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CORTEZ 178 SILVIA ANCONA-LOPEZ EDITORA 179 DONATELLI, M. F. A compreensão da religiosidade do cliente no psicodiagnósti- interventivo fenomenológico-existencia Tese (Doutorado) Pontifícia Uni- versidade Católica, São Paulo, 2005. FIGUEIREDO, L.C. A interdisciplinariedade e o conhecimento psicológico ou multidisicplinariedade, interdisciplinariedade, transdisciplinariedade e indisciplina- Notas para uma palestra, [s/d.] (Mimeo.) Capítulo X LEGNAME de Paulo, M. S. L. Psicodiagnóstico interventivo em pacientes adultos com depressão. Psicol., São Paulo, V. 56, n. 125, 2006. SABBATINI, R. M. E.; CARDOSO, S. H. Interdisciplinariedade e estudo Metáfora e devolução: da mente. Revista Cérebro & Mente, jun./ago. 1998. 0 livro de história no processo VILELA, E. M.; MENDES, J. M. Interdisciplinaridade e saúde: estudo bi- bliográfico. Rev. Latino-Americana de Enfermagem, 11, n. 4, 525-31, jul./ de psicodiagnóstico interventivo ago. 2003. Elisabeth Becker Marizilda Fleury Donatelli Mary Dolores Ewerton Santiago I. Introdução atendimento de crianças na área de psicodiagnóstico no Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista, onde trabalhamos como supervisoras de estágio do curso de Psicologia, possibilita uma constante reflexão sobre as questões que permeiam essa prática clínica. Uma delas é relativa à devolução das informações psicodiagnós- ticas à criança. A experiência mostra que a devolução para os pais, em geral, é mais fácil do que para a criança, por termos em comum a co- municação mediada por palavras. Com as crianças há dificuldades peculiares para transmitir e compartilhar a compreensão resultante do psicodiagnóstico. Como alternativa à tradicional forma de comunicação180 SILVIA ANCONA-LOPEZ INTERVENTIVO 181 verbal com utilização de caixa de brinquedos ou de material resultan- A importância dos mitos enquanto narrativa foi focalizada por te de procedimentos de avaliação, sugerimos construir uma narrativa Eliade (1986), que os considera uma forma de transmissão oral de sobre os aspectos mais relevantes observados no psicodiagnóstico, conhecimentos relativos a uma cosmogonia, possibilitando, desse apresentando-a à criança sob a forma de livro de história infantil. modo, ao homem conhecer sua origem e a origem do mundo, inse- Diversos autores com distintos enfoques teóricos reconhecem as rindo-se neste. "O mito designa [...] uma 'história verdadeira' e, narrativas como vitais para a evolução da humanidade e para a for- ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar mação da identidade do ser humano, na medida em que espelham e significativo" (ibidem, 7). conteúdos intrínsecos ao próprio ser. As fábulas, diferentemente dos mitos, são histórias construídas As narrativas na forma de mitos, fábulas e contos de fada têm por determinado autor e seu objetivo é transmitir uma ideia moral, sua origem em épocas remotas. Provavelmente, são as primeiras um valor. Relatam situações do cotidiano, a maneira de as pessoas se formas de literatura de que se tem notícia. Existem diferenças e se- comportarem no dia a dia. Para Souza melhanças entre as três formas de narrativas. Os mitos e as fábulas são derivados dos contos, sendo estes considerados como a forma [...] a fábula costuma ser conceituada como uma breve narrativa alegóri- mais primitiva de contar histórias. ca, de caráter individual, moralizante e didático, independentemente de Segundo Souza (2003), mito e a fábula são narrativas que têm qualquer ligação com Nela, os personagens apresentam frequentemente uma origem anônima e popular, mas divergem quan- situações do dia a dia, de onde podem ser extraídos paradigmas de com- to a seus propósitos. que diferencia o mito da fábula é seu caráter portamento social, com base no bom-senso popular. Seres irracionais e, às vezes, até mesmo coisas e objetos, contracenam entre si, ou com as coletivo e sua origem, fundamentada em questões espirituais e acon- tecimentos históricos. Essas