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AS INSTITUIÇÕES EDUCATIVAS A família, a escola, a universidade, do mesmo modo que os movimentos de juventude, as formações contínuas, as federações desportivas, entre outras, são instituições ditas educativas. Limitar-nos- -emos aqui a reflectir sobre as três primeiras, e, em primeiro lugar, a procurar saber o que faz delas instituições. I. Que é uma instituição? Não se fala emUma instituição é constrangedora, visto que exerce uma autoridade associação é, na verdade, um que». Tratando-se da escola ou da sobre os seus membros e limita a sua liberdade, resistindo sempre às universidade, é de todo diferente. Elas só se podem compreender pressões externas. Precisemos que este constrangimento é menos de ordem rejeitando duas atitudes que desconhecem o carácter social da instituição, material do que simbólica e que, mesmo quando é privada do seu suporte precisamente porque ambas abusam da finalidade, material, a instituição permanece. Uma escola sem edifício permanece A primeira é o juridicionismo, que considera que a escola, por uma escola, tal como a do permaneceria uma igreja. exemplo, é instituída pelo legislador; a sua função é então definida pelos O constrangimento exerce-se sobre os próprios chefes; ver-se-ia mal um textos que a regem. Todavia, um texto oficial não faz mais do que organizar papa decidir dissolver a sua Igreja! Assim, Max Weber distingue a ou reformar uma escola que lhe preexiste; aliás, não pode mudá-la para associação (Verein), que depende do acordo dos seus membros e pode lá de certos limites. A realidade da instituição ultrapassa a consciência e por eles ser dissolvida, da instituição (Anstalt), que se impõe aos seus a vontade dos indivíduos, sejam estes os detentores do poder ou os agentes membros e mesmo às pessoas de fora. da própria instituição. Se as instituições evoluem, não é por decreto. Ora, este constrangimento não é arbitrário. Com efeito, a instituição O psicologismo é a segunda atitude, que, em rigor, dá melhor conta está submetida a regras, que definem o constrangimento ao mesmo tempo desta evolução, visto que tende a fazer da instituição uma associação que o legitimam. Estas regras podem ser explícitas, como as pela vontade dos seus membros, que podem portanto oficiais» no ensino, ou implícitas, como as tradições que regem as maneiras mudá-la. Só que a instituição não é uma associação. Aqui reside, sem de ensinar e avaliar. Na família, as regras são implícitas, o direito apenas dúvida, o erro da «pedagogia institucional»; por mais rica que seja a sua intervém em caso de crise: crianças espancadas, fugas, etc. prática, ela equivoca-se sobre o carácter da escola, crendo ingenuamente Até aqui, falámos só da anatomia da instituição. Esta só se pode que os seus alunos e os seus professores podem exercer um poder compreender se tivermos em conta o facto de que ela tem sempre uma Eles podem, sem dúvida, mudar», mas em limites função social. Por exemplo, que é que distingue as escola das prisões ou muito estritos e como uma realidade cuja existência não depende deles. das fábricas? A sua função, a sua função de ensinar, que supostamente A instituição não se reduz nem ao psicológico nem ao jurídico: ela é exercem, mesmo se de facto a desempenham mal. Aliás, é a função que genuinamente social. dá um sentido às na instituição, que as qualifica como meio, para explicar a especificidade irredutível do social que Durkeim, desde o giz até aos programas didácticos, ou como obstáculos. Sobretudo, em Les règles de la méthode sociologique, propõe substituir o conceito a função dá o seu sentido aos actos. Um professor que se assoa não age de finalidade pelo de função. A função é o papel efectivo que uma como docente, a não ser que o faça um fim por instituição desempenha no todo social, mesmo que esse papel seja diferente exemplo, para ensinar uma língua pelo método directo! Não se pode daquele que lhe é destinado na origem, o que se observa nos nossos dias definir uma instituição sem ter em conta a sua função. com a Formação contínua. Presentemente, o termo «função», que se foi Em resumo, pode definir-se assim a instituição: uma realidade so- buscar às ciências naturais, manterá a sua objectividade, uma vez cial, relativamente autónoma, estável ou regular, constrangedora segundo transposto para o domínio social? De qualquer modo, a nosso ver, a regras, e que se especifica pela sua função social. função não elimina a finalidade: introdu-la sob uma outra forma. Isto mesmo se observa no próprio Durkeim. Para ele, a função é a II. Pode evitar-se a finalidade? utilidade da instituição. Ora, como ele vê na sociedade um organismo caracterizado pela sua harmonia fundamental, é normal que conceda a A noção de função é, todavia, problemática. Os sociólogos todos os seus orgãos, justamente as instituições, um papel útil, não utilizam-na para evitar a de finalidade. Esta é uma explicação pelos fins, obstante certas discordâncias passageiras. Com efeito, sem o concurso que pressupõe um ente capaz de os estabelecer ele comprou uma pá dos fenómenos sociais, modo a pôr a sociedade em harmonia consigo para arranjar o seu jardim portanto, um sujeito consciente e livre. Mas mesma e com o a sociedade não poderia sobreviver. Tomemos, pode-se utilizar a finalidade onde falta a consciência? 