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Movimentos sociais e o processo educativo no Brasil A construção dos movimentos sociais no Brasil e suas nuances no cenário da educação, da política e da economia. Prof. Nelson Lellis 1. Itens iniciais Propósito Entender como se organizam os movimentos sociais no Brasil é fundamental ao estudante de Serviço Social, pois oferece a possibilidade de interpretar melhor o cenário de um país, suas demandas e possibilidades para avançar em setores como educação, política, sociedade, economia. Objetivos Identificar os principais movimentos sociais no Brasil. Reconhecer as motivações de sistematização e organização do movimento estudantil no Brasil. Analisar as clivagens dos movimentos e das manifestações a partir de redes digitais. Introdução Veremos como se dá o envolvimento de determinados movimentos sociais com a educação e sobretudo, como esses movimentos se posicionaram na história e no contexto brasileiro. A educação é um conceito bem amplo e pode acontecer em ambientes diferentes. Você já deve ter percebido o quanto a formação de um indivíduo pode ocorrer de maneiras bem diversas, pois as formas de educar variam de contexto para contexto. O processo educacional informal está presente em cada parte da sociedade. Além disso, há o processo formal, sistematizado, com metodologias próprias, que ocorrem tanto no setor público quanto no privado. Aqui você terá acesso à interface movimentos sociais e educação, e perceberá como essa relação ocorre no Brasil. Nosso objetivo é responder às questões: de que maneira nascem e se organizam os movimentos sociais? Como identificar um movimento social? Quais os principais grupos que compõem esse quadro crítico na sociedade? De que maneira as redes sociais influenciaram as manifestações? • • • Estudantes protestaram contra os cortes anunciados pelo MEC em todo o país em maio de 2019. 1. Movimentos sociais e educação A relação entre movimentos sociais e educação Inicialmente, é muito importante que saibamos como ocorre a relação entre movimento social e educação. Essa relação é possível dentro das ações práticas de determinados grupos sociais e desses próprios movimentos. E como isso se dá? De duas formas: Na interação com instituições educacionais. No interior do próprio movimento social, uma vez que já existe uma forte identidade educativa em suas ações. Antes de abordarmos melhor as formas supracitadas, outra pergunta se faz necessária neste primeiro momento, diante de um grande preconceito que ainda está presente acerca do tema “movimentos sociais”, devido a um estudo não aprofundado ou por questões ideológicas que distanciam a curiosidade, possibilitando apenas o julgamento de valor. Segue a nossa questão: Esses movimentos surgem para contribuir ou para atrapalhar a formação de indivíduos? Na verdade, o surgimento de movimentos sociais ocorre com atores sociais que percebem que determinados grupos acabam possuindo privilégios maiores do que outros, ou seja, quando o grupo A consegue acessar mais direitos do que o grupo B. Isso pode resultar em passeatas, ações e manifestações nas ruas, a fim de que o governo atente-se para as injustiças apresentadas e considere a reparação. Levando em consideração ao que nos propomos aqui e as duas formas destacadas acima, a Universidade poderia ser identificada como uma articulação entre a atuação do Serviço Social e os movimentos sociais? A resposta é positiva, pois a extensão universitária (GUIMARÃES; MARQUES, 2019) ajuda a lançar sobre a mesa questões acerca do papel da função social da própria Universidade. As ações produzidas pelos movimentos sociais fazem com que a academia insira em sua produção e em sua pauta assuntos que correspondam à agenda de reivindicações desses grupos. Segundo Dalmagro (2016), essa agenda passa impreterivelmente pela formação de uma nova consciência de classe. Com isso, um dos objetivos dos movimentos sociais é pensar a realidade tal como ela é, observando a base na qual os educandos vivem. Esse processo torna-se um grande desafio, pois, para aprofundar os temas sociais que os movimentos desejam discutir, deve-se conquistar uma qualidade maior na esfera da educação, bem como um avanço contra forças que ignoram os objetivos desses grupos: 1. 2. No caso brasileiro, a precarização da escola pública e a propriedade dos meios de comunicação de massa entre as elites são condições indispensáveis para manutenção deste sistema, uma das sociedades mais desiguais do mundo. Com tantas e tamanhas contradições, o controle ideológico e da informação são cada vez mais necessários, o que não dispensa, claro, o uso da força. Nos dois casos temos muitos exemplos como o Projeto de Lei ‘Escola Sem Partido’, a condenação jurídica das greves e a violência policial aos que denunciam e se manifestam contra esta situação. (DALMAGRO, 2016, p. 71-72) O que a autora destaca é que existe um controle ideológico que se utiliza da educação da escola pública e dos meios de comunicação de massa para a manutenção de um sistema excludente que busca não apenas bloquear as informações acerca dessa desigualdade, mas também desinformar. Essa tarefa constante é estabelecida, inclusive, com o uso da força e de projetos capazes de inibir – ou até mesmo vetar – a consciência crítica. Como a educação provém da realidade e das relações que vivemos, mudar a educação seria o mesmo que mudar a realidade social. Os movimentos surgem como expressão das contradições sociais e atuam como importantes pontos educativos ao questionarem as estruturas injustas e a educação que provém delas. Com isso, os movimentos oferecem ferramentas e debates para uma outra, e mais inclusiva, forma de organização da vida em sociedade e também da própria educação. Note, portanto, que o processo educativo não pode ignorar o esforço em fazer com que os indivíduos, independentemente do lugar que ocupam, sejam plenamente participantes da sociedade. E o que isso significa? Que todos têm seus direitos! Portanto, os movimentos sociais também auxiliam a concretizar um dos maiores objetivos da educação: a inserção social de maneira histórica. E por que isso? Pelo simples fato de que a educação é um produto de relações reais e não uma abstração. Precarização da escola pública Confira agora os elementos que marcaram o processo que levou à precarização da escola pública no país. