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Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 1
Christine Delory-Momberger
 https://doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2025.v10.n25.e1258
ECOBIOGRAFIA E PRÁTICAS ARTÍSTICAS: CAMINHO 
SENSÍVEL PARA O CONHECIMENTO DE SI NUM 
MUNDO INTERLIGADO1
CHRISTINE DELORy-MOMBERGER
 https://orcid.org/0000-0002-8425-0175 
Université Paris 13 Sorbonne Paris Cité
Diante das transformações do Antropoceno, a ecobiografia surge 
como um caminho sensível de autoconhecimento, fundamentado no 
reconhecimento das interdependências entre os seres humanos, os 
seres vivos e os não vivos. A ecobiografia renova a escrita de si ao 
conceber a identidade como relacional, enraizada nos ambientes e 
nas experiências sensíveis do mundo. As práticas artísticas, por meio 
de seus suportes, desempenham um papel significativo de mediação 
reflexiva, permitindo que o sujeito se constitua na — e pela — relação 
com o vivo. À luz de uma criação fotográfica ligada a um luto pessoal, 
a autora mostra como o gesto artístico se torna um ato de cuidado 
e um vetor de reconfiguração existencial. A ecobiografia aparece, as-
sim, como uma investigação interior, ecopoética e relacional, capaz 
de restaurar um vínculo vivo com a Terra e de abrir para uma “segun-
da vida”, ao mesmo tempo pessoal e compartilhada.
Palavras-chave: Ecobiografia. Antropoceno. Criação artística. Inter
-relacionalidade. Refiguração do si.
ÉCOBIOGRAPHIE ET PRATIQUE ARTISTIQUE : UNE 
VOIE SENSIBLE DE CONNAISSANCE DE SOI DANS UN 
MONDE RELIE
Face aux bouleversements de l’Anthropocène, l’écobiographie appa-
raît comme une voie sensible de connaissance de soi, fondée sur 
la reconnaissance des interdépendances entre humains, vivants et 
non-vivants. L’écobiographie renouvelle l’écriture de soi en pensant 
l’identité comme relationnelle, ancrée dans les milieux et les expé-
riences sensibles du monde. Les pratiques artistiques, à travers leurs 
médiums, jouent un rôle significatif de médiation réflexive, permet-
1 Tradução por Carolina Kondratiuk, pesquisadora do GIS Le Sujet dans la Cité, Universidade Sorbonne Paris Nord, e 
do Colégio Internacional de Pesquisa Biográfica (CIRBE), onde integra o núcleo de pesquisa e formação Pôle Initia-
tives en Recherche et en Formation Biographique.
RESUMO
RÉSUMÉ
https://orcid.org/0000-0002-8425-0175
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12582
Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado
tant au sujet de se constituer dans / et par la relation au vivant. 
A l’aune d’une création photographique liée à un deuil personnel, 
l’auteure montre comme le geste artistique devient un prendre soin 
et un levier de refiguration existentielle. L’écobiographie apparaît 
ainsi comme une enquête intérieure, écopoétique et relationnelle, 
capable de restaurer un lien vivant avec la Terre et d’ouvrir à une « 
seconde vie », à la fois personnelle et partagée.
Mots-clés: Ecobiographie. Anthropocène. Création artistique. L’inter-
relationnalité. Refiguration de soi.
ECOBIOGRAPHY AND ARTISTIC PRACTICES: A 
SENSITIVE PATH TO SELF-AWARENESS IN AN 
INTERCONNECTED WORLD
In light of the transformations of the Anthropocene, ecobiography 
emerges as a sensitive path to self-knowledge, based on the recog-
nition of the interdependencies between humans, living beings, and 
non-living beings. Ecobiography renews the writing of the self by 
conceiving identity as relational, rooted in environments and sensi-
tive experiences of the world. Artistic practices, through their media, 
play a significant role in reflective mediation, allowing the subject 
to constitute itself in—and through—its relationship with the living. 
In light of a photographic creation linked to personal mourning, the 
author shows how the artistic gesture becomes an act of care and a 
vector of existential reconfiguration. Ecobiography thus appears as 
an interior, ecopoetic, and relational investigation, capable of restor-
ing a living bond with the Earth and opening up to a “second life,” 
both personal and shared.
