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Um tema presente no processo inicial de reforma sanitária foi “Saúde é Democracia”, que ganhou força nas universidades e nos sindicatos, com ápice em 1986, durante a realização da VIII Conferência Nacional de Saúde, da qual falaremos mais adiante, que teve como um dos seus principais representantes Sérgio Arouca. Sérgio Arouca: Antônio Sérgio da Silva Arouca (1941-2003) foi médico sanitarista e político brasileiro. Um momento bastante importante e que influenciou o Brasil foi a Conferência de Alma-Ata, que aconteceu em 1978 no atual Cazaquistão, organizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para priorizar os cuidados primários em saúde, principalmente nos países em desenvolvimento. Esse encontro gerou um documento conhecido como Declaração de Alma-Ata, que trouxe pontos essenciais e orientadores para a implementação da Atenção Primária da Saúde. A tese defendida por Sérgio Arouca, em 1975, chamada “O Dilema Preventivista”, impulsionou a ideia da reforma sanitária. Também ajudaram na ideia de um movimento que reformasse a saúde no Brasil a criação, em 1976, do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES) e, em 1979, da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO). Essa duas instituições ainda hoje são altamente relevantes, para um sistema que seja integral, fazendo dentro dele a interlocução política. Outra instituição de grande importância nas articulações e avanços na saúde, a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da FIOCRUZ, surgiu nesse momento e, com ela, projetos e feitos importantes, como a clínica da família e pesquisas sobre saúde comunitária. O acesso universal à saúde só seria possível a partir de um modelo democrático. Uma das propostas do movimento de Reforma Sanitária era transferir o INAMPS para o Ministério da Saúde, diminuindo essa fragmentação. Outro acontecimento importante nesse processo de fortalecimento da proposta da reforma sanitária foi o I Simpósio de Política Nacional de Saúde da Câmara dos Deputados, quando a criação do SUS foi defendida ineditamente. Agora retornamos ao que foi chamado de ápice da Reforma Sanitária, a VIII Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, no ano de 1986, coordenada por Sérgio Arouca. Essa foi a primeira conferência aberta à população, contando com participação significativa dessa parcela tão importante para a configuração de um sistema construído dentro da concepção ampliada de saúde. Na VIII Conferência Nacional de Saúde, tivemos também a participação de trabalhadores, gestores e prestadores de serviços de saúde. As propostas da conferência originaram-se de apontamentos realizados em conferências municipais e estaduais, ou seja, um processo ascendente, que, de fato, poderia trabalhar em torno das reais necessidades da população. O Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS) foi uma ferramenta de transição para o SUS durante o processo de redemocratização. Ele propunha a transferência dos serviços do INAMPS para estados e municípios, estabelecendo que cada esfera (nacional, estadual e municipal) deveria contar com um gestor da saúde. Em 1990, ocorreu a promulgação de duas leis importantes para a saúde, chamadas de leis orgânicas da saúde, sendo a primeira a Lei nº8.080/1990, que instituiu o SUS, e a Lei nº 8.142/1990, que aborda as questões do controle e participação social no sistema. SUS Na década de 1970, muitos começaram a unir forças contra o regime de ditadura vigente, lutando contra a opressão e a exclusão que atingiam diversos setores, inclusive a área da saúde. Na década de 1980, o Brasil reconquistou um regime democrático de governo e, a partir desse renascimento da democracia, começou a construção de um sistema de saúde universal, ou seja, para toda a população, até para os que não tinham vínculos formais de trabalho. Constituição Federal de 1988 No sistema que surge junto com a democracia, além de acesso universal, a ideia é melhorar a qualidade de vida da população, pensando que não seria possível ter saúde em um modelo em que predomine concentração de renda, com grande marca de exclusão, ou seja, não seria possível ter saúde a partir de um modelo de governo opressor e autoritário. O movimento democrático fortaleceu o movimento sanitário e vice-versa, ou seja: saúde é democracia e democracia é saúde. É nesse contexto que a Constituição Federal de 1988 é publicada, com o intuito de assegurar direitos, liberdade, segurança, justiça, entre outros, visando a uma sociedade igualitária e sem preconceitos. Em função de todo o cuidado em detalhar tais pontos em seu texto, a Constituição Federal de 1988 é conhecida como uma das melhores do mundo, sendo chamada também de Constituição Cidadã. A Constituição reforça, em um de seus parágrafos, que