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8) TRATADOS EM ESPÉCIE 1) Declaração Universal dos Direitos Humanos Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948. Preâmbulo Considerando que reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, Considerando que desprezo e desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade e que advento de um mundo em que mulheres e homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum, Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão, Considerando ser essencial promover desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais do ser humano, na dignidade e valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher e que decidiram promover progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla, Considerando que os Países-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano e a observância desses direitos e liberdades, Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para pleno cumprimento desse compromisso,Agora portanto a Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade tendo sempre em mente esta Declaração, esforce- se, por meio do ensino e da educação, por promover respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Países- Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. Foi esboçada principalmente pelo canadense John Peters Humphrey, contando também, com a ajuda de várias pessoas de todo o mundo. Após a barbárie da Segunda Guerra Mundial, e com o intuito de construir um mundo sob novos alicerces ideológicos, os dirigentes das nações que emergiram como potências no período pós-guerra, liderados por Estados Unidos e União Soviética, estabeleceram, na Conferência de Yalta, na Rússia, em 1945, as bases de uma futura paz mundial, definindo áreas de influência das potências e acertando a criação de uma organização multilateral que promovesse negociações sobre conflitos internacionais, para evitar guerras e promover a paz e a democracia, e fortalecer os Direitos Humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um documento com obrigatoriedade legal, entretanto serviu como base para os dois tratados sobre direitos humanos da ONU de força legal: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. 2) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos foi adotado pela Resolução n. 2.200-A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 19 de dezembro de 1966. Logo, é um pacto de amplitude mundial. Entrou em vigor em 1976, quando foi atingido o número mínimo de adesões (35 Estados). O Congresso Brasileiro aprovou-o através do Decreto-Legislativo n. 226, de 12 de dezembro de 1991, depositando a Carta de Adesão na Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas em 24 de janeiro de 1992, entrando em vigor em 24 de abril do mesmo ano. Desde então, o Brasiltornou-se responsável pela implementação e proteção dos direitos fundamentais previstos no Pacto. Na época em que se iniciou, no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a discussão para edição de um Pacto que reunisse todos os direitos da pessoa humana, idealizou-se dois modelos: um único que conjugasse as duas categorias de direito e outro que promovesse a separação de um lado, dos direitos civis e políticos e, de outro, dos direitos sociais, econômicos e culturais. A divergência que ocorria entre os países ocidentais e os países do bloco socialista era sobre a auto aplicabilidade dos direitos que viessem a ser reconhecidos. Os países ocidentais, cuja orientação acabou prevalecendo, entendiam que os direitos civis e políticos eram auto aplicáveis, enquanto que os direitos sociais, econômicos e culturais eram "programáticos", necessitando de uma implementação progressiva. A ONU continuou reafirmando, no entanto, a indivisibilidade e a unidade dos direitos humanos, pois os direitos civis e políticos só existiriam no plano nominal se não fossem os direitos sociais, econômicos e culturais, e vice-versa. Assim, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos é adotado no auge da Guerra Fria, reconhecendo, entretanto, um conjunto de direitos mais abrangente que a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em virtude da ditadura militar que governou o país por 21 anos, o Governo brasileiro só ratificou o Pacto quando seus principais aspectos já se encontravam garantidos na atual Constituição Federal, em seu título II, denominado "Dos Direitos e Garantias Fundamentais". Composto por 53 artigos é o instrumento por meio do qual os Estados Partes das