Keywords: Ecobiography. Anthropocene. Artistic creation. Inter-rela-
tionality. Refiguration of the self.
ECOBIOGRAFÍA Y PRÁCTICAS ARTÍSTICAS: UN CAMINO 
SENSIBLE HACIA EL CONOCIMIENTO DE UNO MISMO 
EN UN MUNDO INTERCONECTADO
Ante las transformaciones del Antropoceno, la ecobiografía emerge 
como una vía sensible hacia el autoconocimiento, basada en el re-
conocimiento de las interdependencias entre los seres humanos, los 
seres vivos y los seres inertes. La ecobiografía renueva la escritura 
del yo al concebir la identidad como relacional, arraigada en los en-
tornos y en las experiencias sensibles del mundo. Las prácticas ar-
tísticas, a través de sus soportes, desempeñan un papel significativo 
en la mediación reflexiva, permitiendo al sujeto constituirse en —y a 
RESUMEN
ABSTRACT
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 3
Christine Delory-Momberger
través de— la relación con lo vivo. A la luz de una creación fotográfica 
vinculada al duelo personal, la autora muestra cómo el gesto artísti-
co se convierte en un acto de cuidado y un vector de reconfiguración 
existencial. La ecobiografía se presenta así como una investigación 
interior, ecopoética y relacional, capaz de restaurar un vínculo vital 
con la Tierra y abrirse a una «segunda vida», a la vez personal y com-
partida.
Palabras clave: Ecobiografía. Antropoceno. Creación artística. Interre-
lacionalidad. Autorrefiguración.
A atualidade disruptiva que figuramos sob o 
termo Antropoceno solicita de nós um posi-
cionamento epistemológico, ético e político 
diante dos questionamentos suscitados pelos 
fenômenos antrópicos que ameaçam as for-
mas de vida e as condições de habitabilidade 
da Terra. A tomada de consciência do impac-
to das atividades humanas nos ecossistemas 
terrestres e a consequente redescoberta das 
interdependências e solidariedades entre os 
seres vivos num mundo, num solo comum, faz-
nos figurar ou refigurar o nosso pertencimento 
à Terra. Estamos inseridos na comunidade dos 
seres vivos, agimos, sentimos e pensamos num 
mundo de ligações recíprocas. Esse desloca-
mento exige questionar, com um novo olhar, o 
âmbito e a natureza das relações que os huma-
nos estabelecem entre si, consigo próprios e 
com o mundo, já que a consciência das depen-
dências e vulnerabilidades da vida – dentro de 
nós, entre nós e fora de nós – convida-nos a 
uma compreensão relacional do ser no mundo. 
Vivemos num mundo interligado, interde-
pendente e interagente. Assim, o “nós” com 
que nos identificamos como humanos deve ser 
reexaminado à luz da nossa situação entre to-
dos os seres vivos com os quais partilhamos 
a mesma morada terrestre, desde as bactérias 
e os vírus até as miríades de formas de vida 
animal e vegetal. Nossa história partilhada 
com todos os seres vivos é fundamentalmen-
te a história da Terra, uma história na qual a 
espécie humana ocupa apenas uma parte mui-
to pequena e recente, ao mesmo tempo que 
participa – como todas as outras espécies – de 
formas de história, e talvez de memória, consi-
deravelmente mais longas e antigas. Graças a 
essas alianças e pertencimentos, as tramas e 
texturas de nossas vidas coletivas e individuais 
se tornam consideravelmente mais amplas e 
densas. Nossas espacialidades e temporalida-
des mudam de escala e reinscrevem o curso de 
nossas vidas – não numa ordem transcenden-
tal do mundo, num cosmos – mas num univer-
so da vida, num biocosmo, quer o chamemos 
Gaia com Bruno Latour (2015) ou “comunidade 
biótica” com Baptiste Morizot (2017).