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Movimentos sociais: grupos diversos e suas características Os movimentos sociais foram marcados, sobretudo, por embates contra o autoritarismo – característica de governos que colocavam a democracia e a liberdade em perigo, o que ocorre mais precisamente com a democracia do século XX. Diga-se de passagem, os movimentos sociais começam a se fortalecer a partir da ditadura civil-militar, iniciada em 1964. Mas trabalharemos esse enredo mais adiante. Interessa aqui apresentar algumas das principais características do movimento social. Existem literaturas clássicas que abordam o tema de diferentes pontos de vista. Por um lado, temos pensadores que discutem o assunto produzindo teorias com contornos mais conservadores, como: Angela Davis. Joseph-Marie de Maistre O autor francês é também conhecido pela frase: “Cada nação tem o governo que merece”. Ilustrando e contextualizando a frase acima, poderíamos dizer que as pessoas que compõem o governo nascem do povo, isto é, se grande parcela desse povo é conhecida por sonegar imposto, não emitir nota fiscal no comércio, ultrapassar sinal vermelho no trânsito, “furar fila”, entre outras questões do cotidiano, o que esperar do governo? Gustave Le Bom O autor, com o tema das “multidões”, descreverá como essas camadas populares se comportam, como pensam e como sentem. Sua base materialista e determinista antagoniza com a tradição democrática e de partidos de esquerda, geralmente considerados com transformações socioeconômicas. Gabriel de Tarde O autor, voltado à psicologia coletiva, tratará a questão do público como multidão dispersa. Desenvolverápesquisas sobre como as relações em seu universo micro atingem as esferas macro. Sua teoria e visão da sociedade eram intelectualmente conservadoras. José Ortega y Gasset O autor espanhol tem grande expressão no Brasil, sobretudo na direita política pela semelhança em relação ao pensamento conservador e por propor um modelo aristocrático. A pesquisa de grande parte desses autores aponta os movimentos sociais como ações irracionais com tendência a prejudicar a ordem social. Por outro lado, os movimentos sociais são interpretados como uma articulação entre indivíduos que buscam revolucionar a sociedade fazendo com que o distanciamento entre classes e oportunidades seja menor, bem como a promoção da justiça e o cumprimento devido de leis que garantem os direitos de todos. É possível encontrar esse outro aspecto dos movimentos sociais a partir de Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim, entre outros. Outros pesquisadores surgiram com o tempo diante das demandas sociais reunindo grupos identitários que buscavam (e ainda buscam) realizar uma defesa de grupos minoritários. Esses nomes apareceram não apenas como pesquisadores, mas também militantes de causas raciais e das mulheres, como a filósofa estadunidense Angela Davis, fortemente influenciada pela escola marxista. Ainda nos EUA, tivemos o movimento que deu origem à Parada do Orgulho Gay, em Nova Iorque. O bar Stonewall Inn se tornou cenário de protestos contra preconceito de gênero no final da década de 1960, e fez surgir o movimento LGBT+. No Brasil, temos registros de lutas populares desde o século XVI. Algumas delas são: 1562 Confederação dos Tamoios 1645 Insurreição Pernambucana 1789 Inconfidência Mineira 1896 Guerra de Canudos 1932 Revolução Constitucionalista Na atualidade, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) são exemplos de localidade da luta social no país. É importante que você saiba que, mesmo com esses movimentos, até hoje o Brasil nunca conseguiu efetivar uma reforma agrária eficaz. A própria Constituição Federal trata do assunto das terras, em seu art. 188: A destinação de terras públicas e devolutas será compatibilizada com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária. § 1º A alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com área superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa física ou jurídica, ainda que por interposta pessoa, dependerá de prévia aprovação do Congresso Nacional. § 2º Excetuam-se do disposto no parágrafo anterior as alienações ou as concessões de terras públicas para fins de reforma agrária. (BRASIL, 1988) O número de pessoas sem acesso ao trabalho rural ou à moradia é considerável. Isso faz com que a pauta desses movimentos se torne uma questão emergente. Monumento a Zumbi dos Palmares, Salvador, Bahia. Portanto, você já deve ter notado que os movimentos se organizam de acordo com as demandas que cada povo enfrenta. Isso faz com que seus funcionamentos também sejam diversificados. E não apenas as pautas distintas, mas também o local, bem como sua atividade no tempo histórico ajudam a dar características peculiares ao funcionamento dos movimentos. Questão fundiária no Brasil Confira agora o processo que levou à situação fundiária no país. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Movimentos sociais no Brasil O que constitui um movimento social? A luta pela mesma causa, a maneira de sua organização acerca de uma demanda, a promoção de uma militância social. Em outras palavras: não existe um movimento sem que haja antes uma causa comum. O objetivo de um movimento social é reestruturar a sociedade e incluir, legitimamente, pessoas que não são contempladas com direitos, que não foram reconhecidas em seus direitos ou que têm sido desrespeitadas em seus direitos. No Brasil, existem diversos movimentos sociais, como aqueles que levantam a bandeira do feminismo. No período colonial do Brasil (1500-1822), as mulheres eram consideradas propriedade de seus pais, irmãos, maridos. A luta das mulheres poderia, de certa forma, ser resumida ao direito à educação, à vida política, ao divórcio e acesso ao mercado de trabalho. Já durante o Império (1822-1889), as mulheres passaram a ser reconhecidas em seu direito à educação. Para isso, vale lembrar o nome de Nísia Floresta, que fundou a primeira escola para meninas no país, além de ser ativista da emancipação da mulher na sociedade, uma vez que o cenário à época ainda proibia mulheres na vida política (o sufrágio feminino ocorreu no governo de Getúlio Vargas, em 1932; já a candidatura plena de mulheres, apenas na Constituição de 1946). A partir da década de 1960, outros elementos foram incorporados na pauta do movimento, como: métodos contraceptivos, equiparação salarial entre homens e mulheres, saúde preventiva, proteção contra violência doméstica, discussão sobre assédio, descriminalização do aborto, entre outros. O movimento negro também está presente no Brasil, ainda que de forma praticamente clandestina, desde o período escravagista. Um dos personagens mais conhecidos nessa luta foi Zumbi dos Palmares. Apenas em 1888 a Lei Áurea surgiu como resultado de todo esse esforço, encerrando, ao menos documentalmente, o período escravagista. Após essa lei, outro problema é somado à questão do preconceito: a desigualdade. Como sobreviver em uma terra em que nada se possuía senão a força de seu trabalho? Um importante nome que deixou pesquisas substantivas sobre o assunto é Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, em 1944, fazendo com que outros intelectuais brancos se aproximassem, como os sociólogos Alberto Guerreiro Ramos e Roger Bastide. Vejamos alguns outros exemplos de movimentos sociais pelo Brasil (CÂMERA