulante psicomotor, causado pela inibição da monoamina oxidase. No entanto, o uso de iproniazida no tratamento da tuberculose ou da depressão psicótica e neurótica foi interrompido devido à toxicidade hepática desse fármaco. Embora a acetil isoniazida seja inativa, suas hidrazonas constituem um grupo de congêneres da isoniazida que têm atividade da mesma ordem do composto original. Algumas hidrazonas foram introduzidas em uso terapêutico, como os derivados de 3,4-dimetoxibenzilideno (verazida) e 3-metoxi-4- hidroxibenzilideno (ftivazida); porém, seu uso é questionável e produtos desse tipo, atualmente, têm aplicação limitada ou nenhuma aplicação (ABRAHAM, 2003c). TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 167 FIGURA 19 – ISONIAZIDA E SEUS DERIVADOS FONTE: A autora 2.2 ETIONAMIDA E PIRAZINAMIDA Após a descoberta de que a nicotinamida apresentava atividade tuberculostática, vários compostos relacionados a ela foram examinados. Essa pista foi seguida em diversificadas direções e, entre as primeiras modificações, a tioisonicotinamida parecia ter a propriedade intrigante de uma eficácia in vivo superior à esperada da atividade in vitro. A hipótese de que algum produto metabólico desse fármaco fosse responsável pela atividade in vivo estimulou a síntese, bem como o teste de uma série de metabólitos potenciais de tioisonicotinamida e vários outros derivados. Entre estes, foi observada atividadeaumentada para os derivados 2-alquil. Já o 2-etil tioisonicotinamida (etionamida) e o análogo 2-n-propil (protionamida) foram selecionados para uso clínico (Figura 20). Dessas duas substâncias, a etionamida foi a mais amplamente estudada, embora a protionamida pareça possuir propriedades biológicas semelhantes. A etionamida apresenta um mecanismo de ação semelhante à isoniazida. FIGURA 20 – TIOISONICOTINAMIDA E SEUS METABÓLITOS ATIVOS 168 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES FONTE: A autora FIGURA 21 – ESTRUTURAS DA PIRAZINAMIDA E MORFAZINAMIDA FONTE: A autora Em estudos de modificações químicas da estrutura da nicotinamida, outros núcleos heterocíclicos foram investigados e a 2-carboxamidopirazina (pirazinamida) foi sintetizada e testada quanto à atividade tuberculostática. A atividade in vitro da pirazinamida contra M. tuberculosis foi considerada insignificante em pH neutro. A melhor atividade da pirazinamida é contra micobactérias intracelulares em monócitos, provavelmente por causa do baixo pH intracelular, que favorece a sua atividade. De acordo com Rang et al. (2016), embora seu mecanismo de ação não tenha sido totalmente elucidado, acredita-se que a pirazinamida provavelmente iniba a síntese de ácidos graxos. Os compostos com outras substituições no núcleo da pirazina ou outros heterociclos carboxamidos foram considerados inativos ou menos ativos do que a pirazinamida. O único análogo ativo desenvolvido com atividade superior à pirazinamida foi a morfazinamida (Figura 21). O interesse por essa substância cessou quando a atividade e a toxicidade foram consideradas paralelas às da pirazinamida, na qual a morfazinamida é convertida in vivo (ABRAHAM, 2003c). 2.3 ETAMBUTOL Durante uma triagem de compostos selecionados aleatoriamente, foi descoberta a atividade tuberculostática de N,N’-diisopropilenodiamina (Figura 22), composto ativo tanto in vitro quanto in vivo, com um índice terapêutico da mesma ordem da estreptomicina. A partir dessa descoberta, foram realizadas modificações químicas desse composto, a fim de obter um produto com maior índice terapêutico, o que levou às seguintes conclusões dos requisitos estruturais para atividade antimicobacteriana: TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 169 FIGURA 22 – ESTRUTURAS DA N,N’-DIISOPROPILENODIAMINA E DO ETAMBUTOL FONTE: A autora • dois centros básicos de amina são necessários para a atividade, com a distância entre eles de dois carbonos; • é necessária a presença de um grupo alquil ramificado simples e pequeno em cada nitrogênio. Uma correlação entre a quelação de metais dos compostos nessa estrutura e a atividade antimicobacteriana sugeriu o uso de produtos de síntese com uma substituição hidroxi dos grupos N-alquil como agentes quelantes mais eficazes e possivelmente agentes antimicobacterianos mais ativos. O mais ativo desses derivados foi o etambutol. O efeito do etambutol nas micobactérias é principalmente bacteriostático, sendo inibitório máximo em pH neutro. O tratamento com etambutol resulta na inibição da síntese de proteínas e DNA, tendo sido proposto que o etambutol interfere no papel de poliaminas e cátions divalentes no metabolismo do ácido ribonucleico (ABRAHAM, 2003c). 3 ANTIFÚNGICOS Dos cinco reinos biológicos, o Reino Fungi é indiscutivelmente o mais diverso e predominante. Os fungos são organismos eucarióticos, cujas funções celulares se assemelham às plantas e aos animais de maneira mais complexa. Assim, a questão da seletividade predomina na busca por antifúngicos seguros e eficazes para as mais variadas doenças. Como acontece com toda quimioterapia, há uma relação risco-benefício que deve ser levada em consideração. Entre as infecções fúngicas, há irritações menores, como o pé de atleta, e infecções sistêmicas que apresentam risco de vida, como as causadas por Aspergillus fumigatus. A seguir, trataremos da REA dos antifúngicos utilizados no tratamento de infecções sistêmicas. 170 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 3.1 POLIENOS: ANFOTERICINA B E NISTATINA A anfotericina B, produzida por Streptomyces nodosus, foi descoberta por Gold et al., em 1955. Foi o primeiro agente sistêmico disponível para tratar infecções fúngicas invasivas. As principais indicações de sua terapia atual incluem candidíase invasiva, criptococose, aspergilose e histoplasmose. É o tratamento de escolha para a terapia empírica em pacientes neutropênicos febris (ABRAHAM, 2003c). Os polienos atuam ligando-se ao ergosterol, um esterol presente na membrana fúngica que não é encontrado nas células animais. A interação com o ergosterol forma poros dentro da membrana da célula fúngica, resultando no vazamento de conteúdos celulares, como sódio, potássio e íons de hidrogênio. Os polienos exibem pouca ou nenhuma atividade contra as bactérias, uma vez que esses organismos carecem de esteróis ligados à membrana. Embora a anfotericina B se ligue aproximadamente 10 vezes mais fortemente aos componentes da membrana fúngica do que ao colesterol presente nas células animais, a interação com as células animais por esse composto pode resultar em efeitos adversos. Dessa forma, polienos, como a nistatina, que tem uma afinidade maior com colesterol, causam maior toxicidade às células animais (ABRAHAM, 2003c). De acordo com Abraham (2003c), aproximadamente 60 compostos antifúngicos polienos foram descritos na literatura. Esses compostos são anfotéricos, pouco solúveis em água e um tanto instáveis devido à extensa insaturação. Eles consistem em um grande núcleo macrocíclico (38 membros no caso da anfotericina B), no qual uma cadeia hidrofílica poli-hidroxilada (C1- C13 na anfotericina B) está ligada a um fragmento de polieno lipofílico (C20-C33 na anfotericina B) por duas ligações alquil polissubstituídas (C34-C37 e C14-C19 na anfotericina B, sendo que a última existe na forma hemiacetal de piranose). A diversidade entre os polienos surge principalmente do número e do arranjo configuracional dos grupos hidroxila e das ligações duplas no macrociclo. A cristalografia de raios X mostrou que a anfotericina B tem forma de bastonete, com os grupos hidroxila do macrolídeo formando uma face oposta à porção polieno, que é lipofílica. Na Figura 23, podemos observar as estruturas da anfotericina B e da nistatina. FIGURA 23 – ESTRUTURAS DA ANFOTERICINA B E DA NISTATINA TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 171 FONTE: A autora A nistatina é um fármaco administrado por via oral, utilizado no tratamento de infecções por Candida na pele, nas membranas mucosas e no trato gastrointestinal. ATENCAO 3.2 AZÓIS Os azóis são agentes antifúngicos sintéticos que apresentam um amplo espectro de atividade e incluem os agentes tópicos clotrimazol, econazol e miconazol, e o agente sistêmico cetoconazol, além de derivados dos triazóis, como itraconazol e fluconazol, também de uso sistêmico. Os fármacos azóis interferem na biossíntese do ergosterol, ao inibirem a enzima fúngica lanosina 14α-desmetilase, responsável pela conversão do lanosterol em ergosterol. O efeito final é a inibição da replicação. As enzimas fúngicas são tipicamente 100 a 1.000 vezes mais suscetíveis à inibição por azóis do que as células animais (RANG et al., 2016; ABRAHAM, 2003c). Das muitas séries de azóis relatadas na literatura, as seguintes características estruturais comuns do farmacóforo azol podem ser destacadas (Figura 24): • um grupo imidazol ou triazol que coordena com o grupo heme da enzima; • um anel aromático substituído com halogênio e separado da porção azol por dois átomos; • uma cadeia lateral, sendo a porção de maior diversidade em toda a classe. 