todo poder emana do povo e que a população exerce esse poder diretamente e por meio de governantes eleitos democraticamente, tendo como alguns de seus objetivos: Erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais; Construir uma sociedade justa e livre; Promover o bem de todos sem nenhum tipo de exclusão. Independentemente de raça, gênero, sexo, idade, todos estão contemplados no texto constitucional. Por que estamos falando disso? Porque isso é saúde, ultrapassa a visão biologicista. A Constituição de 1988 aborda os nossos direitos sociais, que são: Alimentação; Assistência aos desamparados; Educação; Lazer; Moradia; Previdência social; Proteção à maternidade e à infância; Saúde; Segurança; Trabalho Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. No art. 200, diz respeito às diversas atribuições do SUS. São elas: •Controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos. •Executar ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador. •Ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde. •Participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico. •Incrementar, em sua área de atuação, o desenvolvimento científico e tecnológico. •Fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e água para consumo humano. •Participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos. •Colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o trabalho. Lei n. 8.080 de 1990 A Lei Orgânica da Saúde traz as condições para promover, proteger e recuperar saúde, pensando na organização e no funcionamento dos serviços, bem como outras providências. Todo o território nacional será regulado por essa lei a partir de ações e serviços de saúde, ou seja, a Lei n. 8.080/1990 institui o SUS! A Lei n. 8.080/1990 aponta a competência de cada esfera de governo no SUS, ou seja, o sistema funciona de maneira descentralizada, rompendo com a lógica federal centralizadora de períodos anteriores, dando atribuições e autonomia a estados e municípios. Os princípios doutrinários do SUS Descrever e exemplificar os princípios doutrinários do SUS: equidade, integralidade e universalidade Universalidade Quando falamos que saúde é um direito de todos e que é dever do Estado que suas ações e serviços sejam garantidos, estamos falando de universalidade. Esse princípio busca garantir o acesso de todos que tenham necessidade de fazer uso do SUS, independentemente de sexo, raça, classe econômica, profissão ou qualquer outra particularidade. O princípio da universalidade rompe com a lógica do Inamps, que limitava saúde a quem tivesse vínculo empregatício formalizado. Saúde é para todos, tanto quandose pensa em prevenção como para promoção da saúde ou recuperação. É comum ainda ver idosos apresentando carteira de trabalho ou justificando a ausência dela ao acessarem algum serviço de saúde. É preciso que os profissionais expliquem que não há mais necessidade desse tipo de ação. Equidade Não podemos confundir equidade com igualdade; de maneira alguma estamos falando de sinônimos. Precisamos pensar em equidade como justiça social, em que as diferenças são reconhecidas, respeitadas e acolhidas. Ou seja, é preciso entender que partimos de lugares desiguais, necessitando assim de intervenções diferenciadas para que se possa chegar ao mesmo lugar. Em equidade não é possível a presença de preconceitos ou privilégios, pois reconhecemos que vivemos em um país de dimensão continental, com diversas culturas, questões regionais e sociais. Todos somos diferentes, mas existem diferenças que são prejudiciais e afetam o coletivo. É nesse caminho que a equidade vai atuar. Integralidade Esse princípio traz a importância de se olhar o sujeito como um todo, acolhendo suas necessidades específicas, olhando além da doença, incluindo todas as suas dimensões de existência, utilizando ações de promoção, prevenção e recuperação em saúde. Mesmo em situações similares, o atendimento integral pressupõe ações singulares. Regionalização As ações e serviços de saúde devem compor uma região de saúde, com organização por níveis de complexidade, delimitados geograficamente, definindo a população que será atendida, ou seja, regionalizar envolve muito mais do que somente contornar espaços. A região de saúde precisa de características comuns de transporte, de cultura, ou seja, precisam ter realidades semelhantes e com funcionamento compartilhado. O acesso inicial é feito por meio da Atenção Básica ou Atenção Primária que, a partir de um acompanhamento no cotidiano do território, consegue responder a muitas questões. As situações que precisam de níveis mais específicos de cuidado e intervenção serão direcionadas, a partir da atenção primária, para serviços de maior complexidade. Já no texto da Constituição Federal de 1988, podemos encontrar apontada a necessidade de o SUS ser