DOS DEPUTADOS, 2022): Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Movimento Popular de Saúde (Frente Nacional contra a Privatização da Saúde) Movimentos Antirracistas Movimentos Ambientalistas (WWF, Greenpeace, entre outros) Movimentos de união de comunidades e periferia (Nós do Morro) Movimentos de luta contra a homofobia (LGBTQIA+) Podemos perceber a variação de temáticas acima, como: questão social, de gênero, intolerância, raça, território etc. Torna-se relevante enfatizar que existem, em meio a esses movimentos, projetos que visam contribuir na qualificação de suas organizações. E será que o Brasil tem mesmo necessidade de movimentos como esses? Cada país possui uma realidade que possibilita o surgimento de grupos a fim de lutarem por seus direitos e por pautas que lhes sejam comuns. No Brasil, por exemplo, existem medidas políticas que buscam minimizar a exclusão social, econômica e cultural. São as ações afirmativas. O objetivo das ações afirmativas é atacar o problema da discriminação a indivíduos que pertencem a grupos que sofrem algum tipo de preconceito, desigualdade etc. Elas contemplam grupos que possuem, no processo histórico, a marca da discriminação, como questões raciais, religiosas, étnicas, de gênero. Portanto, a finalidade das ações afirmativas é combater a desigualdade e garantir ao indivíduo o acesso a quaisquer posições na sociedade. Nesse caso, para fortalecer tais ações, temos as comunidades e os movimentos de gênero, de etnia, de cor. Por fim, para responder à questão acima precisaríamos lançar outra pergunta: será que todos esses grupos teriam condições de acessar determinados direitos básicos, como saúde, educação, cultura, da mesma maneira que outros, se não fossem os auxílios característicos das ações e dos movimentos já mencionados? Existem grupos que acreditam e defendem a meritocracia, em que o sucesso profissional e pessoal de alguém depende exclusivamente de seu mérito e esforço próprios. Para pesquisadores como Chaves (2017), Sandel (2020), entre outros, a meritocracia é avaliada a partir de critérios não apenas de desempenho ou qualificações, mas sobretudo pelas fragilidades sociais históricas em que podem ser notadas as influênciasculturais, econômicas e políticas. O movimento negro no Brasil Confira agora o processo de desenvolvimento do movimento negro no Brasil e suas particularidades. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 No Brasil, existem diversos movimentos sociais com demandas distintas. Todavia, é importante que saibamos como se constitui um movimento social. Entre as alternativas a seguir, quais correspondem às características que sistematizam a organização de um movimento? • • • • • • I. Promoção de uma militância em torno de uma causa. II. Luta por direitos iguais. III. Organização a partir de uma demanda social. IV. Pertencer à mesma classe social. V. A luta por uma causa comum. A Somente estão corretas as alternativas I, II, III. B Somente estão corretas as alternativas I, III, IV. C Somente estão corretas as alternativas I, IV, V. D Somente estão corretas as alternativas I, II, III, V. E Somente estão corretas as alternativas I, III, IV, V. A alternativa D está correta. Quatro alternativas das cinco apresentadas estão corretas, pois trazem características que sistematizam a organização dos movimentos sociais. A luta pela mesma causa, a maneira de sua organização acerca de uma demanda, a promoção de uma militância social. Em outras palavras: não existe um movimento sem que haja antes uma causa comum. Nesse sentido, está incorreta a opção em que há necessidade de que todos os membros de um movimento social sejam da mesma classe. Alguém que tenha melhores condições financeiras, por exemplo, pode ajudar, inclusive, a financiar determinados movimentos. Questão 2 Os movimentos sociais não possuem características fixas. Existem diferentes autores que abordam o assunto. Entre eles, pensadores mais conservadores que entendem que os movimentos sociais ou até revolucionários podem ser danosos a um país. Aponte a alternativa que indique um desses autores. A Karl Marx. B Norbert Elias. C Max Weber. D Émile Durkheim. E Gustave Le Bom. A alternativa E está correta. Existe também uma visão conservadora que entende tais movimentos como um perigo iminente, capazes de perturbarem a ordem vigente por meio de ações irracionais. Pensadores que enxergam os movimentos sociais desta maneira são Joseph de Maistre, Gustave Le Bom, Gabriel de Tarde e José Ortega y Gasset. Campanha da UNE “O Petróleo é Nosso”, em 1946. 2. Movimentos sociais na emancipação do movimento estudantil O movimento estudantil Confira agora o processo de desenvolvimento do movimento estudantil no Brasil e suas particularidades. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Antes de falarmos sobre o movimento estudantil no Brasil, é importante que registremos brevemente o que o antecede como cenário político. Na primeira década do século XIX, foi criado o primeiro curso superior no Brasil com a chegada da Família Real. Era comum que nessa época o estudo fosse acessado apenas por determinado grupo da sociedade. No século seguinte, com o aumento populacional, a presença da industrialização e o desenvolvimento das cidades, a demanda de estudantes também aumentou. Já em 1901 foi criada a Federação dos Estudantes Brasileiros. Nove anos depois, na cidade de São Paulo, foi sediado o I Congresso Nacional de Estudantes. Esses movimentos estudantis possibilitaram a organização coletiva de jovens que traziam em suas discussões, igualmente, pautas que envolviam questões sobre o país. Na década de 1930, o assunto “política” começou a fazer parte com mais força entre as organizações. Citamos duas delas nesse período: a Juventude Comunista, por um lado, e a Juventude Integralista, por outro. A Juventude Comunista tinha esse nome porque os membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) se reuniam inicialmente de forma clandestina. Dessa organização nasceu a União Nacional de Estudantes (UNE). Ao contrário do que se possa pensar, a UNE nunca foi um aparelho dos comunistas, conforme demonstra pesquisa de Rodrigues e Mattos (2014). Por outro lado, a Juventude Integralista (Levante Integralista) defendia a extinção dos partidos e a queda de Getúlio Vargas. Além dessa pluralidade de propostas, existia o interesse em formar uma entidade representativa dos estudantes a fim de defenderem a justiça social, a qualidade do ensino e similares. Em 11 de agosto de 1937, esse grupo passou a existir como União Nacional de Estudantes (UNE) durante reunião do Conselho Nacional de Estudantes, que ocorreu na Casa do Estudante do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. A partir de então, a UNE passou a frequentar congressos em diferentes lugares do país buscando articulação com ideias progressistas. O primeiro presidente