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Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 1 Christine Delory-Momberger https://doi.org/10.31892/rbpab2525-426X.2025.v10.n25.e1258 ECOBIOGRAFIA E PRÁTICAS ARTÍSTICAS: CAMINHO SENSÍVEL PARA O CONHECIMENTO DE SI NUM MUNDO INTERLIGADO1 CHRISTINE DELORy-MOMBERGER https://orcid.org/0000-0002-8425-0175 Université Paris 13 Sorbonne Paris Cité Diante das transformações do Antropoceno, a ecobiografia surge como um caminho sensível de autoconhecimento, fundamentado no reconhecimento das interdependências entre os seres humanos, os seres vivos e os não vivos. A ecobiografia renova a escrita de si ao conceber a identidade como relacional, enraizada nos ambientes e nas experiências sensíveis do mundo. As práticas artísticas, por meio de seus suportes, desempenham um papel significativo de mediação reflexiva, permitindo que o sujeito se constitua na — e pela — relação com o vivo. À luz de uma criação fotográfica ligada a um luto pessoal, a autora mostra como o gesto artístico se torna um ato de cuidado e um vetor de reconfiguração existencial. A ecobiografia aparece, as- sim, como uma investigação interior, ecopoética e relacional, capaz de restaurar um vínculo vivo com a Terra e de abrir para uma “segun- da vida”, ao mesmo tempo pessoal e compartilhada. Palavras-chave: Ecobiografia. Antropoceno. Criação artística. Inter -relacionalidade. Refiguração do si. ÉCOBIOGRAPHIE ET PRATIQUE ARTISTIQUE : UNE VOIE SENSIBLE DE CONNAISSANCE DE SOI DANS UN MONDE RELIE Face aux bouleversements de l’Anthropocène, l’écobiographie appa- raît comme une voie sensible de connaissance de soi, fondée sur la reconnaissance des interdépendances entre humains, vivants et non-vivants. L’écobiographie renouvelle l’écriture de soi en pensant l’identité comme relationnelle, ancrée dans les milieux et les expé- riences sensibles du monde. Les pratiques artistiques, à travers leurs médiums, jouent un rôle significatif de médiation réflexive, permet- 1 Tradução por Carolina Kondratiuk, pesquisadora do GIS Le Sujet dans la Cité, Universidade Sorbonne Paris Nord, e do Colégio Internacional de Pesquisa Biográfica (CIRBE), onde integra o núcleo de pesquisa e formação Pôle Initia- tives en Recherche et en Formation Biographique. RESUMO RÉSUMÉ https://orcid.org/0000-0002-8425-0175 Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12582 Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado tant au sujet de se constituer dans / et par la relation au vivant. A l’aune d’une création photographique liée à un deuil personnel, l’auteure montre comme le geste artistique devient un prendre soin et un levier de refiguration existentielle. L’écobiographie apparaît ainsi comme une enquête intérieure, écopoétique et relationnelle, capable de restaurer un lien vivant avec la Terre et d’ouvrir à une « seconde vie », à la fois personnelle et partagée. Mots-clés: Ecobiographie. Anthropocène. Création artistique. L’inter- relationnalité. Refiguration de soi. ECOBIOGRAPHY AND ARTISTIC PRACTICES: A SENSITIVE PATH TO SELF-AWARENESS IN AN INTERCONNECTED WORLD In light of the transformations of the Anthropocene, ecobiography emerges as a sensitive path to self-knowledge, based on the recog- nition of the interdependencies between humans, living beings, and non-living beings. Ecobiography renews the writing of the self by conceiving identity as relational, rooted in environments and sensi- tive experiences of the world. Artistic practices, through their media, play a significant role in reflective mediation, allowing the subject to constitute itself in—and through—its relationship with the living. In light of a photographic creation linked to personal mourning, the author shows how the artistic gesture becomes an act of care and a vector of existential reconfiguration. Ecobiography thus appears as an interior, ecopoetic, and relational investigation, capable of restor- ing a living bond with the Earth and opening up to a “second life,” both personal and shared. Keywords: Ecobiography. Anthropocene. Artistic creation. Inter-rela- tionality. Refiguration of the self. ECOBIOGRAFÍA Y PRÁCTICAS ARTÍSTICAS: UN CAMINO SENSIBLE HACIA EL CONOCIMIENTO DE UNO MISMO EN UN MUNDO INTERCONECTADO Ante las transformaciones del Antropoceno, la ecobiografía emerge como una vía sensible hacia el autoconocimiento, basada en el re- conocimiento