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O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO Comentário de Ageu e Zacarias Thomas Tronco dos Santos Copyright © 2016 Thomas Tronco dos Santos All rights reserved. ISBN-10: 1539548449 ISBN-13: 978-1539548447 Índice Prefácio ............................................................................. 5 Introdução ............................................................................. 7 Comentário de Ageu Cap. 1 ............................................................................. 13 Cap. 2 ............................................................................. 27 Comentário de Zacarias Cap. 1 ............................................................................. 51 Cap. 2 ............................................................................. 69 Cap. 3 ............................................................................. 81 Cap. 4 ............................................................................. 89 Cap. 5 ............................................................................. 97 Cap. 6 ............................................................................. 109 Cap. 7 ............................................................................. 123 Cap. 8 ............................................................................. 135 Cap. 9 ............................................................................. 155 Cap. 10 ............................................................................. 171 Cap. 11 ............................................................................. 179 Cap. 12 ............................................................................. 191 Cap. 13 ............................................................................. 203 Cap. 14 ............................................................................. 211 Referências ............................................................................. 223 Prefácio Ageu e Zacarias atuaram em uma época em que Judá reconstruía sua vida depois de anos distante da terra natal. Ambos contribuíram para que os judeus fossem encorajados e entendessem sua participação na história da redenção de Deus. Esses dois grandes “pequenos” profetas de Israel, com suas características diferentes (Ageu com mensagens diretas, e um arrependimento rápido do povo; Zacarias com visões apocalípticas que apontam para tempos futuros da salvação e juízo de Deus), têm muito a nos ensinar sobre obediência, fidelidade e confiança na consumação perfeita do plano do Senhor para a história. Meu amigo, Thomas Tronco, apresenta neste comentário tanto uma exposição exegética clara sobre esses dois profetas do período pós-exílico quanto aplicações profundas e pertinentes para a igreja atual. Você encontrará aqui o trabalho que é fruto de bastante pesquisa e informação (análise do texto hebraico e consulta de muitas obras acadêmicas atuais), bem como de um desejo ardente em transmitir com clareza a ideia do texto bíblico. Seu propósito é tornar acessíveis informações importantes e essenciais para aqueles que estudam Ageu e Zacarias com o propósito de ensinar em grupos de estudo bíblico, classes de Escola Bíblica e outros tipos de reuniões em igrejas e campus universitário. Também pode ser usado no estudo pessoal e devocional. O comentário segue o fluxo do texto e tem uma excelente organização para o leitor que deseja consultar um trecho específico desses dois profetas. Thomas está comprometido com uma interpretação literal do texto bíblico e com a autoridade da Palavra de Deus, dois aspectos muitos positivos do comentário. O primeiro nos ajuda a perceber como o plano de Deus para Israel e a dinastia de Davi ainda aguardam um cumprimento futuro. O segundo nos convida a uma compreensão da perfeição e capacidade de Deus em cumprir suas promessas. Minha oração é que este comentário desperte seu desejo em aprender mais da Palavra de Deus e o ajude a entender questões complexas literárias e culturais que deixam muitos leitores “com uma pulga atrás da orelha” quando estudam esses dois Profetas Menores. A igreja brasileira será profundamente abençoada por essa obra de um servo de Deus profundamente capaz e seriamente comprometido com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra! Tiago Abdalla Professor da área de Hebraico e Antigo Testamento do Seminário Bíblico Palavra da Vida Pastor da Igreja Batista Nova Esperança Introdução Antes de abordar o texto bíblico de Ageu e Zacarias, é necessário que se faça uma apresentação introdutória do contexto desses livros, o que faremos de maneira sucinta e acessível, levando em conta o caráter desse trabalho. Tanto Ageu como Zacarias iniciaram suas profecias na segunda metade do ano 520 a.C., em Jerusalém. Ageu encerrou seus discursos antes do final daquele ano, enquanto Zacarias atuou por mais dois anos. O fato de atuarem concomitantemente faz com que também sejam citados juntos por Esdras, o qual lhes conferiu o mesmo status e função (Ed 5.1; 6.14). Já Ageu ser citado antes pode sugerir que ele fosse mais velho que Zacarias. Ageu também devia ser mais conhecido, pois, enquanto Zacarias é apresentado por sua filiação — “filho de Ido” (Ed 5.1), ou “neto de Ido” (Zc 1.1, “filho de Baraquias, filho de Ido”) —, Ageu é simplesmente chamado “o profeta” (Ag 1.1, heb. hannavi’). Quando esses profetas iniciam seus ministérios, pelo menos no que diz respeito ao que foi registrado nas Escrituras, o povo de Judá havia voltado do exílio na Babilônia. Ciro, que derrotou a Babilônia em 539 a.C., autorizou, no ano seguinte, que os judeus voltassem ao seu país a fim de o repovoarem e ordenou a reconstrução do templo (Ed 1.1-4), devolvendo os utensílios sagrados e determinando que os judeus fossem assistidos em tudo pelos povos que os cercavam.[1] Em 537 a.C., cerca de 50 mil pessoas empreenderam a jornada da Babilônia até a Judeia (Ed 2.64,65). Tendo se estabelecido na terra, reergueram o altar, reinstituindo assim os sacrifícios, sete meses após sua chegada (Ed 3.1-7). Após um período de preparação, que envolvia a busca de madeiras no Líbano, em maio/junho de 536 a.C.[2] a obra de reconstrução foi iniciada com grandes e divergentes emoções (Ed 3.8-13). Por diversas razões que serão tratadas adiante, depois de algum tempo a obra parou. No ano 520 a.C., a construção já estava parada havia cerca de dezesseis anos. A negligência do povo, deixando a construção praticamente no alicerce por uma década e meia era algo inesperado para as cerca de 50 mil pessoas que retornaram do exílio, já que seu ânimo e os sentimentos nacionalista e religioso eram substanciais. Entretanto, devido a problemas nascido no desânimo dos antigos, no egoísmo e desejo materialista, no desprezo da mensagem da restauração futura e na falta de familiaridade com o templo por parte daqueles que nasceram na Babilônia,[3] a chama em seus corações, vista claramente no início da obra, foi perdendo o brilho até que se apagou. Apesar de Deus não ter feito questão de uma “casa” quando Davi se propôs construí-la, explicando ao rei de Israel que ele não tinha necessidade de uma habitação física (2Sm 7), no período pós-exílico, ou seja, depois do retorno do povo da Babilônia, o Senhor não apenas exigiu a construção do templo como também exortou e puniu o povo de Judá por negligenciá-la. É quando surgem Ageu a Zacarias pregando e exortando os judeus a valorizar a casa do Senhor e se empenhar na reconstrução. Nesse sentido, há uma grande diferença entre a abordagem do templo pelos profetas pré-exílicos e pelos profetas pós-exílicos. Os profetas pré-exílicos anunciavam o juízo, inclusive sobre a capital, Jerusalém, afirmando que Deus faria com que o templo fosse destruído (Jr 26.18 cf. Mq 3.12). Naqueles dias, o povo se apegava justamente à esperança de que o templo,Senhor a Ageu, no vigésimo quarto dia do mês, dizendo”. O termo traduzido como “novamente” quer, literalmente, dizer “segunda [vez]” (shenît), dado ao fato de que essa mensagem veio em 18 de dezembro de 520 a.C., exatamente no mesmo dia do discurso anterior (vv.10-19). O v.20 data o sermão no vigésimo quarto dia, porém não cita o “nono mês”, mas “do mês”, mostrando se tratar de uma continuidade do que começou no v.10. Assim, podemos esperar que os dois discursos, ainda que tratem de assuntos diferentes — ou complementares —, compartilhem o mesmo propósito e aplicação diante da nação cuja responsabilidade era grande e cuja participação no plano de Deus era importante. A diferença marcante entre os dois sermões é que, enquanto o primeiro trata das bênçãos de Deus no tempo presente — que, para eles, se daria em termos de produção agrícola favorável e permissão e subsídios imperiais para o término da reconstrução do templo —, nesse sermão o assunto tem relação com as bênçãos futuras a serem promovidas pelo Messias, tanto na nação israelita como em todo mundo. A similaridade das duas mensagens, por sua vez, está no fato de ambas proverem Israel de esperança e encorajamento para servir ao Senhor sabendo que um dia receberiam tudo que lhes fora prometido. Algo novo nessa mensagem é o destinatário. Enquanto outros discursos são endereçados às lideranças e ao povo, esse enfoca uma pessoa apenas (v.21): “Fala a Zorobabel, governador de Judá, dizendo: ‘Eu hei de agitar os céus e a terra’”. A mensagem é dirigida a Zorobabel. Entretanto, não devemos entender que se tratasse de uma mensagem só para ele ouvir, como algo secreto. Basta notar que a mensagem foi registrada no livro de Ageu para ser lida por todos, com um caráter de mensagem pública. Assim, Zorobabel é o destinatário dos dizeres do Senhor pela função que ele ocupa na mensagem e na esperança que a profecia produziria em todo o povo. Quanto ao teor, o início da mensagem traz a repetição de um trecho do v.6: “Eu hei de agitar os céus e a terra”. Com isso, o Senhor associa essa mensagem ao segundo discurso de Ageu no qual ele garantiu que o segundo templo seria marcado por uma glória maior que a do primeiro, ideia que assume características messiânicas na esperança judaica. Pois é exatamente isso que o Senhor aborda e produz no último discurso do profeta. Se o segundo discurso tinha uma aplicação contemporânea a Zorobabel e Ageu — no sentido de Deus prover as riquezas e recursos necessários para o término da construção — e uma aplicação futura — de natureza messiânica —, o último discurso assume um caráter puramente futuro ao descrever eventos que não ocorreram nos dias da composição do livro. O caráter mundial e radical das ações divinas previstas aqui volta nossos olhos para os eventos escatológicos (v.22): “Eu tombarei o trono dos reinos e destruirei o poder dos reinos das nações. Eu tombarei o carro e o seu condutor. Os cavalos e seus cavaleiros cairão, cada um pela espada do seu irmão”. A ideia de Deus destruir os reinados humanos já havia sido exposta de uma maneira impactante no sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, na figura de uma pedra singular que, atingindo a base da estátua, abateria todos os reinos e impérios do mundo que atravessaram a história (Dn 2.34,35). O próprio Daniel associa a subjugação das nações e o governo soberano sobre o mundo à pessoa do “Filho do Homem” (Dn 7.13,14 cf. Mc 14.61,62). Colocando em outras palavras que expressam bem a ideia pretendida pela primeira parte do texto, pode-se dizer: “Eu estou prestes a arruinar a autoridade e o poder dos reinos estrangeiros”.[43] O texto de Ageu 2.22 faz coro com a mensagem de Daniel, pois ambos tratam do futuro dos reinos gentílicos que atravessaram a história, sendo abatidos e submetidos pelo Senhor no futuro. Esse caráter futuro deve ser observado a partir da magnitude dos julgamentos anunciados nos vv.21,22 por meio de uma linguagem única que não pode ser confundida com eventos cotidianos da história.[44] Para que fique claro não se tratar de um domínio por meras alianças políticas, tão frágeis como os ânimos de cada governante, mas de uma conquista plena, a sequência do texto coloca o abatimento dos governos das nações em termos militares como “cavalos” e “carros” de guerra, sem falar nos soldados que os utilizam. Para completar, a situação é pintada em tons caóticos ao dizer que os soldados cairão “cada um pela espada do seu irmão”. Para os judeus, tais dizeres traziam recordações de vitórias poderosas efetuadas por Deus em benefício de Israel no passado. A primeira lembrança era da batalha vencida por Gideão, o qual atacou 120 mil midianitas com apenas trezentos soldados (Jz 7.7; 8.10). Quando os soldados israelitas cercaram o acampamento de Midiã e começaram a quebrar jarros vazios, tocar trombetas e gritar (Jz 7.16-20), o Senhor promoveu uma grande confusão entre os midianitas, o que acabou levando-os a matar uns aos outros (Jz 7.22). A segunda lembrança era da tentativa frustrada de invasão dos povos amonitas, moabitas e edomitas nos dias do rei Josafá. Os exércitos dessas três nações se uniram para invadir Judá e o fizeram vindo por um caminho de onde não se esperava nenhuma invasão, de modo que se aproximaram sem ser notados até que fosse tarde demais (2Cr 20.2,10). Josafá orou (2Cr 20.5-12) e a resposta foi que o próprio Senhor venceria aquela batalha (2Cr 20.14,15). Em cumprimento a isso, Deus fez com que os exércitos amonita e moabita se voltassem contra o exército edomita e, tendo dado cabo deste, se voltassem um contra o outro de modo que todos acabaram mortos por suas próprias espadas (2Cr 20.22-24). Tanto no caso de Gideão como de Josafá, a morte dos inimigos pelas espadas uns dos outros marcou o grande poder de Deus e a grande libertação que efetuou em favor de Israel. Era exatamente algo assim que o Senhor prometeu por meio de Ageu. Nesse momento, o Senhor se dirige a Zorobabel e faz declarações difíceis de ignorar ou de minimizar o impacto. Repetindo por três vezes a fórmula de uma declaração divina, provavelmente para render ao texto a devida confiabilidade e seriedade que ela merecia, disse Deus (v.23): “Naquele dia — declara o Senhor dos exércitos — tomar-te-ei, ó meu servo Zorobabel, filho de Sealtiel — declara o Senhor —, e colocar-te-ei como um anel de selar, pois eu escolhi a ti — declara o Senhor dos exércitos”. Zorobabel é aqui qualificado como “meu servo” em vez de “governador de Judá” (v.21). O título “meu servo” constava na mente dos judeus como um dos títulos messiânicos especialmente enfatizados por Isaías (Is 42.1-7; 49.6,7; 52.13- 15; 53.11,12). Essa mudança de tratamento de Zorobabel não é mera questão de estilo literário. A julgar pelo que foi dito no versículo anterior e pela menção de um dia futuro quando tudo isso seria efetivado — “naquele dia” —, a pessoa e a função de Zorobabel aqui devem ser mais bem investigada, pois os eventos preditos não se cumpriram nos seus dias e, na verdade, ainda aguardam cumprimento. Ao que tudo indica, o profeta Ageu faz um uso tipológico da pessoa de Zorobabel, assim como outros profetas o fazem em relação a Davi. Ezequiel, falando da restauração futura de Israel, diz: “O meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor. Seguirão as minhas leis e terão o cuidado de obedecer aos meus decretos” (Ez 37.24; ver também 34.23,24). Tal promessa vislumbra seu cumprimento não na pessoa de Davi, mas de um descendente dele (Jr 23.5). Jeremias, a exemplo de Ezequiel, faz uso tipológico de Davi para se referir ao Messias nos dias escatológicos (Jr 30.8.9), talvez seguindo o profeta Oseias (Os 3.5). Dada a promessa de um descendente de Davi que reinará para sempre (2Sm 7.16 cf. Is 11.1-5; 55.3,4), o Novo Testamento identifica esse “Davi”, tipologicamente falando, com Jesus (Lc 1.32; Ap 22.16). o Texto de Ageu 2.23 parece fazer o mesmo com Zorobabel e, por isso, o chama de “meu servo” em vez de “governador de Judá”. Zorobabel era descendente de Davi e também faz parte da linhagemde Jesus (Mt 1.13; Lc 3.27), sendo, assim, um elo davídico na corrente messiânica.[45] Assim como Davi, por ser rei, nascido em Belém, descendente de Judá e um homem levantado por Deus, representava tipologicamente Jesus, Zorobabel também o fazia por ser descendente de Davi e o responsável pelo retorno dos judeus do cativeiro e pela reconstrução da nação. Desse modo, tanto Davi como Zorobabel representavam funções que serão desenvolvidas plenamente pelo Messias no futuro, quando vier pela segunda vez a fim de reinar. Assim, as declarações ligadas a Zorobabel no v.23 se aplicam perfeitamente a Jesus, o “escolhido” de Deus” (Is 42.1) Entre as menções emblemáticas de um líder tomado, escolhido e posto por Deus para restaurar plenamente a Israel e submeter as nações, há algo digno de nota na figura de um “anel de selar”. Tratava-se de um artefato usado pela realeza como uma marca da função monárquica e como autenticador de documentos.[46] Exemplo disso se vê quando o faraó dá a José seu anel de selar para lhe conferir autoridade diante do povo (Gn 41.41,42) ou quando o anel do rei Acabe é usado para autenticar algumas cartas em seu nome (1Rs 21.8). O selo real era algo tão importante que, por causa do perigo de cair em mãos erradas e ser utilizado de forma indevida, ficava o tempo todo com o monarca, provável razão pela qual era utilizado na forma de um anel. A razão de isso ser colocado no último versículo de Ageu se deve ao fato de que Joaquim, também chamado de Conias (Jr 37.1) e de Jeconias (Jr 22.24,28), que era avô de Zorobabel (1Cr 3.17-19; Mt 1.12) e penúltimo rei de Judá, foi chamado de um “anel de selar” tirado das mãos do Senhor, ou seja, rejeitado como rei e entregue aos inimigos (Jr 22.24,25). Depois de reinar apenas três meses em 598 a.C., ele foi levado para Babilônia e lá deu sequência à linhagem davídica da qual veio Zorobabel e, posteriormente, Jesus (Mt 1.11). Teologicamente, Joaquim representa a queda temporária do trono da casa de Davi sobre Israel. De fato, depois de Zedequias, irmão de Joaquim, ter sido deposto do trono em 587 a.C., nunca mais um descendente de Davi foi rei em Israel. Mas, assim como Zedequias, que teve seus olhos vazados (Jr 39.7 cf. Mq 5.1), será sucedido no trono por Jesus, o rei eterno que nasceu em Belém (Mq 5.2), Joaquim, o “anel de selar” rejeitado, será sucedido pelo descendente de Zorobabel em quem a sentença de Joaquim é suspensa[47] e de quem se diz “colocar-te-ei como um anel de selar, pois eu escolhi a ti”. Por isso, Zorobabel tipifica aqui o retorno da linhagem messiânica interrompida pelo exílio.[48] Desse modo, o v.23 traz à atenção dos judeus dos dias de Ageu que, depois de eles reconstruírem o templo, o Senhor não restauraria apenas a nação, mas também o trono de Israel sob a linhagem de Davi. Que mensagem encorajadora para um povo que tinha tanto trabalho pela frente e tantos impedimentos a serem transpostos! Para eles, ouvir essa mensagem fez surgir um novo sentido no trabalho de reconstrução do templo, pois todas essas promessas seriam cumpridas depois da obra concluída. Independente de haver um grande intervalo entre o término da reconstrução e a vinda do Messias para restaurar o coração do povo, promover a independência nacional, garantir o domínio da terra prometida e reerguer o trono davídico, o fato é que aqueles judeus estavam fazendo parte desse processo. O povo, ao edificar aquele templo, estava tomando parte na história da redenção. A esperança futura dava um novo significado e um ânimo redobrado para prosseguirem na tarefa ordenada por Deus. A igreja vive uma realidade semelhante. Ela também tem uma parte a cumprir no plano de Deus e na história da redenção. Em certos aspectos, a missão da igreja se torna bastante parecida com a obrigação dos israelitas, configurando assim o dever de todo servo de Deus de todas as eras: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9; comparar com Êx 19.5,6). Por isso, toda vez que somos chamados à obediência por meio das Escrituras, devemos imediatamente tomar nosso posto nesse exército que serve a Deus. Não importa o tamanho da obra, seja grande demais, nos fazendo perder a coragem, ou pequena demais, nos sugerindo que não vale a pena fazer. Também não importa se nosso Senhor está para voltar hoje ou daqui a mil anos. Nosso dever diante de Deus faz parte de tudo que o Senhor está fazendo na promoção da redenção do pecador, na glorificação do seu nome e na expansão do seu reino. Obedecê-lo significa tomar parte em uma obra maravilhosa cujo fim é certo e vitorioso. Portanto, três palavras devem representar nossa disposição presente: coragem, fidelidade e esperança! Comentário de Zacarias ZACARIAS 1.1-6 A Lembrança do Castigo O profeta Zacarias surge pregando aos judeus cerca de dois meses após o primeiro discurso de Ageu repreendendo o povo por buscar o conforto dos seus lares e deixar a casa de Deus em ruínas. Não se sabe o dia exato da sua primeira pregação, mas ela não foi muito distante do segundo sermão de Ageu feito aos judeus, quando eles já vinham trabalhando na reconstrução havia três semanas, mas começavam a enfrentar os primeiros temores como sentimento de incapacidade, devido à magnitude da obra, e preocupações com sua subsistência, já que os celeiros estavam vazios e as colheitas frustradas dos últimos anos não serviam agora de encorajamento. Dado o momento em que Zacarias entra em cena, sua mensagem se coaduna com o momento no qual “encorajamento” é a palavra de ordem das profecias. A diferença marcante entre os dois profetas é que, enquanto Ageu prega seu último sermão dois meses após o início do ministério de Zacarias, este continua a falar ao povo por mais dois anos. Isso também faz com que a quantidade de material produzido individualmente seja bem diferente. O conteúdo da profecia de Zacarias está dividido em oito visões, quatro mensagens e dois oráculos, exatamente nessa ordem.[49] Não obstante, assim como para Ageu, para ele o arrependimento era o início do processo de retorno ao Senhor, algo explícito no princípio do livro. Como era um costume frequente da época, o livro começa com a data e com a fonte da mensagem (v.1): “No oitavo mês do segundo ano de Dario, veio a palavra do Senhor ao profeta Zacarias, filho de Berequias, filho de Ido, dizendo”. Tendo já feito considerações sobre a data, resta-nos falar a respeito do autor. Sobre a filiação de Zacarias, sabe-se que ele não tinha dois pais, mas um pai e um avô aqui listados. A menção “filho de Ido” pode ser compreendida de duas formas. A primeira, como pai de Berequias, como se dissesse que Zacarias era filho de Berequias, o qual, por sua vez, era filho de Ido. A segunda forma, consistente com a evidência bíblica e com o costume antigo, é entender que Zacarias, sendo neto de Ido, era também chamado filho, já que a referência filial muitas vezes apontava para a linhagem de alguém (1Rs 15.11; 22.51; 2Rs 14.3; Mt 1.1,20; 9.27; Jo 8.39) — o versículo seguinte lança mão do mesmo tipo de linguagem ao se referir aos antepassados distantes do povo como “vossos pais”. O fato é que, apesar de ser comum para nós o uso do termo “neto”, em algumas línguas, como o hebraico, é mais natural o uso duplo de “filho”, assim como nesse caso.[50] A identificação de Zacarias como “filho de Ido” ocorre outras vezes (Ed 5.1; 6.14), mesmo porque Ido era uma boa referência pessoal, por se tratar de um dos sacerdotes que retornaram do cativeiro — o próprio Zacarias é listado como um sacerdote descendente de Ido (Ne 12.16 cf. v.12). Como Ido era vivo e atuante no ofício sacerdotal quando os judeus retornaram da Babilônia, devemos imaginar que Zacarias não era muito velho, razão possível pela qual ele é sempre citado depois de Ageu (Ed 5.1; 6.14). O v.1 apresenta a dinâmica que marca a atividade profética na forma de o Senhor falar diretamentea eles e os comissionar como mensageiros oficiais das suas palavras. Assim, sem alongar a introdução, Zacarias passa à mensagem em si (v.2): “O Senhor muito se irou contra vossos ancestrais”. Ancestrais, nesse texto, é a tradução do que literalmente quer dizer “vossos pais”. Entretanto, não é uma referência aos progenitores diretos daquela geração, mas aos israelitas de muitas gerações anteriores, os quais, pela incredulidade, desobediência e rebeldia, acumularam pecados que levaram a nação a ser rejeitada como alvo de bênçãos e proteção divina e os conduziram ao juízo por meio da invasão e cativeiro babilônicos. Para mostrar a intensidade da ira de Deus, o verbo “irar-se” (qatsaf) faz um par com o substantivo “ira” (qatsef) no texto hebraico, dando ênfase ao sentimento de ira e sendo traduzido como “muito se irou”. Como uma famosa e antiga tradução do Antigo Testamento para o grego, feita cerca de dois séculos antes de Cristo — a Septuaginta —, acrescenta o adjetivo “grande” (megálen), poderíamos também dizer: “O Senhor se irou contra vossos pais com grande ira”. Tudo isso aponta para a rebeldia obstinada dos antecessores dos judeus a ponto de provocar tal reação no Deus cujo caráter é marcado por amor, misericórdia e paciência. Apesar de sabermos que o Senhor não perde o controle, o texto visa a transmitir a ideia de que os israelitas de tempos anteriores, em seu pecado, ultrapassaram todos os limites. A simples menção da ira de Deus contra as gerações anteriores serve de trampolim para um chamado à geração presente (v.3): “Portanto, dize a eles: ‘Assim diz o Senhor dos exércitos: voltai-vos a mim — declara o Senhor dos exércitos — e eu me voltarei para vós — diz o Senhor dos exércitos’”. Assim como ocorre no último versículo de Ageu, a insistência na declaração de Deus eleva a importância da mensagem e lhe dá credibilidade, de modo que não haveria dúvidas para aqueles judeus de que, se agissem como Deus ordenou, seriam inevitavelmente abençoados. Também conferia grande responsabilidade a eles com a certeza de que seriam punidos se endurecessem o coração, como se o texto dissesse: “É pegar ou largar!”. A relação condicional proposta por Deus não é nova, mas compatível com as bênçãos pela obediência e as maldições pela rebeldia prescritas na aliança mosaica (Lv 26; Dt 28). Assim, essa não é uma nova proposta, mas um novo chamado à fidelidade. Como motivação ao chamado, Deus expõe o povo à lembrança do castigo dos seus antepassados (v.4): “Não sejais vós como foram vossos ancestrais, a quem os primeiros profetas clamaram, dizendo: ‘Assim diz os Senhor dos exércitos: convertei-vos dos vossos maus caminhos’, mas eles não deram ouvidos, nem me atenderam — declara o Senhor”. A lembrança não é apenas do castigo, mas do fato de o Senhor ter feito o mesmo chamado às gerações anteriores. A decisão daquelas gerações e as consequências das suas decisões são o material a ser avaliado pelos homens dos dias de Zacarias para que também decidam como agir. O verbo hebraico “convertei-vos” (shûvû) é o mesmo que no v.3 é traduzido como “voltai-vos”. Ele também quer dizer “arrepender-se” e a escolha da tradução deve levar em conta o contexto imediato. No v.3, a ideia é de relacionamento, já que Deus responde voltando-se ao povo também. Contudo, no v.4, o verbo é associado aos “maus caminhos” nos quais eles andavam. Nesse caso, o povo antigo deveria ter vivenciado a dupla ideia de conversão que envolve arrependimento, por meio do abandono do pecado, e retorno, no sentido de voltarem a obedecer a Deus. Entretanto, eles resistiram e permaneceram no erro. A grande rebelião contra o Senhor que eles protagonizaram é expressa tanto no pecado no qual andavam como na rejeição de um convite tão amoroso como o que Deus lhes fez, a quem eles “não deram ouvidos, nem me atenderam”, segundo as palavras do Senhor. Para evidenciar a responsabilidade que aquela geração tinha de escolher o certo e de não agir como seus antecessores rebeldes, Deus propõe duas perguntas retóricas (v.5): “Quanto aos vossos ancestrais: ‘Onde eles estão?’. E quanto aos profetas: ‘Eles vivem para sempre?’”. A ausência de resposta a essas perguntas mostra que ela era clara: “Estão todos mortos, sejam os rebeldes, sejam os servos verdadeiros de Deus!”. Se a resposta não deixa dúvidas, a função das perguntas dentro da argumentação divina não é tão clara como desejaríamos. O ponto parece ser a celeridade com que a decisão de obedecer a Deus deveria ser tomada.[51] Nem as antigas gerações, nem os fiéis profetas de Deus podiam fazer qualquer coisa agora, nem contribuir com nada além do exemplo que deixaram. A oportunidade que perderam no passado não podia ser recuperada. Do mesmo modo que as gerações anteriores, nem esses judeus, nem os profetas que estavam ministrando entre eles durariam para sempre. A única coisa possível era essa geração agir diferente e logo. E o tempo estava passando, de modo que o atraso em obedecer lhes custaria caro. Outra implicação é o fato de que os profetas do passado, apesar de deixarem mensagens preciosas, não estavam mais entre eles, razão pela qual aqueles judeus deviam dar ouvidos aos profetas da sua geração. A partir desse ponto, Deus deixa de apontar para as gerações de um passado longínquo e mostra como sua palavra impactou a geração imediatamente anterior (v.6a): “Não é certo que as minhas palavras e os meus preceitos que ordenei aos meus servos, os profetas, alcançaram os vossos pais?”. Nesse caso, a expressão “vossos pais” — a mesma em hebraico presente nos vv.2,4,5 — faz menção a outro grupo, visto que a reação desses, expressa na segunda parte do v.6, é exatamente oposta à dos antigos ancestrais. Desse modo, “vossos pais”, nesse versículo, é uma referência aos pais de fato, os antecessores diretos daquela geração, os quais, sofrendo as consequências do juízo divino no cativeiro babilônico, realmente se arrependeram e voltaram ao Senhor. Se os “pais” são pessoas diferentes em relação aos versículos anteriores, o teor da mensagem era exatamente o mesmo.[52] O Senhor ainda os chamava ao arrependimento com base nas mesmas instruções e acordos. Apesar de os profetas do passado terem morrido, as mensagens que eles trouxeram da parte de Deus não passaram.[53] Ao contrário, tudo aconteceu exatamente como Deus estabeleceu e avisou (v.6b): Assim, eles se converteram e disseram: ‘Do modo como o Senhor dos exércitos planejou fazer a nós, de acordo com os nossos caminhos e com nossos feitos, assim ele fez para conosco’”. Diferente dos ancestrais rebeldes, esses se arrependeram, mudaram o comportamento e buscaram o Senhor. É notável a diferença na reação dos que foram ao exílio. Em primeiro lugar, eles aceitaram a palavra de Deus e reconheceram seus pecados, atribuindo aos próprios erros o fato de estarem longe da terra da promessa e das bênçãos da aliança. Em segundo lugar, essa percepção e o desenvolvimento de um coração tratável os levaram ao arrependimento. Se o exemplo das gerações rebeldes era o modelo a não ser seguido, os judeus deviam imitar seus pais e corrigir seus próprios pecados, passando a obedecer e servir a Deus. Como igreja de Cristo no século 21, devemos notar nessa mensagem que o encorajamento e a esperança promovidos pelo Senhor não andam longe do temor e da reverência. O servo de Deus deve obedecê-lo e honrá-lo porque o ama profundamente e lhe é grato por todas as bênçãos imerecidas. Entretanto, visto ser Deus santo e justo, os servos devem também fugir do pecado e da rebeldia por temerem a disciplina do Senhor que, segundo o autor de Hebreus, apesar de produzir o bem nos servos, não é considerada razão de alegria quando é executada (Hb 12.11), razão pela qual o temor deve produzir correção e acerto (Hb 12.12,13). Nesse sentido, a recordação da disciplina e das consequências enfrentadas por causa dos pecados tem um papel importantíssimo. O servo de Deus pode olhar para sua própria história, em suas experiências de correções efetuadas por Deus, e para a história de outros que passaram por isso. E conformeo raciocínio que Zacarias sugere, parece ser bem mais sábio aprender a partir da experiência alheia que aguardar, a duras penas, reunir experiência pessoal de sofrimento. Na verdade, as Escrituras, dentre suas funções, foram dadas para nos ensinar por meio da história de outros homens, alguns que acertaram e outros que erraram e sofreram as consequências. Diz o apóstolo Paulo: “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10.11). Então, olhe para o que a Bíblia ensina e para o que aconteceu aos homens que a obedeceram e aos que se rebelaram, seguindo o exemplo dos bons servos que se arrependeram do mal e buscaram o Senhor de coração. Se você aprender essa lição, será a vez de o Senhor lhe encorajar e lhe encher de esperança. ZACARIAS 1.7-17 O Zelo de Deus por Seu Povo Esse texto contém a primeira das oito visões de Zacarias, a qual tem como cerne a figura de vários cavalos e o relatório que prestam sobre as nações, com a finalidade de garantir que Deus estava no pleno controle dos acontecimentos e do destino das nações.[54] As oito visões de Zacarias, a maioria delas acrescidas de oráculos que explicam seu sentido, estão assim divididas: 1.7-17(primeira), 1.18-21(segunda), 2.1-13 (terceira), 3.1-10 (quarta), 4.1-14 (quinta), 5.1-4 (sexta), 5.5-11 (sétima) e 6.1-15 (oitava). Elas têm como função encorajar os judeus na tarefa de reconstrução do templo, garantindo a eles as bênçãos de Deus para o seu presente e para o futuro. Essa seção é iniciada com a ocasião em que o profeta teve tais visões (v.7): “No vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês — o mês chamado Sebate — do segundo ano de Dario, veio a palavra do Senhor ao profeta Zacarias, filho de Berequias, filho de Ido, nestes termos”. “Sebate” é o nome babilônico do décimo primeiro mês do calendário usado entre eles,[55] de modo que o dia em questão corresponde a 15 de fevereiro de 519 a.C., três meses após a primeira mensagem de Zacarias (Zc 1.1-6) e dois meses após o último pronunciamento de Ageu. Essa parece ser a data em que o profeta teve todas as oito visões, sendo suprido, assim, de material suficiente para incentivar e encorajar o povo nos quatro anos que ainda restavam para se concluir a obra do templo. Durante a noite, mas não dormindo, Zacarias tem a visão que relata no livro (v.8): “Tive uma visão durante a noite. Eis que um homem estava montado sobre um cavalo marrom. Ele estava parado entre as murteiras que havia no vale. Atrás dele havia cavalos marrons, baios[56] e brancos”. Muitas versões trazem a descrição da cor do primeiro cavalo como “vermelha”. Apesar de a mesma palavra hebraica também significar “marrom”, “castanho” ou “pardo”,[57] a tradução possível usando o vermelho não deve nos fazer imaginar um quadro surreal, fora da realidade que conhecemos, mas uma referência que ainda é usada nos nossos dias aos animais amarronzados. Desse modo, a visão evoca um cavaleiro em condições normais. O que o torna singular, no decorrer do texto, é sua identidade descrita como “anjo do Senhor” (vv.10,11). A respeito das “murteiras”, trata-se de arbustos típicos de beiras de rios, muitos dos quais atravessam as partes mais baixas de um “vale”. Apesar de haver muitas sugestões sobre o significado desse vale como sendo aquele defronte a Jerusalém ou uma referência a um mito antigo no qual a casa dos deuses era localizada em um vale, a ausência de explicação e aplicação para o local aqui descrito parece indicar apenas um ponto natural de encontro e de descanso de uma comitiva. Quanto às diversas cores dos cavalos junto ao cavaleiro principal, elas produzem a ideia, na mente do leitor, de um grupo grande e não de uns poucos animais. Dado que eles prestaram esclarecimentos sobre sua missão (v.11), é possível — mas não obrigatório — que tais animais estivessem sendo montados por outros cavaleiros, os quais seriam os reais autores do relatório.[58] Zacarias, então, entra em cena (v.9): “Então, perguntei: ‘Quem são esses, meu senhor?’. E o anjo que falava comigo me respondeu: ‘Eu te mostrarei quem são esses’”. Esse “anjo que falava comigo” não é a mesma pessoa montada no cavalo marrom, mas é um mensageiro do Senhor a fim de ajudar Zacarias a compreender as visões (Zc 1.9,13,19; 2.3; 4.1,4,5; 5.5,10; 6.4). Dando seguimento, esse anjo parece fazer voltar novamente os olhos de Zacarias para a visão, onde a resposta é dada pelo cavaleiro principal (v.10): “Então, respondeu o homem que estava parado entre as murteiras, dizendo: ‘Esses são os que o Senhor enviou para percorrerem a Terra’”. A figura de cavalos enviados por todo o território era uma prática comum no controle de um reino ou um império. A busca por informações recentes garantia a supremacia real e militar de um soberano. Era também uma maneira de demonstrar por toda parte que o rei não estava desatento e que, mesmo de longe, dominava de fato todo seu território. Desse modo, parece que Deus quer lembrar seus servos da sua supremacia sobre o mundo, sobre as nações e sobre os rumos da história, ainda que eles vivessem dias difíceis que os faziam se esquecer de tais verdades e achar que o Senhor havia deixado de agir. A explicação a Zacarias, registrada no v.10, parece exercer também a função de uma pergunta dirigida aos cavalos, já que eles a respondem (v.11): “Eles responderam ao anjo do Senhor que estava parado entre as murteiras, dizendo: ‘Nós percorremos a Terra e eis que toda a Terra está repousada e calma’”. Esse é o relatório dos emissários que percorreram a Terra, a qual pertence a Deus. O resultado era calmaria. Apesar de parecer uma boa notícia, o v.15 coloca esse fato sob uma óptica negativa devido às razões dessa paz. O fato é que a ausência de conflito não se devia a uma paz coletiva em benefício da humanidade, mas ao domínio inexorável do império Medo-Persa, o qual sujeitou as nações de toda aquela região e tirava vantagem da situação, sem que ninguém lhe pudesse fazer oposição. Desse modo, a paz do império significava sujeição, vergonha e miséria em Judá. Por causa da situação desfavorável do povo eleito de Israel, o texto seguinte contém um clamor pela nação (v.12): “Então, respondeu o anjo do Senhor, dizendo: ‘Ó Senhor dos exércitos, até quando tu não terás compaixão de Jerusalém e das cidades de Judá contra quem tu estás indignado neste [período] de setenta anos?’”. A identidade desse “anjo do Senhor” é difícil de determinar. É possível, contudo, distingui-lo claramente do “anjo que falava comigo” que aparece várias vezes nos seis primeiros capítulos de Zacarias. Quanto ao “anjo do Senhor”, ele só reaparece em Zc 3.1,2, onde ele é o próprio Senhor. O tom do clamor parece indicar o pedido de providências de um servo ao seu Senhor, pelo que, inclusive, utiliza o pronome pessoal “tu” (’attâ) para lhe dirigir o clamor, demonstrando se tratar de outra pessoa. Entretanto, é também possível que se trate de um caso, aclarado principalmente pela teologia do Novo Testamento, em que pessoas da trindade ocupem tanto o lugar do “anjo do Senhor” como do Senhor em pessoa a quem o primeiro se dirige. Uma proposta compatível com essa visão, talvez extemporânea, é a de uma cristofania, ou seja, uma aparição de Cristo na forma daquele cavaleiro.[59] Sobre os “setenta anos”, uma conclusão apressada é associá-los à referência feita por Jeremias (Jr 25.11,12; 29.10), à qual descreve os setenta anos de existência e domínio do império Neobabilônico, desde 609 a.C., com o fim do trono assírio na queda de Aram,[60] até 539 a.C., com a queda da Babilônia diante de Ciro. Os setenta anos citados no v.12, pelo uso da palavra “este” (zeh), parece ser o período que estava para se completar, o qual teve início em 587 a.C. com a destruição de Jerusalém e do templo do Senhor e com traslado dos judeus para a Babilônia. Com isso, o anjo está clamando pela cidade com base no fato de que o juízo sobre ela tinha prazo para acabar. Se o Senhor até agora havia se mostrado irado contraos pecados de Israel, passou então a demonstrar outra disposição com relação ao povo (v.13): “Mas o Senhor respondeu ao anjo que falava comigo dizendo palavras bondosas, palavras de conforto”. Não obstante, as palavras serem dirigidas ao anjo mensageiro, os beneficiários da bondade divina e do consolo eram os judeus que estavam afadigados pela obra que tinham diante de si em uma cidade de muros derrubados, recebendo oposição dos vizinhos e sob o fardo do domínio de outra nação. Imediatamente, o profeta foi imbuído da missão de repassar a mensagem bondosa aos seus compatriotas (v.14): “Então, o anjo que falava comigo me disse: ‘Proclama o seguinte: Assim diz o Senhor dos exércitos: Eu zelo grandemente por Jerusalém e por Sião’”. A ação traduzida como “zelar” também quer dizer “se enciumar”. Tirando todos os aspectos negativos do ciúmes humano — que envolvem orgulho, interesses pessoais e egoísmo —, é o que Deus afirma sentir pela cidade que escolheu e, obviamente, pelo seu povo que lá colocou para habitar. Isso implica não apenas um sentimento de posse e de proximidade como atitudes práticas que revelam um grande zelo pelo povo que lhe pertence. É como dizer que ele cuida pessoalmente do seu povo e do destino que planejou para aquela cidade. A menção de Sião ao lado de Jerusalém tanto pode ser um sinônimo como uma alusão ao trono de Davi, já que ele é frequentemente associado ao monte Sião devido ao fato de tê-lo conquistado na tomada da cidade (2Sm 5.9, “Cidade de Davi”) — tal conexão dentro da visão não é enfática, nem necessária, mas é complementar à ideia da restauração nacional. O zelo divino por seu povo, a ser revelado em uma inversão mundial de poder, começaria a se manifestar sobre os inimigos (v.15): “E estou profundamente irado contra as nações arrogantes, pois eu estava um pouco irado, mas elas agravaram o mal”. “Nações arrogantes” é a ideia final produzida pela expressão literal “nações tranquilas” ou “nações que vivem tranquilamente”. Contudo, viver tranquilamente não é errado nem passível da ira de Deus, já que a própria Jerusalém terá tranquilidade no futuro (Is 32.18).[61] O que aconteceu às nações para exacerbar a ira de Deus é que sua tranquilidade se dava com prejuízo da tranquilidade do povo de Deus, a quem dominavam e desprezavam. Assim, a confiança em seus meios militares, os quais lhes garantiam a tranquilidade, transformava a favorável situação de paz em ocasião de arrogância e irreverência diante do Senhor e do seu povo. Desse modo, tais nações, instrumentos de Deus para a punição temporária de Israel, foram além da sua função e praticaram tanta maldade que atraíram maior ira do Senhor, tornando-se elas mesmas os alvos da punição divina prevista nas Escrituras. O zelo de Deus sobre seu povo, metaforicamente descrito por sua capital política, também se faria ver (v.16): “Portanto, assim diz o Senhor: ‘Eu me voltei para Jerusalém com compaixão. Minha casa será nela construída — declara o Senhor dos exércitos — e uma fita métrica será estendida sobre Jerusalém’”. A primeira declaração expressa o apaziguamento de Deus e o fato de que suas promessas, feitas no passado, não ficariam esquecidas, nem infrutífero o relacionamento iniciado e prometido no chamado de Abraão. A primeira evidência disso seria o bom êxito na reconstrução do templo. Independente do esforço dos inimigos de Judá para paralisar as obras, ela seria completada. Em segundo lugar, a cidade seria reconstruída. A menção a uma fita métrica estendida sobre a cidade tem relação com os preparativos para uma grande edificação, marcando o território a ser ocupado[62] — como fez Neemias, quase oito décadas depois, ao circundar a muralha caída a fim de organizar a obra de reconstrução (Ne 2.11-15) —, ou com um tipo de conferência de uma obra recém-edificada e inaugurada (Ez 40.5; Ap 21.15). A visão se encerra com uma proclamação de alto impacto nas esperanças daquele povo (v.17): “Proclama novamente, dizendo: ‘Assim diz o Senhor dos exércitos: A minha cidade transbordará outra vez de riquezas, o Senhor novamente consolará Sião e escolherá novamente Jerusalém’”. O primeiro fator a ser levado em conta, difícil de passar despercebido, é a repetição insistente da palavra “novamente” ou “outra vez” (‘ôd). O profeta é chamado a “novamente” pregar que o Senhor “novamente” beneficiará Jerusalém, o que é colocado de três modos diferentes, mas complementares. A ideia é que o tempo de juízo chegaria ao fim e as bênçãos do Senhor retornariam. Se Ageu havia prometido que Deus proveria o segundo templo das riquezas necessárias para seu término e de uma glória maior que a da primeira construção (Ag 2.6-9), Zacarias prevê o bem nacional, na figura da capital, a qual também seria provida de riquezas, seria resgatada do sofrimento e do desfavor pelo Senhor e voltaria a ser tratada como cidade escolhida do povo eleito. Deve-se notar que Deus não desistiu da sua escolha para depois escolher novamente, mas sim que ele voltaria a tratar o povo que escolheu sob os privilégios de um povo eleito. Apesar de todas essas promessas terem um foco bastante localizado, tanto geográfica como etnicamente, ver o Senhor agir desse modo nos recorda que seu tratamento é bondoso, compassivo e consolador para com aqueles que lhe pertencem. Por isso, nossas esperanças de futuro se fundem com as esperanças do povo de Israel no sentido de aguardarmos a restauração mundial na qual nosso Deus punirá os pecadores arrogantes e não tementes a ele e beneficiará, pela graça, as pessoas a quem escolheu resgatar do pecado pela fé em Jesus. Isso deve também nos fazer acolher uma condição serena em vez de impulsos de revolta quando os ímpios parecem impunemente ajuntar maldades sobre maldades, sabendo que Deus, um dia, pedirá contas de tudo e derramará sua ira sobre os perversos. Se essa visão e as lições decorrentes dela trouxeram vigor a um grupo não muito grande de construtores para que terminassem o templo do Senhor em Jerusalém, o que fará a nós, cristãos, diante dos desafios que temos no sentido de proclamar o evangelho de Cristo e de viver para a glória de Deus em um mundo como o nosso? ZACARIAS 1.18-21 O Contra-ataque do Senhor Nos seus dias de glória, Israel chegou a ser um modesto império, exercendo influência e recebendo tributos de nações ao redor durante o reinado de Davi e Salomão. Entretanto, depois da divisão do reino em dois países — Israel ao norte e Judá ao sul —, o povo se viu, muitas vezes, oprimido por nações vizinhas. Porém, suas derrotas marcantes ocorreram quando a Assíria destruiu Samaria (722 a.C.), capital do reino do norte, exilando os israelitas em Hala, cidade localizada a nordeste de Nínive (2Rs 17.3-6), e quando os babilônicos destruíram Jerusalém (587 a.C.), capital do reino do sul, trasladando seus moradores para a Babilônia (2Cr 36.17-21). A segunda visão do profeta Zacarias traria à mente dos judeus esses tristes momentos da sua história, mas não para os desanimar. Ao contrário, a intenção da visão era produzir coragem e esperança, tendo como base a certeza da punição dos inimigos. Ao que tudo indica, a visão tem lugar logo após a anterior, dada a ausência de uma introdução que ofereça detalhes introdutórios ou a data. Zacarias simplesmente relata o que ocorreu (v.18): “Eu levantei os meus olhos e vi: Eis que havia quatro chifres”. É provável que a visão desses chifres envolva também os animais que os possuíam, como touros, os quais podem ser afugentados (v.21).[63] A menção específica aos chifres se deve ao uso metafórico desses que, interpretados em relação à situação real de vida naqueles dias, representava o poderio militar de um país.[64] Assim como o chifre é a poderosa e perigosa arma de um touro, os recursos militares de um rei e de uma nação constituíam o poder que tinham de abater e subjugar povos vizinhos. Por isso, uma invasão e destruição militar costumava, na época, ser representada pela figura de um touro ao “levantar o chifre” (v.21), movimento usado por esses animais para desferir seus golpes fortese destroçadores. Há quem interprete a ação de levantar o chifre como um ato de arrogância assim como dos homens que levantam suas cabeças em posição de desafio, mas isso não condiz muito com a figura do touro que, de modo contrário, desafia os inimigos e demonstra poder abaixando a cabeça e ficando em posição de ataque. A visão de Zacarias parece ser imóvel. Os chifres não estavam fazendo nada, de modo que o que intriga o profeta não é a função deles, mas sua identidade (v.19): “Então eu perguntei ao anjo que falava comigo: ‘O que é isso?’. E ele me respondeu: ‘Esses são os chifres que espalharam Judá, Israel e Jerusalém’”. A resposta aponta para uma ação passada dos chifres: o espalhamento do povo de Judá e de Israel e, em especial, a cidade de Jerusalém — local em que Zacarias está pronunciando sua mensagem. Quanto à identidade dos quatro chifres, algumas sugestões oferecidas pelos teólogos ao longo da história são “assírios, babilônicos, medos e persas” ou “assírios, egípcios, babilônicos e medos-persas” — se pensarmos nos povos que os haviam subjugado até aqueles dias —, ou ainda “babilônicos, medos- persas, gregos e romanos” — se pensarmos na explicação usual a respeito do sonho de Nabucodonosor interpretado por Daniel (Dn 2). As primeiras possibilidades vislumbrariam o cumprimento da segunda visão de Zacarias imediatamente na forma de proteção contra os inimigos da reconstrução do templo,[65] enquanto a última possibilidade, o cumprimento escatológico que melhor condiz com o livro de Zacarias e com a ideia da própria visão de abatimento do poder das nações. Outra possibilidade seria a sucessão de impérios — sucessão já iniciada naqueles dias —, de modo que o mesmo reino em determinada ocasião seja um dos “artífices” dessa visão, tomando o lugar de outro, para depois ser um dos “chifres” a serem abatidos pelo seu sucessor. Uma probabilidade adicional é a de os quatro chifres serem as nações vislumbradas por Daniel, enquanto os quatro artífices sejam o próprio Messias, com a dificuldade de que as nações deveriam ser apenas aquelas que, até os dias de Zacarias, “espalharam Judá, Israel e Jerusalém”. O fato é que nenhuma dessas possibilidades consegue ser completamente satisfatória ou suficientemente abrangente, mesmo porque o texto não avaliza qualquer delas. Por isso mesmo, há que se considerar que o número dos chifres pode não querer apontar para nações agressoras específicas, mas para a totalidade dos inimigos do povo de Israel que se levantam para guerrear com eles e tentar frustrar o que Deus prometeu lhes fazer. Nesse sentido, não é impossível que número quatro seja entendido como uma referência à “completude” ou que represente os inimigos dispostos nas quatro direções (Norte, Sul, Leste e Oeste).