eleito da UNE foi o gaúcho Valdir Ramos Borges, no dia 22 de dezembro de 1938, ao término do II Congresso Nacional dos Estudantes. Valdir também foi advogado e último ministro da Fazenda de João Goulart. A UNE acompanhou o surgimento da Segunda Guerra Mundial, entre os anos 1939-1945, e posicionou-se contra o nazismo de Adolf Hitler. Getúlio Vargas foi pressionado a confrontar grupos brasileiros fascistas, integralistas e demais apoiadores da ideologia que assolava a Alemanha. Nessa época, chegaram a ocupar a sede do Clube Germânia, da cidade do Rio de Janeiro, frequentado por militantes nazifascistas. Vargas concedeu a mesma sede à UNE, tornando esta entidade, pela lei nº 4080 (de 3 de fevereiro de 1942), representação legítima dos universitários brasileiros. Após esse período, a UNE ajudou a fortalecer e a protagonizar o movimento social brasileiro pela defesa do petróleo com a campanha “O Petróleo é Nosso”, até a criação da Petrobras, em 1953. Mediante tantas mudanças no cenário político, com a renúncia de Jânio Quadros (1961) e a posse de João Goulart, a UNE precisou transferir sua sede para Porto Alegre, onde realizou a Campanha da Legalidade, um movimento de resistência que tinha por finalidade garantir a posse de João Goulart. Esse período foi também de muita tensão, uma vez que militares tentavam impedir/intimidar as ações da UNE. Um ano depois, a UNE formou a Frente de Mobilização Popular, que defendia mudanças estruturais no Brasil; entre elas, a reforma nas universidades, a fim de ampliar o acesso à educação superior. Já em 1964, José Serra, então presidente da UNE, discursou na Central do Brasil defendendo reformas sociais. Tal comício foi um dos eventos que antecedeu o golpe civil-militar no país. No início da ditadura, em 1964, após a deposição do presidente João Goulart, da noite de 31 de março para 01 de abril, a sede da UNE no Rio de Janeiro foi metralhada e incendiada. A Lei Suplicy de Lacerda foi implementada e retirou a legalidade da representatividade da UNE. Como consequência, universidades passaram a ser vigiadas. Intelectuais e artistas que divulgassem, lecionassem e pregassem quaisquer ideias que não as vigentes pela ditadura poderiam sofrer repressão. Com esse monitoramento, a UNE passou a realizar congressos clandestinos. Dos personagens do movimento estudantil Os movimentos são feitos por pessoas. Por isso, a importância de reconhecê-las em seus ambientes de trabalho e os pensamentos que as motivaram enquanto militantes no movimento estudantil. Para isso, vamos destacar nomes importantes nesse processo, tendo como objetivo principal observar como a questão da educação – com suas demandas – está ligada diretamente à trajetória de cada um. Arthur José Poener Formado na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), começou sua jornada como repórter em 1962 e foi diretor da Folha da Semana, um semanário do PCB. Em 1968 já trabalhava como repórter para o Correio da Manhã utilizando o pseudônimo de Marco Antônio. Neste período foi dada a notícia sobre o Ato Institucional nº 5, que teve como consequência, além de outras ações como censura, tortura e mortes, a invasão de militares em redações de jornais. Em abril de 1970, Poerner foipreso na redação do Correio da Manhã. Exilou-se na Alemanha e retornou para o Brasil, após a anistia, em 1984. Cacá Diegues Cineasta brasileiro que se reunia com outros jovens em torno do Centro Popular de Cultura da UNE. Um dos objetivos era discutir a sétima arte. Junto dele, outros nomes como: Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar. Comba Marques Porto Iniciou sua militância no movimento estudantil em 1967 – mesmo ano em que se filiou ao PCB, por influência de seu companheiro Raulino Aquino. Ingressou na Faculdade Nacional de Direito em 1971 e reorganizou o movimento estudantil buscando se alinhar com o pensamento de seu partido, tendo como prioridade a política de massas. Como consequência dessa reorganização, foi elaborada a representação estudantil com o Conselho de Representantes de Turma. Também fez parte do movimento feminista do Rio de Janeiro até a década de 1990. Foi membro do Conselho Nacional da Mulher e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 1992. Daniel Aarão Reis Iniciou sua militância política pelo PCB em 1965 juntamente com estudantes universitários. Foi preso no período da ditadura civil-militar por causa de sua atuação no movimento estudantil. Assumiu a presidência da União Metropolitana dos Estudantes (UME) e também militou no Movimento Revolucionário em 1969. Exilou-se na Argélia e retornou ao Brasil no início da década de 1980, quando filiou-se ao PT, fazendo parte de um diretório regional. Em 2000 lançou o livro Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedade, que discute como as ditaduras nascem de cima para baixo, com forte discurso de elites, entre outras questões similares. Marcelo Cerqueira Filiou-se à Juventude Comunista em 1957 e foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura e da revista Movimento da UNE. Foi vice-presidente da UNE em 1964 e exilou-se na Bolívia, Chile e Europa no período da ditadura civil-militar. Ao retornar ao Brasil um ano depois foi preso. Advogou para pessoas que foram processadas pela Lei de Segurança Nacional sem cobrar honorários. Em 1978 candidatou-se, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB – sendo um dos fundadores) como deputado federal e venceu. Filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e foi secretário geral. José Gomes Talarico Iniciou sua trajetória como jornalista em 1933 e participou da UNE, que realizava, na época da Segunda Guerra Mundial, movimentos antifascistas. Filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e também se candidatou como deputado federal, exercendo seu mandato, pela primeira vez, nos anos de 1956 e 1957. Talarico apoiou João Goulart em sua posse, bem como após o golpe militar. Teve, por consequência de tais ações, seus direitos políticos e seu mandato cassados (conforme Ato Institucional nº 1). Certamente, você deve ter percebido o envolvimento político desses personagens. A verdade é que todos eles caminham tendo como elo a informação sobre as reais demandas da sociedade e da ação, que se revela com a postura política na sociedade. Campanha da UNE “Fora Collor”, em 1992. A UNE, portanto, tem em seu histórico a participação de pessoas que entenderam que a luta por uma melhoria na educação se faz por meio de um movimento político que começa com esse conjunto de estudantes e passa pela formação crítica a fim de alcançar a concretização de suas pautas no setor que realmente pode modificar algo na sociedade: o setor político. A UNE após a Constituição de 1988 Movimento estudantil, esquerda e democracia Confira agora como o movimento estudantil esteve ligado à luta pela democracia no país, ao mesmo tempo que aos