de las interdependencias entre los seres humanos, los seres vivos y los seres inertes. La ecobiografía renueva la escritura del yo al concebir la identidad como relacional, arraigada en los en- tornos y en las experiencias sensibles del mundo. Las prácticas ar- tísticas, a través de sus soportes, desempeñan un papel significativo en la mediación reflexiva, permitiendo al sujeto constituirse en —y a RESUMEN ABSTRACT Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 3 Christine Delory-Momberger través de— la relación con lo vivo. A la luz de una creación fotográfica vinculada al duelo personal, la autora muestra cómo el gesto artísti- co se convierte en un acto de cuidado y un vector de reconfiguración existencial. La ecobiografía se presenta así como una investigación interior, ecopoética y relacional, capaz de restaurar un vínculo vital con la Tierra y abrirse a una «segunda vida», a la vez personal y com- partida. Palabras clave: Ecobiografía. Antropoceno. Creación artística. Interre- lacionalidad. Autorrefiguración. A atualidade disruptiva que figuramos sob o termo Antropoceno solicita de nós um posi- cionamento epistemológico, ético e político diante dos questionamentos suscitados pelos fenômenos antrópicos que ameaçam as for- mas de vida e as condições de habitabilidade da Terra. A tomada de consciência do impac- to das atividades humanas nos ecossistemas terrestres e a consequente redescoberta das interdependências e solidariedades entre os seres vivos num mundo, num solo comum, faz- nos figurar ou refigurar o nosso pertencimento à Terra. Estamos inseridos na comunidade dos seres vivos, agimos, sentimos e pensamos num mundo de ligações recíprocas. Esse desloca- mento exige questionar, com um novo olhar, o âmbito e a natureza das relações que os huma- nos estabelecem entre si, consigo próprios e com o mundo, já que a consciência das depen- dências e vulnerabilidades da vida – dentro de nós, entre nós e fora de nós – convida-nos a uma compreensão relacional do ser no mundo. Vivemos num mundo interligado, interde- pendente e interagente. Assim, o “nós” com que nos identificamos como humanos deve ser reexaminado à luz da nossa situação entre to- dos os seres vivos com os quais partilhamos a mesma morada terrestre, desde as bactérias e os vírus até as miríades de formas de vida animal e vegetal. Nossa história partilhada com todos os seres vivos é fundamentalmen- te a história da Terra, uma história na qual a espécie humana ocupa apenas uma parte mui- to pequena e recente, ao mesmo tempo que participa – como todas as outras espécies – de formas de história, e talvez de memória, consi- deravelmente mais longas e antigas. Graças a essas alianças e pertencimentos, as tramas e texturas de nossas vidas coletivas e individuais se tornam consideravelmente mais amplas e densas. Nossas espacialidades e temporalida- des mudam de escala e reinscrevem o curso de nossas vidas – não numa ordem transcenden- tal do mundo, num cosmos – mas num univer- so da vida, num biocosmo, quer o chamemos Gaia com Bruno Latour (2015) ou “comunidade biótica” com Baptiste Morizot (2017). Nesse quadro, nossas escritas da vida são colocadas em questão, postas à prova e radicalmente reconfiguradas. Porque hoje in- vadem nossas vidas, com um vigor renovado, a presença ativa do mundo e as múltiplas formas de seres vivos, com as redes de relações e os universos de sensações, emoções,interesses e conflitos daí originados. Precisamos portanto trabalhar em conjunto para encontrar vias pe- las quais as novas narrativas da Terra nos le- vem a pensar, em novos termos, a singularida- de da vida e a escrever suas múltiplas formas de existência. Entre estas, encontram-se as da vida humana – com suas particularidades e, em especial, suas capacidades autorreflexivas – (re)situadas e (re)filiadas às outras formas de vida, assim como aos seus afloramentos sensí- Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12584 Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado veis e às suas vulnerabilidades, iluminadoras de uma organicidade partilhada. Ecobiografia: uma escrita de si em ligação com a vida A ecobiografia abre uma via sensível para a realização de uma “investigação interior” (De- lory-Momberger, Bardawil, 2020) sobre nossas ligações e figurações de si em suas texturiza- ções com os outros seres, vivos e não-vivos, quer se trate do encontro