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Ultrassonografia Point-of-Care (POCUS): fundamentos e aplicações clínicas E-BOOK Introdução: definição, aspectos históricos e cenário atual ..................................................... 3. . . . . . . . . . . . . Aspectos gerais da ultrassonografia .................................... 5 Principais usos ..................................................................... 7 Avaliação de dispneia aguda .............................................. 7 Choque ................................................................................11 Trombose venosa profunda ............................................. 14 Procedimentos guiados por ultrassonografia ................ 15 Referências ..................................................................... 18 índice 3ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Chama-se de Point-of-Care Ultrasound (POCUS) o uso da ecografia como complemento e expansão da avaliação médica usual. Em sua definição, prevê-se que a aquisição, interpretação e integração com a decisão clínica sejam imediatas, realizadas pelo médico diretamente envolvido no cuidado do paciente (e não por radiologistas) e, preferencialmente, através de protocolos preestabelecidos, de rápida aplicação e com perguntas focadas e binárias (por exemplo, há ou não há derrame pericárdico). Frequentemente, é dito que o transdutor de ultrassom deve ser considerado o novo estetoscópio. Em português, também é chamado de ultrassonografia à beira do leito, mas pelo seu uso disseminado, daremos preferência aos termos em inglês. Neste e-book, apresentaremos conceitos gerais sobre POCUS e discutiremos os principais usos na clínica médica e em ambientes críticos. Do ponto de vista histórico, o primeiro uso clínico da ultrassonografia ocorreu na Áustria durante a Segunda Guerra Mundial. A partir daí até os anos 1980, a expansão de seu uso ocorreu pelas mãos de radiologistas, ecocardiografistas e obstetras. Nos anos 1980 e 1990, emergencistas passaram a utilizar o ultrassom para avaliação de trauma, enquanto intensivistas o utilizavam para avaliação pulmonar. Desde então, a expansão foi bastante rápida para diversas especialidades, da terapia intensiva à atenção primária. Nos anos 2000, os avanços na redução do tamanho e custo dos equipamentos e o aumento da mobilidade levaram a ultrassonografia para mais hospitais, bem como para os currículos das faculdades e programas de residência fora da radiologia. INTRODUÇÃO: DEFINIÇÃO, ASPECTOS HISTÓRICOS E CENÁRIO ATUAL 4ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Atualmente, seus usos são extremamente variados, passando por avaliação de trauma, orientação de procedimentos, avaliação de bem-estar fetal e até mesmo investigação da atividade de artrite reumatoide. Hoje, o recurso é utilizado mesmo em contextos de limitação extrema de recursos, com relatos bastante promissores de uso no interior da África. O fato de ser um método seguro, livre de radiação e com curva de aprendizado relativamente curta favorece essa expansão. Do ponto de vista da educação, seu ensino tem sido estimulado em programas de residência médica e na graduação em Medicina. Nos Estados Unidos, o ultrassom faz parte das competências centrais da graduação. Apesar disso, uma das principais limitações para seu uso é a necessidade de treinamento, supervisão e atualização nesta habilidade. Poucas escolas médicas norte-americanas fornecem treinamento estruturado em POCUS. É justamente neste ponto que também surgem as preocupações com segurança: sociedades de especialistas consideram o uso de ultrassom sem treinamento adequado um risco potencial para pacientes em atendimento em emergências. Felizmente, os estudos de educação médica mostram que diversas aplicações podem ser adquiridas de forma relativamente rápida e, até o momento, nenhum estudo empírico comprovou aumento de risco com esta ferramenta. 5ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS ASPECTOS GERAIS DA ULTRASSONOGRAFIA O funcionamento do ultrassom baseia-se nas propriedades de um material piezoelétrico. Esse material tem a capacidade de gerar ondas sonoras ao ser estimulado eletricamente e, de forma complementar, consegue transformar ondas sonoras em estímulo elétrico. A partir desta propriedade, é possível insonar (“jogar ondas sonoras”) uma estrutura anatômica e recebê-las de volta (o “eco” do órgão), convertendo-as em estímulos elétricos e, dessa forma, construindo uma imagem da estrutura insonada. Quanto maior a frequência da onda sonora utilizada, melhor a imagem reconstruída, porém às custas de menor penetração nos tecidos. Ao longo dos anos, diferentes transdutores foram sendo desenvolvidos, com diferentes formatos e frequências. Os aparelhos de ultrassom utilizados no contexto de POCUS possuem comumente três transdutores: • Linear: de maior frequência, oferece melhor qualidade de imagem, porém menos profundidade. É recomendado para estudo vascular e de estruturas superficiais, como a pleura, vasos próximos à superfície e o tecido subcutâneo. • Curvilíneo: de menor frequência, é capaz de atingir estruturas mais profundas (à custa de menor definição de imagem). Seus usos preferenciais são para exame de abdômen e pulmão. • Fásico (ou setorial): de frequência semelhante ao curvilíneo, mas com menor superfície e (usualmente) com emissão sequencial (milissegundos de atraso) dos sons por cada um dos cristais piezoelétricos de que é composto. Assim, ele gera uma imagem curva como o transdutor curvilíneo, mas permite visualizar estruturas em movimento com maior definição, propriedades que são úteis para avaliação cardiológica. Além dos diferentes transdutores, pode-se utilizá-los com modos de operação diferentes. O principal modo de utilização é o modo de duas dimensões (ou bidimensional). É com ele que se realiza a maior parte das avaliações. Ele também é chamado de modo brilho (brightness) porque estruturas com características diferentes têm brilho na tela (ecogenicidade) diferentes. Estruturas líquidas são anecoicas e aparecem em preto na imagem; demais estruturas aparecem em escala de cinza e são comparadas entre si (hipo, iso e hiperecoicas). Já o modo M vem de motion (movimento, em inglês). Neste modo, a partir de uma imagem bidimensional, um cristal apenas é ativado e sua imagem é registrada no tempo. Ou seja, perde-se a largura, mas ganha- se o tempo como outra dimensão. Costuma ser usado para avaliação de câmaras cardíacas e movimento pleural. 6ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Por fim, o terceiro modo é o doppler, que se beneficia do efeito doppler que as ondas sonoras têm. Em resumo, estruturas se aproximando do transdutor parecem ter maior frequência, enquanto estruturas se afastando do transdutor parecem ter menor frequência. A partir dessa propriedade e de diferentes formas de investigação do efeito doppler, é possível estimar direção e velocidade de tecidos (principalmente sangue). De forma esperada, o principal uso do modo doppler é para avaliação de estruturas vasculares como vasos, vascularização de órgãos sólidos e os fluxos dentro do coração. Como já vimos, o uso do ultrassom é considerado bastante seguro, especialmente por não utilizar radiação ionizante. Apesar disso, existem algumas preocupações. Talvez a principal seja relacionada com treinamento inadequado e resultados falsos negativos e positivos relacionados a isso. Um apontamento interessante é que, apesar de preocupação com processos judiciais por erros médicos por mau uso, dados americanos mostram que não existem ações judiciais de má prática por erros de interpretação de ultrassom pulmonar, mas sim ações por negligência por não ter sido usado. Também há preocupação com transmissão de germes, especialmente no ambiente hospitalar, pelo equipamento; ou seja, deve-se ter um cuidado elevadocom a higienização entre um paciente e outro e as recomendações de prevenção de infecção das instituições. 7ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS PRINCIPAIS USOS Avaliação de dispneia aguda Diversas características do POCUS são extremamente úteis na avaliação da dispneia aguda (e, por extensão, qualquer quadro ameaçador à vida). A rapidez com que se obtêm as informações, a ampla disponibilidade (pelo menos nos hospitais maiores), o baixo custo e a possibilidade de monitoramento e revisão frequente fazem da ultrassonografia uma ferramenta valiosa para o cuidado de pessoas agudamente doentes. O principal recurso para avaliação de dispneia é a ultrassonografia pulmonar, que tem sensibilidades e especificidades consistentemente acima de 80% para diversas doenças torácicas. Supera sensivelmente a radiografia de tórax na avaliação de derrame pleural, pneumonia, pneumotórax e edema pulmonar, atingindo sensibilidades e especificidades de 90% ou mais. Apesar dessa