Prévia do material em texto
Tema: Direito do consumidor: relação jurídica de consumo A RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO O CDC é uma lei principiológica, que define os princípios que orientam as relações jurídicas de consumo. Ela ingressa em nosso ordenamento jurídico fazendo um corte horizontal, alcançando todas as relações jurídicas classificadas como relações jurídicas de consumo. Conceitos relacionais: A doutrina afirma que o conceito de relação jurídica de consumo é um conceito relacional. É necessário conhecer bem os elementos que constituem a relação jurídica de consumo. E quais são eles? Temos elementos subjetivos e objetivos. Os subjetivos são os sujeitos da relação jurídica de consumo. O sujeito principal é o consumidor. Nessa relação, do outro lado, está presente o fornecedor. Os sujeitos, portanto, são o consumidor e o fornecedor. Para que a relação jurídica seja de consumo, ela ainda precisa ter como objeto um bem de consumo que pode ser tanto um produto, como um serviço. Elementos subjetivos – sujeitos – consumidor e fornecedor Elemento objetivo – produto ou serviço, o bem de consumo. Esses conceitos são relacionais, ou seja, a definição de um desses elementos depende da definição dos outros. Todos devem estar presentes na mesma relação jurídica para que se possa considerá-la uma relação jurídica de consumo. O conceito de fornecedor se relaciona ao de consumidor, e o de ambos se relacionam com o conceito de bem de consumo, de produto ou serviço. Esses conceitos não sobrevivem isoladamente, devendo ser analisados em conjunto, de forma relacionada. Por isso, conceitos relacionais. CONCEITO DE CONSUMIDOR Consumidor em sentido estrito (standard ou stricto sensu) Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. O consumidor não é apenas quem adquire, mas também quem utiliza o bem de consumo. Ex: Esposa compra um produto para quem o utiliza é o marido. Será um consumidor em sentido estrito. Ex2: Uma pessoa compra uma camisa para outra de presente. Se a camisa vier com defeito/vício, o presenteado será consumidor. Não basta adquirir ou utilizar um produto ou serviço. Só é considerado consumidor o destinatário final desse produto ou serviço. ⮚ Elemento nuclear do conceito: “destinatário final” DESTINATÁRIO FINAL É um conceito jurídico indeterminado. Existem três teorias sobre isso: A) TEORIA MAXIMALISTA (OBJETIVA) • Destinatário fático O destinatário final é aquele que adquire ou utiliza um bem de consumo, independentemente da finalidade. Não se perquire a destinação que será dada. Basta que se adquire ou utilize o produto ou serviço; Ex: Se um engenheiro adquire equipamento para utilização em seu trabalho. Para essa teoria, é o destinatário final. Isso porque não importa a finalidade. Se tirou o produto da prateleira, será considerado consumidor. Crítica – ela amplia de sobremaneira o conceito de consumidor, trazendo para a proteção do microssistema pessoas que não precisam dessa proteção. E isso resulta em tratamento desigual. Ex; Hospital adquire máquina de ressonância magnética. Para essa teoria, o hospital é consumidor ao adquirir esse equipamento. B) TEORIA FINALISTA (SUBJETIVA) • Destinatário fático e econômico Essa se preocupa com a destinação, com a finalidade que será utilizado o produto ou serviço. Aqui há necessidade de ser destinatário fático e econômico. Só pode ser consumidor aquele que adquire um bem de consumo para fins pessoais e familiares. Não pode usar o bem de consumo para revenda, não irá usá-lo como insumo atividade profissional ou incremento de sua atividade empresarial. É o destinatário final, fático e econômico. Para essa teoria, a clínica médica que adquire máquina de ressonância magnética não é consumidora. O destinatário final desse produto é o paciente da clínica. Ele é o destinatário econômico. C) TEORIA MISTA – É UMA MESCLA DAS DUAS TEORIAS ANTERIORES. Como regra, só é considerado consumidor o destinatário fático e econômico, aquele que adquire um bem de consumo para fins pessoais e familiares. Excepcionalmente, caso constatado em concreto a situação de vulnerabilidade dessa pessoa que está adquirindo esse bem de consumo, ainda que não seja para fins pessoais, poderá ser considerada consumidora também. Ex: Taxista – adquire um veículo automotor junto a uma montadora. Para tanto faz um financiamento no banco. Ele não é o destinatário final do veículo. O destinatário final será o passageiro. Ele é o destinatário fático, mas não econômico. Adotada a teoria finalista pura não é o consumidor. Mas o STJ já adotando essa teoria mista ou subjetiva mitigada, considerou o taxista também consumidor. Pois era vulnerável, economicamente e tecnicamente, frente a montadora. É exceção. O STJ adota como regra a teoria finalista. ❑ No STJ: teoria finalista empregada para afastar a incidência do CDC (falta a característica de destinatário final): i. Serviço de instalação de aparelho de ar-condicionado central numa cafeteria – houve má prestação de serviço e a cafeteria acionou a empresa de instalação no judiciário e pediu a proteção do CDC. O STJ entendeu que não era consumidora pois o destinatário econômico desse serviço contratado é o frequentador da cafeteria. ii. Aquisição de aparelho de ultrassom por uma clínica médica. Essa última é a destinatária fática, mas não