172 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES FIGURA 24 – ANTIFÚNGICOS AZÓIS FONTE: A autora A diversidade estrutural e o comprimento variável das cadeias laterais exploradas por vários grupos sugerem que essaparte do grupo farmacofórico pode se estender além do local de ligação do substrato, talvez até o canal de acesso ao substrato. A incorporação de um grupo metil em β no anel aromático fornece uma potência adicional, mas apenas para um dos quatro estereoisômeros possíveis, porque o grupo metil ocupa a bolsa de ligação preenchida pelo grupo metil do lanosterol; também é provável que sua presença favoreça conformações nas quais a cadeia lateral seja antiperiplanar ao anel aromático. 3.3 ALILAMINAS O principal exemplo dessa classe é a terbinafina (Figura 25), que é um dos pilares do tratamento da dermatose, sendo particularmente útil nas infecções das unhas, quando administrada oralmente. As alilaminas exercem sua atividade pela inibição seletiva da esqualenoepoxidase, uma enzima envolvida na síntese do ergosterol, a partir do esqualeno na parede celular fúngica. O acúmulo intracelular de esqualeno resultante é tóxico para o microrganismo. A denominação “alilamina” foi originalmente aplicada a essa classe porque o elemento estrutural terciário (E)-alilamina foi percebido como essencial para a atividade antifúngica. Entretanto, em estudos mais recentes, foi demonstrado que essa porção pode ser adequadamente substituída por uma benzilamina ou por TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 173 FIGURA 25 – ESTRUTURA DA TERBINAFINA FONTE: A autora uma homopropargilamina. Assim, os requisitos estruturais para uma atividade potente incluem dois domínios lipofílicos ligados a uma porção polar central por espaçadores de comprimento apropriado. Para uma boa atividade, a porção polar é uma amina terciária, e um dos domínios lipofílicos consiste em um sistema de anel aromático bicíclico, como naftaleno ou benzo[b]tiofeno. 4 ANTIPROTOZOÁRIOS Agentes antiprotozoários são fármacos usados na profilaxia ou no tratamento de doenças parasitárias, causadas por protozoários, microrganismos unicelulares eucarióticos móveis. Essas doenças compartilham a característica comum de afetar predominantemente pessoas que vivem em regiões tropicais do mundo, sendo grande parte delas consideradas doenças negligenciadas. A maioria dos medicamentos usados para tratar as doenças parasitárias foi desenvolvida há mais de 70 anos, o que possibilitou o desenvolvimento de resistência à maioria dos fármacos. Como há uma grande variedade de espécies que infectam o homem ou animais de interesse do homem, abordaremos os fármacos tripanomicidas, antileishmanióticos e antimaláricos. Doenças negligenciadas são uma classe de doenças infecciosas que atinge preferencialmente países tropicais, principalmente países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Apesar de serem endêmicas em aproximadamente 149 países, não possuem incentivo em pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos pela indústria farmacêutica. NOTA 174 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 4.1 TRIPANOMICIDAS A doença de Chagas ou tripanossomíase americana é uma doença negligenciada, endêmica, principalmente na América Latina, causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi. No tratamento da doença de Chagas, são utilizados apenas dois medicamentos: os nitrocompostos nifurtimox e benzonidazol (Figura 26), que atuam na fase aguda da doença (ESPÍRITO SANTO et al., 2014). FIGURA 26 – ESTRUTURAS DO NIFURTIMOX E BENZONIDAZOL FONTE: A autora Nifurtimox é um derivado do nitrofurano, introduzido para tratar a tripanossomíase americana em 1976. Nos Estados Unidos, é o único medicamento aprovado para o tratamento da tripanossomíase americana, enquanto, no Brasil, ainda permanece sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado, por ser altamente tóxico. Além de sua ação contra o T. cruzi, o nifurtimox também apresenta atividade contra o T. brucei. O mecanismo de ação exato do nifurtimox permanece incerto. Segundo Abraham (2003c), sabe-se que o nifurtimox requer uma redução de elétron para formar o radical de íon nitro. Tanto o NADH quanto o NADPH podem servir como doadores de elétrons, mas a(s) enzima(s) que catalisa(m) essa reação não é(são) conhecida(s). Acredita-se que o radical de íon nitro reduza o oxigênio molecular para formar o ânion superóxido e regenerar o composto nitro parental, por meio do ciclo redox. A superprodução de ânion superóxido resulta em peroxidação lipídica e danos às membranas, proteínas e DNA. O envolvimento do oxigênio reativo no mecanismo de ação desse organismo é compatível com o ambiente aeróbio em que vive. O T. cruzi é descrito como relativamente suscetível a danos oxidativos. O nifurtimox inibe fracamente a tripanotiona redutase, uma enzima essencial para a proteção dos tripanossomos de danos do radical livre de oxigênio. O benzonidazol é um análogo do nitroimidazol introduzido em 1979. As taxas de cura com o tratamento com benzonidazol são quase idênticas às obtidas com o nifurtimox. Seus efeitos colaterais tóxicos, embora ainda graves, são ligeiramente menores do que com o nifurtimox. TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 175 O mecanismo de ação do benzonidazol é semelhante ao do nifurtimox. A ativação do benzonidazol, por transferência de um elétron dos componentes celulares, é necessária. Os radicais íon nitro resultantes causam danos celulares indeterminados, que levam (ou facilitam) à erradicação do tripanossomo. 4.2 ANTILEISHMANIÓTICOS As leishmanioses são doenças causadas por parasitas protozoários de > 20 espécies de Leishmania. São transmitidas aos humanos por meio das picadas de flebotomíneos fêmeas infectadas. As três principais formas dessa infecção são: visceral (forma grave da doença), cutânea (a forma mais comum) e mucocutânea (ESPÍRITO SANTO et al., 2014). Os principais fármacos utilizados na forma visceral são os compostos de antimônio pentavalente (por exemplo, estibogluconato de sódio) e a pentamidina, bem como a anfotericina, que, em certos casos, é usada como tratamento de seguimento. Estibogluconato de sódio e antimonato de megluminina têm sido os agentes de escolha no tratamento da leishmaniose nos últimos 70 anos, sendo o primeiro usado na maior parte do mundo, enquanto o antimonato de megluminina é usado predominantemente em países de língua francesa. Não há diferença perceptível nos resultados do tratamento com os dois medicamentos. Embora a pentamidina tenha atividade contra a leishmaniose, apresenta uma toxicidade geral maior que os compostos de antimônio pentavalente e, em partes da Índia, há casos de resistência a esse fármaco; portanto, é considerada terapia de apoio ao estibogluconato de sódio e à anfotericina B. Análogos da pentamidina, uma diamina aromática, foram sintetizados e proporcionaram a determinação da REA para esses compostos. A troca das amidinas para posições meta reduziu a atividade antileishmaniótica, sendo possível concluir que as amidinas em posição para são essenciais para a atividade. Além disso, os efeitos da substituição no anel aromático variam de acordo com o tipo de substituinte. Grupos nitro ou metoxi em orto diminuem a atividade, enquanto Cl e Br melhoram a atividade (BASTOS et al., 2016). A Figura 27 ilustra a REA da pentamidina de maneira esquemática. 