[66] De qualquer modo, considerar a descrição com uma referência geral também nos isenta de ter de definir a identidade dos artífices (v.20) e a razão do seu número, entendendo simplesmente que eles são quatro, no texto, para se contrapor aos inimigos e os derrotar com um poder que lhes supera a força. Apesar de já termos comentado sobre os contrapontos dos chifres, eles só surgem no versículo seguinte (v.20): “Em seguida, o Senhor me mostrou quatro artífices”. Muitas versões traduzem a palavra “artífice” (harash) como “ferreiro”. “Artífice” é a palavra genérica para um artesão sem lhe definir a especialidade, podendo ele trabalhar com madeira, pedra ou metal. [67] Desse modo, o próprio ferreiro é um artífice, sem, contudo, que todo artífice seja um ferreiro. Por isso, deve-se entender aqui que nem a palavra especifica um artífice de metais, nem a figura exige ou combina com a função. A única razão para se entender que os artífices aqui são ferreiros é interpretar que os chifres da visão são feitos de ferro, o que é extrapolar o texto. Isso talvez se faça a partir da comparação com Miqueias 4.13, que associa o chifre ao ferro, porém, em outra ocasião, com outra nação e com a intenção de representar a durabilidade de Israel contrária à transitoriedade das nações inimigas presente no texto de Zacarias. Apesar de o ferro ser um fator fundamental na fabricação das armas de guerra daquele contexto, a figura da visão representa os exércitos inimigos de Israel como touros ferozes armados com seus próprios chifres — mesmo que os touros não sejam citados, a ideia do poder de um chifre é dependente do seu uso em um ataque. Sendo assim, o artífice em questão, capaz de produzir terror nos chifres (v.21), deve ser entendido como aquele que trabalha e esculpe cornos bovinos. O terror vem do fato de ser necessário que o touro seja abatido e o chifre extraído da sua cabeça para que esse artesão efetue seu trabalho — uma ótima figura para a ideia de Deus abater as nações inimigas de Israel e Judá. Dessa vez, Zacarias se preocupa menos com a identidade dos artífices que com sua função (v.21): “Então eu perguntei: ‘O que esses vieram fazer?’. Ele respondeu o seguinte: ‘Esses são os chifres que espalharam Judá de modo que homem algum levante sua cabeça. Mas vieram esses [artífices] para os aterrorizar e para expulsar os chifres das nações que levantaram o chifre contra a terra de Judá para a espalhar’”. A pergunta de Zacarias é intrigante, pois demonstra uma percepção de que algo ocorreria. Se os chifres representavam ações passadas, o profeta percebe que os artífices estavam ali para executar algo iminente.[68] A resposta demonstra que o abatimento poderoso das nações inimigas não era gratuito. Quando essas nações “espalharam” os moradores de Judá — e de Israel (v.19) —, o resultado foi que homem algum pôde levantar a cabeça. Isso tanto aponta para a impossibilidade que o povo teve de resistir os inimigos como para a condição humilhante a que foram sujeitados. O texto deixa transparecer uma força excessiva e um tratamento cruel desnecessários em uma conquista militar que, na verdade, acabou por agravar a ira do Senhor contra os dominadores (Zc 1.15). Assim, quando o Senhor repete (cf. v.19) o que os inimigos fizeram a Judá, essa declaração tem o tom de uma sentença judicial. A ideia final é que, como resposta ao domínio estrangeiro cruel e como ação defensiva em relação ao seu povo, o Senhor enviaria seus artífices para “aterrorizar e para expulsar os chifres das nações”. Nenhum dos inimigos de Israel, cujas ações lhe trouxe sofrimento e humilhação, jamais foi fraco ou covarde. Entretanto, a ação prevista por Deus nessa visão pinta o quadro de uma retaliação com poder tal que mesmo os mais poderosos inimigos seriam tomados de pavor e inexoravelmente vencidos. O caráter permanente da expulsão dessas nações não é declarado, mas tal declaração nem é necessária. Está claro que o abatimento seria definitivo, o que volta novamente os nossos olhos para o futuro e para o resultado dessa ação na forma de Israel e Judá não apenas vindicados pelo mal que receberam, mas plenamente restabelecidos (Jr 30.3; Ez 36.23-36). Nem é preciso argumentar a respeito dos efeitos dessa mensagem sobre a coragem, o ânimo e a esperança dos judeus diante da tarefa tão árdua que tinham de realizar e diante de ameaças tão temíveis que tinham diante de si. Essa visão nos lembra de verdades que nos são úteis ainda hoje. Nós também, como povo de Deus separado para sua glória e que luta para se santificar e agir de modo a honrar e anunciar a mensagem do nosso Senhor, sofremos ao ver um mundo imerso nas trevas, na devassidão e na injustiça. Assim como o escritor do Salmo 73, nós também ficamos estupefatos com a maldade crescente e, principalmente, com a impunidade dos injustos. Como aquele salmista, também corremos o risco de desanimar e de achar que os maus nunca serão punidos pelo dolo das suas ações. Entretanto, a visão de Zacarias nos lembra que o Senhor é Deus sobre justos e injustos. Aos justificados pela fé em Cristo, ele tem reservado promessas de cuidado e de bênçãos futuras que nem podemos compreender totalmente por enquanto. Mas aos injustos, o Deus da justiça reserva suas sentenças condenatórias a serem cumpridas temporalmente,por meio de eventuais inversões das condições de vida, e, eternamente, por meio da condenação definitiva do pecado dos incrédulos. Saber disso não diminui nosso sofrimento quando somos perseguidos e injustiçados por servir o Senhor Jesus Cristo, mas certamente nos consola por sabermos que temos um protetor que nos ama, nos encoraja a continuarmos firmes e nos enche de esperança de um dia, glorificados, habitarmos para sempre com aquele que nos preparou morada ao seu lado. ZACARIAS 2.1-5 A Cidade Habitada e Protegida O segundo capítulo de Zacarias contém a terceira visão do profeta (vv.1-5), seguida de um chamado bastante encorajador (vv.6-13) para que os judeus espalhados pelo mundo, especialmente nas terras da Babilônia, retornassem para a terra da promessa a fim de serem beneficiados pelas futuras ações de Deus em relação à capital do seu país e também ao mundo todo. Por isso, uma mudança marcante no tom das visões até aqui é que o foco sai da ação divina sobre as nações e recai sobre a ação do Senhor sobre a cidade escolhida para sediar o reinado do Messias: Jerusalém. Nesse sentido, Zacarias vai além de Ageu e não fala apenas da reconstrução do templo, mas da própria cidade. Em seus dias, essa ideia parecia um sonho impossível de se cumprir, pelo que o povo devia se sentir desanimado e inseguro a respeito do futuro e até da utilidade de um templo em uma cidade de muros caídos, sendo um alvo fácil de salteadores e de vizinhos gananciosos e invejosos. Nem é preciso dizer como uma profecia sobre a reconstrução dos muros de Jerusalém teria um impacto positivo na vida de toda aquela comunidade. Assim, mais uma vez o profeta tem uma visão (v.1): “Então, levantei os olhos e vi: Eis que havia um homem que tinha em suas mãos uma corda de medir”. Apesar de a frase iniciar com uma simples conjunção, muitas versões traduzem o início do versículo usando a palavra “novamente”. Mesmo sem a palavra hebraica para isso não ocorrer no texto — literalmente, o texto apenas diz “e levantei os olhos e vi” ou “mas levantei os olhos e vi” —, a ideia de que uma nova visão é dada ao profeta é clara, mostrando que uma nova lição será oferecida ao povo. Nesse caso, a mensagem começa com a visão de um agrimensor, ou seja, alguém com um instrumento rústico, mas eficaz, para medir uma área de terra. Muitos comentários bíblicos se arriscam a adivinhar a identidade desse homem, mas ninguém consegue oferecer uma opção satisfatória. Isso porque o texto não se importa com quem ele é, mas com o que ele faz. Assim, pode-se até atrelar didática e representativamente sua identidade à Neemias ou aos judeus que planejavam e aguardavam a construção do muro de Jerusalém, sem que com isso se ignore o fato de que o centro da visão não é o homem que mede, mas a reconstrução em si. De qualquer modo, esse “homem” é apenas a primeira figura incógnita da visão, da qual a interpretação independe da identidade do agrimensor. Seguindo a ideia de que a função do homem é o foco do primeiro versículo, Zacarias o interroga sobre seu trabalho e tem esclarecida a missão específica do homem com a corda de medir (v.2): “Eu perguntei: ‘Onde vais?’. Ele respondeu: ‘Vou medir Jerusalém para ver qual é sua largura e seu comprimento’”. É óbvio que a mensuração do perímetro da cidade não tinha como motivação simplesmente a curiosidade, mas a intenção de projetar seus muros, com base no planejamento dos limites, e executar a obra de erguimento das muralhas — a ideia da medida dos limites da cidade fica clara na menção à “sua largura e seu comprimento”, descartando uma ação que visasse simplesmente ao interior de Jerusalém. Apesar de haver nas Escrituras exemplos de ações como essa, com a intenção de fazer conhecida do profeta ou do apóstolo a obra que Deus tem planejada, como se ela já estivesse pronta (Ez 40.3; 47.3-5; Ap 11.1; 21.15), nesse caso, a medida não é de uma construção terminada, mas ainda por fazer. Além da mensagem relativa à edificação em si, é notável que a misericórdia e o perdão de Deus haviam atingido plenamente aquele povo, pois a reconstrução do que foi destruído na punição por seus pecados não se daria pela metade, apenas no reerguimento do templo.[69] Normalmente, esse trabalho de medição é desnecessário ou de menor importância quando se pretende reconstruir exatamente sobre os alicerces da edificação anterior. Porém, esse não parece ser o caso. A medida a ser tomada visa a projetar uma nova muralha em novos limites. Isso foi exatamente o que aconteceu com a reconstrução feita oitenta anos depois sob a direção de Neemias. Provavelmente, movido pela promessa de uma grande população habitando Jerusalém (v.4), Neemias não se restringiu aos antigos limites da cidade, mas englobou uma área maior que a dos dias de Davi.[70] Para tanto, ele saiu a medir, ainda que mentalmente, os arredores da cidade (Ne 2.13-15) a fim de planejar os melhores locais para assentar a nova muralha de modo a abrigar o povo que ali viveria e manter a cidade em segurança diante de ataques inimigos. Quando alguém faz isso, a obra está prestes a iniciar. Nesse momento, um novo personagem — um anjo — entra em cena para introduzir a promessa que dirige e dá sentido à visão (v.3): “Eis que saiu o anjo que falava comigo e outro anjo foi ao seu encontro”. O quadro parece ser o da chegada de um mensageiro divino que surge a certa distância. Quando o anjo intérprete o vê, sai ao seu encontro e ambos se reúnem não distante do profeta. A identidade do segundo anjo, o portador da mensagem, não é conhecida, nem necessária à compreensão do texto. O enfoque, assim como no caso do agrimensor, está sobre o que irá ocorrer a Jerusalém (v.4): “Ele lhe disse: ‘Apressa-te a dizer a este jovem o seguinte: Jerusalém será habitada como uma cidade sem muros devido à multidão de homens e de animais que haverá dentro dela”. Há vários fatores a serem observados. Em primeiro lugar, a identidade do “jovem”. Apesar de haver quem proponha se tratar do agrimensor, o pronome demonstrativo “este” (hallaz), dito ao anjo que tinha a tarefa específica de falar com Zacarias, coloca o profeta como receptor da mensagem com a clara intenção de a repassar ao povo de Jerusalém com urgência, pelo que o anjo mensageiro diz ao anjo intérprete “apressa-te a dizer”. Na verdade, não era o serviço do agrimensor que necessitava da informação fornecida pelo anjo, mas o do profeta. Além do mais, a descrição de Zacarias como alguém de não muita idade concorda com o fato de que, quando citado junto com seu companheiro de ministério, Ageu seja o primeiro — provavelmente como uma forma de respeito ao mais velho (Ed 5.1; 6.14). Entretanto, o que merece nossa maior atenção são as palavras sobre a cidade. Mesmo ficando claro que seus muros seriam reconstruídos (vv.1,2), a população que viveria ali no futuro seria maior do que os muros poderiam abrigar. A previsão de Jerusalém ser habitada como se não tivesse muros não se deve à ausência da muralha, mas ao excesso de população, uma “multidão de homens e de animais”. Isso significa que os judeus exilados por causa da infidelidade de Israel retornariam para a terra prometida em grandes levas, enchendo totalmente o país.[71] Tal consideração, obviamente, tira os nossos olhos dos dias imediatos após a reconstrução por Neemias, quando foi necessário obrigar por sorteio famílias judias a morar dentro da cidade a fim de a povoar, visto que os voluntários não bastavam (Ne 11.1). O caráter futuro dessa promessa engloba, assim, uma visão de Jerusalém sendo habitada dentro e fora das suas muralhas, com especial número de moradores no exterior dos muros de modo que façam jus à menção de Jerusalém existir como se fosse um local desguarnecido de limites murados. O fato é que Jerusalém será grande demais para ser possível construir um muro ao seu redor.[72] Ainda assim, trata-se de uma cidade única e compacta, já que seus munícipes são localizados “dentro dela” ou “no meio dela” — não se trata de vilarejosnas cercanias da cidade, um tipo de “Grande Jerusalém”, assim como se diz da “Grande São Paulo”. Jerusalém seria enorme e populosa, bem diferente do que aqueles judeus esperariam com base em sua experiência pessoal naquela localidade. Por um lado, a ideia de uma cidade tão grande que não coubesse dentro de muros encorajava o povo com relação ao seu futuro, mas, por outro, podia fazer com que a ideia de levantar novamente as muralhas parecesse um trabalho inútil, já que nem toda a população seria beneficiada pela proteção desse anteparo. Por isso, a mensagem continua e Deus garante que haverá proteção plena para todos os moradores (v.5): “Mas eu serei um muro de fogo ao redor dela — declara o Senhor — e promoverei glória no meio dela”. Se os paredões de pedra não envolveriam todos os moradores, o Senhor pessoalmente agiria como se fosse um muro, entretanto, mais forte e impenetrável: um “muro de fogo”. Essa é uma linguagem figurada cuidadosamente escolhida para promover esperança nos judeus por meio da recordação da proteção que Deus promoveu aos israelitas do êxodo, colocando um bloqueio, na forma de uma espessa nuvem e de fogo, entre eles e o exército egípcio (Êx 14.19-24). Esse poder irresistível do Senhor agiria no futuro para garantir a paz de Jerusalém. Isso faz com que a menção da cidade sem muros, no versículo anterior, assuma um caráter de segurança não como uma localidade desprotegida, mas sim de uma cidade que não precisa de muralhas.[73] Contudo, a ação de Deus não se daria somente “ao redor” da cidade, mas também “no meio dela”, de modo que a paz não seria o único benefício sobrenatural produzido em Jerusalém. O texto diz, literalmente, “eu serei para glória no meio dela”, o que quer dizer que a presença protetora e provedora de Deus seria a razão de a cidade ser enchida de glória. Nesse caso, o sentido da palavra glória, aplicado à realidade de uma cidade e à vida dos seres humanos, deve ser formado por conceitos como “honra”, “esplendor”, “riqueza”, “abundância” e “poder”.[74] Resumindo, a ação futura de Deus em Jerusalém forneceria grande fama à cidade, além de plena proteção e de todo o suprimento necessário para uma vida tranquila e feliz. Ademais, a promessa de que a presença de Deus na cidade, como protetor e glorificador, renovaria a esperança de ele sempre habitar com seu povo em sua cidade,[75] e não de voltar a habitar apenas o templo. Seu retorno seria pleno. Com isso, a visão da condição de Jerusalém passa, de vazia e escancarada aos inimigos, para uma urbe habitada e protegida por Deus, promovendo a esperança dos corajosos judeus que voltaram da Babilônia para uma cidade que vivia até então em um estado semicaótico. Era o ânimo que eles precisavam para prosseguir com a obra do templo e esperar em Deus a reconstrução, também da muralha e da cidade, como uma sociedade organizada e populosa, plenamente abençoada pelo Senhor em pessoa, em cumprimento às suas promessas. Parte importante da relevância moderna desse texto está no fato de que a mesma figura de um instrumento de medição surge no Novo Testamento para acender a esperança escatológica da igreja de Cristo: “O anjo que falava comigo tinha como medida uma vara feita de ouro, para medir a cidade, suas portas e seus muros” (Ap 21.15). Tal cidade não é Jerusalém, mas a Nova Jerusalém (Ap 21.2), local preenchido pela glória e presença de Deus (Ap 21.22,23) para onde afluem os servos do Senhor de todas as nações a fim de adorá-lo (Ap 21.24-26). Tal local, diferente das cidades modernas que são tomadas de criminosos e de homens de mau caráter, tem suas portas abertas apenas para aqueles que creram em Cristo e foram por ele redimidos: “Nela jamais entrará algo impuro, nem ninguém que pratique o que é vergonhoso ou enganoso, mas unicamente aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21.27). Assim como ao povo judeu, essa visão nos enche de esperança de que um dia o Senhor fará o que agora parece muito distante: purificar o mundo da maldade e trazer plena justiça e paz por meio do Senhor Jesus. Ao mesmo tempo, nos confere grandes responsabilidades no sentido de agirmos desde já segundo os parâmetros da pátria futura e de trabalharmos na edificação de suas muralhas, “apressando-nos a dizer” ao mundo que nosso salvador virá para reinar sobre aqueles que creem no seu nome para o perdão dos pecados. Que nossa corda de medir se estenda desde nossos lares até os confins da Terra, passando por nossas famílias, nossos amigos, nossa comunidade e por todos os lugares em que o Senhor nos colocou para divulgar sua santa mensagem! ZACARIAS 2.6-13 Quando o Senhor se Levantar Assim que Zacarias relata aos judeus sua terceira visão (Zc 2.1-5), ele passa a transmitir ordens e orientações dadas por Deus na forma de um oráculo. Ele inicia com um alerta bastante chamativo (v.6): “Ei! Ei! Fugi vós da terra do Norte — declara o Senhor —, pois eu vos dispersei como os quatro ventos dos céus — declara o Senhor”. A interjeição “ei!”, duas vezes nesse versículo e uma vez no seguinte, tem a função de promover um alerta relacionado à importante mensagem que será dita e um chamado à pronta. Esse contém várias ordens expressas por meio de verbos na forma imperativa: “fugi vós” (v.6), “livra-te” (v.7), “exulta”, “regozija” (v.8) e “cale-se” (v.13) — as quatro primeiras ordens são dirigidas aos judeus, enquanto a última é um chamado geral à humanidade. No v.6, a ordem é “fugi vós da terra do Norte”. O ato de fugir ou escapar é claro, de modo que a pergunta a se fazer é “fugir de quê?” ou “fugir por que?”. Para responder é preciso notar que os judeus exilados não estavam sob ameaça dos seus dominadores. Apesar do risco que correram adiante, nos dias de Ester, o Senhor garantiu sua sobrevivência, assim como o fez em todas as ocasiões em que as nações se levantaram para exterminar o povo de Israel, pelo que ainda existem. No geral, os exilados eram tidos como necessários nas terras onde estavam pelos serviços que prestavam. Desse modo, não parece se tratar de uma fuga de perseguições. Isso fica mais claro quando, adiante, o texto revela que Deus se levantaria contra aquelas nações vizinhas para puni-las pelo que fizeram ao seu povo, de modo que ficar no meio de tais nações, adaptado aos seus valores e modo de vida, era se arriscar a sofrer com elas. Isso concorda com a ordem do versículo seguinte, de modo que supor que o propósito de “fugir” seria apenas ajudar a construir o templo em Jerusalém, é ir além do que o texto expressa — esse propósito, contudo, pode ser associado como motivo secundário e consequente, dado o fato de que Deus viria a beneficiar Jerusalém e seu povo, trazendo-lhes grande alegria (v.10). Nesse sentido, voltar da “terra do Norte” não é diferente de voltar de todo lugar, aos “quatro ventos”, para onde foram espalhados. Como as invasões dos impérios que dominaram Israel normalmente vinham pelo Norte, mesmo por parte de reinos do leste como a Babilônia,[76] por causa do deserto onde hoje é a Jordânia, as Escrituras costumam usar a figura de “exércitos do Norte” como instrumentos de Deus para a oposição e punição do povo israelita (Ez 38.15; Jl 2.20) e as “terras do Norte” como local do seu exílio e de onde eles deveriam retornar (Is 43.5,6; 49.12; Jr 3.12; 31.8). Assim, o v.6 contém uma ordem de retorno geral, para a terra da promessa, de todos os judeus exilados no mundo. Ao fazer isso, o texto volta nossos olhos para o futuro escatológico, quando se dará tal processo de retorno à terra da promessa: “Naqueles dias a comunidade de Judá caminhará com a comunidade de Israel, e juntas voltarão do norte para a terra que dei como herança aos seus antepassados” (Jr 3.18, cf. v.17). A ordem prossegue (v.7): “Ei, Sião! Livra-te, ó tu que habitas com a filha da Babilônia”. A expressão “filha da Babilônia” é um modo de se referir aos babilônicos que residiam dentro da capital do seu país — assim como a expressão “filha de Sião” (v.10) aponta para os habitantes de Jerusalém. É certo que não haviajudeus morando apenas dentro das muralhas da Babilônia, mas também ao seu redor e por vários outros países do mundo — como Egito, Assíria, Pérsia, além de outras terras —, de modo que se dirigir aos israelitas que habitavam na “filha da Babilônia” era usar essa expressão como uma figura de linguagem para se referir não somente aos moradores da cidade em si, mas de todo o país e das demais terras para onde foram. É certo que há vários outros modos de se referir às terras do exílio, de modo que a Babilônia, aqui, deve ter sido escolhida por Deus por ser a fonte do maior e mais recente desterro do povo de Israel com quem o Senhor falou por meio de Zacarias. A explicação da razão das ordens dadas nos vv.6,7 surge a partir do texto seguinte, certamente o versículo mais difícil de se traduzir de todo o capítulo (v.8): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: “Aquele que vos fere, fere a menina dos meus olhos” — de modo que, a fim de trazer glória, ele me enviou contra as nações que vos saquearam”. A primeira parte do texto apresenta o zelo de Deus pelo seu povo como razão pela qual ele puniria os povos que abateram Israel e Judá. A promessa de juízo não é declarada abertamente, mas nem é preciso. O fato de “a menina dos olhos” (lit. “a maçã do olhos”) de Deus ter sido atacada, obrigatoriamente nos leva à ideia de que o Senhor vindicaria seu povo amado pelo tratamento severo que recebeu dos inimigos. Se isso é claro e fácil de captar, a segunda parte do texto nos leva a questionamentos mais difíceis de serem resolvidos. O principal deles é a “identidade” do interlocutor que fala ao profeta e que foi enviado por Deus contra as nações para promover glória. A sugestão de ser o próprio profeta esbarra no fato de que, além de anunciar as palavras de Deus, Zacarias não exerceu nenhuma função militar, nem viu cumpridas em seus dias as promessas de retorno dos israelitas dos “quatro ventos”, nem o abatimento dos inimigos sob Israel (v.9), nem tampouco as nações buscando a Deus (v.11). Se alguém quiser propor que se trata do “anjo que falava comigo” ou de algum outro ser angelical, terá de explicar como esse anjo poderá exercer uma função tão proeminente a ponto de comandar as nações de Israel e de todo o mundo como se lhe pertencessem (v.11). A melhor sugestão é se tratar do próprio Messias.[77] Assim, quem fala ao profeta é, ao mesmo tempo, alguém enviado pelo Senhor e apto a reinar sobre o mundo, dizendo “serão o meu povo” (v.11). Associando esses dizeres à terceira visão de Zacarias, não é nada absurdo ser o Messias aquele anjo que veio ao encontro do anjo interprete para anunciar a repopulação da cidade (Zc 2.3) — obviamente, essa identificação com aquele anjo não é obrigatória, nem tampouco necessária. De qualquer modo, ao se identificar o interlocutor com o Messias, a segunda pergunta a se fazer ao texto — “que glória é essa a ser obtida por ele?” — acaba por se responder naturalmente. Se o interlocutor é enviado por Deus para vindicar o tratamento cruel e severo rendido a Israel, sua missão visa a inverter os papeis políticos e militares em relação ao que ocorreu no passado (v.9): “De fato, contra eles eu levantarei minha mão e eles serão um despojo para seus servos. Assim, vós sabereis que o Senhor dos exércitos me enviou”. O Messias tem poder para levantar sua mão com poder e abater as nações, de modo que os antigos dominadores se tornem os dominados. E mais que isso: serão dominados pelos seus antigos servos — uma menção ao próprio povo de Israel, o qual foi perseguido e escravizado por muitas nações. Essa ideia concorda com a mensagem de profetas anteriores a Zacarias que previram que, no estabelecimento do reinado do Messias, os judeus, espalhados por todo o mundo, tomariam parte dessa inversão de poder (Is 41.14-16; Mq 5.7,8,13). Interessante notar que, no decorrer de tais acontecimentos em um futuro esperado, ficará patente a identidade e a função do Messias como aquele que “o Senhor dos exércitos enviou”. Não será mais possível negá-lo, desprezá-lo ou ignorá-lo. Na verdade, ficará claro, assim como nesse oráculo, que as ações do enviado são idênticas às ações do Senhor.[78] Tendo declarado o destino das nações que se opuseram ao povo de Deus, o Senhor volta seus olhos para o tratamento que renderá a Israel e diz (v.10): “Exulta e regozija, ó filha de Sião, pois eis que virei e habitei no vosso meio — declara o Senhor”. Dizer isso enquanto o povo tinha de construir a “habitação” de Deus, o templo em Jerusalém, faz com que os leitores associem rapidamente tais palavras à reinauguração do santuário ainda nos dias de Zacarias — e, de certo modo, isso é em parte verdadeiro. Entretanto, o versículo seguinte mantém nossos olhos nos eventos escatológicos, descritos pela expressão “naqueles dias”. Assim sendo, a promessa de habitar no meio do povo, além de envolver o iminente relacionamento entre Deus e Judá assim que o templo estivesse de pé, visa a fazer recordação de que o Senhor prometeu estar entre eles de um modo especial em um momento quando as bênçãos não seriam dadas pela metade, mas haveria o cumprimento total das suas promessas. Por isso, ainda que Deus estivesse em toda parte e dirigisse a vida do seu povo, ele diz “eis que virei”, se referindo a um evento especial da sua presença (Is 40.9-11). Nesse sentido, ainda que o dia tão esperado ainda estivesse no futuro, a reconstrução do templo era fundamental para se aguardar a especial vinda do Senhor (Ez 37.27). Por isso, também, ainda que a situação política e social daqueles dias fossem o oposto do que eles aguardavam, e ainda que tivessem de trabalhar em meio a tantas dificuldades, a ordem lógica é “exulta e regozija”. Até aqui, os alvos do tratamento divino foram as nações inimigas e o povo de Deus. Entretanto, entra em cena um terceiro grupo que é formado pelas nações que se submeterão ao Senhor em um caráter pleno que combina com o mundo completamente sujeito a Deus.[79] Para eles, também há participação no reinado do Messias (v.11): “Naquele dia, muitas nações se união ao Senhor e serão o meu povo. Eu habitarei no meio de ti e tu saberás que o Senhor dos exércitos me enviou a ti”. É importante notar que há uma distinção entre o Senhor, citado na terceira pessoa, e o interlocutor enviado, que fala de si na primeira pessoa. Entretanto, apesar da distinção de pessoas, há um compartilhamento fundamental de funções já que aqueles que buscarem o Senhor, tornar-se-ão povo do seu enviado. Quando o interlocutor olha para o povo que busca a Deus e diz “serão o meu povo”, comprova dividir com o Senhor mais do que a função política. Dizer isso, nesse contexto, é se identificar com o próprio Deus, assumindo a função de soberano divino, de restaurador da nação, de cumpridor das promessas e de promotor da Nova Aliança (Jr 31.33; 32.38).[80] Se o texto anterior diz que o Senhor habitará entre seu povo de modo especial, aqui o Messias é quem também se faz presente no meio de Israel se fazendo conhecido como o enviado prometido e aguardado. A busca das nações pelo Senhor e pelo Messias, em Sião, tem como resultado a produção de uma paz mundial marcada pela justiça e pela submissão do mundo à Deus (Is 2.2-4). A vinda do Senhor, por meio do seu enviado, não promoveria uma posse parcial ou limitada a áreas específicas de influência. Longe de exercer uma liderança autônoma somente em campos religiosos ou teológicos, o Senhor assumiria o controle pleno de Judá (v.12): “Assim, o Senhor tomará posse de Judá, sua porção na terra santa, e novamente escolherá a Jerusalém”. Judá, aqui, deve ser compreendido em sentido amplo, como uma metonímia que aponta para todas as tribos de Israel, todo o povo judeu, e também para os domínios territoriais prometidos a esse povo (Gn 13.14,15; 15.18-21). Tudo isso — o povo e a terra — é “sua porção na terra santa”. Não significa que essa a única posse divina, mas que se trata do cumprimento da promessa de o Senhor agir como Deus pessoal da descendência de Abraão e, a partir dela, ser também o Deus das nações, levando-lhesas bênçãos prometidas ao patriarca (Gn 12.1-3). Na posse da herança, não é apenas o povo e a terra quem foram escolhidos por Deus, mas também a cidade de Jerusalém, frequentemente nomeada Sião, como sede do seu governo terreno. O que a cidade sofreu no passado e ainda sofre no presente, sem que os judeus consigam retomá-la para si em caráter exclusivo (Lc 21.24), será deixado para trás e o trono de Davi será reerguido a fim de dirigir Israel e as nações (2Sm 7.16 cf. Lc 1.31-33). Como o mundo todo é o campo da atuação do Senhor, seja para punir, seja para abençoar, o texto termina com uma ordem à humanidade de se submeter e de temer a Deus (v.13): “Cale-se toda carne diante do Senhor, pois ele se levantou da sua santa morada”. Levantar-se da sua morada significa deixar o repouso e passar a cumprir o que previamente anunciou. Quando isso acontecer, ninguém poderá impedi-lo ou se opor a ele. O melhor é, calado, em forma de total reverência e sujeição, servi-lo e aguardar dele a salvação. Caso contrário, nem é preciso descrever o peso da sua punição. Levantar-se da sua morada (v.13) e levantar a mão contra os inimigos (v.9) denotam o grande poder que tem o Senhor e o modo como ele inverterá tudo que vemos de errado e vil ao nosso redor. Se o mundo tem seguido rumos que surpreendem e assustam até os homens mais pessimistas, não é porque Deus não tem poder de impedir o avanço do mal ou porque não se importe com o que os homens façam, mas porque “ainda” não se levantou para julgar os pecadores. Entretanto, aguardamos esse dia com esperança e com a plena certeza de que ele chegará. Se isso nos enche de esperança com relação ao futuro, também nos leva, no presente, a buscar uma vida condizente com a justiça a ser promovida pelo Messias, a conclamar o mundo perdido que se abrigue pela fé entre as fileiras do Senhor e a glorificar o nome daquele que já é grande e soberano mesmo antes de vir e tomar posse da sua herança. Que as promessas do passado e a certeza do futuro nos guiem e guardem no presente! ZACARIAS 3.1-10 A Promessa da Vinda do Messias Algo interessante ligado à quarta visão de Zacarias é a centralização da figura de Josué, o sumo sacerdote. Depois de garantir, nas visões anteriores, a reconstrução e confirmação de Jerusalém como habitação do Senhor e como cidade escolhida para, a partir dela, reinar sobre Israel e sobre as nações, Deus agora transmite a ideia de que também restauraria o ministério sacerdotal entre seu povo. Afinal, não havia razão de se reconstruir o templo se o culto oferecido ali não fosse aceito pelo Senhor. Uma das principais dificuldades de interpretação desse capítulo é o acúmulo de sujeitos ocultos que nem sempre são óbvios no contexto, exigindo que o exegeta tente determinar a identidade de cada um segundo as ações que praticam e os papéis que ocupam no decurso da visão. Desse modo, Zacarias dá início ao registro da quarta visão que teve (v.1): “Então, ele me mostrou o sumo sacerdote Josué em pé diante do anjo do Senhor e Satanás estava em pé à sua direita para o acusar”. Aqui surge o primeiro sujeito oculto: aquele que mostrou ao profeta os eventos da visão. Tendo em vista que o anjo do Senhor surge como personagem, podemos supor que quem direciona Zacarias para diante da visão é o anjo intérprete, que não é citado literalmente nesse capítulo. Versões que trazem algo como “Deus me mostrou”, fazem-no por mera suposição dos seus tradutores, ao passo que versões que traduzem “então eu vi” ignoram a pessoa e o grau do verbo que indica uma terceira parte mostrando a visão a Zacarias. De qualquer modo, o profeta vê três pessoas: o sumo sacerdote, o anjo do Senhor, chamado simplesmente de “Senhor” no versículo seguinte[81] — possivelmente uma cristofania, como em Zc 1.11,12, com uma ressalva a ser feita em Zc 3.8 —, e Satanás, cuja intenção é declarada. Apesar de o texto não aclarar o teor da acusação satânica, não é precipitado supor se tratar de o sacerdócio ter sido condenado pelo Senhor, assim como a toda liderança e sociedade judaica de antes do exílio, por seus pecados e desonra. Contudo, essa acusação encontra em Deus um ouvido moco não pelo Senhor ignorar os pecados cometidos, mas por agir com perdão e com uma ação restauradora descrita na visão.[82] Se esse texto abre possibilidade de que, em lugar de Satanás agir como acusador de Josué, ser um opositor do anjo do Senhor, o texto seguinte torna evidente, pela defesa que o Senhor faz de Josué, que a primeira opção é preferível. Isso também nos ajuda a entender a atuação de Satanás que, em lugar de pelejar diretamente com Deus, opta por se opor aos servos do Senhor. A intenção divina de abençoar Jerusalém e o sacerdócio ministrado entre os judeus faz com que o Senhor não suporte a atuação satânica e afaste o inimigo dos seus servos de modo impetuoso (v.2): “Disse o Senhor a Satanás: ‘Que o Senhor te repreenda, ó Satanás! Que o Senhor, aquele que escolheu Jerusalém, te repreenda! Não é este um tição tirado do fogo?’”. A repreensão divina nesse texto não se parece nada com filmes de exorcismo nem com sessões de expulsão demoníaca de certas igrejas, nos quais uma luta é travada com demônios que só são vencidos após longa e dura batalha. Nesse caso, uma simples palavra do Senhor basta para fazer com que o personagem satânico desapareça de cena e deixe Josué livre para ser instrumento de Deus na visão profética. Ele também oferece duas explicações pelas quais rejeita as acusações de Satanás e o repele. A primeira é que o Senhor escolheu Jerusalém, mostrando que, independente da punição que rendeu à cidade, seu plano sempre foi restaurá-la e reabilitá-la como local abençoado e fonte de bênçãos para todos os povos e nada iria impedi-lo de fazer o que planejou. Em segundo lugar, se refere a Josué como um “tição tirado do fogo”. Se a Babilônia agiu como uma fogueira no celeiro dos judeus, consumindo-lhes a cidade e o templo e exilando-os em terra estrangeira, como que castrando seu futuro e sua continuidade, o Senhor afirma que impediu a extinção do povo e do sacerdócio trazendo-os de volta antes que fossem consumidos por completo, assim como uma lenha em brasas — o “tição” — retirada da fogueira antes de ser de todo consumida pelas chamas. Em resumo, é um modo de Deus afirmar a continuidade do seu povo e do sacerdócio ministrado no templo que estava sendo reconstruído por sua ação libertadora anos antes. Com isso, Deus também frustra por completo a tentativa de Satanás de fazer com que o Senhor condenasse seu povo à extinção pelos pecados que, pela graça divina, foram perdoados. Se Satanás desaparece de cena, o foco recai agora sobre a figura do sumo sacerdote. Se, por um lado, um tição tirado do fogo é uma madeira preservada da destruição completa, é também um pedaço de carvão que suja tudo que tocar. Essa mesma imagem é exposta de outro modo no texto seguinte (v.3): “Josué estava vestido com roupas sujas e de pé diante do anjo”. Tanto o carvão do tição como as roupas sujas do sumo sacerdote mostram que não bastava a sobrevivência. Deus ainda precisava intervir na purificação de Josué. O fato de ele estar de pé, parado diante do anjo, deixa transparecer sua incapacidade de lidar com sua sujeira e sua dependência de Deus para tanto. O anjo do Senhor não se omite diante da necessidade e emite palavras cujo efeito são o perdão e a purificação de Josué e do ministério que ele ocupa (v.4): “Ele tomou a palavra e disse o seguinte aos que estavam em pé diante dele: ‘Retirai dele as vestes sujas’. E disse-lhe: ‘Vê que eu afastei de ti a tua iniquidade e irei te vestir com vestes luxuosas’”. As duas frases presentes no texto são dirigidas a ouvintes distintos. A primeira ordem é dada a sujeitos ocultos, um grupo de servos, talvez angelicais, para que tirassem os trapos sujos do sumo sacerdote. A segunda frase é dirigida ao próprio Josué, explicando a ele o que estava sendo feito em seu benefício, incluindo o aspecto espiritual do perdão e da purificação de todas as iniquidades quepor marcar a presença de Deus entre a nação, seria a causa de Jerusalém resistir a qualquer ataque. O profeta Jeremias revela a valorização supersticiosa dos judeus em relação ao santuário afirmando que eles se negavam a dar ouvido aos avisos proféticos, dizendo entre si: “Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor!” (Jr 7.4b). Curiosamente, a Jerusalém pós-exílica pensava o oposto, desvalorizando o templo, sem fazer questão de reedificá-lo. Desse modo, em vez de anunciar a destruição do templo, os profetas Ageu e Zacarias trabalharam no sentido de animar e encorajar o povo à sua construção, apontando as consequências da negligência, os benefícios da obediência e as esperanças escatológicas ligadas à existência daquela casa. Segue abaixo um quadro sobre as datas identificáveis nos livros dos dois profetas.[4] Ageu Zacarias 29 de agosto de 520 1.1 21 de setembro de 520 1.15 17 de outubro de 520 2.1 Outubro ou 1.1 novembro de 520 18 de dezembro de 520 2.10,18,20 15 de fevereiro de 519 1.7 7 de dezembro de 518 7.1 Uma parte notável na mensagem de Ageu e Zacarias — e de outros profetas — é o papel do templo como peça fundamental da esperança messiânica e de restauração (Is 2.2,3; Mq 4.1,2). Ezequiel 37, enfatizando a restauração de Israel como um só reino e povo, debaixo do governo do descendente de Davi e em obediência e santidade, tinha o templo com um fator integrante e fundamental: “Minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Então, quando o meu santuário estiver entre eles para sempre, as nações saberão que eu, o Senhor, santifico Israel” (Ez 37.27,28). Assim, com o conhecimento escatológico que eles tinham na época, sabiam que precisavam do templo reconstruído por três razões: aguardar o Messias, se preparar para a restauração ampla da nação e promover a glória de Deus. A negligência com a obra do santuário afetava frontalmente esses três objetivos e os fazia andar longe das ordens e dos objetivos do Senhor, demonstrando descaso com a revelação de Deus e com as esperanças graciosamente concedidas a eles. Felizmente, o ministério de Ageu e Zacarias, pela graça de Deus, foi bem sucedido. Por causa das suas exortações, a obra recomeçou (Ed 5.1,2), mas não sem enfrentar novamente oposição externa (Ed 5.3). O que os inimigos dos judeus não esperavam era que o imperador Dario Hystapes, avisado por eles da obra, mandasse procurar e encontrasse o decreto no qual Ciro ordenava a reconstrução do templo com os custos a serem pagos pelo Estado (Ed 6.1-5). Assim, Dario confirmou aquele decreto sob pena de morte para quem o descumprisse (Ed 6.6-12) e a obra foi concluída em 12 de março de 515 a.C. (Es 6.15), quatro anos e meio após o reinício das obras. A diferença de tempo entre essa obra e a de Salomão que, apesar de ter muito mais gente e recursos, levou sete anos e meio para ser concluída, se deve ao fato de que os alicerces do primeiro templo foram reaproveitados na segunda construção. [5] Diante disso tudo, não é difícil notar as diferenças e semelhanças entre o povo judeu daqueles dias e a igreja de hoje. No campo das diferenças estão as previsões da aliança mosaica sobre o tratamento de Israel diante da obediência ou da rebeldia em um sistema de recompensa e castigo[6] (Lv 26; Dt 28), algo que não se aplica à igreja na forma de um acordo entre duas partes, e também a detalhes da esperança escatológica que, no caso de Israel, não envolve apenas restauração espiritual, mas também nacional. Entre as semelhanças estão o desejo de Deus de ser obedecido e honrado por seus servos, as dificuldades que os homens têm nesse campo devido ao egoísmo e orgulho e, ainda, as consequências de se manter rebelde e apático diante da obra do Senhor. Esses livros nos chamam a olhar para o passado de Israel e da igreja, avaliar nossos impulsos e nosso comprometimento com Deus e com suas orientações e, finalmente, vislumbrar o futuro com esperança tal que produza fidelidade a Deus digna dos cidadãos da pátria celestial. Também apontam para a exclusividade do caminho de acesso à comunhão com Deus, no passado pelo sangue de animais oferecido em fé no templo e no presente por meio do sangue de Cristo (Hb 10.19-23).[7] Por isso, mais que nunca é importante e relevante para os servos de Deus dar ouvidos ao que o Senhor revelou e ensinou por meio de Ageu e Zacarias. Comentário de Ageu AGEU 1.1-6 Um Povo Inerte e Sofredor O livro de Ageu, como é costume da maioria dos livros proféticos, inicia identificando o autor e a ocasião (v.1): “No segundo ano do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra do Senhor por meio do profeta Ageu a Zorobabel, filho de Sealtiel, governador de Judá, e ao sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, dizendo”. Há nesse texto um modo formal de se referir a cada um como sendo pessoas únicas em suas funções: “Dario, o rei”, “Ageu, o profeta”, “Zorobabel, governador de Judá” e “Josué, [...] o sumo sacerdote”. Nenhum desses personagens era novo ou desconhecido dos judeus. No caso do seu governador e do sumo sacerdote, além do rei do Império Medo Persa, não é de admirar que fossem bem conhecidos entre o povo. Mas quando Ageu é tratado do mesmo modo, sendo denominado “o profeta”, isso nos sugere que ele era bastante conhecido e respeitado em seus dias. Talvez até já tivesse uma carreira profética, apesar de só conhecermos os fatos ligados aos acontecimentos da reconstrução do templo (Ed 5.1; 6.14) a partir do ano 520 a.C., o “segundo ano do rei Dario”. [8] A função profética de Ageu era amplamente reconhecida e a ele era reputado o título de “mensageiro do Senhor” (v.13). Como mensageiro, ele dirige suas palavras ao governador e ao sumo sacerdote, líderes do país renascido, tendo como alvo final toda a população. O início dessa mensagem traz à atenção de todos um sistema de “ação e reação”: o descaso dos judeus com o templo do Senhor e a consequente carestia que vinham sofrendo. Em primeiro lugar, o profeta, em nome do Senhor, aponta o erro do povo com um tom muito claro de repreensão (v.2): “Assim diz o Senhor: Este povo tem dito: ‘Não chegou o tempo de a casa do Senhor ser edificada’”. A fórmula “assim diz o Senhor” marca os pronunciamentos dos mensageiros do Senhor desde Moisés (Êx 4.22; 5.1) e Josué (Js 7.13; 24.2), passando pelos profetas pré-monárquicos (Jz 6.8; 1Sm 2.27; 15.1,2), pré-clássicos (2Sm 7.3; 1Rs 11.30,31; 13.2; 20.17-19; 2Rs 3.15-17), até os profetas clássicos pré-exílicos e exílicos (Is 7.7; Jr 2.2; Ez 3.27; Am 1.3; Ob 1; Mq 2.3). Esse é, também, o modo como os profetas pós-exílicos apresentam as palavras de Deus aos homens (Ag 2.11; Zc 1.3). Com isso, Deus também quebrou um silêncio profético que marcava esses dias.[9] Tendo usado a fórmula que, além de tradicional, tinha em si um peso muito grande e conferia um caráter temível à mensagem, Ageu revela o problema: o templo não fora construído e o povo não estava se importando com isso. Apesar de a construção ter sido iniciada, ela ficou somente nos alicerces (Ed 3.10). Contudo, o altar estava pronto e em pleno uso (Ed 3.2), o que, com o tempo, passou a bastar para os moradores de Jerusalém. Diante do desânimo e da oposição que os judeus receberam ao se lançarem à obra do templo, eles desistiram de prosseguir e se convenceram de que não era em seus dias que a edificação seria concluída. As razões para isso são complexas, mas podem ser rascunhadas. Uma dessas razões foi o desânimo que os atacou em duas frentes. A primeira é que, apesar da grande exultação que sentiram no início da obra (Ed 3.11), a alegria não era geral. Os judeus idosos que conheceram o primeiro templo, em vez de se alegrarem pela reconstrução, ficaram a lamentar (Ed 3.12) — nesse texto, a interpretação do significado do choro em alta voz deve recair sobre uma profunda tristeza e não como um simples choro de alegria, já que a parte final do texto contrasta a atitude dos idosos com a alegria do povo (ver também Ed 3.13). Mas por queaté então fizeram separação entre os judeus e seu Senhor — fica clara a relação entre a iniquidade e a figura metafórica dos pecados na forma das vestes sujas. Mais do que isso, a cena de Josué sendo despojado dos trapos imundos que vestia simboliza a aceitação de Deus do seu povo e do culto oferecido a ele. Como se não bastasse, há a promessa de vestes novas no sentido de que Deus abriria o acesso à atividade sacerdotal de intermediário da vontade e da orientação divinas. Dando sequência ao revestimento do sumo sacerdote, o Senhor completa a paramentação de Josué (v.5): “E disse: ‘Que lhe ponham um turbante limpo sobre sua cabeça”. Então lhe puseram um turbante limpo sobre a cabeça e o vestiram com as tais vestes. E o anjo do Senhor permaneceu ali”. A expressão “e disse” constitui um desafio aos críticos textuais, pois ela difere nas diversas versões antigas. No manuscrito hebraico, trata-se de uma ação na primeira pessoa — “e eu disse” —, como se o profeta tivesse interferido naquele processo, o que não faz muito sentido já que não se trata de uma pergunta, como em outros casos, mas de uma ordem, a qual o profeta não tem as prerrogativas necessárias para a efetuar. Várias versões simplesmente excluem esse trecho e ligam as ações de colocar as vestes com a de colocar o turbante. A Septuaginta ignora a menção de alguém “dizer” e prossegue com a ordem de colocar o turbante, tomando o comando do v.5 como continuidade do comando do v.4. Na prática, isso concorda com o modo presente na Vulgata Latina — escolhido aqui como forma preferível — no qual a mesma pessoa que dá a ordem no versículo anterior continua seu comando após a ligação “e disse”.[83] Além disso, outro fator a se observar no texto é o fato de o anjo do Senhor permanecer e não se afastar, atestando assim a validade da purificação do sumo sacerdote e de Israel como “nação de sacerdotes” (Êx 19.6).