regimes e ideologia de esquerda não democráticas no mundo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Certamente você percebeu que o movimento estudantil esteve ligado às questões sociais no Brasil. Isso ocorre por um motivo muito simples, conforme já sinalizamos: todos os movimentos nascem a partir de uma pauta, uma demanda na sociedade. A partir dessa pauta comum, pessoas se reúnem para defendê-la. Em alguns casos, determinados membros desse movimento iniciam trajetória em partidos políticos porque também entendem que a estrutura só é modificada a partir de leis, decretos e similares. É no setor político que as transformações acontecem realmente. Vimos também que personagens ligados à UNE se colocaram contra a ditadura civil-militar, uma vez que esta impossibilitava uma educação emancipadora. Outro cenário que ajuda a compreender o avanço do movimento estudantil é seu envolvimento com bandeiras que buscaram a democracia no país. Após a ditadura, a UNE esteve presente na campanha das “Diretas Já” – movimento que visava à retomada das eleições diretas para o cargo de presidência da República. Além disso, posicionou-se contra Fernando Collor de Melo anos depois por este não defender as pautas historicamente presentes em movimentos sociais. O movimento dos estudantes também lutou contra o neoliberalismo e a privatização de patrimônios nacionais na época de Fernando Henrique Cardoso. Esse foi um período de pouco diálogo entre a UNE e o Poder Executivo. No setor da educação, houve uma forte tentativa de mercantilização, sucateamento de universidades públicas e forte investimento em instituições privadas – o que levou a UNE a criticar as mensalidades altíssimas. Dando um grande salto na história, em 2002 houve uma coalização entre forças populares e o apoio do movimento de estudantes ao candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva. Durante seu mandato, o diálogo com os estudantes retornou com o Governo Federal, possibilitando o avanço de reivindicações e aumentando o número de alunos no ensino superior. O debate junto ao Governo Federal abriu as portas para a criação de importantes programas como o ProUni (programa que garante bolsas de estudo em universidades privadas para alunos de baixa renda), pela Lei nº 11.096/2005, e Reuni (programa que aumenta vagas em universidades públicas). Nona edição da Bienal da UNE, em 2015. Você deve se lembrar que falamos da sede da UNE que fora demolida por militares. Em 2007, houve uma grande manifestação e estudantes ocuparam o terreno da sede que estava sendo utilizado como estacionamento. A Justiça concedeu a posse do local à UNE e o reconhecimento do Congresso Nacional. Para além dessas questões, a UNE ampliou seu foco de atuação neste novo milênio por meio de temáticas na área do esporte e da tecnologia, questões de gênero, de cor, de ecologia, entre outros grupos. Qual o resultado dessa ampliação? A integração de grupos diferenciados que articulam ações sociais a partir de outros movimentos ajudaria a aumentar a força popular e a democratização no país. No plano internacional, a UNE tem papel fundamental na Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (OCLAE). E o que seria essa organização? É uma maneira de conectar jovens estudantes de países do continente diante de uma pauta comum, observando suas peculiaridades e compartilhando ferramentas para o avanço de conquistas do movimento. A UNE também apoiou a candidatura de Dilma Rousseff, que fora militante estudantil, tornando-se a primeira mulher a ocupar a presidência da República no Brasil. Nesse período, o movimento testemunhou a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Juventude no Congresso Nacional. Em 2014, apoiou a então presidente à reeleição. Um ano depois, realizou a nona edição da Bienal com eventos na Fundição Progresso, no Circo Voador, além de shows abertos no palco livre dos Arcos da Lapa. O que ainda podemos dizer dessa abertura da UNE? Todos esses aspectos demonstram a pluralidade do movimento estudantil em diálogo crescente com movimentos sociais. Tudo isso revela que a identidade desse trabalho de estudantes não se restringe apenas à qualidade no ensino, a uma ampliação de vagas e maior oportunidade de entrada de estudantes no ensino superior, mas, também, que a educação é um importante lugar para encontro dos diferentes movimentose da conscientização política – em seu espectro macro. Verificando o aprendizado Questão 1 O movimento estudantil no Brasil, bem como os demais movimentos sociais, passou por diversas fases. Muitas foram as propostas que circundaram a formação de um movimento representativo dos estudantes. O que surgiu em 11 de agosto de 1937, como fruto da reunião do Conselho Nacional de Estudantes, e realizou-se na Casa do Estudante do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro? A Partido dos Estudantes Brasileiros (PEB). B Associação Brasileira de Estudantes (ABE). C União Nacional de Estudantes (UNE). D Confederação Estudantil Nacional (CEN). E União Federativa dos Estudantes (UFE). A alternativa C está correta. O movimento estudantil criado em 11 de agosto de 1937, no Rio de Janeiro, na sede do Conselho Nacional de Estudantes, realizada na Casa do Estudante do Brasil, ficou denominado UNE (União Nacional dos Estudantes). A partir de sua criação, o movimento passou a ter presença em vários estados do Brasil. Em 1938, a UNE elegeu o seu primeiro Presidente: Valdir Ramos Borges, no dia 22 de dezembro de 1938. As demais denominações e siglas que aparecem nas opções não correspondem aos movimentos de estudantes no Brasil. Questão 2 Cada movimento social é organizado a partir de uma luta, de uma causa, de uma demanda real na sociedade. Aponte as alternativas que correspondem à luta do movimento estudantil no Brasil. I. Contra a criação de importantes programas como o ProUni. II. Contra a privatização de patrimônios nacionais. III. Contra o sucateamento de universidades públicas. IV. Contra o neoliberalismo. V. Contra a mercantilização da educação. A Somente estão corretas II, III, IV, V. B Somente estão corretas I, III, IV, V. C Somente estão corretas I, II, IV, V. D Somente estão corretas I, II, IV. E Somente estão corretas I, III, IV. A alternativa A está correta. A história do movimento estudantil no Brasil perpassa a luta contra os efeitos e consequências do neoliberalismo, entre elas o sucateamento das Universidades Públicas, a expansão da privatização de patrimônios nacionais e o mercantilismo educacional. O movimento estudantil acompanhou de perto a criação de importantes programas, como o ProUni, sempre apoiando essas iniciativas sociais, pois foi uma grande resposta e conquista estudantil. Manifestação contra a ditadura militar no Rio de Janeiro, 1968. 