176 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES FIGURA 27 – REA DA PENTAMIDINA FONTE: Bastos et al. (2016, p. 2.888) Para compreender mais a respeito dos antileishmanióticos e obter maior clareza quanto a esse tema, sugerimos a leitura do seguinte artigo científico: https://bit.ly/3mJJW5I. Ótima leitura. DICAS 4.3 ANTIMALÁRICOS A malária é causada pelo parasita Plasmodium, transmitido por mosquitos infectados. Existem cinco tipos diferentes de Plasmodium que infectam humanos: P. falciparum, P. vivax, P. ovale, P. malariae e P. knowlesi, sendo os mais comuns P. falciparum e P. vivax e P. falciparum o mais perigoso e que apresenta as maiores taxas de complicações e mortalidade. Artemisinina, isoladada Artemisia annua na década de 1970, é o principal composto usado no tratamento da malária, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de artemisina combinado a outros medicamentos. A partir da síntese de diversas estruturas análogas à artemisinina, com o objetivo de melhorar sua atividade biológica, estabilidade química e solubilidade, foi possível determinar sua REA. As principais modificações realizadas na estrutura da artemisinina ocorrem nas posições 3, 9 e 10, sendo as da posição 10 as mais importantes, pois resultam em melhorias na atividade antimalárica, na estabilidade e na solubilidade. A Figura 28 resume a REA da artemisinina e dos seus derivados. TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 177 FIGURA 28 – REA DA ARTEMISININA FONTE: Matsutani (2008, p. 40) A quinina, um quinolinometanol derivado da casca da cinchona, é utilizada no tratamento de febres desde o século XVI. Devido à resistência à cloroquina, a quinina é o principal agente quimioterápico para o P. falciparum em certas áreas do mundo. Em sua estrutura, a quinina apresenta uma cadeia lateral com quatro centros quirais, sendo que os das posições 8 e 9 responsáveis pelo aumento ou pela diminuição da atividade antimalárica, conforme sua configuração. A Figura 29 resume a REA dos quinolinometanóis (MATSUTANI, 2008). FIGURA 29 – REA DOS QUINOLINOMETANÓIS FONTE: Matsutani (2008, p. 19) 178 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 5 ANTIVIRAIS Os vírus são agentes infecciosos não celulares que assumem o controle de uma célula hospedeira para sobreviver e se multiplicar. Existem muitos vírus diferentes, capazes de infectar células bacterianas, vegetais ou animais, sendo mais de 400 tipos conhecidos que infectam humanos. Considerando a devastação potencial que os vírus podem causar na sociedade, a pesquisa de antivirais eficazes é uma grande prioridade na química farmacêutica medicinal (PATRICK, 2013). Os medicamentos antivirais são úteis no combate a doenças virais, e, locais onde não há uma vacina eficaz ou onde a infecção já aconteceu. O ciclo de vida de um vírus significa que, na maior parte do tempo no corpo, ele está dentro de uma célula hospedeira e é efetivamente disfarçado, tanto do sistema imunológico quanto dos fármacos circulantes. Como o vírus também usa os mecanismos bioquímicos da célula hospedeira para se multiplicar, o número de potenciais alvos de fármacos, que são exclusivos para o vírus, é mais limitado do que aqueles para microrganismos invasores. Os primeiros medicamentos antivirais foram a idoxuridina e a vidarabina, para infecções por herpes, e a amantadina, para influenza A. Hoje, a maioria dos medicamentos antivirais em uso age contra vírus da imunodeficiência humana (HIV), herpes-vírus, hepatite B e hepatite C. O aciclovir é um pró-fármaco que foi descoberto por triagem de compostos e introduzido no mercado em 1981. Apresenta uma estrutura semelhante ao nucleosídeo e contém a mesma base de ácido nucleico que a desoxiguanosina. No entanto, não contém o anel de açúcar completo. Em células infectadas com o herpes-vírus, é fosforilado em três estágios para formar um trifosfato, que é o agente ativo (Figura 30). FIGURA 30 – ESTRUTURA DO TRIFOSFATO DE ACICLOVIR FONTE: Patrick (2013, p. 472) TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 179 FIGURA 31 – PRÓ-FÁRMACOS DE ACICLOVIR FONTE: Patrick (2013, p. 473) O trifosfato de aciclovir impede a replicação do DNA de duas maneiras: é suficientemente semelhante ao trifosfato de desoxiguanosina, podendo se ligar à DNA polimerase e inibi-la; e a DNA polimerase pode catalisar a ligação do nucleotídeo aciclovir à crescente cadeia de DNA. Como a unidade de açúcar está incompleta e carece do grupo hidroxila necessário, normalmente presente na posição 3' do anel de açúcar, a cadeia de ácido nucleico não pode ser mais estendida e, assim, o fármaco atua como um terminador da cadeia. A biodisponibilidade oral do aciclovir é bastante baixa (15 a 30%). Para superar esse problema, vários pró-fármacos de aciclovir foram desenvolvidos para aumentar a solubilidade em água (Figura 31). Como exemplo, temos o valaciclovir, no qual foi inserido um aminoácido de valina, aumentando o log P desse composto e a biodisponibilidade. No desciclovir, a carbonila do anel purina foi retirada e, dessa forma, esse composto é mais solúvel em água. O ganciclovir é um análogo do aciclovir e carrega um grupo extra hidroximetileno, enquanto o valganciclovir atua como um pró-fármaco para esse composto. O penciclovir e seu pró-fármaco fanciclovir são análogos do ganciclovir. No fanciclovir, os dois grupos álcool do penciclovir são mascarados como ésteres, tornando a estrutura menos polar, resultando em melhor absorção. Uma vez absorvidos, os grupos acetil são hidrolisados por esterases e o anel purínico é oxidado pela aldeído-oxidase no fígado, para gerar o penciclovir. As reações de fosforilação ocorrem, então, em células infectadas por vírus, conforme descrito anteriormente (PATRICK, 2013). Até 1987, nenhum medicamento anti-HIV estava disponível para uso clínico, mas uma melhor compreensão do ciclo de vida do HIV levou à identificação de vários possíveis alvos de fármacos. Atualmente, a maioria dos medicamentos desenvolvidos atua contra as enzimas virais, a transcriptase reversa e a protease. No entanto, um problema sério com o tratamento do HIV é o fato de que o vírus 180 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES sofre mutações com extrema facilidade. Isso resulta em resistência rápida aos medicamentos antivirais. A experiência tem mostrado que o tratamento do HIV com um único medicamento tem um benefício a curto prazo, mas, a longo prazo, o medicamento serve apenas para selecionar vírus mutantes resistentes. Como resultado, a terapia atual envolve combinações de fármacos diferentes, que atuam tanto na transcriptase reversa quanto na protease (PATRICK, 2013). A zidovudina foi desenvolvida originalmente como um agente anticâncer, mas foi o primeiro fármaco a ser aprovado para uso no tratamento da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). É um análogo da desoxitimidina, no qual o grupo açúcar 3'-hidroxila foi substituído por um grupo azido. Na conversão em trifosfato, inibe a transcriptase reversa. Além disso, o trifosfato está ligado à crescente cadeia de DNA. Uma vez que a unidade de açúcar tem um substituinte azida na posição 3' do anel de açúcar, a cadeia de ácido nucleico não pode ser mais estendida (PATRICK, 2013). Didanosina foi o segundo medicamento anti-HIV aprovado para uso nos Estados Unidos. Sua atividade foi inesperada, pois a base de ácido nucleico presente é a inosina – uma base que não é incorporada naturalmente ao DNA. No entanto, uma série de reações enzimáticas converte esse composto em trifosfato de 2',3'-didesoxiadenosina, que é o fármaco ativo. Estudos do sítio ativo da enzima- alvo levaram ao desenvolvimento de lamivudina e emtricitabina (análogos da desoxicitidina, em que o carbono 3′ foi substituído por enxofre) (Figura 32). FIGURA 32 – INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 478) Os inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa (ITRNNs), geralmente moléculas hidrofóbicas que se ligam a um sítio de ligação alostérico, que é de natureza hidrofóbica. Uma vez que o local de ligação alostérico é separado do local de ligação ao substrato, esses fármacos são inibidores reversíveis não competitivos. Eles incluem nevirapina e delavirdina de primeira geração, bem como medicamentos de segunda geração, como efavirenz, etravirina e rilpivirina. Estudos cristalográficos de raios-X em complexos inibidor-enzima mostraram TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 181 FIGURA 33 – ESTRUTURA DO EFAVIRENZ FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 480) que o local de ligação alostérica é adjacente ao local de ligação do substrato. A ligação de fármacoinibidor ao sítio alostérico resulta em um ajuste induzido, que bloqueia o sítio de ligação ao substrato vizinho em uma conformação inativa. Infelizmente, a resistência rápida emerge como resultado de mutações no local de ligação do ITRNN. Os ITRNNs de segunda geração foram desenvolvidos especificamente para encontrar agentes que eram ativos contra variantes resistentes, bem como vírus do tipo selvagem. Efavirenz (Figura 33) é uma benzoxazinona com atividade contra muitas variantes mutadas. Como o efavirenz possui uma menor estrutura, pode mudar sua posição de ligação quando ocorre certos tipos de mutação, permitindo formar ligações de hidrogênio com a principal cadeia peptídica do sítio de ligação. 