experiências foram dramatizadas, roman- pessoas, ou com deuses mitológicos. Tais cenas simbolizam situações, comportamentos, interesses, paixões e sentimentos, humanos ou não, que ceadas, fantasiadas pela imaginação humana, que também buscou nem sempre podem ser focalizados explicitamente (2003, XXX e xxxi). dar sentido aos fenômenos inusitados, de natureza espiritual ou so- brenatural, que carecem de explicação. Desse modo, os mitos não obedecem ao princípio da razão, transmitindo um conhecimento, uma Os contos de fada, por sua vez, também são criações bastante realidade não racional. Nas palavras do autor citado: antigas. Transmitem conhecimento sobre questões humanas universais, colocando em foco as questões-limite da existência, como nascimen- [...] de acordo com conceito mais generalizado, o mito é um tipo de to, vida e morte. Para Bettelheim (1980), os contos de fada trazem à narrativa alegórica e/ou simbólica, de origens remotas e caráter cole- luz comportamentos latentes e manifestos, oferecem mensagens de tivo, que pretende transmitir uma realidade não racional, mas sempre desenvolvimento e encorajamento, falando à criança muito mais que tida como verdadeira. Em nível de narrativa, mito possui uma estru- qualquer outro tipo de literatura. caráter mágico dos contos de fada tura própria, com princípio, meio e fim, constituindo-se em uma forma tem proximidade com universo psíquico da criança, atingindo-o em de transmissão de alguma experiência vital, diluída no tempo e geral- suas diferentes nuances, possibilitando que ela entre em contato com mente ligada ao sobrenatural. Com o passar dos séculos, muitos desses suas lutas internas e problemas existenciais, bem como com outras relatos míticos perderam seu primitivo caráter sagrado, devido ao desaparecimento da noção de que todo mito nasce (num determina- batalhas que a aguardam no decorrer de sua vida. Nos contos de fada do momento histórico-cultural) ligado às crenças de uma comunidade, mal e 0 bem existem, mas estão separados, e há um caráter moral pressupondo portanto um ato de fé (Souza, 2003, em cada história. Assim, nas palavras desse autor:182 SILVIA ANCONA-LOPEZ INTERVENTIVO 183 As figuras dos contos de fadas não são ambivalentes não são boas e más ao mesmo tempo, como somos todos na Mas dado não é propósito do livro de história. Ao contrário, seus objetivos que a polarização domina a mente da criança, também domina os contemplam as possibilidades criativas da criança, cabendo sempre contos de fada (Bettelheim, 1980, 17). a ela os julgamentos e, principalmente, as possíveis soluções para os conflitos centrais. Essas narrativas são úteis aos psicólogos tanto na compreensão do psiquismo quanto no atendimento a clientes. Freud recorreu aos mitos de Édipo e de Narciso para explicar certos fenômenos psicoló- Fundamentos da devolução psicodiagnóstica gicos relativos ao desenvolvimento Outros autores descrevem os benefícios dos contos quando são utilizados como técnica nos Há três décadas, surgiram em nosso meio os primeiros trabalhos processos psicoterapêuticos, de modo geral (Oaklander, 1980; Gardner, sistematizados acerca dos fundamentos teóricos, da técnica de devo- 1993; Coelho, 2003; Gutfreind, 2003). lução de informação psicodiagnóstica ao paciente. Tais trabalhos foram 0 livro de história elaborado com a finalidade de devolução desenvolvidos na Argentina por Ocampo e Arzeno (1974). De acordo diagnóstica à criança, tal como temos feito em nossa prática clínica e com elas, a devolução é realizada em uma ou duas entrevistas no usado como metáfora no psicodiagnóstico, aproxima-se dos contos final do processo psicodiagnóstico, e é necessária para que 0 pacien- de fada em alguns aspectos e difere em outros. te possa integrar aspectos de sua identidade que estão dissociados. Quanto às semelhanças, os contos de fada e livro de história A devolutiva funciona, portanto, como mecanismo de reintrojeção, como devolutiva têm por objetivo a transmissão de algum conheci- sobretudo da