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UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA ENFERMAGEM PRIMEIROS SOCORROS E PRÁTICA PROFISSIONAL DA ENFERMAGEM BRUNA LARISSA CARVALHO FARIAS — 601000858 GABRIELA VIRGÍNIA ROCHA SILVA—601103195 GRAZIELA MENDES LIMA — 600934571 JESSYCA DA CRUZ FRAGA BELO — 600933614 JULIA ALMEIDA SOUZA — 600937931 JULIA MARQUES SILVA DUTRA — 601136443 CALLISTA ROY ADAPTAÇÃO- QUEIMADURAS PEDRO SÉRGIO PINTO CAMPONÊS THAIS MOREIRA OLIVEIRA BELO HORIZONTE 2026 1 INTRODUÇÃO A assistência do paciente queimado deve ser encarada como um cuidado integral, pois o tipo de lesão compromete a integridade física, levando a intensa resposta inflamatória, devido a dor, risco de infecção que podem causar danos irreversíveis. No Brasil, as queimaduras são entendidas como problema importante de saúde pública, atingindo cerca de 1 milhão de pessoas anualmente, agravado por desigualdades sociais e baixas condições de moradia. O cuidado de enfermagem deve ser compreendido de maneira integral, capaz de reconhecer que cada paciente queimado responde a um trauma e as condições expostas externas e internas (Fernandes et al., 2025; Cunha et al., 2023). De acordo com o contexto de alta complexidade, o Modelo de Adaptação de Callista Roy entende que o paciente queimado está inserido em contexto biopsicossocial de condição crítica. Isso faz com que o enfermeiro enfrente uma realidade de cuidado que vai além das atribuições diárias, fazendo com que o profissional tenha um olhar crítico sobre a problemática estabelecida. Para Roy, o cuidado deve ser disposto ao paciente através de cuidado individualizado, considerando cada realidade apresentada (Pickler et al., 2024; Costa et al., 2025). Unir teoria e prática no cuidado ao paciente queimado não deve ser entendido como algo distante ou ligado só à formação acadêmica, ela deve ser um recurso real para melhorar as decisões clínicas, organizar as condutas sem tirar a humanização do atendimento e aumentar a segurança da assistência. Quando o cuidado se apoia em referenciais teóricos e também em tecnologias pensadas para a realidade do serviço, o enfermeiro passa a identificar melhor as prioridades, perceber sinais de agravamento com mais clareza e conduzir as intervenções de forma mais organizada e consciente (Fonseca et al., 2025; Costa et al., 2023). O objetivo geral deste estudo foi analisar a assistência de enfermagem ao paciente com queimaduras à luz do Modelo de Adaptação de Callista Roy, destacando a importância dos primeiros socorros, da avaliação clínica inicial e das intervenções de enfermagem para um cuidado integral, seguro e humanizado. Trata-se de um estudo de abordagem descritiva, com caráter qualitativo, desenvolvido por meio de revisão bibliográfica e integração teórico-prática. Para a construção do trabalho, foram utilizados artigos científicos e publicações recentes sobre queimaduras, primeiros socorros, assistência de enfermagem e Teoria de Callista Roy, com o objetivo de fundamentar a discussão e relacionar o referencial teórico à prática assistencial. Foi elaborado um caso clínico, com base em situação compatível com a realidade dos serviços de urgência e emergência, para exemplificar a aplicação do cuidado de enfermagem no contexto do paciente queimado. 2 REFERÊNCIAS TEÓRICO 2.1 Teoria de Enfermagem Quando aplicada à prática, a teoria de Roy amplia o olhar clínico do enfermeiro, porque tira o foco apenas da doença e passa a considerar também a forma como o paciente vive, interpreta e reage ao que está enfrentando. No caso das queimaduras, isso é ainda mais importante, já que a lesão térmica provoca mudanças bruscas no corpo, na dor, na imagem corporal, na autonomia e até na forma como a pessoa se relaciona com o ambiente. Por isso, exige um processo contínuo de adaptação em diferentes dimensões da vida (Clementino et al., 2024). A teoria de Roy continua atual justamente porque ajuda a sustentar o raciocínio clínico da enfermagem em situações complexas. O cuidado pode ser organizado de forma mais coerente, humana e embasada em ciência. Entre as principais ideias do Modelo de Adaptação de Roy, destaca- se a compreensão de que toda pessoa responde aos estímulos por meio de processos cognitivos e reguladores. Essas respostas aparecem nos chamados modos