[84] Feita a devida purificação e deixadas claras a restauração e a aceitação do ministério sacerdotal em Israel, Deus não se furta a orientar seus servos como sempre fez desde a aliança no Sinai (vv.6,7): “Então, o anjo do Senhor declarou a Josué o seguinte: ‘Assim diz o Senhor dos exércitos: Se tu andares nos meus caminhos e guardares o meu preceito, então tu também administrarás a minha casa e guardará os meus átrios e dar-te- ei livre acesso entre estes que estão aqui de pé’”. O acordo é de caráter condicional, assim como a aliança mosaica. Na verdade, esse acordo é apenas a reafirmação daquela aliança, prometendo bênção pela obediência e deixando subentendido que também haveria punição pela rebeldia (cf. Lv 26; Dt 28). Nesse caso específico, a obediência do sumo sacerdote permitiria que ele efetuasse plenamente, com a sanção divina, seus direitos e deveres como chefe administrador do templo do Senhor e como guia espiritual do povo israelita. Além disso, ele agiria como um sacerdote deve agir: como intermediário entre Deus e os homens. Ao dizer que daria “livre acesso a estes que estão aqui de pé”, apontando provavelmente para os anjos que lhes mudaram as vestes, é trazido à memória outro pormenor da aliança do Sinai que fazia parte da crença dos judeus. Trata-se do fato de a aliança ter sido intermediada, já que a glória de Deus era grande demais para que ele falasse diretamente ao povo (Êx 19.16-25 cf. 20.18). Assim, pelo lado humano, Moisés agiu como mediador que recebeu de Deus a lei (Êx 20.19-21). Porém, do outro lado, a intermediação se deu por anjos (Gl 3.19), formando uma dupla mediação. No caso de Josué é exatamente isso que parece que ele faria ao ter livre acesso entre os anjos de Deus: seria o mediador humano, aceito e acreditado, em parceria com os anjos, na relação entre Deus e o povo de Israel. Apesar da óbvia restauração promovida pelo Senhor no pós-exílio, havia muito mais preparado para Israel, pelo que Deus não se omite de lhes dirigir promessas futuras de natureza escatológica (v.8): “Ouve, ó sumo sacerdote Josué, tu e teus companheiros que se assentam diante de ti, pois sois figuras proféticas de que estou para trazer o meu servo, o Renovo”. A elevação de Josué por Deus como sumo sacerdote aceito por ele para o cargo não era apenas um fim em si mesmo. Essa elevação também cumpria um intento profético, um símbolo. O que Deus tinha em mente ao acreditar e elevar Josué como líder espiritual do povo, acima dos seus companheiros, era apontar para o fato de que, no futuro, levantaria outro líder ainda maior, trazendo sobre seu povo um “renovo” a quem ele descreve como “meu servo”. “Renovo”, ou seja, um broto de árvore, é o título usado por alguns profetas em referência ao Messias (Is 4.2; Jr 23.5; 33.15). Por sua vez, “meu servo” é outro título messiânico que circula nos livros proféticos (Is 52.13; 53.11; Ez 34.23,24; 37.24 — em Ezequiel, as menções a “meu servo Davi”, aqui alistadas, se referem ao descendente da linhagem davídica, o Messias). Em outras palavras, essa é a promessa de envio do rei prometido, ninguém menos que o rei eterno descendente de Davi[85], que é também Deus altíssimo (Lc 1.32,33). Não se deve estranhar, contudo, o fato de ele ser chamado de renovo ou broto (cf. Is 53.2), pois tal figura se presta a lembrar que o trono de Davi foi derrubado temporariamente, com a queda de Zedequias (Mq 5.1 cf. 2Rs 25.7) para ser reerguido, como uma árvore cortada que brota novamente, com o reinado do menino nascido em Belém (Mq 5.2-4 cf. Jo 7.42). Esse também é o lugar de se postar a ressalva sobre a identidade do “anjo do Senhor” aventada no v.1. Como o mesmo anjo do Senhor se refere ao Messias, Cristo, como “meu servo” e como alguém que por ele seria enviado, temos de ser cautelosos ao identificar uma cristofania no v.1, apesar de notarmos o caráter inegavelmente divino do anjo do Senhor em todo o capítulo. Como complemento à promessa de envio do Messias para reinar, há a promessa de uma grande purificação envolta em uma figura difícil de decifrar (v.9): “Pois eis a pedra que pus diante de Josué. Sobre esta única pedra estão sete olhos. Eis que entalharei nela uma inscrição — declara o Senhor dos exércitos — e removerei a iniquidade desta terra em um só dia”. É difícil dizer que tipo de pedra é essa e que olhos são esses sobre ela — a tradução literal “sete olhos” pode também ser compreendida como “sete lados” ou “sete faces”, descrevendo uma pedra de forma heptagonal.[86] Algumas sugestões são que se trata de uma pedra da construção do templo ou de uma joia associada à veste sacerdotal. Em ambos os casos, seria de se esperar um tipo de lavor entalhado sobre ela com a intenção de trazer beleza e enaltecer a glória daquilo que a acomoda. Entretanto, o fato de se prometer um perdão amplo no meio de Israel, em um só dia, tira nossos olhos do templo ou das vestes do sacerdote nos dias antigos e volta nosso olhar para o futuro escatológico em que o Messias, ao se fazer presente, fará a purificação e julgamento de Israel e das nações. Apesar dessa relação, é difícil identificar consistentemente a pedra com a pessoa de Jesus. Se vão é tentar sem corroboração associar a pedra, os olhos e o entalhe a eventos e pessoas citadas ao longo das Escrituras, mais do que válido é notar a promessa de uma restauração ampla do povo judeu como previsto por Jeremias sob o título de “nova aliança” (Jr 31.31-34 — ver também Ez 36.24-29). Como consequência da purificação em larga escala, haverá grande paz e prosperidade sem precedentes em Israel[87] (v.10): “Naquele dia — declara o Senhor dos exércitos — cada um chamará o seu companheiro para debaixo da videira e para debaixo da figueira”. Nosso olhar não pode ignorar o fato de que essa atividade comunitária talvez fosse marcada pela atividade cultual de “verdadeiros israelitas” tementes a Deus (Jo 1.47,48). Assim, esse quadro evoca a ideia de comunhão sem barreiras e da posse de suas propriedades com a tão desejada fartura prometida como graciosa retribuição à obediência e ao temor do Senhor prevista para o futuro glorioso do povo que o Senhor escolheu para si. A igreja de Cristocompartilha com Israel certas promessas e esperanças presentes nessa visão de Zacarias. Em primeiro lugar, também temos um acusador — o mesmo Satanás, na verdade — que trabalha dia e noite (Ap 12.10) para interferir em nossa comunhão com Deus. Assim como na visão, nosso redentor e advogado (1Jo 2.1) nos defende e faz valer seu perdão e purificação obtidos na cruz (1Jo 1.9). Em segundo lugar, isso ocorre porque também tivemos nossas vestes de iniquidade retiradas quando cremos em nosso salvador e fomos purificados da injustiça (1Co 6.11; Cl 3.9,10). Finalmente, nós também aguardamos a vinda do renovo, o servo do Senhor, para reinar em justiça e purificar a terra, em um santo reinado do qual faremos parte pela graça e misericórdia do Senhor (2Tm 2.12). Que isso traga o ânimo e a razão suficientes para continuarmos buscando pureza nessa vida, agindo como sacerdotes da mensagem da cruz de Cristo e participando da construção, pedra por pedra, do templo do Senhor, sua santa igreja (1Pe 2.5). ZACARIAS 4.1-14 A Graça Soberana do Senhor A quinta visão de Zacarias ocupa todo o quarto capítulo do seu livro. O excesso de detalhes da visão traz consigo um risco considerável de fazer com que os exegetas cometam um de dois erros: ou ignorar os detalhes, empobrecendo o sentido da visão, ou exagerar o significado de cada um dos detalhes, conferindo-lhes sentidos que vão além do texto e do livro como um todo. Por isso, cautela e bom senso são as palavras de ordem na interpretação da visão do capítulo 4 de Zacarias. A visão começa, como em outros casos, com a intervenção angelical dirigindo o profeta à mensagem que lhe será apresentada. Contudo, a novidade, nesse caso, é o estado do profeta (v.1): “Voltou-se o anjo que falava comigo e me despertou como um homem que é despertado do seu sono”. Deve-se notar que Zacarias não afirma estar dormindo. O “homem despertado do sono” é apenas uma comparação feita pelo profeta para ilustrar o que ocorreu a ele ao ser chamado pelo anjo. É possível que ele estivesse ainda absorto e perplexo com a visão anterior,[88] de modo que o anjo teve de chamar sua atenção para si e para a nova visão. O capítulo é marcado por perguntas e respostas de ambos os lados. Nos vv.2-7, o diálogo é travado entre Zacarias e “o anjo que falava comigo”, ao passo que, do v.8 em diante, ele se dá entre o Senhor e o profeta. A primeira pergunta do capítulo vem do anjo intérprete (vv.2,3): “E ele me disse: ‘O que tu vês?’. Eu respondi: ‘Eu vejo um candelabro de ouro maciço, um vaso sobre ele, tendo em cima sete lâmpadas e sete tubos para as lâmpadas que estão sobre ele. E duas oliveiras, uma à direita do vaso e outra à sua esquerda’”. Esse é um quadro complexo que, por ser difícil de visualizar mentalmente, necessita de explicações. O que Zacarias viu foi um suporte de ouro de apoio para sete lamparinas que serviam para iluminar e funcionavam com a queima de azeite de oliva. Assim como as lamparinas à base de querosene, utilizadas em locais longínquos do nosso país, precisavam ser constantemente abastecidas, o que exige atenção e presteza dos responsáveis por elas. Nesse caso, contudo, o abastecimento não era feito por homens, mas por um aparato instalado logo acima do candelabro com as lamparinas. Tratava-se de um receptáculo — o “vaso” — em que se depositava uma quantidade considerável de azeite. O combustível não era manuseado por homens, mas descia sozinho às lamparinas por meio de tubos de alimentação, um para cada queimador, não deixando que eles se apagassem. Quanto à fonte do azeite que era armazenado no vaso, havia duas oliveiras que, ao que tudo indica, derramavam naturalmente seu óleo para dentro do receptáculo, fechando o quadro de uma fonte de luz gerida automaticamente. A ideia parece ser a de que as lâmpadas, diferente das que eram alimentadas pelos sacerdotes, tinham uma alimentação própria que não dependia de homens.[89] Trata-se de uma figura para a ação divina claramente exposta no v.6. Se o significado da visão é complicado para nós, também foi para o profeta, pelo que ele questionou o anjo sobre seu sentido (v.4): “Então, eu perguntei ao anjo que falava comigo: ‘O que é isso, meu senhor?’”. Antes de dar a resposta, há um trecho do diálogo — repetido no v.13 — que serve para evidenciar a perplexidade do profeta diante da visão até então sem sentido para ele (v.5): “E o anjo que falava comigo respondeu a mim: ‘Acaso tu não sabes o que são essas coisas?’. Respondi: ‘Não, meu senhor’”. O mistério termina quando o anjo apresenta a visão como ilustração a uma mensagem do Senhor bem definida e endereçada, dessa vez, ao governador Zorobabel (v.6): “Então, ele me disse o seguinte: ‘Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito — diz o Senhor dos exércitos’”. A visão do candelabro abastecido sem o auxílio humano, por um sistema independente, serviu para garantir ao líder dos reconstrutores do templo que o trabalho não dependia da “força” e do “poder” deles. Na verdade, nem era preciso uma visão para indicar ao povo judeu os claros limites dos seus recursos financeiros, do número de trabalhadores de que dispunham e da sua capacidade militar de se defender dos inimigos que se opunham à obra. Em todos esses sentidos, a força e o poder daquele povo deixavam a desejar. Entretanto, nenhum deles seria necessário, pois o provedor e protetor do povo seria o próprio Senhor, designado aqui como “meu Espírito”. Ele, em pessoa, seria aquele que abasteceria seu povo com a força de que precisavam, com os recursos materiais para a reconstrução e com a segurança diante dos adversários mais poderosos que eles, do mesmo modo que, na visão, o vaso alimentava, sozinho, as lâmpadas do candelabro. A função da visão era, obviamente, a de encorajar Zorobabel diante das dificuldades enormes que enfrentava naqueles dias. Para frisar a certeza do auxílio divino, há como que um desafio lançado às dificuldades personalizadas na forma de uma alta montanha[90] (v.7a): “Quem és tu, ó montanha enorme?”. O surgimento dessa montanha no meio da visão — inexistente nos demais versículos e totalmente sem explicação neste — faz com que muitos estudiosos imaginem se tratar de uma interpolação de um texto de outra mensagem. Entretanto, não é nada absurda a citação de uma montanha como dificuldade na obra do templo quando sabemos que as madeiras para a construção vinham de regiões montanhosas, tornando a logística da extração um trabalho mais que árduo, e que o próprio templo ficava sobre um monte, multiplicando exponencialmente a dificuldade do transporte das enormes e pesadíssimas pedras até o canteiro de obras. A luta penosa e diária desse transporte recebe um grande encorajamento quando o Senhor diz à tal “montanha” (v.7b): “Diante de Zorobabel tu serás uma planície, pois ele trará a pedra de remate em meio ao brado: ‘É pela graça, é pela graça’”. Em primeiro lugar, a ajuda de Deus faria com que os construtores transpusessem as dificuldades como se o monte fosse uma mera planície. Em segundo lugar, o Senhor dá garantias de que a obra seria finalizada, informando que Zorobabel colocaria a última das pedras, a “pedra de remate”, completando o que eles começaram. Quando isso ocorresse, não seria ocasião de se exaltar os construtores ou o próprio Zorobabel, mas de reconhecer o auxílio divino e de agradecer sua “graça” soberanamente concedida ao povo. A palavra “graça”, presente nesse texto, pode também se referir à beleza da obra. Porém, a opção da graça como favor divino é preferível por causa do tema da visão ser o auxílio divino na obra difícil demais para os homens e o fato de, no seu término, haver o reconhecimento público da ação de Deus (v.9). A partir desse momento, o próprio Senhor entra na conversa e passa a dialogar com Zacarias (vv.8,9): “Então, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: ‘As mãos de Zorobabel lançaram os alicerces desta casa e as mãos dele a terminarão para que vós saibais que o Senhor dos exércitos me envioua vós’”. Sem se valer de ilustrações, o Senhor vai direto ao ponto, garantindo a conclusão da construção do templo. Disso, podemos imaginar vários temores e dúvidas que passavam pela cabeça do governador de Judá: “Será que conseguiremos completar a obra?”, “será que obteremos os materiais necessários?”, “será que os nossos inimigos não nos impedirão de levar a obra até o final?”, “será que eu não morrerei antes de vê-la terminada?”. A afirmação categórica de Deus acabava com todas essas dúvidas e temores. Dizer que as “mãos de Zorobabel” começaram e terminariam a obra não quer dizer que ele pessoalmente foi o primeiro a dar a enxadada na terra, mas que, sob o seu comando, a obra fora inaugurada e sob seu comando ela seria completada. Novamente o Senhor afirma que, ao ocorrer o que ele previu, não era Zorobabel quem devia ser louvado, mas o próprio Deus. Na verdade, o fato de a obra ser completada em meio a tantos impedimentos, dificuldades e improbabilidades devia ser interpretado como o claro auxílio de Deus ao seu povo escolhido e dirigido por ele. O final do v.9 traz, mais uma vez, a ideia de que o Senhor enviou o “Senhor que falava com o profeta”, sugerindo com isso uma cristofania, ou seja, uma participação do próprio Messias na visão, como em Zc 2.8-11. Deus não deixa de tratar um dos problemas que vinham abalando os construtores e aumentando as dificuldades de quem trabalhava, que eram aqueles causadores de desânimo no meio do povo (v.10a): “Pois quem desdenhou no dia do início modesto se alegrará ao ver a pedra escolhida na mão de Zorobabel”.[91] O problema de pessoas que não acreditavam ser possível fazer uma obra como a que fora executada por Salomão e que, com isso, desanimavam os trabalhadores, foi denunciado por Ageu (Ag 2.3 cf. Ed 3.10-12) e é aqui também tratado por Zacarias. Nesse caso, o Senhor dá garantias de que aquele desânimo, tristeza e falta de fé, que no início tomou conta de quem não creu ser possível atender a ordem divina de levantar novamente o templo, se transformariam em exultação ao final. O término da obra seria marcado pelo assentamento da “pedra escolhida”.[92] A opção de tradução “pedra escolhida” para a expressão que surge no texto hebraico é limitada em produzir a ideia que o escritor parecer ter em mente, de modo que há necessidade de uma explicação suplementar. Diferente das versões que, equivocadamente, propõem se tratar de uma “pedra de prumo”, o que enfatizaria o acompanhamento da obra por Zorobabel, a ideia do texto parece apontar não para o transcurso da obra, mas para seu final. Desse modo, a pedra em questão é aquela escolhida e separada para ser a última a ser assentada. Na verdade, ela não seria colocada apenas com um ato de construção, mas como um ato cerimonial de encerramento da reconstrução do templo diante de todos. Por isso, o próprio Zorobabel a colocaria, agindo como aqueles que cortam com tesoura uma fita que lacra a entrada de um estabelecimento em sua festa de inauguração. Até aqui ficou respondida a primeira parte da pergunta de Zacarias feita no v.4. A segunda parte do v.10 se presta a continuar a resposta à questão do profeta (v.10b): “Essas sete lâmpadas são os olhos do Senhor que estão a percorrer toda a Terra”. O texto diz apenas “essas sete”, sem especificar o substantivo a que se refere. Felizmente, o texto só apresenta duas possibilidades que combinam com a quantidade aqui descrita: as lâmpadas e os tubos — ambos concordando com a forma feminina do numeral. Dentre as duas possibilidades, a primeira parece ser a mais plausível e cheia de significado. As luzes agem aqui como uma recordação de que Deus, como quem vê tudo que ocorre no mundo (2Cr 16.9; Pv 15.3),[93] sabia o que estava acontecendo ao seu povo, incluindo as dificuldades da obra e o coração dos opositores da reconstrução. Assim, seu poder (v.6), associado ao conhecimento onisciente, seriam o fator determinante do sucesso da empreitada e a causa da confiança tranquila que o povo deveria manter enquanto obedecia ao Senhor no trabalho do templo. Assim que a pergunta de Zacarias é respondida, ele lança outra visando à especificação de certo detalhe dentro da visão: as oliveiras (v.11): “Então, eu perguntei a ele: ‘O que são essas duas oliveiras à direita e à esquerda do candelabro?’”. Antes que o Senhor respondesse à pergunta, o profeta a completa introduzindo algo que até aqui não havia sido mencionado, a saber, dois ramos daquelas oliveiras (v.12): “Perguntei-lhe ainda pela segunda vez: ‘O que são esses dois ramos de oliveira que estão ao lado dos dois tubos de ouro por onde o azeite é despejado?’”. Voltando seus olhos para além do candelabro, Zacarias fica intrigado com o significado de dois ramos específicos das oliveiras. Ao serem descritos como “ramos”, não podemos imaginar que eles eram responsáveis por todo o suprimento de azeite que ia para o reservatório de combustível do candelabro. Em lugar disso, sua posição, “ao lado dos dois tubos” que serviam para conduzir o azeite das oliveiras para o reservatório, nos faz imaginá-los como parte do sistema de transmissão do combustível, ou seja, “veículos” do suprimento divino. Antes de responder, novamente é feita uma introdução à resposta, evidenciando a perplexidade do profeta (v.13): “E ele respondeu a mim: ‘Acaso tu não sabes o que são essas coisas?’. Respondi: ‘Não, meu senhor’”. A resposta em si é dada no último versículo do capítulo (v.14): “Então ele disse: ‘Esses são os dois ungidos que servem ao Senhor de toda a Terra’”. Os dois ungidos[94] não são identificados no texto, mas não é tão difícil de reconhecê-los no meio da sociedade judaica. O derramamento de óleo sobre a cabeça, cerimônia chamada de “unção”, era o rito de posse de dois cargos dentro de Israel: o rei (1Sm 15.1; 16.1,13; 1Rs 19.16; 2Rs 23.30) e o sacerdote (Ex 28.41; 29.1,7; 30.30; Lv 8.12,30; Nm 3.3). Nesse caso, as pessoas que o Senhor parece ter em mente são o sumo sacerdote Josué e o governador Zorobabel, apesar de esse último não ocupar oficialmente o cargo de rei. Na verdade, Zorobabel era um príncipe da casa real de Davi que, não de direito, mas de fato, agia como se fosse um governante real no meio do povo, sendo figuradamente um “ungido”. Assim, os dois líderes do povo, o líder espiritual e o líder político, são representados na visão do profeta como instrumentos de Deus para a condução do povo e para a concessão de suas bênçãos com a finalidade de promover a completa restauração da sociedade judaica daqueles dias. Se, na visão anterior, o sumo sacerdote Josué é encorajado a desempenhar sua função em Jerusalém, sabendo que seria ajudado por Deus, aqui, ele e Zorobabel, são encorajados e avalizados diante do povo, o qual devia obedecer a seus líderes para cumprir a vontade do Senhor. Que bom é saber que o Senhor, além de ser o dirigente e protetor do seu povo, é também o sustentador dos servos que ele coloca para dirigir sua obra. Caso contrário, o resultado seria baseado em esforços meramente humanos e com abrangência e direção possivelmente diferentes daquilo que Deus ensinou. É claro, também, que há a necessidade expressa de tais líderes se submeterem às ordens do Senhor sabendo que a igreja pertence a Deus e não aos homens ou aos dirigentes eclesiásticos. Por fim, os servos de Deus que agem realmente como veículos das bênçãos do Senhor no meio do seu povo são aqueles que se dividem entre a obediência e a dependência daquele que abastece seu povo com o que lhe é necessário. Nesse caso, a luz divina é vista por toda parte e deve ser o ponto de referência de todos aqueles que se chamam pelo nome do nosso salvador que nos resgatou na cruz do Calvário. ZACARIAS 5.1-4 O Castigo do Compromisso pela Metade A sexta visão do profeta Zacarias é menor em tamanho que suas precedentes próximas e menos complexa em sua visualização, apesar de sua compreensão não ser extremamente óbvia, nem seu impacto pequeno. Na verdade, ela é bastante severa com seus destinatários e completa um quadrode restauração do povo perdoado e trazido de volta à terra da promessa. Se as visões anteriores favoreceram a reconstrução do templo, a esperança de reconstrução da cidade e do reinado messiânico e a restauração do sacerdócio e do governo justos, agora o Senhor enfatiza a santidade e obediência do povo à aliança como requisitos para as bênçãos divinas. A severidade da mensagem vem de os requisitos não servirem apenas para abençoar o povo, caso presentes, como também trazer punição como nas gerações passadas, caso ausentes. Em resumo, havia chegado a hora de os judeus se comprometerem seriamente com seu Senhor e com a aliança que fizeram com ele. A visão começa de um modo que se repete outras vezes no livro (Zc 1.18; 2.1; 6.1) que é o profeta levantar seus olhos e ver — vale informar que levantar os olhos não quer dizer apenas olhar para cima, mas também olhar para o horizonte (v.1): “Voltei a levantar meus olhos e eis que vi um rolo que voava”. O início da visão apresenta apenas Zacarias, mas o complemento traz novamente uma figura que conversa com o profeta, provavelmente o anjo intérprete, a quem o texto não identifica claramente. No mesmo sistema de pergunta e resposta entre Zacarias e seu interlocutor, a visão se expande e adquire um significado mais complexo (v.2): “E ele me perguntou: ‘O que tu vês?’, ao que respondi: ‘Eu vejo um rolo que voa, o qual tem vinte côvados de comprimento e dez côvados de largura’”. Inevitavelmente, o tamanho desse rolo, aberto e não enrolado, provavelmente com a finalidade de ser lido facilmente por todos,[95] deixa perplexos os leitores e os leva à busca do sentido para um tamanho fora do comum, principalmente para os padrões e recursos da época — cerca de nove metros de comprimento por quatro e meio de largura. O fato de o rolo estar aberto, talvez associado à uma visão de Ezequiel (Ez 2.9,10), faz com haja quem sugira que esse rolo que voava continha texto escrito dos seus dois lados, o que não é dito por Zacarias, nem é necessário para a compreensão da sua visão. A descrição da medida do rolo é idêntica à medida do pórtico do templo de Salomão (1Rs 6.3). Isso fez com que muitos estudiosos vissem nessa semelhança uma relação entre a visão de Zacarias e o templo no sentido de que a mensagem do rolo representasse a santidade do templo ou o governo teocrático do Senhor. Entretanto, essa proposta tropeça em alguns fatores. Em primeiro lugar, Zacarias, quando interrogado a respeito do rolo, informa seu tamanho fazendo uma estimativa aproximada,[96] já que, em sua visão, o rolo voava em vez de estar ao seu alcance para ser medido, de modo que o que é posto em relevo é o grande tamanho e visibilidade do rolo e não sua medida exata. Em segundo, a relação com o pórtico como representante da santidade de Deus ou da teocracia deixa a desejar, já que tal pórtico não seria a melhor parte do templo a se tomar para essas figuras. Além disso, uma medida retirada da construção do templo atual, no qual os ouvintes do profeta estavam trabalhando, cumpriria melhor essa função que uma medida antiga de uma construção inexistente. Como não conhecemos as medidas das dependências do templo de Zorobabel, essa sugestão não passaria de mera especulação. E sair procurando na Bíblia outros locais ou objetos cujo tamanho coincidam com o do rolo, também não. O que há por certo é que o grande rolo continha palavras vindas de Deus que não podiam ser ignoradas por nenhum judeu e eles também não podiam afirmar inocência por desconhecimento, já que sua visibilidade, na visão, estava diante de todo o território israelita — é provável que seja esse o ponto posto em relevo pela visão do rolo. Quanto ao conteúdo do seu texto, os versículos seguintes fornecem base para uma boa sugestão. Com isso, é possível voltar o olhos para a pergunta que viria em primeiro lugar em relação ao v.2: “O que significa o fato de o rolo voar?”. Pode-se pensar em várias possibilidades de significado para o voo do rolo — e não faltam sugestões dadas por diversos comentaristas —, mas, seguindo o curso do texto, sentidos que devem ser seriamente avaliados são abranger todos os judeus por todo o país (v.3) e alcançar punitivamente todos os infiéis onde quer que estejam, ainda que na segurança dos seus lares (v.4). Assim como em outras visões, essa não fica sem explicação (v.3): “Ele, então, me disse: ‘Esta é a maldição emanada sobre a face do país inteiro, pois todo aquele que roubar será removido de conformidade com ela e todo que jurar falsamente será removido de conformidade com ela’”. Em primeiro lugar, devemos nos perguntar “que maldição é essa?”. Para esse fim, uma discussão pertinente é definir se a maldição em questão é lançada sobre “o pais inteiro” ou sobre “toda a Terra” (kol-ha’arets). É certo que segunda opção de tradução — “toda a Terra” — é mais frequente e usual no Antigo Testamento. Contudo, o contexto da maldição parece estar baseado na aliança que o Senhor fez com Israel no Sinai, a qual previa bênçãos e maldições dependendo da fidelidade ou rebeldia do povo em relação aos estatutos da lei (Lv 26; Dt 28) — a sentença “será removido de conformidade com ela” aponta para um código legal estabelecido e conhecido dos ouvintes. Isso quer dizer que, apesar de o texto prever uma maldição sobre a “face da terra”, dando a entender um evento geográfico, trata-se de uma figura de linguagem hebraica[97] para apontar primariamente o povo da aliança. Nesse caso, a maldição é uma previsão de punição pela infidelidade e desobediência dos judeus, o que é especificado em relação aos ouvintes de Zacarias como “roubo” e “juramentos falsos”, dois pecados condenados na lei (Ex 20.7,15; Lv 19.12). A razão da especificação desses dois pecados pode ser representar as duas tábuas da lei,[98] apontando, com isso, para toda a aliança, ou pode se dever à possibilidade de que tais pecados estivessem tomando um lugar de destaque no modo de vida daquele povo, necessitando tratamento imediato a fim de impedir o desvio da nação. Assim, o que o escritor tem em mente não é um castigo lançado sobre toda o planeta Terra ou sobre todos os povos do globo, mas sobre Israel, o povo da aliança, aqui representado pelo país ou pelo território no qual habitava. Para que ninguém culpasse a sorte, a meteorologia ou a política internacional caso as maldições da lei voltassem a abater o povo israelita, o Senhor avisa que ele mesmo é quem lançaria o castigo sobre seu povo (v.4): “Eu a emanarei — declara o Senhor dos exércitos — e ela entrará na casa daquele que roubar e na casa daquele que jurar pelo meu nome falsamente de modo que ela se alojará no meio das suas casas e consumirá suas madeiras e suas pedras”. Na prática, esse versículo diz a mesma coisa que o anterior, com a diferença de apresentar alguns detalhes importantes. Em primeiro lugar, a fonte do castigo: o próprio Deus — o v.3 não apresenta o agente da emanação da maldição, apenas o fato de ela ser “emanada”, diferente do v.4 que aponta o Senhor como o responsável direto da ação. Em segundo, o alcance: os lares, descrevendo uma punição que chegaria a todo o povo e não apenas à liderança nacional ou ao exército. Por último, a gravidade: abatimento total, sendo que o castigo tomaria lugar entre o povo, não de um modo passageiro, mas consistente, fazendo valer as palavras “ela se alojará”. Assim, as casas do povo infiel seriam consumidas por inteiro, o que, figuradamente, aponta para uma punição completa dos rebeldes e, talvez, para outra queda nacional como a que houve diante da Assíria, em relação ao reino do Norte, Israel (722 a.C.), e da Babilônia, em relação ao reino do Sul, Judá (587 a.C.). Em resumo, o texto quer dizer que Deus, apesar de vir retendo até então as maldições da lei[99] sobre os israelitas que estavam ignorando a santidade do procedimento requerido por Deus, ainda que o merecessem, ele não o faria para sempre, havendo um tempo em que tornaria a castigar o povo por sua infidelidade, assim como fizera antes. Por isso, apesar da segurança de bênçãos e de um governomessiânico sobre um país independente e soberano no futuro providas pelas palavras dos profetas Ageu e Zacarias, ninguém devia se sentir seguro demais caso resolvesse se manter rebelde à aliança. Era preciso que a reforma fosse total e envolvesse a vida de cada israelita como servo verdadeiro do Senhor. A clara lição desse texto é que Deus não quer comprometimento pela metade. Isso valia para os israelitas do passado e vale para a igreja do presente. Não basta servir a Deus parcialmente separando alguns momentos para cultuá-lo enquanto, no restante, seu nome é esquecido e desonrado. Também não é possível escolher áreas nas quais honrar ao Senhor ao passo em que se separa outras para se viver alheio a Deus como se fosse possível manter privacidade diante do Senhor. É preciso que a vida toda do servo de Deus esteja empenhada em glorificá-lo, seja no trabalho, na família, nos negócios, na igreja e em tudo mais que se fizer. Uma vida plenamente entregue ao Senhor é o campo propício para que ele cultive sua vontade e suas bênçãos em nosso favor. Entretanto, um Cristianismo nominal e um discipulado parcial são os campos sobre os quais o Senhor pode lançar grandes tempestades ou secas severas. Por isso, que nossa prática sempre reflita os dizeres do apóstolo: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito” (Gl 5.25). ZACARIAS 5.5-11 A Retirada da Impureza A sétima visão de Zacarias continua abordando a questão da pureza do povo judeu, porém, em um molde mais complexo que levanta automaticamente uma série de perguntas por parte do leitor. Algo, contudo, fica evidente: certas facetas da vida e da religião babilônica, devido aos anos de exílio, estavam presentes no seio da comunidade judaica e precisavam ser abandonadas por completo para eles servirem a Deus na qualidade de povo da aliança. Se as gerações pré-exílicas foram julgadas e punidas pela sua indecisão sobre quem adorar e servir (1Rs 18.21) e por seu ecumenismo (2Rs 17.33,41; Sf 1.5), a geração pós-exílica tinha a obrigação de aprender com os erros do passado e, assim, acertar no presente. A visão se inicia com um chamado do anjo intérprete para que Zacarias olhasse algo que entrava em cena (v.5): “Então, saiu o anjo que falava comigo e me disse: ‘Levanta os teus olhos e vê o que é isso que sai”. O chamado à observação de algo novo que surge é uma evidência inegável de que a visão anterior se encerrou e uma nova visão tem lugar diante do profeta. Algo interessante é que o objeto da visão não está estático, mas em movimento, o qual é difícil definir. Ao dizer “isso que sai”, a ideia pode ser de que o objeto já está sendo retirado daquele local, como mostra o restante da visão, ou de que ele surge no raio de visão dos interlocutores. De qualquer modo, a ideia do movimento é importante, pois a visão trata de algo que não pode permanecer arraigado no meio do povo que pretendia servir de coração ao Senhor e que vinha sentindo os efeitos da graça restauradora. Entretanto, apesar de ser algo visível, o objeto da atenção de Zacarias lhe intriga e necessita explicação, o que ele pede ao anjo (v.6): “Eu perguntei: ‘O que é isso?’. E ele respondeu: ‘Isso que sai é um pote de medir’. E disse: ‘Essa é a iniquidade deles em toda a terra’”. O “pote de medir”, na verdade, é um “efa”. Trata-se de uma medida de secos, utilizada na época no comércio de grãos, cujo volume girava em torno de 20 litros.[100] Assim, potes do tamanho de um efa eram peças comuns e bem conhecidas. Apesar de ser essa a palavra hebraica que aparece no texto, o contexto demonstra que o foco em questão não é a medida em si, mas o pote usado para medir. Mesmo porque, dado o restante da visão, percebe-se que a medida estava longe de ser algo em torno de 20 litros, mas algo aumentado (v.7), mantendo- se apenas a aparência do pote. Chamar um recipiente pela sua medida não é uma prática desconhecida de nós — basta lembrar de quando vasilhames de líquidos eram chamados de “litro”, mesmo aqueles cujo volume não era exatamente 1 litro. Assim, a primeira parte da explicação do anjo deve ter sido algo óbvio para Zacarias, já que ele tinha condições de reconhecer um pote. Entretanto, o restante justifica a pergunta do profeta, pois o significado do objeto é que perfazia o sentido e o propósito da visão. Quanto a isso, o anjo intérprete identifica o pote de medir com a “iniquidade”, ou seja, os atos de pecado que desagradam a Deus, que geram culpa em quem os pratica e que os tornam passíveis do castigo do Senhor. Dito isso, deve-se perguntar a quem o anjo atribui a iniquidade, uma vez que ele simplesmente diz “iniquidade deles”, sem especificar o grupo de pessoas. Ele completa traçando um limite geográfico para tais iníquos de maneira genérica, dizendo apenas “na terra”, sem apontar que terra é essa. Há quem entenda que “eles” é uma referência à humanidade e que “terra” é o mundo inteiro. Porém, os propósitos das visões de incentivar a reconstrução do templo, de purificar os judeus e de restabelecer o culto e a comunhão com seu Deus tornam essa possibilidade sem sentido. Além disso, essa iniquidade, no restante da visão, é retirada dessa “terra” e levada para outra localidade no próprio planeta Terra (v.11). Assim, o melhor modo de interpretar a explicação do anjo é que o pote representa a iniquidade do povo judeu que retornou do exílio, o qual novamente estava pecando na terra da promessa, correndo novo risco de disciplina na forma de uma deportação do seu país. A visão, a partir daqui, assume novos graus de complexidade com a introdução de novos elementos. O primeiro deles vem da observação do interior do pote (v.7): “E eis que uma tampa de chumbo foi levantada e uma mulher estava sentada dentro do pote”. Tão logo se leia esse versículo é possível notar que não se trata de um pote pequeno, mas de algo grande, assim como também ocorreu com a visão, anterior a essa, do grande rolo que voava. Esse pote de medir tinha tamanho suficiente para caber uma mulher dentro. O que deve nos prender a atenção é por que essa mulher está dentro do pote. O texto produz uma imagem dessa mulher, cujo significado é explicado no versículo seguinte, como sendo mantida contra a vontade dentro do pote, já que a tampa do recipiente é feita de “chumbo”. Antes que o profeta clame novamente por uma explicação àquela intrigante imagem, o anjo se adianta e traz luz ao sentido da visão (v.8a): “E ele disse: ‘Essa é a impiedade’”. Se o pote, em vez de medir grãos, vinha sendo utilizado para medir a iniquidade do povo judeu na terra da promessa, a própria impiedade deles estava no interior da vasilha personificada por uma mulher. Assim, é como se dissesse: “Essa mulher representa a impiedade”.[101] É arriscado tentar adivinhar a razão da personificação do mal surgir na forma de uma mulher e não de um homem. Hipóteses possíveis seriam o fato de o pecado ser atraente e sedutor, ou o apego dos israelitas à religiosidade da Babilônia, de onde retornaram, em que figuram divindades como Ishtar, deusa do amor e da fertilidade, e até mesmo o fato de a palavra hebraica traduzida por “impiedade” ser um substantivo feminino. Entretanto, tais pensamentos não passam de especulação e não são necessários para a identificação da impiedade no interior do pote. A visão prossegue (v.8b): “Então, ele a lançou para dentro do pote e colocou a tampa de chumbo sobre a boca dele”. Não é dito pelo texto, mas a cena parece ser de que a mulher, ao se abrir o pote, tenta fugir e precisa ser lançada com força novamente em sua prisão, sobre a qual é recolocada a pesada tampa. É difícil definir a abrangência da ideia da prisão, já que o povo, de fato, vinha pecando livremente e necessitava de uma ação purificadora vinda de Deus. Dois podem ser os significados da iniquidade presa sob a tampa de chumbo. A primeira é que o Senhor vinha contendo a maldade para ela não se alastrar como no passado; e a segunda, que ele tem domínio sobre o pecado do homem para promover restauração e avivamento quando bem entender. Essas duas possibilidadespodem estar presentes simultaneamente. De qualquer forma, fica claro que a iniquidade dos judeus precisava de providências sérias, vindas de Deus, para que não tivesse lugar no meio do seu povo. Entram, então, em cena, novos personagens que interagem com o pote (v.9): “Então, levantei meus olhos e vi: Eis que saíram duas mulheres com um vento em suas asas — as asas delas eram como asas de uma ave migratória. Elas carregavam o pote entre a terra e o céu”. Essas duas mulheres, diferente da primeira, não são citadas como personificações de nada. Elas apenas são descritas como tendo “asas”. A palavra hebraica para “asa” também pode ser traduzida como “orla” ou “borda”,[102] apontando para as extremidades de um vestido, o que realmente se integraria melhor à imagem das mulheres. Contudo, a sequência do texto traça um símile entre as asas das mulheres e as asas de uma “ave migratória”, ou de uma cegonha. Independente de ser uma cegonha ou outra espécie de ave, o que fica claro é que as asas são grandes — aves que migram para regiões distantes têm asas com envergadura suficiente para uma viagem desse porte. Essa conclusão leva boa parte dos leitores a identificar as duas mulheres como anjos do sexo feminino, o que cria pelo menos dois problemas. O primeiro é ir além do que o texto diz e criar uma doutrina inexistente na Bíblia — vale lembrar que Jesus ensinou a inexistência, na esfera angelical, de relacionamento “homem e mulher” como na raça humana (Mt 22.30). O segundo é ignorar o caráter simbólico da visão em que a impiedade é uma mulher sentada dentro de um pote que é nomeado de iniquidade em toda terra. Portanto, deve-se ser cauteloso em relação às figuras da visão e atentar para o significado e aplicação que Deus pretendeu transmitir por meio dela. Um perigo adicional vem de tentar identificar tais mulheres, como alguns fazem, com Assíria e Babilônia, nações que exilaram os israelitas (722 a.C. e 587 a.C., respectivamente), o que foge totalmente ao sentido da visão.[103] Sem identidade definida, as duas mulheres agem sob o comando de Deus em prol da purificação de Judá. Assim, as mulheres, com vento em suas grandes asas — produzindo a ideia de um voo —, “carregavam” ou “levantavam” no ar o pote da iniquidade. Trata-se de um transporte e o texto subsequente aclara o destino da viagem (v.10): “Perguntei, então, ao anjo que falava comigo: ‘Para onde elas estão levando o pote?’”. Mesmo antes de o anjo intérprete responder à pergunta, já é possível depreender parte da lição que o Senhor pretende ensinar com isso. Ao apresentar a iniquidade dos judeus na terra da promessa, denunciada também por Ageu, ele deixa claro que é preciso conter a maldade, retirá-la daquela terra e levá-la para bem longe, tão longe quanto voam as aves migratórias. Na prática, isso significa evitar seriamente o pecado, não imitando as nações ao redor. Esse quadro também lembra que não adiantava retirar apenas os rebeldes em pecado flagrante (Zc 5.3), mas era preciso retirar toda iniquidade do modo de vida da nação.[104] Esse ensino se torna ainda mais específico quando o anjo responde à pergunta do profeta (v.11): “Ele me respondeu: ‘Para construir para a mulher uma casa na terra de Sinar. Quando estiver pronta, ela será posta ali, na sua morada’”. A terra de Sinar é a região onde está localizada Babilônia (Gn 10.10). Além de essa cidade representar nas Escrituras o foco do sentimento e das atividades contra Deus (Gn 11.4; 14.1; Is 13–14; 47:1,3; Jr 50–51; Ap 14.8; 17.1,5,18; 18.21),[105] para os judeus do período pós- exílico ainda consistia no local em que, em sua maioria, nasceram, cresceram e foram educados. Por essa razão, apesar de terem sido criados nos ensinos da lei e dos profetas, também tiveram sua mentalidade formada no meio de pagãos incrédulos, o que fatalmente acabou por moldá-los em alguma medida, Isso, certamente, os fez adotar padrões morais e um estilo de vida menos exigente que o requerido pela lei.[106] Essa contemporização com a cultura e a religião das nações, principalmente a babilônica, não era aceitável para o povo que queria reconstruir, pela graça, seu relacionamento com Deus e servi-lo dignamente. Por isso, os antigos hábitos babilônicos deveriam permanecer na Babilônia, habitando ali com seus compatriotas, e jamais encontrar morada no meio de Israel, o povo do Senhor. Essa é a imagem completa da purificação que o Senhor faria, a qual o povo devia aceitar e com a qual devia cooperar. Tirando os detalhes do contexto histórico e o relacionamento pactual com Deus por meio da lei característico de Israel, a lição desse texto é tão válida para a igreja de hoje como foi para os judeus dos dias de Zacarias. O pecado da acomodação ao sistema mundano de vida e de valores persiste em frear a edificação do povo do Senhor. A iniquidade de hoje é tão ou mais atraente que daqueles dias, fazendo com que também nas igrejas vá se instalando gradualmente um sistema de vida e de culto menos exigente em relação às Escrituras e mais tolerante com a perda de identidade e santidade dos crentes como povo separado ao seu salvador, Jesus Cristo. Sob a desculpa de um amor sem compromisso e de uma paz que não leva em conta a justiça, a “Babilônia” tem entrado no meio da igreja e a tem aproximado cada vez mais do mundo. A sétima visão do profeta Zacarias brada em nosso meio: “Chega! Não é possível servir a dois senhores (Mt 6.24)! Afastai de vós a iniquidade para que a igreja seja santa para aquele que a comprou com seu sangue (At 20.28)! Dependentes de Deus, lutai com domínio próprio (Gl 5.22,23) para conter vossos atos iníquos e trabalhai por uma vida santa, pois vosso Deus é santo (1Pe 1.16)! Servi vosso Deus com veracidade, fidelidade e comprometimento integral!”. Ao final, ela completaria: “E que o mal, longe da igreja, habite no mundo perdido, sobre o qual o juízo está para vir”. ZACARIAS 6.1-8 O Poder de Deus que Percorre a Terra A oitava e última visão de Zacarias, certamente uma das mais complexas dentre as oito, tem estreita ligação com a primeira, tanto por causa da figura dos cavalos como pelo fato de eles partirem pelo mundo como portadores do poder de Deus e veículos da sua soberania sobre a Terra.[107] É possível fazer uma relação mais detalhada entre as visões no que tange à cor dos cavalos — há ainda quem faça a associação entre as cores dos cavalos de Zacarias e as funções dos cavalos de cada cor em Apocalipse (Ap 6)[108] —, mas isso não é necessário e pode ultrapassar a intenção do texto e ser até um ponto de desvio da mensagem central da visão. Apesar das semelhanças entre a primeira e a última visão do profeta, elas abarcam momentos diferentes da administração divina da história e do cuidado do seu povo. Enquanto a primeira visão demonstra que Deus mantinha pleno conhecimento e controle das nações, garantindo com isso a reconstrução do templo pelos judeus,[109] a última aponta para o tempo futuro em que o Senhor vindicará seu povo, abatendo as nações inimigas e trazendo, subsequentemente, o rei prometido para governar o povo da aliança (Zc 6.9-15). A última visão se inicia com a visualização de uma nova cena diante dos olhos do profeta (v.1): “Novamente, levantei meus olhos e vi: Eis que saíam quatro carros do meio de dois montes, montes que eram de bronze”. Apesar de haver cavalos como na primeira visão, aqui é introduzida a figura de carros ou carruagens. É certo que, ao longo da história dos últimos séculos, as carruagens se tornaram ícones do luxo, da pompa e da riqueza. Entretanto, na época em que Zacarias profetizou, tais carros puxados por cavalos tinham uma marcante função militar, fazendo pender o resultado de muitas batalhas a favor de quem os possuísse em bom número e soubesse manejá-los bem. Enviados como um tipo de esquadrão de elite de grande poder, eles causavam danos nas linhas inimigas assim como tanques de guerra o fazem diante de soldados de infantaria. A figura militar dos carros éadornada pela menção de dois “montes de bronze”. Muitas são as propostas sobre o significado do bronze em tais montes, mas a que parece prevalecer e condizer com a ideia geral e com a presença de carros de guerra é seu uso militar. Assim como o ferro, o bronze era usado nos aparatos militares e promovia uma boa proteção aos soldados. Desse modo, levando em conta que os cavalos vêm da presença de Deus (v.5), a intenção parece ser afirmar o poder e a invencibilidade do Senhor, como se as montanhas fossem os próprios portões dos céus por onde passam seus enviados a fim de conquistar as nações.[110] A primeira cena é, então, aproximada e não apenas os carros são identificados, mas também seus cavalos, formando um paralelo inegável com a primeira visão (vv.2,3): “No primeiro carro havia cavalos marrons, no segundo carro havia cavalos pretos, no terceiro carro havia cavalos brancos e no quarto carro havia cavalos malhados — todos eles fortes”. Esse texto deixa claro que a associação dessa visão à primeira é limitada e não deve ser superexplorada, principalmente com relação a sentidos ocultos nas cores dos cavalos. A razão para isso é o fato de, em primeiro lugar, os cavalos pretos aqui citados não figurarem entre os cavalos da primeira visão, nem coincidirem as descrições entre os cavalos “malhados” desta com os “baios” daquela — em Apocalipse 6.8, a menção a um cavalo “amarelo” ou “pálido” se aproxima mais dos “baios” de Zacarias 1.8 que dos “malhados” ou “manchados” de 6.3, tornando forçada a identificação dos cavalos dessa visão com os de Apocalipse. Logo, o texto não parece elevar a importância das cores, mas sua função de cavalos como enviados de Deus a terras distantes, rendendo às cores o simples papel de auxiliar o leitor na visualização das comitivas partindo rumo aos destinos ordenados pelo Senhor. Algo notável, ainda no v.3, é o adjetivo “fortes” no final da frase, o qual parece designar não apenas os cavalos malhados, mas todo o grupo, qualificando-os como animais de primeira escolha para uso militar. Essa figura favorece os conceitos da soberania e do poder de Deus e da subjugação das nações inimigas de Israel pelas forças enviadas pelo Senhor — o mesmo termo é usado no v.7 para se referir a esse grupo de cavalos. Assim como em outras visões, o quadro intriga o profeta e faz com que ele peça explicações que o façam entender o sentido do que vê (v.4): “Então, eu perguntei ao anjo que falava comigo: ‘Que é isso, meu senhor?’”. O anjo intérprete cumpre sua função e dá uma resposta que, apesar de sucinta, é bem abrangente e elimina a necessidade de novos questionamentos (v.5): “E o anjo respondeu a mim: ‘Esses são quatro espíritos dos céus que saem do lugar onde estavam presentes ante o Senhor de toda a Terra’”. Pelo menos três informações importantes são derivadas dessa resposta. Em primeiro lugar, a identificação dos conjuntos de carros e cavalos com “espíritos dos céus”. Apesar de a mesma expressão poder ser traduzida como “ventos dos céus”, o papel deles no texto acaba por lhes render certa personalidade, pelo que é preferível compreendê-los como espíritos, ou anjos que levam juízo às nações — além do mais, a figura de quatro ventos indo pelo mundo dispensaria a visão de carros e cavalos. Em segundo lugar, a origem da sua jornada descrita como “o lugar onde estavam presentes ante o Senhor”, além de reforçar a tese de serem seres angelicais (cf. Jó 1.6; Mt 18.10), transmite a ideia de eles serem comissionados diretamente por Deus para realizarem sua missão. Por fim, ao dizer “Senhor de toda a Terra”, o texto nos exibe a soberania de Deus que, para os judeus dos dias de Zacarias e para os servos do Senhor de todas as eras, constitui a razão da esperança futura de vindicação em relação às perseguições do mundo e de estabelecimento permanente em paz. A seguir, o itinerário das comitivas é dado pelo profeta (v.6): “[O carro] em que estavam os cavalos pretos saiu para a região do Norte. Os brancos seguiram após eles. Os malhados saíram para o Sul”. O v.6 sofreu certa corrupção nos manuscritos antigos de modo a chegar a nós com uma lacuna a ser preenchida, aqui apresentada entre chaves. Ela se deve ao fato de o versículo começar iniciando com a partícula “que” (’asher), demonstrando que esse não é o início original da frase. O que não se sabe é quanto do texto foi perdido. Uma opção, seguida aqui, é completar a frase com “o carro” a que estavam ligados os cavalos pretos. Outra opção, mais ousada, é entender que um trecho bem maior se perdeu no qual estariam a presença e o itinerário dos cavalos marrons, ausentes nesse texto. Essa não é uma opção nada absurda, porém, é, em boa medida, arbitrária. Em primeiro lugar porque, apesar de haver muito sentido na presença dos primeiros cavalos da lista, ainda assim é preciso supor sua presença e adivinhar o itinerário que eles seguiram. Quem opta por isso, acaba por traduzir o rumo dos cavalos brancos como “Oeste” (lit. “para o mar”, sugerindo o mar Mediterrâneo, limite oeste de Israel), quando nem a Septuaginta, nem a Vulgata Latina — traduções do Antigo Testamento bem mais antigas que o texto hebraico que possuímos — dão margem para tal emenda. A necessidade do rumo oeste é supor que, tendo a partir disso três pontos cardeais — norte (cavalos pretos), oeste (cavalos brancos) e sul (cavalos malhados) —, os cavalos marrons devem ter seguido rumo ao leste. Essa é uma opção arriscada que não faz jus ao método adequado de se tratar as Escrituras, razão pela qual a primeira opção é preferível. Além do mais, não há nada de errado em dois carros seguirem rumo ao norte, dada a extensão de terra e número de povos localizados naquela direção. Também não é surpreendente faltarem os pontos cardeais leste e oeste, já que a oeste de Israel não há nenhum país, mas sim o mar, e a leste há um grande deserto que divide Israel dos países orientais, razão pela qual raras comitivas se arriscavam a trafegar por ali. Na verdade, para se viajar para o oriente era necessário seguir primeiro rumo ao norte. Desse modo, os cavalos pretos e brancos da visão de Zacarias, seguindo inicialmente o mesmo rumo, poderiam posteriormente se separar e seguirem, já em terras mesopotâmicas, destinos diferentes abrangendo povos diversos — deve-se lembrar que os impérios do Oriente, como Assíria e Babilônia, ao atacarem Israel, vinham com seus exércitos pelo norte.