identidade latente do paciente, contribuindo também mento, como conhecimento de si, da sua história, de seus conflitos, para diminuir fantasias de doença, incurabilidade e loucura, possibi- ou conhecimento de alguma situação peculiar ao existir Os litando com critérios mais próximos da realidade, com contos de fada atingem diferentes camadas da psique e livro de menos distorções idealizadoras ou depreciativas. Isso é possível na história também, na medida em que contempla a trajetória de vida e medida em que paciente pode resgatar aspectos próprios que ele conflitos da criança através de metáforas, analogias e imagens vi- depositou no psicólogo durante processo, tanto aqueles desvalori- suais que favorecem uma apreensão adequada às suas possibilidades zados e temidos, como outros, enriquecedores e adaptativos. de consciência. Para essas autoras, o objetivo essencial da devolutiva deve ser, Em ambos, a verdade é apresentada, não é omitida. Nos contos portanto, auxiliar paciente a realizar uma integração psíquica da- de fada, não raramente há a morte ou enfraquecimento de alguma queles aspectos de sua personalidade que estão dissociados, contri- figura parental e, de algum modo, a criança é colocada em contato buindo, desse modo, para a preservação de sua identidade. Se isto é com essas questões-limite da Muitas crianças trazidas para conseguido, a devolução terá para ele um caráter terapêutico. Vale um psicodiagnóstico têm histórias de vida trágica e estas farão parte lembrar a complexidade dessa tarefa, considerando-se as peculiari- do livro, embora de forma metafórica. dades do desenvolvimento da criança. Com relação às diferenças, os contos de fada têm um caráter Também para Verthelyi (1989), o conceito de devolução está ba- moral, que não ocorre com livro de história. Além disso, os contos seado na ideia de projeção e posterior reintrojeção de aspectos que o de fada promovem a interiorização de certos valores, e este também paciente revelou durante o processo psicodiagnóstico. Esta autora, entretanto, junto Friedenthal (1976), sinaliza que um único momen-SILVIA ANCONA-LOPEZ PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 185 184 to devolutivo, ao término do processo, talvez não seja o modo mais um caráter terapêutico. Em um trabalho anterior, Santiago (2001) adequado para que isso seja obtido. Considerando a importância comenta que a utilização de material de técnicas projetivas, como o desse tipo de trabalho, ambas propuseram realizar devoluções parciais CAT-A, enquanto mediador na devolução à criança, mostrou-se limi- durante todo o processo psicodiagnóstico, que permitiria explorar tada quanto às possibilidades de contribuir efetivamente para que ela melhor as hipóteses levantadas e aumentar os seus possíveis efeitos pudesse integrar alguns aspectos de seu próprio funcionamento terapêuticos. Argumentam ser mais apropriado, nessas devoluções, psíquico, assim como de obter uma compreensão daquelas situações incluir aspectos acessíveis e aceitáveis ao ego do paciente do que fazer familiares, escolares ou sociais que estavam relacionadas à manifes- interpretações. Assim, se as devoluções parciais são feitas ao longo do tação de seus sintomas. Frequentemente, eram observadas reações de processo, pode ocorrer que, ao final deste, não seja necessário comu- desinteresse ou atitudes passivas, de aparente aceitação de tudo que nicar algo novo e que a entrevista de encerramento se destine mais a lhe era dito, até expressões diretas de intolerância à devolução que resumir tudo o que foi visto e despedir-se do paciente. lhe estava sendo dada, por exemplo, tentando impedir psicólogo de prosseguir na sua comunicação. Estas dificuldades vivenciadas nos levaram a pesquisar a possibilidade de utilizar novos procedi- mentos que se mostrassem mais eficazes no sentido de alcançarmos III. A técnica de devolução e suas possibilidades nossos objetivos no encerramento do psicodiagnóstico interventivo da criança. Tais objetivos seriam possibilitar