boa acurácia, curativos, extremos de peso e enfisema subcutâneo são desafios para aquisição de imagens pulmonares. Além disso, toda a aquisição de imagens se concentra na interface pleuropulmonar; ou seja, doenças mais centrais no pulmão, que não tocam a pleura, não podem ser visualizadas (por exemplo, aproximadamente 10% das pneumonias não são justapleurais). Complementando-se a avaliação com investigação de trombose venosa profunda nos membros inferiores, pode-se contemplar também pacientes com maior risco de tromboembolismo pulmonar. Examina-se o pulmão com o transdutor na posição longitudinal, colocando o centro do feixe entre dois arcos costais (Figura 1), avaliando-se 4 a 6 campos em cada hemitórax (ântero-superior e inferior; látero-superior e inferior; póstero-superior e inferior). Pode-se usar praticamente qualquer transdutor, mas prefere-se um com baixa frequência para se atingir uma profundidade de ~15 cm para aquisição das imagens. Assim, o mais comum é o uso do transdutor convexo. Ganho, foco e profundidade devem ser ajustados. Por exemplo, o ganho não deve ser excessivo, mas deve permitir enxergar a linha pleural como uma estrutura hiperecoica, bem como as eventuais linhas B que surjam na profundidade. O feixe deve ser mantido em 90° (perpendicular) em relação à linha pleural. 8ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Figura 1. Representação esquemática da aquisição e formação das imagens do ultrassom pulmonar. Extraído de (4). Assim como acontece na ausculta pulmonar, onde crepitações podem indicar tanto pneumonia quanto congestão pulmonar, o mesmo acontece no POCUS. Linhas B, consolidações e ausência de deslizamento pleural não são patognomônicos de doença, mas devem ser entendidos em conjunto, levando-se em conta a distribuição, os achados associados e, claro, o quadro clínico. O padrão normal do pulmão é a presença de linhas A com deslizamento pleural, mas uma ou duas linhas B em um campo são achados considerados normais e não indicam processo patológico. Diferentes diretrizes e grupos de especialistas têm proposto nomenclaturas diferentes; os achados mais comuns em cada situação clínica estão apresentados no Quadro 1. 9ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Na Figura 2, apresentamos a proposta de abordagem diagnóstica mais frequentemente utilizada em pacientes com dispneia aguda. Quadro 1. Resumo das principais doenças pulmonares e seus achados ultrassonográficos. Adaptado de (4, 5, 6). DOENÇA/SITUAÇÃO CLÍNICA ACHADOS Pulmão normal Pneumonia intersticial (viral [Covid-19], tóxica, autoimune, idiopática) Edema pulmonar Derrame pleural Pneumotórax Tromboembolismo pulmonar Asma e doença pulmonar obstrutiva crônica Pneumonia “típica” Deslizamento pleural visível, com linha pleural fina e linhas A. Uma ou duas linhas B podem ser variação do normal. As principais manifestações são regiões B com assimetria de distribuição, acompanhada de irregularidade pleural e consolidações subpleurais. Outras áreas dos pulmões são preservadas, sem alterações. Tipicamente, não há derrame pleural. Regiões B, simétricas, bilateralmente, mais marcadas em áreas dependentes (campos inferiores), eventualmente com derrame pleural associado. Identificado como líquido dentro da cavidade torácica. Mais comum nas áreas dependentes. Pode ou não ter septações. O sinal da cortina (pulmão “apagando” o diafragma nas regiões látero- inferiores na inspiração) descarta a presença de derrame pleural. A presença de deslizamento pleural, linhas B e pulso pulmonar des- carta a presença de pneumotórax na região sendo examinada. Usu- almente, presta-se especial atenção às regiões mais superiores do tórax. O ponto pulmonar é o único achado que confirma o diagnós- tico de pneumotórax. Diversas manifestações são possíveis, mas a principal consideração é em pacientes com pulmão sem alterações e dispneia, especialmente se há fatores de risco. Outros achados são possíveis, como consolidações em cunha e consolidações subpleurais – achados de infarto pulmonar. A obstrução pode ser identificada pelo movimento diafragmático, mas tipicamente o parênquima pulmonar está sem alterações. Pode se manifestar de diversas formas. Pneumonias lobares extensas formam consolidação com broncograma aéreo estático e dinâmico. Pneumonias em fase inicial ou após início do tratamento podem se manifestar de forma mais heterogênea, com irregularidades pleurais, consolidações subpleurais e linhas B confluentes (e com assimetria entre os pulmões). 10ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Figura 2. Abordagem diagnóstica com uso de ultrassom pulmonar de pacientes com dispneia aguda. Adaptado de (5). *Deve-se considerar a posição do paciente; pacientes em decúbito dorsal em 30° são os campos ântero-superiores. **Covid-19: coronavírus disease 2019; SARA: síndrome da angústia respiratória aguda; TEP: tromboembolismo pulmonar. Paciente adulto com dispneia aguda Avaliação de pneumotórax: há deslizamento pleural, linhas B ou pulso pulmonar nas regiões mais elevadas* do tórax bilateralmente? Qual o padrão ultrassonográfico predomintante no pulmão? Caracterizar acometimento Hepatização/volume pulmonar preservado, broncograma aéreo dinâmico, shred sign? Considerar pneumotórax, buscar ponto pulmonar e investigar e manejar de acordo Probabilidade de TEP moderada a alta Investigar. Considerar avaliação de trombose venosa em veias nos membros inferiores. Campos B bilateralmente, simétricas e com linha pleural lisa, em regiões dependentes e/ou derrame pleural bilateral: edema pulmonar Investigar a etiologia e manejar de acordo Diferenciar pneumonia de atelectasia Provável pneumoniaCampos B unilateralmente com pleura irregular com ou sem consolidações subpleurais: pneumonia inicial ou atípica Campos B bilateralmente de distribuição irregular, pleura irregular: SARA, COVID-19 Probabilidade de TEP baixa Possibilidades: broncoespasmo, hipoventilação, pneumonia central (sem contato com a pleura) ou em estágio inicial. Não Sim Linhas A Linhas B Consolidação Sim Não Derrame pleural 11ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Choque Um dos principais desafios no atendimento a pacientes com choque hemodinâmico é a identificação do mecanismo do choque. Enquanto o choque distributivo é a causa mais comum (usualmente por sepse), os choques cardiogênico e hipovolêmico perfazem aproximadamente 30% dos casos e devem sempre ser considerados. Considerando que a ultrassonografia permite a avaliação direta de vários sistemas de forma rápida, ela pode ser utilizada para inferir o mecanismo do choque. Existem alguns protocolos para identificação da etiologia do choque não diferenciado; de uma forma ou de outra, eles avaliam a situação cardíaca, pulmonar e sinais de derrames cavitários. Apresentaremos aquio protocolo Rapid Ultrasound in Shock (RUSH), por ser o mais frequentemente citado e estar apresentado esquematicamente na Figura 3. Esta abordagem é estruturada para avaliar 3 componentes de forma sequencial: bomba (coração), tanque (cavidades e veia cava inferior) e canos (aorta e avaliação de trombose venosa profunda de membros inferiores). Ele parece ter uma elevada concordância com o diagnóstico final da etiologia do choque, com melhor acurácia para identificação do que o choque distributivo e misto. 12ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Figura 3. Resumo esquemático do protocolo Rapid Ultrasound in Shock (RUSH). Adaptado de (8). BOMBA (coração) TANQUE (veia cava inferior, veia jugular interna, pulmão e cavidades pleural e peritoneal) CANOS (aorta, e veias femorais e poplíteas) A) Visão paraesternal, eixos longo e curto B) Visão subxifoide C) Visão apical A) Veia cava inferior, eixo longo B) Quadrante superior direito e espaço pleural C) Quadrante superior esquerdo e espaço pleural D) Pelve E) Pneumotórax, edema pulmonar A) Aorta supraesternal B) Aorta paraesternal C) Aorta epigástrica D) Aorta supraumbilical E) Trombose femoral F) Trombose poplítea O exame é realizado de forma sequencial e foi descrito utilizando o transdutor fásico para avaliação tóraco-abdominal e o linear para avaliação de trombose profunda. • Bomba: realiza-se ecocardiografia focada em busca de achados de disfunção ventricular esquerda, derrame pericárdico e sinais de sobrecarga do ventrículo direito. Avaliam-se 4 visões do coração: subxifoide, paraesternal longa e curta e apical. • Tanque: busca-se avaliar o estado volêmico intravascular. Avalia-se a veia cava inferior, acrescentando-se eventualmente avaliação da jugular, além de avaliar pulmão e cavidade abdominal. Com a avaliação da cava e jugular, estima-se a pressão venosa central; no abdômen, buscam-se sinais de líquido livre (presumivelmente sangramento), e no tórax, buscam-se sinais de derrame pleural e sinais de congestão pulmonar, pneumotórax ou pneumonia. • Canos: observam-se artérias (primeiro) e veias em busca de rupturas ou tromboses. Inicialmente, avalia-se a aorta abdominal para sinais de ruptura ou aneurisma e, após, veias periféricas para sinais de trombose venosa profunda. 13ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS A interpretação dos achados do RUSH está resumida no Quadro 2. Quadro 2. Interpretação do protocolo Rapid Ultrasound in Shock (RUSH). Adaptado de (8). *SIRS: síndrome da resposta inflamatória sistêmica; VCI: veia cava inferior. TIPO DE CHOQUE HIPOVOLÊMICO CARDIOGÊNICO OBSTRUTIVO DISTRIBUTIVO Bomba Canos Tanque Causas comuns Coração hiperdinâmico Câmaras cardíacas pequenas Aneurisma abdominal Dissecção de aorta VCI colapsável Líquido livre pleural e peritoneal (extravasamento) Hemorragia grave, perda gastrointestinal, perda renal, extravasamento para o terceiro espaço Coração hipocontrátil Câmaras cardíacas dilatadas Normal VCI dilatada Infiltração intersticial pulmonar (congestão) Líquido livre pleural e peritoneal Infarto agudo do miocárdio, exacerbação de cardiomiopatia arritmia, doença valvular Coração hiperdinâmico Derrame pericárdico Tamponamento cardíaco Trombo intracardíaco Trombose venosa profunda VCI dilatada Deslizamento pleural ausente (pneumotórax) Tromboembolismo pulmonar, pneumotórax, tamponamento cardíaco, pericardite constritiva Coração hiperdinâmico (sepse inicial) Coração hipocontrátil (sepse tardia) Normal VCI colapsável ou de calibre normal (sepse inicial) Líquido livre pleural e peritoneal (focos de sepse) Sepse e SIRS, neurogênico, anafilático, vasoplegia, insuficiência hepática 14ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Trombose venosa profunda A trombose venosa profunda é um evento comum em pacientes ambulatoriais e hospitalizados. Apesar de não causar diretamente morbidade ou mortalidade na maior parte dos casos, tromboses venosas profundas são a principal etiologia de tromboembolismo pulmonar. Existem escores clínicos para auxiliar na identificação de trombose profunda. Ainda assim, eles são imprecisos, e o fator mais relevante neles é a opinião do médico. Além disso, o exame clínico isolado não é suficiente para confirmar ou excluir o diagnóstico. Logo, a avaliação com ultrassom faz parte da investigação na maioria dos pacientes. Felizmente, a sensibilidade e a especificidade dos exames realizados à beira do leito ultrapassam os 95%. Considerando os pontos acima, faz parte dos recursos dos médicos que realizam POCUS a avaliação das veias profundas dos membros inferiores. Trata-se de uma avaliação com curva de aprendizado relativamente curta, com vantagens adicionais de ter resultados mais rápidos e mais disponíveis do que a avaliação formal por radiologia consultiva. A técnica de avaliação envolve o uso de exame bidimensional nas regiões femoral e poplítea. Deve-se lembrar de avaliar também o segmento final da veia safena, pois, mesmo fazendo parte do sistema superficial, tromboses nessa região têm alto risco de progredir para o sistema profundo. A avaliação do contexto de POCUS dispensa o uso de doppler e pode ser realizada em 2-3 pontos da veia femoral, próximo ao canal inguinal, e 1-2 na veia poplítea, na fossa poplítea. Utiliza-se o transdutor linear, pois ele tem melhor qualidade de imagem para estruturas superficiais e seu formato é mais adequado para avaliar a compressibilidade. Assim, atinge-se acurácia semelhante ao exame formal por radiologistas com tempo de execução mais curto e maior aplicabilidade. Os achados a serem observados são a compressibilidade da veia em seus diferentes níveis e a ecogenicidade de sua luz. Quando há perda da compressibilidade (principal critério) e material ecogênico, o diagnóstico de trombose venosa profunda pode ser realizado. O principal desafio desta avaliação é a diferenciação de linfonodos e cistos de Baker de trombose profunda; a principal forma é varrer e observar se ela se continua com o restante do vaso ou se é uma estrutura arredondada/ovoide. O aspecto do trombo e da veia pode dar dicas sobre a cronicidade do processo: • Trombos agudos são hipoecogênicos, e as veias parecem mais distendidas. • Com a organização e deposição de fibrina, o trombo se torna mais ecogênico. • Após a recanalização, não se enxerga mais o trombo, mas há espessamento da parede da veia. Assim, ela pode perder a compressibilidade mesmo sem apresentar trombose aguda. 15ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Procedimentos guiados por ultrassonografia A ultrassonografia é um exame que permite a observação das estruturas em tempo real, sendo muito útil para guiar a realização de procedimentos. Os principais usos incluem paracentese, toracocentese, acessos vasculares periféricos e centrais, além de punção lombar e punções articulares. De forma global, os estudos indicam redução na taxa de complicações. Curiosamente, a curva de aprendizado é mais rápida do que para procedimentos utilizando marcos anatômicos. Além dessas vantagens, para toracocenteses e acessos venosos profundos, o POCUS pode também identificar, de forma imediata, a presença de pneumotórax. Para isso, deve-se avaliar a presença de deslizamento pleural antes e depois da realização do procedimento. Quanto à técnica, os procedimentos podem ser realizados com orientação estática (marcação) ou dinâmica. No primeiro tipo, usa-se a imagem ecográfica para identificar o melhor local, ângulo e profundidade da punção. Já nos procedimentos dinâmicos, utiliza-se o equipamento para o acompanhamento de todo o procedimento com a ultrassonografia, visualizando-se a agulha de punção em tempo real. Além disso, nos procedimentos com orientação dinâmica, pode-se usar a técnica “no plano” (longitudinal) ou “fora do plano” (transversal).Na abordagem longitudinal, têm-se a estrutura a ser puncionada (usualmente um vaso), o feixe do ultrassom e a agulha no mesmo plano. Como vantagem, essa técnica permite uma avaliação mais dinâmica e com maior certeza na avaliação da profundidade. Por outro lado, a orientação de lateralidade é comprometida e exige mais experiência. Já a abordagem transversal confere uma melhor visão da lateralidade e menor dificuldade para identificar a agulha, mas há risco de perda do acompanhamento da ponta da agulha e, assim, transfixar a estrutura de interesse. A Figura 4 apresenta esquematicamente essas diferentes abordagens. 16ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Cada procedimento tem recomendações técnicas específicas que fogem do escopo deste material para abordá-las. Ainda assim, o posicionamento adequado, a atenção às medidas de prevenção e a garantia de que o ângulo da punção siga o ângulo do feixe do ultrassom são recomendações que se aplicam a quase todos os procedimentos. Para o profissional que pretende realizá-los, deve-se buscar orientações específicas, bem como treinamento e supervisão. Apesar das inúmeras vantagens da realização de procedimentos guiados, na ausência de treinamento específico, o ultrassom gera uma falsa sensação de segurança e pode levar a punções arteriais e complicações devido a erros, especialmente relacionados à profundidade do vaso. Figura 4. Comparação das técnicas no plano e fora do plano para punção de vasos. Extraído de (4). Visão no plano da agulha (eixo longo do vaso) Visão fora do plano da agulha (eixo curto do vaso) A B Haste da agulha Artefato de reverberação Agulha na visão transversal Ponta da agulha 17ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS Este conteúdo foi útil para você? No nosso site, você encontra soluções para continuar se atualizando. Acesse o site e confira as opções de cursos para se aprimorar profissionalmente: www.pos.hcor.com.br + https://pos.hcor.com.br/ 18ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF-CARE (POCUS): FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES CLÍNICAS 1) Díaz-Gómez, J. L., Mayo, P. H., & Koenig, S. J. (2021). Point-of-Care Ultrasonography. New England Journal of Medicine, 385(17), 1593-1602. https://doi.org/10.1056/NEJMra1916062 2) Narula, J., Chandrashekhar, Y., & Braunwald, E. (2018). Time to Add a Fifth Pillar to Bedside Physical Examination: Inspection, Palpation, Percussion, Auscultation, and Insonation. JAMA Cardiology, 3(4), 346- 350. https://doi.org/10.1001/jamacardio.2018.0001 3) Istrail, L. (2021). The POCUS Manifesto: Expanding the Limits of the Physical Exam with Point of Care Ultrasound. ZeromSv Publishing. 4) Moore, C. L., & Copel, J. A. (2011). Point-of-care ultrasonography. New England Journal of Medicine, 364(8), 749-757. https://doi.org/10.1056/NEJMra0909487 5) Marini, T. J., et al. (2021). Lung Ultrasound: The Essentials. Radiology: Cardiothoracic Imaging, 3(2), e200564. 6) Soni, N. J., Arntfield, R., & Kory, P. (2019). Point of Care Ultrasound (2nd ed.). Elsevier. 7) Volpicelli, G., et al. (2012). 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