[111] O fato é que a corrupção do texto do v.6 não corrompe a ideia de Deus enviar seus carros de batalha pelo mundo (v.7), sobre os povos aos quais Israel temia. A proclamação da soberania de Deus sobre as nações, assim como na primeira visão do profeta (Zc 1.7-17), permanece intacta. O texto seguinte reforça a mensagem já exposta, mas não deixa de fornecer novos detalhes (v.7): “Assim, os fortes saíram, ansiosos para seguir, a fim de percorrer a Terra. Então, o Senhor lhes disse: ‘Percorrei a Terra’. E eles percorreram a Terra”. Os conjuntos de cavalos com seus carros de guerra, aqui simplesmente nomeados como “fortes”, partem aos seus destinos demonstrando grande determinação. A figura de cavalos ansiosos para sair nos remete à imagem de cavalos que, além de fortes, são também valentes, acostumados com as batalhas e preparados para sair a qualquer instante. Associado à menção de força, essa descrição transmite o senso de um grande poder destruidor. Por outro lado, se o comando de Deus era até agora implícito na menção ao ponto de partida da corrida dos cavalos, agora se torna explícito quando o Senhor ordena a missão e seus servos a cumprem cabalmente com obediência e determinação. Apesar de a palavra “Senhor” não constar no texto hebraico, a natureza da ordem e o resultado da missão (v.8) tornam clara a identificação de Deus como o interlocutor dos vv.7,8. Dada a ordem aos cavalos, o Senhor se volta ao profeta e lhe dá um vislumbre do resultado da missão para a qual acabara de enviar seus servos (v.8): “Então, ele gritou a mim e me disse o seguinte: ‘Vê! Os que saem para a região do Norte fizeram assentar meu Espíritona terra do Norte’”. O fato de ele gritar pode significar que a mensagem que ele traz é algo que deve ser bradado e proclamado a todos (cf. Jn 3.7),[112] ou , simplesmente, como parte da cena, é dito por ele à distância, de onde estava comandando seus velozes e valentes cavalos. Não sendo exatamente esse o principal obstáculo à interpretação do versículo, podemos apontar três dificuldades que têm dado margem para um grande número de teses a respeito do sentido do texto. A primeira é onde exatamente é o ponto ao qual se faz referência como sendo a região do Norte. Muitos países são localizados ao norte de Israel, desde aqueles que no passado foram fontes de sofrimento para Israel, como Aram (atual Síria), mas que nos dias de Zacarias não eram tão significativos, até países futuros que desempenhariam um papel militar de destaque como inimigos de Israel (Ez 38.15,16; Jl 2.20).[113] Zacarias já havia se referido à terra do Norte apontando o juízo sobre os locais em que os israelitas foram exilados e de onde deviam fugir (Zc 2.6), tornando, obviamente, Babilônia como a nação que primeiro vinha à mente diante de uma mensagem como essa. Entretanto, levando em conta que o Senhor se refere a uma ação que fará no futuro, a Babilônia e as terras do Norte devem representar as nações que se tornam opositoras dos israelitas e que, lutando contra eles, serão abatidas poderosamente pelo Senhor (Ez 38–39).[114] A segunda dificuldade é definir de quem é o “espírito”. Como dito anteriormente, a ordem dada aos cavalos demonstra autoridade e propósito compatíveis com a pessoa do Senhor, razão pela qual a tradução aqui foi feita com letra maiúscula, apontando para o “Espírito” de Deus. Possibilidades ligadas ao espírito do anjo intérprete ou de outras pessoas ou realidades fogem ao sentido do contexto. Por fim, a última e, talvez, a maior dificuldade, é interpretar o resultado da ação dos enviados rumo ao Norte. “Fizeram assentar meu Espírito” também pode ser traduzido como “deram paz ao meu Espírito”. A primeira possibilidade — assentar — produz a ideia de sucesso na conquista militar, revelando o poder, a soberania e o domínio do Senhor sobre o mundo. A segunda — dar paz — seria, entre outras propostas, o resultado de Deus ter executado completamente o juízo previsto para as nações ímpias, de modo que, ao se completar a tarefa, a ira do Senhor é apaziguada.[115] Na verdade, é muito provável que os dois sentidos sejam concomitantes no texto e devem encher de esperança aqueles que aguardam a restauração futura a ser promovida após o juízo divino. Para os judeus dos dias de Zacarias, significava que eles deviam manter a coragem e a esperança enquanto trabalhavam, mesmo diante da oposição, na reconstrução do templo e sabendo que eles ainda teriam de servir a um país estrangeiro sem poder desfrutar de soberania nacional. Para um povo com tantos percalços, a promessa de vindicação e de restauração agia como uma injeção de ânimo. Felizmente, essa é uma esperança que é dada também à igreja de Cristo, afirmando que, nos dias finais, os inimigos perseguidores do povo de Deus, intitulados figuradamente como “Babilônia”, serão abatidos e seu mal será punido: “E um forte anjo levantou uma pedra como uma grande mó, e lançou-a no mar, dizendo: Com igual ímpeto será lançada Babilônia, aquela grande cidade, e não será jamais achada” (Ap 18.21). Se isso parece ter relação apenas com os maus, sem produzir qualquer fruto sobre aqueles que pertencem a Deus, basta notar a sequência escrita pelo apóstolo João: “E, depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus” (Ap 19.1). Essa não é apenas a nossa esperança. É também, pela graça do Senhor, o nosso futuro. ZACARIAS 6.9-15 O Reinado e o Sacerdócio do Messias Logo após o profeta Zacarias ter sua oitava e última visão, Deus fala com ele acerca de uma tarefa bastante significativa, apesar de simbólica. O que divide os comentaristas é o papel desse trecho dentro das visões. Há quem considere os vv.9-15 como sequência da visão dos vv.1-8, ignorando a brusca mudança de linguagem, da figuração, da abrangência e da aplicação da mensagem, além de menosprezar a introdução (v.9) que marca uma nova seção. Por outro lado, há quem pareça simplesmente desligar os vv.9-15 das visões de Zacarias, deixando passar o fato de que ele trata de uma sequência natural de eventos, além do fato de que nada sugere ter havido grande intervalo de tempo entre as visões e a ordem divina de se coroar o sumo sacerdote Josué. Diante dessa dificuldade — e dos muitos obstáculos de tradução do trecho —, ao que tudo indica, a segunda parte do capítulo 6 de Zacarias age como uma conclusão para a mensagem construída passo a passo por meio das visões, servindo também de garantia de um “final feliz” para os servos de Deus devido à sua graça e seu poder. Isso se inicia, como ocorre em outras partes do livro (Zc 1.1,7; 4.8; 7.1,4,8; 8.1,18), com o Senhor se dirigindo diretamente ao profeta (v.9): “Então, veio a mim a palavra do Senhor dizendo”. O que vem a seguir não mais contém seres, objetos ou pessoas misteriosas que necessitam de interpretação, mas homens reais, vindos do exílio, a quem o profeta devia se dirigir e com quem devia interagir (v.10): “Haja uma coleta dentre os exilados Heldai, Tobias e Jedaías, os quais chegaram da Babilônia, e vai tu, no mesmo dia, à casa de Josias, filho de Sofonias.”. Apesar de haver quem sugira que tais pessoas são apenas representações do culto e do relacionamento com Deus, dados os significados dos seus nomes ao longo do texto, o natural é vê-los como pessoas de destaque que possivelmente lideraram comitivas de retorno de judeus exilados na Babilônia de volta a Judá. Mesmo não havendo nenhum outro nome ou qualquer contagem de exilados, é difícil imaginar apenas três ou quatro homens fazendo uma viagem de retorno do exílio. Além disso, o fato de o profeta receber deles ouro e prata (v.11) indica que ou eles eram homens ricos, o que não é muito comum a exilados em terras estrangeiras, ou eram homens influentes que lideravam comitivas que, juntas, podiam trazer ofertas para o templo e atender ao pedido de Zacarias segundo a orientação de Deus. Além disso, o fato de Josias ser citado como “filho de Sofonias”, apesar de não termos certeza de quem se trata,[116] evidentemente é uma menção a alguém conhecido, respeitado e importante em seus dias. Não obstante o v.10 conter apenas a ordem de o profeta “coletar” ou “receber”, não é dito o que se deveria coletar, fato esclarecido a seguir (v.11): “Coleta ouro e prata, faze uma coroa e põe-na na cabeça do sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque”. A coleta dos metais preciosos tinha uma função clara: confeccionar uma coroa. A palavra coroa se encontra aqui, em sua forma hebraica, no plural, enquanto no v.14 ela aparece no singular. Há uma discussão se isso se deve a alguma corrupção no texto ou se a coroa era formada por vários diademas colocados uns sobre os outros, mas tais possibilidades não mudam a ideia central de se fazer uma coroação. O que realmente surpreende, e por esse motivo há muitos que defendam que o coroado seria outra pessoa, é o sumo sacerdote receber a coroa feita pelo profeta. O sumo sacerdote Josué era o representante religioso da sociedade judaica daqueles dias, mas o representante político, descendente da linha real, era Zorobabel. Era bastante lógico e esperado que o coroado fosse o príncipe de Israel, descendente de Davi, e não o sumo sacerdote. Por isso, há quem diga que quem foi coroado de fato foi Zorobabel e também quem defenda que duas coroas foram confeccionadas, uma para Zorobabel e outra para Josué. Entretanto, essa discussão é inútil visto que a história nos desvenda que não apenas nenhum dos dois foi feito “de fato” rei, como Judá somente voltou a ter no século 2 a.C. a figura e o ofício de um monarca, 481 anos depois do retorno dos judeus da Babilônia.[117] Essa questãorecebe uma nova luz mediante a continuidade do texto (v.12): “Então, tu dirás a ele o seguinte: ‘Assim diz o Senhor dos exércitos: Eis o homem cujo nome é Renovo. Ele brotará do seu lugar e edificará o templo do Senhor’”. Tais dizeres expressariam que tipo de cerimônia de coroação seria aquela. Para tanto, é preciso observar o nome oferecido para identificar o rei: “Renovo”. Como dito no comentário de Zacarias 3.8, “renovo” é um broto de árvore e também um título messiânico utilizado por alguns profetas (Is 4.2; Jr 23.5; 33.15). Assim, não era a primeira vez que os israelitas ouviam o termo e já estavam habituados a associá-lo ao Messias prometido pelos profetas pré-exílicos, ao passo que em nenhum outro lugar o sumo sacerdote Josué é associado ao termo, nem é apelidado assim — em Zacarias 3.8 fica clara a distinção entre o sumo sacerdote e o Renovo divino. Além do mais, a sequência contém uma previsão futura que não se enquadrava com a realidade de Josué, em primeiro lugar porque ele já tinha um cargo elevado e não aguardava a oportunidade de uma elevação figuradamente descrita como “brotar”[118] e, em segundo, porque o templo já estava em construção e ele não era o responsável principal pela direção das obras, mas sim Zorobabel. Apesar disso, é reafirmado que o coroado construiria o templo e deteria em suas mãos a soberania do seu trono, não sendo nem um tipo de “fantoche real” (v.13a): “Ele é aquele que edificará o templo do Senhor, aquele que será exaltado em majestade e se assentará e governará em seu trono”. Diante disso, não devemos olhar para Josué como o detentor das prerrogativas apontadas no texto, mas um representante de quem assumiria tanto a função como a glória do posto real. Nesse caso, longe de ser coroado de fato rei de Judá e assumir as prerrogativas previstas na ascensão do Renovo ao trono, Josué tipifica[119] o próprio Messias e o que ele fará no futuro. Sendo assim, devemos nos perguntar o que significa ser o Messias “aquele que edificará o templo do Senhor”. Para isso, precisamos olhar para as esperanças futuras daquela geração, a qual recebeu do profeta Ezequiel, que atuou na Babilônia entre os exilados, a promessa da construção de um templo e do estabelecimento do culto ao Senhor (Ez 40–48). Essa promessa cria problemas para os estudiosos do Antigo Testamento por ser impossível reconhecer o projeto arquitetônico e os ritos cultuais descritos por Ezequiel em qualquer templo ou tempo já vividos pelos israelitas. Se o povo dos dias de Zacarias visse os últimos capítulos de Ezequiel como algo que se cumpriria no seu tempo, certamente trabalhariam para reproduzir aquela planta, o que não ocorreu. Desse modo, ainda que estivessem em plena obra de construção, mantinham a esperança da vinda de um rei futuro que, além de restabelecer a soberania nacional e territorial, libertando Israel de todos os povos inimigos, também construiria um templo maravilhoso e, segundo esse mesmo versículo de Zacarias, assumiria um poder real e imbatível, cheio de esplendor e glória. É claro que ainda não se explicou, já que se tratava de uma tipificação, porque não foi escolhido o príncipe Zorobabel para representar o futuro monarca. Porém, essa lacuna é preenchida com o que vem a seguir (v.13b): “E [também] será sacerdote em seu trono e haverá concordância entre os dois cargos”. O uso de Josué como tipo do Messias se devia ao fato de que o “Renovo” não seria apenas rei de Israel, mas também “sacerdote”. A ideia de um “rei sacerdote” já estava presente em Davi e em seus sucessores (Sl 2.2; 110.2,4), mas ela somente se cumpre de modo pleno em Jesus (Hb 5.1-10; 7.1-25).[120] Assim, o que Deus quer transmitir aos ouvintes do profeta é a esperança e a certeza da vinda do rei que não somente assumiria a frente do governo, mas também do culto. É claro que há quem defenda que Josué e Zorobabel seriam coroados e cooperariam entre si. Porém, os livros de Ageu e Zacarias desde o início já demonstram a realidade de tal cooperação. Assim, o que esse texto diz é que a mesma pessoa, o Renovo, seria tanto rei como sumo sacerdote em Israel e, em si, uniria perfeitamente as funções. Nesse sentido, a expressão hebraica aqui traduzida como “concordância”[121], que quer literalmente dizer “conselho de paz”[122], expressa a completa unidade dos cargos real e sacerdotal na pessoa do Messias prometido, de modo que iria reinar com justiça e ser o intermediário da comunhão com Deus. Se o enfoque da mensagem era um evento futuro que deveria produzir esperança e ânimo no presente, o que dizer, então, da cerimônia em si da coroação de Josué? Segundo a indicação do versículo seguinte, ela agiria como uma ilustração do que ocorreria futuramente e, por meio da existência da coroa, seria também um constante e encorajador lembrete (v.14): “E a coroa será para Heldai, para Tobias, para Jedaías e para o formoso filho de Sofonias como um memorial no templo do Senhor”. O texto hebraico traz o nome “Helem” no lugar de Heldai, mas, dado o claro paralelismo entre os versículos 10 e 14, é de opinião geral que Helem é outro nome ou um apelido do próprio Heldai. Quanto a possíveis significados de “Helem”, caso fosse um apelido, a palavra pode querer dizer “força”[123] ou “sonho”.[124] Quanto a Josias, filho de Sofonias, é aqui chamado de “formoso” ou “gracioso”, talvez outro apelido, como o de Heldai, ou um adjetivo que o qualificava. De qualquer modo, os homens que contribuíram para a confecção da coroa, e obviamente o povo que eles lideravam, teriam um constante lembrete guardado no templo. Esse lembrete, um “memorial”, serviria para sustentar a fé e a coragem do povo no que tinham de fazer, como completar a obra de reconstrução do santuário, e no que tinham de suportar, como o domínio político de outros reinos, a oposição e zombaria de inimigos e o aguardo do tempo de restauração. A visualização da coroa os relembraria de que a monarquia israelita não estava morta e que Deus a revigoraria de modo esplêndido. Junto com a esperança da vinda do rei, figurava a esperança de retorno do povo exilado e espalhado pelas nações por causa das consequências dos seus próprios pecados (v.15a): “Aqueles que estão distantes virão e trabalharão na obra do templo do Senhor e vós sabereis que o Senhor dos exércitos me enviou a vós”. Apesar de haver quem reconheça nesses dizeres uma indicação de que o templo seria construído por exilados recém-chegados da Babilônia, o fato de as obras estarem nesses dias em pleno desenvolvimento tira o sentido de tal interpretação. O mais provável é que essa obra do templo seja a mesma prevista nos vv.12,13 associadas à vinda e à atuação do Messias. Com isso, uma nova promessa é acrescentada à esperança judaica: o retorno dos espalhados pelo mundo por causa do pecado (cf. Lv 26.39; Dt 28.64-66). Na mente dos judeus dos dias de Zacarias já figurava a esperança, ligada à vinda do Messias, da repatriação dos exilados junto com a restauração espiritual da nação (Ez 36.24-38). O texto de Ezequiel, citado aqui como referência, contém promessas de perdão e purificação e, associado a isso, retorno do exílio, edificação e habitação das cidades abandonadas, prosperidade e abundância. Ao prever tudo isso, diz o Senhor: “Então eles saberão que eu sou o Senhor” (Ez 36.38b). O mesmo ocorre em Zacarias, visto que as ações benéficas previstas para se cumprirem na vinda do Renovo serviriam também de comprovação irrefutável de que ele é o rei divino, pelo que diz “e vós sabereis que o Senhor dos exércitos me enviou a vós”. O pacote é completo: o Messias será rei e sacerdote, purificará e restaurará Israel, trará os exilados de todas as partes do mundo de volta à terra da promessa, edificará um novo templo, reerguerá as cidades destruídas e o povo, então crente, habitará em paz e justiça desfrutando de prosperidade e abundância. Só Deus mesmo para produzir tudo isso. Contudo, o Senhor não dá tal garantia sem lembrar àqueles homens da aliança a que estavam atrelados e da responsabilidade que tinham diante dela (v.15b): “Isso aconteceráquando vós déreis ouvidos à voz do Senhor, vosso Deus”. A preposição aqui traduzida como “quando” também pode significar “se”. Desse modo, a promessa de restauração seria condicionada à obediência e poderia nem ocorrer. Esse não é o sentido do texto como um todo, nem uma ideia compatível com o caráter fiel de Deus. Na verdade, as palavras do Senhor, ilustradas pela cerimônia de coroação de Josué, eram a garantia segura de que ele enviaria o rei eterno para guiar Israel. Porém, isso não aconteceria sem que trabalhasse no coração do seu povo (Jr 31.31-34). Por isso, uma atitude de duplo impulso deveria ser cultivada entre aqueles homens. A atitude deveria ser de obediência a Deus e os impulsos que a sustentariam seriam de assumirem a responsabilidade de serem bons servos, por um lado, e de dependerem do Senhor para a realização da sua tarefa, por outro. O fato é que Deus não faria nada pela metade e não aceitaria meio compromisso dos seus seguidores. Não é possível conter uma esperança desse tamanho apenas em uma época e somente dentro de um grupo. A vinda do Renovo terá abrangência mundial sobre pessoas de todas as nações. Sua promessa de retorno para reinar enche também de esperança e consolo todos os que agora o buscam e creem nele. E assim como para os reconstrutores do templo, a esperança futura nos leva ao consolo e ao compromisso presentes por meio da fé no sacerdote real que nos ama e nos sustenta nas dificuldades até ao dia em que nos receberá eternamente para si: “Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade” (Hb 4.14-16). ZACARIAS 7.1-7 As Palavras de Deus ‘versus’ a Tradição dos Homens Se toda a profecia de Ageu e os seis primeiros capítulos de Zacarias tiveram lugar no segundo ano de Dario (Zc 1.1,7) — entre outubro de 520 a.C. e fevereiro de 519 a.C. —, as palavras do capítulo 7 lhe chegam quase dois anos depois, em 7 de dezembro de 518 a.C.[125] (v.1): “E aconteceu que, no quarto ano do rei Dario, veio a palavra do Senhor a Zacarias no quarto dia do nono mês — no mês de quisleu”. Durante todo esse período sem novas profecias, mas certamente com o apoio e encorajamento do profeta, a obra da reconstrução do templo prosseguiu a passos largos, sendo concluída pouco mais de dois anos depois. O que vem a seguir deixa os estudiosos um pouco confusos a respeito da origem da comitiva enviada ao profeta (v.2): “O povo de Betel enviou Sarezer e Régen-Meleque junto com seus homens a fim de suplicar o favor do Senhor”. A primeira dúvida é se Betel é um local — possivelmente a cidade com esse nome na divisa entre as tribos de Benjamim e Efraim, cerca de 20 quilômetros ao norte de Jerusalém, onde Jacó fez um altar ao Senhor (Gn 35.1-15) —, ou se é o nome de um terceiro enviado, junto com Sarezer e Régen-Meleque. Há também quem suponha se tratar do nome completo de Sarezer, algo como “Betel-Sarezer”. Quanto a se tratar de um local, opção preferível por dar a origem dos enviados — prática esperada nesse tipo de literatura —, é necessário dizer que a Betel da tribo de Benjamim não é a única localidade com esse nome no Antigo Testamento. Há outra ao sul do território da tribo de Judá (1Sm 30.27), também conhecida como “Betul” e como “Betuel” (Js 19.4; 1Cr 4.30). Entretanto, a probabilidade não recai sobre essa cidade, visto que a primeira foi um centro de assentamento de judeus que retornaram do exílio (Ne 11.31). De qualquer modo, apesar da variedade de possibilidades de interpretação, os efeitos do envio de emissários aos sacerdotes e profetas permanecem intactos. A primeira função da delegação foi, conforme o v.2, suplicar o favor de Deus, o que pode significar que eles vieram fazer a adoração rotineira diante do altar, ou que tenham vindo por outra razão especial que lhes fizesse clamar ao Senhor. A segunda função, mais destacada no texto, era dirimir uma dúvida quanto à tradicional prática do jejum desde que Jerusalém foi destruída e outros acontecimentos tristes tiveram lugar na história israelita daquele século (v.3): “Eles disseram o seguinte aos sacerdotes que estavam na casa do Senhor dos exércitos e aos profetas: ‘Ainda se deve lamentar no quinto mês conforme se tem feito há tantos anos?’”. Apesar de a questão dirigida à liderança espiritual de Jerusalém ter relação com o ato descrito como “lamentar”, a resposta do versículo seguinte deixa claro que o lamento e o jejum não eram atividades separadas, mas que o ato de jejuar era o meio de lamentar o passado.[126] Essa lamentação — a do quinto mês — marcava a ocasião da destruição do templo de Salomão, das casas e do muro de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor, quase setenta anos antes (2Rs 25.8-10).[127] Não se tratava de uma prática religiosa orientada por Deus, mas algo que nasceu em decorrência das circunstâncias. Na verdade, apesar de a lei orientar apenas um “lamento” no ano, no dia da expiação (Lv 23.26), os judeus haviam introduzido em seu calendário litúrgico outros jejuns no período do cativeiro babilônico: no quarto mês, pela lembrança da captura de Jerusalém pelos babilônicos; no quinto mês, pela destruição de Jerusalém e do templo; no sétimo mês, em decorrência do assassinato do governador Gedalias (Jr 41.1,2); e, no décimo mês, devido ao cerco de Jerusalém promovido por Nabucodonosor.[128] A pergunta da comitiva aos líderes religiosos de Jerusalém revela que o jejum do quinto mês era o mais significativo para o povo. E continuaria sendo, caso o templo ainda estivesse nas mesmas condições de ruína em que se encontrava até que os profetas Ageu e Zacarias repreendessem o povo por seu descaso. Entretanto, a obra do templo já ia avançada e começou a parecer sem propósito que os judeus continuassem a lamentar a destruição de um santuário que estava quase reconstruído. Por outro lado, se a cidade vinha sendo reconstruída aos pouco ao longo dos anos, pelo próprio fato de os habitantes trabalharem na edificação dos seus lares, o mesmo não se podia dizer da muralha que continuava destruída, trazendo vergonha e insegurança ao povo. Diante de tantos fatores, alguns deles em condições opostas entre si, o povo começou a se perguntar se o jejum do quinto mês ainda deveria ser observado anualmente. De um modo surpreendente, a pergunta dirigida aos líderes foi respondida imediatamente pelo próprio Senhor. Assim, o profeta Zacarias foi ordenado a transmitir a mensagem de Deus não somente àqueles que perguntaram, mas a todo povo, incluindo a liderança espiritual do país (vv.4,5): “Então, veio a mim a seguinte palavra do Senhor dos exércitos: ‘Dize a todo o povo da terra e aos sacerdotes o seguinte: quando vós jejuastes e lamentastes no quinto e no sétimo mês ao longo destes setenta anos, jejuastes de fato por mim?’”. O significado dessa pergunta de natureza retórica era evidenciar que o Senhor não havia ordenado nenhum daqueles jejuns. Foram os próprios judeus que os haviam instituído. Por que, então, queriam saber como agir como se fosse Deus quem houvesse determinado tais práticas. É claro que, a essa altura, os praticantes do calendário litúrgico israelita, acostumados a observá-lo desde seu nascimento no cativeiro ou nos últimos anos da Judá pré-exílica, já olhavam para tais eventos como práticas religiosas intimamente ligadas com o culto e o serviço a Deus. Mas o fato é que a longa prática de tais lamentos seguidos de jejuns nunca foi determinada pelo Senhor, o qual não era a razão da instituição de tais celebrações. Apesar de não ser dito abertamente, não fica menos clara a reprovação divina a esse tipo de legalismo tradicionalista nascido no exílio.esses idosos estariam tristes? É possível que, não obstante buscarem reconstruir sobre os antigos alicerces ainda sob o solo, fosse possível antever a diferença de riqueza que haveria entre as duas versões do edifício (Ag 2.3). Talvez, nem fosse possível fazer tal previsão e eles simplesmente estivessem sendo pessimistas. O fato é que isso pode ter se tornado um fardo para quem estava trabalhando a grandes custos, sabendo que nos dias de Salomão havia muito mais riquezas e trabalhadores que em seus dias.[10] A segunda frente do desânimo veio de inimigos samaritanos[11] que, preteridos no trabalho de reconstrução (Ed 4.1-3), se dispuseram a pagar quem trabalhasse ativamente para desanimar os construtores (Ed 4.4,5). Esses inimigos se empenharam ainda mais e os acusaram diante das autoridades, salpicando sua acusação com mentiras e sagacidade, até que a obra fosse embargada (Ed 4.6,12,13,23,24). Mesmo havendo recursos para a população lutar por seu direito, já que o imperador Ciro havia permitido e ordenado a obra (Ed 1.2), chegou uma hora em que o desânimo foi mais forte que o desejo e a responsabilidade de ver o templo de pé. A segunda razão de a obra ter parado é que, além de desânimo, o povo passou a nutrir um sentimento egoísta e materialista (vv.3,4): “Mas veio a palavra do Senhor por meio do profeta Ageu, dizendo: ‘É tempo de vós morardes em vossas casas luxuosas enquanto esta casa está arruinada?’”. O paradoxo era evidente: a casa de Deus abandonada e as casas da população — ou pelo menos da aristocracia de Jerusalém — recobertas de belezas e cheias de luxo. É também notável a ironia e a reprovação nas palavras de Deus ao contrapor o dizer dos judeus (v.2) “não chegou o tempo de a casa do Senhor ser edificada” com a pergunta (v.4) “é tempo de vós morardes em vossas casas luxuosas?”. Essa pergunta, de natureza retórica, devia ser respondida com um sonoro “não”.[12] Mas, infelizmente, era exatamente o que vinha ocorrendo. O que aqui é traduzido como “casas luxuosas” quer literalmente dizer casas “cobertas”, “revestidas” ou “apaineladas”. Essa era uma característica do templo construído por Salomão (1Rs 6.9) e de casas dignas da nobreza (1Rs 7.7) e da aristocracia (Jr 22.13-15), os qual eram “cobertos” ou “revestidos” de cedro. Pois era assim que os judeus queriam viver e vinham investindo seus recursos e esforços. Não há nada errado em alguém desejar e trabalhar para melhorar sua casa e dar mais conforto à sua família. Entretanto, isso estava acontecendo em prejuízo do templo do Senhor, o qual estava “arruinado” — a palavra assim traduzida também quer dizer “não construído”. Assim, o egoísmo materialista dos judeus desses dias, desejando o bem para si ao passo que desprezavam a casa do Senhor e o culto, constitui-se em uma das razões para que a obra estivesse parada havia uma década e meia. Mas quem pensa que os judeus estavam vivendo bem, se engana. Suas casas luxuosas destoavam dos seus campos e celeiros empobrecidos. Por isso, Deus os chama a avaliarem seus procedimentos e os efeitos do desprezo para com a edificação do santuário (v.5): “Agora, porém, assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Ponhais vossa consciência sobre os vossos caminhos’”. Esse é um modo de dizer: “Avaliem cuidadosamente o que vocês têm feito e quais têm sido os resultados das suas ações”. Por si só esse chamado era suficiente para eles compreenderem o que o Senhor queria dizer. Entretanto, para que ninguém se fizesse de desentendido, a lista das consequências é declarada como se fosse uma sentença (v.6): “Vós tendes semeado muito, mas colhido pouco. Comeis, mas não vos fartais. Bebeis, mas não ficais alegres. Vesti- vos, mas não vos aqueceis. E o assalariado põe o pagamento em uma bolsa furada”. Em resumo, seus investimentos agropecuários estavam fracassados e deixando-os na carestia. A comida não podia saciá-los, pois as colheitas decepcionavam os produtores devido à seca enviada por Deus (cf. vv.10,11). A bebida, provavelmente vinho, era tão pouca que seu efeito de alegrar (Pv 31.6,7) — literalmente “embriagar” — nem era sentido. A produção de roupas, cuja matéria-prima podia ser de origem animal ou vegetal (Pv 31.13), também foi afetada e eles careciam de vestes e coberturas contra o frio. Por fim, a pouca oferta de produtos básicos no comércio e, consequentemente, a grande procura, elevou os preços de mercado a ponto de o dinheiro dos assalariados acabar rapidamente, como se estivesse caindo de um saco furado. Tratava-se do oposto da opulência que eles tanto queriam. Infelizmente, essa triste história não costuma andar tão longe da igreja atual como desejaríamos. Em primeiro lugar, é possível notar o desânimo tomando conta de crentes que antes eram dedicados, fervorosos e tremendamente interessados pela Palavra de Deus e pela causa do mestre. Contudo, com o passar do tempo, as dificuldades da vida cotidiana, desânimo transmitido por pessoas de dentro e de fora do corpo de Cristo, intrigas entre irmãos e perseguição do mundo acabam por abalar a firmeza da fé e da comunhão com Deus, esfriando o amor pelo Salvador e por sua igreja. Ao mesmo tempo que isso ocorre, o amor pelo mundo cresce e traz um grande perigo de afastamento e rebeldia, conforme testemunhou o apóstolo Paulo na vida de um servo que fora dedicado e ativo: “Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica” (2Tm 4.10a). Por outro lado, ainda que os termos do nosso relacionamento com Deus tenham algumas diferenças entre os da aliança mosaica feita com Israel, é possível notar as consequências que muitos crentes sofrem por conta do abandono e do descaso para com o Senhor (Hb 10.25) na forma da disciplina como de um pai para o filho (Hb 12.7,8). Apesar do lado positivo da correção paternal (Hb 12.6), o escritor bíblico é claro ao dizer que ela, assim como a repreensão de um pai, ainda que produza um resultado positivo (Hb 12.11b), também produz dor e tristeza: “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza” (Hb 12.11a). Enfim, o risco e as consequências do desânimo e do apego ao mundo devem nos fazer avaliar nossos caminhos e nos levar ao arrependimento de toda rebeldia e desvio dos caminhos de Deus. Além disso, devem nos levar ao temor de Deus — algo de que a igreja moderna parece ter se esquecido — e ao amor crescente por nosso salvador e pelo povo que, por sua graça, ele tem unido em um só corpo. AGEU 1.7-11 A Bifurcação da Obediência e da Rebeldia Depois de introduzir o discurso aos judeus, apontando-lhes a dupla condição desfavorável, a apatia e o sofrimento, o profeta Ageu continua seu pronunciamento acrescentando novos vislumbres do quadro teológico e prático daquela situação. Com exceção da primeira palavra hebraica, ausente no v.7, o profeta repete o que disse no v.5, no sentido de o povo avaliar os acontecimentos ao seu redor (v.7): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Ponhais vossa consciência sobre os vossos caminhos’”. Na primeira vez que Ageu disse essa frase, ele só colocou diante dos judeus as consequências ruins decorrentes das suas más ações na forma do egoísmo que os levou a negligenciar a casa de Deus. Entretanto, ao dar sequência a essa ideia, ele agora aponta dois rumos, como se o povo estivesse diante de uma bifurcação e precisasse escolher que caminho seguir e em que destino chegar. A bifurcação na estrada da história dos israelitas daqueles dias era a seguinte: duas possibilidades de o povo agir — obediência ou rebeldia — e as consequências, opostas entre si, mas compatíveis com as atitudes que os judeus mantivessem. Essas determinações não são exclusivas ou de autoria de Ageu. Na verdade, o profeta apenas interpreta e aplica algo que a nação de Israel já tinha havia quase mil anos: as bênçãos e maldições da aliança mosaica (Lv 26; Dt 28).[13] Esses termos previam que, caso o povo de Israel desse ouvidos ao Senhor e guardasse os estatutos da aliança, Deus os abençoaria com prosperidade e paz na terra de Canaã (Lv 26.3-13; Dt 28.1- 14).Além disso, Deus se mostrou atento e muito interessado não apenas na prática externa como também na motivação de coração dos religiosos. Se não era motivados pelo Senhor que eles realizavam aqueles jejuns, também não o era quando eles traziam suas ofertas diante do altar e participavam do seu consumo, conforme prescrito na lei (Dt 12.5-7) a respeito de alguns dos sacrifícios. Por isso, o Senhor diz (v.6): “E quando comeis e bebeis, acaso não é para vós mesmos que comeis e que bebeis?”. Essa segunda pergunta retórica pode se referir às práticas rituais ligadas ao sacrifício como também pode significar que os próprios impulsos e necessidades é que levavam as pessoas a se alimentar, de modo que seria também por impulsos pessoais que eles observam tais jejuns. Vale salientar que, na resposta contida no v.5, o Senhor não citou apenas o jejum sobre o qual eles inquiriram, mas também aquele ligado ao assassinato de Gedalias — o do sétimo mês —, fato histórico que gerava tristeza nos judeus não somente pela morte de um líder, mas também por ter sido a ocasião em que muitos dos que restaram na Judeia partiram para o Egito, fugindo da vingança de Nabucodonosor. Esse acontecimento promoveu um abandono ainda maior da terra no período do cativeiro, além de os fugitivos serem posteriormente alvo do poderio babilônico quando este atacou o Egito. Como é costumeiro, o Senhor não apenas aponta e critica os erros, mas também revela os caminhos adequados e as soluções aos desvios. Nesse caso, a orientação vem na forma de outra pergunta (v.7): “Acaso não ouvistes as palavras que o Senhor proclamou por meio dos primeiros profetas, quando Jerusalém se encontrava habitada e em paz e as cidades ao seu redor, o Neguebe e a Sefelá eram habitadas?”. Há duas possibilidades de olhar para essa questão: como uma pergunta retórica, cuja resposta é conhecida dos ouvintes, ou como uma introdução a uma resposta maior dada na segunda metade do capítulo 7. Apesar de o resultado final ser o mesmo, a introdução das palavras seguintes, que surge no v.8, levanta perguntas sobre a continuidade do que vem a seguir. De qualquer modo, a ideia era que, segundo as orientações dos profetas pré-exílicos, o povo devia servir a Deus não com jejuns e lamentos, mas com santidade, justiça social e integridade de coração. Era isso que o Senhor requeria deles e que garantia a Israel as bênçãos da aliança mosaica, a saber, prosperidade e paz na terra da promessa. Por isso, quando os profetas pregavam tais mensagens e o povo não as tinha abandonado por completo, o resultado foi que as cidades da Judeia estavam habitadas e não quase desertas, como nos dias de Zacarias. Além disso, eram também habitados o Neguebe — região montanhosa e semidesértica ao sul de Judá — e a Sefelá — planalto baixo localizado entre a planície litorânea da Filístia e a região montanhosa da Judeia.[129] Isso era uma prova incontestável da bênção do Senhor no passado e daquilo que ele requeria do seu povo. O que Deus traz à tona no v.7 é a lição que ele intenta que Israel finalmente aprenda: que, para servi-lo, é necessário ouvir suas palavras e as obedecer, em vez de inventar seu próprio modo de tentar agradar ao Senhor com parâmetros que, na verdade, agradam somente os próprios adoradores e que constitui o que se pode chamar de religiosidade superficial.[130] É como se ouvíssemos o próprio Jesus dizer: “Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição” (Mc 7.8,9). Desse modo, entre seguir as palavras de Deus e a tradição dos homens, aquela geração e as seguintes deveriam primar por obedecer ao Senhor. Atos religiosos de fundo intuitivo e que não refletem o ensino bíblico, em nada glorificam aquele que é digno de toda glória. Nem os adoradores podem estipular que tipo de adoração o Senhor deve receber. Servir e adorar a Deus significa estudar sua Palavra, a fim de entender bem seu caráter e sua vontade, e obedecê-lo. Não dá para inovar, mesmo com a melhor das intenções. Nem é preciso dizer que o mesmo vale para a igreja de hoje. Com tantas “invenções” que recebem erroneamente o nome de “adoração”, tal mensagem deve nos tocar e nos levar imediatamente ao estudo da Bíblia, à submissão diante das ordens divinas e a uma renovação da fidelidade, da devoção, da integridade de coração e da singeleza de culto. Caso contrário, muito “jejum” será feito sem que o Senhor aceite qualquer um deles. ZACARIAS 7.8-14 Antes Tratar as Causas que os Efeitos A segunda metade do capítulo 7 parece ser a sequência natural da porção precedente, na qual o Senhor faz menção a ensinos transmitidos antes de Judá ser conduzido contra a vontade ao exílio (v.7), de modo que o que vem a seguir (vv.9,10) conteria o teor da pregação do passado. A grande dificuldade é interpretar a introdução do que vem a seguir (v.8): “Então, veio a seguinte palavra do Senhor a Zacarias”. Essa fórmula normalmente dá início a uma nova seção ou a um novo assunto. Entretanto, a ocasião é a mesma, já que não é oferecida outra data para as palavras de Deus daqui para frente — e o assunto também é o mesmo. Desse modo, apesar de os vv.8-14 terem uma mensagem completa, eles devem ser compreendidos como sequência natural da mensagem iniciada por Deus no v.4. Por fim, a intenção desse trecho é lembrar àquela geração as ordens divinas que seus pais desprezaram e as tristes consequências em termos de exílio e desolação advindas da rebeldia, [131] resultando na ação divina de espalhá-los pelas nações.[132] Deste modo, o Senhor relata sua mensagem dada por meio dos profetas antigos (v.9): “Assim dissera o Senhor dos exércitos: ‘Julgai as causas retamente e agi com amor e compaixão, cada um ao seu irmão’”. O teor do ensino parece remeter à mensagem enfatizada pelos profetas dos séculos 9 e 8 a.C. (Is 1.17; Mq 6.8; Am 5.24), seguida pelos profetas do século 7 a.C., mais próximos da data do exílio (Jr 22.3,15,16; Sf 2.3). Entretanto, o assunto era antigo e estava presente na literatura poética e sapiencial no início do primeiro milênio antes de Cristo (Sl 82.3,4; Pv 31.9). A mesma ideia de se executar julgamentos verdadeiramente justos surge também no período exílico, sendo uma preparação do povo no cativeiro para quando voltasse à terra da promessa (Ez 18.5-9). Mesmo com tantos alertas e repreensões, o povo dos dias de Zacarias ainda não tinha aprendido a lição, visto que o Senhor toca exatamente nesse ponto (v.9), sem falar que Neemias, cerca de setenta anos depois, ainda tem de lidar com a exploração dos pobres pelos ricos (Ne 5). Por fim, é possível perceber que a frequência da pregação sobre a justiça social e as críticas contra a exploração dos fracos são mais frequentes que a exortação devido à idolatria do povo. Se uma das ênfases do requerimento divino sempre foi a justiça, outra, de mãos dadas com a primeira, é o relacionamento marcado pela bondade e generosidade, aqui descrito como “amor e compaixão”. A primeira dessas palavras — do hebraico hesed — é uma atitude de amor e lealdade que marca relacionamentos dentro da família, do casamento, das amizades e das alianças humanas.[133] Assim, o que Deus exige dos seus servos é que eles se tratem de maneira autêntica e não superficial, além de fazê-lo por meio do amor e da bondade e não de interesses egoístas. A segunda palavra, por sua vez, aponta para a responsabilidade dada por Deus de se compadecerem dos aflitos a fim de ajudá-los e não se eximindo do socorro. No final das contas, era para o povo se tratar como se fosse uma grande e única família, o que personalizaria seu relacionamento e impediria explorações e injustiças. Infelizmente, nem o povo do passado aprendeu essa lição, nem o daqueles dias, ao que tudo indica. Por isso, o Senhor deixa mais claro o resultado de se obedecer aos preceitos da justiça e do amor (v.10a): “Não oprimais a viúva, o órfão, o estrangeiro ou o pobre”. Viúvas e órfãos eram pessoas que, pela muita ou pouca idadee sem ter quem os sustentasse, tinham extrema dificuldade de levantar seu sustento e passavam grandes necessidades. Por mais absurdo que pareça, havia quem explorasse esses desvalidos. Quanto ao estrangeiro, sua grande dificuldade vinha de estar longe dos seus, daqueles que pudessem socorrê-lo, e em uma terra em que ele não era tratado como uma pessoa munida de muitos direitos. Ainda mais dentro de Israel, onde os estrangeiros não judeus eram considerados impuros. Era fácil se aproveitar de alguém que não tinha quem o apoiasse, nem juízes muito inclinados a fazer- lhe justiça. Essa última dificuldade era também sentida pelos pobres que, em demandas judiciais com os ricos influentes, costumavam ser derrotados, mesmo quando estavam com a razão. Assim, a ordem de praticar a justiça e tratar cada pessoa com amor, lealdade, compaixão e generosidade, impedia que pessoas facilmente exploradas fossem alvos da maldade e do egoísmo dos homens. Na verdade, o sentido disso era tão profundo que até as intenções dos judeus eram avaliadas por Deus, de modo que não era permitido que alguém ficasse tramando modos de levar vantagem sobre os outros ou causar-lhes algum dano (v.10b): “Também, não intenteis o mal em vosso coração, cada um ao seu irmão”. Sobre o que passava na mente das pessoas, as Escrituras mostram que até mesmo imaginar algo mau é condenado e proibido pelo Senhor (Mq 2.1).[134] Apesar de um ensino não reto e rico, os israelitas simplesmente se recusaram a obedecer ao santo Deus que era a fonte de toda essa instrução (v.11): “Mas eles se recusaram a atender, viraram rebeldemente as costas e se fizeram de surdos para não ouvir”. Se os vv.9,10 continham o ensino do Senhor por meio dos profetas do passado, os vv.11,12 trazem a reação dos homens diante do ensino. Em primeiro lugar, eles não quiseram escutar, ou seja, se recusaram a atender ao que ouviram da parte de Deus. É como se fossem surdos, só que pior: eles podiam ouvir, mas agiam como se nada escutassem, tamanha a rebeldia deles. Outro modo de dizer que alguém “tampou seus ouvidos com a mão”, assim como crianças rebeldes fazem quando não querem ser ensinadas ou corrigidas. Na verdade, os israelitas rejeitaram as palavras de Senhor junto com o próprio Senhor ao lhe darem as costas — literalmente “ombros”. A imagem é muito forte, pois é como se deixassem Deus falando sozinho e fossem embora, dando de ombros para suas vontades e suas ordens. A avaliação do pecado das gerações passadas continua e, dessa vez, a parte do corpo usada para descrever a insubordinação do povo é o coração (v.12a): “Assim, eles fizeram com que seu coração ficasse duro como um diamante para não ouvir a instrução e as palavras que o Senhor dos exércitos enviou pelo seu Espírito por meio dos antigos profetas”. Desde há muito, o diamante é reconhecido e notabilizado por sua dureza, capaz de ferir outros materiais sem sofrer danos em sua estrutura (cf. Jr 17.1). Apesar de essa rigidez servir como figura de situações positivas (Ez 3.9), nesse caso a menção é negativa ao representar a dureza de coração, apontando para a rebeldia, insensibilidade e falta de disposição do povo em obedecer às palavras do Senhor. Surpreendentemente, surge aqui um vislumbre de uma doutrina que fica clara somente no Novo Testamento: o fato de o Espírito Santo ser a fonte da inspiração da mensagem dos profetas e, consequentemente, dos escritos bíblicos (cf. 2Tm 3.16; 2Pe 1.21).[135] Isso tornava o pecado dos antepassados ainda pior, visto que as palavras que eles rejeitaram não eram de fontes humanas e dos profetas lhes falaram, mas do próprio Deus que moveu seus servos para transmitir o ensino de fonte divina. A consequência foi inevitável (v.12b): “Por isso, eis que veio uma grande ira da parte do Senhor dos exércitos”. Apesar da paciência de Deus em enviar profeta após profeta para falar às gerações do passado, convidando-as ao arrependimento e à sujeição, chegou o momento em que o Senhor não reteve mais a sua ira contra o pecado. O primeiro modo de derramar seu furor foi, ironicamente, agir como os israelitas que se faziam de surdos (v.13): “Visto que eu clamei e eles não deram ouvidos, então eles clamaram e eu não dei ouvidos, diz o Senhor dos exércitos”. O texto não é claro ao dizer a ocasião do clamor dos israelitas rebeldes, mas isso não é nenhum mistério. Trata-se da ocasião em que os exércitos inimigos vieram contra as cidades de Israel e, apesar do clamor do povo para que Deus os protegesse e libertasse, a invasão inimiga teve sucesso, suas cidades foram invadidas e assoladas, muitos israelitas foram mortos e muitos levados cativos, sem que o Senhor fizesse nada para poupá-los. O resultado final foi muito além das piores previsões que pudessem ter concebido (v.14): “Ao contrário, eu os dispersei por todas as nações que eles não conheceram e a terra ficou assolada por causa deles, de modo que ninguém passava por ela ou a ela retornava. Assim, eles tornaram a terra desejável em uma desolação”. Em primeiro lugar, os habitantes da terra da promessa foram levados a outras terras e espalhados por diversas nações. Isso ocorreu tanto com o reino do Norte, Israel (722 a.C.), como com o reino do Sul, Judá (587 a.C.). Os que não foram levados cativos acabaram tendo de procurar abrigo em terras distantes a fim de fugir da guerra e da fome, tornando o país que fora tão populoso em uma terra quase desabitada. Por outro lado, o próprio país sofreu com as invasões inimigas, de modo que muralhas, cidades, casas e plantações foram alvos da fúria dos exércitos invasores, tornando não apenas desabitada a terra, mas também sem condições de infraestrutura. O mesmo acontecia nos campos, visto que não havia mais quem os cultivasse.[136] O caos foi tão grande que nem mesmo viajantes faziam pousada nas antigas cidades e aqueles que partiam não tinham condições de retornar e se restabelecer na terra. Dito isso, a questão do jejum exposta na primeira parte do capítulo perdia o sentido. O que o Senhor deixa claro àquele povo é que não estava preocupado com aqueles rituais de lamento e jejum que os homens haviam inventado. O que ele queria e sempre quis foi que o povo o obedecesse e agisse com justiça e retidão, para com Deus e uns com os outros, cumprindo a lei. Não adiantava nada jejuar e ser injusto. Não tinha valor algum lamentar a destruição do templo e não lamentar os próprios pecados. Eles não deviam jejuar pelos “efeitos” do juízo de Deus, mas tratar com seriedade as “causas” que levaram o Senhor a se enfurecer. E o alerta era inconfundível: como o Senhor puniu severamente as gerações passadas, faria o mesmo a essa geração caso não se arrependesse e não se voltasse de verdade ao Senhor e à sua Palavra. Essa é uma lição que cai bem aos servos de Deus de todas as épocas, incluindo a nossa. As condições de vida mudaram, junto com os próprios parâmetros de se relacionar com Deus por meio da sua Palavra (Hb 7.12; 8.13). O que não mudou foram a santidade e a justiça do Senhor, assim como suas orientações aos servos para que sejam obedientes, justos, amorosos, generosos e santos. Por isso, podemos esperar ainda hoje ver a paciência e misericórdia de Deus, mas também sua pesada mão sobre aqueles que se rebelam contra suas palavras e sua direção na vida das pessoas. E essa não é uma mensagem apenas dirigida a incrédulos, mas também a seus servos, visto que não mais os condena ao inferno, mas não se furta em discipliná-los como filhos que são (Hb 12.6). Por isso, aprendamos a nos sujeitar ao controle e ao ensino de Deus. Caso contrário, podemos também sentir o peso da sua mão disciplinar: “Porque bem conhecemos aquele que disse: ‘Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor’. E outra vez: ‘O Senhor julgará o seu povo’. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30,31). ZACARIAS 8.1-8 A Maravilhosa Restauração do Senhor Como é costumeiro nas mensagens dos profetas, a repreensão divina ao pecadoe ao descaso, associada à previsão de uma ocasião de juízo, vem atrelada às promessas de bênçãos futuras e de cumprimento pleno das alianças. O objetivo parece ser o de encorajar o remanescente fiel que tinha de conviver com o pecado dos seus dias e que, talvez, se deparasse com momentos de severidade de Deus contra seu povo pactual. Além disso, serve de testemunho da fidelidade e soberania do Senhor que, apesar de fazer Israel ver dias de punição, havia reservado um tempo para cumprir todas as promessas que fez. Nas profecias de Zacarias que lhe vieram em 518 a.C. — do capítulo 7 em diante —, isso não é diferente. A dura repreensão de Zacarias 7 é agora seguida de promessas de restauração e glória de Jerusalém de todo o povo de Israel, lembrando, em seu conteúdo, as bênçãos previstas nas “visões da noite” (Zc 1.7—6.8).