2 3 por exemplo, a escola. Na sociedade moderna, a sua função é dupla: uma Se se trata de uma associação, que se funda quase inteiramente no função diferenciadora, que prepara as crianças para a sua futura tarefa acordo dos seus membros, pode falar-se de finalidade. «porquê» da profissional; e outra função unificadora, assegura a unidade da naçãoensinando a mesma linguagem, os mesmos saberes fundamentais, os no corpo de professores que ensina e avalia as nossas crianças. E esta mesmos valores. O que equivale a dizer que a escola existe para alguma confiança na instituição tem por corolário a competência dos seus coisa, a supor uma finalidade que é da alçada não da ciência, mas da membros. filosofia. A confiança pode, decerto, ser traída; os médicos, os juízes, os Porque os factos podem ser interpretados muito diversamente. professores podem defraudar. Seja por falta de saber, de discernimento, Tomemos o exemplo do marxismo. Para ele, se a função de uma instituição de competência efectiva, seja por falta de moralidade, que vai da preguiça reside na sua utilidade, esta raramente é para benefício de todos; só uma até à corrupção. Quando a desconfiança se generaliza, a instituição classe a usufrui. A escola, em regime capitalista, está ao serviço da classe arruina-se ou transforma-se (a polícia torna-se uma mafia!). Mas, no dominante. A sua função diferenciadora é de e, por isso, de caso normal, a confiança é presumida, no sentido em que cada um admite reproduzir desigualdades. A sua função unificadora é inculcar a ideologia que os membros de um instituição são capazes de assumir a função dominante e justificar a selecção (mostrar que o insucesso era merecido, específica os professores de ensinar, por exemplo e se alguém declara etc.). Raciocinando assim, o marxismo não suprime a finalidade, desdo- o contrário, é ele o incumbido de prová-lo. Sem esta confiança presumida, bra-a. Há a função que vai «no sentido da história», e há a função que vai não haveria vida social possível. contra. Mas, nos dois casos, trata-se de uma finalidade. A instituição, reacionária ou progressista e a escola é «dialecticamente» as duas é sempre para uma classe. III. A família Tomemos um último exemplo: o ponto de vista «ecológico» de N. Postman, para quem a função de uma instituição se define como oposta Definimos, pois, as instituições educativas pela sua função. Ora a e complementar à de outras instituições, todas contribuindo assim para o primeira função consiste em preparar a educação, formando os hábitos, equilíbrio social. No caso da escola, é claro; a sua função é, como a de as emoções, os sentimentos da criança, em «educá-la» antes de todo o um músculo, «antagonista». Numa cultura estática e fechada, ela assume ensino intelectual e conceptual. Os Antigos fizeram-no admiravelmente. uma função de progresso e de abertura; pelo contrário, numa cultura Platão diz assim: por educação (paideia) a virtude que a como a nossa, sujeita a incessantes mudanças, assegura uma função de criança primeiramente esta educação primeira consiste em memória e de juízo. Ou melhor, deve assegurá-la, e Postman é o primeiro formar, por meio de bons hábitos, os sentimentos mais primitivos, a dizer que a escola americana, que pretende alinhar-se pelos media e prazer, a afeição, a dor, o ódio», de forma a que concordem renuncia a ensinar o que só ela pode transmitir, trai a sua função. Se, para espontaneamente com a razão quando mais tarde ela aparecer na criança Postman, a instituição não vale por si mesma, já o equilíbrio social sim, (Leis, 653 a). O papel da primeiríssima educação, a mousikè, é formar a e é para ele que funcionam as instituições, é para ele que a escola deve criança, por meios estéticos, a fim de amar o bem e odiar o mal, muito às modas e aos media. É, ainda, a finalidade. antes de ser capaz de raciocinar e compreender: Em suma, a função relativiza a finalidade social, libertando-a de um ponto de vista estreitamente psicológico ou jurídico. Mas o que de facto quando a razão chega, abraça-a e reconhece-a como familiar com muito distingue função de uma instituição do seu funcionamento é que ela mais ternura do que aquela com que foi alimentado na música» (República, introduz uma referência ideal, um valor. Uma instituição educativa sem III, 402; cf. Aristóteles, Ética a Nicómaco, X, 1179). finalidade não seria educativa. Seria apenas uma instituição? Platão e, em menor grau, Aristóteles queriam confiar esta educação Levantemos uma última questão. Toda a instituição cumpre mais primordial à cidade, segundo modelo de Esparta; hoje, pensamos que ou menos bem a sua função própria, frequentemente antagonista à de essa é a função da família. outras instituições, no jogo complexo da sociedade. Mas não é isso uma Mas será esta ainda capaz disso? Não é a família contemporânea função comum a todas as instituições? essencialmente deficiente? Sabe-se que se reduziu não só em volume, Pensamos que sim, e que esta função comum consiste em inspirar uma certa confiança, sem a qual a vida social seria totalmente impossível. 