3. Movimentos sociais e seu papel político na sociedade O engajamento na esfera política Embora o foco até aqui tenha sido os movimentos estudantis, a partir de agora discutiremos, de forma mais abrangente, a presença de diferentes movimentos e seu engajamento na esfera política. Qual seu papel? Que tipo de contribuição têm dado para o país? Tomemos como início o cenário da ditadura civil-militar, em que não só o movimento estudantil (CARVALHO, 2004) esteve presente, mas também a classe operária, sindicatos, Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais. Conceito de equidade na sociedade brasileira Confira agora como se desenvolveu o conceito de equidade no país. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Por que retomar esse período? Porque tratava-se de uma sociedade marcadamente excludente, com baixíssimo índice de participação política da população brasileira. A efervescência dos movimentos sociais (GOHN, 2011) ocorreu exatamente nesse cenário, pois aquela sociedade propiciou críticas e organização de pessoas diante das demandas reais. Houve retirada de direitos, censura, restrição de informação em escolas e universidades, cooptação de igrejas pela ideologia autoritária etc. O papel dos movimentos nesse contexto foi essencial para sinalizar os pontos críticos e urgentes. Além disso, a contribuição dos movimentos sociais também teve eco na nova Constituição Federal de 1988, na defesa de direitos essenciais à população brasileira, sobretudo na defesa dos valores de um Estado democrático de direito. O século XX também foi palco para o movimento indígena, que trazia pautas importantes, tais como: reconhecimento dos valores religiosos, culturais e tradição. Essa luta culminou em debate sobre o direito dos indígenas e inserção na Constituição de 1988. Percebe como esses movimentos influenciaram – e ainda influenciam – a política nacional? Cada um possui sua identidade e discurso em que se tenta avolumar as discussões e decisões políticas. Trata-se de uma participação efetiva da sociedade nesses blocos com a finalidade de afetar diretamente o direcionamento do país. E vale lembrar que o Estado Democrático de Direito ganhou força com a promulgação da Constituição Federal de 1988, um período de vasto crescimento de ONGs e movimentos sociais distintos. Os movimentos que emergiram na década de 1990 são fruto de outros movimentos, como: Movimento de mulheres Luta se estabelece mediante um cenário de autoritarismo do Estado, bem como de uma sociedade machista. Movimento negro Luta se estabelece mediante preconceito de cor, de classe, violências contra negros, dificuldades no acesso ao ensino superior. Movimento LGBTQIA+ Luta se estabelece mediante preconceito de gênero, violências (homofobia), direitos iguais. Movimento indígena Luta se estabelece mediante a necessária discussão sobre etnia, demarcação de terra, valores, ancestralidade etc. Além desses grupos, existiriam outras contribuições para essa formação dos movimentos? Para Guimarães (2009), existem cinco tradições que também auxiliaram nessa organização: Comunitarismo cristão (com as CEBs) Nacional-desenvolvimentismo Socialismo democrático Liberalismo republicano Cultura popular Essas tradições não apenas abriram as portas para a criação de movimentos como fortaleceram e fomentaram as ideias que fariam parte da formação de suas consciências. E o que podemos afirmar quanto a esses movimentos e seu papel político na sociedade? Vejamos alguns pontos: Consciência crítica, não de forma isolada, mas comunitária, que exerce seus direitos em rede nacional com um ideário político. 1. 2. 3. 4. 5. • Planejamento com participação popular por defesas com efeito constitucional para consolidação do Estado Democrático de Direito. Aprimoramento da democracia, uma vez que se trata de uma educação democrática inclinada ao exercício da cidadania, da participação inclusiva e efetiva de grupos distintos da sociedade. Revisão da relação entre educação, cidadania e participação política. Portanto, o papel político de movimentos sociais no Brasil tende a produzir, primeiramente no indivíduo, uma consciência de cidadania, como compreensão de luta de classes; em segundo lugar, uma mudança estrutural a partir de leis que garantam direitos e equidade. Há que se fazer uma distinção entre igualdade e equidade. A igualdade aponta para a universalidade das regras, ou seja, todos possuem os mesmos direitos e deveres. Quanto à equidade, existe o reconhecimento de que a sociedade possui indivíduos que não estão em condições de igualdade e, por isso, deve-se ajustar esse desequilíbrio. Os críticos sobre o conceito de equidade na sociedade brasileira dirão que as oportunidades são as mesmas para todos e que se deve zelar pela meritocracia, ou seja, pelo esforço próprio. Por outro lado, os movimentos sociais demonstram exatamente o contrário: nem todos possuem o mesmo ponto de partida. Por isso, deve- se lutar para que todos tenham garantidos seus direitos e suas oportunidades. Movimentos sociais na contemporaneidade Crise do capitalismo neoliberal e partidos políticos Confira agora sobre como a crise do capitalismo neoliberal relacionou-se com os partidos políticos no Brasil no início do século XXI. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Neste atual cenário, é imprescindível tratarmos do tema movimentos sociais ligado aos assuntos das crises política e econômica no Brasil. E por que realizar esse link entre os assuntos? Você já deve ter percebido a forte ligação dos movimentossociais com as pautas da esquerda no Brasil; todavia, a gestão da economia do governo do PT não alterou substantivamente a política econômica de Fernando Henrique, do PSDB. Como, por exemplo, foi mantida a política de exportação de produtos agrícolas, especialmente trigo e soja, e de minério, produtos primários que sofrem forte influência de preço do mercado mundial. Além disso, os lucros do capital financeiro e especulativo foram mantidos. • • • Campanha da UNE “Cotas abrem portas”, em 2022. Embora mantendo uma política econômica neoliberal, foram implementados ou ampliados inúmeros mecanismos de distribuição de direitos sociais e políticas públicas, como o Bolsa Família, ampliação do Fundef para Fundeb, renovação do ENEM e de novas universidades federais, implementação do sistema de cotas. Ainda que o salário-mínimo tivesse aumentos reais, bem como acesso ao crédito para investimento, estimulando a economia nacional com a participação de trabalhadores de algumas categorias, além de aumento no Produto Interno Bruto (PIB) em relação ao governo anterior, tais iniciativas não contemplaram de maneira satisfatória a massa dos trabalhadores. E por quê? Os empregos formais conquistados no país encontravam-se no setor de terceirização, com condições de trabalho que não priorizavam, por exemplo, remuneração condizente. Por outro lado, o país observou a ação do governo federal, à época, em ampliar o número de vagas no ensino superior. Isso