6 ANTINEOPLÁSICOS O câncer ainda é uma das doenças mais temidas do mundo moderno. Depois das doenças cardíacas, é a maior causa de morte nos dias atuais. As células cancerosas são formadas quando as células normais perdem os mecanismos reguladores que controlam o crescimento e a multiplicação. Existem três abordagens tradicionais para o tratamento do câncer: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Nesse momento, abordaremos a quimioterapia do câncer, mas é importante observar que a quimioterapia é normalmente usada em conjunto com cirurgia e radioterapia. Além disso, muitas vezes, a terapia combinada (o uso simultâneo de vários medicamentos anticâncer com diferentes mecanismos de ação) é mais eficaz do que o uso de um único medicamento. As vantagens incluem aumento da eficiência de ação, diminuição da toxicidade e evasão da resistência aos medicamentos (PATRICK, 2013). A maioria dos medicamentos anticâncer tradicionais atua interrompendo a função do DNA, sendo classificados como citotóxicos. Alguns agem diretamente no DNA, enquanto outros (antimetabólitos) indiretamente inibem as enzimas envolvidas na síntese de DNA. Por outro lado, têm sido desenvolvidos agentes altamente seletivos, que atuam sobre alvos moleculares específicos anormais ou 182 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES superexpressos na célula cancerosa. Dessa forma, a classe de antineoplásicos é altamente extensa, pois, a cada dia, surgem mais medicamentos. A seguir, veremos os agentes que atuam diretamente nos ácidos nucleicos. 6.1 AGENTES INTERCALANTES Os fármacos intercalantes contêm um sistema de anel aromático ou heteroaromático planar, que pode deslizar para a dupla hélice do DNA e distorcer sua estrutura. Uma vez ligado, o medicamento pode inibir as enzimas envolvidas nos processos de replicação e transcrição. Os exemplos dessa classe incluem a doxorrubicina e a dactinomicina. A doxorrubicina pertence a um grupo de antibióticos naturais, chamados antraciclinas, e foi isolada do Streptomyces peucetius, em 1967, representando um dos agentes anticâncer mais eficazes já descobertos. Esse fármaco estabiliza o complexo formado entre DNA e topoisomerase II – uma enzima que é crucial para o processo de replicação. Acredita-se que um número excessivo desses complexos de DNA-enzima estabilizados desencadeie a apoptose. O segundo mecanismo pelo qual a doxorrubicina pode ser prejudicial ao DNA envolve a porção hidroxiquinona, que pode quelar o ferro para formar um complexo doxorrubicina- DNA-ferro. Espécies reativas de oxigênio são, então, geradas, levando a quebras da fita simples na cadeia de DNA. Esse mecanismo é considerado menos importante do que a interação com a topoisomerase II, mas tem sido implicado na cardiotoxicidade da doxorrubicina. Um terceiro mecanismo proposto envolve a doxorrubicina intercalada, inibindo as helicases que decompõem o DNA em fitas simples de DNA. Uma variedade de outras antraciclinas (Figura 34) são usadas na quimioterapia do câncer, principalmente a daunorrubicina e as antraciclinas de segunda geração, epirrubicina e idarrubicina. A idarrubicina não possui o grupo metoxi em R1, por isso é mais polar e tem um metabolismo alterado, que prolonga sua meia-vida. Uma terceira geração de antraciclinas tem sido estudada, em que o íon amínio no anel de açúcar é substituído por um grupo azido ou anel triazol. Esses compostos não parecem ser suscetíveis ao mecanismo de efluxo, que leva à resistência aos medicamentos, e também apresentam toxicidade geral diminuída. TÓPICO 2 — OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 183 FIGURA 34 – ESTRUTURAS DAS ANTRACICLINAS FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 524) FIGURA 35 – AGENTES ALQUILANTES FONTE: Adaptada de Patrick (2013, p. 524) 6.2 MOSTARDAS NITROGENADAS A clormetina (Figura 35) foi o primeiro agente alquilante a ser usado medicinalmente, tendo sido introduzida em 1942. O mecanismo envolve a ligação cruzada de grupos guaninas no DNA. A clormetina é altamente reativa e pode reagir com água, sangue e tecidos. É muito reativa para sobreviver à via oral e deve ser administrada por via intravenosa. 184 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES As reações colaterais mencionadas anteriormente podem ser reduzidas ao diminuindo a reatividade do agente alquilante. Por exemplo, substituir o grupo N-metil por um grupo N-aril tem esse efeito. O único par de nitrogênio interage com o sistema π do anel e está menos disponível para deslocar o íon cloreto. Como resultado, o intermediário íon aziridínio é menos facilmente formado, apenas nucleófilos fortes, como a guanina, irão reagir com ele. O agente alquilante melfalano tira vantagem dessa propriedade, além de ter uma porção que imita o aminoácido fenilalanina. Como resultado, é mais provável que o fármaco seja reconhecido como um aminoácido e seja introduzido nas células pelas proteínas de transporte. O aumento da estabilidade também significa que o medicamento pode ser administrado por via oral. A fenilalanina é um precursor biossintético da melanina e era esperado que isso ajudasse a direcionar o fármaco para os melanomas cutâneos; infelizmente, essa seletividade não foi particularmente significativa (PATRICK, 2013). Outros exemplos de agentes alquilantes incluem clorambucil e estramustina. Na estramustina, o grupo alquilante está ligado ao hormônio estradiol, que, normalmente, atravessa as membranas celulares para dentro das células e carrega o agente alquilante. A ligação com o esteroide é por meio de um grupo funcional de uretano, que reduz a nucleofilicidade do nitrogênio (PATRICK, 2013). 185 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A estrutura química da isoniazida é constituída por um anel piridina e um grupo hidrazida, ambos essenciais para a sua atividade biológica. • A REA do etambutol indica que dois centros básicos de amina são necessários para a atividade, e a distância de dois carbonos entre eles deve ser mantida. Além disso, é necessária a presença de um grupo alquil ramificado simples e pequeno em cada nitrogênio. • Os azóis são agentes antifúngicos com amplo espectro de atividade que inibem a enzima fúngica lanosina 14α-desmetilase, responsável pela conversão do lanosterol em ergosterol. Esses compostos apresentam, em sua estrutura, um grupo imidazol ou triazol e um anel aromático substituído com halogênio separado da porção azol por dois átomos, ambos essenciais para a atividade. • A terbinafina é uma alilamina que atua pela inibição seletiva da esqualenoepoxidase, uma enzima envolvida na síntese do ergosterol. Para essa classe de substâncias, os requisitos estruturais incluem dois domínios lipofílicos (por exemplo, naftaleno) ligados a uma porção polar central (por exemplo, amina terciária) por espaçadores de comprimento apropriado. • Os inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa, como o aciclovir, são pró- fármacos convertidos por enzimas celulares em trifosfatos, que atuam como inibidores de enzimas e terminadores de cadeia. • Os agentes alquilantes contêm grupos eletrofílicos que reagem com os centros nucleofílicos do DNA. Se dois grupos eletrofílicos estiverem presentes, a reticulação intercadeia e/ou intracadeiado DNA é possível. 186 1 O etambutol é um fármaco utilizado no tratamento da tuberculose. Observando a estrutura desse fármaco na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora ( ) O aumento da cadeia etil entre os dois centros de amina não altera a atividade tuberculostática. ( ) O etambutol é um agente de primeira linha e seu efeito é bacteriostático. ( ) O etambutol apresenta atividade máxima contra M. tuberculosis em pH neutro. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 2 Os azóis são agentes antifúngicos sintéticos que apresentam um amplo espectro de atividade. Com base na estrutura geral dos antifúngicos azóis apresentada na figura a seguir, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora ( ) O substituinte Y pode ser um nitrogênio, como no fluconazol. ( ) O substituinte X pode ser um cloro, flúor ou metil. ( ) A cadeia lateral constitui a porção de maior diversidade em toda a classe. AUTOATIVIDADE 187 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 3 A pentamidina tem atividade contra a leishmaniose, mas apresenta uma toxicidade geral maior que os compostos de antimônio pentavalente. Considere a REA da pentamidina na figura a seguir e assinale a alternativa CORRETA: FONTE: Adaptada de Bastos et al. (2016) a) ( ) O NH2 livre da guanidina é importante para a atividade. b) ( ) A substituição no anel em orto pelo grupo nitro melhora a atividade. c) ( ) A substituição do éter por nitrogênio secundário diminui a atividade. d) ( ) A substituição na posição 3 por uma hidroxila aumenta a atividade. 4 A figura a seguir é um medicamento derivado do nitrofurano. Esse fármaco é usado para o tratamento de qual patologia? Qual é o seu mecanismo de ação? OO2N N N S H3C O O FONTE: A autora 5 Os azóis são agentes antifúngicos sintéticos que apresentam um amplo espectro de atividade e incluem os agentes tópicos clotrimazol, econazol e miconazol, e o agente sistêmico cetoconazol, além de derivados dos triazóis, como itraconazol e fluconazol, também de uso sistêmico. Discorra a respeito do mecanismo de ação dos antifúgicos azóis com o fluconazol. 