 Nesse quadro, nossas escritas da vida 
são colocadas em questão, postas à prova e 
radicalmente reconfiguradas. Porque hoje in-
vadem nossas vidas, com um vigor renovado, a 
presença ativa do mundo e as múltiplas formas 
de seres vivos, com as redes de relações e os 
universos de sensações, emoções,interesses e 
conflitos daí originados. Precisamos portanto 
trabalhar em conjunto para encontrar vias pe-
las quais as novas narrativas da Terra nos le-
vem a pensar, em novos termos, a singularida-
de da vida e a escrever suas múltiplas formas 
de existência. Entre estas, encontram-se as da 
vida humana – com suas particularidades e, 
em especial, suas capacidades autorreflexivas 
– (re)situadas e (re)filiadas às outras formas de 
vida, assim como aos seus afloramentos sensí-
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Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado
veis e às suas vulnerabilidades, iluminadoras 
de uma organicidade partilhada. 
Ecobiografia: uma escrita de si em 
ligação com a vida
A ecobiografia abre uma via sensível para a 
realização de uma “investigação interior” (De-
lory-Momberger, Bardawil, 2020) sobre nossas 
ligações e figurações de si em suas texturiza-
ções com os outros seres, vivos e não-vivos, 
quer se trate do encontro com nossos seme-
lhantes humanos, do toque nas plantas, da 
sensação dos minerais, da aproximação aos 
animais, da travessia de uma paisagem, da es-
cuta do canto de um rio, do mergulho do olhar 
no desconhecido do céu e do mar, ou da con-
sideração de todas as demais manifestações 
da criação terrestre. Como essas experiências 
impactaram discretamente a nossa história? 
Como se infiltraram no tecido perceptivo da 
nossa relação com o mundo, conferindo-lhe 
sua tonalidade íntima e singular? E como a 
crescente conscientização sobre a força des-
ses chamados “laços frágeis” – muitas vezes 
vistos como inferiores nas sociedades alta-
mente tecnologizadas – nos leva a reconfigu-
rar nossos laços individuais e coletivos com o 
Outro e a nos reposicionar como seres interli-
gados num mundo interligado. 
A ecobiografia propõe uma nova prática de 
escrita da vida. Jean-Philippe Pierron (2021) 
recorda-nos, desde logo, que “eco” se refere 
à ligação da vida com os seres vivos, e “bio” 
significa, etimologicamente, a vida que é es-
crita. A ecobiografia desenvolve a ideia da 
escrita de um eu em seus laços recíprocos e 
interdependentes com seus “ambientes”. Des-
se modo, inverte a centração solipsista de um 
sujeito narrador em favor de um eu em resso-
nância vibratória com os seres vivos. O “eu” é 
relacional, ele vive e existe apenas em e por 
suas ligações”, “não há outro centro de gravi-
dade que não seja relacional” (Pierron, 2023, 
p. 123). E esta consideração lança nova luz so-
bre a noção de “identidade narrativa” de Paul 
Ricoeur (1985), que é estruturalmente marca-
da por uma instabilidade de princípio, ao lhe 
conferir uma sólida ancoragem de alteridades 
com os seres vivos e não-vivos. Se a identi-
dade narrativa se faz e desfaz constantemen-
te no decurso das diferentes narrativas que o 
sujeito narrador enuncia, na variabilidade das 
circunstâncias biográficas e emocionais por 
que passa, o seu próprio núcleo ganha esta-
bilidade com a declaração de sua ligação com 
seus ambientes. 
A ecobiografia possibilita a exploração 
de formas narrativas que poderiam consti-
tuir uma identidade narrativa “aumentada”, 
revelando “zonas de ressonância” nas quais 
aprenderíamos “a escutar o mundo, a per-
cebê-lo de maneira nova e a responder-lhe” 
(Rosa & Wallenhorst, 2022, p. 53). Poderíamos 
revisitar as noções de Paul Ricoeur (1985) de 
“mesmidade” (o mesmo em latim) e “ipseida-
de” (Ipse = si mesmo), a partir do argumento 
de que, enquanto a identidade-mesmidade é 
válida pelo que subsiste no tempo, a ipseida-
de que a completa abre-a a algo maior que o 
eu à medida que entra em jogo a consciência 
do ser ligado ao mundo. A identidade narrati-
va baseia-se na ideia de que cada indivíduo se 
apropria e até se constitui numa narração de 
si constantemente renovada, uma biografiza-
ção (Delory-Momberger, 2019), estabelecendo 
assim uma relação dialética que visa reduzir 
os dois polos, idem e ipse, de modo a revelar, 
aos outros e a si mesmo, um sujeito responsá-
vel pelo sentido da sua vida, dos seus seme-
lhantes e do mundo. O ser ligado ao mundo 
torna-se um “ser-mundo”, sentindo-o, absor-
vendo suas pulsações e respondendo a elas 
por meio de uma compreensão e uma ação 
impactante. 
