Prévia do material em texto
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
SP 2.3 – Mas eu não sinto nada...
Homem de 56 anos vai a sua clínica pela primeira vez.
Há sete anos, no exame de saúde no trabalho, teve
diagnóstico de hipertensão e de hipercolesterolemia.
Na ocasião, consultou um médico que prescreveu um
diurético e o aconselhou a perder algum peso com
dieta e exercícios. Desde aquela época, o paciente não
procurou atendimento médico. Durante os últimos dois
meses, tem cefaleia ocasional, que atribui à tensão no
trabalho.
Nega dor torácica, falta de ar, dispneia de esforço e
dispneia paroxística noturna. Fuma um maço de cigarro
por dia desde os 15 anos de idade. Normalmente, bebe
dois copos de vinho no jantar. O paciente é obeso, você
calcula seu índice de massa corporal (IMC-30). A
pressão arterial no braço direito é de 168/98 mmHg e
de 170/94 mmHg no braço esquerdo. A pressão arterial
não se altera com a mudança de posição. A frequência
cardíaca é de 84 bpm. Não tem aumento de tireoide ou
linfadenopatia.
O exame do fundo de olho mostra estreitamento de
artérias, cruzamento arteriovenoso patológico e
hemorragias em chama de vela com exsudatos
algodonosos. O exame cardíaco mostra que o ictus está
desviado 2 cm para a esquerda da linha hemiclavicular.
Há galope B4, e não são auscultados sopros. O exame
dos pulmões e do abdome é normal.
Questões de Aprendizagem
1. Definir critérios para o diagnóstico de hipertensão
arterial (passo a passo).
2. Elencar os critérios para aferição da PA, segundo o
novo conceito.
3. Classificar a hipertensão segundo o novo consenso.
4. Quais são as condutas nos diferentes valores
pressóricos (grupos farmacológicos, associações).
5. Compreender as principais causes de hipertensão
arterial secundária.
6. Citar e justificar quais são os exames laboratoriais
indicados para o diagnóstico e monitoramento da
HAS.
Epidemiologia e Carga da Doença no Brasil
A HAS é um problema de saúde pública de magnitude
alarmante no Brasil. A prevalência autorreferida,
monitorada anualmente pela pesquisa VIGITEL, tem
demonstrado uma tendência de crescimento,
alcançando 27,9% da população adulta em 2023. A
prevalência aumenta de forma linear com o
envelhecimento, acometendo 65,1% dos indivíduos
com mais de 65 anos.
Contudo, os dados autorreferidos subestimam a real
dimensão do problema. Estudos populacionais que
incluem a aferição direta da PA em amostras da
população brasileira revelam uma prevalência
consideravelmente maior, em torno de 36%. Essa
discrepância entre a prevalência autorreferida e a
prevalência medida aponta para uma parcela
expressiva da população que vive com hipertensão não
diagnosticada.
O impacto clínico da HAS é devastador. Ela figura como
o principal fator de risco isolado para mortalidade total
no Brasil e estima-se que seja responsável por 54% de
todas as mortes de causa cardiovascular no país. De
forma preocupante, a análise de dados históricos
demonstra que o número de mortes por DCV atribuídas
à HAS tem apresentado uma tendência de crescimento
contínuo, sublinhando a urgência de estratégias mais
eficazes de controle.
Definição Clínica e Fisiopatologia
A DBHA 2025 mantém a definição clássica de HAS como
uma doença crônica não transmissível, caracterizada
pela elevação persistente da Pressão Arterial Sistólica
(PAS) em níveis maiores ou iguais a 140 mmHg e/ou da
Pressão Arterial Diastólica (PAD) em níveis maiores ou
iguais a 90 mmHg. Este diagnóstico deve ser
confirmado com a técnica de aferição correta, em pelo
menos duas ocasiões distintas, na ausência de
medicação anti-hipertensiva.
Embora cerca de 5% a 10% dos casos de HAS tenham
uma causa identificável (HAS secundária), a grande
maioria é classificada como HAS primária ou essencial,
uma condição multifatorial complexa. A compreensão
dos seus mecanismos fisiopatológicos é a base para o
raciocínio terapêutico e a escolha racional dos
fármacos. A HAS primária resulta de um desequilíbrio
crônico em múltiplos sistemas regulatórios
interconectados:
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA):
Este sistema neuro-hormonal é um dos pilares da
regulação da PA. Sua hiperativação crônica leva a um
ciclo vicioso de aumento da PA.