também ocorreu em escolas técnicas e no ensino médio. No setor da saúde, foram realizados convênios para melhorias em hospitais públicos. Todavia, mesmo com o avanço em alguns setores, a massa de empregos foi caracterizada, sobretudo, pela remuneração não condizente ao trabalho. E o que podemos afirmar empiricamente sobre essas informações? Mesmo com o investimento do governo federal, e sua atuação mais enfática nas chamadas políticas sociais, não podemos garantir que as desigualdades provenientes do modelo neoliberal foram totalmente eliminadas. Podemos também registrar o aumento de greves e manifestações nas ruas realizadas por trabalhadores. Uma pesquisa (TATAGIBA; GALVÃO, 2019) associa o contexto de crise do capitalismo neoliberal, inaugurado em 2008, às especificidades do arranjo político engendrado no Brasil pelo PT, baseado na conciliação de classes, sem enfrentamento com o grande capital. Quanto às motivações dos movimentos e suas possíveis raízes, também avaliam que os protestos evidenciam: As queixas de um conjunto muito diverso de atores sociais e uma conflitividade social crescente que extrapola a capacidade de incorporação política da coalização social capitaneada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. (TATAGIBA; GALVÃO, 2019, p. 72) As autoras encontram correspondências empíricas no levantamento anual dos protestos no país. Veja o quadro abaixo: Ano Número de protestos 2011 108 2012 260 2013 445 Ano Número de protestos 2014 147 Tabela: Protestos no Brasil entre os anos 2011 e 2014. Tatagiba; Galvão, 2019, p. 70. Segundo a pesquisa em referência, 48,5% dos trabalhadores reivindicavam melhorias salariais, e; de todas as razões para as manifestações, as duas primeiras foram: a crítica ao “governo e sistema político” (25,2%) seguida por “salário e condições de trabalho” (17,6%) (TATAGIBA; GALVÃO, 2019, p. 78). Em relação às manifestações sobre salário e melhores condições de trabalho, os Sindicatos, associação responsável por constatar e resolver problemas de trabalhadores, possuíam 44% de confiança da população nos anos 2011 e 2012 e, no ano seguinte, 37% – números que apresentam certo descrédito e justificam a presença de trabalhadores em manifestações. Esses dados apontam que, além da ocupação criativa dos espaços, os movimentos sociais, embora tenham ligação histórica com o posicionamento progressista, não deixaram de se manifestar durante o período em que o PT esteve ocupando o Poder Executivo. Ocupação criativa dos espaços Alguns autores apontam que a participação de movimentos sociais em arenas participativas é um ponto importante de defesa de causas e influência em políticas públicas. Diversas pesquisas apontam a proliferação de dinâmicas participativas e arenas deliberativas desde a Constituição de 1988. O que, por fim, podemos ainda destacar desse atual cenário? Maior avanço de coletivos, como um movimento de diferentes artistas (teatro, música, artes plásticas, dança etc.), além da existência de um ativismo virtual (em redes como Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp), descentralizado de movimentos organizados. Movimentos sociais e as redes sociais Confira agora como as redes sociais se tornaram instrumento de mobilização social. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Como dito, temos visto um avanço nos protestos por meio de redes sociais por grupos distintos da sociedade: artistas (no setor da música, do teatro, das artes plásticas), personalidades negras, LGBTQIA+, mulheres, entre outros. Inclusive, existem atividades de protestos organizadas hoje por meio de redes sociais. Um dos autores que trabalham com redes é Manuel Castells (2013). Ele apresenta razões que motivam movimentos sociais, além da pobreza e corrupção. Argumenta sobre a importância dos aspectos emocionais como o entusiasmo, o medo, a raiva, que estão relacionados com a busca da justiça. Outro fator é a informação que os grupos têm de outras formas de governo pelo mundo, gerando autorreflexão e possibilitando associar tais sistemas políticos à realidade brasileira. Considerando outros aspectos, Castells aprofunda as questões de partilha de sentimentos coletivos – de onde pode surgir um novo modelo de participação cidadã. Manifestação em Brasília, em junho de 2013. No caso específico do Brasil, temos, historicamente, o fenômeno das chamadas Jornadas de Junho, de 2013. As manifestações no Brasil serviram para confirmar a importância das redes sociais para o debate político e mobilização de grupos. Castells difere os grupos de 2013 daqueles que foram às ruas em 2015, embora tivessem utilizado o mesmo mecanismo para se organizarem: a internet. O sociólogo afirma que a internet ajudou a subtrair o monopólio das informações dos partidos políticos e mídias tradicionais. Esse fato amplificou as trocas de informações (muitos no Brasil utilizam o espaço virtual a fim de promoverem grupos de estudo ou de partilha de informação com pessoas do mundo inteiro). A participação dos cidadãos nas decisões políticas por meio de sites como Cidade Democrática, o Vote na Web e portal e-Democracia, além do lançamento de consultas públicas. (AZEVEDO, 2014, p. 153) Por isso, considera-se que as novas gerações estão crendo cada vez menos no valor supremo ofertado pelo modelo pregado por políticos, pela igreja e pela família – ainda que no Brasil a igreja permaneça uma instituição muito influente. Por esse viés, haveria uma plataforma repleta de informações, mas uma ausência notória de referência. Essa ausência de referência seria uma das marcas que levou os jovens às ruas em junho de 2013 – o que fora considerado uma espécie de renascimento de alguns movimentos sociais urbanos (SANTOS, 2017, p. 262). Ligado ao tema da ausência de referências está o distanciamento destes grupos específicos e minoritários de religiosos às suas instituições sagradas, refletindo, de resto, a tendência de descrédito da maioria das instituições. As redes sociais, então uma novidade, não seriam apenas ferramentas para contatos e relações entre amigos/contatos, mas sim de construção e reconstrução da realidade: buscam articular a teoria do confronto político à teoria marxista, associando economia e política, classe e outros pertencimentos, trabalho e movimentos sociais, o nacional e o global. (TATAGIBA; GALVÃO, 2019, p. 64) Nesse sentido, associam o contexto de crise do capitalismo neoliberal inaugurado em 2008 às especificidades do arranjo político engendrado no Brasil pelo PT, baseado na conciliação de classes, sem enfrentamento como grande capital. Quanto às motivações dos movimentos e a suas possíveis raízes, também avaliam que os protestos evidenciam queixas da coalizão capitaneada por Lula. Em síntese, pode-se considerar que o fenômeno verificado no Brasil em 2013 guarda similitudes e diferenças com o conjunto de protestos que sacudiu o mundo no período