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 5
Christine Delory-Momberger
Medium2, medialidades 
biográficas e práticas artísticas
A relação do eu consigo mesmo não é imedia-
ta, pois passa por esse terceiro elemento que 
é o “medium”, segundo as formas que o gesto 
artístico assume. A noção de medium chama 
a atenção para a fisicalidade dos materiais 
das artes, para seus traços específicos, para 
suas limitações e exigências, e também para 
as aberturas e possibilidades que estão liga-
das à sua materialidade. Como explica Jacques 
Rancière:
Em primeiro lugar, a palavra “medium” significa 
“aquilo que se coloca entre”: entre uma ideia e 
a sua realização, entre uma coisa e a sua repro-
dução. O medium aparece assim como interme-
diário, como meio para um fim ou como agente 
de uma operação. [...] Mas o medium já não é 
mais o meio para um fim. Ele é propriamente 
o que prescreve esse fim (Rancière, 2008, p. 1).
O medium instaura uma medialidade entre 
um sujeito, em busca de si mesmo numa his-
tória que ele tenta apreender, e uma revelação 
íntima de si. As noções de “medium” e de “me-
dialidade” aportam uma fértil renovação ao 
modo como pensamos as mediações da rela-
ção consigo mesmo em sua inter-relação com 
o mundo, tal como é figurada pela ecobiogra-
fia. Ao explicitar o papel determinante do me-
dium, de sua materialidade e de suas formas 
específicas na configuração da relação consigo 
mesmo e com o mundo, essas duas noções nos 
levam a reconhecer que o sujeito se constitui 
em práticas nas quais e pelas quais a subjetivi-
dade se produz. As “medialidades biográficas” 
acompanham os processos de constituição do 
sujeito – aquilo a que nos referimos na pes-
2 N.T. Ao traduzir o termo francês “médium” como “me-
dium” respeita-se aqui a transcriação, feita por Maria 
Passeggi, do artigo inaugural sobre o tema dentro da 
perspectiva da pesquisa biográfica: DELORy-MOMBER-
GER, C.; BOURGUIGNON , J.-C. Medialidades biográficas, 
práticas de si e do mundo. Revista Brasileira de Pes-
quisa (Auto)biográfica, [S. l.], v. 8, n. 23, p. e1129, 2023. 
quisa biográfica como trabalho biográfico ou 
processo de biografização (Delory-Momberger, 
2019) –, que passam por mediums e são objeto 
de mediações que caracterizam processos de 
medialidade. 
A contribuição quantitativa ou extensiva 
da noção de “medialidades biográficas” leva-
nos a considerar que existe uma grande di-
versidade de mediums e de práticas mediais. 
Embora tenhamos tendência a focalizar ape-
nas as mediações discursivas, em particular 
a narrativa oral ou escrita, todas as práticas 
em que se exerce um fazer estético, sensí-
vel e criativo podem constituir medialidades 
biográficas. Estas englobam, portanto, todas 
as formas de expressão e de linguagem: fala-
das e escritas, mas também fotográficas, so-
noras, gráficas, plásticas, digitais, corporais, 
gestuais, cênicas etc. No campo das formas 
narrativas propriamente ditas, isso nos per-
mite ampliar a narrativa a outras modalida-
des expressivas, que passam pela imagem, o 
desenho, a foto fixa ou em movimento (qua-
drinhos, mangás, filmes, novelas, séries etc.). 