adaptativos, que ajudam o enfermeiro a analisar a condição do paciente de forma mais ampla (Costa et al., 2023). Esses modos são o fisiológico, que envolve as respostas do corpo; o autoconceito, ligado à forma como o paciente se percebe; o desempenho de papéis, relacionado às funções que ele exerce na vida; e a interdependência, que diz respeito aos vínculos e ao apoio que recebe. Isso faz com que o cuidado não fique limitado ao exame físico ou só à observação da ferida. Na prática, a teoria mostra que o sofrimento humano não é só corporal, ele envolve aspectos emocionais, sociais e relacionais (Clementino et al., 2024). Outra contribuição importante da teoria está na forma como ela ajuda a orientar a avaliação de enfermagem de maneira mais organizada. Com esse referencial, o profissional consegue identificar quais respostas do paciente estão preservadas e quais precisam de intervenção mais direta. Ao usar Roy, o enfermeiro passa a observar sinais e comportamentos não como manifestações soltas, mas como respostas de adaptação diante dos estímulos vividos pelo paciente (Fonseca et al., 2024). A teoria fortalece o julgamento clínico e contribui para um cuidado mais individualizado, porque permite perceber quando uma reação mostra enfrentamento funcional e quando já indica sobrecarga, sofrimento psicológico ou quebra de mecanismos de proteção. Os modos adaptativos podem ser analisados de forma articulada. Isso ajuda a enfermagem a reconhecer alterações mais sutis e a intervir com foco na proteção e no fortalecimento de respostas mais saudáveis. Essa lógica pode ser aplicada ao cuidado em queimaduras, já que a complexidade clínica costuma vir acompanhada de vulnerabilidade emocional e social (Pickler et al., 2024). No contexto das queimaduras, a teoria de Roy ajuda a compreender que a lesão não atinge só o tecido cutâneo, elas desencadeiam uma crise adaptativa mais ampla. Essa situação envolve dor, risco de infecção, limitação funcional, necessidade de curativos repetidos, alterações no sono, medo, dependência e prejuízo da autoimagem. A assistência precisa incluir controle da dor, monitorização clínica, manejo das feridas, prevenção de complicações, apoio emocional e educação em saúde, o que se aproxima diretamente da proposta adaptativa de Roy (Pires et al., 2022). Com esse olhar, o enfermeiro deixa de enxergar apenas um corpo ferido e passa a acompanhar um paciente em processo de reorganização. É alguém que precisa lidar com a internação, com procedimentos invasivos, com a incerteza da melhora e com as mudanças impostas à rotina. Assim, a teoria oferece uma base importante para priorizar intervenções que não tratem a queimadura só como um acometimento e favoreçam a estabilidade fisiológica, a preservação da dignidade e a recuperação gradual da capacidade de enfrentamento (Santos et al., 2024). Na prática assistencial, a teoria também se relaciona com a construção de instrumentos, protocolos e tecnologias que deixam o cuidado mais seguro e mais consistente. O atendimento inicial ao queimado exige preparo técnico da equipe, rapidez na tomada de decisão e padronização das condutas, principalmente nas primeiras horas, quando falhas podem acontecer e agravar ainda mais o quadro. Materiais educativos e tecnologias de apoio à equipe de enfermagem funcionam como recursos para melhorar a assistência e reduzir dúvidas no cuidado (Pires et al., 2022). A relação com Roy é essencial porque esses instrumentos ajudam o enfermeiro a trabalhar de forma mais organizada diante dos estímulosque ameaçam a adaptação do paciente, sem deixar de lado o cuidado integral. Integrar teoria e prática não torna a assistência mais rígida. Pelo contrário, torna o cuidado mais consciente, fundamentado e mais preparado para responder às necessidades reais de pessoas que sofrem queimaduras extensas e dolorosas (Santos et al., 2024). Além da fase aguda, a queimadura continua exigindo adaptação mesmo depois da alta, no retorno para casa, para o convívio social e para as atividades do dia a dia. Isso reforça ainda mais a importância do referencial de Roy. Queimaduras ainda deixam no paciente dificuldades relacionadas à dor, cicatrizes, alterações da imagem corporal, sofrimento emocional, exclusão social, afastamento do trabalho e diminuição da renda salarial. Ao mesmo tempo, o apoio da família aparece como um fator essencial nesse processo de enfrentamento (Yaggi et al., 2025). 