à criança apropriar-se da Quanto à questão de como realizar a devolução, Ocampo e Ar- própria história, bem como de seus conflitos, defesas, desejos e ma- zeno (1974, 402) consideram "recomendável utilizar o material de neira de se relacionar com ambiente de modo geral, que inclui testes, no qual geralmente aparece condensado ou expressado plas- retomar a relação estabelecida com psicólogo, podendo despedir-se ticamente o que podemos dizer" começando sempre pelos aspectos dele e da situação de um atendimento de uma forma mais autônoma mais adaptativos para depois abordar aqueles que são menos adap- e integrada do que quando se iniciou tativos, fazendo uso de uma linguagem simples e apropriada à crian- Na literatura pesquisada, encontramos referências ao uso de ça para que ela possa compreender nossa comunicação. histórias como forma de interpretação na psicoterapia de crianças. Opinião semelhante tem Verthelyi (1989), para quem as técnicas projetivas, especialmente os testes gráficos e os relatos, podem ser o material mais adequado para mostrar ao paciente aspectos de si mes- IV. 0 uso de histórias na psicoterapia de crianças mo observáveis em sua produção. Uma análise cuidadosa da totali- dade do material permitirá privilegiar aqueles aspectos revelados cuja temática seja mais facilmente reconhecível pelo sujeito e cujos conte- Um trabalho pioneiro sobre o uso de histórias em psicoterapia údos estejam mais próximos de sua consciência, a fim de facilitar a para comunicar à criança 0 significado psicodinâmico de seus sinto- sua assimilação. mas foi realizado por Gardner (1993). Considerando que contar his- Como supervisoras de psicodiagnóstico e psicólogas clínicas, tórias é um dos modos favoritos de as crianças se comunicarem e que trabalhando em uma concepção de psicodiagnóstico interventivo, elas gostam tanto de contá-las como de escutá-las, Gardner criou a também temos utilizado devoluções parciais durante todo processo, de relato mútuo de propondo-a para crianças de bem como focalizado a questão de que esse processo pode e deve ter 5 a 11 anos. Nesta técnica, 0 psicoterapeuta estimula a criança a criar186 SILVIA ANCONA-LOPEZ PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 187 uma história, apreender seu tema psicodinâmico, tomando-a como psicoterapêutico. Para esse autor, contar conto é aspecto essencial, uma projeção; então, formula e narra outra história para a criança sendo isso mais relevante que a necessidade de investigação das com as mesmas características presentes na dela, mas introduzindo teorias subjacentes, pois para ele "oferecer histórias a uma criança é soluções de conflitos mais saudáveis do que aquelas originalmente promover um programa eficiente de saúde mental" (idem ibidem, propostas pela criança. p. 12). Gutfreind assume como sendo extremamente relevantes as Para este autor, o psicoterapeuta tem mais chance de ser escuta- múltiplas alternativas de leituras e atribuição de significados à his- do quando fala a linguagem própria da criança a linguagem da tória, na medida em que estas remetem a criança a um mundo de alegoria. Com esta técnica, as interpretações são recebidas pelo in- infinitas possibilidades de contar, ouvir e imaginar. consciente da criança, não havendo confrontações diretas que suscitem "Contar e ouvir. E contando e ouvindo entrar em interação com ansiedade. o outro e, a partir desses conteúdos e dessa troca, construir-se como uso de histórias na psicoterapia de crianças também é relatado ser humano capaz de ter uma identidade (feito uma personagem), de por Oaklander (1980). Baseando-se nas concepções da Gestalt e tendo sentir, pensar, imaginar" (Gutfreind, 2003, p. 146). como objetivo ajudar a criança a tomar consciência de si mesma e de sua existência no mundo, a autora faz um amplo uso de histórias: conta, lê, escreve, estimula a criação de histórias através de figuras, V. A utilização do livro de história como procedimento devolutivo bonecos e, ainda, registra as no gravador e