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Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) Ciclo Cardíaco e Semiologia do Sistema Cardiovascular Normal O coração funciona como uma bomba que se enche (diástole - Relaxamento) e esvazia (sístole - Contração) Cada batimento é chamado de ciclo cardíaco Duração → Em repouso: ~0,8 segundos o 0,3 s = sístole (contração) o 0,5 s = diástole (relaxamento) Etapas do ciclo 1. Enchimento rápido (diástole inicial) o O ventrículo está relaxado o A válvula mitral/tricúspide abre → o sangue passa do átrio para o ventrículo 2. Diástase (enchimento lento) o Fluxo de sangue fica mais devagar 3. Contração atrial (sístole atrial) o O átrio “empurra” o sangue final para o ventrículo (famoso “kick atrial”) 4. Contração isovolumétrica o Ventrículo começa a contrair → válvulas atrioventriculares (mitral/tricúspide) fecham → aparece o 1º som cardíaco (S1, “tum”) o Pressão sobe, mas ainda não há saída de sangue 5. Ejeção ventricular o Quando a pressão do ventrículo supera a da aorta/artéria pulmonar, abre-se a válvula aórtica/pulmonar → o sangue é bombeado 6. Relaxamento isovolumétrico o Ventrículo relaxa → válvulas semilunares (aórtica/pulmonar) fecham → surge o 2º som cardíaco (S2, “tá”) o Tudo se fecha até que a pressão caia de novo e reabra a válvula AV → inicia outro ciclo Sons cardíacos principais o S1 (“tum”) = fechamento da mitral/tricúspide (início da sístole) o S2 (“tá”) = fechamento da aórtica/pulmonar (início da diástole) o S3 = pode ser normal em jovens/atletas, mas em adultos pode indicar falha cardíaca o S4 = quase sempre patológico (ventrículo rígido) Semiologia do Sistema Cardiovascular 1) Inspeção o Ver coloração da pele (sem cianose) o Observar veias do pescoço → não devem estar muito cheias em repouso o Procurar pulsação visível anormal no tórax 2) Palpação Habilidades Médicas – D1 Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) o Carótida: deve ter pulso forte, rápido e regular o Ictus cordis (ponta do coração): deve ser sentido no 5º espaço intercostal, na linha médio-clavicular, pequeno e bem localizado. o Não deve haver thrill (vibração) nem batida muito forte/larga 3) Ausculta (com estetoscópio nos 4 focos principais) o Foco aórtico: 2º espaço intercostal direito o Foco pulmonar: 2º espaço intercostal esquerdo o Foco tricúspide: 4º–5º espaço intercostal esquerdo o Foco mitral (apical): 5º espaço intercostal, linha médio-clavicular esquerda No normal: escuta-se S1 e S2 nítidos, sem sopros patológicos. Pode ter um desdobramento fisiológico de S2 na inspiração (normal) Primeira bulha (B1) o Som: “TUM” (do clássico “tum-tá”) o Início da sístole ventricular o Fechamento das válvulas atrioventriculares → mitral (esquerda) e tricúspide (direita) o Onde ouvir melhor: ápice cardíaco o Marca o começo da contração dos ventrículos o Sempre presente em corações normais Segunda bulha (B2) o Som: “TÁ” o Início da diástole ventricular o Fechamento das válvulas semilunares → aórtica e pulmonar o Onde ouvir melhor: base do coração (2º espaço intercostal direito = foco aórtico; 2º espaço intercostal esquerdo = foco pulmonar) o Pode apresentar desdobramento inspiratório normal (a válvula pulmonar fecha um pouquinho depois da aórtica na inspiração) o Sempre presente em corações normais Terceira bulha (B3) o Som: grave, baixo, lembrando um “tum-tá- tum” (ritmo de galope) o Logo após o B2, no início da diástole (fase de enchimento rápido ventricular) Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) o Entrada rápida de sangue no ventrículo, que gera vibração da parede ventricular o Onde ouvir melhor: ápice, com campânula, paciente em decúbito lateral esquerdo o Quando é normal: em crianças, adolescentes e atletas (coração complacente) o Quando é patológico: em adultos >40 anos → sinal de sobrecarga de volume (ex.: insuficiência cardíaca, insuficiência mitral ou