[137] Sem dar nova data, o que nos indica que há uma sequência imediata ou quase imediata com o capítulo anterior, a palavra divina se pronuncia (v.1): “Então, veio a palavra do Senhor dos exércitos, dizendo”. A partir dessa introdução sobre Deus ter se pronunciado por meio do profeta, uma sequência de dizeres precedidos por uma fórmula própria é dada ao povo. Essa fórmula (“assim diz o Senhor dos exércitos”) surge dez vezes ao longo do capítulo (vv. 2, 3, 4, 6, 7, 9, 14, 19, 20, 23) — no v.3, o complemento “dos exércitos” está ausente no texto hebraico, apesar de muitas versões antigas importantes o terem acrescentado, indicando que é bem possível que a fórmula completa estivesse constando também do v.3.[138] O que causa perplexidade nos estudantes das Escrituras é que tais frases, dispostas como se fossem citações, podem ser apenas alusões a várias palavras ditas por diversos profetas ao longo de séculos. As fórmulas repetidas dão a impressão de se tratar de lembranças que o Senhor faz dos seus ensinos e promessas passados, porém, sem podermos localizar exatamente a que se refere com absoluta certeza. Há, inclusive, algum conteúdo que parece ter sido acrescentado aqui pela primeira vez, pelo menos na forma em que se encontra. Isso pode indicar que, apesar da forma, talvez se trate de afirmações emblemáticas, sem necessariamente serem citações ou alusões diretas, dadas uma a uma por meio de cada fórmula inicial a fim de aumentar seu impacto e favorecer sua interpretação e memorização. De qualquer modo, o Senhor faz um apanhado de promessas que, unidas, formam uma maravilhosa base de segurança e esperança para os seus a respeito do futuro e do cumprimento das promessas feitas aos pais. Sem esticar a introdução, o Senhor oferece a primeira cláusula do capítulo (v.2): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Tenho um grande sentimento de zelo por Sião e zelo por ela com grande furor’”. Que impacto deve ter tido tal frase quando Jerusalém, apesar das adiantadas obras da reconstrução do templo, ainda podia classificar-se como uma cidade em ruínas, visto o pequeno número de habitantes que ainda tinha, as condições de boa parte da cidade e o muro derribado: uma visão oposta à de uma cidade bem zelada. Entretanto, o objetivo divino era ir bem além das condições da cidade representada pelo monte Sião. Essa declaração, que é uma reafirmação do que disse no início do livro (Zc 1.14), tem a ver com seu sentimento em relação ao povo que elegeu e separou para realizar seus propósitos históricos e redentores. Por isso, apesar de zelo dar a ideia de uma atitude deliberada de cuidado sobre algo, o que pode ser feito acompanhado ou não de sentimentos, a palavra hebraica aqui utilizada vai além e coloca o referido ato em um campo profundamente sentimental. O sentido que dá o tom emocional da frase é o de “sentir ciúmes terríveis”.[139] Como a experiência humana ligada a ciúme é marcada por traços negativos como egoísmo, orgulho, raiva e ressentimento, evita-se aplicar tal palavra ao sentimento divino, preferindo- se zelo. Entretanto, quando olhamos para a perfeição do Senhor e sua isenção de falhas, seu sentimento de ciúmes do seu povo enobrece a visão de um Deus que ama profundamente os seus, se importa em detalhes com o que lhes acontece e se propõe a protegê-los com impulsos e interesses de natureza nada impessoal, mas sentimental e comprometida. Quer dizer que ninguém ataca seu povo sem que ele se doa com isso, nem é provável que os seus se desviem sem que ele o sinta. É uma ideia empolgante: um Deus tão grande que se relaciona e se compromete com seres como nós de modo profundo. Mas não para por aí. Esse zelo todo o leva a ações práticas, o que pode ser visto no furor que sente advindo do seu zelo. Apesar de haver quem ofereça uma atraente interpretação no sentido de se tratar de um zelo com grande “fervor”, a ideia do texto — e do livro — parece ser a de que Deus, em seu sentimento zeloso por seu povo, estava irado com grande “furor” contra as nações que se lhe opunham com maldade, sendo sua fúria apontada diretamente contra os inimigos (Zc 1.15).[140] O resultado é que os inimigos de Israel, até então vitoriosos e irreverentes, conheceriam no futuro as mãos punitivas e santamente enciumadas daquele que separou um povo para amar e abençoar, resultando em uma inversão total de papeis entre Israel e as nações. A segunda cláusula do trecho é dada no versículo seguinte (v.3): “Assim diz o Senhor: ‘Eu retornarei para Sião, habitarei no meio de Jerusalém e Jerusalém será chamada de a cidade fiel e de o monte do Senhor dos exércitos, o monte santo’”. Apesar de que possa parecer estranho o conceito de um Deus onipresente voltar a habitar em certa localidade, isso não era nada estranho na experiência pactual israelita. Quando o Senhor os tirou do Egito, fez com eles uma aliança em que disse: “Assim consagrarei a Tenda do Encontro e o altar, e consagrarei também Arão e seus filhos para me servirem como sacerdotes. E habitarei no meio dos israelitas e lhes serei o seu Deus. Saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus, que os tirou do Egito para habitar no meio deles. Eu sou o Senhor, o seu Deus” (Êx 29:44-46). Segundo as palavras do Senhor, ele, que estava em toda parte (cf. Sl 139), habitaria de maneira especial no meio de Israel, em um lugar preparado para tanto. Essa presença representativa foi bem ilustrada quando foram construídos tanto o tabernáculo de Moisés como o templo de Salomão pela presença de uma nuvem com aparência de fogo que apontava para a presença da glória de Deus (Êx 40.34-38; 1Rs 8.10,11). Assim, a promessa de voltar a habitar em Sião não deixa de ser acompanhada da previsão do mesmo evento indicador da sua presença gloriosa (Is 4.5,6). Contudo, quando o Senhor resolveu punir Jerusalém e entregar o templo para ser destruído pelos inimigos, a glória do Senhor deixou o edifício e pousou sobre o Monte das Oliveiras (Ez 11.23, cf. 10.4,18,19), em um ato que marcou seu abandono simbólico daquele local. [141] Não coincidentemente, além de o Monte das Oliveira ter sido o lugar de onde Jesus, alguns dias após sua ressurreição, subiu aos céus (At 1.9-12), é também o local em que ele aparecerá ao retornar para habitar e reinar em Jerusalém (Zc 14.4; At 1.11). Por isso, o que o Senhor promete agora, enquanto aqueles judeus trabalhavam para reconstruir o santuário destruído, é que voltaria a abençoá- los com a comunhão da sua presença e as bênçãos das alianças, assunto tratado também pelo profeta Ezequiel no tocante a um tempo futuro (Ez 43.1- 5). Tal restauração não somente do templo, mas também do contato pleno com Deus, seria ocasião também da instauração de um novo estado espiritual daquele povo que justificaria o nome daquele lugar como “a cidade fiel”, um lugar em que o Senhor se compraz em permanecer. Assim, a promessa de uma nova habitação entre o povo do pacto é mais do que o resultado de obras de engenharia e construção: é a reconstrução do relacionamento espiritual entre Deus e seu povo. Para uma cidade pouco povoada como a daqueles dias, os dois versículos seguintes abriam uma imagem digna de ser imaginada e sonhada por todos os que queriam ver o cumprimento pleno das alianças(v.4): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Novamente se assentarão velhos e velhas nas praças de Jerusalém e cada um estará com sua bengala em sua mão devido à sua idade avançada’”. Outro sinal do restabelecimento das bênçãos de Israel seria o retorno de uma grande população em que figurasse um grande número de velhos. Quando um país atravessa tempos de carestia e fome ou de guerra, a população de idosos não é numerosa, dadas as mortes frequentes de pessoas de saúde fragilizada pelo tempo diante de condições de vida adversas. Por outro lado, um país próspero e pacífico, com justiça social e valores morais elevados, tem tudo para que a expectativa de vida de sua população aumente. Pois é exatamente o que ocorrerá no cumprimento do que o Senhor diz aqui ao seu povo. Na verdade, as pessoas passarão a viver tão bem que suas longas idades exigirão que elas andem com o uso de bengalas ou muletas que ajudem a sustentar o que o corpo já não poderá fazer sozinho. Contudo, os velhos não serão os únicos a encher as ruas da cidade agora desolada, mas também multidões de crianças (v.5): “E as praças da cidade estarão cheias de meninos e meninas brincando nelas”. As mesmas condições positivas de vida favorecem maior número de nascimentos, além de reduzir a mortalidade infantil, muito comum e acentuada em períodos de guerra e de fome. Enfim, o aspecto lúgubre da cidade que fora invadida cederá lugar a um ambiente maravilhoso que revelará o tamanho a as implicações da ação bondosa e salvadora do Senhor sobre seu povo. Ouvir tudo isso com o coração e a imaginação penetrados por sentimentos e esperanças maravilhosas, só podia perder seu brilho quando os ouvintes observassem a paisagem que os cercava e se lembrassem da condição política e social de Judá naqueles dias. Era exatamente o oposto de toda aquela esperança gloriosa. Não é de espantar que um bom número de judeus achasse que a diferença entre a realidade existente e o futuro esperado era tão grande a ponto de descrerem ser possível o cumprimento das promessas (v.6): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Se, naqueles dias, isso parecer impossível aos olhos do remanescente deste povo, também aos meus olhos parecerá impossível? — declara o Senhor dos exércitos’”. O texto hebraico não se refere a que coisa ele trata como “impossível” — lit. “maravilhoso” —, mas o consenso conduz à ideia de algo “maravilhoso demais para se acreditar”,[142] mostrando se tratar de coisas que naturalmente jamais ocorreriam. Entretanto, o Senhor reafirma com vigor cada uma das suas palavras lembrando ao povo que ele está acima dos homens e acima das circunstâncias. Se para o homem algo é difícil, ou até impossível, para Deus não, o que fica evidente na pergunta retórica da segunda parte do versículo cuja resposta evidente é um sonoro não. A fórmula de declaração ao final apenas serve para reforçar ao infinito o que já havia ficado em relevo suficientemente palpável. Uma das dificuldades de se ver uma Jerusalém plenamente habitada era saber de onde viriam tais pessoas, já que apenas um grupo de cerca de 50 mil pessoas havia retornado do cativeiro para povoar Jerusalém e toda a circunvizinhança. Por isso, Deus explica seu plano (v.7): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Eis que eu livrarei o meu povo das terras do Oriente e do Ocidente’”. O termo hebraico traduzido como “livrarei” é a mesma palavra que pode ser interpretada como “salvarei” — opção preferida por grande parte dos tradutores. Entretanto, não se pode deixar confundir, com o termo “salvar”, como se tratasse apenas de uma restauração espiritual sem impactos na vida nacional de Israel. Na verdade, o que o Senhor tem a intenção de dizer nesse ponto é que ele porá fim ao castigo que previu na aliança mosaica de espalhar pelas nações os israelitas rebeldes (Dt 28.64). Apesar de esse exílio, com o tempo, ter dado a impressão de que tal realidade passou a ser a nova vida, talvez até melhor, dos exilados, Deus deixou claro que a estada entre outros povos lhes seria um peso como se fossem escravos em tais lugares (Dt 28.65-68). Assim, o salvamento divino se mostrará em termos da libertação do povo exilado de tais condições para fazê-los retornar à terra da promessa (Jr 30.7-11; 31.7; Is 43.1-7 cf.10.6).[143] Para concluir esse pequeno trecho, a promessa do retorno dos exilados é associada à promessa do reatamento da comunhão entre Deus e seu povo e do molde do relacionamento pretendido pelo Senhor com seus servos (v.8): “Eu os trarei e eles habitarão no meio de Jerusalém. Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus, com fidelidade e justiça”. A presença divina com o povo não será apenas física ou representativa na forma da glória em um templo. Essa presença restaura o que Deus havia proposto a Israel desde que fez aliança com Abraão prometendo-lhe aquela terra (Gn 17.8). Assim, no cumprimento das promessas desse capítulo, ver-se-ão cumpridas também as alianças feitas no passado. Quando isso ocorrer, duas palavras que marcarão o relacionamento entre o rei divino e seus súditos, além da própria sociedade daqueles dias, são “fidelidade” e “justiça”. O que o Senhor ensinou e pediu no passado, cumprirá e produzirá no futuro. Era a isso que os judeus dos dias de Zacarias deviam dar atenção e basear suas esperanças e serviço a Deus, e não em jejuns e lamentos rituais que eles mesmos haviam inventado. Deus lhes deu bases sólidas para uma vida verdadeira, fundamentada nas palavras de Deus, tirando-lhes a cegueira de um legalismo morto. Graças ao bom Deus, uma restauração escatológica também está reservada à igreja de Cristo — esta compartilhará com o Israel salvo muitos eventos do futuro, unindo-se a ele em um verdadeiro “povo de Deus” de natureza espiritual. Contudo, assim como Deus encheu Israel de esperança futura, para que passassem por uma reformulação de fé e de vida no presente, o Senhor também quer produzir uma igreja de servos melhores, mais desprendidos e delicados, obedientes e fiéis, que vive abraçada à esperança da glória eterna. Para isso, o bom Deus nos deu o mesmo remédio: sua Palavra. Cada coisa que o Senhor dos exércitos nos disse em sua revelação escrita, a Bíblia, deve encher nosso coração com as maravilhas que ele nos preparou — e isso nos deve levar a desejar sua presença santa e a boa comunhão com ele. Se as palavras de Deus tiveram tanto impacto sobre um povo em que nem todos conheciam e criam de fato no Senhor, imagine o que ela pode fazer a nós, seus filhos! ZACARIAS 8.9-17 A Grande Virada Promovida por Deus Antes de os judeus voltarem à reconstrução do templo com vigor e dedicação, um estado de certa carestia havia se instalado entre eles, fruto da punição divina (Ag 1.6). Entretanto, assim que eles se puseram à obra, o Senhor mudou os rumos do tratamento rendido ao seu povo e lhes abriu novamente as fontes de bênçãos e do sustento tão necessário (Ag 2.19), acrescentando-lhes promessas futuras de restauração (Ag 2.20-23). Tal virada se deu em um período de quase quatro meses, tempo decorrido entre o primeiro e o último pronunciamento de Ageu. Dois anos depois, o povo, provavelmente cansado da longa obra e se deparando com uma crescente dificuldade advinda da altura da construção e do esforço necessário para prosseguir em condições mais severas de trabalho, começava a dar sinais de fadiga e desânimo. É nesse contexto que Zacarias traz seu segundo sermão contendo a palavra do Senhor, a qual lhes seria um renovar de energias e esperança. Desse modo, introduz-se uma nova declaração de Deus iniciada pela sua frequente fórmula (v.9): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Fortalecei vossas mãos, vós que, nesses dias, guardais essas palavras que dei por meio dos profetas que estavam no dia em que foi iniciado o alicerce da casa do Senhor dos exércitos para que o templo fosse edificado”. A ordem de “fortalecer as mãos”, ou de “ser forte”, é um encorajamento a alguém que está diante de uma responsabilidade para a qual não se acha devidamente capacitado (Ex.: Js 1.6,8; 1Cr 22.13; 28.20; Is 35.4; Ag 2.4-9;Ef 6.10; 2Tm 2.1). Nesse caso, é como se Deus dissesse a eles: “Sejam corajosos e não desanimem!”. Esse estímulo foi dirigido ao povo que vinha guardando as palavras de Deus dadas pelos profetas Ageu e Zacarias desde o início da reconstrução. Tal povo havia abandonado sua antiga condição de rebeldia, indiferença e egoísmo (Ag 1.4), dispondo-se a obedecer à orientação de valorizar o Senhor e lhe construir o santuário, tão significativo na vida do povo eleito. Por si só, essa descrição serve de prenúncio e de fundamento para a ação benéfica de Deus e razão de eles manterem a esperança de verem dias em que Israel voltaria a exibir grande glória. É como se lhes dissesse: “Vocês têm cumprido sua parte e podem confiar que eu, o Deus de Israel, vou cumprir a minha”. Para ilustrar adequadamente a lição, o Senhor relembra o passado recente desse povo, começando pela condição inicial desfavorável causada pela indiferença que demonstravam para com Deus e seu templo (v.10): “Pois, antes daqueles dias, não havia salário para homens, nem existia retribuição para animais. Não havia paz para quem saía, nem para quem entrava por causa do perigo, pois eu incitei todos os homens, cada um contra seu companheiro”. Sem as bênçãos divinas, eles trabalhavam, mas não atingiam seus objetivos, colhendo bem menos do que esperavam e vendo seus esforços se esvaírem inutilmente. Quanto aos rebanhos, há quem proponha que eles não estavam se multiplicando devidamente, nem dando lucro aos seus donos como é de se esperar que um rebanho faça. Contudo, o paralelo com a condição dos homens nos indica que o profeta se refere ao fato de eles não receberem suficientemente a necessária alimentação, resultado da seca e da infertilidade da terra (Ag 1.11). Infelizmente, em uma situação como a que esses israelitas enfrentaram, certamente ocorreram as duas coisas — infertilidade e fome do rebanho —, causando uma crise econômica entre os habitantes de Jerusalém e da circunvizinhança. Além disso, eles enfrentaram dias de perigo e falta de paz. Isso ocorreu de modo generalizado, para todos os que “entravam e saíam”, o que não aponta somente para viajantes, mas para as pessoas em geral que cuidavam de suas vidas e dos seus negócios.[144] O texto não informa com precisão, mas o perigo que o povo corria pode ter decorrido tanto da parte de outros povos, os quais podiam invadi-los quando quisessem por falta de uma muralha que lhes protegesse (Ne 4.7-23 — observar nesse texto como a defesa era frágil e preocupante sem que o muro estivesse completo),[145] como da parte dos próprios israelitas.[146] O fato é que os dias eram maus em função da desobediência do povo. Entretanto, o Senhor mudou a sorte dos judeus assim que lhe voltaram os ouvidos e lhe atenderam as ordens, algo que o Senhor os relembra e lhes promete fazer ainda mais (v.11): “Mas agora já serei como nos primeiros dias para o remanescente deste povo — declara o Senhor dos exércitos”. Tal declaração traz embutido o fato de que Deus havia promovido uma grande virada na situação passada, dando prosperidade ao povo que se arrependeu e voltou a atender suas diretrizes. O que aconteceu “nos primeiros dias” é o mesmo que o Senhor promete fazer àquele povo naqueles dias (v.12): “Pois a semente prosperará, a videira dará seu fruto, a terra dará sua produção, os céus darão seu orvalho e eu darei tudo isso ao remanescente deste povo”. A conjunção “pois”, utilizada também no v.10, demonstra que eles já haviam recebido uma prova tanto do que é estar debaixo da mão punitiva do Senhor como sob as bênçãos de Deus, bênçãos que eles aguardavam em uma forma ainda mais intensa em um futuro que os profetas há muito vinham predizendo. Assim, Zacarias faz referência às bênçãos divinas prometidas no Pentateuco (Lv 26.3-13; Dt 28.11,12) e nos profetas, especialmente em Ezequiel (Ez 34.25-27).[147] Para completar a maravilhosa visão do que Deus faria àquele povo que, no momento, não passava de um pequeno remanescente, aparentemente sem grande futuro, faz-se uma afirmação que não abrange apenas a produção agropecuária, mas todos os aspectos nacionais de Israel, e não apontavam àqueles dias, mas ao futuro de um modo mais pleno (v.13): “E acontecerá, ó casa de Judá e casa de Israel, que, como fostes uma maldição entre as nações, assim eu vos salvarei e vós sereis bênção. Não temais! Fortalecei vossas mãos!”. Aqui, a expressão “casa de Judá e casa de Israel” não aponta para dois povos separados, mas, sim, para o povo completo que o Senhor unirá por ocasião do cumprimento da Nova Aliança que prometeu por meio do profeta Jeremias (Jr 31.31-34) — a promessa de perdão de Jeremias vem associada à reunião de Israel na terra da promessa, trazendo-os de todas as nações (Ez 36.24-28). Apesar de essa promessa ter sido parcialmente vivenciada por aquela geração que viu o Senhor trazer de volta para a Judeia muitos dos que foram exilados e dispersos, Zacarias trata, no v.13, do cumprimento pleno desse livramento. Ele cita o fato de os israelitas dispersos serem uma “maldição entre as nações”. O significado disso é que, ao serem espelhados pelas nações segundo prescrito nas maldições da aliança mosaica em função da rebeldia, eles seriam perseguidos e sofreriam enquanto nelas permanecessem (Dt 28.64-68). Porém, o profeta faz menção à promessa de que Deus tomará Israel do meio das nações e os “salvará” — ou “livrará” — dessa condição desfavorável, unindo-o em sua terra de direito segundo a aliança feita com Abraão (Gn 15.18-21). Então, não serão mais amaldiçoados, mas abençoados. Eis a razão para que aqueles homens, que não sentiam muita segurança em relação ao seu futuro, não mais temessem e fortalecessem suas mãos para a obra que tinham diante de si. Outro traço da grande virada que o Senhor estava promovendo surge a seguir (vv.14,15): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Assim como eu planejei vos causar dano quando vossos pais me provocaram — e não me arrependi —, eu planejo agora, nesses dias, beneficiar Jerusalém e a casa de Judá. Não temais!’”. Mais uma vez a conjunção “pois” é adicionada como introdução a um argumento em favor do encorajamento. Nesse caso, o instrumento são os planos do Senhor. Deus lhes apresenta seus propósitos em dois momentos. No primeiro deles, seu plano foi puni-los pelos pecados e desobediências, causando-lhes danos que vieram de vários modos e que culminaram com a invasão de Jerusalém, com a destruição da cidade e do templo e com a deportação dos sobreviventes para a Babilônia. Sobre isso, o Senhor afirma que não se arrependeu, o que não o impede de, agora, em outras condições, agir de outro modo segundo um plano que ele traçou previamente e que revelou pelos seus servos do passado. Essa mudança, não de plano, mas de tratamento, já seria sentida por aquela mesma geração. Assim, Deus garante uma grande virada em seu tratamento e na condição dos israelitas, fazendo cessar sua disciplina e favorecendo os judeus mediante sua valorização das palavras divinas (cf. v.9). Sendo esse mais um argumento em favor do encorajamento, o Senhor o fecha com nova ordem de “não temais”. Independente do futuro garantido que Israel tem por causa das promessas de Deus, seu bem-estar presente depende do modo como se relaciona com o Senhor. Para garantir que continuassem a ser abençoados, o profeta lhes transmite algumas instruções — duas ordens positivas (v.16) e duas proibições (v.17)[148] — que evidenciavam que Deus não estava primariamente interessado em uma construção em si, mas em pessoas que o servissem de coração e que mantivessem um estilo de vida compatível com o caráter divino. As ordens positivas são (v.16): “Eis as coisas que vós fareis: falai a verdade cada um ao seu companheiro. Executai julgamentos retos e íntegros em vossas portas”. A primeira ordem dificilmente significa apenas não “falar” mentira, mas, sim, não “agir” com falsidade, seja em palavras ou ações. Dado o caráter relacional desses comandos, é justo interpretar a “verdade” exigida por Deus como justiça, misericórdia e honestidadetanto na esfera pessoal como civil (cf. Zc 7.9,10).[149] O aspecto jurídico também é abordado na segunda ordem, a qual os responsabilizava por julgar com retidão e integridade, bem diferente do passado daquele povo, quando se vendiam sentenças e se oprimiam os indefesos. As ordens proibitivas, por sua vez, apontavam mais para o coração das pessoas do que para suas ações — ainda que o coração guie diretamente os atos e atitudes de cada um — (v.17): “Não deveis intentar o mal uns aos outros em vossos corações, nem amar o juramento falso, pois eu odeio todas essas coisas — declara o Senhor”. Para se obedecer aos comandos de agir com veracidade e de julgar com retidão, era preciso que o coração de cada um abandonasse as “segundas intenções” ligadas aos relacionamentos. Se não era permitido guardar no coração planos reprováveis de prejudicar outras pessoas para benefício pessoal, externar essa atitude pecaminosa por meio de juramentos falsos ou palavras que não têm realmente valor, nos quais não se pode confiar, era terminantemente proibido. Os judeus não podiam, de modo algum, “amar” tais expedientes utilizados pelos seus ancestrais que provocaram a ira divina. Afinal, o Senhor deixou claro seu ódio com tais procedimentos e solenizou essa verdade com a fórmula “declara o Senhor”. Resumindo, aquele povo devia se fortalecer para o trabalho buscando esperança na atuação de Deus no passado e nas promessas ligadas ao futuro, deixando de temer os inimigos e as limitações da sua condição, ao mesmo tempo que lutavam seriamente para manter um padrão de vida elevado e moldado pelo caráter e pelas palavras do Senhor. Como passagens assim são atuais e servem à igreja de Cristo! Temos de fazer o mesmo, observando tudo que o Senhor fez e faz por nós desde que, ao crermos em Cristo, ele cancelou nossa condenação e passou a nos guiar e abençoar, promovendo uma “grande virada” em nossa condição. Temos também de olhar para o futuro cheios de esperança na vida eterna, na nossa futura condição glorificada na presença do nosso mestre. Por fim, também temos de nos fortalecer e viver do modo que honre e proclame o evangelho de Jesus Cristo, o qual é o padrão de vida daqueles que o buscam em fé. E quando tudo isso nos parecer difícil demais, que nos lembremos da mesma ordem que o Senhor deu muitas e muitas vezes nas Escrituras: “Não temais!”. ZACARIAS 8.18-23 O Fim do Lamento e a Busca dos Povos A quarta e última das mensagens desse trecho traz uma das visões mais encorajadoras sobre a restauração futura de Israel e a alegria advinda disso por meio da remoção das razões de lamento[150] e pela expansão mundial da influência divina. O início dessa mensagem é marcado por uma frase já bem conhecida dos ouvintes originais (v.18): “Veio a mim a palavra do Senhor dos exércitos, dizendo”. A partir daí, o Senhor faz três gloriosas promessas, cada uma precedida pela fórmula “assim diz o Senhor dos exércitos”.[151] A primeira promessa é a de que o lamento cederá lugar ao regozijo (v.19): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘O jejum do quarto mês, o jejum do quinto mês, o jejum do sétimo mês e o jejum do décimo mês se tornarão em alegria, em regozijo e em contentes festejos para a casa de Judá, de modo que deveis amar a verdade e a paz’”. Deve-se recordar que o fato que deu origem a esses sermões foi o questionamento dos judeus a respeito da necessidade da continuidade dos jejuns, no início do capítulo 7.[152] No último dos sermões pregados a partir de então, o assunto do jejum volta à tona e recebe sua resposta definitiva. O modo de os judeus agirem no presente muito dependia do que o Senhor lhes faria no futuro. Nesse sentido, os jejuns não apenas perderiam completamente seu uso, como meios de lamentar os sofrimentos do passado decorrentes do pecado da nação, mas seriam surpreendentemente transformados no seu extremo oposto. Em lugar de choro, aflição e lamentos, Deus instalaria no meio do povo “alegria”, “regozijo” e “contentes festejos”, o que indica uma mudança completa da situação de vida. Se o que trouxe pranto no passado foram a destruição de Jerusalém e do templo, o desterro da maior parte do povo, a perda da soberania nacional e da falta de domínio e a posse da terra prometida aos antepassados, a ação de Deus de restituir o que foi perdido, reconstruir o que foi derrubado e restaurar o que foi abatido produzirá uma alegria incomparável e contagiante. Mas isso de modo algum deve ser razão para um novo descaso e relaxamento dos padrões morais e de vida, como aconteceu no passado. Assim, o final do versículo apresenta uma ordem de o povo amar a verdade e a paz. O que não se sabe exatamente é como essa ordem se relaciona com a promessa da restauração, já que não há nada no texto hebraico que ligue a frase anterior à cláusula final. Por isso, as ligações “de modo que”, ou “portanto”, ou “então” são suposições dos tradutores a fim de dar sentido a uma sentença que fica perdida sem esse tipo de conexão. Algumas versões simplesmente traduzem a ordem final sem nenhum tipo de conexão, deixando de introduzir no texto o que ele não traz, contudo, sem resolver a questão, mas transferindo-a para o exegeta. O fato é que a instrução ética do Senhor está, sim, ligada à promessa da alegria, provavelmente ensinando que a esperança futura devia encontrar seu par no presente na forma de fidelidade a Deus. Isso seria um encorajamento a não apenas se esforçar na construção como também a lutar para manter o tipo de vida que o Senhor ensinou e que esperava dos servos a quem abençoa. Uma segunda possibilidade é que, em lugar da ligação “de modo que”, se utilize a conjunção “mas”. O resultado seria que a ordem não visaria a uma resposta presente, mas futura, no sentido de orientar que, quando a alegria fosse plenamente restaurada, os judeus não poderiam de modo algum se esquecer dos limites da verdade e da paz nas suas ações diárias e nos festejos[153] — “festejem, mas não passem dos limites”. A segunda promessa é a de que os gentios do mundo todo buscarão e seguirão o Senhor, cuja presença será vista especialmente em Jerusalém (v.20): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Virão ainda povos e moradores de muitas cidades’”. Essa também é uma grande mudança que será realizada por Deus, pois, a princípio, os gentios são apresentados no livro como rebeldes e alvos da ira divina (Zc 1.15). Entretanto, após o período de derramamento da ira punitiva sobre eles, um grande avivamento ocorrerá e os povos que rejeitavam a Deus passarão a buscá-lo (vv.21,22). O uso do verbo “virão” demonstra que eles terão como destino da sua procura o próprio “Senhor dos exércitos”. Essa busca terá uma grande adesão de participantes porque, além da conversão a Deus em larga escala, haverá também um movimento contagiante em que uns passam a convidar os outros a fim de que façam o mesmo (v.21): “E os moradores irão um ao outro, dizendo: ‘Estamos indo fazer súplicas diante do Senhor e buscar o Senhor dos exércitos. Eu também irei’”. A função do gerúndio[154] “estamos indo” é apontar para o fato de que não se tratará apenas de um projeto ou de um plano futuro, mas de um movimento que já estará em plena ação. Além disso, depois de dizer “estamos indo”, é surpreendente que tais pessoas também digam “eu também irei”, já que isso é explícito na primeira afirmação, cujo verbo está na primeira pessoa do plural (nós). Com isso em mente, podemos olhar para a cláusula final e ver nela uma ênfase ao que já foi dito, tornando claro o caráter pessoal da viagem, ou podemos entender que a primeira colocação descreve uma iniciativa em larga escala em que seria natural expô-la na primeira pessoa do plural, como se alguém dissesse “estamos em guerra”, mesmo sem ser ele mesmo um soldado. Dentro dessa segunda possibilidade, a declaração final “eu também irei” teria o mesmo efeito do alistamento militar pessoal em tempos de guerra. Assim, o que está na mente de quem fala desse modo é que “a nação está de partida para buscar a Deus, mas não sem mim, pois eu pessoalmente me unireia essa marcha”. Em resumo, esses anúncios marcados pelo exemplo pessoal acabam transformando tais pessoas em um tipo de evangelista,[155] cuja dedicação e ansiedade pela busca de Deus acabam por revelar sua fé e motivação. É preciso que se diga que uma impressão que o exegeta pode ter é de que a frase “eu também irei” seria a resposta dos ouvintes, o que não é nada absurdo, já que evidenciaria a grande adesão ao movimento de busca do Senhor. Entretanto, o texto não dá nenhuma indicação de mudança do interlocutor, de modo a tornar a proposta um tanto especulativa, apesar de que esse não seria o único exemplo de algo assim no Antigo Testamento. A diferença é que a situação aqui não obriga uma mudança de interlocutor para que o texto tenha sentido, diferente de outros lugares em que isso é realmente necessário, dada a alteração do tom de uma frase ou do contexto, ou mudança de número e gênero verbais. O resultado do extenso convite do v.21 é uma maciça busca por Deus e uma grande peregrinação a Jerusalém (v.22): “Virão muitos povos e numerosas nações a fim de buscar o Senhor dos exércitos em Jerusalém e para fazer súplicas diante do Senhor”. A esmagadora maioria das traduções traz “poderosas nações” em lugar de “numerosas nações” — o adjetivo hebraico utilizado aqui tem os dois significados. Contudo, o contexto nos revela que a declaração divina desse trecho não está preocupada em mostrar o poder de Deus sobre o poder e a arrogância das nações rebeldes e inimigas, mas a incrível adesão mundial à busca do Senhor. Por isso, a tradução “poderosas” foge um pouco ao contexto e introduz uma ideia que parece ser extemporânea, uma vez que, no cumprimento de tais palavras, já terá caído diante de Deus o poderio das nações. Ao que tudo indica, essa construção usada pelo profeta nos fornece um “paralelismo sinonímico”, figura em que se apresentam duas ideias que apontam para a mesma realidade, ou uma “hendíadis”, figura que usa duas expressões para expor uma ideia apenas — nesse caso, uma tradução possível seria “virão pessoas de numerosas nações”. De qualquer modo, a tradução “numerosas” [156] é preferível.[157] Algo também notável nesse texto é que as nações não apenas buscarão o Senhor, mas o farão “em Jerusalém”. É fato que o Senhor está em toda parte (Sl 139) e que não é limitado a locais geográficos ou a edificações físicas (1Rs 8.27; At 17.24). Entretanto, no tempo do cumprimento dessas promessas, Deus será buscado de um modo especial em Jerusalém, assim como ocorria quando havia sacrifícios, culto, festas e cerimônias no templo. Pode-se propor que isso ocorrerá devido à presença e utilização de um novo templo. Contudo, Jesus, mesmo no tempo em que existia um santuário em plena atividade, desencorajou a valorização de locais especiais de adoração (Jo 4.21-23). Olhando para isso e para textos que também falam do afluir das nações para Jerusalém, não para visitar um templo, mas para buscar e aprender do Senhor (Is 2.2-4; Mq 4.1-3), pode-se concluir que o fato marcante será a presença do próprio Deus em Jerusalém, na pessoa do Messias, que, sendo eterno, será também rei de Israel (Mq 5.2) e legislador das nações (Mq 5.4). Por fim, a terceira promessa é a de que gentios e judeus se unirão na mesma adoração a Deus (v.23): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações agarrarão a manga de um judeu, dizendo: Nós iremos convosco, pois ouvimos que Deus está convosco’”. O ato de agarrar alguém pela roupa pode nos parecer hoje uma ação desrespeitosa, mas, tanto em Israel como na Mesopotâmia daqueles dias, agarrar a manga da roupa era um gesto de súplica e submissão, como, por exemplo, na ocasião em que Saul agarrou o manto de Samuel a fim de lhe suplicar que voltasse com ele (1Sm 15.27).[158] Assim, a figura produzida por essa frase é que os gentios, antes inimigos dos judeus, lhes procurarão e desejarão se associar a eles na adoração do Deus que reina em Jerusalém sobre a nação israelita. O fato de dizer que “dez” gentios se dirigirão a “um” judeu pode levar à suposição nada absurda de que o número de pessoas entre as nações será bem maior que o número de judeus, não obrigatoriamente na proporção de dez para um, mas no sentido de condizer com o tamanho no mundo e com o número de nações em relação a Israel. Em resumo, os velhos adversários se achegam aos judeus sabendo que eles, não mais rebeldes como no passado, andam com Deus e com todos aqueles que também buscam ao Senhor. O resultado final é um mundo ideal, tanto no sentido da paz e união mundiais como na busca geral pelo Senhor e criador de tudo que existe. A diferença é que, o que hoje se vislumbra apenas de modo utópico será plena realidade quando esse tempo chegar. É ótimo saber que um dia o mundo se curvará ao eterno salvador dos que nele creem. Entretanto, não é necessário esperar esse tempo para que sua igreja atual aja como aqueles peregrinos no futuro, que saiam de casa em casa e de cidade em cidade convidando outras pessoas a buscar também o Senhor. Devemos fazer isso desde já, cumprindo nossa função como expoentes da verdade e das virtudes do nosso Deus (1Pe 2.9). Ao mesmo tempo, temos a obrigação de também amar a verdade e a paz para que o mundo veja em nós vidas transformadas por aquele que é verdadeiro e que há de reinar. E sempre que virmos o povo de Deus glorificando seu Senhor com suas ações, atitudes, anúncios, ajuntamentos e adoração, devemos todos juntos bradar: “Eu também irei”. ZACARIAS 9.1-8 O Olhar Controlador e Protetor do Senhor O início da segunda parte do livro de Zacarias começa com um oráculo de difícil tradução, em certas partes, e de difícil interpretação, com bifurcações hermenêuticas que podem levar o texto a dizer coisas extremamente antagônicas entre si. Por isso, são necessários paciência, cuidado e sintonia com a teologia dos profetas e de todo o Antigo Testamento e com a história do Oriente Médio Antigo. A fórmula inicial demonstra a abertura da nova seção (v.1): “Um oráculo dito pelo Senhor contra a terra de Hadraque e que repousa sobre Damasco, pois o Senhor tem seus olhos voltados à humanidade e a todas as tribos de Israel”. A primeira palavra já levanta uma questão a ser respondida: o que é "um oráculo”? Na língua portuguesa, a possibilidade que melhor se adapta ao contexto tem o significado de uma palavra cheia de autoridade cujo cumprimento é infalível. Dado o caráter punitivo do contexto, não erra quem, em lugar de “oráculo”, usa a palavra “sentença”. Entretanto, nenhuma das palavras da língua portuguesa é capaz de preservar a ideia de um “peso colocado sobre alguém”, seja sobre as nações alistadas na sequência, seja sobre o próprio profeta que, certamente chocado com o conteúdo da profecia, não podia escolher não obedecer ao chamado profético de anunciar as palavras do Senhor, mesmo que isso lhe fosse uma dura carga a ser suportada. A palavra do Senhor é dirigida a várias cidades. O que surpreende é o seu primeiro alvo, uma cidade não citada em mais nenhum lugar das Escrituras, a obscura Hadraque. Uma inscrição do oitavo século a.C., atribuída a Zakir de Hamate, identifica Hadraque com a cidade conhecida como Hatarikka, localidade situada ao norte de Hamate.[159] Assim, ela não parece ser obscura na história do Oriente Médio Antigo, permanecendo misteriosa apenas a relação dessa cidade com os rumos da história de Israel. De qualquer modo, Hadraque, junto com Damasco, capital de Aram (isto é, Síria), são o alvo da ação divina, sobre as quais repousam suas palavras, ou suas determinações punitivas. Na verdade, não apenas tais cidades, mas todo o mundo, todas as suas nações, incluindo Israel e suas tribos, estão sob o “olhar” controlador do soberano. Apesar de muitas traduções optarem pela tradução na qual as nações e as tribos de Israel estão olhando para o Senhor, a visão do profeta não é de domínio de toda a humanidade, além de um erro frequente ser justamente o fato de os homens serecusarem a olhar para o Senhor.[160] Ademais, o v.8 retorna ao assunto dos olhos soberanos do Senhor, traçando um paralelo entre o início e o final do texto,[161] tornando preferível a tradução na qual o Senhor é quem tem seus olhos sobre a humanidade e sobre Israel. O olhar controlador e punitivo de Deus não se limita às cidades citadas no v.1, mas se estende sobre outra grande cidade síria, Hamate, e sobre duas grandes cidades fenícias, Tiro e Sidom (v.2): “Também sobre Hamate — que faz divisa com ele — e sobre Tiro e Sidom que são muito perspicazes”. Hamate é limítrofe tanto de Hadraque como de Damasco, de modo que não é fácil definir o limite citado aqui, sem que, contudo, tal dúvida afete o sentido do texto. Quanto à perspicácia (lit. sabedoria) atribuída a Tiro e Sidom, é apresentada no singular como se fosse a qualidade de apenas uma delas, sendo complicado definir qual das duas. Entretanto, a associação entre as duas cidades as torna inseparáveis inclusive em suas designações. Outra observação a ser feita é que o sentido literal de “sabedoria” da palavra hebraica usada no final desse versículo tem uma conotação positiva e elogiável. Entretanto, o contexto e as consequências da profecia demonstram que o Senhor não estava elogiando essas cidades, mas reconhecendo seu talento, o qual, infelizmente, não impediu que elas se tornassem arrogantes ou que se livrassem da punição divina, razão pela qual a tradução “perspicazes” ou “talentosas”[162] é preferível. Outro detalhe que nos chama a atenção é a lista e a sequência das cidades apresentadas no texto. Ela coincide com a invasão, em 333-332 a.C., de Alexandre, o Grande, à Síria, Fenícia, Filístia e Judá. Isso nos leva à questão da ocasião do cumprimento do oráculo. Há quem defenda que se trate de acontecimentos diversos entre os séculos 6 e 8 a.C., mas não sem destruir a unidade do livro com tais propostas. Há também quem o considere uma profecia totalmente escatológica, sem conseguir, contudo, explicar certas situações não compatíveis com o reinado do Messias, que produz paz e transformação de ordem mundial, como, por exemplo, a situação semicaótica da Filístia. A melhor opção, que não é defendida sem pelo menos uma dificuldade, é a possibilidade de se tratar de uma predição sobre a invasão grega de toda a região trazendo grandes mudanças no cenário político. Sobre isso, Flávio Josefo, sacerdote e historiador judeu do início da era cristã, conta que, ao guerrear com o persa Dario na Cilícia, “Alexandre, depois da vitória chegou à Síria. Tomou Damasco, apoderou-se de Sidom e sitiou Tiro. [...] E, depois de haver regularizado todas as coisas, foi sitiar Gaza”.[163] Na página seguinte, Josefo fala da chegada de Alexandre a Jerusalém, porém, sem destruí-la, mas dando-lhe privilégios em função do relato que fez sobre uma visão que teve ainda na Macedônia em que o sumo sacerdote israelita, com suas exatas roupas, as quais ele nunca tinha visto antes, encorajou-lhe, na visão, a batalhar e vencer Dario sob os auspícios do Deus verdadeiro. Seguindo a possibilidade de ser esse o cumprimento do oráculo, há quem proponha uma ordem cronológica crescente nas previsões dessa parte do livro de Zacarias, de modo que 9.1-8,13 seria uma predição a respeito do Império Grego, 11.4-14 do Império Romano e os capítulos 12— 14 do futuro de Israel nos últimos dias.[164] O próximo versículo aponta as razões para a arrogância de Tiro, a qual realmente precederia sua queda (v.3): “Tiro edificou para si uma fortaleza e ajuntou prata como pó e ouro como barro das ruas”. A cidade de Tiro se dividia em uma parte continental e outra parte fixada em uma pequena ilha a oitocentos metros da costa, onde vivia a maior parte da população. A construção de uma fortaleza tornou a cidade quase inexpugnável a ponto de Nabucodonosor, depois de um cerco de treze anos (587-574 a.C.), ter desistido de invadir a cidade. Isso fez com que, além de arrogante (cf. Ez 28), a cidade tivesse se tornado muito rica. Tudo isso cairia diante do que Deus lhe tinha preparado (v.4): “De modo que o Senhor a desapossará e lançará no mar seu poder, e ela será consumida pelo fogo”. Segundo essa previsão, três males lhe sobreviriam. Suas muitas posses seriam despojadas. Seu “poder”, o que possivelmente é uma referência ao seu poderio naval, seria lançado no mar, ou seja, seria afundado no mar. E a cidade seria completamente destruída pelo fogo. Um abatimento completo que, como é sabido, fez com que a cidade nunca mais se erguesse e tivesse novamente sua glória como no passado. Após conquistar os territórios da Síria e do Líbano, Alexandre tinha planos de dominar a Filístia (v.5): “Asquelom verá e temerá. Gaza se aterrorizará, assim como Ecrom, pois sua esperança foi confundida. Gaza ficará sem rei e Asquelom não será habitada”. Os filisteus sabiam ser o próximo alvo, de modo que a notícia da queda de Tiro os abateu fortemente a ponto de sentirem grande temor e de perderem a esperança. Se a esperança dos filisteus estava depositada na resistência de Tiro ou na suposta incapacidade militar dos macedônios, não é possível determinar. Mas o resultado final era claro para eles: a Filístia não resistiria a essa invasão. E de fato não resistiu, pois, depois de um cerco de dois meses, Gaza, que era a principal cidade filisteia nesses dias, caiu. Ficar sem rei significa que o rei foi deposto ou morto por Alexandre e a cidade não teve liberdade política e militar para entronizar outro monarca. Se Asquelom ficou desabitada, Asdode passou a ser habitada por um povo misto (v.6): “Um povo bastardo habitará em Asdode, pois eu aniquilarei o orgulho dos filisteus”. A única das cinco cidades filisteias que não é citada é Gate, já que ela fora completamente abatida por Nabucodonosor no passado. Apesar do grande abatimento filisteu, nem tudo seria mal (v.7): “Tirarei o sangue de suas bocas e a comida imunda de entre seus dentes. Então, quem sobreviver será do Senhor e se tornará como um clã em Judá e Ecrom será como um jebuseu”. Como efeito colateral da invasão macedônia, efeito esse planejado por Deus, os sobreviventes filisteus acabariam sendo integrados à população de Judá e, convertidos ao judaísmo, seriam do Senhor. Isso é percebido no texto em dois relances. O primeiro é o da purificação alimentar e cultual dos filisteus, já que dizer que o sangue seria tirado de suas bocas significa que eles passariam a se abster dele, assim como ditava a lei israelita. Ao mesmo tempo, dizer que não haveria mais comida imunda em seus dentes aponta para o fato de que eles deixariam os rituais de adoração pagã dos seus falsos deuses para servir ao Deus verdadeiro, o que fica apenas implícito. O segundo relance vem da afirmação de que eles seriam como um clã ou uma família de Judá. Isso significa que haveria uma absorção tribal em que os sobreviventes filisteus passariam oficialmente a integrar a tribo de Judá, assim como aconteceu aos jebuseus, antigos moradores de Jerusalém. Quando Davi invadiu a cidade, poupou boa parte do povo e este foi absorvido pelos israelitas, o que é possível notar ao ver a fé e a prática do jebuseu Araúna (2Sm 24.16,18) diante do rei Davi e da sua necessidade de fazer uma oferta a Deus em suas terras (2Sm 24.22; 1Cr 21.23).[165] Depois de uma invasão avassaladora em toda a região, Alexandre marchou rumo a Jerusalém. Em vista do seu pedido, quando ainda estava ao norte, de que os judeus lhe fossem favoráveis como o tinham sido anteriormente com Dario, e da recusa dos judeus por dizerem que não podiam faltar com sua palavra ao rei persa, Alexandre ficou muito furioso com Judá. Ao marchar para Jerusalém com seu exército, a expectativa era de que houvesse grande destruição. Mas o Senhor disse que protegeria seu povo (v.8): “Acamparei em minha casa para guardá-la de qualquer um que vá ou que venha, de modo que não venha mais nenhum opressor contra eles, pois, então, eu vigiarei com meus olhos”. O fato é que Deus promoveu uma grande virada, fazendo com que o conquistador macedônio reconhecesse em Israelo Deus que lhe falou anteriormente. Por isso, Alexandre foi bondoso com os judeus e foi bem recebido em Jerusalém. O sumo sacerdote até lhe mostrou no livro do profeta Daniel as predições de um príncipe grego que venceria os persas, afirmando acreditar que se tratava dele.[166] O resultado que deixou todos perplexos foi que, enquanto diversas nações ao redor foram abatidas, Jerusalém e o povo de Judá não apenas foram poupados, como também beneficiados pelo conquistador. A razão disso é a presença deliberada de Deus “em sua casa para guardá- la”. É claro que a menção da casa nos leva imediatamente ao pensamento sobre o templo. Entretanto, o Senhor certamente não estava preocupado com uma edificação de pedras e madeira, mas com a nação, razão pela qual essa casa, ou pelo menos seu efeito, deve ser compreendida como o próprio povo em si e seu território, ambos vigiados e guardados pelo olhar controlador do soberano. A dificuldade surge quando, no final do versículo, é afirmado que mais nenhum opressor viria contra eles, quando sabemos que a região foi posteriormente dominada pelos selêucidas, romanos, árabes, ingleses e, ainda hoje, quando Israel voltou a ser um Estado, não detém totalmente o domínio do território do qual devia usufruir. Desse modo, vemos que, ainda que esse oráculo tenha um cumprimento temporal, nos dias de Alexandre, a proteção que o Senhor deu ao seu povo naquele período será executada de modo pleno e irrevogável no futuro, quando eles definitivamente não terão mais guerras e nem inimigos e desfrutarão da plenitude das bênçãos prometidas por Deus nas alianças abraâmica, davídica e nova aliança. Essa mensagem, apesar de ter a maior parte do seu cumprimento já concluída e apontada para o povo judeu, revela o caráter de Deus e seu controle da história em benefício do seu povo, mesmo quando toda a lógica aponta para seu fim. Nesse sentido, a igreja de Cristo se viu muitas vezes como alvo de ataques inimigos que tinham como intenção exterminá-la, minar sua liberdade de adorar o Senhor e maculá-la com os piores tipos de mundanismo e superstição. Ainda assim, quando a razão dizia que a igreja sucumbiria, Deus acampou novamente sobre sua casa e livrou seu povo dos seus inimigos, fazendo-os perdurar e se expandir. Isso deve nos encher de coragem e esperança atualmente, quando vemos que os ataques inimigos não cessaram e que ainda há pessoas que rangem os dentes contra a igreja e contra o cristianismo e têm como meta de vida tirar nossa liberdade de viver servindo nosso Deus. Quando isso acontece, devemos fazer como o sumo sacerdote judeu que buscou o Senhor e confiou em suas palavras e, com vestes brancas, junto com todo o seu povo, viu o Senhor mudar os planos dos homens e beneficiar os servos do Deus vivo, aquele sobre quem estão os olhos do salvador e protetor daqueles que o amam. ZACARIAS 9.9-17 A Esperança do Futuro e do Presente A segunda metade do capítulo 9 de Zacarias contém um texto muito forte no que tange à esperança e ao maravilhoso vislumbre da chegada do Messias para reinar. Como sempre, dificuldades surgem. Uma das principais delas, além da exegese de cada versículo em si, é a ocasião de cumprimento dessas palavras. Uma leitura rápida revela os dizeres específicos do Senhor com relação à Grécia como alvo de um abatimento efetivado pelos judeus (v.13). Quase imediatamente nos vem à mente a guerra dos macabeus, iniciada em 167 a.C., na qual os judeus se livraram do domínio dos selêucidas, linhagem de governantes advinda de um dos quatro grandes generais gregos que dividiram entre si o império de Alexandre.