correspondente. Trata-se de um fenômeno ultrafragmentado em sua composição e em suas demandas, bem como hostil às instituições típicas das democracias representativas – não apenas as que compõem o aparato estatal, como governos e Parlamento, mas também as que se situam, por assim dizer, no polo da sociedade civil, como sindicatos, associações e imprensa. Verificando o aprendizado Questão 1 Para o autor Juarez Guimarães Rocha (2009), a formação de movimentos sociais também foi auxiliada por alguns importantes vetores. Entre eles, estão: I. Comunitarismo cristão (com as CEBs). II. Nacional-desenvolvimentismo, com menor participação do Estado. III. Socialismo democrático. IV. Liberalismo republicano. V. Cultura popular. A Estão corretas somente I, II, III. B Estão corretas somente I, III, IV, V. C Estão corretas somente I, II, III, IV. D Estão corretas somente I, III, IV, V. E Estão corretas somente I, II, IV. A alternativa B está correta. Muitos são os fatores que auxiliaram a formação dos movimentos sociais e muitos são os autores que se debruçaram nas pesquisas para que esses fossem levantados. Para Juarez Guimarães Rocha (2009), em seu livro Culturas brasileiras de participação democrática, cinco desses fatores são essenciais: comunitarismo cristão (com as CEBs); nacional-desenvolvimentismo; socialismo democrático; liberalismo republicano; cultura popular. Questão 2 Castells é um dos importantes sociólogos que discute as redes sociais. O autor apresenta uma nova característica que motiva a organização de movimentos sociais. Indique a alternativa que considera essa outra razão. A Pobreza. B Corrupção. C Pauta comum. D Demanda que represente o sujeito socialmente. E Aspectos emocionais (entusiasmo, medo, raiva). A alternativa E está correta. Os movimentos sociais, bem como tantas outras questões sociais, são um grande e extenso objeto de estudo e de pesquisa. Nesta temática, também está inserida a reflexão acerca das redes sociais.Um dos autores que se dedicam a este campo é Manuel Castells, que em seu livro Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (2013) apresenta o quanto os movimentos sociais, para além de outras motivações, podem usufruir das redes sociais na busca da justiça social, incluindo a relação com os aspectos emocionais como o entusiasmo e o medo. 4. Conclusão Considerações finais Chegamos ao final desse assunto tão importante e tão cheio de complexidades. Há aqueles que defendem e até fazem parte de coletivos, movimentos sociais, movimentos estudantis, e há aqueles que, assim como determinados autores mais conservadores, entendem que existem determinados grupos cuja função não é contribuir tanto para a sociedade. Todavia, ainda que haja discordância, o importante é compreender como esses grupos se organizam, sua função e de que maneira avançam para outras formas de manifestação. Como foi possível notar, os movimentos sociais partem de alguns princípios fundamentais: demandas sociais que agreguem grupos de pessoas que se identifiquem com uma causa para sua formação. E, no processo histórico, com o advento da internet e das redes digitais, os sentimentos também são acionados para a organização, ou pelo menos a identificação e/ou sentimento de pertença, de grupos e movimentos sociais com a capacidade de argumentarem em favor de suas lutas. Os governos, sejam eles quais forem, com exceção dos ditatoriais, sempre serão procurados para manterem o diálogo e demandados a atenderem as reais dificuldades da Nação com a finalidade de alcançar a equidade entre todos na sociedade. Esperamos que você tenha desenvolvido a capacidade crítica de identificar desde a gênese de um movimento social, passando por sua formação, até sua função principal. Podcast Ouça o podcast. Nele, faremos um panorama dos movimentos sociais e processo educativo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para saber mais sobre as manifestações de movimentos na rua e na internet, assista ao depoimento do pesquisador Tiago Pimentel: Pesquisador apresenta dados sobre relação entre manifestações de rua e internet. Para saber mais sobre o cenário em que movimentos sociais emergem no Brasil contemporâneo, leia o artigo de Ana Targina Ferraz Rodrigues, Movimentos sociais no Brasil contemporâneo: crise econômica e crise política. Revista de Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 135, 2019, p. 346-363. Para saber mais sobre as Jornadas de Junho, assista ao documentário Jornadas de Junho de 2013. Para saber mais sobre a relação entre Movimentos Sociais e Redes Sociais, leia o artigo de Wellington Tavares e Ana Paula Paes de Paula, Movimentos Sociais em Redes Sociais Virtuais: Possibilidades de Organização de Ações Coletivas no Ciberespaço. publicado na Revista Interdisciplinar de Gestão Social – RIGS, v. 4, n.1, 2015, p. 213-234. • • • • Para perceber ainda mais a complexidade das mobilizações sociais, especialmente no âmbito do Movimento Estudantil, assista à entrevista Estudante de Universidade Federal (UNIRIO) é alvo de intolerância e ódio por ser conservadora, da aluna de História Julia de Casto, para a Gazeta do Povo, relatando a dificuldade de ter pensamento divergente ao comum nas universidades brasileiras. Referências AZEVEDO, A. Marco civil na internet no Brasil. Rio de Janeiro: Alta Books, 2014. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Casa Civil: Brasília, 1988. CÂMERA DOS DEPUTADOS. Direitos Humanos na Câmera dos Deputados em 2021. 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Movimentos sociais e educação A relação entre movimentos sociais e educação Precarização da escola pública Conteúdo interativo Movimentos sociais: gruposdiversos e suas características Joseph-Marie de Maistre Gustave Le Bom Gabriel de Tarde José Ortega y Gasset Confederação dos Tamoios Insurreição Pernambucana Inconfidência Mineira Guerra de Canudos Revolução Constitucionalista Questão fundiária no Brasil Conteúdo interativo Movimentos sociais no Brasil O movimento negro no Brasil Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Movimentos sociais na emancipação do movimento estudantil O movimento estudantil Conteúdo interativo Dos personagens do movimento estudantil Arthur José Poener Cacá Diegues Comba Marques Porto Daniel Aarão Reis Marcelo Cerqueira José Gomes Talarico A UNE após a Constituição de 1988 Movimento estudantil, esquerda e democracia Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Movimentos sociais e seu papel político na sociedade O engajamento na esfera política Conceito de equidade na sociedade brasileira Conteúdo interativo Movimento de mulheres Movimento negro Movimento LGBTQIA+ Movimento indígena Movimentos sociais na contemporaneidade Crise do capitalismo neoliberal e partidos políticos Conteúdo interativo Movimentos sociais e as redes sociais Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + Referências