aórtica, miocardiopatia dilatada) Quarta bulha (B4) o Som: grave, baixo, lembrando um “ta-tum- tá” (também chamado de galope). o Logo antes do B1, no fim da diástole (durante a contração atrial) o Contração atrial forçando sangue contra um ventrículo rígido ou com baixa complacência o Onde ouvir melhor: ápice, com campânula, paciente em decúbito lateral esquerdo o Nunca é normal o Patologias associadas: ventrículo rígido por hipertrofia ventricular (hipertensão, estenose aórtica), isquemia miocárdica, cardiomiopatia hipertrófica Semiologia do Sistema Respiratório Normal A avaliação do sistema respiratório é feita em quatro etapas clássicas da propedêutica: inspeção, palpação, percussão e ausculta Em cada uma, você observa o que é esperado no exame normal Inspeção Observar o paciente em repouso, sem tocar. Tipos de Tórax Tórax normal o Também chamado de elíptico o Mais comprido que largo o Ângulo de Charpy (entre as margens costais, na região do apêndice xifoide): ≈ 90° o Relação anteroposterior/lateral (AP/L) = 1:2 o Simetria entre os dois hemitórax 2. Tórax em tonel o Aumento do diâmetro ântero-posterior (fica quase igual ao transversal). o Ângulo de Charpy > 90° o O tórax parece “redondo”, como um barril o Associado a: DPOC (enfisema pulmonar), hiperinsuflação crônica 3. Tórax em funil (pectus excavatum) o Depressão do esterno em direção à coluna (afundado) o Pode comprimir coração e pulmões em casos graves o Pode ser congênito 4. Tórax em carena (pectus carinatum) o Proeminência do esterno para frente, como o peito de pombo o Mais raro que o excavatum o Geralmente congênito 5. Tórax cifótico o Predomínio da cifose dorsal o Alteração postural ou patológica (osteoporose, doenças reumatológicas) 6. Tórax escoliótico o Assimetria dos hemitórax por desvio lateral da coluna o Associado a escoliose o Pode prejudicar a função respiratória em casos graves 7. Tórax cifoescoliótico o Combinação de cifose + escoliose o Deforma intensamente o tórax o Pode comprometer ventilação pulmonar Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) o Movimentos respiratórios: o Simétricos, bilaterais, sem esforço o Frequência: 12 a 20 incursões por minuto (em adultos) o Padrão respiratório: o Eupneico (normal), sem uso de musculatura acessória o Expansibilidade torácica: o Homogênea entre hemitórax direito e esquerdo o Pele e subcutâneo: o Sem retrações, abaulamentos, cicatrizes ou circulação colateral o Frequência respiratória: o Dentro da normalidade, sem taquipneia ou bradipneia Exame normal: tórax simétrico, sem deformidades, movimentos respiratórios regulares e sem esforço Palpação Confirmar achados da inspeção e avaliar mobilidade o Expansibilidade torácica: o Coloca-se as mãos sobre o tórax (posterior e anterior) → as mãos devem se afastar simetricamente durante a inspiração o Frêmito toracovocal (FTV): o Paciente fala 33 o Vibrações transmitidas da laringe aos pulmões e parede torácica o Normal: frêmito simétrico em ambos os hemitórax, discretamente mais forte no ápice (pois é mais próximo da traqueia) Exame normal: expansibilidade simétrica e FTV homogêneo Percussão Avaliar o som gerado pela vibração da parede torácica, indicando a presença de ar, líquido ou macicez. o Som normal: hiper-ressonante ou claro pulmonar (devido à presença de ar nos alvéolos) o Percutir simetricamente comparando os dois lados (apex, regiões anteriores, laterais e posteriores) Exame normal: som claro pulmonar em todos os campos Ausculta Ouvir os sons respiratórios normais. o Sons normais: o Murmúrio vesicular (MV): som suave, contínuo, inspirado > expirado, audível na maior parte do tórax o Respiração brônquica: som mais intenso, grave, com expiração > inspiração, audível normalmente na traqueia o Simetria: sonsrespiratórios iguais em ambos os hemitórax o Sem ruídos adventícios: ausência de estertores, sibilos, roncos ou atrito pleural Exame normal: murmúrio