[167] Nessa divisão, o general Seleuco ficou com o controle da Síria e circunvizinhanças. Apesar de muitos comentaristas ignorarem essa ligação do texto com a história em questão, a sequência desse parágrafo em relação ao anterior, em que se descortina a invasão de Alexandre sobre o Oriente Médio, torna natural a descrição profética do que se seguiria historicamente e produz um avanço natural nas profecias de Zacarias, tornando arbitrário o abandono dessa implicação do texto.[168] Por outro lado, é inegavelmente escatológica a linguagem utilizada em diversas partes do parágrafo — como a chegada do Messias (v.9), o desarmamento de Israel devido à paz (v.10), o estabelecimento da nação em sua terra (v.16) e a prosperidade permanente (v.17) —, criando, assim, um conflito em relação à aplicação histórica da profecia no período dos macabeus. Como se não bastasse, ainda surge a necessidade de explicar como, em tempos de paz escatológica, se desenvolve o cenário violento e sangrento que envolve Israel, fortalecido pelo Senhor, como nação vitoriosa (vv.13-15). O início do parágrafo surge em função do verso anterior que, voltando os olhos para o futuro, previa a libertação de Jerusalém e a soberania nacional. Tendo tocado nesse tema, o Senhor descreve o executor de tais ações, o Messias (v.9): “Alegra-te muito, filha de Sião! Aclamai, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti, ele que é justo e salvador, humilde e montado em um jumento, sim, sobre um jumentinho, cria de uma jumenta”. O chamado à exaltação não é sem motivo, já que contempla a chegada do rei prometido a fim de cumprir a aliança com o rei Davi (2Sm 7.16). Contudo, diferente dos reis da linhagem davídica que foram falhos ou até rebeldes, esse rei messiânico porta a qualidade divina de “justiça” e, no tocante ao seu papel em Israel, é “salvador”, alguém que obtém a tão esperada vitória sobre os inimigos. Em uma virada fantástica, a descrição gloriosa cede espaço à disposição humilde desse rei e sua chegada que divide a majestade com a simplicidade, ao vir montado em um jumentinho. Apesar de os jumentos serem animais muito úteis naquela região e certamente fazerem parte das posses e do uso real, há evidências suficientes na literatura antiga que demonstram o uso dos cavalos como locomoção oficial da realeza. O fato é que a perplexidade dessa visão aparentemente ambígua se desfaz quando, no Novo Testamento, surge o Senhor Jesus adentrando Jerusalém montado em um jumentinho e sendo recebido e aclamado como rei, cumprindo a predição feita a esse respeito (Mt 21.5-7 cf. Gn 49.10,11). A dificuldade óbvia é que, entre sua entrada triunfal e a realização efetiva do seu reinado escatológico, há toda uma era em que Israel é temporariamente afastado, cedendo seu privilégio à igreja de Cristo (Rm 11). Por causa da progressividade da revelação divina, esse período, tão claro aos olhos do Novo Testamento, nem sempre foi percebido pelos profetas, como ocorre aqui. Diante desse texto e sua sequência, a chegada humilde do Messias em um jumentinho é seguida pela vitória contra os inimigos, restauração permanente de Israel e instauração da paz,[169] quando sabemos que essa última parte ainda não ocorreu. O profeta Miqueias faz o mesmo ao associar o nascimento do Messias (Mq 5.2) com o retorno dos israelitas em paz sob as bênçãos do seu rei (Mq 5.3), como se fossem eventos contíguos. Porém, apesar de já haver ocorrido o descrito no v.2, o resultado do v.3 ainda é aguardado. O fato é que os profetas, que tinham menos informações que os escritores do Novo Testamento, por vezes associavam acontecimentos que mantêm intervalos de tempo entre si. Alguns estudiosos chamam esse fenômeno de “horizonte profético”, comparando o aglutinamento de cumprimentos proféticos à visão equivocada que temos das montanhas no horizonte que, parecendo todas elas pertencerem à mesma montanha, costumam ser montes distantes uns dos outros, mas que, de longe, produzem uma imagem unificada, sem que se vejam os vales que os separam. Assim, nesse caso em questão, apesar de Jesus já ter completado a previsão do v.9, ainda aguardamos com esperança o cumprimento dos versos seguintes. Em função do início do reinado efetivo do Messias, as esperadas bênçãos pactuais serão cumpridas (v.10): “Eu acabarei com os carros de Efraim e com os cavalos de Jerusalém. O arco de guerra será quebrado. Ele anunciará a paz às nações e o seu domínio será de mara mar e desde o rio [Eufrates] até os confins da Terra”. Um dos modos de se anunciar a instalação da paz é anunciar o desmantelamento do arsenal de guerra. O mesmo ocorre com Isaías ao prever a paz mundial escatológica dizendo que todo o armamento será transformado em ferramentas agrícolas (Is 2.4). Aqui, os carros de guerra, puxados por cavalos, serão aposentados permanentemente — a palavra hebraica utilizada dá ideia de algo “cortado fora” ou “extirpado”. O texto não deve ser entendido de tal forma que somente Efraim possui carros de guerra e somente Judá os cavalos, mas como um modo de dizer que em “todo Israel” haverá tal paz que os armamentos alocados em todo o território serão inúteis e, por isso, descartados. Depois de falar dos poderosos carros de guerra, o profeta fala de outro instrumento letal, os arcos. O alcance mortal dos arcos, com suas flechas que atingem inimigos a grande distância, faz dele uma arma perigosíssima. Sabendo disso, Zacarias diz que também esse trunfo militar será quebrado para que nunca mais seja utilizado contra outras pessoas. É claro que o texto coloca o desarmamento em termos militares antigos. Hoje, as guerras não são mais travadas com charretes e com arcos. Entretanto, o texto aponta para uma paz que é confirmada pelo desarmamento militar, qualquer que sejam as armas na ocasião em que isso ocorrer. O resultado não será paz apenas para Israel e seu povo, mas para todo o mundo (cf. Is 2.2-4; Mq 4.1-3). Outro fator esplêndido é o fato de o Messias não reinar apenas sobre Israel, mas dominar as nações do mundo todo. Ao dizer que tal domínio será “de mar a mar”, a ideia não parece ser a de limitar um território entre dois mares, mas falar da continuidade ao redor do mundo, assim como dizemos “do começo ao fim”, “de A a Z” ou “de domingo a domingo”. Essa ideia se confirma quando o “rio Eufrates” surge como limite inicial de um controle que alcança “os confins da Terra”. É certo que qualquer rio, vale ou monte serviriam igualmente a essa figura. Porém, a menção do Eufrates certamente trazia à mente do judeu, que aguardava possuir a terra da promessa, a aliança feita com Abraão, a qual previa a posse territorial desde o Eufrates até o rio do Egito (Gn 15.18-21). Uma observação a ser feita é que, apesar de o texto hebraico dizer apenas “desde o rio até os confins da Terra”, a expressão “o rio” é um modo costumeiro daquela época de se referir ao Eufrates, razão pela qual o nome desse rio entrou na tradução. [170] A ligação com a aliança abraâmica brota também no versículo seguinte (v.11): “Quanto a ti, por causa do sangue da aliança feita contigo, tirarei os prisioneiros das cisternas sem água”. A promessa feita ao patriarca envolvia a permanência da sua descendência na terra prometida — por isso, o Senhor trará Israel de volta ao seu território de direito. Entretanto, outra aliança, mesmo que derivada da abraâmica, parece condizer ainda melhor com tal promessa, a “nova aliança” (Jr 31.31-34). Além de ela prever a restauração espiritual de Israel, também prenuncia seu retorno ao país de onde foram expulsos (Jr 31.23-25,38-40). Ezequiel, falando das bênçãos espirituais da nova aliança, atrela a elas o retorno da nação (Ez 36.25-27 cf. vv.24,28). Essa é a razão de Deus, “por causa do sangue da aliança”, se comprometer a tirar o povo “das cisternas sem água”. Essa expressão produz, assim como na história de José, a ideia de uma prisão de onde não se pode sair sozinho. Assim tem sido a dispersão dos judeus pelo mundo devido à sua rebeldia e incredulidade. Não importa o que façam, não conseguem revertê-la plenamente. Na verdade, nem conseguem manter em paz o país que reinstituíram. Esse tormento só findará depois da entronização do Messias em Jerusalém e da sua influência mundial. Nessa ocasião, será anunciado aos israelitas dispersos (v.12): “Retornai à fortaleza, prisioneiros da esperança. Hoje, igualmente, anuncio que vos restituirei em dobro”. A fortaleza é Jerusalém, tratando-se de uma sinédoque em que a parte é citada como referência ao todo, a terra da promessa. Além disso, Jerusalém, como capital livre de um país soberano, é um lugar muito importante dentro da profecia, principalmente ao lembrarmos que o Israel moderno não detém o controle pleno dessa cidade, a mais significativa para eles. Em complemento ao retorno, há também a provisão dobrada que revela que o Senhor voltará a tratar Israel como seu primogênito, dando-lhe abundância de tudo aquilo de que agora eles são “prisioneiros da esperança”, ou seja, esperançosos de ver cumpridas tais promessas. Na verdade, essa expressão aponta para o teor da esperança também no que tange à situação presente, podendo significar “prisioneiros no exílio que mantêm a esperança em Deus” ou “que têm esperança de que Deus irá libertá-los”,[171] fazendo-os retornar à sua terra. Apesar da visão bela e pacífica do mundo governado pelo Messias, uma imagem desconcertante é exposta nos próximos três versículos. Israel, que no v.10 é permanentemente desarmado, surge agora como uma arma de guerra na mão de Deus (v.13): “Pois retesarei Judá como se fosse meu arco e o carregarei com Efraim. Eu despertarei os teus filhos, ó Sião, contra os teus filhos, ó Grécia. E farei de ti, [ó Sião], como espada de um guerreiro”. Esse quadro é tão antagônico ao anterior que alguns comentaristas ignoram a linguagem bélica desse trecho (vv.13-15) e reduzem seu significado a uma mera declaração de que Deus é soberano sobre as nações e que tem poder para abatê-las. É claro que não é fácil sair desse dilema. Entretanto, a conjunção “pois” nos ajuda a perceber que o que será dito faz parte do processo que leva àquela situação de paz. Nesse caso, a paz vem somente depois da guerra e depois da vitória de Israel sobre os inimigos e do Senhor contra a rebeldia dos povos. Nesse sentido, a batalha contra os gregos, liderada pelos macabeus, é uma demonstração histórica daquilo que Deus fará plenamente no futuro. Assim, antes de o Senhor quebrar o arco de Israel (v.10), ele utilizará Judá como um arco e Efraim como as flechas, ou seja, fará deles instrumentos de guerra e dos seus propósitos. Além de a um arco com suas flechas, os judeus também serão comparados a uma espada, produzindo a noção exata de que essa não será uma guerra somente do Senhor, mas também dos israelitas. Apesar disso, o poder e a vitória vêm de Deus e da sua ação inevitável (v.14): “O Senhor será visto acima deles e suas flechas sairão com raios. O Senhor Deus dará o toque com a trombeta e partirá com furacões do Sul”. Não se trata de qualquer batalha que os judeus já travam ou que venham a travar. Essas palavras também não podem ser aplicadas a conflitos regionais como os já ocorridos na história do Estado de Israel. Trata-se de uma guerra de grande porte, cujo poder do Senhor é inegavelmente visto e reconhecido como se veem os raios do céu. Seu início deve ser bem marcante devido à figura de um toque de guerra dado pelo próprio Deus a fim de avançar sobre os opositores. Essa guerra também produzirá um resultado arrasador sobre os inimigos, assim como os estragos produzidos pelos “furacões do Sul”. Essa menção pode fazer referência às fortes tempestades da região árida e montanhosa do Sul de Judá, o Negueve, mas as tempestades mais violentas vindas a Judá pelo Sul são as que vêm do deserto da Arábia (Is 21.1 cf. Os 13.15).[172] Israel entrará em batalha assim como fazia no passado, quando o Senhor os liderava em combate e os protegia para não sucumbirem diante de outros exércitos, tornando-os vitoriosos (v.15): “O Senhor dos exércitos os protegerá. Assim, eles comerão e pisotearão as pedras lançadas de fundas. Eles beberão e se alvoroçarão como se faz com vinho. Eles ficarão encharcados como bacias sacrificiais e como os cantos do altar”. Não é fácil compreender a linguagem truncada e as figuras rebuscadas, mas parece haver aqui, na figura de um banquete, uma visão dupla. A primeira visão é a batalha cruenta que será travada de maneira poderosa por parte dos israelitas. Sob essePor outro lado, se fossem rebeldes e resistentes ao controle divino, seriam alvo de severa punição (Lv 26.14-39; Dt 28.15-68) envolvendo fome, seca, doenças, infertilidade e guerras, podendo chegar até ao ponto de serem exilados — o que realmente ocorreu com a geração anterior. O que vem a seguir (vv.8-11) é o desdobramento desse acordo entre Deus e a nação. A primeira estrada que nasce da bifurcação das ações diante de Deus é a obediência (v.8): “Subi vós ao monte, trazei madeira e edificai a casa. Então, eu me deleitarei nela e me cobrirei de glória — diz o Senhor”. Isso dito após o chamado à reflexão contido no versículo anterior quer dizer que eles não deviam considerar apenas o que estava acontecendo por causa da desobediência, mas também o que deveria ocorrer no caso de serem fiéis e dedicados. Trata-se de um olhar para o passado a fim de transformar o comportamento no futuro.[14] Deve-se notar os três imperativos (jussivos, em hebraico) que surgem na primeira parte do versículo, decorrentes das ações de “subir”, “trazer” e “edificar”. São ações que exigem esforço, dedicação e paciência, algo que nunca seria realizado por mero impulso, mas por deliberada e consciente obediência. A ordem é subir aos montes e buscar madeira para a construção — a região montanhosa de Canaã era marcada pela presença de árvores. Não há ordens para que se busquem pedras porque, provavelmente, as do antigo templo ainda estavam no local da destruição. Obviamente, organizar grandes comitivas para cortar madeira e fazer um difícil transporte exigiria um comprometimento incompatível com o egoísmo daqueles dias. Em outras palavras, eles teriam de abandonar suas próprias obras domésticas e se empenhar na obra do templo. Entretanto, esse esforço teria compensações. Em primeiro lugar, o Senhor garante que se alegraria. Essa é uma menção simples, mas com sentido teológico significativo e consequências práticas incalculáveis. Nesse caso, a obediência do povo seria uma dessas alegrias e estaria de acordo com a aliança feita com o povo que deixou o Egito, garantindo também a eles as bênçãos da aliança — isso não é declarado aqui, mas é claramente implícito e posto em contraposição à punição que vinham recebendo. Contudo, se essas bênçãos são implícitas, Deus afirma explicitamente que seu deleite seria na casa em si — “eu me deleitarei nela”. Isso leva à segunda compensação do trabalho que seria a restauração da glória de Deus no meio de Israel, pelo que o Senhor diz “me cobrirei de glória”, indicando uma ação a que Deus se propôs realizar.[15] Apesar de esse tema ser trabalhado mais à frente, o Senhor desejava que o reerguimento da sua casa atestasse às nações que ele é um Deus que não perde batalhas e nem abandona seu povo e, de igual modo, que produzisse, entre os judeus, temor por seu nome e esperança de uma restauração completa no futuro em lugar da esperança frustrada no presente (v.9).[16] No presente, isso também se daria pela ação contrária ao que ocorreu antes da queda de Jerusalém e da destruição do templo em 587 a.C., quando a glória do Senhor, que havia enchido o tabernáculo no Sinai (Êx 40.34-38) e o templo de Salomão (1Rs 8.10,11), deixou o edifício e pousou sobre o Monte das Oliveiras — “o monte que está ao oriente da cidade” (Ez 11.23) —, marcando assim a rejeição e punição divina (Ez 10.18,19 cf. 11.22,23). Essa foi a necessária preparação para que Deus entregasse voluntariamente o templo a fim de ser destruído sem que houvesse razões justas para que alguém pensasse que ele podia ser vencido por homens. Porém, agora, com a lição aplicada, assim que se terminasse a reconstrução, o Senhor encheria o santuário novamente com sua glória (Ag 2.6-9). A segunda estrada nascida da mesma bifurcação é a rebeldia. Para essa opção, também há tristes consequências previstas na aliança, pelo que o Senhor lhes diz (v.9a): “Vós esperais a abundância, mas eis que obtendes pouco. O que trouxestes para casa, eu o assoprei” — síntese da ideia exposta no v.6. A primeira palavra do versículo quer dizer, literalmente, “virar a cabeça” ou “olhar para”. Assim, é possível que a plantação, quando vista por eles em seu processo de desenvolvimento, os tenha animado e feito esperar uma colheita farta.[17] Contudo, a falta de chuva afetou o amadurecimento dos grãos e frutos, prejudicando seriamente a colheita. A segunda parte é enfática em apontar a causa do sofrimento, fazendo-o por meio de uma pergunta e resposta (v.9b): “‘Por que?’ — declara o Senhor dos exércitos. Por causa da minha casa, a qual está arruinada enquanto cada um de vós se apressa por sua própria casa”. O contexto demonstra que se trata de uma pergunta de natureza retórica que reforça a declaração de Deus a respeito do pecado do povo, de modo que o verbo “declarar”, como é dito no texto original, transmite a seriedade dessas palavras e confere temor diante da repreensão. Outra coisa a se obversar é que a ideia de “se apressar” indica tanto a prioridade que os judeus davam às suas casas como o grande esforço e dedicação que eles empreendiam nelas. Em outras palavras, Deus diz que o povo merecia o que estava passando por não honrá-lo e por priorizarem a beleza das suas casas enquanto a construção do templo estava vergonhosamente abandonada na altura dos alicerces ou, no máximo, nas primeiras fileiras de pedras acima do solo. Desse modo, a consequência era óbvia (v.10): “Por isso, sobre vós os céus retiveram a chuva e a terra reteve a colheita”. Apesar de céus e terra surgirem aqui como agentes das ações de reter os recursos necessários, fica claro, principalmente diante do versículo seguinte, que era Deus o agente da ausência de chuvas e da pequena colheita (v.11): “Pois eu chamei a seca sobre a terra, sobre os montes, sobre o cereal, sobre o vinho, sobre o azeite, sobre o que cresce do solo, sobre os homens, sobre os animais e sobre todo o trabalho das mãos”. O acréscimo dos diversos setores prejudicados com a falta de chuva não era necessário. Dizer apenas “eu chamei a seca sobre a terra” bastava. Contudo, o Senhor quis apontar o tamanho do prejuízo e da carestia que os desobedientes vinham enfrentando, seja nas diversas produções agrícolas e pecuárias e até no próprio abastecimento de água, tão necessário aos homens. Sendo assim, não havia espaço para um “plano B”. A consequência era ampla e convincente no sentido de chamá-los à reflexão e mudança de rumo (vv.5,7). Joyce Baldwin observa a ironia nas palavras de Deus com intenção didática e punitiva ao fazer um trocadilho com a palavra “seca” (horev), no v.11, e a palavra “arruinado” (harev), nos vv.4,9.[18] A ideia é: “Vocês deixaram meu templo ‘arruinado’ e eu deixei vocês sob uma terrível ‘seca’” — algo bem compatível com as maldições da aliança (Dt 28.23,24). Agora, pesava a decisão dos judeus sobre que caminho seguir nessa bifurcação e que consequências receber. Era, para eles, a “hora da verdade”. Pelo menos duas lições sobre tais princípios devem surgir na mente dos crentes de hoje ao verem o modo de Deus tratar os rebeldes. Em primeiro lugar, lembrar que o Senhor bem sabe retribuir o esforço e o descaso dos servos. Isso não acontece com prejuízo da sua graça e misericórdia no relacionamento com seu povo — a igreja foi salva sem merecimento algum, gratuitamente, e a misericórdia do Senhor o impede de nos consumir tão logo o tenhamos desrespeitado e obedecido (Lm 3.22). Entretanto, foi dito à igreja de Cristo: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). A segunda lição é sobre o peso da “colheita” da desobediência. Apesar de vir do Deus amoroso e misericordioso, o autor de Hebreus declara: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). Para o crente que quiser se eximir de tais palavras, argumentando que elas dizem respeito apenas aos incrédulos, o texto precedente encerra a questão: “Porque bem conhecemos aquele que disse: minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: o Senhor julgará o seu povo” (Hb 10.30).aspecto, as pedras lançadas a eles pelos fundibulários inimigos não têm efeito, mas são devoradas e pisadas pelos soldados judeus. Na batalha, seus gritos de guerra lembrarão os barulhos ruidosos de um homem embriagado, tamanha a determinação e ferocidade dos seus soldados. Por fim, assim como as bacias e o altar do templo ficavam cheios de sangue dos sacrifícios, os israelitas “ficarão encharcados”, ou seja, “se encherão de sangue” dos inimigos em decorrência da batalha. A segunda visão é a de um banquete em que os vencedores comem os despojos da batalha, comemoram com gritos de grande alegria e cuja taça se enche, assim como eles mesmos. De qualquer modo, seja olhando para a batalha ou para a vitória, fica muito bem descrita aqui uma guerra violenta que Deus fará Israel vencer. Esse fato deixa muitos estudiosos perplexos, já que não vislumbram uma guerra escatológica final da qual Israel participe. Uma das razões para isso é, possivelmente, a descrição da batalha final dessa era como a vinda do Messias com seu exército celestial para vencer o inimigo (Ap 19.11-21), sem fazer qualquer menção a Israel como exército participante. Contudo, o profeta Miqueias, ao prever a tomada de poder pelo rei eterno que nasceu em Belém- Efrata (Mq 5.2), diz também: “O remanescente de Jacó estará entre as nações, no meio de muitos povos, como um leão entre os animais da floresta, como um leão forte entre rebanhos de ovelhas, leão que, quando ataca, destroça e mutila a presa, sem que ninguém a possa livrar. Sua mão se levantará contra os seus adversários, e todos os seus inimigos serão destruídos” (Mq 5.8,9 — ver também 4.13). Essa não é a imagem de um Israel passivo esperando que o Senhor faça tudo sozinho, mas de um exército poderoso que toma parte na batalha. Nesse sentido, o profeta Isaías trata Israel como ferramentas de arado moendo e pulverizando seus inimigos (Is 41.14-16 cf. vv.12,13). O próprio Zacarias ainda antevê os israelitas, fortalecidos pelo Senhor, em luta contra as nações e prevalecendo sobre elas (Zc 12.3-6, tb. 10.5). Desse modo, vê-se que a paz que o Messias trará será promovida após a punição da rebeldia contra o Senhor, assim como Deus fez no passado ao, simultaneamente, abençoar Israel com a terra de Canaã e punir as nações rebeldes (Gn 15.16). O resultado final é a confirmação da filiação de Israel e sua restauração (v.16): “Naquele dia, o Senhor, o Deus deles, os salvará como rebanho do seu povo, de modo que eles serão como pedras de uma coroa encravadas em sua terra”. Duas figuras são utilizadas. A primeira é a de um rebanho que, no Oriente Médio Antigo, não era tratado com descaso, mas com cuidado amoroso e benevolente por parte dos seus pastores. Igualmente, Deus agirá para com eles como um pastor excelente que livra seu rebanho dos perigos e lhe dá alimento, refrigério e segurança. A segunda figura reflete o caráter permanente da habitação do Israel restaurado na terra da promessa, pois serão como pedras preciosas engastadas em uma coroa. O valor da coroa e das pedras fazia com que o trabalho de confecção dessa peça real exigisse do ourives esmero e encaixes firmes das pedras para que não se perdessem. Não podia haver o risco de as gemas preciosas se soltarem da coroa. Do mesmo modo, o Senhor os firmará perpetuamente na terra assim como perpétua é a aliança que Deus fez com Abraão. Além do mais, a ideia das pedras preciosas nos indica como o Senhor valorizará seu povo e lhe encherá de bênçãos. Essa bondade é o tema final da profecia (v.17): “Quão grande é a sua benevolência e a sua graça! O trigo fará crescer os jovens e o vinho, às donzelas”. Além da “paz” para Israel e para o mundo, da “permanência” definitiva dos judeus na terra da promessa, a última faceta é exposta na figura da “prosperidade” para os habitantes de Israel, os quais terão filhos que crescerão e encherão as praças do país (Zc 8.5). Israel tinha, com isso, uma esperança dupla: esperança no futuro (escatológica) e esperança no presente, no decorrer da história (em relação ao domínio grego). A igreja de Cristo tem essa mesma esperança. Tem esperança de um dia chegar ao desejado céu, encontrar-se com o Senhor e com os santos, sem pecados nem sofrimentos, e habitar pela eternidade com Deus em sua glória. Ao mesmo tempo, tem a esperança de ver a mão cuidadosa, protetora e provedora do Senhor durante a história, em seu dia a dia nesse mundo mau. Se essas palavras encorajaram os macabeus a lutar contra um inimigo mais poderoso e a aguardar um reino futuro, muito mais nós temos de ter coragem para servir a Cristo e lutar contra o mal, levando a verdade do evangelho a todos e resistindo às perseguições que testemunham que somos filhos de Deus. Para nós, também a luta vem primeiro para depois herdarmos a eterna e verdadeira paz! ZACARIAS 10.1-12 Da Humilhação do Exílio à Glória do Reino À medida que o livro de Zacarias prossegue, as promessas e figuras vão se tornando mais sugestivas e enfáticas, como no capítulo 10, que é um texto grande, mas que não deve ser fracionado a fim de não perder de vista a compreensão do seu ensino. Ele começa com uma ordem simples, mas de grande interesse para uma população de atividade agropecuária (v.1): “Vós deveis pedir ao Senhor chuva no tempo da primavera, o Senhor que faz os relâmpagos, e ele dará chuva abundante e erva no campo para cada um”. Resumindo: “Peçam chuva e o Senhor dará”. Só isso? Não! O assunto continua sendo a salvação de Israel[173] e sua restauração como nação abençoada e próspera. Levando em conta a aliança com Israel (Lv 26.3,4), a chuva não era apenas uma questão de pedir, mas de se honrar o Senhor com a obediência e com o modo de vida segundo o caráter divino. Eis a razão pela qual Deus se zangou contra os líderes espirituais e políticos de Israel (v.3), pois, apesar de terem obrigação de ensinar e promover a obediência, eles corromperam o povo por maus caminhos. Isso fez com que os israelitas, durante séculos, buscassem falsos deuses e falsos profetas para obter as bênçãos que necessitavam para o sustento. O resultado foi se afastarem de Deus, sendo enganados (v.2a): “Porque os ídolos do lar falam falsidades e os adivinhos têm visões mentirosas, revelam sonhos vazios e dão consolo vão”. Aqui surge uma visão que nos parece fora de tempo, já que os “ídolos do lar”, citados como objetos de adoração pagã em Gênesis e em Juízes, não parecem fazer parte do dia a dia dos judeus do período pós-exílico, assim como os vaticínios de adivinhos e prognosticadores. Na verdade, quando o v.3 demonstra o desagrado de Deus contra os maus líderes de Israel, lembramos que nos dias de Zacarias o povo era liderado por homens que, apesar de não serem perfeitos, também não eram perversos e corruptores da nação, a saber, o governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué. Assim, a impressão é que o Senhor expande seu olhar sobre a história do seu povo entre o Egito e a Babilônia e sobre as razões de Israel não tê-lo servido, mas se rebelado, sofrendo severas punições. Além de culpar o povo, o Senhor responsabilizou com grande seriedade a liderança da nação (v.2b): “Por isso, o povo vive como ovelhas, às quais vivem aflitas porque não têm um pastor”. Apesar de “não ter um pastor” poder significar que não havia um rei, é provável que Deus tenha apontado o fato de as lideranças de Israel não terem agido como verdadeiros pastores, protegendo e alimentando o rebanho. A reação de Deus não podia ser outra (v.3a): “Minha ira se acendeu contra os pastores e eu punirei os bodes-guias”. Enquanto o termo “pastores” aponta aqui para os líderes religiosos, a palavra traduzida como “bodes-guias” pode ser usada como metáfora para homens poderosos ou magnatas,[174] apontando para a liderança política e para a aristocracia israelita. Ao percebermos que o verbo denota uma ação futura, podemos concluir que a realidade passada de Israel não estava resolvida e que o povo voltaria a se desviar por faltade quem os pastoreasse corretamente, redundando em novas punições e, segundo o texto sugere, um acerto final de contas antes que o próprio Deus assuma o controle do rebanho. Essa realidade final é descrita na segunda parte do versículo (v.3b): “Pois o Senhor dos exércitos visitará seu rebanho — a casa de Judá — e fará dele o seu cavalo majestoso na guerra”. Se os maus líderes não chefiaram corretamente Israel, Deus o fará cumprindo seus propósitos na vida da nação, tornando-a seu exército pronto a desempenhar o papel escatológico entre outras nações antes que seja estabelecida definitivamente a paz, como exposto no capítulo anterior. Na sequência, o profeta utiliza várias figuras de linguagem, nem todas fáceis de compreender (v.4): “De Judá virá a pedra angular, o prego na parede, o arco de guerra e todos os governantes”. O texto não fala “de Judá virá”, mas “dele virá” sem especificar quem. Alguns estudiosos optam por dizer que é de Deus que virão tais coisas, mas ao olharmos para o final do versículo anterior e para o versículo seguinte, percebemos que Judá é o foco das palavras. É claro que o fato de tais coisas virem de Judá, em nada significa que não é o Senhor quem as produz. Ao contrário, é exatamente essa a intenção da profecia, a saber, informar o que Deus fará a Judá e à nação como um todo. Assim, a primeira metáfora é a “pedra angular”, a qual não pode deixar de ser associada ao Messias (Lc 20.17; Ef 2.20; 1Pe 2.6). Entretanto, para os ouvintes originais, a ideia produzida em suas mentes também envolvia firmeza e segurança, já que esse era o papel de uma pedra angular em construções como a que eles vinham executando no templo e como já haviam lido nas Escrituras a respeito do estabelecimento, na criação, das bases da Terra (Jó 38.6 cf. v.4) — Isaías 28.16 também usa o termo, cujo significado está mais próximo dos textos do Novo Testamento que de Jó. Quanto ao “prego de parede”, embora seja frequentemente traduzido como “estaca”, produz a ideia de um apoio em que as ferramentas e armas eram penduradas, o que, figuradamente, aponta para as promessas de Deus como apoio da própria esperança dos israelitas (cf. Is 22.15-25; Ed 9.8).[175] A terceira metáfora é o “arco de guerra” que, além de apontar para o papel militar de Israel nos planos futuros do Senhor, deve também indicar o poder e a soberania do rei divino para, não apenas conquistar, mas também manter seu domínio e a paz nele instalada. Por fim, é dito que virão de Judá os “governantes”, palavra usada para indicar o governo dos israelitas sobre as nações,[176] além de um poder centralizado no reino messiânico e não um governo difuso e espalhado pelo planeta, como acontece atualmente. Em função disso, o povo enfraquecido e pouco numeroso de Judá dos dias de Ageu e Zacarias veria tal transformação que seria como um exército poderoso que cerca cidades inimigas, pisando o barro nas ruas como figura de quem vence todas aqueles que se opõem a ele[177] (v.5): “Eles serão como valentes pisando o barro das ruas na guerra. Eles guerrearão, pois o Senhor estará com eles e eles envergonharão os cavaleiros inimigos”. Valentes que, na guerra, pisam o barro nas ruas são os soldados de infantaria, aqueles que lutam a pé e que têm poder bélico inferior ao da cavalaria. Mesmo assim, o texto pinta a imagem das cavalarias inimigas sucumbindo ante à infantaria judaica. Isso quer dizer que, quando Deus cumprir sua promessa, não importa o número de inimigos e seus poderosos armamentos. Com o braço do Senhor ao seu lado, Israel se torna vencedor onde quer que vá. A partir do v.6, o assunto muda do estabelecimento de Israel como nação forte para o tema do retorno dos exilados, algo realmente significativo para os judeus que tinham retornado da Babilônia em um número não tão grande quanto desejavam (v.6): “Eu fortalecerei a casa de Judá, livrarei a casa de José e os farei voltar, pois tive compaixão deles. Eles serão como quando eu não os tinha rejeitado, pois eu sou o Senhor dos exércitos e lhes atenderei”. Os dois reinos de Israel são citado aqui. Judá recebe uma referência clara e Israel é citado por meio da figura de José, de quem provinha as tribos de Efraim e Manassés, sabendo que Samaria, antiga capital do reino do Norte, ficava em Efraim. Dizer que Judá e Israel voltariam, significa pelo menos três coisas: que as nações se uniriam novamente, que se arrependeriam dos pecados e voltariam a servir o Senhor e, adiantando o v.9, voltariam de seu exílio pelo mundo para a terra dada a seus pais. Em resumo, trata-se de uma restauração plena como a descrita no anúncio da nova aliança (Jr.31.31-34). Mesmo o reino de Israel, chamado Efraim, espalhado pela Assíria e pela Média desde 722 a.C. (2Rs 17.6), sem que houvesse grandes expectativas de que pudessem ser novamente reunidos, serão restabelecidos (v.7): “Os [homens] de Efraim serão como valentes e o coração deles se alegrará como se fosse com vinho. Seus filhos verão isso e se alegrarão. O coração deles se alegrará no Senhor”. Assim como na visão de Ezequiel, do vale de ossos secos (Ez 37.1-14), em que Deus refazia corpos há muito deteriorados e estabelecia um exército, a improvável reunião de Israel será um fato. Interessante notar que Ezequiel, na sequência da sua visão, anuncia a unificação e restauração dos reinos do Norte e do Sul (Ez 37.15-28). Zacarias faz o mesmo (v.8): “Eu os chamarei e os reunirei, pois eu os terei redimido. Assim, eles crescerão em número assim como cresceram [no passado]”. “Eu os chamarei” — lit. “eu assobiarei para eles” — quer dizer que Deus será o responsável por, na hora certa, trazer de volta para casa os israelitas dispersos pelo mundo. Não apenas alegria será a marca dessa nova era (v.7), mas também o crescimento do povo (v.8), mostrando que a aliança com Abraão encontrará livre curso para se cumprir plenamente quando o Senhor também cumprir as previsões de restauração espiritual e retorno dos israelitas (previsões da nova aliança), além do reinado perpétuo do Messias (previsão da aliança davídica). Ainda que o estado atual de Israel faça, na mente dos homens, ser improvável e até impossível tal retorno, seu arrependimento e volta a Deus, mesmo em terras longínquas, é o suficiente para o Senhor, em seu poder soberano, mover toda a história a fim de reuni-los e restaurá-los à sua condição original (v.9): “Embora eu os tenha lançado por entre as nações, eles têm se lembrado de mim mesmo em lugares distantes. Por isso, seus filhos viverão e retornarão”. Nenhum outro povo no mundo foi tão perseguido e, mesmo assim, durado e permanecido ao longo dos milênios. O fato de Israel ainda existir, mesmo que disperso, é prova incontestável do controle divino sobre a história humana e da sua fidelidade em cumprir as promessas que fez. Por isso, os filhos de Israel “viverão e retornarão”. O retorno será total e tão numeroso que não haverá espaço suficiente para assentar todos os repatriados dentro dos limites atuais do Estado de Israel (v.10): “Eu os farei retornar da terra do Egito e os reunirei da Assíria. Eu os farei vir para as terras de Gileade e do Líbano, pois não se achará lugar para eles [habitarem]”. Egito e Assíria representam aqui as nações em que os israelitas estão espalhados,[178] já que o reino do Norte foi trasladado para a Assíria e o remanescente do reino do Sul, aquele que não foi levado à Babilônia, encontrou asilo político nas terras do Egito. Dizer que “não se achará lugar para eles habitarem” é um modo de revelar que serão tantos os judeus dispersos pelo mundo que retornarão à terra da promessa que novos limites territoriais serão alçados para que possam morar, já que todo o território estará abarrotado de gente. Não por coincidência, isso acaba por cumprir outra faceta da promessa feita a Abraão: possuir a terra ao norte até o limite do rio Eufrates (Gn 15.18-21), terra essa que nem vemos atualmente ou na história passada como território israelita. Na verdade, esse grande número de repatriados sugerido por Zacarias nos faz entender a razão de Deusprometer a Abraão um território tão grande. Na efetivação da busca e retorno do povo espalhado pelo mundo, Deus é quem vai à frente deles e os guia (v.11a): “[O Senhor] cruzará o mar da aflição e golpeará as ondas no mar e todas as profundezas do Nilo secarão”. Há um desacordo entre os tradutores sobre quem é o agente das duas primeiras ações. Enquanto os verbos hebraicos estão no singular, apontando para o Senhor com agente, a Septuaginta — tradução grega do Antigo Testamento datada por volta de 200 a.C. — traz os verbos no plural, indicando que os israelitas poderiam ser os responsáveis pelas ações. Apesar de a Septuaginta ser mais de dez séculos anterior ao texto massorético (hebraico) que temos, não há mais evidências que indiquem que a versão grega esteja correta. Além disso, a possibilidade levantada pelo texto grego não combina com o restante do texto, o qual, na verdade, descortina ao leitor uma ação sobrenatural e soberana movendo os rumos das nações. Por isso, a ideia produzida pelo início do v.11 é a do Senhor agindo como um navio que traz de volta o povo espalhado pelo mundo. Assim, ele “cruza o mar” e “golpeia as ondas” como faz a proa de um navio que viaja decidido e com boa velocidade. O nome “mar da aflição” provavelmente faz menção ao sofrimento dos israelitas durante todo o tempo em que o mar — possivelmente o Mediterrâneo — os separou de sua pátria amada. Entretanto, o Senhor os traz de volta das regiões da Turquia e da Europa (terras além do Mediterrâneo) — na época não se tinha noção de regiões mais distantes como o continente americano —, como também do Norte da África, pelo que é dito que o Senhor também seca o Nilo para que atravessem por ele. Essa linguagem é, obviamente, contextualizada com a realidade da época para que se tornasse significativa para os ouvintes originais, ao passo que sabemos que nem todas as viagens atualmente são feitas de barco e que não é necessário secar o Nilo para que haja acesso livre de um lado para o outro do rio egípcio devido ao sistema de estradas e pontes. Entretanto, a intenção do profeta é apontar Deus como aquele que toma seu povo de entre as nações e os traz de volta poderosamente, contra todas as dificuldades e expectativas atuais. E quanto às nações inimigas? E quanto aos poderosos reinos? E quanto ao que conhecemos hoje das nações, da economia, da política, dos blocos militares e das comunidades mundiais e principalmente do armamento incontável mantido por nações que sabemos que reagirão a um despontamento de Israel como nação hegemônica? Sobre isso, diz Zacarias (v.11b): “O orgulho da Assíria será abatido e o cetro do Egito não mais existirá”. À primeira vista, a resposta do profeta parece não satisfazer às perguntas levantadas logo atrás, pois basta lembrar que a Assíria deixou de ser um império e até uma unidade política um século antes e que o Egito foi abatido e subjugado pela Babilônia e depois pelos medos-persas. Por isso mesmo, é possível perceber que o texto utiliza essas duas nações para representar os poderes mundiais. Apesar de a Assíria não mais existir e de o Egito não ter mais seu antigo poder e influência, todos os judeus sabiam o que ambos significaram em seu passado e como representavam as forças inimigas e opressoras sobre eles. Por isso, quando Deus cumprir o que diz nesse capítulo, as nações que ocuparem o lugar político-militar da Assíria e do Egito em sua época serão subjugadas e desmanteladas. Mas Judá e Israel, por sua vez, passarão pelo processo inverso em que, crendo e obedecendo novamente a Deus, viverão sob a guarda e as bênçãos divinas (v.12): “‘Eu os fortalecerei no Senhor e eles procederão de acordo com o seu nome’ — declara o Senhor”. Com isso, define-se de modo claro o cumprimento final da profecia em que Israel é restaurado do cativeiro, vive sujeito às ordens de Deus e é convertido ao Messias, o Senhor Jesus Cristo, o qual reinará sobre eles perpetuamente.[179] É maravilhoso ver que tudo, todo o poder, fortuna e arrogância dos homens se rendem ante os pés do governante divino. Porém, depois de falar sobre a sorte de Israel e das nações mundiais, o que dizer da igreja de Cristo e da sua participação nisso tudo? Quando falamos do reinado futuro do Messias, obrigatoriamente falamos sobre nossa participação nele: “Se perseverarmos, com ele também reinaremos” (2Tm 2.12a). Para que não se diga que se trata de um reino meramente espiritual, João confirma o reinado “terrestre” daqueles que, crendo, foram salvos no meio de todos os povos: “E com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação. Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra” (Ap 5.9b,10). Assim, nos planos futuros de Deus, se Israel é a ponta da lança do Senhor para lutar contra os ímpios do mundo e acabar com seus reinados de rebeldia, de algum modo a igreja de Cristo, glorificada na época, será envolvida na administração do governo mundial de Jesus Cristo. Isso, além de nos encher da esperança de exercer um papel tão importante e significativo no futuro, deve, já no presente, nos engajar em um serviço tal que nossa influência no meio das nações expanda o reino espiritual de Cristo e glorifique a Deus. Afinal, na obra do Senhor, não há lugar para ociosos e covardes. ZACARIAS 11.1-14 A Rejeição do Pastor e o Abate das Ovelhas O capítulo 11 de Zacarias contém um texto muito duro, cuja interpretação talvez seja uma das mais difíceis de todo o Antigo Testamento. Em lugar de oferecer uma figura esperançosa no final, como é de costume das profecias, o texto se rende a apontar uma dura disciplina de Deus ao Israel novamente rebelde diante da graça e do comando divino. Apesar de a alegoria tornar difícil a identificação da ocasião de cumprimento de tais palavras, a menção de “trinta moedas de prata” como preço pelo Senhor (vv.12,13) oferece uma baliza que ancora a profecia ao redor da traição e morte do Messias — evento que não é possível — e nem deve — ser associado a outro evento histórico. A profecia começa com frases dirigidas a seres e locais personalizados dentro de uma pequena alegoria (v.1,2): “Abre as tuas portas, ó Líbano, de modo que o fogo devore os teus cedros. Geme, ó cipreste, porque o cedro caiu e as grandes árvores foram devastadas. Gemei, ó carvalhos de Basã, porque a floresta cerrada veio abaixo”. Nesse trecho, o profeta faz uso de uma linguagem alegórica, já que elementos da flora e locais geográficos ganham ações e sentimentos e se lamentam pela perda que sofreram. É inútil tentar identificar cada elemento da figura. Qualquer modelo de interpretação para os cedros, o cipreste, as grandes árvores, os carvalhos e a floresta cerrada cai diante das incongruências causadas pelas menções do Líbano e de Basã ou de resultados que serão fatalmente artificiais e forçados.[180] E mesmo aqueles estudiosos que chegam a identificações mais bem elaboradas não conseguem, ao final, oferecer nada além de uma boa “possibilidade”. Desse modo, é melhor enxergar o quadro todo como um conjunto no qual uma imensa floresta, cheia das mais belas e fortes árvores, vem abaixo por uma destruição que não é possível conter, assim como um exército de lenhadores ou um forte incêndio na mata. O objetivo do texto parece ser o de prever uma grande destruição da parte de Deus, como forma de juízo, que começa no Norte e desce em direção a Israel. O resultado é grande dor por parte daqueles que foram atingidos pela ira divina (v.3): “Ouve-se o gemido dos pastores porque a sua glória está arruinada. Ouve-se o rugido dos leõezinhos, pois o orgulho do Jordão está destruído”. Joyce Baldwin aponta corretamente a relação entre o v.3 e o texto de Jeremias 25.34-38,[181] no qual o juízo de Deus abate os pastores por meio da destruição de seus pastos e rebanhos e no qual os leõezinhos choram, pois ficaram órfãos e sem casa. A expressão “orgulho do Jordão” pode se referir a alguma cidade significativa e influente, talvez no limite norte deIsrael com a Síria, ou mesmo à vegetação densa e rica da região. Entretanto, a falta de informações sobre o Jordão nas Escrituras torna difícil saber onde era considerado o início ou a nascente do rio naquela época. De qualquer modo, a menção parece apontar que esse juízo que nasce no Norte, chega a Israel, atingindo-o em cheio. Esse início sombrio tem uma intenção bastante clara: apontar as razões do julgamento em questão (vv.4-14). O início dessa seção contém uma fala de Deus ao profeta (v.4): “Assim diz o Senhor, meu Deus: ‘Apascenta o rebanho reservado para a matança’”. A ordem de apascentar é dada a uma pessoa apenas, já que o verbo imperativo se encontra no singular. Desse modo, a palavra divina parece ser dirigida ao próprio profeta, razão pela qual ele também se refere ao Senhor como “meu Deus”. Assim, a missão do profeta é se pronunciar diante do povo chamado literalmente de “rebanho da matança”, o povo de Judá que, apesar das duras lições, voltaria a se rebelar contra o Senhor e seria abatido na ocasião do cumprimento dessas palavras. Por isso mesmo, apesar de o verbo “apascentar” normalmente ter uma conotação positiva, nesse caso a intenção é preparar o rebanho para o abate que, ao que o texto indica, era inevitável. A própria exortação oriunda da profecia seria um meio de o profeta exercer tal função. Prosseguindo com a figura do rebanho, o Senhor anuncia a participação de três partes: provavelmente uma nação invasora, aliados do invasor e os líderes de Israel (v.5): “Aqueles que as comprarem farão a matança impunemente. Aqueles que as venderem dirão: ‘Bendito seja o Senhor, pois eu fiquei rico’. Seus pastores não terão pena delas”. O primeiro grupo — os “compradores” — dão sequência a atos que fogem um pouco da imagem de um negociante de ovelhas, já que, ao matá-las, eles se tornam repreensíveis, sem, contudo, receber o devido castigo. A intenção não é oferecer uma figuração perfeita, mas produzir a ideia de que o “rebanho da matança”, Israel, seria tratado com crueldade e injustiça por dominadores que obteriam êxito em seu propósito porque, por trás deles, a mão punitiva de Deus pesaria sobre o povo obstinado. É muito difícil identificar o segundo grupo — os “vendedores” —, o qual não precisa necessariamente fazer parte do povo judeu, mas sim colaborar com a empreitada dos dominadores. Esse auxílio fica evidente pelos benefícios que recebe em termos financeiros. Quanto ao terceiro grupo — os “pastores” do rebanho —, trata-se da liderança judaica que, longe de ser fiel a Deus e ativa na promoção do bem nacional, preocupa-se apenas consigo mesmo enquanto despreza o povo e nada faz para impedir seu perecimento. Seria fácil responsabilizar apenas esses três grupos pelo sofrimento de Israel se, no versículo seguinte, o próprio Senhor não se apontasse como causa última do abatimento da nação por causa dos pecados irredutíveis do povo (v.6): “Pois eu não mais me compadecerei dos moradores da terra — declara o Senhor —, mas eis que entregarei cada homem nas mãos do seu companheiro e nas mãos do seu rei. Eles arrasarão o país e eu não os livrarei das suas mãos”. A partícula “pois” atrela todos os eventos do versículo anterior ao fato de Deus entregar a nação nas mãos dos seus inimigos. “Moradores da terra” é uma menção aos habitantes da terra de Israel e não de toda a Terra — por isso, “terra” vem grafada aqui com letra minúscula. A grande dúvida vem de o povo ser entregue nas mãos do “seu rei”, como se houvesse aqui uma traição nacional do líder máximo. Isso não é possível, pois, além de essa imagem não condizer com a história desse período, a liderança de Israel é criticada nesse capítulo por sua negligência e não por uma atividade atroz. Por isso, é possível que Israel estivesse sob o domínio de um rei estrangeiro, assim como ocorreu nos dias dos reis selêucidas, dos quais Antíoco Epifânio foi o mais cruel e ativo contra o povo judeu (167-164 a.C.), além dos romanos que, com Pompeu, invadiram e subjugaram Israel (63 a.C.), e com Tito, praticamente acabaram com o país (70 A.D.). Dado esse golpe no povo de coração endurecido, o Senhor oferece a possibilidade de um novo tratamento regado por sua misericórdia (v.7): “Então, eu apascentarei o rebanho reservado para a matança, as mais humildes do rebanho. Tomarei para mim duas varas: a uma chamarei Deleite e à outra chamarei União, e apascentarei o rebanho”. No v.4, o pronome pessoal apontava o profeta Zacarias como quem devia pastorear o rebanho da matança, mas nesse caso, usando-se a primeira pessoa do singular, o próprio Deus surge como o pastor e autor das ações seguintes. [182] Quanto ao povo, ele ainda é descrito como “rebanho da matança”, mas um novo elemento entra em cena com a citação das “mais humildes do rebanho”. Essa expressão é repetida no v.11 junto da explicação de que elas permaneceram no Senhor, apontando provavelmente para o remanescente fiel dentro de Israel. Diante disso, o pastoreio divino faz entrar em cena algo descrito por duas qualidades: “Deleite”, uma possível menção ao novo trato proposto na vinda do Messias — já que a sequência associa esse texto ao seu ministério —, ou a um cenário positivo sob uma boa liderança; e “união”, o resultado da unidade nacional caso o povo aceitasse a direção divina. Entretanto, esse vislumbre de uma harmonia política, militar e religiosa perde espaço diante da negação do povo de se submeter a Deus (v.8): “Eu eliminarei três pastores em um mês, pois encurtarei minha paciência com eles, os quais também ficarão enfadados comigo”. Muitos comentaristas já fizeram suas propostas em relação à identidade dos “três pastores”, desde reis pré-exílicos até reis da linhagem dos asmoneus. Se formos mais longe, podemos até propor as três facções rivais durante o cerco romano a Jerusalém (69-70 a.C.), já que o último versículo abre margem para as consequências da rejeição do Messias, o que, associada à ideia de uma descrição não linear dos eventos nessa profecia, poderia nos levar aos eventos da destruição de Jerusalém no ano 70 por Tito. O desenrolar do juízo nos versículos seguintes favorece essa possibilidade. Outra possibilidade surge se entendermos “eliminarei” não como “morte”, mas como “deposição”. Nesse caso, a substituição de sumos sacerdotes pelo governo romano da Judeia, como ocorreu entre Anás e Caifás (Jo 18.13) — Anás foi deposto no ano 16 e Caifás foi empossado no ano 18, sendo que entre eles houve três breves sumo sacerdotes: Ismael, Eleazar e Simão[183] —, também poderia ser uma possibilidade. A verdade é que é impossível determinar quem são os pastores, suas reais funções no meio de Judá e se o período de um mês é de fato um período de trinta dias ou um curto espaço de tempo,[184] dada a mistura de linguagens utilizadas no capítulo. O que é possível notar com clareza no v.8 é o fato de Deus ter encerrado seu tempo de ser paciente, trazendo juízo ao povo. Outro fator claro, apesar de surpreendente, é o fato de o próprio povo se “enfadar” do Senhor. Apesar de a rebeldia e a incredulidade fazerem parte da história do relacionamento de Israel para com Deus, o modo como isso é dito aqui faz com que esse desprezo do povo seja algo aberto e declarado, algo que não é comum de se ver no Antigo Testamento. Isso só fica mais bem explicado quando, na sequência, o Senhor é avaliado em trinta moedas de prata (v.12), o que sabemos se cumprir em Jesus, o Messias. No caso dele, o Deus encarnado, o desprezo e oposição de Israel foram bem nítidos e declarados, tornando a descrição do v.8 compatível com a sequência do texto. Por causa do enfado mútuo entre o Senhor e a nação, o resultado é devastador (v.9): “Então eu direi: ‘Eu não vos apascentarei. Os que devem morrer morrerão, os que devem ser exterminados serão exterminados e os que restarem comerão cada um a carne dos seus companheiros’”. Assim, Deus anuncia a chegada definitiva de um juízo futuro. Não haveria mais chances e oportunidades. O último aviso foi dado e rejeitado de modo que não há mais o que esperar. O quadro é de um grandemorticínio e uma grande fome, provavelmente gerada por um cerco militar. Flávio Josefo, além de contabilizar a morte de cerca de 1 milhão e 100 mil judeus na guerra contra os romanos, relata a intensa fome em Jerusalém em função do cerco de Tito. Essa fome levou uma mãe a cozinhar e comer seu próprio filho, fato que, quando trazido a lume, fez com que cada habitante de Jerusalém se sentisse como se também tivesse comido a terrível iguaria.