4 5 mas também nas suas funções e na sua autoridade. Com efeito, os pais já não podem decidir o casamento ou a profissão dos seus filhos; poderão Temos confiança no corpo médico que nos trata, nos juízes que nos julgam, ao menos decidir alguma coisa? Todavia, a família conserva ainda as suasduas funções principais relativamente aos filhos: protegê-los a parte como o que entrava o progresso social e o livre impulso do (alimentá-los, vesti-los, cuidar deles) e educá-los. indivíduo. E, como bem se disse (cf. Lacroix, 1948), a identidade do Surge aqui um paradoxo: mesmo controlada, mesmo contestada, a homem moderno passa pela morte simbólica do pai. Não é justamente autoridade dos pais sobre os filhos permanece infinitamente mais forte por isso que ele é moderno e se concebe como homem? do que a que um monarca absoluto podia sonhar exercer sobre os seus Estas críticas da família não a destruíram. Ela tende, contudo, a súbditos. Se os pais não têm o direito de vida e de morte, é pelo menos modificar-se, aliás em dois sentidos opostos; por um lado, a família por eles que a criança vive e escapa à morte; podem não só impor-lhe ou monoparental e, por outro, a família alargada em Mas, sob proibir-lhe determinada conduta, mas também moldar os seus pensamentos estas formas novas, preserva as suas funções, que tendem até a reforçar- e nos seus sentimentos mais íntimos, os mais duráveis. Na actual cidade -se: função de protecção num mundo em que o indivíduo está cada vez democrática, o poder parental permanece profundamente monárquico, e mais só e indefeso; função de educação num mundo onde desaparecem aqueles que o exercem têm como única competência a que lhes dá o os meios educativos espontâneos, como a aldeia, a oficina, a Igreja, etc., nascimento. e onde a escola apenas fornece uma instrução. De facto, passa-se com a Assim se explica que tantos pensadores se insurjam contra a família: família o mesmo que com a escola; as críticas radicais que se lhes dirige, «Fazer filhos» escreve Sartre melhor; tê-los, que iniquidade!» longe de as fazer desaparecer, parecem pelo contrário reforçá-las. que (As Palavras). Para ele, este «ter» é uma forma exorbitante do direito de parece indicar a presença de uma necessidade mais forte do que todas as propriedade, a posse de um ser humano, cujo destino se tem o poder de razões. determinar. Enquanto protectora, a família, sociedade fechada, tem um Esta necessidade é a da educação primordial, como os Gregos tinham papel conservador; desconfia de toda a inovação, de todo o não- considerado. É necessária, como dizia Alain, uma escola do sentimento -conformismo, de toda a revolta, mesmo de todo o pensamento. Enquanto antes de qualquer outra escola, e é difícil ver o que poderia substituir a educadora, tende necessariamente a impor a sua estrutura hierárquica e família nesta função. Pensadores tão diferentes como Comte e Freud desigual; tirar a razão ao mais velho, mais ainda a um pai ou a uma mãe, afirmam que o papel da família é transformar o que no homem é o mais é cometer uma injúria. Piaget (1957) mostrou que a família tende a manter animal, mas também o mais sólido: os seus instintos. Para Freud, trata-se na criança uma moral de coacção e de submissão a uma regra que é tanto sobretudo da libido, que a família recalca e sublima, com o aparecimento mais sagrada quanto mais incompreendida for. Ao proteger e ao educar a do complexo de Édipo e a formação do superego; Freud afirma que é aí criança, a família arrisca-se sempre a fazer dela um eterno menor. que se encontra o centro das neuroses, e insiste nos perigos da educação As críticas não visam só a má família, dividida, egoísta, mas também familiar. Mas nem por isso a rejeita, como farão alguns dos seus discípulos. a família unida, afectuosa, feliz. A ela justamente Gide reprova o ser «um Para ele, o recalcamento da libido e a formação do superego são regime celular», cujas são os braços das pessoas amadas». indispensáveis ao devir humano; ser homem é ser recalcado. É possível A afeição mútua, o cuidado de não causar sofrimento, de aceitar e ser sê-lo mais ou menos bem, mais ou menos mal; é impossível não sê-lo. aceite, é também um freio a toda a