vesicular bem distribuído, simétrico, sem ruídos anormais Sons Pulmonares Sons Normais 1. Murmúrio vesicular (MV) o Som suave e contínuo, como um “sopro leve” Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) o Inspiração > expiração (a inspiração é mais audível) o Ouvimos em quase toda a superfície pulmonar o Normalidade: simétrico nos dois pulmões 2. Som traqueal o Intenso, áspero o Inspiração ≈ expiração (a expiração pode até ser mais forte) o Local: sobre a traqueia 3. Som bronquial o Mais forte e rude que o vesicular o Expiração > inspiração o Local: regiões próximas ao esterno e grandes brônquios. o Obs.: se ouvido na periferia do pulmão, é patológico (ex.: consolidação) 4. Som broncovesicular o Mistura do vesicular com o bronquial o Inspiração ≈ expiração o Local: região interescapular e paraesternal Sons Adventícios - Patológicos São ruídos adicionais, não presentes normalmente 1. Estertores (crepitações) o Sons discretos, crepitantes, como “velcro sendo aberto” o Ocorrem principalmente na inspiração o Mecanismo: abertura de alvéolos ou presença de líquido o Associações: pneumonia, fibrose pulmonar, edema agudo de pulmão 2. Roncos o Sons graves, grossos, lembram um “ronco de sono” o Ocorrem principalmente na expiração o Relacionados à secreção em brônquios calibrosos o Associações: bronquite, asma com secreção 3. Sibilos o Sons musicais, agudos, tipo “assobio” o Mais audíveis na expiração o Causados por estreitamento das vias aéreas o Associações: asma, DPOC 4. Estridor o Som áspero, grave, audível principalmente na inspiração o Indica obstrução grave das vias aéreas superiores (laringe, traqueia) o Emergência! 5. Atrito pleural o Som áspero, semelhante a “couro novo sendo friccionado” o Ocorre tanto na inspiração quanto na expiração o Causado pelo atrito entre folhetos pleurais inflamados o Associações: pleurite, neoplasia, TEP Percussão Pulmonar o Técnica em que o examinador golpeia suavemente o tórax (com o dedo plexor sobre o dedo plexímetro) o O som gerado depende da quantidade de ar, líquido ou tecido sólido no pulmão o Serve para avaliar se o pulmão está arejado ou se existe consolidação, líquido ou ar em excesso Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) Percussão Normal o Som claro pulmonar ou hiper-ressonante fisiológico: o É um som oco, mas não metálico o Indica presença de ar nos alvéolos o Deve ser simétrico em ambos os hemitórax Alterações na Percussão 1. Macicez o Som surdo, maciço, sem ressonância o Indica ausência de ar → substituído por líquido ou tecido sólido o Ex.: derrame pleural, consolidação pneumônica, atelectasia 2. Submacicez (ou hipofonese) o Som intermediário entre claro pulmonar e maciço o Ex.: infiltrados pulmonares incipientes 3. Hipersonoridade (ou hiper-ressonância) o Som muito oco, mais intenso e prolongado que o normal o Indica excesso de ar o Ex.: enfisema pulmonar, pneumotórax 4. Timpanismo o Som muito ressonante, semelhante ao de percussão sobre abdome cheio de gás o Indica grande quantidade de ar livre o Ex.: pneumotórax hipertensivo Dica prática de prova: o Macicez = líquido/tecido o Hipersonoridade/timpanismo = ar em excesso o Sempre comparar lados simétricos (direito x esquerdo) Cadeia de Sobrevida e Suporte Básico de Vida com DEA Cadeia de Sobrevida (American Heart Association) A Cadeia de Sobrevida é uma sequência de ações que aumentam a sobrevida em casos de parada cardiorrespiratória (PCR) 1. Reconhecimento precoce e acionamento do serviço de emergência (SAMU 192) o Identificar sinais de parada: paciente inconsciente e sem respiração ou com respiração anormal (gasping) o Chamar ajuda imediatamente → aumenta chances de sobrevivência 2. RCP precoce (Compressões torácicas + ventilação) o Iniciar compressões fortes, rápidas e contínuas o Minimiza o tempo que o cérebro e o coração ficam sem oxigênio o Manter fluxo sanguíneo até desfibrilação ou retorno