aparelho de vídeo para no psicodiagnóstico interventivo de crianças serem posteriormente vistas pela criança. Os objetivos da utilização desta técnica se assemelham, em alguns aspectos, aos de Gardner. As referências à utilização de narrativa de história como encerra- No Brasil, Safra (1984) pesquisou um método de consulta que se mento do processo psicodiagnóstico interventivo de crianças aparecem utiliza das histórias infantis como meio de intervenção. De orientação em nosso meio inicialmente como trabalho (pôster) apresentado em teórica winnicottiana, esse autor considera a narrativa de uma história um encontro de supervisores de clínicas-escola (Becker, 1999). Segui- uma forma lúdica de expressão compatível com a vida mental da ram-se várias outras apresentações de trabalhos e publicações sobre criança, que, em seus termos, "por favorecer o aparecimento do espa- essa proposta realizadas por esse grupo de supervisores (Becker, 2001, ço transicional, é elemento importante para que a criança introjete a 2002; Becker et al., 2002; Donatelli, 2001; Santiago, 2001; Santiago et intervenção sem se sentir invadida" (idem ibidem, p. 10). Nesta pro- al., 2001a, 2001b; Santiago et al., 2003). Mas foi Constance Fischer, posta, terapeuta obtém um conhecimento da criança através de um psicóloga norte-americana, a pessoa a nos inspirar e incentivar para contato com ela na hora de jogo e do uma entrevista com os pais. desenvolvêssemos essa nova técnica para devolutivas infantis, por Depois, junto a estes, constrói uma história que revela uma compre- meio de seu texto sobre psicodiagnóstico e em trabalho desenvolvido ensão dos problemas da criança e que deve ser lida para ela, pelos com supervisores de estágio na Pontifícia Universidade Católica de pais, durante certo tempo. Os resultados a que o autor chegou em sua São Nesta ocasião, relatou-nos suas experiências com a criação pesquisa mostraram a diminuição ou desaparecimento do de poemas, músicas e cartas como possibilidades de informações psi- Também no Brasil foi publicado um interessante e extenso tra- balho em que, aliando pesquisa à atividade clínica de analista de 2. Programa de em Clínica. Universidade Católica de crianças, Gutfreind (2003) propõe a utilização de contos no processo Paulo,188 SILVIA ANCONA-LOPEZ PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 189 codiagnósticas transmitidas a crianças e adolescentes. Em suas publi- Consideramos que a elaboração do livro de histórias como de- cações anteriores, Fischer (1970, 1989, 1994) expôs sua proposta de um volutiva supõe alguns elementos norteadores: psicodiagnóstico centrado na vida, o que confere particular importância livro de histórias é uma metáfora que expressa a compre- no modo como são transmitidas pelo psicólogo as compreensões ad- ensão do psicodiagnóstico. É uma síntese que contempla a vindas de um psicodiagnóstico. Para essa autora, partindo de um história vital da criança e suas vivências durante o psicodiag- enfoque existencial, o cliente é um participante informado e, desde o nóstico, suas dificuldades e recursos internos, em uma lingua- início, envolvido em papel ativo, transformando-se assim em um gem acessível à sua compreensão. assessor do psicólogo com quem desenvolve um trabalho interventivo A história e os personagens devem ser escolhidos em função contextualizado e compartilhado. Dessa forma, embora ainda estejam das afinidades e analogias com os conteúdos evidenciados presentes nas devolutivas com as crianças as alternativas mais tradi- no psicodiagnóstico. Por exemplo, pulgas e macaquinhos cionais de usar os brinquedos, bem como os estímulos à atividade como personagens para crianças com condutas hiperativas, expressiva gráfica e verbal das técnicas projetivas, assumimos, como pássaros e peixes como personagens para famílias migrantes. essa autora, a importância de oferecer à criança alternativas, entre as Deve-se dar especial atenção ao emprego de personagens quais livro de história tem sido melhor