regionalizado. Hierarquização A organização dos serviços em redes deve ser feita de maneira hierarquizada a fim de fazer um diagnóstico mais aprimorado dos problemas e das questões de saúde de uma região e assim traçar as ações necessárias de prevenção, promoção e recuperação de saúde para aquele local. Ou seja, a partir do território nasce o planejamento para gestão e cuidado em saúde, em uma lógica ascendente. Resolutividade Em qualquer nível de complexidade que as pessoas necessitem, é preciso que o atendimento em saúde seja resolutivo, capaz de resolver a questão. Descentralização Tem relação direta com a regionalização. As três esferas de governo — federal, estadual e municipal — terão competências e responsabilidades em relação a ações e serviços de saúde, tanto no sentido administrativo quanto no sentido financeiro. A descentralização existe com o intuito de estimular a capacidade de cogestão entre os entes na lógica regional, rompendo com a ideia de que o ente federal deve ser o maior responsável pelo sistema, como antes acontecia, com forte centralização de poder. Controle e participação social Para que o SUS atue conforme os interesses e as necessidades populares, é preciso que a população ocupe entidades representativas, como os conselhos de saúde, existentes nas três esferas (federal, estadual e municipal) e participe de conferências de saúde também nas três esferas, formulando e fiscalizando a execução das políticas de saúde. A Lei n. 8.142/1990 determina que as conferências de saúde precisam ter participação representativa de diversos segmentos sociais, ocorrendo a cada quatro anos nas três esferas de governo, as quais vão se reunir a cada quatro anos para avaliar a situação de saúde e propor novas diretrizes para a formulação das políticas públicas de saúde. Essa lei também traz detalhes sobre o funcionamento e a composição dos conselhos de saúde: Deve ter caráter permanente e deliberativo, com a seguinte composição nos três níveis de gestão: 50% dos usuários, 25% de gestores e prestadores de serviço e 25 % de profissionais de saúde. Os conselhos de saúde devem atuar na formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde em cada instância correspondente, incluindo aspectos econômicos e financeiros. As decisões serão homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera do governo. LEI n. 8.142, 1990 O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é o principal dispositivo de cuidado em saúde mental do SUS e existe em todo o país com o intuito de cuidar em liberdade, longe de muros de hospitais psiquiátricos, de pessoas com transtornos mentais severos, articulando seu trabalho com diversos outros dispositivos da cidade. Desafios do SUS Temos um grande desafio em nível de gestão, que é o fato de três entes serem responsáveis, autônomos, solidários e cooperativos no sistema — o que chamamos de articulação interfederativa —, que é essencial para a descentralização e a integralidade, mas que ainda precisa avançar significativamente, pois, na prática, ainda vemos protagonismo do Ministério da Saúde. Em algum momento você já pode ter pensado que o Ministério da Saúde seria o órgão com maior poder no SUS, mas já vimos no módulo anterior que essa não é a realidade. Outro desafio é a participação da população no SUS, pois ela ainda não ocupa de maneira eficaz os espaços — como em conselhos de saúde para controle e participação social —, podendo fiscalizar e propor políticas de saúde. Podemos citar também o grande desafio que é a dificuldade de regulamentação do setor privado na saúde brasileira, devendo ser complementar e não substitutivo. Existe também alta rotatividade de profissionais em gestão e assistência devido a vínculos frágeis, mudanças de governo, entre outros fatores. Ainda na década de 1990, tivemos algumas normas operacionais publicadas com o intuito de embasar o SUS juridicamente e institucionalmente, trazendo normatização, objetivos, prioridades, diretrizes e estratégias para o sistema. Foram publicadas as Normas Operacionais Básicas (NOBs) e as Normas Operacionais de Atenção à Saúde (NOAs), com a presença dos três níveis de governo, buscando formalização e regularização nessa articulação interfederativa. Como acontece a gestão do SUS entre os três entes: No nível federal, o órgão responsável por gerir é o Ministério da Saúde; no nível estadual, temos as secretarias estaduais de saúde e no nível municipal temos as secretarias municipais de saúde. Os gestores de cada esfera reúnem-se em espaços chamados Comissão Intergestores Bipartite (CIB), com participação do estado e municípios e Comissão Intergestores Tripartite (CIT), com a presença dos níveis federal, estadual e municipal. Nesses espaços, com reuniões periódicas, as políticas e os programas de saúde são avaliados e pactuados.