com nossos seme- lhantes humanos, do toque nas plantas, da sensação dos minerais, da aproximação aos animais, da travessia de uma paisagem, da es- cuta do canto de um rio, do mergulho do olhar no desconhecido do céu e do mar, ou da con- sideração de todas as demais manifestações da criação terrestre. Como essas experiências impactaram discretamente a nossa história? Como se infiltraram no tecido perceptivo da nossa relação com o mundo, conferindo-lhe sua tonalidade íntima e singular? E como a crescente conscientização sobre a força des- ses chamados “laços frágeis” – muitas vezes vistos como inferiores nas sociedades alta- mente tecnologizadas – nos leva a reconfigu- rar nossos laços individuais e coletivos com o Outro e a nos reposicionar como seres interli- gados num mundo interligado. A ecobiografia propõe uma nova prática de escrita da vida. Jean-Philippe Pierron (2021) recorda-nos, desde logo, que “eco” se refere à ligação da vida com os seres vivos, e “bio” significa, etimologicamente, a vida que é es- crita. A ecobiografia desenvolve a ideia da escrita de um eu em seus laços recíprocos e interdependentes com seus “ambientes”. Des- se modo, inverte a centração solipsista de um sujeito narrador em favor de um eu em resso- nância vibratória com os seres vivos. O “eu” é relacional, ele vive e existe apenas em e por suas ligações”, “não há outro centro de gravi- dade que não seja relacional” (Pierron, 2023, p. 123). E esta consideração lança nova luz so- bre a noção de “identidade narrativa” de Paul Ricoeur (1985), que é estruturalmente marca- da por uma instabilidade de princípio, ao lhe conferir uma sólida ancoragem de alteridades com os seres vivos e não-vivos. Se a identi- dade narrativa se faz e desfaz constantemen- te no decurso das diferentes narrativas que o sujeito narrador enuncia, na variabilidade das circunstâncias biográficas e emocionais por que passa, o seu próprio núcleo ganha esta- bilidade com a declaração de sua ligação com seus ambientes. A ecobiografia possibilita a exploração de formas narrativas que poderiam consti- tuir uma identidade narrativa “aumentada”, revelando “zonas de ressonância” nas quais aprenderíamos “a escutar o mundo, a per- cebê-lo de maneira nova e a responder-lhe” (Rosa & Wallenhorst, 2022, p. 53). Poderíamos revisitar as noções de Paul Ricoeur (1985) de “mesmidade” (o mesmo em latim) e “ipseida- de” (Ipse = si mesmo), a partir do argumento de que, enquanto a identidade-mesmidade é válida pelo que subsiste no tempo, a ipseida- de que a completa abre-a a algo maior que o eu à medida que entra em jogo a consciência do ser ligado ao mundo. A identidade narrati- va baseia-se na ideia de que cada indivíduo se apropria e até se constitui numa narração de si constantemente renovada, uma biografiza- ção (Delory-Momberger, 2019), estabelecendo assim uma relação dialética que visa reduzir os dois polos, idem e ipse, de modo a revelar, aos outros e a si mesmo, um sujeito responsá- vel pelo sentido da sua vida, dos seus seme- lhantes e do mundo. O ser ligado ao mundo torna-se um “ser-mundo”, sentindo-o, absor- vendo suas pulsações e respondendo a elas por meio de uma compreensão e uma ação impactante. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 5 Christine Delory-Momberger Medium2, medialidades biográficas e práticas artísticas A relação do eu consigo mesmo não é imedia- ta, pois passa por esse terceiro elemento que é o “medium”, segundo as formas que o gesto artístico assume. A noção de medium chama a atenção para a fisicalidade dos materiais das artes, para seus traços específicos, para suas limitações e exigências, e também para as aberturas e possibilidades que estão liga- das à sua materialidade. Como explica Jacques Rancière: Em primeiro lugar, a palavra “medium” significa “aquilo que se coloca entre”: entre uma ideia e a sua realização, entre uma coisa e a sua repro- dução. O medium aparece assim como interme- diário, como meio para um fim ou como agente de uma operação. [...] Mas o medium já não é mais o meio para um fim. Ele é propriamente o que prescreve esse fim (Rancière, 2008, p. 1). O medium instaura uma medialidade entre um sujeito, em busca de si mesmo numa his- tória que ele tenta apreender, e uma revelação íntima de si. As noções de “medium” e de “me- dialidade” aportam uma fértil renovação ao modo como pensamos as mediações da rela- ção consigo mesmo em