econômica. Destinatário econômico é o paciente que vai pagar pelo serviço de ressonância. iii. Serviço bancário (abertura de conta-corrente) contratado por uma empresa corretora de Bitcoin. Essa empresa não é a destinatária econômica desse serviço bancário. O destinatário econômico será o cliente que usa o serviço de corretagem. Hoje prevalece na jurisprudência do STJ a teoria finalista ou subjetiva, só é destinatário final o destinatário fático ou econômico. Ex: Empresa têxtil – adquire algodão para utilizar como insumo em sua produção. Não é destinatária final. É destinatária fática, mas não econômica. Não será consumidora. O dentinário econômico será o cliente que adquirirá o produto, fruto desse insumo que ela adquiriu em outro relação jurídica, que não é de consumo. ✔ Abrandamento da teoria finalista pelo STJ: • Considerando uma vulnerabilidade “in concreto” . Ex.: taxista ▪ CONSUMIDOR EQUIPARADO – o CDC também prevê como consumidor pessoas físicas ou jurídicas que não se enquadram no conceito de consumidor em sentido estrito. Mas por força das normas de equiparação, também são consideradas consumidores e recebem a normatividade protetiva do CDC. Existem três normas de equiparação no CDC: a) Consumidor em sentido coletivo (art. 2º, parágrafo único) b) Consumidor bystander (art. 17) – vítima de acidente de consumo c) Consumidor potencial (art. 29) – pessoas expostas às práticas comerciais e contratuais disciplinadas no CDC ✔ finalidade? A finalidade dessas normas de equiparação é ampliar o campo de incidência do CDC, trazendo para o abrigo dele pessoas que não seriam protegidas por não se enquadrarem no conceito de consumidor em sentido estrito. Mas que força dessas normas de equiparação recebem essa proteção. a) Consumidor em sentido coletivo CDC, Art. 2.°, parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo. Aqui o CDC atua como microssistema. Apresenta proteção da tutela coletiva dos consumidores. A faceta do direito material do consumidor, voltada à proteção coletiva dos seus interesses, é justamente o art. 2º, parágrafo único. Ex: Imagine que um laboratório desenvolva um medicamento e o coloque no mercado de consumo. Uma pessoa adquire o medicamento. Mas esse medicamento tem um defeito em sua fabricação. Um dos componentes causa devastadores efeitos colaterais. O cabelo cai. Há defeito de fabricação. O comprador é consumidor em sentido estrito. Mas existe uma coletividade de pessoas expostas a esse medicamento potencialmente danoso, que apresenta potencialidade exagerada. Essa coletividade de pessoas expostas a esse medicamento ainda não utilizaram o produto, nãosão consumidores em sentido estrito. Não dá para utilizar o CDC para protegê-las. Por isso existe o art. 2º, parágrafo único. Ele equipara a coletividade de pessoas a consumidoras. Simplesmente por estarem expostas. ⮚ Finalidade da equiparação: instrumental – viabiliza a tutela coletiva ⮚ Norma de equiparação mais geral ⮚ Ex.: medicamentos com defeito b) Consumidor “bystander”: é a vítima do acidente de consumo. CDC, Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento. A vítima de um acidente de consumo é equiparada a consumidor. Ex.1: explosão no shopping de Osasco. Pessoas no interior do shopping sofreram danos. São consumidores em sentido estrito. Mas a explosão foi tão forte que os destroços alcançaram pessoas que estavam nos arredores do shopping. Elas não utilizam os serviços do shopping. Não são consumidoras em sentido estrito. Mas por serem vítimas de acidente de consumo são equiparadas a consumidores e recebem a normatividade protetiva. Ex. 2: incêndio na boate Kiss, em Santa Maria – RS Aqueles que estavam no interior dela são consumidores em sentido estrito. Mas outras pessoas que foram na casa noturna para prestar socorro, respiraram o gás tóxico, e também sofreram danos. Por terem sido vítimas do acidente de consumo são equiparadas a consumidoras. Ex. 3: acidente aéreo com vítima terrestre Avião vai pousar, não consegue parar, atinge uma loja e as pessoas que estavam na última, além de pessoas nas vias terrestres. Serão equiparadas a consumidoras. Ex.4: Defeito em atividade de exploração de potencial hidroenergético causadora de impacto ambiental, ocasionando graves prejuízos, não só de ordem econômica, social e de subsistência, mas também à própria saúde da população ribeirinha, que depende da integridade daquele ecossistema para sobreviver. c) Potencial ou virtual CDC, Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas. • Esse capítulo está disciplinando as práticas comerciais – oferta, publicidade, práticas abusivas, etc (cap. V) e contratuais (capítulo VI) – proteção contratual do consumidor. • Finalidade da equiparação: viabilizar um controle preventivo e abstrato das práticas ofensivas aos interesses dos consumidores Ex: Operadora de plano de saúde está oferecendo no mercado um plano que tenha uma cláusula abusiva. Restringe o acesso de serviços de urgência a uma carência de 45 dias. A lei estabelece que a carência é de 24 horas. Mas a operadora oferece o plano. Todas as pessoas expostas a essa prática contratual abusiva são equiparadas a consumidoras. Ex2: Empresa faz publicidade enganosa e veicula na mídia. Pode induzir o consumidor a erro. Ela comercializa um tablet com autonomia de bateria de apenas duas horas, mas na publicidade