188 189 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Geralmente, a inflamação é dividida em padrões agudos e crônicos, sendo caracterizada por uma resposta de proteção do organismo, desencadeada por estímulos físicos, químicos e biológicos, os quais podem resultar em dor, edema e levar à disfunção do órgão ou tecido. A inflamação aguda é de curta duração e, durante o processo, são observados fenômenos exsudativos e vasculares. Na inflamação crônica, que pode durar semanas, meses ou até anos, observam-se fenômenos proliferativos e formação de fibrose. Processos inflamatórios são um componente significativo em grande parte das doenças encontradas na clínica e, com isso, os anti-inflamatórios são extensamente empregados nas mais diversas especialidades da medicina. A inflamação crônica, por exemplo, está relacionada com a patogênese de diversas doenças crônicas, como artrite reumatoide, osteoartrite (artrose), psoríase, síndrome metabólica, doença de Crohn, doenças neurológicas, entre outras. Para essas doenças, os glicocorticoides, anti-inflamatórios de origem esteroidal, são amplamente utilizados. Neste tópico, abordaremos a REA biológica dos fármacos usados no tratamento dos distúrbios inflamatórios, mais especificamente os anti- inflamatórios não esteroides e os anti-inflamatórios esteroides. Como os anti- inflamatórios esteroides são substâncias que contêm o núcleo esteroide e são formados a partir do colesterol, assim como os hormônios sexuais, também será apresentada a REA dos hormônios esteroides. 2 ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão entre os fármacos mais utilizados na terapêutica, sendo que, atualmente, existem mais de 50 exemplos diferentes disponíveis comercialmente em todo o mundo. Eles atuam no alívio da febre, dor e edema em artropatias crônicas, como nas doenças reumatológicas osteoartrite e artrite reumatoide, bem como em doenças inflamatórias agudas, como traumas esportivos, fraturas, entorses, entre outras lesões de partes moles (RANG et al., 2016). TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 190 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES O mecanismo de ação dos AINEs, a exemplo do ácido acetilsalicílico, ocorre pela inibição da prostaglandina endoperóxido-H sintase (PGHS) ou ciclo- oxigenase (COX), primeiro complexo enzimático envolvido na formação das prostaglandinas a partir do ácido araquidônico (AA) (BARREIRO; FRAGA, 2015). Existem duas isoformas comuns da COX: COX-1 e COX-2; ambas estão estritamente relacionadas, catalisam a mesma reação e apresentam identidade de sequências superior a 60%. No entanto, existem diferenças importantes em relação à expressão nos tecidos e à função. A COX-1 é expressa na maioria dos tecidos, incluindo nas plaquetas sanguíneas, e desempenha funções de manutenção no organismo (por exemplo, agregação plaquetária, autorregulação do fluxo sanguíneo renal). Já a COX-2 é induzida, principalmente, durante o processo inflamatório nas células, quando ativadas por citocinas inflamatórias, como a interleucina-1 (IL-1) e fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), assim a COX-2 é a principal isoforma responsável pela produção dos mediadores prostanoides da inflamação. Além disso, a COX-2 também é expressa no rim e no sistema nervoso central (SNC) (RANG et al., 2016). Grande parte dos AINEs denominados “tradicionais” inibe as duas isoformas da COX, embora possam apresentar potência relativa distinta para cada isoforma. De acordo com Rang et al. (2016), acredita-se que os efeitos anti- inflamatórios, analgésicos e antipiréticos desses fármacos estão relacionados com a inibição de COX-2, enquanto os efeitos indesejáveis, especialmente os que afetam o trato gastrointestinal, são resultantes da inibição de COX-1. A aspirina (ácido acetil salicílico), um salicilato, é o protótipo dos AINEs, sendo o AINE mais utilizado e aquele com o qual todos os demais agentes anti- inflamatórios são comparados. Apesar do grande esforço realizado na busca para encontrar uma aspirina “melhor”, ou seja, que apresentasse menores efeitos adversos no trato gastrointestinal, não foi descoberto nenhum composto tão eficaz quanto a aspirina e destituído desses efeitos indesejáveis. A aspirina é rapidamente desacetilada por esterases no organismo, dando origem ao ácido salicílico, o qual exibe os efeitos anti-inflamatório, antipirético e analgésico. As estruturas dessas substâncias podem ser observadas na Figura 36. FIGURA 36 – ESTRUTURAS DO ÁCIDO SALICÍLICO E DA ASPIRINA FONTE: A autora TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 191 FIGURA 37 – ESTRUTURA DA INDOMETACINA FONTE: A autora Diferentemente dos demais AINEs, a aspirina inativa irreversivelmente a COX por acetilação. Os demais AINEs são todos inibidores reversíveis dessa enzima. IMPORTANT E A REA da aspirina relatada por Lemke et al. (2008) pode ser resumida em: • a porção ativa responsável pela ação é o ânion salicilato; • os efeitos colaterais da aspirina estão associados à função ácido carboxílico; • a redução da acidez do ácido carboxílico pela conversão em amida mantém a ação analgésica, mas elimina as propriedades anti-inflamatórias; • a substituição nos grupos carboxila ou fenil hidroxila resulta em alterações na toxicidade e na potência do fármaco; • a atividade é abolida quando o grupo hidroxila fenólico é colocado na posição meta ou para em relação ao grupo carboxila; • a introdução de um átomo de halogênio no anel fenólico aumenta a potência e a toxicidade do fármaco; • a substituição na posição5 do anel fenólico aumenta a atividade anti- inflamatória. A indometacina (Figura 37), um derivado do ácido indol-acético, apresenta atividade anti-inflamatória superior à da aspirina, porém é inferior aos salicilatos em relação às doses toleradas pelos pacientes com artrite reumatoide; além disso, é um fármaco que também atua como analgésico e antipirético. A REA da indometacina relatada por Lemke et al. (2008) é apresentada a seguir: 192 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES • a substituição do grupo carboxila por outras funcionalidades ácidas diminui a atividade; • à medida que a acidez do grupo carboxila aumenta, a atividade anti-inflamatória do fármaco também aumenta, e vice-versa; • análogos amida são inativos; • a acilação do nitrogênio indol diminui a atividade; • os derivados de n-benzoílo substituídos na posição para com flúor, cloro e trifluorometilo são mais ativos; • a substituição no anel indol com grupos como metoxi, flúor, dimetilamino, metil ou acetil aumenta a atividade do fármaco; • o átomo de nitrogênio no anel indol não é importante para a atividade do fármaco; • a substituição de alquil na posição α é mais ativa do que as substituições de aril; • apenas os enantiômeros S-(+) exibem atividade anti-inflamatória. O diclofenaco é um outro AINE que apresenta atividade anti-inflamatória, antipirética e analgésica. Em relação à sua REA, Lemke et al. (2008) relata que os dois grupos cloro em orto são importantes para a sua atividade. Além disso, a torção dos dois grupos o-cloro é necessária para a ligação do fármaco com o sítio ativo da COX. Quanto à REA do ibuprofeno, a atividade anti-inflamatória pode ser aumentada e os efeitos colaterais relacionados podem ser reduzidos pela substituição de um α-metil na porção de ácido alcanoico de derivados de ácido acético. Na Figura 38, é possível observar a estrutura desses dois AINEs. FIGURA 38 – ESTRUTURAS DO DICLOFENACO E IBUPROFENO FONTE: A autora 2.1 INIBIDORES SELETIVOS DE COX-2 A hipótese de que um inibidor seletivo de COX-2 seria mais seguro e, portanto, forneceria uma alternativa atraente aos AINEs tradicionais foi validada pelos sucessos clínicos do celecoxibe e rofecoxibe. Frequentemente chamado de classe “tricíclica”, “diaril” ou “cis-estilbeno”, o composto-líder ou protótipo (DuP 697) para essa classe de AINEs pode ser observado na Figura 39. O desenvolvimento desse composto foi, em parte, impulsionado pela observação de menor irritação gastrointestinal em modelos animais (ABRAHAM, 2003b). TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 193 FIGURA 39 – INIBIDORES SELETIVOS DE COX-2 FONTE: A autora O anel fenil substituído com 4-metilsulfona ou 4-sulfonamida é a marca registrada dessa classe de inibidores seletivos de COX-2. Os estudos cristalográficos revelaram um bolsão lateral extra, presente na COX-2 em relação à COX-1, devido à substituição de um resíduo