A ativação do Sistema Renina-Angiotensina-
Aldosterona (SRAA) é deflagrada primariamente pela
liberação de renina pelas células do aparelho
justaglomerular renal. No contexto da fisiopatologia da
HAS, essa liberação não ocorre como uma resposta
fisiológica a uma hipotensão real, mas sim por
estímulos patológicos crônicos. Os principais gatilhos
incluem:
1) Hipoperfusão renal percebida, que pode ocorrer por
nefrosclerose hipertensiva ou estenose de artéria
renal, fazendo o rim interpretar a pressão local como
baixa, mesmo com PA sistêmica elevada.
2) Hiperatividade do sistema nervoso simpático, uma
característica central da HAS essencial, onde a
estimulação crônica de receptores beta-1 no rim induz
a liberação contínua de renina. Este é talvez o principal
motor na maioria dos pacientes com HAS Essencial,
especialmente nos mais jovens. Não é um "estresse"
vago, são mecanismos fisiopatológicos concretos:
Obesidade: O tecido adiposo, especialmente o visceral,
é um órgão endócrino ativo. Ele secreta leptina, que
atua no hipotálamo aumentando o tônus simpático
central. Além disso, a inflamação crônica de baixo grau
associada à obesidade também contribui para essa
hiperatividade.
Resistência à Insulina: A hiperinsulinemia
compensatória tem um efeito direto de estímulo ao
SNS.
Apneia Obstrutiva do Sono: A hipóxia intermitente
durante a noite é um estímulo simpático
extremamente potente, que persiste durante o dia.
Estresse Psicológico Crônico: A exposição contínua a
cortisol e catecolaminas "recalibra" o sistema para um
estado de alerta permanente.
A descarga simpática crônica bombardeia os
receptores beta-1 das células justaglomerulares no
rim, forçando uma liberação contínua e inadequada de
renina. O rim passa a se comportar como se o corpo
estivesse perpetuamente em uma situação de "luta ou
fuga".
3) Redução na entrega de sódio à mácula densa, um
mecanismo que perpetua o ciclo em certas condições.
A angiotensina II, o principal efetor do sistema,
promove uma potente vasoconstrição arteriolar,
elevando a resistência vascular periférica. Além disso,
estimula a liberação de aldosterona pelo córtex
adrenal, que atua nos rins promovendo a reabsorção
de sódio e água, resultando em expansão do volume
plasmático.
A compreensão deste eixo justifica o uso de Inibidores
da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA),
Bloqueadores dos Receptores de Angiotensina II (BRA)
e Antagonistas dos Receptores Mineralocorticoides
(ARM) como terapias fundamentais.
Disfunção Endotelial: Em condições fisiológicas, o
endotélio vascular mantém um equilíbrio delicado
entre a produção de substâncias vasodilatadoras (como
óxido nítrico e prostaciclinas) e vasoconstritoras (como
a endotelina-1). Na HAS, este equilíbrio é rompido,
predominando um estado pró-vasoconstritor e pró-
inflamatório. Essa disfunção contribui para o aumento
da rigidez arterial e da resistência vascular periférica,
perpetuando a elevação da PA. Os Bloqueadores dos
Canais de Cálcio (BCC) atuam diretamente na
musculatura lisa vascular, promovendo relaxamento e
contrapondo-se a este estado de vasoconstrição.
Fatores Genéticos e Ambientais: A HAS essencial
possui uma forte base genética, de herança poligênica.
Múltiplas variantes genéticas, cada uma com um
pequeno efeito, contribuem para a suscetibilidade
individual. No entanto, a expressão desses genes é
profundamente modulada por fatores ambientais e de
estilo de vida. Uma dieta rica em sódio, pobre em
potássio, a obesidade, o sedentarismo e oestresse
crônico são fatores que exacerbam a disfunção dos
sistemas regulatórios mencionados, atuando como
gatilhos para o desenvolvimento da doença em
indivíduos predispostos.