afirma autonomia de 6 horas (não diz que somente se atinge 6 horas se usá-lo no modo econômico). A publicidade é veiculada. Mas não deu tempo de ninguém adquirir o produto. As pessoas expostas à publicidade são equiparadas a consumidoras. ❖ Atenção: necessidade de conjugação do art. 29 com o princípio da vulnerabilidade - o STJ não aplicou a norma de equiparação à pessoa jurídica empresária, quando não constatada a sua vulnerabilidade em concreto – contrato de franquia (REsp 687.322/RJ) e atividade de factoring (REsp 938.979/DF). Só será considerado consumidor potencial ou virtual aquele que, para além de estar exposto a essas práticas, é vulnerável no caso concreto, frente ao fornecedor. Essa vulnerabilidade pode ser econômica, técnica ou jurídica. Há uma interpretação restritiva dessa regra de equiparação. CONCEITO DE FORNECEDOR CDC, Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. ⮚ Alcance subjetivo amplo – pode ser pessoa física, inclusive um ente despersonalizado (ex. camelô). Basta desenvolver a atividade de bens e serviços no mercado de consumo. ⮚ Enumeração das atividades – exemplificativa – qualquer atividade que represente, na prática, oferta de bem de consumo, no mercado de consumo, é considerada atividade para fins de caracterização da figura do fornecedor. Elemento nuclear do conceito: “desenvolvem atividade” Atividade profissional (apenas quem desenvolver atividade profissional poderá ser fornecedor): a) Habitualidade – deve desenvolver a atividade habitualmente, com frequência. b) Especialização – deve ter o Know-how naquele serviço, na oferta daquele produto. Isso lhe dá superioridade técnica em comparação ao consumidor. c) Fim econômico – deve analisar na relação jurídica se há prestação e contraprestação avaliável economicamente. Não é finalidade lucrativa. Basta uma finalidade econômica (prestação e contraprestação). ✔ Entidades beneficentes ou filantrópicas – pode ser considerada fornecedora? “prestação de serviços médicos, hospitalares e odontológicos a seus associados” (REsp 519.310/SP) Sim. Há precedente do STJ nesse sentido. Ex: Uma Santa Casa, entidade filantrópica, tem vários associados, que pagam mensalidades e podem usufruir dos serviços dela (odontológico/médico). Embora não haja atividade lucrativa, há atividade sendo desenvolvida com especialidade, habitualidade e finalidade econômica. REsp 519.310/SP – Ementa Processual civil. Recurso especial. Sociedade civil sem fins lucrativos de caráter beneficente e filantrópico. Prestação de serviços médicos, hospitalares, odontológicos e jurídicos a seus associados. Relação de consumo caracterizada. Possibilidade de aplicação do código de defesa do consumidor. - Para o fim de aplicação do Código de Defesa do Consumidor, o reconhecimento de uma pessoa física ou jurídica ou de um ente despersonalizado como fornecedor de serviços atende aos critérios puramente objetivos, sendo irrelevantes a sua natureza jurídica, a espécie dos serviços que prestam e até mesmo o fato de se tratar de uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter beneficente e filantrópico, bastando que desempenhem determinada atividade no mercado de consumo mediante remuneração. Recurso especial conhecido e provido. Negócio que não guarda conexão com a atividade negocial? Ex: Hospital particular, ocasionalmente, troca o veículo que é utilizado para sua diretoria. Quando o hospital vende esse veículo para adquirir outro, o hospital não será fornecedor, pois não tem relação com a atividade desenvolvida pelo hospital. ▪ Atividade desenvolvida no mercado de consumo (do contrário, não será fornecedor) ⮚ Definição: (não há definição no CDC) para a doutrina é o espaço ideal e não institucional, onde se desenvolvem as atividades de troca de produtos e serviços avaliáveis economicamente, mediante oferta irrestrita aos interessados e visando por um lado, a obtenção de vantagens econômicas (por parte dos fornecedores), e por outro a satisfação de necessidades pela aquisição ou utilização destes produtos e serviços (por parte dos consumidores). Súmula n. 563 do STJ: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às entidades abertas de previdência complementar, não incidindo nos contratos previdenciários celebrados com entidades fechadas”. Súmula 608 do STJ: Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde, salvo os administrados por entidades de autogestão. Ex: Uma pessoa passa no concurso do MP de SP. Vai se filiar a Associação Paulista do MP. É uma entidade de autogestão. Não há relação jurídica de consumo pois esse serviço não é oferecido irrestritamente, mas apenas aos associados. Ex2: Pró-Saúde do TJDFT. STJ – CASOS DE NÃO APLICAÇÃO DO CDC Serviços advocatícios – para o STJ não é oferecida no mercado de consumo Contratos de crédito educativo Relação condominial Locação predial urbana Previdência privada complementar fechada (súmula 563) Contratos defranquia Contratos de plano de saúde administrado por entidade de autogestão (súmula 608, STJ) Venda de ações no mercado de valores mobiliários por sociedade anônima de capital aberto CONCEITO DE PRODUTO Elemento objetivo da relação de consumo CDC, art. 3.º, § 1.º Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial. ⮚ Sentido econômico – para a doutrina o CDC adotou o conceito de produto no sentido econômico. Só pode ser considerado como produto o bem valorado economicamente, que pode ser móvel ou imóvel, material e imaterial. ⮚ Bem móvel ou imóvel: aproveitamento da base conceitual do CC (arts. 79 a 84) – “diálogo sistemático de coerência”. Na ausência desses conceitos no CDC, usaremos os conceitos do CC, por meio do diálogo sistemático de coerência. Não seria coerente a divergência de conceito entre eles. CONCEITO DE SERVIÇO CDC, art. 3.º, § 2º. Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. • Remuneração: pode ser direta (Ex: usar serviço de metrô pagando pelo bilhete) ou indireta (Ex: idoso de 65 anos usa gratuitamente o serviço de metrô) – alguém está pagando por esse serviço. Os demais passageiros pagam. Ex.: Instagram, Twitter, Facebook, estacionamento “gratuito” em supermercado, programa de milhagens, transporte coletivo gratuito para idosos, estacionamento “gratuito” em shopping etc. ▪ Serviços bancários, financeiros, de crédito e securitários – também são alcançados pelo CDC: • STJ, Súmula 297: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”. • STJ, Súmula 563: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às entidades abertas de previdência complementar, não incidindo nos contratos previdenciários celebrados com entidades fechadas”. Serviço é aquela atividade profissional oferecida no espaço ideal, chamado de mercado de consumo, mediante remuneração direta ou indireta. SERVIÇOS PÚBLICOS Pode ser objeto de relação jurídica de consumo? Princípios das relações jurídicas de consumo: Art. 4º, VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos Rol dos direitos básicos dos consumidores: Art. 6º, X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral. Essas normas deixam claro que o serviço público pode ser objeto da relação jurídica de consumo. Isso é reforçado pelo art. 22 do CDC: Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos. Nem todo serviço público será objeto de relação jurídica de consumo. Serviços públicos típicos de estado, remunerados por meio de tarifas, de taxas ou impostos, não podem ser objeto de relação jurídica de consumo. Ex: Serviço prestado pelo poder judiciário, segurança pública, saúde pública. Não são objeto de relação jurídica de consumo. Em doutrina, sobre o ponto, temos duas correntes: ✔ Quais serviços públicos são regulados pelo CDC? ❖ Dois entendimentos: 1) estão sujeitos ao CDC somente os serviços públicos remunerados por meio de taxa ou tarifa. 2) estão sujeitos ao CDC somente os serviços públicos remunerados por meio de tarifa ou preço público. Ponto comum entre as correntes · Exigência de serviços “uti singuli” (divisíveis e mensuráveis): identificação do usuário e mensuração de prestação/contraprestação. Posição do STJ (corrente prevalente) · Critérios cumulativos para incidência do CDC sobre serviços públicos: (a) serem divisíveis e mensuráveis (uti singuli) e (b) serem remunerados por tarifa ou preço público (não por tributo). Exemplos de serviços sujeitos ao CDC · Energia elétrica (medição por relógio; contraprestação mensurável). · Pedágio, metrô (bilhete/valor mensurável), água (fornecimento residencial). – Explicação: todos divisíveis/mensuráveis e remunerados por preço público/tarifa. Exceção ilustrativa – Cartórios · Serviços notariais e de registro: apesar de divisíveis, são remunerados por emolumentos de natureza tributária; portanto, não há relação de consumo; usuário é contribuinte, e cartório não é fornecedor para fins de CDC (entendimento STJ). CF, art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público. JURISPRUDÊNCIA Prestação de serviço público típico não constitui relação de consumo. Aquele que utiliza serviços notariais ou de registro não é consumidor (Art. 2.º do CDC), mas contribuinte, que remunera o serviço mediante o pagamento de tributo (cf. ADIn 1.378/Celso de Mello). Os Cartórios de Notas e de Registros não são fornecedores (art. 3.º do CDC), pois sua atividade não é oferecida no mercado de consumo. A prestação de serviço público típico, que é remunerado por tributo, não se submete ao regime do Código de Defesa do Consumidor, pois serviço público não é “atividade fornecida no mercado de consumo” (art. 3.º, § 2.º, do CDC) (STJ, Resp 625.144/SP, 3ª T.) PROTEÇÃO À SAÚDE E SEGURANÇA O CDC impõe ao fornecedor o dever de apenas colocar no mercado de consumo produtos e serviços que sejam seguros e adequados aos consumidores. Art. 6.º. São direitos básicos do consumidor: I – a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos; Definição · Direito à segurança e dever correlato do fornecedor: apenas colocar no mercado produtos e serviços seguros/adequados, sem expor o consumidor a riscos à vida, saúde e integridade físicopsíquica. Art. 8º – Riscos normais e previsíveis (periculosidade inerente) · Regra: produtos e serviços não acarretarão riscos, exceto os normais e previsíveis, decorrentes de sua natureza/uso. – Dever de informar (adequado): orientações claras de uso seguro (ex.: faca, tesoura, álcool; serviços como elevador e piscina). Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito. Art. 8º, § 1º – Produto industrial · Dever de informar é do fabricante (rótulo/embalagem/impresso que acompanha o produto). Art. 8º, § 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. Reforço o direito à segurança do consumidor. Se o produto é industrial, que passa pelo processo de industrialização, ao ser colocado no mercado de consumo, deve trazer as informações sobre o uso seguro, se ele apresentar periculosidade inerente. O dever de prestar essas informações é do fabricante (se o produto é industrial) e não do comerciante. Já deve vir no produto (rótulo, por exemplo). Art. 9º – Produtos/serviços potencialmente nocivos ou perigosos · Regra: permitida a oferta, mas impõese informação adequada e ostensiva (risco anormal/imprevisível). – Exemplos citados: cigarro, bebida alcoólica, agrotóxicos (alertas ostensivos). Art. 9° O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou segurança deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto. Consequência do descumprimento do dever de informar · Responsabilidade civil objetiva por acidente de consumo; a falta de informação configura defeito de comercialização. – a falta de informação torna o produto defeituoso. · Responsabilidade penal (art. 63, CDC): Art. 63. Omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou periculosidade de produtos, nas embalagens, nos invólucros, recipientes ou publicidade: Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa. § 1° Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de alertar,mediante recomendações escritas ostensivas, sobre a periculosidade do serviço a ser prestado. § 2° Se o crime é culposo: Pena. Detenção de um a seis meses ou multa. O CDC faz uma proteção completa dos interesses dos consumidores: o primeiro grau de proteção é o dever de informar; o segundo grau de proteção é que, o descumprimento do dever de informar, em havendo danos ao consumidor, caracteriza acidente de consumo, responsabilidade objetiva do fornecedor a reparação dos danos; o terceiro grau de proteção é a possibilidade de responsabilidade penal (Art. 63 do CDC) Jurisprudência (STJ) – “Lata de tomate arisco” · Tese: sem informação adequada sobre abertura que requer cuidados, fabricante responde por danos materiais e morais sofridos pelo consumidor. JURISPRUDÊNCIA CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Lata de tomate Arisco. Dano na abertura da lata. Responsabilidade civil da fabricante. O fabricante de massa de tomate que coloca no mercado produto acondicionado em latas cuja abertura requer certos cuidados, sob pena de risco à saúde do consumidor, e sem prestar a devida informação, deve indenizar os danos materiais e morais daí resultantes. Rejeitada a denunciação da lide à fabricante da lata por falta de prova. Recurso não conhecido (REsp 237.964) Art. 10 – Periculosidade exagerada (alto grau de nocividade) · Regra: é vedado colocar no mercado produto/serviço que se sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade/periculosidade; os benefícios não compensam os riscos. – Exemplo: brinquedo com peças muito pequenas com risco de sufocação infantil — não há informação capaz de mitigar. Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. Recall (art. 10, § 1º) · Dever do fornecedor: ao tomar conhecimento superveniente da periculosidade/defeito após a introdução no mercado, comunicar imediatamente autoridades e consumidores, por anúncios publicitários (imprensa, rádio e TV), às expensas do fornecedor. – Exemplo didático: montadora identifica, posteriormente, falha de design (portamalas/step) em veículo; deve chamar consumidores às concessionárias para sanar o defeito. Art. 10, § 1° O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários. § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa, rádio e televisão, às expensas do fornecedor do produto ou serviço. Síntese: O bloco introduz o regime da responsabilidade civil no CDC, destacando a transição da responsabilidade subjetiva (tradicional, fundada na culpa) para a responsabilidade objetiva (sem necessidade de prova de culpa). O fundamento é a teoria do risco da atividade, que promove a justiça distributiva e a socialização dos riscos. O CDC disciplina dois regimes distintos: (i) responsabilidade pelo fato do produto/serviço (defeito) e (ii) responsabilidade pelo vício do produto/serviço (inadequação), unificados pela teoria da qualidade (segurança e adequação). 1. Evolução da responsabilidade civil Responsabilidade subjetiva (direito privado tradicional) · Definição: obrigação de reparar danos fundada na culpa (ação ou omissão culposa). · Problema: a prova da culpa muitas vezes era inviável, prejudicando a vítima. · Evolução: – Culpa presumida → – Culpa contratual/anônima → – Responsabilidade objetiva (sem culpa). Responsabilidade objetiva no CDC · Regra geral: fornecedor responde independentemente de dolo ou culpa. · Justificativa: consumidor não controla a cadeia produtiva, logo não consegue provar culpa. · Fundamento: teoria do risco da atividade. 2. Teoria do risco da atividade Definição · Aquele que exerce atividade com finalidade econômica assume os riscos dela decorrentes. Consequência prática · O fornecedor pode diluir os riscos no preço, distribuindo-os entre todos os consumidores. · Justiça distributiva: evita que todo o risco recaia sobre a vítima individual. 3. Regimes de responsabilidade civil no CDC Duas modalidades distintas: 1. Responsabilidade pelo fato do produto/serviço · Fato gerador: defeito (acidente de consumo). · Ex.: chapinha com falha no design que causa queimadura. 