sua inter-relação com o mundo, tal como é figurada pela ecobiogra- fia. Ao explicitar o papel determinante do me- dium, de sua materialidade e de suas formas específicas na configuração da relação consigo mesmo e com o mundo, essas duas noções nos levam a reconhecer que o sujeito se constitui em práticas nas quais e pelas quais a subjetivi- dade se produz. As “medialidades biográficas” acompanham os processos de constituição do sujeito – aquilo a que nos referimos na pes- 2 N.T. Ao traduzir o termo francês “médium” como “me- dium” respeita-se aqui a transcriação, feita por Maria Passeggi, do artigo inaugural sobre o tema dentro da perspectiva da pesquisa biográfica: DELORy-MOMBER- GER, C.; BOURGUIGNON , J.-C. Medialidades biográficas, práticas de si e do mundo. Revista Brasileira de Pes- quisa (Auto)biográfica, [S. l.], v. 8, n. 23, p. e1129, 2023. quisa biográfica como trabalho biográfico ou processo de biografização (Delory-Momberger, 2019) –, que passam por mediums e são objeto de mediações que caracterizam processos de medialidade. A contribuição quantitativa ou extensiva da noção de “medialidades biográficas” leva- nos a considerar que existe uma grande di- versidade de mediums e de práticas mediais. Embora tenhamos tendência a focalizar ape- nas as mediações discursivas, em particular a narrativa oral ou escrita, todas as práticas em que se exerce um fazer estético, sensí- vel e criativo podem constituir medialidades biográficas. Estas englobam, portanto, todas as formas de expressão e de linguagem: fala- das e escritas, mas também fotográficas, so- noras, gráficas, plásticas, digitais, corporais, gestuais, cênicas etc. No campo das formas narrativas propriamente ditas, isso nos per- mite ampliar a narrativa a outras modalida- des expressivas, que passam pela imagem, o desenho, a foto fixa ou em movimento (qua- drinhos, mangás, filmes, novelas, séries etc.). Entre outras consequências, a reflexão ligada à “medialidade”, ao mesmo tempo que ex- pande o campo das práticas, abre caminho, no campo da formação, para novas aborda- gens mais conscientes do papel constitutivo das mediações nos processos de construção do sujeito em suas inter-relações e interde- pendências com o mundo dos seres vivos e não-vivos. A noção de automedialidade evi- dencia o desvio e a necessária exterioriza- ção que o medium institui a fim de mediar a relação de um sujeito consigo mesmo e sua consciênciade pertencimento à Terra – quer se trate da escrita, em suas múltiplas formas, suportes e dispositivos, ou de qualquer outro medium (pintura, fotografia, música, dança, teatro etc.): Para poder constituir uma relação consigo mes- mo, o indivíduo é obrigado a percorrer o desvio Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12586 Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado de uma exteriorização medial. Paradoxalmente, a relação de um sujeito consigo mesmo só é possível quando há uma ruptura com o estado de um ser-em-si-mesmo e de um intercâmbio imediato consigo mesmo, emprestando a exte- rioridade de um medium. Não existe um eu sem uma relação reflexiva com o eu, e não existe re- lação com o eu sem o recurso à exterioridade de um medium técnico que abra ao indivíduo o espaço onde pode ser exercida uma prática do eu. Neste sentido, a noção de automedialida- de postula uma interpenetração constitutiva do dispositivo medial, da reflexividade subjetiva e do trabalho prático sobre si (Moser & Dünne, 2008, p. 18, tradução revisada). Um gesto artístico por um caminho automedial de conhecimento de si num mundo interligado Para esta terceira parte, optei por relatar uma ecobiografia fotográfica, como contrapeso às afirmações teóricas feitas anteriormente. Tra- ta-se da minha série Nas entranhas da Terra, iniciada imediatamente após a morte de meu companheiro. As imagens são coloridas e di- gitais, ao contrário de quase todas as minhas séries fotográficas anteriores, que se propu- nham essencialmente a explorar uma memó- ria familiar intergeracional. Realizei esta nova série fotográfica em modo de espreita, movida pela busca de imagens que me devolvessem um mundo subitamente esvaziado. O gesto ar- tístico que eu augurava conduzia a encontros e confrontos com seres vivos, vegetais e mine- rais, a deslumbramentos face à imensidão dos céus e a mergulhos em abismos insuspeitados. Esse corpo a corpo, no fio de uma existência no cume, tornava-se