Aferição da Pressão Arterial
O diagnóstico e o manejo da HAS dependem
fundamentalmente de uma medida de PA precisa e
reprodutível. A DBHA 2025 dedica atenção especial à
padronização da técnica de aferição, reconhecendo
que erros neste processo são uma fonte comum de
diagnósticos equivocados e condutas terapêuticas
inadequadas. A diretriz recomenda fortemente o uso
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
de equipamentos automáticos de braço, validados e
calibrados, por reduzirem a variabilidade
interobservador e facilitarem a execução do
procedimento.
O protocolo detalhado para a aferição correta da PA no
consultório, conforme a DBHA 2025, envolve as
seguintes etapas cruciais:
Preparo do Paciente: O paciente deve estar em
repouso por pelo menos 5 minutos em um ambiente
calmo e com temperatura agradável. É fundamental
que esteja com a bexiga vazia e que não tenha
praticado exercícios físicos nos 90 minutos anteriores,
nem ingerido cafeína, alimentos ou fumado nos
últimos 30 minutos. Durante o repouso e a medição, o
paciente não deve falar.
Posicionamento Correto: O paciente deve estar
sentado, com o dorso recostado na cadeira, pernas
descruzadas e ambos os pés apoiados no chão. O braço
deve estar despido, apoiado em uma superfície firme
(como uma mesa), com a palma da mão voltada para
cima e o ponto médio do braço na altura do coração.
Seleção do Equipamento: O manguito deve ter o
tamanho adequado para a circunferência do braço do
paciente. Um manguito pequeno superestima a PA,
enquanto um manguito grande a subestima. A bolsa
inflável do manguito deve cobrir cerca de 80% da
circunferência do braço.
Técnica de Medição: Devem ser realizadas três
medidas consecutivas, com um intervalo de 1 minuto
entre elas. A primeira medida deve ser descartada, e o
valor da PA a ser considerado para o registro é a média
das duas últimas medidas. Na primeira consulta, é
mandatório aferir a PA em ambos os braços; o braço
com o valor mais elevado deve ser utilizado como
referência para as medições subsequentes.
Avaliação em Populações Especiais: Em idosos,
diabéticos e pacientes em uso de anti-hipertensivos, é
essencial pesquisar hipotensão ortostática. Para isso, a
PA deve ser medida na posição supina e, em seguida, 1
e 3 minutos após o paciente assumir a posição
ortostática. Uma queda da PAS de 20 mmHg ou mais,
e/ou da PAD de 10 mmHg ou mais, define a hipotensão
ortostática.
Diagnóstico
O diagnóstico de HAS é um processo que exige
confirmação para evitar o rótulo e o tratamento
desnecessários. O algoritmo diagnóstico proposto pela
DBHA 2025 integra medidas de consultório e,
idealmente, medidas fora do consultório.
Passo 1: Suspeita Clínica: A suspeita de HAS surge a
partir de uma medida de PA no consultório com valores
de PAS 140 mmHg e/ou PAD 90 mmHg.
Passo 2: Confirmação Diagnóstica: O diagnóstico é
formalmente estabelecido quando a média das
medidas de PA no consultório se mantém
140/90 mmHg em pelo menos duas consultas médicas
distintas, realizadas em dias ou semanas diferentes.
Uma exceção ocorre em pacientes que já apresentam
Lesão de Órgão-Alvo (LOA) ou DCV estabelecida, nos
quais o diagnóstico pode ser confirmado com base em
uma única série de medidas elevadas.
Passo 3: Confirmação com Medidas Fora do
Consultório: A DBHA 2025 eleva a importância das
medidas fora do consultório, recomendando
fortemente o uso da Monitorização Ambulatorial da
Pressão Arterial (MAPA) de 24 horas ou da
Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA)
para confirmar o diagnóstico sempre que possível. A
superioridade desses métodos reside na sua
capacidade de avaliar a PA durante as atividades
diárias e o sono, fornecendo uma estimativa mais
robusta da carga pressórica real do paciente e
possuindo maior valor prognóstico para eventos
cardiovasculares do que as medidas isoladas de
consultório.
Critérios para MAPA (24h): Diagnóstico de HAS se a
média for ≥130/80 mmHg.
Critérios para MRPA: Diagnóstico de HAS se a média
for ≥130/80 mmHg.