2. Responsabilidade pelo vício do produto/serviço · Fato gerador: vício (inadequação ao fim ou baixa durabilidade). · Ex.: chapinha que não aquece, tornando-se imprópria para uso. SISTEMÁTICA DO CDC Na responsabilidade pelo fato do produto e do serviço o fato gerador da responsabilidade do fornecedor é o defeito do bem de consumo. Na responsabilidade pelo vício do produto e do serviço o fato gerador da responsabilidade do fornecedor é o vício do bem de consumo. Ex: Compra de chapinha de cabelo que apresenta falha no design que faz com que o risco de queima do couro cabeludo fosse extremamente alto. Um consumidor se queima. Há fato do produto. O fato gerador é o defeito do produto. Ofende a integridade física do consumidor. Se enquadra esse fato no regime de responsabilidade pelo fato do produto e serviço. Ex2: Compra de chapinha de cabelo que não aquece de maneira suficiente. Não alisa o cabelo. Há um vício que torna o produto impróprio. Não vai ter bom desempenho. Nesse caso, essa situação se insere no regime de responsabilidade civil por vício do produto ou serviço. Teoria da qualidade (Antônio Herman Benjamin) Conceito · O fornecedor tem dever jurídico de oferecer produtos/serviços com qualidade, que se desdobra em: 1. Qualidade de segurança → uso não deve causar danos à saúde ou patrimônio. 2. Qualidade de adequação → produto deve ter bom desempenho e durabilidade compatível. Função da teoria da qualidade · Identificar qual regime de responsabilidade se aplica: – Descumprimento do dever de segurança → fato do produto/serviço (defeito). – Descumprimento do dever de adequação → vício do produto/serviço. Exemplos práticos · Bluetooth de celular não funciona → vício (qualidade de adequação). · Micro-ondas pega fogo → defeito (qualidade de segurança). Fato do produto/serviço 5. Teoria unitária da responsabilidade civil Diferença em relação ao direito privado tradicional · Direito comum: distingue responsabilidade contratual e extracontratual (aquiliana). · CDC: adota teoria unitária → fundamento único é o descumprimento do dever de qualidade. Reconhecimento jurisprudencial (STJ) · Qualidade = segurança + adequação. · Defeito: falha de segurança → insere no produto potencialidade danosa anormal e surpreendente. · Vício: descumprimento do dever de adequação → inadequação, baixa durabilidade ou disparidade quantitativa. JURISPRUDÊNCIA No sistema do CDC, a responsabilidade pela qualidade biparte-se na exigência de adequação e segurança, segundo o que razoavelmente se pode esperar dos produtos e serviços. Nesse contexto, fixa, de um lado, a responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, que compreende os defeitos de segurança; e de outro, a responsabilidade por vício do produto ou do serviço, que abrange os vícios por inadequação (STJ, REsp 967.623/RJ). 6. Relação entre defeito e vício · Todo defeito pressupõe vício, mas nem todo vício é defeito. – Ex.: veículo com freio defeituoso → defeituoso e viciado. – Caneta que seca rápido → apenas viciada, sem risco à saúde. ❖ Vício e defeito: conceitos não excludentes Todo produto defeituoso é viciado, mas nem todo produto viciado é defeituoso. Critério determinante: · Qual dever jurídico foi predominantemente violado? – Se atinge segurança → acidente de consumo (defeito). – Se atinge adequação → impropriedade ou má qualidade (vício). 7. Responsabilidade pelo fato do produto – Art. 12, CDC O art. 12 do CDC prevê que fabricante, produtor, construtor (nacional ou estrangeiro) e importador respondem independentemente de culpa pelos danos causados por defeitos de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,apresentação ou acondicionamento, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre uso e riscos. CDC, Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. Assim: · A responsabilidade é objetiva e o fato gerador é o defeito (falha de segurança). · O dispositivo mitiga a relatividade dos contratos: mesmo sem vínculo contratual direto, o consumidor pode demandar a montadora/importadora quando o defeito lhe causa dano, típica extensão dos efeitos para além das partes. Ex: compra carro em concessionária e o tanque explode causando queimaduras, pode demandar contra a concessionária e a montadora. · Fornecedores responsáveis (CPI do fabricante): Construtor, Produtor, Importador e Fabricante — responsabilidade solidária entre eles; o consumidor pode acionar todos ou alguns. Técnica de responsabilização do CDC Quando o texto legal usa “fornecedor” em gênero, impõe deveres a toda a cadeia (fabricante, distribuidor, transportador, comerciante etc.). Quando o CDC nomeia (p.ex., “construtor, produtor, importador, fabricante”), limita a imputação a esses específicos — como no art. 12. Responsabilidade do comerciante (art. 13 do CDC) Embora, em regra, apenas a CPI do fabricante (Construtor, Produtor, Importador e Fabricante) responda objetivamente pelos danos causados por produtos defeituosos, o art. 13 do CDC prevê hipóteses em que o comerciante também pode ser responsabilizado: Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando: I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados; II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador; III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis. 1. Fornecedor não identificado: quando não for possível identificar o fabricante, produtor, construtor ou importador. – inciso I · Exemplo: compra de batatas no Carrefour sem identificação do produtor; consumidor sofre intoxicação alimentar. Responde o comerciante (Carrefour). 