2.2 Primeiros Socorros Os primeiros socorros podem ser entendidos como os cuidados imediatos realizados logo após um acidente, com a finalidade de reduzir danos, evitar agravamentos e preservar a vida até que a vítima receba atendimento especializado em pronto-atendimento. No caso das queimaduras, essa conduta é ainda mais importante, porque o trauma térmico, químico ou elétrico pode ir além da lesão visível e causar problemas sistêmicos importantes, principalmente quando há chance de danos irreversíveis. Ceará e Vieira et al., (2026) destacam que esse agravo é frequente e gera impacto nos serviços de saúde, além de reforçarem que as lesões podem ocorrer por contato com calor, frio, eletricidade, agentes químicos e materiais radioativos. Tabela 1 – Classificação das queimaduras quanto à profundidade Classificação Camada atingida Características clínicas Dor/Sensibilidade Evolução geral Superficial Apenas epiderme Eritema, pele seca, sem bolhas Dor presente Costuma cicatrizar sem sequelas importantes Espessura parcial superficial Epiderme e parte superficial da derme Bolhas, superfície úmida, rósea ou avermelhada Muito dolorosa, sensibilidade preservada Tendência a cicatrização mais rápida Espessura parcial profunda Epiderme e derme mais profunda Aspecto mais pálido, pode haver menor umidade Dor reduzida em algumas áreas Maior risco de cicatriz e atraso na cicatrização Espessura total Destruição de toda a derme, podendo atingir tecidos mais profundos Pele esbranquiçada, seca, escurecida ou carbonizada Sensibilidade bastante reduzida ou ausente Geralmente exige abordagem especializada Fonte: adaptado de Ceará e Vieira (2026). A avaliação inicial do paciente queimado precisa considerar como o acidente aconteceu para que a conduta seja segura e positiva. Os acidentes domésticos ainda aparecem como um cenário importante de ocorrência, principalmente nos casos envolvendo líquidos superaquecidos, chama direta, superfícies quentes, eletricidade e substâncias químicas. O atendimento começa justamente na identificação correta do tipo de queimadura, da profundidade da lesão e da área corporal acometida, já que esses fatores interferem na prioridade assistencial e no encaminhamento para especialidades necessárias Costa et al., (2023). Os sinais e sintomas das queimaduras variam conforme a gravidade da lesão. Elas podem se apresentar como Dor, ardor, vermelhidão, edema, bolhas e alteração da sensibilidade e costumam estar presentes nas queimaduras superficiais e de espessura parcial. Já nas lesões mais profundas, podem surgir áreas esbranquiçadas, escurecidas ou até carbonizadas, além de diminuição da dor em regiões onde houve destruição das terminações nervosas (Cunha et al., 2023). A conduta correta nos primeiros socorros em queimaduras começa pela interrupção do agente causador e pela proteção da vítima, evitando nova exposição ao calor, à corrente elétrica ou ao agente químico. Depois disso, é necessário resfriar a área com água corrente em temperatura ambiente, sem usar gelo, cremes caseiros, pasta de dente, óleos ou outras substâncias populares que podem piorar a lesão e dificultar o tratamento depois. Ao validar uma tecnologia educativa voltada à população adulta sobre prevenção e primeiros socorros em queimaduras, Milhorini et al., (2022) destacam justamente que a informação correta tem papel importante na redução de condutas inadequadas, que ainda são muito comuns. Nas situações mais graves, os primeiros socorros também pedem avaliação rápida das condições vitais da vítima e acionamento imediato do serviço de urgência. Queimaduras extensas, elétricas, químicas, inalatórias ou localizadas na face, mãos, pés, períneo e grandes articulações precisam de maior vigilância, porque apresentam mais risco funcional e clínico. Fonseca et al., (2024) observam que o atendimento inicial ao grande queimado exige da equipe competência, agilidade e organização. Isso reforça que o cuidado precoce precisa priorizar o estado respiratório, circulatório e neurológico do paciente. Um ponto importante que vale ser ressaltado é que os primeiros socorros feitos da forma correta interferem na evolução clínica do paciente, inclusive no risco de infecção, na profundidade