Passo 4: Identificação de Fenótipos Clínicos: A
combinação das medidas de consultório e fora dele é
crucial para identificar fenótipos com diferentes
prognósticos e abordagens terapêuticas:
Hipertensão do Avental Branco (HAB): Caracteriza-se
por PA elevada no consultório (≥140/90 mmHg) mas
normal fora dele (média na
MAPA/MRPAde
exames complementares para identificar
comorbidades e Lesões de Órgãos-Alvo (LOA), e a
aplicação de escores de risco.
A avaliação clínica inicial deve ser sistemática e focada
em identificar fatores que modulam o RCV e que
possam indicar causas secundárias de HAS.
Anamnese: A investigação deve ir além da história da
doença atual. É fundamental questionar ativamente
sobre:
História Familiar: DCV prematura em parentes de
primeiro grau.
Estilo de Vida: Detalhar o consumo de sódio, álcool,
prática de atividade física e tabagismo.
Medicamentos em Uso: Investigar o uso de substâncias
que podem elevar a PA, como anti-inflamatórios não
esteroidais (AINEs), corticoides, descongestionantes
nasais e contraceptivos orais.
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
Sintomas de LOA: Questionar sobre dispneia aos
esforços (IC), dor torácica (doença arterial coronariana
- DAC), claudicação intermitente (doença arterial
obstrutiva periférica - DAOP) ou déficits neurológicos
(AVC prévio).
Sintomas de HAS Secundária: Investigar a presença de
paroxismos de cefaleia, palpitações e sudorese
(sugestivo de feocromocitoma), fraqueza muscular e
cãibras (hipocalemia no hiperaldosteronismo), ou
roncos e sonolência diurna excessiva (apneia do sono).
Exame Físico: Deve ser completo, com ênfase na busca
por sinais que corroboram a estratificação de risco:
Dados Antropométricos: Medir peso, altura (para
cálculo do IMC) e circunferência abdominal.
Exame Cardiovascular: Além da aferição correta da PA,
palpar o ictus cordis (desvio sugere HVE), auscultar a
presença de terceira ou quarta bulhas (B3/B4), sopros
cardíacos e carotídeos, e palpar todos os pulsos
periféricos.
Exame Abdominal: Procurar por sopros em flancos ou
região periumbilical (sugestivo de estenose de artéria
renal) e massas renais.
Fundoscopia: Essencial para avaliar a presença e o grau
de retinopatia hipertensiva, um marcador direto de
dano microvascular.
Exames Complementares
A DBHA 2025 recomenda uma série de exames
complementares de rotina para todos os pacientes com
diagnóstico recente de HAS. Cada exame possui uma
justificativa clínica específica, seja para avaliar o RCV
global, detectar LOA subclínicas ou rastrear causas
secundárias.
Exame Justificativa Clínica no Raciocínio
Diagnóstico
Análise de urina (EAS) Rastreio de doença renal primária
(hematúria, cilindros) e dano renal
(proteinúria).
Potássio plasmático Rastreio de hiperaldosteronismo
primário (hipocalemia). Fundamental
para monitorar segurança no uso de
IECA, BRA e diuréticos.
Creatinina e TFGe Avalia a função renal, que é tanto
uma causa quanto uma consequência
da HAS. Classifica a DRC, um potente
modificador de risco.
Glicemia de jejum e
HbA1c
Diagnóstico de diabetes mellitus, uma
comorbidade que eleva
drasticamente o RCV e influencia a
escolha terapêutica.
Perfil lipídico completo Avaliação do RCV global e definição
de metas para o tratamento da
dislipidemia.
Ácido úrico Marcador de risco metabólico e
cardiovascular, frequentemente
elevado em pacientes com HAS.
Eletrocardiograma
(ECG)
Método de rastreio acessível e
fundamental para a detecção de
Hipertrofia Ventricular Esquerda
(HVE), sobrecargas, arritmias e sinais
de DAC isquêmica.
Exames para Avaliação de LOA (se indicado)
Relação
Albumina/Creatinina
(RAC)
Padrão-ouro para detecção de dano
renal precoce (microalbuminúria,
definida como RAC >30 mg/g). É um
marcador prognóstico independente.
Ecocardiograma Confirma e quantifica a HVE (LOA
cardíaca mais comum), avalia a
função diastólica e sistólica do
ventrículo esquerdo.