2. Identificação insuficiente: quando houver identificação, mas sem clareza quanto ao responsável. – incico II 3. Má conservação de produtos perecíveis: quando o comerciante não conserva adequadamente mercadorias que exigem condições especiais de armazenamento. – inciso III · Exemplo: falha na refrigeração de frios no Pão de Açúcar, resultando em intoxicação por muçarela estragada. ➡️ Natureza da responsabilidade: o STJ entende que, nessas hipóteses, a responsabilidade do comerciante é subsidiária, e não solidária. Direito de regresso e vedação da denunciação da lide · Art. 13, parágrafo único, CDC: o fornecedor que indenizar o consumidor pode exercer direito de regresso contra os demais responsáveis, conforme sua participação na causação do dano. Art. 13, Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso. · Exemplo: comerciante que indeniza o consumidor por batata estragada pode mover ação regressiva contra o produtor responsável. · Art. 88, CDC: o direito de regresso pode ser exercido em ação autônoma ou nos mesmos autos, mas é vedada a denunciação da lide. Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação de regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da lide. · Finalidade de vedação da lide: evitar demora processual e introdução de nova causa de pedir (ex. discussão de culpa subjetiva entre fornecedores). · O STJ faz interpretação extensiva: a vedação aplica-se não apenas ao fato do produto, mas também ao fato do serviço. JURISPRUDÊNCIA Recurso especial. Responsabilidade civil. Indenização por danos morais. Defeito na prestação do serviço ao consumidor. Denunciação da lide. Interpretação do art. 88 do CDC. Impossibilidade. 1. A vedação à denunciação da lide prevista no art. 88 do CDC não se restringe à responsabilidade de comerciante por fato do produto (art. 13 do CDC), sendo aplicável também nas demais hipóteses de responsabilidade civil por acidentes de consumo (arts. 12 e 14 do CDC). 2. Revisão da jurisprudência desta Corte. 3. Recurso Especial provido. (REsp 1.165.279/SP, 3.ª Turma, rel. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 22.05.2012). Pressupostos da responsabilidade pelo fato do produto A responsabilidade objetiva não significa ausência total de prova pelo consumidor. Este deve demonstrar: 1. Conduta – prova de que o fornecedor colocou o produto em circulação. 2. Dano – inexistindo dano, não há responsabilidade. · O dano no regime do fato do produto deve ser extrínseco ao bem, isto é, ultrapassar a mera depreciação econômica. · Exemplo: defeito no freio que causa acidente de trânsito, com danos físicos e patrimoniais. 3. Nexo causal – vínculo entre o defeito e o dano sofrido. 4. Defeito – há inversão legal do ônus da prova: presume-se a existência do defeito; cabe ao fornecedor provar sua inexistência. · De acordo com as circunstâncias do caso concreto, caso a prova de um desses fatos, de um desses pressupostos, seja muito difícil para o consumidor e seja fácil para o fornecedor, constatada a hipossuficiência técnica do consumidor, pode haver inversão judicial do ônus da prova, conforme art. 6º, inciso VIII, do CDC. Mas aqui é outra coisa, sendo inversão judicial. Tipologia dos defeitos Conforme a doutrina e o art. 12, §1º, CDC, três tipos de defeitos podem ser identificados: CDC, Art. 12, § 1.°. O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I – sua apresentação; II – o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III – a época em que foi colocado em circulação. 1. Defeito de concepção ou criação: falha no projeto ou na fórmula. · Exemplo: medicamento com matéria-prima nociva; veículo com tanque de combustível mal projetado; chapinha com design perigoso. · Características: inevitabilidade (escapam a qualquer controle de qualidade) e universalidade (todos os produtos da série são defeituosos). 2. Defeito de fabricação: falhas no processo de montagem, manipulação ou acondicionamento. · Exemplo: alimento contaminado por insetos durante o acondicionamento. · Características: inevitabilidade e pontualidade (ocorre em alguns exemplares, não em toda a série). 3. Defeito de comercialização: ausência ou insuficiência de informações sobre riscos ou modo de uso. · Exemplo: produto perigoso sem aviso adequado no rótulo. · Característica: defeito extrínseco (não está no produto em si, mas na comunicação). Pergunta de prova oral: quais são os defeitos extrínsecos e os defeitos intrínsecos de uma relação de consumo? Os defeitos intrínsecos são os defeitos de concepção ou de fabricação, o produto já apresenta um defeito internamente, decorrente da falha da fórmula, do projeto ou da própria falha de montagem e acondicionamento. É defeito intrínseco ao produto. Os defeitos extrínsecos são aqueles decorrentes da forma em que o produto é apresentado. Não há falha na concepção, na fórmula, no projeto. Contudo, a ausência de informação ou a maneira inadequada de apresentação desses produtos os torna potencialmente danosos. O defeito é extrínseco ao produto. Causas de exclusão da responsabilidade (art. 12, §3º, CDC) O CDC adotou a responsabilidade objetiva. E o fundamento aqui é a teoria do risco da atividade. Significa que alguns fatores, se demonstrados, podem excluir a responsabilidade do fornecedor, embora ela seja objetiva. Vejamos eles: Art. 12, § 3°. O fabricante, o construtor, o produtorou importador só não será responsabilizado quando provar: I - que não colocou o produto no mercado; II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste (hipótese de inversão legal do ônus da prova); III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. O fornecedor pode excluir sua responsabilidade quando provar: 1. Que não colocou o produto no mercado (ex.: produto falsificado vendido como original – óculos falsificado que causa prejuízo à visão, a culpa não é da fabricante original “Ray Ban”). 