tentativa de emancipação. A família Auguste Comte é mais afirmativo. seu estudo da família (Système, permanece unida porque, uma vez e sempre, cada um aceita dempenhar t. II, cap. III) é o que, sem dúvida, melhor nos esclarece sobre o papel o mesmo papel, sem mudança, sem surpresa. Aqui reside, decerto, uma específico desta função que consiste em transformar os instintos mais das grandes causas da famosa crise da adolescência: pais não admitem, brutais, a sexualidade e a maternidade, em tendências sociais, destinadas não compreendem que a criança de ontem se torna repentinamente outro a humanizar o homem. É essa a educação primordial que a família leva a ser, com os seus segredos, as suas ideias, as suas paixões; daí o conflito. cabo, não ensinando mas existindo, deixando a cada um desempenhar o Em suma, fundada num princípio monárquico, a família só protegeria seu papel específico. Basta ser criança para descobrir no amor materno o sufocando, e só educaria obstruindo. Estas críticas não são recentes. Nem modelo de todo o amor, na afeição paterna o modelo de toda a obediência sequer são próprias de racionalistas como Platão, visto que se encontram e também de toda a admiração. Basta, mas é necessário. Como escola do no Evangelho: «Se alguém vier a Mim sem odiar o seu pai e a sua mãe...» sentimento, a família é insubstituível. Comte não tem ilusões sobre o que (Luc. XIV, 26). Nos nossos dias, a autoridade familiar é contestada tanto 7 o laço familiar pode ter de abusivo e de doentio; vê nele, todavia, o único no Terceiro Mundo, como nos países industrializados; aparece por toda meio de permitir ao homem conhecer e amar o homem. Segundo ele,IV. A escola toda a tentativa revolucionária que desconhece a raiz das nossas afeições está votada ao fracasso, porque se apoia então numa fraternidade abstracta, tanto mais fraca quanto mais pura é, e que acaba por se manter A escola é actualmente uma das instituições mais prósperas. Em toda a parte, os seus efectivos não cessam de crescer, bem como os anos apenas pela violência. Acrescentemos que a família não é somente educadora para as de escolaridade obrigatória. E é, sem dúvida, a instituição a que a crianças. É escola do sentimento também para os pais. Também eles, na sociedade contemporânea mais importância atribui, quase tanto como experiência de serem um casal, depois na de terem filhos, aprendem o outrora à Igreja; a abundância dos projectos, das reformas e até das críticas que lhe são dirigidas dão testemunho de tal importância. sentimento, não já como emoção ou como paixão, mas como Que é a escola? Deixemos de lado os sentidos acessórios, como "a responsabilidade e como reciprocidade para com outros seres. A criança é a educadora dos seus pais. educadora, sem dúvida, de muitos modos, escola do sofrimento", a "Escola de Francoforte". Deparamos com três significados. Em primeiro lugar, um estabelecimento destinado a e que variam segundo a sua idade. E é educadora, em primeiro lugar, por esta expectativa infinita, total, que ela tem para com eles e à qual eles só proporcionar um ensino colectivo. Em seguida, a instituição, nacional ou privada, de que este estabelecimento não passa de um órgão. Por fim, a podem responder aprendendo a ser adultos, isto é, a ser. instituição, parte da precedente, que prodigaliza o ensino fundamental, Eis, pois, as nossas conclusões. 1° A função essencial da família é formar os sentimentos, partindo idêntico para todas as crianças e sem finalidade profissional; neste terceiro das pulsões mais animais e transfigurado-as. A história mostra que esta sentido, "a escola" é uma expressão elíptica para a escola primária, ou elementar, ou básica. função subsiste por trás das formas mais diversas que a família pode Notemos que existem sociedades sem escola, e que, onde ela existe, assumir. 2° Esta parece ser a única instituição capaz de assumir tal função. E a escola varia de uma sociedade para outra. A escola dita "tradicional" esta tese é corroborada por muitos estudos psicológicos que mostram não passa de um mito pacificador ou de um espantalho cómodo. Na que a família privada de pais (naturais ou adoptivos) está cruelmente realidade, o curso magistral, ou ainda a classe primária que recebe um desfavorecida no início da sua vida, por vezes até fisicamente; no confronto ensino colectivo com horários, programas, dispensado a crianças da mesma com uma sociedade fria, e até hostil, sente-se inclusive culpada de existir, idade, são "inovações" da segunda metade do século XIX. Antes, a escola era de todo diferente. o que a impede de crescer normalmente, pois o crescimento normal exige Então, porquê a escola? A melhor maneira de responder é partir das a afeição. 