USG de carótidas Identifica a presença de placas
ateroscleróticas, um marcador de
doença vascular subclínica que
reclassifica o risco do paciente.
Rastreio de Hipertensão Secundária
Embora a maioria dos casos seja de HAS primária, a
investigação de causas secundárias é mandatória em
subgrupos específicos de pacientes, pois o tratamento
direcionado pode levar à cura ou a um controle muito
melhor da PA. A suspeita deve ser levantada em casos
de: início da HAS antes dos 30 anos, HAS resistente ou
refratária, aumento súbito e significativo da PA em um
paciente previamente estável, ou na presença de
achados clínicos e laboratoriais sugestivos.
As principais causas a serem consideradas no raciocínio
clínico são:
Doença Renal Parenquimatosa: É a causa mais comum
de HAS secundária. A pista diagnóstica vem da
avaliação laboratorial inicial (TFGe reduzida, alterações
no sedimento urinário).
Hiperaldosteronismo Primário: É a causa endócrina
mais comum, especialmente em pacientes com HAR. A
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
principal pista é a presença de hipocalemia
(espontânea ou induzida por diuréticos), embora
muitos pacientes sejam normocalêmicos. A
investigação inicial é feita com a dosagem de
aldosterona e atividade de renina plasmática.
Apneia Obstrutiva do Sono (AOS): Extremamente
prevalente em pacientes com HAR (até 80% dos casos).
A suspeita clínica baseia-se em obesidade,
circunferência cervical aumentada, roncos e sonolência
diurna. O diagnóstico é confirmado pela
polissonografia.
Estenose de Artéria Renal: A suspeita aumenta em
pacientes com sopro abdominal, início de HAS após os
55 anos, ou piora aguda da função renal após o início
de um IECA ou BRA.
Feocromocitoma: Causa rara, mas que deve ser
lembrada. A apresentação clássica é a tríade de
paroxismos de cefaleia, palpitações e sudorese. A
investigação é feita com a dosagem de metanefrinas
plasmáticas ou urinárias.
Estratificação de Risco Cardiovascular
A DBHA 2025 recomenda o uso do escore PREVENT
(Predicting Risk Of Cardiovascular Disease Events)
para a estimativa do risco de DCV em 10 anos. Esta
escolha representa um avanço significativo, alinhando
a prática brasileira a uma visão mais integrada da saúde
cardio-renal-metabólica. Ao contrário de escores mais
antigos, o PREVENT incorpora não apenas os fatores de
risco clássicos (idade, sexo, PA, colesterol, tabagismo,
diabetes), mas também marcadores de função renal,
como a TFGe e a Relação Albumina/Creatinina (RAC).
A inclusão desses marcadores renais no cálculo de risco
formaliza um conceito fundamental: o rim não é
apenas um órgão-alvo passivo da hipertensão, mas um
participante ativo e um modulador central do risco
cardiovascular total. Na prática, isso significa que um
paciente com a mesma idade, PA e perfil lipídico terá
seu risco drasticamente reestratificado para cima se
apresentar uma TFGe reduzida ou microalbuminúria.
Essa reclassificação tem implicações diretas na
conduta, justificando um início mais precoce e um
tratamento mais agressivo da HAS, com foco não
apenas no controle da PA, mas também na
nefroproteção.
Definição do Início do Tratamento e das Metas
Terapêuticas
A decisão de quando iniciar o tratamento
farmacológico depende do nível da PA e do RCV do
paciente.
• Quando Iniciar o Tratamento
Medicamentoso:
PA ≥140/90 mmHg (HA Estágios 1, 2 ou 3): O
tratamento medicamentoso deve ser iniciado
imediatamente em conjunto com as MNM para todos
os pacientes, independentemente do seu RCV
calculado.
PA 130-139 / 80-89 mmHg (Pré-hipertensão): O
tratamento medicamentoso é indicado apenas para os
pacientes classificados como de ALTO RISCO
CARDIOVASCULAR (seja pelo escore PREVENT, seja
pela presença de DCV, DM ou DRC estabelecidas), e
somente se a PA não atingir a meta após um período de
3 meses de MNM efetivas. Para pré-hipertensos de
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
risco baixo a moderado, a abordagem se restringe às
MNM.