[185] Em vista da negação do povo de receber sobre si o “Pastor” messiânico (Jo 1.11) e da permanência no estado de rebeldia diante de Deus, o novo trato proposto é deixado de lado (v.10,11): “Tomarei minha vara, o Deleite, e a quebrarei a fim de invalidar a aliança que fiz com todo o povo. Ela será abolida naquele dia. Então, as mais humildes do rebanho, as quais permaneceram em mim, saberão que isso foi a palavra do Senhor”. Ao dizer que invalidaria a aliança com o povo, o texto hebraico diz “com todos os povos”. A dificuldade é que as alianças de Deus foram feitas com Israel e não com as nações. Por isso, há quem proponha uma correção ao texto a fim de, no singular, tratar-se de apenas a nação israelita. Porém, pode também ser que o fato de o Messias atuar por meio de Israel sobre toda a humanidade seja a razão de o mundo todo ter perdido com essa situação. Ainda assim, o penalizado primário é Israel, pelo que o Senhor o afastou de sua proteção e graça, pelo menos até a restauração futura (cf. Rm 11). Outro fator notável é que, quando essa virada ocorresse, ela não se daria devido a qualquer mudança de pensamento ou instabilidade por parte de Deus, pois tudo isso foi previamente anunciado e isso seria reconhecido pelo remanescente fiel quando acontecesse. Trata-se da soberania divina preparando e anunciando previamente sua administração da história. O Senhor, então, faz uso de uma linguagem de certo modo irônica, pois pede para ser avaliado pelo povo quanto ao merecimento de suas ações diante deles. Essa proposta, que deveria fazer os judeus caírem ao chão em adoração, negando-se a avaliar aquele que avalia tudo e todos, recebe uma resposta mais que surpreendente (v.12): “Eu lhes direi: ‘Se for bom aos vossos olhos, dai a minha retribuição; caso contrário, abstende-vos’. Então, eles pesarão minha retribuição: trinta moedas de prata”. De fato, a nação pesou o Deus Messias e o julgou barato, de pouco valor. Esse é o caso de uma profecia tipicamente messiânica, pois sua especificidade não permite que ela seja associada a mais nenhum evento que não seja o pagamento de trinta moedas de prata pela traição de Judas a fim de que Jesus fosse preso, julgado e morto (Mt 26.15). Isso marca não apenas a rebeldia de Israel, mas também a rejeição do Pastor, razão pela qual o rebanho sofreria, e a enorme ingratidão[186] pelo “deleite” do Senhor no seu povo e a “união” que ele produzira na nação que nada merecia de bom da parte do soberano. Desse modo, o Senhor rejeita o preço e os pagadores (v.13): “O Senhor disse a mim: ‘Atirai-as ao oleiro o majestoso preço em que fui avaliado por eles’. Tomarei as trinta moedas de prata e as lançarei ao oleiro, na casa do Senhor”. Além de a figura prenunciar as ações de Judas, o qual, cheio de remorso, atirou ao templo o dinheiro da traição, que posteriormente foi usado para comprar o campo do oleiro (Mt 27.3-10), demonstra também a imensa reprovação divina por meio da ironia de chamar aquele valor irrisório da avaliação do Senhor como um “majestoso preço”. Essa reprovação parece selar o destino do povo israelita por um bom tempo, pois Deus deixa de protegê-los até o ponto de a nação ser novamente partida no meio diante da invasão inimiga (v.14): “Então, quebrarei minha segunda vara, a União, a fim de frustrar a irmandade entre Judá e Israel”. Diferente de outros textos proféticos, esse não termina com um tom de esperança na restauração futura, mas com a denúncia da tolice da nação ao procurar para si pastores insensatos (vv.15-17). Assim como dito no comentário do v.8, a luta de três facções rivais dentro de Jerusalém sob o cerco romano, que produziu grande sofrimento às pessoas comuns que ficaram presas no cerco, foi um dos fatores que os conduziram à destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 e a uma nova dispersão dos israelitas pelo mundo.[187] A interpretação desse texto é dificílima e as possibilidades aventadas nesse comentário não são melhores ou mais prováveis que outras. Entretanto, a ideia geral da profecia e sua aplicação pastoral são bastante tangíveis. Em primeiro lugar, vê-se que Deus é gracioso além do que os homens possam imaginar, oferecendo sua mão amiga e restauradora quando se pensa que ele ofereceria apenas a vara do juízo. Em segundo, deve-se notar que, apesar da sua longanimidade e insistência em dar novas chances aos homens, há momentos em que ele resolve colocar tudo em pratos limpos e disciplinar a rebeldia. Assim como no v.9, ele diz: “Agora, o que precisa ser tratado será tratado e o que precisa ser punido será punido”. Nesse momento, só podemos lembrar as palavras do autor de Hebreus: “Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!” (Hb 10.31). Essa lição deve realmente levar os incrédulos a cair de joelhos diante de Cristo e, com fé, implorar seu perdão e salvação, além de dobrar os servos de Deus diante dele em obediência, reverência, temor e adoração. Afinal, não há como colocar um valor, nem mesmo em moedas de prata ou ouro, para todo o bem que o Senhor, por sua graça, oferece àqueles que o buscam. ZACARIAS 11.15-17 A Ação Tola dos Pastores Insensatos Os últimos três versículos de Zacarias 11 não são independentes do capítulo, mas consequência da rejeição divina em relação ao povo rebelde e sua decisão de não mais pastorear aquele rebanho obstinado (v.9). Entretanto, a representação do oposto a tudo que Deus é como pastor e a pontualidade da aplicação desse parágrafo favorecem um estudo desse trecho isoladamente, sem, contudo, desatrelá-lo do contexto e da mensagem geral do capítulo. Assim, no vácuo do pastoreio divino, o próprio Senhor prevê sua ação de levantar para o povo tolo um pastor insensato como eles, como se lhes aplicasse um pouco do próprio veneno. Mais uma vez, Deus se dirige ao profeta e lhe dá a ordem de transmitir cenicamente, assim como no v.13, a mensagem dirigida a Israel (v.15): “O Senhor disse a mim novamente: ‘Toma para ti os utensílios de um pastor insensato’”. A maioria das traduções, em lugar de associar o advérbio “novamente” à fala divina, o faz em relação ao ato de Zacarias “tomar para si os utensílios”. Apesar de isso não criar um problema fundamental, o fato é que Zacarias, ao representar um pastor insensato, não estava repetindo nenhuma representação anterior desse tipo — a única representação, além dessa exigida do profeta nesse capítulo, é jogar trinta moedas de prata no templo (v.13), figuração que diverge bastante dessa. Assim, a única coisa que se repete é Deus se dirigir a ele a fim de orientá-lo em sua função profética. Algo obscuro é o que é descrito como “os utensílios de um pastor insensato”. Os utensílios de um pastor incluíam ferramentas que lhe possibilitassem conduzir em segurança o rebanho. Cajado, vara, ervas medicinais e ataduras deviam ser itens padrão na bagagem de um pastor sábio e responsável. Como o pastor insensato é alguém que se preocupa consigo mesmo e não com o rebanho — segundo o versículo seguinte —, Zacarias deve ter tomado alguns itens que o identificavam como pastor, mas que eram incompatíveis com quem traria de volta o rebanho intacto, talvez levando consigo facas e instrumentos para tosquiar, dissecar e curtir a carne e o couro de ovelhas, dando a ideia de que consumiria o rebanho em lugar de lhe proteger e alimentar. A razão do teatro que deveria ser protagonizado pelo profeta era o prenúncio de que Deus mesmo, em disciplina à nação rebelde, lhes daria um pastor como aquele representado por Zacarias (v.16a): “Pois eis que eu levantarei um pastor na terra”. Uma interpretação corrente desse texto é que, após arejeição do Pastor messiânico, o anticristo cumpriria a função desse pastor insensato a quem Israel preferiria em lugar de Jesus.[188] Contudo, assim como no capítulo todo, as identificações são possibilidades inexatas. O Senhor bem pode estar se referindo aqui aos líderes, ou a algum deles em especial, que liderariam a nação até a morte de Jesus ou à destruição de Jerusalém no ano 70. Há também quem sugira se tratar dos romanos que dariam cabo de Jerusalém, mas essa associação não faria jus ao alerta do v.17, o qual parece se dirigir aos líderes dentre o próprio povo. [189] Se não é possível identificar esse pastor a quem o Senhor levantaria — um pastor insensato, segundo a sequência do texto —, o fato é que essa não seria a primeira vez que o Senhor dá ao povo de Israel o tipo de liderança que eles, em seu endurecimento, desejavam. O rei Saul foi levantado sobre o trono israelita em circunstâncias parecidas. O rei Davi, sucessor de Saul, foi descrito por Deus como “homem segundo o meu coração” (At 13.22), o que quer dizer que Davi era o rei escolhido pelo Senhor segundo as indicações divinas cerca de oito séculos antes de sua entronização, as quais apontavam a tribo de Judá como fonte da casa real de Israel (Gn 49.9,10). Mas, em lugar de Israel esperar que se levantasse o rei segundo o coração de Deus, forçou Samuel a entronizar um rei segundo o coração do povo, um rei que fosse como os reis das outras nações (1Sm 8.5). Já naquela ocasião, o Senhor alertou que tal rei se aproveitaria do povo sem lhes dar a devida contrapartida de um bom rei (1Sm 8.10-18), razão pela qual o anúncio de Zacarias aqui faz parecer que Deus se refere aos maus reis que eles teriam de bom grado ao passo que rejeitariam o Bom Pastor. A figura do pastor normalmente está associada ao bom pastoreio. Mas não nesse caso (v.16b): “Ele não cuidará das [ovelhas] extraviadas. Não procurará aquelas que fogem. Não tratará as feridas nem alimentará as saudáveis”. Ao contrário do que fazem os bons pastores que defendem com sua vida a segurança do rebanho — algo visualizado no pastoreio literal de Davi, enfrentando animais ferozes que queriam atacar suas ovelhas (1Sm 17.34-36) e em Jesus, o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10.11,15) —, o pastor insensato não se importaria com aqueles sob sua guarda. Na verdade, esse falso pastor faltaria totalmente com suas responsabilidades, buscando apenas o cuidado de si mesmo e seus próprios interesses. Como se isso não bastasse, passaria a explorar as ovelhas em lugar de protegê-las (v.16c): “Antes, comerá a carne das [ovelhas] gordas e despedaçará seus cascos”. A ideia é de consumi-las por completo, quebrando seus ossos para devorar sua carne, chegando até mesmo a lhes arrancar as unhas[190] a fim de aproveitar tudo que é possível. A insensatez desse pastor se mostra aqui em sua forma máxima, já que as ovelhas, diferentes de animais exclusivamente de corte, dão mais lucro vivas que mortas. A lã das ovelhas era basicamente a razão de sua criação. O pastor fazia a tosquia e continuava cuidando da ovelha para que desse outra porção de lã algum tempo depois. Esse pastor mostra sua insensatez aplacando sua fome com a fonte de seus lucros futuros.[191] Aplicando essa figura à vida política de Israel, isso significa que a exploração de trabalho, impostos e recursos dos judeus teria lugar em um tipo de ditadura opressiva, algo inaceitável a um bom líder, mas merecido por uma nação que rejeita o bem e escolhe o mal. A punição da nação por meio dos próprios pastores que escolheu, rejeitando a direção proposta pelo Senhor, fica clara no v.16. Na sequência, Deus se dirige aos pastores maus e lhes dá um temeroso alerta (v.17a): “Ai do pastor inútil que descuida do rebanho”. A ameaça é forte e é expressa na interjeição “ai”. Assim como em Habacuque 2.6-20, o Senhor se vale dessa linguagem para anunciar um severo juízo a ser lavrado e executado por ele mesmo. Embora Habacuque liste vários tipos de pecador que serão julgados, aqui a ameaça se dirige aos líderes insensatos, irresponsáveis, egoístas e opressores do povo, ou seja, àquele pastor que “descuida do rebanho”. Apesar de o parágrafo falar de um pastor ou pastores possivelmente específicos, o alerta serve de modo generalizado não apenas a eles, mas a outras pessoas que exerçam funções similares. David Clark e Howard Hatton fazem uma associação de textos bem interessante que ilustra o crime desses pastores e a razão pela qual eles seriam punidos com severidade, comparando esse texto com Ezequiel 34.5,6 em contraste com João 10.10-15.[192] Com isso, o crime acusado e previsto para punição é a “negligência”. A punição em si é assim descrita (v.17b): “A espada virá sobre seu braço e sobre seu olho direito. Seu braço ficará totalmente seco e seu olho direito ficará completamente cego”. Mesmo sendo essa uma figura, é possível perceber, por sua gravidade, o tamanho do furor de Deus contra o pastor inútil e o nível do temor que deve acompanhar a função do líder. O texto contém duas aplicações pastorais contemporâneas, uma direcionada às ovelhas e outra voltada aos pastores. Às ovelhas, fica a lição de que a busca por pastores relapsos que façam a vontade do rebanho e não do Senhor gera sofrimento para elas mesmas. Paulo alertou Timóteo de que isso aconteceria de modo crescente (2Tm 4.3). Por isso, as ovelhas que querem ser cuidadas e alimentadas como precisam devem urgentemente procurar pastores que usem os utensílios corretos e que pensem mais no rebanho que em si mesmos. Aos pastores, fica o alerta de que Deus leva muito a sério a função que eles realizam e que pedirá contas do que fizeram com o rebanho que lhe pertence (Hb 13.17). Nesse caso, Pedro previu uma lastimável desvirtuação do cargo na mão de falsos mestres que surgiriam no futuro (2Pe 2.1-3). Por isso, os pastores verdadeiros devem ser sábios, fiéis, temerosos e incansáveis até o dia em que pastores e ovelhas irão descansar eternamente no aprisco celestial. ZACARIAS 12.1-9 O Fortalecimento dos Judeus e a Recuperação de Jerusalém Os capítulos 12 a 14 de Zacarias olham para o final da era em que vivemos, mais especificamente para o período da Tribulação, também chamado de “o dia do Senhor”. Na verdade, a expressão “naquele dia” aparece dezesseis vezes nesse três capítulos,[193] seis vezes apenas nesse trecho (Zc 12.3,4,6,8,9 — a expressão aparece duas vezes no v.8). Assim, a exposição da mensagem de julgamento mundial que foi dada pela primeira vez por Obadias (Ob 15-21)[194] é agora redesenhada com contornos novos e mais nítidos aos judeus do período pós-exílico. E isso veio em boa hora, pois dois anos após o reinício das obras do templo e diante de uma situação política desfavorável, servindo outra nação, sem um rei soberano e sem uma capital fortificada, o povo de Jerusalém devia estar cansado e desanimado. A mensagem de esperança na glória futura que é dada nesses capítulos é suficiente para ajudá-los nos próximos anos de trabalho duro e nos próximos séculos, para aqueles que ainda põem em Deus sua esperança de ver a nação arrependida e restaurada, política e espiritualmente, e o Messias prometido assentado no trono de Davi, reinando em meio à grandiosidade e santidade inauditas.[195] Em vista da natureza da revelação futura em questão, tratando de uma restauração que podia parecer improvável e impossível aos olhos daquela geração e das seguintes, o Senhor apresenta sua identidade, seu poder e sua obra grandiosa como garantia de cumprimento e como sustentáculo da crença e da esperança que os judeus deviam ter (v.1): “Um oráculo dito pelo Senhor a respeito de Israel: ‘Declaração do Senhor, o qual estendeu os céus, estabeleceu a Terra e formou o espírito do homem no seu interior’”. Apesar de algumas versões optarem por dizer se tratar de um oráculo “contra Israel”, todo o contexto demonstra o oposto, ou seja, um oráculo a favor do povo judeu, de modo que a tradução “a respeito de Israel” é tanto preferível comoa opção eleita pela maioria das versões. A identidade do fiador de tais palavras é clara ao se declarar ser “um oráculo dito pelo Senhor”. O Deus de Israel era o próprio pronunciador do oráculo e aquele que se comprometeu com o cumprimento. Se o problema não era a origem da promessa, talvez fossem, na mente dos cansados e desencorajados israelitas, os inúmeros impedimentos políticos, econômicos e sociais que podiam servir de empecilho para uma fé esperançosa daqueles homens. Para tanto, Deus lhes lembra de seu poder criador dos “céus” e da “Terra”. A criação e o êxodo sempre foram os fatores marcantes no sentido de informar os israelitas do poder ilimitado e soberano de Deus. Não é sem razão que a criação é oferecida aqui como pilar da fé. Além do mais, expor esse acontecimento de modo tão cênico, como desenrolar os céus como se fosse um mero tapete e estabelecer a Terra como se fosse o preparativo básico para a edificação de uma casa, deixa claro que mesmo as maiores obras são atividades que Deus executa sem ter dificuldades ou contratempos. Por fim, ao dizer que “formou o espírito do homem em seu interior”, o Senhor não apenas confirma seu poder, como seu interesse pelo que ocorre na vida dos homens e na história humana, de modo que não ficaria alheio àquele povo, nem ao seu futuro, e muito menos às promessas que lhe fez. Feita a devida introdução, o Senhor anuncia seu oráculo (v.2): “Eis que estou para colocar Jerusalém como um cálice de embriaguês para todos os povos ao redor. Também Judá o será durante o cerco de Jerusalém”. O contexto em questão surge no final do versículo. Trata-se do anúncio de um cerco futuro à cidade de Jerusalém. Não é anunciado exatamente quem serão os invasores, mas, a julgar pela expressão “todos os povos ao redor”, parece se tratar de uma conflagração multinacional reunida com o fim de abater Israel. Assim, a história começa de forma dolorosa para Jerusalém, pois exércitos inimigos conseguem invadir e humilhar a cidade.[196] Porém, esse não é o final do evento, pois há também o anúncio de que, em resposta a essa invasão, “Jerusalém como um cálice de embriaguês” para seus invasores. A metáfora parece apontar para o efeito debilitante da bebida, de modo que esses exércitos inimigos serão abatidos como se estivessem embriagados e, assim, cairão diante dos judeus. Esse é o início do anúncio da restauração divina no trecho final de Zacarias. O mesmo é dito utilizando outra metáfora (v.3): “Naquele dia, farei de Jerusalém uma pedra pesadíssima para todos os povos. Todos aqueles que a carregarem acabarão seriamente feridos e se juntarão a eles todos os povos da Terra”. A figura de linguagem usada dessa vez não compara mais Jerusalém — que não é a cidade em si, mas seu povo — a uma bebida forte, mas a uma pesada rocha. Dessa vez, os inimigos caem sob o peso do povo a quem tentaram sobrecarregar com seu domínio. É a típica situação para a qual se encaixa muito bem o dito popular “o tiro saiu pela culatra”. A ideia exposta nos termos “acabarão seriamente feridos” significa que a guerra terá uma virada diametral e os invasores serão completamente abatidos — o que já havia ficado claro no versículo anterior. O que não havia sido exposto ainda é a extensão do abatimento a “todos os povos da Terra”. Nem toda vez que a palavra “terra” surge tem como significado o planeta. Muitas vezes, terra é uma referência às terras ao redor de Israel, ou seja, à região que conhecemos como Oriente Médio. Contudo, nesse caso, a referência parece apontar para uma abrangência mundial,[197] razão pela qual a palavra Terra foi traduzida com letra maiúscula. A razão para esse pensamento é que a região ao redor de Israel já foi citada no v.2 e na primeira metade do v.3. O final desse texto vai além do Oriente Médio e estende seus olhos para povos de toda parte. Com isso, o abatimento de ordem mundial torna possível identificar a ocasião com a batalha descrita no livro de Apocalipse em um lugar chamado “Armagedom”, cujo resultado final é igual ao que Zacarias anuncia nesse trecho. Apesar de Armagedom ser a forma grega para o que em hebraico significa Monte Megido — que está mais perto da Galileia que de Jerusalém —, sabemos que outros focos de resistência judaica serão Jerusalém e Petra, antiga Bozra, locais onde também haverá livramento da parte de Deus (Is 63.1-6; Zc 14.3-9). O desbaratamento dos exércitos inimigos não se deverá apenas à capacitação especial que o Senhor dará ao exército israelita e à sua própria participação pessoal, mas também a outra ação, dessa vez sobre os inimigos (v.4): “Naquele dia — declara o Senhor —, atingirei todo cavalo com insanidade e seu cavaleiro com loucura. Abrirei meus olhos sobre a casa de Judá e atingirei com cegueira os cavalos dos povos”. Assim como o profundo terror colocado no coração dos 120 mil midianitas atacados por trezentos soldados de Gideão, de modo a se matarem entre si em meio ao pânico (Jz 7.22), os invasores de Jerusalém serão tomados de confusão (Zc 14.13). A loucura e a cegueira dos cavalos e dos cavaleiros é um modo de retratar o caos em que os inimigos ficarão quando o Senhor iniciar seu poderoso livramento. A razão será o fato de Deus se importar com Israel, perspectiva descrita na ideia de abrir seus olhos sobre o povo. Nesse momento, o Senhor se presta a cumprir as promessas feitas aos antigos e a se compadecer do povo que viveu em trevas e distante de todo tipo de bênçãos que seus antepassados tiveram e desprezaram. Dada a sentença contra os inimigos de Israel, o profeta revela um dos meios que Deus usará para destruir os invasores (v.5): “Os chefes de Judá dirão em seus corações: ‘Os moradores de Jerusalém são fortes no Senhor dos exércitos, seu Deus’”. Curiosamente, Judá e Jerusalém não serão apenas os objetos da libertação divina, mas as próprias armas do Senhor para executar o livramento.[198] O profeta Miqueias já havia associado a vinda do rei eterno, o Messias (Mq 5.2), à capacitação e utilização dos judeus como instrumentos de guerra do Senhor sobre as nações vizinhas (Mq 5.5,6 — Miqueias utiliza a figura da Assíria como um arquétipo dos inimigos de Israel e do Senhor) e sobre países do mundo todo (Mq 5.7-9). Zacarias faz o mesmo ao dizer que os judeus de Jerusalém serão “fortes no Senhor dos exércitos”. Na verdade, todo o povo judeu, não apenas os moradores de Jerusalém, será instrumento da guerra de Deus contra os pecadores rebeldes (v.6a): “Naquele dia, porei os chefes de Judá como um fogareiro entre gravetos e como uma tocha entre a palha e eles consumirão, à direita e à esquerda, todos os povos ao redor”. Se o caos e a desordem tomarão conta dos exércitos invasores, a extrema organização e competência dadas por Deus serão o diferencial dos judeus, razão pela qual seus líderes são citados aqui como fonte de destruição das nações vizinhas do mesmo modo que o fogo consome lenha seca. Os resultados são a libertação definitiva e a habitação permanente do povo de Israel em seu território e em sua capital (v.6b): “Então, Jerusalém será habitada outra vez naquele lugar: em Jerusalém”. Se, na atual conjuntura, a impossibilidade de os israelitas dominarem Jerusalém os fez assentar a sede do seu governo em outra cidade — Tel Aviv —, o futuro virá com o governo reassentado na antiga capital sobre a qual foram feitas tantas promessas. Porém, há uma ordem cronológica na libertação (v.7): “Assim, o Senhor salvará primeiro as tendas de Judá para que não cresça a glória da casa de Davi e dos moradores de Jerusalém acima de Judá”. O profeta prevê primeiro o sucesso da guerra nas regiões periféricas — talvez uma menção a batalhas nas regiões do Armagedom e de Petra — para finalmente debelar os invasores de Jerusalém. A intenção parece ser a manutenção de uma unidade nacional verdadeira,[199] não apenas política, mas instalada no coração de todos, sem que haja quem se sinta melhor ou mais importante que outros, ou que uma região ou cidade queiram pleitear mais direitos que as demais. A superioridade numérica dos invasores pareceser um ponto claro na profecia, dado o poder divino infundido nos habitantes de Jerusalém para não sucumbirem à invasão (v.8): “Naquele dia, o Senhor protegerá os moradores de Jerusalém para que não haja tropeço entre eles. Naquele dia, o mais vacilante dentre eles será como Davi e a casa de Davi será como Deus, como o anjo do Senhor diante deles”. Se a vitória parecia certa aos inimigos, sua surpresa será notar que o exército defensor, formado de judeus de todas as classes — provável razão pela qual surge a expressão “o mais vacilante dentre eles” —, apresenta uma capacidade militar superior à do exército mais numeroso, assim como o pequeno Davi venceu o gigante filisteu.[200] A declaração de que a dinastia de Davi será como Deus é uma hipérbole para mostrar o apromimoramento notável que acompanhará essa batalha e, em consequência, a inauguração da era milenar.[201] É certo que os judeus terão uma participação militar primordial nessa ocasião, mas o parágrafo termina com a afirmação de que é o Senhor o causador da derrota dos invasores (v.9): “Naquele dia, eu me disporei a destruir todas as nações que vierem contra Jerusalém”. A soberania e a fidelidade de Deus às suas alianças são atributos que gritam no meio desse texto. Os combatentes e beneficiários da vitória dessa batalha será o povo israelita restaurado conforme as promessas, mas o responsável e o dono da vitória é o próprio Senhor. Além de constituir um grande encorajamento e fonte de esperança para os servos de Deus, esse texto provê um severo alerta aos inimigos do Senhor e do seu povo. A mensagem do alerta é que não há possibilidade de vitória para quem se levanta em rebeldia contra Deus, ainda que todas as circunstâncias pareçam apontar a derrota divina e do seu povo. Quando Deus abre seus olhos sobre seu povo para defendê-lo, cegueira e destruição caem sobre seus inimigos! Assim, é melhor mudar de lado enquanto é tempo. Crer em Cristo é o único fator que afasta a ira de Deus contra os pecadores e os torna seus filhos amados (Jo 3.36). ZACARIAS 12.10-14 A Conversão como Fonte de Restauração O anúncio do socorro futuro de Deus ao povo de Israel diante de uma guerra da qual não parece ser possível fugir ou sobreviver (vv.1-9) não é todo o assunto de que trata o capítulo 12. A sequência do texto revela que Deus não quer salvar apenas a política, a economia e a existência em si de Israel, mas também seu espírito. As promessas de restauração de Israel contidas no Antigo Testamento contemplam uma restauração de caráter temporal, mas também um conserto espiritual que passa pelo íntimo do coração e da mente dos israelitas. Essa é a razão pela qual a euforia produzida pelos versículos anteriores sofre uma mudança brusca nesse novo parágrafo, deixando de lado os gritos da batalha para dar espaço ao pranto que é produzido em decorrência do reconhecimento da obra amorosa do Senhor. Assim, o próprio Deus anuncia o que fará (v.10a): “Eu derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito da graça e de súplicas por perdão”. O verbo na primeira pessoa do singular limita o realizador da ação, ao passo que a obra descrita elimina o profeta como agente da ação, identificando o próprio Senhor como aquele que derrama — ou seja, aquele que concede — “o espírito da graça”. Apesar de poder dar a impressão de se tratar de uma entidade espiritual, tal como um anjo, a palavra “espírito” aqui serve a uma figura de linguagem que descreve a disposição de Deus em relação a Israel e, depois, a disposição dos israelitas em função da atuação divina. É claro que não se pode ignorar o Espírito Santo como materializador de tal ação, mas o texto aponta para atitudes em si e não para um ser. Desse modo, a primeira disposição descrita é a “graça”. Apesar de ser dito que tal espírito é derramado “sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém”, os tais são agentes passivos dessa ação, ou seja, seus beneficiários. O anúncio expõe, de fato, que o Senhor usará de graça para com os israelitas de um modo especial quando, ao mesmo tempo, os libertar dos inimigos e vencer seus adversários. A libertação militar certamente já é uma grande demonstração da graça divina, mas o autor tenciona agora falar sobre a ação graciosa que produzirá a segunda disposição, a qual é vista na forma de “súplicas por perdão”. A figura completa mostra, então, que, por ação graciosa de Deus, os israelitas não vencerão apenas seus inimigos externos, mas também seu orgulho interior e seu coração endurecido, vivenciando a ocasião do seu arrependimento final por causa da sua rebeldia passada.[202] O resultado será o reconhecimento do próprio pecado e da necessidade pessoal que têm da graça e da salvação do Senhor. É claro que, com o uso de um pouco de bom senso, o homem pode perceber suas limitações e carências. Mas a carência em questão é bastante específica, de modo que a consciência da necessidade de suplicar o perdão divino vem com a reflexão a respeito de uma pessoa (v.10b): “Eles olharão para aquele a quem eles traspassaram”. Ainda que o texto não identifique tal pessoa e os acontecimentos do Novo Testamento ainda estejam longe de acontecer, os judeus que ouviram essa mensagem pela primeira vez, pela boca de Zacarias, não ficaram completamente no escuro, sem saber de quem o texto fala. Apesar de ser possível que esse traspassamento seja um antropomorfismo com a intenção de apontar para a rejeição de Deus pelo povo,[203] dois séculos antes o profeta Isaías, anunciando o ministério futuro do servo sofredor — o Messias —, previu eventos em que ele “foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5). Se os judeus dos dias de Zacarias ainda não conseguiam visualizar os detalhes da obra redentora de Cristo, eles tinham plena capacidade de entender que Deus enviaria seu santo servo com a finalidade de sofrer em benefício do seu povo a fim de perdoar seus pecados. Apesar da clareza com que esse texto une a pregação dos dois profetas, o Novo Testamento faz questão de citar o texto de Zacarias como uma profecia cumprida na morte de Jesus Cristo (Jo 19.37). Muitas pessoas olham para a morte de Jesus com reações diferentes. Há aqueles que não acreditam nela — nem nele —, há os que considerem tal morte como ordinária e até merecida e há aqueles que olham para ela como um bom e poético exemplo de vida. Mas os israelitas do futuro, que serão alvo de tal graça do Senhor, reagirão com prantos (v.10c): “Chorarão por ele como quem chora a perda do filho único e ficarão de luto por ele como quem fica de luto por causa do primogênito”. Esse texto se esforça por ser dramático no sentido de expor o sentimento de tristeza de uma perda pessoal irreparável. Por isso, o autor apela para a comparação com a morte e com os procedimentos fúnebres de um “filho único”, “primogênito” de uma família — uma dor inominável. Ainda que a razão para tal tristeza não seja descrita expressamente, nem é preciso descrevê-la com todas as letras. A compreensão das razões que levaram o Messias à morte na cruz e os benefícios que tal obra adquiriu para os filhos de Deus trarão, um sentimento de alegria pela salvação, mas não antes de dar lugar à dolorida tristeza de saber que o Filho de Deus deu a vida por nós, pecadores, sofrendo a dura condenação da nossa culpa em nosso lugar. No caso de Israel, essa dor é ainda maior, já que essa nação é beneficiária de uma graça sem igual ao ter o salvador prometido em sua própria linhagem, além de um tratamento especial que começou milênios atrás, o qual foi respondido quase sempre com negação, orgulho, rebeldia e rejeição. O fato é que o Deus-homem “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). Desse modo, a tristeza pelo próprio pecado, típica do arrependimento, unida à renovada noção da indizível e descabida rejeição daquele que nos criou e deu a vida em amor por nós, fará com que, em vez de brados de vitória dabatalha futura, um grande pranto se levante entre os israelitas por se sentirem pessoalmente responsáveis pelo sofrimento do seu salvador (v.11): “Naquele dia, o choro em Jerusalém será grande como o choro de Hadade-Rimom, na planície do Megido”. A comparação produz mais dúvidas que respostas aos leitores, pois não se sabe se “Hadade-Rimom” é uma pessoa ou um lugar. Estudiosos do passado e do presente apresentam um número muito grande de possibilidades para se identificar “Hadade-Rimom”, mas todas esbarram em incongruências e na falta de comprovação. Entretanto, a menção a um lamento na região do “Megido” nos leva quase automaticamente à ocasião da morte do rei Josias, o último dos bons reis de Judá, em uma guerra contra os exércitos egípcios (cf. 2Rs 23.29). Além da tristeza pela perda desse bom rei, há quem afirme que os israelitas choravam sua morte também por causa da possibilidade de o exílio babilônico e todo o seu sofrimento terem sido evitados caso esse rei temente a Deus tivesse vivido mais a fim de levar adiante a reforma espiritual que iniciou muitos anos antes.[204] De qualquer modo, ainda que se tenha perdido o significado exato da comparação oferecida pelo texto, está claro que, motivados pelo sentimento de tristeza e de arrependimento, os israelitas suplicarão pelo perdão do seu Senhor por serem responsáveis pelo sofrimento e morte do Messias e pela obrigatória necessidade de tal perdão para se restabelecer o relacionamento que foi perdido em função da sua rebeldia. A consequência final de tal conversão é a renovação da aliança com o Senhor,[205] baseada não na lei quebrada, mas na graça de Deus. Nesse sentido, o profeta prevê um arrependimento, regado a muitos prantos, em larga escala (v.12a): “A terra ficará de luto, todos os clãs”. De início, há uma menção geral que engloba todo o povo de Israel, mais do que em procedimentos funerários, em um sentimento fúnebre que surge apenas diante de uma perda irreparável. Como nem sempre uma menção geral produz a ideia correta, especialmente se a intenção for relatar um comprometimento pessoal de cada integrante do povo, o escritor continua e oferece alguns tipos que representam bem certas classes da sociedade (v.12b,13): A casa de Davi e suas mulheres, a casa de Natã e suas mulheres, a casa de Levi e suas mulheres, a casa dos simeítas e suas mulheres”. Ao citar a “casa de Davi”, o autor parece ter o desejo de descrever a liderança política de Israel. Os profetas e os sacerdotes são incluídos nesse grupo diante da citação da “casa de Natã” e da “casa de Levi”. A menção à “casa dos simeítas”, descendentes de Levi (cf. Nm 3.21), é menos clara que as outras, mas cumpre sua função de mostrar que cada categoria diferente dentro de Israel a serviço de Deus se envolverá pessoalmente nesse lamento nacional pelo Messias que foi morto. Algo notável é a repetição da expressão “e suas mulheres” após cada grupo mencionado. Por um lado, isso mostra que ninguém se excluirá do choro, nem o fará de modo mecânico ou apenas representativo. Não haverá quem console o outro, pois todos pessoalmente estarão lamentando. Por outro lado, essa construção do parágrafo aponta para o caráter solene do lamento que ocorrerá entre os judeus.[206] Para que não fique a ideia de que apenas as classes dominantes e influentes participarão de tal pranto, o texto completa o quadro adicionando cada israelita vivo (v.14): “Ficarão de luto todas as demais famílias e suas mulheres”. Do mais simples israelita até os mais nobres da família real, todos se converterão arrependidos ao Senhor.[207] A lição que esse trecho contém é que até o Israel rebelde pode usufruir a glória da vitória e da libertação concedida por Deus quando se converte do seu mau caminho ao Senhor que eles antes rejeitaram.[208] O mesmo vale para as pessoas de hoje. Mensagens como essa sempre trazem consigo implicitamente um convite ao arrependimento e à esperança de que Deus recebe para si todo aquele que se arrepende do seu pecado e clama a ele por perdão, crendo no seu Filho, Jesus, como seu salvador. Aproveite o dia de hoje para buscá-lo! Caso contrário, você apenas acrescenta mais tristezas ao seu lamento. ZACARIAS 13.1-9 A Purificação do Povo de Deus O capítulo anterior termina com a descrição ímpar de um lamento nacional entre os israelitas, atingindo cada faixa etária, gênero e classe social. A razão desse pranto geral e genuíno foi a consciência da rejeição do Messias, resultando em uma conversão nacional do povo que, no passado, foi qualificado como tendo uma “dura cerviz” (Êx 33.3,5,9). Contudo, quando o arrependimento e a fé do pecador se encontram com a graça e o amor do Senhor, o resultado é maravilhoso e, nesse caso, é anunciado no capítulo 13 de Zacarias, a saber, uma grande restauração e purificação do remanescente fiel.[209] Assim, o escritor prevê que a fé de Israel terá como contraparte a ação purificadora de Deus (v.1): “Naquele dia, haverá uma fonte de água aberta para a casa de Davi e para os moradores de Jerusalém a fim de lavar pecados e impurezas”. A Bíblia fala sobre rios que correrão na terra seca quando Jesus reinar sobre seu povo (Is 35.6; 41.18). O próprio Zacarias fala de águas que correrão de Jerusalém para Leste e para Oeste depois do retorno do rei messiânico (Zc 14.8). Entretanto, o que ele parece ter em mente nesse texto vai além de uma simples corrente de água, pois seu efeito não é apenas refrescar os sedentos, ou suprir plantações e rebanhos, mas também lavar os pecados das pessoas. Assim, essa menção figurada parece ser extraída do uso de água na purificação dos levitas em sua consagração (Nm 8.7) e no preparo da água misturada com as cinzas de uma novilha vermelha usada na purificação e remoção das impurezas do povo da aliança (Nm 19.9).[210] Assim, ela se une a outras figuras que se referem ao perdão de pecados como um ato de lavagem com água (Sl 51.2,7; Is 1.16-18). De fato, nessa ocasião se cumprirá uma das profecias mais esperadas por Israel no sentido de ser restaurado diante do Senhor, na qual o próprio Deus promete: “Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36.25). O resultado prático da purificação que o Senhor promoverá no meio de Israel é que, além do perdão, haverá o abandono da rebeldia e de todos os seus veículos (v.2a): “Naquele dia — declara o Senhor —, eu eliminarei o nome dos ídolos da terra”. De um modo surpreendente, a história de Israel no Antigo Testamento é marcada pelo abandono do seu Deus e pelo apego a todo tipo de religiosidade pagã de seus vizinhos. Atualmente, o abandono do Senhor se dá por outras formas de idolatria que tomam seu lugar no coração das pessoas, mas o problema geral permanece. A promessa divina é, mediante a conversão do povo, promover um completo abandono de toda crença, doutrina, valor e apego que se interponha entre Deus e o seu povo. O resultado será a completa rejeição de qualquer veículo de rebeldia que antes desviava as pessoas do seu redentor (v.2b): “E não haverá mais lembrança deles, nem tampouco dos profetas e dos espíritos imundos”. Nesse ponto, são inseridos dois outros fatores que agem no sentido de impedir que as pessoas creiam no salvador e lhe entreguem suas vidas: os “profetas” e os “espíritos imundos”. Apesar de o texto mencionar apenas “profetas”, o contexto geral deixa claro que o escritor tem em mente a figura do falso profeta e dos “espíritos imundos” diabólicos que agem por meio deles. Com a ação divina, esses inimigos da verdade também silenciarão seus enganos e engodos. A verdade é que a existência de Israel também foi marcada pela ação dos falsos profetas, os quais foram influentes e obtiveram êxito em enganar o povo e desviá-los dos retos caminhos de Deus (Is 9.15,16; Jr 14.14-16; 23.13-16; 28.15-17; 29.21,32; Ez 13.16,22; Mq 3.5-7,11). Por isso, Zacarias assegura ao remanescente fiel que isso não tornará a ter lugarno meio do povo de Deus, não apenas por causa da justa liderança do Messias, mas também pela fidelidade do próprio povo remanescente (v.3): “Se alguém ainda profetizar, seu pai e sua mãe que o geraram, dirão a ele: Você não viverá, pois disse mentiras em nome do Senhor. Assim, seu pai e sua mãe que o geraram o traspassarão quando ele profetizar”. A fidelidade do povo purificado pelo perdão divino será tamanha que nem mesmo as ligações sanguíneas serão mais fortes que os laços da fé e do amor com o redentor. Desse modo, diferente de hoje, quando os pais ficam do lado de seus filhos, inclusive quando estão errados, os próprios progenitores de um aspirante a profeta do engano serão seus acusadores, pois ninguém em Israel aceitará conviver com o erro e com a mentira novamente, preferindo a verdade e a honra do seu rei. Isso não significa que os pais não terão amor por seus filhos ou que serão radicais ao ponto de desprezar a vida dos rebentos, mas sim que eles serão fiéis às ordens de Deus de tratar segundo a orientação divina aquele que diz “mentiras em nome do Senhor” (Dt 13.1-5). Outro impacto que a purificação do povo de Deus terá sobre as pessoas é que os próprios falsos profetas se envergonharão da sua atividade enganosa (v.4a): “Naquele dia, cada profeta se envergonhará da sua visão ao profetizar”. O texto hebraico não deixa claro o tempo da atividade que é motivo da vergonha desses homens.[211] Pode ser que ainda haja quem queira agir como um falso profeta — a Bíblia prevê um aumento de falsos profetas durante esse período (Mt 24.23,24) —, sem, contudo, encontrar espaço para fazê-lo livremente no meio do Israel convertido, ou mesmo para se vangloriar disso. Ou pode ser que o texto se refira à atividade passada de homens que foram falsos profetas e que agora, mediante o arrependimento, a fé e a purificação, envergonham-se do que fizeram no passado. Apesar de essa última possibilidade ser uma opção bastante atraente, os versículos 3 e 6 favorecem a primeira opção. Como consequência natural disso, tal atividade será suprimida (v.4b): “E não usará mais roupa de pele de animais a fim de enganar”. Todos os artifícios utilizados pelos promotores de mentiras sobre Deus e sua palavra — tanto no passado como no presente — serão abandonados e não farão mais vítimas entre os seguidores do Senhor. Em vez disso, tais homens assumirão seu lugar devido, sem desejar ser mais do que são, nem clamar para si prerrogativas que pertencem ao Messias e que só podem ser concedidas por Deus (v.5): “Mas cada um deles dirá: ‘Eu não sou profeta. Sou um trabalhador da terra, pois lido com a terra desde a minha juventude’”. A tradução desse texto é bem difícil e controversa, mas seu sentido geral é bem claro.[212] O desejo que tais homens têm de se apresentar e atuar como profetas que anunciam uma mensagem própria e independente, não atrelada à revelação divina de verdade, será suprimido por temor e por vergonha. A razão para tal temor é reafirmada no versículo seguinte, que diz (v.6): “E quando alguém lhe perguntar: ‘Que ferimentos são esses em suas mãos?’, então ele responderá: ‘Fui ferido na casa dos que me são queridos’”. Isso significa que nem as pessoas mais próximas dos enganadores os apoiarão, nem aceitarão sua atividade contrária ao ensino bíblico. O acréscimo à figura geral feito por esse texto está no fato de os ferimentos notados no corpo dos falsos profetas da época serem infligidos pelos “que me são queridos”, uma menção que pode apontar para seus próprios pais — conforme foi predito no v.3 —, mas que também pode englobar os amigos do profeta mentiroso, completando o quadro da total rejeição de falsas profecias entre o povo santo e restaurado. Dito isso, o texto apresenta uma mudança em sua estrutura e traz uma ordem divina a uma espada que é personificada em meio à poesia profética (v.7): “Ó espada, desperta contra o meu pastor, aquele que é meu companheiro — declara o Senhor dos exércitos. Fere o pastor e o rebanho se dispersará. Mas eu voltarei a minha mão para os pequenos”. O contexto imediato de Zacarias sugere que os pastores infiéis de Israel — seus líderes iníquos — seriam punidos pelo Senhor e que, como consequência disso, os seus rebanhos — o Israel desobediente — seriam espalhados (cf. Zc 11.6,8,9,16).[213] Contudo, o Novo Testamento utiliza este texto para falar sobre a dispersão dos discípulos depois da crucificação de Jesus: “Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas” (Mt 26.31). Duas indicações no texto favorecem a interpretação messiânica do versículo 7. A primeira é o fato de o pastor ferido, diferente do que se esperaria no caso de se tratar de um líder infiel, ser chamado de “meu pastor” e de “aquele que é meu companheiro”. Essas expressões apontam para uma profunda e intensa comunhão entre o Senhor e seu pastor. A segunda indicação é o caráter altamente messiânico e escatológico do capítulo como um todo. Não se está tratando aqui dos pecados do passado, mas da restauração e purificação do futuro, além da fidelidade do povo diante da sua redenção. Desse modo, parece que Zacarias, depois de falar dos efeitos da purificação, expõe, nos vv.7-9, o meio utilizado por Deus para promover a restauração do seu povo. Ela só é possível mediante o ferimento fatal do pastor divino, o Deus encarnado na pessoa de Jesus Cristo. Em resumo, o capítulo traça uma distinção entre o resultado das atuações dos falsos profetas e do supremo e verdadeiro Profeta do Senhor.