Entre outras consequências, a reflexão ligada 
à “medialidade”, ao mesmo tempo que ex-
pande o campo das práticas, abre caminho, 
no campo da formação, para novas aborda-
gens mais conscientes do papel constitutivo 
das mediações nos processos de construção 
do sujeito em suas inter-relações e interde-
pendências com o mundo dos seres vivos e 
não-vivos. A noção de automedialidade evi-
dencia o desvio e a necessária exterioriza-
ção que o medium institui a fim de mediar a 
relação de um sujeito consigo mesmo e sua 
consciênciade pertencimento à Terra – quer 
se trate da escrita, em suas múltiplas formas, 
suportes e dispositivos, ou de qualquer outro 
medium (pintura, fotografia, música, dança, 
teatro etc.):
Para poder constituir uma relação consigo mes-
mo, o indivíduo é obrigado a percorrer o desvio 
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12586
Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado
de uma exteriorização medial. Paradoxalmente, 
a relação de um sujeito consigo mesmo só é 
possível quando há uma ruptura com o estado 
de um ser-em-si-mesmo e de um intercâmbio 
imediato consigo mesmo, emprestando a exte-
rioridade de um medium. Não existe um eu sem 
uma relação reflexiva com o eu, e não existe re-
lação com o eu sem o recurso à exterioridade 
de um medium técnico que abra ao indivíduo o 
espaço onde pode ser exercida uma prática do 
eu. Neste sentido, a noção de automedialida-
de postula uma interpenetração constitutiva do 
dispositivo medial, da reflexividade subjetiva 
e do trabalho prático sobre si (Moser & Dünne, 
2008, p. 18, tradução revisada).
Um gesto artístico por um 
caminho automedial de 
conhecimento de si num mundo 
interligado 
Para esta terceira parte, optei por relatar uma 
ecobiografia fotográfica, como contrapeso às 
afirmações teóricas feitas anteriormente. Tra-
ta-se da minha série Nas entranhas da Terra, 
iniciada imediatamente após a morte de meu 
companheiro. As imagens são coloridas e di-
gitais, ao contrário de quase todas as minhas 
séries fotográficas anteriores, que se propu-
nham essencialmente a explorar uma memó-
ria familiar intergeracional. Realizei esta nova 
série fotográfica em modo de espreita, movida 
pela busca de imagens que me devolvessem 
um mundo subitamente esvaziado. O gesto ar-
tístico que eu augurava conduzia a encontros 
e confrontos com seres vivos, vegetais e mine-
rais, a deslumbramentos face à imensidão dos 
céus e a mergulhos em abismos insuspeitados. 
Esse corpo a corpo, no fio de uma existência no 
cume, tornava-se um gesto de “corpropriação” 
(Pierron, 2023), que me fazia entrar na carne do 
mundo e me ensinava uma outra maneira de 
habitar a Terra.
Vejamos o pequeno vídeo da série fotográ-
fica Nas entranhas da terra.
Projeção do vídeo “Aux entrailles 
de la Terre” (Nas entranhas da 
terra)
https://www.youtube.com/watch?v=g0KEyNFPdhE
O véu do luto havia sido retirado, o mundo ha-
via se apagado, a sombra havia roído a luz e, 
nessas dobras da vida, o medium da fotografia 
se impunha como um viático para tentar sair 
dos escombros do meu desmoronamento. Este 
terceiro elemento medial, a máquina fotográfi-
ca, permitia-me restabelecer as pontes com os 
vivos que haviam sido destruídas, abrir minha 
dor e deixar entrar raios de claridade; e, ao co-
locar-me na presença de outros, humanos ou 
não-humanos, iniciar uma relação sensível e, 
assim, criar um diálogo salvador com a Terra. 
Como vimos no vídeo, as imagens apresen-
tam rachaduras e perfurações, deixando aflo-
rar o vazio do mundo. Estrias venosas riscam 
a areia submersa, a eflorescência espumosa 
da vegetação contrasta com os troncos secu-
lares aparados e reunidos num monte lunar. O 
pulsar do mundo remete aos céus cintilantes. 
Uma figura de pedra gravada num muro citadi-
no conduz a rochedos de granito na encosta. 
Animais à espreita juntam-se a humanos de 
tocaia, vestidos de humanidade, atravessados 
pela potência vibrátil dos corpos. O tempo sus-
penso das origens mergulha o universo num 
recolhimento profundo e a Terra exala o seu 
rumor trêmulo. 