Meta Terapêutica Universal: A DBHA 2025 estabelece
uma meta de tratamento unificada e mais rigorosa para
a maioria dos pacientes. O objetivo é alcançar e manter
uma PAtodos os indivíduos em
tratamento farmacológico.
Individualização e Exceções: A diretriz reconhece que
a meta universal pode não ser apropriada para todos.
Em pacientes idosos frágeis (especialmente ≥80 anos),
com múltiplas comorbidades, expectativa de vida
limitada ou que desenvolvam efeitos adversos (como
hipotensão postural), a meta deve ser individualizada.
Nesses casos, o objetivo é reduzir a PA até o nível mais
baixo que seja bem tolerado pelo paciente,
priorizando a segurança e a qualidade de vida.
Tratamento Farmacológico
A DBHA 2025 promove uma mudança filosófica
fundamental na estratégia de tratamento inicial,
passando da abordagem escalonada tradicional para a
terapia combinada como regra.
Terapia Combinada como Primeira Linha (A Regra):
Para a maioria dos pacientes que iniciam o tratamento
(todos com HA Estágio 1 de risco moderado/alto e
todos com Estágios 2 e 3), a recomendação é começar
com uma associação de dois fármacos em doses
baixas. Idealmente, essa combinação deve ser
administrada em um comprimido único (dose fixa
combinada) para simplificar o regime posológico e,
consequentemente, melhorar a adesão ao tratamento.
Esta recomendação de iniciar com terapia dupla reflete
uma mudança de uma abordagem reativa ("comece
com um fármaco e adicione outro se não funcionar")
para uma abordagem proativa ("atinja a meta de forma
rápida e eficaz"). Essa estratégia visa combater
diretamente a inércia terapêutica, a falha em iniciar ou
intensificar o tratamento quando indicado, que é um
dos maiores obstáculos para o controle da PA na prática
clínica. Fisiopatologicamente, a terapia combinada é
mais lógica, pois ataca múltiplos mecanismos da HAS
simultaneamente (por exemplo, o SRAA com um
IECA/BRA e a vasoconstrição periférica com um BCC),
resultando em uma redução da PA mais potente e
rápida.
Monoterapia (A Exceção): O início com um único
fármaco fica reservado para um grupo seleto de
pacientes:
• Pacientes com HA Estágio 1 e baixo RCV (a
critério médico).
• Idosos frágeis ou com idade ≥80 anos.
• Pacientes com pré-hipertensão de alto risco
que necessitam de tratamento farmacológico.
A escolha das classes de medicamentos segue uma
hierarquia baseada em evidências de redução de
desfechos cardiovasculares.
Combinação Dupla Preferencial: A associação de
primeira linha é um bloqueador do SRAA (IECA ou
BRA) + um Bloqueador dos Canais de Cálcio (BCC) di-
hidropiridínico OU um Diurético tiazídico/similar.
Combinação Tripla: Se a meta de PA não for alcançada
com a terapia dupla em doses otimizadas, o próximo
passo é a associação dos três fármacos de primeira
linha: Bloqueador do SRAA + BCC + Diurético
tiazídico/similar.
Papel dos Betabloqueadores (BB): Os BB não são
considerados terapia de primeira linha para o
tratamento da HAS não complicada. Seu uso é
reservado para pacientes que possuem indicações
específicas e comorbidades que se beneficiam de seus
efeitos, como insuficiência cardíaca com fração de
ejeção reduzida, doença arterial coronariana (pós-IAM,
angina), necessidade de controle de frequência
cardíaca em fibrilação atrial, ou em mulheres jovens
que planejam engravidar.
Classe Fármacos Comuns
(Dose diária em mg)
Mecanismo de Ação
(Farmacodinâmica)
Efeitos Adversos / Interações
Notáveis
Diuréticos
Tiazídicos/Similares
Hidroclorotiazida
(12.5-50), Clortalidona
Inibem o cotransportador
Na+/Cl- no túbulo contorcido
distal, aumentando a
Hipocalemia, hiponatremia,
hiperuricemia, hiperglicemia.
Clortalidona e Indapamida são
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
(12.5-25), Indapamida
(1.5)
natriurese e reduzindo a
volemia. Efeito vasodilatador a
longo prazo.
preferíveis pela meia-vida longa
e maior potência anti-
hipertensiva.