que a lesão pode atingir e no próprio processo de cicatrização. Ao analisar as tecnologias utilizadas no cuidado a vítimas de queimaduras em ambiente intensivo, Clementino et al., (2024) mostram que a assistência ao paciente queimado exige atualização constante da enfermagem e integração entre conhecimento técnico e prática baseada em evidências. Benitez et al., (2025) lembram que pacientes com queimaduras graves apresentam alterações fisiológicas importantes e maior vulnerabilidade a complicações infecciosas, o que reforça a importância de uma conduta inicial adequada desde o local do acidente. Os primeiros socorros devem ser entendidos como uma etapa essencial do cuidado, porque uma intervenção simples, quando realizada de forma correta e no momento certo, pode reduzir danos, aliviar o sofrimento e favorecer uma recuperação mais segura. Tabela 1 – Condutas iniciais nos primeiros socorros em queimaduras Sinais observáveis no atendimento inicial Conduta inicial da equipe Dor, ardor, vermelhidão e edema Avaliar intensidade da dor, interromper o agente causador e iniciar resfriamento com água corrente em temperatura ambiente Presença de bolhas e pele úmida ou avermelhada Evitar romper bolhas, proteger a área com cobertura limpa e observar extensão da lesão Áreas pálidas, esbranquiçadas, escurecidas ou carbonizadas Suspeitar de maior profundidade da queimadura, não aplicar substâncias e providenciar avaliação urgente Redução da sensibilidade ou ausência de dor em parte da lesão Considerar possível destruição nervosa e gravidade maior, mantendo monitorização e encaminhamento rápido Queimadura em face, mãos, pés, períneo, grandes articulações ou circunferencial Priorizar avaliação imediata e encaminhamento para atendimento especializado Suspeita de queimadura química Remover o agente com segurança e irrigar abundantemente a área, conforme protocolo Suspeita de queimadura elétrica Garantir segurança da cena, interromper a fonte elétrica e avaliar possíveis repercussões sistêmicas Tosse, rouquidão, fuligem em vias aéreas, dificuldade respiratória ou suspeita de inalação de fumaça Avaliar vias aéreas e respiração imediatamente e acionar suporte de urgência Sinais de instabilidade, como rebaixamento de consciência, taquicardia, palidez ou desidratação Monitorar sinais vitais, reconhecer gravidade e agilizar encaminhamento hospitalar Ansiedade, medo intenso e sofrimento evidente Oferecer acolhimento, comunicação clara e orientação durante todo o atendimento Fonte: adaptado de Benitez et al., (2025) 3 INTEGRAÇÃOTEORIA + PRÁTICA Como a teoria orienta o cuidado? A teoria de Callista Royorienta o cuidado ao mostrar que o enfermeiro não deve olhar o paciente apenas pela lesão ou pelo diagnóstico e sim pelas respostas que ele apresenta diante do adoecimento. No caso das queimaduras, isso significa entender que o trauma não atinge só o corpo, envolve medo, dor, alteração da autoimagem, dependência e mudanças na relação com o ambiente. Com isso, o cuidado deixa de ser apenas técnico e passa a ser pensado a partir da forma como o paciente está se adaptando aos estímulos internos e externos. Como o enfermeiro pensa e age? O enfermeiro avalia quais estímulos estão afetando o paciente, como ele responde a eles e em quais áreas essa adaptação está mais comprometida. Na pessoa queimada, isso envolve observar dor, extensão da lesão, risco de infecção, alterações fisiológicas, limitação funcional, sofrimento emocional e impacto social. Assim, a ação de enfermagem não se resume ao curativo. Ela também inclui monitorização clínica, prevenção de complicações, manejo da dor, apoio emocional, educação em saúde e reavaliação constante das respostas do paciente. Como organiza o ambiente? Pela teoria, o ambiente não é visto como algo neutro, porque ele interfere na adaptação do paciente. Por isso, o enfermeiro precisa organizar o espaço de cuidado de forma a reduzir estímulos que aumentem dor, ansiedade, risco de infecção e instabilidade clínica. Em queimaduras, isso envolve manter um ambiente limpo, seguro e termicamente adequado, além de garantir materiais prontos, equipe orientada e condutas organizadas para que o cuidado aconteça com agilidade, mas sem perder a individualização. Também envolve antecipar necessidades do paciente, evitar manipulações