Durante essa viagem em imagens, sondei 
os céus, mergulhei nas entranhas da Terra, ex-
traindo do caos a força para viver. Num memo-
rável corpo a corpo, liguei-me aos poderes dos 
vivos e encontrei o meu fôlego. Nas últimas 
quatro imagens, vemos serpentes. Em seu du-
plo significado simbólico, esse animal repre-
senta a Terra, o renascimento e a eternidade, 
mas também a morte. É um animal do limiar, 
da matriz, do desejo. Opera mutações, perde 
https://www.youtube.com/watch?v=g0KEyNFPdhE
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 7
Christine Delory-Momberger
sua pele antes de se regenerar. Casa-se com a 
Terra em núpcias cheias de graça, e está onde 
menos se espera. Observa e deseja. No conto 
alquimista de Goethe, A Serpente Verde (1998), 
transmuta-se e torna-se uma ponte entre dois 
mundos: o mundo secreto iniciático da revela-
ção a si mesmo e aquele que se abre ao prota-
gonista do conto, que parte então à descober-
ta desse novo mundo que se lhe abriu.
O encontro com a serpente proporcionou 
o meu primeiro alívio sensível, abrindo-me a 
uma possível reconciliação, compreendendo 
que a morte era uma iniciação à vida. Pude 
começar a deixar para trás as trevas, os cla-
ros-obscuros dos limbos habitados por fantas-
mas, e deixar entrar a luz plena. Eu precisava 
me aproximar ao máximo, até a profundeza 
dos rostos e dos corpos, envolver-me na man-
ta vegetal, enterrar-me na massa terrosa, cho-
car-me com o mármore granítico, num abraço 
que me confundiria, tocaria o meu íntimo, me 
revelaria e abriria à carne do mundo. No final 
da viagem, pude enfrentar um tempo presente 
da vida e dar lugar a outra página da história.
A ecobiografia em ato: uma 
investigação interior 
O gesto artístico ecobiográfico é um gesto eco-
poético relacional de cuidado de si e do mundo 
consigo mesmo. É uma experiência de corpo e 
alma, que nos coloca “o mais próximo possível 
da nossa vitalidade animal” (Pierron, 2024, p. 
60), que nos leva a olhar para fora de nós, com 
uma atenção sensível e uma consciência de 
nosso pertencimento e interdependência, para 
aquilo que nos liga ao mundo e nos mantém 
vivos. Trata-se de uma experiência pática, uma 
“experiência sentida de estar no mundo” (Ibi-
dem, p. 61) que transforma o ver e o perceber 
num sentimento de estar ligado. A ecobiogra-
fia é uma “arte da atenção” (Ibidem, p. 1998), 
um deslumbramento com as aparências inau-
ditas, os tremores e as fragilidades dos vivos 
e uma aproximação esclarecida aos não-vivos. 
Não existe ecobiografia sem encontro. Trata-se 
de ir ao encontro do outro, experimentar mu-
tuamente o vivo e ser tocado pela impressão 
diante do não vivo. É feita de impulsos, con-
tenções e desprendimentos, de efervescência 
e de silêncio. Ela induz à responsabilidade, que 
Levinas nos diz ser cuidado com o outro, bene-
volência e solicitude porque a sua vulnerabili-
dade me obriga (Lévinas, 1990). 
A ecobiografia plástica se une à investiga-
ção interior, que visa tornar-nos conscientes 
da parte invisível de nós mesmos no ato da 
criação. Essa interligação, esse laço profun-
do, revela-se na imagem e é a sua força, a sua 
“efração”. A imagem abre a uma imensidão, 
interrompe o tempo, marca uma cisão, impõe 
um silêncio. É uma insistência que se cala, uma 
reafirmação do seu criador até encontrar o seu 
ponto de compreensão e apaziguamento. A fo-
tografia tem um poder transformador do eu, 
do mundo consigo e do eu com o mundo. Essas 
transformações geradas pelas imagens fazem 
surgir “revelações” - aquilo a que Jean-Christo-
phe Bailly chama “epifanias da vida”. Induzem 
a aprendizagens de si que refiguram a relação 
consigo próprio, com os outros e com o mundo.
O ato fotográfico capta, para além do visí-
vel, o inusitado do que a imagem representa, o 
que “escapou” ao momento em que foi tirada, 
mas que está lá, tecido na imagem, porque o 
fotógrafo, estando intrínseca e intimamente li-
gado ao que fotografa, coloca essa parte íntima 
de si em cada ato fotográfico. A investigação 
interior procura esse aspecto oculto da ima-
gem, revelando suas linhas condutoras, suas 
encruzilhadas, suas dobras e zonas de sombra. 