de isoleucina por valina. Esse bolsão extra aparentemente está envolvido na ligação da porção metilsulfona e fornece uma oportunidade para a seletividade de COX-2. Esse sítio de ligação é a diferença mais proeminente nas comparações dos sítios ativos da COX-1 versus COX-2. Essa diferença fornece um elemento-chave para o planejamento do volume estérico de compostos análogos ao celecoxibe e rofecoxibe. Em 2004, a Merck Sharp & Dohme-Chibret anunciou a retirada do rofecoxibe (Vioxx®) do mercado mundial, devido ao risco de infarto de miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Estima-se que, em 2004, o volume mundial de vendas desse fármaco foi de 10 bilhões de dólares. ATENCAO 194 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 3 ANTI-INFLAMATÓRIOS ESTEROIDES Desde a síntese da cortisona em 1948, e, alguns anos depois, da hidrocortisona (cortisol) (1951), os anti-inflamatórios esteroides (AIEs) tornaram- se uma importante classe de fármacos, sendo, hoje, utilizados em todo o mundo no tratamento de doenças inflamatórias crônicas, autoimunes e como terapia auxiliar da prevenção da rejeição de transplantes de órgãos (ABRAHAM, 2003a). O córtex adrenal sintetiza corticosteroides, substâncias contendo o núcleo esteroide, a partir do colesterol, que podem ser divididas em: mineralocorticoides, glicocorticoides (GCs) e hormônios sexuais. Os mineralocorticoides são responsáveis pelo balanço eletrolítico e aquoso e possuem como principal produto secretado a aldosterona. Os GCs ou AIEs são os corticosteroides utilizados pela sua ação anti-inflamatória (por exemplo, hidrocortisona), responsáveis pelo metabolismo proteico, lipídico e do cálcio. Já os hormônios sexuais, como a testosterona e o estradiol, atuam sobre o sistema reprodutivo e influenciam nas características sexuais primárias e secundárias. Os anti-inflamatórios esteroides interferem em várias etapas do processo da inflamação, apresentando um forte efeito sobre o sistema imunitário, tanto na imunidade inata quanto na imunidade adquirida. Atuam sobre a rede de citocinas pró-inflamatórias, nas moléculas de adesão, nos fatores de permeabilidade e na função celular. Entre as substâncias que são deprimidas pela ação dos AIEs, tem-se como exemplos: cicloxigenase-2 (COX-2), NO induzível (iNOS), interferon-gama (IFN-gama), TNF-α, molécula de adesão intercelular (ICAM), proteína quimiotáctica para monócitos (MCP-1) e molécula de adesão vascular (VCAM) e diversas interleucinas (IL-1beta, IL-2, IL-4, IL-5, IL-6, IL-8, IL-12, IL-18) (MACHADO, 2013). Entretanto, a utilização crônica dos glicocorticoides na clínica deve ser cuidadosa, devido aos seus vários efeitos adversos, especialmente em doses elevadas. Entre as principais complicações que podem ocorrer após o tratamento crônico com GCs estão: osteoporose, glaucoma, hipertensão, psicose e síndrome de Cushing. Além disso, a interrupção abrupta do uso dessa classe de fármacos pode causar coma e morte (MACHADO, 2017). GCs sintéticos têm sido planejados ao longo dos anos, a fim de obter fármacos com um melhor perfil terapêutico, potencialização da atividade anti- inflamatória, resolução de problemas de solubilidade e redução dos efeitos adversos relacionados com a terapia (MACHADO, 2017). O esqueleto básico dos esteroides é formado por quatro anéis fundidos (A, B, C e D), denominado de ciclopentanoperidrofenantreno, contendo um anel de cinco membros (ciclopentano) e um anel fenantreno saturado, totalizando 17 átomos de carbono (Figura 40). TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 195 FIGURA 40 – ESTRUTURA GERAL DOS ESTEROIDES, DA CORTISONA E DA HIDROCORTISONA FONTE: A autora Na maioria dos esteroides, a junção dos anéis B/C e C/D é trans, ou seja, os átomos de hidrogênio (H) nas posições 8 e 9 e o H e CH3 nas posições 14 e 18, respectivamente, estão acima ou abaixo do plano do sistema de anéis. Quando os substituintes se encontram acima do sistema anelar, são denominados de β (linha cheia) e, quando se encontram abaixo, são denominados de α (linha tracejada). Em relação à junção dos anéis A/B, pode ser tanto cis quanto trans (LEMKE et al., 2008). A conformação e a configuração absoluta dos GCs revelam que um dos requisitos para a atividade anti-inflamatória é a manutenção da configuração trans entre os anéis B/C e C/D. Em geral, modificações estruturais nos anéis C e D apresentam maior efeito na atividade que aquelas realizadas nos anéis A e B. Dessa forma, modificações nas posições 11, 12, 13, 16, 17, 18, 20 e 21 são importantes na compreensão da REA, pois afetam diretamente a interação dos AIEs com o receptor (LEMKE et al., 2008). Entre as considerações importantes a respeito da REA de compostos glicocorticoides monossubstituídos relatadas por Abraham (2003a), estão: • substituição na posição 1: dupla ligação entre os carbonos C1 e C2 aumenta a atividade anti-inflamatória; OH nessa posição torna o composto inativo; • substituição na posição 2: α-CH3 aumenta a retenção de Na+,enquanto α-F diminui a atividade anti-inflamatória; • substituição na posição 3: carbonila importante a atividade anti-inflamatória; • substituição na posição 4: dupla ligação entre os carbonos C4 e C5 diminui a atividade anti-inflamatória; 196 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES • substituição na posição 6: α-halogênios e substituintes apolares em α aumentam a atividade anti-inflamatória; substituintes em β ou substituintes polares em α diminuem a atividade; • substituição na posição 7: substituintes α ou β diminuem a atividade anti- inflamatória, com exceção dos halogênios em α, que aumentam a atividade; • substituição na posição 8: dupla ligação entre os carbonos C8 e C9 diminui a atividade anti-inflamatória; • substituição na posição 9: α-CH3, α-OH e α-halogênios aumentam a atividade anti-inflamatória, enquanto α-OCH3, α-OC2H5 e α-OCH3 diminuem a atividade ou são inativos; • substituição na posição 10: CH3 é essencial para a atividade anti-inflamatória; • substituição na posição 11: essa posição é influenciada pelas substituições nas posições 9 e 12; • substituição na posição 12: α-halogênios aumentam a atividade anti- inflamatória, enquanto α-OH e CH3 diminuem a atividade; • substituição na posição 15: α-CH3 aumenta tanto a atividade anti-inflamatória quanto a retenção de Na+, enquanto β-F aumenta a atividade anti-inflamatória e diminui a retenção de Na+; • substituição na posição 16: α-F e α-Cl aumentam a atividade anti-inflamatória, enquanto β-F e β-OCH3 diminuem a atividade; • substituição na posição 17: α-OH não é essencial para a atividade, a modificação desse grupo por éteres ou ésteres aumenta a potência anti-inflamatória e a afinidade aos receptores glicocorticoides; α-halogênios e α-CH3 diminuem a atividade anti-inflamatória, enquanto SMe e Set aumentam a atividade. O receptor glicocorticoide apresenta grande tolerância para substituições na posição 17. Importantes substituições realizadas nos AIEs disponíveis comercialmente encontram-se na cadeia lateral, mais especificamente no C21. Nessa posição, a substituição por grupos diazo e azido retém a atividade anti-inflamatória, como observado na prednisolona. Além disso, a substituição da hidroxila por flúor ou cloro aumentam a atividade. Por outro lado, a substituição por CH3 para produzir álcool secundário diminui a atividade. Alguns exemplos de anti-inflamatórios esteroides disponíveis comercialmente, com seus respectivos nomes químicos, estruturas e potências anti-inflamatórias, são apresentados no Quadro 1. QUADRO 1 – ANTI-INFLAMATÓRIOS ESTEROIDES Nome oficial Nome químico Potência* Estrutura Cortisol (hidrocortisona) 11β,17,21- triidroxipregna-4-eno- 3,20-diona 1 TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 197 * Potência relativa, considerando-se como referência a hidrocortisona (1). FONTE: A autora Prednisona 17α,21-diidroxipregna-1,4-dieno-3,11,20-triona 4 Prednisolona 11β,17,21- triidroxipregna-1,4- dieno-3,20-diona 4 Metilprednisolona 11β,17,21-triidroxi-6α- metilpregna-1,4-dieno- 3,20-diona 5 Dexametasona 9-flúor-11β,17,21- triidroxi-16α- metilpregna-1,4-dieno- 3,20-diona 25-30 Betametasona 9-flúor-11β,17,21- triidroxi-16β- metilpregna-1,4-dieno- 3,20-diona 25-30 Triancinolona 9α-flúor-11β,21- diidroxipregna-16α,17α- isopropilidenodioxi 1,4-dieno-3,20-diona 5 4 HORMÔNIOS ESTEROIDES Com a mudança dos papéis desempenhados pelas mulheres na sociedade no último século, o uso médico de estrogênio e miméticos e antagonistas da progesterona estão entre as substâncias mais prescritas atualmente (ABRAHAM, 2003a). 