3° A família assume a sua função, não ensinando, mas contentando- críticas que lhe são movidas, não das que incidem no seu funcionamento se com existir, isto é, amar. amor familiar é muitas vezes cego, e que encontraremos no próximo capítulo, mas daquelas que chegam a pôr em causa a sua existência. tempestuoso, cruel. Constitui, todavia, a ocasião única no mundo para o indivíduo, homem ou mulher, adulto ou criança, se descobrir como ser mérito de Ivan Illich (1971) é ter, pela sua recusa radical da escola, mostrado a contrario o que esta tem de insubstituível. insubstituível. 4° Esta educação familiar é proveitosa tanto para os pais como para Para ele, a escola é ao mesmo tempo ineficaz porque, sendo os seus filhos, que são os educadores dos seus educadores. Se existe obrigatória, rouba às pessoas o gosto de aprender, e nociva porque, se uma educação "permanente" em sentido próprio, é essa. fracassa maciçamente em instruir os pobres, consegue todavia endoutriná- -los, inculcando neles o sentimento irremediável da sua inferioridade e da 5° Vimos que uma instituição só subsiste pela confiança presumida. A sociedade global confia em cada família para educar os seus filhos sua culpabilidade. Deixemos de lado as "organizações", facultativas todas como ela entender, pelo menos até uma certa idade e em certos limites; elas, pelas quais o autor pretende substituir a escola, e distingamos os as leis coercivas só intervêm quando se demonstrou que a família é indigna dois objectos da sua crítica: por um lado, a escola obrigatória e, por de tal confiança. Ora, como escola do sentimento, a família aprende esta outro, o monopólio da escola. Que se passaria, na nossa civilização confiança nos outros e em si mesma, sem a qual a vida seria impossível. contemporânea, se se suprimisse a obrigação escolar, substituindo a escola Eis o que a legítima. 8 9 por "bilhetes de formação" que cada indivíduo poderia utilizar, durante toda a sua vida, em organizações da sua escolha?Desapareceria uma primeira função, a protecção das crianças. aparelhos e talvez estrelas, falar-se-lhe-à de números imensos, de Contrariamente ao que pensa Illich, nada prova que entregar os jovens relatividade... mas nunca saberá astronomia. ao mundo do trabalho os livraria da manipulação e da exploração; Em terceiro lugar, trata-se de saberes adaptados, postos, pela tudo sugere o contrário: no trabalho produtivo, o indivíduo é antes de didáctica, ao alcance dos alunos. saber que a escola ensina não é o mais um meio. Ao passo que aquilo que o aluno faz na escola é para ele saber que se faz nos centros de investigações universitárias; é um saber que o faz. comprovado, simplificado, e tanto mais quanto menos elevado é o nível Ora a escola não é uma simples creche, destinada a substituir a família dos alunos. Não se trata de ensinar as matemáticas no liceu do mesmo na sua função protectora. Se protege, é para ensinar. Eis a sua função modo que no Collège de France, nem La Fontaine na escola como na positiva que dificilmente outra instituição (ou ainda uma "ausência de universidade. instituição" poderá exercer. Ensinar, mas quê? Em quarto lugar, trata-se de saberes argumentados. Não dizemos Também aqui Illich nos é de uma ajuda preciosa. Afirma que na "provados", porque seria reduzir o conteúdo do ensino às simples ciências escola se aprende uma "sintaxe", isto é, um sistema de regras exactas. Mas saberes que se apresentam com a sua justificação e são constrangentes e vazias, ao passo que, na vida, se adquire uma sempre susceptíveis de serem criticados, pois estas duas actividades, "semântica", isto é, uma massa de experiências ricas de sentido e de justificar e criticar, são sem dúvida mais importantes do que os próprios conotações; sintaxe: o formalismo sem objectivo do cálculo escolar; saberes (ainda a sintaxe!). verdade, porque o dizes" é o género de semântica: o esforço para construir conjuntamente um instrumento útil. frase que não se deveria ouvir na escola, que nega a escola. Inversamente, A tal pode responder-se que uma língua sem sintaxe é apenas mescla um professor cujos dizeres os alunos criticam segundo os métodos que verbal, e igualmente que o saber sem regras não passa de uma massa ele lhes ensinou pode considerar que teve um êxito pleno; fê-los chegar incoerente de informações desvairadas e de um saber-fazer cego. Dito ao seu nível. isto, pode reter-se a metáfora de Illich, virando-a contra ele, pode Em quinto lugar, trata-se de saberes desinteressados, isto é, sem dizer-se que o saber escolar é para a experiência da vida o que a sintaxe finalidade profissional ou outra, pelo menos no imediato. Podem, sem é para a língua, o seu princípio organizador. Que é que, pois, caracteriza dúvida, introduzir-se técnicas na escola, desde a construção de objectos o saber escolar? até à gestão de uma cooperativa. Pode igualmente, como em certos países Em primeiro lugar, trata-se de um saber a longo prazo. Se se indica socialistas, associar-se cada escola a uma empresa de produção, indus- a