desnecessárias, favorecer conforto e manter continuidade entre avaliação, procedimento e acompanhamento. Como se comunica com o paciente? Na perspectiva de Roy, a comunicação deve ajudar o paciente a entender o que está acontecendo e a responder de forma mais adaptativa à situação. Para isso, o enfermeiro precisa oferecer escuta qualificada, linguagem clara, acolhimento e orientações compatíveis com o estado físico e emocional da pessoa. No paciente queimado, isso significa explicar os procedimentos, reconhecer medo e dor, validar inseguranças, estimular a participação no cuidado e construir confiança. Isso é ainda mais importante porque o tratamento costuma ser doloroso, demorado e cercado de incertezas. 4 CASO CLÍNICO 4.1 Identificação do paciente C. H. S, 38 anos, sexo masculino, pardo, casado, pedreiro, residente em área urbana periférica do município de Belo Horizonte, foi encaminhado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) por familiares após acidente doméstico. Mora com a esposa e dois filhos, em residência de alvenaria. Refere ensino fundamental incompleto. Nega hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e cardiopatias. Relata tabagismo há cerca de 15 anos, em média 10 cigarros por dia, e etilismo eventual nos fins de semana. Nega uso contínuo de medicamentos. Não soube informar adequadamente a situação vacinal, especialmente em relação à antitetânica. 4.1.2 Queixa principal “Queimei o braço, a barriga e o peito com óleo quente e está ardendo demais. ” 4.1.3 História do evento atual Paciente deu entrada na unidade de urgência e emergência aproximadamente 50 minutos após acidente doméstico, ocorrido enquanto preparava alimentos. Segundo seu relato, ao tentar retirar uma panela com óleo quente do fogão, perdeu o equilíbrio do recipiente e derramou o conteúdo sobre o hemitórax direito, região abdominal superior direita e membro superior direito. A esposa informou que, antes de levá-lo à unidade, colocou pano úmido e pomada caseira sobre a área lesionada por orientação de vizinhos. No momento da chegada, o paciente estava consciente, orientado, ansioso, verbalizando dor intensa e medo de “não conseguir trabalhar”. Negava perda de consciência, dispneia, exposição a fumaça em ambiente fechado ou contato com eletricidade e produtos químicos. 4.1.4 Situação inicial na admissão Paciente admitido em cadeira de rodas, consciente, orientado em tempo, espaço e pessoa, com importante desconforto álgico, fala acelerada e expressão facial de sofrimento. Classificado com prioridade de atendimento devido à dor intensa, presença de bolhas e extensão visível das lesões. Encaminhado para sala de atendimento de urgência para avaliação médica e de enfermagem. 4.1.5 Sinais e sintomas Na avaliação inicial, apresentava: ● Dor intensa em queimação, referida como 9/10 na escala numérica ● Eritema importante ● Presença de flictenas íntegras e rotas ● Pele úmida e brilhante nas áreas acometidas ● Hipersensibilidade ao toque ● Limitação de mobilidade do membro superior direito por dor ● Ansiedade importante ● Medo de sequelas estéticas e funcionais ● Sede ● Sudorese discreta Não apresentava: ● Sinais de lesão inalatória ● Rouquidão ● Tosse com fuligem ● Queimadura em face ● Rebaixamento do nível de consciência ● Sinais de choque na admissão 4.1.6 Exame físico de enfermagem • Estado geral: regular, ansioso, consciente, orientado, colaborativo. • Pele: áreas de queimadura térmica com características compatíveis com segundo grau superficial e parcialmente profundo, acometendo face anterior do membro superior direito, hemitórax anterior direito e abdome superior direito. Presença de eritema intenso, dor, umidade e bolhas em diferentes tamanhos. • Superfície corporal queimada estimada: cerca de 11% da SCQ, calculada pela regra dos nove adaptada ao adulto. • Cabeça e pescoço: sem lesões, mucosas coradas, sem fuligem em cavidade oral. • Respiratório: murmúrio vesicular presente bilateralmente, sem ruídos adventícios, frequência respiratória discretamente aumentada. • Cardiovascular: ritmo cardíaco regular, taquicardia leve. • Abdome: plano, flácido, dolorimento superficial em região queimada, sem sinais de abdome agudo. • Neurológico: Glasgow 15, pupilas isocóricas e fotorreagentes. • Extremidades: membro superior direito com mobilidade reduzida por dor, perfusão periférica preservada. 