198 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES Como visto anteriormente, o córtex adrenal sintetiza os hormônios sexuais a partir do colesterol. O aumento da secreção desses hormônios ocorre em meninas na puberdade, estimulando os ovários a secretarem estrógenos, o que leva à maturação dos órgãos reprodutores, ao desenvolvimento das características sexuais secundárias, bem como à aceleração do crescimento acelerado e do fechamento das epífises dos ossos longos. A partir dessa fase, esteroides sexuais, estrógenos e progesterona estão constantemente envolvidos no ciclo menstrual e na gravidez (RANG et al., 2016). O hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) age na hipófise anterior, liberando o hormônio folículo-estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). O FSH é o principal hormônio que estimula a liberação de estrógeno, enquanto o LH é o principal hormônio que controla a secreção de progesterona pelo corpo lúteo. ATENCAO O mecanismo de ação, tanto do estrógeno como da progesterona, está relacionado com a sua ligação aos receptores nucleares, causando modificações na transcrição gênica, ou aos receptores de membranas. A principal ação dos estrógenos é o desenvolvimento das características sexuais femininas secundárias (por exemplo, crescimento capilar, crescimento dos seios, acúmulo de gorduras em regiões específicas do corpo e desenvolvimento do sistema reprodutivo feminino). Já na gestação, o estrógeno atua estimulando as glândulas mamárias. Entre os estrógenos endógenos, o estradiol (Figura 41) é o mais potente, devendo ser administrado por via parenteral, pois, quando administrado por via oral, sofre rápida metabolização. A biodisponibilidade oral dessa substância pode ser melhorada pela adição de um grupo alcino na posição 17, pois essa substituição previne a oxidação da hidroxila. Análogos sintéticos do estradiol, como o etinilestradiol, são cerca de 80 a 200 vezes mais potentes que o estradiol na supressão do FSH (LEMKE et al., 2008). Ésteres de estradiol, como o 17β-valerato e o 17β-cipionato de estradiol, apresentam maior duração de ação e podem ser administrados por via intramuscular. A hidrólise desses ésteres libera o estradiol lentamente no organismo, aumentando a duração da ação desses fármacos. IMPORTANT E TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 199 FIGURA 41 – ESTRUTURA DO ESTRADIOL E DO ETINILESTRADIOL FONTE: A autora Algumas considerações a respeito da REA dos derivados estrogênicos, de acordo com Lemke et al. (2008) e Abraham (2003a), são: • substituição na posição 1: funcionalização diminui a atividade estrogênica; • substituição na posição 2: apenas substituintes pequenos; • substituição na posição 3: OH é essencial para a atividade; • substituição na posição 4: apenas substituintes pequenos; • substituição na posição 6: OH diminui a atividade estrogênica; • substituição na posição 7: OH diminui a atividade estrogênica. Grupos alquila lineares com terminação polar, embora mantenham a afinidade ao receptor de estrógeno, não apresentam atividade estrogênica; • substituição na posição 11: OH diminui a atividade estrogênica. Substituintes em β aumentam a afinidade ao receptor de estrógeno. CH2Cl e OCH3 mantém a atividade estrogênica, enquanto grupos maiores não apresentam atividade; • substituição na posição 16: substituintes com tamanho e polaridade moderados são tolerados pelo receptor; • substituição na posição 17: β-OH é importante para a atividade, enquanto α-OH diminui a atividade estrogênica. α-etinil ou vinil aumentam a atividade; • a distância entre a hidroxila da posição 17 e a hidroxila na posição 3 deve ser entre 10,3 e 12,1 Å; • o anel aromático A é essencial para a atividade. Insaturações no anel B aumentam de forma significativa a atividade estrogênica, enquanto o aumento do tamanho do anel D diminui a atividade. A progesterona é um hormônio que atua mais no útero, principalmente no endométrio, induzindo a fase secretória da menstruação, caracterizada pela secreção de carboidratos utilizados como fonte de energia ao óvulo em caso de fecundação. Além disso, a progesterona diminui as contrações da musculatura uterina e inibe a liberação dos hormônios gonadotrópicos, prevenindo a ovulação. Durante a gestação, a progesterona encontra-se em níveis elevadosno organismo, o que previne a liberação de FSH e LH e evita que o corpo lúteo entre em atresia. Os progestogênios sintéticos podem ser classificados quimicamente como androstanos e pregnanos, de acordo com a estrutura do seu núcleo esteroide (Figura 42). 200 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES FIGURA 42 – ESTRUTURA GERAL DOS ANDROSTANOS E PREGNANOS E ESTRUTURA DA PROGESTERONA FONTE: A autora Entre as considerações a respeito da REA dos progestogênios, de acordo com Lemke et al. (2008) e Abraham (2003a), estão: • substituição na posição 3: remoção da cetona mantém a atividade progestogênica sem efeitos androgênicos; • substituição na posição 6: α-Cl e α-CH3 aumentam a atividade progestogênica; • substituição na posição 7: substituintes em α aumentam a atividade progestogênica; • substituição na posição 11 e 18: CH3 aumenta a atividade progestogênica; • substituição na posição 17: substituintes alquila em α aumentam a atividade progestogênica por via oral. A acetilação da 17β-OH aumenta a duração de ação; • substituição na posição 19: remoção do CH3 aumenta a afinidade ao receptor de progesterona; • substituição na posição 20: acetilação promove o aumento da duração de ação; • substituição na posição 21: substituintes α-alquil (por exemplo, metil, etil e etinil) aumentam a atividade progestogênica; • insaturações nos anéis B ou C do núcleo esteroide aumentam a atividade progestogênica. Alguns exemplos de progestogênios sintéticos utilizados na terapêutica podem ser vistos na Figura 43. TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 201 FIGURA 43 – PROGESTOGÊNIOS SINTÉTICOS FONTE: A autora 202 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES LEITURA COMPLEMENTAR SÍNTESE, DOCKING E AVALIAÇÃO DE POTENCIAL ANTI-STAPHYLOCOCCUS AUREUS DE NOVOS CANDIDATOS A ANTIBIÓTICOS POTENCIAIS INIBIDORES DA DIIDROFOLATO REDUTASE Isley de Oliveira Diniz Antes de 1932, não existiam drogas efetivas para o tratamento das infecções bacterianas sistêmicas (antibióticos) e, frequentemente, tais infecções eram fatais. Os primeiros fármacos antibacterianos seletivamente tóxicos são os da família das sulfas, que surgiram com uma tentativa de Domagk de levar adiante as ideias de Ehrlich. Paul Ehrlich ficou impressionado com o fato de que certas tintas manchavam algumas células e outras não, levando-o a ideia de seletividade, onde seria possível encontrar corantes que seriam absorvidos por determinados microrganismos, mas não por células do hospedeiro. Essa ideia foi extrapolada para a área medicinal, resultando na descoberta de um fármaco efetivo contra a sífilis. Em 1935, o bacteriologista alemão Gehard Domagk, que estava avaliando o efeito de várias substâncias em cepas de estreptococos, tratou com sucesso a filha de uma infecção virulenta de estreptococos usando o corante azo prontosil. A investigação subsequente mostrou que esse fármaco era reduzido in vivo ao agente ativo p-aminobenzenosulfonamida, levando, nos anos seguintes, ao estudo aprofundado das substâncias derivadas do núcleo sulfonamídico. A descoberta desse novo fármaco marcou o início da quimioterapia moderna, que, durante a década seguinte, levou à síntese e a testes de novos agentes antibacterianos dessa classe. Esses foram também os primeiros estudos de estrutura atividade, demonstrando a importância da modificação molecular no desenvolvimento de fármacos. Os estudos realizados nessa época foram um dos primeiros exemplos, em que um novo composto levou a outros compostos para outras doenças, levando também à descoberta de efeitos colaterais através de estudos clínicos e farmacológicos. As sulfonamidas são agentes antimetabólicos, descobertos em 1935, quando foi observado que um corante, chamado prontosil, possuía atividade antibacteriana in vivo. Posteriormente, foi descoberto que esse corante sofre metabolismo enzimático e o verdadeiro agente bacteriano é seu metabólito: a sulfanilamida (Figura 1). O corante funciona como um pró-fármaco, que, através do processo de latenciação, é hidrolisado enzimaticamente e libera a sulfa ativa. TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 203 Mecanismo de ação das sulfonamidas As sulfonamidas (drogas à base de sulfas), como a sulfanilamida, são antibióticos estruturalmente análogos ao ácido p-amino benzoico (PABA) (Figura 2), constituinte do tetrahidrofolato (THF), essas drogas inibem competitivamente a síntese bacteriana de THF na etapa de incorporação do ácido p-aminobenzoico, bloqueando as reações que requerem THF. As sulfonamidas têm efeito bacteriostático e