alguém que a rua que ele busca é a terceira à direita, dá-se-lhe uma trial ou agrícola. Intelectual ou manual, o trabalho escolar é diferente por informação útil no imediato, mas que nunca mais lhe servirá. Se for essência do trabalho produtivo, em que o trabalhador, o torneiro, o ensinado a orientar-se com um mapa, terá adquirido um saber que sempre cirurgião ou o secretário, pouco importa, é sempre o meio de um fim que lhe servirá, e nas circunstâncias mais diversas. É este género de saberes lhe é exterior. Na escola, o aluno é tratado como um fim, é para si que que a escola pretende transmitir, saberes para mais tarde, para se orientar trabalha, é a sua própria autonomia que ele aprende. A formação na vida. Na realidade, esquecemos a maior parte dos factos históricos profissional só pode fazer-se fora da escola, ou depois da escola, e será apreendidos na escola, mas eles permitem-nos na idade adulta ler um sempre tanto mais eficaz quanto tiver sido precedida de um ensino pessoal, livro de história, compreender um monumento. Esquecemos os elementos capaz de estruturar a memória e de formar o juízo. Capaz igualmente de de inglês ou de matemáticas, mas somos capazes de os reaprender permitir a cada um dispor do seu próprio corpo; basta apenas reflectir muito depressa em caso de necessidade, de qualquer forma, capazes de sobre o que distingue o desporto escolar do desporto profissional para aprender. compreender em que é que o trabalho escolar se distingue do trabalho Em segundo lugar, trata-se de saberes organizados, que se encadeiam produtivo. de modo lógico. Não há química sem uma base matemática, nem literatura Tais são, pensamos nós, os cinco traços do saber escolar. Poderiam sem competência linguística e retórica, numa palavra, não há ensino sem censurar-nos de ter excluído toda a educação moral. Nada disso. um programa que defina os seus pré-requisitos, por outras palavras, o Lembremos que a escola garante uma formação moral específica, que que é necessário já saber para prosseguir. Quem nunca fez astronomia, e 10 11 ensina valores que não se encontram na família, nem decerto no mundo portanto matemáticas superiores, poderá visitar um observatório; verá do trabalho: a igualdade, a justiça, o esforço, o espírito crítico. Precisemosque se a escola "ensina" estes valores, não é dando cursos de moral, é Todavia, este ensino assume também funções diversas e, por vezes, sendo ela própria. Se a escola for o que deve ser, o próprio facto de a antagónicas. frequentar constitui uma educação tanto moral como intelectual. Há o ensino cultural, que prolonga o secundário e se caracteriza Não se trata, claro está, de idealizar a escola, e veremos que ela, pelo seu conteúdo geral e desinteressado, mas já especializado. Há o muitas vezes, atraiçoa as suas funções. Mas o próprio facto de ela ser ensino profissional, que forma juristas, médicos, docentes, etc. E há, censurada dá testemunho da permanência dessas funções. finalmente, o ensino da investigação, que forma especialistas ao serviço Terminemos com a segunda censura de Illich: a escola na sociedade da universidade ou de estabelecimentos exteriores, como a indústria ou o contemporânea teria atribuído a si o monopólio da educação e teria exército. Estes três tipos de ensino confundem-se muitas vezes nos factos; transformado a velha máxima da Igreja em seu próprio proveito: fora da mas permanecem distintos, e às vezes em conflito. Tentemos ultrapassar escola, não há salvação! Infelizmente, ele parece ter razão. Este monopólio estas oposições perguntando: que é que faz que um ensino seja é abusivo. É certo que se aprendem muitas coisas fora das aulas, e que se universitário? aprendem tanto melhor quanto menos constrangimento existe. Eis porque Em primeiro lugar, trata-se de um ensino "superior". Este termo a nossa filosofia da escola só tem valor se for completada por uma filosofia nada tem de antidemocrático. Um ensino é "superior" no sentido preciso do terceiro meio educativo: os movimentos de juventude, as casas da de que nada mais há além dele, pelo menos no interior da instituição. Eis cultura, as associações de amadores, certas formações contínuas de porque é tão difícil nomear universitários, pois não há instância acima da objectivo cultural, etc. E a juventude popular teria, sem dúvida, maior sua, porque o único recrutamento logicamente possível é a cooptação, necessidade deste terceiro meio do que a juventude privilegiada. Por outras não sem risco de nepotismo e de favoritismo! palavras, é iníquo que o povo não tenha escola para se instruir. Sem dúvida, o ensino superior é também dispensado, e muitas vezes monopólio da escola, ou onde ele tende a impor-se, é patológico; prova melhor, pelas grandes escolas. Mas o ensino "universitário" não se pode que a sociedade se tornou antieducativa. reduzir a um ensino profissional; mesmo