um gesto de “corpropriação” (Pierron, 2023), que me fazia entrar na carne do mundo e me ensinava uma outra maneira de habitar a Terra. Vejamos o pequeno vídeo da série fotográ- fica Nas entranhas da terra. Projeção do vídeo “Aux entrailles de la Terre” (Nas entranhas da terra) https://www.youtube.com/watch?v=g0KEyNFPdhE O véu do luto havia sido retirado, o mundo ha- via se apagado, a sombra havia roído a luz e, nessas dobras da vida, o medium da fotografia se impunha como um viático para tentar sair dos escombros do meu desmoronamento. Este terceiro elemento medial, a máquina fotográfi- ca, permitia-me restabelecer as pontes com os vivos que haviam sido destruídas, abrir minha dor e deixar entrar raios de claridade; e, ao co- locar-me na presença de outros, humanos ou não-humanos, iniciar uma relação sensível e, assim, criar um diálogo salvador com a Terra. Como vimos no vídeo, as imagens apresen- tam rachaduras e perfurações, deixando aflo- rar o vazio do mundo. Estrias venosas riscam a areia submersa, a eflorescência espumosa da vegetação contrasta com os troncos secu- lares aparados e reunidos num monte lunar. O pulsar do mundo remete aos céus cintilantes. Uma figura de pedra gravada num muro citadi- no conduz a rochedos de granito na encosta. Animais à espreita juntam-se a humanos de tocaia, vestidos de humanidade, atravessados pela potência vibrátil dos corpos. O tempo sus- penso das origens mergulha o universo num recolhimento profundo e a Terra exala o seu rumor trêmulo. Durante essa viagem em imagens, sondei os céus, mergulhei nas entranhas da Terra, ex- traindo do caos a força para viver. Num memo- rável corpo a corpo, liguei-me aos poderes dos vivos e encontrei o meu fôlego. Nas últimas quatro imagens, vemos serpentes. Em seu du- plo significado simbólico, esse animal repre- senta a Terra, o renascimento e a eternidade, mas também a morte. É um animal do limiar, da matriz, do desejo. Opera mutações, perde https://www.youtube.com/watch?v=g0KEyNFPdhE Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e1258 7 Christine Delory-Momberger sua pele antes de se regenerar. Casa-se com a Terra em núpcias cheias de graça, e está onde menos se espera. Observa e deseja. No conto alquimista de Goethe, A Serpente Verde (1998), transmuta-se e torna-se uma ponte entre dois mundos: o mundo secreto iniciático da revela- ção a si mesmo e aquele que se abre ao prota- gonista do conto, que parte então à descober- ta desse novo mundo que se lhe abriu. O encontro com a serpente proporcionou o meu primeiro alívio sensível, abrindo-me a uma possível reconciliação, compreendendo que a morte era uma iniciação à vida. Pude começar a deixar para trás as trevas, os cla- ros-obscuros dos limbos habitados por fantas- mas, e deixar entrar a luz plena. Eu precisava me aproximar ao máximo, até a profundeza dos rostos e dos corpos, envolver-me na man- ta vegetal, enterrar-me na massa terrosa, cho- car-me com o mármore granítico, num abraço que me confundiria, tocaria o meu íntimo, me revelaria e abriria à carne do mundo. No final da viagem, pude enfrentar um tempo presente da vida e dar lugar a outra página da história. A ecobiografia em ato: uma investigação interior O gesto artístico ecobiográfico é um gesto eco- poético relacional de cuidado de si e do mundo consigo mesmo. É uma experiência de corpo e alma, que nos coloca “o mais próximo possível da nossa vitalidade animal” (Pierron, 2024, p. 60), que nos leva a olhar para fora de nós, com uma atenção sensível e uma consciência de nosso pertencimento e interdependência, para aquilo que nos liga ao mundo e nos mantém vivos. Trata-se de uma experiência pática, uma “experiência sentida de estar no mundo” (Ibi- dem, p. 61) que transforma o ver e o perceber num sentimento de estar ligado. A ecobiogra- fia é uma “arte da atenção” (Ibidem, p. 1998), um deslumbramento com as aparências inau- ditas, os tremores e as fragilidades dos vivos e uma aproximação esclarecida aos não-vivos. Não existe ecobiografia sem encontro. Trata-se de ir ao encontro do outro, experimentar mu- tuamente o vivo e ser tocado pela impressão diante do não vivo. É feita de impulsos, con- tenções e desprendimentos, de efervescência e de silêncio. Ela induz à responsabilidade, que Levinas nos diz ser cuidado com o outro, bene- volência e solicitude porque a sua vulnerabili- dade me obriga (Lévinas, 1990). A ecobiografia