expoente. que têm, culturalmente, sentidos conotativos. No Brasil, Consideramos que livro de história é resultado da compre- veados, burros, urubus e gatos pretos podem ligar-se a sen- ensão de todo o trabalho realizado no psicodiagnóstico. Ele contém tidos pejorativos. aspectos significativos do desenvolvimento da criança e de suas re- Quanto ao conteúdo formal, é fundamental que o livro de lações com meio em que vive, assim como uma compreensão de história traduza: seus sintomas. Supomos que, desse modo, é possível dar a ela um a história de vida (familiar e da criança); entendimento melhor de seu problema, em sua o sintoma; história familiar e pessoal, incluindo também seus recursos para lidar com as dificuldades apresentadas. a busca de atendimento e a relação com psicólogo; Em nossa experiência, a criação de uma história devolutiva ex- a explicitação dos sentimentos do personagem de identificação; clusiva para a criança permite-lhe uma vivência psicológica também a integração dos diferentes aspectos observados através da única. Utilizando recursos analógicos propiciados pelas identificações hora de jogo, testes, visitas etc. com personagens, a criança parece obter uma percepção do seu sin- final da história ainda é um tema controverso, entretanto é toma, bem como a expressão dos sentimentos envolvidos. muito importante que a criança tenha a chance de expressar Pudemos observar diferentes reações das crianças durante e após sua própria solução final quanto ao encaminhamento a apresentação do livro de história: reconhecimento de que a história dizia respeito a ela, interesse e atenção durante a leitura (até nas Supomos também que o trabalho de elaboração psíquica pode crianças muito agitadas), disponibilidade para interagir na situação, prosseguir após encerramento do psicodiagnóstico, visto que livro querer compartilhar a história com a professora, com colegas, com é entregue a ela no final do processo e 0 texto e as gravuras podem avós, pedir aos pais insistentemente a releitura da narrativa ou, ao servir de estímulos para que, gradativamente, ela se aproprie mais contrário, guardá-la, "esquecê-la" até um momento de retomada. das Dessa compreensão e apropriação resulta um "encon-190 SILVIA ANCONA-LOPEZ PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 191 tro" da criança com trabalho do psicólogo de forma mais intensa Maria nasceu saudável, 0 pai diminuiu um pouco a bebida, tratou-se do que já vinha ocorrendo durante processo. e melhorou um pouco. Contudo, algum tempo depois faleceu, sendo Este procedimento tem se mostrado satisfatório em termos das que seu contato com a menina deu-se por um curto período de tempo, reações das crianças e comentários dos pais ou responsáveis no en- de aproximadamente 3 anos. A família teve que reorganizar sua vida. cerramento do processo psicodiagnóstico interventivo ou início da desenvolvimento de Maria deu-se sem nenhuma intercorrência. psicoterapia, parecendo favorecer e fortalecer estabelecimento de Durante o processo psicodiagnóstico foi possível perceber que uma área de entre estes e o psicólogo, necessária à conti- Maria é uma garota inteligente, com recursos para resolver problemas nuidade do trabalho. do cotidiano. É capaz de reter informações oferecidas pelo ambiente, Sendo assim, a devolutiva dada através do livro de história tem denotando boa capacidade de abstração e generalização de conceitos. se mostrado mais do que a etapa final de um processo de psicodiag- Apresenta boa coordenação viso-motora fina, adequada percepção nóstico. Ela remete, entre outras, às possibilidades de pesquisa quan- visual e coordenação têmporo-espacial. É extrovertida, sociável, es- to ao seu caráter terapêutico, às das histórias em tabelecendo relações e afetivas com as pessoas. A menina, função do momento evolutivo da criança e às ressonâncias na família. entretanto, é insegura, bastante competitiva, comparando-se ao outro Para ilustrar essa prática, relatamos a seguir um resumo do com a finalidade de