4.1.7 Sinais vitais na admissão ● Pressão arterial: 148/92 mmHg ● Frequência cardíaca: 112 bpm ● Frequência respiratória: 24 irpm ● Temperatura axilar: 36,7 °C ● Saturação de O₂: 98% em ar ambiente ● Glicemia capilar: 108 mg/dL 4.1.8 Exames solicitados Considerando a extensão da queimadura, a dor intensa e a necessidade de avaliação clínica inicial, foram solicitados exames laboratoriais básicos para acompanhamento do estado geral e prevenção de complicações. Exames laboratoriais Hemograma completo ● Hemoglobina: 14,2 g/dL ● Hematócrito: 42% ● Leucócitos: 13.600/mm³ ● Bastões: 3% ● Segmentados: 74% ● Linfócitos: 18% ● Plaquetas: 286.000/mm³ Bioquímica ● Ureia: 31 mg/dL ● Creatinina: 0,9 mg/dL ● Sódio: 137 mEq/L ● Potássio: 4,2 mEq/L ● Glicemia sérica: 112 mg/dL ● PCR: discretamente elevada Coagulograma ● TP: normal ● TTPA: normal Os exames demonstraram leucocitose discreta, compatível com resposta inflamatória aguda ao trauma. Função renal preservada, sem distúrbio eletrolítico relevante no momento da admissão. 4.1.10 Diagnósticos de enfermagem – NANDA-I • 00046- Integridade da pele prejudicada • 00132- Dor aguda, 00004 Risco de infecção • 00146- Ansiedade • 00085- Mobilidade física prejudicada. 4.1.11 Resultados esperados – NOC • 00046 Integridade da pele prejudicada → 1101 Integridade Tissular: Pele e Mucosas; 1106 Cicatrização de Queimaduras • 00132 Dor aguda → 1605 Controle da Dor; 2102 Nível de Dor • 00146 Ansiedade → 1402 Autocontrole da Ansiedade; 1211 Nível de Ansiedade • 00148 Medo → 1404 Autocontrole do Medo; 1210 Nível de Medo • 00004 Risco de infecção → 1924 Controle de Riscos: Processo Infeccioso • 00085 Mobilidade física prejudicada→ 0208 Mobilidade • 00126 Conhecimento deficiente → 1814 Conhecimento: Procedimento de Tratamento 4.1.12 Intervenções de enfermagem – NIC • 3660 — Cuidados com lesões • 3661 — Cuidados com lesões: queimaduras • 2210 — Administração de analgésicos • 1400 — Controle da dor • 5820 — Redução da ansiedade • 5270 — Apoio emocional • 6540 — Controle de infecção • 6550 — Proteção contra infecção • 0840 — Posicionamento • 0224 — Terapia com exercício: mobilidade articular • 5602 — Ensino: processo da doença • 5618 — Ensino: procedimento/tratamento 4.2 Atendimento realizado Paciente hemodinamicamente estável, consciente, orientado, referindo dor suportável após manejo medicamentoso. Lesões protegidas com cobertura estéril, sem sinais de infecção no momento. Mantém limitação funcional do MSD por dor, porém com perfusão e sensibilidade preservadas. Recebeu orientações sobre cuidados domiciliares, sinais de alerta, troca de curativo conforme encaminhamento, importância da vacina antitetânica e retorno ambulatorial. Encaminhado para seguimento na rede de referência, acompanhado pela esposa. 4.2.1 Integração com a Teoria de Callista Roy A Teoria de Callista Roy ajuda a entender esse caso para além da queimadura. O paciente não chegou à unidade só com uma lesão térmica. Ele chegou com dor intensa, medo, insegurança e preocupação com o trabalho, com a renda. Pela teoria, a queimadura funciona como estímulo focal, porque foi o evento que desencadeou toda a situação. Entre os estímulos contextuais, estão a dor, a limitação física, o cuidado inadequado feito em casa, o ambiente de urgência e a dúvida sobre a vacinação. Já entre os estímulos residuais, podem ser considerados o tabagismo, a vulnerabilidade social e a preocupação anterior com o sustento da família. Nos modos adaptativos, o caso também mostra alterações bem visíveis. No modo fisiológico, aparecem a dor, a taquicardia, a lesão cutânea e a limitação do movimento. No autoconceito, o paciente demonstra medo das cicatrizes e se mostra mais fragilizado. No desempenho de papéis, o medo de não conseguir trabalhar surge logo na admissão. Na interdependência, a presença da esposa aparece como apoio, mas os dois ainda precisam de orientação adequada para lidar com a situação. Assim, a teoria mostra que a enfermagem não deve cuidar só da ferida, mas também da adaptação física, emocional e social desse paciente. REFERÊNCIAS BENITEZ, Juan Paulo et al. Infecções em feridas em queimados: Revisão de 35 anos de avanços, desafios diagnósticos e estratégias baseadas em evidências. 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