IECA Captopril (25-150),
Enalapril (5-40),
Ramipril (2.5-20)
Inibem a Enzima Conversora
de Angiotensina, reduzindo a
formação de Angiotensina II
(vasoconstritor) e o acúmulo
de Bradicinina (vasodilatador).
Tosse seca (efeito de classe
relacionado à bradicinina),
hipercalemia, angioedema.
Contraindicados na gravidez e
em estenose bilateral de artéria
renal.
BRA Losartana (50-100),
Valsartana (80-320),
Candesartana (8-32),
Olmesartana (20-40)
Bloqueiam seletivamente o
receptor AT1 da Angiotensina
II, impedindo sua ação
vasoconstritora e de liberação
de aldosterona.
Hipercalemia, tontura. Menor
incidência de tosse e
angioedema em comparação
aos IECA. Contraindicados na
gravidez. Não associar com
IECA.
BCC (Di-
hidropiridínicos)
Anlodipino (2.5-10),
Nifedipino retard (20-
60)
Bloqueiam os canais de cálcio
do tipo L na musculatura lisa
vascular, causando potente
vasodilatação arterial e
reduzindo a resistência
periférica.
Edema maleolar (dose-
dependente), cefaleia, rubor
facial, taquicardia reflexa. O
edema melhora com a
associação de um IECA/BRA.
Antagonistas
Mineralocorticoides
(ARM)
Espironolactona (12.5-
50), Eplerenona (25-
50)
Bloqueiam os receptores de
aldosterona no túbulo coletor,
promovendo natriurese e
poupando potássio. Reduzem
a fibrose vascular e miocárdica.
Hipercalemia (principal risco,
monitorar K+ e função renal),
ginecomastia e dor mamária
(Espironolactona). Eplerenona
é uma alternativa com menos
efeitos endócrinos.
Manejo da Hipertensão Arterial Resistente (HAR) e
Refratária (HARf)
Uma parcela dos pacientes não atingirá a meta de PA
mesmo com a terapia tripla otimizada, configurando o
quadro de HAR.
• Definições:
HAR: É definida como a PA que permanece acima da
meta apesar do uso de três classes de anti-
hipertensivos em doses máximas toleradas, sendo uma
delas, obrigatoriamente, um diurético. Pacientes que
só atingem a meta com o uso de quatro ou mais
fármacos também são classificados como portadores
de HAR.
HARf: É um subgrupo da HAR, definido pela PA não
controlada mesmo com o uso de cinco ou mais
fármacos, incluindo um diurético de longa ação
(clortalidona ou indapamida) e um ARM
(espironolactona).
Abordagem Diagnóstica: O primeiro passo no manejo
da HAR é excluir a pseudorresistência. Isso envolve:
1. Confirmar a adesão ao tratamento.
2. Verificar e corrigir a técnica de medida da PA (o
uso da MAPA é mandatório para confirmar a
HAR verdadeira e afastar o efeito do avental
branco).
3. Intensificar a investigação de causas
secundárias, pois sua prevalência é muito
maior neste grupo de pacientes.
Fluxograma Terapêutico para HAR Verdadeira:
Otimizar a Terapia Tripla: Assegurar que o paciente
está usando um bloqueador do SRAA, um BCC e um
diurético de longa ação (clortalidona ou indapamida,
Vicente Neto – Medicina USJT TIV - 822165495
que são mais potentes e eficazes que a
hidroclorotiazida neste cenário).
Adicionar o Quarto Fármaco: A espironolactona (25 a
50 mg/dia) é a quarta droga de escolha. Esta
recomendação é baseada em evidências robustas que
demonstram o papel central do hiperaldosteronismo
(mesmo que subclínico) na fisiopatologia da HAR.
Adicionar o Quinto Fármaco: Se a meta de PA ainda
não for atingida, o próximo passo é adicionar um
fármaco que atue na hiperatividade simpática, como
um betabloqueador (preferencialmente vasodilatador
como bisoprolol ou carvedilol) ou um simpatolítico de
ação central (clonidina).
Referenciamento: Pacientes com diagnóstico
confirmado de HAR ou HARf devem ser encaminhados
para um centro especializado em hipertensão para uma
investigação mais aprofundada e manejo complexo.