da circulação espontânea 3. Desfibrilação rápida (DEA) o Fundamental em arritmias chocáveis: fibrilação ventricular (FV) ou taquicardia ventricular sem pulso (TVSP) o Quanto mais precoce → maior a chance de sucesso 4. Suporte avançado de vida (SAV) / cuidados pós-PCR o Administração de medicamentos, monitorização avançada, estabilização do paciente o Em hospitais ou equipes treinadas Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) Suporte Básico de Vida (SBV) SBV é o conjunto de manobras essenciais que qualquer pessoa treinada pode executar, até a chegada de profissionais de saúde Passo a passo SBV para adultos 1. Segurança o Avaliar se o local é seguro para você e a vítima 2. Verificar consciência o Chame a pessoa pelo nome ou bata levemente nos ombros o Se não responder → continuar avaliação 3. Chamar ajuda / acionar o SAMU o Ligue imediatamente o Se houver DEA disponível, peça para alguém trazer 4. Abrir vias aéreas o Cabeça levemente para trás + elevação do queixo o Verifique se há obstrução visível (alimentos, corpos estranhos) 5. Verificar respiração o Olhar, ouvir e sentir por até 10 segundos o Respiração normal → monitorar o Respiração ausente ou anormal → iniciar RCP 6. Início da RCP o Compressões torácicas: ▪ Local: centro do tórax, entre os mamilos ▪ Profundidade: 5–6 cm ▪ Frequência: 100–120/min. ▪ Permitir reexpansão torácica completa entre compressões o Ventilação (se treinado e seguro): ▪ 2 insuflações após 30 compressões (relação 30:2) Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) ▪ Caso não saiba ventilar → apenas compressões (RCP contínua) DEA – Desfibrilador Externo Automático 1. Ligação e posicionamento o Ligue o DEA → siga instruções de voz o Coloque uma placa sobre a clavícula direita e outra sobre a linha axilar esquerda 2. Análise do ritmo o DEA detecta automaticamente arritmias chocáveis (FV/TV sem pulso) o NÃO toque na vítima durante análise 3. Choque elétrico o Se indicado, o DEA orienta “choque recomendado” o Após choque → continue RCP imediatamente por 2 minutos 4. Reavaliação o DEA reanalisa após 2 minutos de RCP o Continue ciclo até chegada de equipe ou retorno da circulação Observações importantes o Tempo é cérebro e coração: cada minuto sem desfibrilação reduz 7–10% de chance de sobrevivência o Compressões de qualidade salvam vidas → não pare até que chegue ajuda ou a vítima recupere pulso e respiração o SBV com DEA aumenta muito a taxa de sobrevida, mesmo por leigos Desobstrução de Via Aérea (DVA) A obstrução de via aérea ocorre quando alimentos, objetos ou secreções impedem a entrada de ar nos pulmões, podendo levar a hipóxia e parada respiratória O manejo depende de idade da vítima, se está consciente ou inconsciente e se há sinais de obstrução parcial ou total Reconhecimento de obstrução Sinais de alerta: o Incapacidade de falar, chorar ou tossir eficazmente o Respiração ruidosa, ofegante ou ausente o Cianose (lábios ou dedos azulados) o Sinal de Panick ou desespero, mãos no pescoço (sinal universal de engasgo) Classificação o Obstrução parcial: tosse eficaz, paciente consegue falar ou respirar o Obstrução total: tosse ineficaz, incapacidade de falar, respirar ou tossir, cianose Desobstrução em adultos e crianças >1 ano – consciente 1. Observar e encorajar tosse eficaz o Se a tosse funciona, não interferir 2. Manobra de Heimlich (compressão abdominal) Mariana Jaques – Medicina 2 Fase (2025.2) o Posicione-se por trás da vítima, braços ao redor da cintura o Punho fechado logo acimado umbigo, abaixo do apêndice xifoide o Segure com a outra mão e faça compressões rápidas para dentro e para cima o Repetir até a obstrução ser liberada ou perda de consciência 3. Se a vítima ficar inconsciente o Deite no chão, acione ajuda (SAMU 192) o Inicie RCP imediatamente o Durante ventilação, verificar visualmente a boca e remover corpo estranho se visível Desobstrução em lactentes (