plástica se une à investiga- ção interior, que visa tornar-nos conscientes da parte invisível de nós mesmos no ato da criação. Essa interligação, esse laço profun- do, revela-se na imagem e é a sua força, a sua “efração”. A imagem abre a uma imensidão, interrompe o tempo, marca uma cisão, impõe um silêncio. É uma insistência que se cala, uma reafirmação do seu criador até encontrar o seu ponto de compreensão e apaziguamento. A fo- tografia tem um poder transformador do eu, do mundo consigo e do eu com o mundo. Essas transformações geradas pelas imagens fazem surgir “revelações” - aquilo a que Jean-Christo- phe Bailly chama “epifanias da vida”. Induzem a aprendizagens de si que refiguram a relação consigo próprio, com os outros e com o mundo. O ato fotográfico capta, para além do visí- vel, o inusitado do que a imagem representa, o que “escapou” ao momento em que foi tirada, mas que está lá, tecido na imagem, porque o fotógrafo, estando intrínseca e intimamente li- gado ao que fotografa, coloca essa parte íntima de si em cada ato fotográfico. A investigação interior procura esse aspecto oculto da ima- gem, revelando suas linhas condutoras, suas encruzilhadas, suas dobras e zonas de sombra. Desvenda assim, ao longo do caminho, o fio de uma história que se manifestou no ato de cria- ção e que o orientou com vigor ou suavidade, mas sempre com uma determinação própria a cada artista. RevistaBrasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, 2025, v. 10, n. 25, p. 01-09, e12588 Ecobiografia e práticas artísticas: caminho sensível para o conhecimento de si num mundo interligado Prática artística ecobiográfica: alavanca para uma “segunda vida” O luto, um choque frontal com a realidade dos vivos, um negativo da existência – mesmo que ele seja universal – é vivido como uma expe- riência forjada numa provação singular, e de- manda uma refiguração existencial no espaço e no tempo (Ricoeur, 1990). O luto é essa pas- sagem em que a existência se desvincula do tempo, suspensa na perda, trazendo no seu oco um passado que não passa, e fazendo “da- quele que fica” (Delecroix & Forest, 2015), um ser marcado pelo selo de sua tristeza. Peran- te essa provação da perda, outros caminhos são explorados e a pessoa em luto, apelando a recursos insuspeitados do viver e a forças criativas libertadoras que “reabrem possibi- lidades” (Jullien, 2023), toca um processo de refiguração de si. A morte é um acontecimento katastrophê, palavra grega que significa, como nos recor- da Mutuale, reviravolta, perturbação, ruína. O mundo desmorona, as referências desabam e aquele que fica é tomado pela perplexidade. Ele vive uma “experiência pessoal do abismo que se abre [...] sobre o sentido de sua vida” (Mutuale, 2017, p.131). É confrontado com um “desmembramento” (Boudinet, 2012, p. 71) e com uma consciência de “não-coincidência que afeta tanto o mundo como o indivíduo” (Baudry, 2006, 479), o que o desequilibra tan- to pessoal como socialmente. Na súbita verti- gem de uma vida à beira do precipício perante a explosão de um mundo que até então era habitado, “a questão é compreender em que e como posso apoiar-me, no fundo de meu abismo, em mim mesmo e nos outros para re- gressar a um mundo habitado” (Mutuale, op. cit., p. 131). Como segurar e em que se segurar (Pierron, 2025) representa então uma linha de existência. O processo de luto é um processo íntimo e singular “em torno do que se perdeu, do esta- tuto do que se perdeu e da relação com o que se perdeu” (Delecroix & Forest, op. cit., p. 12). O enlutado realiza o trabalho de seu luto, um trabalho do luto, no qual recorre a seus recur- sos biográficos, vitais e psicológicos, confron- tando-se com múltiplas explosões emocionais que escapam ao seu controle. A prática artísti- ca ecobiográfica abre espaço para uma recria- ção de si interligada ao mundo, para “transfor- mações silenciosas” (Jullien, 2010) com a vida, nas quais, lentamente, a pessoa em luto se di- fere, se relança e se reengaja naquilo que Fran- çois Jullien nomeia uma “segunda vida” (2017). Ela é mediadora dessa inversão que permite ir em direção a um renascimento em um mundo habitado e interligado, onde a morte terá o seu justo lugar e dará sentido a tal reinvenção de vida. Referências Baudry, P. Travail du deuil, travail de deuil. Revue ETUDES, tome 399/5, novembre, 2003. 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