assegurar-se de que suas produções são melhores atendimento em Psicodiagnóstico Interventivo com respectivo livro que as de seus colegas. Sente-se insatisfeita com aquilo que faz e de história. nome dos clientes, assim como alguns dados, foram busca compensação de suas insatisfações comparando e desqualifi- modificados para preservar suas identidades. cando trabalho de seus colegas. Investe muita energia nisto, que Trata-se de uma menina de 8 anos de idade, que chamaremos de a faz dispersar-se das tarefas escolares, denotando pouca atenção/ Maria. Ela foi encaminhada pela escola com a queixa de falta de aten- concentração. Percebe que sua mãe ainda lamenta a ausência do ma- ção e dificuldade de aprendizagem. Os dados colhidos sobre a história rido e sente-se culpada por isso. Procura agradá-la no sentido de de vida da criança mostravam que a família era constituída pela mãe suprir a lacuna deixada pela morte do pai, mas nota que seus esforços e cinco filhos, sendo a primeira filha adotiva, a segunda e a terceira são insuficientes. Isto faz com que se sinta ainda mais ansiosa, de- do sexo feminino e biológicas, quarto de sexo masculino, também samparada e insegura. biológico, e a última, que era a cliente em questão, do sexo feminino. Durante 0 psicodiagnóstico foi trabalhado com a mãe o fato de Os pais casaram-se e em seguida adotaram a primeira criança, que o luto pela perda do companheiro ainda era vivido pela família, que foi muito bem recebida por eles. Todos os filhos foram desejados, embora isto tivesse acontecido havia bastante tempo. Também foram embora, segundo a mãe, a gravidez de Maria tenha ocorrido num feitas intervenções no sentido de que Maria precisava de mais atenção período tumultuado de sua vida. A mãe comentou que ela e o mari- e estímulo, precisava ser vista e atendida em suas necessidades. No do viviam bem e em perfeita harmonia até o momento em que ele final do processo, tanto a mãe quanto a criança tinham tido algum soube que tinha uma doença grave. Ficou muito revoltado, recusou progresso, mas foi decidido em comum acordo que Maria deveria con- qualquer tipo de tratamento e passou a beber. tinuar atendimento, sendo encaminhada para psicoterapia infantil. A vida familiar mudou, e os conflitos entre casal tornaram-se A seguir mostramos algumas das situações que foram focalizadas rotina. Foi neste momento que a mãe engravidou de Maria, fato que ge- no livro de história, a adoção da primeira filha, a doença do pai e a rou muitos temores e preocupações no âmbito Apesar de tudo, sua morte.SILVIA ANCONA-LOPEZ PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO 193 192 Acontece que quando todos estavam comemorando, papai Lino começou a se sentir fraco, tão que sabia que a qualquer momento poderia ser levado por uma correnteza mais forte. Sua tristeza foi tanta que Lino começou a pro- curar algas distantes que possuíam um néctar especial que faziam esquecer disso. Depois de esse néctar, papai Lino voltava para casa irritado e com a mamãe Fifi. Logo que se casaram, uma peixinha ainda pequena foi morar com eles, essa peixinha se chamava NANI. Nani foi tratada pelo casal com muito amor, como se tivesse nasci- do da barriguinha da mamãe Fifi.194 SILVIA INTERVENTIVO 195 Referências bibliográficas BECKER, E. Contando histórias para crianças: uma aproximação entre a prática do psicodiagnóstico e a psicoterapia breve. In: ENCONTRO ESTA- DUAL DE CLÍNICAS-ESCOLA, 7., Unimep-Piracicaba, São Paulo, 1999. PRIKA ainda era pequena quando chegou uma correnteza mais A criança, as histórias e a sua história: Uma especificidade da devo- forte e levou embora papai Lino, que já não tinha mais força lução no psicodiagnóstico interventivo. In: CONGRESSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA, 1., Programas e resumos. Universidade Presbiteriana Mackenzie, para nadar. Já faz tempo que isso aconteceu, mas a tristeza ainda São Paulo, 2001. é grande no coral dos peixinhos. 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