Nações Unidas que aderirem e ratificarem o Pacto assumem o compromisso de respeitar e garantir a todos os indivíduos que se achem em seu território e que estejam sujeitos a sua jurisdição os direitos reconhecidos no Pacto, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer condição.O Pacto reconhece o direito à vida; a não ser submetido à tortura ou penas ou tratamento cruéis, desumanos ou degradantes; a não ser submetido à escravidão e ao tráfico de escravos; à liberdade e segurança pessoal; à livre circulação; à igualdade perante tribunais e cortes de justiça; à liberdade de pensamento, de consciência e de religião e de expressão; entre outros. Em sua primeira parte, o Pacto reafirma o direito dos povos à autodeterminação, que implica na definição de seu estatuto político e de desenvolvimento econômico, social e cultural, bem como na disposição de suas riquezas e recursos naturais. Os Estados-partes que administrassem ou mantivessem territórios ou povos não autônomos deveriam empreender esforços para promover o direito à autodeterminação desses povos. É dever dos Estados-partes, também, a adoção de medidas legislativas ou administrativas visando à introdução em seus ordenamentos jurídicos internos dos direitos e garantias fundamentais previstos no Pacto. É imperativo o direito ao livre acesso à Justiça para a reclamação de eventuais violações, garantindo-se o cumprimento das decisões judiciais, inclusive, e principalmente, pelo próprio Estado. Assim, a primeira parte do documento é constituída por apenas um artigo e refere-se ao Direito à Autodeterminação. Na segunda parte fala-se de como os Estados aplicarão o Pacto. Na terceira parte encontra-se o elenco dos direitos. Estes são os chamados "direitos de primeira geração", ou seja, as liberdades individuais e garantias procedimentais de acesso à justiça e participação política. Na quarta parte se prevê a instituição do Comité dos Direitos do Homem. Este foi formado no seio das Nações Unidas e faz uma avaliação periódica da aplicação do PIDCP a todos os estados membros do mesmo. Por último, na quinta parte, dispõe-se regras de interpretação e na sexta parte regras sobre a entrada em vigor e vinculação dos Estados. Alguns direitos previstos no Pacto: a) Direito à igualdadeO artigo 2° do Pacto estabelece o compromisso de que os Estados-partes haverão de garantir aos indivíduos que se encontrem em seu território todos os direitos nele consagrados, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de qualquer outra natureza. A igualdade, de fato, tem-se revelado como um dos alicerces do sistema legal brasileiro. A Lei Maior, em vários dispositivos, destaca tal princípio. O artigo 3° assevera que constitui um dos objetivos fundamentais da República promover o bem de todos, sem qualquer forma de preconceito. No mesmo sentido, o artigo 5°, caput, ressalta que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no País o pleno direito à igualdade. b) Da igualdade de direitos entre homens e mulheres A vedação de qualquer forma de discriminação em virtude do gênero é corolário natural do destacado direito à igualdade. Contudo, a preocupação com o tema é tamanha que o artigo 3° do Pacto destaca claramente que os Estados-partes também haverão de se comprometer a assegurar a homens e mulheres igualdade no gozo de todos os direitos civis e políticos nele enunciados. Na mesma esteira encontra-se a Constituição Brasileira. Pois, se não bastasse o citado artigo 5°, caput, o mesmo dispositivo, já em seu inciso I, ressalta que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Fundamentado neste princípio, a lei eleitoral em vigor no Brasil criou uma verdadeira ação afirmativa, com amplo amparo constitucional, ao fixar cota mínima de 25% para mulheres entre os candidatos proporcionais. Especificamente sobre o tema, o Brasil, desde 1984, também é signatário da "Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher", adotada pela ONU em 1979. c) Direito à vida O artigo 6° do Pacto, como não podia deixar de ser, reza que o direito à vida é inerente à pessoa humana e deverá ser protegido pela lei. E mais, ninguém poderá ser arbitrariamente privado de sua vida.Está-se indubitavelmente diante do mais sagrado dos direitos da pessoa humana, consagrado de forma clara pelo direito interno na própria Constituição em seu citado artigo 5°, caput. No que tange à legislação infraconstitucional, como é cediço, o Código Penal brasileiro dedica todo um capítulo para tutelar a vida humana, classificando como