Desvenda assim, ao longo do caminho, o fio de 
uma história que se manifestou no ato de cria-
ção e que o orientou com vigor ou suavidade, 
mas sempre com uma determinação própria a 
cada artista. 
RevistaBrasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12588
Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado
Prática artística ecobiográfica: 
alavanca para uma “segunda 
vida”
O luto, um choque frontal com a realidade dos 
vivos, um negativo da existência – mesmo que 
ele seja universal – é vivido como uma expe-
riência forjada numa provação singular, e de-
manda uma refiguração existencial no espaço 
e no tempo (Ricoeur, 1990). O luto é essa pas-
sagem em que a existência se desvincula do 
tempo, suspensa na perda, trazendo no seu 
oco um passado que não passa, e fazendo “da-
quele que fica” (Delecroix & Forest, 2015), um 
ser marcado pelo selo de sua tristeza. Peran-
te essa provação da perda, outros caminhos 
são explorados e a pessoa em luto, apelando 
a recursos insuspeitados do viver e a forças 
criativas libertadoras que “reabrem possibi-
lidades” (Jullien, 2023), toca um processo de 
refiguração de si. 
A morte é um acontecimento katastrophê, 
palavra grega que significa, como nos recor-
da Mutuale, reviravolta, perturbação, ruína. O 
mundo desmorona, as referências desabam e 
aquele que fica é tomado pela perplexidade. 
Ele vive uma “experiência pessoal do abismo 
que se abre [...] sobre o sentido de sua vida” 
(Mutuale, 2017, p.131). É confrontado com um 
“desmembramento” (Boudinet, 2012, p. 71) e 
com uma consciência de “não-coincidência 
que afeta tanto o mundo como o indivíduo” 
(Baudry, 2006, 479), o que o desequilibra tan-
to pessoal como socialmente. Na súbita verti-
gem de uma vida à beira do precipício perante 
a explosão de um mundo que até então era 
habitado, “a questão é compreender em que 
e como posso apoiar-me, no fundo de meu 
abismo, em mim mesmo e nos outros para re-
gressar a um mundo habitado” (Mutuale, op. 
cit., p. 131). Como segurar e em que se segurar 
(Pierron, 2025) representa então uma linha de 
existência.
O processo de luto é um processo íntimo e 
singular “em torno do que se perdeu, do esta-
tuto do que se perdeu e da relação com o que 
se perdeu” (Delecroix & Forest, op. cit., p. 12). 
O enlutado realiza o trabalho de seu luto, um 
trabalho do luto, no qual recorre a seus recur-
sos biográficos, vitais e psicológicos, confron-
tando-se com múltiplas explosões emocionais 
que escapam ao seu controle. A prática artísti-
ca ecobiográfica abre espaço para uma recria-
ção de si interligada ao mundo, para “transfor-
mações silenciosas” (Jullien, 2010) com a vida, 
nas quais, lentamente, a pessoa em luto se di-
fere, se relança e se reengaja naquilo que Fran-
çois Jullien nomeia uma “segunda vida” (2017). 
Ela é mediadora dessa inversão que permite ir 
em direção a um renascimento em um mundo 
habitado e interligado, onde a morte terá o seu 
justo lugar e dará sentido a tal reinvenção de 
vida. 
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Recebido em: 12/05/2025
Revisado em: 15/07/2025
Aprovado em: 19/11/2025
Publicado em: 20/12/2025
Christine Delory-Momberger é Professora em Ciências da Educação da Universidade Paris 13, Sorbonne Paris Cité. Fun-
dadora da Universidade Ouverte du Sujet dans la Cité (UOSC) e presidente do Colégio Internacional da Pesquisa Bio-
gráfica em Educaçao (CIRBE). Diretora científica da revista “Le sujet dans la Cité. Revue internationale de recherche 
biographique” et codiretora (em colaboração com Alain Brossat e Michel Agier) das ediçoes extras da revista “Actuels”. 
E-mail: delbourg@club-internet.fr
mailto:delbourg@club-internet.fr

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