quando forma docentes ou médicos, possui um mais, que é a sua união íntima com a investigação. Um mais que é também um menos. Enquanto o ensino profissional deve V A universidade fornecer aos alunos saberes perfeitamente elaborados e prontos a servir, saberes com chave na mão, a universidade ensina saberes que se fazem e Como a escola, a universidade não cessa de crescer no mundo ensina-os fazendo, com todas as questões, com todas as dúvidas que tal actual. Simplesmente, enquanto se sabe mais ou menos o que esperar da fazer comporta. Eis porque um curso perfeito, que se pode repetir tal escola, a desorientação campeia a partir do momento em que alguém qual, corre o risco de não ser universitário. inquire as funções da universidade. E este "alguém" inclui os próprios Quer isto dizer que na universidade o ensino é inseparável da universitários. Se a universidade está em crise, trata-se essencialmente investigação. Mas que é a investigação? Parece-nos que a pesquisa de uma crise de identidade. Ensino cultural ou formação profissional? universitária desempenha pelo menos três funções. Investigação fundamental ou aplicada? Primado da investigação ou Primeiro, a investigação aprofundada, ou fundamental. Em sentido primado do ensino? dos estudantes, com o risco de elitismo, ou geral, a investigação é a produção de saberes novos, cujo conteúdo é acolhimento do maior número, com o risco de nivelamento? Unidade do publicamente controlável. Comporta dois momentos. Em primeiro lugar, saber ou saberes especializados? Não podemos aqui responder a estas a invenção, que não pode ser programada: não se inventa por encomenda; questões, admitindo que algures tal seja possível. Contentar-nos-emos a invenção só pode ser fecunda se assumir o risco de ser livre, livre de com indicar as funções sem as quais não há universidade. toda a instrução dos poderes e de todo o constrangimento de aplicação, Da universidade pode dar-se a definição seguinte: uma instituição ou até de êxito. Em seguida, a prova, que deve ser programada, segundo que alia o ensino superior à investigação fundamental. A partir daí é uma disciplina por vezes fastidiosa, mas indispensável. Por exemplo, nada possível indicar três tipos de funções genuinamente universitárias. impede uma universidade de fazer pesquisas sobre os fenómenos Em primeiro lugar, as funções de ensino. Não se pode conceber 12 13 parapsíquicos; com a condição de ela ter o direito de utilizar todas as uma universidade que não ensine, uma universidade sem estudantes. técnicas de provas, a começar por aquela que consistiria em reproduzir ofenómeno em condições inteiramente diferentes. Um facto científico é do que se pratica não é uma opção entre outras; dela depende a sobrevivência da universidade. aquilo que se pode refazer. Que é que distingue então a investigação universitária da investigação Em seguida, porque a reflexão é indispensável à justa aplicação do industrial ou militar? Primeiro, ela é fundamental, isto é, livre e saber. Em que medida se podem manipular os genes e os embriões desinteressada. É também publicamente difundida; na universidade, não humanos, e porquê? Que créditos atribuir respectivamente à investigação pode haver segredo da investigação. espacial e à pesquisa económica? Sem este género de reflexão, a floração Ora, como escreve Alain Touraine, a universidade não é "somente das ciências torna-se tão pouco controlável e tão nociva, finalmente, como um laboratório, mas também um Por outras palavras, a uma proliferação cancerosa. pesquisa assume uma segunda função, uma função de manutenção. Ela Sem dúvida, a função crítica exerce-se noutros lados. Mas a conserva, ao mesmo título que uma biblioteca ou um museu; conserva universidade é o único lugar em que a crítica é institucional, oficial de não só coisas, mas saberes e valores. Esta função de manutenção foi algum modo; um lugar que deve, ou deveria ser, antes de tudo um lugar preponderante em certos períodos. Por exemplo na universidade bizantina de "ócio" e de independência. Sim, pode criticar-se num jornal tal artista (do século V ao século XV!), que não ensinava outra língua a não ser o ou tal homem político; podem criticar-se também os seus amigos e os grego ático, e uma matemática abstracta, sem relação com a prática dos seus parentes; mas sempre com os seus riscos e perigos! E a crítica arquitectos ou dos administradores do fisco. De facto, a função de ressentir-se-á, pecará por excesso quer de gentileza quer de agressividade. manutenção predomina nas sociedades ameaçadas, como o império É necessário um lugar em que a crítica possa ser uma reflexão serena, bizantino, ou dominadas, como os países árabes colonizados. Então a protegida pelas suas tradições e pelos seus métodos, um lugar onde, a tarefa primeira da universidade é preservar uma identidade cultural. todo o instante, se tenha