hediondo, por meio da Lei n. 8.930/94, o crime de homicídio qualificado previsto no artigo 121, § 2°, daquele Código. Cumpre ressaltar que a eventual instituição da pena de morte é terminantemente proibida pela Carta Brasileira, segundo o disposto no artigo 5°, inciso XLVII, "a", salvo em caso de guerra, lembrando que por se tratar de cláusula pétrea, como todos os demais direitos previstos no citado dispositivo, não poderá sofrer alteração ainda que por meio de uma reforma constitucional (art. 60, § 4°, da CF). A corroborar a tal vedação existe ainda incorporado ao direito brasileiro a Convenção Americana de Direitos Humanos Pacto de San José, ratificada em 1992, cujo artigo 4°, inciso III, dispõe que os Estados que tenham abolido a pena de morte não poderão restabelecê-la. d) Proibição da tortura e penas cruéis O artigo 7° do Pacto é quase que literalmente reproduzido na Constituição Federal. Dispõe que "Ninguém poderá ser submetido a tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes". No mesmo sentido, o tão propagado artigo 5°, ora no inciso III, ora no XLVII, reza sobre o mesmo tema. Inicialmente deixa consignado que "ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante" e, no outro inciso, estatui claramente que não haverá penas de caráter perpétuo, de trabalhos forçados, de banimento e cruéis. Preocupado com o tema, o Governo brasileiro, por meio do Congresso Nacional, editou a Lei n. 9.455/97 que define o crime de tortura, equiparado a hediondo por força da Lei n. 8.072/90, e estabelece as correspondentes penas. Já em 1990, quando da edição do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), a tortura passou a ser tipificada como crime quando a vítima fosse criança ou adolescente.Como forma de demonstrar seu interesse em repudiar a tortura, o Brasil também é signatário da "Convenção Interamericana para prevenir e punir a tortura", incorporada ao direito interno em 20 de julho de 1989. Contudo, não obstante a existência dos citados diplomas legais, o Brasil tem sido um vasto campo da prática de tortura, ao passo que a punição aos responsáveis tem-se mostrado ainda muito tímida. e) Direito à liberdade O presente Pacto, em seu artigo 9°, estabelece que toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoais, sendo que ninguém poderá ser preso ou encarcerado arbitrariamente, salvo pelos motivos previstos em lei. E a Constituição Federal não permite qualquer dúvida a respeito. Segundo o inciso LXI do artigo 5°, ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo em casos de transgressão ou crime militar, não havendo mais que se cogitar na arbitrária privação de liberdade para "averiguação". Ao preso é conferido o direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial. Haverá também a garantia, no âmbito do processo legal, aos acusados em geral, ao contraditório e à ampla defesa, sendo que ninguém será processado senão pela autoridade competente. Cabe ainda destacar que o princípio da presunção de inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, encontra-se igualmente previsto no Pacto dos Direitos Civis e Políticos (art. 14, 2) e na Constituição Federal (art. 5°, inc. LVII). Ressalte-se, outrossim, que o citado Pacto, em seu artigo 8°, item 3, estatui que qualquer pessoa presa ou encarcerada em virtude de infração penal deverá ser conduzida, sem demora, à presença do juiz e terá o direito de ser julgada em prazo razoável. Outro princípio a que faz alusão o citado artigo 9°, item 3, do Pacto, é o de que todo preso tem direito a ser julgado em prazo razoável. A jurisprudência tem indicado um limite temporal, calculando-se os prazos processuais, para o encerramento da instrução criminal em face de pessoa presa cautelarmente. E a superação do lapso admitido como razoável temproporcionado, em muitos casos, a concessão da liberdade ainda que provisória. Todavia, conforme apontamento supra, a imposição de prazo razoável para a prisão cautelar, desde a incorporação do presente Pacto ao direito brasileiro, deixou de ser uma mera construção jurisprudencial para tornar- se um verdadeiro direito material. A previsão de tais princípios, tanto no que se refere à vedação ao interrogatório à distância como à imposição de prazo razoável em caso de prisão provisória, encontra-se igualmente disposta na já citada Convenção Americana de Direitos Humanos Pacto de San José. f) Das garantias às pessoas presas Segundo o artigo 10 do Pacto, "Toda pessoa privada de sua liberdade deverá ser tratada com humanidade e respeito