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Unidade 4 Livro Didático Digital Éderson da Cruz Metodologia do Ensino da Arte Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autor ÉDERSON DA CRUZ O AUTOR Éderson da Cruz Olá. Meu nome é Éderson da Cruz. Sou formado em Letras-Português (UNISINOS, 2010), Mestre e Doutor em Educação (UNISINOS, 2015; 2019), Especialista em Gestão Escolar – Orientação e Supervisão (Faculdade São Luís, 2017) e Pedagogo (UFRGS, 2020), com uma experiência técnico profissional nas áreas de Letras, Linguagens e Educação de mais de dez anos. Passei por instituições públicas (estaduais e municipais) e privadas, de Educação Infantil, Ensinos Fundamental e Médio, Ensino Técnico e Ensino Superior, no estado do Rio Grande do Sul, atuando como docente e também como supervisor escolar. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso, fui convidado pela Editora Telesapiens e integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Neste material, estudaremos os fundamentos do ensino da Arte. Você verá que a arte, além de uma forma de expressão, é um campo de saber muito rico e conectado com nossa realidade de diferentes formas, possibilitando o gosto estético e também o repensar e realidade e a forma como percebemos o mundo que nos cerca. Vamos nessa? Conte comigo para o que precisar. Bons estudos! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Arte na Educação Infantil ....................................................................... 12 O papel da Arte na Educação Infantil ............................................................................... 12 Concepções de Arte e práticas pedagógicas .......................................................... 16 Necessidade de mudanças na abordagem ................................................................ 18 O trabalho com as crianças ..................................................................................................... 21 História do Ensino da arte no Brasil .................................................... 25 Breve introdução .............................................................................................................................25 A vinda da Missão Francesa ....................................................................................................28 O ensino de Arte numa perspectiva liberal .................................................................35 História do Ensino da arte no Brasil a partir do Modernismo ... 41 O Modernismo ................................................................................................................................... 41 O pensamento de John Dewey ............................................................................................43 A Arte como atividade extracurricular para crianças e adolescentes ..... 46 Arte como forma de liberação emocional ................................................................... 48 Ensino da Arte na segunda metade do século XX ........................ 55 1964 e a pressão por mudanças ..........................................................................................55 1980 e depois: As tendências pós-modernistas .....................................................60 Algumas considerações sobre o ensino de arte pós-1964 ............................. 64 9 LIVRO DIDÁTICO DIGITAL UNIDADE 04 Metodologia do Ensino da Arte 10 INTRODUÇÃO Nesta unidade, abordaremos não somente os conceitos importantes para se pensar a arte, mas também veremos possibilidades de, por meio do ensino da arte em sala de aula, produzir conhecimentos e aprendizagens. Metodologia do Ensino da Arte 11 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Associar arte com a Educação Infantil; 2. Identificar a história do ensino da arte no Brasil; 3. Identificar a história do ensino no Brasil a partir do modernismo; 4. Identificar o ensino da arte na segunda metade do século XX. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Metodologia do Ensino da Arte 12 Arte na Educação Infantil INTRODUÇÃO: Ao término desse capítulo, terá conhecimento sobre alguns pressupostos importantes da Arte na Educação Infantil, para refletir sobre a prática docente nesse nível de ensino. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Figura 1: A arte Fonte: Pixabay O papel da Arte na Educação Infantil Iniciaremos nossa reflexão com uma citação de Cunha (2007) sobre a Arte na Educação Infantil: Desenhar, brincar, poetar. Manchar, riscar, construir, se encantar. Transformar um fragmento de vidro em uma joia rara, rabiscos em dragão alado, pensamentos em formas. Buscar o dizível no invisível, e o visível na criação. Modos particulares e únicos de ver, sentir, expressar, de inventar e de reinventar o Metodologia do Ensino da Arte 13 mundo. Depois de desenhar uma série de formas e riscos (des) ordenados, a criança costuma dizer: Eu, mamãe, a barraca e o gato. Faz-de-conta! Picasso reúne um guidão e o selim de uma bicicleta: Cabeça de touro. Assemblage, ressignificações de objetos. Arte! A arte faz de conta. Crianças, artistas, fazem de conta que cada rabisco, cada objeto, cada fragmento, cada pensamento vire uma coisa única. Tanto as crianças, quanto os adultos que persistem em deslocar a ordem estabelecida do mundo por meio da criação artística compartilham de um pensamento similar, no sentido de que ambos propõem simulacros ou fingem que uma coisa é outra coisa (CUNHA, 2007, s/p). Tanto artistas como crianças percebem o mundo e dão sentido a ele através de formas singulares. Utilizam seus sentidos de forma mais aguçada do que a grande parte dos adultos, que deixaram ao longo do tempo esta capacidade humana de ver, imaginar e simbolizar para trás, no passado. Por muitos motivos, e em um determinado período da infância (mais ou menos por volta dos 6-7 anos), boa parte das pessoas abandona seus infindáveis processos de elaborar enunciados poéticos. Por outros motivos, alguns adultos insistem em suas procuras por alterar os sentidos das coisas, insistindo em transformar o ordinário em extraordinário, o vulgar em diferente. Aqueles que persistem em nos provocar com suas produções, sejam elas as mais tradicionais, como a pintura e o desenho, sejam as performances e as instalações, são conhecidos, em nossa sociedade, como artistas. Os artistas brincam com o cotidiano,no Rio de Janeiro. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 22). Outra iniciativa, de Augusto Rodrigues, Alcides da Rocha Miranda e Clóvis Graciano, também recebeu bastante prestígio e incentivo daqueles que buscavam a redemocratização da educação, como Helena Antipoff e Anísio Teixeira que, naquele momento, estava se refugiando na Amazônia em virtude da perseguição política do Estado Novo. Barbosa e Coutinho (2011) apresentam um panorama bastante importante desse período, o qual reproduziremos a seguir, a fim de não deixarmos “escapar” nenhum detalhe importante sobre esse período: Depois que iniciou seus cursos de formação de docentes, a Escolinha de Arte do Brasil teve uma enorme influência multiplicadora. Professores, ex-alunos da Escolinha, criaram Escolinhas de Arte por todo o Brasil, chegando a haver vinte e três Escolinhas somente no Rio Grande do Sul, constituindo-se no Movimento Escolinhas de Arte (MEA). Metodologia do Ensino da Arte 50 Usando especialmente argumentos psicológicos, o MEA tentou convencer a escola comum da necessidade de deixar a criança se expressar livremente usando lápis, pincel, tinta, argila etc. Naquele momento, dava a impressão de ser um discurso de convencimento no vazio, uma vez que os programas editados pelas Secretarias de Educação e Ministério de Educação deveriam ser seguidos pelas escolas e acabavam tolhendo a autonomia do professor tanto quanto os Parâmetros Curriculares Nacionais em Ação de hoje. Ocorreu, na época, uma enorme preocupação com a renovação destes programas. Lúcio Costa (autor do plano urbanístico de Brasília) foi chamado para elaborar o programa de desenho da escola secundária (1948). Seu programa revelava certa influência da Bauhaus, principalmente na preocupação de articular o desenvolvimento da criação e da técnica e desarticular a identificação de arte e natureza, direcionando a experiência para o artefato. Este programa nunca foi oficializado pelo Ministério de Educação e só pôde exercer influência sobre o ensino da arte a partir de 1958. Naquele ano, uma lei federal permitiu e regulamentou a criação de classes experimentais. As experiências escolares surgidas nesta época objetivavam, sobretudo, investigar alternativas experimentando variáveis para os currículos e programas determinados como norma geral pelo Ministério de Educação. A presença da arte nos currículos experimentais foi a tônica geral. Houve escolas continuaram a aplicar alguns métodos renovadores de ensino introduzidos na década de 1930, como o método naturalista de observação e o método de arte como expressão de aula, agora sob a designação de arte integrada no currículo, isto é, relacionada com outros projetos que incluíam diversas disciplinas. Algumas experiências foram feitas, aproveitando ideias lançadas por Lúcio Costa em seu programa de desenho para a escola secundária de 1948. Porém, a prática que dominou o ensino da arte nas classes experimentais foi a exploração de uma variedade de técnicas, de pintura, desenho, impressão Metodologia do Ensino da Arte 51 etc. O essencial é que no fim do ano letivo o aluno tivesse tido contato com uma larga série de materiais e empregado uma sequência de técnicas estabelecidas pelo professor. Para determinar esta sequencialidade, os professores se referiam à necessidade de se respeitar as etapas de evolução gráfica das crianças. Três mulheres fizeram das Escolinhas a grande escola modernista do ensino da arte no Brasil: Margaret Spencer, que criou a primeira Escolinha com o artista plástico Augusto Rodrigues, era uma escultora americana que conhecia as Progressive Schools e o movimento de arte/ educação já bastante desenvolvido nos Estados Unidos. A segunda destas mulheres que fizeram a Escolinha foi Lúcia Valentim, que assumiu a direção da Escolinha de Arte do Brasil durante uma prolongada viagem de Augusto Rodrigues ao exterior. Influenciada por Guignard de quem foi aluna, imprimiu uma orientação mais sistematizada à Escolinha e se desentendeu com Augusto quando este retornou ao comando. Entrou em cena, então, Noêmia Varela convidada por Augusto para assumir a direção da Escolinha, passou a ser a orientadora teórica e prática com total responsabilidade pela programação, na qual se incluía o já citado Curso Intensivo em Arte Educação que ajudou a formar toda uma geração de arte/educadores no Brasil e muitos na América Latina Hispânica. A visibilidade de Augusto Rodrigues foi muito maior que a destas três mulheres, assim como foi maior do que a de sua própria ex-mulher Suzana Rodrigues, que criou o Clube Infantil de Arte do Museu de Arte de São Paulo no mesmo ano (1948), mas meses antes de Augusto ter criado a Escolinha de Arte do Brasil. Quanto a Margaret Spencer, nada mais se soube dela; ela foi apagada da história da arte/educação no Brasil. Até aqui, pode-se dizer que o desenvolvimento do ensino de arte nas escolas brasileiras, especialmente no século XX, seguiu tendências plurais, que procuraram valorizar tanto a técnica, quando formar intelectualmente e para o mercado Metodologia do Ensino da Arte 52 de trabalho. A arte, ao longo do século XX, foi vista como um elemento importante para compor os currículos escolares e, independentemente da forma e do enfoque teórico com o qual era abordada, foi se constituindo de forma cada vez mais presente nos currículos das escolas, tanto para meninos quanto para meninas. As tendências escolares da primeira metade do século XX no Brasil, no que diz respeito ao ensino da Arte, também procuraram seguir enfoques estrangeiros, como os americanos e europeus. Pouco se criou de forma inovadora em nosso país. Contudo, muito se falou sobre o ensino da arte.Por fim, as últimas tendências do ensino de arte viam em sua prática uma forma de expressar sentimentos e emoções, de pensamento criativo e de formação, seja ela intelectual ou técnica.(BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 22-24). De modo geral, pode-se dizer que, apesar das críticas que se pode realizar à política de educação do Estado Novo, um movimento bastante significativo por ele realizado por a permissão de que se espalhasse o número de escolas de arte, contribuindo não somente para a constituição do ensino de arte no país, mas para sua implementação. Com o apoio do estado, muitos educadores passaram a pensar esse ensino que, mesmo adquirindo características técnicas, foi importante naquele momento histórico para que hoje chegássemos às reflexões que realizamos sobre o passado. Isso nos permite retomarmos o presente e refletirmos sobre o ensino de arte nas escolas atualmente, em especial, na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. É necessário que as crianças e adolescentes conheçam técnicas artísticas, mas isso por si só não basta; há que se buscar, em cada planejamento, ampliar os horizontes artísticos dos alunos. Da mesma forma, não se pode repetir os mesmos erros do passado, utilizando a arte como pretexto para o ensino de outras competências, como a preparação para o trabalho. Metodologia do Ensino da Arte 53 É necessário, antes de tudo, que o professor, juntamente com seus alunos, estabeleça um ponto de partida para o conhecimento prévio das crianças, e outro ponto de chegada, que pode ser revisado constantemente, na medida em que as crianças vão ampliando seu repertório artístico e cultural. A arte não deve ser usada para fins exclusivos e ideológicos, mas para possibilitar que se enxergue o mundo de diferentes maneiras, sob diferentes perspectivas e diferentes pontos de vista. Assim, algumas orientações que fazemos em relação à reflexão sobre o ensino de arte é que se leia os pensadores clássicos abordados nesse capítulo, mas que também se tenha sensibilidade para perceber como ensinar e o que ensinar em sala de aula, que esteja de acordo com as diretrizes educacionais,mas que também possa permitir que os alunos avancem em relação ao conhecimento sobre a arte, sobre si e sobre o mundo. Não podemos nos esquecer de que a arte deve ser encarada como uma livre expressão, como uma forma de mostrar a individualidade e de dialogar com anseios individuais e coletivos e que, por isso, deve ser valorizada como artefato cultural, não como pressuposto para outra coisa, seja ela qual for. RESUMINDO: Neste capítulo, você aprendeu que: O Modernismo de 1922 inaugurou um novo tempo no ensino de arte no Brasil. Mesmo não interferindo diretamente e em breve tempo, foi por intermédio dele que se passou a olhar o ensino de arte com outros olhos; A metodologia do ensino de arte seguiu, durante um bom período do século XX, as tendências norte-americanas e europeias; Metodologia do Ensino da Arte 54 RESUMINDO (continuação): A metodologia do ensino de arte seguiu, durante um bom período do século XX, as tendências norte-americanas e europeias; Dentre algumas das concepções mais importantes do ensino de arte nas escolas, destacam-se: a influência modernista, o pensamento modernista, os movimentos do ensino de arte como componente extracurricular e a compreensão da arte como forma de libertação dos sentimentos. Metodologia do Ensino da Arte 55 Ensino da Arte na segunda metade do século XX INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de ter um panorama sobre o ensino de arte na segunda metade do século XX até os dias atuais, bem como compreender e refletir sobre algumas linhas contemporâneas para o ensino de arte. Como um estudante do curso de Pedagogia, é importante que você os conheça, para que sua análise e trabalho com obras de arte se torne mais abrangente, fundamentada e profissional. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! 1964 e a pressão por mudanças Talvez, um dos períodos mais conturbados em termos de liberdade de expressão de nossa história tenha sido o período da Ditadura Militar, iniciada em 1964 e finalizada na década de 1980. Com o regime militar, muitas reformas educacionais foram realizadas, procurando alinhar a educação aos interesses do governo. Conforme Barbosa e Coutinho (2011), A ditadura de 1964 perseguiu professores e escolas experimentais foram aos poucos desmontadas sem muito esforço. Era só normatizar e estereotipar seus currículos tornando-as iguais as outras do sistema escolar. Até escolas de educação infantil foram fechadas. A partir daí, a prática de arte nas escolas públicas primárias foi dominada, em geral, pela sugestão de tema e por desenhos alusivos a comemorações cívicas, religiosas e outras festas. No entanto, por volta de 1969, a arte fazia parte do currículo de todas as escolas particulares de prestígio, seguindo a linha Metodologia do Ensino da Arte 56 metodológica de variação de técnicas. Eram, porém, raras as escolas públicas que desenvolviam um trabalho de arte. Na escola secundária pública comum, continuou imbatível o desenho geométrico com conteúdo quase idêntico proposto pelo Código Epitácio Pessoa em 1901. Nos fins da década de1960 e início de 1970 (especialmente entre 1968 e 1972), em escolas especializadas em ensino de arte, começaram a ganhar lugar algumas experiências no sentido de relacionar os projetos de arte de classes de crianças e adolescentes com o desenvolvimento dos processos mentais envolvidos na criatividade, ou com uma teoria fenomenológica da percepção, ou ainda com o desenvolvimento da capacidade crítica ou da abstração e talvez mesmo com a análise dos elementos do desenho. Um certo contextualismo social começou também a orientar o ensino da arte especializada, podendo-se detectar influências de Paulo Freire na experiência da Escolinha de Arte de São Paulo. Algumas escolas especializadas, como a Escola de Arte Brasil (São Paulo), Escolinha de Arte do Brasil (Rio de Janeiro), e Escolinha de Arte de São Paulo, Centro Educação e Arte (São Paulo), o NAC – Núcleo de Arte e Cultura (Rio de Janeiro) tiveram ação multiplicadora nos fins da década de 1960, influenciando professores que iriam atuar ativamente nas escolas a partir de 1971, quando a Educação Artística se tornou componente obrigatório nos currículos de 1º e 2º graus (atuais ensinos fundamental e médio) e na universidade nos cursos de Educação Artística e licenciatura em artes plásticas, criados em 1973.(BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 26-27). Pode até soar de forma estranha que foi justamente durante a ditatura que o ensino de arte, nas escolas públicas, tenha se consolidado. No entanto, essa consolidação se tratou de um processo a que Barbosa e Coutinho (2011) denominam como “mascaramento humanístico para uma lei extremamente tecnicista”, a lei 5692, que buscou promover a profissionalização dos jovens de classe média. Como, no entanto, as escolas públicas careciam de recursos materiais e de laboratórios que Metodologia do Ensino da Arte 57 as colocassem num patamar semelhante aos das escolas elitistas, os resultados dessa implementação, com foco no acesso ao mercado de trabalho nas indústrias, foram praticamente nulo. Por outro lado, no entanto, as diferencias sociais no país, bem como a pobreza dos mais pobres aumentou consideravelmente, já que as escolas particulares eram as mais preparadas para que os jovens ingressassem no mercado de trabalho e também no ensino superior. Enquanto isso, o ensino médio da rede pública sequer preparava para o acesso à universidade, nem formava técnicos assimiláveis pelo mercado. No que diz respeito ao ensino da arte, cursos universitários de dois anos foram criados para preparar professores aligeirados, que ensinassem todas as artes ao mesmo tempo, tornando a arte na escola uma ineficiência a mais no currículo. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 28). A Reforma Educacional promulgada no ano de 1971 trouxe muitas novidades para o ensino de arte, em especial, a noção de polivalência. Tal reforma pretendia que a arte se dividisse no ensino das seguintes áreas: artes plásticas, música e artes cênicas (teatro e dança), devendo essas ser ensinadas deveriam ser ensinadas todas por um mesmo professor, ocorrendo da primeira à oitava séries do antigo primeiro grau. Em 1973, surgiram os cursos de licenciatura em Educação Artística de curta duração (dois anos), para a preparação de professores para o ensino polivalente. Terminado esse curso, era possível que o docente continuasse seus estudos em direção às licenciaturas plenas, com habilitação específica no campo das artes plásticas, do desenho, das artes cênicas ou mesmo da música. Ao mesmo tempo, “Educação Artística” foi a nomenclatura que passou a designar o ensino polivalente de artes plásticas, Metodologia do Ensino da Arte 58 música e teatro. O Ministério de Educação, no mesmo ano (1971), organizou em convênio com a Escolinha de Arte do Brasil, um curso para preparar o pessoal das Secretarias de Educação a fim de orientar a implantação da nova disciplina. Deste curso fez parte um representante de cada Secretaria Estadual de Educação, o qual ficou encarregado de elaborar o guia curricular de Educação Artística do seu Estado. Contudo, poucos Estados desenvolveram um trabalho de preparação de professores para aplicar e estender as normas gerais e as atividades sugeridas nos guias curriculares. Por outro lado, a maioria dos guias apresentava um defeito fundamental: a separação entre objetivos e métodos que dificultava o fluxo de entendimento introjetado na ação. As Secretarias de Estado (educação e/ou cultura) que desenvolveram um trabalho mais efetivo de reorientação e atendimento de professores de educação artística foram as do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Não é, portanto, por acaso que tenham sido possíveis, na década de 1970, experiências como a da Escola de Artes Visuais e doCentro Educacional de Niterói, no Rio de Janeiro, e em Minas Gerais a do CEAT (Centro de Arte da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte) e a Escola Guignard. Em 1977, o MEC, diante do estado de indigência do ensino da arte, criou o Programa de Desenvolvimento Integrado de Arte Educação - PRODIARTE. Dirigido por Lúcia Valen seu objetivo principal era a integração da cultura da comunidade com a escola, promovendo o encontro do artesão com o aluno e estabelecendo convênios com órgãos estaduais e universidades. Nos inícios de 1979, dezessete unidades da Federação tinham iniciado a execução de projetos ligados ao PRODIARTE. Os programas de maior consistência foram os levados a efeito em 1978 nos Estados da Paraíba (convênio com a Universidade Federal da Paraíba e Secretaria de Educação), Rio Grande do Sul (convênio com DAC-SEC), Rio de Janeiro (convênio com Escolinha de Arte do Brasil e SEC- RJ) e Pernambuco (convênio com a Secretaria de Educação). Metodologia do Ensino da Arte 59 Tais propostas tinham sido explicitadas no Primeiro Encontro de Especialistas de Arte e Educação em Brasília pelo MEC e UnB em 1973, organizado por Terezinha Rosa Cruz. Outros encontros de arte/educação se sucederam, girando sempre em torno dos mesmos assuntos já debatidos naquele ano de 1973, com a vantagem de alargar o número de debatedores. A construção da diversidade sociocultural na sociedade. (BARBOSA; COITUNHO, 2011, p. 28-29). A nomenclatura “Educação Artística” perdurou nas escolas desde a institucionalização da disciplina até o final do século passado, quando - por intermédio do pensamento pós-moderno e das novas técnicas exploradas – assumiu o nome de “Arte” ou “Artes”. Contudo, ainda assim, resquícios da “Educação Artística” permanecem no cotidiano escolar, necessitando não apenas de uma nova roupagem, mas de serem repensados, contextualizados e olhados sob diferentes perspectivas. É necessário que se retome as práticas descontextualizadas, assim como o estudo dos cânones artísticos e a decoração de técnicas de forma isolada, para trabalhar-se numa perspectiva intercultural, interdisciplinar e contextualizada. Na atualidade, muitas escolas estão, aos poucos, aderindo a espaços (laboratórios) específicos para o ensino de arte, onde a liberdade criativa pode ser direcionada e trabalhada como uma produção individual e coletiva, num espaço apropriado. Sabemos, no entanto, que nem todas as escolas possuem esse espaço, mas que, independente disso, é importante que se incentive no trabalho com diferentes linguagens artísticas e também de forma contextualizada, para que, futuramente, se consiga despertar o gosto pela arte e a criatividade dos sujeitos, não com o intuito de prepará-los para o trabalho especificamente, mas para o exercício da cidadania. Metodologia do Ensino da Arte 60 1980 e depois: As tendências pós- modernistas No ano de 1980, um evento, denominado Semana de Arte e Ensino (1980), ajudou a fortificar politicamente os arte/educadores, “[...] e já em 1982/1983 foi criada na Pós-Graduação em Artes a linha de pesquisa em arte/educação na Universidade de São Paulo constando de doutorado, mestrado e especialização, com a orientação de Ana Mae Barbosa.”. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 30). Aos poucos, cursos de especialização e linhas de pesquisa mais específicas, nos cursos de pós-graduação destinados ao ensino de arte, foram surgindo. Em 1990, surgiu a Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenada por Analice Dutra Pillar. De acordo com Barbosa e Coutinho (2011), Nos últimos anos, outras linhas de pesquisa em ensino de arte foram criadas em cursos de pós-graduação em artes. Entretanto, para atender aos egressos das quase cem licenciaturas em artes o número de vagas nas pós-graduações ainda é insuficiente, criando-se um funil na formação dos arte/ educadores, o que é um contra senso, pois o desenvolvimento do ensino da arte no Brasil muito deve à pesquisa gerada nas pós-graduações. Outro fator que interferiu positivamente na qualidade do pensamento sobre o ensino de arte foi a ação política desencadeada por vários congressos e festivais, dentre eles os festivais de Ouro Preto; o Festival de Inverno de Campos de Jordão de 1983, onde primeiro se trabalhou na arte/educação com leitura ou análise de TV; o Congresso sobre história do Ensino da Arte, em que primeiro se introduziu oficinas de arte e novas tecnologias na arte/educação (1984); o Simpósio sobre Ensino da Arte e sua História (MAC/USP, Metodologia do Ensino da Arte 61 1989), assim como a atuação de associações regionais e estaduais reunidas na Federação de Arte Educadores do Brasil, a FAEB. Para exemplificar a intensidade da produção em arte/educação no Brasil, oitenta pesquisas foram produzidas para mestrados e doutorados entre 1981 e 1993 e nos últimos anos, este número foi quintuplicado (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 30-31). As pesquisas na área de ensino de arte têm apresentado os temais mais variados “[...] e vão desde a preocupação com o desenho da criança até experiências com as novas tecnologias. Muitas destas pesquisas investigam problemas inter-relacionados com a Proposta Triangular” (BARBOSA; CUNHA, 2011, p. 31), proposta essa sistematizada a partir das condições estéticas e culturais da pós-modernidade. Um elemento que caracteriza a pós-modernidade em arte/ educação é a entrada da imagem, sua decodificação e possíveis interpretações em sala de aula, junto da expressividade. Querendo ou não, essa mudança caracteriza um grande avanço no ensino de arte, especialmente por contribuir para o desenvolvimento intelectual abstrato e não apenas técnico, como estava ocorrendo com outras concepções de ensino de arte. No Brasil a ideia de antropofagia cultural nos fez analisar vários sistemas e ressistematizar o nosso que é baseado não em disciplinas, mas em ações: fazer – ler - contextualizar. Deste modo, a Proposta Triangular e o DBAE partem de pressupostos conceituais e metodológicos diversos, são no máximo paralelos, pois se constituíram no que se entende por pós-modernismo na arte/ educação. O “critical studies” é uma manifestação pós-moderna inglesa no ensino da arte, como o DBAE é a manifestação americana e a Proposta Triangular a manifestação pós-moderna brasileira, respondendo às nossas necessidades, especialmente a de ler o mundo Metodologia do Ensino da Arte 62 criticamente. Há correspondências entre elas, sim. Mas, estas correspondências são reflexo dos conceitos pós-modernos de arte e de educação. A Proposta Triangular começou a ser sistematizada em 1983 no Festival de Inverno de Campos de Jordão, em São Paulo e foi intensamente pesquisada entre 1987 e 1993 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e na Secretaria Municipal de Educação sob comando de Paulo Freire e Mário Cortela. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 31). No ano de 1997, o Governo Federal cedeu a pressões externas, e estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o ensino de Arte e das demais disciplinas. Nesse documento, a Proposta Triangular foi esquecida, sendo deixada de lado, sendo também desconsiderado todo o trabalho curricular desenvolvido por Paulo Freire nos anos de 1989 e 1990, quando era Secretário Municipal de Educação em São Paulo, contando com uma grande equipe de consultores e avaliação constante. Outra característica de nossos PCNs é o fato de serem descontextualizados e de desistoricizarem nossa experiência educacional para buscar apresentar novidades, já que foram dirigidos por um educador espanhol, não por brasileiros. Uma crítica que se faz a esses documentos é o fato de apresentarem “receitas” para salvar a educação nacional, o que, na prática, não é possível. Destacam Barbosa e Coutinho (2011) que: A nomenclaturados componentes da aprendizagem triangular designados como fazer arte (ou produção), leitura da obra de arte e contextualização foi trocada para produção, apreciação e reflexão (da primeira a quarta séries) ou produção, apreciação e contextualização (na quinta a oitava séries). Infelizmente os PCNs ainda não estão surtindo efeito e a prova é que o próprio Ministério de Educação editou uma série designada Metodologia do Ensino da Arte 63 Parâmetros em Ação, que é uma espécie de cartilha para o uso dos PCNs, determinando a imagem a ser “apreciada” e até o número de minutos para observação da imagem, além do diálogo a ser seguido. A educação bancária de que Paulo Freire falava ronda a arte/educação hoje no Brasil. Mas, apesar de equivocadas políticas educacionais, temos experiências de alta qualidade tanto na escola pública como na escola privada e principalmente nas organizações não-governamentais que se ocupam dos excluídos, graças a iniciativas pessoais de diretores e de professores e mesmo de artistas.(BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 31-32). De modo geral, nosso objetivo não é criticar os PCNs, afirmando que os mesmos não se constituam uma documentação importante em nosso cenário educacional, mas refletir sobre o fato de que, da forma como foram construídos, esses documentos desconsideraram toda a realidade nacional. Exemplo disso é a pluralidade artística e cultural das regiões de nosso país, que muitas vezes internamente já apresentam uma riqueza artística que ficou de fora de documentos tão importantes. Os PCNs, juntamente com os atuais Referenciais Curriculares Nacionais, são documentos orientadores para uma prática mais igualitária nas escolas, porém que esbarram em diferentes fatores, como desigualdades regionais, sociais, culturais, econômicas e sociais, dentre outras. Como educadores, é importante estarmos atentos a esse cenário, não com o intuito de abolirmos tais documentos, mas de tensionarmos as proposições neles contidas, a fim de que possamos, futuramente, ter a riqueza cultural e artística representada das mais possíveis e adequadas formas em nossas políticas públicas. Metodologia do Ensino da Arte 64 Algumas considerações sobre o ensino de arte pós-1964 De modo geral, desde a sua constituição o ensino de Arte passou por muitas mudanças enfáticas e, foi a partir da década de 1960, que se constituiu como obrigatório em todas as escolas, apesar das inúmeras críticas que possamos fazer a respeito de como foi sua implementação e do aumento das desigualdades sociais, mesmo com sua efetivação. Cabe lembrar que a Arte, assim como as ditas disciplinas humanísticas, tem uma função essencial para o desenvolvimento humano: promover o conhecimento sobre si, sobre o outro e sobre a realidade que nos cerca. Desse modo, não há uma forma ideal de se ensinar arte, nem uma única metodologia que seja o remédio para todos os males da educação; há diversas possibilidades. Desse modo, não há uma forma ideal de se ensinar arte, nem uma única metodologia que seja o remédio para todos os males da educação; há artes produzidas por meio de tecnologias. Um ensino de Arte abrangente busca ampliar o universo artístico do aluno, e isso pode ser feito desde a Educação Infantil até o ensino superior. Focando na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, é importante que se invista na ampliação do universo de conhecimento artístico e também de criação artística da criança e do aluno, uma vez que, nas camadas mais populares, o acesso a diferentes formas de arte nem sempre é comum. Outro ponto a se destacar é que é necessário que o professor, em seus planejamentos, considere a realidade das crianças e dos Metodologia do Ensino da Arte 65 adolescentes, de modo que suas individualidades, suas culturas e seus modos de ver o mundo sejam respeitados. O docente é o detentor de uma forma de conhecimento; o a criança, de outra. Essas duas formas de conhecimento podem produzir algo novo, inusitado e potente para as atividades de ensino e de aprendizagem para ambos os sujeitos. Por isso, o ensino de Arte na Educação Infantil pressupõe a experiência de trabalhar com os materiais mais diversos possíveis, assim como o estímulo à criatividade a o conhecimento sobre a consistência de diferentes materiais. Já no Ensino Fundamental, a motricidade, a criatividade e a técnica podem ser estimuladas de outras formas, considerando, inicialmente, um movimento de sondagem sobre os conhecimentos dos alunos para, posteriormente, investir no diálogo com diferentes formas artísticas. Como já abordamos em outras unidades de ensino, a disciplina e o ensino de arte fazem parte do cotidiano escolar como algo a somar, a ser concebido de forma multidisciplinar e a possibilitar a aprendizagem de temas variados. Além disso, conforme já abordamos em outras unidades, se a cultura é o que nos torna humanos, a arte, por sua vez, nos faz “deixarmos nossa marca” no mundo, tornarmo-nos imortais como espécie e diferentes dos animais. A arte, em linhas gerais, é uma forma de manifestar os anseios e sentimentos humanos, um modo de universalizar determinadas relações e pontos de vista. Por isso, em dado momento histórico, ela foi tratada como possibilidade de libertação de sentimentos. Também, a arte é uma técnica; é a busca da perfeição, da transposição e da transgressão. Isso justifica que no século XX ela tenha Metodologia do Ensino da Arte 66 influenciado fortemente a criação de ateliês, com o intuito do ensino de técnicas, mas também da espontaneidade criativa. Ao mesmo tempo, a arte é um produto da diversidade porque é plural, porque está em todo lugar e porque assume as mais determinadas formas e se relaciona diretamente com a cultura. É a cultura, por sua vez, que cria condições de possibilidade para que se produza a arte de diferentes maneiras, para que se ouse, para que se busque novas técnicas e mestres. A cultura e a diversidade, em parceria com a arte, nos ensinam que é necessário aguçar a percepção em relação às diferenças e às relações de poder que nos cercam. Deste modo, ao ensinar arte em sala de aula, é importante que o docente proponha atividades que conversem com a cultura da comunidade, considerando que essa cultura é formada pela diversidade, sendo constituída como plural. Valorizar as potencialidades de cada cultura e de cada forma artística, considerando sua multiplicidade, pode ser um bom passo para resgatar a criatividade e o interesse pela arte. Da mesma forma, quando falamos sobre ensino de arte, estamos defendendo a pluralidade de técnicas, de representações e também de estilos, bem como a possibilidade ampla de criação, numa perspectiva criativa. Somente assim será possível trabalhar a disciplina de modo democrático, inclusivo e preocupado com o presente e o futuro, garantindo que a arte exerça seu principal papel: humanizar. Metodologia do Ensino da Arte 67 RESUMINDO: Neste capítulo, você aprendeu que: • A história é sempre contada a partir de um ponto de vista, neste caso, a história do ensino da arte no Brasil foi se constituindo a partir de apropriações de modelos estrangeiros, deglutidos e antropofagicamente transformados por nossas necessidades. • Desde a instauração da Academia Imperial de Belas Artes, primeira instituição pública e formal de formação para as Artes Plásticas no Brasil, até a formalização da Arte como área de conhecimento nos Parâmetros Curriculares Nacionais, passando pelas diferentes iniciativas do final do século XIX e por todo o século XX, os modelos de ensino da arte foram se tecendo e se sobrepondo, correspondendo as demandas políticas e culturais de cada época. • Cada um desses modelos, para bem ou para o mal, se sustentam em concepções de arte e de educação, explícitas ou implícitas. Cabe a nós, educadores de hoje, analisarmose avaliarmos a pertinência dessas concepções, procurando entender os contextos que as constituem. Metodologia do Ensino da Arte 68 REFERÊNCIAS BARBOSA, A. M. Teoria e prática da educação artística. São Paulo: Cultrix, 1975. ______. Arte educação no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1978. ______. Arte-Educação: conflitos/acertos. São Paulo: Max Limonad, 1984. BARBOSA, Ana Mae; COUTINHO, Rejane Galvão. Ensino da Arte no Brasil: Aspectos históricos e metodológicos. São Paulo: Unesp, 2011. COLI, Jorge. O que é arte. 15 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995. CUNHA, Susana Rangel Vieira da. Como vai a arte na Educação Infantil? In: Revista de Educação Presente. CEAP, Salvador: v 56, p. 4-12. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: . Acesso em: 25 mar., 2020. CUMMING, Robert. Para entender a arte. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Ática, 1996, p. 8. EDUCAÇÃO FUTURO. Resumo PCN de Arte. 2018. Disponível em:com a história, com os mitos, com as crenças e com os nossos pensamentos. Reconstroem significados em torno do já visto e do supostamente sabido. De muitas formas, os artistas, através de suas produções anteciparam saberes das ciências (CUNHA, 2007), como o Futurismo (1909), por exemplo, que visualizou a lei da relatividade de Albert Einstein. Metodologia do Ensino da Arte 14 Ou expressaram as dores e os massacres humanos como Guernica (1937) de Picasso e a instalação 111 (1992) de Nuno Ramos; ou ainda visualizaram os principais fundamentos de pensadores como fez Gustav Klimt (1862 – 1918) ao “traduzir” a sensualidade das mulheres da teoria de Sigmund Freud (1856-1939). Para Cunha (2007, s/p), Artistas e suas obras formulam conhecimentos sobre o mundo, conhecimentos e saberes que só podem ser ditos e propagados através das linguagens visuais, plásticas e não verbais. Se todos nós estruturamos, nos anos iniciais de nossas vidas, o pensamento simbólico-poético, similar aos dos artistas, por que a maioria das pessoas desiste de transformar a obviedade cotidiana? Talvez, sejam muitos fatores: sociais, culturais e econômicos que estancam as possibilidades de ressignificar o que está no mundo e singularizar ações, pensamentos e modos de ser. Num contexto cultural mais amplo, podemos pensar o quanto as produções culturais imagéticas, que circulam nos mais variados meios, atuam sobre nossos modos de ser e de pensar. São imagens que produzem pontos de vista sobre o mundo e ao mesmo tempo anestesiam nossos sentidos em relação ao “diferente”, ao estranho, ao inusitado. Afirma ainda a autora que as imagens que são disponibilizadas no nosso dia a dia, por intermédio dos meios de comunicação e de entretenimento a que temos acesso, tornam-se, se não as principais, importantes referências para que as crianças construam seus imaginários e vão constituindo imagens, principalmente pelo fato de que as artes visuais e plásticas não fazem parte do cotidiano da formação e da vida da maioria das crianças brasileiras. (CUNHA, 2007). Reforça a autora que: Cada vez mais, a conduta infantil é marcada pelos clichês, pelas citações e imagens emprestadas. O imaginário da contemporaneidade é entregue a domicílio. Cada criança é submetida a um profundo condicionamento cultural, e é Metodologia do Ensino da Arte 15 sobre estes conteúdos que a criança vai operar. A ilustração, o desenho animado, a história em quadrinhos, a propaganda, a embalagem são representações que se tornam quase realidades. O elefante do desenho animado, por exemplo, é mais verdadeiro e presente do que o verdadeiro elefante que mora no zoológico, onde a criança raramente vai. Vivemos hoje sob o signo da ficção e da paródia. Em um contexto mais específico da educação formal, seja da Educação Infantil ao ensino universitário, na maioria das vezes, o ensino da Arte e também outras áreas do conhecimento, ao invés de promover ações pedagógicas que levem crianças e adultos ao universo da criação e estruturação da linguagem visual, acaba tolhendo os modos singulares dos alunos entenderem e expressarem suas leituras e relações com o mundo. Desta forma, em diferentes contextos socioculturais e nas salas de aula, nossa sensibilidade e nossas formas expressivas estão se escoando, fugindo de nossas vidas, sem que tenhamos como exercitar nossos processos sensíveis e criativos. (CUNHA, 2007, s/p). Isso nos leva a pensar e questionar a própria forma como lidamos com a arte e com a cultura desde a infância. É importante que os docentes tenham em mente que a formação estética e cultural também permeia a formação integral dos sujeitos. No entanto, em termos práticos, muitas vezes, a escola é o único espaço que proporciona – ainda quando pode- essa formação. As mídias em geral, às quais boa parte das famílias brasileiras possuem acesso, pouco considera a dimensão da formação artística das crianças, inclusive, nos programas ditos educativos. Isso deixa uma lacuna de formação que, infelizmente, muitas vezes, a escola não consegue suprir, já que a arte se torna meramente um conteúdo escolar, não fazendo parte diretamente da vida dos sujeitos no dia a dia. Isso pode ser prejudicial para a formação humana, pois, Metodologia do Ensino da Arte 16 um sujeito que não tem contato com a arte desde pequeno, tampouco buscará uma formação estética na vida adulta. Concepções de Arte e práticas pedagógicas As concepções de arte dos professores direcionam seus modos de ensino, sendo que estes modos de compreender e ensinar arte estão disseminados em várias outras instâncias, como nos museus, nas publicações especializadas (CUNHA, 2012). Afirma a autora que: De diversos modos, as pedagogias da arte vão absorvendo e validando as ideias sobre arte que se fazem e refazem historicamente. Os discursos sobre arte como símbolo de distinção social, e os artistas, como seres de exceção, por exemplo, são produzidos sistematicamente por nossa cultura e aceitos nos contextos escolares - da educação infantil ao ensino universitário - sem serem contestados ou mesmo com um esforço analítico-crítico que provoque uma mudança significativa em termos de desmistificar a noção de genialidade artística. Esta visão é vista, por exemplo, nas salas de aula, quando as educadoras elogiam determinadas produções infantis como se fossem frutos de um “dom”. Deste modo, a concepção de criação espontânea, do gênio que cria do nada, vai sendo reforçada pela educadora, que na maioria das vezes não se dá conta de quanto ela incorpora os discursos social e culturalmente produzidos. (CUNHA, 2007, s/p). Deste modo, nas palavras da autora (CUNHA, 2007), é perceptível para quem analisa e pesquisa o cotidiano da sala de aula e do ensino de arte que noções funcionalistas e essencialistas sobre a arte ainda falam fortemente nas práticas de sala de aula, expressas, por exemplo, em atividades de colorir desenhos prontos, na exploração de formas geométricas, personagens de histórias infantis, letras e números, em Metodologia do Ensino da Arte 17 atividades para copiar linhas de constituições diferentes (como zigue- zague, ondulada e pontilhada), atividades com papel amassado, colagens com papel e com sucata, e manipulação de diferentes massas, como argila e plastilina. Ainda, além dessas atividades desenvolvidas no cotidiano escolar, está presente, segundo Cunha (2007), a intencionalidade do ensino de técnicas artísticas diversas para as crianças, como por exemplo, o desenho sobre a lixa, ou sopro de tinta em um canudo sobre o papel. A questão não é afirmar que isso está errado, porém, se essas técnicas ocorrem de forma descontextualizada e desvinculadas de um contexto mais amplo sobre a noção da linguagem visual, parecem fragmentadas e desarticuladas entre si. A aula de arte não pode servir apenas para ensinar a fazer um desenho bonito, não pode ser apenas uma reprodução de modelos. Deve ir além disso! Deve-se evitar que, para as crianças – principalmente – e também para muitos docentes, o padrão de excelência do bem feito sejam as reproduções mais próximas ao real ou ao modelo, sendo que a interpretação ou qualidade expressiva não são valorizadas e muitas vezes são “corrigidas”, pois distorciam o modelo. A concepção prática tem por objetivos desenvolver habilidades motoras e destrezas para a escrita, bem como a utilização do desenho para fixar a grafia de letras e números, cuja meta é o desenvolvimento de habilidades e destrezas, assim como os critérios do gosto vinculado às Artes. Na maioria das vezes, as práticas pedagógicas no campo das artes visuais desenvolvidas no contexto da Educação Infantil ainda estão fundadas em concepções pedagógicas de reprodução e domínio de técnicas de criação. Aliada à formação precária nesta área do conhecimento, muitos docentes não tiveram emsuas vidas a oportunidade de experienciar situações expressivas, de exploração de materiais, contato com diferentes repertórios imagéticos ou de leituras de imagens, no que se refere às Artes. Ou seja, a carência de Metodologia do Ensino da Arte 18 experiências nas áreas expressivas acarreta equívocos nas práticas pedagógicas junto às crianças.(CUNHA, 2007, s/p). Ainda, segundo a autora, as equipes diretivas e também os gestores responsáveis pela educação não têm investido adequadamente em cursos de formação para os professores, relacionados especialmente ao ensino de arte. Isso faz com que as atividades desenvolvidas em sala de aula sejam vinculadas a noções amplas, desconectadas de um olhar profundo e sensível sobre a arte e sobre a formação em arte, “ [...]como a noção de que arte é dar liberdade, de que arte depende de habilidades, de que arte é um dom, entre outras concepções que formam o senso comum sobre o que é arte e como ela deve ser ensinada.” (CUNHA, 2007, s/p). Reforçamos que nossa reflexão aqui não é demonizar as aulas de arte que acontecem na escola, mas propor que sejam reflexivas, conectadas com um contexto ao mesmo tempo mais amplo e também mais crítico sobre a arte e sobre a realidade, estabelecendo conexões com o cotidiano dos alunos, mas também promovendo um ensino de arte que possa contribuir de forma significativa para o desenvolvimento emocional e intelectual dos sujeitos. Ainda, cabe reforçar que a arte é, sim, o lugar do ensino da técnica artística, mas deve ir além, possibilitando que a criança não somente reproduza técnicas, mas que reflita sobre ela, que crie e que transgrida tais técnicas. Isso é fundamental para que ela possa se desenvolver, crescer, refletir e interagir consigo e com o mundo ao seu redor. Necessidade de mudanças na abordagem Como foi abordado anteriormente, a cultura atuai, com sua pluralidade de artefatos imagéticos contribui para a formulação dos modos de imaginar e de ver o mundo. A quantidade de imagens a que estamos expostos, além de ensinar comportamentos, modos de conduta, Metodologia do Ensino da Arte 19 hábitos e valores, contribui para produzir uma apatia nos olhares. Segundo Cunha (2007), As imagens estão aí, fora e dentro dos ambientes escolares, suas configurações e ensinamentos são cada vez mais persuasivos e poderosos. Os modos de ver o mundo, a nós mesmos e aos outros estão sendo moldados pelas mídias e pelas produções artísticas. Então, a questão das imagens e da visualidade deveriam fazer parte das discussões educacionais. Porém, as práticas pedagógicas em arte na Educação Infantil ainda carecem de uma visão mais contemporânea de educação. Embora os pressupostos teóricos e conceituais no campo da educação tenham se modificado nas últimas décadas, ainda estão alicerçados na visão de que as crianças são detentoras inatas de criatividade e inventividade, ou que as atividades em artes deveriam servir para desenvolver habilidades visando o controle visual e manual para preparar para a escrita. As formas de abordagens atuais no ensino arte para a Educação Infantil não estão permitindo outros olhares sobre uma área do conhecimento que trabalha basicamente com a transformação, a incerteza de modelos, a investigação da matéria bem como das linguagens não verbais e a abertura ao inusitado. (CUNHA, 2007, s/p). Para a autora, a realidade em que se encontra o ensino de arte na Educação Infantil e nos demais níveis de ensino, não favorece para o desenvolvimento da linguagem artística e expressiva, “[...] compreendida aqui como uma forma de ler e representar suas relações singulares com o mundo.” (CUNHA, 2007, s/p). Deste modo, é necessário repensar o ensino de arte, especialmente na Educação Infantil, de modo a conectá-lo com as práticas e tendências pedagógicas da atualidade. Uma observação que Cunha (2007) faz, que cremos não permear somente o ensino de arte, mas também as outras áreas de conhecimento, Metodologia do Ensino da Arte 20 é que há um gigantesco distanciamento entre o que está sendo realizado em sala de aula e os diversificados pensamentos pedagógicos sobre o ensino de arte. Embora as imagens façam parte do cotidiano das crianças, dentro e fora do espaço escolar, e que sua influência sobre a formação das