inibem o metabolismo do ácido fólico, por mecanismo competitivo. As células humanas conseguem aproveitar o folato exógeno para o metabolismo, enquanto as bactérias dependem da produção endógena, as sulfas, portanto não têm efeito no homem, porque este não sintetiza o ácido fólico no organismo, mas são fatais para muitas bactérias. Sua atividade se dá pela inibição da enzima diidropteoatosintetase, que catalisa a reação entre o 2-amino-4-hidroximetil-7,8-diidropteridina difosfato e o ácido p-amino benzoico, formando diidrofolato. A sulfonamida liga-se ao sítio ativo e reage com o 2-amino-4-hidróxi-6-hidroximetil-7,8-diidropetidina difosfato, formando um produto que não pode ser convertido em ácido fólico, portanto, a reação que dispõe o átomo final do anel de purina, fornecido por meio da formilação pelo N10-formil-THF, gerando 5-formaminoimidazol-4- carboxamida–ribotídeo é inibida indiretamente. Como resultado, as bactérias 204 UNIDADE 3 — AGENTES QUIMIOTERÁPICOS, ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES não conseguem produzir suficiente tetraidrofolato, que é usado como coenzima na produção das purinas necessárias para a síntese de DNA e para a reprodução celular subsequente (Esquema 1). Entre as similaridades entre o PABA e as sulfas estão as distâncias entre a amina e o grupamento ácido (que são análogas), a amina primária aromática, o anel benzeno p-dissubstituído, similaridade em seu pKa e forma espacial oblonga (em formato oval). Relação entre estrutura e atividade (SAR) Segundo Barrientos (2009), a síntese de uma gama enorme de derivados sulfonamídicos levou a várias conclusões sobre a atividade das sulfonamidas: • o grupamento p-amino é essencial para a atividade e não pode ser substituído, tendo como única exceção quando o grupamento substituinte for uma amida, as amidas em si são inativas, mas in vivo podem ser metabolizadas e regenerar o composto ativo, e, portanto, podem ser usadas como pró-fármacos; • o anel aromático e o grupo funcional sulfonamidas também são fundamentais; • o anel aromático pode somente ser p-substituído; • o nitrogênio da sulfonamida deve ser sempre secundário (Figura 6). Graças aos extensivos estudos feitos na química das sulfas, outros compostos de interesse terapêutico foram encontrados, como a tolbutamida, um agente antidiabético e a hidroclorotiazida, um agente anti-hipertensivo. Outros exemplos de sulfas já encontradas comercialmente são: sulfatiazol, sulfadiazina, sulfapiridina, sulfamerazina, sulfametoxazol, todas utilizadas contra infecções sistêmicas causadas por microrganismos (Figura 7). TÓPICO 3 — ANTI-INFLAMATÓRIOS E HORMÔNIOS ESTEROIDES 205 FONTE: Adaptado de DINIZ, I. de O. Síntese, docking e avaliação de potencial anti-Staphylococcus aureus de novos candidatos a antibióticos potenciais inibidores da diidrofolato redutase. Monografia (Bacharelado em Ciências Biológicas) – Universidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, 2014. Disponível em: https://bit.ly/3apXEFj. Acesso em: 14 jun. 2021. 206 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão entre os fármacos mais utilizados na terapêutica, sendo que o seu mecanismo de ação se dá pela inibição da ciclo-oxigenase (COX). • Na aspirina, a porção ativa responsável pela ação é o ânion salicilatoe os seus efeitos colaterais estão associados à função ácido carboxílico. • Na REA da indometacina, à medida que a acidez do grupo carboxila aumenta, a atividade anti-inflamatória do fármaco também aumenta. • Os inibidores seletivos de COX-2, como o celecoxibe, apresentam em sua estrutura um anel fenil substituído com 4-metilsulfona ou 4-sulfonamida, que permite a interação com um bolsão extra na COX-2, o qual não é exposto na COX-1. • O esqueleto básico dos esteroides é formado por quatro anéis fundidos, sendo que, na maioria dos esteroides, a junção dos anéis B/C e C/D é trans. A REA dos glicocorticoides indica que a carbonila na posição 3 é importante para a atividade anti-inflamatória e a metila na posição 10 é essencial para a atividade. • Os esteroides sexuais, estrógenos e progesterona, estão envolvidos no ciclo menstrual e na gravidez. Na REA dos derivados estrogênicos, o OH na posição 3 é essencial para a atividade estrogênica, porém a inclusão de OH nas posições 6, 7 e 11 diminuem a atividade. • Os progestogênios sintéticos podem ser classificados quimicamente como androstanos e pregnanos. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 207 1 Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão entre os fármacos mais utilizados na terapêutica. Observe a estrutura dos AINEs na figura a seguir e assinale a alternativa CORRETA: FONTE: A autora a) ( ) O ácido carboxílico no composto 1 pode ser convertido em amida sem alterar as propriedades anti-inflamatórias. b) ( ) A substituição do grupo carboxila no composto 2 por outras funcionalidades ácidas aumenta a atividade anti-inflamatória. c) ( ) A acilação do nitrogênio indol no composto 2 aumenta a atividade anti- inflamatória. d) ( ) Os efeitos colaterais do composto 1 estão associados à função do ácido carboxílico. 2 O estradiol é o estrógeno endógeno responsável pelo desenvolvimento das características sexuais femininas secundárias. A respeito da relação estrutura-atividade do estradiol apresentada na figura a seguir, assinale a alternativa CORRETA: FONTE: A autora a) ( ) Uma funcionalização na posição 1 aumenta a atividade estrogênica. b) ( ) A inclusão de uma hidroxila na posição 7 aumenta a atividade estrogênica. c) ( ) Na posição 7, podem ser adicionados grupos alquila polares sem prejuízo da atividade estrogênica. AUTOATIVIDADE 208 d) ( ) A hidroxila na posição 3 é essencial para a atividade estrogênica. 3 Os glicocorticoides são anti-inflamatórios de origem esteroidal. Observe as estruturas dos glicocorticoides a seguir e classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: FONTE: A autora ( ) O composto 1 é a prednisolona, um glicocorticoide amplamente utilizado na terapêutica. ( ) O composto 2 apresenta maior potência inflamatória que o composto 1, devido à substituição realizada. ( ) A substituição por cloro ou outro halogênio em β na posição destacada resultaria em aumento da atividade anti-inflamatória. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 4 Os anti-inflamatórios esteroides (AIEs) tornaram-se uma importante classe de fármacos, sendo, hoje, utilizados em todo o mundo no tratamento de doenças inflamatórias crônicas, autoimunes e como terapia auxiliar da prevenção da rejeição de transplantes de órgãos. Observando a estrutura de dois esteroides com ação anti-inflamatória na figura a seguir e tendo como base a hidrocortisona, o que se espera da atividade do fármaco X? Justifique com base na relação estrutura-atividade dos glicocorticoides. FONTE: A autora 209 5 Existem duas isoformas comuns da ciclo-oxigenase (COX): COX-1 e COX-2. O fármaco demonstrado na figura a seguir é um inibidor seletivo de COX- 2. Explique como é o reconhecimento desse fármaco pelo receptor que possibilita essa seletividade. FONTE: A autora 210 211 REFERÊNCIAS ABRAHAM, D. J. Burger’s Medicinal Chemistry and Drug Discovery – Car- diovascular Agents and Endocrines. 6. ed. Wiley-Blackwell, 2003a. v. 3. ABRAHAM, D. J. Burger’s Medicinal Chemistry and Drug Discovery – Auto- coids, Diagnostics, and Drugs from New Biology. 6. ed. Wiley-Blackwell, 2003b. v. 4. ABRAHAM, D. J. Burger’s Medicinal Chemistry and Drug Discovery – Che- motherapeutic Agents. 6. ed. Wiley-Blackwell, 2003c. v. 5. BARREIRO, E. J.; FRAGA, C. A. M. Química medicinal: as bases moleculares da ação dos fármacos. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. BASTOS, M. M. et al. Quimioterapia antileishmania: uma revisão da literatura. Rev. Virtual Quim., v. 8, p. 2072-2104, 2016. Disponível em: http://static.sites. sbq.org.br/rvq.sbq.org.br/pdf/v8n6a21.pdf. Acesso em: 29 ago. 2021. ESPÍRITO SANTO, R. D. et al. 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Antimaláricos potenciais: planejamento e síntese de fár- macos dirigidos de antimetabólitos de serina. Tese (Doutorado em Ciências Farmacêuticas) – Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponi- veis/9/9138/tde-27102016-104221/publico/Guilherme_Costa_Matsutani_Doutora- do.pdf. Acesso em: 29 ago. 2021. MORAIS, P. A. B. Síntese e atividade biológica da 2-desoxiestreptamina. Dis- sertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) – Faculdade de Ciências Farma- cêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2008. PATRICK, G. L. An Introduction to Medicinal Chemistry. 5. ed. Oxford: Ox- ford University Press, 2013. RANG, H. P. et al. Rang & Dale Farmacologia. 8. ed. 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