à dignidade inerente à pessoa humana". Referido princípio encontra-se também previsto na Constituição Federal Brasileira, mais precisamente no artigo 5°, inciso XLIX. Se não bastasse, ao nível infraconstitucional, existe a Lei de Execução Penal (Lei n. 7210/84) que estabelece direitos e deveres aos presos. No entanto, o que se observa da realidade brasileira é que às pessoas presas têm-se impostos muito mais deveres do que respeitados seus direitos, com constantes notícias veiculadas pela imprensa de violação às normas consagradas tanto constitucional como legalmente. O tratamento dedicado aos presos, efetivamente, tem afrontado a dignidade da pessoa humana, num claro descumprimento das normas consagradas no Pacto citado, bem como na própria Constituição brasileira. O mesmo artigo 10 do Pacto, agora no item 3, estatui que os delinquentes juvenis deverão ser separados dos adultos e receber tratamento condizente com sua idade e condição jurídica. E o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), em seu artigo 123, reza que o adolescente, pessoa entre 12 e 18 anos de idade, quando a ele for imposta a medida sócio educativa de internação, que importa em privação de liberdade, deverá cumpri-la em entidade exclusiva paraadolescentes, não se admitindo, sob qualquer hipótese, sua inserção ao lado de pessoas adultas, maiores de 18 anos. g) Proibição de prisão por não cumprimento de obrigação contratual O Pacto dos Direitos Civis e Políticos, em seu artigo 11, bem como a Convenção Americana de Direitos Humanos, no artigo 7°, item 7, dispõem que ninguém será privado da liberdade por dívida ou por descumprimento de obrigação contratual, salvo a hipótese prevista no Pacto de San José quando houver débito decorrente de pensão alimentar. Tal princípio tem gerado muita polêmica no âmbito interno brasileiro, pois, diante dos citados enunciados, deixou de encontrar amparo legal a prisão do depositário infiel, em que pese sua previsão constitucional (art. 5°, inciso LXVII). h) Direito à justiça O Pacto dedica todo o artigo 14 à consagração do princípio segundo o qual todas as pessoas são iguais perante os Tribunais e as Cortes de Justiça, cabendo sempre o exercício da defesa pessoal e o direito de estar presente ao julgamento. Aliás, segundo farta jurisprudência dos Tribunais brasileiros, o fato do acusado preso deixar de acompanhar a colheita de prova acusatória em seu desfavor constitui absoluta nulidade do processo, pois sua presença nas audiências garante-lhe efetivamente a possibilidade de contraditar e de se defender dos depoimentos produzidos. Também o mesmo Pacto dispõe que ninguém poderá ser obrigado a confessar-se culpado (art. 14, item 3, "g"), o que encontra guarida na própria Constituição Federal quando é conferido ao preso o direito de manter-se calado em seu interrogatório (art. 5°, inc. LXIII). Há que se registrar, outrossim, que toda pessoa presa terá direito a um defensor ainda que não tenha meios para remunerá-lo, quando ser-lhe-á nomeado um advogado que patrocinará sua defesa gratuitamente (art. 14, item 3, "d"). No caso do Estado de São Paulo, a defensoria pública, responsável pela defesa gratuita das pessoas carentes é exercida pela Procuradoria de Assistência Judiciária, órgão da Procuradoria Geral do Estado.Cabe, ademais, ressaltar que também encontra-se consagrado no mesmo artigo 14 do Pacto, agora no item 5, o chamado duplo grau de jurisdição, princípio este segundo o qual "Toda pessoa declarada culpada por um delito terá o direito de recorrer da sentença condenatória e da pena a uma instância superior, em conformidade com a lei". i) da liberdade de pensamento, de consciência, de religião e de expressão Os artigos 18 e 19 dispõem sobre o direito à liberdade de pensamento, de consciência, de religião e de expressão, todos eles amplamente consagrados também na Constituição pátria. Segundo o artigo 18, "Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse direito implicará a liberdade de ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença, individual ou coletivamente, tanto pública como privadamente por meio do culto, da celebração de ritos, de práticas e do ensino". No mesmo sentido, a Lei Maior brasileira reza que a liberdade de consciência e de crença é inviolável, sendo assegurado o livre exercício dos cultos (art. 5°, inc. VI). Se não bastasse, o Código Penal, ao tutelar tal direito, define como crime aquele que escarnecer de alguém publicamente por motivo de crença ou função religiosa