[214] Algo que pode trazer alguma confusão à figura é o fato de a ordem de Deus para se ferir seu pastor ser dada a uma “espada”. Não foi com uma espada que Jesus foi morto e a lança que o perfurou apenas o feriu quando ele já estava morto. Entretanto, a espada é uma das metáforas para o juízo de Deus, além de ser um frequente instrumento utilizado por ele para punir uma nação (Êx 5.3,21; 22.22-24; Lv 26.25,33; 2Sm 12.9; Is 27.1), de modo que se entende que tal pastor seria o alvo do juízo divino em lugar daqueles a quem ele salva. Em decorrência da morte do seu pastor divino, Israel também sofreu o juízo previsto na lei mosaica e foi espalhado pela Terra (cf. Dt 28.64-68). Entretanto, essa disciplina não representa uma rejeição definitiva (Rm 11.1-4), especialmente porque Deus continua a separar para si e santificar um pequeno rebanho israelita (Rm 11.5), de modo que Zacarias também anuncia que o Senhor voltaria sua mão para os “pequenos”. O termo “pequenos” aqui utilizado não tem o sentido de tamanho, mas aponta para pessoas insignificantes e desprezadas, sem força para assumir as rédeas do seu destino sozinhas. São pessoas assim que o Senhor socorreria com sua mão graciosa e amorosa, preservando para si um pequeno remanescente até que viesse o tempo da restauração de todo o povo. Se a mão do Senhor preservaria uma parte do seu povo, o restante sofreria uma dura punição, o que tem ocorrido ao longo de toda a história e o que também acontecerá de modo dramático nos dias da Grande Tribulação (v.8): “E acontecerá em toda a terra — declara o Senhor — que dois terços serão aniquilados e morrerão. Mas um terço restará nela”. É difícil dizer se aqui o termo “terra” deve ser escrito com letra minúscula — referindo-se à terra da promessa, o território de Israel — ou com letra maiúscula — referindo-se a todo o planeta. Apesar de tais números encontrarem semelhanças no relato da tribulação mundial descrita no livro de Apocalipse, o contexto imediato parece favorecer a ideia de um território, a terra de Israel, em que o povo desprezado será alvo da graça renovada de Deus. Contudo, antes de ser agraciado pela libertação divina, Israel será reduzido a apenas um terço da sua população local nos dias daquela tribulação, seja pela perseguição do anticristo e seus exércitos, ou pelas ações de juízo vindas do próprio Deus. Tal destruição cairá sobre os israelitas endurecidos em seus pecados, assim como fatalmente recairá sobre a falsa igrejaDe que alertas mais nós precisamos para repensar nossos caminhos e escolher a direção correta diante da bifurcação da obediência e da rebeldia? AGEU 1.12-15 Como Reagir a uma Exortação A repreensão de Ageu ao povo de Jerusalém foi severa, não por causa de palavras duras, mas em decorrência da dura realidade que eles estavam enfrentando ao serem disciplinados por Deus com seca e carestia. Entretanto, não é sempre que a consequências de um erro são suficientes para desencorajar seu abandono. Nesse caso, felizmente, as consequências negativas, interpretadas pelas palavras do profeta, foram o bastante e uma mudança diametral se deu no meio de Judá. Essa seção se inicia com uma frase que pode surpreender os leitores do Antigo Testamento tão acostumados com as respostas negativas às palavras de Deus e dos seus profetas (v.12): “Então, Zorobabel, filho de Sealtiel, e o sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, e todo o restante do povo deram ouvidos à voz do Senhor, seu Deus, e às palavras do profeta Ageu conforme lhe ordenou o Senhor, seu Deus. Assim, o povo temeu diante do Senhor”. Apesar de simples, essa frase contém muitos significados importantes. O primeiro deles é que a palavra hebraica para “restante” (she’erît) é usada de pelos profetas como designação teológica dos sobreviventes de Israel que continuam a história depois de o Senhor os ter abatido por meio da Assíria e da Babilônia,[19] um povo de número bastante reduzido se comparado com o que havia antes do exílio e com a população trasladada para a Mesopotâmia. [20] Assim, o texto não aponta apenas a totalidade de uma população, mas para um grupo personalizado, com sua história marcada por sofrimento, mortes e exílio, que tinha agora uma nova chance de fazer o que era certo perante seu Deus. Por isso, pode-se perceber que essa reação unânime foi mais que o efeito a um comando eficaz. Tratou-se da decisão coletiva de pessoas arrependidas de seus erros e desejosas que viver as bênçãos vindas do Senhor amoroso que os dirigia. O segundo é a repetição da expressão “seu Deus” ou “o Deus deles” (’elohêhem) — duas vezes no v.12 e uma vez no v.14. Apesar de parecer uma referência óbvia para a Israel, os israelitas rebeldes do passado, desejosos de seguir seus próprios caminhos e não os do Senhor, negaram-se a se arrepender e o Senhor os nomeou Lo-Ami (Os 1.9) — “não é meu povo” —, e anunciou sua rejeição irrevogável que redundaria em juízo e exílio (Jr 15.1). A repetição aqui de “seu Deus” marca indubitavelmente o sentido oposto do tratamento passado do Senhor para com o povo. Feitas essas observações, é possível notar três atitudes positivas, dignas de servos verdadeiros, presentes na reação dos judeus à exortação de Ageu. A primeira é descrita na ação “deram ouvidos”. O sentido disso é mais que a ação de apenas escutar uma pessoa dizer algo, mas de desenvolver uma verdadeira obediência que, nesse caso, é marcada pela unanimidade: “todo o restante do povo”. O texto também não deixa dúvidas sobre quem eles obedeceram, dizendo claramente: “à voz do Senhor”. E isso não é tudo, pois eles também deram ouvidos “às palavras do profeta Ageu”. Em outras ocasiões, os profetas eram ouvidos e recebiam aprovação apenas de um pequeno grupo dentre a nação, enquanto eram rejeitados e perseguidos pelos demais. Entretanto, a sujeição obediente dos judeus ao Senhor foi tão marcante e sincera que vemos o profeta Ageu receber reconhecimento de todos como um enviado do Senhor.[21] A segunda reação à exortação encerra o v.12 e é descrita como temor: “o povo temeu diante do Senhor”. Apesar de parecer se tratar de uma consequência natural à atitude obediente — ou sua própria causadora, por medo de o juízo prosseguir —, ela traz uma ideia solene e reverente de adoração ao Deus supremo e soberano. Isso fica claro ao fazerem-no na presença de Deus ou “diante do Senhor”. O povo entendeu seu erro e seu afastamento de Deus e corrigiu completa e profundamente o que o desagradava. Cronologicamente, o v.12 é seguido dos vv.14,15, de modo que o v.13 é uma digressão ou uma prévia do que virá no capítulo seguinte. Apesar de não haver qualquer prejuízo em se aguardar alguns versículos para registrar seu segundo discurso, parece que Ageu não quis, contudo, deixar escapar a pronta resposta de Deus diante do arrependimento e da resposta positiva do povo à exortação (v.13): “Então, Ageu, o enviado do Senhor, transmitiu ao povo a mensagem do Senhor: ‘Eu estou convosco’, declara o Senhor”. Esse resumo da segunda mensagem do profeta (Ag 2.1-9) está contido em Ag 2.4 e foi pronunciado três semanas após o reinício das obras (vv.14,15 cf. 2.1) — não se pode descartar, contudo, a possibilidade de ser esse, apesar de curto, o segundo pronunciamento de Ageu, enquanto o de Ag 2.1-9 seria o terceiro, o que não é muito defendido. Independente da data do discurso, o fato é que o Senhor se agradou da obediência e do temor demonstrado pelo povo e voltou a se relacionar com eles sendo “seu Deus”, depois de sarcasticamente os chamar de “este povo” quando os repreendeu no início do livro (v.2).[22] O v.14 traz mais uma das reações dos judeus de Jerusalém à exortação de Ageu, mas não sem antes apresentar um vislumbre da soberania graciosa de Deus por trás dos atos corretos e honrados dos seus servos (v.14): “Assim, o Senhor impeliu o espírito de Zorobabel, filho de Sealtiel, governador de Judá, e o espírito do sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, e o espírito de todo o restante do povo, de modo que eles vieram e se dedicaram ao trabalho na casa do Senhor dos exércitos, seu Deus”. A atuação silenciosa do Senhor de impelir o espírito do povo todo,[23] desde os líderes até os menores da nação, surge como fator transformador do coração e do “espírito” daqueles homens. Entretanto, de um modo comovente, Deus não tira o valor das ações dos servos, ainda que ele mesmo as tenha impelido. Ao contrário, ele se mostra satisfeito e disposto a abençoá-los (v.13) por sua obediência e temor (v.12) e pela terceira reação diante da exortação, o trabalho, já que é dito que “eles vieram e se dedicaram ao trabalho”. A apatia e o comodismo dentro dos lares confortáveis foram abandonadas e as pessoas foram ao templo, pondo-se a trabalhar com empenho e convicção. A repetição da formula que engloba todo o povo e da expressão “seu Deus” põe em evidência o tamanho do movimento iniciado em Jerusalém e até o ânimo decidido e unânime dos participantes da obra da casa do Senhor dos exércitos. O último versículo do capítulo registra a data do reinício da construção do templo (v.15): “No vigésimo quarto dia do sexto mês do segundo ano do rei Dario”. Como o primeiro discurso de Ageu teve lugar 23 dias antes da retomada da obra, há quem considere esse prazo um tempo alongado que eventualmente refletiria a incerteza do povo em mudar de atitude e em se envolver no trabalho. Contudo, dado os enormes planejamentos, preparativos e organização logística para um empreendimento desse porte, principalmente quando era justamente a época da colheita,[24] tais dias devem ser encarados como um período breve que demonstra determinação, prontidão, compromisso e abnegação. Eles poderiam ter adiado a retomada da obra ou encontrado desculpas — algumas certamente muito boas — para continuar sem um templo. O fato de não o fazerem revela que a obediência, o temor e o trabalho não eram fruto de interesses pessoais, mas de uma grande contrição e transformação impelida pelo próprio Deus soberano e glorioso. A igreja de hoje precisa, sob a graça e a atuação do soberano Senhor, imitar as reações dos judeus dos dias de Ageu diante das exortações bíblicas. Em lugar disso, o que se testemunha são ações como desobediência e desvalorização das Escrituras, abertura para filosofias, doutrinas e práticas agradáveis aos perdidos e àqueles que se enamoram do sistema mundano, relutância diante do dever de exercer a disciplina eclesiástica, amor ao dinheiro, status e poder, perda da identidade de um povo santo e separado ao Senhor e rejeiçãoao redor do mundo,[215] sendo este o apropriado e predito juízo de Deus aos seguidores hipócritas do seu nome. Se dois terços dos judeus serão julgados nesse período, o remanescente será fortalecido e purificado (v.9a): “Farei o terço restante passar pelo fogo. Eu o purificarei como se purifica a prata e o aquilatarei como se aquilata o ouro”. É certo que a figura do fogo é frequentemente utilizada nas Escrituras para se referir ao juízo de Deus (Nm 11.1; Dt 32.22; Sl 78.21; Is 30.33). Mas nesse caso, o escritor lança mão dessa figura para se referir à purificação, tomando como base a conhecida atividade dos ourives de purificar e refinar metais preciosos por meio do fogo. Trata-se de uma comparação muito vívida da ação de Deus que, por meio de provações que recaem sobre seus servos em conjunto com seu socorro, torna-os mais puros. Na verdade, situações assim são propícias para que o homem reveja seus valores e suas atitudes, desprezando o que é passageiro e sem valor e se apegando ao que é eterno e valioso. É a esse tipo de ação que o salmista se refere ao dizer: “Pois tu, ó Deus, nos provaste; acrisolaste-nos como se acrisola a prata. Tu nos deixaste cair na armadilha; oprimiste as nossas costas; fizeste que os homens cavalgassem sobre a nossa cabeça; passamos pelo fogo e pela água; porém, afinal, nos trouxeste para um lugar espaçoso” (Sl 66.10-12). O resultado dessa purificação se verá em um relacionamento renovado entre Deus e seu povo remanescente (v.9b): “Ele chamará o meu nome e eu lhe responderei, dizendo: ‘Você é o meu povo’. Então, ele dirá: ‘O Senhor é o meu Deus’”. A ação de chamar pelo nome do Senhor na Bíblia vai além de uma simples supertição ou de uma busca por socorro apenas em momentos de aflição. Chamar ou invocar seu “nome” é uma evidência da fé e da conversão daquele que clama por ele. Isso quer dizer que, mediante a purificação de Israel, o Senhor voltará a dizer com propriedade que “você é meu povo”, enquanto os israelitas, agora convertidos e restaurados, responderão com toda sinceridade de coração que “o Senhor é o meu Deus”, [216] cumprindo, com isso, a predição de outros profetas, como Oseias: “Semearei Israel para mim na terra e compadecer-me-ei da Desfavorecida; e a Não-Meu-Povo direi: Tu és o meu povo! Ele dirá: Tu és o meu Deus!” (Os 2.23). A dinâmica exposta nos dois últimos versículos sugere que o livramento do remanescente da morte é seguido por seu arrependimento e conversão, e não o contrário. A pergunta que devemos nos fazer, como igreja do Senhor, é se é realmente preciso que nós também passemos por situações que nos provam a fim de sairmos delas arrependidos e purificados de pecados e de rebeldias. Toda a Escritura nos serve de exemplo do que acontece àqueles que resistem ao comando e ao amor de Deus, além de evidenciar o custo e as vantagens de andar em comunhão com ele. Assim, só é preciso decidirmos se queremos aprender tal obediência do modo fácil ou do modo difícil. ZACARIAS 14.1-15 A Poderosa Chegada do Grande Rei O último capítulo de Zacarias atinge o clímax da esperança de Israel no campo da restauração futura, mas não sem informar que muitas dores ainda virão antes disso. O capítulo anterior termina prevendo o extermínio de mais da metade dos israelitas em seu território durante os dias de perseguição da Grande Tribulação. O capítulo final dá seguimento a partir desse ponto, caminhando para uma grande, emocionante e impactante virada na situação por meio da presença e da ação do redentor no meio do seu povo. O profeta inicia o capítulo com um anúncio bastante doloroso para seus ouvintes (v.1): “Eis que vem o Dia do Senhor, no qual os teus pertences serão repartidos no meio de ti”. É notável a repetição insistente do “Dia do Senhor” e da expressão correspondente “naquele dia” ao longo do capítulo, sendo que ela aponta para o período no qual Deus trará juízos a Israel e às nações da Terra em um período de sete anos que antecederão a vinda do Messias para reinar. Sendo assim, é interessante observar a forma que Zacarias utiliza para expor tais eventos futuros. Ele relata aqui o resultado da ação que somente será descrita no versículo seguinte. Se esse método não é o mais claro possível, pelo menos é o mais delicado, pois expõe aos poucos os terríveis sofrimentos que Israel sofrerá naqueles dias, sendo que a primeira informação do profeta tem a ver com os espólios de guerra, ou seja, os “pertences” do povo. O texto informa que tais bens “serão repartidos no meio de ti”, o que quer dizer que a terra dos israelitas será dominada por estrangeiros e eles serão privados das suas propriedades, as quais serão divididas entre seus conquistadores. A pergunta natural que o leitor faz a essa altura é “quem são esses invasores”, ao que o versículo seguinte explica (v.2a): “Pois eu reunirei todas as nações para guerrear contra Jerusalém”. Nem sempre é fácil compreender, em contextos assim, a expressão “todas as nações”. Uma liga militar que venha sobre o relativamente pequeno território da Palestina dificilmente contaria com a presença de exércitos de todos os cerca de duzentos países do planeta. Assim, a expressão “todas as nações” pode ser uma referência a uma liga das nações mais influentes em termos militares, ou todas as nações vizinhas de Israel que são historicamente inimigas do povo judeu. A primeira possibilidade é mais viável, sendo que, mesmo que não haja soldados de cada país do mundo, esse exército representaria a oposição mundial dos homens ao povo de Deus e ao nome do Senhor. O curioso é que essa oposição é potencializada em um exército por ação direta de Deus, o qual explica que “eu reunirei todas as nações” com a intenção de “guerrear contra Jerusalém”. A cidade de “Jerusalém” serve aqui como representação de toda a nação, a qual tem tal cidade como seu centro religioso, apesar de não tê-la, em nossos dias, como seu centro político. Se a primeira parte do versículo é chocante, a segunda é estarrecedora (v.2b): “De modo que a cidade será tomada, as casas serão saqueadas e as mulheres serão violentadas”. Muitas vezes os exércitos inimigos se dirigiram a Jerusalém com a intenção de dominá-la, mas nem sempre obtiveram sucesso em seu intento, como na invasão de Senaqueribe, cujo desejo de destruir Jerusalém (2Rs 18) foi frustrado pela ação divina que ceifou em uma noite quase todo o seu exército (2Rs 19.35-37). Entretanto, Nabucodonosor, rei da Babilônia, não teve nenhuma dificuldade de tomar a cidade, destruir seus muros e queimar o templo (2Rs 25.1-7), assim como ocorreu no primeiro século da era cristã diante da invasão romana liderada por Tito (70 d.C.). A diferença entre a capacidade e a incapacidade dos exércitos inimigos de conquistar Jerusalém nunca dependeu do seu poderio militar, mas do desejo de Deus de proteger ou de punir seu povo (ex: 2Rs 24.20). Por isso, dizer que “a cidade será tomada” significa que o próprio Deus a entregou nas mãos dos inimigos. A menção ao saque das moradas dos judeus e ao estupro de suas mulheres também demonstra que a motivação dos invasores não será apenas estratégica, mas movida por ódio, crueldade e desprezo por Israel. Se a história acabasse aqui, Israel veria seu fim definitivo. Porém, esse pano de fundo é pintado com a intenção de ressaltar a virada promovida por Deus (v.3): “Mas o Senhor sairá para guerrear contra as nações, do mesmo modo que ele guerreou no dia da batalha”. Se esse parecia ser o fim do povo israelita, a surpresa será ver o próprio Senhor se levantar contra os exércitos inimigos formados pela conflagração das nações do mundo. E, ao fazê-lo, ele agirá como em outras ocasiões que demonstraram seu grande poder e sua maravilhosa intervenção em benefício do seu povo, do mesmo modo que “ele guerreou no dia da batalha”. O texto não se refere a uma batalha específica. Entretanto, dadas as características da ocasião, é provável que os primeiros eventos que vieram à mente dos ouvintes de Zacarias foram as grandes libertações divinas no êxodo,e rotulação de pastores e líderes bíblicos que exortam segundo o Senhor ordena. Talvez também precisemos da repreensão de Deus como dada a Judá seguida da ação de impelir o nosso espírito. Como tais atitudes cabem à exclusiva vontade, plano e domínio de Deus, a parte que cabe à igreja de Cristo é, com coração contrito e sincero, ouvir as palavras do Senhor e se dedicar a obedecer, temer e trabalhar para o “seu Deus”. AGEU 2.1-5 Perseverança em Tempos de Desânimo O segundo capítulo de Ageu nos coloca diante de um quadro bem diferente daquele que vimos no início do livro, no qual os moradores de Judá, movidos por um egoísmo materialista e inércia de uma década e meia, não viam problemas em permanecer sem o templo do Senhor e a glória que ele representava. Entretanto, depois de exortados, eles se voltaram a Deus e reiniciaram a obra. O capítulo 2 surge quase um mês depois de os judeus se porem ao trabalho (v.1): “No vigésimo primeiro dia do sétimo mês, veio a palavra do Senhor por meio do profeta Ageu, dizendo”. Esse dia, o vigésimo primeiro de Tishri, coincidia com o sétimo dia da Festa dos Tabernáculos (Nm 29.12,32-34) e com o aniversário de 440 anos do término da primeira construção do templo pelo rei Salomão[25] — ele começou a reinar em 971 a.C. e iniciou as obras do templo no quarto ano do seu reinado (1Rs 6.1), em 967 a.C., levando sete anos para concluí-lo, em 960 a.C., o undécimo ano de governo (1Rs 6.38). Assim, o dia descrito no v.1, que, no calendário moderno, é 17 de outubro de 520 a.C., deveria ser um dia muito alegre e festivo, mas não foi. Ao contrário, foi ocasião de lembranças difíceis de encarar, de carestia em tempos que deveriam ser marcados pela abundância e da sensação de incapacidade e desânimo que poderiam novamente jogá-los na inércia na qual estiveram imersos nos últimos quinze anos. Os prospectos negativos dos anciões de Jerusalém — com respeito ao resultado final da obra, em comparação com o templo antigo (v.3) — e a pouca comida que tinham a oferecer e com que se alegrar na festa que celebrava a colheita devem ter sido motivos de grande desânimo para o povo. O futuro parecia bastante difícil. As incertezas e temores se espalharam pelo coração do povo — este, aliás, teria pela frente uma jornada dura e longa. Talvez até já houvesse começado comentários como “nunca conseguiremos terminar essa obra com tão pouca gente”, “de que adianta construir um templo que não será nada comparado ao de Salomão?” ou “nós aqui nos esforçando e investindo nossos recursos enquanto nossos celeiros estão vazios”. Por essa razão, o Senhor mais uma vez se dirigiu ao povo por meio de Ageu (v.2): “Fala agora a Zorobabel, filho de Sealtiel, governador de Judá, e ao sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, e ao restante do povo, dizendo”. Esse texto demonstra que a mensagem foi endereçada ao povo de Judá como um todo. Entretanto, há partes da mensagem que atingem melhor certos grupos. O teor desse discurso visava ao encorajamento diante do desânimo gerado por condições adversas durante o trabalho, diferente do primeiro que trazia repreensão pelo erro, vergonha pelo fracasso e a necessidade de uma transformação total. Com a intenção de encorajar, o Senhor se dirige a dois grupos: os velhos demais para trabalhar, mas cujas palavras agiam tanto quanto os braços dos operários, e os mais jovens que tinham as condições e a responsabilidade de trabalhar diretamente na edificação do templo, mas que estavam passando por um momento de dificuldade e desânimo. Assim, o primeiro grupo é o de anciões, os quais eram velhos demais para trabalhar por já estarem vivos antes de o templo ser destruído pelo exército de Nabucodonosor 67 anos antes. Tais homens tinham pelo menos algo em torno de setenta anos de idade. O grande problema é que, apesar de a maioria desses homens não estar envolvida diretamente na construção, suas palavras desanimadoras e pessimistas estavam abalando todo o grupo de trabalhadores. A eles Deus diz (v.3): “Quem há dentre vós, o remanescente, que viu esta casa em sua primeira glória? Como ela lhes parece agora? Acaso não é como se fosse nada diante dos vossos olhos?”. “Primeira glória” pode também ser traduzida e interpretada como “antiga glória”. A palavra traduzida como “nada” tem o sentido triste de uma nulidade como se não houvesse na construção qualquer traço de glória. É claro que não havia glória em uma construção abandonada ao nível dos seus alicerces, mas não é essa a questão. Desde que as fundações foram lançadas, os antigos moradores de Jerusalém — o grupo a quem é dirigido o v.3 —, que viram o templo construído por Salomão, já se haviam lançado ao choro antevendo o resultado final da obra, mostrando que sua tristeza não se devia ao presente, mas ao futuro. O pessimismo não vinha do fato de o templo ainda não estar construído, mas de os anciões do povo acharem ser impossível fazer uma construção do mesmo tamanho, de não poderem contratar trabalhadores especializados de fora de Israel, nem tampouco forrar o interior do tempo com ouro (1Rs 6.21,22).[26] Por isso, apesar de o início de uma edificação trazer alegria e ânimo, os anciões de Judá acharam que seria impossível restabelecer a glória da primeira construção e, por isso, passaram a desprezar a segunda. Deve-se lembrar que, quando esse sentimento surgiu uma década e meia antes, a obra foi abandonada e isso poderia se repetir agora. Uma nova onda de reclamações, lamentos e críticas contra a construção seria um grande risco à sua continuidade. Assim, tendo chamado a atenção de tais homens desanimados e desanimadores do povo — o fato de dizer que eles tinham o novo templo como “nada” era em si uma reprimenda convincente —, o Senhor lhes muda o ânimo por meio de promessas (vv.6-9) para lhes dar esperança e impedir que atrapalhassem a obra. O segundo grupo que recebe a atenção e o encorajamento de Deus são os trabalhadores, desde os organizadores até os operários. A eles a ordem é bem clara: “Sê forte!” (v.4a): “Mas agora, sê forte, ó Zorobabel — declara o Senhor. E sê forte, ó sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque. E sê forte, ó todo povo da terra — declara o Senhor”. Essa mesma ordem se repete no Antigo Testamento em circunstâncias em que o tamanho da obra supera a força do servo. Exemplos disso são Josué, na missão de substituir Moisés e introduzir Israel na terra da promessa (Dt 31.23; Js 1.6,9), e Salomão, na função real de dirigir a nação e de construir o templo (1Cr 22.13; 28.20). Os judeus tinham um novo desafio tão difícil quanto o dos servos do passado, com a diferença de contarem com muito menos gente que Josué e Salomão. Certamente, Deus sabia que eles precisavam desse encorajamento para serem fortes e não lhes negou isso. Algo interessante de se notar nas ordens de ser forte ao longo do Antigo Testamento é que sua tônica nunca é “sê forte, pois tu és capaz”, mas “sê forte, pois o Senhor está contigo”. Aqui não é diferente (v.4b): “E trabalhai, pois eu estou convosco — declara o Senhor dos exércitos”. A presença de Deus com os judeus era a razão de se manterem fortes. Por isso, faz sentido a ordem de se empenharem no trabalho, o qual não é especificado literalmente, mas subentende-se ser especificamente o trabalho da reconstrução do templo. [27] Sem a ação soberana de Deus guiando, capacitando, provendo e protegendo, tais orientações teriam o mesmo peso de técnicas de autoajuda ou de discursos meramente retóricos. Longe disso, a certeza da presença e do auxílio de Deus vinha de duas fontes (v.5): “Esta é a aliança que fiz convosco quando saístes do Egito e o meu Espírito permanece entre vós. Não temais!’”. O v.5 contém um texto de difícil tradução, mas duas coisas ficam patentes: a aliança feita por Deus no passado e sua presença entre o povo no presente. Na aliança feita no Sinai e repetida na Transjordânia depois de quatro décadas, o Senhor se comprometeu a habitar no meio do povo e guiá-lo. Assim, a garantia da presença contínuado Senhor e de seu espírito com eles era o cumprimento do pacto feito com a nação no êxodo.[28] Como a palavra que o Senhor empenha não falha e sua presença declarada por Ageu comprovava isso, o povo podia se fortalecer, se dedicar ao trabalho e abandonar os temores. A igreja também conhece esse encorajamento produzido pela presença do nosso Senhor. Em situações aterrorizantes como uma tempestade se abatendo sobre um barquinho, a presença de Jesus conferiu coragem e determinação e, ao mesmo tempo, reduziu o medo, simplesmente dizendo: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!” (Mc 6.50).[29] Fora do barquinho galileu, Jesus Cristo diz à igreja: “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20b). É claro que para essa verdade nos tocar tão profundamente quanto é necessário, é preciso que os desanimadores do povo de Deus se calem. Não me refiro a gente de fora da igreja, mas de dentro. Murmuradores, pessimistas e críticos mal-humorados tiram a coragem do restante do corpo de Cristo e os ajuda e se tornarem letárgicos. Não obstante, Jesus, além de garantir sua presença para nos encorajar, também anunciou a presença do Espírito de Deus entre os seus: “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito. E vocês também testemunharão, pois estão comigo desde o princípio” (Jo 15.26,27). Quão importante e significativa é a presença do Senhor amoroso e soberano conosco! Por isso, também podemos hoje, em tempos de dificuldades e desânimo, atender à ordem: “Sê forte e trabalhai, pois eu estou convosco”. AGEU 2.6-9 A Glória do Senhor Deus A primeira parte do segundo capítulo de Ageu demonstra a disposição mental marcada pelo desânimo que se espalhava entre os judeus diante do enorme projeto de reconstrução da casa do Senhor e das óbvias barreiras e limitações que tinham diante de si. Naquele trecho, Deus revela tais problemas ao povo e o fortalece incentivando a trabalhar com fidelidade, sem se esquecer da aliança feita no passado. Os vv.6-9 são a continuação dessa mensagem, porém, olhando agora para o futuro iminente e o futuro escatológico. Se o Senhor reafirmou sua aliança na primeira parte do segundo discurso de Ageu, ele acrescenta algumas promessas na segunda parte condizentes com suas predições mais antigas, exemplificando o que conhecemos como “revelação progressiva” — significa que Deus foi acrescentando mais e mais informações a respeito dos seus planos à medida que enviou servos para pregar e registrar seus ensinos ao longo da história até completar o cânon. Desse modo, a predição de Deus aponta para uma ação de grande porte vinda da sua soberania sobre tudo que existe e acontece (v.6): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Dentro de pouco tempo, hei de agitar os céus, a terra, o mar e a superfície terrestre’”. Esse é o único texto de Ageu citado no Novo Testamento (Hb 12.26), mas o uso do autor de Hebreus não ajuda a interpretação da ideia do profeta tanto quanto gostaríamos, já que ele tem outro tempo e aplicação em mente. Assim, voltando nossos olhos para o contexto do período pós-exílico, quando se diz “dentro de pouco tempo”, isso condiz com o fato de o Senhor ter com efeito providenciado naqueles dias a autorização imperial e os recursos do Estado persa para o término da construção. Entretanto, não se pode desprezar a possibilidade de o texto querer dizer “em pouco tempo”, tendo relação com o modo como Deus agiria — rápido — e não exatamente quanto tempo depois tais eventos ocorreriam. [30] Na verdade, fica presente uma ideia muito forte de um evento iminente, ou seja, a ocorrer a qualquer momento no decorrer da história.[31] Isso é importante porque a descrição que vem a seguir, do que Deus faria, parece suceder os eventos daqueles dias e abranger o mundo todo em uma data futura e com implicações além da construção em si. De qualquer modo, fica claro que aquilo que os judeus não podiam obter para a reconstrução, Deus lhes daria. Quando o Senhor diz “hei de agitar”, o sentido literal disso é o de catástrofes naturais como furacões, terremotos e maremotos. Entretanto, ainda que a Bíblia fale sobre eventos como esses, os resultados descritos nos versículos seguintes apontam para um uso figurado da agitação que Deus produziria, em sentido político, militar e até espiritual. Dando sequência à figura de tremores em todas as esferas do planeta, o Senhor aplica agora a mesma ideia a um contexto de caráter econômico e multinacional (v.7): “Eu farei tremer todas as nações. As riquezas de todas as nações virão e eu encherei esta casa de glória — diz o Senhor dos exércitos”. O significado iminente desse texto se cumpriu quando os inimigos dos judeus tentaram deter a reconstrução denunciando-os por um falso e inexistente movimento de insubordinação (Ed 5.6-17). Ao contrário do que eles esperavam, o imperador Dario Hystapes, ao ser consultado sobre o assunto, encontrou o decreto de Ciro sobre a reconstrução do templo do Senhor e não apenas a autorizou, como também decretou que fossem concedidos aos judeus os materiais e fundos necessários, recursos esses retirados dos cofres imperiais (Ed 6.1-12). O texto de Jeremias 51.29 é um exemplo de que esse controle de Deus sobre os destinos, decisões e políticas das nações é descrito em termos figurados como um “estremecimento de terra”.[32] Entretanto, à luz das Escrituras, esse fato contemporâneo de Ageu parece não esgotar o significado desses versículos. O quadro pintado é mais amplo. Em primeiro lugar, o alvo da ação divina é “todas as nações” e não apenas o Império Medo Persa. Em segundo, a descrição de um abalo de céus, terra e mar, provavelmente mais em sentido figurado que literal, introduz a ideia de uma intervenção bem mais impactante que a simples aprovação e subsídio da obra do templo. Sendo assim e levando em conta o fato de o Senhor garantir a confirmação da sua glória no e perante o mundo, essa declaração constitui uma parte importante da esperança messiânica, algo que é um tema fundamental dos livros de Ageu e Zacarias. Vale lembrar que as promessas sobre a vinda e o domínio do Messias, “estremecendo” o poder das nações (Is 60.12), também envolvem eventos de abalos literais sobre todas as partes do planeta, dando vivacidade e amplitude muito grandes em relação ao significado e implicações dos dizeres de Ageu nesse discurso. O resultado da ação de Deus descrita no início do v.7 é que “as riquezas de todas as nações virão”. Primariamente, vemos Deus cumprir esse dito levantando recursos do Estado para fazer o que aqueles reconstrutores estavam perdendo a esperança de conseguir. De modo maior, aguardamos o dia em que as nações virão à Jerusalém aprender do Senhor e lhe prestar culto (Mq 4.1-3), inclusive com ofertas de grande valor (Is 60.9). Em uma posição intermediária na história, está a reforma promovida pelo rei Herodes, o grande, que tornou o templo um lugar de beleza e riquezas que impressionavam os visitantes (Mc 13.1; Lc 21.5) e também impressionaria muito os trabalhadores desanimados e desesperançados dos dias de Ageu. Em consequência disso tudo, a segunda parte do resultado é a emblemática declaração “e eu encherei esta casa de glória”. Uma vertente dessa afirmação certamente tem a ver com a qualidade e majestade da construção, pelo que Deus garante o suprimento financeiro por ser ele mesmo o dono das riquezas (v.8): “Minha é a prata e meu é o ouro — declara o Senhor dos exércitos”. Que ninguém se engane com essa simples afirmação de posse, pois ela é também a garantia de que tais recursos seriam empregados na construção do templo. Por outro lado, a glória prometida assume um caráter superior ao dos elementos da construção, correspondendo às esperanças nacionais e religiosas que Israel nutria desde muito tempo antes (v.9): “Grande será a glória desta segunda casa, mais que a primeira — diz o Senhor dos exércitos —, e neste lugar eu porei a paz — declara o Senhor dos exércitos”. Quando a glória do templo é associadaà ideia de paz, percebe-se que o assunto transcende o campo da engenharia e da arquitetura. Inevitavelmente, o sentido da glória recai sobre a experiência israelita de ver o tabernáculo recém-construído no Sinai ser cheio pela presença gloriosa de Deus (Êx 40.34-38). Como o assunto é o templo e há uma referência ao primeiro deles, também nos lembramos da mesma experiência na consagração do edifício construído por Salomão (1Rs 8.10,11). Esse conceito da glória do Senhor, identificado com o termo “shekinâ” — derivado do verbo hebraico “shakan”, que significa “instalar-se” ou “habitar” —, aponta para o resplendor e a presença permanente de Deus habitando entre seu povo.[33] Assim, há uma reafirmação de que a habitação de Deus entre seu povo se tornaria marcante e mais intensa que antes, condizendo com a aguardada promessa da vinda do Messias (Is 40.3-5; 60.1-3), o maior adorno possível e imaginável para a casa do Senhor (Mt 12.6).[34] Com sua vinda a Jerusalém para reinar sobre Israel e submeter as nações, certamente a glória de Deus se fará bem mais presente e visível que por meio da nuvem que encheu o tabernáculo/templo. Quando isso acontecer, eventos políticos, jurídicos e religiosos serão sentidos e farão jus à declaração “e nesse lugar eu porei a paz”. Essa afirmação tem um caráter duplo: o de dar paz a Jerusalém e seus habitantes (Is 60.18) e de conceder paz às nações a partir de Jerusalém (Is 2.2-4). Ambos os eventos estão ligados à ação escatológica da presença de Deus por meio do Messias, o Senhor Jesus Cristo, o “príncipe da paz” (Is 9.6)[35] na cidade de Jerusalém, cujo significado é “herança de paz” ou “habitação da paz”.[36] Por isso, os judeus podiam trabalhar com coragem no templo, pois ele em nada perderia para o anterior. Ele seria forrado de prata e ouro como o primeiro e receberia a presença gloriosa de Jesus, tanto em seu ministério de “servo sofredor” como de “rei glorioso”. Essa presença de Jesus no templo se dá em duas construções diferentes, já que o templo em que ele esteve em seu ministério terreno foi destruído pelos romanos no ano 70, ao passo que sua segunda entrada nele se dará em um templo a ser ainda edificado (Ez 40— 48). Não obstante, nota-se, pelo uso da expressão “esta segunda casa”, a ideia de continuidade do templo pós-exílico, ainda que seja construído duas vezes, mostrando que a ideia da presença e da glória de Deus supera os elementos da construção em si.[37] A importância desse texto transcende seu uso como motivador da reconstrução dos dias de Ageu. Ultrapassa, também, a esfera nacional judaica, estendendo-se a todos os servos de Deus de todos os lugares e tempos, incluindo a igreja de Cristo da atualidade. As razões são várias. A primeira é que o texto nos descortina o grande poder de Deus para comandar as nações e sua soberania sobre os rumos da história, o que deve nos encher de toda confiança no seu controle. Isso, obviamente, muda o nosso modo de ver a igreja em seus objetivos, parâmetros e negócios, já que não depende de nós, mas de Deus, o suprimento e as direções que ela tem diante de si. A segunda razão é que nos garante a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo como rei, salvador, juiz e libertador, cuja ação se dará sobre Israel e sobre todas as nações do mundo, produzindo paz e justiça, o que deve nos encher da esperança de ver cumpridas todas essas promessas. Isso, graças ao bom Deus, nos fortalece e ajuda a continuar servindo o Senhor com fidelidade quando as lutas e dificuldades se abatem sobre o povo de Deus e sobre a igreja de Cristo. Sabendo onde essa jornada irá terminar, nós podemos continuar firmes na esperança de ver o dia em que luta alguma permanecerá diante dos salvos pela fé em Cristo. Quanto ao tempo presente, nossa confiança e esperança também estão nas palavras do fundador, protetor e libertador do seu povo: “... edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la” (Mt 16.18b). AGEU 2.10-19 A Grande Virada O terceiro discurso de Ageu aconteceu no dia 18 de dezembro de 520 a.C. (v.10): “No vigésimo quarto dia do nono mês do segundo ano de Dario, veio a palavra do Senhor por meio do profeta Ageu, dizendo”. Essa introdução posiciona tal sermão quase quatro meses após o primeiro discurso de Ageu, três meses após o início da reconstrução e dois meses depois do discurso de encorajamento com a promessa da glória do segundo templo. Esse discurso também foi proferido cerca de um mês e meio depois do início do ministério do profeta Zacarias (Zc 1.1). Olhando para essas datas e para os pronunciamentos proféticos ocorridos, pode-se perceber que toda a direção necessária no que tange à retomada da edificação do templo já havia sido concedida pelo Senhor por meio dos seus servos. Entretanto, Deus não queria transformação apenas no que se referia à existência do templo em Jerusalém. Seu objetivo era bem maior, pelo que esse sermão visava a promover duas grandes viradas na condição de vida dos judeus daqueles dias. Uma delas relativa ao relacionamento com Deus, e outra, ao sustento que buscavam da terra. Uma dessas viradas devia ser promovida por eles mesmos, em obediência a Deus, e a outra, pelo Senhor, mudando o modo de tratar seu povo. O discurso inicia com perguntas que têm a clara intenção de usar as próprias palavras dos ouvintes como repreensão e ensino. Apesar de a audiência ser geral, as perguntas são dirigidas aos sacerdotes mostrando que o campo de atuação deles — o culto a Deus e os estatutos da aliança — seria o tema abordado (v.11): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Pergunta aos sacerdotes o que diz a lei’”. A partir daqui, duas perguntas hipotéticas são lançadas e suas respostas, coletadas para uso na argumentação adiante (v.14). A primeira questão trata da santidade da oferta de carne segundo as prescrições da lei (v.12): “‘Se alguém levar carne santificada na borda da sua roupa e tal borda tocar no pão, no alimento cozido, no vinho, no azeite, ou em qualquer alimento, ele estará santificado?’. Os sacerdotes responderam: ‘Não!’”. Há aqui um tipo de pegadinha, pois a lei informava que o que era santo também santificava tudo aquilo em que tocasse (Êx 29.37; Ez 44.19).[38] No caso específico da carne oferecida a Deus, a lei dizia: “Tudo o que tocar na carne se tornará santo” (Lv 6.27a). Porém, o quadro é mais complexo, pois, na questão hipotética de Ageu, a carne santificaria a borda da roupa, na qual ela tocaria diretamente, e não os outros alimentos citados, nos quais o toque não era direto. A questão é: a carne santa santifica o que ela tocar; mas, sem um toque direto, a santificação não é indiretamente retransmitida a outros. Por isso, quando Ageu pergunta “ele estará santificado?”, o objeto do pronome “ele” é a expressão “qualquer alimento”. A intenção parece ser aclarar o fato de que a presença de Deus entre eles, santificando-os e abençoando-os, necessitava da existência do templo, sem o qual, os benefícios da aliança lhes estavam vetados. Não bastava estar na cidade santa, ou ser o povo escolhido. Eles tinham de estar ligados diretamente ao Senhor em obediência e temor, o que seria externado pelo seu interesse e execução da reconstrução da casa de Deus. A segunda questão envolve a impureza ritual, abarcando o outro extremo em relação ao versículo anterior (v.13): “Então, disse Ageu: ‘Se alguém, que ficou impuro por encostar em um cadáver, tocar alguma dessas coisas, tornar-se-á ela impura?’. Os sacerdotes responderam: ‘Tornar- se-á impura!’”. Se a transmissão da santidade exigia condições especiais, a transmissão da impureza ocorria com extrema facilidade de um para outro. Várias coisas podiam tornar alguém ritualmente impuro em Israel, impossibilitando-o de prestar culto a Deus no local devido e até de permanecer no arraial israelita. Dentre elas estava a ação de tocar em um cadáver (Nm 19.11). A hipótese de Ageu visava a uma realidade presente que parece ser o fato de que o templo em ruínas parecia jazer como um cadáver no meio da cidade, tornando-os impuros diante de Deus.[39] Porisso, o profeta completa a ideia aplicando as conclusões aos judeus (v.14): “Então, Ageu respondeu: ‘Assim é este povo e assim é esta nação diante de mim’ — declara o Senhor. ‘E assim são todas as obras das suas mãos e as coisas que eles ali apresentam: são impuras’”. Novamente Deus se refere ao povo de Judá como “este povo”, demonstrando seu tom de desaprovação com respeito ao modo como se comportaram até que os buscou por meio de Ageu em Zacarias. A frase, como um todo, revela a dupla realidade da condição dos judeus que, por um lado, eram o povo escolhido e santificado pelo Senhor, e, por outro, a nação que havia se tornado impura pelo pecado, infidelidade e descaso para com Deus. “Assim é este povo” traça um paralelo entre as duas perguntas e a condição dos judeus: eles não estavam santificados por causa da ausência do templo e encontravam-se impuros pela convivência aceitável como um cadáver simbólico na figura do templo em ruínas. Apesar de terem voltado à terra santa e à santa cidade, o fato é que eles se encontravam impuros por causa da desobediência, o que se revertia também sobre “as obras das suas mãos” em termos de colheitas insuficientes e de pobreza.[40] Assim como nos casos previstos pela lei, a condição dos judeus da Jerusalém pós-exílica tinha consequências (v.15): “Mas agora, deste dia em diante, ponhais a vossa consciência sobre [o tempo] antes de colocardes pedra sobre pedra no templo do Senhor”. Deus ordena ao povo que olhe para trás e avalie o período antes do reinício da construção do templo. A partir desse versículo, o tempo é algo muito importante e definido no texto por causa das grandes mudanças que ocorreriam. Isso porque a pobreza e a fartura tinham relação direta com o modo de agir dos israelitas em relação a Deus e com o modo de o Senhor dispor da disciplina e da graça em relação ao povo. Sem delongas, Deus lhes explica (v.16): “Antes daquele tempo, quando alguém vinha para colher vinte feixes, só havia dez. Quando alguém vinha ao lagar para produzir cinquenta medidas de vinho, só obtinha vinte”. O Senhor lhes chama a atenção para o fato de que, por muito tempo, eles vinham produzindo menos do que esperavam e do que necessitavam para uma subsistência tranquila e aprazível. Ao associar essa condição com o tempo “antes de colocardes pedra sobre pedra”, ele cria uma relação de causa e efeito em que a carestia se devia à negligência quanto à restauração do templo. Isso se deu foi pelo envio de agentes naturais que frustraram os trabalhos na lavoura (v.17): “Eu vos feri com pragas, com ferrugem e com granizo em todas as obras das vossas mãos e nenhum de vós voltou a mim — declara o Senhor”. O v.17 é uma citação adaptada dos dizeres do profeta Amós três séculos antes: “‘Muitas vezes castiguei os seus jardins e as suas vinhas, castiguei-os com pragas e ferrugem. Gafanhotos devoraram as suas figueiras e as suas oliveiras, e ainda assim vocês não se voltaram para mim’, declara o Senhor” (Am 4.9). A citação não visa apenas a mostrar a repetição dos infortúnios, mas também a intervenção de Deus.[41] A disciplina divina estava se repetindo porque, em ambos os casos, o povo agiu igual, sem qualquer arrependimento — “nenhum de vós voltou a mim” —, revelando a obstinação nos pecados de desobediência e negligência. Não é sem razão que eles atravessavam dias tão difíceis e amargos. Algo que não é declarado abertamente, mas que é claro como o dia, é a condicionalidade. Fica evidente, diante da referida relação de causa e efeito que, caso o povo se arrependesse, voltando-se a Deus em obediência, temor e honra, sua nova condição espiritual produziria também uma nova condição social segundo os parâmetros da lei (Lv 26; Dt 28). Por isso, depois de descortinar a situação passada, Deus os traz a uma análise do presente (v.18): “Deste dia em diante, o vigésimo quarto dia do nono mês, ponhais a vossa consciência sobre [o tempo] desde o dia em que lançastes os fundamentos do templo do Senhor. Ponhais a vossa consciência”. É preciso, em primeiro lugar, determinar o momento que o profeta tem em mente ao se referir ao “dia em que lançastes os fundamentos”. O início do trabalho nos alicerces aconteceu alguns meses após o primeiro retorno de judeus da Babilônia, doze anos antes do ministério de Ageu (Ed 3.10).[42] Entretanto, a menção do v.18 tem relação com o reinício do trabalho a partir dos fundamentos, já que a antiga obra não havia deslanchado. Basta notar que todo o contexto trata de realidades mais imediatas. Assim, o período que está em relevo envolve os últimos três meses, desde que voltaram à reconstrução. A análise é clara e simples (v.19a): “Ainda há grãos no celeiro? Nem a videira, ou a figueira, ou a romãzeira, ou a oliveira deram ainda frutos”. A pergunta é meramente retórica, pois eles não tinham mais nada em seus celeiros por terem tomado os últimos grãos a fim de os plantar, aproveitando o período de chuvas, na esperança de obterem logo o tão necessário alimento. Por outro lado, suas outras produções ainda aguardavam para dar a safra anual. Em resumo, eles tinham investido tudo que possuíam e ainda não tinham obtido o retorno. Ao dizer isso, talvez alguns judeus pensassem: “Que bom que o Senhor tocou nesse ponto, pois já voltamos ao trabalho e até agora nada aconteceu. Cadê a ‘causa e efeito’?”. Diante disso, o Senhor oferece a eles a “grande virada” (v.19b): “Mas a partir deste dia eu vos abençoarei”. A consequência é que os judeus, vítimas da infertilidade, seca, pragas e carestia até então, teriam uma colheita inesquecível nesse ano, a qual reverteria diametralmente as dificuldades que eles vinham enfrentando. A “grande virada” em termos de relacionamento com Deus, marcada por arrependimento e obediência, ia se encontrar com a “grande virada” socioeconômica cuja causa era a graça de Deus e seu cuidado para com seu povo amado e fiel. Com base nessa experiência, podemos até arriscar dizer que sempre que a fidelidade dos servos se encontra com a imerecida graça de Deus, há grandes mudanças. Essa é uma lição muito atual. A igreja deve refletir em duas realidades ligadas ao seu culto a Deus. A primeira é “o que ela está oferecendo a Deus?”. A segunda é “como ela está oferecendo a Deus?”. A desobediência às orientações divinas não são prerrogativas exclusivas do povo de Israel do Antigo Testamento. Da mesma forma que aconteceu a eles, Deus não é obrigado a receber um culto falho e manchado pelo mundanismo, egoísmo e hipocrisia de pessoas mais ligadas aos próprios interesses que às orientações reveladas nas Escrituras. E pode haver, ainda hoje, uma relação de causa e efeito, ligada aos preceitos santos de Deus de obediência, temor e honra, que torne crentes relapsos alvos do tratamento disciplinar do Senhor, motivo pelo qual eles também devem “pôr sua consciência” nisso tudo. Outra lição que se deve aprender é que é mais fácil ser acometido pela impureza do mundo que pela santidade de Deus. A transmissão da impureza necessita de condições mínimas como a simples negligência ou descaso por Deus, por sua palavra e por sua vontade. Já a santidade exige determinação pessoal, disposição de coração e dependência de Deus. Olhando para tudo isso e fazendo uma análise pessoal, tentando identificar as relações de causa e efeito no relacionamento com o Senhor — obviamente, dosadas por sua graça —, o povo de Deus deve ter como objetivo vivenciar uma “grande virada” na sua sujeição e adoração a Deus. Que o arrependimento verdadeiro, o perdão genuíno, a santidade e a fidelidade marquem a virada do nosso modo de servir a Deus! E que a graça maravilhosa do nosso Salvador seja visível e marque a virada da nossa existência nesse mundo, até que a morte ou o arrebatamento marquem a “grande virada” da nossa condição mortal de pecadores para a condição plenamente redimida da vida eterna! AGEU 2.20-23 Tomando Parte na História da Redenção O último parágrafo de Ageu contém o quarto sermão do profeta. Assim como nos outros, ele começa com a data (v.20): “Veio novamente a palavra do