o direito de perguntar "porquê?", reciprocamente, Mas não nos dirá ainda respeito esta função? Sem dúvida. Acha-se o dever de responder. normal, por exemplo, que uma universidade ensine uma língua em via de Restam as funções que a universidade assegura para com a sociedade desaparecimento, não porque é útil, mas, pelo contrário, porque, sendo que a engloba e, por outro lado, a financia. inútil, corre o risco de para sempre se perder. Em suma, a universidade é A primeira função social é a concessão dos graus. Notemos que a memória intelectual e crítica de uma sociedade. Transmite uma herança uma universidade a pode garantir sem dispensar o ensino correspondente. cultural sagrada; sagrada porque inútil e frágil, que sem ela desapareceria. Assim, no século XIX, as "faculdades" concediam o bacharelato e a Que seria a nossa civilização sem a universidade bizantina? agregação, que eram preparados noutro lugar. Regressaremos a esta Memória "crítica", apesar de tudo. E aqui se mostra a terceira função função com o problema da avaliação. da pesquisa universitária, uma função de reflexão, que justamente a A segunda é a formação dos adultos, prevista expressamente na distingue de todas as outras instituições. Ela está aí para reflectir, isto é, França pela lei de 1968. Esta não é o monopólio da universidade; por pensar o já pensado, interrogar-se sobre aquilo que se sabe ou julga sa- outro lado, o seu público não é um público de estudantes, e muitas vezes ber. Esta função, que surgiu com maior nitidez em certas disciplinas, o seu conteúdo não está ligado ao ensino superior. É, todavia, normal como a epistemologia, a filosofia, a estética, esta função é, de facto, que a universidade, instituição rica em saberes, traga proveito à região indispensável a todo o saber universitário, a toda a investigação. Porquê? que a acolhe e, por vezes, a financia. Acima de tudo, esta formação é Primeiro, porque a reflexão é uma demanda da unidade do saber, benéfica não só para os formados, mas para a própria universidade, porque unidade sem dúvida irrealizável hoje, mas que permanece o ideal para ela força-a a dirigir-se a um público totalmente diferente, portanto, a que deve tender toda a cultura, sob pena de se fragmentar numa poeira experimentar outras formas de ensino, a responder a outras questões. de especializações cegas. Foi importante para a universidade medieval Por fim, a universidade pode beneficiar da experiência prática e profissional reflectir sobre as relações da razão e da fé; esta reflexão é a própria alma daqueles que ela forma. da universidade medieval, cristã ou muçulmana. De igual modo, é importante para uma universidade africana reflectir sobre as relações entre As funções da universidade: descobrimos já oito. As três funções de a cultura tradicional e a cultura ocidental, por exemplo na medicina ou na 15 16 ensino; as três funções de investigação, e as duas funções sociais. Por pedagogia. A interdisciplinaridade que, infelizmente, se proclama mais fim, será possível encontrar uma unidade de todas as suas funções?A análise linguística sugere-nos, em todo o caso, uma palavra que poderia englobar tudo, a palavra estudo, que designa uma maneira de aprender, distinta ao mesmo tempo da informação (aprender que) e da aprendizagem (aprender a), um ensino e uma investigação que valem por si mesmos e progridem um pelo outro. Ora qual é a meta do estudo? Se retomarmos todas as nossas análises, ver-se-á que este fito se resume numa só palavra: compreender, aprender porquê. Compreender, eis a razão por que existem universidades. Definimos, pois, três instituições educativas pelas suas funções respectivas, distinguindo estas funções até à sua oposição. Objectar-se- -nos-á que esta compartimentação, sem dúvida inevitável para a análise teórica, se revela, na prática, desastrosa, e equivale a legitimar duas terríveis carências da nossa educação. Por um lado, resignamo-nos assim ao antagonismo entre institui- ções entre a escola e a família, a indústria e a universidade, etc. -, conflito prejudicial para a sociedade e para os próprios educados. Resignamo-nos, por outro lado, às rupturas entre a primária e a "grande escola", entre o escolar e o profissional, etc. igualmente prejudiciais para a sociedade e para os jovens. Com esta compartimentação, produzem-se muitas angústias, fracassos, dramas. Voltaremos a este tema. Digamos, desde já, que toda a sociedade concebeu a educação como uma série de antagonismos e de rupturas, a começar pela iniciação primitiva. Antagonismos e rupturas, não será este o preço a pagar para que a juventude se subtraia à omnipotência de uma autoridade única, a do pai, do professor, do patrão, e se torne realmente adulta? É ainda necessário fazer disso factores de libertação, não de morte. Tal é o problema da pedagogia. 17

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