ou, então, impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso (art. 208). Noutro aspecto, o artigo 19 do Pacto assevera que "Ninguém poderá ser molestado por suas opiniões", o que se amolda ao artigo 5°, inciso IX, da Constituição Federal, que, da mesma forma, prevê a liberdade de expressão decorrente da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, abolindo-se assim qualquer forma de censura. j) Dos direitos políticos e de associação O Pacto estabelece que todos os cidadãos, sem qualquer forma de discriminação ou de restrições infundadas, têm o direito de participar da condução dos assuntos políticos do Estado, seja diretamente ou por meio de representantes escolhidos livremente (art. 25), direito que nossa Carta Magna assegura no seu artigo 1°, parágrafo único, e seu artigo 14.Têm também o direito de votar e serem votados em pleitos periódicos, autênticos, realizados por sufrágio universal e igualitário e por voto secreto, além de poderem, em condições gerais de igualdade, exercer funções públicas. O direito de reunião pacífica e o de livre associação, inclusive sindical, também é garantido pelo Pacto (arts. 21 e 22), encontrando consonância em nossa Constituição Federal (art. 5°, incs. XVI e XVII). O Pacto dispõe que as denúncias de descumprimento por algum dos Estados-partes dos deveres nele estabelecidos somente poderão ser feitas por outro Estado-parte, mas desde que este último tenha já reconhecido a competência do Comitê. O Estado denunciante comunicará, primeiramente, o Estado violador, que terá três meses para responder a denúncia. Se, passados seis meses, a divergência não tiver sido resolvida entre os próprios Estados, aí sim a denúncia será levada ao Comitê. A função do Comitê, então, será a de tentar uma solução amistosa para a questão entre os Estados-partes, solução esta que deverá se basear no respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais reconhecidas no Pacto. Se a questão persistir sem solução satisfatória, poder-se-á constituir uma Comissão de Conciliação ad hoc, com cinco membros designados pelos Estados interessados, que também tentará uma solução amistosa para a divergência. O grande problema é que se a tal solução amistosa não for alcançada, não há nenhuma outra medida que o Comitê ou a Comissão possa tomar, restando a questão não solucionada. O Protocolo Facultativo do Pacto, entretanto, estabelece, pela primeira vez no direito internacional, um sistema de petições individuais, permitindo ao Comitê conhecer denúncias formuladas pelas próprias pessoas vítimas de violações de direitos garantidos pelo Pacto. No entanto, é necessário que o denunciante esteja sob a jurisdição de um Estado que tenha ratificado tanto o Pacto como o Protocolo Facultativo, que, como o próprio nome designa, pode ou não ser ratificado em separado (até 1991, dos 101 Estados-partes que haviam ratificado o Pacto, 53também haviam aceitado o Protocolo Facultativo). O Brasil, entretanto, somente ratificou o Pacto. As denúncias individuais deverão ser assinadas e datadas e conter, obrigatoriamente: o nome, endereço e nacionalidade da vítima e do autor, se diferente, justificando o motivo da atuação em nome de terceiro; identificação do Estado violador; os artigos violados do Pacto; prova do esgotamento dos recursos judiciais internos ou de indevido protelamento; declaração de que a mesma matéria não está sendo apreciada, ou já foi, em outra instância internacional; e uma detalhada descrição dos fatos. As petições deverão ser endereçadas ao Comitê, aos cuidados do Centro de Direitos Humanos da ONU em Genebra. O Comitê, então, comunicará o Estado denunciado da petição, concedendo- lhe seis meses para prestar informações sobre o fato e sobre as providências eventualmente tomadas para sua solução. Com a vinda das informações e nova manifestação do denunciante, o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria dos seus membros, embora sempre se tente e se tenha atingido a unanimidade, sendo tal decisão publicada no Relatório Anual do Comitê à Assembleia Geral das Nações Unidas. O Comitê até pode determinar a obrigação do Estado em reparar a violação cometida, mas o seu descumprimento não gera qualquer efeito, pois não exerce as funções de uma corte judicial, a não ser no plano político, mediante o chamado power of embarrassment, ou seja, o constrangimento político e moral que uma referência negativa no Relatório Anual do Comitê pode causar. O Comitê concluiu, recentemente, que as denúncias, embora individuais, poderão também ser apresentadas por organizações ou por terceiras pessoas, que representem a vítima efetiva da violação. 3) Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais O Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, criado em 16.12.1966, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que só foi ratificado pelo Brasil em 24.01.1992 O Pacto divide-se em cinco partes, concernentes, respectivamente, (I) à autodeterminação dos povos e à livre disposição de seus recursos naturais e riquezas; (II) ao compromisso dos Estados de implementar os direitos previstos; (III) aos direitos propriamente ditos; (IV) ao mecanismo desupervisão por meio da apresentação de relatórios ao ECOSOC e; (V) às normas referentes à sua ratificação e entrada em vigor. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, teve objetivo de tornar juridicamente vinculantes os dispositivos da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, determinando a responsabilização internacional dos Estados-parte pela violação dos direitos enumerados. Os direitos econômicos se referem à produção, distribuição e consumo de riqueza, visando disciplinar as relações trabalhistas, como as que preveem a liberdade de escolha de trabalho (art. 6°), condições justas e favoráveis, com enfoque especial para a remuneração justa, que atenda às necessidades básicas do trabalhador e sua família, inclusive, sem distinção entre homens e mulheres quanto às condições e remuneração do trabalho, higiene e segurança, lazer, descanso e promoção por critério de tempo, trabalho e capacidade (art.7°), fundar ou se associar a sindicato e fazer greve (art.8°), segurança social (art.9°). Proteção da família, das mães e das gestantes, vedação da mão-de-obra infantil e restrição do trabalho de crianças e adolescentes. Já os direitos sociais e culturais dizem respeito ao estabelecimento de um padrão de vida adequado, incluindo a instrução e a participação na vida cultural da comunidade, como preveem os artigos 11 a15, destacando-se a proteção contra a fome, o direito à alimentação, vestimenta, moradia, educação participação na vida cultural e desfrutar do progresso científico. Os direitos enunciados no P.I.D.E.S.C. foram acordados para serem realizados de forma progressiva, sendo o resultado de medidas econômicas e técnicas do Estado, através de um planejamento efetivo, com objetivo de alcançar a gradual concretização dos direitos. Podemos comprovar isso no artigo 2°, item 1° do Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais: "Cada Estado-parte presente Pacto, compromete- se a adotar medidas, tanto por esforço próprio, como pela assistência e cooperação internacionais, principalmente nos planos econômico e técnico, até máximo de seus recursos disponíveis, que visem a assegurar, progressivamente, por todos os meios apropriados, pleno exercício dos direitosreconhecidos no presente Pacto, incluindo, em particular, a adoção de medidas legislativas". Existe um sistema de monitoramento, estabelecido nos artigos 16 a 25, que inclui o encaminhamento a ser feito pelos Estados-parte, de relatórios periódicos, contendo as medidas legislativas, administrativas e judiciais, tomadas para a concretização dos direitos elencados no Pacto, além das dificuldades encontradas nessa implementação. 3) Carta das Nações Unidas A Carta das Nações Unidas é documento de fundação da ONU, onde se declara seus ideais, propósitos e a expectativa sobre seus membros, tanto os povos, como os governos dos países. Esse documento foi escrito pelos 50 países que compuseram a Conferência sobre Organização Internacional, em São Francisco (EUA) no dia 26 de junho de 1945 ano de fim da Segunda Guerra Mundial, sendo ratificada em 21 de setembro de 1945 pelo Brasil. A partir dessa Carta, processou-se uma onda de transformações no Direito Internacional, simbolizando um novo modelo de relações internacionais. O preâmbulo da Carta das Nações Unidas explica um pouco sobre a missão e a visão da ONU e do seu trabalho no mundo. A carta é composta pelo preambulo e 19 capítulos: Capítulo I: propõe os princípios e propósitos das Nações Unidas, incluindo as provisões importantes da manutenção da paz internacional e segurança; Capítulo II: define os critérios para ser membro das Nações Unidas; Capítulos III-XV: a maior parte do documento descreve os órgãos da ONU e seus respetivos poderes; Capítulos XVI e XVII: descrevem os convênios para integrar-se à ONU com a lei internacional estabelecida;Capítulos XVIII e XIX: proporcionam os critérios para