2. Que o defeito não existe (ônus probatório do fornecedor). 3. Que houve culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. · Exemplo: uso indevido de chapinha além do tempo indicado; instalação inadequada de ar-condicionado por técnico não autorizado. ➡️ Culpa concorrente: não exclui a responsabilidade, mas permite redução da indenização (art. 945 do CC). CC, art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendose em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano. Ex. montadora convoca consumidor para fazer reparo em tanque do carro. Ele não vai. Sofre acidente de explosão com queimaduras. Redução de responsabilidade da montadora de carros. O STJ tem aplicado o art. 945 do CC, nestes casos, não para excluir a responsabilidade, mas para reduzir o quantum do dano. Há concurso de causas. ➡️ Caso fortuito e força maior: - não há previsão no CDC. Observa-se o 393 p.ú. do CC CC, Art. 393. (...) Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. · Internos (relacionados à atividade do fornecedor) → não excluem a responsabilidade. · Externos (fatos alheios à atividade, ex. raio que queima eletrodoméstico já em uso) → podem excluir a responsabilidade. ✔ Excluem a responsabilidade do fornecedor FORTUITO INTERNO - NÃO FORTUITO EXTERNO – SIM ▪ guarda relação com a atividade do fornecedor ▪ estranho à atividade do fornecedor ▪ anterior à introdução no mercado de consumo ▪ posterior à entrada do produto no mercado de consumo ➡️ Risco do desenvolvimento: riscos não detectáveis pela ciência à época da colocação do produto no mercado. Definição: é aquele risco que não pode ser cientificamente conhecido ao momento do lançamento do produto no mercado, vindo a ser descoberto somente após um certo tempo de uso do produto e do serviço. Ex: Um laboratório coloca medicamentos no mercado que induz o consumidor compulsivamente a jogar, desenvolvendo a patologia do jogo, que pode arruinar o patrimônio do último. No entanto, quando colocado esse produto no mercado de consumo não era possível ao laboratório de acordo com o conhecimento científico da época, detectar a existência desse efeito colateral, desse defeito do produto. Neste caso, o fornecedor responde por esses danos? · Corrente minoritária: consumidor assume o risco. · 1ª Posição: consumidor. Argumenta-se, nesse sentido, que o Código só proíbe o fornecedor de inserir no mercado produtos que saiba ou deva saber serem nocivos, sendo considerados defeituosos os produtos que não atendam à segurança legitimamente esperada, tendo em vista a época em que foram colocados no mercado (art. 10 c/c os arts. 12, § 1.º, II e III, e 14, § 1.º, III) · Corrente majoritária (STJ): fornecedor responde, por se tratar de defeito de concepção e por ser o único capaz de socializar os riscos via preço. · 2ª Posição: fornecedor (doutrina majoritária). Argumenta-se, nesse sentido, que o defeito decorrente de risco do desenvolvimento representa uma espécie do gênero defeito de concepção, pelo qual deve responder o fornecedor, único capaz de distribuir, por meio dos mecanismos de preço, os custos sociais dos danos causados por tais riscos, a todos os consumidores (socialização dos riscos). No STJ: REsp 1.774.372-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi,3ª Turma, j. 05.05.2020: “O risco do desenvolvimento, entendido como aquele que não podia ser conhecido ou evitado no momento em que o medicamento foi colocado em circulação, constitui defeito existente desde o momento da concepção do produto, embora não perceptível a priori, caracterizando, pois, hipótese fortuito interno” (caso do medicamento que provocou o jogo patológico). (ADOTOU A SEGUNDA CORRENTE) Conclusão O Bloco 5 consolida a compreensão da responsabilidade pelo fato do produto, com destaque para: · A responsabilidade subsidiária do comerciante em três hipóteses específicas (art. 13 do CDC). · A importância do direito de regresso, limitado pela vedação da denunciação da lide (art. 88). · A necessidade de prova de conduta, dano e nexo causal pelo consumidor, com inversão legal do ônus da prova quanto ao defeito. · A classificação dos defeitos em concepção, fabricação e comercialização, distinguindo defeitos intrínsecos e extrínsecos. · As causas excludentes de responsabilidade, bem como a rejeição da excludente pelo risco do desenvolvimento, reafirmando a lógica de socialização dos riscos e justiça distributiva. Assim, o CDC reforça sua função protetiva, assegurando equilíbrio entre fornecedores e consumidores dentro do regime de responsabilidade objetiva. image4.png image5.png image1.png image2.png image3.png