crianças seja cada vez mais potente, isso não significa que a formação estética e artística esteja transparecendo nesse processo, pois Os modos de ver o mundo, a nós mesmos e os outros estão sendo modulados pelas várias mídias. Então, a questão da constituição da linguagem visual e da visualidade infantil deveria ser um dos objetivos do ensino de arte na Educação Infantil, pois uma das funções da Arte na educação é provocar tensionamentos e desencadear uma outra educação do olhar, uma educação que rompa com o estabelecido, com as normas e convenções sobre o próprio mundo. Uma educação em arte deve possibilitar que as pessoas continuem buscando e dando sentido poético à vida. (CUNHA, 2007, s/p). Acreditamos que a infância seja o local não da reprodução, mas da criação e da aprendizagem. Somente isso já nos leva a refletirmos sobre o ensino de arte como algo que deve procurar estar alinhado às tendências pedagógicas da atualidade e que também se torne desafiador para a criança e também para o jovem, no sentido de propor técnicas e elementos que façam sentido dentro de seu contexto de vida e de mundo. Tanto as técnicas mais simples como as mais elaboradas e a livre criação devem estar, de uma maneira ou de outra, sintonizadas com o intuito de permitir que, por meio das práticas, o sujeito vá desenvolvendo o gosto pela arte, a competência estética e que também tenha a possibilidade de criar, caso queira. Metodologia do Ensino da Arte 21 O trabalho com as crianças De modo geral, a Educação Infantil não tem o compromisso do ensino de conteúdos como acontece, por exemplo, nos ensinos fundamental e médio. Isso não significa, entretanto, que o contexto da Educação Infantil – no que se refere ao ensino de Arte – se resuma a fazer nada, ou ainda, a apenas brincar. Pior ainda, como abordado anteriormente, seria tratar o ensino de Arte na Educação Infantil ou em qualquer outro nível de ensino como disciplina da reprodução. Primeiramente, o espaço da Educação Infantil não apresenta uma visão educacional diferenciada, se comparado aos outros segmentos de ensino, por se tratar de um momento da experiência, do primeiro contato que os indivíduos têm com o mundo externo ao espaço de convívio familiar. É nesse contexto que a criança se dá por conta da existência de outros, iguais e diferentes dela, que partilham de elementos comuns: a infância. Ao mesmo tempo, é na Educação Infantil que a criança aprende a experienciar valores como a convivência, a partilha, a socialização. Neste sentido, o ensino de Arte deve propiciar essas experiências de conviver, de partilhar, de socializar. Quando uma criança, por exemplo, já em idade de fala, expõe sua opinião sobre um desenho, um filme ou uma atividade artística desenvolvida, ela está se expressando e aprendendo, ao mesmo tempo, a falar e a ouvir. As atividades de criação individuais e conjuntas também auxiliam nesse processo, permitindo que as crianças desenvolvam, ora senso de autonomia, ora senso de coletividade. Outro elemento importante a ser destacado é a crença – especialmente comum nos níveis de ensino posteriores – de que a criança Metodologia do Ensino da Arte 22 na Educação Infantil não faz nada, ou só brinca, já que não há “conteúdos” visíveis como nos demais segmentos. Essa visão é completamente equivocada e, em se tratando do ensino de Arte, mais ainda, pois, o fato de não haver a menção de conteúdos e de conceitos técnicos, não significa que a criança não aprenda a ir se desenvolvendo, conhecendo seu próprio corpo e limites, e o mundoao seu redor, por meio da criação artística. Quando, por exemplo, uma criança pinta com as mãos, ela está aprendendo sobre texturas, superfícies e limites, o que permitirá que, conforma for se desenvolvendo, consiga apreender outros conceitos mais complexos, também, importantes. Cabe lembrar, inclusive, que, na Educação Infantil, as palavras de ordem são: criar e explorar. O conhecimento se dá pelo desenvolvimento da criatividade, e a o ensino de Arte potencializa esse conhecimento, uma vez que a criança aprende sobre objetos, texturas, cores, traços, limites etc. Não há um certo ou um errado no que se refere à criação na Educação Infantil, mas atividades orientadas, nas quais os professores assumem o papel de orientadores e mediadores. O que conta nesse processo é que a criança desenvolva a expressão, que consiga agir sobre si e sobre o outro, respeitando e reconhecendo as diferenças e convivendo. Ainda, cabe destacar que há um equívoco quando se afirmar que na Educação Infantil apenas se brinca. De fato, o ato de brincar pode potencializar muitas experiências e aprendizagem, mas não se brinca só por brincar. Assim como na Educação Infantil não se tem o propósito de apenas ensinar a criança a comer, falar e fazer suas necessidades Metodologia do Ensino da Arte 23 fisiológicas, também, o tato de brincar não é algo dado como um elemento de “vale tudo”. Toda a atividade de criação, na Educação Infantil, envolve o lúdico, e consequentemente, o brincar. Mas o que a diferencia da brincadeira que ocorre em casa ou com os amiguinhos em uma festa de aniversário é a existência de uma intencionalidade pedagógica, intencionalidade essa que faz toda a diferença, uma vez que a criança “brinca” ao produzir arte, mas depois, reflete sobre ela, interage, atua na (res)significação dos elementos de que dispõe em seu universo. Por isso, é importante que o planejamento de Arte na Educação Infantil preveja o desenvolvimento da criatividade, o (re)aproveitamento dos materiais mais diversos possíveis e a participação coletiva na criação. Só assim, a atividade de criação poderá potencializar o desenvolvimento da criança não apenas como um sujeito produtor de Arte, mas como um sujeito humano. Por fim, também é importante desmistificar a noção de que o ensino de Arte na Educação Infantil envolve reprodução de técnicas. As técnicas, de fato, são importantes, mas a criação artística prevê não uma rigidez em relação a isso, mas a possibilidade de reinventar técnicas, de acrescentar ou de tirar elementos, como na realização de uma receita. Nada é fixo e imutável no ensino de Arte; a liberdade criativa impera e se faz necessária, a fim de que a criação de cada criança possa manifestar não apenas uma técnica, mas a expressão de sua personalidade e individualidade, contribuindo para que seu desenvolvimento seja saudável e pedagogicamente amparado. Ensinar Arte para crianças talvez seja uma das atividades mais interessantes da Educação Infantil, se levada a sério e, principalmente, se o docente estiver aberto a repensar suas práticas, a criar um ambiente Metodologia do Ensino da Arte 24 favorável para o ensino e para a aprendizagem, e a permitir que o ensino de Arte contribua, acima de tudo, para formar seres mais humanizados. RESUMINDO: Neste capítulo, você aprendeu que: • O ensino de Arte na Educação Infantil ainda carece de um repensar, especialmente da parte dos professores, para não se tornar um espaço de reprodução de técnicas artísticas apenas; • Ensinar Arte na Educação Infantil pressupõe a criação, a exploração do mundo e a ampliação de conhecimentos, por meio da expressão, do respeito às diferenças e da convivência; • Por não apresentar disciplinas e conteúdos rígidos como os níveis posteriores de educação, a Educação Infantil, por vezes, é confundida como um espaço onde não se ensina nada, ou mesmo, onde apenas se brinca. No entanto, esse espaço é permeado de intencionalidades pedagógicas necessárias para o desenvolvimento integral e humano dos sujeitos, fornecendo subsídios importantíssimos para seu desenvolvimento posterior. Metodologia do Ensino da Arte 25 História do Ensino da arte no Brasil INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de entender alguns pressupostos importantes sobre a história do ensino da Arte no Brasil, entre a Independência (1822) e a segunda metade do século XIX. Isso fará toda a diferença em sua atuação profissional, uma vez que a arte faz parte do dia a dia da escola. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Figura 2: Brasil e Arte Fonte: Pixabay Breve introdução O objetivo deste capítulo é buscarmos entender como o ensino de arte foi sendo constituindo historicamente no Brasil. Barbosa e Coutinho (2011) sugerem que essa história está relacionada a um contexto mais amplo, de dependência cultural. Ainda segundo as autoras, Ao longo deste capítulo, procuraremos compreender como a história do ensino da arte no Brasil está vinculada a uma dependência cultural. Ao mesmo tempo, Metodologia do Ensino da Arte 26 segundo as autoras, a primeira manifestação cultural e artística brasileira foi “importada”, mas aqui ganhou outras formas: o Barroco, que ocorreu durante os séculos XVI e XVII. Vindo da Península Ibérica, o Barroco, na criação popular, foi dotado de qualidades diferentes do contexto europeu, que podem ser traduzidas como elementos nacionais: Os artistas e artesãos brasileiros, à maneira antropofágica, desenvolveram um barroco com distinções formais em relação ao Barroco europeu. O ensino da arte barroca tinha lugar nas oficinas através da prática sob a orientação e supervisão de um mestre. Estas oficinas eram a única forma de educação artística popular na época. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p.4). A primeira forma de institucionalizar o ensino de arte foi por meio da Missão Francesa (1816), que veio com a proposta de implementação do modelo artístico neoclássico, sendo talvez uma das poucas vezes que o Brasil esteve alinhado temporalmente a modelos artísticos internacionais, pois quase sempre, os modelos estrangeiros que aqui chegavam o faziam tardiamente, quando já estavam caindo na obsolência e no desuso, ou mesmo quando já estavam bem consolidados em seus locais de origem. Porém, com todas as considerações importantes que se pode fazer à Missão Francesa, há que se considerar que: A Missão Francesa foi na realidade uma invasão cultural de forte cunho elitista. Em contraposição, no fim do século XIX, já no período republicano, os liberais introduziram o ensino de desenho na educação numa perspectiva antielitista como preparação de mão-de-obra para o trabalho industriário, com inspiração no modelo norte-americano. A apropriação deste modelo e seus desdobramentos deixou resquícios em livros didáticos e no ideário educacional até o século XX. Entretanto, já no início do século passado, o Modernismo transpôs para o Metodologia do Ensino da Arte 27 campo educacional a noção de arte como forma de expressão. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 4-5). Na segunda metade do século XX, segundo as mesmas autoras, entra em voga a concepção da arte como forma de expressão, tendo propiciado experiências bastante proveitosas com relação ao ensino de arte para crianças e também para adolescentes, numa organização curricular sob a forma de atividades extracurriculares. Nos anos 1970, sob a égide do regime militar no Brasil, o ensino de arte, nomeado como Educação Artística, tornou-se obrigatório em todas as escolas de ensino formal, porém trazendo uma perspectiva bastante calcada no tecnicismo e ideologicamente sujeita à preparação para o trabalho e à polivalência. Já no fim do século XX, segundo Barbosa e Coutinho (2011) , o movimento de arte/educação começa, aos poucos, a ganhar forma, sintonizando-se com asteorias e com o pensamento pós-moderno, mostrando o amadurecimento desse campo do saber, ampliando-se inclusive – o número de pesquisas acadêmicas que tinha como objeto as práticas artísticas. A partir daí, podemos dizer que chegamos à contemporaneidade, que se caracteriza por múltiplas deglutições e apropriações de modelos, por trânsitos, entrosamentos entre culturas e pela pluralidade de formas. [...] porém, precisamos compreender que esta nossa história não é apenas uma sucessão de fatos e acontecimentos isolados que se apresentam em formato linear e que pertencem ao passado, mas uma constelação de proposições, de ideias e de experiências sobre a arte e seu ensino que se sobrepõem e co-habitam um mesmo espaço e cultura, e que continuam ativas hoje no ideário do sistema educacional. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 5). Metodologia do Ensino da Arte 28 Com isso, afirmamos que os próximos capítulos trarão um panorama sobre o ensino de arte não com o objetivo apenas de informar aos futuros docentes o que aconteceu, mas, acima de tudo, apontar possibilidades de repensar o passado, o presente e o futuro do ensino de arte, observando as lacunas deixadas por cada época e pensando numa perspectiva que esteja – de fato – mais alinhada com as tendências atuais. A vinda da Missão Francesa Segundo Barbosa e Coutinho (2011, p. 6), A primeira institucionalização sistemática do ensino de arte foi a Missão Francesa, e um dos poucos modelos com atualidade no país de origem no momento de sua importação para o Brasil. Quase sempre os modelos estrangeiros foram tomados de empréstimo numa forma já enfraquecida e desgastada, quando já caíam em desuso em seus países originários. A Missão francesa foi, na realidade, uma forma de invasão cultural. Seus integrantes, que aqui chegaram em 1816, eram membros do Instituto de França, que havia sido aberto em 1795 para substituir as velhas academias de arte abolidas pela Revolução Francesa. Sob a supervisão e a influência de Jacques Louis David (1748-1825), considerado o mestre do Neoclássico, o Instituto de França logo alcançou reputação superior à da École des Beaux-Arts e influenciou as escolas de arte de toda a Europa por ser a instituição cuja metodologia era considerada a mais moderna de seu tempo. Portanto, o Neoclássico, através do qual se expressavam os artistas da Missão Francesa quando aqui vieram organizar a nossa primeira escola de arte, era o estilo de vanguarda naquele tempo na Europa. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 6). Metodologia do Ensino da Arte 29 Com todas as críticas e tensionamentos que se possa fazer à Missão Francesa, pode-se dizer que ela foi a primeira tentativa de estabelecer o ensino da arte no Brasil. Antes disso, as tendências eram importadas ou por estrangeiros que aqui passavam, ou por brasileiros que tinham contato com elas em seus locais de origem. A Missão Francesa também pode significar um avanço em termos de constitucionalização artística no Brasil pelo fato de que, pela primeira vez em nossa história, estivemos temporalmente alinhados com uma tendência artística estrangeira. Entretanto – claro – as questões de submissão e de dependência cultural ainda estavam presentes em nossa história, fato que torna a Missão Francesa ao mesmo tempo importante e criticada teoricamente. Todavia, os planos apresentados por Joachim Le Breton (1760- 1819), chefe da Missão Francesa, para a Escola de Ciências Artes e Ofícios, criada por decreto de D. João VI em 1816, eram de perfil bem mais popular do que a orientação seguida no Instituto de França onde ele ensinava. Seu projeto repetia os mais atuais modelos de ensino de atividades artísticas ligadas a ofícios mecânicos empregados na França por Bachelier em sua École Royale Gratuite de Dessin, que existe até hoje com o nome de École Nationale des Arts Décoratifs. Bachelier, que era um grande mestre de decoração em porcelana da fábrica de Sèvres, combinou e concilou em sua escola (1767) métodos e objetivos de ensino de arte comuns às corporações e às academias. Ele contornou a tradicional luta entre artistas e artesões, conseguindo apoio das academias para o seu trabalho pedagógico, exigindo, por exemplo, que os mestres de desenho de sua escola tivessem obtido prêmios acadêmicos. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 6). No Brasil, a Missão Francesa chegou com um projeto de implementação um pouco diferente daquele presente na Europa: Metodologia do Ensino da Arte 30 destinou-se a abrir suas portas, também, para as camadas mais populares, embora não possa – com isso – ser nomeada como democrática. Aqui, o modelo neoclássico implementado pela missão estava mais vinculado às tendências emergentes no mundo – como a Revolução Industrial, que também ocorria – do que propriamente com apenas o fruir estético e artístico. Isso marcou boa parte do período histórico da arte brasileira para as camadas mais populares: a visão do desenvolvimento artístico como forma de desenvolver motricidades finas, com o pretexto de especializar- se para o trabalho fabril. A experiência de Bachelier, muito comentada e aplaudida na Europa, levou outros países, como a Alemanha e a Áustria, a introduzirem o desenho criativo no treinamento das escolas para trabalhadores manuais, e as escolas de belas artes a considerarem importante o ensino da geometria. Era esta a perfeita união entre as belas artes e as indústrias que Le Breton pretendia repetir no Brasil. Por seus planos, nossa escola de arte seria uma entidade que não perderia de vista o equilíbrio entre educação popular e educação burguesa. No entanto, quando aquela escola começou a funcionar em 1826 sob o nome de Escola Imperial das Belas-Artes, não só seu nome havia sido trocado, mas, principalmente sua perspectiva de atuação educacional, tornando-se o lugar de convergência de uma elite cultural que se formava no país para movimentar a corte, dificultando, desse modo, o acesso das camadas populares à produção artística. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 6-7). A dicotomia entre as formas de ensino, no Brasil, é algo com o qual nós, professores da contemporaneidade, também precisamos lidar. Metodologia do Ensino da Arte 31 Diariamente, constatamos a diferenciação entre a educação tida como popular e a educação destinada às elites. Esse é um elemento bastante complicado, especialmente, do ponto de vista da democratização do ensino, pois, como democratizar, se o acesso e as oportunidades são desiguais? Como permitir que todos tenham condições de acesso, se as realidades econômicas do Brasil interferem diretamente no contexto educacional? São perguntas que, praticamente duzentos anos após a vinda da Missão Francesa paras o país, ainda não têm resposta. Além da Missão Francesa, outra importante instituição foi criada: a Escola Imperial de Belas Artes: A Escola Imperial das Belas-Artes inaugurou a dicotomia na qual até hoje se debate a educação brasileira, isto é, o dilema entre educação de elite e educação popular. Na área específica de educação artística, a Escola incorporou o dilema já instaurado na Europa entre arte como criação e como técnica. Em 1855, Manuel José de Araújo Porto Alegre (1806-1879), inspirado no ideário romântico, pretendeu revigorar a educação elitista que vinha tendo lugar na então denominada Academia Imperial das Belas-Artes através do contato com o povo. Sua reforma buscava conjugar no mesmo estabelecimento escolar duas classes de alunos, o artesão e o artista, frequentando juntos as mesmas disciplinas básicas. A formação artística era alargada com outras disciplinas de caráter teórico, especializando-se o artífice nas aplicações do desenho e na prática mecânica. No entanto, a permanência dos velhos métodos e de uma linguagem sofisticada fez com que a busca popular por esses cursos fosse quase nula,assim como foi quase nula também a matrícula nos cursos noturnos para a formação de artesão criados em 1860 na Academia. Nestes últimos, a simplificação do currículo era quase pejorativa. Em ambos os casos, a inclusão da formação do artífice naquela instituição era uma forma de concessão da elite à classe trabalhadora e por isso destinada ao fracasso. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 7). Metodologia do Ensino da Arte 32 A desigualdade brasileira começa pela educação. E isso ocorre pela forma de compreender, até mesmo, as formas que cada camada social deve pensar, privilegiando-se o exercício intelectual de algumas e a atividade técnica de outras. A Escola Imperial de Belas Artes foi uma instituição que, embora buscasse atender a todas as camadas populares, ainda assim se diferenciava nas suas entrelinhas, ou melhor, no currículo e nos objetivos curriculares destinados a cada segmento social. Por isso, se transpormos esses fatos históricos para o contexto atual, é tão importante que a legislação educacional vigente, assim como as orientações para a educação, sejam constantemente revisitadas e respeitadas, pois elas se constituem numa tentativa – ainda que com grandes dificuldades de implementação – de tornar o acesso à educação e ao conhecimento mais igualitário para todos. Além das duas formas de institucionalização do ensino de arte anteriormente abordada, outra instituição que se destacou foi o Liceu de Artes e Ofícios: Já o Liceu de Artes e Ofícios de Bethencourt da Silva (1831- 1911), criado em 1856 no Rio de Janeiro, porém, mereceu desde o seu início um alto grau de confiança das classes menos favorecidas, como atestou o grande número de matrículas já no primeiro ano de funcionamento. Coube aos liceus de artes e ofícios, criados na maioria dos Estados, com pequenas variações do modelo do Liceu de Bethencourt da Silva, a tarefa de formar não só o artífice mas os artistas que provinham das classes operárias. Até o ano de 1870, muito pouco se contestou o modelo de ensino da arte da Academia Imperial das Belas Artes, que em parte foi utilizado pela escola secundária. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 7). Metodologia do Ensino da Arte 33 Outro elemento a ser analisado em relação ao ensino de arte se refere a questões de gênero. A arte, em geral, era vista como um elemento feminino, pelo menos, na maioria dos países da América. Isso pode evidenciar que o ensino de arte talvez fosse compreendido como algo secundário, dedicado a “passar o tempo”, e não, necessariamente, com alguma função direta na formação dos sujeitos. Tivemos, lado a lado ao longo da história do ensino da arte no Brasil, concepções de arte submetidas a outras culturas e também a diferenciação do ensino não apenas por nível social, conforme abordado anteriormente, mas também por questões de gênero, como se pode observar no relato de Barbosa e Coutinho (2007): Nas escolas secundárias particulares para meninos e meninas, as práticas mais comuns eram a cópia de retratos de pessoas importantes, de santos e a cópia de estampas, em geral europeias, representando paisagens desconhecidas aos nossos olhos acostumados ao meio ambiente tropical. Estas paisagens levavam os alunos a valorar esteticamente a natureza da Europa e depreciar a nossa pela rudeza contrastante. É importante notar que no século XIX poucos países do chamado Novo Mundo instituíram o ensino da arte para meninos nas escolas de elite. O mais comum é que a arte tivesse lugar apenas nas escolas de meninas de alta classe. No Brasil, isto aconteceu porque a elite brasileira esteve no período colonial mais ligada aos modelos aristocráticos do que aos modelos burgueses como nos outros países da América. Conforme o modelo aristocrático, arte era indispensável na formação dos príncipes. D. João VI deu o exemplo quando contratou Arnaud Pallière (1823-1887) para ensinar desenho aos príncipes. Seguindo este padrão, a arte foi incluída no currículo do Colégio do Padre Felisberto Antônio Figueiredo de Moura, uma escola para rapazes localizada no Rio de Janeiro que determinou o modelo de educação de meninos Metodologia do Ensino da Arte 34 de alta classe na época, em 1811. O conteúdo e a função da arte nestas escolas foram sugeridos por Raul Pompeia no seu livro O Ateneu. A apresentação da exposição anual era o objetivo das aulas de arte e era numa espécie de símbolo de distinção para a escola. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 8). Em relação às concepções de arte e de ensino vigentes, nem todos partilhavam de uma mesma opinião sobre a divisão da arte. Exemplo foram os liberais, preocupados com a educação das camadas populares paras o trabalho. Essa, talvez, seja a grande dicotomia existente no ensino até a atualidade: ensinar para a vida ou para o trabalho? Isso reflete a liquidez da contemporaneidade, assim como a insegurança em relação ao próprio futuro e à educação. As disputas pelos modos de ensinar ricos e pobres, na escola, também trazem à tona um elemento importante a se discutir: a educação é o campo das políticas. Isso, em parte, justifica o porquê de tantas mudanças no cenário educacional, sendo que essas ocorrem com a mesma regularidade que a alteração de partidos políticos nos governos. E, pelo “andar da carruagem histórica”, perceberemos que essa disputa é antiga: Contrários ao uso da arte na escola como uma espécie de adorno cultural, alguns liberais a partir dos anos 1870, e principalmente na década de 1880, defenderam uma educação popular para o trabalho, que deveria ser o principal objetivo da arte na escola, iniciando uma campanha para tornar o desenho obrigatório nos ensinos primário e secundário. Devemos principalmente aos liberais o início do ensino do desenho industrial na escola, isto é, do que hoje conhecemos como design. Eles se propuseram a dar um conhecimento técnico de desenho a todos os indivíduos de maneira que, libertados da ignorância, fossem capazes de produzir suas Metodologia do Ensino da Arte 35 invenções. Educar o ‘instituto da execução’ para evitar que ele se tornasse um impedimento à objetivação da invenção era seu princípio mais importante, isto é, primeiro aprender como trabalhar, depois aplicar as habilidades técnicas solucionando os problemas e dando forma concreta às criações individuais. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 11). A educação e a educação em arte, desde os tempos do Império, assumiu diferentes formas e concepções, sempre vinculada aos ideais de uma classe social específica. Em termos gerais, a educação brasileira é marcada pelas disputas de classe, assim como pela ação de pensar o que é melhor de ser ensinado aos mais pobres. O ensino de Arte numa perspectiva liberal No final do século XIX, mais precisamente na década de 1870, o surto de desenvolvimento econômico ocorrido no Brasil permitiu que a organização da sociedade tivesse mais liberdade, expandindo – inclusive – ideias de contestação. Nesse período, foi criado o Partido Republicano, originando uma série de críticas e de protestos contra o Império, inclusive contra a política educacional do período. Os discursos abolicionistas, cada vez mais intensificados, buscavam igualdade na educação do povo e dos escravos, apontando também a preocupação com o que aconteceria com os ex-escravos após o fim da escravidão. Segundo Barbosa e Coutinho (2011), Os principais temas discutidos naquele momento eram a alfabetização e a preparação para o trabalho. A necessidade de um ensino do desenho apropriado era tida como um dos principais aspectos da preparação para o trabalho industrial. Metodologia do Ensino da Arte 36 Buscando um modelo que estabelecesse a união entre criação e técnica, isto é, entre arte e sua aplicação a indústria, intelectuais e políticos (especialmente os liberais) brasileiros se comprometeram profundamentecom os modelos de Walter Smith para o ensino da arte nos Estados Unidos que passaram a divulgar também no Brasil. Os principais divulgadores de Walter Smith no Brasil foram o jornal O Novo Mundo; Rui Barbosa, em seus Pareceres sobre a reforma do ensino primário e secundário; e Abílio César Pereira Borges, por meio de seu livro Geometria popular. A popularização do ensino da arte, entendido como ensino do desenho, isto é, ensino preparatório para o design, era o objetivo da orientação que o inglês Walter Smith apresentava por meio dos seus escritos e suas atividades como organizador do ensino da arte em Massachusetts (EUA). Influenciado pelos estudos de Redgrave e Dyce, de quem foi aluno na South Kensington School of Industrial Drawing and Crafts em Londres, da qual só resta hoje o Victoria and Albert Museum, Smith se demitiu do cargo de professor da Leeds School of Art quando a instituição (1868) começou a alterar os objetivos para os quais havia sido criada, ou seja, vincular a arte à educação popular, para enveredar pelo caminho do ensino da arte como verniz cultural obedecendo aos caprichosos desejos da classe média. O Novo Mundo apresentou, em várias notícias e artigos, o aspecto de democratização da arte que caracterizava a ação de Walter Smith em Massachusetts, para onde ele fora contratado com carta branca para organizar o ensino da arte como desenho industrial. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 11-12). É importante que não sejamos ingênuos em relação às críticas feitas à educação imperial, como se de um lado estivessem os vilões e de outra, os mocinhos. Em ambos os lados, havia interesses explícitos e implícitos, geralmente vinculados a questões econômicas e a manutenção de classes sociais. O Jornal Novo Mundo tinha grande circulação no país e extrema importância cultural naquele período histórico (BARBOSA; COUTINHO, Metodologia do Ensino da Arte 37 2011). E, nesse sentido a educação era a instituição americana que arrancava maiores elogios. Na época, dava-se bastante ênfase à educação feminina, bem como à arte/educação. A arte, permeada pela moralidade protestante, era ligada ao trabalho, sendo valorizada a educação para o exercício do trabalho e para as ditas artes industriais. Segundo as autoras, André Rebouças escreveu para O Novo Mundo longos artigos defendendo a necessidade de se tornar compulsório, como Smith havia conseguido em Massachusetts, o ensino do desenho geométrico com aplicações à indústria. Um número especial de O Novo Mundo foi publicado acerca da Centennial Exhibition de 1876 na Filadélfia, onde se destacavam os trabalhos apresentados pela Escola Normal de Artes, criada e dirigida por Smith, assim como os trabalhos de 24 cidades de Massachusetts, todas elas orientadas em seu ensino de arte por Smith. O Novo Mundo destacava a importância que Smith atribuía aos exercícios geométricos progressivos no ensino do desenho, à sua ideia de que todo mundo tinha capacidade para desenhar e de sua crença no ensino do desenho como veículo de popularização da arte por meio da adaptação a fins industriais, colaborando para a qualidade e prosperidade da produção industrial.(BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 12-13). As ideias de Smith tiveram grande repercussão no país, tanto que Rui Barbosa subscreveu essas ideias nos Pareceres sobre a reforma da educação primária e secundária. Também foi no pensamento de Walter Smith que Rui Barbosa conseguiu traçar algumas recomendações em relação à metodologia do ensino do desenho. Outro educador, dessa vez inspirado nas ideias de Rui Barbosa, foi Abíblio Cesar Pereira Borges, que publicou uma espécie de sumário comentado do Teacher’s manual for free hand drawing de Walter Smith em 1873 defendendo uma Geometria popular. Seu estudo tinha como norte o desenho a ser iniciado por linhas verticais, horizontais, oblíquas, paralelas, Metodologia do Ensino da Arte 38 ou seja, por aquilo Smith, segundo Borges, denominava como alfabeto do desenho. Junto a esse estudo, seguia-se a aprendizagem por meio de ângulos, triângulos e retângulos de forma gradativa. Os exercícios de memória presentes em sua obra também eram idênticos aos propostos por Smith. Na descrição de Barbosa e Coutinho (2011), Depois de estudar quadrados e polígonos, ele introduzia ornamentos e análises de folhas em superfície plana. Os exemplos botânicos eram organizados em forma de diagramas exatamente como o livro de Smith. Ele ainda propunha o traçado de gregas, rosáceas, repetições verticais, repetições horizontais, formas entrelaçadas. Alguns objetos simples (vasos de água, bacias etc.), desde que tivessem as formas geométricas como Smith prescrevia, eram propostos para desenhar. Por fim, eram apresentados ornamentos e elementos arquitetônicos em diagrama (portais, arcos, colunas) de diferentes períodos, principalmente barrocos e neoclássicos. Os ornamentos como motivos para o trabalho em ferro eram também utilizados por Smith. O livro de Abílio César Pereira Borges teve, no mínimo, 41 edições e foi usado nas instituições pelo menos até 1959. O objetivo do livro, explicitado por ele próprio, era propagar o ensino do desenho geométrico e educar a nação para o trabalho industrial. Já os positivistas, atrelados ao evolucionismo, defendiam que a capacidade imaginativa deveria ser desenvolvida na escola por meio do estudo e cópia dos ornatos, pois estes representavam a força imaginativa do homem em sua evolução a partir das idades primitivas. No ensino do desenho, portanto, era dominante o traçado de observação de modelos de ornatos em gesso. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 14). Segundo Barbosa e Coutinho (2011), a recomendação de Borges, em seu livro, era que se começasse pelos trabalhos com baixos relevos formados por linhas retas, pois esta forma de composição, de todas, era Metodologia do Ensino da Arte 39 a mais básica e primitiva, encontrada nos povos primitivos da Oceania e da África para, progressivamente, passar aos modelos mais complexos, encontrados na decoração dos povos que o autor chamava de mais evoluídos, como os índios peruanos e mexicanos e, posteriormente, utilizar o alto-relevo para representar elementos da fauna e da flora, consideramos mais complexos, e presentes na cultura grega. Tendo os liberais ganhado a corrente positivista nas lutas pela Reforma Republicana na Escola Nacional de Belas-Artes (1890), foi possível que eles impusessem sua diretriz ao ensino do desenho, por meio de uma reforma educacional ocorrida em 1901, descrita no Código Epitácio Pessoa. Conforme Barbosa e Coutinho (2011), Esta Lei transcrevia sucintamente as propostas de Rui Barbosa para o ensino do desenho, usando muitas vezes as mesmas palavras dos Pareceres. É, portanto, o modelo de Walter Smith, cujos conteúdos já haviam entrado no circuito da educação brasileira através de Abílio César Pereira Borges, que a partir de então teríamos imperando nos ginásios brasileiros. São conteúdos que estariam quase imexíveis até 1958, atravessando várias reformas educacionais e ainda há resquícios deles nas aulas de arte. Os exercícios foram preservados através dos livros didáticos de educação artística. Em quase todos os livros de educação artística para o ensino fundamental, editados (décadas de 1970, 1980 e 1990), ainda vemos gregas, rosáceas, frisas decorativas etc., um remanescente das propostas de Walter Smith consagradas pelo Código Epitácio Pessoa. É curioso imaginar que a aprendizagem destes elementos decorativos tinha sentido no início do século, já que se pretendia através do desenho preparar para o trabalho, e a arquitetura era generosa na utilização de elementos sobrepostos para cuja criação e execução as rosáceas seriam exercício preparatório. Por outro lado, as paredes internas das casas ostentavam complicadas faixas decorativas em suas pinturas.Ainda mais, estes motivos eram também fartamente usados nas artes gráficas. Atualmente, pouco se justifica sua Metodologia do Ensino da Arte 40 permanência como exercício escolar. Alguns voltariam a ter sentido no contexto da pós-modernidade se os autores dos livros didáticos tivessem consciência da recuperação atual de alguns modelos visuais do início do século XX. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 14-15). Como se pode perceber, muitos foram os desafios e alterações na educação em arte, especialmente no que se refere à forma como essa era tratada. Cabe ainda que saibamos que foi por meio das reformas liberais que o ensino se democratizou, entretanto, essa democratização contribuiu para que o distanciamento entre as educações de elite e popular se ampliassem ainda mais. RESUMINDO: Neste capítulo, você aprendeu que: • O ensino de Arte, no Brasil, iniciou-se ainda no período do Império, com a vinda da Missão Francesa, trazendo para o país os ideais neoclássicos de Arte e a primeira escola artística no país; • Nossa história da Arte perpassa muitos episódios de reprodução de ideais artísticos defasados de outras culturas. Talvez, somente no período Barroco (séculos XVI e XVII), nossas manifestações artísticas começaram a subverter essa ordem; • Na metade final do século XIX, o ensino de Arte no Brasil seguiu a influência americana, fortemente ligada à divisão social e à preparação para o trabalho, tendo perdurado essa noção até meados da década de 1950. Metodologia do Ensino da Arte 41 História do Ensino da arte no Brasil a partir do Modernismo INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de entender alguns pressupostos importantes sobre a história do ensino da Arte no Brasil, entre a Independência (1822) e o século XX. Isso fará toda a diferença em sua atuação profissional, uma vez que a arte faz parte do dia a dia da escola. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! O Modernismo O final do século XIX e início do século XX foi marcado por intensas transformações econômicas e sociais, dentro e fora do país: do outro lado do oceano, vimos a Belle Epòque francesa, a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial; aqui, vimos as tensões originadas entre o povo e o governo republicano, o surgimento de São Paulo como centro financeiro do país e um agitamento cultural, provocado por um grupo de artistas que, em 1922, buscaram promover uma arte que rompia com os padrões oitocentistas, sobre os quais Barbosa e Coutinho (2011) descrevem da seguinte forma: A Semana de Arte Moderna de 22, que introduziu o Brasil estrondosamente no Modernismo, não repercutiu imediatamente no ensino da arte. Quando a partir de 1927, o ensino da arte volta a ser objeto de discussões isto se deveu principalmente à modernização educacional. Com a crise político-social contestatória da oligarquia e com a tentativa de instauração de um regime mais democrático, uma reflexão sobre o papel social da educação aflora novamente. Desta vez, é a educação primária e a escola que se tornam centrais Metodologia do Ensino da Arte 42 nas reformas educacionais através do movimento da Escola Nova. Defendia-se, então, o mesmo princípio liberal de arte integrada no currículo, ou melhor, de arte na escola para todos. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 15). Com toda essa agitação conturbadas, de um lado, havia os liberais, com a defesa da educação em arte como o ensino das técnicas de desenho, a fim de preparar os sujeitos para o trabalho; de outro, o movimento da Escola Nova, apregoando a concepção da arte como forma de mobilização da capacidade de criação, juntando imaginação e inteligência. (BARBOSA; COUTINHO, 2011). Além disso, nessa época estava em voga o pensamento teórico de John Dewey, defendido por importantes figuras da educação brasileira, como Anísio Teixeira, que incorporou o pensamento do teórico às Reformas Educacionais do Distrito Federal realizadas por Fernando Azevedo e também pelas Reformas de Atílio Vivacqua no Espírito Santo, assim como de de Carneiro Leão em Pernambuco e de Francisco Campos em Minas Gerais. Sobre a transposição das ideias de Dewey para a educação brasileira, Barbosa e Coutinho (2011, p. 15-16) afirmam o seguinte: As diferentes interpretações acerca das ideias de John Dewey conduziram a caminhos distintos o ensino da arte no Brasil: à observação naturalista; à arte como expressão de aula; como introjeção da apreciação dos elementos do desenho (deturpada na prática do desenho pedagógico). Algumas experiências pedagógicas como as de Mário de Andrade, criando ateliês para crianças nos Parques Infantis e na Biblioteca Infantil, quando exerceu a função equivalente à de Secretário de Cultura de São Paulo em 1936, ou as classes de arte de Anita Malfatti na Escola Americana, hoje Mackenzie ou ainda a criação de Escolas de Arte para crianças bem dotadas em arte pelo Jornal A Tarde em São Paulo foram mudanças Metodologia do Ensino da Arte 43 bastante significativas, cuja disseminação foi interrompida pelo golpe de Estado que instituiu a ditadura do Estado Novo. Com a Ditadura, vários educadores foram perseguidos e uns poucos ex-reformadores se aliaram ao regime para defender outros interesses, não os da criança. A diferenciação nas interpretações e nos movimentos que trouxeram as ideias de John Dewey para o Brasil não devem ser consideradas problemáticas, mas importantes para revolucionar, naquele tempo, e educação do Brasil. Atualmente, muitos sistemas educacionais ainda se inspiram nas ideias do educador, e muitas de suas contribuições teóricas para o campo da educação ainda permanecem. O pensamento de John Dewey Segundo Babosa e Coutinho (2011), o pensamento de John Dewey em relação à educação, especialmente em sua primeira fase, tratam a arte sob a perspectiva do naturalismo, e foi esse pensamento que mais influenciou a educação no Brasil. Seu divulgador principal foi Nereo Sampaio, professor de desenho da Escola Normal do Rio de Janeiro. Segundo as autoras, Nereo Sampaio defendeu o chamado método espontâneo- reflexivo para o ensino da arte, apontando como pressuposto teórico o pensamento de Dewey, recomendando a estimulação dos impulsos naturais da criança para o desenho através dos processos mentais de reconhecimento e reflexão. Nereo Sampaio declarava que seu método consistia em deixar a criança se expressar livremente, desenhando de memória e depois fazer com que ela analisasse visualmente o objeto desenhado para, em seguida, executar um segundo desenho integrando, neste último, elementos observados do objeto Metodologia do Ensino da Arte 44 real. O autor tentou resumir as ideias de Dewey para embasar seu método. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 16-17). Figura 3: Pensamento Fonte: Pixabay Nesse sentido, segundo as mesmas autoras, pode-se dizer que John Dewey foi o pensador que melhor compreendeu e defendeu o valor educacional do ensino de linguagem gráfica para crianças. Para Dewey, as crianças se sentiam muito à vontade para se expressarem por meio do desenho e da cor, atividades que não deveria ser limitada, para que a criança pudesse criar. Nereo Sampaio buscou validar essa metodologia com crianças de escolas primárias no Rio de Janeiro, produzindo resultados convincentes em relação a essa forma metodológica. Por isso, a Reforma Educacional proposta por Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (1929), foi principalmente influenciada pelo trabalho e pensamento de Nereo Sampaio, defendendo a prática espontânea do desenho, seguido pela Metodologia do Ensino da Arte 45 apreciação naturalista, o que tem sido muito utilizado nas escolas até hoje. Conforme Barbosa e Coutinho (2011), A Reforma Fernando de Azevedo teve larga influência em todo o Brasil através do trabalho divulgador da ABE (Associação Brasileira de Educação)e do livro escrito pelo próprio Fernando de Azevedo, intitulado “A cultura no Brasil”. Outra iniciativa que muito influenciou a arte-educação brasileira foi a Reforma Francisco Campos (1927-1929), realizada no estado de Minas Gerais. Esta reforma divulgou outra linha de interpretação do pensamento de Dewey sobre ensino da arte, marcando especialmente a ideia de apreciação como processo de integração da experiência. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 17). Além disso, Dewey também contribuiu para a educação em arte com a formulação da concepção de arte como uma forma de experiência consumatória. Esse conceito foi relacionado à noção de experiência final, tanto no Brasil, como nas Progressive Schools dos Estados Unidos, escolas supostamente com inspiração deweyana. Esse pensamento, no Brasil, teve grande repercussão a partir da Reforma Carneiro Leão, ocorrida em Pernambuco, sendo, aos poucos, difundida no restante do Brasil. Afirmam Barbosa e Coutinho (2011) que A ideia mais importante era dar, por exemplo, uma aula sobre peixes explorando o assunto em vários aspectos e terminando pelo convite aos alunos para desenharem peixes e fazerem trabalhos manuais com escamas, ou ainda dar uma aula sobre horticultura e jardinagem e levar as crianças a desenharem um jardim ou uma horta. A prática de colocar arte (desenho, colagem, modelagem, dramatização etc.) no final de uma experiência, ligando-se a ela através do conteúdo, tem sido usada ainda hoje na educação infantil e ensino fundamental no Brasil, e está baseada na concepção de que a arte pode Metodologia do Ensino da Arte 46 ajudar a compreensão dos conceitos porque há elementos afetivos na cognição que são por ela mobilizados.(BARBOSA; COUTINHO, 2011, p.17). Sem dúvidas, John Dewey foi um dos mais influentes pensadores da educação do século XX, e seu pensamento muito contribuiu para o ensino de arte no Brasil. Ainda que utilizado de diferentes formas, seu pensamento educacional defendia uma educação mais autônoma, relacionada à integralidade formativa dos sujeitos. A Arte como atividade extracurricular para crianças e adolescentes A parte final da década de XX, na educação em arte, é marcada pelas incluências de Dewey e, ao mesmo tempo, pelo surgimento das atividades extracurriculares voltadas para o ensino de arte, conforme abordam Barbosa e Coutinho (2011): No final da década de 1920 e início da década de 1930 encontramos as primeiras tentativas de escolas especializadas em arte para crianças e adolescentes, inaugurando o fenômeno da arte como atividade extracurricular. Em São Paulo, foi criada a Escola Brasileira de Arte conhecida através de Theodoro Braga, seu mais proeminente professor. Mas a ideia partiu da professora da rede pública, Sebastiana Teixeira de Carvalho, sendo patrocinada por Isabel Von Ihering, presidente de uma sociedade beneficiente, intitulada “A Tarde da Criança.” (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 20). Essa escola funcionava de forma anexa ao grupo Escolar João Kopke e lá, crianças e adolescentes de escolas públicas da região estudavam gratuitamente música, desenho e também pintura.Todas as atividades eram vinculadas ao contexto brasileiro, outro elemento importante da Metodologia do Ensino da Arte 47 Escola Brasileira de Arte. “Theodoro Braga desenvolvia o que se pode chamar de método art nouveau. Braga trouxe para o campo do ensino de artes de sua época preocupações com um ideário estético fundamentado na cultura brasileira.” (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 20). O trabalho de Theófilo Braga foi bastante apreciado por artistas conceituados, como Tarcila do Amaral e Anita Malffati, sendo que esta última também desenvolvia projetos para crianças com o objetivo de ensinar arte, em seu ateliê localizado na Escola Mackenzie. Entre 1936 e 1938, quando o Departamento de Cultura de São Paulo estava sob a direção de Mário de Andrade, foi criado, na Biblioteca Municipal Infantil, o curso de arte para crianças. A contribuição que Mário de Andrade prestou para o ensino de arte foi importantíssima, especialmente para que se começasse a encarar a produção pictórica infantil com critérios advindos da filosofia da arte. De acordo com Barbosa e Coutinho (2011), O estudo comparado do espontaneísmo e da normatividade do desenho infantil e da arte primitiva era o ponto de partida de seu curso de filosofia e de história da arte, na Universidade do Distrito Federal. Por outro lado, o escritor dirigiu uma pesquisa preliminar sobre a influência dos livros e do cinema na expressão gráfica livre de crianças de 4 a 16 anos de classe operária e de classe média, alunos dos Parques Infantis e da Biblioteca Infantil de São Paulo. Seus artigos de jornal muito contribuíram para a valorização da atividade artística da criança como linguagem complementar, como arte desinteressada e como exemplo de espontaneísmo expressionista a ser cultivado pelo artista. As atividades das escolas ao ar livre do México parecem ter exercido grande influência em sua interpretação do desenho infantil e sua atuação cultural. Em sua biblioteca, hoje no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, podemos encontrar revistas mexicanas da época, como a “30:30” e até o catálogo da exposição das Escuelas al Aire Libre do México que viajou pela Metodologia do Ensino da Arte 48 Europa. O Estado Novo interrompeu o desenvolvimento da Escola Nova, perseguiu educadores e criou o primeiro entrave ao desenvolvimento da arte/educação. Solidificou alguns procedimentos antilibertários já ensaiados na educação brasileira anteriormente. Foi o início da pedagogização da arte no espaço escolar. Não veremos, a partir daí, por alguns anos, uma reflexão acerca da arte/educação vinculada à especificidade da arte, como fizera Mário de Andrade, e que só o pós-modernismo voltaria a fazer, mas uma utilização de cunho mais instrumental da arte na escola para treinar o olho e a visão ou seu uso para liberação emocional e para o desenvolvimento da originalidade vanguardista e da criatividade, esta considerada como beleza ou novidade. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 21-22). O ensino de arte próximo da forma que hoje conhecemos somente começou a ser institucionalizado a partir da década de 1960 em todas as escolas. É importante que tenhamos esse panorama histórico de seu desenvolvimento, para que possamos compreender que o ensino de arte, assim como das demais disciplinas escolares, não surgiu ao acaso, mas foi o resultado de intensas discussões, lutas e disputas ideológicas em torno dos processos de formação da infância e da adolescência. Arte como forma de liberação emocional A valorização do ensino da arte para criança, no período do Estado Novo (especialmente, a partir de 1947), deu-se por meio da valorização da arte como forma de libertação emocional. A partir do ano de 1947, apareceram ateliês para crianças em várias cidades do Brasil, em geral orientados por artistas que tinham como objetivo liberar a expressão da criança, fazendo Metodologia do Ensino da Arte 49 com que ela se manifestasse livremente sem interferência do adulto. Trata-se de uma espécie de neoexpressionismo que dominou o continente europeu e os EUA do pós-guerra, revelando-se com muita pujança no Brasil que acabava de sair do sufoco ditatorial. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 22). Os ateliês por Guido Viaro (Curitiba), por Lula Cardoso Ayres (Recife) e por Suzana Rodrigues (Museu de Arte de São Paulo) foram muito bem sucedidos e significativos durante essa proposta. A escola de Lula Cardoso Ayres, criada em 1947, teve curta existência e sua proposta básica era dar lápis, papel e tinta à criança e deixa-la se expressar livremente. Seguindo o mesmo princípio, Augusto Rodrigues, criou em 1948 a Escolinha de Arte do Brasil, que começou a funcionar no prédio de uma biblioteca infantil