retificação e ratificação da Carta. A Carta da ONU tem como objetivos principais o respeito aos direitos e liberdades fundamentais do indivíduo, a manutenção da paz e segurança internacional e promoção do desenvolvimento social, com melhorias nas condições de vida dos indivíduos. A Carta enfatizou a defesa dos direitos humanos e às liberdades pessoais, utilizando-se da cooperação internacional; no entanto, restringiu-se quanto à identificação desses direitos e liberdades; mesmo assim, eles estão mencionados nos arts. 1, 13, 55, 56, 62. A fim de realizar os objetivos expostos na Carta, as Nações Unidas que, em 1995, contavam com 185 países, foram organizadas em diversos órgãos elencados no art. 7° : -Assembleia Geral: A Assembleia-Geral da ONU é muito importante porque se constitui como o principal órgão de discussão e deliberação, em que participam todos as 193 nações membros. Lá, são discutidos todos os assuntos considerados mais emergentes e que afetam a vida de todos os habitantes do planeta. Ao contrário de outros órgãos e conselhos da ONU, na Assembleia-Geral o voto é universal, o que concede igualdade a todos os seus membros. As resoluções votadas e aprovadas na Assembleia Geral, porém, têm o caráter de recomendação e não são obrigatórias. Assuntos em pauta na ONU são: paz e segurança, aprovação de novos membros, questões de orçamento, desarmamento, cooperação internacional em todas as áreas, direitos humanos -Conselho de Segurança: é o órgão da ONU responsável pela paz e segurança internacionais, que toma decisões como a intervenção (ou não) militar em um país em guerra, autoriza operações de países em outros que estejam em conflito ou mesmo a execução de políticas. É constituído por 15 membros: cinco permanentes, que possuem o direito a veto Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China e dez membros não- permanentes, eleitos pela Assembleia Geral por dois anos. A diferença mais importante entre permanentes e não permanentes é o direito de veto. Os membros permanentes do Conselho têm direito a dizer"não" para as políticas, ações ou diretrizes relativas à segurança internacional, e assim impedir sua implementação, mesmo que elas tenham sido aprovadas de forma unânime pelos demais membros. Este é o único órgão da ONU que tem poder decisório, ou seja, o que for decidido ali deve ser respeitado. As decisões do Conselho de Segurança devem ser aceitas e cumpridas por todos os membros das Nações. Conselho Econômico e Social (ECOSOC): é composto por cinquenta e quatro Membros das Nações Unidas, eleitos pela Assembleia Geral. Dentre suas principais funções está a de preparar projetos de convenções a serem submetidos à Assembleia Geral e a de realizar ou iniciar estudos e relatórios sobre temas internacionais de caráter econômico, social, cultural, educacional, sanitário e conexos, formular recomendações sobre tais temas à Assembleia Geral, membros da ONU e entidades interessadas. Adicionalmente, cabe ao ECOSOC fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Para cumprir com estas funções, a Carta prevê a criação de comissões para tratarem dos diversos temas de seu domínio. Estas comissões são de caráter funcional ou regional. -Conselho de Tutela: O Conselho de Tutela tinha a função de proteger povos sem governo próprio sendo composto por membros do Conselho de Segurança e outros eleitos pela Assembleia Geral. Foi desativado em 1997, três anos após a independência da última colônia, Palau, em 1994- era colônia americana. -Tribunal Internacional de Justiça: A Corte Internacional de Justiça (CIJ) é o principal órgão judicial da Organização das Nações Unidas (ONU). A CIJ funciona de forma permanente e é composta por quinze juízes de diferentes nacionalidades. Os juízes devem ser independentes, ter alta consideração moral e ter condições para o exercício das mais altas funções judiciais em seus respectivos países ou terem reconhecida competência na área de direito internacional. Cada juiz tem um mandato de nove anos,reconduzível, sendo que há renovação de um terço dos membros a cada três anos (artigos 3, 2 e 13 do ECIJ). Os juízes são eleitos pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança da ONU. A fim de assegurar a universalidade do tribunal, existe uma preocupação geopolítica e nas eleições deve se considerar que sejam representadas as grandes civilizações e os principais sistemas jurídicos do mundo (artigos 4 e 9 do ECIJ). O Brasil já teve alguns nacionais seus como membros da CIJ (Antônio Augusto Cançado Trindade) A CIJ toma suas decisões com base no direito internacional e aplica como fontes do direito: os tratados e convenções internacionais em vigor, o costume internacional, os princípios gerais do direito, as decisões judiciais e a doutrina mais qualificada. Se as partes concordarem, a CIJ poderá decidir usando também regras de equidade (art. 38 do ECIJ). Além de resolver conflitos jurídicos submetidos pelos Estados envolvendo as mais diversas matérias, como interpretação de tratados internacionais, responsabilidade internacional e delimitação territorial (função contenciosa); a CIJ também emite pareceres sobre questões jurídicas (função consultiva). No entanto, ressalta-se que os pareceres não podem ser solicitados pelos Estados. Apenas a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança da ONU podem requerer parecer da CIJ sobre qualquer questão jurídica. Outros órgãos da ONU e agências especializadas, quando autorizadas pelas Assembleia Geral, podem solicitar parecer consultivo, mas desde que envolva questões jurídicas relacionadas com as suas esferas de atuação (art. 96 da Carta da ONU). O parecer consultivo não tem força vinculante, ou seja, não obriga os organismos da ONU, mas tende a ser observado por sua força moral. Diferentemente, as decisões proferidas pela CIJ no exercício da função contenciosa, são definitivas e obrigatórias para os Estados em disputa. Se uma das partes deixar de cumprir a decisão da CIJ, o Estado vencedor poderá recorrer ao Conselho de Segurança da ONU, que, se julgar necessário, irá tomar medidas para exigir o cumprimento da decisão (art. 94 da Carta da ONU). É importante advertir que a CIJ não se confunde com o Tribunal Penal Internacional (TPI), que também tem sede em Haia, mas é voltado para ojulgamento de indivíduos; enquanto a CIJ é voltada para a solução de disputas entre Estados. O Estatuto de Roma (1998) é o instrumento legal que rege a competência e o funcionamento do Tribunal Penal Internacional. O TPI não é órgão da ONU e está restrito ao julgamento de indivíduos por crimes de guerra, crimes contra a humanidade, crime de genocídio e crime de agressão. Ele é complementar às jurisdições penais nacionais e julga pessoas responsáveis pelos mais graves crimes de natureza internacional (artigos 1° e 5° do Estatuto de Roma). Secretariado: O Secretário-Geral da ONU é o principal funcionário administrativo da organização. É ele quem chefia o Secretariado, que é um dos seis principais órgãos das Nações Unidas, lembrando que o Conselho de Tutela- sétimo órgão, foi desativado em 1997. Como chefe administrativo do escritório da organização, o Secretário-Geral participa das reuniões realizadas pelos outros órgãos da ONU e tem a atribuição de elaborar um relatório anual à Assembleia Geral sobre os trabalhos da organização (art. 98 da Carta da ONU). Os relatórios elaborados pelo Secretário-Geral costumam ganhar grande visibilidade, pois ele reporta o estado da política mundial e do progresso em direção aos objetivos da ONU, oferecendo uma tomada de consciência global acerca da necessidade de cooperação entre os Estados. Além da função administrativa, o Secretário-Geral tem um importante papel político. O mais graduado funcionário da ONU tem a atribuição de chamar a atenção do Conselho de Segurança para qualquer assunto que em sua opinião possa ameaçar a manutenção da paz e da segurança internacional (art. 99 da Carta da ONU). Essa função tem o objetivo de instar o Conselho de Segurança a se posicionar mesmo nos casos em que nenhum governo tenha tomado tal iniciativa. Outra importante função desempenhada pelo Secretário-Geral é a prestação de bons ofícios (meio diplomático de solução pacífica de controvérsias internacionais). Por meio dos bons ofícios, o prestador facilita o entendimento direto entre as partes, proporcionando um ambiente neutro para que as partes possam negociar. Assim, valendo-se de sua independência, imparcialidade e integridade, o Secretário-Geral aproximaas partes para evitar que conflitos internacionais surjam, aumentem ou se espalhem. Todos estão localizados na Sede em Nova Iorque, salvo o Tribunal Internacional de Justiça que se situa em Haia, na Holanda. Além desses órgãos, as Nações Unidas contam com a ajuda de 14 organizações, conhecidas como agências especializadas que trabalham em áreas diversas como a saúde, a agricultura, os serviços postais e a meteorologia. Ainda, dispõem de mais 35 programas, fundos e organismos especiais com responsabilidade em setores específicos.